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TEORIA DAS ESFERAS

Esta teoria serve para limitar as restrições à regra geral no artigo


79º/1 CC, relativas ao direito à imagem. Através dela, cria-se uma
hierarquia de tutela da imagem conforme a situação em que o sujeito se
encontre. A interpretação do artigo 79º/2 CC deve, portanto, ser o mais
restrita possível e seguir um critério de adequação ao caso em concreto. Já
o artigo 79º/3 CC deve ser interpretado do modo amplo.

 Esfera pública: área de conduta propositadamente acessível ao


público (políticos, celebridades, etc.) – a tutela da imagem é menor,
mas tem de ser respeitado o artigo 79º/3 CC;

 Esfera individual ou social: relacionamento social normal com


amigos, colegas e conhecidos – a reprodução da imagem, sem
consentimento, só pode circular nesse meio;

 Esfera privada: vida privada comum da pessoa, apenas acessível aos


amigos mais próximos e familiares – a divulgação e reprodução das
imagens nesta esfera são possíveis mas apenas com autorização;

 Esfera íntima: vida sentimental ou familiar mais estrita (cônjuge,


filhos, namorados, etc.), a qual tem tutela absoluta – se houver
autorização para divulgar ou reproduzir as imagens, deixamos de
estar na esfera íntima da pessoa;

 Esfera secreta: o que a pessoa não partilha com mais ninguém – a


tutela também é absoluta.

EXEMPLO 1:

O Primeiro-Ministro, António Costa, é filmado a entrar na Assembleia da República.


Estamos claramente perante a esfera pública: trata-se de uma pessoa que desempenha
um importante cargo político e cuja conduta se insere num evento de interesse público:
não é necessário o consentimento, por aplicação do artigo 79º/2 CC.
Porém, se a imagem captada ou reproduzida causar danos à honra, reputação ou
simples decoro do retratado (exemplo: o Primeiro-Ministro é filmado a tirar macacos do
nariz ao entrar na Assembleia da República), aplica-se o 79º/3 CC.
EXEMPLO 2:
Afonso, Bruno e Carlota, colegas de faculdade, foram à Festa da Cerveja e foram
fotografados por Daniela, que era a fotógrafa de serviço.
Neste caso, estamos inseridos na esfera individual ou social: trata-se de uma situação
onde há um relacionamento normal e casual com amigos e desconhecidos. Não seria
necessário o consentimento de Afonso, nem de Bruno ou de Carlota para a divulgação
da imagem na página web da AAFDL.
Contudo, fora desse meio (exemplo: divulgar essas imagens numa futura campanha
publicitária da Festa da Cerveja) é proibida a divulgação sem consentimento dos
retratados, porque falta o critério da adequação social: o meio onde é divulgada a
fotografia extravasa a área onde Afonso, Bruno e Carlota foram fotografados.

EXEMPLO 3:
Eduardo e Filipe são os melhores amigos de Gabriel e tiram uma selfie com ele durante
o seu jantar de aniversário, ocorrido na casa de Hugo, irmão de Gabriel.
Aqui encontramo-nos perante a esfera privada: o retrato apenas poderia ser divulgado
com autorização dos retratados por se tratar de um evento da vida privada comum
apenas acessível a amigos mais próximos. Não se pode aplicar o artigo 79º/2 CC.

EXEMPLO 4:
Inês é mãe de Joana e é filmada por Luís, pai de Joana, a dar banho à filha.
Trata-se, neste caso, de uma conduta pertencente à esfera íntima: a actuação ocorre
num âmbito familiar mais próximo e íntimo. Esta tem tutela absoluta – as fotografias
não podem ser partilhadas ou divulgadas com terceiros.
Inês e Luís poderiam, por exemplo, gravar esse filme num DVD e o qual seria assistido
apenas pelos dois ou por Joana: há adequação do meio retratado ao meio onde é
divulgada a imagem.

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