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ARTIGO Corbellini VL.

Ensino de enfermagem e as relações instituídas no hospital a partir


ORIGINAL da década de 1950. Rev Gaúcha Enferm, Porto Alegre (RS) 2007 dez;28(4):489-96. 489

ENSINO DE ENFERMAGEM E AS RELAÇÕES INSTITUÍDAS NO


HOSPITAL A PARTIR DA DÉCADA DE 1950a

Valéria Lamb CORBELLINIb

RESUMO

A partir de 1950 no Rio Grande do Sul e no Brasil ocorre uma ampliação do número de hospitais, transforma-
dos em um cenário para o tratamento da doença. Este estudo teve por objetivo analisar como o ensino de Enferma-
gem permeou as relações instituídas no hospital, neste contexto. Trata-se de estudo qualitativo, baseado na Ar-
queologia, Genealogia e na História oral. O estudo envolveu enfermeiras docentes que vivenciaram esse período
da história como graduandas em Enfermagem. Para a coleta de dados utilizou-se a entrevista narrativa. Na análise
documental, foi utilizada a análise de discurso. Os dados indicam, dentre outros aspectos, a manutenção de uma
prática de ensino no hospital, centrado ainda no tratamento de doenças, tornando as ações de Educação para a Saú-
de um espaço secundário.

Descritores: Ensino. Educação em enfermagem. História da enfermagem.

RESUMEN

A partir de 1950 en el estado de Rio Grande do Sul y en Brasil ocurre una ampliación del número de hospi-
tales, transformados en un encenario para el tratamento de la enfermedad. Este estudio tuvo como objetivo ana-
lizar como la enseñanza de enfermería primó en las relaciones instituidas por y en el hospital en este contexto.
Es un estudo cualitativo, basado en la Arqueología, Genealogía y en la Historia oral. El estudio involucró en-
fermeras docentes que vivenciaron ese periodo de la historia como estudantes de enfermería. Para la colecta de
datos se utilizó la entrevista narrativa. En el análisis documental, fue usado el análisis del discurso. Los datos
indican, entre outro aspectos, el mantenimiento práctico de el que está de educación en el hospital todavía
centrado en el tratamiento de enfermedades, acción que se convierte de la educación para la salud un espa-
cio secundario.

Descriptores: Enseñanza. Educación en enfermería. Historia de la enfermería.


Título: Enseñanza de enfermería y las relaciones instituidas en el hospital a partir de la década de 1950.

ABSTRACT

Since 1950, when the number of hospitals started to increase in Rio Grande do Sul and Brazil, the treatment
of illnesses has been the main focus of hospitals. This study aimed at analyzing how Nursing training influenced
the institutionalized relationships in the hospital. This was a qualitative study, based on Archeology, Genealogy,
and oral History, including training nurses that were students at that time. Analysis of discourse was used to study
the documents. Among other aspects, findings indicated that the focus on the treatment of illnesses by the hospital
still places Health Education in a lesser position.

Descriptors: Teaching. Education, nursing. History of nursing.


Title: Nursing teaching and the relationships established at the hospital since the decade of 1950.

a
Artigo adaptado e elaborado a partir de uma das análises de discurso da Tese de Doutorado em Educação defendida na Faculdade de
Educação da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) em 2005 e orientada pela Professora Doutora Marilú
Fontoura de Medeiros.
b
Enfermeira, Mestre e Doutora em Educação. Professora Adjunta e Coordenadora do Curso de Graduação em Enfermagem da PUCRS,
Brasil.

Corbellini VL. Enseñanza de enfermería y las relaciones instituidas Corbellini VL. Nursing teaching and the relationships estab-
en el hospital a partir de la década de 1950 [resumen]. Rev Gaúcha lished at the hospital since the decade of 1950 [abstract]. Rev
Enferm, Porto Alegre (RS) 2007 dez;28(4):489. Gaúcha Enferm, Porto Alegre (RS) 2007 dez;28(4):489.
Corbellini VL. Ensino de enfermagem e as relações instituídas no hospital a partir
490 da década de 1950. Rev Gaúcha Enferm, Porto Alegre (RS) 2007 dez;28(4):489-96.

1 INTRODUÇÃO de Graduação em Enfermagem ao longo dos tem-


pos. Essas mudanças sempre estiveram não so-
No Rio Grande do Sul (RS), na década de mente ancoradas no momento político e social
1950, assim como em todo Brasil, novos regimes em que o País se encontra, mas também vincula-
de verdades foram sendo constituídos pela socie- das a processos de outras épocas que ainda nos
dade, na Área da Saúde, como por exemplo, a am- influenciam, como a inserção do trabalho da en-
pliação do número de hospitais, que deixam de fermeira na área hospitalar, voltando-se para o
ser um local de “depósito” de indigentes e trans- cuidado da doença, a partir da década de 1950, e
formam-se em um cenário privilegiado para o tra- tornando as ações de Educação para a Saúde um
tamento da doença, de todas as camadas sociais, espaço secundário.
gerando uma expectativa de que o melhor aten- Assim, essa pesquisa nasce da necessida-
dimento de saúde ocorreria nesses espaços(1). de de aprofundar temáticas abordadas na Tese
A enfermeira, ao ocupar espaço no hospi- de Doutorado(5), onde foram discutidos regimes
tal, na década de 1950, no RS, também seguiu o de verdades que perpassaram no ensino de Gra-
modelo clínico ao voltar-se somente para a doen- duação em Enfermagem, a partir da década de
ça. Mesmo que os sanitaristas preconizassem, na 1950, no RS e, a partir de uma análise histórica,
época, a importância dessa Instituição também encontrar rupturas, para a constituição de novos
trabalhar a prevenção, não foi o que ocorreu(2). discursos, novos jogos de verdades de como o
A prevenção não era o foco principal das ensino permeou as relações instituídas no hos-
políticas de saúde. Redes começavam a se for- pital, a partir de uma prática fortemente alicer-
mar, indicando um novo caminho para a sua com- çada no fazer, no cuidado da doença, no modelo
plexa organização administrativa. clínico.
O ensino da Enfermagem, nessa década, es-
tava centrado no fazer. Os manuais de técnicas 2 UM CAMINHO A PERCORRER
eram as “bíblias” dos estudantes(3). A habilidade
manual, a capacidade de memorização, a postu- Trata-se de um estudo qualitativo basea-
ra na realização das técnicas, além do capricho, do na Arqueologia, Genealogia e na História Oral.
organização e perfeição, eram aspectos impres- Pelo método arqueológico, as ordens de saber são
cindíveis, avaliados no ensino. encontradas na formação discursiva de uma de-
Se fizermos uma análise desse período até terminada época. Ele não procura a compreen-
a década de 1980, observamos que a técnica pre- são do momento em que ocorreu o fato, e sim, por
valecia no fazer da enfermeira. Entretanto, existia meio dele, são definidas regras e práticas discur-
um saber sujeitado que foi construído ao longo da sivas que atravessam obras individuais, con-
sua trajetória profissional e que partiu de uma templando todo o contexto, embora, às vezes, só
prática, por ter sido uma profissão fortemente se aperceba de uma parte(6). A Genealogia bus-
alicerçada no fazer, considerado no campo da ca a verdade, a intervenção nos saberes locais,
Saúde como um conjunto de “[...] saberes hierar- descontínuos e não-legitimados. Pelo método ge-
quicamente inferiores”, “saberes desqualificados nealógico, pode-se criticar e descrever a trajetó-
pela hierarquia do conhecimento ou da cientifici- ria das transformações discursivas(7). A História
dade requeridos”(4:12). Oral dispõe de um meio de transformar tanto o
A enfermeira, assim como docentes de Cur- seu conteúdo, quanto sua finalidade, pois, “[...] po-
sos de Graduação em Enfermagem que supervi- de ser utilizada para alterar o enfoque da própria
sionavam estágio na área hospitalar, ao mesmo História e revelar novos campos de investiga-
tempo em que se sujeitaram a essa prática, tam- ção” (8:22).
bém sujeitaram outros saberes, tanto com sua O uso sistemático do testemunho oral possi-
equipe, nos cuidados dos pacientes, como também bilita esclarecer trajetórias individuais, eventos ou
com alunos, entre outros. processos que, às vezes, não têm como ser enten-
Nesse sentido, a História tem nos mostra- didos ou elucidados de outra forma, desde que não
do grandes movimentos e mudanças no ensino exclua outros documentos(9).
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O estudo envolveu três enfermeirasc com Nesse contexto, o atendimento médico e in-
idade acima de 60 anos que vivenciaram esse dividual, em detrimento do social, torna-se priori-
período da História como graduandas de Enfer- tário, e essa assistência passa a ser realizada no
magem e, após, como docentes no Curso de Gra- hospital, impulsionada pela mudança do foco de
duação em Enfermagem de uma Universidade trabalho do médico, decorrente dos altos investi-
Pública. mentos das indústrias farmacêuticas e de equipa-
A entrevista narrativa foi uma das modali- mentos(13).
dades de coleta. Outras formas de trilhar, em bus- Paradoxalmente, conforme apresentado nos
ca de novos enunciados, ocorreram por análise Anais do 1º Congresso Sul-Riograndense de Hi-
documental, a partir da década de 1950, sempre giene, realizado em 1957, o tema “prevenção” foi
baseada em questionamentos do presente(9). Pa- amplamente defendido pelos participantes(3). O
ra análise documental, elegeu-se a análise de dis- hospital, em largo crescimento na época, foi cons-
curso(10). tituído, até então, para suprir uma necessidade pon-
Antes de iniciar as entrevistas, respeitando tual, ou seja, a curativa, embora todos os sanita-
os aspectos éticos, conforme Resolução 196/96 do ristas tivessem como definição que, além dessa,
Conselho Nacional de Saúde(11), o projeto foi apro- deveriam desenvolver atividades de Medicina pre-
vado pelo Comitê de Ética da Universidade. Foi ventiva com a mesma intensidade, conforme abor-
apresentado a cada enfermeira o Termo de Con- dado na fala de um congressista:
sentimento Livre e Esclarecido, tendo este sido
assinado pela participante e pela pesquisadora Sabem que a função curativa do hospital
após sua leitura. As entrevistas foram gravadas continua ainda a ser a mais importante, po-
rém deve desenvolver, com a mesma in-
e transcritas.
tensidade, atividades de Medicina pre-
ventiva, o que pode ser bem evidenciado
3 EM BUSCA DE VERDADES JÁ INSTI- com a existência dos serviços de assistên-
TUIDAS cia materna e à infância, nas instituições
hospitalares(3:129).
A partir da década de 1950, a Saúde come-
çou a ser organizada, prioritariamente, para aten- Outro ponto importante a ser salientado em
der a uma assistência médica curativa, individual relação ao hospital é que ele continua centrado
e “hospitalocêntrica”. no profissional e não na saúde e no cliente. Além
Na década de 1980, o movimento social se disso, quando direciona seu foco para o cliente,
intensificou, exigindo do Poder Público uma solu- faz isso de forma que a Educação para a Saúde
ção para a crise do Sistema de Saúde, que se esteja direcionada “do” profissional para o pacien-
agravava(12). te e não “com”, de “fora para dentro”, dizendo o que
A construção de grandes hospitais e o forta- deve ser feito e denominado como “[...] intelectual
lecimento da Medicina Clínica, voltada para as es- universal”(14:12).
pecialidades, acabam com uma das funções que Em relação a essa questão, Sol faz um com-
deveria ser também do hospital: a da prevenção, parativo da Saúde Coletiva com o hospital, quan-
sendo suprimida pela função curativa. do coloca a verticalidade com que o paciente hos-
Até então, as políticas sanitaristas tenta- pitalizado é cuidado.
vam dar conta dos altos índices de mortalidade
infantil e das doenças infecto-contagiosas, assim Às vezes a questão, é claro, são hospitais
como da precariedade do atendimento às classes acadêmicos, mas aquela questão de tu
trabalhadoras. teres aquele compromisso que eu passo
por essa pessoa na vida dele, é impor-
tante que eu ajude, participe de um cui-
c
Com o objetivo de proporcionar ao leitor a oportunidade de dado, que ele melhore ou que ele seja
vivenciar os depoimentos, foram incluídos alguns relatos das mais informado, que ele tenha uma edu-
enfermeiras ao longo do texto. Para preservar a identidade das cação para a saúde, eu não vejo tanto
entrevistadas, foi solicitado que cada uma escolhesse um
codinome. Assim, os nomes das entrevistadas foram iden- isso no paciente hospitalizado. Diferen-
tificados por Sol, Rosa dos Ventos e Brisa. te do que eu vejo na Saúde Coletiva e
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492 da década de 1950. Rev Gaúcha Enferm, Porto Alegre (RS) 2007 dez;28(4):489-96.

vejo os profissionais da Saúde Coleti- cado médico especializado e privado e, acima de


va também, me parecem, não sei se a ex- tudo, concedeu ao médico poder em todas as ins-
pressão é mais feliz, eles estão mais con- tâncias das estruturas administrativas do hospi-
textualizados, mais abertos e trocando tal(14).
mais os saberes com as pessoas que estão
A enfermeira, quando começou a ocupar es-
na comunidade, enquanto que, no hospi-
se espaço, mais efetivamente, a partir da década
tal, eu percebo ainda bastante a verti-
calidade e isso é uma coisa assim que eu de 1950, também seguiu o modelo clínico, prati-
vejo. O vínculo na comunidade é muito cando uma assistência eminentemente curativa.
forte, não percebo tanto esse vínculo no O discurso da época, preconizado pelos sanita-
hospital (Sol). ristas, da importância de o hospital também tra-
balhar a prevenção, conforme apresentado ante-
Esse discurso nos traz presente a dicoto- riormente, não ocorreu, pois, conforme referen-
mia de como o paciente/cliente é visto na atenção dado por Rosa dos Ventos, o hospital tinha como
básica de saúde e no hospital e de como se insti- função o tratamento de doenças, enquanto que, na
tuiu fortemente essa prática discursiva de que na Saúde Pública, o foco era trabalhar a prevenção.
comunidade ele é visto no seu contexto social e
[...] a nossa grande preocupação, na Saú-
no hospital, completamente fora dele. Sol tam-
de Pública, era trabalhar a prevenção das
bém expressou uma realidade que ainda perpas-
doenças, pois no hospital, a enfermeira só
sa os tempos atuais, como a cobrança do por que cuidava da doença (Rosa dos Ventos).
adoeceu, sem contextualizar com a sua realida-
de social: O discurso de Sol traz muito presente esse
modelo construído, nesta época (décadas de 1950-
Em relação à prevenção da doença, não
me recordo que nos era sugerida como 60-70), e complementa:
importante (décadas de 1950-60). [...] A
[...] nós não tínhamos essa visão de en-
questão até eu observava que era cobra-
xergar o paciente fora da enfermaria, nós
da, por que adoeceu. Uma criança que
não tínhamos esse olhar. Realmente era
ia e voltava por um problema de saúde
o paciente no contexto da doença, do di-
que era evitável por ações corretas de
agnóstico cirúrgico, clínico. [...] não se
saúde até era cobrado desta pessoa: “por
trabalhava com a prevenção (Sol).
que não fez isso? Você tem que fazer isso!”
Mas o contexto social, socioeconômico
ele não era acordado por nós, o que de- Esse regime de verdade ainda está presen-
veria ser feito (Sol). te nos discursos atuais, pois em uma pesquisa
realizada sobre a produção de um conhecimento,
Nesse sentido, o hospital, ao tornar-se um no espaço hospitalar, o autor salienta que a práti-
lugar privilegiado da doença, faz com que a Me- ca profissional da enfermagem, em termos de re-
dicina assuma o topo da hierarquia hospitalar. Re- gistros ou anotações, está direcionada à doença
pete-se, no Brasil, de como a Medicina ascendeu, e ao corpo doente(15). Brisa justifica como sendo:
a partir do século XVIII, na Europa, com a reor-
[...] um cerceamento da enfermeira, cla-
ganização das funções do hospital. Ele deixa de ser ramente, um jogo de poder [ao abordar o
destinado aos loucos e indigentes, ou seja, de ex- cuidado da enfermagem, no hospital] [...]
clusão e passa a ser de inclusão, com função tera- volta-se somente para a doença, para o
pêutica sistematizada como instância de contro- motivo da internação (Brisa).
le social(2). Mesmo assim, uma inclusão que, em
certa medida, segrega as pessoas por classe so- Essas redes de poderes, que Brisa coloca, são
cial, poder aquisitivo, tipos de patologias entre ou- espaços nas relações humanas que determinam
tras. como é exercida a conduta de um em relação ao
A reforma dos hospitais, no século XVIII, outro, tornando visível aquilo que se autoriza a fa-
permitiu à Medicina o controle social das doen- lar, o jogo de verdade que se institui. Se a enfermei-
ças da população, o desenvolvimento de um mer- ra é cerceada por alguém, por um grupo ou mes-
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mo pela Instituição, não significa que ela tam- ras complicações, eles desconhecem e evitam fa-
bém não exerce essa atitude de dominação em lar sobre essa questão. Percebe-se que, no hos-
relação ao outro, mostrando que “[...] essas rela- pital, eles só querem tratar do motivo que os le-
ções de poder são, portanto, móveis, reversíveis varam a ser internados e de retornarem o quan-
e instáveis”(16:276). to antes para a sua casa.
Além disso, para mudar esse espaço, como Algumas questões poderiam influir sobre es-
reduto de cuidado da doença, necessita-se que- se fato, como a cultura de que ainda é forte, em
brar muros, desprender-se de si mesmo, o que não nossa sociedade, a maneira de o hospital tratar a
é fácil, pois a enfermeira, quando ingressa na área doença, fazendo com que as pessoas assumam
hospitalar, já vem com uma imagem ou incorpo- o papel de pacientes passivos, bem como a frag-
ra, na Instituição, regime e práticas normativas que mentação do objeto de trabalho de todos os pro-
a ela cabe seguir. fissionais da Área da Saúde, a pouca valorização
Para romper com esse regime, uma nova e interesse das pessoas em relação à sua saúde
cultura de si que abarca atitudes de autoconhe- e à manutenção da mesma, entre outras.
cimento de cuidado para consigo e para com o Para entender melhor esse contexto, seria
outro precisa ser resgatada, o que só pode ser de- importante analisar a relação entre sujeito e liber-
senvolvido como uma prática social(17). dade, quando se aborda a ética do cuidado de si
como prática de liberdade. A prática de liberdade
Por essa expressão é preciso entender de um indivíduo, de um grupo ou de uma popula-
que o princípio do cuidado de si adquiriu ção somente ocorre depois de certo número de
um alcance bastante geral: o preceito se- processos que iniciam pela liberação, que pode ser
gundo o qual convém ocupar-se consigo intencional ou prescritiva, passam pelo cuidado
mesmo é em todo caso um imperativo que de si, de como o sujeito se conhece a si mesmo,
circula entre numerosas doutrinas dife- incluindo as regras, as verdades, os deveres, os
rentes; ele também tomou a forma de uma
desejos que acabam se constituindo como práti-
atitude, de uma maneira de se comportar,
cas sociais e finalizam nas de liberdade, mesmo
impregnou formas de viver; desenvolveu-
se em procedimentos, em práticas e recei-
que na direção do assujeitamento(16).
tas que eram refletidas, desenvolvidas, aper- Porém, cabe salientar que esta etapa não
feiçoadas e ensinadas, ele constituiu as- ocorre, necessariamente, nessa ordem. Nem
sim uma prática social, dando lugar às rela- sempre para chegarmos a uma prática de liber-
ções interindividuais, a trocas e comuni- dade é necessário iniciarmos pela liberação e,
cações até mesmo instituições; ele propor- muitas vezes, esta pode não se expressar na li-
cionou, enfim, um certo modo de conheci- berdade.
mento e a elaboração de um saber(17:50). Tomemos como exemplo, o sujeito que, ao
se internar no hospital, torna-se passivo, pas-
Entretanto, cabe salientar que a forma co- sando a ser identificado como paciente do leito
mo a maioria dos profissionais da Área da Saú- “X”, da patologia “Y”, ficando alheio, muitas ve-
de ainda trata os pacientes denota todo um cui- zes, ao que está acontecendo ao seu redor e acei-
dado pautado em um ritual de poder e submissão. tando, com certa naturalidade, essa passivida-
As pessoas, ao serem internadas, perdem a sua de. Isso ocorre porque os profissionais que o as-
condição de ser saudável, produtivo e incorporam sistem fazem com que ele assuma essa pos-
o ser submisso, fazendo com que não assumam tura. Não existe prática de liberação e nem cui-
“[...] participação ativa no seu próprio tratamen- dado de si e para com o outro que faça com que
to, colocando-se na posição de um mero objeto ele desenvolva práticas de liberdade e assuma
de trabalho da equipe de saúde”(18:410). a sua condição de sujeito ativo.
Observam-se, em várias situações, pacien- Essa condição de poder do profissional e
tes, mesmo com grau de instrução elevada, assu- submissão do paciente já estava presente na fa-
mirem uma postura de total desconhecimento la de Sol quando verbalizou que este, durante a
da sua doença, do seu corpo e, quando são ques- internação, não podia saber qual a medicação
tionados ou orientados sobre como prevenir futu- que estava tomando e para o que era indicado,
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assim como seus efeitos colaterais (décadas de O olhar do clínico [...] pressupõe uma idên-
1950-60). Entretanto, no dia da alta, era-lhe entre- tica estrutura de objetividade: em que a
gue a prescrição dos medicamentos, sem nenhu- totalidade do ser se esgota em manifesta-
ma orientação prévia. ções que são seu significante-significado;
em que o visível e o manifesto se unem em
Os planos de alta que nós fazíamos era uma identidade pelo menos virtual; em que
para orientá-los no sentido de como to- o percebido e o perceptível podem ser inte-
mar a medicação. Nós tínhamos uma gralmente restituídos em uma linguagem
grande dificuldade, isso eu achava di- cuja forma rigorosa enuncia sua origem(2:109).
fícil, pois os pacientes não podiam sa-
ber que medicação eles tomavam. En- Nesses hospitais, o ensino de Clínica Médi-
tão veja, quando eles perguntavam, nós ca e de Enfermagem começou a se constituir e as
já tínhamos a resposta, dizíamos que pessoas, sem nenhum poder aquisitivo, trocavam
não sabíamos e na hora da alta, eles ti- sua pobreza por um tratamento “digno”, não se
nham que saber qual a medicação, de importando em ser objetos de estudo. Mas, “[...]
quanto em quanto tempo eles tinham que com que direito se podia transformar em objeto
tomar e isso ficava muito difícil, porque
de observação clínica um doente que a pobreza
o nível socioeconômico era precário,
mas nós não tínhamos este hábito de obrigava a vir pedir assistência no hospital? Pode
orientá-lo (Sol). a dor ser espetáculo?”(2:94).
E a violência, ou melhor, a violência “muda”,
Esse exemplo denota uma relação de do- aquela que faz com que o sujeito/paciente se tor-
minação, em que o sujeito passivo (paciente), as- ne um mero expectador de seu próprio sofrimen-
sume esse papel porque, nessa relação, existe o to, que seja um mostruário, um manequim, em que
outro (profissional) que o declara como tal. Em todos aqueles que têm o “poder da cura” possam
qualquer relação, a forma como se constituem di- tocar, mostrar, manusear, sem pelo menos expli-
ferentes sujeitos, depende de como se construí- car ou pedir licença para dispor de seu corpo, de
ram historicamente essas relações de jogos de seu ser. Mas, se este ser se recusasse a “colabo-
verdades. Quando se fala do sujeito louco, doen- rar”, a se oferecer como objeto de instrução, esta-
te, delinqüente, sinaliza-se que esse ser se coloca ria sendo ingrato, perante uma sociedade que lhe
nessa posição porque alguém o declarou como deu leito para se tratar. Essa sociedade que, be-
tal e isso não ocorre aleatoriamente, mas “[...] são nevolente, acredita estar fazendo o melhor para
esquemas que ele encontra em sua cultura e que aquele ser, que desprovido de riqueza se sujeita a
lhe são propostos, sugeridos, impostos por sua perder seu espaço, sua vida. “O homem que sofre,
cultura, sua sociedade e seu grupo social”(16:276). não deixa de ser cidadão [...]”(2:96).
Nesse contexto, cabe refletir: o que faz com Na área hospitalar, a Enfermagem, assim
que esses profissionais assumam um “poder” de como a Medicina, construiu o seu saber classifi-
dominação, sem abrir espaço para que o outro pos- catório em três dimensões: a Anatomia, a Fisiolo-
sa também encontrar regimes de liberdade? gia e a Etiologia, não se dando conta de que, quan-
Nessa reflexão, o hospital se constituiu em to mais se detém apenas no olhar clínico, mais es-
um regime de verdade, sobre estas dicotomias, te jogo de racionalidade se sobrepõe à subjetivi-
dominação versus submissão, classe mais favo- dade, a um modo de subjetivação que privilegia
recida versus menos favorecida, processo saúde a liberdade como uma ética, a caminho de uma es-
e doença, assim como a institucionalização hos- tética da existência. O impreciso passa a ser vis-
pitalar e a sua função que continua a permear nos to somente por equipamentos sofisticados e ca-
tempos atuais. Essa constituição teve como obje- da vez mais o ser doente se afasta do ser sadio,
tivo restabelecer as bases da ciência médica oci- transformando a doença em um bem maior, den-
dental, do método anátomo-patológico e clínico, tro da área hospitalar.
do olhar médico. Esse método representa a histó- Sol, colaborando com essa afirmação, re-
ria do próprio conhecimento sobre a pessoa do- fere que o enfermeiro, ainda no hospital, só está
ente, e resulta de uma esfera em que se articu- enxergando o cuidar da doença, mas não está
lam o espaço, a linguagem e a morte(2). cuidando da pessoa que está doente. Mas, como
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olhar a doença ao lado do ser doente? Ou me- enfermeira foi assujeitando e se sujeitando como
lhor, como olhar o ser sadio, sem categorizá-lo pe- cuidado de si. Nessa rota, percebe-se que o hos-
la doença? pital, como espaço de ensino, iniciou suas práti-
Sobre esse tema, cabe ainda ressaltar que cas discursivas, alicerçado em regimes de ver-
o olhar clínico, suas características e suas modi- dade construídos para atender a uma ordem ins-
ficações, tituída. Mas como romper essa ordem? Quais os
caminhos possíveis a percorrer para transfor-
[...] se abstém de intervir: é mudo e sem mar essa Área de assistência, não somente cura-
gesto. A observação nada modifica; não
tiva, mas também, voltada para a prevenção, pa-
existe para ele nada oculto do que se dá. [...]
Na temática do clínico, a pureza do olhar
ra a Educação para a Saúde?
está ligado a certo silêncio que permite Talvez, um dos caminhos seja o de proble-
escutar. [...] O olhar se realizará em sua ver- matizar, cada vez mais, no ensino do Curso de
dade própria e terá acesso à verdade das Graduação, questões referentes às relações de
coisas, se coloca em silêncio sobre elas, se poderes instituídas na Área da Saúde, assim co-
tudo se cala em torno do que se vê. O olhar mo redesenhar práticas que permitam ao aluno
clínico tem esse paradoxal, propriedade vislumbrar outras possibilidades como um sujei-
de “ouvir uma linguagem” no momento em to que também é co-partícipe dessa realidade so-
que “percebe um espetáculo”(2:121-2).
cial. Essa é uma forma de contrapor os referen-
ciais pedagógicos que ainda vêm sendo utiliza-
A Enfermagem, assim como outras profis-
dos na formação dos profissionais e na educação
sões da Área da Saúde, precisa (re)descobrir es-
em saúde, os quais favorecem a reprodução de
se “olhar” que transcenda o olhar clínico e o sujeito
um modelo de transmissão de padrões a serem
e que permita perceber semelhanças, diferenças e
cumpridos.
afinidades com a saúde e a doença, construindo
O fato de como nos constituímos, como su-
assim, um sistema de linguagem inscrito na pró-
jeitos de nosso saber, possibilita vislumbrar ou-
pria configuração do corpo.
tras trilhas como práticas de liberdade, o que a li-
Dessa forma, é preciso, como uma prática
teratura nos sinaliza como sendo cuidar de si, para
de liberdade, que os profissionais da área da Saú-
de incorporem em seu agir, na sua prática assisten- se conhecer e romper com estruturas, com hege-
cial ou docente, que o hospital, além de ser um monias de poderes(16).
espaço de ciência, de avanços tecnológicos, no Desta forma, ao nos reportar à constituição
tratamento de doenças, também é um espaço pa- histórica do sujeito em relação aos jogos de ver-
ra desenvolver ações de educação para a saúde, dades, na área hospitalar, percebemos ainda, pou-
possibilitando assim que o paciente assuma como co avanço em alguns regimes de verdade, entre os
co-partícipe do seu tratamento. quais poderíamos citar: a perpetuação de um en-
sino, ainda centrado no modelo biologicista, cura-
4 TECENDO ALGUMAS CONSIDERAÇÕES tivo e hospitalocêntrico e a manutenção de uma
prática que ainda evidencia o hospital como um
Os vários saberes que foram sendo consti- espaço somente de tratamento de doenças.
tuídos na trajetória da enfermeira, a partir da dé-
cada de 1950, no RS, sejam eles denominados de REFERÊNCIAS
sujeitados, desqualificados, fragmentados, popu-
lares, de lutas, científicos, entre outros, estiveram 1 Foucault M. O nascimento da clínica. 5ª ed. Rio de
ancorados na construção histórica da profissão, Janeiro: Florense Universitária; 2001.
imprimindo, em nosso cotidiano atual, verdades
2 Pedroso O. Relatório: o hospital, saúde pública, ser-
consagradas, impenetráveis e mantenedoras de
viço social. In: Anais do 1º Congresso Sul-Riogran-
múltiplos modos de constituição da existência, do dense de Higiene; 1957 out 20-26; Porto Alegre, Bra-
“si-Enfermagem”. sil. Porto Alegre: Selbach; 1957. p. 128-9.
E nessas lutas que se travam, o ensino de
Graduação em Enfermagem foi se constituindo 3 Almeida MCP, Rocha JSY. O saber de enfermagem e
como uma prática alicerçada nos saberes que a sua dimensão prática. São Paulo: Cortez; 1986.
Corbellini VL. Ensino de enfermagem e as relações instituídas no hospital a partir
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4 Foucault M. Em defesa da sociedade. 2ª ed. São de pesquisa envolvendo seres humanos. Brasília
Paulo: Martins Fontes; 1999. (DF); 1997.

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jogos de verdades no ensino de Graduação em En- Brasil: uma abordagem histórica. Revista da Esco-
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to Alegre: Faculdade de Educação, Pontifícia Uni-
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Janeiro: Graal; 2001.
7 Foucault M. Vigiar e punir. 24ª ed. Rio de Janeiro: Vo-
zes; 1999. 15 Meyer DE. Processos coletivos de produção de
conhecimento em saúde: um olhar sobre o exercí-
8 Thompson P. A voz do passado: história oral. Rio cio de enfermagem no hospital. Revista Brasileira
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9 Ferreira MM, Amado J. Usos e abusos da história 16 Foucault M. Ditos e escritos V: ética, sexualidade
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10 Foucault M. A ordem do discurso. 2ª ed. São Pau- 17 Foucault M. História da sexualidade: o cuidado
lo: Loyola; 2000. de si. 7ª ed. Rio de Janeiro: Graal; 2002.

11 Ministérios da Saúde (BR), Conselho Nacional 18 Santos LR, Beneri RL, Lunardi VL. Questões éti-
de Saúde, Comitê Nacional de Ética em pesquisa cas no trabalho da equipe de saúde: o (des)respei-
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bro de 1996: diretrizes e normas regulamentadoras magem 2005;26(3):403-13.

Endereço da autora/Author´s address: Recebido em: 08/05/2007


Valéria Lamb Corbellini Aprovado em: 05/10/2007
Rua Professor Langendonck, 258, Apt°. 202
90.620-060, Porto Alegre, RS
E-mail: vlamb@pucrs.br

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