Você está na página 1de 53

P s ic o lo g ia

ISBN 978-8S-2B-0369-8
-
o
O
.~
u
rJl
U m a (n o v a ) in tr o d u ç ã o
r:l.tMLKJIHGFEDCBA

Luís Claudio M. Figueiredo


9 788528 303698 rqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA Pedro Luiz Ribeiro de Santi
~~ MLKJIHGFEDCBA

L U ÍS C L A U D IO M . F IG U E IR E D O
PEDRa L U IZ R IB E IR O D E S A N T I zyxwvutsrqponmlkj

PONTIFíCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA


DE SÃO PAULOZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

R e ir o r a : Maura Pardini Bicudo Véras


Badcr Burihan Sawaia
v ic e - R e it o r a A c a d ê m ic a :

EDUC - Editora da PUC-SP


P S IC O L O G IA
Uma (nova) in tr o d u ç ã o
C O l1 s e lh o IHGFEDCBA
E d ito r ia l
Uma visão histórica da psicologia como ciência
Ana Maria Rapassi
Badcr Burihan Sawaia ( P r e s id e l1 t e )
Bcrnardctc A. Gatti
Cíbclc Isaac Saad Rodrigucs
Dino Preti
Marcelo Figucírcdo
Maria do Carmo Gucdcs
Maria Eliza Mazzilli Pereira 3a edição
Maura Pardini Bicudo Vóras
Onésimo de Oliveira Cardoso
Scipione Di Picrro Netto ( in m e m o r ia m )
Vladmir O. Silveira

A U O e IO Ç O O 8r~1tO

[kYffijm[5CJ~[J
São P a u lo
2008ZYXWVUTSRQPONMLKJ
© Luís Claudio Mendonça rqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
Fígueiredo e Pedra Luiz Ribeiro de Santi.
Foi feito o depósito legal

Ficha catalográfica elaborada pela Biblioteca Reitora Nadir Gouvêa Kfouri/PU(-SP

Ftgucírcdo, Luís Claudio Mendonça, 1945-


Psicologia, uma (nova) introdução: uma visão histórica da
psicologia como ciência / Luís Claudio M. Figueiredo; Pedro
Luíz Ribeiro de Santi. - 3 cd. - São Paulo: EDUC, 2008.
104 p. ; 18 em. - '(Série Trilhas)

Dados sobre os autores


ISBN 978-85-283-0369·8

1. Psicologia. 2. Psícología - História. !. Santi, Pedro Luiz


Ribeiro de. lI. Título. Ill. Scric.
CDD 150
150-9
1a edição (Psicologia. Uma introdução): 1991; 2" edição: 1997
Reimpressões: 1998,1999,2000 (2), 2002, 2003, 2004, 2006, 2007

Série Trilhas coordenada por


Maria Eliza Mazzilli Pereira

EDUC - Editora da PUC-SPZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

D ir e ç ã o
Miguel Wady Chaia
P r o d u ç ã o E d it o r ia l
Sonia Montonc
e R e v is ã o
P re p a ra ç ã o
Sonia RangelIHGFEDCBA
E d ito r a ç ã o E le t r ô n ic a
e capa
d e m io lo
Waldir Antonio Alves
Capa
Marilá Dardot
S e c r e t á r io
Ronaldo DecicinoZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
P a ra M a r ia P a t r í c ia , C a r o lin a ,

ecJU (.' M a r in a e Y n a iê .
L .c .F .
Rua Monte Alegre, 971 - sala 38CA
05014-001 - São Paulo - SP
Tel./Fax: (ll) 3670-8085 e 3670-8558 P a ra A le s s a n â r a .
E-mail: cduc@pucsp.br - Sítc: www.pucsp.br/cduc
P. L. R. S.
S U M Á R IO zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPON

PREFÁCIO 9

A PSICOLOGIA COMO CIÊNCIA INDEPENDENTE 13


Uma visão panorâmica e crítica 13

PRECONDIÇÕES SOCIOCULTURAlS
PARA O APARECIMENTO DA PSICOLOGIA
COMO CIÊNCIA NO SÉCULO XIX 19
A experiência da subjetividade privatizada 19
Constituição e desdobramentos da noção
de subjetividade na Modernidade 24
A crise da Modernidade e da subjetividade
moderna em algumas de suas expressões
filosóficas 33
Sistema mercantil e individualização .40
Ideologia liberal iluminista, romantismo
e regime disciplinar 46
A crise da subjetividade privatizada
ou a decepção necessária 48
Síntese 52rqponmlkj

)< A PRÁTICA CIENTÍFICA E A EMERGÊNCIA


DA PSICOLOGIA COMO CIÊNCIA 55
Conhecimento científico: privacidade
e diferença 5 5IHGF

i os PROJETOS DE PSICOLOGIA
COMO CIÊNCIA INDEPENDENTE 61
O projeto de Wundt : 61
O projeto de Titchener 64
A psicologia funcional 66
O comportamentalismo 68
Projetos de psicologia e condições de produção .. 71
A psicologia da Gestalt... 75 P R E F Á C IO
O comportamentalismo diferenciado:
o behavíorísmo radical de Skinner 77
A psicologia cognitivista derqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
Píaget
e a psicanálise freudiana 80

A PSICOLOGIA COMO PROFISSÃO E COMO CULTURA .. 89


A primeira versão deste trabalho foi
O psicólogo: funções e mitos 89
escrita no final da década de 1980, quando
BIBLIOGRAFIA COMENTADA 93
um de nós (LCF) fazia o caminho que vai do
QUESTÕES DE ESTUDO E DISCUSSÃO 95 livroZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
M a t r iz e s d o p e n s a m e n to p s ic o ló g ic o à sua
A psicologia como ciência independente 95
tese de livre-docência na USP, publicada com o
x Precondições socioculturais para
o aparecimento da psicologia como ciência título A in v e n ç ã o d o p s ic o ló g ic o . Q u a t r o s é c u -
no século XiX · 95 lo s d e IHGFEDCBA
s u b je tiv a ç ã o (1 5 0 0 -1 9 0 0 ). " M a t r iz e s "
A prática científica e a emergência havia sido elaborado no início dos anos 80 e
da psicologia como ciência 97
já no final de seu último capítulo se formulava
Os projetos de psicologia
como ciência independente 97 a tarefa de pensar a constituição histórica do
A psicologia como profissão "psicológico", ou seja, a formação ao longo dos
e como cultura : 100 séculos desse campo de conhecimentos e práti-
NOTA SOBRE OS AUTORES 101ZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
cas s u i g e n e r is em que se instalaram os proje-
tos de psicologia como ciência independente e,
a eles associados, os psicólogos com suas ativi-
dades profissionais e de pesquisa. Esse campo,
embora abrigue questões muito antigas, sob
alguns aspectos universais, só se delimitou
plenamente ao final do século XIX. O problema
era o de compreender como se deu e por que
fase passou esse processo de delimitação e, em
seguida, o processo de ocupação desse novo
território. A isso foram dedicados muitos anos
de pesquisa. Aproximadamente no meio desse
período (1988), surgiu o convite para escrever
10 PSICOLOGIA zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
PREFÁCIO 11

uma pequena introdução à psicologia e em de um segundo autor (P.L.R.S.)que também rea-


duas semanas estava pronto o presente-livro. liza pesquisas - inclusive a do seu doutorado -
As dificuldades editoriais fizeram com que, nessas mesmas áreas. A estrutura do texto e
na hora das publicações, toda essa cronologia suas finalidades didáticas não foram alteradas ,
ficasse embolada:ZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
M a t r iz e s d o p e n s a m e n to p s i- mas todo o escrito foi revisto, muitas pequenas
c o ló g ic o e P s ic o lo g ia . U m a in t r o d u ç ã o saíram complementações puderam ser feitas e surgi-
juntos em 1991 e, logo em seguida, A in v e n ç ã o ram duas seções inteiramente novas e alguns
d o p s ic o ló g ic o , em 1992. acréscimos substanciais a seções existentes. O
Os livros fizeram algum sucesso e as reim- livro continua, a nosso ver, de um bom tama-
pressões começaram a ocorrer: " M a t r iz e s " che- nho e nível de complexidade capazes de torná-
gou à 4a edição, " A in v e n ç ã o " il 3a e P s ic o lo g ia . 10 útil para o início da formação em psicologia
U m a in t r o d u ç ã o recebeu uma nova reimpres- e tamb_ém para uma apresentação da psicolo-
são a cada ano desde o seu lançamento. É claro gia em áreas afins. Pode, igualmente, como
que todos esses livros poderiam ser revistos e temos notícia de já ter acontecido, servir para
melhorados, mas até hoje faltou-nos coragem apresentar a Psicologia a colegiais avançados.
para empreender a tarefa. Em vez disso, em Nosso objetivo, enfim, foi o de torná-l o um
1995, publicamos R e v is it a n d o a s p s ic o lo g ia s . pouco mais rico, mas sem restringir seus usos,
D a e p is t e m o lo q ia à é t ic a d a s p r á t ic a s e d is c u r - e esperamos que ele continue podendo ser tão
s o s p s ic o ló g ic o s em que se acrescentaram mate- útil como parece ter sido até agora.
riais resultantes de novas pesquisas e reflexões
posteriores. (Mais recentemente - 1997 -, um São Paulo, novembro de 1997.
de nós - P.L.R.S. - publicou E le m e n t o s p a r a
um a h is t ó r ia d a p s ic o lo g ia que, igualmente,
retomava as questões de A in v e n ç ã o d o p s ic o ló -
g ic o enriquecendo-as com materiais provenien-
tes de novas pesquisas.) No caso deste pequeno
livro introdutório, contudo, a necessidade de
uma realmente nova e mais completa versão
sempre nos pareceu mais urgente. Para tornar
este projeto viável, foi necessária a colaboração
A P S IC O L O G IA C O M O
C IÊ N C IA IN D E P E N D E N T E

U m a v is ã o p a n o râ m ic a e c rític a rqponmlkjihgfedcba

É zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLK
muito freqüente que os livros que tra-
tam da história da psicologia comecem falando
da filosofia ocidental desde os gregos e conti-
nuem, já nas épocas mais recentes, com físicos,
fisiólogos e filósofos em cujas idéias podem ser
encontrados elementos que hoje fazem parte
do domínio da "psicologia científica".
O objetivo do presente texto, contrariando
a regra acima, é apresentar resumidamente.
uma visão panorâmica e crítica da psicologia
contemporânea.
Na verdade, só em época muito recente
surgiu o conceito de ciência tal como hoje é
de uso corrente, e foi ainda mais recentemente
que começaram a ser elaborados os prímeíros
projetos de psicologia como ciência indepen-
dente. Ou seja, só a partir da segunda metade
do século XIX surgiram homens que preten-
diam reservar aos estudos psicológicos um
território próprio, cujo êxito se fez notar pelos
discípulos e espaços conquistados nas institui-
ções de ensino universitário e de pesquisa. Só
14 PSICOLOGIA zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
A PSICOLOGIA COMO CIÊNCIA INDEPENDENTE 15

então passou a existir a figura do psicólogo e SOCiedade e que dependiam fundamentalmente


passaram a ser criadas as instituições volta- das condições históricas e sociais de uma dada
das para a produção e transmissão de conheci- comunidade. Nesta medida, os temas da psi-
mento psicológico.
, cologia estavam dispersos entre especulações
É claro que o processo de criar uma nova filosóficas" ciências físicas e biológicas e ciên-
ciência é muito complexo: é preciso mostrar cias sociais. O que restaria para uma psicologia
que ela tem um objeto próprio e métodos como ciência independente? Nada!
adequados ao estudo desse objeto, que ela é, Embora, à primeira vista, possa parecer
enfim, capaz de firmar-se como uma ciência surpreendente, esta foi exatamente a resposta
independente das outras áreas de saber. de um importante filósofo francês do século
Para a psicologia, a questão era extrema- XIX, Auguste Comte (1798-1857). No seu sis-
mente complicada, já que todos os grandes sis- tema de ciências não cabe uma "psicologia"
temas filosóficos desde a Antiguidade incluíam entre as "ciências biológicas" e as "sociais". O
noções e conceitos relacionados ao que hoje faz príncipal empecilho para a psicologia seria seu
parte do domínio da psicologia científica, como objeto: a "psique", entendida como "mente" ,
o comportamento, o "espírito" ou a "alma" do não se apresenta como um objeto observável,
homem. Já na Idade Moderna, físicos, anatornís- não se enquadrando, por isto, nas exigências
tas, médicos e fisiólogos trataram de diversos do positivismo. É bem verdade que o próprio
aspectos dos comportamentos involuntários Comte, num certo momento, reconhece a pos-
e mesmo de comportamentos voluntários do sibilidade de uma psicologia, mas sempre como
homem, ou seja, daqueles que, ao menos apa- uma área de conhecimento parcialmente depen-
rentemente, revelariam a presença de um "espí- dente ou da biologia ou da sociologia. Ainda
rito" por detrás das ações humanas. Também na hoje, após mais de cem anos de esforços para
Idade Moderna, particularmente no século XIX, se criar uma psicologia científica, os estudos
começaram a se constituir as ciências da socie- psicológicos mantêm relações estreitas com
dade, como a Economia Política, a História, a muitas ciências biológicas e com muitas ciên-
Antropologia, a Sociologia e a Lingüística. Essas cias sociais. Isso parece ser bom e, na verdade,
ciências também tratavam das ações humanas indispensável! Mas várias vezes é mais fácil,
e das suas obras, em particular dos compor- por exemplo, um psicólogo experimentalista
tamentos humanos mais importantes para a que trabalha em laboratórios com animais, tais
16 PSICOLOGIA zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
A PSICOLOGIA COMO CIÊNCIA INDEPENDENTE 17

como o rato e o pombo, entender-se com um centros de pesquisa. E, no entanto, algo parece
biólogo do que com um psicólogo social que se opor a essa dispersão e exigir que se pense
estuda o homem em sociedade. Este, por sua a psicologia de maneira mais integrada, respei-
vez, poderá ter diálogo mais fácil com antro- tando-se, é claro, essa multiplicidade de ângu-
pólogos e lingüistas do que com muitos psi- los e abordagens.
cólogos que foram seus colegas na faculdade Há, realmente, muitas dúvidas acerca do
e que hoje se dedicam à clínica psicoterápica. problema, e é preferível, por enquanto, não
E, quando o psicólogo se põe a estudar temas estabelecer nenhuma conclusão. De qualquer
como pensamento e solução de problemas, ele maneira, a psicologia está aí com suas preten-
inevitavelmente se aproxima da filosofia e, em sões de autonomia e, independentemente da
particular, da teoria do conhecimento. conclusão a que cheguemos, é importante ten-
tar compreender as origens e as implicações
A situação da psicologia científica, por-
da existência dessa disciplina, por mais caótica
tanto, é curiosa. Por um lado, reivindica um
que ela seja ou nos pareça.
lugar à parte entre as ciências (e para isso
criam-se faculdades e institutos de pesquisa
em psicologia); ao mesmo tempo o psicólogo
prático exige que sua competência específica
seja reconhecida (e para isso existem órgãos
como os conselhos de psicologia que excluem
a presença de outros profissionais nas áreas
de atuação legalmente reservadas ao psicó-
logo). Por outro lado, não conseguiu se desen-
volver sem estabelecer relações cada vez mais
estreitas com as ciências biológicas e com as da
sociedade.
Essa situação poderia justificar a primitiva
posição de Comte de que não há lugar para uma
psicologia independente e melhor faríamos se
desenvolvêssemos nossos estudos psicológicos
junto a essas outras disciplinas, dentro de seus
P R E C O N D IÇ Õ E S
S O C IO C U L T U R A IS PARA O
A P A R E C IM E N T O D A P S IC O L O G IA
COMO C IÊ N C IA N O S É C U L O X IX

A e x p e riê n c ia d a
s u b je tiv id a d e p riv a tiz a d a zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZ

Para que exista um interesse em conhecer


cientificamente o "psicológico", são necessárias
duas condições (além, naturalmente, da crença
de que a ciência com seus métodos e técni-
cas rigorosas é um meio insubstituível para o
conhecimento): a) uma experiência muito clara
da subjetividade privatizada; e b) a experiência
da crise dessa subjetividade. Isso, à primeira
vista, pode parecer muito obscuro, mas tratare-
mos de clarificar essas idéias.
Ter uma experiência da subjetividade
privatizada bem nítida é para nós muito fácil
e natural: todos sentem que parte de suas
experiências é íntima, que mais ninguém tem
acesso a ela. É possível, por exemplo, ficar um
longo tempo pensando se vamos ou não fazer
uma coisa, quase decidir por uma e, no final,
acabar fazendo a outra, sem que ninguém
fique sabendo de nada. Com freqüência, senti-
20rqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
PSICOLOGIA PRECONDIÇÓES SOCIOCULTURAIS ... 21

mos alegrias e tristezas intensas e procuramos a tomar decisões para as quais não conseguem
escondê-Ias. A possibilidade de mantermos apoio na sociedade. Nessas épocas, as artes e a
nossa privacidade é 'altamente valorizada por literatura revelam a existência de homens mais
nós e relacionada ao nosso desejo de sermos solitários e indecisos do que em épocas nas
livres para decidir nosso destino. A experiência quais dominam as velhas tradições e não exis-
da solidão, ansiada ou temida, é também alta- tem graves conflitos. Quando há uma desagre-
mente expressiva daquilo que acreditamos ser gação das velhas tradições e uma proliferação
nossa individualidade. de novas alternativas, cada homem se vê obri-
Ainda com maior freqüência, temos a gado a recorrer com maior constância ao seu
sensação de que aquilo que estamos vivendo "foro íntimo" - aos seus sentimentos (que nem
nunca foi vivido antes por mais ninguém, de sempre condizem com o sentimento geral), aos
que a nossa vida é única, de que o que sentimos seus critérios do que é certo e do que é errado
e pensamos é totalmente original e quase inco- (e na sociedade em crise há vários critérios dis-
municável. Pois bem, historiadores e antropó- poníveis, mas incompatíveis). A perda de refe-
logos com suas pesquisas mostram que essas rências coletivas, como a religião, a "raça", o
formas de pensarmos e sentirmos nossa pró- "povo", a família ou uma lei confíável obriga o
pria existência não são universais. Essa expe- homem a construir referências internas. Surge
riência de sermos sujeitos capazes de decisões, um espaço para a experiência da subjetivi-
sentimentos e emoções privados só se desen- dade privatizada: quem sou eu, como sinto, o
volve, se aprofunda e se difunde amplamente que desejo, o que considero justo e adequado?
numa sociedade com determinadas caracterís- Nessa situação, o homem descobre que é capaz
ticas. Nossa preocupação é identificar sumaria- de tomar suas próprias decisões e que é res-
mente essas características. ponsável por elas. A conseqüência desses con-
Ao lermos com atenção as obras de histo- textos é o desenvolvimento da reflexão moral e
riadores, veremos que as grandes irrupções da do sentido da tragédia.
experiência subjetiva privatizada ocorrem em Uma tragédia se dá quando um indivíduo
situações de crise social, quando uma tradição se encontra numa situação de conflito entre
cultural (valores, normas e costumes) é contes- duas obrigações igualmente fortes, mas incom-
tada e surgem novas formas de vida. Em situa- patíveis. É, também, numa situação como essa
ções como estas, os homens se vêem obrigados que os homens são levados a se questionar
22rqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
PSICOLOGIA PRECONDIÇÓES SOCIOCULTURAIS ... 23

acerca de que é certo e do que é errado e a pro- É preciso ter claro que esse movimento na
curar na sua própria consciência uma resposta direção de um aprofundamento da experiência
para essa questão. subjetiva privatizada não foi um processo linear
No campo das artes, além do surgimento e pelo qual tenham passado todas as sociedades
desenvolvimento do gênero "tragédia", observa- humanas. São muito importantes os estudos de
se, na literatura, o aparecimento da poesia antropólogos que se dedicaram a descrever e
a analisar sociedades não ocidentais em que a
lírica. Nela o poeta expressa seus sentimentos e
subjetivização e a individualização da existência
desejos como sentimentos e desejos particula-
permaneceram em níveis muito menos elabo-
res e muitas vezes opostos ao que a sociedade
rados. Mesmo nas sociedades ocidentais, pro-
dele espera, como amores socialmente não
venientes das tradições judaica, grega e latina,
recomendados ou mesmo proibidos.
o processo foi repleto de ziguezagues. No con-
As artes plásticas também testemunham o junto, porém, pode-se dizer que ao longo dos
aprofundamento da experiência subjetiva priva- séculos as experiências da subjetividade priva-
tizada, seja realçando os traços particulares de tizada foram se tornando cada vez mais deter-
seus modelos, na escultura ou na pintura repre- minantes da consciência que os homens têm da
sentativas, seja expressando de forma cada vez sua própria existência. Ou seja, nos primórdios
mais individualizada a subjetividade do artista, da nossa história, eram poucos os elementos de
de forma que, pela análise das obras, podemos uma sociedade que podiam gozar de liberdade
identificar com muita segurança seu autor e para se reconhecerem como seres moralmente
mesmo especular com alguma base sobre quem autônomos, capazes de iniciativas, dotados de
e como ele era. Finalmente, não podemos dei- sentimentos e desejos próprios. Hoje, ao con-
xar de mencionar que o pensamento religioso trário, esta se tornou a imagem generalizada
acompanha esse processo de subjetivização e que temos de nós mesmos. Aliás, boa parte de
individualização e que nos momentos de crise nós se sente bastante incomodada quando essa
de desagregação sociocultural surgem novos crença é colocada em dúvida; resistimos à idéia
sistemas religiosos, ou variantes de antigos, e de que não tenhamos controle de nossas vidas.
heresias que enfatizam a responsabilidade indi- A crença na liberdade dos homens é um dos
vidual e atribuem à consciência e às intenções elementos básicos da democracia e da socie-
mais valor que aos próprios atos e obras. dade de consumo e não estamos dispostos, em
24rqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
PSICOLOGIA PRECONDIÇÔES SOCIOCULTURAIS ... 2S

geral, a pôr em risco nossos valores. Como se tura do Ocidente ao restante do mundo teriam
verá a seguir, em alguns aspectos importantes lançado o homem europeu numa condição de
essa imagem é completamenteZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
ilu s ó r ia , e u m a desamparo.
d a s ta re fa s d a p s ic o lo g ia s e rá t a lv e z a d e re v e - A experiência medieval fazia com que o
la r e s s a ilu s ã o . ZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA homem se sentisse parte de uma ordem supe-
rior que o amparava e constrangia ao mesmo
tempo. Por um lado, a perda desse sentimento
C o n s titu iç ã o e d e s d o b ra m e n to s
de comunhão com uma ordem superior traz
d a n o ç ã o d e s u b je tiv id a d e uma grande sensação de liberdade e a possi-
n a M o d e rn id a d e bilidade de uma abertura sem limites para o
mundo, mas, por outro, deixa o homem per-
Como foi dito acima, por estranho que dido e inseguro: como escolher o que é certo e
pareça, nosso modo atual de entendermos errado sem um ponto seguro de apoio?
nossa experiência como indivíduos autônomos O Renascimento foi, por tudo isso, um
não é natural nem necessário, mas sim parte período muito rico em variedade de formas e
de um movimento de amplas transformações experiências e de produção intensa de conheci-
pelas quais o homem tem passado em sua his- mento. O contato com a diversidade das coisas,
tória, sobretudo na Modernidade. dos homens e das culturas impôs novos modos
de ser.
De forma simplificada, podemos dizer
que nossa noção de subjetividade privada data Não podendo esperar pelo conselho de
uma figura de autoridade, o homem viu-se
aproximadamente dos últimos três séculos:
obrigado a escolher seus caminhos e arcar com
da passagem do Renascimento para a Idade
as conseqüências de suas opções. Nesse con-
Moderna. O sujeito moderno teria se consti-
texto, houve uma valorização cada vez maior
tuído nessa passagem e sua crise viria a se con-
do "Homem", que passou a ser pensado como
sumar no final do século XIX. centro do mundo.
Em A in v e n ç ã o d o p s ic o ló g ic o , desenvol- A crença em Deus não desapareceu
vemos a idéia de que, no Renascimento, teria então, mas parece que Ele se distanciou e se
surgido uma experiência de perda de referên- colocou "sobre" o mundo: Ele foi o criador da
cias. A falência do mundo medieval e a aber- ordem do mundo e cabe ao Homem admirá-Ia,
26rqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
PSICOLOGIA zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
PRECONDIÇÓES SOClOCULTURAIS ...
27

conhecendo e controlando a natureza. Assim, Certamente, essa experiência foi fundamental à


o mundo passou a ser considerado cada vez Reforma protestante, movimento essencial na
menos como sagrado e mais como objeto de formação do sujeito moderno.
uso - movido por forças mecânicas ~ a serviço O pensador francês Michel de Montaigne
dos homens. Essa transformação é parte essen- dá um testemunho clássico da valorização da
cial da origem da ciência moderna. interioridade. Na introdução de seus E n s a io s ,
A grande valorização e confiança no diz ao leitor que tomará a si mesmo como
Homem, geradas pela concepção de que ele é o assunto, ainda que sua vida seja comum, total-
centro do mundo e livre para seguir seu cami- mente desprovida de feitos heróicos ou notá-
nho, fazem nascer o humanismo moderno. veis. O "eu" de Montaígne será o assunto do
livro e, enquanto o livro vai sendo escrito (ao
O século XVI vê surgirem diversos perso-
longo de quase vinte anos e mais de mil pági-
nagens, reais ou fictícios, donos de um "mundo
nas), esse "eu" vai se transformando. O livro
interno" rico e profundo. Leonardo da Vinci,
foi muito criticado com o argumento de que
Dom Quixote, Harnlet, entre muitos. Além disto,
uma vida comum não mereceria ser objeto de
os personagens literários contribuíam também
tal obra, mas a questão que nos interessa é jus-
para a construção da interioridade dos leitores. tamente o surgimento da valorização de cada
Segundo Philippe Aríes, emZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
H is t ó r ia d a v id a p r i-
indivíduo, da construção de cada individuali-
v a d a (Companhia das Letras, v. 3,1991), o sur- dade única.
gimento da imprensa proporcionou uma das
A obra de Montaigne também foi consi-
experiências mais decisivas da modernidade: a
derada fruto de uma extrema vaidade. Mas
difusão da leitura silenciosa. Ela possibilita que há aí um paradoxo: ao mesmo tempo em que
se escape ao controle da comunidade e cria um indubitavelmente o autor valoriza seu "eu", ele
diálogo interno que desenvolve a construção de denuncia a grande ilusão do homem ao se pre-
um ponto de vista próprio. O trabalho intelec- tender um ser privilegiado na natureza capaz
tual passa a ser progressivamente um ato indi- de conhecê-Ia e dominá-Ia.
vidual e mesmo a religiosidade pôde se tornar Toda a falta de referências absolutas a
uma questão íntima, já que cada vez mais pes- que nos referimos mais acima fez renascer
soas podiam ter acesso diretamente aos textos também uma escola da filosofia grega chamada
sagrados, sem a intermediação de sacerdotes. ceticismo. Os céticos achavam impossível que
28rqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
PSICOLOGIA zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
PRECONDIÇÕES SOCIOCULTURAIS ... 29

pudéssemos obter algum conhecimento seguro e as novas Igrejas Protestantes (Luteranos e


sobre o mundo: a qualquer afirmação pode ser Calvinistas) fizeram um esforço enorme em
oposta outra de igual valor; qualquer impres- articular a crença num Deus onipotente e o
são que tenhamos pode ser um engano de nos- livre-arbítrio humano.
sos órgãos dos sentidos. Uma solução - bastante precoce, mas cujo
Assim, podemos considerar que a consti- espírito foi muito duradouro - foi dada pelo
tuição do sujeito moderno é contemporânea ao humanista Pico Della Mirandola que, ainda no
início da crítica a esse mesmo sujeito: autores final do século XV, reescrevendo a Gênese, che-
como Montaigne, Erasmo e Shakespeare vão gou à concepção de que a liberdade teria sido
denunciando desde então a vaidade do homem, o grande e exclusivo dom que Deus teria dado
que passa a assumir os atributos até então pró- ao homem, já que este teria sido o último dos
prios a Deus (cf. Santi, 1997). seres a ser criado e nenhuma matéria original
A descrença cética, somada ao grande restara para forjá-lo, Tendo o dom da liberdade,
individualismo nascente, acabaram por produ- o homem pode ser recompensado se fizer um
zir uma reação que, na verdade, assumiu duas bom uso dela e punido caso se deixe perder do
feições bem distintas: a reação racionalista e a bom caminho. Essa articulação é importante na
reação empirista. Em ambas, contudo, tratava- medida em que, preservando a crença na liber-
se de estabelecer novas e mais seguras bases dade humana, coloca-se a imposição de dirigir
para as crenças e para as ações humanas, e essa liberdade com muitaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFED
d is c ip lin a a um cami-
procuravam-se essas bases no âmbito das expe- nho reto. O sujeito deve "sujeitar-se", uma vez
riências subjetivas. mais, a uma ordem superior, desvalorizando
Já no século XVI surgiram tentativas de seus desejos e projetos particulares. Daí surge
conter e circunscrever as ações dos homens. um regime onde o corpo, sobretudo, deve ser
É como se houvesse o desejo de poder voltar controlado e desvalorizado, pois ele sempre é
ao mundo medieval, em que uma única ordem fonte de desejo e dispersão (cf. "O silêncio e as
reinava. Mas, como não é possível voltar no falas do corpo", em Figueiredo, 1995).
tempo, a ordem a ser buscada a partir de então Essa reação à dispersão surgiu, primeira-
tinha que levar em consideração uma série de mente, como era de se esperar, no âmbito reli-
novas crenças do homem, sobretudo a recém- gioso, embora tenha se espalhado para muito
adquirida crença na liberdade. A Igreja Católica além dele. Entre a Reforma e a Contra-Reforma
PSICOLOGIA PRECONDIÇÕES SOCIOCULTURAIS ... 31
30rqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

vão nascendo tanto a individualidade quanto descartadas; as incertas seriam igualmente des-
os modos de controle do indivíduo que conhe- cartadas, ao menos provisoriamente; somente
cemos até hoje .: idéias absolutamente claras e distintas pode-
A maior parte dos estudos sobre a moder- riam ser consideradas verdadeiras e servir de
nidade costuma identificar como seu marco de base para a filosofia e as ciências. Tudo aquilo
início o pensamento de Descartes, o fundador que se mostrasse incerto teria que ser anali-
do racionalismo moderno. Certamente, a cons- sado a partir do elemento verdadeiro revelado
tituição da modernidade foi altamente com- ao final do processo.
plexa e longa, mas, se é preciso estabelecer um O procedimento parece conduzir Descartes
marco, Descartes se presta bem a isso. ao ceticismo. Seus mestres, os livros, as leis e
Descartes pretende estabelecer as condi- os critérios morais de cada cidade, tudo parece
ções de possibilidade para que obtenhamos um incerto. Seus órgãos do sentido também se mos-
conhecimento seguro da verdade. Ele se alinha tram passíveis de enganos e seus sentimentos
entre aqueles que quiseram superar a grande ainda mais, por serem tão mutáveis. Conforme
dispersão do Renascimento e, o que talvez é o a dúvida se aprofunda, Descartes se vê cada
mais importante, superar o ceticismo. vez mais acuado, até imaginar a existência de
Ao lermos as primeiras páginas doIHGFEDCBA
D is c u r s o um "gênio maligno", capaz de enganá-lo em
d o m é to d o , vemos o depoimento de um homem toda e qualquer idéia que fizesse do mundo.
nascido no limite do Renascimento, em meio Nesse ponto extremo da dúvida, quando parece
a uma profusão tamanha de idéias e opiniões, que ela é insuperável, Descartes inverte a ques-
que se via levado a desacreditar todas elas. Não tão e acredita ter superado a dúvida e encon-
querendo entregar-se ao ceticismo, impôs-se trado um fundamento inquestionável para o
o projeto de buscar alguma verdade sobre a conhecimento. Ele diz: parece que tudo o que
qual não pairasse a menor sombra de dúvida tomo como objeto de meu julgamento se mos-
e pudesse, assim, tornar-se o fundamento para tra incerto, mas, no momento mesmo em que
toda a construção de conhecimento válido. duvido, algo se mostra como uma idéia indubi-
Para isso, curiosamente, utilizou o instrumento tável; enquanto duvido, existe ao menos a ação
cético: a dúvida. Sua intenção era submeter de duvidar, e essa ação requer um sujeito. Daí
toda e qualquer idéia, impressão ou crença a nasce a famosa frase "penso, logo existo". Todo
uma dúvida metódica: as idéias erradas seriam o movimento de duvidar traz a evidência de
32rqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
PSICOLOGIA PRECONDIÇÕES SOClOCULTURAIS ... 33

que, ao menos enquanto um ser que pensa (e digno de crédito. É necessário dar à razão uma
duvida), eu existo. Esta é minha única certeza: base nas experiências dos sentidos, na percep-
eu ainda não sei se os outros existem e mesmo ção, desde que essa percepção tenha sido puri-
se meu próprio corpo existe. A evidência pri- fica da, liberada de erros e ilusões a que está
meira é a de um "eu" e ele será a partir de agora submetida no cotidiano. Bacon escreveu uma
o fundamento de todo o conhecimento. série de obras importantes, entre as quais oZYXWVUT
Descartes é tomado como inaugurador N ovum o rq a n u m , em que elabora suas propos-
da modernidade no sentido em que ele marca tas de como se livrar do erro e encontrar a ver-
o fim de todo um conjunto de crenças que dade tendo como base a experiência subjetiva
fundamentavam o conhecimento. O homem sensorial e racional. Bacon, como Descartes,
moderno não busca a verdade num além, em é um dos grandes pioneiros na preocupação
algo transcendente; a verdade agora significa com o M é t o d o na produção de conhecimen-
adquirir uma representação correta do mundo. tos filosóficos e científicos que marcou toda a
Essa representação éIHGFEDCBA
in te r n a , ou seja, a verdade Modernidade ocidental desde o século XVII até
reside no homem, dá-se para ele. O sujeito do os dias de hoje.ZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
conhecimento (o "eu") é tornado agora um ele-
mento transcendente, "fora do mundo", pura
representação sem desejo ou corpo, e por isso A c ris e d a M o d e rn id a d e e da
supostamente capaz de produzir um conheci- s u b je tiv id a d e m o d e rn a e m a lg u m a s
mento objetivo do mundo.
d e s u a s e x p re s s õ e s filo s ó fic a s
O filósofo Francis Bacon, contemporâneo
de Descartes, pode ser apresentado como o A crença de que o homem pode atingir a
fundador do moderno empirismo. Sua preocu- verdade absoluta e indubitável, desde que siga
pação, como a de Descartes, era a de estabele- estritamente os preceitos do Método correto,
cer bases seguras para o conhecimento válido seja ele o racional de Descartes ou o empírico
e, também como Descartes, ele as procurava de Bacon, acabou por ser criticada no século
no campo das experiências subjetivas. A dife- seguinte no interior do Iluminismo, o movi-
rença era que para Bacon a razão deixada em mento filosófico que, no século XVIII,represen-
total liberdade pode-se tornar tão especula- tava o que havia de mais avançado e progressista
tiva e delirante que nada do que produza seja no terreno das idéias. No Iluminismo, as gran-
PSICOLOGIA zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
PRECONDIÇÕES SOCIOCULTURAIS ... 3S
34rqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

des conquistas do racionalismo cartesiano ção da crença em conhecimentos absolutos. Em


eram articuladas com a valorização das expe- A c r í t ic a d a r a z ã o p u r a , afirma que o homem só

riências individuais tal como promovidas pelos tem acesso às coisas tais como se apresentam
filósofos empiristas, que formavam a outra para ele: a isso ele chama "fenômeno". A única
grande corrente da Modernidade. Por diversos forma de produzirmos algum conhecimento
caminhos, no século XVIII,a quase onipotência válido é nos restringirmos ao campo dos fenô-
do "eu", da razão universal e do método seguro menos, pois as "coisas em si" (independentes
afirmada no século XVII foi criticada. Por um do sujeito) são incognoscíveis. É verdade que,
lado, isso representou uma consciência mais ao mesmo tempo, Kant leva ainda mais longe
profunda, sólida e complexa de toda a proble- as pretensões do "sujeito": se, de um lado ele
mática do conhecimento, mas, de toda a forma, não crê na capacidade de o homem conhecer a
começou a se colocar em xeque a soberania do verdade absoluta das "coisas em si", de outro,
"eu", seja o "eu" da razão, seja o "eu" dos senti- toda a questão do conhecimento é radicalmente
dos purificados. colocada em termos subjetivos, pois tudo que é
Hume, um dos grandes filósofos da "conhecível" repousa na subjetividade humana.
época, chega a negar que o "eu" seria algo está- Essa subjetividade, contudo, não é a subjetivi-
vel e substancial que permaneça idêntico a si dade particular de cada indivíduo, é a subjeti-
mesmo ao longo da diversidade de suas expe- vidade transcendental e universal do Homem.
riências: ele seria muito mais o efeito de suas Embora essa subjetividade universal seja man-
experiências do que oZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
s e n h o r de suas expe- tida e valorizada como "condição de possibi-
riências; somos, para Hume, algo que se forma lidade" de todas as experiências, as outras, as
e se transforma nos embates da experiência e subjetividades empíricas e particulares de cada
já não podemos nos conceber como base e sus- um de nós, devem aprender a viver em um
tentação dos conhecimentos e de nós mesmos. mundo de incertezas e hipóteses nunca plena-
Nessa medida, o conhecimento entendido como mente confirmadas, procurando, sempre com
dominio dos objetos por um sujeito soberano muita dificuldade, exercer o controle racional
não pode mais se sustentar. sobre seus impulsos, seus desejos, suas pro-
Outro filósofo iluminista do século XVIII, pensões. Para Kant, a soberania do sujeito, sua
Emanuel Kant, procura opor-se a essas formu- a u t o n o m ia , é uma tarefa supremamente dese-
lações tão radicais, mas aceita a problematiza- jável - é a meta de todo esforço ético - e ainda
36rqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
PSICOLOGIA PRECONDIÇÕES SOClOCULTURAI5... 37

possível, mas é sempre muito problemática natureza opõe-se, como algo mais original e
porque as necessidades, os desejos e os impul- verdadeiro, à civilização com suas regras, seus
sos nunca poderão ser definitivamente sosse- métodos e sua etiqueta.
gados pela razão. O Romantismo toma os mais diversos
Além da autocrítica iluminista, o século aspectos, o que torna muito difícil sua defini-
XVIII trouxe outras formas de crítica às preten- ção precisa, mas parece que ele regularmente
sões totalizantes do "eu", da razão universal e representa uma crítica à modernidade e uma
do Método. nostalgia de um estado anterior perdido.
O Romantismo nasceu no final do Aquilo que na "fundação" da modernidade
século XVIII exatamente como uma crítica ao deve ser excluído do "eu" ou mantido sob o fér-
Iluminismo e, mais particularmente, à vertente reo controle do Método parece agora invadi-Ia.
racionalista do Iluminismo (com a vertente A razão é destronada, o Método feito em peda-
empirista, os românticos puderam até estabe- ços e o "eu" racional e metódico é deslocado do
lecer uma convivência muito mais amistosa). centro da subjetividade e tomado agora como
Ou seja, à idéia cartesiana de que o homem uma superfície mais ou menos ilusória que
é essencialmente um ser racional (o ser pen- encobre algo profundo e obscuro.
sante do Cogito) é contraposta a idéia de que o Uma imagem clássica disso é a pintura do
homem é um ser passional e sensível. inglês Turner, que freqüentemente pinta tem-
Quando pensamos hoje em Romantismo, pestades no mar, nas quais mal se definem
vem-nos à mente algo suave, delicado e ligado os limites entre céu, mar, chuva e neblina; em
ao amor, o que também não deixa de ser ver- alguns casos aparece um barco totalmente à
dade. Mas a origem do movimento na.Alemanha mercê das forças naturais. O barco representa o
teve um sentido bem distinto: uma primeira empreendimento humano de controle racional
manifestação romântica teve o nome de e metódico do mundo, e a imagem não deixa
"Tempestade e ímpeto", o que já sugere melhor dúvidas quanto à sua impotência.
a característica dessa sensibilidade. Trata-se de Assim, o Romantismo é um momento
evidenciar a potência dos impulsos e forças da essencial na crise do sujeito moderno pela des-
natureza, em muito superior à da consciência tituição do "eu" de seu lugar privilegiado de
ou do homem como um todo. A valorização da senhor, de soberano.
38rqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
PSICOLOGIA PRECONDIÇÓES SOCIOCULTURAIS ... 39

Além disso, a Romantismo traz a expe- cama ficções (na que dá continuidade à crítica
riência de que a homem possuí níveis de profun- de Hume à suposta substancialidade e esta-
didade que ele mesma, na entanto, desconhece. bilidade da sujeita). Com seu procedimento,
Paradoxalmente, portanto, há uma grande vala- chamada "genealogía", Níetzsche procura des-
rizaçãa da individualidade e da intimidade. A construír as fundamentas de toda a filosofia
idéia de "gênio." expressa bem essa valorização: acidental desde Platãa. Basicamente, trata-se
ele seria um indivíduo. naturalmente especial, de mostrar cama cada elemento. tornado cama
dana de um dom única que tem a obrigação de fundamenta absoluto ou causa primeira de tudo.
realizar; par outro lado, par seu mergulha em a que existe foi também, par sua vez, criada
si, ele tem uma grande índísposíção e dificul- num determinada momento com uma determi-
dade em sua vida prática. Trata-se de uma sen- nada finalidade. Se alga foi criada ao. longo da
sibilidade intimista e ao. mesma tempo. crente tempo, não. é eterna ou causa primeira. Assim,
na grandíosidade de sua missão. Quando. pen- a "idéia" platônica, Deus, a sujeita moderno de
sarnas na alta grau de individualismo. e solidão Descartes ou de Bacon são. reveladas cama cria-
presentes na século. XX, é inevitável pensarmos ções humanas. Nossas crenças e valores estão.
na presença em nós da sujeita romântico. comprometidos com a perspectiva em que nas
Ao.longo da século. XIX,afírmou-se a partir colocamos a cada instante. A crença em alga
de diversas fontes a deposição da "eu" de seu fixa e estável seria uma necessidade humana,
lugar privilegiada. Par exemplo: a idéia de que na tentativa de crer que tem controle sobre a
a comportamento da homem é determinada devir. Níetzsche dá um passa bem larga e radi-
par leis que não. pode controlar e que freqüen- cal: não. só a homem é deslocado da posição de
temente nem mesma conhece está presente na centro. da mundo, cama a própria idéia de que
pensamento. de Marx, entre outros: na mesma a mundo. tenha um centro. ou uma unidade é
sentida vai a afirmação. da teoria da evolução destruída. Assim, quando. Níetzsche denuncia
de Darwin de que a homem é um ser natural a caráter ilusória e não. necessária de ta da a
cama as demais, não. possuindo uma origem fazer humana, isso. não. representa a defesa da
distinta (à imagem e semelhança de Deus). abandono da ilusão. em favor de outro modo
Mas talvez a ponto mais aguda dessa crise . de ser mais legítima ou bem fundamentada
tenha sido. a filosofia de Nietzsche. Nela, as (cama na crítica católica ou romântíca à ma der-
idéias de "eu" ou "sujeita" são. interpretadas nidade). A ilusão. não. pode ser substituída par
PSICOLOGIA zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
40rqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
PRECONDIÇÕES SOCIOCULTURAIS ... 41

nada melhor por que simplesmente nãoIHGFEDCBA


e x is te momento, a existência de um sistema social e
nada melhor. A questão para Nietzsche é saber econômico que, talvez pela carga de conflitos
o quanto cada ilusão em cada contexto se mos- e transformações que carrega consigo, apro-
tra útil à expansão da vida. funda e universaliza aquelas experiências:
Não só o privilégio do "eu" na moderni- referimo-nos ao sistema mercantil plenamente
dade, mas toda a metafísica ocidental parece desenvolvido.
ser colocada em xeque aí. Mas, como veremos, Em quase todas as sociedades, há alguma
o projeto científico dos séculos XIX e XX e o atividade de troca comercial, principalmente
humanismo ressurgido no século XX mantêm em termos de trocas entre comunidades. O
esse projeto vivo. produto excedente de uma família, de um clã
A seguir, retomaremos o caminho da ou de uma aldeia pode ser de tempos em tem-
constituição e dos desdobramentos da noção pos trocado pelo produto excedente de outras
de "subjetividade privada" por outro viés, o famílias, clãs ou aldeias "especializadas" em
das condições socioeconômicas que deram sus- outro tipo de produção. Nesses casos, a pro-
tentação ao processo de individualização no dução é efetuada para atender às necessidades
ocidente moderno. Será a partir desse outro de quem produz, quer dizer, cada comunidade
referencial que poderemos compreender as procura ser auto-suficiente. Até recentemente,
dimensões culturais da modernidade por um se fôssemos ao interior do Brasil, observaría-
outro ângulo que nos será bem útil para enten- mos como inúmeras grandes fazendas conti-
nuavam produzíndo muito daquilo que seus
dermos o nascimento das psicologias.ZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
moradores consumiam, e esses produtos não
eram produzidos para serem trocados.
S is te m a m e rc a n til e in d iv id u a liz a ç ã o
Esse quadro muda quando se desenvolve
No inicio da seção anterior, estivemos uma produção para a troca, em que cada um
relacionando a importância qualitativa e quan- passa a produzir aquilo a que está mais capaci-
titativa das experiências da subjetividade priva- tado. Já encontramos aí um forte motivo para a
tizada aos' períodos de desagregação e conflitos experiência da subjetividade privatizada: cada
socioculturais (sem nos preocuparmos com as um deve ser capaz de identificar a sua especia-
origens desses períodos, tarefa que compete lidade, aperfeiçoar-se nela, identificar-se com
aos historiadores). Convém assinalarmos, neste ela. Mas isso não basta. Os produtos produ-
42rqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
PSICOLOGIA zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
PRECONDIÇÕES SOCIOCULTURAIS ... 43

zidos para a troca devem ser levados ao mer- qual devem comprar os produtos de que neces-
cado. Neste, os produtores vão vender o que sitam. Como esses homens foram reduzidos à
fazem e comprar aquilo que não produzem, dependência dos proprietários dos meios de
mas de que necessitam para viver. Todo mundo produção é uma história triste de explorações e
que comprou ou vendeu conhece a situação de violências, roubos e guerras, mas que não cabe
barganha: cada um querendo ser mais esperto, aprofundar neste momento. O importante agora
vender mais caro e comprar mais barato. O mer- é avaliarmos os efeitos da experiência do indi-
cado cria inevitavelmente a idéia de que o lucro víduo no mercado de trabalho, quando este se
de um pode ser o prejuízo do outro e que cada generaliza, sobre a subjetividade privatizada.
um deve defender seus próprios interesses. Em primeiro lugar, o que se disse sobre
Quando o mercado toma conta de todas as rela- a consciência de sua especialidade como pro-
ções humanas, isto é, quando todas as relações dutor, de sua habilidade, destreza e rapidez
entre os homens se dão por meio de compra e aplica-se igualmente ao trabalhador assala-
venda de produtos elaborados por produtores riado, embora muitas vezes esse trabalhador,
particulares, uníversalíza-se a experiência de pelo caráter da atividade que exerce, venha a
que os interesses de cada produtor são para ele ser submetido a uma atividade de tal modo
mais importantes do que os interesses da socie- padronizada que pouco lhe resta de seu. Mas
dade como um todo e assim deve ser. Ora, essa isso já é uma outra história a que voltaremos
é exatamente a situação numa sociedade mer- adiante.
cantil plenamente desenvolvida como a nossa. De forma a entender com mais profundi-
Mas nem sempre foi assim, nem é preciso que dade o significado da economia mercantil para
sempre o seja. Enquanto for, o objetivo conti- a individualização, devemos considerar com
nuará sendo, como dizia um comercial de tele- mais atenção as condições que antecedem a
visão, "tirar vantagem". própria formação do regime assalariado. Para
Porém ainda há mais a dizer. O mercado que existam trabalhadores necessitados de
de produtos não é tudo: há também o mercado garantir a própria sobrevivência, alugando sua
de trabalho. Para este vão os homens que não força de trabalho, é preciso que eles tenham
têm meios próprios para produzir e sobreviver, perdido suas condições mais antigas de vida e
necessitando alugar sua capacidade de traba- produção. Isso significa a ruptura dos vínculos
lho para receber em troca um salário com o que nas sociedades tradicionais pré-capitalistas
PSICOLOGIA zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
PRECONDIÇÓES SOCIOCULTURAIS ... 45
44rqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

uniam os produtores uns aos outros e todos que emprega o assalariado não o manterá se
aos meios de produção. A produção era sem- ele ficar doente, por exemplo (isto hoje fica por
pre diretamente social: embora pudesse haver conta do sistema da previdência, que é a forma
algumas especializações entre os membros de fazer com que um assalariado pague a conta
de uma família ou entre os membros de uma da doença, da invalidez ou da aposentadoria do
pequena comunidade, a existência de cada um outro). A sociedade fica, dessa forma, atomi-
dependia fundamentalmente de sua vinculação zada, quer dizer, em vez de comunidades pro-
com o grupo. Muitos dos meios de produção dutivas, temos indivíduos livres produzindo ou
podiam ser de uso comunitário, como florestas vendendo sua força de trabalho a proprietários
e pastagens. E aqueles meios de produção par- privados. Mas esse indivíduo livre é um desam-
ticulares eram tão rústicos que o acesso a eles parado. Ele pode escolher (até certo ponto),
não encontrava problemas. Além dos vínculos mas, mesmo que a escolha seja real, ele passa
com os meios de produção e da interdependên- a conviver com a indecisão: seu destino, pelo
cia comunitária, havia relações entre senhores menos teoricamente, passa a depender dele, de
e servos ou escravos que se, por um lado conti- sua capacidade, de sua determinação, de sua
nham um elemento de exploração de uns pelos força de vontade, de sua inteligência e, tam-
outros, por outro lado, estabeleciam obrigações bém, de sua esperteza, de sua arte de vencer,
de proteção, defesa e apoio dos fortes em rela- de passar por cima dos concorrentes, de chegar
ção aos fracos. primeiro - e de sua sorte. Ele tem, é verdade, a
Tudo isso precisa desaparecer para que liberdade de lutar por condições melhores, de
surja o trabalhador livre, que pode e necessita mudar de posição na sociedade (nasce pobre,
ir ao mercado de trabalho para arranjar uma mas pode morrer rico), o que, numa sociedade
ocupação. Essa liberdade, contudo, é muito mais tradicional, é quase impossível. Todavia,
ambígua. Ela é principalmente uma liberdade se pode subir, pode também descer, pode che-
negativa, isto é, o sujeito, ao ganhá-Ia, perde gar à miséria sem que ninguém se preocupe
uma porção de apoios e meios de sustentação. com ele - e isso numa sociedade tradicional
Perde a solidariedade do seu grupo: a família ou também é muito improvável.
a aldeia deixam de ser auto-suficientes, e cada
indivíduo vai isoladamente procurar o seu sus-
tento. Perde a proteção de um senhor: o patrão
PSICOLOGIA ZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
46rqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA PRECONDIÇÕES SOCIOCULTURAIS ... 47

Id e o lo g ia lib e ra l ilu m in is ta , vel buscar uma comunicação entre esses seres


diferentes: nas artes, na religião e no patrio-
ro m a n tis m o e re g im e d is c ip lin a r zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
tismo, por exemplo, as diferenças se anulam.
Nos séculos XVIII e XIX desenvolveram- Vemos, assim, que tanto na Ideologia
se na cultura ocidental duas formas de pensa- Liberal como no Romantismo se expressam
mento que refletem muito as experiências da os problemas da experiência subjetiva priva-
subjetividade privatizada numa sociedade mer- tizada: segundo a Ideologia Liberal, todos são
cantil em pleno processo de desenvolvimento: iguais, mas têm interesses próprios (indivi-
a ideologia Liberal Iluminista e o Romantismo. duais); segundo o Romantismo, cada um é
De acordo com a ideologia Liberal, cujas prin- diferente, mas sente saudade do tempo em
cipais idéias manifestaram-se na Revolução que todos viviam comunitariamente e espera
Francesa, os homens são iguais em capacidade pelo retorno desse tempo. Enquanto isso não
e devem ser iguais em direitos. Sendo assim, vem, os românticos acreditam que os grandes e
todos devem ser livres. Contudo, para que essa intensos sentimentos podem reunir os homens,
liberdade não redunde em caos, todos devem apesar de suas diferenças. Já os liberais apos-
ser solidários uns com os outros, sem renunciar tam na utópica fraternidade.
a essa liberdade. Se todos são iguais, é natural Parece que de fato a liberdade individual
que devam ser livres para defender seus inte- acabou não sendo vivida como tão boa assim
resses sem limitações. Entretanto, como todos porque, de um jeito ou de outro, todos parecem
são iguais, é possível supor que, em última se defender contra o desamparo, a solidão e a
análise, possam ser fraternos. Como veremos imensa carga de responsabilidade que implica
adiante, essa última suposição, infelizmente, ser livre, ser singular, ter interesses particu-
ainda não se realizou ... lares e ser diferente. É na busca de reduzir os
No Romantismo do início do século XIX, "inconvenientes" da liberdade, das diferenças
movimento que se expressou intensamente singulares, etc. que se foi instalando e sendo
no campo das artes e da filosofia, como vimos aceito entre nós, ocidentais e modernos, um
anteriormente -, reconhece-se a diferença entre verdadeiro sistema de docilização, de domes-
os indivíduos, e a liberdade é exatamente a ticação dos indivíduos, sistema que coloca
liberdade de ser diferente. Apesar de todos em risco tanto as idéias liberais como as român-
serem diferentes e únicos, lá no fundo é possí- ticas, embora tente se disfarçar mediante algu-
48rqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
PSICOLOGIA PRECONDIÇÔES SOCIOCULTURAIS ... zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYX
49

mas alianças com o Liberalismo e com o próprio psicologia científica: uma clara idéia da expe-
Romantismo. Esse sistema que envolve a ela- riência da subjetividade prívarízada. Mas há
boração e aplicação de técnicas "científicas" outra: é preciso que essa experiência entre em
de controle social e individual será chamado crise, e algumas das manifestações filosóficas
de Regime Disciplinar ou, mais simplesmente, dessa crise já foram apontadas nos itens ante-
"Disciplinas" e pode ser encontrado muito riores. Enquanto a subjetividade prívatízada
facilmente nas práticas de todas as grandes não está sendo contestada (e o Liberalismo e
agências sociais, como as escolas, as fábricas, o Romantismo não a contestam, pelo contrário
as prisões, os hospitais, os órgãos administra- a afirmam como dado ínquestíonável), não há
tivos do Estado, os meios de comunicação de por que se fazer ciência psicológica. Fazer ciên-
massa, etc. Embora essas Disciplinas reduzam cia é sempre ir além das aparências. Para isso,
em muito efetivamente o campo de exerci- é preciso que eu desconfie delas, que elas não
cio das subjetividades privatizadas, impondo sejam compreendidas facilmente. No começo
padrões e controles muito fortes às condutas, do conhecimento há sempre uma desconfiança
à imaginação, aos sentimentos, aos desejos e e no fim há sempre uma decepção. Mas' o que
às emoções individuais, faz parte de seu modo terá levado os homens do século XIX a descon-
de funcionamento dissimular-se, esconder-se, fiarem de suas próprias experiências?
deixando-nos crer que somos cada vez mais A subjetividade privatizada entra em crise
livres, profundos e singulares. É claro, porém, quando se descobre que a liberdade e a dife-
que vai se instalando um certo mal-estar e rença são, em grande medida, ilusões, quando
vão se criando condições para a suspeita dos se descobre a presença forte, mas sempre dis-
homens em relação a si mesmos. É disso, do
farçada, das Disciplinas em todas as esferas da
crescimento das Disciplinas e de seus efeitos vida, inclusive nas mais íntimas e profundas.
subjetivos que trataremos no próximo item.ZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
A crença de que a fraternídade seria possível,
ainda que todos defendessem seus interesses
A c ris e d a s u b je tiv id a d e p riv a tiz a d a particulares, não .sobrevíveu por muito tempo.
Os interesses particulares levam a conflitos;
o u a d e c e p ç ã o n e c e s s á ria
a liberdade para cada um tratar de seu negó-
Bem, até agora falamos principalmente de cio desencadeou crises, lutas e guerras. Os
uma das condições para que surjam projetos de trabalhadores no século XIX foram aos pou-
50rqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
PSICOLOGIA PRECONDIÇÓES S~)cIOCULTURAIS .. 51

cos descobrindo que se defenderiam melhor saber o que somos, quem somos, como somos,
unidos em sindicatos e partidos do que sozi- por que agimos de uma ou outra maneira, surge
nhos. O Estado, a administração pública não para o Estado a necessidade de recorrer a prá-
ficaram inertes. Para combater os movimentos ticas de previsão e controle: como lidar melhor
operários reivindicatórios, para pôr um pouco com os sujeitos individuais?; como educá-los de
de ordem na vida social - em que cada um forma mais eficaz, treíná-los, selecíoná-los para
defendia o que era seu sem pensar nas conse- os diversos trabalhos? Em todas essas questões
qüências para todos - e para defender os inte- se expressa o reconhecimento de que existe um
resses dos produtores de uma nação contra os sujeito individual e a esperança de que é possí-
das outras, a administração pública cresceu, vel padronizá-Io segundo uma disciplina, nor-
cresceram o Estado, a burocracia, cresceram matízá-lo, colocá-Io, enfim, a serviço da ordem
as forças armadas. A partir daí, como ficava social. Surge, desse modo, a demanda por uma
aquela idéia de liberdade individual? Ainda no psicologia aplicada, principalmente nos campos
século XIX, conjuntamente com as burocracias, da educação e do trabalho. Ou seja, o Regime
cresce a grande indústria baseada na produção Disciplinar, em si mesmo, exige a produção de
padronizada e mecanizada, cresce o consumo um certo tipo de conhecimento psicológico de
de massa para os produtos industriais. Onde forma a tornar mais eficazes suas técnicas de
ficava, então, aquela idéia de que cada um é controle. Mas também as subjetividades for-
único e diferente dos demais? madas pelos modelos liberais e românticos,
Quando os homens passam pelas expe- sentindo-se contestadas e problemáticas, são
riências de uma subjetividade privatizada e ao atraídas pelos estudos psicológicos.
mesmo tempo percebem que não são tão livres É assim que no final do século XIX estão
e tão singulares quanto imaginavam, ficam dadas as condições para a elaboração dos pro-
perplexos. Põem-se a pensar acerca das cau- jetos de psicologia como ciência independente e
sas e do significado de tudo que fazem, sen- para as tentativas de definição do papel do psi-
tem e pensam sobre eles mesmos. Os tempos cólogo como profissional nas áreas de saúde,
estão ficando maduros para uma psicologia educação e trabalho. Toda aquela vertente da
científica. filosofia moderna que, como estivemos vendo
Ao lado dessa necessidade que emerge anteriormente, vinha pondo em questão desde
no contexto das existências individuais, de se o século XVIII a soberania do sujeito - alguns
52rqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
PSICOLOGIA zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
PRECONDIÇÓES SOCIOCULTURAIS ... 53

filósofos iluministas (principalmente os ernpí- cia se generaliza com o colapso da ideologia


ristas) e os filósofos românticos - dará subsí- Liberal Iluminista e do Romantismo que, cada
dios importantes para a tarefa de construir um à sua maneira, mantinham inquestionável a
uma psicologia como área específica de pes- noção de subjetividade individual, embora já se
quisa e conhecimento. encaminhassem para posições muito críticas a
respeito. Esse colapso está associado ao desen-
volvimento e ao domínio crescente do Regime
S ín te s e
Disciplinar e se expressa em elaborações filo-
Convém, a título de síntese, recapitular- sóficas que põem em questão a soberania, a
mos as idéias expostas nesta seção antes de autonomia e a identidade dos indivíduos.
passarmos ao tópico seguinte. 3) A suspeita de que a liberdade e a sin-
1) A experiência da subjetividade priva- gularidade dos indivíduos são ilusórias, a qual
tizada, em que nós nos reconhecemos como emerge com o declínio das crenças liberais e
livres, diferentes, capazes de experimentar românticas, abre espaço, finalmente, para os
sentimentos, ter desejos e pensar independen- projetos de prevísão e controle científicos do
temente dos demais membros da sociedade é comportamento individual. Esse será um dos
uma precondição para que se formulem proje- principais objetivos da psicologia como ciên-
tos de psicologia científica. Embora para nós cia a serviço das Disciplinas. Mas abre espaço,
essas experiências sejam óbvias, os estudos his- também, para problematizações teóricas e prá-
tóricos e antropológicos revelam que nem sem- ticas das subjetividades totalmente avessas ao
pre é assim em outras sociedades e culturas. regime disciplinar e que alimentarão muitas
2) Outra precondição para a formulação de das escolas contemporâneas do pensamento
projetos de psicologia científica é a experiência psicológico e, principalmente, suas incidências
na clínica e na educação.MLKJIHGFEDCBA
de que não somos assim tão livres e tão diferen-
tes quanto imaginávamos. É a suspeita de que
há outras "forças invisíveis" nos controlando
e de que não conseguimos espontaneamente
ver com clareza as causas e os significados de
nossas ações que nos leva a investigar o que
há por detrás das aparências. Essa experiên-
A P R Á T IC A C IE N T íF IC A EA
E M E R G Ê N C IA D A P S IC O L O G IA
COMO C IÊ N C IA

C o n h e c im e n to c ie n tífic o :
p riv a c id a d e e d ife re n ç a zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYX

As condições socioculturais até agora refe-


ridas foram o terreno sobre o qual puderam
ser elaborados os projetos de psicologia como
ciência independente e, o que é ainda mais
importante, o terreno propício à ampla difusão
desses projetos e à sua assimilação crescente
pelo conjunto da sociedade.
Para entendermos, contudo, o começo da
psicologia "científica" precisamos considerar
mais de perto o que se passava entre os cientis-
tas e os filósofos do século XIX,pois foram eles
que, levados por preocupações com a própria
ciência, iniciaram a demarcação desse novo
domínio de conhecimento.
As ciências naturais, tal como as conhe-
cemos hoje, são formas bastante recentes de
produção de conhecimento. Foi apenas a partir
dos quatro últimos séculos que se criaram os
atuais modelos de ciência da natureza.
PSICOLOGIA zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
56rqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA A PRÁTICA CIENTíFICA E A EMERGÊNCIA:. 57

Nas práticas científicas modernas a posi- Como disse Francis Bacon (1561-1626) - o filó-
ção do sujeito que produz o conhecimento é sofo inglês que, como vimos anteriormente, foi
bastante contraditória. um dos precursores do novo espírito científico
Por um lado, o cientista sente-se com o e contemporâneo de Descartes -, "a natureza
poder e com o direito de lidar com os fenô- não se vence senão quando se lhe obedece".
menos naturais para conhecê-los, desvendar Para vencer é preciso obedecer e para obedecer
seus mistérios, domíná-los, manípulá-los em é preciso disciplinar a mente, eliminar todos os
experimentos bem controlados, etc. Nenhuma "subjetivismos". A metodologia científica que
dessas atitudes e procedimentos é possível, vem se desenvolvendo desde os quatro últi-
por exemplo, enquanto subsista um respeito mos séculos representa exatamente o esforço
místico e religioso pela natureza - caso em que de disciplinar o espírito para melhor obedecer
devemos apenas amá-Ia, apreciá-Ia, respeitá- à natureza.
Ia. Em outras palavras: a ciência moderna está Ora, essa disciplina não é fácil e foi o pró-
baseada na suposição de que o homem é o prio esforço para impô-Ia que levou os cientis-
senhor que tem o poder e o direito de colocar a tas a reconhecerem a força e a profundidade
natureza a seu serviço. Essa suposição está cla- dos fatores subjetivos. É difícil não confundir
ramente associada ao que dissemos acerca do o que se ·espera encontrar com o que "de fato"
aprofundamento da experiência subjetiva indi- se encontra no fim de uma pesquisa, o que se
vidualizada, já que esta enfatiza a liberdade quer ver com o que se vê "de fato", Pode, tam-
dos homens para decidir e agir de acordo com bém, ser difícil conciliar o que um indivíduo
sua própria cabeça e sem qualquer tipo de limi- conclui com as conclusões de outro indivíduo
tação, elaborando suas crenças e avaliando-as que observou o mesmo fenômeno; e mesmo o
a partir de suas experiências pessoais, de suas que o indivíduo observou com o que foi obser-
conveniências e interesses, livres das restrições vado pelos demais. Enfim, é a própria liberdade
impostas pelas tradições. dos sujeitos e suas diferenças que ficam acen-
Por outro lado, os procedimentos científi- tuadas no momento em que se faz um enorme
cos exigem que os cientistas sejam capazes de esforço para ser objetivo.
"objetividade", isto é, que deixem de lado seus Nessa medida, as práticas científicas con-
preconceitos, seus sentimentos e seus desejos tribuíram para o reconhecimento, entre os
para obterem um conhecimento "verdadeiro". próprios cientistas, com seus ideais de objetívi-
58rqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
PSICOLOGIA A PRÁTICA CIENTíFICA E A EMERGÊNCIA .. 59

dade, de que há fatores subjetivos e individuais repudiam essa meta de conhecer para dominar
permanentemente em ação. Bacon chamou-os os meandros da subjetividade e afirmam, ao
de "ídolos do conhecimento", e a denúncia des- contrário, que o que interessa é conhecer esses
ses ídolos é a primeira obrigação do filósofo e aspectos profundos e poderosos do "eu" para
do cientista. Isto reforça a idéia de uma expe- dar-lhes voz, para expandí-los, para fazê-los
riência subjetiva individualizada, privada, aces- mais fortes e livres. É claro que os que pensam
sível apenas a quem a vive. assim querem fazer da psicologia uma "ciên-
Mas para a ciência progredir seria neces- cia"IHGFEDCBA
s u i q e n e r is não só por ter um campo e um

sário conhecer e controlar essa subjetividade objeto próprios, mas por adotar, em relação
e essas diferenças individuais, e é assim que às demais ciências, outros métodos e outras
o homem, o sujeito individual, deixa de ser metas.
apenas um possível pesquisador para vir a se Diante disso, estamos agora em condições
tornar um possível objeto da ciência. A episte- de entrar no domínio das psicologias "cien-
mologia (teoria do conhecimento) e a metodo- tíficas" (ou nem tanto!) para tentarmos com-
logia (regras e procedimentos da produção do preender os principais projetos de psicologia
conhecimento válido) desembocam na psico- que aí foram elaborados com toda a sua ator-
logia: a denúncia e o expurgo dos "ídolos do doante diversidade teórica, metodológica e de
conhecimento" exigem um estudo prévio da propósitos.
subjetividade e de seus subterrâneos.
Os estudos psicológicos científicos come-
çaram e se desenvolveram sempre marcados
por essa contradição: por um lado, a ciência
moderna pressupõe sujeitos livres e diferen-
ciados - senhores de fato e· de direito da natu-
reza; por outro, procura conhecer e dominar
essa própria subjetividade, reduzir ou mesmo
eliminar as diferenças individuais, de forma a
garantir a "objetividade", ou seja, a validade
intersubjetiva dos achados. Em contraposi-
ção, como veremos adiante, muitos psicólogos
O S P R O J E T O S D E P S IC O L O G IA
COMO C IÊ N C IA IN D E P E N D E N T E

O p ro je to d e W u n d t zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWV

o alemão W. Wundt (1832-1920) costuma


ser reconhecido como um pioneiro na formula-
ção de um projeto de psicologia como ciência
independente, na criação de instituições desti-
nadas à pesquisa e ao ensino da psícología e
na formação de inúmeros psicólogos não só
alemães, mas também de outras nacionalida-
des. Para Wundt, a psicologia era uma ciência
intermediária entre as ciências da natureza e
as ciências da cultura. Sua obra se estende da
psicologia experimental fisiológica à psicolo-
gia social. Ou seja, desde seu inicio, o lugar da
psicologia entre as ciências é um tanto incerto,
e um dos méritos de Wundt foi o de conceber
a psicologia nessa posição intermediária. O
objeto da psicologia é, para Wundt, a experiên-
cia imediata dos sujeitos, embora ele não esteja
primordialmente interessado nas diferenças
individuais ent~e esses sujeitos.IHGFEDCBA E x p e r iê n c ia
im e d ia ta é a e x p e r iê n c ia ta l c o m o o s u je ito a
v iv e a n te s d e rqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFED
se p ô r a p e n s a r s o b r e e la , a n te s
d e c o m u n ic á - I a , a n te s d e " c o n h e c ê - I a " . ZYXWVUTSRQPONM
É , em
62rqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
PSICOLOGIA OS PROJETOS DE PSICOLOGIA. .. 63ZYXWVUTS
zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVU

o u tra s p a la v r a s , a e x p e r iê n c ia ta l com o se dá. capacidade de criação. Ao lado da causalidade


Contudo, Wundt não reduz a tarefa da psicolo- física, Wundt reconhecia a existência de uma
gia à descrição dessa experiência subjetiva. Ele causalidade psíquica, ou seja, de princípios da
quer ir além e tenta fazê-lo de duas formas: a) vida mental independentes dos princípios que
utilizando o método experimental, ele pretende explicam o comportamento dos corpos físi-
. pesquisar os processos elementares da vida cos e fisiológicos. A dificuldade de Wundt era
mental que são aqueles processos mais forte- a de entender como, no homem - que é uma
mente determinados pelas condições físicas unidade psicofísica, em que o corpo e a mente
do ambiente e pelas condições fisiológicas dos não existem separados -, as duas causalidades
organismos. Com o método experimental, em se ligavam uma à outra. Wundt acaba criando,
situações controladas de laboratório, Wundt assim, duas psicologias (embora ele próprio
procura analisar os elementos da experiência pense que está fazendo uma coisa só): a) a
imediata e as formas mais simples de combi- psicologia fisiológica experimental, em que a
nação desses elementos. Mas isso é apenas o causalidade psíquica é reconhecida, mas não
começo da psicologia, e não é o mais impor- é enfocada em profundidade - e nesse sentido
tante para Wundt; e b) por meio da análise dos não se cria nenhum problema mais sério para
fenômenos culturais - como a linguagem, os ligar essa psicologia às ciências físicas e fisio-
sistemas religiosos, os mitos, etc. -, segundo lógicas; e b) a psicologia social ou "dos povos",
Wundt, manifestam-se os processos superiores cuja preocupação é exatamente a de estudar os
da vida mental - como o pensamento, a ima- processos criativos em que a causalidade psí-
ginação, etc. A psicologia social de Wundt não quica aparece com mais força. Como esses pro-
usa o método experimental, mas os métodos cessos são essencialmente "subjetivos" - mas
comparativos da antropologia e da filologia, e só ocorrem claramente na vida social -, não se
seu objetivo é a investigação dos processos de podem fazer experimentos controlados com
síntese, porque para Wundt a experiência ime- eles, apenas estudá-los por meio de seus pro-
diata não é nem uma coisa desorganizada nem dutos socioculturais.
uma mera combinação mecânica de elementos: Para Wundt, o domínio da psicologia era
a "experiência imediata" seria o resultado de vasto e complexo, porque explicar e compreen-
processos de sintese criativa, em que a subje- der a experiência imediata exigiam tanto uma
tividade se manifestaria como vontade, como aproximação com as ciências naturais como
64rqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
PSICOLOGIA OS PROJETOS DE PSICOLOGIA. .. 65

uma aproximação com as ciências da sociedade psicológicos, mas a explica em termos empres-
e da cultura. Mas, na hora de juntar os dois tados de uma ciência natural. Com isso, a psi-
enfoques metodológicos e de juntar as duas cologia deixa de ser tão independente como
imagens de homem no conceito de "unidade pretendia Wundt. Em compensação, começa a
psicofísica", as dificuldades eram imensas, e os desaparecer o problema com a unidade psícofí-
discípulos de Wundt, em sua maioria, desisti- sica: Titchener defende a posição denominada
ram de acompanhar o mestre e foram procurar paralelismo psicofísico, em que os atos mentais
soluções menos complicadas, embora, talvez, ocorrem lado a lado a processos psicofísíológí-
muito mais pobres. coso Um não causa o outro, mas o fisiológico
explica o mental. Como a mente e o corpo
o ZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
p ro je to d e T itc h e n e r
andam lado a lado, é possível fazer psicologia
usando exclusivamente, segundo Titchener, os
Depois de Wundt são inúmeros os autores métodos das ciências naturais: a observação e
que tentarão colocar a psicologia no campo ape- a experimentação. A única diferença seria a de
nas das ciências naturais. É o caso de Titchener que, na psicologia, a observação se daria sob a
(1867-1927) - um dos mais famosos alunos de forma de auto-observação ou introspecção, em
Wundt e principal responsável pela divulgação que os sujeitos experimentais seriam tre,inados
da obra deste nos EUA -, que rede fine o objeto para observar atentamente e descrever com
da psicologia como sendo a experiência depen- total objetividade suas experiências subjetivas
dente de um sujeito - sendo este concebido em situações controladas de laboratório. Nessa
como um puro organismo e, em última análise, medida, Titchener deixa de lado toda a obra de
como um sistema nervoso -, e não mais a expe- Wundt orientada para a psicologia dos povos.
riência imediata. Isso significa que ir além da Uma lição importante que se pode tirar
experiência do sujeito, para elucídá-la, acarre- quando se pensa na relação entre Wundt e
taria a busca de justificativas físíológícas para Titchener é a seguinte: Wundt, ao procurar
os fenômenos da vida mental. Titchener não ser fiel à concepção da psicologia como ciên-
nega a existência da mente, mas esta perde sua cia intermediária, mete-se numa grande enras-
autonomia: depende sempre e se explica com- cada metodológica, mas preserva para a suas
pletamente em termos do sistema nervoso. O propostas uma potencialidade a que sempre
psicólogo descreve a experiência em termos podemos retornarcomo fonte de inspiração.MLKJIHGF
PSICOLOGIA zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
66rqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA OS PROJETOS DE PSICOLOGIA .. 67

É Oque aconteceu 100 anos depois da funda- gia evolutiva: os seres vivos, e entre eles os
ção do famoso .laboratório de Leipzig, quando, animais, sobrevivem se têm as características
nas comemorações do acontecimento, redesco- orgânicas e comportamentais adequadas a sua
bríu-se o pensamento de Wundt como esteio da adaptação ao ambiente. Um certo nível de adap-
moderna psicologia cognitivista, da nova psico- tação envolve as capacidades de sentir, pen-
logia social, da psicolingüística, etc. Titchener, sar, decidir, etc., ou seja, o nível propriamente
ao contrário, tornou a "encrenca" metodoló- psíquico. As operações e processos mentais
gica muito menor quando colocou a psicologia seriam, assim, instrumentos de adaptação e se
totalmente subordinada ao campo das ciências expressariam claramente nos comportamentos
naturais. Mas isso a custo de uma redução de adaptados. Para os psicólogos funcionalistas,
alcance e de interesse para as suas propostas. E o objeto da psicologia são os processos e ope-
esse fenômeno parece se repetir muitas vezes: rações mentais, mas o estudo científico desses
os projetos de psicologia mais interessantes processos exige uma diversidade de métodos.
são os que mais dificuldades têm de se afir- Não excluem a auto-observação, embora não
mar plenamente em termos epistemológicos e aprovem a introspecção experimental no estilo
metodológicos.ZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA titcheneriano, porque esta seria muito artificial.
Não confiam totalmente na auto-observação,
dadas as suas dificuldades científicas: é impos-
A p s ic o lo g ia fu n c io n a l
sível conferir publicamente se uma auto-obser-
Em oposição à psicologia titcheneriana, vação foi bem-feita e, por isso, é difícil chegar a
mas também situando os estudos psicológicos um acordo baseado em observações desse tipo.
entre as ciências naturais, surgiu nos EUA o Em compensação, se os processos e operações
movimento da psicologia funcional, represen- mentais se expressam em comportamentos
tado por autores como]. Dewey (1859-1952), e estes são facilmente observáveis, podemos
]. Angel (1869-1949) e H. A. Carr (1873-1954). estudar indiretamente a mente a partir dos
Os psicólogos funcionalistas definem a comportamentos adaptativos. Convém obser-
psicologia como uma ciência biológica interes- var que, apesar do movimento funcionalista
sada em estudar os processos, operações e atos como um movimento à parte e independente
psíquicos (mentais) como formas de interação ter se dissolvido, várias das idéias fundamen-
adaptativa. Partem do pressuposto da biolo- tais dessa escola estão presentes em muito
68rqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA os PROJETOS DE PSICOLOGIA ..
PSICOLOGIA zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA 69

do que se faz até hoje no campo da pesquisa desenvolvimento. Por exemplo, a doutrina do
psicológica. Na verdade, a maior parte do que paralelismo psicofísico tirava da vida mental
se produziu e se produz no campo da psicolo- sua especiflcidade e sua importância: o psí-
gia, entendida como ciência natural, pode ser quico apenas acompanharia o físico e seria
interpretada como diferentes versões do pen- explicado por ele, mas ambos não interagiriam
samento funcional.ZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA (não exercendo influência sobre o comporta-
mento). Ora, neste caso, qual o sentido de se
continuar estudando a mente? Se Titchener já
o c o m p o rta m e n ta lis m o
assumia a posição de que os mesmos métodos
Em completa oposição à psicologia de das ciências naturais experimentais podem ser
Titchener e em relativa oposição ao funciona- adotados pela psicologia, não seria mais sen-
lismo - mas devendo a ele alguns pressupostos sato ir até as últimas conseqüências e acabar
básicos - surgiu, no começo do século XX, um com a única diferença (a auto-observação em
outro projeto de psicologia científica: o com- vez da observação externa e pública)? Metade
portamentalismo. Segundo esse projeto, elabo- do caminho já fora percorrido pelos psicólo-
rado originalmente pelo psicólogo americano ]. gos funcionais, que aprovavam o uso de méto-
B. Watson (1878-1958), o objeto da "psicologia" dos objetivos no estudo psicológico. Segundo
científica já não é a mente (por isso o termo psi- Watson, era preciso dar outros passos, abando-
cologia foi colocado entre aspas). O objeto é o nando de vez a auto-observação. Redefinindo a
próprio comportamento e suas interações com psicologia como "ciência do comportamento",
o ambiente. O método deve ser o de qualquer Watson podia não só se livrar do método da
ciência: observação e experimentação, mas sem- auto-observação, tão discutível, mas resolvia,
pre envolvendo comportamentos publicamente também, a questão que desde Wundt vinha per-
observáveis e evitando a auto-observação. turbando os psicólogos: a questão da "unidade
Apesar de se apresentar como uma opo- psicofísica". A partir de agora, supunha Watson,
sição às correntes dominantes na psicologia, o já não seria necessário dizer que mente e corpo
comportamentalismo foi criado com base em interagem ou que somente caminham lado a
muitas das posições defendidas por aquelas lado: vamos estudar o comportamento, isto é,
mesmas correntes que, de uma certa forma, s movimentos do corpo e suas relações com
criaram as condições favoráveis para o seu o ambiente. Com o comportamentalismo, pela
70rqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
PSICOLOGIA OS PROJETOS DE PSICOLOGIA. .. 71

primeira vez, os estudos psicológicos "deram funcional. A literatura do início do século XX


as costas" à experiência imediata. Tudo aquilo construiu utopias (ou antí-utopias"), como
que faz parte da experiência subjetiva indivi- 1984, O ZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
p r o c e s s o , A d m ir á v e l m u n d o n o v o ou,
dualizada deixa de ter lugar na ciência, seja nos anos 6 0 , A la r a n ja m e c â n ic a , que talvez
porque não tem importância, seja porque não é representem o temor pela possibilidade de efe-
acessível aos métodos objetivos da ciência. tivação de tal controle.ZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDC
Nessa medida, o "sujeito" do compor-
tamento não é um sujeito que sente, pensa,
decide, deseja e é responsável por seus atos: é P ro je to s d e p s ic o lo g ia
apenas um organismo. Enquanto organismo, o e c o n d iç õ e s d e p ro d u ç ã o
ser humano se assemelha a qualquer outro ani-
mal, e é por isso que essa forma de conceber Antes de prosseguirmos, convém tecer
a psicologia científica dedica uma grande aten- alguns comentários relacionando esses projetos
ção aos estudos com seres não humanos, como de psicologia às condições socíoculturaís que
ratos, pombos e macacos, entre outros. Esses permitiram e incentivaram seu aparecimento.
sujeitos não falam, mas isso não representa Recordemos que as condições para a
um obstáculo para o comportamentalismo de emergência de projetos de psicologia científica
Watson, já que ele não tem o mínimo interesse eram duas: a) um alto nível de elaboração da
na "vívência" do sujeito, na sua experiência ime- experiência subjetiva privatizada; e b) a crise
diata. O comportamentalismo watsoniano inte- dessa experiência, com o reconhecimento de
ressa-se exclusivamente pelo comportamento que o sujeito não é tão livre como julga, nem
observável, com o objetivo muito prático de tão único como crê. É isso que leva à necessi-
prevê-l o e controlá-lo de forma mais eficaz. O dade de superar a experiência imediata para
funcionalismo está presente tanto nessa ênfase compreendê-Ia e explicá-Ia melhor.
pragmática - o que interessa é o conhecimentoMLKJIHGFEDCBA Em Wundt, Titchener e nos psicólogos
ú t i l - como na idéia básica de que comportar-se
funcionalístas, vimos tentativas de partir da
é interagir adaptativamente com o meio. experiência imediata rumo a explicações fisio-
A perspectiva de controle sobre o compor- lógicas, biológicas ou socioculturais. Com o
tamento de Watson enquadra-se na busca de comportamentalismo de Watson, a experiência
uma sociedade administrativa e estritamente imediata é totalmente desprezada: a finalidade
72rqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
PSICOLOGIA OS PROJETOS DE PSICOLOGIA ... 73

da psicologia agora seria o estudo do compor- crenças de que somos seres livres, autocons-
tamento independentemente do que o sujeito cientes, responsáveis e únicos são ridiculariza-
pensa, crê, sente ou deseja. das; somos apenas organismos sujeitos às leis
Vimos, também, que essa posição foi pre- gerais do comportamento na sua interação com
cedida de alguns passos já dados pelos autores o ambiente.
que haviam reduzido o papel da vida mental Só que o comportamentalismo cumpre
(como Titchener) ou que haviam posto em ques- essa tarefa de desiludir sem conseguir expli-
tão a auto-observação (como os funcionalistas). car a experiência imediata, ou seja, nega-a, mas
Se a mente não interage com o físico - que é não a compreende. O problema é que ela não
a posição do paralelismo psicofísico - e se a deixa de existir por causa disso, e esta acaba
introspecção não é um bom método científico, sendo a razão por que ninguém consegue se
a conclusão necessária é a comportamentalista: identificar com a imagem de homem proposta
estudemos apenas os comportamentos adapta- pelo comportamentalismo watsoniano. Todos
tivos e adotemos apenas os métodos objetivos. sentem que, apesar da crise e das dúvidas, há
Com isso, todavia, a psicologia propriamente uma experiência da subjetividade individuali-
dita acaba. zada que, embora em crise, não pode ser sim-
O comportamentalismo, na verdade, não plesmente negada.
é um projeto de psicologia científica, mas É o reconhecimento da experiência ime-
o projeto de uma nova ciência - a ciência do diata subjetiva que sustenta o esforço dos
comportamento - que viria ocupar o lugar psicólogos que definem a psicologia como o
da psicologia. Essa nova ciência deveria ser, estudo da subjetividade· individualizada e da
segundo Watson, uma ciência natural, um experiência imediata. Muitos psicólogos e filó-
ramo da biologia. O comportamentalismo leva sofos, contemporãneos de Wundt e Titchener,
às últimas conseqüências a tarefa científica de dos psicólogos funcionalistas e de Watson, vêm
ir além das aparências, ou seja, de ir além da insistindo na necessidade de a psicologia dedi-
experiência tal como se dá. Essa é uma tarefa car-se ao estudo da experiência imediata dos
de desiludir e, sem dúvida, o comportamen- sujeitos, sem deformá-Ia. Nesse sentido, eles
talismo a cumpre rigorosamente: toda a rica também negam a auto-observação controlada
experiência subjetiva dos indivíduos é expulsa em situação experimental, como era efetuada
da ciência do comportamento, todas as nossas por Titchener - e assim se aproximam dos psi-
74rqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
PSICOLOGIA OS PROJETOS DE PSICOLOGIA .. 75

cólogos funcionalistas. Menos, ainda, admitem sempre em moda, longe de desfazerem ilusões,
a aplicação dos métodos objetivos de observa- muitas vezes contribuem para que as ilusões
ção. O objetivo desses psicólogos é a compre- de liberdade e singularidade sobrevivam num
ensão dos seres humanos mediante a captação mundo em que, concretamente, há cada vez
de suas "vívêncías", de suas experiências ime- menos liberdade e cada vez mais massificação.
diatas, subjetivas e individualizadas. Apesar de tudo, é necessário reconhecer que,
ao insistir na subjetividade individualizada, os
Ou seja, se no contexto da crise da expe-
psicólogos "humanístas" chamam a atenção
ríêncía.da subjetividade individualizada ocorre
para um aspecto que o comportamentalismo de
uma cisão entre a vivência e o comportamento,
Watson rejeita e que, assim fazendo, em vez de
sendo que o que eu vivo, sinto, penso, desejo,
fundar uma psicologia científica, tenta matá-Ia
etc. não se expressa diretamente na minha ação,
e enterrá-Ia.ZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
e esta, que já não é tão minha assim, passa a
ser controlada por outras forças, abre-se um
espaço para uma opção fundamental: o com- A p s ic o lo g ia d a G e s ta lt
portamentalismo deixa de lado a vívêncía para
tentar identificar as forças biológicas e ambien- Passemos agora aos projetos de psicologia
tais que controlam o comportamento, enquanto científica que, sem negar a experiência subje-
as psicologias "hurnanístas" procuram captar tiva, procuram compreendê-Ia e explicá-Ia.
as vívêncías na sua intimidade e na sua priva- Ainda no começo do século XX, sur-
cidade. Ao f'azê-lo, porém, tornam-se incapazes giu outro projeto de psicologia científica na
de duas coisas: em primeiro lugar, de explicar Alemanha. Essa escola psicológica denominou-
os comportamentos, pois só estão interessados se "psicologia da Gestalt", palavra alemã de
na compreensão de como o sujeito "vive", mas difícil tradução: ora traduz-se por psicologia
não em por que ele age assim e não de outra da estrutura, ora por psicologia da totalidade,
forma. Em segundo lugar, de ultrapassar a ora por psicologia da forma, e freqüentemente
experiência imediata, de questioná-Ia, explicá- conserva-se o termo alemão não traduzido ou
Ia e compreendê-Ia em maior profundidade. aportuguesado, como na denominação "gestal-
Tornam-se, enfim, incapazes de fazer psico- tismo". Os psicólogos gestaltistas mais impor-
logia científica. Em conseqüência, essas psico- tantes - M. Wetheimer (1880-1943); K. Koffka
logias humanistas, que são antigas, mas estão (1886-1941) e W. Kohler (1887-1967) partiam da
76rqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
PSICOLOGIA os PROJETOS DE PSICOLOGIA. .. 77

experiência imediata e adotavam, como proce- não precisa se repartir entre elas para existir.
dimento para captação da experiência tal como A unídade psicofísica não apresenta proble-
se dava ao sujeito, o método fenomenológico. mas para os gestaltistas, já que eles crêem que
Esse método consiste na descrição ingênua dos a natureza física, social e psicológica é conce-
fenômenos tais como aparecem na consciência, bível em termos de estruturas isomórficas, ou
antes de qualquer reflexão ou conhecimento, seja, de estruturas formalmente equivalentes.
ou de qualquer tentativa de análise. Aplicando Não podemos, neste capítulo, aprofundar a
o método fenomenológico, os gestaltistas des- compreensão do isomorfismo proposto pelos
cobriram que todos os fenômenos da percep- gestaltistas. O que convém enfatizar aqui é o
ção, da memória, da solução de problemas, da caráter do projeto de psicologia científica dos
afetividade, ete. eram vividos pelo sujeito sob a gestaltistas, que comporta dois aspectos essen-
forma de estruturas, isto é, sob a forma de rela- ciais: a) o reconhecimento da experiência ime-
ções entre partes que faziam com quê a forma diata; e b) a preocupação de relacionar essa
resultante fosse mais que a mera soma das experiência com a natureza física e biológica e
suas partes. Assim, aproximavam-se da idéia de com o mundo dos valores socioculturais.MLKJIHGFEDC
Wundt de que a experiência imediata é produto
de processos de síntese em que os elementos
o ZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
c o m p o rta m e n ta lis m o d ife re n c ia d o :
se fundem e adquírem novos signíficados. Essa
idéia, porém, estava particularmente presente o b e h a v io ris m o radical d e S k in n e r
na sua psicologia dos povos, que não conquis-
Um outro projeto de psicologia científica
tara muito respeito na comunídade científica.
foi desenvolvido pelo psicólogo americano
Ao contrário de Wundt, os gestaltistas chegam
B. F. Skinner (1904-1990). Embora se trate de
a essas conclusões experimentalmente e, dessa um comportamentalismo, o projeto de Skinner
maneira, procuram demonstrar o caráter estru- afasta-se imensamente do de Watson, sendo
tural dos fenômenos da experiência. Mas não um erro absurdo reuni-Ias numa mesma aná-
ficam nísso: eles procuram transpor a experiên- lise. Skinner deu enormes contribuições ao
cia imediata e relacioná-Ia com o mundo físico estudo das interações entre organísmos vivos
e fisiológico. Para eles o conceito de "Gestalt" e seus ambientes, adotando de forma rigorosa
permite unificar todas as ciências físicas, bio- os procedimentos experimentais. No entanto,
lógicas e da cultura, de forma que a psicologia não é a essa parte de sua obra que nos referi-
78rqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
PSICOLOGIA OS PROJETOS DE PSICOLOGIA. .. 79

mos quando atribuímos ao projeto de Skinner e as intenções de um sujeito passam a ser fato-
um lugar de destaque no campo da psicologia. res socialmente importantes para o controle
Skinner torna-se importante para a psicolo- do comportamento, já que outras formas de
gia, além da sua importância para o estudo do controle estão reduzidas, é natural que a socie-
comportamento dos organismos -, quando se dade se preocupe muito com a "vida privada"
põe a falar da subjetividade: do mundo "pri- e desenvolva em cada sujeito uma habilidade
vado" das sensações, dos pensamentos, das especial para falar e "pensar" em si mesmo,
imagens, etc. Skinner não rejeita a experiência para preocupar-se consigo e relatar claramente
imediata, mas trata de entender sua gênese e suas experiências "imediatas" a fim de formu-
sua natureza. Ele não duvida de que os homens lar seus projetos, etc. O uso de aspas em ime-
sintam sem expressar seus sentimentos, que diatas justifica-se porque, de fato, segundo
os homens se iludam, alucinem, reflitam sobre Skinner, as experiências subjetivas não têm
as coisas e sobre si mesmos, relatem temores, nada de imediato; são sempre construídas pela
aspirações e desejos. Tudo isso é real, mas, sociedade. O projeto de psicologia skinneriano
segundo Skinner, devemos investigar em que pode ser, então, caracterizado como o do reco-
condições a vida subjetiva privatizada se desen- nhecimento e crítica da noção de experiência
volve. A resposta do autor remete às relações imediata a partir de um ponto de vista social.
sociais. É em sociedade que se aprende a falar É clara aí a intenção de desiludir: aquilo que
e uma parte da fala pode referir-se ao próprio aparentemente mais nos pertence não é nosso,
corpo e ao próprio comportamento do sujeito. mas é apenas um produto social.
Contudo, essa capacidade para falar de si é A intenção desilusora dos valores huma-
aprendida na convivência com os outros. Toda nistas modernos na obra de Skinner é explicí-
linguagem é, assim, social, mesmo quando se tada por ele próprio, aliás, em seu livro OIHGFEDCBAm i t o ZYXWVUT
refere ao "mundo privado". Por isso mesmo, o d a lib e r d a d e . Nele, a crença de que nossas ações

mundo privado de cada um é uma construção são causadas pelo "eu" ou têm motivos internos
social. O que eu sinto, vejo, pressinto, lembro, é denunciada como a última das superstições.
penso, desejo, etc. sempre depende da maneira O homem antigo acreditava que os fenômenos
como a sociedade me ensinou a falar e a pres- naturais eram causados pela Intenção de seres
tar atenção aos estados do meu organismo. superiores, os deuses. O avanço da observação
Numa condição social em que os sentimentos sobre a regularidade das leis da natureza teria
PSICOLOGIA zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
OS PROJETOS DE PSICOLOGIA .. 81
80rqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

feito recuar cada vez mais esse modo antro- O que une esses dois autores é apenas
pomórfico de compreensão' do mundo: onde a - mas isso não é pouco - a perspectiva de
ciência chega, a crença em que uma consciência estudar a gênese do sujeito, levando em con-
teria causado intencionalmente os fenômenos sideração sua experiência imediata, mas não
vai desaparecendo, a religião recua. se restringindo a essa experiência na busca
A Modernidade teria acabado com quase de compreensões e explicações mais profun-
todas as formas de crença dessa natureza, tendo das. Isso poderia aproxímá-los de Skinner. No
restado apenas a crença numa última alma: a entanto, há uma diferença decisiva. A crítica de
nossa. A crença de que nossa consciência é a Skinner à experiência imediata, subjetiva e indi-
causa de terminante de nossas ações deveria vidualizada conclui pela "colonização social do
ser tratada como um último preconceità ou íntimo". A vida privada continua existindo, só
ignorância. A simples existência de uma alma que ela só é privada na aparência. De fato, ela
(mente) independente do corpo ou do ambiente é de "cabo a rabo" social. O indivíduo não é
já não faria qualquer sentido. Assim, a noção nada, a sociedade é tudo. Explica-se, por exem-
moderna de sujeito, que trabalhamos nos capí- plo, a nossa consciência de sermos seres livres
tulos anteriores, como aquilo que "subjaz" a e responsáveis, mostrando exatamente que não
tudo e é livre para determinar seu destino cai somos nem uma coisa nem outra.
totalmente por terra com Skinner.ZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA Piaget e Freud fazem o caminho inverso:
do ser biológico ao ser moral. Ambos partem,
A p s ic o lo g ia c o g n itiv is ta d e P ia g e t em suas teorizações, de certos pressupostos
biológicos, mas em nenhum dos casos a expe-
e a p s ic a n á lis e fre u d ia n a
riência imediata dos sujeitos é reduzida a seus
Outra proposta de psicologia científica condicionantes naturais. Nessa medida, ambos
foi desenvolvida pelo psicólogo suíço]. Piaget retomam, com todas as dificuldade sabidas, o
(1896-1980). Ao lado dessa proposta, com um projeto de Wundt que não renunciava nem às
desenvolvimento totalmente independente, determinações biológicas nem às determina-
com outros pontos de partida e outras finali- ções socioculturais na delimitação do campo
dades, encontramos a psicanálise concebida e de estudos da psicologia. Na verdade, os cami-
desenvolvida por S. Freud (1856-1939). nhos desses dois autores são bem distintos.
82rqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
PSICOLOGIA os PROJETOS DE PSICOLOGIA .. 83

Píaget, ex-biólogo, estuda o desenvolvi- se não havia lesão, não poderia haver doença.
mento das funções cognitivas (da inteligência) e Além do que, esses pacientes eram altamente
da moralidade (da capacidade de julgar e com- dramáticos e as paralisias de que reclamavam
portar-se moralmente) pelo chamado "método não correspondiam ao mapeamento nervoso
clínico". Ele observa o comportamento de crian- ou muscular do corpo, o que fazia com que
ças e pede a elas que descrevam o que estão os médicos simplesmente não reconhecessem
fazendo; pede, também, que justifiquem o que como legítimo seu sofrimento.
e como estão fazendo, propõe a elas algumas Tendo que lidar com o sofrimento desses
tarefas para desenvolverem, sempre as obser- pacientes, Freud não pôde se contentar com a
vando e conversando com elas. Seu objetivo atitude de seus colegas médicos e chegou à com-
é, antes de tudo, tentar entender a experiên- preensão de que a "lesão" de que se tratava na
cia imediata das crianças, como elas "vivem", histeria não incidia sobre um nervo, mas sobre
percebem e pensam sobre o mundo. Com base a idéia relativa a determinada parte do corpo.
nisso, ele procura construir uma teoria que Freud articula um evento corporal - uma con-
explique essas experiências e por que, ao longo versão histérica - ao universo representativo da
do crescimento, as experiências da criança vão pessoa. Num certo sentido, ele atravessa a dis-
mudando e ela vai "vivendo" o mundo de forma tinção simples e clássica entre mente e corpo.
cada vez mais complexa e adaptativa. A história que se seguiu é extensa e a
Freud, como Piaget, veio da biologia, mas, retomamos apenas em linhas gerais. Os sinto-
depois de abandonar o laboratório de fisiologia, mas histéricos passaram a ser tomados como
cria e se dedica à clínica psicanalítica. Como é resultado de uma dinâmica psíquica composta
sabido, Freud teve sua formação em neurolo- por: conflito, repressão e retorno do repri-
gia. Ao receber em sua clínica certos pacien- mido. Determinados conflitos entre tendências
tes - denominados histéricos - com sintomas contraditórias geram um tal sofrimento que
de paralisias e anestesias localizadas, ele se se torna impossível suportá-los: como defesa
defrontou com a falta de instrumental neuroló- contra esse sofrimento, há então a inibição
gico para responder ao sofrimento deles. Seus de uma das tendências, a repressão da repre-
mestres não reconheciam a existência de uma sentação (ou dé um conjunto delas) cuja cons-
doença nesses pacientes, na medida em que ciência gera dor. ,Essa exclusão do campo da
não podiam identificar neles lesões orgânicas - consciência de fato evita a dor imediata, mas
84rqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
PSICOLOGIA OS PROJETOS DE PSICOLOGIA. .. 85

a representação excluída persiste inconsciente- tico do século XIX, como uma psicologia das
mente no psiquismo, agora fora do controle do profundidades, como o próprio Freud por
eu. Na medida em que ela é real e significativa, vezes enuncia. Mas a concepção de que a sub-
acabará por se manifestar à revelia do "eu". jetividade humana é cindida e incompleta, de
Como resultado de um embate entre represen- que o "eu" não é a totalidade nem o centro do
tação inconsciente e defesa, e por uma série de psiquismo pode ser original, sobretudo porque
compromissos, dá-se o retorno simbólico do a idéia de que o "eu" não é o centro não é subs-
reprimido como sintoma, sonho, ato falho, etc. tituída pela crença de que "outra coisa" seja o
Essas formações do inconsciente têm necessa- centro. Em Freud não há lugar para se pensar
riamente a característica da deformação, para numZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
s e lf , num "eu" verdadeiro ou numa natu-
que a consciência não reconheça o desejo em reza íntima. Não há um centro do inconsciente.
questão. O termo sintoma talvez possa ser uti- Poderíamos entender a psicanálise como uma
lizado genericamente para todos esses produ- teoria racionalista que, no entanto, se defronta
tos, na medida em que ele expressa a idéia de com os limites do representável,
que o sentido daquilo que se trata está oculto: Retomando a questão da clínica, Freud
dizer que algo é sintoma é dizer que seu sen- entra em contato com as experiências subje-
tido não reside em si, mas ele representa outra tivas altamente individualizadas de inúmeros
coisa, esta, invisível diretamente. pacientes que chegam se queixando de sofri-
Freud define o inconsciente como o objeto mentos os mais estranhos. Pois bem, Freud os
da psicanálise, o que seria um contra-senso do ouve, tenta compreender o que dizem, mas vai
ponto de vista positivista: o inconsciente por aos poucos descobrindo que as palavras e os
definição não é um fenômeno positivo no sen- sintomas de seus pacientes têm um significado
tido de que "dado diretamente à observação". que os próprios doentes não conhecem. Freud
Neste ponto em que se coloca o impedimento tenta, então, desenvolver uma técnica de inter-
para que a psicanálise seja reconhecida como pretação desse sentido oculto. Pede aos pacien-
uma ciência nos moldes positivistas, reside tes que lhe contem, tudo sem censura alguma,
provavelmente o que a psicanálise tem de mais tudo que lhes venha à cabeça. Quando eles
particular entre as teorias psicológicas. começam a falar sem receio e sem tentar elabo-
A concepção do inconsciente poderia ser rar um discurso lógico, começam a despontar
tomada simplesmente num referencial român- os sentidos ocultos. Mas Freud não se con-
86rqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
PSICOLOGIA zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
OS PROJETOS DE PSICOLOGIA. .. 87

tenta em compreender a experiência imediata como somos, por que somos e por que agimos
do paciente melhor do que ele próprio a com- de uma ou de outra maneira. Ora, ísso reflete
preendia, e isso já seria muito importante em muito bem a nossa condição existencial: ternos
termos científicos; já seria uma forma de trans- uma clara noção, vivemos intensamente e atri-
cender a experiência imediata. Freud, porém, buímos um alto valor à nossa experiência da
quer explicar essa experiência e, para tanto, subjetividade privatizada e, ao mesm.o tempo,
precisa desenvolver uma teoria da psique e do sentimos que nossa subjetividade e nossa indi-
desenvolvimento psicológico. Como essa teoria vidualidade estão ameaçadas.
vai além do "psicológico" e do "vivido": essa
Enfim: a psicologia está hoje, como desde
parte de sua obra foi denominada "metapsíco-
o início, dividida entre diferentes linhas de pen-
logia"ZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
( m e t a quer dizer "além de").
samento, das quais revimos algumas das mais
Nas obras de Piaget e principalmente nas importantes. O que gostaríamos que ficasse
de Freud e seus seguidores (e em algumas claro para o leitor é que essas divisões não são
outras linhas que ficaram de fora dessa breve casuais nem se deve esperar que sejam breve-
introdução, como, por exemplo, a psicologia mente superadas. A psicologia tornou-se possí-
analítica de ]ung e a psicologia fenomenológíca vel, corno ciência independente, no bojo de uma
existencial), vemos que se a psicologia pode crise. Seu objeto, a experiência subjetiva dos
partir da experiência imediata, deve se esfor- indivíduos, só pode ser tratado cientificamente
çar para não se restringir a ela (sem negá-Ia), se for de alguma forma superado, isto é, a psi-
de forma a ser capaz de compreendê-Ia e/ou cologia está sempre sendo tentada a ir além
explicá-Ia. Nesses projetos, é possível reconhe- da experiência imediata para compreendê-Ia e
cer a importância da "vívêncía", da experiência para explicá-Ia e, nesse esforço, é natural que
tal como o sujeito a tem e, ao mesmo tempo, a ela se aproxime de outras áreas do saber, como
ímportâncía de se tentar fugir ao fascínio dessa a Biologia e a Sociologia. Quando, contudo, a
experiência, que em grande medida é ilusória: psicologia leva às últimas conseqüências essas
se há um sentido que ultrapassa o sentido apa- tendências, ela pode simplesmente deixar de
rente e se há necessidade de uma compreen- ser psicologia. Seria, então, novamente o caso
são profunda para ã experiência imediata, é de perguntar: há lugar para uma psicologia
porque nós não somos para nós mesmos facil- científica como ciência independente entre as
mente compreensíveis, nem sabemos ao certo demais ciências?
A P S IC O L O G IA C O M O
P R O F IS S Ã O E C O M O CULTURA

O p s ic ó lo g o : fu n ç õ e s e m ito s zyxwvutsrqponmlkjihgfe

A profissão de psicólogo esteve inicial-


mente ligada aos problemas de educação e
trabalho.
O psicólogo "aplicava testes": para selecio-
nar o "funcionário certo" para o "lugar certo",
para classificar o escolar numa turma que lhe
fosse adequada, para treinar o operário, para
programar a aprendizagem, etc. Todas essas
funções ainda são importantes na definição da
identidade profissional do psicólogo e mostram
claramente como até hoje a vinculação das psi-
cologias às demandas do Regime Disciplinar
são importantes.
Mas hoje, quando se fala em psicólogo, o
leigo logo pensa no psicólogo clínico, e quem
se decide a estudar psicologia quase sempre é
com a intenção de se tornar um clínico. Embora
durante muitos anos essa especialização nem
existisse legalmente, atualmente é a principal
identidade do psicólogo aplicado. Enquanto
o psicólogo do trabalho ou das organizações
serve à indústria ou a qualquer outra ínstí-
90rqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
PSICOLOGIA zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
A PSICOLOGIA COMO PROFISSÃO E COMO CULTURA 91

tuição, procurando torná-Ia mais eficiente, e, guajar popular e que as pessoas cada vez mais
enquanto o psicólogo escolar serve ao sistema pensem acerca de si e dos outros com termos
educacional. procurando torná-Io, também, emprestados das escolas psicológicas.
mais eficaz, o psicólogo clínico costuma estar Ao serem incorporadas à vida quotidiana
a serviço do indivíduo ou de pequenos grupos de algumas camadas da população, "as psico-
de indivíduos. logias" convertem-se quase sempre numa visão
Parece realmente" que é a crise da subje- de mundo altamente subjetivista e individua-
tividade privatizada que incrementa a procura lista. Com isso, queremos dizer que mesmo as
pelos serviços da psicologia clínica e faz com teorias psicológicas que não se restringem à
que o psicólogo clínico acabe se tornando uma experiência imediata da subjetividade individua-
figura quase popular entre certas camadas da lizada, como a psicanálise, ao serem assimila-
população. das pela sociedade, têm se tornado uma forma
O psicólogo aparece para muita gente de manter a ilusão da liberdade e da singula-
como uma espécie de adivinho e de bruxo, que ridade de cada um, em vez de compreender e
descobre rapidamente quem somos e produz explicar o que há de ilusório nessas idéias. É
mudanças mágicas no nosso jeito de ser. É bom assim que a psicologização da vida quotidiana
que todos saibam das dificuldades que tem o tem nos levado a pensar o mundo social e a
psicólogo para entender a sua própria ciên- nós mesmos a partir de uma visão bem pouco
cia e a sua própria pessoa. Aí, talvez, esperem crítica.
menos dele ... A psicologia popularizada tem servido
Alguns psicólogos clínicos, principalmente para sustentar a palavra de ordem "cada um na
alguns psicanalistas menos sérios, viraram sua, pensando os seus problemas e defendendo
conselheiros sentimentais e modelos de com- os seus interesses e a sua felicidade".
portamentocharmoso. Aparentemente, nada Certamente, a tendência que tem mais
disso teria a ver com a psicologia como ciência. crescido e aumentado seu mercado recente-
No entanto, além de sua pretensão à cíentífící- mente é a das "terapias de auto-ajuda". Numa
dade, a psicologia é, 'também, um ingrediente mistura de concepções do senso comum ou
da nossa cultura. Isso quer dizer que é cada baseadas em teorias psicológicas, em pressu-
vez mais freqüente que as teorias psicológicas postos humanistas sobre a liberdade do homem
se popularizem e sejam assimiladas pelo lin- e num estilo de administração empresarial niti-
92rqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
PSICOLOGIA

damente comportamentalista, esse discurso B IB L IO G R A F IA C O M E N T A D A


(que soa como o de um pastor protestante
americano, e isso é mais do que uma coincidên-
cia) prega um paradoxal reforçamento do "eu"
com sua submissão a um conjunto de regras de
gerenciamento da própria vida. Nas disciplinas "Psicologia geral" (exten-
Isso poderia ser designado como hiperin- siva a dois semestres), oferecida no Instituto de
dividualismo, e cultivá-lo é exatamente o con- Psicologia da USP, e "Teorias e sistemas psico-
trário do que poderíamos esperar de qualquer lógicos", oferecida na Faculdade de Psicologia
psicologia científica. Essa afirmativa não parte da Uníp, o presente texto é complementado
de uma postura moral do tipo "não é direito pela leitura obrigatória de três livros, cuja refe-
pensarmos em nós como se fôssemos o centro rência é dada a seguir.
do Universo". ° problema é que de fato não
somos, e a tarefa da ciência moderna tem sido FIGUEIREDO,L. C. M. (1991)IHGFEDCBA M a tr iz e s d o p e n s a -
sempre a de nos recordar que o Sol não gira em m e n to p s ic o ló g ic o . Petrópolis, Vozes.
torno da Terra. Embora pareça.ZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA Nesse livro são apresentados os sistemas
e teorias psicológicas a partir de seus
pressupostos: crenças sobre o real, sobre
o homem e sobre o conhecimento. São,
também, discutidas as implicações éticas
e políticas das diversas posições teóricas e
metodológicas.

-- (1992). A In v e n ç ã o d o p s ic o ló g ic o . Q u a tr o
s é c u lo s d e s u b je tiv a ç ã o . São Paulo, Educ/
Escuta.
Nesse livro, o percurso histórico aqui
apresentado resumidamente é plenamente
desenvolvido. Da mesma forma, os capítu-
los finais apresentam um quadro pano-
94rqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
PSICOLOGIA

râmico das condições socioculturais hoje Q U ESTÕ ES DE ESTU DO ·


dominantes e de como elas se refletem no
E D I S C U S S Ã O ZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
campo dos estudos psicológicos com toda
a sua variedade.

FIGUElREDO,L C. (1996).ZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
R e v is it a n d o a s p s ic o lo -

g ia s . D a e p is t e m o lo q ia à ética d a s p r á t ic a s
A p s ic o lo g ia c o m o
e d is c u r s o s p s ic o ló g ic o s . 2 ed. Petrópolís/
c iê n c ia in d e p e n d e n te
São Paulo, Vozes/Educ.
Do livro constam diversos ensaios acerca
1. Quais as dificuldades envolvidas na
da história da psicologia, dos lugares das
criação de uma nova ciência e, especificamente,
. psicologias na cultura contemporânea,
na elaboração de uma psicologia científica?
dos fazeres psicológicos e da pesquisa em
2. Como você vê a questão da independên-
psicologia.
cia da psicologia e das suas relações com as
SANTI,P. L. R. (1997). E le m e n t o s p a r a u m a h is t ó - demais ciências? Justifique a sua resposta.
r ia d a p s ic o lo g ia . São Paulo, Unip. (Cadernos

de Estudo e Pesquisa; Série Didática).


P re c o n d iç õ e s s o c io c u ltu ra is

Além desses trabalhos, são recomendados p a ra o a p a re c im e n to d a p s ic o lo g ia


os seguintes livros: c o m o c iê n c ia n o s é c u lo X IX

HEIDBREDER,E. (1969). P s ic o lo g ia s d o s é c u lo xx. 1. Em que condições a experiência da sub-


São Paulo, Mestre jou, jetividade privatizada se aprofunda e genera-
PENNA, A. G. (1978). I n t r o d u ç ã o à h is t ó r ia d a liza? Por que isso ocorre? Quais são, para você,
p s ic o lo g ia c o n te m p o râ n e a . Rio de Janeiro, nas nossas atuais condições de vida, os fato-
Zahar. res socioculturais que propiciam a privatização
__ (1981). H is t ó r ia d a s id é ia s p s ic o ló g ic a s . Rio das experiências? Exernplífíque.
de Janeiro, Zahar. 2. Em que sentido Descartes pode ser con-
SCHULTZ, D. (1981). H is t ó r ia d a p s ic o lo g ia c o n - siderado o fundador da concepção moderna de
te m p o râ n e a . São Paulo, Cultrix.MLKJIHGFEDCBA sujeito?
PSICOLOGIA QUESTÕES DE ESTUDO E DISCUSSÃO 97ZYXWVU
96zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

3. O Romantismo ao mesmo tempo critica A p rá tic a c ie n tífic a e a e m e rg ê n c ia


a modernidade e valoriza o sujeito. Como é pos-
d a p s ic o lo g ia c o m o c iê n c ia
sível essa tarefa aparentemente contraditória?
4. Como Nietzsche acaba por dissolver a 1. Mostre as relações entre a metodologia
concepção de sujeito? científica própria da ciência moderna e o inte-
5. Por que o sistema mercantil plenamente
resse nos fatores subjetivos.
desenvolvido favorece o aprofundamento e a
generalização da experiência subjetiva priva- 2. Que contradição o texto aponta na
tizada? Mostre na sua resposta as implicações relação da metodologia científica com a
do mercado de bens e do mercado de trabalho subjetividade?
para a existência social dos indivíduos.
6. O que se ganha e o que se perde com a
"liberdade negativa"? O s p ro je to s d e p s ic o lo g ia
7. Por que a ideologia liberal e o moví- c o m o c iê n c ia in d e p e n d e n te
mento romântico podem ser considerados
como manifestações da experiência subjetiva 1. Exponha a posição de Wundt sobre a
privatizada nos tempos modernos? natureza da psicologia.
8. O que quer dizer "fazer ciência é sem-
2. Por quais vias Wundt procurava ir além
pre ir além das aparências e para isso é preciso
da "experiência imediata" e por que ele não se
que eu desconfie delas"? Quais as conseqüên-
contentava com a experimentação?
cias dessa afirmação para a criação de uma psi-
cologia científica? 3. Wundt deu início a uma psicologia
9. O que faz com que a experiência subje- como ciência intermediária ou, na verdade, a
tiva privatizada entre em crise? Discuta a partir duas psicologias relativamente autônomas?
do texto e das suas próprias vivências as idéias Justifique sua resposta.
de liberdade e singularidade do indivíduo.
4. Como Titchener pode ser diferenciado
10. Para que e com que finalidades as
de seu mestre Wundt no que concerne a sua
grandes agências de controle social (Estado, as
concepção do objeto da psicologia e da natu-
forças armadas, as empresas, etc.) se interes-
sam pela psicologia científica? reza dessa ciência?
PSICOLOGIA zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA
98rqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA QUESTÓES DE ESTUDO E DISCUSSÃO 99

5. Como os psicólogos americanos funcio- que seja possível unificar os níveis fenomeno-
nalistas podem ser diferenciados de Titchener lógico, cultural, biológico e físico. O que você
no que concerne as suas concepções do objeto entendeu por "estruturas isomórficas"?
da psicologia?
14. Como Skinner trata do mundo privado
6. Qual a principal oposição de Watson a
e como se diferencia do comportamentalismo
todos os psicólogos anteriormente estudados?
de Watson?
7. Por que é possível dizer que a doutrina
titcheneriana do paralelismo psicofísico acabava 15. Por que as expenencias subjetivas
favorecendo a vitória do comportamentalismo? privatizadas não são nunca verdadeiramente
8. Qual a solução de Watson para a ques- experiências imediatas para Skinner?
tão da "unidade psicofísica"? 16. O que aproxima os enfoques de Piaget
9. Qual o sentido, no contexto do com- e de Freud?
portamentalismo, de experiências com animais 17. Por que a parte mais teórica da obra
não humanos?
de Freud é chamada de metapsicologia?
10. Que relações podem ser estabelecidas
18. Explique em que sentido o incons-
entre a mudança de objeto para a psicologia,
ciente pode ser considerado como um conceito
proposta por Watson, e a crise da experiência
subjetiva privatizada? O autor do texto parece influenciado pelo Romantismo ou contrário a
não aceitar totalmente essa mudança, pelo ele.
menos na forma proposta por Watson. Por quê? 19. O autor do texto parece defender
E você, como vê a questão?ZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA uma dada maneira de fazer psicologia. Tente,
11. Explicite as opções dos psicólogos nas suas palavras, explícítar essa posição. Em
"humanístas" no que concerne ao objeto de seguida, diga o que você pensa a respeito.
estudo da psicologia.
20. Afinal: há ou não lugar para uma psi-
12. Que problemas o autor do texto vê nas
cologia científica? Justifique sua resposta.
propostas "das psicologias" humanistas?
13. Pelo conceito de "Gestalt" os psicólogos
gestaltistas ou psicólogos "da forma" supõem
100 PSICOLOGIA ZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

A p s ic o lo g ia c o m o NOTA SOBRE OS AUTORES


p ro fis s ã o e c o m o c u ltu ra zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

1. Como se pode explicar o fato de que


a psicologia clínica é a que mais atrai e a que
mais cresce entre todas as áreas de atuação do
psicólogo? L u ís C la u d io M e n d o n ç a F ig u e ire d o
2. Que conseqüências tem tido a "psícolo-
gização da cultura"? Tente responder a partir Fez a graduação em Psicologia na Universidade
do texto e das suas observações e vivências. Federal do Rio de Janeiro, Universidade
Católica de Chile e PUC-SP; obteve os títu-
los de Mestre, Doutor e Livre-Docente em
Psicologia pela Universidade de São Paulo;
lecionou na Universidade Federal da Paraíba,
na UFR] e na PUC-R]; atualmente, leciona no
Instituto de Psicologia da Universidade de São
Paulo e nos cursos de Mestrado e Doutorado
em Psicologia Clínica da PUC-SP; dirige o
Centro de Pesquisa em Psicologia da Unip;
tem trabalhos publicados nas áreas da filo-
sofia, das ciências sociais, da psicologia e da
psicanálise; atende em consultório particular
como psicanalista.

P e d ro L u iz R ib e iro d e S a n ti

Formou-se em psicologia pela PUC-SP; fez


o curso de especialização em Fundamentos
filosóficos da psicologia e da psicanálise
pela Unicamp e obteve o titulo de Mestre em
102 PSICOLOGIA zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

Filosofia pela USP; atualmente, faz o douto-


rado em Psicologia Clínica na PUC-SP; é pro-
fessor responsável pela cadeira de Teorias
e Sistemas Psicológicos na Faculdade de
Psicologia da Unip e pela cadeira de Psicologia
na Faculdade de Comunicação Social da ESPM;
tem trabalhos publicados nas áreas da histó-
ria da psicologia e da psicanálise; atende em
consultório particular como psicanalista.
t ti ,r
de qualquer busca
Inicialmente sub ,zyxwvutsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCB
11" 1111
a ciências tais com I 'I I r um conhecimento?

logia e a fisiologia, < I Ic f •r ser esta a opinião dos

logia ocupa hoje um IlIH,1I , u ores: "No começo do

de destaque como I " 11 onhecimento há sempre

independente. uma desconfiança e no fim

É esse trajeto da p I há sempre uma decepção".

logia rumo a uma auton 1'111,\ Decepção necessária,que

enquanto área de saber p nos remete constantemente

cífico que o leitor encontrm , à busca de novos conhe-


no texto de Luís Claudl cimentos.

M. Figueiredo e Pedro Lul Mas dizer que no fim

Ribeiro de Santi. de todo conhecimento há

Texto que tem o mérito uma decepção não significa

de não proceder à simpl invalidar novos projetos de

exposição das diferent conhecimento. Pelo con-

teorias psicológicas, levando trário, é a válvula propulsora

o leitor a refletir sobre a que nos desperta o desejo de

condições socioculturais que "ir além das aparências",

propiciaram seu apareci- rumo a um conhecimento

mento e, atualmente, sua científico.

difusão, principalmente na É esse rigor que move os


área clínica. O que traz con- autores a não tomarem

sigo uma inevitável ambigüi- posição em favor de uma ou

dade: ao mesmo tempo que de outra corrente teórica - o

se dá a conhecer, a psicologia que restringiria um questio-

acaba por reforçar a ilusão namento mais aprofundado -

de liberdade e singularidade deixando em aberto o cami-

dos indivíduos. Contrariando, nho para aquele que, com

então, o que se espera de eles, aceitar o desafio de

uma psicologia científica: busca do "verdadeiro sentido

esclarecer os indivíduos de se fazer ciência".

sobre essasilusões. Uma coisa é certa: acei-

Não seria essa ambi- tando o desafio, o leitor não

güidade, contudo, carac- se decepcionará.

Você também pode gostar