Você está na página 1de 169

com feólodos

da liberfacao ~

UM DIÁLOGO SOBRE
ÍDOLOS E SACRIFÍCIOS
&te livro documenta um even-
to inédito. Pela primeira vez,
realizou-se uma fecunda troca
de idéias ao vivo entre o reno-
mado pensador René Girard e
um grupo de pensado res lati- RENt GIRARD
no-americanos. O fato de que a COM TEôLOGOS DA LIBERTAÇÃO
escolha recarssesobrc represen-
tantes da teologia da libertação
e afins encontra explicação nos
óbvios pontos de contato que
derivam, entre o utras conver-
g~ncias, do rechaço comum às
lógicas de exclusão, às ideolo-
gias antivida, à viLimação de se-
res humanos, ao sacrüfcio de
vidas. O" Diálogo com René
Girard" realizou-se em Piraci-
caba, SP, de 25 a 29 de junho de
1990.
René Girard nasceu em Avi-
gnon, sul da França, em 1923.
Após graduar-se em filosofia,
em sua cidade natal, em 1941,
sua carreira profissional, como
professor, ficou ligada, basica-
mente, a universidades ameri-
canas, ensinando literatura
francesa e anlropologia cultu-
ral. A partir de 1980, estabele-
ceu-se na Universidade de Stan-
fo rd, na Califó rnia, onde coor-
dena um centro de pesquisa.
Filósofo, historiador e antro-
pólogo cultural , é sobretudo
um dos " verdadeiros pensado-
res do nosso tempo " (Guy Sor-
man), alguém que ainda tem a
coragem de trabalhar com hi-
póteses amplas de "teoria ge-
ral"." O Darwin das Cil\ncias
Sociais" (Michel Serres), " o
Hegel do Cristianismo " (Jean-
Marie Do menach) e outras qua-
lificações semelhantes apenas
insinuam o caráter desafiador
de seu pe nsamento.
Para Girard o ser humano está
, - ~- -

ll

1 Hugo Assmann (ed.)

RENÉ GIRARD
1:
COM TEóLOGOS
DA LIBERTAÇÃO
li um diálogo sobre ídolos e sacrifícios

li

Uma co-edição de:


EDITORA VOZES e EDITORA UNIMEP
Petrópolis Piracicaba
1991
li

I"
© 1991, Editora vozes Ltcia.
Rua Frei Luís, 100
25689 Petrópolis, RJ
Brasil SUMARIO
Editora Uoimep
Caixa Postal 68
13400 Piracicaba, SP
Brasil

Revisão literária
Orlando dos Reis

Diagramação Prólogo, 7
Daniel Sant'Ana
I . Visão geral do e ncontTo. 9
Participantes, 10
Aspectos da dinâmica interna do diálogo entre René Gi-
rard e teólogos da libertação - Hugo Assmann. 11
ISBN 85 . 326.0574'5 (VOZES)
Transcrição de fragmentos do diálogo, 36
Primeiro dia, 36
Segundo dia, 48
Terceiro dia, 54
Quarto dia: sessão de encerramento, 66
II . Contextuação básica, 95
O pensamento de René Girard desperta interesses di-
ferenciados - Hugo Assmann, 97
Sacralizações e sacrüicios nas práticas humanas
Julw de santa Ana, 121
Algumas considerações sobre a mimesis sacrificial dos
sujeit-0s sociais modernos - Julio de Santa Ana, 153
Paradigmas e metamorfoses do sacrifício de vidas hu-
manas - Franz J. Hinkelammert, 160

ffi . Temas espedlicos, 187


Exige o Deus verdadeiro sacrifícios cruentos? - Jor -
ge l'Uley, 189
. f i posto na Gráfica Tradição Ltda., e Mecanismo vitimário e a morte de Jesus - Rui Jos-
Este livro o com da Editora vozes Ltda.,
lmpres-co nas oticinas gnWcas grilberg. 221
Petrópolis, RJ.
sacrificialismo e cristologia: a violência da cruz -
Fr . Lui.2 carlos Susin, 240
Sabedoria e desejo mimético - GiCbErto Gorgulho, 248
Misericórdia e sacrifício no Evangelho de Mateus - PROLOGO
Ely Eser Barreto César, 262 .
Leitura bíblica na América Afro-Latindia e as suges·
tões de René Girard - Sebastião A. G. S'?flres, 2~3
A "verificabilldade" histórica das teorias nao-sacrift·
ciais - Jung Mo Sung, 280
Teses sobre desejo e sacrifício - Rubem Alves, 2~8
AIDS como lugar de revelação: Girard e uma teologia
pastoral - James Alison, O.P ., 296

IV . René Girard: Blobjbliografia, 313

Este livro documenta um evento inédito. Pela primeira


vez, realizou-se uma fecunda troca de idéias ao vivo entre
o renomado pensador René Girard e um grupo de pensado·
res latino-americanos. O fato de que a escolha recaísse so-
bre representantes da t~ologia da libertação e afins encon·
tra explicação nos óbvios pontos de contato que derivam,
entre outras convergências, do rechaço comum às lógicas
de exclusão, às ideologias antivida, à vitimação de seres hu·
manos, ao sacrifício de vidas.
Em mensagem aos participantes desse diálogo o Car·
deal de São Paulo, D. Paulo Evaristo Arns, destacou "a im·
portância extraordinária do acontecimento pelo assunto e
pelas pes.soas envolvidas".
René Girard é, sem dúvida, um dos "verdadeiros pen-
sadores do nosso tempo". A bibliografia que elaboramos,
embora seletiva e incompleta, pretende servir de instru·
mento de trabalho para os que se interessam nas ressonân-
cias do pensamento de René Girard nas mais diversas áreas
cientificas. Os livros e artigos de e sobre Girard já se tor·
naram quase inabarcáveis.
O diálogo, do qual este livro é, obviamente, apenas um
registro parcial, mas certamente impactante, atingiu um
nível de profundidade e enriquecimento mútuo que ultra·
passou as expectativas de todos os participantes. Em carta
posterior ao encontro (19 de julho de 1990), René Girard
testemunha sua satisfação pela experiência também ·'/r-0m

7
the .stanctpoint o/ all the things that really matter, ltke /ee-
ling that on.e is making real friends ".
Sinceros agradecimentos a Tbe H.arry Frank Guggen-
belm Founclation (527, Madison Avenue - New York, N.Y.
10022-4301, USA) por seu apolo financeiro, sem o qual o
evento e seus resultados não teriam surgido.
O "Diálogo com R~né Girard" realizou-se no H otel Na·
clonal, em Piracicaba, SP, de 25 a 29 de junho de 1990. Pelo
apolo logistlco em aspectos práticos, os agradecimentos
também à Universidade Metodista de Piracicaba.
H ugo Assmann

Visão geral do encontro

8
p ARTI CIPANTES ASPECTOS DA DI NÂMICA INTERNA
DO DIÁLOGO ENTRE REN~ G IRARD
E TEÓLOGOS DA LIBERTAÇÃO

. _,,_,,~ católico Stanford


irard - Francb , a11trop6log0 e htsto• """'"'' • • Hugo Assmann
René G USA.
Univ., Califórnia. ·z . o teólogo católico, Fac. Teol. O.F.M.,
Leonardo BoU O.F .M. - Brast eir ' '
Petrópolis, RJ, BrMil. t ól go metodista.. CESEP, PUC,
Jullo de santa Ana - Uruguai o, e o .
IMS, Sdo Paulo. SP, Bra.slL . ta católico, DEI, San José,
Franz Hlnkelamlllert - Alemão. economis '
c osta Rica.. t ' rio Batista Ma· Razão de ser destas notas
Jorge Pixley - Ntcaragilense, biblista, batista., Sem na •
mfgua, Ntcardgua. sú:analfsta presbiteriano. UNI- Pode ser que o leitor deste livro fique agradavelmen·
Rubem Alves - BrC1Stleiro, teól.Ogo .e p ,
te surpreso com a variedade e riqueza de seu conteúdo.
CAMP. CampBirnaassi·iei~:· ~a:~o e teólogo, católico, UNIMEP. Mesmo assim, ele está longe de ser uma reprodução fiel e
Hugo ASSmann - •
Piracicaba, SP. Brasil. nacionalizado brasileiro, t.e6logo, cató-
completa do encontro que lhe deu origem. A transcrição
Carlos Palácio S.J. - EspanHho~ t MG Brasil e prof. visit. U. Gre· detalhada do intenso diálogo de três dias e meio completa-
llcO, CES S.1. Bel.O ortzon e, . ria diversos volumes. Por óbvias limitações editoriais, optou-
goriana. Roma- a.rlLeíT teólogo e odm em· se pela inclusão dos textos previamente escritos pelos parti-
Jung Mo Sung - Co;eanoFnaciTone~i~o :r Assu:Çcio São Paulo: SP, cipantes e de uma seleção, extremamente reduzida e frag·
presal, católico, ac. · · · '
mentária, de algumas intervenções no debate.
BrlUU. B MileirO bibl.ista, católico. 1Usessor
Sebastião A.nnandO SoareS - r ' IUil O que se pretendia, e efetivamente se logrou, era o diá·
CEBs e ex-pro/. ITER, Recife, PE, BT< . T L N S
-'"'"''-'ro biblista. católico, Fac. eo · · logo. Ou seja, um intercâmbio não apenas de idéias, mas
Gilberto GorgulbO O.P. - B rw.-...,• ' · de experiências e opções de vida, para o qual a linguagem
Assunçclo Sdo Paulo, SP, Brasil. teologia
n o.Í> - Jnglb, teólogo, cato'1wo, doutorando em . é somente um meio de expressão. Comunicar-se, e não ape-
James AlisO · • . ó'"" ca.tóliCO assessor CEBs e Fac. nas falar, nisso consiste o diálogo. Algo mais que meros
Benedito Ferraro - Brasileiro, te "'Vº• asiÍ
Teol N S Assunção, São Paulo, Br conceitos ou palavras flui e circula entre os participantes de
LUIZ Carlos. S~in. Q.F.M. Cap. - Brasileiro, teólogo. católico. pro/. um diálogo. Ao pretender atingir a qualidade de um diálo-
ESTEF Porto Alegre, BS , Brasil. go, o encontro se propunha um objetivo ambicioso: o desa-
El ~ser Bar;eto César - Brasileiro, biblista, metOdista. vice-reitor fio de um enriquecimento reciproco.
y acadtmtco UNIME P, Piracicaba, SP, Brasil.
1,..,.. tOdista Fac Teol., IMS, Colocar-se em clima de aprendizagem mútua requer
Rui J osgrllberg - Brasileiro, teÓ"'Vº· ~ , .
S. Bernardo do campo, SP, Brasil. .. . abertura, capacidade de escuta, honesta sinceridade e uma
orte-americano, biblísta, batista. pastor, Ra boa dose de despojamento. O fato de termos conseguido
Paul Dougas 1 Leslie - N
leigh, N . e., USA. dialogar com esse espírito foi, sem dúvida, a riqueza maior
~ '-"" teó'""º
Norbert Arntz - ,...,,,.....,, "'V •
católico • tradutor e editor, Greven, desse encontro. Assim o testemunham, enfaticamente, as
Alemanha. intervenções da sessão de conclusão, condensadas no livro.
_,,...,. metodista tradutora.
Vlolaine de Santa Ana - Uruv--• • Mas essa realidade, tão claramente testemunhada no final,
Melsene Ludwig - Brasileira. católica, coord. e organ. do encontro.
11
10
ce preestabelecida ou de táticas de coincidência simulad
0
livro não consegue transmiti-la adequadamente. Para que mas a partir de uma sinceridade que não precisa silenc~
leitor a possa. imaginar, de alguma forma, talvez sirvam nada porq~e acredita. na capacidade do interlocutor de
0as informações aqui resumidas. Com a re~salva de que as
saber valonzar o enraizamento das idéias, que ainda bus-
tome como aquilo que, inevitavelmente, sao: uma espécie cam a sua forma, em opções assumidas, que já se vivem.
de reportagem subjetiva que entrega, parcial e sele_uvamen·
te as impressões pessoais de apenas um dos participantes
d~ diálogo, sujeito, além disso, aos condicionamentos pe- Antecedentes
culiares decorrentes da sua função de organizador e, agora,
editor. A ~uê:icia do pensamento de René Girard na A.méri-
Os textos previrunente elaborados mereciam a inclu· ~ Latina nao se inicia com este encontro embora tenha
são, não apenas porque refletem o empenho com o ~ual sido o seu ~rimeiro diálogo a viva voce co~ um grupo de
os participantes se prepararam para o diálogo, mas amda teólog~s latmo.americanos. Seus livros - especialmente nas
porque, embora não houvesse tempo para expô·los, seu traduçoes ao espanhol e no original em francês; a difusão
conteúdo refluiu, pelo menos em parte, para dentro da d.is· em português recém começa - já contam com leitores
cussão. A seleção de fragmentos do diálogo, incluidos no ~e~sev~rantes, na América Latina, há bastante tempo. Suas
livro obedeceu ao critério, um tanto arbitrário, de entregar 1dé1as JA !oram objeto de alguns cursos universitários em
amo~tras de formulações esclarecedoras, posicionamentos, nosso meio. Sua leitura não.sacrificial da Bíblia é bastante
inquietudes, questionamentos de fundo e, também, teste- conhecida e apreciada por um bom número de bibllstas
munhos de opções. 18:_tino.~~~canos. A explicita carncteristica não idolátrica e
na?"sacrif1cial da teologia da libertação, enfatizada de ma-
o que acrescenta, então, esta "reportagem subjeti· neira crescente nos últimos quinze anos era uma das coo-
va"? Conforme se expressa no titulo, ressalvado o viés sub- .. . .
verge~c~. mais evidentes, embora -
'
como o próprio Gi·
jetivo, pretende-se dar uma idéia do desenrolar da dinâmi· ~rd insistiu em reconhecer - essa base comum tenha sur·
ca interna do encontro, exemplificada em alguns ~e seus g:ido de modo independente, de parte a parte. Se não exa-
aspectos. Em sintese, de que pata.mar de expectativas se gerarmos na dose, há algo de verdade na afirmação de que
partiu? quais pressupostos co~uns ap~ram rapidamen- pel~ menos alguns teólogos da libertação encontravam co-
te? em que pontos surgiram diferenças de llngU.agem ou a~ nexoes com o pensamento de René Girard antes de ele se
de ponto de partida? como se foram amarrando esclareci· conscientizar desse fato e antes de ele "se reconhecern no
mentos conceituais importantes? como se foram entrela· que há de comum, preservadas as diferenças.
çando os diferentes temas? onde ficou faltando o aprofun·
damento? que questionamentos ficaram em aberto, como Como se chegou à organização desse encontro? Bastou
desafio à reflexão posterior? etc. que lhe falasse desse tipo de convergências - no contexto
de um sim~ósio sobre "Religião e Violêncian, em 1989 nos
o leitor compreenderá que a tarefa, por ser quase im· EUA, o~do sob os auspfcios da H. F. Guggenbeim
possivel, só pode ser cumprida de forma limitada. Ao rees- Foundat1on - para que a idéia de um encontro tomasse
cutar as mais de trinta horas de gravação do diálogo, com forma. A consulta a um número significativo de teólogos
o reduzido distanciamento de poucas semanas após o en- da libertação confirmou a existência de um vivo interesse
contro a sensação que predomina é a de que a riqueza do na proposta. Apesar da restrita divulgação prévia do evento
debate' foi realmente enorme e que seria vão qualquer in· nem todos os candidatos a participar puderam ser convida:
tento de resumi-la. N""ao se trata, portanto, de querer abar· dos. Já que os recursos disponiveis eram limitados o en-
car em um resumo superficial e barato, o conteúdo deta- c?n~r~. acabou adquirindo wna feição exageradamen~ ubra-
lhado desse diálogo. Oxalá consiga tomar perceptivel a sua sil~nra no tocante à proveniência da maioria dos par-
elevada qualidade, precisamente enquanto diálogo no qu~l ticipantes.
os dialogantes se reconhecem, não a partir de uma mesrru·
13
12
- Discussão
Programa - Primeira intervenção mais longa de R. Girard
- Discussão
o encadeamento da programação interna do enoontro
Segundo dia, manhã:
seguiu uma lógica bastante óbvia: de que contexto emergem
nossas expectativas? como as traduzimos em problemas que - Paradigmas do sacrificialismo
nos interessa discutir? que tem isso a ver com o pensamen- (Franz J. Hinkelammert)
to de René Girard e sua "recepção" diferenciada?_ qual é a - Discussão
primeira reação dele a essa nossa problematiz~? co~o tarde:
estabelecer uma base sólida para aprofundar a dlScussao? - Módulo "Questões antropológicas", painel
a que "módulos" de aprofundamento dedicaremos maior CC. Palácio, L.C. Susin, R . Josgrilberg, R. Alves),
atenção? que "colheita" de desafios levaremos conosco a - Discussão
partir deste diálogo? Terceiro dia, manhã:
uma proposta prévia, elabor:ada por um ~queno ~­ - Módulo "Leitura não-sacrificial da Bíblia", painel
po havia sido enviada aos participantes. Ela fo1 rediscutida CSA. Soares, G. Gorgulho, J. Pixley, Ely E.B. César)
na' sessão de abertura (noite de 25/ 06/ 90, solenizada co~ - Discussão
a presença de alguns convidad~s. especiais ~ voltada à ena· tarde:
ção de um clima de companhelrlSmO e desinibição reciP!°· - Módulo "Questões sócio-econômicas", painel
ca 0 que René Girard qualificaria, ao final, oomo Up1ca CH. Assmann, F.J. Hinkelammert, Jung Mo Sung)
"~araderie" latina, a marca peculiar de todo o enc?ntro. - Discussão
Elegeu-se, nessa mesma sessão de abertura, um camitê de Quarto dia, manhã:
coordenação do conteúdo do encontro. - René Girard comenta como sentiu o encontro
Qual foi a tradução concreta dessa proposta pro~­ - Avaliações do diálogo por participantes
tica? Estabeleceu·se, como principio básico, a destinaçao da - Propostas sobre a divulgação dos resultados
maior parte do tempo para a participação espontAn~ _de
todos no diálogo. Portanto, apenas umas poucas expos1çoes
compactas, como insumos básicos e provocações ao deba· Dinâmica interna do primeiro dia
te· seguidas, às vezes por "painéis" de três ou quatro deba·
tedores; depois, ampla participação d~ ~~ no diálogo. Chegamos agora à parte ma.is exigente do objetivo des·
Para os "módulos", imediatamente um pamel de enfoques te breve texto: dar uma idéia de como funcionou a dinâ.mi·
complementares, seguido pelo debate aberto. ca dialogal do encontro. Havia consciência de que o nivel,
o clima, a intensidade e a espontaneidade da discussão no
Na seqüência dos dias, o programa tomou a seguinte
primeiro dia teria influência determinante no resto do even·
feição: to. Já houvera, na noite anterior, a efusiva naturalidade
Primeiro dia, manhã: do reconhecimento reciproco. Ninguém estava interessado
- Nosso contexto, nossas preocupações em animosidades apologéticas. Ninguém estaria sentado na
"cadeira quente" de interrogado, interpelado a defender-se.
(Julio de Santa Ana)
- Painel: destaque a problemas Tampouco haveria qualquer "cátedra" de mestre, dono de
(B. Ferraro, L. Boff, J. Alison) verdades perentórias. Sentiamos todos que Unhamos coisas
importantes a conversar entre nós e que era em torno de-
- Discussão las, e não simplesmente em tomo de uma pessoa de grande
tarde: renome e suas idéias, que o diálogo devia articular-se. Não
- A "recepção" diferenciada do pensamento girardiano se cogitava, portanto, em simples pingue pongue entre René
(Hugo Assmann)
15
14
deterioração estrutural da qualidade de vida. Os "ajustes
Girard e os demais participantes. Todos estavam incitados estruturais", exigidos pela lógica neoliberal no plano econô·
a expor-se no diálogo. _ mico, e a questão da dívida externa, em um contexto de
Ana a tarefa. da ambienta.çao "democracias tuteladas", nos obrigam a constatar que o
Tocou a Julio de santa ão aos textos por ele número das vítimas aumentou. Na fase anterior, houve a
inicial. com muita liberdade e: r:~çmeu entender, alguns intensificada setorialização da violência repressiva e opres-
mesmo entregues, sua fal~ te · e se podia. con- siva; no final da década de 70 e ao longo dos anos 80, hou-
pressupostos tácitos relacionados co:e0 c~ Girard e que, ve umr- generalização da violência na sociedade. Os progra-
siderar co~o base comum~~~~ por ser objeto de .~ mas de reajuste são implantados com o acompanhante ideo-
P ortanto,
.
nao estava em
_ . nosso rechaço comum
às lógicas sacrü1-
-
lógico de recessões necessárias, desemprego necessário, ex·
razoavel consenso. . . . de vidas humanas; nossa opçao clusões necessárias. Prega.se, assim, a vitimação necessária,
ciais que exig~n:1 sac:ill~o: de estarmos imersos em siste- em aras da "modernização", sacralizando os mecanismos de
ao lado das vitimas, o a o elmente a porta de um mercado messianizado.
mas sacrüiciais; e. que era es~Íár~~~ª~m iwn'é Girard.
entrnda mais óbvia para um . O "senso comum" diz: é necessário ajustar-se. Mas o
. unha era encarar e analisar "bom senso" resiste: não devemos curvar-nos ao interdito e
O desafio que se nos imp ·timáriOS nas atuais é necessário construir uma nova democracia. As bases po·
- d mecanismos vi · •
as form~ ~e atuaçao ~s entender de que maneira a vio· pulares, imersas na luta pela sobrevivência, permanecem,
ctrcunstãncias do mun ~ ° . sagrados intocáveis e cen· com freqüência, no nível do senso comum. Certos grupos
lência sacrificial r~onstr~~ h°Je, interditos os intentos de de esquerda, na medida em que não souberam enfrentar a
sura, mediante a_impos1?ªºuioemimético da violência sacri- complexidade da sociedade civil, sucumbiram ao desejo mi-
ruptura. e superaçao do crrcd uestão de sempre e proble- mético e seu jogo violento. Superado o "guerrilheirismo"
ficial. Em outras palavras, ~ rificial devia ser anali- (embora ainda não em todas as pa.r tes), e detectados os
ma supra-situacional, o co~t sacta e peculiar com os riscos de internalização da morte em esquemas de "esquer-
uestão histónca concre • da", trata-se, agora, de r-eforçar os movimentos populares
sado como q . ... ......;.,, do momento presente.
ingredientes conJUD~UJ.....,. " . " como recursos básicos da sociedade civil. Dentre as muitas
'b rta -o o problema vitimas • r e- lições da débâcle dos "socialismos reais" destaca-se a cons·
Para a teologia ~ li e . <?B á . ,, na- 0 é uma questão tatação da efetiva capacidade erosionadora dos movimentos
sultantes d e " m ecarusmos vitim nos • com nome concre-
d designar da sociedade civil.
genérica. T~m-se a ~=s ~rincipais:' os pobres, enquan·
to quem sao os sac .dos da lógica violenta do A teologia da libertação cumpriu e cumpre um papel
to' empobrecidos, porque exclui tros tipos de vitimas; mas relevante em relação a dois avanços importantes nos movi-
sistema. Isto ~e!° desc~nhiec:~ ~~e conhecemos. Nesta ênfa- mentos populares, constatáveis, por exemplo, nas Cebs
estas são as ....
vitimas pnnc ..,.....,º de parte (Comunidades Eclesiais de Bas e). De que se trat-a? Em pri·
ft1; ... -
P .
histórica do sacrifi·c'ft"
~ , meiro lugar, aumenta entre os pobres a consciência de que
se na contex~~açao _ uma certa diferença em
da teologia da libertaçao, aparece tá mais num plano são vítimas, fruto de um sistema violento e sacrificial. Em
relação a Gt:ar~, que .:b~: ~=~e de textos sobre segundo lugar, cresce a consciência de que é preciso evitar
geral e academi~o, pn .e~ naiS Mas sua análise do de- o perigo - em termos girardianos - do desejo mimético
a an~e ~~ realida~es ~tu:~ fe~das para nosso enfren- e que, portanto, não se deve imitar a lógica dos opressores,
sejo numetico tem unpllcaç rifi 'al no qual esta.mos imeTSOS. não se deve ser igual aos vitimários. Isto implica duas pro-
tamento com o contexto sac ci fundas novidades: primeiro, que o contexto sacrificial, por
. d te . no que chamou de "novos mecanis- mais horrível que seja, deixa de ser visto como uma fatali-
Julio se e ve . a transição dade, um sagrado intocável, e a situação passa a ser enca-
mos vitimários". Houve, na América Latina, um: Na· rada como histórica e, portanto, transformável; segundo,
dos mecanismos sacrifi~ais d?s Estados d~:=.c:: uma que se começa a perceber e a assumir uma distinção fun·
cionat, com sua expressao mats clara nas
17
16
i
" Leon~rdo Boff explicitou ain .
damental entre sacrüícios impostos pela lógica vitimária e lugar _epistemológico" como um da mais a questão do
dom de si, como entrega coerente às exigências da trans· preensao da teologia da libe t - ponto-chave para a com-
te a partir das vítimas· "a r;ça~ que se posiciona e refle-
formação social. teologia é conferir cent~alidad;11à ~~e epistemológica desta
Houve, evidentemente, uma série de outros pontos im- n:irdo começava, assim a . i~a dos pobres". Leo-
portantes na intervenção introdutória de Julio. Recolhi os tencia constante ao lon' perfilar aqmlo que foi a sua insis-
que, na minha opinião, fecundaram mais a discussão pos- lógica" dos oprimidos ~o P~~ ~nc~ntro: só a partir da "outra
terior. Por um lado, estavam insinuadas convergências de c? _da violência e isto não ir~1v~ romper o círculo miméti·
fundo com a posição não-sacrüicial de Girard; e por outro log1c~, no sentido discursivo pllca apenas uma questão teo-
lado, estabelecia-se, em termos discretos e não polêmicos, relaçoes teoloaais ou . , p_orque se trata de redefinir
uma diferença de ponto de partida ou "lugar epistemológi- rente de Deus~ ' seJa, esta envolvida uma visão dife-
co" entre Girard e a teologia da libertação, ponto que outros
reforçariam posteriormente. Além disso, a teoria mimética . James Alison entrou co .
de Girard foi valorizada por Julio como relevante para ana- c~dar para não cair na "i m ~ . saud:ivel alerta: é preciso
lisar a lógica da violência, mas ficou também claramente riseus, que não se conside~~~::1a _ep1s~emológica" dos fa-
colocada a questão da lógica do dom, que busca romper profetas. Pode ser até ·t ~ cumplices da morte dos
das vítimas. Os intelect:~ ~ coroado declarar se ao lado
com o círculo mimético. como se já estivessem ide~tifi~ ~squerda sempre o fazem
Do debate que se seguiu espontaneamente à interven- ra continuem distantes a os com as vítimas, embo'.
ção de Julio cabe destacar a contribuição de Franz Hinke- concreta das vítimas e' ~m . tantos aspectos, da situação
1ammert, que inSistiu na necessidade de distinguir clara- de muitos discriminado a 1 igno_rem o caráter de vítimas
mente auto-sacrüicio de dom de si. O dom de si contém d?. ele, nos leva a reflestie:ã~o~~edade. ~ené Girard, segun-
uma perspectiva de dissolução e superação da lógica sacri· vitimas; leva-nos a refletir ta b. a partir da situação das
ficial. O auto-sacrüício homologa o sacrüicialismo e não perseguido11es arrependid m em a partir da situa~o de
rede de cumplicidades os, que reconhecem a complexa
contribui para dissolvê-lo. em que estamos envolvidos
Os três painelistas levaram adiante a discussão em Houve um grande . .
aspectos complementares. B . Ferraro assumiu o risco de debate. Gorgulho lembro~u:;:ºa ~e ricas intervenções no
mal-entendidos para acentuar uma ótica irrenunciável para sempre um certo fatalismo e dif. mguag~m religiosa oculta
quem está engajado na pastoral popular: toda linguagem te a Ferrara) . Um pouco iculta sair dele (eco eviden-
acerca do sacrifício, mesmo a que se pretende não-sacrüi- q::ie ~s linguagens acerca d:ª s~ces;~ linha, Ely Éser dizia
cial, é muito ambígua e o povo simples não está em condi- c !1çao, estão viriculadas a r i_c1?, que têm maior cir-
ções de entendê-la a não ser que já esteja participando de opoe a mudanças, e que es~ cod1g? ideológico que se
uma caminhada de libertação. A questão é como superar a ~gens acerca do dom de s · s des~1ados a elaborar lin-
linguagem marcada e fechada do sacrifício que o povo não tir da possibilidade de m d1 que esteJam articuladas a par-
entende ou, pior, entende em sentido fatalista, submetendo- u anças etc.
se ao sagrado violento. A intenção pastoral era nítida, mas ra Com? reagia René Girard às int -
suas frases curtas e contundentes corriam o risco de que e -~a? Sua atitude foi de es" t ervençoes desta primei-
vi entemente, a dose de l" -U a e sumo interesse Mas
tou. Confesso que, em det=gens sócio-políticas o ~pac'.
a mediação política do discurso não permitisse a percepção
de seu conteúdo teológico-pastoral. Frente a. linguagens des-
se tipo, a coincidência no "lugar epistemológico" aparecia roer que a compreensão recí ado ~omento, cheguei a te-
como exigência para a própria compreensão do que estava cad_'.1: Declarou-se francamenf r~ca estI~esse ficando prejudi-
sendo dito. Neste sentido, creio que a intervenção de Fer- polít1co e social. A constant e imp~ess_10~ado com o acento
raro fecundou o diálogo, porque só podem reconhecer se os sarnente identificadas como. e referencia as vítimas' exp res-
0 resultado macabro da opres-
que se reconhecem num plano de experiências práticas.
19
18
diálo.,,o nao ha• nada pior do
ce:t~as
O' -

são sobretudo econômica, era evidentemente algo dilerente conclusives, embora q_ue ostentar um excesso de
IIlllllmas. nao se devam calar certezas
dos ritos sacrificiais cuja análise predomina em seus livros.
Terá sido p0r isso que lembrou, a certa altura: "a morte .. .
pactoNeste aspecto,lingu
de nossas Girard rev e~ou, em meio a todo o .
nossa especialidade de sempre". ext din agens d1f<>rentes im-
Instado (por Gorgulho) a dizer algo sobre a distinção, "P raor ária para o essencial ~Po ' uma sensibilidade
se ela fosse possível, entre a transcendência do sagrado vio- . enso _que o que há de des . . r exe_mplo, ao afirmar:
lento e a transcendência do sagrado não-violento - eco à. ncana e que vocês sa-o o- ~fia~or na situação latino-ame·
· "' pnme1ros a ·
distinção entre sacrifício e dom de si - René Girard apon- o pen~o da palavra 'sacrifício' t 1 v1:-er, em sua carne,
tou para a ímportãncia de não cair em novas "coisifica- ~en~e ; "Vocês vivem em a como e empregada usual-
ções" da transcendência. Preferiu, no entanto, avançar al- genc1a. E isto forçosament:Uinf~s~ado de extraordinária ur-
guns elementos que garantiram a fluidez do diálogo. uma chama~ a atenção do mundo w em sua~ atitudes. Vocês
primeira afirmação fundamental: a ponte de convergências mente intolerável. O essencial s~b~e ~sta situação absoluta-
no nível simbólico, onde se expressava a rechaço ao sacri· reconhecer esta situação". e inclinar-se diante disso e
ficialismo e a opção ao lado das vitimas, lhe parecia uma
questão pacifica; neste nível não havia problemas de iden- Girard tampouco objetou .
nhado em alguns aspectos a' t emborn_ possa haver estra-
tificação recíproca. " No plano simbólico o contato é ime-
diato". segunda afirmação ímportante: a análise :mimética, sua crítica do sacrificialis ' ranspos1ção e aplicação da
embora elaborada principalmente para desconfiar do dis- aparece como as vítimas ~~oao i:1ru:io social, onde quem
curso, era perfeitamente extensível aos mecaniSmos da rea- Captou por onde viamo pnnc1palmente os pobres
c - d s na atual con . t .
lidade. (Na tarde do mesmo dia aprofundaria este ponto ao açao o sacrificialismo ' . . .. JUil ura, a intensifi-
distanciar-se dos que pretendem reduzir tudo à linguagem). ~lemas da maioria empo~:e:;:~~b~dade . diante dos pro-
Lançou, contudo, uma farpa: as críticas políticas, com tudo is~o. de maneira notável: "Existe umarudade. Formulou
o que sucedeu no Leste europeu, não estão, por acaso, for- crif1car as pessoas. a . dif uma outra maneira de sa-
temente despotenciadas? Foi a oportunidade para que Julio indiferentes se con~entrina ebrença. O desejo mimético dos
colocasse uma informação adicional sobre nossa flexibili- t ro1
· · a importância
. de tod so re um obJe · t o obsessivo e des
dade crítica: "Encaramos o que sucede no Leste europeu, tão d o o resto Eu pe -
sob muitos aspectos, como uma verdadeira graça". O diálo- os pobres, há evidentemen ." . . ?5º que, na ques-
tende-los é necessário refletir te ~acnf1cios, mas para en-
• A

go avançava, porta.11to, entre todos sem nenhum tipo de co-


branças dogrnáticas, sem est reiteza mental, mas em um cli- tia. São . sacrifícios em sentido ~eb~e essn: indiferença doen-
q~e derivados dessa indiferen nva~o, imperceptível, por-
ma de honesta franqueza. sao objeto da atençao- de 1 ça . V . oces, enquanto teóloaos
Era fundamental que o reconhecimento mútuo se veri- de ª guns mas os
. um esquecimento terrível H ' . . . ~o res são objeto
b "' '
ficasse em profLmdidade, sem qualquer tipo de aprisiona- dizer: a América Latina . . OJe_ os mdiferentes parecem
mento em linguagens preestabelecidas. No final do encontro, mesma". nos ª deixamos abandonada a si
Girard registraria a ausência de jargão como um dos aspec-
tos mais positivos do diálogo. Não se pode negar, contudo,
De modo que, já ao términ . .
que a primeira manhã teve momentos de linguagem muito va assegurada a fluídez do . . ~ da P~in:-eITa manhã, esta-
incisiva que denotava a urgência de reconhecer se sobre pouco mais neste P . . diálo.,,o. Insisti em deter-me
uma sólida base comum. Eu temia, em alguns momentos, t d r1merro mame to d um
o o o resto dependia em b n o encontro porque
que a insistência, com tamanha ênfase, sobre algumas ex- ~roca alcançada ness~ man::~ parte, da comunicação recí-
lSSO, um estilo de alusões m ~- ~o que segue usarei, por
pressões - lugar epistemológico, privilégio epistemológico
dos pobres, etc. - pudesse gerar equívocos, dando a enten- tados na discussão. ais reves ao6 assuntos levan-
der, falsamente, que a constante conversão epistemológica
já não estivesse em nossa agenda de prioridades. Em um
21
20
Franz Hinkelammert nos brindou novamente com uma
os com fina-
di teve dois moment imprescindível distinção: anti-sacrificial e não-sacrificial não
A tarde do primeir? .ª _ com introdução minha. e devem ser confundidos, porque em nome do anti-sacrificia-
lidades distintas: o pnmerro. são _ tinha como o~Je­ lismo o Ocidente justificou toda a sua violência sacrificial.
numerosas intervençoes n~ dis~:sas convergências ól:>vias, Corretíssimo no plano conceitua! e dos critérios. E no diá-
tiva situar ';1111. po~c~d~ee ~~bém nossa parcial d=~~~ logo subseqüente, a distinção também se impôs, aos pou-
nossas poss1veJ..S duv1 ento de Girard e sua . cos, no nível terminológico, onde não sempre havíamos fei-
mação no atinente ao pens~ momento estava destinado a to, anteriormente, essa aguda distinção. Pergunto-me se de-
ciada repercussão; o ~e~l~vra por Girard par~ que r:~ ve ser cobrada à risca, ou se, estabelecida a clareza concei-
um uso mais longo a sentindo em nosso meio e co tua! e de critérios, não pode haver certa tolerância na lin-
dissesse como sediestava
·1ogo
guagem. Como o debate posterior foi mostrando, o purismo
encarava nosso a . inha intervenção, os pont:>!'> dos critérios não elimina, mas reforça, a exigência das me-
diações da factibilidade histórica.
Frisei basica.mente, na ~xto· a sintomática prope~ao
ue se encontram em meu ~m particular (por razoes A nítida dístinção foi celebrada como tremendamente
~os teólogos e~ geral, e nos5:e1etivamente do pe~amento esclarecedora em relação a como "o Ocidente sacrif.ica em
muitõ plausíveis), . a rec~e{ ao sacrüícialismo, deixando de nome do anti-sacrificialismo" (Rui Josgrilberg). Jung Mo
de Girard sua critica: ra ca os aspectos talvez menos Sung nos re-situou no terreno prático-político: como se sai
·ta outra coisa; a força e . _;mética· dá ela con- do circuito sacrificial? E ponderou: o purismo da não-vio-
lado rnm . t da teona uu>•• ' . ? . a:
elaborado~0~º:S:1~~ns:~rificialismo ~a :=.r~~a~~~~jo lência radical (uma das "recepções" girardianas bastante
difundida) não sabe elaborar alternativas de luta concreta;
ta da me . - que a concepção girar anismo auto~
notável fascmaçao uma espécie de mec . não podemos dispensar o recurso à razão instrumental, em-
mimético, entendido como cL~vice}, exerce sobre pe1:tos bora conheçamos sua víolência, já que se exime de refletir
or (a self-regulatory ~ rge da desordem (1sso, sobre os efeitos não-intencionais; etc. Sebastião A. Soares
regulad d que eme
em teorias acerca da or emara a discussão sobre a ec?n<;. não perdeu a oportunidade para recordar que a assim
para preparar o ter:eno p tã do "lugar epistemológico . chamada "violência revolucionária popular", tão demoniza-
. a vez mais, a ques o da como violentismo, opera muitas vezes mais na "lógica
mia); e, um ente rica, revelou
·· te extremam do dom" que na "lógica da violência", mas enfrenta as
A discussão subsequen , . da um pouco na corn- mediações históricas da libertação. G. Gorgulho nos ques-
ue o grupo preferia ~~~o:ar-se :m que isso fosse men- tionou se a atitude não-sacrificial pura não é demasiado
q uestão do sacnf1ciahsmo. tão dos sistemas
plexa q ão consciente, a ques . . tes. radical e se uma sociedade é pensável na linha desse radi-
cionado como ºP? ada para os dias se~_ calismo, sem autodestruir-se; mas insistiu que é fundamen-
auto-reguladores ficou posterg das tremendas irnplica?oes tal que o pólo da utopia, e não a sacralização das institui-
Tinha-se clareza, àq':ela altur:, nos toca conviver com siste- ções mediadoras da ação na história, estabeleça a ponte dos
práticas dessa questao qu~d dem como auto reguladores e critérios. J. Pixley, evocando a situação da Nicarágua, apon-
mas sacrificiais que se ei:i ~..° . e suas promessas? Embo- tou que não só é compreensível, mas sadio, que o povo
autovalidantes por sua ebc1enc1a nexos com essa temátic~, não esteja disposto ao auto-sacrifício sem limites. Passan-
ra sem explicitação de todo~ªº~aneira provavelmente m~1~ do a um tema mais específico, Julio de Santa Ana (em
o terreno se foi preparando decididamente não-sacrif1- alusão a uma insinuação minha) recolocou a questão mito-
normal para teólogos: como ser un·ersos no pecado e na rito na modernidade: se não há desaparecimento dos mitos,
.b que estamos . . 1
cial embora se sai a tão do pecado ongma - pode-se falar de invisibilização dos ritos sacrificiais? Exem-
violência? Ou seja, a velha q~~!mada ao realismo an~ropo­ plificou a sobrevivência também dos ritos com Auschwitz,
mito para excusas e, con~ud?'. tre utopia e mecarusmos os Gulags, as torturas, etc. Eu, porém, havia colocado a
lógico; o problema da dlaletica en
institucionais etc. 23
22
Dinâmica Interna d.o segundo rua
o fato de que, no pla-
questão tendo em ment:, ~obr=Ões de mortos não che- O primeiro dia, além de colocar à prova convergéncias
dominação econonuca, fundamentais , servira par a t ornar perceptível por onde de-
no d a notícia na imprensa. via caminhar o aprofundamento do diálogo. A temática do
gam sequer a ser R . G1·rard sem ado- sacrificialismo aparecera como núcleo articulador dos ques-
t da tarde ene ' -
No segundo momen o . ·i·ca abriu seu coraçao tionamentos. Essa temática se impunha a partir da reali-
tar o modelo de pal~s~ra siste~!v~ lances emocionantes, dade, ou seja, a part ir da nossa experiência do caráter tru-
num relato autobiograf1co
f T "mente o c
que .lin1a de um diálogo pro-
t ans
culento dos sistemas sacrificiais nos quais estamos imersos.
estabelecendo de lil1 iv~ ler os poucos fragmentos r . - Não se tratava, portanto, de uma curiosidade teórica ou de
fundamente humano. . o a intensidade da com':1!11c~­ uma simpatia casual p ela interpretação não-sacrificial da
critos, o leitor se dara con~~ ~spectos da sua expenenc1a Bíblia feita por Girard, porque se nela aparecia uma evi-
- René cheaou a falar ·amais contara em dente ponte de contato era porque a nossa realidade sacri-
çao. ., 1 óprio confessou, J b lho
que conforme e e pr - liaação entre seu tra a ficial, e não um simples interesse intelectual, fundamenta-
seu~ escritos: sua conversao, ~ "'a maneira como chegou vam essa conexão. Por isso, antes de entrar em áreas espe-
corno pensador e s~a. conversa~ do desejo mimético e o cíficas, previstas nos módulos, convinha analisar a encarna-
às suas intuições bas1cas acerc ção da lógica sacrificial em diferentes p aradigmas da sacri·
sacrifício etc. na sua in- ficialidade na história do Ocidente.
. bastante detidamente, . -
I ncursionou
_ tambem,ü" · al dos re1a t os evanaélicos
., da Paixao Franz Hinkelarnmert, que reflete e escreve sobre o as·
terpretação nao-sacr ic1 .. te !!irou principalmente em sunto há muitos anos, fez uma caracterização desses para-
de Jesus. O diálogo subseq~e~dade mimética contra Jesus. digmas, que, além da sua nitidez no plano categorial, mos-
volta de um aspec~o: ª. unamá~o que o diálogo ~e ?º~ce:i­ tra como, no cristianismo ocidental, a transformação do
Creio que foi muito smtom foi reveladora a msistênc1a não-sacrificial em anti-sacrificial fez com que o sacrifício
trasse neste pon~o, assu:i c~:O~a) praticamente na m~a negado volte, retorne sem pre de novo como sacrificialismo
de muitos (a lista sena. ., dmitisse uma convergenc1a aceito, em formas incrivelmente variadas, até hoje (ver o
exigência de ~u~, embo~r~eJ~us, se fazia necessária t~­ texto). É realmente uma pena que não se possa repassar
mimética dos amroos C_?~ " fato ou seja, era prec1SO ao leitor, que é remetido ao texto escrito, aquela vivacida-
bém uma "leitura ~olit1ca od~~ na i~terpretação d~s f~tos, de tão característica das exposições de Franz quando, por
introduzir urna teona do P . do ela interpretaçao girar- exemplo, incita à hilaridade ao develar o cômico do trági-
elemento ná? P_le~a~ente :~:nci~ão dos atore~ em ce~ co: os piores sacrifícios não são percebidos como assassi-
diana. Essa ms1stenc1a na as coisas: primeiro, m~roduzia natos enquanto produtivos, mas basta que apareçam como
remetia evidentemente, a du t ' stico da leitura latino-ame- improdutivos para que se tornem horrendos; quinhentos
no debate ' um e1ementa carac . . enmais claro por ocas1ao ·- do anos de guerras coloniaís, todas elas "justas"; o ocultamen-
ricana da 1 Bíbll ·a (que flcana
. di ) ou seja a atençao às me- - to dos genocídios na messianização das instituições; etc.
módulo bíblico, no. terceiro ta 'to da l~itura e da origem
. lif do con ex . t A discussão posterior não tomou os rumos polêmicos
diações sóCio-po icas os articipantes resistiam for e- que poderiam ter surgido se o grupo tivesse buscado con-
do próprio texto; se~do,- !.discriminada do povo por- frontações de detalhe entre o esquema bastante complexo
mente a uma culpabilizaçao . anipulado como massa de e ampliado de Franz e o caráter aparentemente simplifica-
que, mesmo quando. o Pº~? e :Or que isto acontece, a que dor da teoria mimética de Girard. Mas os participantes esta-
manobra, é necessário a~ i~ar os mecanismos da manip~a­ vam muito mais interessados em fazer descer o discerni-
interesses responde, quais saoad A questão tinha, obvia- mento categorial, elaborado por Franz, ao plano concreto
- eus orquestr or es. .d d de
ção e quais sao s .• . recentes da reali a e dos processos históricos. O princípio evangélico do amor
- com expenenc1as . por
mente, rel açao d se debate foi passive1 - relativiza toda lei e é uma flecha que aponta para uma
. Mas o ardor es . 'l
nossos paises. . .d d humana do dia ogo.
que aumentara a mtens1 a e 25
24
ça, e que, de todos os modos a - -
~e
que levar em conta a ' opçao nao-sacrificial t
sociedade sem sacrifícios de vidas humanas. Que sucede crificiais que atuam dpresfença poderes e estruturas em
quando esse princípio evangélico, que não abole a lei en- br e orma mele t sa-
quanto imprescindível nos mecanismos institucionais da su mhou a irracionalidade da r - i:ien e; Leonardo Boff
história mas apenas a relativiza radicalmente, é t ransfor- e que devemos apostar na ~zao .mstrumental moderna
pensar a sociedade a p artir racionalidade dos excluidos e
seus sonhos; Julio, referindo-s~º~ relegad_os, dos últimos e
mado em "nova lei" em nome da qual se reinStitui a vio-
lência e a sacrificialidade? Na medida em que os mecanis- locou a questão do " - -~ tentaçoes de Jesus' reco-
nao-negociavel" etc
mos inStitucionais seqüestram, se apropriam do princípio
evangélico, esse princípio da superação dos sacrifícios ser- É .
virá para declarar "necessários" sacrifícios ilimitados: é a claro que alusões tã . .
uma idéia adequada d o u_nprecisas não podem dar
utopização das inStituições sacrificiais. Mas, já que não se 11'1:uito, talvez sirvam pa~a c~~;eudo ~,. discussão; quando
faz bistória sem mediações institucionais, quais são os cri- Girard? Havia díalogad . t uma ideia do seu rumo E
térios para diScernir, nessas mediações, até que ponto já final da sua exposição od mtensamente_com Franz na p~rte
se adotou uma lógica sacrificial legitimadora dos sacrifícios foque correto da proble: :~~ando a unportância do re-en-
de vidas, e até que ponto se preserva a lógica de supera- "!Jeus está morto", mas "nª· ica de ~ietzsche (que não é
ção do sacrificialismo? Como se inter-relaciona o nível cate- tao ~storcida por tantos, ~~l~~sassm~mos a Deus", ques-
gorial do diScernimento (sacrificialismo - rechaço ao sa- p_ress10nado pelas colocações d ive Heidegger) . Parecia im-
crificialismO) com o nível operacional (os sistemas sociais, nqu:za o desafiava a muit e Fra:iz e c_onfessou que sua
os mecanismos institucionais concretos)? cussao G Gorgulh as reflexoes. Ja avançada a d"
. ' . o perguntou a Gir d is-
Foi por este caminho que enveredou o fio da discussão. escntos, se mostrara tão duro n , ~r por que, em seus
Intervim para lembrar que era precisamente Franz quem, ~roposta de pacto social R a cntica a Rousseau e sua
nos seus escritos, nos reconduzia, com freqüência, ao pro- imagina um "homem nat~r ~.sposta: Por~ue Rousseau se
blema básico da dialética entre horizonte utópico e inStitu· pec~do or~~al. . . Franz lh~l ' e~em desejo mimético, sem
~ q~e retomo~
cionalidades, apontando para o fato de que as instituições mais explicitamente da "le· P guntou por que não fala
procuram auto-utopizar-se como "única e melhor solução"; sua conhecida identÍficação l'!1ªta"? Girard
mas que, junto com esse discernimento categorial, por bologia de Satanás nos E o eseJo mimético com a sim-
rápida e inicial, com a sacr~~~e~os e_ traçou uma ponte
mel_~d~vel E~
exemplo diante da messianização do mercado, precisamos
de critérios operacionais para diScernir atitudes e encami- ressonância a colocações de L ialidade na lei.
nhamentos inStitucionfiiS da eficácia na história . ~as vezes, sobre a necessidade .dB~ff, que Jª insistira, diver-
JO relacional ou desejo mi Te ~lar t~mbém de um dese-
Julio de santa Ana refletiu sobre critérios para "um que a reciprocidade é m . me ico mclusivo, Girard admitiu
mercado mais humano" e a preservação de metas sociais existe a boa e a má recip~~ci~g~a que o desejo mimético,
irrenunciáveis; G. Gorgulho enfatizou as "necessidades cor- dem a ocultar ou diferir a . , ~as que as culturas ten-
porais" como referência básica; diversos aludiram à insufi- reciprocidade.
ciência de "esquemas reducionistas acerca das necessidades A tarde deste segundo di
humanas" e à incapacidade dos "socialismos reais" de lidar de questões ant ropoló!ticas eª este~e dedicada ao módulo
com o plano dos desejos; Franz sugeriu que se adote a lin- de Re ne· a·irard pretende
"' ser
· f orno
d e sabido ' o pensamento
guagem "ingr,e dientes materiais das necessidades humanas" de teoria antropológica geral : a am~ntalmente um intento
em vez de "necessidades materiais", porque nunca se trata parte das colocações do .. ' pois, de esperar que boa
de satisfazer essas e outras necessidades enquanto "neces· deb a te e a própria discussão
pamel de . quatro m . t rodutores ao
sidades humanas"; Jung Mo sung reintroduziu a questão tos cent rais da antropolo ·a ~oste:10r versasse sobre aspec-
das doses necessárias de "racionalidade instrumental" em menos em boa parte gib. girardiana. Assim sucedeu pelo
qualquer projeto; J . Pixley insistiu que a reflexão sobre o ta ' em ora predo . '
que significa " qualidade de vida" exige o fomento a "âmbi- r de, a sensação de que se c h egara ammasse,
uma enormeno final da
quanti-
tos utópicos", onde se possa sonhar e organizar a esperan-
27
26
tau,p possivelmente' que aqueles q
de -
erro recolhessem toda a nqueza
. ue nao de o conhecem . . ma1S
dade de elementos soltos, talvez demasiado justapostos, sem
claros vetores de integração. Excessiva pressa teológica? A esta altura d sua contnbmção.
explicitadas
. o nosso
. - diáloao . . h aviam c:"d
pletude da t ~as_ reticencias/ resistências r~i .º bastante
al " Jª
É impossível resumir as intervenções dos painelistas
eona mimética s - a c.ceitar a com
em poucas frases. Valha pelo menos uma alusão rápida a que nível ela analisa a . t e_ nao se explicas.>e melho .
cada um, com o risco da distorção subjetiva. carlos Palacio ví - . m eraçao h r em
ponderou que a antropologia cultural se enredou, especial- vencia humana ela não . . . umana e que aspectos da
talvez, quem mais insistir:~~legia na. análise. L. Boff fora
mente desde fins do século passado, em uma série de pres- d?1!1• a partir da lógica do outr_o polo: no dinamismo d~
supostos bastante questionáveis - por exemplo ao tornar
praticamente sinónimos o "religioso", o "sagrado", Deus,
c~ais. J~o de Santa Ana v~lt~~lmd~s dos sistemas sacrifi-
gia paulina, que "a liberda - a. fri~ar'. na linha da teolo-
se o captei corretamente ~:t~ª~ e_m1metica". G. Gorgulho
transcendência etc. - e que isto lhe vem impedindo o aces-
so à radicalidade do sagrado-crítico, ou seja, à definição do
sagrado como algo que sempre está do lado do ser huma-
pont'? de vista antropológico uzm mna nota realista: d~
no, servindo, assim, como instância critica frente ao sagra- relaç~o. humana no âmbito ;o~ir::iª v~ es~belecida a inter-
um situar-se antes" do d d , nao existe propriamente
do sociológico, às sacralizações do poder dominador. A ori-
ginalidade do cristianismo estaria nessa radicalização do necessidades" no plano hist~~cobrament~ dos "instintos e

G
sagrado antropológico. Incursionando brevemente pela an- p~esença - também, embora o_, o que rmplica sempre na
. º~? somente - daquilo ue
p}.eudrr:;:e~o. Hinkelamrn~rt
rrard denomina dese .o
tropologia girardiana, Carlos se perguntava até que ponto
ela resgata cabalmente essa densidade do sagrado-do lado- reacendeu a crítica a Franz
do-homem, já que se tem a impressão de que nela predo- tampo_uco consegue sair do circ . ponto especifico: Freud
mina a atenção aos dados da violência, deixando de lado tos, nao conhece nenhuma satisfmt_? dos desejos insatisfei-
ne em um não mais dese. açao do desejo que culmi-
outros igualmente fundamentais. É o ser humano somente
um "animal polêmico", ou é t ambém um "animal criativo" da sacrificialidade, 0 não~:~c~z:.~ca de~cobre a superação
. ic10 no Judaísmo
e um "animal fraternal"? O desejo mimético recobre todo
De:ixand o d e lado uma , . ·
o leque de desejos humanos? Qual o sentido dessa totaliza- no diálogo, cabe lembrar que s;r~e de outras intervenções
ção do sistema do sacrifício? rard_ ret~mou, em apertada , . to1 nesta tarde que René Gi-
Um pouco na mesma linha, Luiz Carlos Susin sugeria t~~a mimética; caracterizo~m ese, as teses básicas da sua
=~ºe~~ s~~efere primordiarn{enteq~~
que a obsessão pela pecaminosidade humana. (pecado origi- ruve1s do interagir hum , com bastante nitidez a
nal) deixou pouca margem para a "inocência original", pa- plano do social, onde
ra a pessoa como abertura para o dom (desejo peri.coréti· e reconheceu enfaticamente on cam institucionalidades).

fra~e~t;:c~~~~c~~os) v~ª~
mente não é tudo nã que o desejo mimético ob . '
co, inovando uma terminologia a partir da teologia trinitá-
ria). Rui Josgrilberg, após uma síntese ortodoxamente gi· humana. (Ver os . os aspectos da
rardiana sobre o mecanismo estruturante do desejo mimé-
tico, passou a ínterrogações cristológicas (ver seu texto) e,
para concluir, ousou formular diretamente a pergunta por Dinâmica interna do terceiro dia
que Girard praticamente não entra na questão do projeto
O módulo "Leitura n- .. .
histórico desde as vítimas de uma sociedade sacrüicial, onde ª maru;iã do terceiro dia. ~~~~~cnficia~ d~ Bíblia" preencheu
seria necessário detalhar mecanismos de transformação. que foi por este viés e - que nao e exagerado afinn
Rubem Alves, que não pudera assistir às sessões anterio- tidade de sua teoria ·mn:::cf'ropriamente através da glob':::
res, brindou-nos vinte teses sobre o desejo e o sacrifício, ~i:scitar atenções na Américaª'Lq~e Rene Girard começou a
onde a categoria da prazerosidade ocupa um lugar central eca:i~- Já que havia um b a_ ma, há bem mais de uma
(ver texto). Sua ausência em momentos anteriores, dedica- participantes (e outros tan~: ~~ero am de biblist.as seu
expressado entre os
inte-
dos à análise critica de Nietzsche e também Freud, dificul-
29
28
Franz Hinkelammert cha
tente tipicamente burguesa ;ou ª. atenção para uma ver-
resse no encontro e seus resultados, mas já tinham outros
dme sacrifico mais" (p . ex. E Drewerm
neoruetzscheana
) do "eu nao -
compromissos na agenda) , o conteúdo dessa manhã se anun- e acomodação consumista ~ . . ann , que não passa
ciava como um "prato cheio". E assim foi, efetivamente. ciais, não contribui para di º1 ~tenor dos sistemas sacrifi
Quatro painelistas introduziram a temática. Já que to- fechamento ao dom de . ~o ve-los e ~edunda em um totai
dos entregaram textos escritos, eles podem servir de refe- dade _elitista e seletiva, ~~e .: e~altaçao de urna corporali-
rência para o leitor, muito embora as exposições orais, além mensao universal e includent! nao _se pr~ocupa com a di-
de mais compactas, deslocassem certas ênfases por influên- ~e,_ ~lta uns poucos co os da af1rmaçao da corporalida·
cia do debate nos dias anteriores. Sebastião A. Soares mos- flc1alidade imperante rp ~ a~a~dona os demais à sacri-
. , 0 que e tipicamente nietzscheano
trou a complementariedade recíproca entre a exegese girar-
diana e a que se vem praticando na América Latina, que Juho de Santa Ana _ ·
tos sapienciais introd~~~ c~~exao com a exegese de tex-
el_emento. a que já aludira er:u s~ Gorg_ul_h?• retomou um
toma o pobre como critério hermenêutico e procura reco-
nhecer, de modo concreto e histórico, o rosto das vítimas. dia: a violência generalizada fala lillcial do primeiro
G. Gorgulho, em profunda sintonia com a maneira girardia-
uma genérica deterioração d con:o causadora não só de
criadora de uma terrível doe~ qu~lidade de_ vida, mas como
na de ler os textos, apresentou um exercício concreto desse
tipo de exegese aplicada a trechos da literatura sapiencial peranças jamais alcançadas _ça no coraçao da gente". Es-
(e profética) . A elaboração do conceito de "sabedoria" como cial constante tornam d ' Jtunto com a violência sacrifi-
confrontação com e ruptura do circuito mimético foi uma "Es , oen es a povos . t .
contribuição muito rica (que, ademais, encantou a Girard). . perança que se adia faz ad 1:1 eiras, porque
JO cumprido é árvore de vida?,ec(ePr o coraçao, mas o dese-
A "abertura ao aprender" (teachability) é o centro da vida; v 13,12) .
o justo "come" / saboreia vida e bens de vida, o ímpio "co-
me" violência. J . Pixley abriu pistas novas para perceber o_ tema da Revelação apareceria necessanamente
manhã. Na teologia da libert -
.
nessa
o caráter intrinsecamente contraditório da sacrificialidade e~oques enriquecedores (peaçao este tema vem recebendo
instituída no sistema levítico: o sacrifício passa à margem tnbuições recentes de Juan L~~º'sneste momento, nas con·
dos objetivos que simula ter. Ely Éser, com base em textos ra de passagem Eu P
·
~ egundo) . Ely Éser o toca-
rovoquei 0 gru
neotestamentários, principalmente Mateus, fez emergir as- pergunta: e que nos revela nos " _po com uma rápida
pectos bastante novos do próprio conceito de revelação ao gena, nossos quinhento so -~hgo Testamento" indí-
mostrar que ela não pode ser reduzida à mera palavra dita e s anos de v1timaçõe " .
ou escrita, porque consiste fundamentalmente naquilo que - esperanças
. sempre renascentes? Como s ·ts, veias
. abertas"
o a revelação bíblica? J Ar . i uar isso em rela-
cto que é plenamente ~rt~do~~o~~oco:i no assunto, insistin-
salta à luz como verdade em um processo de confrontação, ça
por exemplo de Jesus com a violência. um processo amplo de ap di ualizar a revelação como
Do grande número de coisas que surgiram no debate na história. L Boff f ren zagem coletiva dos homens
seleciono uma poucas, ao arbítrio ds uma preferência ine- t . . ez algumas formul -
e preciosas, embebidas de ex . - . açoes teologicamen-
vitavelmente pessoal. Como era de esperar, a leitura nã.o- como ele entende o acontecer dpenenc1a - pastoral, acerca de
sacrificial da Bíblia tinha que fazer aparecer, de maneira O . a revelaçao (ver transcrição).
explícita, o nexo entre sacrificialismo e idolatria, a partir tema da idolatria ressur!?i
da Bíblia. ídolos são os deuses vorazes, implacáveis na exi- ~- Gorgulho trabalhando com " . u em um comentário de
gência de sacrifícios. Diversos participantes iluminaram o sico
. tema crist1·ams
· mo como f'diversos
- . elementos ·· o cl as-
.
tema. De minha parte, a migalha seguinte: hoje os meios tia~smo-religião com distor õe: _nao~1d~látrica versus cris-
de comunicação nos bombardeiam com abominabilidades e~ a realeza como sistema ?d 1. i~olati:icas; crítica proféti-
isoladas, crueldades descontextuadas, sacrificialidade demo- çao da aliança (Oséias)" li1 o atnco: idolatria e prostitui-
nizável enquanto separada das causas em que se enraíza; ' 0 n vroli de Jo·. "a umca
Deus que resiste à crítica · · imagem de
nós, em contrapartida, devemos insistir no caráter abomi- ' o vro de Jó ' é a do Deus dos
nável dos sistemas estruturalmente sacrificiais.
31
30
acompanhar· todas as "ressonâncias" de seu pensamento
pobres" (elemento pouco acentuado no livro de Girard so- nessa area, como .. .em outras incursões d e " especialistas"· ·
b e Jó, anotou-se de passagem). no ter. reno d os sistemas auto-re!!Uladores"·
0 , o que 1evava
Benedito Ferrara, em continuidade com colocações de a prever que, · nos
. assuntos especificamente e,..on· - ormcos . se
J . Pixley acerca do papel do sacrifício na manutenção do camportaria mais como vigilante espectador Em '
lu ga r ' os livros d e seguidores
· de e dialogantes · comse!?tlildo
Gi d
que tra~am de assuntos econômicos h aviam sido pouc~arli­
equilíbrio social, analisou como isso oculta a expropriação
do excedente dos pobres; hoje sucede o mesmo no paga-
mento da dívida externa que é um rito sacrificial; portanto, dos, ate ·o momento, . pelos participantes d est e encont ro
é necessário trazer à luz aquilo que os sacrifícios escondem, Em ·t t erceiro
b 1ugar, nos ' membros do g·rupo que Jª .. h aviamas
. ·
mostrar o que há "dentro" dos sacrifícios: as vidas elimi· escn o so re o assunto, •. para
• ser sinceros fº é
, o iz ramos so.
bretudo ª
em um Ó ~ica cntico-denunciat · ·
como .critica à "idolatna · d o mercado ,, e ona, por
nadas ou deterioradas. a atual conexemplo
·, t
Julio de Santa .Ana chamou-nos de volta a uma profun- t d nos obrigava. a. ser mais explí~ci·to s acerca de
mundial JUD ura
como
da sinceridade no diálogo ao enfatizar que existem, sim, en en emos a necessana conjugação entre Mercado e Plano.
convergências significativas entre a leitura. não-sacrificial da
O leitor encontrará neste li . _
Bíblia, feita por Girard, e a leitura latino-americana, feita mente abundantes emb~ra ., vro, transcnçoes relativa-
em e a partir de experiências de fé dos pobres, mas que das intervenções ~o debate sd:~i:et!~~temente condensa~s,
é preciso sublinhar também que existem algumas diferenças omitir aqui o que pode ser con e, o que nos pernute
importantes, e que elas tocam o coração do problema ht::·· Três painelistas introduziram· soult:Wbº te
naqueles fragmentos.
menêutico (ver transcrição).
. ae a . Da minha t
qUIS provocar avanços acerca da "auto . d . par e,
René Girard interveio no diálogo com certa freqüência, que implica assumir con ·un nomia . ~ social": o
muita desenvoltura e espontaneidade. Dava a impressão de ção pl~nificada de metas Jsoc=e::i~di~v~~c~~1=· pri?n.)za-
que se sentia sumamente à vontade, até surpreso com o ní- mecanismos auto-reguladores na economia ( idcaçao e
vel do debate. Fez uma colocação muito nítida sobre defesa perder jamais de vista . . . . merca o), sem
Franz H ºnk l o sacrificialismo embutido neles?
profética dos pobres e denúncia da idolatria. Também res- . i . :e ammert preferiu reenfatizar, pelo menos .
saltou a função dos mitos: fechar a boca das vitimas (ver
transcrição) .
~:~~ 1-~~:i~:a~n~~ ~!:~:;~i~idp~~e 1?trintseca do =~
existe na medida e . · pria au o-regulação
O módulo da tarde do terceiro dia tratou de "Questões . m que o sistem a é sacrificial . t é
diante seu caráter sacrificial Jun M ' is o , me-
sócio-econômicas". A discu..c:são dessa área temática se im- tante sua ao longo de todo · g t° Sung - uma cons-
0
punha a partir de pelo menos três razões bastante óbvias: que as metas sociais ms·p1·radencon ro - voltou a frisar
• · as naquelas opç-
toda a teologia da libertação sempre destacou a importân- nutrem da fé e do horizonte tó . oes que se
cia das mediações sócio-analíticas, isto é, políticas e econô· apoio em . . ~ pico, encontram um certo
micas, de uma linguagem teológica que aspira a ser historica- ideolo!!ias ::i~teenstos científicos, ':1:2ª~do purificados de
. º • mas que as c1enc1as dí · · -
mente relevante, e o nosso diálogo não fugira a essa carac- cumplices do sacrificialis . sporuvelS sao
terística desde seu início; encontravam-se presentes no gru- tes doses de "raza- . tmo, no entanto, precisamos de for-
o ms rumental" p 1· ..
po alguns dos que mais se empenharam em refletir e escre-
ver sobre o binômio teologia e economia (Franz, Julio, Jung
el~ est:ja, para construir e executa; p~~e~~ ~~i~da q?:
veis; nao há como evitar, portanto s :icos via-
Mo Sung e eu); o pensamento de René Girard já foi objeto
de significativas "ressonâncias" para dentro da economia ~~~:::00 oin~trumental na busca de':e~:~~es~~~fr~cacs~~
impasse, por exemplo d eb ,
(ver bibliografia). sua adesão ao horizonte u tó : as e s, generosas em
- pico, mas travadas 1b
Havia, no entanto, alguns percalços de não fácil supe- çao e adesão a projetos históricos
poder.
d ~a e a ora-
• on e se lida com o
ração em urna discussão em grande parte improvisada. Pri-
meiro, o proprio Girard já deixara claro que não lhe é fácil
33
32
A discussão foi, a meu ver, bastante rica. Avançou-se
muito na direção de um melhor equacionamento dos pro- porém no plano das alternativas rát·
blemas; não necessariamente, ainda, no atinente a soluções de problemas. A déblâcle do "soc1·aplis icas, nesse conjunto
mo real" a f ··
para as quais não basta a lucidez teórica. Um aspecto, su- das propostas das esquerdas tradicionai 0 t '. ra_gibdade
blinhado em d iversas intervenções, é o clima sufocante da canto das sereias do mare magnum d s, nunfalismo do
atual conjuntura mundial, onde os problemas mais urgen- d o e, por outra parte as vítimas inco mercado
tá .
messianiza
. . -
sacrificialismo implantado no mund ~ ~eis exigidas pelo
0
tes da maioria da humanidade se chocam, não apenas com
a indiferença e a insensibilidade, mas com o cinismo dos muito, a relevância de uma reflexão ~e~l~ .' reforça??-, e em
defensores da fé do mercado "messianizado". A situação da se institui a partir das vit· . gi~a e política que
América Latina, frisavam alguns, se afundou em uma espé- de dúvida, uma consciência~as. DISso havia, sem sombra
participantes. guçada em todo o grupo de
cie de orgia neoliberal, que procura invisibilizar ao máximo
as vítimas do alto culto social dos programas de reajuste
ao mercado internacional. Como observava Rui Josgrilberg:
"Parece que o mercado tem a possibilidade de cantar um A manhã de encerramento
canto de vitória como jamais o havíamos escutado".
Nosso encontro culminou em . , .
Foi lembrado o grande avanço que representa para a sificação final do diáJocro De .d uma extra_?rdinána inten-
rico, mas também ao clim"a dev:'ia:~n:~~:o sumamen_te
consciência dos cristãos que queiram despertar o fato de que
se vem sublinhando, mais e mais, em documentos das igre- de encerramento - . 1onga sessao
jas, que os problemas econômicos não têm apenas implica- sua transcrição ~~~ pro!mos participantes solicitaram a
ções éticas, mas teológicas (a questão da qualidade da fé densando em ~uito ~ . i~o só ~e tornasse possível con-
e a ameaça de perversões idolátricas da mesma). Julio de enaane: não foi a euf . .mdervençoes .. Que o leitor não se
., . ona e um "chega o "
Santa Ana, apontando para o fato de que a única lógica não foi um encontro para cheaa m s ' ~arque este
aceita pelo mercado irrestrito é a do desejo mimético e da
violência, insistiu que devemos manter um núcleo simbólico
t
clusões definitivas. Foi, pelo ., r _q:ialquer tipo de con-
abundantes desafios que nos con rano, u:na colheita de
de reclamos não-negociáveis. Dirão que somos "resistências dúvida, ~a troca ~motiva de a~;r~d~~:~s H~uve, sem
provincianas", mas não podemos desistir de propor, tam- reconhecimento mútuo em !?T d . · ouve um
bém no plano da economia, as exigências não-miméticas do como aliás foi sublinh ., an e profundidade. Diria até
Espirita. "Economia Política do Espirita Santo", informava risticas de terapia hum~~· eq~se ??sso diá!ogo teve caracte~
Julio, é o provável título de um próximo documento do quecedor, mas permanece sob~~1t~al. ;01 g?stoso, foi enri-
Conselho Mundial de Igrejas. tarefas que virão. ' u o, esaf1ador quanto a
Leonardo Boff emendou: "A antieconomia do Espirita
Santo" ... Mais ao final da tarde, estabeleceu-se um apaixo-
nante diálogo entre Leonardo e Girard. Leonardo enfatizan- Observações finais
do sempre, com toda a radicalidade, sua adesão ao pólo
prioritário de critérios: a lógica que se elabora a partir dos A honestidade exige que se di .
excluídos; ter a coragem de chamar isso "verdadeira racio- temas levantados não checrara g~, ~mbem, que muitos
nalidade"; etc. Girard, por sua parte, declarando sempre ou não mereceram toda a.,at m _ao evido aprofundamento,
seu acordo básico, insistia em recolocar a questão no plano é honesto reconhecer que ape:,çaodque merec~am. Creio que
das mediações institucionais, que nos confronta com o jogo go, a própria garantia d~ diál~r ~ profundidade do diálo-
mimético de conflitividades. contornar assuntos onde go i:voi:, algumas vezes, a
É normal em um acontec~e~on~e1:g~nc1a resultaria difícil.
Creio que todos perceberam, ao longo dessa tarde, que go iniciado poderia prossegu.·1r.to medito como este. O diá10-
temos muito chão pela frente, também a nível teórico, mais

34
35
não questiona o sacrifício, não contribui para dissolvê-lo.
Torna-o mais radicalmente sacrifício, torna o inquestionável.
:it um ponto-chave, uma áistinção fundamental.

TRANSCRíÇÃO Questões teológico-pastorais:


DE FRAGMENTOS DO DIALOGO Por que uma cristologia não-sacrificial?

B enedito Ferraro (26/ 06/ 90 - manhã)

Colocarei algumas questões a partir da morte de Jesus.


Em termos mais precisos, conviria falar de assassinato.
Jesus não morreu, ele foi morto. Neste sentido me parece
que Ele foi, coroo dizemos aqui na América Latina, um
marcado para morrer. Como vemos, por exemplo, em Me
3,6 ou Jo 11,45-52. Jesus fez parte, à sua maneira, de um
grupo de resistência da Palestina do primeiro século. Ele
PRIMEffiO DIA
lutou pela justiça. E por essa razão tinha que morrer. Todos
to-sacrifício e dom de si os que lutam pela justiça têm que morrer.
Distinguir claramente entre au
Jesus foi considerado pelas primeiras comunidades
Franz Hinlcelammert (26/ 06/ 90 - manhã) como um mártir (testemunha), que foi coerente com seu
projeto de vida. O projeto do Reino de Deus. Um projeto
Julgo fundamental uma clara distinção entre_ auto-sacri· que tinha as suas raízes em todas as experiências de luta
fício e dom de si. Trata-se de uma clareza conceitual neces- do povo. Ele retomou as bandeiras de luta do povo. A con-
sária, para além de qualquer questão meramente verbal ou quista da terra, o não-pagamento dos impostos e a vida
terminológica. dos pobres.
o auto-sacrifício não é um dom de si.. O ::'-~to-sacrifício é As primeiras comunidades retomaram os textos das
aceitar ser sacrificado. Neste sentido_, _s:gnifica completar, Escrituras para fazer frente às interpretações dos podero-
complementar, tornar perfeito o sacnficio. Concordar com sos que viam a J esus como impuro, pecador, blasfemo,
...:ç•cado Ou 0 que é o mesmo estar de acordo com agitador. Os textos do NT, sobretudo Lc e Jo, falam da
ser sacuu . , · ' b bendo
0
sacrificador. Exemplos: Sócrates que~ em o~ sa morte de Jesus como de uma "morte por . .. " (hyp;:.7, em
que 0 julgamento contra ele ~r~ inace_it~v~l, aceita_ ~ ~er~ grego) . Uma morte por solidariedade. Uma morte para de-
dicto, toma o veneno e se swcida; Ifigema ~ue ~- Pai, fender a justiça.
sacrifica-me!"; há um exemplo igual na Bíblia, a filha ~e
Hoje, na América Latina, a novidade da Igreja consiste
º
J efté que também pede a seu pai que cump!ª.. seu ~o~o
e a sacrifique (Jz 11,36). Esta é também a ideia mediev~l precisamente no ingresso dos cristãos nas lutas de liberta-
do sacrifício de Jesus: Jesus se auto-sacrifica p~ra cumpnr ção dos pobres. Também na América Latina, todos os que
a decisão do Paí. Isto não é nenhum dom de si. lutam pela justiça são perseguidos, são assassinados. Todos
estão marcados para morrer. Trata-se de um sacrifício cau-
o dom de si tem outro pólo de definição. Uma razão sado pelo capital. Pelos interesses dos grandes. Todos os
para entregar a vida que contenha um elemento de supera- nossos mártires retomam a vida e o projeto de Jesus. En-
ção e dissolução do próprio sacrifício. Tem que ~~v~r esse tão, também eles dão a sua vida em solidariedade, pela
elemento de dissolução do sacrifício. O auto-sacnfimo, que
37
36
justiça. São mortos por causa de suas lutas em favor de Vemos, pois, que a palavra sacrifício é muito ambígua.
ieus irmãos mais pobres. Não é Deus que exige o sacrifício do seu Filho. Deus espera
que seu Filho seja coerente. Que seja coerente com seu
Os mais pobres também estão marcados para morrer. projeto de vida. Não é Deus que exige a morte dos pobres.
Somente no Brasil, 150. 000 crianças morrem anualm~r:ite É o capital. Este sim exige o sacrifício dos pobres.
antes de completar um ano de vida. 700 ._ooo ~a Amenca
Latina, a cada ano. Como entender esta situaçao? Dev~-se Como, então, devemos entender a palavra "sacrifício"?
falar de sacrifício? Certamente deve-se afirmar que e~ste De um modo negativo ou positivo? De um modo ativo ou
a violência dos poderosos. A violência sagrada ~o capital. passivo? Como entender o dogma cristológico que, no início,
Poderíamos mesmo dizer: é um assassinato coletivo. se referia a um "homem elevado à dignidade de Deus" -
conforme podemos verificar nas profissões de fé: Jesus é
Jesus, o Cristo, morreu, não para r esponder a um d~e­ o Cristo, o Salvador; Jesus é o Filho de Deus - quando,
jo de Deus-Pai, mas por ter sido coerente com o proJeto mais tarde, Ele é apresentado como um Deus que "desce
do Reino. Jesus foi assassinado, foi morto p_or causa da dos céus" para legitimar uma ordem?
sua luta pela justiça. E sua morte foi considerada. uma
morte agradável a Deus precisamente por ter cu~ado Como compreender a vida de um povo que resiste nas
sua vida coerente. Pode se dizer que sua mo~te fo~ un:1ª condições mais inumanas? Este povo é uma vítima dos
morte por solidariedade e uma morte que susc~t8: ~olldane­ sacrifícios exigidos pela ordem do capital. É uma ordem
dade. Pode-se, pois, dizer que foi um ato so~~no e_ um que se transformou em lei suprema. É exatamente assim
ato gerador de solidariedade. E por isso ~la foi rmpulsiona- que Santo Anselmo via a morte de Jesus. Ela tinha que
da pelo Espírito. Neste sentido, pode se dizer que Ele entre- cumprir-se para restabelecer a ordem. E até o próprio Deus
gou a sua vida. Que Ele fez da sua vida um dom. Que Ele tinha que obedecer a esta ordem. A ordem feudal, que esta-
fez o dom de si. va por trás desse tipo de teologia, era vista como um abso-
luto. Não havia lugar para a utopia. Não havia escatologia.
Hoje também os cristãos entregam a sua vida por soli- O Reino já se havia realizado. Hoje também, como pensam
dariedade, por causa da sua luta pela justiça. Como Jesus, os dominadores, o Reino já se realizou no capitalismo. Para
eles são perseguidos, mas eles ressuscitam nas lutas do os pobres não há futuro. Eles não têm direito de sonhar.
povo. Por exemplo, como diz o testamento de Dom Osc~; Não existe utopia. Não se deve mudar a s ituação, já que
Romero: "Se me matarem, ressuscitarei nas lutas do povo . esta situação é desejada pelo deus-capital. E quando se bus·
Então eles ressuscitam na resistência do povo. O testamen- ca mudá-la, a violência aumenta ainda mais.
to do' Padre Josimo também afirma isso. Ele disse que Como superar, então, a linguagem fechada do sacrifí-
fazia 0 dom de si para que os camponeses pudessem ter cio? O povo não compreende essa linguagem. Que lingua-
vida. Sua morte não representa o fim. É um novo começo. gem poderíamos usar para que o povo a entendesse? Aqui
É por isso que se tem a possibilidade da utopia. no Brasil, e na América Latina, o povo pobre não entende
Pode-se igualmente afirmar que os pobres são vitimas tampouco a linguagem política. E a linguagem religiosa tra-
dicional - simbólica, teológica - o leva a aceitar a situa-
da exploração. São vitimas dos sacrifícios exigidos pelo
ção como uma situação querida por Deus.
deus capital. O deus-capital exige o sangue dos pobres, dos
operários, como ontem exigia o sangue dos índios e . ~os Faço, por isso, uma pergunta: devemos falar de uma
negros. Conta-se que, em alguns lugares, os índios sacrifica- continuidade ou de uma ruptura? Verificamos, em nossa
vam virgens a seus deuses. Mas os índios diziam que os prática, que o povo pobre só chega a entender essa nova
espanhóis sacrificavam milhares de vidas, nas mi?as, ao linguagem política e pastoral depois de ter feito uma expe-
deus-ouro. Hoje e aqui, no fundo é a mesma coisa que riência de luta. Sem a luta, sem a ruptura política, não se
continua acontecendo. capta o sentido da nova teologia.

38 39
Penso, por isso, que o povo pobre das com~dades â~ Eu creio, por isso, que a dignidade epistemológica desta
base comureende que eles são vítimas de mecarusmos s8:cri- teologia é conferir centralidade à figura dos pobres, que
ficiais. M~s o povo pobre, que não faz parte das c:omuru~a­ são hoje as grandes maiorias, são dois terços da humanida-
des, não pode comp reender ess~s n:~canis~os. S~o, entao, de. E isto - como já o dizia , faz muitos anos, Hugo Ass-
controlados pelas linguagens sunboh?as, P~la~ ~guagens mann - é o teste para ver até que ponto é cínica ou não
tradicionais. Acho, por isso, que se~a n ecessano r~mper é cínica qualquer teologia . Se toma em conta, ou não, o
com essas linguagens, já que essas linguagens contribuem escândalo dos pobres.
constantemente para que essa situação seja vista como uma
Como chegamos a isso de colocar os pobres no centro
situação querida por Deus. de nossa reflexão? Muito resumidamente, isto é conseqüên-
cia de dois tipos de experiência. (Passa a relatar brevemen-
te o surgimento, nos últimos 30 a 40 anos, da vertente
O lugar central das vítimas na teologia da libertação sócio-política e da ver tente especificamente teológica da
opção pelos pobres, na América Latina. Ao deter-se um
Leonardo Botf (26/ 06/ 90 - manhã) pouco mais na experiência de fé dos empobrecidos, recolhi-
da e aprofundada especialmente nas Comunidades Eclesiais
Quero apresentar algumas idéias muito_ fr~gtnentárias, de Base, Leonardo Boff frisou:)
desde a teologia da libertação, com referencia ao ~u~ar
central que ocupam nela os pobres, as vítimas. A meu JUIZ?, As CEBs aprenderam a vincular estreitamente Deus
. eira teolO!!ia das igrejas que se busca constrwr - pobre - libertação. Descobrem, dessa maneira, que Deus
é a Pnm
desde a p erspectiva" das Vltlmas.
· · As teo1agias
· que conhece-
. . . é Aquele que escuta o clamor das vítimas. É neste sentido
mos, as históricas, são teologias feit~ ~ent~o das mstitm- que entendem a expressão Deus dos pobres: o Deus do grito
ções das igrejas, desde o âmbito acadermco ligado ao pode~ dos esmagados.
eclesiástico. De algum modo sempre se supunha que esti-
vessem feitas em função do e para o povo de Deus, de
al!!UID modo inclusive para os pobres. Mas, pelo que eu A teoria mimética não se limita à crítica das linguagens
salba, jamais, na história do cristianismo, os ?obres foram
0 lugar epistemológico, isto é, o lugar a partir. d~ .q ual se René Girar á (26/ 06/ 90 - m anhã) - (Perguntado acerca da
pensasse o conceito de Deus, Cristo, graça, historia. ponte entre a teoria mimética e a ênfase em aspectos sócio-
o intento da teologia da libertação é preci~amente efe- politicos nas intervenções de Julio, Leonardo etc.) .
tivar essa virada epistemológica: buscar qu~tim:iar, desde No plano simbólico o contato é imediato. Ao m esmo
os pobres, as instituições da sociedade e as i~e~a_s- Todo~ tempo, quero insistir que a análise mimética não é uma
fazemos, de algum modo, histó~. ~as ~ ~~tona que e receita. J amais deve ser r eduzida a uma receita pronta, já
conservada da qual temos memoria, e a história dos pode- que o mimético é a fluidez absoluta. O mimético é o anti-
rosos, dos' vitoriosos. Porque eles criam as at~s d~ suas sistema por excelência na m edida em que a própria realida-
vitórias e elevam monumentos. Quem conta a históri~ dos de impõe constantes requestionamentos.
pobres? Eles são os esquecidos, humilhados e ofendidos.
A análise mimética é principalmente um instrument o
como dizia um profeta maia - Chilam Balam - quan· de desconfiança em relação ao que se projeta em nossos
do cheaaram os conquistadores: Os conquistadores esma- discursos. Mas insiste na relação entre realidade e discurso.
garam, "mataram todas as flores, para que só ficasse a deles. Se, por U.'"11 lado, é um instrumento de desconfiança em
Esta é a lógica da dominação: cria vítimas, mata as f~ores, relação à linguagem, por outro lado, de maneira nenhuma
esmaga a cultura, destrói relações sociais . . . É uma imen- se limita a ela. Não é, portanto, uma simples "desconstru-
sa cadeia de vítimas. ção" (do discurso) ao estilo de Derrida e todos os que afir-

40 41
mam: somente existe a linguagem, não existe a verdade ~o nos - , despreza o sangue d e Jesus. E a Epístola aos He-
real em si. Nós sabemos que existe a realidade, que ºª? breus tira a conclusão: É horrendo cair nas mãos do Deus
se reduz jamais ao mero discurso. Oponho-me, _po:t_anto, ~ vivo. Vejam, trata-se de um Deus terrível. Acho que o horrí-
redução do mimético à mera linguagem. O munet1~0 eVl- vel está em conceber um deus que seja tão terrível. E apa-
dentemente pode ser utilizado também como um ~m~t_ru­ rece, então, um circuito sacrificiaI que é completamen~e
mento de análise política. Vejam, ademais, que voces Jª o insensível. Por sacrificares, te entrego à boca do leão. É a
utilizam de maneira admirável. Sinto-me feliz de que lhes implacável boca gigante desse "deus vivo" que vai devorá-
possa ser útil. Não esquecer, porém, que se tra~ de uma lo. Como percebemos, um determinado rechaço do sacrifí-
análise crítica, de crítica dos outros, mas, espero,_ igualmen- cio, um determinado anti-sacrificialismo se transforma, já
te de crítica de nós mesmos. Tenho a impressao de que na Epístola aos Hebreus, na razão do sacrifício.
iniciamos um debate sério. Creio que o que René Girard se empenha em destacar
- e quanto a isso concordo inteiramente com seu pensa-
mento - é que se trata de dissolver e abolir o sacrificialis-
A distinção entre n ã o-sacrificial e anti-sacrüicial mo, de fazê-lo desaparecer, de superá-lo definitivamente.
Não se pode objetar a René Girard de haver caído neEsa
Franz Hinkelammert - (26/ 06/90 - tarde) armadilha do anti-sacrificialismo que se transforma em jus-
tificativa feroz de novos sacrifícios Seu pensamento aponta
Quero fazer uma breve reflexão sobr~ o anti-~acrificial. sempre em direção à superação do sacrifício, ir além do
(Novamente, não se trata somente de llmpar. hnguage~, sacrifício. Neste sentido, como Hugo (Assmann) já mencio-
mas de discernir conceitos; neste caso, os conceitos de ant1- nou, seu pensamento tem uma constante carga utópica.
sacrificial e não-sacrüicial) . Buscar uma vida situada além do sacrifício. Não pactar
com o sacrifício. Todo pacto com o sacrifício é sacrificial.
Captamos corretamente o pensamento de R:né Girard
se o qualificamos de anti-sacrificial? Creio qu~ nao, porque O anti-sacrificial subjaz à Conquista da América. A Con-
seu pensamento é não-sacrificial. Quero, por isso, ponderar quista da América é anti-sacrificial. Em todas as justifica-
o conceito de anti-sacrificial, distinguindo-o agudamente de ções da Conquista isto aparece muito claramente: os astecas
não-sacrificial. Isto tem muito a ver com o auto-sacrifício sacrificam, os maias sacrificam, todos os índios são apre-
em oposição ao dom de si. sentados como sacrificadores, ou então, obsessivamente,
como canibais, o que é a mesma argumentação. E a conclu-
A modernidade é anti-sacrificial. Sacrifica em nome da são é: temos que sacrificá-los (embora não se diga com
anti-sacrificialidade ou do anti-sacrificialismo. O anti-sacrifi- essas palavras) para que deixem de sacrificar. Portanto um
cial pode ser tremendamente sacrificial. sacrifício inexorável para acabar com os sacrifícios. '
Para começar, quero confrontar me com a afirmação de
E aparece, assim, esse sacrifício tão estranho que os
René Girard de que a Epístola aos Hebreus é anti-sacrificial.
cristãos praticam. Eles queimam suas vitimas. Diante da
É certo concordo plenamente. É de fato, pelo menos em
Catedral. Na praça santa. E cantando o Te Deum. Queimam
alguns tópicos, anti sacrificial. É sumamente_anti-~~c~~cial. sacrificadores. No portal da Catedral está o Juízo Final
Creio que é o lugar onde se origina o ant1-sacrificiallsmo
como se pode verificar em muitas partes. E é óbvio . . .'
mais violento do cristianismo ocidental. Na Epístola aos
Queimam-se seres humanos vivos, diante da Catedral e dian-
Hebreus se diz que o apóstata volta a sacrificar. Daí surge te do Juízo Final, e canta-se o Te Deum . E a ninguém ocor-
a idéia de que é necessário, agora, sacrificar aqueles que
re (tomar consciência de) que se trata de um sacrifício
sacrificaram. humano. E por que razão não lhes ocorre? Porque aqueie
Ao voltar a sacrificar, o apóstata crucifica novamente que está sendo queimado é um sacrificador. Se é um sacri-
a Jesus. Ao tornar a sacrificar - segundo os ritos roma· ficador, sacrificá-lo não aparece como sacrifício mas, ao

42 43
que eram perfeitamente VIS1veis. Precisamos de exemplos
contrário, como extirpar o sacrifício, combater o sacrifício. análogos, mas situados na modernidade, onde, na minha
É a guerra aos sacrifícios.
opinião, se verifica uma crescente invisibilização dos sacrifí-
E quando o anti-sacrüicialismo se esforça por acabar, cios, o que de modo algum os torna menos brutais. O assun-
de uma vez, com os sacrifícios - na Conquista o verifica- to certamente reaparecerá no debate.
mos - ele se reveste de uma brutalidade e agressividade
incríveis. E nunca lhe ocorrerá que ele é sacrificador. Por-
que, através dessa fascinação pela guerra contra os sacrifí- René Girard (26/06/90) - tarde; intervenção mais longa)
cios, ele é um sacrificador que nem se dá conta do que o é.
(Fragmentos autobiográficos)
Ele próprio não se dá conta. E os que participam no ato,
ou os que o observam estando de acordo, tampouco se dão Tantas coisas relevantes foram levantadas no debate,
conta do que está se passando. Com exceção dos índios. ao longo deste primeiro dia, que eu obviamente não me
Estes, sim, se dão conta e por isso mesmo falam claramen- sinto capaz de comentar tudo. Acho que é bom que lhes
te que são sacrifícios. Mas o conquistador não chega nunca diga algo sobre a minha própria trajetória: de onde venho,
a essa consciência. Ele está escandalizado com os sacrifí- como as coisas foram sucedendo na minha vida, etc.
cios dos astecas. Embora no mundo ocidental se tenha
sacrificado muito mais. É verdade, antes de mais nada, que me movo sobretu·
do no âmbito acadêmico. ( Nota: A distinção entre teologia
Insisto que se trata de um sacrifício nitidamente reli- acadêmica e teologia da libertação, a questão do "lugar
gioso, embora seja um tipo de sacrifício religioso invertido. epistemológico" etc. haviam surgido enfaticamente na dis-
Não se trata de um sacrifício de vidas sem claro caráter cussão). Diria até que sou muito mais acadêmico do que a
religioso. Neste ponto, sim, me animo a criticar a René tradição católica da França. Há, sem dúvida, também uma
Girard pelo fato de não enfocar e analisar este tipo de sacri· tradição católica francesa que não é propriamente a minha.
fício tão importante para nossa perspectiva, a partir da
América Latina; e por não haver des tacado o caráter religio- Minha mãe era católica, e eu ia à m issa quando criança.
so de ~melhantes sacrifícios. Não basta dizer que é um Mas meu pai era anticlerical, anti-religioso. E eu fui aban-
sacrifício real de vidas. É religioso, canta-se o Te Deum . donando toda prática religiosa des de os dez anos. Dos 10
Deus lá em cima, todos de joelhos, piedosamente trouxeram aos 38 anos não tive praticamente nenhum contato com a
a lenha para queimar o sacrificado, a fogueira é um altar, lgreja.
e tudo é visto como uma ação referida a Deus; levam lenha
para obter o p erdão de seus pecados. Não podemos deixar Eu sou um convertido, um convertido de origem cató-
de perceber este tipo de sacrifício, justificado por uma lica. Estudei em colégios onde não havia educação religiosa.
(Antes de caracterizar a sua conversão como inseparável
atitude que se pretende anti-sacrificial.
do seu trabalho intelectual, RG fez uma digressão b astante
longa sobre as ligações entre tradição francesa moderna e
o surgimento, precisamente na França, apesar das vertentes
Hugo Assmann (em continuação) reacionárias, de um catolicismo progressista e socialmente
engajado; elogios à J. Maritain, E . Gilson etc., r essaltando
Quero chamar a atenção para o fato de que os exem- que, embora influenciassem a muitos jovens do seu tempo,
plos descritos, tão sugestivamente, por Franz são pré-mo- ele pessoalmente se dá conta da sua importância somente
dernos. Por isso mesmo conseguimos transformar as crôni- mais tarde. Dá, a seguir, um motivo supreendente por que
cas a seu respeito em relatos persecutórios. Embora hou- essa tradição católica lhe interessa retrospectivamente) .
vesse a méconnaissance, o "desconhecimento" do fato de
Creio que é interessante retornar a esse tipo de gente ...
que se tratava de evidentes sacrifícios (pelas razões expli-
Pessoalmente, é uma coisa à qual eu retorno hoje e que
cadas: nasciam do anti-sacrificialismo), não cabe dúvida de
45
44
me interessa cada vez mais, incl~_ive pe~a injustiça dos
franceses em relação a essa tradiçao. VeJam um aspecto volvi sem compreender imediatamente todas as implicações;
pouco lembrado. . . Eu pertenço à geração da II Guerra a verdade é que, embora jamais hesitasse, fui avançando
(Mundial) e do pós-guerra; uma geração intelectual na qual um pouco às cegas, como que empurrado pela coisa.
praticamente todos sofreram a tentação do pensamento to- Embora alguns insistam em atribuir-me idéias precon-
talitário. Aqueles que não escorregaram um pouco n? _fas- cebidas - os conservadores me atribuem pressupostos que
cismo, muitos deles resvalaram no estalinis~o. Os urucos não lhes agradam; freqüentemente a esquerda me atribui
que escaparam a isso foram os que estavam ligad~s àquela preconceitos de direita .. . quando as pessoas me atribuem
tradição católica de Maritain, Gilson e gente assun. Essa pressupostos, eu entendo, porque afinal há coisas incons-
tradição católica era acentuadamente intelec~ual; mesmo cientes . . . - pessoalmente eu sei que se trata de algo que
assim influenciou uma parte importante da Juventude. A me veio, que não podia mudar, que eu não podia abando-
JEC (Juventude Estudantil Católica), a JOC (Juventude nar ou modificar, porque se trata de uma espécie de coisa-
Operária Católica), o movimento ligado ao "personalismo" em-bloco.
de E . Mounier, tudo isso era algo bastante forte qu~do ~m
era jovem; essas coisas tiver~m cer~amente algun_ia inf~uen­ E eu me esforço sempre para distinguir essa intuição
cia em meu pensamento, e e a razao pela q_u al Julguei 1:1e- básica das minhas opiníões circunstanciais. Quando eu era
cessário lembrá-las. Mas meu contato co~ isso era mmto jovem eu tinha, sem dúvida, opiniões de esquerda. Agora
deoil. Porque eu, naquele tempo, me coi:~iderava ateu, es- que estou envelhecendo, reconheço que tenho, às vezes, opi-
querdista, mas geralmente bastante apolítico. niões mais cons·e rvadoras, como, de resto, costuma suceder
aos que envelhecem. . . Mas busco distinguir minha intuição
básica de minhas opiniões. Sei que há momentos em que
( Por que me canverti?) vacilo, porque não falo em nome dessa intuição total. Sin-
to-me obrigado a dizer isso exatamente dessa maneira, por-
Quanto a mim, foi meu trabalho q1:e me le_you a minha que não vejo outro jeito.
conversão ao cristianismo. As duas coisas estão ~ompleta­
mente unidas e misturadas. Eu não falei nun~a disso, po~­
que me parecia difícil, constrangedor e ~engoso demai~ (Sobre a vinculação com especialistas em
para ser abordado. E certamente pod~ suscitar mal-ent~ndi­ sistemas auto-reguladores)
dos. Mas é verdade. E aqui eu me sinto em um ambiente
que torna possível falar dessas coisas. Citou-se aqui que alguns especialistas em teoria dos
sistemas, sistemas auto-reguladores etc. se interessam por
meu pensamento. É verdade. Devo dizer, no entanto, que
( Como cheguei à minha teoria sobre o desejo são relações que não foram iniciadas por mim. Pessoalmen-
mimético e o .sacrifício?) te, eu não tinha consciência de que existiam tais nexos entre
a teoria mimética e a teoria da ordem que emerge do caos.
Minha intuição acerca do desejo mimético e o sacrifício Foi Jean-Pierre Dupuy e outros que me fizeram ver isso.
e tudo isso, de certo modo, foi uma intuição súbita, um É com Dupuy que tenho as relações mais estreitas neste
sobressalto que me veio no fim dos anos 50, reforçado no ponto, porque ele é capaz de estabelecer a ponte entre as
início dos ~os sessenta, com alguns lampejos um p~uc? duas linguagens. Em 1982 tivemos um simpósio, onde esteve
anteriores. Como uma percepção que de repente e_s ta ai, I. Prigogine e diversos peritos desse tipo de pensamento.
em bloco. Busquei, depois, explicá-la, aplicada a diversos
terrenos; nem sei se já terminei de explicá-la; ~spero ~oder Vocês têm plenamente razão .. . Existe urna atitude se-
explicá-la ainda mais exaustivamente. Tenho. a impressao de letiva em relação ao meu trabalho. Às vezes, não me sinto
que se trata de uma intuição global e massiva. Eu a desen- verdadeiramente capaz de ter uma clara supervisão do que
recolhem de meu pensamento, ou de saber quais são real-
46
f7
mente as intenções deles. Em alguns casos saberia expres- que é a vocação para a liberdade. Quando Jeremias desco-
sar, com nitidez, os desacordos. Mas em outros casos sou bre esta vocação, assusta-se tanto que chega a maldizer 0
incapaz de fazê-lo. Mas concordo que a maioria das pessoas dia em que nasceu, mas já não pode desfazer-se dessa
que me citam, especialmente nos meios universit~ios, .º vocação.
fazem de maneira seletiva. Talvez a única exceçao seJa
Raymund Schwager, um amigo de muitos anos. Parece-me que devemos tomar em conta isso, quando
falamos do ser humano. Não é apenas urna questão de dese-
jo mimético e criação de sagrados a partir dos quais se
(Sobr.e "o desejo do outro" em Hegel e o administra a violência. Há algo mais, que a violência não
desejo mimético) pode conter, que não se esgota nela. É aquilo que São Pau-
lo nos apresenta na carta aos Gálatas, no seu elenco de
Sobre a relação com Hegel e seu conceito "o desejo do frutos do Espírito: amor, alegria, paz, paciência ou tolerân-
outro", realmente é outra coisa que minha noção do desejo cia, afabilidade, bondade, fidelidade, mansidão, autocontro-
mimético. Não posso detalhar isso, agora (cf. Dupuy . . . ) . le (Gl 5,22) - e termina dizendo: "contra estas coisas não
Julgo que é importante ver que Hegel sacraliza a violência, exist.e lei". Isto não se pode matar. E isto se chama a liber-
para ele há um sagrado positivo na violência; ela está no dade, ou seja, o Espírito Santo.
cerne do seu pensamento; o sagrado violento é central em
Hegel, na sua sacralização da história. Será que. há ~ambém
em meu pensamento uma sacralização da históna? P~r Luiz Carlos Susin (27/ 06/ SO) - tarde)
exemplo, quando insinuo que o período sacrüicial _do _cr1:'-
tianismo ocidental foi inevitável. . . Distingam contmgencra Falar do desejo mimético é falar do pecado original.
de sacralização. Pergunto: não existe também, no ser humano, uma realida-
de mais fundamental? Um mito mais original que o do pe-
cado original? Recordo um trecho de um filme sobre São
SEGUNDO DIA Francisco. Nele o Papa Inocêncio diz: "Estamos todos obses-
sionados pelo pecado original. Este homem, Francisco, des-
O ser humano não é apenas des2jo mimético cobriu a inocência original".
Pergunto, por isso: não existe um desejo mais funda-
Julio de Santa Ana (27 / 06/ 90 - tarde) mental? Vou inventar um nome para esse desejo: "desejo
pericorético" (de p.erichoresis, termo que vem de S. João
Eu reconheço que o desejo mimético é uma realidade.
Damasceno - cf. livros de Leonardo Boff sobre a Trindade).
Para mim a leitura dos escritos de René Girard foi, em
determinado momento, um deslumbramento: descobrir ~té Não seria o desejo mimético uma perversão de um de-
que ponto estamos metidos no circuito mimético da vio- sejo autêntico, mais original que o desejo mimético, que eu
lência. tomaria da teologia trinitária, chamando-o "desejo perico-
rético"? A_pessoa aberta, enquanto pessoa, desde as outras
Mas creio que, junto ao desejo mimético, existe no ser pessoas. E a perichoresis que faz da Trindade um único
humano, e não apenas no Messias, o que poderíamos cha- Deus. Incluir, portanto, o desejo pericorético na própria
mar a chama do Espirita Santo. O Espírito Santo é quem definição de pessoa, também em seu sentido corporal, como
transforma Jesus em Messias. Leva-o ao deserto, Ele tem criaturalidade corporal. Criaturalidade corporal desde o ou-
as tentações e define sua vida segundo o Espírito, isto é, tro e, por isso, uma pessoa aberta como serviço ao outro.
segundo a liberdade. E a liberdade não é mimética.
Este conceito de pessoa contém o paradoxo de reunir
Isto, porém, nã-0 é exclusivo de Jesus. Está presente dois contrários: a pessoa como relação e a pessoa como um
em Estêvão. Está presente em J eremias. Há uma vocação, absoluto irredutível. Na experiência da perichor esis, é ne-
48 49
cessano afirmar como realidade unificada, conjuntamente, objeto. Ve~ daí um conflito. Este conflito é contagiante
o que se apresenta como duas coisas contrárias. Quanto ma1s :i_:iessoas desejam o mesmo objeto, tanto ma~
Afirmar isto significa insistir em uma espécie de utopia, ~essoas havera. env~lve_n~o-se e agitando-se no circuito riva-
uma utopia primitiva, no sentido de mais básica, mais pri- 11.:ante. O des~Jo . m1metico funciona como um processo de
mitiva que o mito do pecado original. Um mito, uma utopia f.-ed~ack. E~ imito meu rival; meu rival, vendo isso, vai
que é necessário recordar como instância critica para uma deseJar o ObJet~ .qu.e, então, ambos desejamos juntos; mais,
esperança, uma luta por uma comunidade humana, por.~ª portanto, ele vai rnutar seu imitador . E o modelo vai tornar-
se o modelo do seu modelo.
comunhão humana que não se estabelece com o sacnficio
do outro, mas uma comunhão de reconhecimento e, ao Dito de outro modo, no interior do desejo mimético
mesmo tempo, de serviço. tudo se torna recíproco. Há cada vez mais reciprocidade.
~ meu modo de ver, a questão antropológica fundamental
e: por que ~ reciprocidade? Ninguém, nenhum antropólogo
René Girard (27/ 06/ 90 - tarde) se colocou Jamais seriamente esta questão.
Quanto à concepção do ser humano que subjaz à teor~ . A ~ecip~ocidade entre os animais é relativamente redu-
mimética, note-se que eu não afirmo que o ser humano e zida, ha muito pouca reciprocidade, comparativamente com
apenas desejo mimético ou se reduz ao desejo ~~ti~o, ~s seres human~s. Entre os seres humanos a reciprocidade
porque seria afirmar que é fundamentalmen_U: viol~nc_i~. e _constante. Existe a boa reciprocidade. Eu te aperto a
Quando a visão ciistã é eliminada da problematica mimeti- mao, tu m_e apertas a mão. E existe a má. Eu recuso aper-
ca, chega-se a uma definição do ser humano ~xtremam~nte tar-te a mao, tu recusas apertar-me a mão. A reciprocidade
pessimista, radicalmente negativa, enfim, ternvel. Mas isto opera constantemente, em todos os níveis. Boa ou má.
não é exato.
Na ~nha opinião, o papel da cultura é ocultar escon-
Duas coisas podem haver contribuído para que alguns der o cara~r constante da reciprocidade. Ou de acÍiá la. E
atribuíssem a mim semelhante visão. Primeiro, algumas todas as diferenças culturais consistem nesse joao de ocul-
aplicações sociológicas e econômicas da teoria miméti?a tar:iento da reciprocidade. Anteparos do desejo"' mimético.
podem dar um pouco esta impressão. Não sei se em A vio- E isso pode ser explicado, até certo ponto, pelo processo
lência da moeda, de Aglietta e Orléans, há algo disso . . . natural do desejo mimético.
Em segundo lugar, meu livro A violência e o sagrado pode
reforçar tal impressão, seja pelo título que, hoje, conside- ~etomand?: de:iejo :IDimético, conflito mimético, reci-
ro ambíguo demais, seja p elo enfoque limitado às socieda- ~rocidade, mais rec1proc1dade, mais e mais contágio mimé-
des primitivas e à antropologia cultural. De certo m.odo, tico. Quanto mais ~esejamos o mesmo objeto, tanto m ais
ocultei meu jogo, ocultei meu cristianismo, naquele livr?; ten_demos a destrui-lo ou nos obsessionaremos cada vez
Eu havia pensado em uma segunda parte, enfo~ando: Jª mais um. pelo outro. Dito de outro modo, o desejo miméti-
então, as coisas em perspectiva cristã. Isto, porem, ficou co do ObJet? se transforma em obsessão recíproca de rivais.
para livros posteriores. Quanto mais aumenta o número dos rivais tanto m ·
dese . . •t· t , ais o
" . JO ~e wo enderá a tornar-se o que eu chamo um
mime~1si:io de antagonismo", p ara além do mimetismo de
O circuito mimético (mini-síntese) apropnaçao. Em outras palavras, os antagonistas tendem a
escolher o .antagonista do outro. (Ilustra o afirmado com
René Girard (27/ 06/ 90 - tarde) exemplos tirados de Shakespeare) .
O desejo mimético é um processo, um processo históri- O estágio no qi:al ? desejo mimético alcança o nível de
co, que é o processo da crise sacrificial. O desejo miméti- uma forte ~onvergenc1a e se chega a criar uma re-uníão
co engendra a rivalidade mimética. Nós desejamos o mesmo dos antagonistas é o estágio da maior violência. É 0 que
50 51
denomino unanimidade mimética. Verifica-se na sedução
mimética da conspiração, com aguda predisposição sacrifi- d~ . lei enquanto proíbe - consiste em não fazer 0 que a
cial. E em todas as crises sacrificiais no momento que pre- ~itlma _fez _para perturbar a comunidade. o rito - sempre
cede o desenlace da vitimação sacrificial. ligado a l~i enquanto proposta e obrigação - consiste em
fazer aquilo que a vítima fez para salvar a comunidade
Se consideramos que o desejo mimético aumenta cada Que foi que ela fez para salvar a com unidade? Ela morret;
vez mais nesse processo, virá um momento no qual haverá e. ~or sua morte eliminou a crise. Portanto, fazer 0 que a
uma tendência à unanimidade dos antagonistas contra um ~tun_a f:Z para salvar a comunidade é fazer novas vítimas
só (indivíduo ou grupo). É o momento que denomino "o ntua1s, e achar substitutos d a vítima. E recordar todo esse
momento do todos contra um só", isto é, o processo viti- processo é o que se chama mito.
mário propriamente dito.
. A~ho qi:e os três pilares da cultura humana são: o
Vejamos, agora, a explosão de eficácias nesse proe4..,sso: mt~rdito (nao fazer o que a vítima fez p ara destruir-nos)
eficaz nos procedimentos, eficaz nas decorrências. O proces- o rito (fazer o que a vítima fez para salvar-nos) e 0 miu;
so vitimário tem, primeiramente, uma eficácia real no sen- (re~ord_ar,_ s_empre de n ovo, tudo isso). Basicamente, todas
tido de que, atingida a unanimidade mimética, o grupo as mstitwçoes humanas podem ser derivadas desse pro-
inteiro participa, de um ou outro modo, na destruição da cesso.
vítima. Fica, então, momentaneamente privado de antago-
nista. Há uma pausa no antagonismo. E se houve muito
sofrimento e violência na fase anterior, esta pausa apare- A especificidade do cristianismo
cerá como milagrosa, benfaz-eja. Aparecerá como um dom enquanto fennento evangélico
daquele mesmo em quem se descarregou a unanimidade
mimética. Ele aparece como o único agente no sistema. Rmé Gi rard (27/ 06/ 90 - tarde)
Portanto, a vítima aparecerá, ao mesmo tempo, como
causa de desordem, por haver ensejado a crise, e causa de A especificidade do cristianismo consiste em derrubar
retorno à ordem, por sua morte. Na minha opinião, o deus ( r e_nverser) o primitivo-mítico, em r evelá-lo e, por conse-
primitivo - e todos os seus retornos míticos - é precisa- gumte, em conta~-lo. Para usar um a linguagem parado-
mente isso: ao mesmo tempo, fautor da desordem e recons- xal, em nosso uruverso o cristianismo não triunfa jamais
trutor da ordem. Mas também o Satanás do Evangelho. O mas subverte constantemente o que há de primitivo e míti~
Evangelho percebe este mecanismo ao fazer de Satanás não e? em nosso mun~º·. ~osso mundo histórico está sempre
apenas o princípio da desordem, mas também o princípio situado e~tre o prlm1tivo e o cristianismo. Por isso, se os
da ordem mimética: o príncipe deste mundo. Em muitas :ran~e~ si~b?~os primitivos sobrevivem, se a tragédia gre-
passagens dos Evangelhos, como procurei mostrar em meus
livros, Satanás é praticamente sinônimo do desejo miméti- .,a ~-aa significa algo para nós, é porque há sempre ainda
o rmtwo em nós.
co e sua lógica atuante. É compreensível que apareça tam-
bém como condensação mimética acabada, revestindo uma Claro ~ue isto é uma_visão do cristianismo, não enquan-
duplicidade análoga à da vítima. t o determmada encarnaçao histórica que se quer apropriar
Qual é a relação entre desejo m imético e lei? (uma dele - por exemplo, o cristianismo histórico de tal ou qual
questão que foi colocada). Uma vez que a vítima foi morta, tempo ou lugar - mas enquanto princípio desmitizador do
é então que aparece a lei. Por quê? Porque o mimetismo Evangelh_o. A :spe?ificidade do cristianismo, entendida des-
prossegue, sempre há mimetismo. A vitima se transforma sa ~anerra, . nao e uma realidade sociológica, não é uma
em modelo do novo mimetismo. A comunidade se sente :eceita de vida, não é uma forma de organização etc. mas
obrigada a seguir a vítima. O interdito - o lado negativo e um_c~nstante P~incípio desorganizador de uma soci~dade
que e amda parcialmen te mítica.
52
53
mitos ligados à dominação. Ao mesmo tempo, deixa claro de
Evidentemente, na história real, .º cristianis~~ n~c~ que lado provém a violência principal. O ser humano violen-
é apenas isso. Não somos nunca urucamente cns_ti~m to é produtor de mitos ou: o produtor de mitos é, geralmen-
enquanto princípio crítico. Mas o que somos ~le~ ~so
0
te, o ser humano violento. Ele precisa legitimar e justificar
jamais atinae plenamente a especificidade do cnstiamsm · os sacrifícios que são executados. Portanto, produzir mitos,
Temos que"' fazer coisas, construir sociedad_e~ _etc., m~~t~ produzir ídolos, produzir ideologias é produzir violência.
q ue resulta daí nunca é plenamente a especiflcid~dt:_ c f · Jesus de Nazaré rompe com toda a tradição produtora de
. . . "Se os cns aos os- mitos, que justificam a violência. Fica, porém, por aprofun-
Le mbro um autor JUdeu que afirmou. . aro·
. -
sem verdadeira e puramente cnstãos nao - podenam
. ora
., ?- dar a questão dos ingredientes miticos que, talvez, sejam
zar uma sociedade". Há algo de verdade russo. Mas, basta. necessários para defender os direitos dos excluídos. São
necessários mitos da resistência que busquem desconstruir
os outros mitos? Não se pode cair no círculo vicioso do
TERCEIRO DIA desejo mimético enquanto é um circuito que se fecha sobre
a violência. Portanto, se utilizamos a noção de mito em fa-
O nexo entre sacrificialismo e idolatria vor dos excluídos, necessitamos uma distinção. Talvez nos
ajude a distinção entre o "homo religiosus", aprisionado na
René Girard (28/ 06/ 90 - manhã) produção e reprodução de mitos, e o "povo messiânico",
desmantelador dos mitos opressivos das religiões.
A seqüência no processo mimético, sempre lig~da à ~e­
qüência na fundação do social, é uma gênese da idolatna.
No Antiao Testamento, p. ex., os textos que condenam 0
Leitura girardiana e leitura popular da Bíblia
sacrifíci;, são precisamente os textos q~e c~n~e:iam ta~~
bém a idolatria São textos sobre o deseJO mimetico.: Julio de Santa Ana (28/06/90 - manhã)
do os profetas . defendem os pobres, ata~am os ~ac cio~
e falam da inutilidade dos sacrifícios, estao . tambe~ de~un
ciando a idolatria. É uma coisa só. Isto fica muito .c ar~. Do ponto de vista da história do cristianismo, assisti-
p . ex., em Habacuc, Amós e particularmente nos seis pn- mos atualmente, na América Latina, a um fato maior: é
que, pela primeira vez na história da América Latina, gran-
meiros capítulos de Isaías. des contingentes dos setores populares começaram a ler a
Bíblia. Isto é um fato que começou há uns 25 anos e que
é da maior importância. Está em estreita relação com o
Que são os mitos? desenvolvimento das novas formas de ser Igreja e com a
Teologia da Libertação. Creio que não se pode entender a
René Girar d (28/ 06/90 - manhã)
Teologia da Libertação sem analisar este fato fundamental,
1
"' o mito é o texto que fecha a boca à vitiI?~- O mito é que está na raiz de uma profunda renova.ção pastoral na
o texto que escreve a história a partir da visao dos per- Igreja. Neste fenômeno podem constatar-se evidentes con-
seguidores. vergências com a leitura que René Girard faz da Bíblia, e
inclusive com sua análise do desejo mimético. Mas a con-
vergência não é total. Para o povo que começa a ler a Bí-
Violência e produção de mitos blia, e sobretudo para os setores populares que o fazem,
a hermenêutica girardiana, que trabalha com o desejo mi·
Julio d,e Santa Ana (28/ 06/90) - manhã) mético e os mecanismos vitimários e sacrificiais, faz senti-
do. Tem, sobretudo, muito sentido quando coloca-Oa no con-
René nos acaba de dar uma chave interpretativa funda- texto dos conflitos sociais. E é neste ponto, no qual ressal-
mental para a leitura dos mitos. Fico apenas com ur:ia ~e~~ ta a convergência, que também aparece que ela não é total.
gunta: serve para todos os mitos? Certamente se aplica
55
54
Biblistas latino-americanos (p. ex., Carlos Mesters e desejo mimético que produz vítimas e cria toda uma cultu·
muitos outros) têm utilizado a imagem da Bíblia como es- ra vitimista na história, há também, simultaneamente, um
pelho da vida dos pobres: eles se reencontram na Bíblia, a desejo inclusivo de um m.il!letismo "comunionário", que
Bíblia lhes ajuda a reconhecer-se. Os símbolos que encon- gera na rustória tudo isso que é a produção da bondade e
tram nos relatos bíblicos e a reflexão que a leitura da Bíblia da vida na história.
desencadeia alimentam as energias populares nessa longa
Mais do que simples questão teológica, isto representa
espera pelo cumprimento de suas esperanças. Creio que
para mim, uma questão teologal: é Deus que produz iss~
uma das coisas que a leitur a bíblica, que se faz na Améri-
na história. Ligo isso ao tema, levantado aqui por Hugo
ca Latina, tenta conseguir é justamente romper, terminar
(Assmann) e outros, da Revelação. Eu diria: Revelação acon-
com o desejo mimético enquanto atenta contra a vida. Nes-
tece si Deus se ipsum reveln.t, quando Deus se revela na
te ponto existe, na minha opinião, uma forte convergência consciência histórica da humanidade. Não é tanto a emeraên-
e uma convergência que me parece feliz. cia da consciência como minha consciência. É Deus na bis.
Mas a convergência não é total na medida em que o tória que, ?:la vertente da consciência humana, vai emergin-
pensamento de René Girard se move no plano de uma teo- do nas praticas comunionais e fraternais, que geram a ale-
ria geral, que ajuda a interpretar os textos sem explicitar gria de viver, a árvore da vida, a sabedoria na história. Isto
constantemente a ponte com a realidade atual. Para os bi- seria, para mim, a Revelação como acontecimento, que en-
blistas latino-americanos a questão mais importante é: quais controu sua culminação em J esus.
são os conflitos que vivemos hoje e, imediatamente, que
têm eles de comum com os conflitos a partir dos quais
se originaram os textos bíblicos? Quero dizer, se eu enten- Leonardo Boff (28/ 06/ 90) - tarde)
do bem a René Girard, que aquilo que para ele parece con-
tar mais é a estrutura dos textos; enquanto, para os latino- Insisto em ver o outro lacto do desejo m imético. Eu
americanos, o que mais conta são as contradições que exis- acho que o modelo do desejo mimético, com ênfase na riva-
tem atualmente nas estruturas sócio-econômicas que as pes- lidade que produz, é muito adequado para entender a con-
soas experimentam e, em direta confrontação, os conflitos flitividade da sociedade e para analisar o tipo de racionali-
que existiam no tempo em que os textos foram escritos. dade moderna, sob a qual sofremos. Pergunto se isto reco-
Existe uma espécie de iluminação do texto a partir da situa- lhe toda a experiência, especialmente a experiência popular.
ção atual e, ao mesmo tempo, há uma iluminação que vem As lutas populares, apesar de estarem sempre imersas na
do texto sobre a situação atual. É isto que nos leva a afir- conflitivi~ad~ e confrontadas com ela, partem de outro tipo
mar, não apenas o privilégio epistemológico dos pobres, de expenenci.a que se refer e a uma harmonia uma unidade
mas também a importância de uma hermenêutica que se origi?al. Não separação, não rivalidade - c;mo ponto d e
faz a partir dos pobres. Há, portanto, uma convergência partidn. e como meta - mas "união mística" da pessoa com
muito grande, mas uma convergência que não é total, por- o resto da humanidade e com o mundo. Para isso necessi-
que exist.e uma diferença na articulação hermenêutica. tamos valorizar símbolos de outro tipo.

Desejo mimétieo e "mimetismo comunion:irio" René Girard (28/ 06/90 - tarde)

Leonarc:Lo Bofj (28/ 06/ 90 - manhã) E:1 certamente não busco defender o desejo mimético.
Ele nao serve para falar de tudo n a experiência humana
Continuo sentindo a falta de ênfase no outro pólo do p. ex., não abarca tudo aquilo de que você, Leonardo, falou'.
desejo mimético: o desejo que produz a bondade na histó- A questão é saber se aquilo a que você se r efere - unidade
ria. Se, por um lado, temos uma estrutura mimética, um original, etc. - existe como um âmbito independente, um

56 57
nível autônomo da liberdade, ou se está fundamentalmente o mais das "'._ezes, :m sua existência, em seus desejos mais
imerso no desejo mimético, como algo interior aos sistemas profun~o~, ~ao estão desejando a violência ou voltados pa-
sacrificiais; ou seja, se aquilo de que você fala _é. s~cetível ra a v10lencia - como pode ser que elas não somente vi-
de operar independentemente dos sistemas sacnf1c1ais e de vam, sempre de novo, incidentes de violência, que são for-
destruí-los. mas de desordem em relação à ordem, mas que toda e
Certamente aquilo de que Leonardo fala é uma parte qualquer ordem institucional seja sempre, em si mesma,
da nossa experiência humana, forma parte dos nossos dese- uma ordem que é também violenta? Todos estamos de acor-
jos. Todo mundo é contra o desejo mimético. A per~ta do ez:n lutar contra isto, em resistir ao desejo mimético.
que se coloca é se a experiência do êxtase_ da harmo~a e ~as isto parece provar que as forças geradoras da violên-
da unidade é natural. A verdadeira questao que aqw se cia neste mundo, por razões misteriosas - que eu tento
coloca uma vez mais é a do que se deva entender por compreender - ao nível da própria organização do mundo
pecad~ original: exisu; de fato um homem_natural in_ocen- como t~l, em u:n certo nível, são mais poderosas que a
te que dispõe deste êxtase e pode defende lo, po~sw-lo e harmorua e a urudade. Este é o aspecto sempre presente do
desenvolvê-lo no amor? Pode a vida humana orgaruzar-se a pe_c~do original, enquanto, para além de qualquer concepção
partir e em torno desse êxtase? Ainda é nece~ár_io que me rmtica, representa um nome para a violência na história.
provem que aquilo que você diz é capaz de resistir ao mun- É o mesmo que dizer que o desejo mimético exerce um
do e de sustentar-se contra ele, sem ter que recortar os papel na organização da sociedade, que ele não deveria ter
seus sonhos, sobretudo no plano organizacional. É bem a idéia do diabo, isto é, a concepção de satanás en:
~uan~ f~rç~ mimética, que nos apresentam os EvangeÍbos.
E a violencia, que sempre está aí, embora não seja tudo.
Leonardo Boff (28/ 06/90 - tarde) Por _exemplo, ~asta que um ou dois indivíduos queiram as-
sumir o manejo do poder em uma organização para que
Tenho uma resistência a construir a compreensão de toda ela comece a tornar-se, de algum modo, repressiva.
toda a realidade desde o desejo mimético, e isto desde um
princípio. A realidade humana é muito mais complexa. Exis-
tem experiências, especialmente nas lutas populare~..'. ~ue Desejo mimético e sistemas auto-reguladores:
não são redutíveis ao desejo mimético. Como expenencias o sacríficíalismo na economia
que constroem a esperança real na história, elas têm sua
irredutibilidade.
Hugo Assmann (28/ 06/ 1990 - tarde)

René Girard (28/ 06/ 90 - tarde) " <Res~~/ Quero fazer algumas observações sobre a
ressonância (o termo é emprestado de J . P. Dupuy) da
Estou perfeitamente de acordo. É bem evidente, e de antropologia ~rardi~ma para dentro da economia. São ape-
resto o constatamos, a cada momento, que o desejo mimé- nas provocaçoes, nao conclusões. Como latino-americanos
tico não é tudo. Está longe de ser tudo. O desejo miméti- tendemos a enfatizar uma ligação bastante óbvia: os siste-
co é, talvez, apenas uma chave importante para a c?mpreen- mas a~to-reguladores são sacrificiais; o mercado é visto
são dos conflitos, porque ele é uma fonte de confhtos. Mas com? sistema auto-regulador; conhecemos as vítimas incon-
quero colocar novamente uma questão. A pergunta qu_e se táveis do mercado; na linha da crítica ao sacrificialismo
coloca para mim é, no fundo, a mesma pergunta basica ponto comum entre nós e Girard, criticamos o mercado en~
quanto sistema sacrificial e idolátrico.
que todos temos: por que a violênci~? Po_r ql_le ~_!lr~ta sem-
pre a violência onde quer que surjam lilStituiçoes. Como Outros - como Dupuy, Dumouchel, Aglietta e Orléans
pode ser que num mundo, no qual a maioria das pessoas, - detectam uma relação de "ressonância" entre a economia
58 59
e a teoria mimética de Girard principalmente (não exclusi· focal de um determinismo cego' " (Orsini, La pensée
de René Girard, p . 164).
vamente) através de considerações sobre a ordem que ve_m
da desordem, ou seja, através da análise . de como ~unc10·
nam os sistemas auto-reguladores. ~les e:xistem, funciona~: A citação se refere, em primeiro lugar, à pretensão
são sacrificiais, mas o problema nao se red~ ~ coI?o co central do paradigma do interesse próprio e do sistema de
viver com eles e enfrentar seu caráter sacr_ificial; e nece~­ mercado: a de ser o caminho seguro de transformar interes-
sano perguntar-se também se, além ~e. terrivelmente sacn· ses privados em virtudes públicas, ou seja, a de atingir o
ficiais, também produzem frutos positivos. bem comum através de um sistema auto-reguiador, à mar-
gem da intencionalidade consciente dos sujeitos e até con-
o que está em discussão é, p ortanto, a co,njugaç~o tra ela. A parte final da citação ressalta que a economia é
entre mercado e planificação. É muito compreensiv~l. ~ e_n · um saber-conviver com isso, assumindo tanto o lado auto-
fase que os teólogos da libertação colocam no ~~cr~iciali~­ r&gulador do sistema como a liberdade e intencionalidade
mo do mercado, porque é esta a noss~ exper:enc1a ma~ ou consciência possível, para enfrentar as ameaças sacrifi·
brutal e cotidiana. A atual conjuntura mternac1onal acres ciais de tal sistema. Fica insinuado que a antropologia girar-
- muito fortes para preferir esta porta de entra· diana leva em conta os dois lados do problema.
cen t a razoes · · " merca
da no assunto: a retórica neoliberal "messiamza 0 " ·
do como solução única e perfeita; a crise profunda do so· Na conjuntura mundial de hoje se intensificou muito
·alismo real" parece desprestigiar qualquer proposta ~e o ocultamento do sacrificialismo estrutural do sistema auto-
~~anificação prioritária de metas soei~; o Mund~ dos Do~s regulador do mercado. Os neoliberais o "messianizam" a
Terços isto é a maioria ãa humanidade fica amda mais tal ponto que todos os sacrifícios brutais de vidas humanas
margU{auzada 'pela nova fase da oikoumene pretensamente são declarados um mal menor inevitável e necessário em
aras das promessas de frutos benéficos garantidos. É contra
redentora do mercado total; etc.
isso que nos insurgimos, denunciando o sacrificialismo es·
Quero provocar o debate com duas citações, uma embu- trutural desse sistema.
tida na outra, que mostram as dua;; . faces d~ problema:
primeiro, a relação entre desejo mimetlco e o sistema a~to­ Mas, temos clareza sobre uma proposta alternativa?
regulador do mercado, como um fato re-~l de extre~a _1m· Basta denunciar o sacrificialismo do mercado e seu caráter
portância na economia; segundo, a neces.,idade e os limit~s idolátrico? Frente à utopização messiânica do mercado, já
de um direcionamento planificado ct_as metas na_ ~c_on:omia que teremos que conviver com ele e já que as planificações
para lutar contra os efeitos destrutivos da sacrificialidade ensaiadas no "socialismo real" fracassaram, como conjuga·
do mercado. Cit o a Chr. Orsini, que retoma um pensamen- remos a planificação imprescindível de metas sociais inadiá-
to de Dupuy: veis com a aceitação de uma parte importante de mercado?
"O desejo tende para o nada: não existe objeto do Basta insistir que, dado o fracasso "daquela" planificação
desejo. Nisso consiste a diferença essencial ~om o de- (fracassou em quê e por quê?), podemos perfeitamente ima-
sejo de reconhecimento, segundo Hegel, qu~ e ur:i ~e.se­ ginar outro tipo de planificação, a "participativa", que não
ja determinado e com finalidade. O desejo mimetico castre a participação política e não seja omnímoda e buro-
não possui um atrat or ( at tracteur), pois é_ ele que faz craticamente centralizada? Não existe, além deste ponto fun-
emer!!ir 0 atrat or. Foi esse tipo de concepçao que revo- damental, urna questão de fundo: despedir-se daquilo que
lucio~ou a economia política. (Vem aqui, embut~da, u~a a antropologia socialista, em todas as suas variantes conhe-
citação de Dupuy): 'O objeto é um~ _verdadeira cr~­ cidas, têm de "idealista", por desconsiderar o caráter inevi-
ção do desejo mimético; é a composiç~o de c~determi· tável de sistemas auto-reguladores quando se leva a sério
nações miméticas que faz que este objeto surJa do na· a corporalidade dos indivíduos e a corporalidade das insti·
da: nem criação de uma liberdade pura, nem ponto tuições?

fll
60
Como disse, estou provocando, e não tenho respostas Smith são aqu~les aos quais não toca morrer. Portanto, é
definitivas. Acho, somente, que as esquerdas têm dificulda- uma classe social. A mesma linguagem acerca de um "nós"
des em entender o caráter "evangélico" e "messiânico" com aparece em Hayek. É sempre o "nós" dos que não precisam
que se apresenta o paradigma da economia de mercado, ~orrer porque estão integrados no mercado, e os que estão
desde sua origem; que sua concepção do sujeito histórico mte~ados no mercado alcançam um certo equilfürio de
aposta generosamente na consciência possível, mas a ideali- seus mteresses.
za na medida em que não avalia corretamente a presença
inevitável de processos auto-reguladores na história, cuja . Apare~e aí claramente um sistema auto-regulador Nin-
sacrificialidade denuncia com toda a razão. A essência da guem ?uvid.a que este sistema auto-regulador é po~ível.
opção socialista consiste, na minha opinião, em não confiar Ade~rus, exis~ de fato. E Marx não o nega, mas nos diz
ao pretenso automatismo do mercado as metas sociais fun- precisamente: i:_to é_ um sistema auto-regulador, 0 mercado.
damentais, para assegurar um cumprimento razoável do Todos o~ que nao sao capazes de integrar-se nele são expul-
princípio da destinação original de todos os bens do mundo, sos.
l' .
OsN-
mtegrados
.
são integrados. A auto-reirulaçao-
.,
é tau t o-
incluídos os frutos do trabalho humano, ao bem-comum ogica. . ~o e que os integrados o auto-regulem, sendo todos
de todos os seres humanos. Mas acrescentaria que a convi- eles SUJeit_?S.? s~~ema ~uto-regulador determina quem é
vência inevitável com sistemas auto-reguladores exige de e quem nao e SUJeito. Nmguém é sujeito de um sistema
nós algo mais que a mera denúncia do seu sacrificialismo au~o_-regulado_: desse tipo por seu mero nascimento. Tu és
estrutural. suJeito, ou nao, por determinação deste sistema auto-regu-
lador. E aquele que o sistema auto-regulador não determi-
1?ª para ser s~jeito é eliminado . Portanto, esta eliminação
e a que perrrute que o sistema funcione.
Franz Hink.~lammert (28/ 06/1990 - tarde)
Como sabem_os, este tipo de p ensamento sempre se vin-
(Resumo) Gostaria de seguir na linha das reflexões de cula _?Om a ~eona d~ evolução. Os sistemas auto-regulado-
Hugo. Quero falar desses sistemas auto-reguladores, da or- r~ ~ao d~scntos na linha da seleção natural com a sobrevi-
dem que se cria a partir da desordem. O sistema do merca- venc1a urucamente dos mais fortes. O sistema se constitui
do foi descrito por Marx como um sistema que realmente media~te a expulsão .. Com isso o sistema auto-regulador é
cria ordem a partir da desordem, ou o equiliôrio através essenc1alment~ un_i sistema .sacrificial. É sacrificando que
e mediante o desequilíbrio. É na sua análise de Adam alcanç~ o ~quiliôno. Quer dizer, um equilíbrio mediante 0
Smith. Porque a harmonia de Adam Smith não é uma socie- deseqwlfüno, mediante a desordem. Numa descrição mais
dade sem sacrifício, mas é uma harmonia que se estabelece rec~nte, é ? que ~ayek reafirmava no Chile, em 1981: uma
pelas leis do mercado, a partir do incentivo ao interesse s:ci~dade livre exige determinada moral que, em última ins-
próprio, deixando morrer aqueles que não conseguem viver tanc1a, se red1:IB à manutenção de vidas. Não à manutenção
segundo as leis do mercado. Isto fica bem claro na sua d~ tod~s ~s. vidas, porque poderia ser necessário sacrificar
teoria do salário-subsistência, e também na sua teoria da vidas ~dividuais para preservar um número maior de
civilização, que desenvolve a partir daí. Quem não chega a outras vidas. (Notem a falácia neste suposto de um "núme-
garantir a sua subsistência, morre. Adam Smith dizia: cada ro_m~ior" de vidas salvas). Portanto, as únicas regras mo-
sociedade civilizada deixa morrer aqueles que não chegam raIS sao as que levam_ao cálculo de vidas: a propriedade e
a garantir a sua subsistência. Seguem nesta linha Ricardo ?~contratos. - Esta e a mesma descrição da harmonia que
e Malthus. Deriva-se daí toda a teoria clássica do salário- Ja encontramos em Adam Smith.
subsistência.
Quando fal~mos de leis do mercado sempre estamos
A harmonia está baseada em deixar morrer aqueles que falando deste sistema de auto-regulação. E quando celebra-
não entram na harmonia. E o equiliôrio dos interesses é mos a capacidade auto-reguladora do mercado estamos
o equilíbrio dos "nossos" interesses. O "nós" de Adam celebrando sua sacrificialidade, porque é a mes~a coisa e
62 63
creio que o sabemos. É muito sintomático que, quando sur- h~ano. Por ser U:U sistema auto-regulador, é necessário
ge a crise nos paises socialistas, há um frenesi, como se criar W?~ or_?em acuna do mercado. E aí entra o problema
dissessem: por fim se dão conta de que, para que haja da planif1caçao. Estou de acordo que devemos repensar pro-
progresso econômico, deve haver sacrifícios; por fim se dão funda~ent_: o que entendemos por planificação, como fazê-
conta de que o desemprego é necessário; o não-sacrüício é la, quais sao seus sujeitos, e em relação a que é necessário
a razão por que não são eficazes e finalmente se tornam º. pla?º· Necessitamos critérios. De acordo com que crité-
realistas e aceitam que os sacrifícios sã-0 necessários. Dava- no~ e necessá~o intervir no m ercado? Creio que hoje são
se, assim, como razão da crise o fato de se ter realizado o bas1came_:ite tres: pleno emprego, distribuição de rendas e
pleno emprego. Na questão da dívida externa isso também reproduçao da_ natureza. Sempre que o sistema auto-regula-
aparece de maneira muito sintomática. Cobrar a dívida dor produz cnses de determmada magnitude nessas áreas
externa é um genocídio. Diante dessa realidade, sabem qual t~m de intervir uma planificação. Em combinação com mo~
é a pergunta que se fazem no mundo rico? É a seguinte: vune3tos ~e b_ase, etc., mas creio que não se escapa de uma
podemos, responsavelmente, não cobrar a dívida externa? funçao atnbmvel ao estado, para corrigir o sistema auto-
É moralmente possível não cobrá-la? Isto significa: é moral- regula~or. Há, portanto, critérios necessários para limitar
mente admissível não praticar o genocídio? Portanto, a ~s efeitos nefastos da auto-regulação, com a devida flexibi-
pergunta já não é: é moralmente admissível praticar o ge- h_?ade. ~ :iecessário ter a clara visão de que, sem interven-
nocídío? Mas ao contrário: é moralmente admissível não çao planif1cadora, o mercado se transforma em sistema to-
praticá-lo? E quebram a cabeça com esse dilema m oral de talitário. Estamos ameaçados por esse totalitarismo· não
se é moralmente admissível não executar o genocídio. É um estam?~ na liberdade. Acho que hoje é preciso falar da lei
típico problema totalitário, como quando os nazistas se metafIS1ca_ do mercado como um novo tipo de totalitarismo.
perguntavam se era moralmente permitido não matar os É o terceiro grande movimento de genocídio deste século.
judeus. Os nazistas não se consideravam assassinos. Esta- Precederam-lhe os genocídios do nazismo e do stalinismo.
vam convencidos de estar cumprindo uma lei histórica. Leis Todos foram praticados em nome de leis metafísicas da
históricas, quando admitidas, criam moralistas. Então surge h!stória. A lei metafisica do mercado, elevada a lei metafí-
a pergunta moralista: é moralmente lícito não matar? sica da história, é uma lei que mata e é tendencialmente
totalitária. Diante disso, impõe-se a tese do ordenamento
Acho que devemos manter, também em relação aos sis· necessário desse sistema auto regulador.
temas auto-reguladores, a crítica da lei como lei que mata.
É a crítica das leis metafisicas da história. É assustador
como em nome de leis metafisicas se chega a matar povos Julio de Santa Ana (28/ 06/ 1990 - tarde)
inteiros e talvez não se vacile em aniquilar a humanidade.
Acho que a teologia paulina, denunciadora da lei que mata, . O me.reado, como ideologia predominante no mundo de
continua perfeitamente aplicável à nossa situação, com as hoJe, ace1ti: uma só lógica, e é dela que depende a força
devidas mediações. dos ~ec8?1s?:os auto.reguladores; esta única lógica é a do
deseJo m1metico e seu circuito de violência.
Surge aí o problema: como ordenar sistemas auto-regu-
ladores? Se nos damos conta de como funcionam, a pergun-
ta sobre como enfrentar suas ameaças é uma pergunta que René Girard (28/ 06/ 1990 - tarde)
se impõe. Geralmente apenas se diz que o sistema de mer-
cado é um sistema auto-regulador e que, além disso, seus (~o comentar a insistência de Leonardo Boff sobre um
resultados são benéficos. O que não se diz é que seus resul- "deseJo c?munionário", além do desejo mimético) . No mun-
tados são fundamentalmente sacrificiais. Não se trata de do b.urgues o desejo mimético, enquanto desejo rivalizador
dizer: o mercado não é um sistema auto-regulador. Ele o é. ªºm:r1ª·. Esta dominação do mundo pelo desejo rivalizan~
Crla a ordem mediante a desordem, mediante o sacrifício te nao e somente algo ruim, porque, entre outras coisas,

64 65
ajudou a colocar um fim às hierarquias feudais. Levou ao
aumento da produção e, claro está, também ao terrível so-
frimento dos proletários. . . Mas também é certo que, em Julio de Santa Ana (interrompe): Não há necessidade de
muitas partes do mundo, cumpriu um papel na elevação exagerar no desejo mimético . .. (risos).
do nível de vida, etc. É neste aspecto que o desejo miméti·
co não é apenas negativo, mas se toma produtivo no pla- René Girard (ainda em espanhol): . . . el deseo mimético de
no econômico. Creio que é esse tipo de contribuição pos- hablar espafiol. Un deseo muy grande (risos) . Mas falarei
sível, enquanto impulso também produtivo no plano eco· em francês.
nômico, que é necessárío analisar, ao lado do sacrificialis·
mo estrutural.
Companheirismo gostoso
Hugo Assmann (28/ 06/ 90 - tarde)
A primeira coisa que desejo expressar é que este en-
Minha adesão ao que foi dito por Franz é total, mas con~ro foi, para mim, um prazer, uma felicidade. Encontrei
sinto falta de um aspecto. Temos que conviver com siste- aqw o _que es~erav~: o retorno a um país latino. Porque eu
mas auto-reguladores, especialmente com o mercado. Conhe- sou lat~o: Mais latmo que a maioría dos franceses, porque
cemos e d enunciamos seu sacrificialismo estrutural. O cir· sou mendional. Na França, os meridionais são, de certa for·
cuito mimético da violência sacrificial do mercado intensi-
ma, uns _colonizados, embora em processo de integração
ficou-se brutalmente. Basta denunciá-lo? Não é n ecessário
também criar uma linguagem parcialmente positiva sobre o desde o seculo XII. Por ocasião da guerra contra os albigen-
mercado? Fazê-lo não significa aderir aos dogmas idolátri- ses, fo_:am. p~~ados da sua cultura e afrancesados à força.
cos do mercado, mas aceitar que o mercado não só produz Isto nao s1gnif1ca que eles sejam, hoje, antifranceses. Mes-
a morte; tem algo a ver com incentivos à produtividade. mo assim, continuam sendo objeto de certa discríminação.
. Ao chegar a Paris, como estudante, sofri a experiência
disso._ O sotaque do Midi (o "Meio-dia", a França meridio-
QUARTO DIA: SESSÃO DE ENCERRAMENTO nal! e considerado ridiculo, na França. Essa discriminação
é tao forte e normal que eu nem me dava conta de que se
Julio de Santa Ana (coord.): Conforme previsto na progra- tratava de_~a discriminação. Cheguei a pensar que 0 sota-
mação, chegados quase ao final deste encontro, pedimos a que do Midi era, de fato, objetivamente ridículo. Foi neces-
René Girard que faça espontaneamente os seus comentários sário, para mim.' o contato com o problema dos negros,
e condense as suas impressões sobre nosso diálogo. Quero n~s . ~sta~os Urudos, para chegar à consciência de que o
frisar que esta foi a primeira vez que se produziu um diálogo Mzdi e ObJeto de discriminação, na França. Esta velha situa-
a viva voce entre René Girard e um grupo de teólogos da ção continua ainda hoje e talvez tenha influenciado no
libertação. É, pois, o momento apropriado para ressaltar
certos pontos de referência que permitam continuar uma
f
plano intelectual, o papel dos meridionais na cultura ran-
reflexão como esta que, nestes dias, se revelou muito frutí- cesa. As características dessa influência mereceriam ser
estudadas.
fera e extremamente valiosa para nós. Todos os compa-
nheiros aqui estamos muito contentes e gratos por esta Al~di a essas .1.em~ranças da minha juventude, em Par:s,
oportunidade. e a minha expenencia norte-americana para ressaltar me-
lhor o que encontrei aqui: uma sensibilidade latina da
René Girard (iniciando em espanhol): Mucho más valiosa
para mi ... camaradagem (camaraderie), no melhor sentido da palavra.
Companheirismo acrescido, é claro, e aprofundado por uma
verdadeira fraternidade cristã.
66
67
Ausência de jargâo cial - na terminologia peculiar de vocês d .. . .
- aparece, se entendi bem ·unto co ' o sac_rif1Cialismo
A ausência de jargão, entre vocês, também me impres- tação, des~e o início, já nds Janos ses~:i:e~l~~:n~ ~~­
sionou muito. Nos países ditos desenvolvidos do Primeiro
Mundo, no atinente ao plano intelectual, somos todos pri- 0
~~~~;~~r ~st~~s~m textos, por exemplo, nos de Le~nard~
sioneiros, hoje, de jargões aterradores. Existe, por exemplo,
um jargão vazio sobre os pobres , uma espécie de idolatria . Isto significa que chegamos a este ponto de coinc'd·
c1~ de fo~a in_dependente, cada qual por seu caminho p;~:
1
da pobreza, abstrata, n aqueles que não têm qualquer conta-
to real com os pobres, como o têm vocês. Nas universida· pno. É, POIS, smgularmente sólido isto que nos une· a re
des de lá e também em certos meios católicos norte-ameri- cusa do_ ~a_cr~ício. De resto, eu nem sabia que este r~ch ~
canos, essa idolatria funciona um pouco como um sistema do _sacrif1c1alismo era algo tão central na teologia da li:r
de bode expiatório. Dado o m eu temperamento efervescen- taçao, e sob uma forma que lhe é muito p eculia -
te e rebelde, isso me repugna ao ponto de, às vezes, pergun-
tar me se não estou ficando um tanto reacionário. Graças
agrad
a n:w
·t r e que me
o, ~arque é, mais que tudo, teológica. É isto
que os ~erenc1a também dessa espécie de dissolução total
a vocês, dou-me conta de que não o sou. Afino-me inteira-
mente com vocês, porque vocês não têm esse tipo de jargão da teologia a que assistimos no mundo ocidental. Porque
vazio. Vocês são capazes de criticar-se a si mesmos. Consta- os teólogos _em geral me parecem muito mais influenciados
tei que a crítica, a outros e a si mesmos, é algo que aflora do ~ue voces por aquilo que se costuma chamar "descons
truçao"
. ' as teses que afirmam: somente existem-
' ou seJa,
a cada momento. E isto me parece absolutamente funda-
mental no plano intelectual e espiritual. lmguagens. E é importante compreender que é precisamen-
te o seu contato com os pobres que os impede são eles
;~e os im~edirão sempre de chegar a dizer: n~da existe
Liberdade de linguagem e sentido da realidade 1 m das lmguagens. Este é um ponto absolutamente fun-
damental.
Quero dizer-lhes que a liberdade de linguagem, que en-
contrei aqui e que apreciei enormemente ao longo destes
quatro dias, é uma coisa maravilhosa. Isto está evidente- Algo sobre o desejo mimético
mente ligado ao sentido do real, ao sentido da realidade
que vocês não perderam. Os intelectuais do Primeiro Mun-
do perderam, em grande parte, o sentido da realidade. Vi- - Quant~ ao desejo mimético e à teoria sobre o mesmo
nao convem transformá-los em ídolos nem nf . '
vem num mundo universitário, onde se fala de textos. E i t· · ' co enr-lhes
para muitos, é essencial para um texto que não tenha rela- mpor anc_:1a exagerada. Parece-me, no entanto, interessante
ção com a realidade. Isto, é claro, representa um sofrimen- pa_r~ voces o fato de que podem servir-lhes como refor o
to para aqueles que, como eu. não compartilham desse ~onco para o rechaço do sacrificial. Urna justificação te~­
niilismo absoluto. Na minha opinião, esse tipo de niilismo nca que confronta o cristianismo com as demais reli ·-
chega a ser sufocante em nossos dias. e_ que tem aplicações,.ªº mesmo tempo bem diretas egi:::~
sunplesmente metafóncas, embora também .
mundo moderno. pengosas, ao
Nosso ponto comum maior: o rechaço ao sacrificialismo
. _P arece-me, por isso, bastante evidente que a teori .
Quero dizer, agora, uma palavra sobre aquilo que nos metica pode participar na elaboração das lín a rm-
une. O que nos une, da maneira mais evidente e mais pro- você~ . º_b~arnente necessitam para argumentar ;:;::~s, que
funda, é certamente e antes de tudo o nosso comum recha- sacrifIC1a~smo; sem que isto implique adesão em b~ço ao
ço ao sacrifício de vidas humanas. Este rechaço do sacrifi- essa teona, observação já feita por Hugo (Assmann) ~co a

68 69
Incidência na teoria da redenção mimética pode ter alguma serventia. Ela nã-0 foi .
com esse objetivo. Posso assegurar-lhes que eu ~~eb1da
Gostaria de insistir muito em outra vantagem que a teo- mente apenas a elaboração de um instrumento d ~ em
cador M esmistifi.
ria mimética certamente t em : é que ela conduz, com uma . -as penso que pode ser pastoralmente fecundo.
lógica muito direta, a urna teoria da redenção. Uma teoria
da redenção a respeito da qual eu enfatizaria que ela é per- . ~e~ qu: a vantagem principal da teoria sobre o de e-
feitamente ortodoxa em r elação a todas as grandes igrejas Jo_ rrumet1co e qu7 ela toma em conta um todo relacion~
cristãs (a saber, a igreja ortodoxa, os católicos, os lutera- :a~~ep~rt~o eu isolado, não parte do todo abstrato m~
nos, os anglicanos etc.) e os sete primeiros concílios. Acho - aq o que eu chamaria o "pequeno" isto é ~ 1
çoes humanas concretas. ' ' re a-
que essa visão da redenção pode ter aceitação crescente.
Por q inh
estudantesu~~ umas buscas n~ literatura? Para explicá-lo a
his . . a comparaçao. Quem escreve um li d
Utilidade pastoral arr!º~ª - P?r exemplo, sobre Stalin, Hitler Napoleãovro __:
eterrrunadas coisas, repetindo no f' d . ..
historiadores destacam. Mas se algué un o, o que os
Outra coisa que me impressionou foi a observação, fei- ce ou m escreve um roman-
ta por diversos entre vocês, no sentido de que a teoria sobre . uma pe_ça teatral sobre eles, tem que mostrá-lo .
o desejo mimético funciona no plano pastoral. Isto é muito :~vida _c?tidiana, interagindo com as cinco ou seis pe:s~:
interessante e me sensibiliza muito. Nos meios intelectuais proximas. o que aparece, então é alo-o bastante d º
f erente. • º i-
que habitualmente freqüento costumam objetar à teoria
mimética que ela não é suficientemente obscura. Como
vocês sabem, vivemos em um mundo onde a obscuridade
está na moàa. E o desejo mimético, corno princípio, é sim- Um instrumento de desmistificação
ples. Não que eu creia que o desejo mimético seja coisa
tão simples assim. Contudo, mesmo iletrados e pessoas sem
maior cultura entendem imediatamente de que trata o dese- É, ~te~u~eé~~? fundo, a U:oria sobre o desejo mimético?
jo mimético. A leitura de certos textos - não apenas bíbli· Tr~ta-s: de um~ ~~~~a~e ~~:=~~:~a d; desmistificação.
cos, mas lendários etc. - a partir do desejo mimético per- aplicaçoes principais rivaliza . ç 0. que, em suas
mite abordar esses textos em diversos níveis. Vocês consi- - com o marxismo e' a psican .lis- rmmeticament~, talvez
deram isso uma riqueza e não um obstáculo. nião, é mais radical. Por qu:? ~or;!as que, na mmha opi-
alienação que está na raiz da . . .q~e se refere a uma
O desejo mimético, evidentemente, é susceptivel à in- quer especificação dos domíni subJ~tlv1dade, antes de qual-
clusão de realidades sumamente complexas. Muita gente, evidente, porém, que 0 des . os . c :i::nado_: p~r~icul~res. É
porém, ao referir-se ao desejo mimético, fica numa aborda-
gem superficial. Alguns vêem na teoria mimética lli-na espé- co~~iliável com certos asp=~~o~~e~c~;ao e Ja:na1s irre-
cie de suplemento secundário para a psicanálise, ou coisas anabse psicanalítica, o que represent~ª se marxista e da
vantagem e perigo. Na medida ' ao me~mo tempo,
desse tipo. visa uma alienação mais radicalem que a teoria mimética
Acho que a pastoral continua, ainda hoje, de certo mo- as _e~pecificações sociais, política; ~=a~eenco~trar-~e com
do prisioneira da filosofia ocidental e das categorias abstra· anahse. Mas, ao mesmo tempo ; h e ou ~os_ tipos de
tas acerca da totalidade e do individuo, das quais não con- lo que na minha . ·- . . ' c o que ela elmuna aqui-
' opnnao, e msuportável na · álº
segue sair. Não se tem uma linguagem compatível com o ser excessivamente negativa ou reducioni fus1can ise, por
cristianismo para penetrar nas relações hurna.TJ.as concretas. realidade do nosso mundo A teoria mi - .s :m face da

:.:.::~º:;,,= ~.~~Y.~: ~~:':~~~~·~=


Por exemplo, as relações humanas na família, entre ami-
gos, entre os adolescentes etc. Penso que nisso a teoria

70 71
espécie de remodelagem terrorista dos jeitos de ser do povo. . Ao ~ncontrar-me, no ano passado, com o grande roman-
Não sugere isso. cista Milan Kundera, impressionou-me que ele mencionas-
Insisto, portanto, que a teoria sobre o de~ej? .~ético se exatamente a mesma palavra "sabedoria". Dizia ele: no
é antes de tudo, um instrumento de desrrustiflcaçao do fundo, o desejo mimético é a destilação de uma determina-
dual se poderia afirmar que "não esmagará a cana '!uebra- da forma de sabedoria, espalhada por toda parte, mas que
da nem apagará a mecha que fumega" (Is 42,3) . Nao n?s a cultura moderna e contemporânea tende a colocar à mar-
fo;ça a isso. Nem por isso é menos ~adical que o mano~­ gem ou mesmo a suprimir completamente. A razão instru-
mo e a psicanálise. Com a vantagem, JUStame_n te, de ?ernu- mental, a recusa do paradoxo e particularmente um certo
tir 0 respeito à complexidade do real. Ad1?1te co~iderar, positivismo tendem a suprimir essa sabedoria.
por exemplo, que a familia - quando fW:ci~~a - e, antes Uma das vantagens da teoria mimética consiste no fato
de tudo, uma proteção contra o desejo mrmetico, em. lugar de que ela pode ser apresentada em termos racionais de
de mera desencadeadora principal dos males do desejo, as- uma razão que não se desentende fatalmente com a r~o
pecto que é terrível na psicanálise. instrumental, que pode falar de igual para igual com ela e
Para mim o desejo mimético representa também a pos- que, por isso mesmo, não pode ser automaticamente recha-
sibilidade de encarar certos fenômenos .com. uma ~ose d~ çada pela razão instrumental.
humor. A possibilidade do humor e do nso, ligados a ~age­ A análise mimética permite lidar com paradoxos em
dia. Além disso, a teoria mimética não tem uma ati_tude t~xtos_lendários, bíblicos etc., com aspectos paradoxais na
tão puramente negativa em relação à gra:ide c~tura ociden- s1tuaçao atual;. com par~doxos econômicos, sociais e políti-
tal, como a que se cultiva em certos mei_o~:. Nisto esto~ ao cos; com aqmlo que e surpreendente na linguagem dos
lado dos marxistas porque, na minha oplillaO, ? que ha de opress?res e dos oprimidos, que, às vezes, muda e se adapta
admirável nos marxistas é precisamente o respeito que i;nan- repentmamente de um modo que a dialética marxista não
têm pela grande cultura ocidental, como _busca de_ raciona- consegue explicar. Porque essas mudanças freqüentemente
lidade. E que, hoje em dia, um certo movimento pos-moder- não têm nenhum sentido positivo e devem ser analisadas
no busca suprimir. de um modo inteiramente crítico. Dei-me conta de que vo-
A análise mimética possibilita uma crítica da litera- cês ~stã~ h~~ituados a fazê-lo e creio que, neste ponto, a
tura que revele a profunda presença de aspectos antroi:i?ló- teoria mimetica pode ser de alguma serventia no trabalho
gicos e até bíblicos nas maiores obras, co_mo o Don Qui7ote de vocês.
de Cervantes, que vocês certamente apreciam, ou em Dante,
Shakespeare etc. Essas grandes obras se re~es~~m, ao mes-
mo tempo, de um caráter fortemente desrmstüicador e de Desejo mimético e conversão
uma notável abertura espiritual e humana.
. .? desejo mimético, como eu o vejo, deixa aberta a pos-
sibilidade de conversão. Este é um aspecto que me escapou
º?tem, quando dialogava com Leonardo (Boff), e que con-
Análise mimética e sabedoria sidero um aspecto essencial. O desejo mimético deve ser
encar ado como uma espécie de ascese pessoal. Mas sem
A propósito do desejo mimético, apareceu também em
dúvida, como uma espécie de modificação moderna ~ asce-
nosso diálogo a palavra "sabedoria". Uma vez estabelecido
se: Em lugar de falar nos termos dos velhos pecados capi-
nexo com o sentido bíblico do termo, acho conveniente
0 tais ou em lugar de referir-se de maneira fragmentária ao
utilizá-lo também no seu sentido mais amplo; não unica-
mal, possibilita falar disso tudo de maneira mais integrada
mente em um sentido cristão, já que é resgatável também
e mais orgânica, tomando em conta tanto o pecado indivi-
um sentido pagão. dual como o pecado social.
72
73
Isto me parece absolutamente essencial, porque uma p_:-e~i:ido dizer que a análise mimética represente uma sol
das coisas que fazem que a pastoral tradicional seja tão çao Ja co:nple_ta par~ esse. problema. Acho, no entanto u~­
ineficaz hoje é que ela já não tem a linguagem adequada para voces, nao porua deixar de colocar a questão. ' q '
para enfrentar o mal: já não ousa falar do pecado indivi-
dual e não sabe como lidar com o pecado social. Em alguns
casos, sobra apenas um difuso pecado coletivo. Como inte- Vocês são profundamente cristãos
grar o mal individual ao mal social? Não o consegue, é-lhe
impossível. Não pode fazê-lo porque ela é vítima da filoso- · Constatei
. - que vocês sao
- profundamente cristãos muito
fia ocidental, emaranhada em redefinições do individuo, o mais c~tã~s d~ que parece a alguns de fora. No ~ontato
que deriva do cartesianismo e do kantismo. co~ voces, isto e de uma evidência forte. No entanto como
voces sabem, setores das igrejas têm dificuldades d ' te
Esta é uma das coisas mais importantes que queria di- der de fora até e en n-
. ' ' . q~e ponto vocês são cristãos. Vocês são a
:1Jer-ihes: toda a análise do desejo mimético está a serviço ~u~entude das igr_eJas hoje e representam grandes possibili-
da conversão. Na minha análise da literatura descubro que,
nas grandes obras, o desejo mimético se encaminha sempre
a :s de renovaçao. Mas, ao mesmo tempo, toca também a
voces -fazer um esforço para captar corretamente as
para um desafio, uma espécie de conversão. Não se trata cupaçoes dos outros. preo-
necessariamente de conversão cristã, obviamente. Lembro-
me, agora, que para Lucien Goldman - que é marxista, que A poderosa originalidade de vocês cons· te
foi, aliás , o primeiro mar-.itista a interessar-se pelo desejo luci.~>nários _verdadeiramente cristãos.É n~~te ~%:i6;" r evo-
mimético - essa tendência a uma conversão final era um voce.; contnbuem com alO'o que é únic d o que
do q al t d . º o no mun o atual e
assunto que o inquietava muito. u º- os tem necessidade. Outro dia vocês dizia
o que está sucedendo no Leste europeu l - dm que
Como lhes dizia, o modelo, a forma de conversão indi- também uma ª . - a em e ser
. d .,raça, como Jul10 (de Santa Ana) ressaltou _
vidual está presente em obras que não têm nenhum caráter e _e ~olde a reforçar, de certa forma, a concentra"ã-0 -
confessional cristão. Ela se encontra lá porque a renúncia tenal, mtelectua~ e espiritual do hemisfério Norte ;obr:1:i
ao desejo mimético é a renúncia a um tipo de eu, um eu mesmo, em det_:-rmento do Terceiro Mundo. Sem dúvida é
que nós consideramos como verdadeiramente individual, verdade. Mas nao se trata de uma fatalidad P ,-
mas que não é. Trata-se, pois, da morte do homem velho, têm algo d t b - e. arque voces
a ar - am em. aos paises do Leste, que estão em
no sentido paulino. E é impressionante como essa morte do b~sca, n~ penado de mcerteza e retorno, mas procuram
homem velho, mesmo em romancistas não cristãos, como alimento mtelectual e espiritual que não encontram.
Marcel Proust, está sempre cercada de símbolos cristãos.
Dir-se-ia que não conseguem evitá-los.
Como encarar os receios acerca da te l -
o og1a da libertação?
Afirmo, por isso, que no desejo mimético existe uma
abertura. Existe uma palavra, que ainda não foi pronuncia- Como é sabido houve h·
teóloaos da liberta ?.. ~ a problemas inegáveis de
da aqui, mas que acho importante proferir, porque é rele- ~ çao, especialmente católicos com a hie
vante para a exegese do texto bíblico: a palavra "graça". rarqwa da Igreja. Até certo ponto posso entendê-lo -
eu mesmo _ claro porque
Eu compreendo que se tenha receio de usá-la em nosso o de - que meu problema é menos grave que
mundo, já que a palavra "graça" expr essa, muitas vezes, . voces e, no fundo, é sem maior importância ar
uma passividade espantosa à qual as pessoas se entregam
n:m1 _- sou olhado com extrema desconfian a 1 p ª
xia. E muito difícil escapar a isso, por que, aç P~~: ~~:~:
para escapar a toda análise concreta. Como recuperar, como m~nto em q?e a gente usa a palavra "sacrifício" num d t
reencontrar o discurso da graça sem que isto signifique mmtasado sentido crítico, tem-se a impressão de que tod~ er-
querer fugir de uma visão implacável, de uma visão crítica por se fecham imediatamente Mas eu - . as
da realidade? Vejo isto como um ponto importante. Não este fechamento seja definitivo. P~nso que e~~e, c;~;~aq~=
74 75
tudo, uma receosa expectativa, um temor, um medo diante Não distanciar-se da religiosidade popular
do fracasso de todos os projetos secularistas, de todos os
projetos humanistas do mundo atual. Que não se me entenda mal. Não pretendo dar-lhes
conselhos. Pondero apenas possibilidades de reflexão q º
Creio que deveriam encontrar uma solução no que se se apresentam a mim mesmo. Posso estar enganado ao pe~~
refere à sua relação com os meios de comunicação. É tenta- sar o que penso.. Pode ser que vocês vejam as coisas melhor
dor, para a teologia da libertação, chamar a atenção sobre d~ que eu e s_ena _bom que me dissessem. Mas se há uma
si mesma destacando briguinhas com a autoridade, que c01~a que me m_qu~eta na ~eologia da libertação é o desapa-
agradam sempre à mídia, mas que não causam prazer ao ~ec~ento dos sma1s exteriores. Tenho a impressã-0 que isso
povo cristão. Apesar de nã-0 serem fonte de alegria para o mqweta também os meios conservadores da Igreja.
povo cristão, a mídia se interessa por isso, e unicamente
de maneira negativa, na medida em que há conflito. É só Fiq~ei muito impres~ionado com aquilo que Jung (Mo
isso que lhe interessa, e não a teologia da libertação no Sung) _disse acerca da crise das comunidades de base. se 0
que tem de melhor. Seria necessário achar uma forma de entendi bem, ele afirma que as comunidades de base ten-
falar aos meios de comunicação que não estivesse fundada d_em a _perder~ sua audiência quando, às vezes, as pessoas
sobre o princípio da discórdia interna. Chamar sua atenção tem ª.1?:pressao de que ~elas se trata mais de política que
para o essencial. de religi~o. Sua ~bservaçao me pareceu importante, porque
a e?tendi no sentido de uma urgência atual: mais que opor-
Em muitos casos, as oposições externas à teologia da se as formas de religiosidade popular, trata-se de entendê-
libertação se devem a experiências que são muito diferen- las e respeitá-las.
tes das de vocês. É bem evidente que, no caso do próprio
papa, existe uma certa obsessão acerca do comunismo, que Vocês certamente têm um papel de orientadores junto
está ligada a uma vida praticamente inteira decorrida sob aos pobr~s, mi:s, neste ponto da religiosidade popular, tal-
uma opressão terrível, embora diferente, da que vocês co- vez tambem seJa necessário aprender deles. Em nosso con-
nhecem. Na minha opinião, é lamentável que exista oposi- te~, certas formas de piedade despertam em nós uma sen-
ção e quase desapareça o diálogo entre pessoas que sofrem saçao de vergonha. Somos fundamentalmente anti-ritualis-
de maneira parecida. Pode ser que também nisso a análise tas. _~ei disso muito bem porque, quando retornei à Igreja
mimética seja capaz de revelar certos aspectos que, eu ~atolica, experimentei um forte mal-estar em relação aos
diria, chegam até a ser cômicos, na medida em que, em ~tos da Igreja Católica e, de certa maneira, continuo sen-
uma rivalidade de atitudes, se encontram, no fundo, as ti:ido. Ao mesmo tempo, penso que eles são n ecessários. Se
m esmas inquietudes acerca do mundo, de uma parte e da nao houver mais sinais exteriores, que acontecerá no futu·
outra. ro, que ocorrerá com as gerações que virão? Quando não
s~ apresenta outra coisa senão modelos pensados para indi-
Ao ser vítimas, até cert o ponto, da a utoridade, vocês viduas, mas separados d e toda instituição corre-se 0 risco
não deveriam deixar de perceber até que ponto, hoje, a de uma espécie de dissolução do cristianÍsmo.
autoridade é fraca. A autoridade está morrendo em todos
os níveis. E julgo que não temos interesse em vê-la destruí-
da por inteiro. A inquietude das autoridades é um fato; Teoria mimética e sistemas auto-reguladores
quero dizer que a preocupação deles é real. Demasiado
estreita, talvez, mas honesta. Eu me sentiria feliz se conti- En~re os muitos outros temas abordados em nosso diá-
nuassem os esforços de mútuo entendimento. Os cristãos logo existe um conjunto peculiar de questões que começa·
que assistem a tudo como meros espectadores, e que não ram a ~er ~ol~c:idas, especialmente ontem, e que tratam
têm sequer conselhos para dar-lhes, apreciariam esse enten- do deseJ_o I?ID1etico em relação aos problemas propriamen-
dimento. Porque é evidente que todos os cristãos têm enor- te econormcos e s~ciais. Em duas oportunidades, Hugo
me necessidade uns dos outros. (Assmann) se referiu aos mecanismos de auto-regulação,

76 77
aos sistemas auto-referenciais e sua relaçã-0 com o desejo
mimético. Ele vê claramente o aspecto sacrificial desses sis-
O que há de extraordinariamen te grande em Paulo é
temas mas crê que não basta uma linguagem meramente que, apesar dos gravíssimos desentendimentos que houve
negati~a sobre os mesmos, na busca de novos instrumentos entre ele e Pedro, ele sempre dis se: an tes d e tudo é neces-
para a teologia da libertação. Como já disse nos debate_s , é sário não escandalizar os irmãos. Vocês podem ~omer as
um terreno onde não me é fácil avançar, embora arrugos carnes sacrificadas. Isso não tem a menor importância.
meus o façam. Tenho propensão a ver as coisas como ele
Mas se há um único ir mão que s e escandaliza com isso é
as vê. necessário abster-se de comer as carnes sacrificadas. o i~­
Quanto às colocações de Franz (Hinkelammert), sua portante é não escandalizar os irmãos.
crítica extraordinariamente aguda, saborosa e preciosa do . _Dito de ou~ra f~rma, sempre toparemos com gente que
que há de lógica sacrificial nesses mecanismos me parec~ e piedosa, no mtenor de sistemas de pensamento sacrifi-
acertada e necessária. Ao mesmo tempo, diria que um puns- ciais, em sistemas de instituições sacrificiais e um certo
mo não-sacrificial exagerado pode implicar recaídas em for- tipo de oposição a isso não poderá senão recri~r o sacrificia-
mas sacrificiais. O poder e a persistência das formas sacri- lismo ao contrário. Acho que os m arxistas do Leste euro-
ficiais é tal que elas tentarão sempre usurpar as linguagen~ peu estão em processo de descobrir isso: como ser não-sa-
que lhes convêm, a partir da violência que ameaça de.:trw- crificiais com sabedoria.
las. A violência que parece destruí las é sempre tambem a
violência que as reconstrói.
Nosso diálogo deve prosseguir
A meu modo de ver, o remédio contra a idolatria dos
sistemas sacrificiais consiste na tomada de consciência acer-
ca dessas coisas, consiste na consciência dessa constante vol- Eis o tipo de reflexões que me suscitou o encontro
ta do sacrificialismo. Que não é uma fatalidade, mas que com vocês. E para terminar, quero reafirmar não apenas
funciona como uma fatalidade se nos entregamos à violên- o prazer que experimentei neste encontro, mas que ele me
cia. Não sei se vem ao caso citá-lo aqui, mas penso que a d:u e me ensinou muita coisa. Porque, sendo sincero, eu
atitude dos primeiros cristãos em relação às autoridades nao compreendia muito bem a teologia da libertação mas
civis não pode ser a nossa. Acho que nós devemos es~r agora tenho a impressão de que a cap tei mais a partir de
mais engajados na luta política do que eles, porque as cir- dentro, porque experimentei que vocês estão sempre aber-
cunstâncias são diferentes. Acho que há muitos argumentos tos a dar de si mesmos. Foi algo extraordinário.
que abonam a nossa atitude como perfeitamente legítima Espero que haja continuação neste diálogo. (Passou a
quanto a isso. detalhes de um follow-up, em um fu~ro encontro, eventual-
Sustentarei, desde já, como faz Hugo (Assmann) em mente com especialistas em diferentes áreas) .
um escrito seu (apresentado em um encontro anterior, em Agradeço mais uma vez a atenção de vocês. E que me
Nova Iorque, 1989), que a teologia da libertação é funda- desculpem a quase-arrogância de falar como fiz, quase como
mentalmente não-violenta. Ao justificar certos modos de se estivesse dando conselhos. A liberdade de tratamento que
ação política, ela está com a razão. Isto significa, porém, experimentei com vocês levou-me a expressar-me com total
que sua atitude não é exatamente a mesma que a d e Paulo espontaneidade. Sinto me muito feliz e muito grato.
diante dos poderes deste mundo. Mas p enso que existem
em Paulo elementos de sabedoria que não devemos esque- * * *
cer. É evidente que, se os cristãos se tivessem revoltado ( Seguem, geralmente Ide maneira condensada as interven-
contra a escravidão à maneira de Spartacus, em Roma, eles
ções finais de alguns parti cipantes. Alguns pdntos levanta-
teriam sido esmagados e teria sido o seu fim e já não se
dos por René, são retomados mediante comentárÍos de vi-
haveria falado neles.
venciamento ou complementação. O mais importante no
entanto, é que essas intervenções 'r<:.'"T;elam, de alguma to'rma,
78
79
nismo simplesmente como idolátrico, embora sejam inegá-
·vez e llintensidade da troca intelectual e hu7'.1'1na atin- veis seus aspectos idolátricos e sacrificiais. Se, enquanto
~:s n este enoontro, que foi realmente um dú!.'logo em cristãos, existimos por causa dele, se dentro dele também
profundidade) . é possível fazer teologia da libertação, temos que reconhe-
cer que estamos "socializados" nele, que é algo que nos
penetra e não nos é alheio. Temos que saber que nosso cris-
(29/ junho/ manhã - apo.s a Ion!!aº intervenção de René) tianismo, como teologia da libertação, nós o viveremos den-
tro desse outro cristianismo. E nem sempre é fácil diferen-
o ·tem-se os agradecimen- ciar claramente e relacionar os dois.
Franz Hinla.;lammert (Resumo. ~omentar brevemente al-
tos e elogios ao encontro\tQu_ero destacar implicações. Ele Creio que é um problema bastante parecido com o que
guns pontos tocados ~or_ ene e . da libertação, mas ontem analisamos: a questão do mercado. É algo que anali-
frisou a qualidade cr:sta -da teologia onde estamos inseri- samos como demoníaco, mas sem o qual não podemos
insistiu que é necessário nao esquecer . ão as possibilida- viver. Talvez ocorra algo parecido com o capitalismo como
das com que nos defrontamos e quais s . ssa dialética um todo. É aí que vou inserir minha reflexão-pergunta.
, limites Estou muito de acordo com e
des e os · · f · do real Não tenho muito claro como relacionar isso com o desejo
de continuidade-mudança, sem ugir . mimético. Não sei se René estará de acordo com o nexo
. - - · tá Aí está a sua fonte e que vejo.
A teologia da libertaçao e cns . . .da no cris-
tá ao mesmo tempo, inseri
seu sentido. Mas es • le ue não é teologia O problema que estamos analisando é o que, antes, se
tianismo ocidental e confrontada c~m e rif~ 1'al enquanto o designava como a "contingência" ou a "condíção humana".
d8: ~be:tação, ~e ts~ ~r=~~~~~a:::~~ ~~crlficial. A . rup- Em alguns grupos latino-americanos, por exemplo no DEI
cnst1amsmo ?c1 en .ª ossível não é a solução. No Oc1den- (Costa Rica), discutimos isso muito como "barreiras da fac-
tura total, alem de diz1:11~m ateu's conseguem romper comple- tibilidade humana", dentro da relação dialética entre utopia
te nem os que se ~ . _ e processos históricos concretos, com suas instituições.
ta~ente com influências cristas.
do se trata de tipificar O pensamento ocidental, e é nisso que o criticamos
Sempre tenho problemas ~uande classificá los é fazê-lo hoje, nega constantemente a contingência. Coloca-se por
os ateus ocid~nt~. Uma !n~~: h eran ças do cristianismo cima da contingência. É o que, em muitos momentos, apa-
se~ddtolsu~~~Pç~~-P~~~~:: é um ateu católico; Heidegge~ rece como o problema da utopia, cuja necessidade e per-
oc1 en a . · . t protestante· Marx e versão possível - quando se utopizam instituições - ana-
é um ateu católico; Jaspers e um a eu . . ,
um ateu católico; Engels é um ateu calVIDlsta etc. lisamos bastante. O Ocidente buscou criar, constantemente,
um sujeito transcendental por cima da história real. Este
Apesar de toda a secularização, as cat_egorias básic~s sujeito transcendental se crê estar "por cima", denuncia o
do Ocidente continuam fortemente influenc1a~as pelo cns- que está "lá embaixo", e busca, então, uma solução que
tianismo embora não só por ele. Quando dizem_os que. a seja uma vida sem a contingência. Creio que aqui entra o
, - - . tã falamos em um so enunc1a-
teologia da libertaça_o e c~is " · d ntro do cristianis- que René descreve como desejo mimético. Lá embaixo está.
do, de confronto e mser~o. Est~~lit; com ele. Quando Agora tenho que ver algo que supere isso . . . Todo o pensa-
mento ocidental é como um pensamento de sujeitos trans-
~~néo:e~~~· é°:i~~e!:::~~o~:! com_a ~~;~r~:~ed~~e~~~
estou plenamente de acordo, isto s1gn . .
cendentais.
tomar em conta esse cristianismo, embora o critiquemos. É o que chamou ontem a atenção de Hugo (Assmann) .
Eu me havia concentrado na crítica ao sacrificialismo do
Quero sublinhar algo que foi sempre o p:obl~~a :; mercado. Ele insistia nos passos da factibilidade. E parecia
todo tipo de maniqueus: a busca de uma saida P1;11' . . objetar-me: "já estás de novo como um sujeito transcen-
Realmente é um problema pretender rechaçar esse cnstia-
81
dental por cima das coisas". Acho que ai sim, neste aspecto a:zie~cana é dizer: o culpado é a . . . -
tecruca para 0 problema maqwna. :1fá uma soluçao
preciso, a análise do desejo mimético pode ajudar muito caí-se em uma · - . · Indo longe demais neste sentido
para superar o impasse. visao mumana Como é . '
Culpados humanos. · inumano buscar
Julgo que este é um ponto-chave: tratar de pensar os
projetos históricos, já não como um sujeito transcendental De qualquer modo preci~
de razão instrumental' porq~am_os semp:~ uma boa dose
por cima da contingência, mas dentro dela, no interior dos máqUinas funcionem ~m lu a~ e neces~ano fazer que as
mecanismos de opressão existentes, que têm um caráter achar bodes expiatórÍos É g d~ _que~.'.lr feiticeiros ou
sacrificial, ao qual nos opomos e que atacamos com toda trumental t . . . necessano cr1t1car a razão ins-
e. razão; mas que perdemos de vista ou não sabemos como ' mas ambem saber atribuir-lhe o devido papel.
lidar concretamente com eles, se acreditamos ser uma espé- Para escapar ao sujeito t
cie de sujeito transcendental por cima da história, atuando que continuamos atolados nor~cen?ental, é b~m lembrar
sobre a história do lado de fora dela. no cartesianismo Nietzsche t t usalismo. Recai-se sempre
o ó . . en ou escapar disso Mas
Se há uma razão no pensamento nietzscheano, ela con- pr pno Heidegger observa Nietzs h . . ' como
pécie de transcendentalismo ' . c. e recam em uma es-
siste na critica a essa fuga em direção a sujeitos transcen- Heidegger, por sua arte . i:ieculiar. ~ vontade de poder.
dentais. Acho que a solução que Nietzsche aponta significa da .metafisica Eu tap b .' msISte que e necessário escapar
cair em algo pior: optar pelos que exercem a "vontade de da metafisica· porémm em - acho que é necessano · · escapar
poderio". Sua lucidez, no entanto, está em haver atacado o como pretend~ Heidegg:ºmape~as de maneira filosófica,
sujeito transcendental, que é a obsessão do Ocidente há las ciências sociais para ~heg~s e tum mo?o que passe pe-
2. 500 anos ou mais talvez. Essa forma metafísica atuante é creto de análise da . r a er um instrumento con-
algo que acompanha toda a história do Ocidente e é, talvez,
seu superego principal. Creio que, em alguns momentos do tou- até agora.Queri:e:~~~~~=n~~:~~:ª·~ ei~:le~tmesproebsfal-
vaçoes de Franz. er-
nosso diálogo, chegamos a situar melhor e a discutir nova-
mente este problema e, talvez, a aprofundá-lo. De modo que,
suposto isso, estamos em condições de expressar melhor Leonardo Boff (resumo)' Quero d' . ..
onde se situam e quais são realmente nossas preocupações. lavra pessoal e agradece;·lhe tod izer iruc1alme~te uma pa.
Queria apenas destacar essa problemática central. trouxe. Mas, especialmente agra~s as provocaçoes que nos
não tenho receio em usar a' palavr:cer-~e o testemUnho -
René Girard (resumo): Franz acaba de situar uma questão dade intelectual. Porque muito d -- e uma grande santi-
filosófica importante. Quero ligar o que ele expressou, com intelectuais europeus e entr s e i:os conhecemos outros
tanto acerto, com a constante recaída em lógicas sacrificiais suas teolias, igualm~nte be:ie~mmtos franceses, que têm
dos que não sabem lidar com a contingência na história. cussões, tratam permanent dadas, mas que, nas dis-
Recai-se em determinismos e causalismos, que são sempre fender-se. Não percebi issoemente de autojustif~car-se e de-
sacrificiais. (Dito de passagem, vocês certamente sabem que atitude. Quero dize . ' de nenhuma maneira, em sua
a palavra latina "causa" deu origem a "acusado". Às vezes, r . sempre aberto à dis -
interessava não era defender ~ussao, o que lhe
a etimologia é reveladora) .
fenômenos novos. E recolher osªf su_a teona, m~s entender
O determinismo é sempre a busca do culpado. O lado Creio que isto, no plano da . tenomen~ naquilo que são.
bom do determinismo cientista é que ele busca o culpado 1ntelectual, um desprendime~tvir ud~, exige uma santidade
na matéria. Quando não se dá o devido valor às causas realidade. Isto eu oze. ? ~e s1 mesmo em função da
materiais, sobra apenas a causa humana, os culpados. O ano Isto me faz lembra~ d~Ísadmianu·re1 e celebrei pessoalmente.
passado, quando dois navios russos se chocaram, os sovié- gos que tenho na Fr
q~e o senhor certamente conhece· J .. ança, e
ticos (segundo a imprensa ocidental) se perguntavam: onde Ricoeur, que são pessoas dess te . _ean Ladriere e Paul
está o culpado? O lado bom da razão instrumental norte- e or intelectual.
82 83
- . ha a partir de tudo o que libertação, em seu nível estritamente teológico, tem duas
Uma pequena reflexao. mm ve. o que há na meta, no categorias fundamentais: a categoria pobre, oprimido (e jun-
refletimos juntos nestes dias. Eua t~oria busca realizar, e to com ela: Deus dos pobres, Deus da Vida etc.) e a catego-
objetivo fundamental, que ª s~eologia da libertação, uma ria Reino de Deus. Reino que se inicia na história, embora
que nós também. tentamo~ ~eªnto da teologia da libertaçã? não se reduza a ela. Portanto, n ão somente como categoria
grande conaturalidade. O m ho básico de Jesus de Nazare, do utópico, mas como categoria escatológica, no sentido
é recuperar a utopia, o sonc . to da nossa fé. Recuperá~o teológico deste termo: a meta terminal da história, nlâs
q_ue é ao mesmo tempo o d ns essão exclusão vitimaçao que começa dentro da história. O Reino está aqui no meio
dentro do contexto da gran e oprd N'ão apena~ os pobres de nós, sob forma temporal, em forma de luta, de alegria,
qúe sofrem os probres neste mdun ~do inteiro. Da Africa, de dança, de celebração; mas também em forma de busca
que sao - cns . t-os
a · Os pobres
. . oasm mulheres oprlllll . 'das ete · da justiça, em mediações políticas e econômicas, o que
da Asia, os negros, os mdio~soas apesar de que, na vi5ã:0 chamamos os bens do Reino. Jesus disse que o Reino já
Recuperar que se trata de pe A '. - MueLLoekonOmie está aqui ent re nós. Como processo, como mediação e ponte
- zeros economicos D"
do mercado, sao. os A ·co) _ são não-pessoas.· · ~- para a sua plenitude. Escatológico, porque é presença e
(economia-lixo, luro econorm taro E gastar nossa inteli· busca. Isto é fundamental na teologia da libertação e escan-
zer: não, estes são pessoas, e _conacei·t~r que a lógica que os daliza os cristãos europeus. Porque eles entendem sua cul-
gência .
e nossas vi·das para nao · V1·t·rmas
ontinue a cnar tura, suas igrejas, sua economia como Reino realizado. Não
.
exclui seJa a gica ló . que vale e
' . que c Diz·er que isso nao- é faz falta buscá-lo como realização de promessas ainda não
. t · Rechaçar iss0 . .
no mundo m eu0 . - todas as c01sas, que cumpridas. Eles acham que já acharam o melhor caminho,
permitido e que, par~ J:sus, ~ª~izer que Deus está do
1
existem, valem. Isso ai nao ~s~ como Jesus, as igrejas
a melhor solução. Vivem, por isso, num fatalismo resigna-
do. Seu cristianismo não é jovem, não vibra.
lado dos sacrificados e que, b 1 er comunhão com eles.
e os cristãos temos que esta.~~ a partir dos sonhos de- Na sua interpretação não-sacrificial da Paixão de Jesus
E pensar a realidade e os prodJe. do sonho da utopia de vejo que Ele é a vitima inocente, que cria um espaço de
· - 0 os her erros • - não-mais-vitirnação, e como tal Ele é o último, o definitivo,
les, que para rmm sa h anidade não vitimadora, nao sa·
Jesus. Lutar por uma um a Palavra definitiva de Deus na história. É bem isso que
crificadora, mas realmente fraterna. . nós queremos dizer quando falamos de Jesus Libertador
. - de ser pura politica. Mas que vai gestando espaços assim, espaços não vitimários na
Isto pode dar a rmpr~ssao A ia a verdadeira nature- história. É necessário resgatar a liberdade, que está em ca-
não é. É ~nsar a verd~oeu~ae~~~ri~, como Deus q'?s a tiveiro, e isso é um processo difícil, conflitivo. O que o se-
za das c01sas, do mun ' nhava rememorava, ativava nhor expõe acerca do desejo mimético implica produzir o
humanidade. Como Jesus a soaráboÍas e demonstrava em seu contrário, que é o dom; uma realidade que não perpetue
em suas fal as, seus contost edaP a crítica ' que o senhor f az o instinto de vingança e a violência vitimária, tão presente
suas práticas. Penso que oT as é exatamente para con· em nosso mundo.
do processo produtor -~·e Vln: se basta a si mesma. Quer
Nós não queremos escandalizar os irmãos, como o se-
cluir isso. Porque. a cn ic~ vitimária, não produtora cons· nhor advertiu bem. Mas se existem os que se escandalizam
chegar a uma socieda~e nao . que estamos bem juntos. com as exigências do Reino, os que se escandalizam com
tante de vítimas. E russo creio
cândalo nos euro· Jesus Libertador, é um escândalo que nã-0 podemos evitar.
Há duas palavras que produze:n es - se pode falar O Paulo que não queria escândalo para os irmãos falou no
l d revoluçao e nao escândalo de Jesus, da Cruz, da vitima inocente.
peus. Não se pode f~ ar ~ndem o conteúdo histórico que
de Reino de Deus. Nao en desde a perspectiva dos pobres. O senhor falou da importância dos sinais externos. Em
damos a essas palavras, . importante para nossas comunidades, o esforço da teologia da libertação
Ou, se enten~em, se ~ssusda~e:~: d:e~oe que a teologia da não é, primeiramente, ser teologia, mas criar movimento,
nós a categona de Remo e
84 85
processo, grupos que b.uscam viver o novo. Esta é a grande
É uma pena que a sua esta-
capacidade das ~om;midactes. S ·a importante que pudesse maneira de apresentar a sabedoria cristã ao mundo mo-
derno.
dia no Brasil seja tão. curta. ~n . . de Base para ver sua
participar nas Comuru~ades Ec .es:aisde ritos, de criação de A segunda coisa que gostaria de frisar é a novidade
capacidade de celebraçao, de criaç_ao rm
· bolos É uma
. . . tremamente nco em s · que há em seu trabalho. Creio que o senhor conseguiu pre-
um cnstiamsmo ex . ento histórico. E talvez o me: servar a novidade cristã para o mundo atual. Nessa novida-
fé com corpo, como moVl.lll aduz um rosto novo da fe de há uma fidelidade muito grande em relação à novidade
lhor deste cristianismo é que pr . . alidade a contribui- perene. Há uma continuidade maravilhosa nos temas e no
cristã, onde existe, com grande º~~dança ...:._ da mulher, conteúdo. A novidade é a apresentação de uma realidade
dos do
ção - co~
negropela
pobres, s~u corpot
p rrmeira vez r ansformados em sujeitos sempre idêntica no cristianismo. Poderíamos dizer que seu
na comunidade que vive e celebra. pensamento é, sim, um p ensamento tradicional; creio que
sim, muito tradicional. Isto me agrada muito porque o se-
a partir disso que a te~e~;,~ nestes dias de comu-
1 . da libertação procura nhor apresenta as realidades mais cen trais e mais profun-
É das do cristianismo.
pensar. E o que o .senhor exp irmar e reassumir esta tare-
nhão conosco me ajudou a re~ da mais a nossas raízes e
fa, me ajudou para descerhia~ria buscando gestar aí um Mas eu dllia que é muito difícil dizer qual é o centro
do seu pensamento. Seria o pecado? Seria a redenção? Pen-
fazer-nos corpo com :iossa ~a e 'herança de Jesus. Desse so que através da análise do desejo mimético o senhor nos
cristianismo que esteja na . e·as como reprodutoras de apresenta a totalidade da novidade cristã. E nos provoca a
Jesus que sofre ao. ver su~~ .1grs j mundo-igreja, ministérios
desigualdades - leigos e _c engo •Eu diria quase que vive- fazer uma reflexão muito profunda sobre o Espírito Santo,
sobre o Paráclito, na história.
monopolizados pelos va.roes e~. seus irmãos, criadoras de
mos em igrejas perseguidoras e
mártires internos à Igreja. . R epito que estou feliz por havê-lo conhecido, por haver
participado deste encontro. Creio que este encontro será
Embora sofrendo, é precis o sabert entendq~~~~º ·s~:~~ um novo ponto de partida para a teologia da libertação.
Creio que daqui por diante a teologia na América Latina e
o não-ata~ue. .
A tentação de contra-a acar,
S ·a repetir 0 desejo mimético na no Brasil terá, eu dii'ia, também uma outra qualidade. Mais
atacados, e m1:11to fo:te. en chama a uma conversão uma vez, muito obrigado p or seu ensinamento.
sua pior mamfestaçao. Isso ~~~ou Domesticar esse demô-
pessoal, co~o o sen:iorEb:Tver des~a substância realmente
nio que. estadaem Seb~tião A. G. Soares (resumo) : Quero dizer, muito breve-
alternativa, quanlos.
0 s
enhor nos deu um testemunho es-
mente, duas coisas. A Primeira, sobre a ampliação das me-
plêndido. diações do pensamento teológico a que nos incita René
Girard. A segunda, sobre o método latino-americano de fa-
. llw. Quero expressar minha grande alegria zer teologia em confront o com a falácia ocidental de criar
Gilberto Gorgu . · lm te Quero acrescentar duas sujeitos transcendentais.
de tê-lo conhecido pessoa . en r~siona em sua obra. Creio
observações sobre o que me rmp G' d é um sábio. Todos temos experiência do m al-estar que certas pes-
que podemos dizer que :' professortaç~~e uma sabedo- soas sentem em relação ao forte emprego de categorias
N- é um sistema, mas e a apresen .
. ao ·~e creio que doravante d evemos dizer que sociológicas na teologia da libertação. Embora necessárias,
na. Se me perm1.. '~ " t da suspeita" mas quatro. categorias sociológicas não esgotam a Bíblia. Por exemplo,
não há somente tres mes res . ' menta É não se pode redUZir o pensamento de São Paulo a meras
Le do (Boff) se referia à santidade do pensa - . º categorias sociológicas . Girard nos dá uma chave mais geral
0 onar sabedoria Penso que a reflexao sobr.., de caráter antropológico. Ela implica muitas mediações e
que expresso como : ·t· · · é uma nova
o desejo mimético e o mecamsmo VI rman0 é, de certo modo, mais profunda. E como ele próprio insis-
te, essa chave não exclui, não invalida, não dispensa enfo-
86
87
mar nossa posição a do CMI Houve -
ques de outro tipo, por exemplo, sociológicos, politicos, eco- que eu chamo terapêutico e q '
entã?, este elemento
nômicos etc. Não se trata de mediações excludentes, mas a~ui. Considero que a s~vaç~; ~~~rove1, uma_vez mais,
complementares. Vejo nisto uma rica vertente. nao apenas do pecado mas tamb . d - que e salvação
Franz (Hinkelammert) nos falou da falácia ocidental da~e etc. - é uma t~rapia. Qua~~ ~o:orte, ~a enfermi-
de criar sujeitos transcendentais. Estes sujeitos fictícios, coisas que fazem que nos sintam ' o aqw, ~ucedem
que estariam por cima da realidade, que fica lá embaixo, e saúde - saúde e salvação são . os bem, que nos dão força
são invenção de intelectuais. O método da teologia da liber- sas línguas como sal . a mesma palavra em diver-
tação pretende, por princípio, ser uma espécie de resistên- do Espírit~. Foi 0 ~~eer:;- lati:n - e?tão ~e produz a obra
1;:S~º~rZ:n~!º e~~~;~op~r ~~s~ ~~~;:~u~;~o~~:°otese:t~;
1
cia a essa tentação. Mas não basta enunciar teoricamente
um método, que pretenda levar em conta todas as media-
ções da realidade, para curar-se desse mal. Requer-se o que nós queríamos conver;~:sc~~ ~m:e~~:m~toatenção ao
contato com as comunidades, conviver com o cristianismo ceu admirável. · me pare-
real do povo. Nossos interlocutores são os pobres, o popu-
Gostaria de acrescentar um . .
lar. Interlocutor não só no sentido de destinatário, mas de r eflexões sobre a ºTaça 0 requeno COmentáno a suas
co-elaborador. se relaciona com a~uilo. uepon o-chave do que vou dizer
a reconciliaça-o q . resulta da libertação e que é
Persiste um certo problema na teologia da libertação: ' o reconhecunento mútuo . ..
insistimos muito em conteúdos libertadores. Alguns acham de entender-se. A ação da g . ' a possibilidade
da diferença. Rom er T~ça consISte n? reconhecimento
que se faz teologia da libertação mediante a proclamação
de conteúdos libertadores. Acho que é mais fundamental desejo mimético Q~e de~:;cISamen~e, .º circulo vicioso do
voltar a insistir no método, isto é, refletir teologicamente tamente hoje e~ meio ~às I~~/º~~m isso para nós, concre-
enquanto se está construindo conjuntamente o caminho da mútuo no interior das igrejas;cu ades de reconhecimento
libertação. Creio que seria o fracasso da teologia da liber-
Como dizia Franz (Hinkela .
tação se nos colocássemos diante do povo como intelectuais, dessa grande corrente desse ~ert! ' nos participamos
que sabem falar muito bem das coisas e deixam a impres- quase dois mil anos ~e espa~ran e r10 que, ao longo de
cristianismo, e perte~cemos , .~ P~lo mundo e s~ chama
são de um saber que esmaga. Isto reforça no povo a sensa- 0

ção de incapacidade. Povo apassivado não se transforma vivendo na América Latina as I'?reJas. Neste _sentido, nós,
em sujeito de mudança. Então, mais uma vez, os intelec- cristãos na Áf . '. possivelmente ma15 do que os
tuais, donos de um saber que esmaga, passam a inventar nca e na As1a estamos rel . d
cristianismo do Ocidente. ~ ' ac10na os com o
sujeitos transcendentais. A relação concreta com o povo,
geradora de passos de superação, na teoria e na prática, é Mas - e quero frisar ist h . -
~ - . . OJe estao surgindo for-
um problema persistente, precisamente porque faz parte
do método com o qual a teologia da libertação quer evitar
a tentação de criar sujeitos t ranscendentais.
mas de Igreja que não sã
nham do Ocidente Na
pendentes· na As~ e·
Ai; mJi:--etica~en~ aquelas que vi-
?ªt'· sa_o as 1greJas africanas inde-
' , o cns ianISmo que se t d
um movimento popular- na A • . . ~n en e como
Julio de Santa Ana (resumo): A prin1eira coisa é somar-me dades Eclesiais de Ba~e A ~e~c~. Latrna'. sao as Comuni-
ao coro (de expressões de satisfação e agrac!ecimento). Que- apenas uma reflexão intelectua~oÉogiabdat llbertação não é
- d . · , so re udo uma art· ul
ro também dizer que aquele encontro anterior que eu tive
com o senhor, em 1983, no Conselho Mundial de Igrejas - i:.ºda: b~B~u: ~~~~~ s~~r:i1:Iícita
na América Latina.
em seus' conteúd~~
semelhantes de ser Igreja,
d:
eu trabalhava na Com issão para a Participação das Igrejas
no Desenvolvimento - foi muito positivo. Sucedeu em um
Portanto, o problema que se
momento muito especial quando o CMI era o bode expia- como diz.1 nos coloca hoje é que -
tório das igrejas conservadoras. Deu-nos força para reafir- ªK. Rahner - isso de te
r uma fé "católica", no

88 89
, diversidade começa a tornar-se possív~l
sentido de abe~a ª. hlstória, 0 cristianismo adq:U:-
porque, pela pnme~ra v~~ na te universais. Que slgrúf1- que significa reconciliação (kat.allagé): chegar, precisamen-
re características ~ve_:sif1cadar~ce:nhecimento mútuo nessa te, a combinar nossos esforços.
ca viver, como cnstãos, o
situação? Mas existe uma pré-condição: reconhecer que o que nós
estamos buscando fazer não é exemplo universal, não é
Creio que se1ia nossa perd.içao - se, neste momento,
copiado ou se modelo a ser imposto aos demais ou a ser copiado por
aspiréssemos a engrr-n . . os em modelo a ser •
centro administrador todos. Paulo diz: somos apenas "vasos de barro" (2Cor
quiséssemos tornar-nos um potucopo0 continua lamentavel- 4,17) . E vasos de barro podem ser facilmente destruídos.
. . Mas ao mesmo em ' . - Somos apenas isso. Portanto, ninguém tem obrigação de
das igrejas. : "dade de administrar, a mtençao
mente, nos qu~ tê~ a -~~pa~ontinue se repetindo. Creio que tomar-nos como modelo. Mas isso não se aplica somente a
de que o desejo rrume ic? a reforma da Igreja, em nos- nós. Aplica-se também aos outros. Reconhecer esta diversi-
todo o problema da Igreja .e d t m sermos capazes de dade é viver precisamente a antecipação do Reino. Somos
e precISamen e e "colaboradores de Deus" (2Cor 6,1), cada qual em seu lugar.
so tempo, se res_um
superar a tentaçao m1mét1ca, me . . diante o apreço e o reco-
Podemos estender-nos as mãos uns aos outros, com a con-
nhecimento mútuo. . dição de que reconheçamos a nossa insignificância. Em ou-
. assistindo à multiexpenmenta- tras palavras, se reconhecermos que não somos modelo
Creio que, hoje, est~~s que já não são exclusivament~ para ser copiado por ninguém. <As vezes, Paulo pede que
ção de formas de ser crIB o, - tem muito sentido conti- o imitem, cf. lCor 4,16; 2Ts 2,7.9; mas jamais como mode-
ocidentais. E neste co~~~~c~' ~~~rano-alemão, calvinista de lo impositivo ou único).
nuar sendo ro~ano-ca o Íaterra etc. Neste momento, o
Genebra, m~todista. d~ Ing América Latina, ser cristão na O problema que se coloca atualmente na vida das igre-
importante e ser cnstão ~a istão no Ocidente, ser jas consiste em saber administrar esta grande diversidade,
Asia, ser cristão na M:ica, ser ~a forma particular de esta riqueza de ser Igreja, que vai surgindo de forma inova-
cristão nos Estad~s Urudos - não é igual à forma dora hoje. O pior que nos pode ocorrer à teologia da liber-
ser cristão no Ocidente, mas que e são muito específi- tação é querer ser modelo. Nós somente podemos servir
.. te om problemas qu onde estamos. Não há razão para que os africanos nos
europeia
cos em cada - e sociedade,
., c e e. necessan . .o responder a seus
copiem. Os asiáticos, tampouco. E os cristãos na Europa,
desafios. nos Estados Unidos, no Pacifico, no Oriente Médio etc. tam-
pouco têm por que copiar nos. Mas tampouco eles têm por
R ·to a graca opera no r econhecimento
· .da
. diferença,
epi ' do circulo
,• · · 0 do desejo mimetlco. que impor-nos nada. E este é o problema que hoje estamos
na ruptura vic1os
vivendo. Querem que continuemos obedecendo e copiando
modelos impostos sobre nós.
René Girard (c~mo aparte )". ÉN~isso
abertura
que seaotrata.
Reino, é o
problema do Remo de Deus. Claro, isto tem muito a ver com os sistemas auto-regu-
ladores. Mas eu creio que, se nós renunciarmos a ser quem
ontinuando): Exatamente. São Paulo somos, neste momento, não vamos ajudar para que exista
Julio de Santa Ana (c. t- ·a à !!Taça do reconhecimento um bom processo de auto-regulação na vida da Igreja. Acho
viveu o drama d~ res~s en~1 . ass:gem da Segunda Epísto- que devemos ser nós mesmos. Neste sentido, romper com
recíproco ~a !greJa. Há ~ ~ que Deus "nos confiou o o fetichismo, a fascinação do sagrado que se manipula no
la aos Conntios, ond~ .Pa_ ?, diakonían tes katollagés) e desejo mimético.
ministério da reconcillaçao ( .li a-o" (ton lógon tes
. lavra da reconc1 aç .
"colocou em nos ª pa . trecho muito bonito, mse- Queria apenas fazer este breve comentário e agradecer,
katallagés - 2Cor 5,18s). E um roblemas de reconhecimcn- mais uma vez, a sua presença, que nos ensinou muito e
e P~~~op insiste na importância do
rido num contexto qu.e fala que, além disso, serviu de catalisador para que conversásse-
to recíproco na Igreja, mos, entre nós, algumas coisas, que era urgente que con-
versássemos.
90
91
há, obviamente, alguns elementos relev . .
Hugo Assmann (resumo): Gostaria de fazer um breve co- que se nos entenda é necessário ente d antes. Primeiro, para
mentário sobre minhas dúvidas acerca deste encontro, antes mente cristãos. Segundo que n _er_que somos efetiva-
que ele se realizasse. Eu tinha plena certeza de que tería- ao lado das maiorias o ,rimid~omos cn~taos comprometidos
mos, em René, um interlocutor aberto e humanamente mui- razoavelmente se·n·a P- s .. Terceiro, que somos gente
• e nao uns improvis d .
to afável. Havia p ercebido intuitivamente a sua qualidade ou meros repetidores de frases feit E a ores superficiais
humana quando nos encontramos pela primeira vez, o ano te busca, autocrítica revisão N- ~· stamos em constan-
passado. Mas eu não tinha certeza de que seria fácil que
nosso diálogo o levasse a entender o que me parece ser o ~~d~~t~!~~c~s' entende~ !~o,e:~:b~:.d~o~:a d=:~
essencial, o fundamental na teologia da libertação. coisas, qu~ a nossa f~~;em que t~mos de dizer aquelas
nos permite silenciar
Veja o senhor, René, nós temos muitos amigos dos Para não alongar-me . ·
quais, às vezes, não sabemos bem até que ponto devería- damental da teologia da, lf~!~a q_ue. o senhor captou o fun-
mos defender-nos um pouco, conforme aquele velho dito: quer outra coisa é um mo . çao. que_ ela, antes de qual-
"Deus me guarde de meus amigos, porque dos meus inimi- de. Eu não aceito mais h ~me~~o de fe e de espiritualida-
s:riedade teológica naq~el! ~~; ~ an~s, que PºS?ª haver
0
gos me defendo sozinho". Há certos "amigos" da teologia
da libertação que nunca chegam a p enetrar profundamente fe e não procuram aliment nao t~~ verdadeiramente
naquilo que a teologia da libertação realmente é. Há, pri- não somos uma corrente t!~1~ .sua espmtuali~a~e. Depois,
meiramente, o tipo de "amigos", como que fascinados pela e escrevem para acadêmico gica, onde ~a~ermcos falam
teologia da libertação, mas que a panfletarizam de uma ma- produção acadêmica da te sl, o~de a referencia é sempre a
o agia.
neira insuportável, que não entendem jamais que a teolo-
gia da libertação é algo sumamente sério, talvez não tanto Como já foi enfatizado a · .
como produção intelectual segundo sofisticados cânones realmente gente pobre que te~\ ~osso~ mterlocutores são
acadêmicos, mas como movimento de reflexão em meio a nesta experiência. De maneir e, e nos :stamos imersos
e nos hostilizam de f a que os que nao nos entendem
um movimento real de fé junto com os pobres. Existem,
porque não parttci amora, geralmente o fazem, penso eu,
pois, os superficiais, os panfletaristas. E, depois, existem
espiritualidade na ~vê ~essa mesma experiência de fé e
os reducionistas, muito parecidos aos primeiros, mas que - ' nc1a comprometida com os pobres.
tomam isto ou aquilo da teologia da libertação, às vezes
mais o social, o político, esvaziando-o, por assim dizer, da Naoque
diálogo tenho
prodmais
. dúvidas de que conseguimos ter um
UZiu um reconhec · t
substância verdadeiramente teológica. Na minha opinião, a nesse nível. E lhe somos muito rmen o, de ?ªrte a parte,
mais prejudicial das reduções da teologia da libertação é a entendeu e nos respeita neste grttos, Rene, porque nos
que esloganiza a opção preferencial pelos pobres mediante mente, não me sinto nun ~pec o fundamental. Pessoal·
um jargão que atrai sobre nós a acusação absurda de respeitado, como o ser h~~ en~mente tomado a sério e
mero sociologismo revolucionário. Estamos, nesse caso, mui- fato de que apreciam algirmas o V:~º que sou, pelo simples
to próximos dos que - estes sim, inimigos declarados - aceitam algirma idéia elabor ~na ises que faço, ou porque
transformam a teologia da libertação num fantasma subver- ra. Creio que estivemos . a dessa ou daquela manei-
. . rmersos nestes dias
sivo, incitando, com isso, a repressão contra nós. gio reciproco que não se e li ' em um contá-
Eu não tinha total certeza, antes do encontro, de que
de idéias. Obrigado René xp ~a por mera convergência
o olhar da fé. , , por aver-nos reconhecido com
o nosso diálogo se encaminharia tão espontaneamente ao
essencial da teologia da libertação. Por isso estou muito
contente, a esta altura, já no final do encontro. Creio que
realmente podemos estar seguros de que houve um diálogo
sobre o que a teologia da libertação realmente é. Para esta
compreensão do que a teologia da libertação realmente é

92 93
II

Contextuação básica
O PENSAMENTO DE RENÉ GIRARD
DESPERTA INTERESSES DIFERENCIADOS

Hugo Assmann

Um ligeiro exercício de preparação pessoal para o diá-


logo com René Girard, nada mais que isto se pretende com
este escrito. Não haverá espaço, dada a brevidade do texto,
para aprofundamentos específicos. Com inevitável tom sub-
jetivo, expressarei o desejo de não ver apagadas certas dis-
tinções entre tipos bastante diferenciados de atenção que
a obra de René Girard vem provocando.
O pensamento de Girard tem uma coerência marcante.
Coloca-se como um bloco, com desnudada unidade e simpli-
cidade. Mas sua recepção é acentuadamente seletiva. Creio
não exagerar se suspeito que sobretudo os teólogos se acer-
cam dele selecionando o que melhor se encaixa em seu
mal-estar com respeito a pontos cruciais do cristianismo
histórico. A leitura anti-sacrificial que Girard faz da Bíblia
ajuda-os a desvencilharem-se de versões insuportáveis da
redenç9.o. Escolhem, assim, de um pensamento inteiro, os
fragmentos que m ais lhes convêm, deixando de lado inclu-
sive elementos fundamentais que geraram, em Girard, a
referida leitura anti-sacrificial. Mas estes tampouco estão
sozinhos nesse tipo de captação seletiva, já que outros ope-
ram de forma semelhante, ainda que a partir de interesses
de área completamente distintos. Não faltam os que mani-
festam profundo desinteresse pelo que mais interessa aos
teólogos.
Não me entendam mal. Não estou cobrando d e nin-
guém uma adesão global a posições teóricas de Girard, p a-
"ª o que nem eu mesmo me sinto predisposto. P recisamen-
97
1

te por ter fortes dúvidas com respeito à convemencia de ~nquanto proponente ~e uma " te~r~a . geral". É neste aspec-
semelhante adesão sem fissuras, nada tenho a opor, em ~o ~ _s~amente delicado, de dif1cil aclaração, sujeito a
princípio, a quaisquer recepções ou fascinações seletivas mevitave1s mal-entendidos, mas ao mesmo tempo fascinan-
ante o pensamento de René Girard. Gostaria ap enas que te - que o p ensamento de Girard sobrepassa decididamen-
houvesse consciência da seletividade n aqueles que selecio- te o eclético e o fragmentário. Há, nele, uma hipótese de
nam, e que se dêem as razões da incorporação admitida e fundo, um núcleo fundamental a partir do qual todo o resto
dos rechaças, muitas vezes silenciados. se ar ticula. Trata-se da hipótese mimética: nós, seres huma-
Longe está de minha capacidade a elaboração de uma nos, desenvolvemo-nos, segundo Girard, como animais mi-
espécie de tipologia das recepções diferenciadas do pensa- méticos, presos a um processo mimético - no passo origi-
mento de Girard. Ainda que de forma introdutória e incom- nante do pr opriamente humano, ou seja, no salto do animal
pleta, o caminho para essa tarefa já foi aplanado por Chris- ao homem, na gênese da cultura, na origem do social, no
tine Orsini. 1 Pessoalmente, confesso que outras prioridades, desenvolvim ento do intercâmbio coletivo.
na reflexão e na ação, mantiveram-me até agora ao nível O assunto exigiria uma exposição detalhada, com desta-
de "curioso" interessado - mas com mais de uma década que para agudas distinções a fim de não mesclar indevida-
de atenções esporádicas - no que corresponda a Girard e mente os níveis de articulação do pensamento e das lin-
a seu polifacético impacto. Envolvido agora, quase fortuita- guagens. Minha preocupação, neste moment o resume-se a
mente, na organização do diálogo de um grupo de latino- sublinhar o fato indiscutível de que há em' Girard uma
hipótese ~ticuladora central (e não de expô·la; o diálogo
1
americanos com Girard, sinto que meu grão de condimen-
to para nosso intercâmbio se resume no desejo de que sai- nos levara, provavelmente, a formulações condensadas de
bamos localizar , com a máxima precisão, o alcance de nos- René sobre este ponto ).
sas (prováveis) convergências. Este desejo de distinções e
discernimentos - cuja qualidade "mimética" eu não saberia Vamos por passos, com o único propósito de enfatizar
ajuizar por não saber onde se dá o cruzamento com os que se trata de um ponto-chave. Pouco está dito quando
desejos dos demais - inspira o rascunho de mapa-guia que s~ repete, como muitos o fazem, que o pensamento de
segue (carregadamente subjetivo, repito) . a.irar~ constitui uma teoria do Desejo, da Religião e da
h~stória. Algo mais está insinuado quando se afirma que é
Tocarei sucessivamente os seguintes pontos relaciona-
dos com o pensament o de René Girard: 1. "Teoria Geral" msso que se devem buscar os motivos do desacordo e a
- em que sentido?; 2. A leitura não-sacrificial da Bíb lia - discrepância de Girard em relação aos "mestres da suspei-
impactos e implicações; 3. Fermento evangélico na moderni- ta" mais celebrados (Marx, Nietzsche, Freud) e a linearida-
dade - ou "inversão do sacrifício"?; 4 . A ponte girardia- de pseudocientífica do neopositivismo, do estruturalismo
na para sistemas auto-organizativos; 5. Questões acerca da (do qual, entretanto, reconhece influências) e da filosofia
teoria girardiana do desejo; 6 . Há convergência com r espei- analítica.
to ao "lugar epistemológico"? - Certamente, meras miga- Quando Michel Serres o saúda como "o Darwin das
,, lhas de provocação, em cada ponto. ciências sociais" 2, talvez o faça pela mesma razão que o
leva a afirmar, com respeito ao recente esforço de Gérard
Bucher de substituir a hipótese fundamental de Girard (o
1. "Teoria geral" - em que sentido?
desejo mimético) por outra que se pretende ainda mais
Não creio que se possa avançar muito no diálogo com f~damental (a ritualização p1imitiva da morte), que "este
René Girard sem levar a sério sua audácia especulativa hvro descobre o B i g Bang humano". J Nas duas apreciações
alude-se ao intento de elaborar uma teoria globalizante a
1 ORSINI. Chr:.Stine. La pellsée de Remi Girard . Paris, Ed_ Retz. 1986
(com b reve bibliografia de e sobre Girard ). B ibliogr afia girardiana m a is com · 2. SERRES. M. Le Nouvel Observateur, 17 abril 1978.
pleta em: DEGUY. M . e DUPUY. J . P . ( ed.) . René Girard ct le prob!tme du 3. S ERRES, .M ., Preráclo em BUCHER , G. La vision et /'énigme. Eleme11ts
mal . P aris, Grasset , 1982, p. 315·333; m as somente a té 1982. pour une AnalyN.q11e d1t Logo•. Paris. Cerf. 1989.

98 99
respeito do "segredo de nossas origens". Mas quando Jean- nossa cultura de produzir um p ensament o que seja de fato
Marie Domenach caracteriza Girard como "o Hegel do cris- teoria.
tianismo" \ a apreciação já não parece incidir diretamente "Creio que a antropologia deveria gozar da mesma liber-
sobre o núcleo articulador do pensamento girardiano, e, dade para seguir intuições p otencialmente produ tivas
sim, mais fortemente sobre o primeiro círculo derivado ou que as ciências naturais sempre tiveram".5
a imediata irradiação desse núcleo: o sacrifício como pro-
tótipo de toda atividade cultural e chave possibilitadora do
social "convivível", mediante a resolução mítica da crise Como se pode ver, a velha atração pelo "modelo cientí-
sacrificial, derivada do desencadeamento progressivo da fico" das ciências naturais continua forte. Onde se local'..za
mímese conflitiva numa humanidade que ainda não conse- no pensamento de Girard, a "intuição potencialmente pr~
guiu sair do "desconhecimento" de suas origens e, por isso, dutiva"? Creio que a resposta não é simples porque os el3-
necessita mitizar o mecanismo vitimário. Mais provável ain- mentos que formam o núcleo matricial de sua teoria
da é que Domenach tenha se sentido fascinado, como tantos estão tão intimamente ligados que, ainda que caibam dis-
leitores cristãos de Girard, pela força demitizadora que ele tinções, não cabe separação. Isso implica e m inevitáveis
atribuí à revelação judaico-cristã (enquanto projetada nos obscuridades na linguagem girardiana, posto que o caráter
textos bíblicos, mais que nos fatos históricos do judaísmo de núcleo do "princípio generativo", assim como o caráter
e do cristianismo) com respeito aos mitos homologadores de "ferramenta heurística" são atribuídos, em difer entes
do sacrificialismo. momentos, tanto ao desejo mimético como ao generative
scapegoating (bode expiatório generativo), e inclusive ao
Se o entendo corr etamente, Girard atribuí, no conjunto sacrifício.
de seu "modelo" teórico com pretensão a teoria geral, uma
fecundidade h eurística escalonada a diferentes element os "Para explicar esta visão incomum (sobre vitimação
estreitamente int erligados, cuja seqüência lógica deve se; unânime como um dispositivo auto-regulador ), preciso
corretamente entendida: o primeiro e mais básico é sua falar sobre algo chamado desejo mimético, que é a base
concepção do desejo mimético (e por isso, talvez, ele não para minha concepção do conflito humano e do próprio
se sentiria mal interpretado se o caracterizássemos como homicídio unânime. Minha t ese faz pou co sentido se
todos os aspectos não forem abraçados s:.multanea-
"pan-mirnetista"); o desencadeamento do desejo mimético
mente". 6
- ao passar da mímese de apropriação, ainda centrada nos
objetos, à mímese conflitiva ou de antagonismo - gera o "A força da teoria mimética reside, creio, em SU 'il. capa-
processo propriamente vitimário ou de busca de bodes ex- cidade de esmiuçar religiões sacrificiais e r evelar a ra-
piatórios, mas já como derivação do desejo mimético; zão que está por trás de sua irracionalidade, em um
o sacrifício, portanto, aparece como a segunda derivação grau que nunca foi possível antes". 1
na cadeia: desejo mimético - processo vitimário - vitima-
ção sacrificial (e penso que o fato de que G. Bucher o qua- Parece evidente, pois, que, para Girard, o desejo
lifique de "pan-sacrificialista" possa soar a Girard como mimético está na raiz do processo vitimário. Mas de r e-
um mal entendido a mais). pente o leitor se confunde um pouco com citações como
as seguintes:
Tudo isto, de fato, é bastante complicado, mas tem
"Eu quis mostrar (na primeira parte de O bode expia-
muíto que ver com o r eclamo de rigor científico de Girard tório) que a mitologia pode ser lida, como reflexão a
e com seu propósito de entregar-nos uma hipótese a níveÍ
teórico geral. Lamenta, com freqüên cia, a incapacida.de de 5 HAMERTONKELLY, R. G. (ed.). Violent Origins. Wa lter Burk ert René
Girarei and Jonatban Z. Sm' tb oo Ritual Kllling aod Cultural ForrÍlation.
Staoford , S taoford University Press. 1987 (ci ado adiante p or seu titulo) p. 111.
4. OO:MENACH , J . M . L 'E xpansion. 17 abril 1978; e:tistem dive::sos ou tros 6. Violent Origins. p . 121. '
artigos de Domenach sob re G!rard ; ver b ib liogra(ia citada no n . 1. 7 Tbid.. p . 128.

100 101
partir do ponto de vista do bode expiatório, indepen- pensamento que pensa de fato mais do que consegue pen·
dentemente da teoria do desejo mimético. Isto não sig- sar conceptualmente é na verdade um desejo. . . e o verda-
nifica que o desejo mimético tenha perdido sua impor- deiro desejo é aquele que não se dá por satisfeito por
tância para mim". s nada do mais desejável que constate ao seu redor . . . As ve-
zes me dá a impressão de que o afã de Girard por entregar-
"A concepção de bode expiatório inconsciente, à qual nos uma teoria geral revela, depois de tudo, uma saudável
eu recorro, não é uma noção redutiva. É um princípio dimensão utópica, ou seja, um anelo de horizontes huma-
dinâmico de gênese e desenvolvimento que pode cpera.r nizadores ilimitados, adiante dos limites sempre sacrificiais
como ferramenta hermenêutica". 9 de qualquer institucionalidade, como um elemento extrema-
"Tenho sido levado a desenvolver cada vez mais uma mente valioso que dinamiza seu pensamento. Se ele estives·
teoria geral da religião centrada sobre o sacrifício ou, se de acordo com isso, poderíamos poupar inúteis polêmi-
melhor, sobre uma hipótese a respeito da origem do cas sobre formulações conceptuais especüicas e passar a
sacrifício. Quando me ocupei do assunto, inicialmente discutir o que realmente interessa: a difícil tradução em
não tinha tal intenção. Estou totalmente convencido de prática histórica da tensão entre horizontes utópicos radi-
que teorias gerais são vistas com grande suspeita atual- cais, alimentados pela fé, e a longa marcha através das
mente, e eu poderia ainda compartilhar de tal suspeita instituições, que jamais devem ser utopizadas (ainda que
se minha própria pesquisa não tivesse dado uma irresis- infelizmente utopizáveis), mas sempre requeridas para fa-
tível guinada para o tipo de empreendimento do qual zer história.
aprendi a desconfiar. Reagi fortemen te contra muitos O problema r eal é como enfrentar a violência tão real
aspectos do estruturalismo, mas em alguns aspectos na evolução humana e no mundo atual. Sabe-se que Girard
continuo influenciado por ele. Creio que é possível recu- foi invocado, freqüentemente, pelos defensores da não vio-
perar a dimensão genética sem perder o aspecto positi- lência radical, como postura e como forma de atuação n o
vo do estruturalismo. 10 mundo conflitivo que nos cerca. Esse profetismo radical diz
muito sobre as inegáveis exigências da dimensão utópica da
Há, obviamente, insinuações maliciosas implicadas na fé cristã. A pergunta é se é suficiente como guia para a
maneira como estou ordenando o texto. Se o próprio Girard ação concreta num mundo onde predominam as lógicas da
se permite -distanciar-se, às vezes, de sua hipótese sobre exclusão e onde nos falta muito para entender por que tais
o desejo mimético, por que não poderiam fazê lo aqueles lógicas sacrificiais conseguem apresentar-se como solução
que preferem recolher, seletivamente, outros fragmentos de messiânica para o bem de todos, ainda que as vítimas sacri-
seu pensamento? Significa isso necessariamente um aten- ficadas sejam tantas.
tado contra o propósito mais profundo de todo seu esfor- A violência desempenha um papel evidente em todas as
ço intelectual? E em que consistiria esse propósito que
formas de opressão que se apóiam na simulação ideológica
orienta Girard, em última instância, se não é demasiada
de promessas de vida. Aqueles que tomam posição ao lado
ousadia propor a coisa nesses termos, como algo que apon-
das incontáveis vitimas, em seu esforço d3 revelar a violên-
ta além do aparato conceptual em que expressa seu p sn-
s;:;.rnento? cia real e resistir a seu dinamismo inexorável, muitas vezes
não conseguem sair da espiral da violência e sua contravio-
Vem à minha memória um pensamento, que creio haver lência fica presa à mesma lógica. Girard, às vezes, parece
lido em algum escrito de E. Lévinas, sem possibilidade de escamotear a atualidade crucial da violência mediante a
localizar a citação neste momento, o que, além disso, não insistência sobre o poder antimitico dos textos bíblicos,
importa tanto para meu objetivo. A idéia é a seguinte: um ilegitimadores de qualquer processo vitimário. Certamente
pode ser de grande ajuda para nós sua busca de mecanis-
8 . lbid., p . 143. mos que pervertem, há muito tempo, a reciprocidade huma-
9 I b ld ., p . 106. na. Ao trabalhar basicamente com textos, e muito menos
10. l bid., p. 108 .

1Õ2 103
com processos sociais, seu esforço teórico aponta, sempre pensamento de Girard. Mesmo quando não se omitem alu-
de novo, para as "origens". sões, mais ou menos extensas, ao restante do pensamento
"Minha contribuição pessoal consiste apenas em dizer de Girard, tem-se a impressão de que o que se valoriza é,
que chegou o tempo de estender esse tipo de interpre- acima de tudo, a inovação exegética. ·
tação ao núcleo sólido da religião primitiva". 11
Na medida em que isto é assim, urge r efletir sobre
muitas coisas das quais este fat o é um sintoma claro. Pri-
Não faltam, nos textos de Girard, incursões iluminado- meiramente, há que destacar a força expressiva admirável
ras em episódios históricos contemporâneos. Mas geralmen- e o tom quase passional das abundantes formulações girar-
te é para recolher materiais ilustrativos da teoria, mais dianas sobre este ponto. Girard torna-se apoditico, totalmen-
como retrospectiva sobre o que ficou ocultado no passado, te seguro do que afirma. E acrescenta que se trata de uma
e para mostrar em que consiste e como opera secretamen- "questão puramente científica".
te a dinâmica desveladora/reveladora da mensagem biblica.
Penso não ser injusto ao suspeitar que Girard não põe mui- "As escrituras judeu-cristãs deveriam ser consideradas
ta fé em teorias sobre o poder ou em aproximações teóri- como a primeira revelação complet a do poder estrutu-
cas m ais diretas acerca da violência. Sua preferência se ral da vitimação em religiões pagãs, e a questão de seu
dirige, se não me engano, às "raízes" ocultas. valor antropológico pode e deve ser examinado como
uma questão puramente científica .. . " 13
"A violência é a continuação do desejo mimético por
meios violentos. A violência não desempenha um papel
primordial em minha perspectiva; somente a mimese o Por que não o haviam visto os exegetas, com esta ênfa-
faz. Este ponto é freqüentemente entendido mal. A pa- se precisa, com raras exceções? Girard evita, em grande
lavra 'violência' no título Violência e o Sagrado pode parte, a polêmica com os especialistas em Bíblia. Este me
ser parcialmente responsável pela má interpretação". 12 parece, contudo, um ponto dificilmente contornável para os
biblistas girardianos. Com respeito aos peritos no estudo
comparativo das religiões, que descobriram tantas seme-
lhanças entre a Bíblia e os mitos das mais diferentes cultu-
2 . A leitura não-sacrificial da Bíblia
ras, Girard tem uma explicação apressada: sendo positivis-
- impactos, implicações tas, não viram a real diferença . ..
Não cabe dúvida de que a ressonância do pensamento "Somente um pensador observou a dJerença crucial e
de Girard entre t eólogos e biblistas vai aumentando, sobre- seu nome é Friedrich Nietzsche. ( . . . ) Acho que Nietz-
tudo, desde a publicação de Des choses cachées . . . em 1978, sche foi levado à loucura pela insentatez de posicionar-
reforçada por seus livros posteriores. Tratando-se de um se deliberadamente ao lado da violência e da ilusão
assunto bastante conhecido entre nós (suponho, inclusive,
que outros participantes deste diálogo com Girard se apro- da mitologia contra a não-violência e veracidade da ati·
tude biblica". 14
fundarão neste aspecto), limitar-me-ei a umas poucas obser-
vações. Omito, pois, por completo, qualquer intento de expo-
sição sobre em que consiste a referida leitura não-sacrificial. Em segundo lugar, o salto entusiasta de muitos para a
leitura não-sacrificial da Bíblia evoca a espessura das mura-
a) A maioria dos que acolhem, no todo ou em parte, lhas da prisão: como sair do aprisionamento de praticamen-
esta fração importante do pensamento girardiano, trabalh'l. te todo o cristianismo ocidental, há tantos séculos enredado
de forma claramente seletiva com respeito ao conjunto do em teorias sacrificiais (melhor: vitimárias) da redenção?

11. lbid ., p . 114. 13. lbid., p . 117.


12 . lbld., p . 123. 14. Ibid., p . 117.

104 105
-- --

o mal estar vem de muito longe, mas explodiu agudamente e) Com exceção do julgamento duro à Carta aos He-
em muitas publicações recentes. 15 breus, e alusões mais fragmentárias ao corpus propriamen-
te paulino, ficamos à espera de uma leitura girardiana de
b) As soteriologias sacrificiais estão longe de haver São Paulo. Percebe-se, hoje, o ressurgimento da antiga tática
esgot ado sua virulência. Não somente os fundamentalistas de jogar Paulo (o "recriador do mito sacrificial da reden-
evangelicals se mantêm irredutíveis neste ponto, chegando ção", como é retratado às vezes) contra Jesus (com quem,
a horripilantes invocações do Armagedon sacrificial como sim, pode-se mais facilmente estar de acordo) . Chama a mi-
"final feliz"; não há como ignorar a penetração da "estéti- nha atenção a maneira como autores judeus, utilizando in-
ca sacrificial" ou "teodramática" de Hans Urs von Baltba- clusive interpretações bíblicas de Girard, exacerbam essa
sar muito além das fr onteiras do grupo Communio, para atitude a.'1tipaulina. 19
dentro dos assim chamados Movimentos de Leigos, na Igre-
ja Católica 16; o crucicentrismo da religiosidade popular tem f) Os que assumem com entusiasmo a leitura girardia-
características de persistência que requerem uma análise na da Bíblia (partes dela) têm aue acomortá-la ao que Girard
detalhada de seus muitos ingredientes históricos. sustenta com respeito ao cristianismo histórico. É , talvez,
o susto maior que levam os que pret Pndem cooptá lo; o
c ) Já está em andamento um complexo processo de susto é, obviamente, maior para os c~tólicos propensos a
cooptação da leitura não sacrificial da morte de Jesus na
cruz. Uma de suas vertentes é, ao que parece, a revitaliza- inocentar a Tradição e o Magisti>rio Eclesiástico. Vejamos
ção da teologia do "Mediador", que nada teria de sacrificial como o expõe um cristólogo "renovador":
enquanto "mediação descendente'', mas que conseguiria "Ora, a cristandade tem estado fundamentada. durante
integrar, sem maiores problemas, o sacrifício, a expiação, quinze ou vinte séculos, sobre a leitura sacrificial e
a satisfação - já não vicária, senão reparadora - isto é, se alinha neste sentido, como todas as culturas, ' sob.,.e
a satisfação retraduzida como solidariedade, na "mediação
formas mitológicas, produzidas pelo mecanismo fund<i-
ascendente", culminando tudo numa "teologia da reconci-
liação". 17 dor' (Girard). Aos olhos de R. Girard, essa interoreta-
ção é o mais colossal mal-entendido da história". 20
d) O bloqueio da maior parte da teologia cristã no
interior de soteriologias s acrificiais implicará, provavelmen- Não há dúvida de que, para G' ard. o cristianism'l h' s-
te, numa intensa utilização de aproximações indiretas, po- t órico, pelo menos em sua vertentP. mais predominante,
rém mais transitáveis, até um desbloqueio, a saber, o deso- fundamenta·se em um grosseiro mal-entendido. Este mal-
cultamento dos sacrificialismos incluidos em teorias econô- entendido revela ao mesmo tempo a imootência da huma-
micas e políticas. is nidade para compreender sua Própria violência e assum·-1a
responsavelmente. Uma vez introduzida esta "peça interme-
15 É muito vasta a bibliogra!ia que re!lete este nuil·estar. Alguns exemplos:
POHIZR, J. Ou!111d je dls Dicu. Paris, Seuil, 1977; MOREL, G. Questions diária", a revelacão resulta, de fa to. em mais Revelacão (e
d r.mnm~. 3: Jésus dans la théorie ch.rétienne. Paris, Aubier, 1977; LEI TES, N. Girard, mais crente?) . Os textos que subvertiam toda a
L~ t'!cu·:re de Jésus, mo: en 1!3 scl11t? Embarras des théologiens et déplacements
<le la que~tion. Paris, Cerf, 1982; VARONE, P. Ce Dieu ccnsé aimer la sou/france.
Paris, Cerf, 1984; SCHWAGER, R . B raucmn toir einen Suendenbock? Gewalt
ordem sacrificial funcionam, paradoxalmente, como re-fun-
und Erloesung in den b'. b lischen Schri!ten. Muenchen, K oesel, 1979. E, certa· dantes de um sacrificialismo cultural. Girard reconhece
r.l-mte, p,rande parte dos es::ritos de teólogos sobre R . Girard.
i:; Fol multo s\ntomiit'co que H . U. rnn Balthasar caracterizasse a Leonardo plenamente a persistência de um caráter persecutório no
Eoff corno teólogo que "iá não é cristã o", referindo se especificamente ao livro
Paixão de Cristo - Pa' xão do m undo, quando o Va ticano o silenciava p or causa cristianismo histórico e argumenta Gi.le sua base consiste
de outro livro. Sobre a vhllênc'a de H. U. von B&JthaEar contra Girard e na definição sacrificial da redenção mediante uma suposta
Schwsger, cf. I nternat . K athol. Zeitsch.r., 1980, IC4s.
17 Ver, por examplo. SESEÜUÊ. B. Jésus-Ch.rist, l 'unique Médiateur. Paris,
D=lée, 1!188: Ecbre G!rard, p. 38s. 257s.
18 Penso que há analog!a com o "maior avanço" de criticas e opções de 19 TIERNEY , P. Tii.e High.est Altar. Tii.e Storu of H uman Sacrifice. New
setores da hlernrQuia eclesiástica quando se pronuncia sobre matéria sócio· York/ etc., Penini'n, 1989, esp. caps. 18 a 21: •ACCOSY. H., T ii.e il!uth.maker:
polit!ce.: é mais fácil avençar em assuntos do •mundo" que no que se refere Paul and the l rrtJention o/ Ch.ristianity. New York, Harper & Rcw, l9C6.
às estruturas "'.nternas". 20. SESBOtlÉ, B., op. cit., p . 39.

106 107
1

3 . Fermento evangélico na modernidade


vitimação expiatória d e Jesus na cruz. Com esse mal-enten-
- ou "inversão do sacrifício"?
dido sacrificial, o processo de méconnaissance (desconheci-
mento) pôde perdurar no Ocidente e a revelação ficou, de
alguma forma, adiada. Segundo Girard, Jesus chegou inclu-
sive a prever a leitura sacrificial que se faria de sua morte,
' Nos escritos de Girard há abundantes pistas interpre-
tativas sobre aspectos do mundo m oderno. Não saberia
e a denunciou por antecipação. encaixá-las em um conjunto para m elhor testar sua coerên-
1 cia e suas falhas. De qualquer modo, p enso que é um assun-
Junto com esse julgamento sem complacências do cris- to que nos interessa muito neste diálogo. Assumo a temeri-
tianismo histórico, Girard nos surpreende com um arranjo dade de arriscar algumas provocações sobre aspectos que
quase mágico: a difusão da mensagem desmitologizadora do me parecem um tan to m arginalizados (pelo m enos é
evangelho até as extremidades da Terra jamais teria aconte- esta minha impressão superficial) nos textos de Girard, até
cido se não houvesse existido sua distorção sacrificial. agora.

"O papel do cristianismo histórico pode ser concebido É certo que Girard se refere, com certa freqüência, às
no seio de uma história escatológica governada pelo novas formas de violência e crueldade nos t empos moder-
nos. Não admite sequer que s e h aja dado já, n a modernida-
texto evangélico, história que se dirige infalivelmente
de, uma cabal ruptura epistemológica entre o saber mítico
para o esclarecimento universal da violência humana, e o saber científico, ou seja, n ão esquece que a mitização é
porém por meios que são de uma paciência infinita, os um recurso muito em uso n a modernidade. Mas há, sobre-
únicos, aliás, que seriam capazes de assegurar à verda- tudo, duas coisas das quais sinto falta nas incursões de
de subversiva e explosiva contida dentro deste texto Girard acerca do moderno: ele não parece querer d eter-
uma difusão e uma compreensão, se não universais, ao se na elaboração d e uma análise das novas formas d e
menos tão vastas quanto possível". 21 méconnaissance (desconhecimen to) e mascaramento oculta-
dor da realidade, e da legitimação ideoló1P.ca da violência
E o que dizer sobre o destino fatal das incontáveis na modernidade; e, conseqüentem en te, tampouco nos fala
' muito da "inversão do sacrifício" (conceito a ser esclareci·
vitimas, "necessárias", uma vez que se haja embarcado nes-
sa verdadeira visão de um destino "necessário": a "necessá- do, m ais abaixo), na modernidade.
ria" distorção da mensagem evangélica para uma versão Parece predominar, em Girard, uma confiança muito
sacrificial que tornasse possível sua difusão? E por que acent uada no dinamismo r evelador d o ferm ento evangélico
não aplicar o mesmo caráter de "necessidade" a qualquer na er a moderna. 22 Chega a estabelecer , às vezes, uma espé-
sacrificialismo, incluído o do sistema de crenças idolátricas cie de tese: em virtude da persistente fermentação da cultu-
11
que é o pensamento econômico neoliberal de nossos dias? ra ocidental pelo poder antimítico d o evangelho, t eríamos
li chegado a uma capacidade muito pecu liar e única d e reler
Decididamente, por mais simpática que nos seja a leitu- os relatos míticos, que ocultam violências vitimadoras,
ra não-sacrificial que Girard faz da Bíblia, restam muitas caracterizando-os como relatos evident :;mente persecutórios.
coisas para discutir sobre sua postergação histórica. De
qualquer forma, Girard não inventou um problema, o do "Cer tamente concordo que o sacr :fício, numa socieda-
' de que o pratica, não é absolutamen te questionado ou
peso insuportável de muita coisa na herança do cristianis-
o é em um sentido diferente de n 'lsso questionam en to.
mo histórico. Se a "solução" que nos entrega parece dema- Nosso questionamento é único, e ~ll3. singularidade re-
siadamente frágil, o problema não fica eliminado. Dar razão flete a singularidade de nossa sociedade com respeito
da esperança significa, portanto, reorganizá-la. ao sacrifício. Em minha opinião, n ão é meramente pro-
21 . GIRARD, R . Des choses cachées depuis la /ondation d u monde. Paris,
Grasset, 1978, p. 275; e!. cf. também ORSINI, Chr., op. cit., p . 116s. 22 CC. ORSINI, Chr., op. cit., "L'érúgmc de I::i m oderrútl", p. 95s.

108 109

,I
H

vável mas certo que esta singularidade determina ambos crescimento econom1co (que se pretende que seja, simples-
os tipos de questões que podemos fazer e o tipo de mente, sinônimo de desenvolvimento social), da "racionali-
r espostas que podemos dar. dade" - aparentemente tão branda - dos "ajustes estru-
turais" à lógica do mer cado etc.?
l, "Não hesito em reconhecer como válido que o sentido
moderno de bode expiatório ( ... ) é uma interpretação Como é sabido, este tipo de questionamento das lógicas
pós-medieval da vitimação que tem origem n o Cristia- sacrificiais dos sistemas de dominação está agudamente
nismo Ocidental. Ao contrário, eu enfatizo fortemente presente na reflexão teológica latino-americana. Isto tem
este 'etnocentrismo'. Pode provocar distorções em nos- uma relação direta com a forte insistência da teologia da
sa perspectiva que nós não percebemos ou que percebe- libertação em seu caráter não-sacrificial e não-idolátrico.
1
mos só tardiamente, m as com r espeito à r evelação da Esta caract eristica esteve presente, nesta vertente teológi-
vitimação não-percebida, deve ser vista como uma forç3. ca, desde o seu começo. Alguns teólogos denunciaram tam-
única. Somos a única sociedade, eu sinto, na qual se bém, com muita força, o caráter sacrificial das tendências
torna poss ível perceber uma relação entre a questão martirológicas em determinados grupos de "esquerda". O
1 do sacrifício e a questão da vitimação arbitrária. crescente aprofundamento em temas relacionados com o
binômio economia e teologia, nos anos recentes, conduziu a
"Nosso ponto de vista é provavelmente o único, cultu- um delineamento cada vez mais explicito do sacrificialismo
ral e historicamente, a p artir do qual o sacrifício pode presente em nossa realidade. 24
tornar-se o problema que é para nós. ( ... ) Por que
praticamente todas as sociedades anteriores às nossas Girard provavelmente tem toda a razão ao detectar um:i.
consideram alguma forma de imolação sacrificial como acentuada debilitação da outrora tão evidente metamorfose
uma parte normal da cultura? Por que o sacrifício é das vitimas (num segundo momento, depois de vitimadas)
tão r epugnante para nós?" 23 em entidades sagradas e benéficas. Desde a Idade Média,
constata Girard, a sublimação sacral das vítimas tende a
A esta altura faz-se necessário p erguntar: de que tipo desaparecer, ainda que a mitologização delas reapareça, às
ou conceit o de sacrifício nos está falando? Somente do vezes, na modernidade.
ritual killing, em um sentido restritivo da noç:ão de "imola·
ção sHcrificial"? Estariam, portanto, excluídas do conceito "O poder que transfigura a vítima perseguida em
de sacrifício, aplicável à modernidade, todas aquelas vitimas um ser mitológico está ainda ativo em nosso mundo,
incontáveis que são sacrificadas, por exclusão silenciosa ou mas tem-se enfraquecido continuamente, mesmo quan-
1

descaradamente articulada, já que não há lugar para elas do muit o forte, durante a Idade Média, por exemplo.
no interior da lógica de poder (político, econômico etc.) ? "Durante os últimos séculos passados, a crescente capa-
Houve ou não uma profunda metamorfose do sacrifício, na cidade do Ocidente, e depois do mundo inteiro, para
modernidade, que nos obriga a recolocar, de uma forma decifrar o enigma da transfiguração do bode expiató-
completamente nova, a relação entre o sacrifício de vidas rio ( .. . ) deve corresponder às fases mais avançadas
humanas e sua - muitas vezes imperceptível ou até desse processo de enfraquecimento". 25
inexistente - ritualização, no sentido tradicional de rito
s acralizado? Porém Girard concentra seu esforço, acima de tudo, na
Girard é muito sensível ao caráter sacrificial de ideolo- extensã-0 de sua crítica à mitologia propriamente dita e, por
gias totalitárias monstruosas, no que m e associo completa- derivação, a tudo aquilo, no mundo moderno, onde desco-
mente à sua postura. Mas, que dizer, com terminologia bre evidências de mitologização. E que sucede quando não
sacrificial, das vidas sacrificadas em aras do progresso, do
24 . Cf. publicações d e HTh"KELAMMERT, F .; ASSMA.NN, H .; SANTA ANA,
23 . Viole11t Origins, p. 109. J .; MO SUNG, Jung; VIDALES, R .. entre ou tros.
25. Violent Origins, p . 115.

110 111
há mitologização das vítimas, no sentido que ele confere mo invert ido, identificando os verdadeiros agressores e as
ao termo? vítimas inocentes que, em alguns poucos casos, passam a
figurar, então, como "heróis e mártires" (a maioria ficará
"O enfraquecimento da força que gera mitologia é exa- no plll'o anonimato) . n
t2·:1e;1tc proporcional ao fortalecimento de nossa ca-
pack:::.de interpretativa com vistas à mesma mitologia. Num segundo sentido, entendo por "metamorfose do
Poci _mos identificar a força antimitológica que age no sacrifício" a exclusão cotidianizada, o sacrifício invisibiliza-
mQ.ldO moderno? Estou convencido de que podemos, do, próprio das formas da "violência institucionalizada"
e isto é o asp-ecto mais controvertido em minha visão, mediante as estruturas de opressão (as "estruturas perver-
m uito embora, em muitas circunstâncias, seja o mais s as" ou "estruturas de pecado" sobre as quais fala a Solli-
óbvio". 26 citudo rei socialis de João Paulo II) . As vítimas, ainda que
sejam milhões de seres humanos sacrificados, nem sequer
Não há dúvida que o suposto poder desmitologizador são notícia para os meios de comunicação; os sacrificado-
da modernidade se transforma, de fato, em questão aguda- res tampouco aparecem como tais (a não ser n a análise a
mente controversa a partir do momento em que ampliemos partir da p erspectiva das vitimas); tudo transcorre em um
(ou abandonemos) o conceito de mitologização - substi- processo "normal", em obediência a "imperativos da racio-
tuindo-o, t alvez, pelo de fetichismo ocultador da realidade nalidade econômica" (ou out ra), silenciosamente, sem som-
- e nos ponhamos a analisar o que venho chamando bra de vitimação ritualizada. As vítimas simplesmente caem
"metamorfose do sacrifício". Que se pretende dizer com este como lixo da história, sobram, estão fora da lógica societal
enunciado? Darei, com a máxima brevidade, alguns elemen- implantada e serenamente admitida. Já não há traumatismo
tos para avançar na discussão. porque o dark event foi largamente invisibilizado. Por isso,
fica sumamente difícil fazer crer que o ato trágico esteja
Ent endo p or "metamorfose do sacrifício'', num primei- realmente sucedendo; mas muito mais difícil ainda, fazer
ro sentido, a "inversão do sacrifício", ou seja, a inversão ver que se trata de vítimas sacrificadas a ídolos cruéis. O
dos papéis no processo vitimário. Em nome de um "dever silêncio e a insensibilidade predominam. Quem pensaria em
sagrado" (em nome da expansão da fé, da civilização, da sacralizar tais vítimas? Perderam inclusive a dignidade de
implantação da ordem etc.) o verdadeiro sacrificador (agres- ser uma ameaça . Mas basta que as vitimas ainda não total-
sor) demoniza suas vítimas, apresenta-as como obstáculo à mente mortas se organizem para reclamar seus direitos para
sua nobre missão e, por conseqüência, transforma-as em que voltem a ser demonizadas, vistas como perigo; e os
ameaça, ou seja, em agress oras. O agressor p assa a enten- vitimadores não perderão tempo para re-sacralizar sua mis·
der-se como vítima, e as vítimas r eais são apresentadas são, benéfica ao bem comum.
como sacrificadoras. Qualquer pretexto (são judeus, são
canibais, são bruxas, são bárbaros) servirá para esta inver- Cabe destacar um ponto-chave nesse tipo de sacrificialis-
são do sacrifício. Os sacrificados não somente perdem sua mo no interior de uma história "naturalizada" de opressões:
inocência, deixando de ser vítimas inocentes, mas também a quase total eliminação do nexo de reciprocidade entre viti-
qualquer processo de sacralização das vítimas - ou seja, mas e vitimadores, despersonalizados, em boa parte, no inte-
a mitologização do sacrificado no sent ido que Girara privi- rior das estruturas de dominação. Tudo transcorre como se
legia em sua noção tradicional do sacrifício: sacrum-facer e os sacrificadores já não tivessem nada a ver com s uas vfti·
- fica terminantemente bloqueado. Os verdadeiros sacrifi- mas, que lhes são quase inteiramente alheias. O Norte ainda
cadores acabam por ser mitologizados (sacralizados) , e não necessita do Sul? Estamos muito distantes do tempo em que
suas vítimas. Só a difícil transformação da ideologia d os dois macacos lutavam pela mesma banana. É provável que
supostos benfeitor es em crônica de perseguições consegue,
às vezes _ com o passar do tempo, re-inverter o sacrificial.is- TI . Sobre a demonização das vitimas há abundante literatura , por exem plo:
DEL1.Jr.1EAU, J . Ln peur en Occldent. Pa ris, Fa yard, 1970 (tem tradução para
português e espanhol); BESTAR, J . e CONTRERAS, J . Bárbaros, paganos, salooges
- 25 Ibi d., p . 115. y primitiTJos. Barcelona, Barcanova, 1987 (blb llogr.).

112 113
ainda restem mtútos argumentos para demonstrar ~ue o de ser se não pudéssemos supor uma compreensão mínLrna
processo simétrico do necessitar-se reciprocam:nte esta lon- do que Christine Orsini chama "a lógica do universo
ge de haver terminado. Mas tais argumentos. nao costumam girardiano".
cheaar a ser vivenciáveis para o pólo dormnado_r . Quando
"'
os opressores se fecham em seu mund o e creem~ firmemente
. Não poucos já puseram e continuam pondo "a traba-
em s eu sistema de crenças - a economia é un: sistema de lhar" a hipótese central de Girard em áreas tão distintas
crenças, costuma insistir J. K. Galbraith - os_n~o-~ere~, que como economia, psicologia, termodinâmica, biofísica, análi-
ficaram de fora, têm, quando mtúto, uma e~stei:ic1a disu:_n- se de sistemas, teorias de cognição, inteligência artificial, e,
te e dimintúda. Sobra mtúto pouco para ntualizar, .ª na? naturalmente, antropologia. Qual é a ponte girardiana entre
ser em momentos de crise. Pergunto: quando a ~ec1p:oc~­ áreas tão diferenciadas? Fique, primeiramente, exclaracido
dade baixou a níveis tão tênues, que se fez do deseJO mrme- que a ponte, na medida em se foi estabelecendo, não foi
tico? ou funciona agora .só por um lado, como novo nome propriamente estendida por Girard, a não ser a nível de
da "inveja igualitária" dos oprimidos? 2B sua proposta, para muitos demasiadamente reducionista,
de um princípio explicativo único, extremamente simples
Partindo da ótica do Mundo dos Dois Terços, d o "rever- em sua concepção básica, mas capaz de engendrar o com-
so da história" - onde se encontram os teólo~os da _libei:- plexo e, em seu seio, capaz de gerar formas variadas e
tação - 0 tema do sacrificialismo na modermdade~ mclw- inclusive contrapostas: o desejo mimético entendido como
do 0 presente, se inscreve, gro~so mo~, nos parametros princípio generativo e estruturante da cultura e do social.
conceituais que acabo d e enunciar. Arrisco-me a acrescen- No mais, Girard, que se declara pouco conhecedor de mode-
tar: de pouco valerá a superação do mal-est~ dec?rrente de los formais, passou quase a expectante espectador, sem
imaaens sadomasoqtústas de Deus e da sotenologia; porque intervir mtúto, à espera dos resultados.
a e~ sacrificial que mais importa eliminar ~ tan~ te~ a
ver com a de Jesus é a dos oprimidos; para isto e preciso No plano das ciências sociais, incluindo entre elas a
saber que a vigência do sacrifício d: vid_as humanas no economia, assistimos à forte crise e a um certo declinío
mundo de boje é tão clamorosa que nao há nenhum exage- das duas formas de teorização colocadas nos dois extremos:
ro em afirmar (com Leonardo Boff) que vivemos "em um por um lado, os modelos analíticos que supõem a ordem
mundo de crucificados". como já-dada, concentrando se na detecção de suas estrutu-
ras às quais se at1ibtú praticamente uma função de sujei-
tos (os estruturalismos de diferente índole na medida em
4 . A ponte gn:ardiana para sistemas auto-organizativos que arrazoam sobre uma espécie de história sem sujeito);
por outro lado, os historicismos demasiadamente voluntaris-
Para teólogos, interessados primordialmente na leitura tas, que atribuem uma quase onipotência à intencionalida-
não-sacrificial da Bíblia que Girard lhes propõe, pode de dos sujeitos.
soar bastante estranho que existam mtútos admiradores de
Em economia, wn bom exemplo dos dois extremos
Girard que não somente não se entusiasmam por esta parte,
seria a contraposição extremada de Mercado e Planifica-
mas a criticam abertamente ou, pelo menos, a colocam entre
ção; por um lado, a concepção de um Mercado irrestri-
parênteses, interessando-se quase exclusivamente p ela hipó-
to, ao qual se atribtú um automatismo e uma sabedoria
tese morfogenética do social que Girard elaborou em sua
superior que dispensa completamente a intencionalidade
teoria sobre o desejo mimético. Como não nos detivemos
dos agentes econômicos; por outro, uma Planificação tão
especificamente em expô-la (supondo-a razoavelmente c_o-
omnímoda que, supondo a mais irrestlita convergência
nhecida), esta pequena seção ficaria privada de sua razao
das intenções de todos em objetivos decididos sem sua
28. Cf. FERNANDEZ DE LA MOR ~ . G. L!I invidill i gual itaria. Barcelo na,
participação, dispensa quaisquer incentivos materiais a-0
Planeta, 1984 . interesse dos indivíduos.

114 115

a
Sabemos que a entrada em crise não se dá de forma dade não exclui a contingência, o determinismo conduz
igual nas duas pontas. A retórica neoliberal, que, segundo a essa 'faísca da sorte' que vai transformar a violência
J. K. Galbraith, tem uma perversa "qualidad~ ~eol~gica" ~u~ recíproca em violência unânime contra um ou alguns.
paira acima de qualquer necessidade de verü1caçao emp1n- É precisamente este paradoxo: 'o papel organizador da
ca, concebe efetivamente o Mercado como . um progr.a~a contingência', que aproxima a teoria construída por Gi-
que se re-programa a si mesmo. Enquanto. isto, o, socialis- rard de 'modelos' formais elaborados pelas ciências 'du-
mo "real" entrou em crise aparentemente irrevers1vel. Seu ras': termodinâmica e biofísica. A passagem do sim·
futuro aponta para uma necessária conjugação entre Mer- ples ao complexo é um antigo problema que recebe
cado e Planificação. hoje novas soluções. Essas soluções estão em 'ressonân-
Girard teria elaborado, dizem alguns, um modelo que cia' com a hipótese proposta por Girard para fazer sur-
gir o sentido do não-sentido ou a ordem da desordem.
propicia, por um lado, a emergência da respo~abilização,
isto é, da liberdade assumida; e, por outro, s~blinha forte- ( ... ) a antropologia girardiana se prende ao movimento
mente uma certa autonomia objetiva do social. Nas pala- epistemológico explorado por I. Stengers e I. Prigogine
em A Nova Aliança. Estudando a lógica do universo
vras de Dumouchel: girardiano, vê-se aparecer 'um novo paradigma' cujas
"O conhecimento da regulação mimética está ligado a similitudes com as ferramentas conceptuais forjadas
uma restauração da liberdade em um senti~~ muito pelas ciências da natureza e da vida são muito mais
particular porque ele põe fim às ciênci~ sociaIS como impressionantes que, nesse caso, não houve 'importa-
nós as entendemos habitualmente, quer dizer, ele dá W? ção fraudulenta' de um campo de saber a outro, nem
saber que liga de modo continuo as ações ~divid~a;' 'circulação de conceitos', mas, como diz Dupuy, com
e os esfeitos coletivos, um saber responsabilizante . uma bela palavra: 'ressonância'". JO

Mas é no minimo, ambígua a linguagem que predomina


nos esfor~os de máxima aproximação d8:s ci_ências s~ci~is 5. Questões sobre a teoria girardiana do desejo
às naturais. Quando se afirma que o social e uma cnaçao
da qual ninguém é verdadeiramente sujeito, ?orque nin- Dada a presença de um psicanalista no grupo de latino-
guém tem o controle dela por tratar-se de um sIStema auto- americanos reunidos para um diálogo com René Girard,
organizativo, é necessário estar mui~ consciente de que se fico na expectativa de incursões no tema desta seção. Cabe-
faz referência unicamente ao que nao pode nem deve ser me unicamente assinalar que já existem "ressonâncias"
submetido a planos rígidos e intencionais. Sem esse cuida- apreciáveis do pensamento girardiano em reflexões psicoló-
do não há que estranhar que uma reconstrução quase me- gicas. 31 Acrescento "centrações" e citações.
cru'.uca do social, com base num princípio morfogenétic?
concebido como quase automático, seja acusada de ant1- Girard não parece preocupar-se com uma teoria do
históríca ou anuladora da história, como já sucedeu com desejo, no sentido mais usual em psicologia; nem muito
menos com uma teoria do prazer. A questão é, pois, se o
Girard. desejo mimético - o único do qual Girard realmente se
Já que o objetivo desta seção é, antes de tudo, infor-
mativo, e não há espaço para deter-se em aprofundame_?tos, 30. ORSINI , Chr., op. cit. , p . 163; ver PRI GOGIJ\"E , I. e STENGERS, I .
La. nouvefle alliance. M étamorphose de ta science. Gallimard. 1979; Entre le
valha uma citação bastante longa como complementaçao: temps et l ' éternité. Paris, FByard, 1988; DUPUY, J . P . Ordres et Désordres.
Enauête rur un nouveau p aradigme. Paris, S euil , 1982; EI.Sl"~. P ./KORTH.
"Para Girard a continuidade e a ruptura não se ex- D ,/Sl'IEHL. H . Du steigst nie zweimal i n denselben Pluss. D'.e Grenzen der
cluem mas ~e implicam, se contêm, como, no jogo
wissenschaftllchen Erkenntnis. Relnbek b ei H amburg, Rowohlt, 1988; GLEICK,
J . Caos. A criação de uma nova ciência. Rio de Janeiro. Campus. 1990. (Nos
dais últimos nata-se claramente uma tendência a conceber também o social
miméÚco, a diferença e a identidade ( . .. ) . A n ecessi- como autom atism o auto-organizativo e a u togenerativo; o que, em economia, está
exacerbado em F . H ayek, L . van Mil:es e o neoliberais ).
31. Sobretudo OUGHOURLIAN, J. M. Un mime nommé désir. Paris, Grasset ,
29 . •4pud ORSINI, Chr., op. cit., p. 168. 1981; e!. ORSINI, Cbr., op. cit., 178-183.

116 117
"I

ocupa - recobre as exigências de uma adequada teoria do neoclássicos, por exemplo Jevons e Walras, colocam n o
desejo e do p razer. centro de sua definição do homo oeconomicus, este estra-
"Eu reservo a palavra 'desejo' para o que acontece em nhíssimo ser fictício que deixou de ter necessidades para
relação a apetites e n ecessidades quando eles se conta- ter somente desejos e p referências (wants, em lugar de
li, needs)?
minam com imitação ou mesmo quando totalmente des-
,,
1
locados p or ela. Para mim, conseqüentemente, desejo
propriamente dito não t em uma base biológica especi-
fica e pode ser estudado 'fenomenologicamente'. ti . Há convergência
com respeito ao '·lugar epistemológico"?
"Para estudiosos modernos do desejo, a principal ques-
tão tem sido: qual é o verdadeiro objeto do desejo Por "lugar epistemológico" entendo a localização na
i humano? Para Freud, por exemplo, nosso •verdadeiro' história concreta dos homens, n ossos contemporâneos, a
objeto é sempre nossa mãe. Do ponto de vista miméti- partir da qual se instaura uma reflexão, independente dos
co, isto n ão faz sentido. O desejo não pode ser definido temas tratados. Quando se fala em convergência, ou não,
nem por seu objeto nem por qualquer disposição do neste ponto, não se trata de cobrar conteúdos temáticos
sujeito. O homem é a criatura que não sabe o que idênticos ou exemplificações ilustrativas do pensamento que
desejar, e volta-se para o outro a fim de decidir-se. Nós aludam ao mesmo tipo de problemas.
desejamos o que outros desejam porque nós imitamos
seus desejos". 32 Nota-se em Girard, além do saudável horizonte utópico
que tanto aprecio em seu pensamento, uma preocupação
Depois de alguns exemplos shakespeareanos, onde os muito forte com o impasse real ao qual a humanidade
p ersonagens copiam mutuamente seus desejos, Girard nos chegou, onde parecem restar nada mais que duas alterna-
brinda com a definição de Shakespeare sobre erotic mimi- tivas: ou superamos finalmente o sacrificialismo destrui·
cry: "Escolher o amor com os olhos do outro", e acrescen- dor, ou a humanidade se destruirá.
ta decididamente:
" É necessário que os homens se reconciliem para sem-
"Esta é a condição trágica e cômica por excelência, e pre sem intermediários sacrificiais ou que eles s e resig-
eu considero isto de maior ajuda para nossa compreen- nem à extinção próxima da humanidade". 35
são do comportamento humano e da psique humana
que todas as modernas teorias do desejo juntas". 33 Isto tem tantas implicações concretas que nossas con-
vergências óbvias, a partir desse "lugar epistemológico" ain-
Francamente, assim não se avança muito. Tratando da bastante genérico, são seguramente abundantes. É n eces·
precisamente do mimetismo, no mundo animal e humano, sário deter, com suma urgência, aspectos-chaves da auto-
outros autores souberam valorizar muito mais a corporali- destruição da humanidade que já está em marcha, há muito
dade e o conteúdo lúdico da mimese. 34 Por sorte há textos tempo. E não se trata, é claro, unicamente da hecatombe
mais atentos à complexidade do desejo, em Girard . nuclear, que continua ameaçante, apesar de uma certa dis-
Ir Sem entrar mais profundamente no tema, resta-me uma tensão, ou da salvaguarda ecológica do planeta - ambos
inquietude: feita a exclusão da base biológica e da referên- temas imperiosos. Trata-se também do t ema da justiça, no
cia objetal, na noção girardiana do desejo, não está quase trinômio "justiça, paz e integridade da criação". A humani-
imediatamente à mão a teoria do desejo que os economistas dade se está destruindo em sua qualidade humana pela
incrível insensibilidade ante os constantes sacrifícios de
:l2 V'ro•ent Or'nins, p . 122. vidas humanas imoladas no ingente processo de idolatria
33. Ibid., p. 122. em que vivemos. fdolos sã-0 os deuses da opressão.
34. Ver o cap. ~obre "Mimetismo" em: \'lEISZ, G . El juego vivie11te. Mé-
xico, Siglo XXI, 1986, p. 21-43; e os abundantes exemplos de mimetismo
lúdico entre os inctlgenas, p. 72-118.
35. GIRARD, R. Des choses cachées . . . , p . 160.

118 119
1
Quisera que dialogássemos sobre detalhes deste grave
assunto e que o fizéssemos, inclusive, em linguagem girar-
diana, quer dizer: não-sacrificial. Quando insisto na necessi-
dade de somar convergências no "lugar epistemológico", a
partir do qual definimos nossos compromissos e nossas SACRALIZAÇÕES E SACRIFÍCIOS
prioridades, é porque não creio muito na força de um pen- NAS PRÁTICAS HUMANAS
samento que não encontra, no interior de sua própria arti-
culação conceitual, o caminho de sua operacionalização na Julio de Santa Ana
história concreta dos homens. Pior se nem sequer se preo-
cupasse com isso. Penso que o ideário girardiano tem mui-
tas pontes para a história concreta do mundo atual.
O pior que nos poderia acontecer consistiria em que, de-
pois de algumas convergências sumamente abstratas e gené-
ricas, resvalássemos para um intercâmbio inócuo, perdidos
em divergências de detalhe. Posso imaginar-me (por já ha-
vê-lo experimentado) algo ainda pior, mas estou confiante Muitos analistas que procuram compreender a evolu- r.
de que não sucederá neste diálogo nosso com Girard: como ção dos processos econômicos mundiais durante os últimos ;.J
quando existem divergências de fundo, mas sem debate vinte cinco anos surpreendem-se frente a uma realidade (
confrontativo, por absoluta falta de terreno comum, ou
seja, como diriam os peritos em informática, por falta de
interface. Frustrações deste tipo sucedem quando os mun-
P8:radoxal. Por um lado percebem-se sinais evidentes de uma
crISe_quase generalizada: depois de um lapso de um quarto ~'/Jº
de sec~o, _durante o qua} houve um crescimento sustenta-
1 l \e
.. "'<
dos valorativos são tão diferentes que não chegam sequer a d~ ~o~ mdice? de produçao de riqueza bastante altos, desde 1 il~ ~
entrechocar-se porque não se reconhecem. Com René Girard, o rmc10 da decada de 70 começaram a aparecer indicadores ) ,V'
por certo, esta frustração está excluída de antemão. de uma tendência de esgotamento dos sistemas vigentes ri' '.J /
tanto entre as nações capitalistas como entre a:s socialistas. J .J. )
Tradução do espanhol por Começaram a baixar as taxas percentuais de crescimento, Vtr
Mércio Nilt on Menegbetti uma vez que se observaram fortes inclinações inflacionárias.
Pouco a pouco se instaurou uma situação de desordem
financeira no âmbito internacional que não pode ser domi-
nada apesar de esforços conjugados dos grandes países
capitalistas. As taxas de desemprego aumentaram, tanto
nas nações ricas, como nas pobres (sobretudo nestas últi-
mas, à medida que passava o tempo). Os países subdesen-
volvidos endividaram-se mais do que já estavam, e a partir
do . fim da década mencionada o peso das taxas de juro
aplicadas a estes empréstimos fez com que a dívida destas
nações crescesse desmesuradamente, inibindo o seu cresci-
mento e criando uma clara orientação para o empobreci-
mento na Africa, Asia, América Latina e no Pacüico.
Algumas exceções existem em relação a esta tendência
(menciona-se sobretudo o caso dos "tigres asiáticos": Coréia
do Sul, Taiwan, Hong-Kong e Cingapura). Todos reconhecem
que, nestes países, o crescimento do produto nacional bruto

120 121
foi conseguido apesar do alto custo social, que resultou no
crescimento do número de p obres e deteriorou a qualidade acaba de ver, em compensação, os capitalistas estão tendo
grandes ganhos.
de vida dos mesmos. Temos então que o sistema capitalis-
ta vigente não cria riqueza para todos. Em compensação, De ~ato, as grandes empresas transnacionais chegam a
ajuda a aumentar a riqueza dos que já a têm. As diferen- cons:~ grandes luc:os, concentrando cada vez mais poder
ças sociais se acentuam , assim como cresce o fosso que econ~~co e de decisao. Nos países desenvolvidos, isto tem
separa os países desenvolvidos dos subdesenvolvidos. Estes, permitido uma certa distribuição de renda, até o ponto em
t•
U \ i
- ~ para tentar salvar sua desesp erada situação, adotam ao pé
da letra as políticas de ajuste requeridas pelo Fundo Mone-
tário Internacional (FMI) e pelo Banco Mundial, tal como
) 1 ocorreu na Bolívia e no Chile, e o resultado é o crescimento
-.11 1 da pobreza nos setores populares. São estes os que têm
que populações que há cinqüenta anos atrás conviviam
cotidianamente em luta contra as causas geradoras de po-
breza, hoje, experimentam níveis de bem-estar outrora ini-
magináveis. Trata-se evidentemente de um fenômeno redu-
zido e limitado aos países mais ricos. De fato, entre os
( ~ que agüentar o peso da crise. Diminui assim a qual:dade mais pobres a situação tem-se deteriorado sobretudo na
de vida destes, que ainda p assam a subsidiar os ricos, para última~ dé?ada. C~ntudo, apesar desta flagr~te contradição,
que estes não percam oportunidades relacionadas ao seu a opulenc1a dos ncos opera como uma ilusão. Pensa~e por-
nível de consumo. Aí se dá que o ajuste de vida requerido tanto que o que ocorre com a minoria pode vir a ocorrer
significa desajuste de vida para as maiorias. com a maioria, caso todos os paises do mundo se ajustem
ao mesmo modelo.
l O crescimento da pobreza dos setores populares é geral·
t ~ i) mente acompanhado pela produção de lucros para as elas· Como já se viu, isto não ocorre. Não obstante, a ilusão
v i)~ ses opulentas, tanto nos paises ricos, como nos países
1 j l pobres. Trata-se, no geral, de lucros financeiros que permi·
~·· . ~ tem a estes setores abastados manter um nível de vida
permanece e dá lugar a um louvor quase unânime à econo-
mia que afirma a necessidade de liberar o m ercado de
qualquer ingerência reguladora. Expressão de uma ideolo-
; I' G •J\ ostensivo. Comprova-se assim o que Marx assinalou no pri- gia, de um sistema de crenças não comprovadas, que cor-
\ meiro volume de O capital: no capitalismo avançado a ten- res~on~e perfeitamente aos interesses dos mais ricos e que
dência é de que a economia se transforme em crematística, se rmpoe com a força do sentido comum 2 entre os setores
em acumulacão de dinheiro, que não pode nem deve ser inferiores.
confundida éom a produção de riquezas. 1 Ou seja, a eco-
nomia, entendida como um conjunto de normas que permi- . I~luentes produtores de opinião pública, tanto no he-
tem manter e reproduzir a vida na casa (óilws, que pode m1sfér10 Norte como no Sul, afirmam sem discutir sobre
também ser entendido como "o espaço habitado", como o assunto, que o único caminho possível para favorecer um
denota a palavra grega oikouméne), deixa de ser tal e con- futuro humano viável é aquele que dá um lugar privilegia-
verte-se em uma disciplina de administração, destinada do ao "livre mercado" na organização econômica. Os que
sobretudo à gestão financeira. pretendem dar uma opinião diferente são considerados
como irrealistas e merecedores de comiseração. E sta t en-
r:.. Entende-se por parte dos tecnocratas a serviço desta dência se acen tua quando se levam em conta as transfor- b
r ,,t ' (t endência que o espaço privilegiado para permitir o ~va?ço m~ões que estão sendo estimuladas na organização econô·
da mesma é o mercado, sobretudo, quando este está livre
r nuca de alguns países socialistas. Isto permite ao coro que
i.il de qualquer poder regulador. "Livre mercado" para que entoa louvores à economia do "mercado livre" afirmar
) funcione a livre empresa é a palavra de ordem que hoje que os fatos corroboram suas afirmações. A orientação
;resssoa fortemente entre os grandes poderes capitalistas. seguida pela China (pelo menos desde 1976, até os aconteci-
;) Porque (e aí aparece o paradoxo), embora o capitalismo mentos dos fins de maio de 1989, quando as tropas do
<> demonstre sinais de esgotamento, de acordo com o que se exército invadiram o espaço da praça de Tian An Men,
1 MARX, Karl. El Cti]Jital. México , Ed. P.C.E ., vol. I , p . 169, nota. ?· Entendic;lo ~gun?.o o pensamento de GRAMSCI, A. Cf. ll materialismo
stonco e la filosofra a1 B. Croce. Roma, Editori Riuruti, 1971, esp. p . 139-140.
122
123
ocupada por estudantes) de abertura ao capital internac:io- regimes que têm um discurso que parece responder positi-
nal com 0 objetivo de "modernizar " seu aparato produtivo vamente aos interesses das classes mais populares. Entre-
e a gestão do mesmo, foi um aspecto importante do _argu- tanto, quando os portadores destes argumentos chegam ao
mento freqüentemente manejado em favor da necessidade poder, deixam de lado as palavras e assumem comporta-
de um mercado "livre". A ele se acrescentou, desde 1985, o mentos que combinam claramente com os interesses capi-
encaminhamento que a liderança do atual Partido Comu- talístas. Isso é o que tem ocorrido, por exemplo, em muitos
nista da URSS quer impor a este país. Esta tendência tam· países latino-americanos e do Caribe, assim como também
bém prevalece na Hungria, Polônia, Checoslov~q~a, .Ale~­ nas Filipinas. Diferente do populismo clássico (predominan-
nha Oriental etc. É verdade que existem res1stencias evi- te na América Latina até o fim dos anos 50), que proclama-
dentes a ela em outros países socialistas. Entretanto, o êxi- va a necessidade da justiça social e tinha algo a distribuir
to econômico não caracteriza a gestão dos mes~os . Ele~en­ entre os setores populares, este "neopopulismo" já não
to que, usado com astúcia por aqueles . que def1:11em a ideo- tem nada que r epartir. Apresenta-se com uma mensagem
logia da livre empresa, permite dar amda ma1~ força aos favorável à distribuição eqüitativa da renda nacional, porém,
argumentos que impõem esta ideologia ao sentido comum atua de tal maneira que favorece claramente a burguesia
i1' de vastos setores populares. transnacional. Neste tempo, em muitos países do Terceiro
~ Frente a estes fatos, experimenta-se, por um lado, a Mundo, esta tendência (que compreende muitas variantes,
~ \ necessidade de que se produzam transformações importan- é verdade) chegou a converter-se em um dos maiores defen-
D tes a rúvel de economia mundial, assim como também em sores da ideologia do mercado livre.

~
J.J cada pais. Mudanças internacionais e domésticas surgem Este sistema de idéias proclama a autonomia desse
\ ;s
1 como imperativos, sobretudo se se pretende que auleco:r;omdia espaço, onde nós, os seres humanos, nos encontramos para .. <' ',
~ seja algo mais do que gestão orientada a acuro açao e ofere~er nossa produç~o, consumir e fazer circular as mer- 1 }· f,I. ).,
,~o dinheiro. O objetivo da prática econômica é a produção de cadonas. Acontece entao que o mercado deixa de ser uma 'i
.rf' . riqueza para todos, e não só para as minorias. No caso realidade humana, fabricada e adminístrada por seres hu- i) lt~
' J atual, e no caso de se manterem as condições vigentes, é manos. As leis do mercado, que não são independentes para 't) ?
)' evidente que tal coisa não pode ocorrer. Daí a ênfase por aqueles que participam do m esmo, chegam a ser transcen- !'"~ ~
\..parte de alguns para que seja introduzida uma nova ordem ,., dentes, passam por um processo de sacralização sociológica./ ·
~stas,
econômica internacional (NOEI) 3 que, necessariamente, su- 1
põe uma reformulação correspondente de economias nacio- J além de s erem colocadas em um rúvel superior, .;:

~
nais. Esta proposta, no momento, não foi mais do que um ~ r:J chegam a ser intocáveis, como as leis da natureza. Passam j~ 1
desejo piedoso. Porque - esta é a outr a cara da mesma J. a ser ~ tabu, que_ não i:iode ser quebrado. Quem desobe· ;L ' f}
moeda - se percebe um bloqueio profundo, uma resistên- ~ , decer as mesmas e considerado como um ser irracional, Y;
L ~ demente e perigoso. É como o "endemoniado" dos tempos "'
cia feroz para que esta proposta não se encaminhe. Isto
V antigos. Deste modo, aqueles que concentram o poder eco- .J., ,;
naturalmente acompanha as posições ideológicas daqueles
que definem a livre empresa. Mas, o que chama a atenção
, t' f nô~ico envolvem em nuven~ de mistério seus privilégios. d~O i :)..
:> '\~.) Criam fantasmas, onde só existe uma realidade banal. Esta:? f'
é que passa a ser na prática a orientação dominante de V-\ contudo, é transformada (por exercício desta sacralização ~-! 1)
W. ,L\ sociológica) num princípio de vida. }
/ 0
Esta ideologia, que alguns têm chamado de "economi- r.J ~
3. Esta medida, aprornda em principio pela 6' Reunião da ASsembléia Ge.~
da ONU Cabril-maio de l!l74), seguindo as direr.rizes propostas pela reuruao '\\ -,
dos países não-alinhados que aconteceu em Argel c~ete~b~o de 1 ~3), nunca
foi Implementada. As resistências pro'!êm d~s países . ~p1tabslas maIS desenvol· ~ cista" 4, tem-se constituído na chave hermenêutica incons-
vides sobretudo os Estados Unidos, Remo Urudo, Republlca F-ederal ~ Alemanha,
Japão e out rrui Cabe também assinalar que os países socialistas nno p restaram ciente que permite a muitos produzir sentido na história,
grande atenção · a e5sa proposta. Não obsta"'.lte .. e!a foi o eixo central do informe tanto a nível social, como pessoal. As leis do mercado (e
da comissão In ernacional Independente presidida por Willy Brandt sobce a
situação do pr oces...co de desenvolvimento internacional .da segunda parte d?s
anos setenta. Cf. North-So11th: A Programe for Sunaral. Londres. P engum
Bcoks L d., 1980. 4. Cf. o artigo de J ULIEN . Claude. "ÉconomJci~me" em Le Monde Diplo·
matique. Paris, fevereiro de IS88, n. 407. ·

124 125
isto foi claramente exposto por Adam Smith em suas comerciais). Esta atração e este cuidado correspondem à
obras) s além de serem misteriosas (como uma "mão invi- sacralização do mercado. Esta operação chega, inclusive, a
sível") são pr ovidenciais (posto que promovem um fim mais cativar grupos e entidades religiosas que calculam suas
alto que os que procuravam os seres humanos moti~ados possibilidades futuras a partir dos rendimentos que podem
por seus interesses particulares) . Interpreta: a re~lidade chegar a obter através de sua participação nos seus mais
serundo esta chave significa, por um lado, o rmperativo de diversos níveis.
co~preender o mundo e as relações sociais (e até pessoais) v .~
como um campo de trocas, onde~ o ~álculo_ é m9:1s importan- ri '-'li\ Desde que o m ercado, acompanhado p elas atividades
te que a _generosidade; a prudenc1a, ma1s vali~sa ~o que ~~ dos bancos e das bolsas de valores, chegou a ser importante
o dom. Antes de chegar à decisão que guia a açao, e neces- J ~
para a economia ocidental, algo que começou a partir dos
fins do s éc. XI e começo do séc. XII, surgiu a burguesia
sário calcular, avaliar os prós e contras, para ver ~e. pode- rf'
mos sempre ganhar alguma coisa, tirar algum benef1_c~o que (}
atisfaça_ n_ossos interesses e que por sua vez legitrme a
aixão com a qual nos empenhamos a favor de certas cau- 1-1
sas. O que significa então que "causas perdidas" não _valem
~ i como classe social. Submetida pela nobreza, procurou um
espaço livre para suas atividades. Por isso sua necessidade
de "cartas de franquia" para seus burgos, de "letr as" que
garantissem sua "liberdade econômica" frente aos senhores
~ a pena, ainda que, deste modo, se decida sobre ~ _vida de feudais . Esta prática comercial incipiente foi criando uma
y \ ~ muitos seres humanos. Daí que, para c.e rtos teoncos da nova racionalidade, que, pouco a pouco, chegou também a
J
J'-'
·>
~
., ~

,
conomia burguesa (e por certo alguns rmportantes como
von Hayek, Friedmann, etc.), a economia nada tem a ve~
com_ valores tais como justiça e eq~idade. Se o que está
em jogo é a liberdade, só conta a liberdade de empresa,
que, no entender destes ideólogos, nunca pode ser subme-
ser a lógica da teologia. 7 Não deve estranhar a ninguém
que, nos dias de hoje, as mesmas instituições religiosas que
argumentam em favor da solidariedade com os pobres
mantenham seus programas e burocracias com os benefí-
cios que recebem pelos investin1entos que seus administra-
1~
f r ').1
/,
}~
tida à liberdade dos seres humanos. Mas, segundo sua
concepção, a liberdade dos homens e das mulheres deve
ser entendida em função da liberdade da empresa que
1

'':>~ r}'
dores realizam no mercado.
A contradição das instituições e comurüdades r eligiosas
~l.> / ,~ promovem. , . I" ,;..:j;i F não faz mais do que refletir o paradoxo que apontamos
no início. Indica a existência de uma incoerência, de uma

~
~~i Isto nos permite compreender como a nnstica desen- I v? profunda ambigilidade que reclama a sua superação. Trata.-
·l volvida em torno do mercado, além de_envolvê-lo em nuvens90 J.-0<: se de uma necessidade de conversão para salvar a vida da
misteriosas que pretendem transformar sua materialidade \ j /' maioria dos pobres das nossas sociedades, que no plano
em uma entidade transcendente e autônoma, o transforma O e-•'/ religioso permite compreender a necessidade de uma tare-
em foco atraente. O mercado ch~ga ~ ser assim a realidade ,fl oi \f.'~, fa de reconstrução teológica. A mesma, já iniciada, está
social mais importante e a racionalidade burgu~a ~ue o r ~ ~ sendo levada avante pelos teólogos da Africa, América Lati-
administra constitui-se na ló_?ica do p~o~resso social e mc:_u- na, Asia e Caril:;e, assim como também por teólogos de
sive da vida religiosa. 6 Se nao se participa no mercado, nao minorias oprimidas nos países ocidentais e por outros, que
se tem identidade. Simplesmente não se é. Daí a fascinação têm a convicção de que sua fé tem que ser vivida de
que exerce o seu espaço e, ao mesmo tempo, o cuidado que maneira solidária com as vítimas dos sistemas injustos
se tem que ter para não ser esmagado por "sua" força (e de dominação. 8
pelos interesses que dominam e controlam os mecanismos
7. HlNKELAMMERT, Franz. demonstrou muito bem esse processo em seu
5 . SIDTH, Adam. La r:q11e<a de las nacio11u. :l.1éxico, Publicaciones Cruz, Bitigo "Economia y teologia. Las leyes <lei mercado y la re", em Pasos 2'
1972 . . - 1 época. n . 23. San José de Costa Rica. DEI , maio junho de 1989; cr. csp. p . ' 3-4.
6 Essn concepção foi cla.'1l1Den te dasenvolvida por WEB ER, Ma:;::, pnnc1pa · 8. Entre outros, veja-se, de VAN LEEUVEN, Arendt. De nach• ""'' Jzc!
m e:ite em sua obra pó>tuma: Economia y socieclnd r2 \'Ois.). Mbico. Ed. Kapitaal. Door het OenDoud oon de economie naar de bronen van de burgerliji<e
P .C.E., 1969. re/igie.

126 127
Sobre a vinculação entre teologia e economia
Para o ser humano da alta Idade Média Ocidental, o
supramundano era a referência necessária para o conheci-
Já se indicou como foi surgindo no Ocidente, desde o mento, dai a importância do pensamento poético, mágico.
começo do segundo milênio depois de Cristo, esta nova A percepção do supramundano através da simbologia do
racionalidade que caracteriza a burguesia. Trata-se d e uma concreto era o que realmente importava, sobretudo quan-
lógica que procura dominar o tempo e o espaço. Foi pene· do se acreditava (tal qual como fizeram os senhores daque-
rando pouco a pouco nos despenhadeiros do p ensamento la época) que esta esfera da transcendência exigia impera-
ocidental antes dominado por tendências idealist as e uni- tivamente que se preservasse a ordem de dominação que
C>vY ~ersais de origem neoplatônica, que fez ?ª alegori~ s ua prevalecia neste mundo.
<" chave privilegiada para. abrir a compreensao da realldade.
l.-9 Antes que a realidade burguesa se manifestasse, o pensa- Para a burguesia emergente do começo do séc. XII,
d r \. /
~ 1 ~ menta europeu ocidental entendia que mais importante que era imprescindível acabar com este estado de coisas. Este
• · a realidade do "mundo" era o transmundo, aquela esfera requeria que o sistema ideológico que legitimava esta situa-
~,:- .1;'.) de transcendência cuja imutabilidade era a referência cons- ção fosse transformado, tanto a nível institucional, como
D ,.,l' tante para assegurar a ordem que prevaleceu durante o pe- de rep~esentações e valores. O pensamento burguês, já na
1, ríodo feudal. sua origem, demonstrou uma profunda desconfiança frente
à teologia. Afinal de contas, ela era um dos pilares sobre
Tudo isto foi questionado pela burguesia desde o seu os quais se assentava o sistema de opressão imposto pelos
surgimento na história. No período em que a igreja de senhores feudais. No plano institucional, a situação come-
Roma, orientada pela reforma de Cluny, passa a controlar çou a mudar quando, a partir do mosteiro de Cluny, na
este mundo feudal, os senhores, motivados ideologicamente Borgonha, setores da Ordem Beneditina projetaram uma
pelos pontüices de Cluny e seus sucessores, saem da Euro- reforma que procurou tanto a transformação da sociedade
pa Ocidental para participar das cruzadas. Servos da gleba como da Igreja. Não se deve esquecer que o monge Hilde-
e plebeus aproveitaram a ocasião propícia para escapar dos brando, conhecido pelo nome de Gregório VII, quando foi
feudos e ter maior liberdade. Onde? Os melhores lugares eleito pontífice romano, era filho de humildes camponeses .
foram aqueles burgos nas encruzilhadas de caminhos ou Teve a consciência de que era necessário enfrentar o poder
nas pequenas cidades episcopais, as quais o florescente feudal com o poder da Igreja. A par tir do triunfo de Cluny,
comércio produzido pelos contatos que os cruzados estabe- não se apela tanto ao supramundano. A alegoria deixa de
leceram no Oriente, reabrindo rotas que por séculos haviam ser gradativamente a chave para entender a realidade.
permanecido fechadas, foi transformando rapidamente em
Foi surgindo uma nova r acionalidade. Faltavam vários

rj
cidades de feiras. A cidade burguesa surgiu e se desenvol-
veu com o mercado capitalista incipiente. Esta é a sua
grande diferença com a pólis antiga, assim como também
com outros tipos de cidades em outras culturas e sistemas . •
séculos para se chegar ao momento da Aufkliirung, quando
Kant define a sabedoria como o momento em que o ser
humano chega a ser maior de idade, livre de toda a tutela,
r
econômicos. realmente autônomo. 9 Não obstante, os sinais indicadores \. ' <i~
de que o caminho a ser percorrido pela burguesia levava pif '
O espaço dos burgos, controlado pela burguesia, ávida ~ até aí, já estavam presentes na história. Havia que se ter- '
de autonomia, viu nascer e se desenvolver aquela racionali- ~ .
nunar com o supramund ano e conqms . ta r o mund o para j<)' 11
dade já mencionada. Ela é a raiz do espírit o moderno, con- poder fazer do mesmo um grande mercado. O instrumento
\
i) 1 /

traposto ao antigo. Este, que foi preservado com avareza em!c{''~ escolhido para esta tarefa foi a razão instrumental. Primei-1 ~ /' ~
mosteiros e claustros, remetia constantemente ao trans- ramente ela foi compreendida através de pautas aristoteil· . , ~'
mundo etéreo. A teologia só podia penetrar nele guiada ~~ cas e a partir do século XVI, de acordo com as orienta- '
pela revelação, percebida espiritualmente através de mani- o.J
festações alegóricas.
~
lÍ' 9. KANT, lmmanuel. ~Beantwortung D
der Frage: Was ist Aufkliirung• ("Res· } (\
posta à pergunta: o que é iluminismo"), em Texto! sc/etos. Petrópolis, Vozes,
1985. 2• ed. , p . 101·117.

128 ' 129


)
111,.;;!
~
formados pela mesma razão, o mesmo Logos. Neste caso, a CV \e.
7 . ó ções de Arquimedes, aplicada à física por Galileu e ao domi- analogia fidei é completada e ampliada pela analogia ent~ ·s. ('"'
,,P~
:'1
l
(c_,.i<-' nio da psique humana por Descartes. 1º Mas, antes de se
4J{ ,
avançar neste caminho, é necessário perceber que a burgue-
sia, ao relegar a alegoria como chave de compreensão da
,t. realidade, introduziu a analogia em seu lugar. Isto é parti-
Entre o ser de Deus, o ser das coísas e os indivíduos huma-
nos há um elemento que permite r econhecer uma corres (}l.,J
pondência essencial: é a razão. Ist o é o que aparece clar
mente através das cinco vias para provar a existência
Deus, expostas por S. Tomás de Aquino, tanto na Summa
..vv
~~J.
-J t
[t'('~ .) cularmente importante para a teologia cristã que, desde o
r• séc. XIII, em geral, tem tentado compreender a realidade ~•Thooliogica, como na Summa contra gentiles. O Aquinate " µ t'l"
de Deus e o que a Ele corresponde, de maneira análoga. foi o primeiro teólogo (e filósofo) a perceber a necessidade ~
'Nda autonomia da razão, o que não quer d:.zer autonomi
Como já se disse, quem crê, entra na esfera de Deus humana (coisa que será salientada pelo pensamento moder-
por graça da revelação. Frente a isto, o ser humano res- no a partir do fim do séc. XVIII). Realmente, já no séc.
ponde com fé (ou não responde). Quem crê, passa então a XIII, a burguesia começa a experimentar a necessidade de
viver com Deus. Seja o que for que se queira fazer, enten- um instrumento que lhe permitisse aclarar o espaço do
de-se que não se pode atuar e pensar arbitrariamente. Em numinoso, fazendo desaparecer o mistério de Deus, tanto
sua vida impõe-se uma referência fundamental: o ser de quanto fosse possível, e no séc. XIV, com Guilherme de
Deus, tal qual como se tem conhecido por revelação. Disto Ockham à frente, os sucessores dos aristotélicos encarrega-
há um registro nos livros sagrados: a tradição das igrejas ram-se de ampliar as possibilidades da razão. I
e das comunidades religiosas, a partir da qual os crentes ,Ri.~
têm recursos para enfrentar os dive,rsos problemas que vão Entretanto, este continuou amarrado a um mundo supe- ~ .('
surgindo cotidianamente e que desafiam a vivência de sua rior, segundo o princípio da analo gia entis. Do mesmo tra- J' \·
fé. Na maior parte das vezes os crentes consideram paradig- tava a religião. Quando Lutero e logo Calvino 12 acabaram Qli ,~
máticas, tanto no plano existencial, como intelectual ou com as prerrogativas da vida religiosa ao impulsionar as
institucional, estas testemunhas da revelação que passam a reformas eclesiásticas do séc. XVI, de alguma maneira ten-
ter então uma dimensão normativa, onde a fé não só é acei- taram também dar maior autonomia ao mundo secular,
ta, como também é legitima. Neste caso, a fé não imagina onde a burguesia se apoiava constantemente. Isto ocorreu
coisas a partir do que experimenta, quer dizer que não de vários modos, enfatizando que a vocação cristã não é
entende a realidade imediata como símbolo, e sim como uma vocação "religiosa" que separa o crente do mundo,
materialidade, como coisa que tende a ser cada vez mais mas que o convoca a fazer deste espaço privilegiado um
concreta. Todavia, não reconhece a autonomia deste mundo lugar de testemunho de sua fé. O cristão demonstra ser
concreto. Para orientar-se nele, a fé entende que há uma cristão pelos bons resultados de seus empreendimentos.
analogia entre a realidade iluminada pela revelação (a do Isto é a garantía de sua eleição para a salvação. Mas, por
sagrado religioso, mistério inefável) 11 e a materialidade outro lado, os reformadores protestantes do séc. XVI enfa-
cotidiana. Trata-se neste caso da analiogia f'idei. tizaram que as faltas cometidas pelos seres humanos signi-
ficavam uma ruptura total entre Deus e as criaturas. Por-
Desde o séc. XII, na história da teologia cristã, pode-se tanto, não há lugar para uma analogia entis. A razão, consi-
perceber uma orientação importante. Os aristotélicos (Pedro derada por Lutero como uma prostituta, não constitui o
Lombarda, Alberto Magno), culminando com S. Tomás de vinculo de união entre o ser de Deus e o ser das criaturas.
Aquino, entendem que há um oontinuum entre o mundo de O que significou, conseqüentemente, que a ordem natural
D:ms e o dos seres humanos". A graça não destrói a nature- (considerada caida em virtude da obra do pecado) deixou
za, mas sim a aperfeiçoa. "Quer dizer, Deus não se opõe
ao mundo em que vivemos, sobretudo porque ambos estão 12 . CALVINO, João. I nstituição cristã.. Rijswijk (H olanda) , Fundação Edi~o·
rial de IJteratu._ra Reformada, 1968, vol. I , livro m , cap. X, sec. 6, p. 555-556.
Deve-se ~r atwção especial ao trabalho d e WEBER, Max. Ética protestante
10. Cf. meu artigo: "Teologia y m odernidad", em Pa.sos 2• época n 6. y el esplritu de! capitalismo. Primeira ed. em alemão: 1904-1905. e sobretudo
11 Sobre o sagrado sociológico, cf. de DURKHEIM 'Dnile. Lés iormes às Prudltes notas de rodapé.
élémentaires de la vie religieuse. Paris, P UF, l • ed ., 1912. 'sobre o sagrado r eli·
gioso, cf . OTI'O, Rudoli. Le Sacré . Paris, Payot, 1949.
131
130
1oJ>I J
\ l'I ,} l: ,,.,

de estar vinculada diretamente ao mundo transcendente. religião, com uma nova "Torá" (as leis do mercado), que f,<-,~ ~ l•:
Quanto muito, para orientar-se na order:et do cotidiano, o correspondem à sacralização sociológica operada sobre o ' '
crente protestante pode referir-se às relações que estabele- mesmo. -l
ce com Deus. O modo de relacionar-se com Deus Trindade d\) .1rt•·
(Pai e Filho e Espirita Santo = amor filial, amor redentor Sem dúvida, para alguns pensadores modernos (sejam
expiatório e amor comunhão) é indicador de como pode porta-vozes da burguesia ou do proletariado) não há dúvi-
relacionar-se com outros seres humanos e o resto da cria- da de que há relação entre economia e religião (que impli-
ção. Pode-se perceber então, num outro passo a mais, o ca, imediatamente, em teologia). É o caso de Marx, que
emprego da analogia pela razão teológica: trata-se agora de no primeiro volume de O capital, ao dedicar todo um capi-
uma anaLogia r elLltionis, coisa que inclusive pode ser apre· tulo da primeira parte ao "fetichismo da mercadoria", assi-
ciada no pensamento de teólogos modernos quase contem- nala com agudez que a economia burguesa tem um caráter
porâneos como Karl Barth e Paul Tillich. eminentemente religioso. is Prolongando o seu pensamento,
é possível dizer que a prática humana que tem o mercado
O pensamento analógico (seja qual for o elemento que como sagrado é a religião prática da burguesia. Weber, que
o qualifica) estabelece constantemente correspondências de alguma maneira segue a Marx em sua análise (por cer-
entre as coisas e os seres. E é particularmente propício to muito mais detalhada que a do socialista alemão), tam-
para a razão teológica, que permanentemente busca refle- bém chegou a compreender a relação que existe entre eco-
tir sobre as relações que se estabelecem entre o infinito e nomia e teologia, como se prova lendo tanto a Ética protes-
o finito, o eterno e o temporal, o material e o espiritual. tante e o espírito do capitalismo 16, como Eoonomia e socie-
Por isso, em teologia não é difícil pensar na relação entre o dade. 17 Em ambas as obras fica claro que a racionalidade
seu campo de reflexão e as realidades econômicas. Seja religiosa é a do mercado: "do ut des". 18 Ne~te ponto, a eru-
através da analogia fidei ou da analogia entis ou da analo- dição de Weber não pode comparar-se com a fineza de
gia relationis, os teólogos conectam as realidades munda- análise de Marx, que compreende muito melhor a dinâmica
nas com a realidade de Deus. da dialética religiosa. i9 Pierre Bourdieu segue na mesma
linha 20, assim como Robert Bellah, sociólogo norte-ameri-
Mas isto é precisamente o que contradiz a razão moder- cano da religião, que tanto tem contribuido para aclarar o
na. A partir do Renascimento e sobretudo desde o começo tema da "religião civil norte-americana." 21 Em todos estes
do séc. XVII, o pensamento moderno foi progressivamen- casos a analogia é o caminho de aproximação entre o cam-
te se distanciando do plano de vida dos seres terrenos da po religioso e o econômico, entre teologia e economia, entre
órbita de Deus. Este foi gradualmente levado até o f~do práticas simbólicas e econômicas.
da paisagem, como assinala Ortega y Gasset 13, até o ponto
em que deixa de ser pessoa transcendente para estar situa- A teoria econômica burguesa rejeita esta aproximação.
do no mercado. Para o pensamento econômico, Deus não Entende que os conceitos e palavras empregadas, apesar
existe. Melhor dizendo, não há lugar para o Deus da Bíblia. de serem os mesmos, têm significados diferentes. Por rucem-
A divindade (não reconhecida explicitamente, mas aceita plo, os valores dos quais falam as religiões não podem ser
implicitamente) é o mistério que r ega o merc:ido, traru;- confundidos com o valor econômico, ainda que a economia
for.nando este ca..-r1po da ti~e ·3sses contraditórios no me- fale da "redenção" da dívida. Neste contexto seria conve-
lhor dos mundos possíveis. 14 Desenvolve-se assim uma nova
15. MARX, Karl , ºJ'· cit .. vol. I , p . 79-93.
ll . _ORTEGA _ Y GASSET , Jo~. Obras Completas, vol. IL Madri, Re vista 16. Op. clt.
de Occ1.dente , 19o7 (4~ ed.), p. 493-496. 17. Op. cit.
• 14 SMITH, .i:- Adam. Treaty on Moral Sentiments, livro IV, sec. I , p . lOs: 18. Jb:tt., vol. I . p. 344.
Those who attamed fortune, when they expected i t are led by an invisihle 19. MARX, Karl. "Contribución a la Critica a la Filosofia dei Derecho de
hand to make nearly the same d.lstributlon of the 'necessaries of life, wh;ch Regei" , em ASSMANN, Hugo e REYES MA.TE. Karl Marr-Prlcdrich Engels: Sobre
would have ~een made, had th~ earth_ beo..n_ dlvlded lnto equal portions among /!l r eligi6n. Salamanca, Slgueme, 1974, vol. I , p . 93-106.
ali lts lnhabitants, and thus w1thout tntend.ng it wilhout k110Wing it advanoe 20. BOURDIEU, Pierre, op. clt.
the interest o/ the soeiet y, and aUord means to 'lhe mul'iplication ot' specjes• 21. BELLAH, Robert. Broken Covmant. American Civil Religion in Time o/
Primeira ed. Londres. 1759. Grifo nosso. · Triai. NoYa Iorque, The Seabury Press. 1075; e!. esp. p . 61·89.

132 133
~ente que os economistas burgueses analisassem as posi-
çoes de alguns psicanalistas, para quem a multivocidade
de alguns termos não passa desapercebida. J acques Lacan Isto fica mais claro, quando, deixando de lado as teo-
cost~ava dizer que "a linguagem traduz e trai", indican- rias dos economistas burgueses, projetamos nossa atenção
do assim o us o de certos vocábulos, que, embora se pre- sobre os mesmos capitalistas . É aí que a prática econômica
tenda que tenham acepções diversas, permitem descobrir se revela religiosa. É o caso de John D. Rockefeller, que,
concatenações inconscientes, ou seja, analogias. como piedoso batista, ensinou durante muitos anos na elas- Q ,, ,....J
se de adultos da igreja que freqüentava assiduamente. Dizia 1.\\1'- ~ 1
Neste sentido, os teólogos parecem estar muito mais a seus alunos: "a rosa American B eauty só pode ser cultiva- ~ ~ ~
alertas que os economistas contemporâneos. Era o caso da e alcançar o máximo de seu esplendor e fragrância, quer~ ·11-
de Calvino, que, comentando a parabola dos talentos (Mt proporciona muita alegria a quem sabe apreciar, se os pri-}"
25'.14-30; Lc 19,11-27, onde em lugar de talentos se fala em meiros brotos que nascem ao seu redor fossem sacrifica-
minas, do gr~go mná.a,_ ~oeda de grande valor), emprega dos " . John Kenn eth Galbraith, que cita esta afirmação de
termos própnos da pratica comercial da burguesia de seu Rockefeller, diz ainda que: "Os mesmos sacrifícios ocorriam
tempo para interpretar o texto evangélico. Ou seja, os teólo- no mundo dos negócios e justificavam portanto o esplen-
gos, sobretudo quando suficientement e alertas, não deixam dor de um Rockefeller. Essa não é uma t endência maléfi-
de dar uma compreensão das questões teoló!!icas utilizando ca dos negócios. Trata-se meramente da execução de uma
conceitos econô:iu cos. Para a teoria econô~ca burguesa, lei da natureza e de uma lei de Deus". 24 Esta referência a
P:~f~damente mteressada como está em preservar a espe- qualquer elemento central em qualquer r eligião, como é o
cificidade do mercado, isto não deveria ocorrer. Trata-se de sacrifício, não é exclusiva de Rockefeller. Também é um
uma analogia indevida. Entretanto, quando se leva em conta conceito-chave p ara Iacocca e Donald Trump 25, para não
que o economicismo que tais teóricos definem é sobretudo citar senão alguns capitalistas famosos de nossa época.
uma chave hermenêutica aplicada como ideologia para inter- Ao chegar a este ponto, já não é possível discutir mais
pretar a realidade social, o que se pretende expulsar pela sobre se é correto ou não estabelecer relações ent re t eolo-
porta, está voitando pela janela. 12 gia e economia. Ainda que teóricos da economia burguesa,
\) como Milton Friedmann e outros, não queiram, tais rela-
1.c"Jl Como hermenêutica, a visão (teoria) burguesa do mer - ções existem, tant o do ponto de vista da t eologia ortodoxa
,t cacto_ consegue obsc1:1rec: r a realidade. Nisto, justamente, cristã, como da economia burguesa; a questão do sacrifício
1 ,/! , c?nsIBte a s~a sacrahzaçao: envolve em nuvens fantasmagó- é um assunto central.
•tl: ncas o que e uma produção humana . Deste modo transfor-
t\1' '!-Í ~a _algo banal em mistério. ~ ~er?ado deixa de ser uma

1 1 rvalidad~ humana, com suas mJustiças e seus jogos, com


as alegrias e tristezas que caracterizam a todos os seres
' hlL'Jlanos e p assa a ser algo longínquo, intocável. O merca-
do se transforma em metafísica. Porém, se t ransforma na-
' quela metafísica que como a de S~helling (segundo a crítica
Sistema sacrificial e visão dualista da realidade

Se concentrarmos nossa atenção sobre o testemunho


bíblico, é possível perceber que nas páginas dos diversos
autores dos livros sagrados há uma tensão muito forte entre
aqueles que favorecem o sacrifício e aqueles que se opõem
de Hegel) confunde t odas as coIBas. Os opostos não são
r econciliados, mas misturados como a noite, onde todos os à celebração deste t ipo de cerimonial. Já num passado mui-
gatos são pa rdos. 23 to remoto, um dos acontecimentos centrais de toda religião
é o cumprimento ritual deste tipo de holocausto. Neste
~ • ~. 03P~ Jea:l P ierre .. Ord.res et désordre.ç. E nquét e . ur un n oui:eau
t~~-.~~· Z53-2"75r;. ~ - du Seuil. l 9B2. C'f. esp. cap. Vlll : .. Shaki.'lg the in v!sib le 24 . Citado por GALBRAITH , J ohn K . A era d!l incerteza. S !io Paulo, P'o·
neira, l !ISi, p . A0-41. As citações de J ohn D . Rockefeller foram tiradas d o livro
23 HINKELAMMERT Franz se apóia nesr~ metafisica em ~cu artigo citado de HOFSTADTER, Richard . Social Darwinism in AmcrlClln T houollt 1860-191.5.
tlil nota 7. \'er esp. p . '5~. · l"'la dglfia, Universidade da P ensilvânia, 1945, p . 45 e perg. 31. Os grilos são
meus.
25 lACOCCA, Lee. Pans, Ed . Robert Lallont , 1985, esp. p . 261-269 . c r. tam-
134 bém l'RUMP, Donald. Lc plalsir des aflaire.s. Par'.s. Ergo Press, 198n, p . 190.

135
~ \,l $;/

~
;.v ~entido,
0
os relatos bíblicos não constituem exceções. No é este: "Solta as liga.duras da impiedade, desata as amar-
l>f Eonjunto de sagas com que se abre o relato do livro de
ras da servidão, deixa livres os oprimidos e despedaça todo
~ -"'Gênesis, Abel e Caim apresentam oferendas a Deus. Javé 0 jugo! Reparte o pão com o faminto e acolhe em casa os
e..;) q,~? chou mais agradável o que trouxe Abel, o pastor. Possível-
pobres desabrigados! Quand~ vires um h?me1!1 sem roupa,
~ • mente o aroma de carne assada com ervas apropriadas veste-o e não te recuses a aJudar o próxuno! (Is 58,6·7).
devia ser mais atraente que o perfume de legumes e cereais Jesus seguiu a mesma orientação profética. Não é o
cozidos com que Caim, o agricultor, pretendeu honrar ao que está fora que contamina o ser humano, mas o que sai
Senhor. Essas oferendas podem ser consideradas expres- de dentro isto é o que contamina homem" (cf. Me 7,1-23,
sões de sacrifício. Tanto Abel como Caim tiveram que se esp. o ver~ículo 15). Frente à impureza dos afazeres cotidia-
privar de alguma coisa para trazer ao Senhor estas expres- nos os homens de Israel deviam ir até Jerusalém e apre-
sões de louvor. Tratava-se de manifestações simbólicas, mas, sentar-se às autoridades do templo para celebrar sacrifícios
como se sabe, o fato é que Javé preferiu a oferenda de Abel, d~ purificação (cf. Ex 34,23). Mas Jesus afirma ser mai,9r
ao invés da de Caim, ou de ambas, o que levou o irmão que o templo, e mais ainda: "Chegará a hora em que nao
agricultor a cometer homicídio contra o seu irmão pastor. prestareis culto ao Pai, nem neste monte, nem em Jerusa-
Aqui aparece um elemento que permanentemente encontra- lém ( .. . ) Porém é chegada a hora em que os que prestam
mos quando abordamos o tema do sacrifício. Estes atos, culto autêntico prestarão culto ao Pai em espírito e ver_da-

~
que geralmente têm um caráter simbólico, são acompanha- de, pois de fato o Pai busca homens_ que o adorem assrm.
dos por atos materiais, onde a vida humana experimenta Deus é espírito, e os que o adoram hao de prestar-lhe culto
na carne estas tendências sacrificiais.
No Antigo Testamento, por exemplo, as cerimônias
em espírito e verdade" (Jo 4,21-24) .
/I~ j
A morte de Jesus na cruz foi interpretada pelos que 1
sacrificiais em honra de Javé ou de outros deuses signifi- aderiram às ekklesiai cristãs do primeiro século como um llt.
cavam também atos de sacrifício de seres humanos. No sacrifício vicário, fonte de salva~º- ~ara o~ _q~e crêem .no . ~
séc. VII aC, era o próprio rei quem exigia que se celebras- Messias Jesus. Mas foi um sacrif1c10 def101t1vo, perfeito, rY
sem sacrifícios de crianças em sua honra, tendo o rei consumado e consagrado (cf. Hb 8,1-6). A partir da morte ')!
Manassés inclusive queimado seu próprio filho (2Rs 21,6), de Jesus, já não são mais necessários sacrifícios (Hb , ~,;>
derramando "rios de sangue inocente"; e Manassés não foi 10,1-10). Ao invés de uma lei imposta, os que crêem no Mes- \I; IP"'
exceção. No mesmo livro 2Rs, se menciona que seu filho sias Jesus sentem que o Espírito Santo escreveu uma nova
Amon continuou praticando os mesmos crimes que seu lei em seus corações, que corresponde à vivência que têm
pai, até que chegou o momento em que a população se do perdão de Deus. "Pois onde há remissão, já . não ~á
rebelou. Aproveitando o momento da crise política (Amon oblação pelo pecado" (Hb 10,18) . A partir desta onentação
fora assassinado por um grupo de conspiradores), a massa do coração, o ser humano pode oferecer-se a ~us como
do povo matou os organizadores do complô e colocou Josias uma oferenda viva. É um movimento do coraçao ao q~
à frente do reino de Judá, durante cujo mandato foi pro- os cristãos exortam uns aos outros (cf. Rm 12,1-2). O cns-
mulgada uma nova Lei (Deuteronômio) . A mesma recebeu tão não vive submetido a nenhuma lei. Foi chamado para
forte influência dos profetas do reino do Norte, para os a liberdade (Gl 5,1-13), o que significa existir pela força
quais era muito mais importante a prática da piedade e do Espírito (Gl 5,22-24).
da justiça do que a celebração de sacrifícios: "Porque quero
lealdade, não sacrifícios, conhecimento de Deus, não halo· Voltaremos mais adiante a esta distinção entre sacri-
caustos" (0 6,6) . Os profetas dos séculos posteriores, tais fício e oferenda; entre holocausto e oferenda imposta por
como Jeremias, e mais tarde o redator dos capítulos 56-66 lei, por um lado, e vida livre de amarras, por outro. Antes
do livro de Isaías (conhecido como Isaías III), vão seguir de chegar a analisar esta distinção, nos parece adequado
a mesma linha. É conhecido o texto do capítulo 58 de considerar que desde o séc. IV houve setores importantes
Isaías, onde se proclama que o jejum que quer o Senhor das igrejas cristãs que refizeram o sistema de leis cerimo-

137
136
niais. Pouco a pouco, as ex1gencias sacrificiais foram intro-
duzidas. Em alguns casos (Tertuliano, especialmente) isto
foi levado a efeito através de uma forte ênfase na ne~essi­ Isto tem permitido desenvolver, sobretudo em tempos mo·
dade de respei.~r os preceitos legais como meio privilegia- demos, uma verdadeira lógica da violência. Aqueles que
do para penmt1r o acesso do ser humano a Deus. Neste têm o poder de controlá-la, de saber descarregá-la mais
cas~>, diminui-se a importância da graça. O cristianismo, fortemente, mais calculadamente, são os que sacrificam os
assim, torna-se uma religião rigorista. outros no campo material, e, por outro lado, chegando o
dia da celebração religiosa, batem no peito e confessam
.. Em. outros casos, a necessidade de celebrações sacrifi- as suas culpas. E fazem isso no âmbito do templo, no lugar
ciais foi desenvolvida através de uma prática da fé cristã religioso, com certeza bem longe de suas práticas econômi-
baseada num claro dualismo. Os sacrifícios eram imperati- cas cotidianas. Trata-se da outra face da mesma moeda.
vos para favorecer o desenvolvimento do espírito e mortifi-
car o corpo. Este dualismo é uma das características do "economi-
cismo" corrente. É uma das suas marcas antievangélicas.
Em Alexandria especialmente, foi tomando força esta Para Jesus não havia justificação alguma para este dualis-
teologi~ "espiritua~ista",segundo a qual a alma é pura e o mo (cf. Mt 6,24). Para ele o que importava era a vida do
corpo impuro (SUJO). Orígenes foi um dos seus principais povo. "Eu vim para que tenham vida e a tenham em
defensores. O importante era "salvar a alma". Para este abundância" (Jo 10,10), uma afirmação que claramente con-
fim~ ~c~usive os ric.os podiam fazer a sua parte: deviam tra.ria toda exigência de sacrifício.
coULribwr para a vida da Igreja e para o sustento dos
pobres. Evidentemente isto significa uma certa cota de
sacrifício._ Mas deste modo podem transitar pelo caminho Algo mais sobre os sacrifícios
da salvaçao. 26 A religião, mediante esta ênfase espiritualis-
ta•. faz que se distinga claramente entre corpo e alma, entre
COISas eternas e assuntos temporais. Pouco a pouco vai Em todo mundo e através da história, sempre a huma-
perdendo a coerência. nidade tem adorado seres divinos ou supostamente sagra-
dos e experimentado a prática do sacrifício. Assim, entre
Algo semelhante se observa pelos fins do séc. XI e os povos caçadores, logo após matar suas presas, parte
começos do séc. XII, justamente quando de maneira inci- delas era deixada no bosque como sinal de reconheciment o
piente começou a burguesia a se fazer notar na história pela dádiva recebida da divindade, ou, entre os agricultores,
Um teólogo e pregador famoso naqueles tempos, Bernard; é prática consagrada que as primícias da colheita sejam
de C!araval (muito apreciado por Calvino), sublinhou inú- "dedicadas" ao deus. Entre os astecas, o holocauto de seres
meras vezes a importância desta distinção. Este dualismo humanos era considerado necessário para satisfazer a von-
está presente (ainda que muitas vezes não se reconheça) tade dos deuses, assegurando assim o bom desenvolvimen-
no espírito moderno. Por um lado temos a estrutura da to do ciclo natural, o que era imprescindível para se ter
vida co.tidiana, com suas obrigações materiais, que reque- bons resultados no plantio. É o caso do homem ou da
rem cw~~dosos cálculos para poder superá-las, e ter êxito mulher dos nossos dias, que, abertamente ou não, fazem
nos negocios. Neste plano o ser humano passa a considerar uma promessa ao santo pelo que se está disposto a pagar
seu próximo como seu inevitável competidor. Entre todos materialmente no caso de ser concedida a bênção. Todos
se estabelece uma luta de interesses particulares. Os mais estes são exemplos de sacrifícios. Neles, o crente renuncia
fortes estão acima dos menos aptos e mais vulneráveis. a parte de sua vida, de seu trabalho, de suas alegrias, para
aceder a Deus e poder então receber o beneplácito da sua
vontade.
25. _Ho~!li8= "Pode saJva;·se um homem rico?" (sobre Me l 0,17·3ll. cr. a
~11~-~ o 11vro de _Bú.RNARD. P. M.: A H 07:1ily o/ Clement o/ ,l/e::andrla
sPbK. · i~ 1s th.e P..:ch L!an Who i s
190 Belng Saved? Londres-Nova Iorq ue, A religião bíblica não é exceção neste sentido. Tem se
visto como desde as páginas do livro inicial da Bíblia apare-
1~o
"" ce a prática da oferenda sacrificial. Ela predomina em

139
)

~u
e IL(
lf' \

grande parte. ~o ~tigo Testamento, indissoluvelmente vin- ríamos dizer que são os sentidos fundamentais dos rituais . ,..
c~ada ~ e~gencias da Lei. Estas práticas cultuais consti-
sacrificiais, que segundo este autor podem ser agrupados e..~
tuíam rituais que vinham desde tempos muito antigos em três tipos. Existem sacrifícios realizados para expressar
Como se s~b~, 8: presença de um rito indica automatica: um dom, ou uma comunhão, ou uma expiação. z.s O ct.:;m {/
mente a existência de um mito, quer dizer: de uma crença motiva aqueles sacrifícios celebrados em momentos de
fundamental para a . vida de um povo, para ajudá-lo a grande contrariedade e frustração, assim como também de -d011-\ ~
encontrar e a produzir um sentido em meio aos trabalhos profunda esperança. Mas também está presente em celebra- J•'
ções de grande reconhecimento pelas dádivas recebidas de_ c.".f' ~
e lutas de todos .o.s dias. O mito constitui uma referência
que pode ser decisiva para não se perder 0 rumo histó · Deus (cf. lSm 6,14) . A comunhão experimentada não pode - [1 r""
Pª!'ª. preservar a própria identidade. o rito é aquela ~~cr~~ excluir a Deus. Quando a comunidade se reúne para cele·
brar uma alegria ou compartilhar uma pena (dor), Javé
/
~o~a que .re?re~enta esta referência. Os sacrifíc:os cerimo-
~· em . s1 ntuais, apontavam para a referência fundamen- está presente de maneira invisível. Foi, por exemplo, o que
. al ~ Lei, em cuja formalidade estava concentrada para os aconteceu quando Moisés, Aarão e outros dirigentes do povo
isr~li.tas, tanto a força das promessas de Deus como o celebraram a aliança com Javé (cf. Ex 24,9·11) . Os sacrifí-
anuncio do cumprimento das mesmas. cios de expiação, sobre os quais von Rad reconhece que
temos pouca informação, são testemunhados p elo texto de
te . Esta fidelidade de Javé, sua lealdade, necessariamente Mq 6,6-8. Entretanto, o profeta anuncia que tais atos rituais
h na que ser c~rrespondida por fidelidades e lealdades não são suficientes para satisfazer o desejo de Deus. O que
~- ~ caminho a . seguir p ara a concretização destas Javé quer é que: "defendas o direito e ames a lealdade e
foi prescn~ ~ela Tora . Os sacrifícios, permanentemente sejas humilde com teu Deus" Cv. 8) .
renovados, mdic:avam a atualidade do mito. Daí a necessi·
dade de cumpn-los. Esta observação de Miquéias é importante para se per-

r. Snto doOsmisteno,
s:ici:u.ícios não são atos banais. Pertencem ao ãmbi·
do s~grado, do que não pode ser discutido
ceber o problema levantado pelas celebrações sacrificiais
no Antigo Testamento. E não só no período pré-exílico, pelo
fato de o assunto se ter tomado muito mais dramático após
em ~~ansformado. Sao praticados em momentos de grande o retomo dos exilados da Babilônia, quando a identidade
r~goziJo ou de grande sofrimento. Ou quando 0 povo se reu-
ma para ter.~ festa de convivência e tentava selar para nacional de Israel teve um matiz fortemente religioso, sen-
sempre.~ uruao que se vivia neste momento; por exemplo do os sacerdotes um grupo fundamental para mantê-la e
na oc'.1s1ao de um casamento, também de um funeral. Ma~ administrá-la. Pode-se compreender facilmente que a exis-
tambem pode haver sacrifícios que tentem cobrir (pagar) tênica de um aparato sacrificial fortemente organizado
pecados ou afogar a ansiedade que desperta o sentimento requeria inevitavelmente a presença de um corpo de sacer-
de culpa. Gerhard von Rad, analisando a r edação do docu- dotes conscientes de suas funções e autoridade. Embora
emento
· · sacerdotal
d . . no
. Hexateuco
_ • diz que "As p nncipais
· · · haja sacrifícios que são efetuados diretamente pelos fiéis,
spec1es ~ sacrific10 sao as seguintes: 1 ) o holocausto existem outros, com caráter cerimonial muito mais acentua-
(olah e kalt.l, Lv 1); 2) a oblação (oferenda) ( minhâh · . do, que só podem ser cumpridos por pessoas consagradas
tura de _farinha,_ azeite e incenso, Lv 2) ; 3) o sacrifídiorn:ise para executá-los. Nestes casos, a ação sacerdotal, ou pelo
comunha-0 e açao de graças (shelem, Lv 3) · o sacrifício menos a palavra do sacerdote, legitima o ritual. "O certo
P_elo pecado ou de expiação ( hatta't, Lv 4,1-5,Í3); 0 sacrifí·
cio pela culpa ou de reparação ( âshâm, Lv 5,14-19)". n é que o sacerdote pronunciava o p lacet ou recusava como
'boca de Javé'. Era a palavra de Javé que, pela intervenção
Talvez, mais importante que as espécies de sacrifícios é do sacerdote, tornava o ato material, naquilo que pretendia
0 que von Rad chama as "concepções constitutivas". Pode- ser, um ato realmente benéfico ent re Javé e seu povo. Por
27. VON RAD Gerhani T l ·
1973, vol. 1, p . 24s. · eo ogui do 11nligo Testamento. São Paulo. ASTE. 28. Ibid., p. 250.

140 141
esta terra como um dom a seu povo, ninguém podia apro-
esta declaração do sacerdote, o ato sagrado se convertia f\ ' l o priar-se desta terra: 'Para que não haja pobres em teu
num ato de salvação de Deus". 29 1 , yJ ~ meio, pois o Senhor teu Deus te abençoará abundantemen-

Evidentemente, os sacerdotes deveriam ter seus crité- j' 01'


te na terra e te dará por herança possuí la' (Dt 15,4) ". JO \
rios, adequados para consagrar ou não estes atos como ~ 1 A esta religiosidade do povo, baseada no dom da vida, }.t~p>J
cerim?nias vá~?~s. Um destes critérios era o da pureza do f) l .\.' que promove o respeito à vida, especialmente entre os mais / ~
material sacrificial. Uma oferenda inadequada sob este 'I ~ 1V f vulneráveis e ameaçados, a ênfase sacerdotal consiste em ·
pont? de vista era considerada como uma abominação. Não J ~->9 apresentar o imperativo de uma piedade de respeito à lei,
1er! 7usta. Aquele que oferecia devia reajustar seu sacrificio. \l'\ ., da qual uma das ênfases primordiais é a pureza legal.
respeito às formas, ao invés do respeito à vida, chega
V,,.~~<> O problema se complicou durante a história do ant!go f t (-1\ ser prioridade máxima. Quem não se ajusta ao conjunt
o'"> I~~ael, ~el~ fato de que, desde o fim do séc. IX aC, 0 sacri- e; das prescrições dominantes transforma-se numa personali
,; , {~~~ !º1 ligado à entrega de determinadas quantias em à ~\l\\ r.r.V. dade perigosa. É como um "endemoniado". É impuro, nã
~f' ~eiro. Parte deste era destinado a reparos ou embele- Sr é justo. Tem que "reajustar-se". Por outro lado, a religio·
zamento do_ ~e.mplo (cf. 2Rs 12,5-16). Entretanto, "o dinhei- /'
r~ d~s sacrific1os penitenciais e dos sacrifícios por pecados
sidade do dom se expressa sobretudo no acontecimento da
festa. Ai se vive em liberdade. Em troca, a religiosidade \
nao ia parar no templo, mas pertencia aos sac.~dotes" do tributo enfatiza a dívida que deve ser paga. E para ela
l <~1:5 12,~7) · Quando o dinheiro se associa à oferenda sacri- há de se cumprir com os sacrifícios exigidos. Estes são vio-
' •. 1._).>) flClal, alem de ser ~a obr_ig~ção ritual, o sacrifício tende ( lentos, porque o sistema cultua! (que é legal) também o é.
rP > a conve~er-se numa impos1çao, num tributo. Entra então 1 ~ Trata-se de uma violência contra a vida para salvar a ordem
em conflito aberto com a religiosidade do dom, do presente , 11 estabelecida (controlada ou pelo menos legitimada pelo
que ten~ c~le~ra: a graça recebida. Aqui é que convém
~etornar a distmçao previamente elaborada entre sacrifícios
Jl)l' 1)
corpo sacerdotal) . Os sacrifícios são impostos para manter
a pureza desta ordem. Melhor dizendo, para restabelecer
impostos (que ? . ~ovo c~pria como uma carga, de má _ ~ "a boa ordem". Violência sacrificial que se impõe não só
vontade) e ~fícws aceitos (que podiam ser celebrados ;.f' e. às vitimas, mas também àqueles que oferecem tais sacrifí-
por sua propna vontade, ou seguindo as orientações de 1 { cios. Os celebrantes (sacerdotes que confirmam ou não a 1
algumas personalidades como: profetas, sacerdotes mestres I "i) legitimidade da cerimônia ritual) são os guardiões da ordem
etc.). O sacrifício imposto denota sempre a existência d~y, social. Isto foi claramente demonstrado por René Girard. 31
certas manipulações pela ordem sacerdotal (ou por qual-
~uer_ burocracia que ocupe o seu lugar). O sacrifício aceito , De acordo com a visão dos setores dominantes, a ordem
implica numa experiência religiosa, um reconhecimento __I ~ social é um conjunto de grupos e pessoas diferenciados.
do crente frente ao mistério de Deus. Para o crente que '\JN A vida da comunidade, seu futuro, depende de sua estabili-
de motu proprilJ oferece este ato, a vida é antes de 'tudo dade, da coesão que possa demonstrar ter. O que significa
um dom, ~to em meio à abundância, como nas dificulda- então que, quando se perdem as fronteiras destas diferencia-
d:s. _Isto e que_~arca a grande diferença entre o Deutero- ções, surgem as desordens, a violência. A ordem social pode
no~~ _e o. Levitico. Este último constitui um sistema de passar assim por um processo de deterioração e dissolução.
sacrüic10s impostos, do qual, consciente ou inconsciente- Para aqueles que controlam a ordem social, os processos
me_n~e, se beneficiam o corpo sacerdotal e outros grupos que introduzem a indiferenciação e procuram transforma-
pro~os a ele. No Deuteronômio, documento produzido a ções sociais conduzem à maculação da realidade e a trans-
P!"1~ da .r~volução camponesa de 640 aC, a chave da exis- formá-la em algo impuro. Para prevenir este estado de cai-
~enc1a !eligios~ era a exaltação da vida. Ou seja, 0 dom.
~ a vida social, a possibilidade de viver em paz entre os 30 CLEVENOT, Michel. Lectura materialista de la B i bl:a. Salamanca, Slgue-
me, 1978, p . 84.
clãs, se baseava no dom recíproco. Como Javé havia dado 31. GIRARD, F.ené. La violence et le sacré. Paris, Gras...oet , 1978. cr. esp.
caps . X e XI, p . 373-481.
211. /bid., p. 257.

142
.
1 '1.,
sas, se requer a aplicação dosada de uma violência preven- são, nossa avidez pelo poder. Já reconhecia Adam Smith :
tiva "purificadora". Ela tem expressões materiais, mas tam- quando vamos ao mercado, devemos fazê-lo agressivamente,
1-jl bém culturais. Michel Clevenot assinala que "o meio desta tratando de nossos interesses. Só assim chega a ser eficaz
~- \ purificação é o culto e mais concretamente o sacrifício a " mão invisível". Mas, no mercado, aqueles que participam
cultua!". Ao sacrificar alguns animais, segundo os ritos, o não são iguais. Nem todos dispõem do mesmo grau de
homem tenta exorcizar a violência que há frente a si mes- informação. É justamente no mercado que aparecem de
mo e frente aos demais e fixá-la na vítima, transformada modo claro as diferenças sociais e econômicas que existem
em " macho expiatório". Esta concepção é tipicamente "reli- entre homens e mulheres. Aqueles que controlam o merca-
giosa", supõe uma sociedade completamente organizada em do consideram este espaço diferenciado como sagrado. E,
torno aos ritos e dependente deles para regular seus pro- em geral, as religiões ratificam esta visão, a necessidade
blemas, "incapaz de reconciliar-se sozinha, no confronto com desta violência implícita: "as religiões e as culturas dissimu-
o contrato social, de reconciliar-se sem vitimas". J2 lam esta. violência para fundamentar-se e perpetuar-se. Des-
J ª~o·~
cobrir seu segredo é chegar a aprender uma só lição que
Pode-se perguntar: o que isto tem a ver com a econo- é necessário chamar científica para o maior enigma que s e
._j· Õ ' ~ mia? De fato, quando se fala da violência é necessário apresenta a toda a ciência dos seres humanos: o da nature-
t reconhecer que existem poucos espaços tão violentos para za e origem do religioso". 33
\
0
~ a experiência humana como o do mercado, sobretudo tal
~ como chegou a ser organizado e administrado no marco do É hora de assinalar que até agora temos dado muito
capitalismo contemporâneo. Todavia, a atração que os mer- mais atenção aos sacrifícios impostos do que aos oferecidos.
cados e as feiras exercem sobre nós, onde o popular ainda Entretanto, devemos sublinhar o caráter positivo destes
tem alguma expressão, revela uma nostalgia profunda de últimos. É verdade que este elemento não pode dissociar-
relações humanas que já não são possíveis no mercado se completamente da negatividade implícita nos sacrifícios
capitalista atual. Para participar deste mercado, os homens impostos. Através destes a violência do sistema é aplicada
e mulheres dos setores populares devem realizar grandes cega e inexoravelmente. No caso dos sacrifícios oferecidos,
sacrifícios. E quando ingressam no espaço do mercado, os também há violência, tanto para as vítimas propiciatórias
Eacrifícios que foram feitos revelam-se insuficientes. Frente
à variedade da oferta, é pouco o que pode ser comprado. como para quem as oferece. Foi o caso dos cristãos de
Ent rar na esfera do mercado é passar por uma experiência Roma, a quem São Paulo escreveu pouco tempo antes da
de insatisfação, de indignação. Esta, geralmente contida, às perseguição que o imperador Nero lançou sobre eles: "Pela
vezes se solta. A violência dos insatisfeitos surge então misericórdia de Deus, vos exorto, irmãos, que ofereçais a
frente à violência do mercado: é o momento da pilhagem, vossa própria existência como sacrifício vivo, consagrado,
a explosão inevitável daqueles que não agüentam mais a agradável a Deus, como vosso culto autêntico; e não vos
injustiça vigente. conformeis com os esquemas (skhéma) deste mundo, mas
transformai-o por meio de uma nova mentalidade, para que
Geralmente, as religiões se opõem a esta violência dos sejais capazes de distinguir o que seja a boa, perfeita e
de baixo. Infelizmente não denunciam com força suficiente agradável vontade de Deus" (Rm 12,1-2) . Rejeitar os esque-
aqueles que controlam e administram o mercado. Neste, a
burguesia dominante continua manifestando seu ressenti- mas deste mundo significa entrar em conflito com a ordem
mento original. Só que agora este não está dirigido contra dominante, enfrentando estruturas injustas e grupos sociais
a nobreza feudal mas contra o proletariado, contra os tra- que as controlam. Isto supõe uma dose inevitável de violên-
balhadores. Por isso o mercado é um espaço violento: nele, cia: Mas sem ela nã-0 é possível ser transformados de acor-
nós seres humanos demonstramos nossos instintos de agres- do com a nova mentalidade e assim poder chegar a distin-
guir a vontade de Deus daquilo que não é.
~2 . CLEVENOT. Mlchel, op. clt .. p . 92-113. A última frase é de GIRARD,
René. 33 GIRARD. René. Le bouc émissaire. Paris. Bernard Grasset , 1982, p . 141.

144 145
No momento, o "esquema" dominante é administrado
pelo FMI e pelo Banco Mundial. O verdadeiro poder está
nas mãos da burguesia internacional, sobretudo a que tra- lhas e de cabras, desamparados, aflitos e maltratados.
balha com o capital financeiro. Aqui está o verdadeiro foco Homens dos quais o mundo não era digno'' (Hb ll,35b-37).
de violência de nosso tempo. As aparências não dão a im-
pressão de que esta afirmação que acabamos de fazer possa
ser ratificada. Entretanto, em silenciosos salões, cuidadosa- Paradoxos que devem ser resolvidos
mente atapetados, onde o rumor dos passos é absorvido
por macias almofadas, é onde se tramam as a~es mais No início destas páginas constatávamos um fato para·
violentas que atentam contra a vida dos povos. É aí que doxal: se reconhece que as estruturas econômicas estabele-
se impõe o reajuste econômico, que não dá a vida, mas cidas não correspondem às necessidades humanas. Elas não
que a tira dos mais pobres. É aí que se administra a injus- ajudam a reprodução da vida. Daí a insistência de criar uma
tiça, sob o pretexto de que a prática econômica nada tem nova ordem econômica internacional. Mas ao m esmo tempo
a ver com a justiça social, m as com a geração de riquezas que existe uma tomada de consciência neste sentido, outros
(como se a última não estivesse estreitamente vinculada à afirmam, com uma firmeza inusitada, que o único futuro
anterior!). Enfrentar este esquema dominante é fazer um viável para os seres humanos só pode ser viabilizado atra·
sacrifício. Para afirmar a vida, é preciso oferecê-la. O que vés de estruturas que correspondam à visão do mundo e
escreveu São Paulo aos Romanos é coerente com aquela às crenças assumidas por uma livre empresa, num "livre \), .....
palavra de Jesus: "Se o grão de trigo não cair na terra mercado".
' o\)

\~
f,
e não morrer, não pode dar fruto" (Jo 12,24). . O "livre" jogo do capital financeiro conduziu uma parte ,,,
lY" Esta orientação do sacrifício aceito, querido e ofereci- unens8: ~os povos do Terceiro Mundo a esta desordem -<f J
)( • ~ do não por obrigação, mas como um dom que responde à monetana vigente, que _se ti'aduz so:>retudo pelo crescente ! '~u
,v graça de Deus, é a expressão de um compromisso messiâ- endividamento das naçoes. Porque e evidente que não só 1111 'J
~ \Xi nico. É falar de uma vontade motivada pela esperança de os países da Africa, Amé~i_c~ Latina, Asia, ~aribe e Pacífico 1 /) 1
· .•,~í:l uma ordem social mais justa e possível, além de necessária. estão afogados por s uas wvidas. Isto tambem está ocorren-
1' A sorte do Messias Jesus foi a morte na cruz. Como do na Polônia e Iugoslávia, do mesmo modo que há de se \ 1./
~ ,., · \tYtambém foi a de Gandhi, a de Martin Luther King, a de reconhecer qu~ a dívida externa pesa de maneira dramáti· ~~ p;l~
\. t Malcon X, ~ de Ernesto Gu~vara, a de Mons. Oscar Romero CJl sobre naçoes que consideramos correntemente como'l '

tf'-
( e a de mmtos que peregrmaram por este mundo "suspi-
rando por uma pátria melhor" (Hb 11,16). O povo do ( :Y ~ais endivid~~a do planeta são os Estados Unidos da Amf d}i/'
\dyr µiifo~ulenu:s·:· Por exemplo, não se pode esquecer que a n ação /''
nca .. Estas dividas, com os juros que as aumentam despr . ,1V"' -~
Messias não pode deixar de ter a sorte deste. Se tem fé
J
\~ \ •1 p~rc10nalmente•. se impõem à vida de homens e mulhere ) ~
J
nele, não pode deixar de enfrentar a vida com seu espírito
de transformação, ávido de justiça e de liberdade. Por isso,
falando de muitos que participam nesta caminhada do povo
b
"'ti T_em que ser r~1:1~egradas 8:º~ credores. Aí aparece a neces-
c1da~~ _de ~crific.1os n:uzt.eriazs. No entanto, os sistemas d';/' ?
sa~rif1c1os sunbó.~co~ ms1stem sobre os mesmos, ajudam a . 1; J J
>
messiânico através da história, o autor da Epístola aos
Hebreus, no mesmo capítulo, reconhece que não há progres-
so neste peregrinar, sem martírio, sem vida oferecida, sem
1 cnar uma consc1enc1a de "sentido comum" de que as dívi- V I
das devem ser pagas, quer dizer , as dívidas, mais os juros.

sacrifícW aceito, e acrescenta que "uns foram torturados, O paradoxo consiste em que existe crédito, mas não há
não aceitando a sua libertação para alcançarem uma melhor possibilidade da graça. De que houve promessa de ajuda
ressurreição. Outros experimentaram escárnios, açoites e até financeira, mas não pode haver perdão. De que os reajustes
cadeias e prisões. Foram apedrejados, serrados, tentados, econômicos que periodicamente realizam os administrado-
mortos a fio de espada; andaram vest idos de pele de ove- res da economia não são considerados garantias suficien-
tes para que aqusles que têm o poder real no sistema
146 dominante possam decidir em favor de um alivio que ajude

147
--- ------------ - -

a respirar um pouco os povos que hoje estão vivendo sob


a pressão da obrigação de ter que paga r suas dívidas. O tnar o ano de graça do Senh or, o dia da vingança de nosso
ressentimento (raiz da ética burguesa, como muito bem De~s, a consolar os aflitos, os aflitos de Sião: e dar aos que
demonstrou Nietzsche) 34 prevalece sobre a solidariedade, estão de luto uma coroa ao invés de cinzas, óleo de alegria
do mesmo modo que o cálculo em favor do próprio inte- ao invés de pranto, vestes de louvor ao invés de espírito
resse tem muito mais força que a compaixão. As relações angustiado ( .. . ) ; eles vos chamarão de sacerdotes do Se-
sociais t êm deixado de ser administradas por valores hu- nhor, 'ministros de nosso Deus', comereis as riquezas das
manos e são submetidas aos imperativos que emanam dos nações, e na sua glória vos gloriareis. Por isso no seu próprio
valores do mercado. pais lhes caberá uma porção dupla, gozarão de uma alegria
sem fim. Porque eu, o Senhor, amo o juízo e odeio a
..;,\\ É quase impossível escapar do rigor deste círculo infer- iniqüidade do roubo; darei a eles fielmente a recompensa
~ ·~e, "J(:i. nal, de onde - como já assinalamos previamente, seguindo e com eles farei aliança eterna. Sua prosperidade será
l1 ~ a análise de Franz Hinkelammer t - as coisas se confun- conhecida entre as nações e seus descendentes no meio dos
\ à~ \~P dem e se des naturalizam atrs.vés do exercício ideológico povos; todos que os virem os reconhecerão como família
:/ que produz a mistificação do mercado como espaço sagra- bendita do Senhor" (Is 61,2-3.6-9). De acordo com este
. i' do na prática econômica. Para sair desta prisão, urge intro-
1te.
~'i.S
v duzír uma nova lógica. A que dá prioridade aos "últimos"
porque os " primeiros" já tiveram bastante. Trata-se da lógi-
texto do III Isaías, Deus faz uma opção explicita por um
povo pobre que volta sem poder e sem glória do exílio.
Hoje se interpreta esta p rom essa (que é de graça, bem
ca do evangelho, alegremente celebrada por Maria, segundo
diferente do crédito que exige garantias) como a opção de
a qual o "braço de Deus" intervém com força, "confundiu
Deus pelos pobres.
os soberbos no pensamento de seus corações, depôs dos
tronos os poderosos e elevou aos humildes. Encheu de bens Esta é a proposta do "reino" proclamada por Jesus:

)1?
os famintos e os ricos despediu de mãos vazias" (Lc 1,51-53). que realmente se institucionalize "o ano da graça do Senhor"
Não é uma lógica que corresponde à troca, à obrigação, e anunciado pelos profetas e decretado (ainda que nunca
sim ao dom, à entrega, ao exercício da solidariedade. colocado em prática) no livro do Levítico (cap. 25) . Era

1rrt'
~
1
j'
1,
Trata-se de uma lógica que exige de nós a orga-
nização da esperança. Por isso, t rata-se de uma lógica mes-
siãnica. o messianismo bíblico, que tem como figura central
uma proposta de libertação, de graça, segundo a qual a
conduta social a ser seguida significava que: "se teu irmão
empobrecer e as suas forças decaírem, então sustentá-lo-ás.
J o Messias Jesus, não se reduz a este. Um dos propósitos Como estrangeiro e peregrino, ele viverá contigo. Não rece-
-~ fundamentais do Galileu foi formar um movimento 35 orien- berás dele juros nem ganhos. Teme porém teu Deus, para
tado para a transformação social, econômica, política e re- que teu irmão viva contigo. Não lhe darás teu dinheiro com

i ligiosa de seu povo. A existência de um movimento messiâ-


nico pressupõe uma proposta revolucionária: o que Jesus
chamou "reino de Deus'', ou "reino dos céus'', que pode ser
juros, nem lhe darás do teu mantimento por causa do lucro.
Eu sou o senhor vosso Deus, que vos tirei da terra do
Egito, para vos dar a terra de Canaã e para ser o vosso
compreendido quando se leva em conta o começo de seu Deus" (Lv 25,35-38) .
ministério bíblico, segundo o testemunho de São Lucas, na
sinagoga de Nazaré ( Lc 4,17-21 ). Ali leu o texto messiânico Neste contexto pode ser bem entendida a prece de
do livro de Isaías, no qual se dá ênfase especial a "procla- Jesus no pai-nosso: "Perdoai as nossas dívidas assim como
nós perdoamos os nossos devedores". É uma oração feita
34. NIETZSCHE, Friedrich. Sobre a genealogia da mDral, § 10. Também d o no contexto da luta para chegar a institucionalizar o ano
mesmo a u to r , Para além do bem e do mal, em Obras Incompletas. São Paulo, do jubileu.
Ed . Ab ril CUltur al, 1983. Coleção • 0s P ensadores" .
:lã. Cf. de THEISSE N, Gerd . Sociologia do mDvim.."11to de Jesus. São F aulo,
Paulinas, 1981. Também d e SCOTOFF, Lulse e STEGEMANN, Wolfgang. Jesm O movimento de Jesus, com sua identidade messiânica,
de Nazaret, esperanza de Los pobr es. Salamanca, Slgueme , 1981.
empenhava-se em moldar esta realidade, onde o partilhar
148
149
Olhando para frente
é prioritário à ansiedade do possuir: "Não vos inquieteis Muitos afirmam que a crise que sofrem atualmente os
dizendo: que comeremos? que beberemos? com que nos p aíses da América Latina é a mais profunda de toda a sua
vestiremos? Porque os gentios é que procuram todas estas história. Um dos seus ingredientes (ainda que não seja o
coisas; pois vosso Pai celeste sabe que necessitais de todas mais importante) é o peso da dívida externa, que inibe
elas; buscai em primeiro lugar o seu reino e a sua justiça, possibilidades de crescimento econômico e de investimentos
e todas estas coisas vos sertw dadas de acrésci11W" (Mt de capital que assegurem a manutenção da qualidade de
6,31-33).
vida, sobretudo para os setores menos favorecidos. No
Os ideólogos a serviço das classes dominantes desqua- decorrer da década de 80, para fazer frente às obrigações
lificam rapidamente esta proposta. "Não tem sentido, é exigidas pelos encargos da dívida, deixou-se de fazer inves-
utópica, irreal". Deixam de perceber que os desejos da timentos imprescindíveis no campo do serviço público. Isto
burguesia, ao surgir na história, procurando autonomia e começou a redundar em detrimento das maiorias pobres
iberdade, para o que converteram o mercado em lugar de nossos países. Esta situação deve piorar durante o trans-
tt<' ;' privilegiado (até chegar a sua sacralização), também foram
correr da próxima década, e não deve ser revertida. Antes
l ( \. "irreais", "utópicos", "sem sentido". Nesta época a burgue-
do próximo século será muito difícil suspender a hipoteca
,.. ,:,f/ sia surgiu na sociedade como expressão messiânica, trans-
t ~
\l Jru formadora, libertadora. Quando chegou ao po~er, esta c~as-
se revolucionária transformou-se no que haVJ.a combatido
econômica, social e cultural de nossos povos.
Os intelectuais latino-americanos que têm um compro-
_1,~ antes, quer dizer, numa classe opresso~a. Para isto, se misso real com os povos da região têm desmascarado conti-
,,rJ>r apropriou da religião e a aplicou ao seu sistema de contro- nuamente estes mecanismos de exploração e opressão. Con-
) d le. O mercado deixou de ser meio para se transformar em seguem explicar claramente as causas da divida, sua estrutu-
1 um mistério no "totalmente diferente", o sagrado que não ra, como cresce continuamente e também suas conseqüên-
pode ser tdcado. E a partir desta posição impôs-se um cias. O que não se tem conseguido é motivar aos setores
1

1 novo sistema de sacrifício aos trabalhadores.


Infelizmente o poder ideológico de que dispõe a bur-
guesia é um obstáculo fortíssimo que inibe grandes contin-
gentes populares a aceder a uma consciência messiânica,
populares a lutar com brio para que não continuem pagan-
do estes contratos injustos. Ou seja, não se fez o suficien-
te para acabar com a sacralização do mercado e dos sacri-
fícios que se impõem a partir da mesma sobre os setores
populares de nossos países.
libertadora. Todavia, as massas tendem a crer em mila·
gres, em situações e personagens providenciais, misterio- Enquanto as autoridades eclesiásticas continuarem pro-
sos e carismáticos, antes de aceitar a necessidade de desen- clamando que a Igreja faz uma "opção 'preferencial' pelos
" volver seu próprio potencial transformador, sua identidade pobres", o que não significa "exclusões", admitindo que

ci;/
.A'
j # \ messiânica.
~ A lógica do Evangelho, que em alguns momentos taro-
'I bém in
. clui elementos apocalípticos, sublinha a necessidade
tanto na Igreja como na sociedade podem existir pobres e
ricos sempre, é necessário reconhecer que estão legitiman-
do a violência do sistema dominante, assim como suas injus-
tiças. O problema não consiste em palavras, mas está
r da militância, da ruptura, do compromisso em favor de
na prática. É hora de virar, mudar a organização do povo,
urna nova realidade social. "Quem põe a mão no arado e
do "movimento de Jesus". Buscar ansiosamente, como diz
olha para trás, nã-0 é digno do reino de Deus". "Vai, vende
l
o que tens, e dá-o aos pobres". São sacrifícios, indubitavel-
Paulo, "que o Messias Jesus seja formado em vós" (Gl 4,19).
Ou seja, que os setores populares possam se libertar do
mente, mas não legitimam uma ordem injusta, imposta.
cativeiro da ideologia do "sentido comum" e passem a atuar
l.tpf São atitudes de vida ( dom) que se empe~ a favor do
f'f _ projeto messiânico, o ano jubilar de libertaçao.
deu 150
de acordo com o "bom sentido". 36 Nisto é que consiste a
t:.spera do retorno do Messias.
Não se pode esperar que os poderosos de nosso tempo
proclamem "o ano agradável do Senhor". Já se viu que a
graça não entra no seu horizonte vital, e tampouco a justiça ALGUMAS CONSIDERAÇÕES

l,,f'
e a liberdade dos seres humanos formam parte do seu uni-
yerso. Quando falam de liberdade, só estão p ..·eocupados com
~ Jfa liberdade da empresa, com a liberdade do mercado. Quan-
do falam de direitos, só pensam em direitos da propriedade
SOBRE A M1MESIS SACRIFICIAL
DOS SUJEITOS SOCIAIS MODERNOS

!) ~ ) privada. "É mais fácil passar um camelo pelo olho de uma


J :i agulha do que um rico entrar no reino de Deus". Entretan- Julie de Santa Ana
\, rJ> to, o que não é possível para os homens é possível para
cf1 t\ 111 Deus. Com esta esperança há de se lutar para or ganizar o
/ .;t yJ povo. Se existe a possibilidade de mudança, esta não depen-
•Y,. ,,.> de dos poderosos, mas dos humildes. Entre eles, vai toman-
., / do forma o sujeito messiânico. Esta conformação deve con-
O ponto de partida desta reflexão é a constatação do

'J t
~ 11· tinuar. Como se canta no Brasil: "Ele (o rei) voltará de
novo. Ele nascerá do povo". Contribuir para que isto ocor- fracasso das revoluções pretendidas pelos sujeitos sociais
~ ra o quanto antes é o grande desafio que se coloca em dos tempos modernos: por um lado, a revolução capitalis-
4\P nosso tempo aos intelectuais latino-americanos que aspi- ta, burguesa, cujo projeto é a riqueza das nações, que só

4!
fam a servir seu povo. Isto apela diretamente aos teólogos conseguiu chegar a criar a riqueza dos ricos, que em propor-
• r e agentes de pastoral. Trata-se de desmascarar os falsos ção, no momento atual, não chegam a ser 25% da população
do planeta. É um processo que, ao invés de abrir possibili-
V ~j' ~deuses e acabar com sacrifícios llliquos. dades para que outros possam alcançar uma situação de
bem-estar, na realidade fecha os caminhos para que isto
possa acontecer. Neste sentido, o capitalismo não pode exis-
tir sem os pobres, cuja vida é a expressão de um processo
permanente de sacrifício.
Cada vez que os paises pobres procuram renegociar a
divida, a resposta que recebem é que, previamente a qual-
quer discussão sobre o assunto, devem reajustar suas eco-
nomias. Aplica-se então a imposição de um mecanismo que
exige um comportamento mimético: assim como os ricos
sacrificam os pobres, estes sacrificam aos mais pobres. É
uma espiral de violência que se manifesta como sagrado, a
partir do caráter intocável e misterioso do sistema de "livre
mercado".
A liberdade da manufatura (a coisa, o mercado) preva-
lece sobre a liberdade dos seres humanos e, ainda que a
maioria destes não tenha a permanente oportunidade de
participar dos benefícios do sistema, há de se constatar
36. GRAMSCI , Antonio, op. cit. Veja também de ffiNKELAMMERT Franz. que não procuram mudá lo; o impulso que move a maioria
Democracia y totalitarismo. San José de Costa Rica, DEI , 1987, esp. p.' 155-161.
das massas deixadas de lado, orienta a ação no sentido de
152
153
r . (p
castração (imposta e assumida) da razão utópica do ser~/"
l \>!i
\Q\. ,
buscar a inserção no sistema, o que significa a consolida-
11
ção do mesmo. O duplo mecanismo mimético (os "reajustes"
U *}\impostos e a aceitação submissa dos mesmos) permite , 1
compreender a coação inevitável e a fascinação da economia ~Y n
hum::~ a constatação do fracasso dos sujeitos sociais que
protagonizam o processo da modernidade, cabe colocar a
pergunta sobre as razões desta situação. Tanto a burgue-
>J F-A iJ

f-\ ,t de livre mercado e de seus mecanismos vitimários. A l'I '1 sia como o proletariado querem o triunfo da liberdade;
""'"" Fbivalência de sua misteriosa identidade (a "mão invisi- 11\) contudo, ambos chegam a impor a necessidade da repressão.
' l" da qual falava Adam Smith) indica a presença do ~
sagrado. A violência resultante é inerente a esta sacralização./"~ '}.b . Na revolução burguesa, a liberdade vale principalmen-
te para o mercado (expressão do sagrado), ao passo que
Se por um lado, quando se analisam os processos j na revolução socialista esta liberdade fica limitada segundo
seguidos pelas nações, onde as organizações políticas dos o arbítrio da direção do Partido . . . Até agora, um socialis-
trabalhadores (o proletariado) intentam desenvolver revolu- mo sem "ditadura do proletariado" não foi mais do que
ções socialistas procurando forjar sociedades sem classes e um propósito bem intencionado.
superar o "reino da necessidade" para viver no "reino da
liberdade", é necessário constatar que, se é verdade que o A força (violência) do sagrado manifesta-se através de
problema das necessidades básicas dos seres humanos se três vertentes principais: a religião, a economia e a política.
resolve satisfatoriamente, com maior ou menor sucesso É portanto a análise destes níveis da vida humana que nos
segundo cada caso, isto não significa que os seres humanos permitirá vislumbrar a raiz dos fracassos dos projetos
encontraram uma solução aceitável para a questão do sen- modernos. É evidente que os sujeitos sociais da modernida-
tido de sua ação. de não irromperam na história definitivamente configura-
dos: seguiram evoluções singulares, em cujo transcurso
De fato, o problema do sentido está indissoluvelmente sofreram influências distintas. Porém, de modo certo, atra-
vinculado aos desejos e impulsos que nascem num nivel vés destes caminhos o mecanismo do desejo mimético
mais profundo da pessoa. Se é verdade que o planejamento estava sempre presente.
econômico centrado pode criar condições para resolver a
insatisfação das necessidades materiais, até o momento não Tanto a burguesia como o proletariado, surgiram na
demonstrou ter capacidade suficiente para abrir os cami- história com uma vocação revolucionária. A burguesia
nhos da liberdade aos povos que tentaram marchar pelas moderna, portadora do projeto da revolução capitalista, co-
trilhas do socialismo. Podemos ver que entre estes também meçou a manüestar sua identidade social, quando, em con-
se percebe um elemento castrador que mobiliza o mecanis· seqüência da nova conjuntura sócio-econômica inaugurada
mo vitimizador com suas exigências de sacrifício. pelas cruzadas, as cidades episcopais e os novos burgos, fo-
ram adquirindo maior valor nos séculos XII e XIII na Euro-
Há de se acrescentar a isto que, se o projeto que pa Ocidental. A maior parte dos habitantes destas cidades
buscava plasmar uma sociedade sem classes consegue anular não tinha origem nobre, vinha do grupo social dos servos
até certo ponto as antigas diferenças sociais, também cria da gleba, excluídos do bem-estar do sistema feudal, vítimas
outras, inéditas até o momento da irrupção do processo (sacrificiais) do arbítrio dos senhores. Eram portadores d<.?
revolucionário. O desejo mimético, que tenta reproduzir esperanças que mais tarde foram compreendidas como
"liberdade", "igualdade" e "fraternidade". Levou muito tem-
pautas de comportamento que prevalecem nas sociedades
po para que isto chegasse a ser mais consciente: entretan·
capitalistas, é facilmente visível entre aqueles que fazem
to, esta intenção est.ava presente nos "movimentos pobres",
parte da "nomenklatura" dos países socialistas. Por sua
que se multiplicaram na Europa Ocidental, na segunda
vez, as massas expressam este desejo, buscando ajustar as
metade do século XII e começo do século XIII: os valden-
suas atitudes ao modelo previsto pelas burocracias que
ses, os pobres da Lombardia, os "humiliati", o movimento
administram o sistema socialista. Então o resultado é o
sacrifício da esperança, que significa fundamentalmente a 155
154
franciscano e tantos outros. A veia religiosa dos mesmos uma tensão muito grande na existência dos féis, até o ponto
era indiscutível, por isso suas aspirações revolucioná- de ter que resolvê-la através de mecanismos sacrificiais
rias não poderiam deixar de levar em conta a referência que exigem a vitimização de animais. No tempo do rei
ao povo de Israel e sobretudo o impulso inovador do cris- Manassés, praticava-se o sacrifício dos primogênitos; sob o
tianismo antigo. controle dos sacerdotes foram exigidos sacrifícios de ani-
Ainda que com matizes diferentes, percebe-se algo mais. Mudam as vítimas, mas o mecanismo sacrificial per-
semelhante na origem do movimento socialista, que nos manece e perdura até o nosso tempo como prova o debate
primeiros momentos de sua história (pré Marx) foi forte- sobre o holocausto judeu durante a Segunda Guerra Mundial.
mente influenciado por cristãos progressistas que reagiram Quando a identidade de um grupo social é efetivada,
contra as doutrinas daqueles economistas burgueses (Say, sobretudo mediante símbolos religiosos, produzem-se várias
Denoyers, Bastiaz, Malthus, Ricardo) que afirmavam que a coisas, das quais aqui desejamos sublinhar especialmente ~
r-obreza era fatalmente inevitável em toda a sociedade.
duas. Por um lado, o povo .q1:1e pe~deu a sua.. identi?a~~ \ -::i4'
"\ Cristãos como Sismondi, Saint-Simon, Daniel Legrand etc. polftica e a encontra no rehgioso, e o povo escolhido , ~ $11' .
rJ começaram a propor a prioridade do social sobre o capital
eleito pela divindade para iluminar, dirigir e orientar as (.~.J-1 i) ~

L?
u' privado (de onde a palavra socialismo). Era uma posição
0 ~ ·,. ética, mais sentida do que sistematizada. Cansados de espe-
1.\'U rar e de não receber apoio das igrejas conservadoras, de
um patronato reacionário e de um Estado que tendia ao
absolutismo, os trabalhadores se voltaram em direção à
utopia e ao sonho da formação de empresas autônomas
outras nações. Produz-se, então, uma distinção radical entre j' 41
este povo e os outros, que no campo da produção simbóli- ~
e.a se expressa através da contradição entre o puro e ~ AÍ
impuro. O povo escolhido tem a vocação da pureza, ma:,,- .
não tem outra alternativa senão existir i:ium m~do d •.;JI
V /J
impureza onde a maioria dos seres e das colSas estao conta-)
(Owen, Fourier). A memória dos símbolos bíblicos desem- minados pela imundice. Como, nestas condições, manter a
penhou neste processo um papel muito influente. vocação de pureza? Mediante as cerimônias rituais de sacri-
A partir de 1840, como se sabe, Karl Marx, Friedrich fício que todo judeu deve realizar pelo menos três vezes ~ F-
Engels e outros lutadores socialistas desqualificaram este por ano (Ex 23,14-19; Ex 34,23-25). A Torah, especial.I?ente ?-!" 9.)
socialismo utópico e propuseram um socialismo "científi- na versão sacerdotal (cf. Lv 11-16: sob_r~ o. P1:1fº e o impu- <"º?
!('l
co" que chegaria a ser plasmado materialmente por neces- ro, e Lv 17-26: a lei da santi?ade), vai ~s1stir sobre tudo J( 9 A'-
sidade histórica e não por impulsos éticos. Seja como for, isto. As conseqüências morais se manifestam sobretudo r 1
este tipo de pensamento não deixou de ter referências (embora não exclusivamente) mediante uma moral de nega-
(geralmente não reconhecidas) à religião bíblica. ção, em que as censuras, as proibições e os tabus são mais
importantes que os exercícios de liberdade.
Um período muito importante no desenvolvimento des-
ta última (tão importante que chegou a imprimir um cará- Por outro lado, a distinção entre o puro e o impuro
indica a separação do povo judebu_ (eldeito p~r D) edus, ed assi~
1
ter indelével no judaísmo do séc. V aC e no cristianismo, .1.P
desde o fim do séc. I até hoje) foi o tempo de exílio na como Deus é Santo, o povo tam em eve se- o os ema.is.
Babilônia de um pequeno contingente israelita. Perdida a Percebe-se assim uma religião de ex-clusão, coerente com os ~ . ....,
soberania politica, a identidade judaica foi preservada atra- mecanismos sacrificiais que lhe são inerentes. E é a expres- \1 .....3 ~ ~·
vés da religião, cuja produção simbólica passou a ser são "um contra todos", isto é, Israel contra todas as nações, ~u· 1
monopolizada pelo grupo sacerdotal. Pouco a pouco, a excluídas, a menos que sejam como o povo eleito, o que r ·~'i.
influência dos profetas (tão determinante na revolução significa aceitar sua supremacia e sua direção. Porém, entre
camponesa de 640 aC) sobre a religião expressa no Deutero- os israelitas, isto significa "todos contra um", princípio que
nômio foi deixado espaço para a compreensão sacerdotalis- o sumo sacerdote Caifás expressou dizendo que "convém
ta da religião judaica, com particular ênfase para a distin- que morra um só pelo povo, e não pereça toda a nação"
ção do puro e do impuro, que necessariamente estabelece (Jo 11,50), incitando a sacrificar Jesus.
156 157
..
<\1 \ 1.) E sta unanimidade em torno do müo do puro e do
o,·\.-{ impuro, expressa em ritos sacrificiais, é fundamental para
lrf' compreender a au to-segregação do povo h:.ndu. Trata-se da
"religiosidade pária" da qual fa la Max Weber, seguindo as
da.mental, mimético, sempre irrealizado. Melanie Klein, atra-
vés de sua reflexão psicanalítica, chegou a apontar esta
, ~ eflexões elaboradas por Nietzsche ( A genealogia da moral; realidade indicando os mecanismos da inveja, manifestação
j)-~ ~ Para al ém do béml. e do 11Ull) que tem sua raiz no ressenti- humana que São Paulo colocou entre os frutos da carne
(Gl 5,21), e portanto em contradição com o Espírito (reino
~ mento. Mas por que este ressentimento? O(a) ressentido(a)
vf'.1 ~ aqi:ele(a~ q~e se v_olta contra o(a) outr o(a), por. seu dese- ~) 1k~ da liberdade: 2Cor 3,17).
~ · JO nao satIBfeito. Nao se trata de um dese'}o ob1etal (que J Indubitavelmente R. Otto fez uma das análises mais
r.s9 D persegue um objeto), mas ~m des.~jo de rioolidade. Quer ser .~tJC. profundas do sagrado r eligioso. Parece coincidir com o pen·
' e.. como o outro, mas necessita propor um objeto em torno r sarnento de Durkheim, cuja ênfase sobre o vínculo indisso-
A' 1 "do qual possa estabelecer-se a rivalidade com o outro. Nãoíl~ lúvel entre o religioso e o social não pode passar desaper-
d \
»,, 1
é o objeto que desencadeia a rivalidade; esta surge pelo
E:- desejo mimético. Porém, por outro lado, torna-se insuportá ~í O
cebido p ara ninguém. Porém, há um elemento importante
que permite distinguir a análise de R . Otto da de Durkheim:
r;ál v:l para a pessoa (ou para o sujeito social) chegar à percep- ~. · \) o primeiro sem pre se refere ao sagrado como myst-erium
çao de "querer ser como"; e isto é o que explica a religi
sidade pária e a sua moral conseqüente.
Y.) l
( tremendum et fascinosum). Embora o aspecto t errível e
. e-- fascinante do sagrado já havia sido indicado para Durkheim,
~,( Estes mecanismos e compor tamentos morais não têmy'l'1 / este assinala que o sag~ado (que se manifesta no totem>
não é inerente às coisas, mas acrescentado (su r ajouté) (cf.
cf' sido exclusivos do povo judeu ao voltar do exílio babilôni- 1 ·r~

r ~ :i.'co. Começaram a expressar-se, para depois se manifesta- l Fiormas e'ementares da vida religiosa, p. 328). Pode-se dizer
\.~.i rem amplamente, desde muito cedo entre os cristãos. Por que o mysterium do qual fala Otto ( der Ganz Andere) é um
1 sagrado "religioso".
(' exemplo, no séc. I, os cristãos já compreendiam mal e
~ ~· ~ deformavam a afirmação p aulina "tudo me é licito" (lCor Este último, além de acrescentado às coisas, é adminis·
'.;. ) 6,12; 10,23-30). O cristianismo não pode perdurar na história trado e cuidado por quem tem poder na sociedade. O povo
sem estabelecer tabus, comprovando em sua própria expe- que quer este poder, vítima do mesmo, resiste com ressen-
~'11 ~ riência que não se consegue sobreviver institucionalmente timento. Está movi do pela i."1veja. Porém, minimiza esta
J sem sistemas de proibições. Isto, evidentemente, contradiz mesquinhez com expressões de generosidade que se revelam
o que o autor da Epístola de Tiago chama "a lei perfeita em posições militantes, que chegam até o ponto de dar a
da liberdade" 0 ,25) , que foi estabelecida para colocar em vida (martírio, ou seja, o culto espiritual a que São Paulo
prática a Palavra e não para proibir de agir. Só assim, exorta os Romanos. Cf. Rm 12,1, quando lhes pede que não
conclui Tiago, se pode ser feliz (final do versículo 25) . Aqui se ajustem aos esquemas e estnituras deste mundo)
se pode constatar uma perversa inversão: o maior espiri- para conseguir a tr ansformação deste "vale de injustiças"
tualismo (por exemplo, o da escola de Alexandria, que teve no "reino de Deus".
em Orígenes o seu maior expoente) significa a maior cas-
tração, o maior sa{!rifício da vida, a mais terrível expressão Isto me leva a dizer que, quando se considera a ques-
de autoviolência . .. o ser vítima de si mesmo (masoquis· tão do sacrifício, cabe introduzir uma distinção entre o
mo). Esta tendêndia vai se manifestar em outros momen- sacrifício imposto e o sacrifício que corresponde a uma dis-
tos, tanto na história do cristianismo como na de outras 1>0sição de a11u:>r . O primeiro é vitimizador. O segundo é
religiões: foi o caso dos puritanos do séc. XVII, das guer- martirial. O primeiro preserva a iniqüidade do sistema. O
ras de "religião" entre católicos e protestantes, do Islã Xiita segundo tem uma dimensão redentora O primeiro conserva
a ordem injusta, reproduzida através da força e dos meca-
em nosso tempo e de outros fundamentalismos contemporâ- nismos que o desejo mimético põe em marcha. O segundo
neos. Na raiz de todos estes movimentos percebe-se aquele dessacraliza a ordem deste m undo, tanto política, como eco-
ressentimento que surge como resultado de um desejo fun- nômica, deslegitimando a sua base religiosa.
l i'i8
159
guerra: trata-se de uma calmaria que não permite a saída
dos barcos em direção à meta, que é Tróia.
Ao alongar-se o tempo de espera, o profeta consulta a
.,,.
, deusa Ãrtemis para saber a razão da obstrução. Artemis
PARADIGMAS E METAMORFOSES
revela que a razão se encontra em uma ofensa anterior de
DO SACRIFÍCIO DE VIDAS HUMANAS Aaamêmnon a ela e que tem de ser satisfeita. Como bode
e~iatório, pede a vida de Ifigênia, filha de Agamêmnon.

Franz J. Hinkel.ammert Agamêmnon, sob a pressão do exército, sacrifica a vida


de sua filha, satisfazendo à deusa, que envia o vento neces-
sário para poder sair à guerra. Como resultado, os gregos
chegam a Tróia e conseguem conquistá-la.
Ifigênia é o aval da conquista e, com seu sangue, puri·
fica Agamêmnon, que tinha caido em desgraça diante da
deusa Artemis.
O sacrifício cristão
No entanto, trata-se de um sacrifício enquanto em seu
Quero tratar de esquematizar, para poder desenvolver nome consegue a união dos gregos para a conquista e,
o significado da mudança do sacrifício pré-cristão (pagão) enquanto esta se efetiva, o sacrifício é, ao mesmo tempo,
para a sacrificialidade cristã. Não quero sustentar que o um compromisso. Realizado o sacrifício, a meta do sacrifí-
cristianismo desde suas origens tenha sido sacrificial. Quero cio - união dos gregos e guerra vitoriosa - tem de cum-
antes mostrar como, com o cristianismo, aparece um novo prir-se. Se não se cumprisse, o sacrifício não seria um sacri·
tipo de sacrificialidade que supera, de longe, o sacrifício fício, mas um simples assassinato. Agamêmnon não seria
pré-cristão, ao introduzir as exigências de não efetuar mais um herói, mas um simples assassino. O sacrifício queima as
sacrifícios. Que não haja mais sacrifícios, transformou-se pontes e seu objeto se transforma em uma meta absoluta.
em um novo tipo de sacrificialidade que hoje, em forma Deve cumprir-se ou mor rer.
secularizada, subjaz a toda a sociedade moderna ocidental.
Em uma visão esquemática, pode-se dizer que, neste
caso, aqueles que efetivam o sacrifício, e os que colhem
seus frutos , são os mesmos. O sacrifício, portanto, não é um
O sacrifício pré-cristão
crime, mas sim ameaça sê-lo no caso de não se recolherem
seus frutos. Assim, se se conquistou Tróia, a morte de
.A partir dos trabalhos de René Girard 1, quero esque- Ifigênia teve sentido e foi do agrado da deusa.
matizar o sacrifíc.io pré-cristão do bode expiatório, se bem
que o faça a partir de um exemplo que Girard não mencio- Desta forma, os troianos nada têm a ver com o sacri-
na. Quero tomar o exemplo de Ifigênia, sacrificada por seu fício. São objeto e nada mais. Os gregos são os sacrifica- ~
pai Agamêmnon, na forma em que o apresenta Eurípedes. dores e eles, por t_erem sacrificado, reconhecem a. ~a~a do ~ ~
/l;,tl.; ';'tf sacrifício que reahzaram, o fruto da morte de If1gema. } (>\
O exército grego se encontrava na ilha de Ãulis concen-
trado para iniciar sua guerra de conquista de Trói~. Entre- l 1 Recolhendo com êxito esse fruto, são heróis admiráveis \


1\
tanto, ocorre um fenômeno natural que torna impossível a " \ ·-~ e ninguém os culpará pelo sacrifício. Tampouco há culpa ,1-v '
!J', \ da parte dos troianos. O sacrifício não implica culpa, ma.st.il \,
1 Gffi~. René. La violencia y lo saqrado. Barcelona Anagrama 1983·
El cldvo e:rp:alono. Barcelona, Anagrama, 1986; . El misterlo de nuestro ;,,undo'.
( !.Yf' se torna um ato meritório. Entretanto, para que o sacrifí- ~~
Claves para una interpretación antropológica. Diálogos com J . M. Oughourllan
e G . Lefort. Salamanca , Sigueme, 1982. J p cio seja sem culpa, tem de mostrar sua fertilidade. Elesr)Q)V-
160 ~ ~ \dd\ t 161
,.,

~ ~~·'
que o cometeram têm um juramento de sangue. Se se unem do rio, há árvores da vida que dão frutos doze vezes,
e conseguem seu objetivo, a morte de Ifigênia é uma morte uma vez cada mês, e suas folhas servem de remédio
meritória. Se falham, não foi sacrifício, mas assassinato contra os gentios. E não haverá maldição alguma" (Ap
monstruoso. Cumprir com a meta evita a culpa. 22,1-3).
Portanto, o sacrificador é herói, e o é porque o sacri- "Entretanto, não vi Santuário algum nela, porque o
fício é outra face da vitória. No sacrifício, o herói adquire senhor, o Deus Todo-Poderoso, e o Cordeiro é o seu
a força de vencer, e a natureza, impulsionada pela deusa, Santuário" (Ap 21,22).
se coloca do seu lado.
Esta é a grande esperança de uma Nova Terra, que não
A superação do sacrifício é out ra, m as esta terra sem a morte. É uma terra sem
mor te, sem lágrimas, sem sacrifícios, sem leis (sez:i árvo-
res proibidas). Pode ser sem sacrifícios, porque nao tem
A mensa?em cristã d?~ ~vangelhos exige relações huma-
l\) ?
'7'
/. nas para alem dos sacrif1c10s humanos. Não se trata da
proibi?ão destes sa_c:~cios, mas de uma vida tal que a
proibições legais ou leis. Porque a lei é sacrifício.
"O homem não é para o sábado, mas o sábado é que
~ .~ecess1dade de sacrif1c1os desapareça. Considera-se, portan- é para o homem".
• 1 ~. os sacrifícios humanos como resultado de um modo de
.i ; viver que ~s-~ vin~ul~~o à_ lei. ~or isso, superar a necessida-

1
Se o homem é para o sábado, ocorre um sacrifício
C ~ U' 1 de ~e sacrifícios s1gnif1ca ir alem da vigência da lei. A supe- humano a um ídolo, que se chama sábado. Aparece, portan-
~ raçao da necessidade de sacrifícios humanos é portanto to, uma dívida impagável. O homem que é para o sábado
\ ':í' uma superação do legalismo do qual resultam. Ao ,superar os' é o homem que tem uma dívida impagável, que lhe é cobra-
, 'f sacri~Icios ~umanos, ?retende-se ir mais além da vigência da. A lei o escraviza, enquanto não se pode cumprir a lei.
~ legalista, alem das leis que, por sua forma legal, levam à Porém se descobre que, quando a lei é o critério da justiça,
exigência de sacrifícios humanos. nenhuma lei pode ser cumprida. A lei, enquanto critério da
Surge a imaginação de um novo paraíso, ao qual se dá justiça, é necessariamente sacrifício humano.
o nome de Nova Terra. Não é volta ao paraisa perdido que "A lei mata", diz Paulo.
é um paraíso com árvore proibida e, portanto, um c~pri­
mento paradisíaco de uma lei. Não se deseja voltar a este Superar o sacrifício humano não pode ocorrer pela jus-
paraíso para prometer que, desta vez, não se violará a lei
ao comer da árvore proibida. tiça da lei, porque, enquanto se buscar a justiça do cumpri-
mento da lei, a lei exige sacrifícios humanos. Por isso,
A Nova Terra é um paraíso sem árvore proibida, no quando aparece a idéia da superação do sacrifício, aparece
qual se pode comer de todas as árvores. Eva dá a maçã a ao mesmo tempo a idéia de que a justiça não pode estar
Adão, ambos a comem e Deus aplaude: aprenderam o que no cumprimento de nenhuma lei, independentemente de seu
é distinguir o bem e o mal. conteúdo. A lei amarra o homem e o destrói.
A Nova Terra é uma terra sem sacrifícios humanos, Se a justiça não está no cumprimento da lei, tem de
que se encontra além da necessidade desses sacrifícios. ser soberana diante da lei, ela tem de ser um critério de
"Desfrutará da árvore da vida" (Ap 22,14). discernimento da lei. Isso constitui a mensagem do amor ao
próximo. O amor ao próximo relativiza a lei e à sua luz
"A seguir me mostrou o rio da água da Vida, brilhante pode-se decidir até onde se pode cumprir a lei e onde não.
como o cristal, que brotava do Trono de Deus e do A justiça está no amor ao próximo e a lei nunca é justa
Cordeiro. No meio da praça, de uma a outra margem por cumprir-se. É justa sempre e quando não determina
162 163
f1-.? . l'~ .
.v-r º'\> z..
~ã~ alguma contr_á ria ao amor ao próximo. 2 Por isso a ~t
(J) Para os que se fixam na lei, o crime não consiste no { l<'-r?
Justiça_ i:ior cumpnmento da lei é destruidora e constitw ~";) sacrifício humano. O crime consiste na violação de uma \l ~Xi
u_ma di~1da_ impagável. Perdoar a divida é, por isso, renun- O )"' .J lei. o sacrifício não viola leis, mas as cumpre. Por isso, 11~
ciar à J~;iça pel_o cumprünento da lei. A oração do pai- não pode haver uma lei que proíba os sacrifícios humanos, ~~ u"
nosso - Perdoai as nossas dívidas, assim como nós per- ~I\ a não ser al~as expressõe~ _d~les (como por exemplo o J j..
doamos a nossos devedores" - diz exatamente o mesmo \} sacrifício religioso) . Os sacrif1c1os humanos se superam, jJ '-
q~e a outra: "O homem não foi feito para o sábado mas o dissolvendo-se a busca da justiça mediante o cumprimento
J sabado_foi feito para o homem". Perdoar aos devedores é das leis, subvertendo-a. Sacrifícios humanos se superam,
renunciar ao cumprimento da lei como caminho , · t" perdoando-se as dividas que as leis estabelecem. Trata-se
Não t a JUS iça. da flexibilidade da lei diante da justiça, que emana do amor
se r~ta somente de dividas financeiras mas de todos
os cumprimentos das leis que o homem deve. Aquilo que ao próximo, do reconhecimento do outro, anterior à lei.
o homem de~e, ~nquanto lei a ser cumprida, é divida. (Paulo fala desta justiça como lei de Deus. Isso tem tido
A_o buscar a Justiça no cumprimento da lei, todas as di- conseqüências fatais, porque não se trata de uma lei, cujo
vidas se tornam impagáveis. Transformam-se em sacrifícios cumprimento produza justiça. Não é, tampouco, lei natural.
humanos. É um critério de juízo sobre toda a lei e, por isso, não
pode ter expressão legal) .
tad Por isso, e~se cristianismo vê o pecado como um resul-
o do. cumpnmento de leis. O pecado se comete cumprin- Por isso, este cristianismo não considerou a crucifica-
do ~ _1~1, não violando-a. No mesmo sentido, se praticam ção de Jesus como um crime ao qual corresponde um
sacz:r1c1?5 humanos, cumprindo a lei. Assim, toda a busca castigo. Crime e castigo pressupõem a violação da lei. Aqui
a lei produz a catástrofe, que é a catástrofe da lei. Por isso, ft !'.
da Justiça pelo cumprimento da lei produz sacrifícios
humanos. os evangelhos não falam de um crime. Não culpam a nin- Q 'i
guém, exceto a lei. Sobre os executores da morte de Jesus,
- Esta é também a primeira interpretação da crucifica- porém, se diz: "Perdoai-lhes porque não sabem o que fazem". 1!'~ ~
çao c~mo um sacrifício. Insiste-se que Jesus foi morto Ao sumo sacerdote fazem-no dizer: "É melhor que um Ji~
~~mprmdo-se ~ lei. Não importa se é a lei mosaica o~ morra, ao invés de todo o povo". Esta expressão estabelece ' J vr"
mana. É a lei que mata a vida e o autor da vida enquan-
to se busca a justiça em seu cumprimento. ,
Perdo!1'r a dívida é perdoar os cumprimentos da le· .
a morte de Jesus como sacrifício. Jesus é sacrifício em
cumprimento da lei e na busca da justiça, mediante
cumprimento da lei.
º! Ji :
/ /
~ 0
1.

1 a superaçao_ de sacrifícios humanos. Não é, automatica.:n:n~ Sendo a morte de Jesus um sacrüício da parte de seus j
te, ~a sociedade sem lei, mas um discernimento da 1 . executores, é produto de uma justiça que se busca pelo
partir de um~ justiça, que antecede à lei e é expressa :1~ cumprimento da lei. Jesus, em contrapartida, não se sacrifi-
~mor a~ próximo. Esta justiça é simplesmente a atitude que ca em cumprimento de uma lei. É seu rechaço ao sacrifício
usca vi~er s~bre_ a base da possibilidade de vida de todos que o condena à morte. Porém, este rechaço é realmente
~s de~ais. A Justiça .P?r cumprimento da lei não pode rea- uma "deslegitimação" da lei. Não viola nenhuma lei, mas
lizar isso, a~ contrario, destrói-se essa justiça. Por isso, "deslegitima" qualquer lei. Sua morte, assim, é revelação
para que haJa essa justiça, as dividas que estabelece a lei do pecado que se comete ao buscar a justiça pelo cumpri-
devem ser perdoadas. mento da lei.
2. Ver HINKELAMMERT Franz J Creio que insisto mais na função da lei do que o faz
José, DEI, 1931. Segunda ecli -
0 reviSa Las armas ideológicas de la muerte. San
Jf
Richard e Raul Vidales p 1 194 1 ~a e ampliada com introdução de Pablo René Girard, porém, creio também que nestas análises estou
li el Sdipo occ:denta./. ' saii Jo~c!. ri~~ª·rn1:J~~t. Ed. Paulinas); La /e de Abraham quase totalmente de acordo com ele.
164 165
O sacrffício humano como crime
ifícios sacrifica. Portanto, agora vem o sacrifício
os sacr if"cad'ores a crucifixão dos crucificadores. É a ma-
O cristianismo n ão tem conseguido sustentar esta sua dos sacr i ' rif' · h a
. a1 cristianismo recupera os sa.c ic1os um -
posição original. Em pouco tempo transforma o rechaço ao qu 0
nerra. natifi"cando-os ·d h
como passo para uma vi a . um ana sem
sacrifício em consideração do sacrifício humano como cri- nos, JUS
me, quer dizer, violação de uma lei, mesmo que agora a sacrifícios.
chame de lei de Deus. Porém, enquanto é violação de urna A Epistola aos Hebreus descreve isso da seguinte
lei (de Deus) é sacrificial. Não apenas os executores de maneira:
sua morte efetuaram um sacrifício, Deus também o sacrifi-
1-;ca e Ele mesmo também se sacrifica. "Ora todo sacerdote (pré·cristão) se apresenta dia ª!'ás
dia para exercer o serviço sagrado e of~rec~r mwtas
11
~ Assim, ao ser executado J esus, há vários sacrifícios que vezes os mesmos sacrifícios, que nunca Jamais podem
} (\ f t' se en~remeiam. O sacrifício da parte de seus executores - remover pecados.
'j µ autondades romanas e judaicas - é um sacrifício em cum-
'/ V1 primento de uma lei que não é lei de Deus. É oposição à Jesus (Cristo, como Sumo Sacerdote?,_ ~orém, tendo
. i) lei de Deus. Porém, há, ao mesmo tempo, um sacrifício oferecido, para sempre, um único sacrif1cio pelos ~eca­
\ 1 dos assentou-se à destra de Deus, aguardando dai em
\>'
G }-' /1 se divino, que estabelece a lei de Deus e a torna viável. Trata-
di~te até que os seus inimigos sejam :postos por estra-

~?f'
de um sacrifício do próprio Deus, em razão de sua lei,
~ que elimina, para o futuro, todos os sacrifícios e os conver- do dos seus pés.
1 ~,r- te em crimes. No sacrifício de Jesus há, então, um sacrifí- Porque com uma única oferta ~I?erfeiçoou para sempre
cio que é crime e outro que é a r edenção de todos os todos os que estão sendo santificados.
sacrifícios. Aparece um sacrifício original infinitamente gran-
de, que a própria lei de Deus exige a o ser cumprida. O E disto nos dá test-emunho também o Espírito Santo'.
conteúdo desta lei de Deus é que não haja mais sacrifícios porquanto, após ter dito: _'esta é .a aliança que fara~
humanos, que não haja mais dívidas, que não haja morte. com eles, depois daqueles dias - diz o Senhor -, porei
Porém, tudo isso, agora, como resultado do valor infinito nos seus corações as minhas leis, e sobre as suas men-
do sacrifício original. A eliminação dos sacrifícios se trans. tes as inscreverei', acrescenta: 'também de ne~u~..1:Ilº-
forma em algo sacrificial. do me lembrarei dos seus pecados e das suas imqwda-
des, para sempre'.
Esta transformação já começa na própria mensagem
cristã, mais expressamente na Epistola aos Hebreus. Da Ora, onde há remissão destes, já não há oferta pelo
contradição dos termos - um sacrifício original, cuja ferti- pecado" (Hb 10,11-18).
lidade consiste em eliminar todos os sacrifícios - passa-se
a wn conceito social. Há, agora, uma polarização entre os Entretanto, que fazem aqueles que voltam a fazer sacri-
que continuam cometendo o crime do sacrifício e os outros, fícios pré-cristãos?
que ~ceitam o sac1 .J:íci~ redentor de J esus para não sacrifi-
~ \\> •, car m ais a Jesus e a todos os homens nele. "É impossível, pois, que aqueles que uma vez foram

~~ \ \ -~ Y ~acrifício pela relativização da lei, pas-


iluminados e provaram o dom celestial e se tomar~m par:
Da dissolução do ticipantes do Espírito Santo e apesar de tud~ ca1ram, . e
'ri- ?OU-se a uma nova lei que proíbe os sacrifícios. Portanto, impossível outra vez renová-los para o a~ependimento, .vis-
'Ué necessário castigar aqueles que violam esta lei. Porém, o to que de novo estão crucificando para si mesmos o Filho
'(' 1' castigo em cumprimento da lei torna a buscar a justiça no de Deus e expondo-o à ignomínia" (Hb 6,4 6) .
~ t cumprimento de uma lei, desta vez a de não sacrificar. En-
1 tretanto, em nome da justiça, m ediante o cumprimento de A idéia de que aqueles que crucii'.icarn a Crist~, que o
~.!, uma lei, aparecem os sacrifícios. Também a lei, que proíbe abandonam, que não crêem nele, recebe d esta maneira ~a
referência de fundo extremamente agressiva. Nunca mais
lC:ô
167
Cristo deve ser crucificado. Eles porém tornam a crucificá-
lo. Portanto, transformam-se em inimigos de Deus, aos quais julgar a lei, porque a justiça que se busca pelo cumprimen-
se acusa de estar golpeando, chicoteando e ofendendo a to da lei torna impossível o amor ao próximo e destrói o
Cristo. Não pode haver outro sacrifício, porém eles sacrifi- ser humano. Atua por crime e castigo e o castigo reproduz
cam novamente a Cristo. Justamente por realizarem sacri- constantemente o crime, contra o qual se dirige. Pede-se
fícios do tipo pré-cristão, isto é considerado uma nova cru- perdoar a divida, enquanto que a justiça pelo cumprimento ilv
cificação de Cristo: da lei é a cobrança de uma divida derivada da lei. ·l'

t

"P?rque, se vivermos deliberadamente em pecado, de- Agora, este mesmo critério de juízo é transformado em ~ ,)i f ,
pois de termos recebido o pleno conhecimento da verda- lei, uma espécie de lei fundamental, acima de todas as leis.j'N 1 /
de, já não resta sacrifício pelos pecados; pelo contrá- Porém, o amor ao próximo transformado em lei é o contrá-
rio, certa expectação horrível de juízo e fogo vingador
prestes a consumir os adversários.
rio do amor ao próximo como critério de julgamento de i ~ c f
todas as leis. Como lei, o amor ao próximo passa por crime 1 ,/
Sem misericórdia morre pelo depoimento de duas ou
e castigo. Deve-se castigar aquele que não ama o próximo. e
Deve-se persegui-lo e matá-lo, se necessário. O castigo repro~
três testemunhas quem tiver rejeitado a lei de Moisés. duz tudo o que em nome do amor ao próximo se proíbe'. <Í1 1

De quanto mais severo castigo julgais vós será conside- Não desfaz a dureza da lei, mas a reproduz. Enquanto crité- ~-
rado digno aquele que calcou aos pés o Filho de Deus rio, entretanto, o amor ao próximo pede o p erdão das dívi- ,,...
J~
1
e profanou o sangue da aliança com o qual foi santifi- das, a relativização da lei. Enquanto lei, o amor ao próximo 1 "
cado, e ultrajou o Espírito da graça? não pode perdoar a dívida da lei, porque é uma lei que se OJ ll"
Ora, nós conhecemos aquele que disse:
justifica através do seu cumprimento. L:
~
1 J .
A mim pertence a vingança; eu retribuirei. Ao contrário, já não há instâncias diante da lei, porque~~.../f-N/
aquilo que era essa instância é transformado em lei. Por . M:J
E outra vez: isso, já não pode haver perdão das dívidas. Esta lei não .J '~
pode ser relativizada. É lei absoluta e inquebrantável. Neu-
O Senhor julgará o seu povo. Horrível é cair nas mãos tralizou o critério sobre a lei para criar a lei mais inclemen-
do Deus vivo" (Hb 10,26 31). te que se possa imaginar. O cumprimento da lei é agora o
amor ao próximo e, desta forma, já não falta o amor ao
. Do Deus Abb~-!'ai se passou ao Deus terrível, que sacri- próximo para interpretar a lei e seu cumprimento. 3
fica os seu~ sacrificadores e crucifica os crucificadores. o
"nur_i~a mais sacrifícios" transformou-se em sacrificar os
sacrifica~~r~s; o "nunca mais crucificação" transformou-se
em crucifixao de crucificadores. Todo sacrifício é conside- O esquema sacrificial resultante
rad~ ?':111ano e, portanto, todo sacrifício é participação na
crucif~ de Jesus. ~da que os romanos sacrifiquem Somente nesta forma o pensamento cristão sobre a lei
galos, _galinhas e cordeiros, é Jesus que é sacrificado nestes e a fé pode ser integrado pelo império. Quando o império
animais. romano se cristianiza, o cristianismo dá este passo que
permite sua transformação em cristianismo imperial. O
A !legação dos sacrifícios transformou-se em lei a ser império que se cristianiza imperializa o cristianismo. Isso
cumpi:da, que pas~a a sacrificar. Ao voltar a justiça pelo ocorre no século IV, porém é atualizado como império
cump~ento da lei, volta o sacrifício humano. Volta, embo- cristão somente a partir do século XI, na Idade Média
ra a lei proíba os sacrifícios. européia.
Nos Evange~os e em Paulo o amor ao próximo e, por-
3 Ver a análise da teologia de Anselmo de canterbury em HINKELAMMERT,
tanto, a superaçao de todos os sacrifícios são critérios para Franz J. "Enfoque teo1óg!co de la deuda externa", em Pasos, n . 17, maio.junho
1988, San José, p . 11-19.
168
169
. ":::i
~«io t1
·,1 f
X ">
tb . ti .
, •"' A
gora, o cns amsmo t orna-se d efimtivamente
...
sacrifi- a cruzada contra inimigos externos da sociedade, inimigos
' }//'~) cial .. ~ ~ei absoluta precisa de. um sacrifício absoluto que é o internos e inimigos no interior de cada um, sua inclinação
sacrifício do homem-Deus Cristo, que, por sua morte na para os instintos corporais, o pecado. ·
cruz, estabelece wna nova lei, que não é nem mosaica nem
romana, mas a lei de Deus. Lei de Deus que salva por seu Em nome do sacrifício de Cristo, o império cristão
cumprimento e frente à qual não há questionamento. É uma
J lei universal, frente à qual nenhum preceito tradicional ou
luta contra os que voltam a sacrificar e, portanto, voltam
a crucificá-lo. Sacrifica-os para que não haja mais sacrifí-
particular mantém vigência, e é lei anticorporal, diante da cios; crucifica-os para que Cristo não seja crucificado nova-
qual nenhuma necessidade humana tem a menor legitimi- mente. Volta ao sacrifício, porém volta de maneira n egativa.
dade. Melhor, do corpo e de suas necessidades fala o demô- Já não é o sacrifício pré-cristão, que é sacrifício legítimo
nio, que é Lúcifer (Bernardo de Claraval) . O que aparece é e fértil. Trata-se agora de sacrificar para eliminar sacrifí-
• uma aplanadora sacrificial. cios, criar um mundo sem sacrifícios. O sacrificio é um
\;,[~.... .Basei~-se en: um universalismo anticorporal, que subs- anti-sacrifício sacrificial.
•. v> titm. o_ um~e.rsalismo corporal adjacente à tradição judaica Portanto, quando o império se define por este universa-
)Y -\'\ • 1 e cnsta ongmal. Também esta última é antimágica, já que lismo ant.icorporal, estalam as fogueiras para queimar seres
t.f\ todo o univer_salismo ? é. Contudo, como universalismo humanos vivos, diante das catedrais da Europa, sob o olhar
corporal questiona a lei em nome da possibilidade de vida complacente de Deus-Pai, diante das multidões que acompa-
de cada um dos membros da sociedade, isto é, do amor ao nham este sacrifício cantando o "Te Deum". Trata-se da vol-
próximo, sendo o próximo um ser corporal, cuja alma é ta de sacrifícios humanos religiosos, que até as sociedades
vivificadora deste corpo. Portanto, para este universalismo pré-cristãs já tinham abolido há milênios. No decorrer de
corporal, das expressões corporais e das necessidades corpo- cinco séculos, milhões de seres humanos são sacrificados
rais, fala a voz de Deus sempre e quando são intermediadas como hereges ou bruxas.
por este amor ao próximo, que é a justiça. O universalismo
anticorporal deslegitima o corpo, cria um dualismo corpo/ Contudo, os cristãos não percebem sequer o fato de
alma, orienta o amor ao próximo em direção à alma e que voltaram os sacrifícios humanos. Têm um aspecto dife-
deslegitima e, ao final, convoca à destruição do corpo. Por- rente para eles: são lutas contra os sacrifícios humanos,
tanto, do seu ponto de vista, do corpo e suas necessidades passos no caminho de sua abolição. Os sacrifícios humanos
ão fala Deus, mas o demônio. continuam acontecendo, porém se tornam invisíveis. Por
fi f' isso, quando os conquistadores cristãos vêm à América,
:i.VI O império cristão é portador deste universalismo anti- escandalizam-se dos sacrifícios humanos das sociedades
).. t >"J 1 corporal que permite realizar um poder, que anteriormente Asteca ou Inca. Nem sequer lhes ocorre que isso pode
'- ,;:> ... , nunca havia s ido visto. É o primeiro poder que efetivamen- ser algo equivalente aos seus próprios sacrifícios humanos.
"' te aspira à dominação universal sobre a humanidade inteira Portanto, queimam agora, vivos, diante de suas catedrais,
e que consegue os meios p ara consegui-la. O império cristão aqueles indios que consideram culpados de realizarem os
_1encarn~ este ~iversalismo anticorporal como seu instru- sacrüícios humanos, dos quais se escandalizavam. Na reali-
. 'r?ento id~ológico de poder. Expansão imperial e universa- dade, apenas os substituiram pelos seus próprios . . Além
hsmo anticorporal se identificam. disso, provavelmente, os sacrifícios humanos do ocident~

~
ti O s~crif~cio
de ?risto é o sacrifício fundante de sua lei
))e dommaçao. Porem sua lei de dominação é que Cristo
cristão da Idade Média superam de longe, em quanti-
dade os sacrifícios humanos efetuados por estas civiliza-
nunca mais seja crucificado, que não seja crucificado outra ções ' arcaicas.
vez. Continuar os sacrifícios é blasfemar o sacrifício de Gutiérrez é um dos poucos que desenvolvem este papel,
Cristo; não lutar contra os que continuam crucificando-o é que esta anti-sacrificialidade sacrificial significou na con-
escapar egoisticamente da vontade do Senhor. Esta luta é quista na América. Demonstra isto especialmente no con-
170 171
~~n~~sentre Ga:cía de T~l:_do com Bartolomeu de las Casas. que recebe o prêmio derivado do juízo, é ele mesmo o
ume assim a pos1çao de García de Toledo: sacrificador e, como tal, o herói. Os troianos são objeto
"O - . deste sacrüício, que se volta contra eles. A única vincula·
ualexito da campanha 'lascasista' (de las Casas) na ção entre troianos e gregos, que lança culpa sobre os troia-
q embarcam enganados 'todos os teólogos' si~­ nos, é o fato de que Heitor, o troiano, seqüestrou a grega
~=v: o regr~sso ao primeiro engano, à idolatria": comen- Helena. É uma violação de um direito. Todavia, de nenhuma
scandalizado o autor. "Vejam que ardil tão delicado maneira isso é interpretado como participaçã-0 no sacrifício
fr%ª
.
etorna~ !". lançar as trevas da infidelidade e idola-
sacrif1c1? de homens e comer carne humana e
de Ifigênia. É razão para a guerra, mas não é um problema
de moral. Assiro, aqueles que realizam o sacrifício e o defen-
viver como animais". 4 dem são também aqueles que se aproveitam dele. Por terem
sacrificado Ifigênia, os gregos recebem o mérito do sacrifí-
De acordo com Gutiérrez S . cio dela. Todo o circuito é positivo. O sangue de Ifigênia
ainda mais ni D , armiento de Gamboa insiste
quistador sso. esta forma, a idolatria do ouro dos con- frutifica naqueles que o derramaram. Derramaram-no para
São os c~n~~:a! sombra desta.sua antüdolatria aparente. que dê frutos para eles e recebem os frutos, porque eles
Todavia eles o . otres que realizam sacrifícios humanos. realizaram para si o sacrifício. Este sacrifício é um ato
' s m erpretam e os · heróico, não é crime.
ações contra a idolatria e sacrifício~v~:ncomo se fossem
anos. Por outro lado, no sacrifício universal cristão, o grupo
Este sa rifí · · inimigo dos cristãos é a humanidade inteira, enquanto não
que mostr~osci;a~~~=~i=~~;: sacrif~~~ particular,
0
cristã, e nenhum grupo concreto. Todas as suas atuações
nia por seu pai Agamêmnon O no s~riflcio de Ifigê- são sempre o caminho de participação no sacrifício de Cris·
. esquema e o seguinte:
Em Cristo ocorreu um sacrif· . h
to; é um crime. O cristão é também constantemente seduzi·
\ me. Os inimigos de Cristo ic10 umano, que é cri- do a este mesmo crime. Salva-se na medida em que resiste
tendo-o ao resistir ao c . ot"cOI~eteram e continuam come-
I)•
às tentações e se lança contra os inimigos de Cristo. Os
este sacrifício é chamadons It~mo. Aquele que é contra cristãos são o grupo que se libertou do sacrifício e os
Cristo Na-o m . d a u ar contra estes inimigos de outros continuam realizando-o. Os libertados lutam contra
ais eve ser c ificad
destruídos, se não se conve:~.
·
o. Portanto, devem ser os outros, que são os culpados.

A culpa deste sacrifício é de todo . Este sacrifício universal pressupõe uma ética universa-
tãos. Todo pecado, desde Adão s .e tam.b~m ~os cris- lista, à qual todos estão submetidos e que se reivindica da
sacrifício de Cristo. Contudo e Eva, e parhc1paçao neste parte de todos. Certamente, não se trata de uma lista de
culpa e se unem à luta de e' .P:ra os que co~essam sua normas, mas de um critério para a geração de todas as
ns o, esta culpa e perdoada.
normas. Não é uma lei ditada, mas uma lei fundamental,
Eles se opõem aos · · . .
crucificando-o e mostralillllllgos de Cnsto, que continuam que rege qualquer lei conceitua!.
da culpa de ~ haver crumil· po~ sua l?ta, que estão salvos u\·
bém contra eles mesmo~ ~ca o. Po:em, sua luta vai tam-
Ela é o amor ao próximo transformado em lei. Trata- • [.t' i
instintos corporais por se~ ~6se . dei_xarem levar por seus se de uma lei que, evidentemente, já não se pode relativizar l
abandonar a c · t ' P pno ntmo de vida voltam a nos termos de Paulo, em nome do amor ao próximo. Cons- ,~
ns o e a crucificá-lo. ' truiu-se um mundo, no qual a destruição e a submissão do ;"' ,
Houve, evidentemente uma próximo são o único caminho para amá-lo verdadeiramente. cJ. ~
ção ao sacrifício de mgêma· N~rofunda mudança em rela- É uma lei de Deus, inquebrantável, na qual a justiça está Ut
cul . · ao ocorreu a Agam -
par os troianos pelo sacrifício de If"igerua. emnon
- . Agamêmnon, no cumprimento da norma. Não há aqui lugar algum para• ~ ~"
qualquer perdão da divida, porque a dívida consiITTe em ') .\i.t
4. Ver ~REZ Gusta
p. 66. . •
.
vo. Dias o el oro en las Indias. Lima, CEP, 1989, cumprir com esta lei. ~V~
172 173 btffJtJ
Toda a critica da lei, feita pelos evangelhos e Paulo, . v'~
P
~.l-
. como uma violação de direitos hu- ,i' Ót>
foi neutralizada e transformada em uma máquina de agres- não-burguesa e tra!:~ªcontestada com violações. Porém •. ? ~~
são. Os sacrifícios humanos são as conseqüências. manos: que dev~ola ão dos violadores torna de novo in~1- ~ ,
meca~m?o~ã:; Açsociedade burguesa par ece ser ª. socie- 'li. ~
vel es vi . . dos direitos humanos, assrm co- ',i>
A secularização do sacrifício universal : : ead~d~~~o~:~:e;!~ecia ser a sociedade sem sacrifí-~~~
../
cios humanos. . . ~~
A ideologia burguesa do século XVIII seculariza este
esquema sacrificial. Faz isso colocando no lugar do Cristo . . . h umano da Idade Média
Do sacrif1cio - - este
. ·tanti-sacri-
huma-
sacrificado a humanidade ofendida. No lugar do homem . . rificial - passou-se à violaçao dos direi os .
flc10 _como
sac uma ant·iv10
. laç-ao destes direitos
. • que . os viola.
cristão a serviço de Cristo, aparece o indivíduo proprietário.
nos . - . invisível. na América Latina existe uma
A ofensa à humanidade se torna agora a negação da proprie- Esta violaçao e t rt . dirigida evidentemente pelo go-
dade privada, e a crucifixão dos crucificadores é substituí-
da pela luta contra todos os que não se submeteram ao ~:te~~~ ~~t~::s ~ni~. Mas não se vê, embora todos
regime da propriedade privada. No lugar do amor ao próxi- saibam que existe.
mo aparece o interesse geral, em cuja busca é concebida Toda a ideologia burguesa não é muito mais. que e_sta
toda a sociedade. John Locke fala, agora, da escravidão para . - da teologia ortodoxa da Idade Média, a~li~a­
os que nos querem fazer escravos, do poder despótico para
aqueles que nos querem impor um poder despótico, da
expropriação dos que nos querem expropriar, da guerra
seculanzaçao
da, ago:a'. ~
mo Ps=~ação
::s:ia
·. tá . privado. Mas o próprio soc1alis-
~~tas mesmas posições, baseax;id~ as
econômica dentro da p:oprie~ade pubt_lica~
contra aqueles que nos querem fazer a guerra: nenhuma na . . , um universalismo an icor
liberdade para os inimigos da liberdade (Saint-Just). Também o próprio stahms_mo e na divisão social do
poral, basead? na inte~raç~~a~oto:o: propriedade pública
O mesmo mecanismo, que n a Idade Média tornou invi- trabalho mediante a - p an i artir da meta da satisfação das
síveis os sacrifícios humanos, agora torna invisível a escra- dos meios de prod:içao. A p iatismo desemboca no esvaz:a-
vidão liberal, o despotismo liberal, a expropriação do mun- necessidades, tam_bem este so_c transformá-las em mera
do inteiro, os povos indígenas e a perda da liberdade p ela menta das relaçoes corporais ao
identificação com esta lei absoluta. Volta uma lei inquebran- força produtiva.
tável como era a lei da I cmde Média, e trata-se sempre ainda
do amor ao próximo, enquanto lei, m esmo que se chame
agora interesse geral ou bem comum. Assim como no esque- o antiutopismo
ma cristão eram pagãos, agora ofendem, por sua mera exis-
tência, a humanidade, uma ofensa à qual o homem burguês Diante do socialismo, o pensamento b:Uguês nãoÉpode
tem que responder com uma guerra justa.
. minhos do universalismo anticorporal. sua ~{
Cada vez mais sua própria existência é interpretada ::;:',~ ~:r~o. Portanto, volta·se, agora, ~ontra o ~róprio ·N
como violação dos direitos humanos, violação à qual o ho- universalismo, ~mbora na b~e ~~i:pJes=~~~ ªa r::;~~~~:~Í 1 '
mem burguês responde violando direitos humanos deles. tra o universalismo corpora ~ . ão Contudo "' 1 ,, ,
Viola direitos humanos nos supostos violadores de direitos provocação p ara qualque~ tipot dae r~~mçã1::do ~versalis:e.uv "( J.l
d sempre e necessanamen e . .
te ele permite a instituciona- /; ~ ,. 1
humanos, volta a sacrificar os sacrificadores, agora em a)
pro uz ..
mo anticorporal, Jª que SOJ?en alismo corporal pretendia. '~ ~· ~

'r· .
termos secularizados. Porque a violação dos direitos huma-
nos é vista como violação da humanidade, e à violação se liz - daquilo que o umvers t .V.
responde com violações. E já que o direito burguês define
açao . . . aliz. lo tende-se a perdê-lo. Den ro
Contudo ao mstitucion a- '
do movfuiento socialista do sé?ulº
XIX
'
. portante é
~ 1:n
nítido uni- ,,
ª\"
•o
o que são violações e o que não é, a própria existência passagem do anarquismo utópico - que ~

174 175
versalismo corporal - para o socialismo institucionalizado, nhos; e tampouco cabe qualquer dúvida de que não
) que desemboca no socialismo stalinista do século XX. seria difícil trazer o céu à terra, se nos amássemos uns
~' ·'°,<)!(' O resultad o é a rebelião burguesa, contr a a igualdade aos outros. Porém . . . a tentativa de trazer o céu à terra
nt yj dos homens, iniciada por Nietzsche. É uma rebelião pró- produz, como resultado invariável, o inferno. 155_? gera
}' ~ ~ ~~ escravidão, de dimensões universais. Sua primeira forma é a intolerância, as guerras religiosas e a salvaçao das
y ~
'J
/'>
o nazismo alemão, que se levanta contra a igualdade dos
homens para denunciá-la em qualquer de suas formas. O
almas mediante a Inquisição". 6
1 Contra o amor ao próximo que, segundo Popper, quer
1' \I_ S 1denominador comum do seu ataque se encontra no anti-
f \' ri semitismo. Como a r aiz do universalismo corporal é judia, 0 céu na terra, mas produz o inferno, apar~ ag~ra_ a t~l~­
iJ.,. ~ o universalismo anticorporal também é, embora seja uma rância e a negativa à inquisição. Para que n~o ha1a ~~ws1-
~,\.~~ reaçã? contra_o primei:º.: E_ntão, todo o Ocidente é judeu ção - quer dizer, sacrifícios human~s . - e necessano re-
r ~\'~ J OS JUdeus sao a perdiçao ."
nunciar a levar à terra o amor ao proxrmo, para poder ser
tolerante.
"f \~rf.') Após a derrota do nazismo, o mundo livre assume esta
Contudo, Popper faz agor a com a tolerância - a não-
' mesma posição, suprimindo do esquema toda a menção anti-
semita direta. Porém continua sendo um pensamento que inquisição - o que o inquisidor já havia fe~to com o amor
persegue agora todo o universalismo corporal como raiz do ao próximo: transforma-a em uma nova lei absoluta.
mal e renúncia ao universalismo anticorporal que foi a res- "A t olerância ilimitada deve conduzir ao desaparecimen-
posta milenar ao milenarismo corporal. Portanto, se opõe to da tolerância. Se estendermos a tolerância ilimitada
i~ao universalismo em todas as suas formas, na medida em mesmo àqueles que são intolerantes; se nos achamos
.~ que continua afirmando a igualdade dos homens, mesmo
que seja somente como alma, excluindo o corpo. O resulta- preparados para defender uma sociedade tolerante con-
do é o antiutopismo, que vem desde Nietzsche, passando tra os atropelos dos intolerantes, o resultado será a
pelo nazismo, até o mundo livre. Ao levantar-se contra a destruição dos tolerantes e, junto com eles, da tolerân-
igualdade, levanta-se contra o amor ao próximo como tal. cia . . . Com esta colocação não queremos significar, por
Popper o resume assim: exemplo, que sempre devamos impedir a expressão de
concepções filosóficas intolerantes; conquanto possamos
"Todos temos a plena certeza de que ninguém seria contestá-las mediante argumentos racionais e mantê-las
infeliz n a linda e perfeita comunidade de nossos so- em xeque diante da opinião pública, sua proibição seria,
por certo, cont raproducente.
5. Osc:ar Levy, o tradutor de Nietzsche para o inglês, diz em 1920: "Assumi·
mos a atitude de salvadores do mundo e nos Jactamos de ter dado ao mundo
seu 'salvador' - hoje em dia continuamos sendo somente os sedutores do Porém, devemos proclamar o direito de proibi-las, se
mundo, seus incend!ários , seus verdugos. . . Prometemos levá-los a um novo
paraíso, e somente tivemos êxito em levá-los a um novo inferno". Ver Oscar necessário pela força, pois pode suceder que não este-
Levy, introdução ao livro de PITT·RlVERS, George. The World Signi/ication jam destinadas a se imporem no plano dos argumentos
o/ lhe Russia11 Revolutio11. Londres, 1920, segundo POUCEKOV Leon Geschichte
des A,ntisemítismus. Am Vorabend des liolocausts. Bd . VI"Il. Fra.Ókrurt a/M, racionais, mas, ao contrário, começam a acusar tudo
Athenaum, 1988, p. 83. No mesmo sentido !ala Hitler: "O Judeu percorre seu
caminho fatal até o dia em que outra força se levanta diante dele e . em que seja racioE.al; assim, podem proibir seus adeptos,
combate descomunal , devolve a Lúcifer aquele que havia bu..ccado assaltar o
céu". Mcin Kampj, p . 751. "CO judeu) acha que tem de submeter a si toda por exemplo, de darem atenção aos raciocínios racio-
a humanjdade para assegurar-lhe o paraisa 11a terra ... Enquanto ele 1m!!gina
que está er guendo a humanidade, ele a tortura até o desespero, a paranóia e nais acusando-os de enganosos e de lhes ensinarem a
a perdição. Se ninguém o pára, a destrói. . . apesar de ele, obscuramente, se
dar conta de que também se destruirá a si meõmo.. Ter que destruir a res~onder aos ar gumentos com os punhos ou as a~as.
qualquer custo, adivinhando, ao mesmo tempo, uma vez que isso leva inrvi· Deveremos reclamar, então, em nome da tolerância, o
tav~lmente t~bém à pr ópria destruição, eis a questão. Se qu:iseres, é a tra·
gédra de l_Aici/er". ffitler citado cm EOKART, Dietrich. Tischgespriiche, de direito de não tolerar os intolerantes. Devemos exigir
rn22/ 23. editado com o título Der Bo!schewlsmus von Moses bis Lenin -
Zwiegespriiche zwischen Ado!/ H itler und mfr. Milnchen. Hohenreichen-Verlag,
1924. Ver HEER, Friedrich. Gottes erste L i ebe. Die Juden im Spannungs/eld der 6 POPPER, Karl. La s0etedad ablerta y sus rnemigos. Buencs Aires, Paidós,
Geschichte. Frankfurt/Berlim, Ullstein Sachbuch, 1986. p. 377. 1981, . p . 403 (tomo ll, capitulo XIV) .
-J. ...'º" 177
que todo movimento que pregue a intolerância fique à rer. 9 A todos, por igual, nega-se o direito humano, a priori, ,:;>.
margem da lei e que se considere criminosa qualquer à satisfação de suas necessidades. A todos, por igual, nega- f'..uf \ l
incitação à intolerância e à perseguição, da mesma for- se a legitimidade de uma vida corporal. Porém a todos, por ~,
ma como no caso da incitação ao homicídio, ao seqües- igual, concede-se o direito de viver como queiram, se o pude- .y.u
u "rt ~,. tro e ao tráfico de escravos".; rem: livres para escolher. Com isso, todo o universalism 0
f ';;k
se desvanece. O sacrifício, em troca, se instala como norma- . .l'lltJrv

,\e
\\ 9
~j~<

\ ~ ,,v \
Q.I A tolerância se transforma em arma mortal, um instru-
mento de perseguição. Assim como a inquisição matou em
nome do amor ao próximo, o mundo livre agora mata em
nome da tolerância . Assim como se destruiu os que não
lidade, como sinal de poder. IO
O resultado é um esquema sacrificial mudado, bem d:.fe-
rente dos anteriores. Nietzsche o desenvolve e ele está no
vr

)., 1_,!..) amavam o próximo, se destroem os que não são tolerantes.


fundo de toda a tradição burguesa posterior. Mesmo que
se queira, isso muitas vezes não é uma réplica do esque-
-:\"I" De novo, uma lei absoluta, transformada em sacrificio hu- ma pré-cristão, que analisamos a partir do sacrifício de
\{> 1 mano. O resultado é precisamente a inquisição, contra a Ifigênia. Insere-se, antes, n o esquema do sacrüício univer-
qual se havia lutado: inquisição para os inquisidores. Isso sal cristão, mesmo que muitos sinais mudem. Continua sen-
substitui a crucüixão para os crucüicadores da inquisição. do um esquema universal, embora não universalista. Portan-
A inquisição volta, porém em nome da luta cont ra a inqui- to, no seu núcleo continua havendo um assassinato de Deus.
sição. Voltou o inquisitor, porém é agora um antiinquisidor. Contudo, o assassino de Deus muda de lugar. No esquema
Porém, como antiinquisição torna-se invisível. Todos sabem
que existe, mas ninguém a vê. 8
9 É o libraço que celebra a mlstica da guarra fascista, como vemos em
JtlNGER, Ernst e BOP..GES, J . L . VARGAS LLOSA, Mário, de5creve ~ abraço
O resultado é a volta do sacrüício humano: esta inqui- da seguinte maneira: "Rufino se ar~asta até Gall, bem devagar. Vai chegar até ele?
Empurra com os cotovelos, com os joelhos, esfrega o rosto contra o barro,
sição se eleva acima das câmaras de tortura e dos regimes como uma minhoce e Gall o anima movendo a faca. ' Coisas de homens', pensa
de Segurança Nacional. Em Santiago do Chile se construiu, Jurema. Pensa: 'A culpa cairá sobre mim'. Rui;no chega j unto a Gall. que
trata de enfiar-lhe a faca, enquanto o i·a;treadcr o golpela no rosto. Porém, ,.. ../
diante do "Palacio de la Moneda", um Altar da Pátria, a bofetada perde a força ao tocá- lo, ou ;;cro.u~ RUfi!:lo Já não tem força ou
então por abatimento intimo. A mão desce no ros:o de Call numa espécie íl 1
com luz perene. É o altar desses sacrüícios humanos. Tra- de caricia. Gall o golpeia também uma , duas vezes, e sua mão pára o csbeça '/ lt.'°'
do rastreador . Agonizam abraçados. olhando-re. Jurema tem a impressão de que ( ~ ,._:i
ta-se de um sacrifício antiuniversalista que, no entanto, pre- os dois rostos, a mlllmetros um do outro, est.'io sorn ndo". VARGAS LLOSA, ~ o
Mário. La guerra del f in dei mundo. Barcelona, Plaza & Janes. 1981, p . 293-2!?-!. \{.,\. A•'& "
tende ter uma validade universal; todos, por igual, são desi- 10. HAYEK expõe este caso do sacrlficio: "Uma !!oeiedade livre requer certa T'I ~
mo!'Bl que, em última lnstãnci11, se reduz à manutençiio de vi~: não ~ ma- ~
guais. Todos, por igual, lutam um contra o outro. Não há
nenhum abraço, exceto o abraço na luta final para mor-
nurenção de todas as vidas, i;icrque poderia ser necessário sacrificar vidas_ iJ;!cli-
vic\uais oara preservar um numero maior de outras vidas. Portanto, :is urucas
regras morais são as que levam ao ' Cálculo de Vidas': a propriedade e o A l9
t l
V
contrato•. Entrevista a El M ercurio, 19/ 04/ 81, Santiago de Chile. HAYI:K ccn- f' ,

ó
cedeu esta entrevista por ocasião de rua viSita ao Chile para participar de u.-n _)
7. POPPER, Karl. Op. cit.. p. 5 l2 (nota 4 do capitulo VIl ).
S. "Alguns Ulósofos marxistas, embebidos de um fervor tão Ingênuo quanto
Congresso da Sociedade de Monte Pellerin. Este pensamento ~acrUicial é muito N J
comum na sociedade burguesa. O próprio Niet.zsct:e o expõe: "Consistirá par!! ...J.
místico, anunciavam. não faz multas anos, a cbegada do milênio socialista da
seguinte tna:le!ra: 'Na nova ~oclech.de já não haverá polleials. nõo haverá mais
prisões. não haverá lgrejas, nem exércitos. nem prostltuli;ão de qualquer espé-
cie, não ha\·erá ma!5 crimes... Qua.'!do um sabe que vai por este camL'lho
nós a ESSên.c la do ve...TdadeiramE:-ite moral em considerar ns conseqüências próxi-
mas e :medlatas que podem ler no~O!' atos para os demais homens e decidir
nossa conduta com ajuste a uus conseqüências? . . Esta é uma moral estreita
e burguesa, porém é ainà& uma mo:al. Parece-me que co:-responderia a uma
. 1\ V~:

.. 1.
f
Af" •
J
j

(do infalivel saber marx!sta-lenlnlsta - Arditi), que é cientifico e certo, sente


que está lutando pela mel!- Jr d3S c:iusas'. t."m caso rece.-ite, o cu.-to e ate=rador
socialismo cambojano do K..-ner Vermelho. converte se em caricatura tn!glc:i e
idéia superior e mais perspicaz olhar para alé:n dessas conseqüüneias uned!_atas l ' V""
para o próximo, a fim de alimentar desígnios de maior ai= . com o risco. C#
por exemplo, de faz.er sofrer os demais ... Admitir.do_ que ~enhamos para _conosco ~
J
grotesca do milênio anunciado por estes filósofos•. ARDITT, Brojamim. E l mesmos espirita de i;acrillcio. que razão M de llll!Jedlr-nos de sacrillcar o 1•
deseo de la libertad 11 la C?lestión del otro (Postmodemi-:lad, poder 'Y sociedad ). próximo junto conosco, como faziam até :;gora os Estados e os monarcas. \J •
Assunção. Ediclo:ies Crltcrio, 1989. O texto citado por Ardlti vem de5 anos 4.0. sacri!lcando o cidadão pelo interesse geral, como se costuma dizer? Nós tem~s
na França, um tempo de pen.aguição mortal aos com11nis•:i.s pelos nazistas. também inter25ses gerais e talvez sejam os interesses lll!ÚS gerais. Por que nao
Tomando seus sonhos - perfPitamente inocentes - transforma-os nos culpaàos haveria o direito de sacrificsr alguns individues da geração presente pari\ a
de sua própria persegujção. Persegui-los deixa tle ser perseguição, porque niti- utilidade das gerações !uturas, se seus sofrimentos, SllllS inqu!et11ções, seus deses-
damente estes são vistos como o Kmer Vermelho. Assim. a Inquisição os viu peros. suas vacilações e seus erros fOS!lem necessários para que uma nova ponta
como cruc'!icadores de Cristo; Popper. como intolerantes; os jacobinos, co!llo de arado abrisse sulcos na terra e a torn~ fecunda para tcdos? . . com
inlm!gos da liberdade, para or qua's não há libe.-clade. etc. A perseguição o sccrific'.o - no q:ial todos nos im:lulmos, tanto a 11"..s como o próximo -
iorna-se invlslvcl. a humanização torna-se um tema para agredir os outros. Iortalecerlamos e elevaríamos o sentimento do poder humano; mesmo supondo
O que tG.m a ver aqueles corr.un!stn.s franceses com o Kmer Verrr.elho? O que não con::eguissemos nada mais, consegui.riamos_ l•so. Isto seria já um
mesmo que os árabes atacados pelas cmz:ldas ou os judeus de tod05 os tempos ucunento positivo da felicidade". N1ETZSCHE, Frledrich. Aurora. Obras Inmar-
com a crucWr.ação de J esus. tales. Barcelona, Vislón Libras, 1985, tomo II, p. 712-713.

178 179
universalista do sacrifício universal, os cristãos enfrentam dos coveiros que enterram a Deus? Não percebemos
todos os outros, sendo todos juntos os crucificadores de ainda nada da decomposição divina? Os deuses também
Cristo. Mas a culpa dos cristãos foi redimida. Por isso, a se decompõem! Deus está morto! E nós é que o mata-
culpa no assassinato de Deus cai exclusivamente sobre os mos! Como nos consolamos, nós, assassinos entre os
inimigos de Cristo, que são os inimigos do império cristão. assassinos? (? . . . ) Quem apagará essa mancha de san-
Agora é diferente. Os dominadores - os que ganharam gue? Que água servirá para purificar-nos? ( .. . ) Tere-
uma luta pelo poder - enfrentam os dominados, que perde- mos que nos converter em deuses ou pelo menos pare- \
ram esta luta. De novo, toda a humanidade se divide em cer dignos dos deuses? Jamais houve uma ação mais \ ~\ ~
dois pólos em confrontação, porém, já não entre cristãos grandiosa e aqueles que nascerem depois de nós perten- O
e não-cristãos, mas entre dominadores e dominados - sem cerão, por causa dela, a uma história mais elevada do ~
chance. O assassinato de Deus, entretanto, de novo foi come- que já foi qualquer história . .. " 11 f ~ ~ '.
tido por todos, mas tratava-se de um ato heróico. Os domi-
nados participaram neste ato de assassinato de Deus, mas se A partir desta morte de Deus por assassinato, Nietzsche '.) j
acovardaram. O dominador celebra-se a si mesmo por haver anuncia o futuro, a ressurreição do homem. A morte de .~
assassinado a Deus. Do fato deste assassinato não deriva Deus é a ressurreição do homem: trf.. >J ~
nenhuma culpa (psicologicamente é celebrado como assas-
sinato da pai). Despreza o dominado por sua incapacidade "Diante de Deus! Porém este Deus morreu! Homens .,.J\o.
de afirmar o assassinato de Deus, o que é a outra face de superiores, este Deus foi o maior perigo para vós! A \ ~
sua derrota na luta pelo poder. baixar à tumba, vós ressuscitastes . . . Somente agora ~
está parindo a montanha do futuro humano. Deus
O dominado não é capaz de levar a cabo o assassinato morreu, viva o super-homem - tal é nossa vontade". 12
de Deus, porque não é capaz de ganhar na luta pela vida.
Perde, portanto, sua dignidade, é um homem ressentido, Este homem ressuscitado - super-homem - procura
invejoso. Continua sendo um culpado, não, porém, pelo Deus, mas o seu Deus, que já nã-0 é um Deus universalista
assassinato de Deus, mas por não aceitar tê-lo assassinado. de todos, mas um Deus universal daqueles que ganharam
O dominador, que assassinou a Deus, impõe-se ao domina- na luta pelo poder. O Deus universalista, o Deus da moral,
do, que é culpado de não aceitar tê-lo assassinado. Este morreu. Outro Deus o sucederá:
Deus, cujo assassinato o dominador celebra, é o Deus uni-
versalista da tradição judeu-cristã. Ao declarar seu assassi- ". . . no fundo, o que se superou foi só o Deus moral.
nato, o dominador não é ateu. É altamente religioso. Mas Tem sentido crer em um Deus 'mais além do bem e do
ergue agora um Deus universal, que não é universalista. mal'? Seria panteísmo pensar neste sentido? Suprimire-
É um Deus que o confirma como o dominador sobre todos mos a idéia de finalidade do processo e, apesar de tudo,
aqueles que perderam a luta pelo poder, quer dizer, sobre confirmaremos o processo? Isto ocorreria se dentro
os dominados. desse processo, em todo o momento, se alcançasse um
fim e esse fosse sempre o mesmo". •3

O paradigma sacrificial antiutópico de Nietzsche Criar este novo Deus é para Nietzsche algo natural:
"Um povo que conserva a fé em si mesmo tem tam-
Em Nietzsche encontramos, e já bem cedo, este paradig- bém um Deus que lhe pertence. Nesse Deus admira e
ma do sacrifício antiutópico: adora as condições que o fizeram triunfar, suas virtu-
"Onde está Deus? Vou dizer-vos. Nós o matamos. Vós
e eu, todos nós somos seus assassinos. Porém, como 11. NIETZSCHE, Friedrlch. La gaia ciencia, op. cit., p . 995-996.
12. NIETZSCHE, Prledrich. Asl hablaba Zaratust ra, op. cit., tomo IU, p .
chegamos a esse ponto? . . . Não ouvimos ainda o rumor 1695 1696.
13. NIETZSCHE, Priedricb. La voluntad de poderio. Madrl, EDAF, 1981.

180 181
des; projeta a sensação do prazer que causa a si mes- a imortal vingança dos chandalas convertida em religião
mo e o sentimento de seu poder em um ser ao qual do amor". 17
pode dar graças por eles . . . Nestas circunstâncias, a
É necessário destruir esta dignidade do oprimido para
.
,.
., ó
religião é urna forma de gratidão. O homem está
agradecido consigo mesmo e por isso precisa de um que a morte de Deus seja consagrada, para que Deus termi-
, D " 14 ne na tumba e para que o homem chegue à ressurreição.
, /"' eus . .. Nietzsche pensa metodicamente como conseguir este fim
Porém o Deus universalista - o Deus da Moral - con- da destruição dos que perderam esta luta pelo poder:
J <lt inua presente, mesmo que já esteja morto. Precisa ser
enterrado, pois ainda não está na tumba. Sua decomposi-
"Se aquele que sofre, o oprimido, perdesse a fé em
seu direito a desprezar a vontade do poder, entrará
v ção se nota, cheira mal. Porém continua ainda aí. Mesmo de cheio na fase do desespero total . . . A moral prote-
. -1 "\ como sombra está presen te. gia os explorados contra o niilismo, ao mesmo tempo
~ l'"'

I'\\
"Depois da morte de Buda mostrou-se, durante sécu- que concedia, a cada um, um valor infinito, um valor
los, a sombra dele em uma caverna. Deus morreu, po- metafisico e o situava em uma ordem que não estava
rém os h omens são de tal condição que haverá talvez de acordo com o poder e a hierarquia do mundo: ensi- ]
durante milhares de anos cavernas onde se mostre sua nava o dom de si, a humildade, etc. Admitindo que a N1'1
sombra". 15 fé nesta moral seja destruída, os empobrecidos já não ,?'
achariam nela seu consolo e pereceriam". 1ª '(1 1
Nietzsche sente urgência de que se crie este novo Deus,
que substitua o Deus universalista da moral: É isto que Nietzsche chama de niilismo ativo: QJ
\\J \)
" . . . não voltaram a criar deuses. Quase dois mil anos "O niilismo como sintoma disso indica que os deserda-
e nem sequer um Deus novo! Infelizmente subsiste, dos já não têm nenhum consolo, que destroem para
como um ultimaturn e um maximum da força criadora serem destruídos: que, privados da moral, já não têm
do divino, do 'creator spiritus' no homem, esse Deus razão alguma para 'entregar-se' e por isso se afundam \ J..
lamentável do monoteísmo cristão". 16 no terreno do princípio oposto e, então, também eles \ ~~ •
querem, por sua vez, o poder, forçando os poderosos ~-.>l'lp\J1 \,,,
Subsiste, embora tenha sido assassinado. Há culpados
desta situação. São aqueles que não querem aceitar sua
a serem verdugos". 19 r
morte. Eles o mantêm decompondo-se ou como sombra.
É a antiutopia violenta, que cria este esquema sacrifi-
'>J'4
Ele está nos oprimidos, que não aceitam sua derrota e
continuam reclamando s ua dignidade: cial. É a maneira nietzscheana de afirmar que quem quer
o céu na terra, produz o inferno na terra. Trata-se do
"O cristianismo, nascido de raízes judaicas, inteligível desprezo mais completo da dignidade humana e de sua
unicamente como planta daquele solo, representa o corporalidade. No entanto, o faz em nome de uma corpora-
movimento de oposição contra toda a moral de criação, lidade antiuniversalista. É uma corporalidade salva da des-
de raça e de privilégio. É a religião antiariana por truição da corporalidade daqueles que perdem a luta pelo
excelência, a transmutação de todos os valores arianos, poder. 20
o triunfo das avaliações dos chandalas, o evangelho
dos pobres e dos humildes proclamando a insurreição 17. NIETZSCHE, Friedrich. El crepúsculo ãe los dioses, op. cit ., tomo III ,
p . 1209.
geral de todos os oprimidos, de todos os miseráveis, 18. NIETZSCHE, Friedrich. La roluntad de poderio. Madri, EDAF, 1981, n.
de todos os fracassados; sua insurreição contra a raça, 55, p . 60.
19. NIETZSCHE. F'riedrich. Op . cit ., p . 61.
20. Esta maneira de pensar a sacriliclaldade está entrand o h oje na p rópria
14. NIETZSCHE, Friedrich. Ant icristo. Obras I nmortale$, t omo I , p . 45-46. teologia cristã. Um livro, hoje muito di..ccutido na Alemanha Oci dental , assume
15. NIETZSCHE, Frtedrich. La gaia ci encia, op. cit ., tomo II , p . 981. precisamente estas posições. Ver: DREWERMA.NN, Eugen. K leriker - Psyclwgramm
16. NIEI'ZSCHE, Friedricb. Anticristo . op. cit., tom o I , p . 48 . eines l deals. Olten/Freiburg. Walter-Verlag. 1989.

182 183
autodestruição se baseia na promoção do desespero de todas
O lema é: recuperar o humano pela destruição do hu- as vítimas. Este grande sacrüício ao qual se tende hoje já
manismo. Os oprimidos, ao resistirem, são agora vistos não se pode impedir declarando crime os sacrifícios. Requer-
como os que se insurgiram contra o humano. 21 se um enfoque düerente da superação dos sacrifícios, que
Em relação ao sacrifício universal cristão, do cristianis· certamente pode inspirar-se no cristianismo original, porém
mo ortodoxo, os oprimidos não mudaram de lugar, porém tampouco ali vai encontrar suas soluções.
o ponto de vista com o qual são vistos é agora düerente.
Do universalismo anticorporal, que os vê rebelando-se con- Contudo, sua raiz não pode ser outra vez a afirmação
tra Deus, passou-se a este antiuniversalismo de destruição da dignidade humana diante deste seu aviltamento total.
corporal, que os vê rebelando-se contra o homem.
Tradução do espanhol por
A volta do espírito negado Jorge Cândido Pereira Mesquita

O cristianismo nasceu em nome da superação dos sacri-


fícios humanos, mas a história do cristianismo, com suas
secularizações, acaba sendo uma história de grandes sacri-
fícios humanos, sempre escamoteados pela luta contra os
sacrifícios. É uma história sacrificial, que aparenta ser uma
história de luta contra os sacrifícios. A perseguição do sacri-
fício humano como crime reproduziu este sacrifício humano,
porém de forma invisível. Parece ser coisa düerente do
que realmente é.
Entretanto, com a reação antiutópica, esta sacrificiali-
dade anti-sacrüicial se estabelece como um fato. Reivindica,
agora, o sacrifício como o caminho melhor, mas um cami-
nho sem destino. Tira-lhe a ilusão de servir para alguma
coisa, para reivindicá-lo em sua nudez. Torna-o honrado,
aberto, reto. Tira-lhe a má consciência e assim lhe abre o
caminho a dimensões ilimitadas. O holocausto perpetrado
pelos nazistas mostra a capacidade sacrificial que surge da
opção antiutópica. Supera, de longe, tudo o que era possí-
vel até então.
O resultado é um caminho à destruição da humanida-
de no suicídio coletivo. Hoje, o Ocidente caminha para o
heroísmo da autodestruição ao qual o nazismo alemão já
havia chegado em outras condições 22 ; e esse heroísmo de
21. Com Carl Schmilt . este pensamento foi introduzido na América Latina.
Ver HINKELAMMERT, Franz J . "EI concepto de lo polltlco según Carl Schmltt",
ln: LECHNER, Norbert , ed. Cultura política J.I democratización. Buenos Aires,
CLACSO, FLACSOICI , 1987. Reproduzido também em: HINKELAMMERT, Franz J .
Democracia J.1 totali tarismo, San José, DEI, 1987.
22. GObbels dizia: "Se temos que abandonar o teatro do mundo, vamos
fechar a porta com tanta força que o universo estremeça•. Gõbbels era um
fanfarrão que não tinha as possibilidades de fazer tudo o que queria, embora
tenha perpetrado multa coisa. A burguesia de hoje, contudo , tem os meios
para fazê.lo e est:í desenvolvendo a disposição correspondente.

184 185
III

Temas específicos
EXIGE O DEUS VERDADEIRO
SACRIFfCIOS CRUENTOS?

Jorge Pixley

A morte violenta e a ressurreição do Filho de Deus


estão no centro do drama da redenção na fé cristã. Com
razão podia o Apóstolo Paulo escrever aos coríntios: "Re-
solvi entre vós não saber coisa alguma, senão Jesus Cristo,
e este crucificado" OCor 2,2). Com a crucifixão do Filho
de Deus estamos no próprio coração do mistério da sal-
1
')-
vação. O fato de se dramatizar a paixão desloca freqüen-
temente para um segundo lugar a ressurreição. Uma re-
flexão ortodoxa, porém, reconhece a união das duas.
Não raro desenvolveu-se uma devoção mórbida em
torno do martírio de Jesus entendido como o sacrifício do
Filho de Deus Encarnado. Esta devoção exaltou a disposi-
ção para o sofrimento como uma virtude, provocando o
desejo piedoso de sofrer como se verifica naqueles que na
Sexta-feira Santa se fazem flagelar e cravar em cruzes
como exercício e demonstração de sua piedade.
Quase nunca se aceita, nos círculos ortodoxos, esta
piedade mórbida como genuinamente cristã. Não obstan-
te, há uma linguagem teológica que, a nivel verbal, afirma
algo parecido com esta prática que costumamos recusar.
Exemplo disto temos no hino que nós evangélicos latino-
americanos costumamos cantar: "Há uma fonte sem igual,
de sangue de Emanuel, onde limpa cada qual as manchas
que há nele, que se submerge nele". Entretanto, esta lin-
guagem possui bases neotestamentárias em textos como
aquele que diz: "Se porém andamos na luz, assim como
ele está na luz, estamos em comunhão uns com os outros

189
e o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pe- "Cantaram um cântico novo, que dizia: 'Digno és de
cado" (lJo 1,7 ). tomar o livro e lhe abrir os selos, porque foste imo-
lado e com teu sangue compraste para Deus homens
Literalmente, isto sugere que Deus exige sangue, o
de toda tribo, língua, povo e nação. Deles fizeste para
1 sangue de uma vítima, p ara limpar as manchas causa-
nosso Deus um reino de sacerdotes e eles reinarão
das pelo pecado. De fato, certas interpretações da expia- sobre a terra' " (Ap 5,9-10) .
ção que abre aos pecadores o acesso ao trono de Deus
nos apresentam uma imagem violenta de D<:ms que não "Do mesmo modo, depois de haver ceado, tomou 0 '
perdoa livremente, mas exige a morte do pecador ou de cálice, dizendo: 'Este cálice é a nova aliança em meu
um substituto aceitável. Parece que o problema deriva sangue, que será derramado por vós'" (Lc 22,20) .
de uma interpretação incorreta do sistema levítico de
sacrifícios que eram permitidos e exigidos no t emplo de "Pois se o sangue de bodes e touros e a cinza da
Jerusalém nos tempos bíblicos. Dai decorre uma prega- novílha, com que aspergem os impuros, santificam e
ção da salvação motivada no temor ao inferno, um in- purificam pelo menos os corpos, quanto mais o san-
ferno que geralmente não se concebe como o resultado gue de Cristo, que pelo Espírito eterno se ofereceu
da soberba do demônio, mas como a indignação de um imaculado a Deus, ilmpará nossa consciência das
Deus soberano que se sente ofendido pelos delitos da obras mortas, para servírmos ao Deus vivo!" (Hb
humanidade. 9,13-14).

Este tema é muito complexo na Bíblia. Pensam alguns Diante destes textos que interpretam a morte de Jesus
que o livro dos Hebreus é irrecuperável, pois embora segundo o esquema de sacrifício, devemos colocar outra
pregue o fim do sistema de sacrifícios cruentos não o série de textos que refletem uma posição crítica diante
faz em virtude da misericórdia de Deus, mas da plena deste sistema, ou pelo menos outra possibilidade de in-
satisfação de suas exigências de sangue com a morte de terpretação:
seu Filho Eterno. É esta a tese de René Girard, num
livro que não consegui (El misterio de nuestro mundo. "Se confessamos nossos pecados, fiel e justo é Deus
Claves para una interpretación antropológica, Salamanca para nos perdoar e nos purificar de toda iniqüidade"
1982). Armando Levoratti, por sua vez, numa série de OJo 1,9).
cinco artigos em sucessivos números da Revista Bíblica
de 1985 e 1986, procurou refutar esta acusação. Não é "Senhor, Senhor! Deus compassivo e clemente, pa-
nossa intenção entrar neste debate exegético que consi- ciente, rico em misericórdia e fiel. Ele conserva a
deramos importante. Pretendemos antes, neste estudo, bondade por mil gerações e perdoa culpas, rebeldias
ordenar os elementos bíblicos pert inentes à compreensão e pecados, mas não deixa impunes, castigando a culpa
do sistema sacrificial, tanto o sistema ritual efetivo de dos pais nos filhos e netos até a terceira e quarta
Israel como o sistema imaginário com o qual se inter- geração" ( Ex 34,6-7) .
preta a morte de Jesus. A pergunta motivadora deste es-
forço é vital: É o Deus da Bíblia um Deus víolento? Um "Mas se o ímpio se arrepender de todos os pecados
Deus que se compraz na morte de vítimas inocentes, quer cometidos e guardar todas as minhas leis e fizer o
animais ou humanas? que é direito e justo, víverá com certeza e não mor-
rerá. Nenhum dos crimes cometidos será lembrado
Para avivar nossa memória, vamos começar simples- contra ele. Viverá por causa da justiça que praticou.
mente citando alguns textos bíblicos pertinentes: Acaso tenho prazer na mor te do ímpio? - oráculo
"O sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo do Senhor Deus. Não desejo antes que mude de con-
pecado" (lJo 1,7) . duta e viva?" (Ez 18,21-23).

190 191
V) ~
"Perdoa-nos nossas ofensas, assim como nós perdoa-
mos aos que nos ofenderam. . . Porque, se perdoardes
aos homens suas ofensas, o Pai celeste também vos
Já os relatos bíblicos mais antigos supõem a prática},~~;-'.
dos sacrifícios de animais. No estrato javista do Penta-11-
1
v->l"f~
perdoará. Mas, se não perdoardes aos homens, o Pai teuco (J), Abel agrada a Javé Deus com um sacrifício l'iii 1 cp
também não vos perdoará as ofensas" (Mt 6,12.14-15). cruento, muito mais que Caim com sua oferta vegetal ,,,,.1
(Gn 4,3-5). Segundo o mesmo estrato narrativo, Noé ofe- ' ~~~
Com esta vista d'olhos preliminar do problema esta- receu a Javé holocaustos de todos os animais puros que oJ
mos em condições de começar a ordenar pausadamente ? levava na arca, para agradecer sua salvação da destruiçã • ' } •
I ão dilúvio: disto resultou um odor agradável a Javé (Gn
11

. <v
J
os diversos aspectos deste problema: exige Deus violência
para satisfazer as demandas de sua própria natureza? ' / 8,20-21) . Para solenizar a aliança entre Javé e Abraão, este f1L,_.. •
~ matou vários animais partindo-os em dois (Gn 15,7-11). . ll'f~
od1 Num relato de grande simplicidade e beleza, Abraão par-
• tilha com Javé uma comida que inclui grãos e carne de ]~ QI
/

pi 1
\ ~ t
,,O,,_d.tl•
.ll 1"
1 Os sacrifícios cruentos em Israel,
·· antes da racionalização levitica dos mesmos
l':1
Y >" um bezerro bem novinho (Gn 18,1-8). Enfim, presume-se ~
C com toda naturalidade que Deus gostava da carne de
1' animais, sem que aqui se dê qualquer função especial
O .~ . ~tre muitos povos da terra, era bem comum matar \. ~
~
t"9' ~
> rÍ'
aromais ou pessoas como uma ~!~renda . ~ divindade ou
aos deuses. Trata-se de uma pratica religiosa muito na-
tura.I, que tem sua razão de ser em quatro elementos

ao sangue. Os relatos do :€xodo também supõem uma
prática de sacrifícios cruentos em toda a negociação com
o Faraó, que tem como objetivo partir para o deserto
para oferecer animais a Javé (Ex 3,18; 8,21-24; 10,8-9).
))~ ~J. presentes em graus diferentes: 1. O dom - sendo ~
/ 1 1/' animal, especialmente um animal grande é uma oferta Pressupõe-se também de outros relatos antigos que
<:_;iY valiosa que um homem pode oferecer à' divindade. Em os sacrifícios cruentos eram uma parte normal da vida
" ..., qualquer relação interpessoal, o dom estabelece um vin- religiosa. Assim, por exemplo, toda a discussão acerca do

~"
~ ii culo que compromete a quem recebe o donativo do doa- altar na terra dos rubenit.as, dos gaditas e da meia-tribo
} ~ ,f1' "~dor. A. oferenda a Deus não precisa ser necessariamente de Manassés para "oferecer holocaustos, apresentar ofer-
1-~ ~ arumal, mas . os animais são posses de valor e por tas e fazer sacrifícios pacificas" (Js 22,23), embora ter-
.,, isso dons apropnados. 2. A comunhão com a divindade mine com a resolução de não usar o altar para estes fins,
,v que se estabelece mediante os sacrifícios de carne que se supõe que esse seria seu uso normal. Gedeão ofereceu
J' , repartem entre o doador e a divindade. Por assim dizer carne e pães ao anjo de Javé sob um terebinto e depois
levantou um altar no local (Jz 6,l!}-24). Manué, pai de
, 'l, o doador e Deus comem da mesma mesa, e uma mesa
i.l "'~,\~ ~ue º. ofertante serviu. 3. A co~da para os deuses que Sansão, oferece um holocausto a Javé sobre um altar (Jz
,~ e s_el'Vlda sobre um altar. A comida pode ser variada, pre- 13,19-20) . Em Silo era costume oferecer sacrifícios de ani-
, ./' ~'U fenndo-se, entre os babilônios, as bebidas alcoólicas. Em mais nos quais os sacerdotes participavam da carne OSm
2,12-17), e Samuel oferece holocaustos em Masfa OSm
~\
~\; Israel e também entre os gregos, considerava-se que a
/
~ fumaça da carne de animais era um odor agradável a 7,9) . Em Guilgal o povo inteiro participou dos sacrifícios
l Deus. 4. Um quarto elemento, que foi especialm~nte im- pacificas (lSm 11,15).
portante no sistema sacrificial levítico, era a manipulação Os antigos códigos legais prescrevem altares (Ex 20,24,
do sangue dos animais degolados, por ser o sangue o con- Código da Aliança), o sacrifício dos primogênitos machos
tinente misterioso da vida. O sangue possuía pois uma de gado ovino e vacum (Ex 34.19-20, J) e o sacrifício do
virtude extraordinária que se interpretava de diversas cordeiro da Páscoa (Ex 12,21-28, J).
formas. Em todas elas se deliberava a morte do animal
para conseguir o sangue. Há uma grande naturalidade nestes antigos relatos
prescrições legais que ressalta quando os comparamos
192
193
num ato profano com a única ressalva de cuidar de der·
com os regulamentos detalhados para o sacrifício sobre ramar o sangue.
o altar frente à Morada segundo os códigos sacerdotais Importantissimo para compreender os sacrificios de
contidos nos livros do Levítico e Números. O oficiante comunhão é a norma para a chsposição do sangue do ani- l'r/l
nem sempre é um sacerdote. O lugar da oferenda podia rnal. Citamos na íntegra o texto-chave: 1 ?'
ser, ao que parece, qualquer rocha onde Deus tivesse rea- 0
lizado algum sinal. Mesmo assim, a reprovação das prá- "Se um iSraelita ou estrangeiro que mora no meio ' ;.J'1
ticas dos filhos de Eli em Silo (lSm 2,12-17) indica que de vós caçar um animal ou uma ave que se pode ~·, ?'
nem tudo era espontâneo e que havia limites para a to- comer, deverá derramar o sangue e c?bri-:o de terra. \ .tf'
lerância ritual. uma vez que a vida de todo o ser vivo e o sangue, , /" I
por isso eu disse aos isra~litas: ~ão comais o sangue •' 11"~'.t
Antes de discutir o ordenament o cúltico do sistema de nenhum ser vivo. P01s a vida de qualquer ser Óí) .1! 9
levítico, vamos fazer uma primeira classificação dos sa- vivo é o sangue; quem o comer será eliminado" (Lv .,s'\
l ~rifícios cruentos não sacerdotais.
17,13-14). J.> ~lt'
\~' O sacrifício de comunhão (zebah selamim) parece ter }~
\:t)~~ido o mais freqüente dos sacrifícios cruentos em Israel. ./I~ Esta norma vale p ara todo animal que se coma, seja
Era festivo, pois nele o ofertante e seus convidados co- produto da caça, seja sacrifício no santuário de Javé ou
m.iam carne diante de Deus. É o sacrifício realizado pelo Y sobre o alte.r, ou ainda qualquer abate profano de um
povo em Guilgal por ocasião da coroação de Saul (lSm animal doméstico. O homem não dispõe da vida que, no
11). E é o que se supõe quando Abraão servíu alimentos(. t".i
a Javé (Gn 18). A festa anual do clã teria tido como
sangue, está presente de maneira misterio_:a. ~or_ isso,
ainda que o homem disponha da carne, nao dispoe ~o
f, \ ,
momento central a matança e com.ida deste tipo de sa- sangue que lhe dá vida. Este deve ser derramado e nao v
crifícios (lSm 20,6). comido (é claro que não se trata de beber o sangue, mas J1
É provável que no princípio não se fizesse nenhuma
da püi:sibilidade de comê-lo juntamente com a carne). h(i ll
1
matança de animais para comer carne, sem o correspon- o resgate do primogênito. Foi uma prática antiga, }\'
dente ritual sacrificial. Só assim se entende o cuidado da consignada já no "decálogo ritual" de Ex 34, a de con- i) \ /
lei do único santuário, em Dt 12, de especificar que a li- sagrar a Javé a cria que abria o ventre, se fosse ma.cho. 'j\"'
mitação do culto a um santuário exclusivamente não sig- No caso do primogênito da jumenta! que era ~ arumal ~'(1J
nifica que se proíba o consumo de carne em outros que fazia parte da casa, mas que nao era aceitável i:iara /i )
lugares: oferecer a Javé, se "redimia" com uma ovelha. Procedia-~e ~ ~
"Mas quando quiseres, poderás abater um animal e da mesma forma com o:s primogênitos humanos, pois~ {> ·1
Javé também não aceitava o sacrifício de sangue humano J
comer a carne em qualquer de tuas cidades, confor-
(ver Ex 13,11-16, J ou Pré-D). ,1'°7
me os bens que o Senhor teu Deus te conceder. Po-
derão comê-la tanto o homem impuro como o puro,
como acontece com a gazela e o cervo. Contudo não
A legitimação his. tórica d~sta ~rática apri:s~ntada pelo d
relato javista do Pentateuco e servir de memona de como
r:,·r
L
comerás o sangue; tu o derramarás sobre a terra, Javé matou os primogênitos dos egípcios como parte daJ I \J :..·
> como água" (Dt 12,15-16) . libertação de seu povo. Esta é uma explicação das elas- 9 / .
~ ses intelectuais para uma prática cuja origem é anterior ' J~
\\.,;~e É provável, dizíamos, que com a cent.ralização do ao êxodo. \)"' ,
r \ culto legítimo em Jerusalém se introduzisse a matança
não ritual de animais para comer sua carne. Ao supÍ:i- É provável que no ritual dos camponeses e pastores
d\)~ . m.ir os altares locais, a matança de animais para as festas o sacrifício do primogênito era análogo à oferenda dos
;-;I deixa de ser um ritual oferecido a Deus para converter-se
195
{)li
194

- - - - - - - -- - - - - - - -- -
primeiros grãos, dos primeiros frutos. Antes de o cam- A arança do povo de Javé se celebrava, pelo i:nenos
i ocasiões com um sacrifício muito particular.
ponês e o pastor disporem livremente da vida que seus em algumas , - t·
campos e gados produzem, devia oferecer a Deus a pri- uando Abraão celebrou uma aliança com Jave, p~r :u ao
meira parte. Assim se garantia que campos e rebanhos ~eio uma novilha, um carneiro e uma cabra e dispos ~
continuariam frutificando com a bênção de Deus. tades frente a frente (Gn 15,9-10). A presença de Jave
rne u entre os animais partidos na forma de fun_iaça e
Poder-se-ia pensar que o sacrifício do primogênito de- ~:!ºtocha de fogo (Gn 15,17). O incidente menc10nado
veria ser um holocausto a ser consumido inteiramente ar Jeremias é bem semelhante (Jr 34,8-22). Os . chefes
para Deus. Assim se simbolizaria que o primogênito é p J dá fizeram um juramento solene de cumprir com
seu, como diz a lei. Não obstante, a única lei que explica : le~s sinaíticas que dispunham sobre a lib~rtaçâo de es-
o tipo de sacrifício para os primogênitos trata-o como .udeus ao cabo de seis anos de serviço. Para sole-
cravos J t d . . que
um sacrifício de comunhão, que se consome pelo ofertan- nizar seu voto passaram entre as par es e arumai~
' te e seus convidados juntamente com Deus, no lugar de b viam sacrificado (Jr 34,19-20) . Nestes textos nao se
culto (Dt 15,19-23). Não será usado para o trabalho, e se r:enciona o uso que se dava à carne nem ao sangue do
for ovelha não se tosquiará, mas se consumirá numa festa. sacrifício.
solene a Javé. Se o primogênito nascer com defeito, tam-
Por outro lado, o relato da celebração do pacto entre
bém será consumido e não se submeterá ao serviço da
casa. Neste caso, porém, será tratado como um abate Javé e 0 povo no monte Sinai destaca o uso do sangue
comum e não se oferecerá a Javé uma parte do animal. dos sacrifícios (Ex 24,3-8). A metade deste sangue era
vertida sobre o altar e a outra metade borrifada sobre o
Esta última disposição é extremamente interessante. povo. A grande solenidade deste ato tã~ incomum (no
Mostra que o específico do ritual do primogênito não é, ritual ordinário não se costumava bomfar as pessoas
como sugere a lei ("Todo primogênito é meu", Ex 34,19), com o sangue) serviu seguramente para ressaltar sua
o título de Javé à vida, mas retirar o primogênito da vida importância. O sangue das vitimas unia as partes ~~
utilitária. É claro que o camponês nem sempre realizará seu compromisso dentro da aliança. Diz-se que as viti-
estes ritos com um nítido acompanhamento consciente de mas foram nesta ocasião holocaustos e sacrifíci~s de co-
sua correspondente explicação. Mas nem por isso o rito munhão ('olot e zebahim selamim}, o que perrmte supor
é totalmente opaco a um sentido. E o sentido que está que os primeiros foram totalmente queimados depois de
por trás é que a vida não se pode manejar só utilitaria-
mente, como se faz com as ferramentas. Os seres vivos
se extrair o sangue, e os segundos foram consumidos pel?
povo, também depois de se extrair o sangue. O extraordi- 1, ·~
são efetivamente de utilidade e sem eles dificilmente se nário destes sacrifícios foi o uso que se fez do sangue. ~l til'(,
conseguiria arar a terra para a semeadura ou transpor-
tar os produtos para seu destino. Mas a vida tem um o sacrifício da Páscoa. Os relatos do êxodo relaci<r ~~
valor intrínseco que ultrapassa sua utilidade. Dispor de nam o fato de se matar um animal do gado menor, qu
todo primogênito em oposição às normas utilitárias, é se realizava no primeiro roê~ do ano, com ~ saída do ~ 1 (.;O~
?iirmar esta concepção de vida. Egito. Este animal, um cabnto ou :im cordeiro, macho ~'::>
de um ano, será sacrificado por famíliM, segundo a quan-
O sacrifício da aliança. Segundo Gn 31,43-54, Jacó e tidade de pessoas que podem consumi-lo numa noite. En·
Labão comeram um sacrifício (zebah) para selar a alian- trarão na casa, consumi-l<rão com as portas fechadas e
ça entre ambos. Segundo Ex 18,12, Jetro, sacerdote de queimarão no fogo todo o resto que não puderam con-
Madiã, ofereceu a Javé holocaustos e sacrifícios (zebahim) sumir (Ex 12,1-14) . Porém o mais incomum deste sacri-
dos quais participaram Moisés, Aarão e os anciãos de fício anual é, como no caso anterior, a disposição sobre
Israel. Em contraste, o relato da aliança com os gabaoni- o sangue. Como em qualquer abate, o animal será deg<r
tas não menciona sacrifícios mas somente votos (Js 9,15). lado de tal forma que se possa extrair o sangue. Imedia-
'l\ I J 197

'\,~
196

~' \
tamente este sangue servirá para untar a moldura da
porta das casas onde se comerá a Páscoa, e assim a praga
exterminadora não a tingirá esta família.
Israel e de Judá, os holocaustos sempre figuram proemi-
nentemente em suas listas.
~~~. r''
.\J
Supõe-se geralmente que por trás deste rito esteja o holocausto era uma express~_:> de lm~vor. e gratidão. ~ ~ ~
uma prática dos pastores para proteger-se contra os pe- Era apropriado para muitas ocas1oes no mtuit o de bus-{ ~J
rigos que podem atingi-los na primavera, a época de cria car a boa vontade de Deus. Representa o dom mais d~- ~ ~
de seus rebanhos e também freqüentemente uma época sinteressado entre os sacrifícios cruentos. O animal é r eti- ~~
de deslocamento para novos lugares de pasto. Não existe rado da posse do ofertante e consumido inteiramente ~
evidência textual a respeito disto, mas a explicação é p:ira Javé. Pode-se dedu.zir dos textos que o holo~:i~to f
verossínúl. e a oferenda de comunhão ( zebah) eram os sacriflc1os \li
Com as reformas unificadoras do século que vai de mais freqüentes. ~ /\.~l
Ezequias a Josias, a Páscoa e a festa dos Azimos conver- o sacrifício humano. Durante os últimos cento e cin- f ~
teu-se numa festa de peregrinação que se celebrava em qüenta anos da monarquia de Judá, nossos textos men- " 1"
Jerusalém. Provavelmente os animais eram imolados no cionam a oferenda de crianças humanas no vale do Tofet J
templo, se bem que fossem imediatamente consumidos em nos arredores de Jerusalém. Sabe-se que em Cartago, co-
casas familiares, onde se praticava o rito do sangue que lônia fenícia na Africa, se ofereciam aos deuses sacrifí-
mencionamos. cios de crianças em tempos de grave ameaça .

\~
,l O holocausto. Com a palavra holocausto, que vem do Os historiadores deuteronomisticos, que condenam
~:~ grego, significando queima total, expressa-se o 'ol.a.h he- terminantement e esta prática, acusam Acaz (2Rs 16,3) e
c;)1... breu, "o que sobe". Abraão foi intimado a queimar seu Manas.sés (2Rs 21,6) de tê-la realizado. A prática foi con-
filho Isaac como 'ol.a.h para Deus (Gn 22) , e Jefté jurou denada por Jeremias (J r 19,4-5) e por Ezequiel que acha
r1J oferecer o primeiro vivente que fosse ao seu encontro que aqueles que realizavam este sacrifício macabro pen-
-!' no regresso vitorioso, em 'olah a Javé (Jz 11,31). Destes savam que estavam oferecendo um dom agradável a Javé
'l(
/ \ .
antigos textos narrativos depreende-se que se tratava efe-
tivamente de um dom a Deus, dom que se entregava a
(Ez 20,25-26).
Acreditam alguns intérpretes que este sacrifício res-
u\"" Deus mediante o fogo que consumia o animal, fazendo-o
ruarda uma prática antiga, posteriormente substittúda
\ "subir" a Deus em odor agradável. De acordo com o sis-
~elos sacrifícios de animais. Vêem na história da substi-
tema levítico, o animal era degolado e dessangrado ao
tuição de Isaac por um animal a legitimação desta mu-
lado do altar, depois cortado em partes que eram amon-
dança. Isto parece bem pouco provável, em vista do tardio
1 toadas sobre o altar para serem consumidas em fogo ali das menções deste tipo de sacrifícios em nossa literatura.
(Lv 1) . Seria antes o resultado do desespero de uma época em
O holocausto era um sacrifício muito antigo, bem an- que o império assírio arrasava com todo o conhecido e
terior à sistematização ritual levítica. Encontramo-lo como ameaçava a própria sobrevivência da nação.
um componente natural de muitos relatos antigos. Além Em suma, a evidência dos textos narrativos e legais
dos já mencionados, Balac ofereceu holocaustos enquanto antigos é impressionante. Tudo indica que Israel nunca
esperava o profeta Balaão para amaldiçoar Israel (Nm conheceu um período em que seu culto não contasse
23,3); o povo ofereceu holocaustos em gratidão quando a como peça importante a matança ritual de animais. E
arca regressou de seu ca tiveiro filisteu a Bet-Sames ( lSm nisto provavelmente não diferiam dos outros povos que
6,14) e Elias ofereceu holocaustos no monte Carmelo (lRs habitavam a terra de Canaã. Nos sacrifícios mais comuns
18,34). Quan do os profetas mencionam as oferendas de - o holocausto e a oferenda de comunhão - o sangue
das vítimas não exercia um papel ritual, mas estava car-
198
199
regado do mistério da vida e devia ser derramado antes estar dentro da sene patriarcal que põe tanta ênfase na
de se consumir a carne, quer comend~. quer transfor- promessa, acentua-se ainda mais a obediência de Abraão:
n:ando-a en: _fumaça no fogo. Interpretamos o complicado pôr em perigo a ordem de Deus, o cumprimento da pro-
sistema lev1tico de normas sacrificiais como um intento messa de que chegaria a ser o pai de um grande povo.
de a_:ssegurar a o~dem dentro de uma prática muito antiga Entretanto o aspecto do relato que nos interessa neste
e nao como a introdução de rituais novos. É provável contexto é a natureza da exigência de Deus - a morte de
que também a manipulação do sangue como elemento Isaac - posteriormente alterada para a morte de um car-
purificador, tão notável no sistema levítico, tivesse ante- neiro. A tradição admite a existência de um lado obscuro
cedentes na prática ritual dos ísraelitas, mesmo que os e violento em Deus.
textos narrativos não permitam assegurá-lo.
' Podemos encontrar a mesma experiência da violência
de Deus no relato da luta de Jacó com Deus em Fanuel
II . A experiência do lado demoníaco de Deus (Gn 32,23-33) . Este relato considera válido que os homens,
na pessoa de Jacó, lutem contra este Deus violento e ar-
bitrário, pois, terminada a luta, Deus abençoa a. Jacó.
O grande pensador social Sigmund Freud pensou que
na base da civilização está o assassinato do pai do clã Outro relato mais obscuro ainda e misterioso é o
~ -~ que levou à união, ~os filhos para proteger-se mediante ataque de Javé contra Moisés no caminho de Madiã para
~;> certas regras e praticas que assegurassem sua vida co- o Egito, numa viagem que o grande libertador empreen-
.J ' v Q> m1:11:1 _<~f. sua obra Totem e Tabu) . Uma dessas práticas de, por instruções do próprio Javé. Séfora, a mulher de
y J or1gmanas na cultura humana teria sido a representação Moisés, consegue salvá-lo do ataque de Deus somente com
\'t) ritual do assassinato do pai que, em si mesmo como o sangue do prepúcio de seu filho (ou do próprio Moisés) .
if'
.!).(\ fato ~tórico, estava reprimido na memória col~tiva e O sangue tem neste relato uma função parecida à do uso
esqu~c1do. Segundo esta hipótese extraordinária, a violên- no sacrifício da Páscoa: espantar o perigo. Para nosso es-
cia está na própria raiz da civilização, assim como o sa- tudo, porém, o interessante do relato é que Javé é experi- ~
crifício ritual. me?-tado como um Deus capaz de matar seu profeta sem ~..,·

Seja qual for o elemento de verdade contido na hi-


razao aparente. V' d'
pótese de Freud, é um fato que existe nos textos bíblicos Não vamos incluir os múltiplos exemplos bíblicos da ~,i\) :\!
violência redentora de Deus, como por exemplo a ma- ~ oJl
um testemunho a favor de um lado violento de Deus do
Javé que tirou Israel da escravidão do Egito. Até a~ora tança dos primogênitos dos egípcios para conseguir ue-p ~
exploramos a violência ritual que procura agradar a Deus
com o sacrifício da vida de diversos animais. Agora vamos
afru_;ta~-~os . da área dos ritos para deter-nos nos poucos
e s1gnif1cativos textos bíblicos que evocam uma experiên-
libertação de seu povo, ou a violência contra os cananeus
para ajudar Débora e as tropas de Israel em sua lut \ QJ
contra esses inimigos. Esses casos de uso da força têm ')
ti '
um motivo imediato na salvação de Israel e não entram i ()
cia da violência de Deus. no tema da violência de Deus. y~ "J~<:Y
1
Já f?i. feita uma_ alusão ao texto do sacrifício que Os profetas percebem freqüentemente Deus como umal.lç•/ e('
Deus exigiu de Abraao: queimar em holocausto a Deus força externa que os compele a agir contra seus desejos , ,(
seu -~co filho Isaac (Gn 22), texto central na reflexão naturais. O caso das lamentações de Jeremias apresentru}
teologica ?~ S?ren Kierkegaard, por mostrar em sua pu- com a maior prec1sao esta violência divina: "Tu me sedu-
reza a ex1genc1a de obediência aos mandatos de Deus, a
ziste, Senhor, e eu me deixei seduzir; agarraste-me e me
ponto de suspender as considerações éticas normais. Kier-
kegaard teve razão. O cerne do relato é a exigência abso- dominaste" (Jr 20,7). De fato, o caso da compulsão sobre
luta de obediência à vontade divina. Pelo fato de o texto os profetas também não representa um problema grave,

200 201
a não ser para a história pessoal do próprio profeta.
Dentro de certas circunstâncias, é perfeitamente compre- enfrentar este problema. O esforço mais sistemático da
ensível a obrigação de dar uma mensagem desagradável Bíblia para enfren tar o pr oblema são as instruções para
para conseguir os propósitos salvíficos ou sentenciadores os sacrifícios esboçadas p elos sacerdotes e os relatos que
a respeito de seu povo. as acompanham. Mas o gênero destes text os, em s ua
O mais grave de todos os casos de violência divina maioria instruções para a realização do ritual, limitam
é a perseguição de Jó, sem causa suficiente. Deus quer 0 intérprete. Sua intenção não é explicar, mas controlar.
provar a Satã que Jó será fiel mesmo nas mais graves Mediante um sistema ritual sistematicamente elaborado
calamidades. Por isso permite a Satã que o a tinja com procuram controlar a violência inerente ao ritual e evitar
as piores pragas. Deus mesmo reconhecia Já como "ho- seus abusos . Vamos passar a examiná-lo.
mem íntegro, reto, temente a Deus". Esta m agnífica his-
tória, como a do sacrifício de Isaac, são casos limites,
impossíveis de just ificar dentr o de qualquer t eologia ra- III . O sistema levítico de c ontrole da "i olência r itual
cional. R€fletem simplesmente a realidade da experiência
humana que inclui algumas vezes, mesmo sem entendê-la, o Pentateuco contém um esforço gigante de r egula-
a inegável experiência da violência imerecida que vem de mentação do culto sob o controle e a supervisão dos s a-
Deus. O livro de Jó termina com o reconhecimento da cerdotes aaronitas. Trata-se de um conjunto de estatu tos
integridade de Já que n ão cessou de protestar contra as imposto por Javé no monte Sinai, com o fim de regula-
atrocidades com que Deus o a tingia. Seus companheir os, mentar o culto na Morada cuja construção Javé ordenou
porém, estavam dispostos a sacrificar Já para salvar uma a Moisés, segundo o modelo da Morada celestial que lhe
teologia que não admite a violência de Deus. Dentro dos foi revelada no monte. No átrio da Morada, Javé mandou
limites estabelecidos pelo argumento do livro é a saída eri!Zir um altar (Ex 27,1-8) e este lugar é o foco das ações
mais decente, embora r esguarde intacta a experiência da "'
sacrificiais do culto.
violência de Deus.
As instruções para os sacrifícios estão sistematizadas
Podemos então concluir que, dentro da experiência num p equeno código em Lv 1-7, que considera quatro
de Israel, era conhecida a experiência limite e irredutível sacrifícios: o 'olalt, o hattat, o .a.Sam e o zeb!Lh haJselamim .
da violência de Deus. Isto é importante, mas não é exa- Pelo que sabemos destes sacrifícios através dos antigos
tam ente o tema que nos importa. Estamos mais interes- textos narrativos e legais, neste código se ressalta o inte-
sados em perguntar se o Deus ver dadeiro da Bíblia exige resse pela manipulação do sangue, a dialética puro/ impu-
sistematicamente a morte de suas criaturas para satisfa- ro, limpo/ sujo, tahor/ tame', e, conseqüentemente, a de-
zê-lo. Este é o problema que os sacrifícios de animais finição das funções e prerr ogativas dos sacerdotes. A in-
propõem e que depois será proposto pela morte do Filho trodução sistemática destes t rês temas na elaboração das
de Deus. Será que Deus quer mesmo a morte para satis- prescrições detalhadas tem o propósito de controlar prá-
fazer algo que está dentro de sua própria personalidade? ticas já existentes. Segundo a visão dos sacerdotes, um
Os relatos de violência contra Isaac, Jacó, Moisés e Jó dos impulsos que deve ser controlado nestas práticas é
afirmam alguma coisa em Deus que a teologia não con- a tendência para a violência que facilmente poderia nu-
segue captar e que a linguagem humana sobre Deu s não trir-se de um culto que inclui a m atança de animais.
consegue expressar. Não obstante, será que este algo leva
a uma relação sistematicamente violenta nas relações de A matança e esquartejamento dos animais é uma fun-
Deus com a humanidade? ção do ofertante sob o olho fiscalizador do sacerdote.
A matança se fará de modo que o sangue seja extraído;
Os sacerdotes que administravam o ritual que ínclufa depois disto é entregue ao sacerdote. A manipulação do
como peça cent ral a matança de animais tiveram que sangue - parte central do ato - é uma função do
sacerdote.
202
203
O holocausto, que é um dom que se consome intei- ueimado num lugar puro. A diferença no tratamento
ramente no fogo para odor agradável a Javé não apre- ser qarne deve-se certamente ao fato d e ser mconveruen
. . te
senta ~ovida~es a respeito do que já se conhecia pelas da c sacerdote pudess~ benefi c1ar-s~
que · da carne d a v1·t·rma
0
narraçoes antigas. O sangue é devolvido a Deus pelo der- oferecida por sua própria transgressao.
ramamento ao pé do altar, pois não tem nesta oferenda
um uso especial. O sacerdote encarrega-se de empilhar as Tudo isto parece uma racionalização de práticas ri-
partes do animal que foi esquartejado pelo ofertante sobre tuais antigas. Procura-se evitar uma interp~etação m~~ca
o altar e assegurar que se consumam por completo no d valor do sangue, reduzindo-o a um me10 de purif1ca-
fogo. 5' A transgressão involuntária contamina o altar dos
çao. d
holocaustos que requer limpeza antes de seu renova o
Os sacrifícios de comunhão também não apresentam uso. se a transgressão for do sumo sacerdote ou. da ~­
novidades. Com o sangue procede-se da mesma forma que sembléia inteira, a contaminação penetra até o mtenor
no holocausto. Consomem-se sobre o altar os rins o rabo da Morada e requer um ato correspondente com o sangue
o fígado e o sebo. O sacerdote recebe como pag~ o peit~ da vítima do hattat.
e a perna direita que são elevados em tenufá diante de
Javé, antes de lhe serem entregues. O resto da carne pode o sistema não diz respeito ao pecador em nosso sen-
ser consumida pelo ofertante e seus convidados, sempre tido usual do termo: aquele aue peca e posteriormente
que estiverem em estado de pureza. reconhece seu mal e se arrepende do que fez. A forma de
tratar destes casos se deduz de Nm 5.5-10 e Lv 5,14-26.
A inovação encontrada no sistema levitico é a oferen- o pecador arrependido deverá: 1) Confessar (publicamen-
~ do J;attat. Neste rito o centro de atenção está na ma- te, ao que parece) seu delito; 2) Restituir o dano à víti-
mpulaçao do sangue do animal. O que este sacrifício
ma, mais uma reparação da auinta parte; 3) Oferecer o
evoca é o "pecado" por inadvertência que acarreta conse-
qüentemente contaminação. Este "pecado" pode ser algo sacrifício do a§am. Asam significa "culpa". Este sacrifício,
sem culpa, como por exemplo o parto (Lv 12). o hattat pelo fato de acompanhar reparações por danos cometidos,
não pode ser usado em caso de pecado aleivoso, pois tal traduz-se como "sacrifício de reparação".
pecador esta excluído da assembléia de Javé (Nm 15,30-31) . Para explicar esta curiosa combinação de atos no
Para um israelita qualquer que se tornou impuro, caso de um delito que não pode ser expiado pelo sangue,
uma parte do sangue será usada pelo sacerdote para untar remeto aos trabalhos do estudioso judeu Jacob Milgrom
as pontas do altar e o resto será derramado ao pé do (em sua coleção Studies on Cultic Theology and T ermi-
alt~r (Lv 4,34). ~im "o sacerdote fará por ele expiação nology, Leiden 1983). A confissão é suficiente para conse-
('J kipper) e lhe sera perdoada a transgressão (nislah loY guir o perdão de Deus, que não exige atos rituais. A pre-
(Lv 4,31-35). O sebo da vitima será queimado sobre o altar paração tem por fim restaurar a integridade da comuni-
e o sacerdote tomará como paga a carne. dade. O perdão de Deus e a restauração da comunidade
Quando se tratar de impureza ou transaressão invo- têm como efeito reduzir a seriedade da ofensa, fazendo
luntária do sumo sacerdote ou de toda a ~sembléia de com que o delito aleivoso possa ser considerado igual a
Israel, o sacerdote levará uma parte do sangue para uma ofensa involuntária. É de supor que haja casos que
dentro da Morada e aspergirá com ele sete vezes a fa- não permitem reparação, especialmente o homicídio. Para
chada do véu, untará com uma parte as pontas do altar estes casos o sistema levítico não tem solução além da
do incenso e derramará o resto ao pé do altar dos holo- exclusão do pecador da assembléia. O sistema levítico
caustos (Lv 4,3-21). Serão queimadas as partes usuais não possui mecanismos para considerar a possibilidade do
sobre o altar (rins, fígado, rabo e sebo), e a pele, a carne perdão de Deus em tais casos que resultam, em última
e o demais será levado para fora do acampamento para análise, imperdoáveis.
204 205
tentativa de resposta que se encontra na
.E-..d~te :::: textos sacerdotais Gn ~,29; Gn. 8,2·6 e. o
O caso da novilha vermelha (Nm 19), que não é pro- conJllll:<?1'°. de Lv 17,13-14. o efeito e o segumte: a m-
priam~nte um sacrifício, entra perfeitamente na nossa texto Jª visto criação foi que a humanidade, como
tenção de Deu~ n~ comessem ervas. Como "toda carne
compreensão do sistema levítico e serve portanto para
confirmá-lo. É o único caso em que o sangue não é ex-
traído no momento da matança. A novilha é imolada fora
também os aro:::· v' cio"a sobre a terra" (Gn 6,12) de-
tiJlha uma con6s ter~;r o julgamento do dilúvio, per-
do acampamento. O sacerdote mete seu dedo no sangue cidiU Deus, ap .dade matar animais para alimentar-se. de
e faz sete aspersões em direção à entrada da Tenda e r:nitir à h~a::: obstante, o sangue, no qual está a vida,
\
em seguida procede-se à queima do animal com toda a sua ~arne. . ua disposição, mas devia ser usado se~do
pele, sangue e inclusive excrementos, sob o olho do sa- não ficava ª·~s . ostas or Deus, para fins de limpar
cerdote. A participação neste ato provoca impureza no normas estn1.a s, lIDPdas n~ coisas sagradas pelas trans-
sacerdote e em quem procede à queima. Esta impureza as ~p~rezas caus~s animais não podiam ser i::iortos ~e
será lavada com a água. Depois um homem puro recolhe gressoe.s humanas. ual uer lucrar Os animais domes-
as cinzas que serão guardadas para uso futuro, quando qualquer .forma e ::ir:;rt~s ~ante de .Javé, diante de sua
se exigirá água lustral para purificar aqueles que se tive- ticos deviam ser ervisão do sacerdote que era respon-
rem contaminado com um morto. Esta prática cabe in- Morada e sob ~ ~~-o do sangue. Os animais silvestres
teiramente dentro da lógica levítica sobre o valor purifi- sável pela ma:p ça local onde foram caçados e seu
cador do sangue. A água lustral deriva seu poder da pre- seriam degola ods no terra Segundo esta interpretação
e derrama o na · . · f en-
sença de cinzas dentro dela, cinzas que incluem o sangue sangu. d rificio a matança de aromais em o er
do ritual e_ sac ., .• eia de Deus mas uma con-
da novilha vermelha. da a Javé nao era uma exigen '
Como se pode apreciar nesta síntese dos sacrifícios cessa- o a· natu1·eza violenta dos homens.
cruentos do sistema levítico, seu valor está em reduzir
rigorosamente o poder do sangue à sua qualidade deter- olêmica. contra os sacrifícios
IV . A P
gente. A transgressão involuntária (segaga, íncluindo even-
tos naturais como o parto e o contato com um morto) Sabe-se que os grandes profetas do século VIII .cri-
produz impureza ou sujeira tanto no agente como nas icaram amargamente os sacrifícios abundan_tes dorifs. ~~oss
t " quero amor e nao sac icio ,
coisas sagradas da Morada de Javé. O sangue de animais de seu_ temtpo. d Po~~: ~ais que holocaustos" (Os 6,6).
corretamente imolados tem o poder de limpar diretamen- conhecrmen o e e traziam "'acrifí-
te as coisas sagradas. E as pessoas podem conseguir o Amós ironiza o entusiasmo ?~:. q~;el~ manhã oferecei
mesmo efeito mediante lustrações com água especial pre- cios e oferendas aos santu~n . . dízimos Queimai
, parada com as cinzas da novilha vermelha, que inclui em ossos sacrifícios e ao terceiro dia os . é
~ si o sangue da novílha. ;ã~ fermentad~ co:noae~~~~~ci(~e ~~~)~o~qu~~;:~~ém
. 4
\
~
'{
f-~
~l,
quase certo que na religião popular o sangue
É de anunciar a ruma o em
3
assim qu~ gos ai~, isrd t .plo (Mq 12) faz sua crítica
' '
->-\ 'f' · <>e
- ª um poder misterioso que ultrapas sava sua virtude à lógica sacrificial:
t
\'<'. como detergente. Não é provável que os sacerdotes levíti- "Com que me apresentarei ao Senhor,. ?
~\J a} cos conseguissem extirpar conceitos mágicos do poder e me inclinarei diante do Deus do ceu .

~
destes ritos com manipulação de sangue para expiar pe- Poderia apresentar-me com holocaustos
Q., cados morais aleivosos. A íntenção levítica foi, claramente, ou com novilhas de um ano? .
Terá o Senhor prazer nos milhares de carneiros,

\\~
• - \) reduzir e racionalizar o signüicado do sangue.
on nas miríades de torrentes de óleo?" (Mq 6,6-7) .
~ Mas o que fizeram os sacerdotes com a pergunta:
Será que Deus exige a morte de animais? 207
\J t ~
~ 206
Isaías faz coro com os três anteriores em suas de-
núncias dos sacrifícios e inclusive dos cantos e das ora- crüícios nada podem acrescentar ª- Deu~ que já
Os sa t das as feras dos campos e nao exige uma
é do_no dde a~imais domésticos de seu povo.
ções de Jerusalém (Is 1,10-17).
~ A base da crítica é a mesma nos quatro. O que se
porçao os · ..
O vemos que existiu em Israel uma critica·
exige é endireitar a conduta, muito mais que oferendas. Em resum ' - a
' tica dos sacrifícios cruent?S, ~e. bem q~e nao um
A solução ao pecado de Israel e de Judá só pode estar pra mo t1v
da'tica · ada pela violência rmphcita no sistema, que
na conversão. Não se trata portanto de uma crítica ra- ~n0 motivo deste nosso exame.
cionalista a cer.t.as formas de culto para preferir outras.
O culto autêntico é a conduta justiceira e não há forma
litúrgica que pode substitui-la. Todo ritual é relativizado V . O uso neotestamentário da interpretação levítica
diante da exigência de justiça . Só esta pode agradar ver-
dadeiramente a Javé. 0 antigo ritual dos protocristãos sír!~s . recorda e re-
presen ta a morte de Jesus como o sacriflcio que estabe-
Jeremias (ou seus redatores) mostra, entretanto, que lece a aliança (lCor 11,24-26) .
esta exigência podia levar a uma posição de desqualificar
radicalmente os sacrifícios de animais: - relata a morte de Jesus como a do cordeiro pas-
J oao . ta - p 1
qual é uma comemoração da llber çao. au o a
"Porque não disse e nem prescrevi nada a vossos a
ist~ também se refere em lCor 5,7. Este cor eiro_ "t·1z:a
cal d ·
pais, no dia em que os fiz sair do Egito, em relação 0 ecado do mundo" (Jo 1,29 ), função esta q:ie Jamais
ao holocausto e ao sacrifício. Não lhes ordenei senão .P do cordeiro pascal. Melhor interpretaçao se dá
fot a de lJo 1,7 onde o sangue d e J esus " n 0~. purifica
através . .
isto: 'Escutai a minha voz, e eu serei vosso Deus e
vós sereis meu povo•" (Jr 7,22-23). de todo pecado", idéia que se vincula ao sacrif1c10 levi-
tico de hattat.
Os sacrifícios de animais prestavam-se a uma religião o autor da Carta aos Hebreus interpreta ~ morte d?
que favorecia os ricos que tinham o que oferecer. E com Jesus pelo uso metafórico e modificado do stStema levi-
isto adquiriam uma falsa confiança. Era melhor simples- tico, o hattat em particular. O sangu:. tem o pod~r. de
mente desconhecê-los. urificar - o que é essencialmente levitico - e purif10ar
~ consciências - o que já não é levítico (Hb 9,13-14).
A mesma posição toma o Salmo 50. Só que o salmista
estriba sua crítica mais em argumentos racionalistas do Que função teve, pois, o sistema sacrificial levítico
que nos motivos morais dos profetas: que oferece a João e a Hebreus uma m~eira de entender
a morte de Jesus sem referência à sua vida e sua ressur-
"Escuta, meu povo! Eu vou falar; reição, algo muito perigoso?
vou testemunhar contra ti, Israel,
eu, o Deus, teu Deus: o sistema prevê quatro tipos de sacrifícios que sus-
tentavam a vida da comunidade.
não te reprovo por teus sacrifícios
n em pelos holocaustos, 1. o zebah hasselamim era o mais con;ium. Tratava-se
que sempre estão diant.e de mim. de uma celebração. O leigo matava o animal com uma
Não tomarei o novilho de t.eu estábulo faca e derramava o sangue sob a supervisão do sacerdote.
nem os bodes dos teus apriscos, os rins, o fígado, o rabo e o sebo eram queimad_os. sob~
pois são minhas todas as feras das selvas 0 altar. o sacerdote recebia o peito e a pern~ _direita, fi-
e os animais nos montes, aos milhares" <SI 50,7-10). cando 0 restante a ser consumido pelos part1c1p~tes da
celebração. Não havia nenhum mistério envolvido. Era
208
209
(~\) .,~. ,J
.(>~

l~.,• u' f
~ } alimento e festa. A função do sacerdote era tão-somente
1
()

~-
IV~
~p't
0 !'
~t.

,.)..~
?J:l1
1'I
t 1 assegurar que não fosse violada a proibição de consumir
o sangue.

2. O 'owh, ou seja, o holocausto. Matava-se o animal


de igual forma, derramando-se o sangue ao chão. O ani-
mal era esquartejado, a s peças eram ajuntadas sobre o
altar e eram queimadas, sendo a fumaça o odor agradável
2 l-S ) sem que 0 rito ficasse afe.tad~ . ?s. c~iminais,
(J.\fq ·' produtores de impurezas m crrmmaveis, eram
ou slseJa, ospara que o rito continuasse. Porém, as impure-
expu ~os ;..,crimináveis
zas nao .,.,
· contin
· uavam m· t a t as.

É assombroso com o ID? rit o tão "inútil" possa ter


\
~ !)~1. ,.para assegurar a boa vontade de Deus para a comunidade. ido com o chave par a m terpretar a mo~te de Jesus
1 serv lvífica . Foi aplicado ao s angue do Filho de Deus
ct""P'. } 3. O hattat era um sacrifício cujo momento central corno sdaer purificador das consciências à semelhança da
um

j
po
urificação das casas p elo sangue de .ammrus · · no s1s
· t ema
-J \• era a manipulação do sangue . Este era recolhido em um
~ p recipiente e usado para untar os cantos do altar e ser P 'tico João o inclui no relato da vida, morte e ressur-
( \ l.l,,l~ aspergido no véu. O sacerdote consumia toda a carne Ie~ - 0 ·e Hebreus sugere
reiça .
qu e é a obediência de Jesus o
J;) ) excetuando-se as peças que usualmente eram queimadas ue torna o sangue eficaz. Em todo cas o, o N ovo T est ~-
~ sobre o altar (rins, fígado, etc.) . ~ento está longe de interpretações semelhan~s ao sacn-
ficialismo de ~seI_mo, no q1:1al a. morte do Filho de Deus
Este s acrifício era o último passo para a reintegração satisfaz as exigencias do Pai.
uma pessoa considerada impura na congregação. Podia
tratar-se de uma parturiente, um homem que esteve em
contato com um morto ou que foi curado de lepra. Po-
rém, o rito só podia ser efetuado após sua purificação VI . Interpretaç ões n ão rituais da morte de Jesus
com água. Após o sacrifício o sacerdote declarava o in-
divíduo perdoado. Já vimos até aqui que, embora fosse geral em Israel
0 sistema de sacrifícios cruentos, houve duas formas de
Certos delitos, todavia, eram crimes que exigiam a reacão para deter as conseqüências indesejáveis deste
morte do culpado, tais como o homicídio e o adultério. ntti'al. Por um lado, os sacerdotes elaboraram um ~iste­

~ I ,
.~~O sacrifício, nesses casos, não era usado, pois não cabia.
.
rna de controle sobre os sacrifícios, baseado numa mter-
\) / 4. O caso dos que cometiam perjúrio ou ofendiam pretação estritamente reducionist~ do valor _do sangue dos
r'ed' .t, alguém é particularmen te interessante. Primeiro, faziam sacrifícios, excluindo assim as mterpretaçoes exageradas
~~,, uma confissão; segunào, restituíam o prejuízo acrescido que a religião popular podia at ribuir às virtudes do san-
~.) " ~ de sua quinta parte como indenização e, terceiro, ofere- gue. Por outro la do, os profetas questionaram ~ si~tema.
i
W0
I/' l ciam em asham um sacrifício quase idêntico ao hattat
(ver Nm 5,5-10 e Lv 5,14-26) .
a partir de sua visão de Deus como autor de Justiça
um ser supremo que não podia ser chantagead o co.m do-
nativos que além do mais não lhe fazem falta. Evito?:se
Este sistema tinha a finalidade de manter o equilíbrio assim tirar do ritual de sacrifícios em Israel consequen-
social guardando a pureza, de forma publicamente verifi- cias perigosas no sentido de uma exagerada eficácia des-
cada, frente às ameaças apresentadas por impurezas não tes ritos ou conseqüências n egativas quanto à natureza
criminais. Porém, o sangue de animais era inútil para a de um Deus que vive da carne e do sangue de animais.
integração de pessoas que cometiam delitos puníveis, ou
seja, essas mortes rituais de animais não cobriam o ver- Com relação à morte de Jesus apresentam-se as mes-
dadeiro problema sacrificial. Não superava o problema mas possibilidades negativas do sistema ritual. Será que
social do animal expiatório, s equer o tocava. Os comer- o sangue do Filho de Deus opera. automaticamente nossa
ciantes podiam vender grãos de má qualidade (Am 8,4-8) salvação, num sentido mágico que na?a tem a ve~ com
e os poderosos podiam usurpar as terras dos pÓbres nossa conduta? E será que Deus exige, para satisfazer
sua dignidade ofendida p or n ossas rebeliões, uma paga
210 em sangue - o sangue de seu próprio Filho?

211
Antes de abordar as interpretações sacrificiais de sua . 1 Antieuo Testamento, em Biblia y liberación de
morte, vejamos algumas não rituais. Nosso ponto de par. Jav e~r=s Mé~co 1986, p. 177-198. Os evangelistas subli-
3
tida é a parábola do dono da vinha contida nos três evan. zos 1JO 0 v~lor de substituição na morte de Jesus, que de-
gelhos sinóticos (Me 12,1-12; Mt 21,33-46; Lc 20,9-19). ~arndo texto profético. O Servo, provavelme~te . o povo
O dono da vülha enviou muitos servos para cobrar a n;ra el sofre para que as nações se conscientizem de
renda que lhe deviam os arrendatários, mas espancaram de e1sra
Javé,' que o defende e o levanta dos m_o~t os, e· o De_us
~ uns e mataram a outros. Por último, o dono enviou q~rdadeiro. Sofre, pois, o Servo em beneflc10 das naçoes
\. )Q seu filho amado e também a este o mataram com a in- ~ue 0 tinham por desprezado por Deus.
i> l~tenção de fica~ ?ºm a herança. Os evangelistas advertem
que os adversar10s de Jesus entenderam muito bem que No Novo Testamento são os sermões de Pedro nos
<t' ,,t> ele dirigia a parábola contra eles, de modo que procura- . eiros capítulos do livro dos Atos que usam o título
·~~ l. vam uma ocasião de prendê-lo. De acordo com esta pa- ~r";:zis para referir-se a Jesus crucificado pelas autorida-
/ rábola, Jesus, o Filho de Deus, morre como o último e de da nação (At 3,13.26; 4,27.30). Se isto significa Servo
~... v'~ mais importante mártir nas mãos de um povo de Deus e ~o Filho, o que é provável, é possível uma interpri:_ta-
r" J rebelde, depois que. o povo perseguiu e matou os pro- - da morte de Jesus não tanto em favor das naçoes
1\ tY~ ,,.retas que foram enviados antes dele. Os responsáveis pela çao corno no texto profético - mas em prol da~ autori-
~ ~ violência são, pois, as autoridades e não Deus. dades de Israel. Eles mataram o Autor da Vida sem
':f} f'f:JÍ> A .mesma idéia é explicitada num dito que provém do
sabê-lo. com sua ressurreição Cristo lhes oferece uma ),
ova oportunidade de arrepender-se de sua rebeldia con- ~
material comum a Mateus e Lucas (Q): ~ra Deus e seus profetas, abrindo a possibilidade de um {fl'
"Por isso disse a Sabedoria de Deus: Vou enviar-lhes novo princípio.
profetas e apóstolos; matarão alguns, perseguirão a
outros, para que desta geração seja pedida conta do
sangue de todos os profetas, derramado desde o prin-
cípio do mundo, a começar do sangue de Abel até o
outra importante imagem não ritual para entender
o valor salvífico da. morte de Jesus é a que se refere
sangue de Jesus como preço de nossa redenção. Vejamos
os textos:
ªºtv# ~2..
e
JJ Ili
Jr>_

.~
>
sangue de Zacarias, assassinado entre o altar e o san-
tuário; sim, eu vos asseguro que será pedida conta "Olhai por vós e por todo_ º. reb~o, sobre o qual Ju:f
desta geração" (Lc 11,49-51). o Espírito Santo vos constitwu episcopos, para apas- /
centardes a Igreja de Deus que ele adquiriu com seu
Deste ponto de vista, a morte do Filho de Deus é o sangue" (At 20,28).
cúmulo dos males do povo de Deus. Isto justifica que "Cantaram um cântico novo que dizia: 'Digno és de
Deus recuse seu povo para dirigir-se às nações. O povo tomar o livro e lhe abrir o..s selos, porque foste imo-
de Israel é o responsável pela morte do Filho de Deus e lado e com teu sangue compraste para Deus homens
por isso arcará com a condenação. O valor salvífico da de toda tribo, língua, povo e nação. Deles fizeste para
morte não é aparente sob esta perspectiva. nosso Deus um reino de sacerdotes e eles reinarão
Outro marco para a interpretação da morte de Jesus é sobre a terra'" (Ap 5,9-10).
a profecia de Is 53 sobre o Servo de Javé que sofre a morte "Pois sabeis que não é por bens perecíveis, como a
merecida pelas nações. "Pois o Filho do Homem não veio prata e o ouro, que tendes sido resgatados de vossa
para ser servido mas para servir e dar a vida pela reden- conduta vã, herdada de vossos pais, mas pelo precioso
ção de muitos" (Me 10,45, par. Mt 20,28) . Sobre as difi- sangue de Cristo, como o de um cordeiro integro e
culdades na interpretação da intenção da passagem pro- imaculado. Antes da criação do mundo fora predesti-
fética, pode-se consultar Jorge Pixley, Jesús y el siervo de nado e nos últimos tempos se manifestou por amor
212 213
çáo entre Deus e seu povo, mediante o derramamento
de vós. Por ele tendes fé em Deus que o reasuscitou
dos morto~ e glorificou a fim de que vossa fé e espe-
:emetade
1
uma metade ao pé do altar e da aspersão outra
da
sobre o povo:. Uma ve-z que esses animais eram
rança esteJam em Deus" (lPd 1,18-21) . .,crifícios de comunhao e holocaustos, segundo Ex 24,5,
. ser consurm.da pel o povo.
uma p arte de sua carne d ev1a
S<>

A linguagem da redenção provém da esfera legal, onde Há rusto wna analogia bem pertinente com o pão da
se refere ao preço do resgate de um escravo. Os três Eucaristia, mas nem tanto com o sangue.
textos referem-se à Igreja como a entidade redimida pelo
preço do sangue do cordeiro, ou, segundo os Atos, o san- Jesus converte-se no pão da vida que dá vida e uni-
gue do próprio Deus. A escravidão na opinião de Pedro dade à Igreja, um tema elaborado em Jo 6,22-59. Em sua
~ra uma servidão à vã conduta herdada dos pais. A idéia última ceia institui como prática permanente a continua-
e que custou a morte de Jesus em mãos das autoridades ção da comunhão de s ua mesa, para simbolizar e Gonsoli-
do ~ovo de Israel, para que dentre esse povo pudesse dar a. comunidade. Mas, ao tratar do vinho como seu
surgir um novo povo, um povo que abandonasse a vida sangue, introduz um elemento sacrmcial, incoerente com
que agora lhes parece vã. 0 sistema sacrificial. Nunca, na prática ritual de Israel, o
sangue de qualquer sacrifício era bebido! Era terminan-
O fato de que nas citações de Pedro e do Apocalipse temente proibido comê-lo junto com a carne, e implicita-
se faça re.ferê?ci~ ao sangue de J esus como ao sangue de mente também bebê-lo. O sangue da aliança era borri-
um . cordeiro mdica que a imagem da redenção foi "con- fado sobre os contraentes para confirmar suas obriga-
~mada" .com idéias sacrificiais, embora a redenção não ções mútuas e consolidar sua unidade. A carne das víti-
SeJa pro~riamente um ato ritual vinculado aos sacrifícios. mas era consumida logo a seguir num banquete que no-
Tem mais a ver com transação comercial. Daí a idéia da vamente confirmava a união da aliança. São estes os ele-
~orte ou do sangue como preço de redenção ser uma mentos sacrificiais que estão à base da corruda eucaristica
imagem apropriada. e das palavras que a acompanham, não obstante a expli-
cação de sua aplicação precisa tenha provocado longas e
Na teologia da Igreja a interpretação da morte de até agitadas discussões.
Jesus como o preço de nossa salvação foi entendida como
o preço _que foi preciso pagar ao demônio para libertar-
nos (Ongenes, ln Matt. 16,8; 12,28) . Anselmo considera-a
como o p7eço que o homem-Deus pagou a Deus em nome 2. Jesus como cordeiro pascal ~
da humanidade como pagamento da dívida contraída quan-
do o homem desobedeceu a seu Criador. Nem um nem O Evangelho de João, ao contrário dos evangelhos si-
outro parecem estar presentes nos escritos apostólicos. nóticos, coloca a morte de Jesus às vésperas da festa da
Páscoa, exatamente na hora em que se sacrificavam os
cordeiros pascais. Esta identüicação é ainda reiterada pelo
incidente da lança que o traspassou sem quebrar nenhum
VII . Interpretações rituais da morte de Jesus
osso, para que se cumprisse a escritura: "Não lhe que-
1 . As palavras da instituição eucarística
brareis osso algum" (Jo 19,31-37, citando Ex 12,46 do ritual
para a Páscoa).
Nos três evangelhos sinóticos, as palavras pronuncia- É possível que esta identificação esteja por trás das
das pelo Senhor sobre o cálice de vinho falam de "meu famosas palavras de João Batista: "Eis o cordeiro de Deus
san.gue, o sangue da nova aliança, que é derramado por que tira (ou carrega, ho airon) o pecado do mundo" (Jo
mmtos (ou por vós)" (Mt 26,28; Me 14,23; Lc 22,20). Tra- 1,29). Propriamente o cordeiro pascal era uma vítima cujo
ta-se d: uma clara alusão ao pacto sinaítico em Ex 24,6. sangue protegia contra a destruição e não era um sacri-
A funçao do sangue destas vítimas era consolidar a re-
215
214
fício pelo pecado. É possível que o evangelista o entenda
de outro modo. A idéia de que Jesus morreu como o cor- uprime a necessidade de sacrifícios que, em todo caso,
deiro pascal que espanta o perigo não é alheia à Igreja ~ão agradam a Deus (Hb 10,5-10). Num determi~ado x:io-
primitiva. Demonstra-o o dito de Paulo: "Pois Cristo, nossa rnento do argumento, o rito parec~ perde: a unp?:~­
Páscoa, foi imolado" (!Cor 5,7). cia mesmo o rito do sangue de CrISto, e e a obediencia
de ' Jesus o modelo de fé que nos é proposto (Hb 12,2).
A morte de Jesus deixa de ser um sacrifício para conver-
ter-se num modelo de fé que nos inspira a resistir até o
3 . O sangue de Jesus Cristo como elemento purificador
sangue (Hb 12,3-4).
Vimos que nos sacrifícios do hattat e do a§am, o san- Hebreus manifesta tanto a atração da imagem sacri-
gue da vítima funcionava como detergente das coisas sa- ficial para entender o porquê da morte do Filho de Deus,
gradas que eram manchadas pelas transgressões do povo. como também os limites desta imagem. Finalmente, não
Simbolicamente, vários textos apostólicos atribuem o é um ato ritual com o sangue de Cristo que liberta a
mesmo valor ao sangue de Cristo (lJo 1,7; Rm 3,25; Ap consciência do pecado, mas é a obediência até o sangue
1,5; lPd 1,2; Rm 5,9; Hb 9,13-14; Barnabé 5,1) . 0 modelo proposto a seguir. A dificuldade do argumento
complicado de Hebreus é uma dificuldade real que tam-
O escrito do Novo Testamento que mais elabora a bém está latente em outros esforços de falar da morte
imagem dos sacrifícios para interpretar a morte de Jesus de Cristo como um sacrifício cujo sangue tem poder de
é a anônima Epístola aos Hebreus. Sua intenção é esta- purificar.
belecer o contraste e a oposição entre os sacrifícios do
sacerdócio levítico e o sacrifício de Jesus Cristo como É surpreendente que nas alusões apostólicas se volte
sumo sacerdote. O swno sacerdote entrava no lugar san- a admitir que o sangue purifica as pessoas do pecado, ~
tíssimo que era uma cópia da Morada celestial (segundo uma vez que se perdera o interesse nas coisas sagradas ( (,;;
Ex 25) com o sangue de carneiros que oferecia pelas
ofensas involuntárias próprias e do povo (agnoemata,
do Templo, que ocupavam o plano central do sistema leví- · r·
tico. Por isso fala-se que somos purificados pela aspersão ))) ,_u> 1 ,~
Hb 9,7). Este ritual era insuficiente para realizar o que de seu sangue (lPd 1,2; Barn. 5,1; Hb 9,19) . O único sa- "/"'
nosso autor considera essencial: "justificar a consciência crifício do Antigo Testamento em que se aspergia o povo c,<:i..f"
do adorador" (Hb 9,9) . Cristo, em contraste, entrou na com sangue era o sacrifício do pacto (Ex 4,3-8), que não ~
Tenda maior, o modelo celestial revelado a Moisés, com a tinha sentido purificador, mas comprometedor para a \ ' r::/
oferenda de seu próprio sangue, capaz de "purificar nossa nova relação que se estabelecia nesse momento. A nova ) r1..lr\J
consciência das obras mortas" (Hb 9,14). aliança é um tema fundamental da interpretação da morte !t'
de Cristo, como vimos ao falar da instituição da Ceia do . .ir{~
Hebreus mantém o conceito levítico da necessidade do Senhor. Mas, seguindo Jr 31,31-34, os apóstolos entende- \ '
sangue para purificar os objetos sagrados (Hb 9,21-22). ram que a nova aliança não teria futuro se não come- \
O sangue de Cristo purifica o santuário celestial ( Hb 9,23) . çasse com a purificação das consciências manchadas pelo
Porém, toda esta linguagem ritual é atravessada por outra pecado, e não apenas os pecados de inadvertência. Por
que declara superados e supressos os ritos. Cristo institui isso encontraram na aspersão do povo um símbolo apro-
uma nova aliança na qual, pelo fato de não existir a priado para a purificação que fundamentaria a nova alian-
consciência de pecado, será desnecessária a purificação ça. O perigo desta imagem é tomá-la ao pé da letra, como
dos objetos sagrados. "Ao dizer uma 'aliança nova', de- se a purificação das consciências fosse algo que se con-
clara envelhecida a primeira. Ora, aquilo que envelhece
segue de fora, em contradição com o que Jesus disse: o
e se torna a ntiquado, está a ponto de desaparecer" (Hb
8,13). Pois a base do rito é a presença contínua de uma
que contamina o homem é o que sai do coração (Me
consciência de pecado (Hb 10,2). A decisão de obedecer 7,17-23) . Sem conversão e sem compromisso com uma vida
nova de nada valerá urna n ova aliança.
216
217
dos e que, portan to, se nos manifesta no outro excluído
A interpretação sacrificial da morte de Jesus acarreta (o "menor destes meus irmãos'', de Mt 25,31-46). Falsos,
perigos: pode privar a vida cristã da fortaleza a que devia por outro lado, são os deuses que exigem a morte de
impelir-nos o exemplo de Jesus enfrentando seu martírio. outros para que eles possam continuar vivendo.
Se bem que a idéia de lavar com seu sangue o santuário
Se é assim, um Deus que exija sacrifícios cruentos
celestial (Hb 9,23-25) preserve as proteções introduzidas
para "alimentar-se" com seu odor agradável, ou o sangue
pelos levitas, isto hoje diz muito pouco à nossa fé. O
do homem-Deus para aplacar sua ira por causa dos pe-
marco mais adequado hoje em dia para interpretar o
cados de seu povo, não pode ser o Deus verdadeiro. Pu-
valor salvifico da morte do Filho de Deus parece ser antes
o da solidariedade (2Cor 8,9; Fl 2,5-11) e do martírio (Hb demos constatar que os sacerdotes levíticos não enten-
12,2; Ap 12,11). diam assim a Deus. Para eles, os sacrifícios cruentos eram
uma concessão ao apetite humano de carne e aos instin-
tos violentos do homem. Sua função como sacerdotes era
VIII. Reflexão final
controlar e processar esta violência tolerada por Deus.
Não que Deus, por sua própria iniciativa, pedisse sacrifí-
Não foi nosso intuito, neste estudo, sistematizar a cios, mas que, em vista do apetite e da violência huma-
doutrina bíblica sobre os sacrifícios cruentos. Nem acre- nos, Deus controlava com sacrifícios o perigo conseqüente
ditamos que fosse possível fazê-lo. O ritual sacrificial, e aproveitava as virtudes do sangue derramado para "lim-
como qualquer ritual na vida religiosa de qualquer povo par" sua Casa. O sistema levítico procurava exorcizar o
pode ser interpretado de diversas formas, inclusive pelo~ perigo de cair na idolatria, postulando uma suposta vio-
que participam nele. O que provocou este reexame das lência na natureza de Deus.
expressões bíblicas sobre os sacrifícios foi uma interpre- Não conseguiu evitar, todavia, outro perigo insistentt-
tação teologicamente perigosa dos sacrifícios. Segundo esta mente assinalado pelos profetas, o de que os sacrifícios
interpretação, o assassinato de Jesus ocorreu não tanto de- serviam aos ricos que tinham meios de oferecê-los como
vido à prepotência de homens ocupando lugares de auto- um bálsamo para suas consciências, permitindo-lhes eva-
ridade, como devido à vontade de Deus, segundo a qual dir-se do verdadeiro culto a Javé que consiste em satis-
a satisfação só poderia ser feita através do sangue de seu fazer as necessidades das viúvas e dos órfãos.
Filho. Este argumento foi magistralmente elaborado por
Santo Anselmo em Cur deus homo. Neste estudo ele trans- O rito sacrificial era um artifício de imagens para
fere o valor salvifico do martírio de Jesus do mundo pú- entender o porquê e o para quê da morte do Filho de
blico para o mundo religioso, onde pode ser manipulado Deus. Mas esta reflexão apresenta os mesmos perigos que
mediante mistificações. a. prática sacrificial apresentou para o povo de Israel.
Nossa experiência cristã destes últimos anos mostrou- Pode-se entender o sacrifício de Jesus, o Filho eterno de
nos q~e a luta religiosa mais importante que nos con- Deus, como eficaz por si mesmo, para purificar as cons-
fronta é a luta contra a idolatria (ver ILI. lucha de los ciências, sem a exigência de uma conversão e uma nova
dioses, de vários autores, San José, DEI, 1980). Diziam vida. É o mesmo problema que os profetas denunciaram.
os profetas que os ídolos são deuses feitos por mãos hu-
O outro perigo seria entender a morte do Filho de
manas. É verdade, mas não é um critério suficiente para
o necessário discernimento, pois à medida que crescemos Deus como um preço exigido pelo próprio Deus para sa-
em discernimento espiritual qualquer Deus nosso pode tisfazer sua dignidade ofendida pela desobediência huma-
um dia ser exibido como algo feito por nossas mãos (ou na. É o argumento de Santo Anselmo. Este argumento
algo forjado por nossas mentes, o que vem a dar no converte Deus num ídolo que exige morte para manter
mesmo) . Um critério mais sensato é reconhecer o Deus incólume sua dignidade.
verdadeiro como aquele que liberta os pobres e oprimi-
219
218
Acho que conseguimos esclarecer alguns parâmetros
do permitido e do proibido, para não converter Deus mun
ídolo diante da realidade bíblica do ritual sacrificial. o
Deus verdadeiro não é um Deus violento. Pode recorrer
à força quando ela é um meio salvüico, como foi o caso MECANISMO VITIMÃRIO
da libertação de seu povo da escravidão do Egito. Pode E A MORTE DE JESUS
também recorrer à força para julgar os opressores, como
no caso em que usou a Assíria para castigar Judá <Is
10,5-15). Mas não exige morte para satisfazer com sangue Rtti Josgrilberg
seus próprios apetites. Há experiências misteriosas como
a de Jó, mas elas não podem servir-nos de base para
formular uma teologia de um suposto Deus violento. Sub-
siste em Deus um horizonte misterioso que às vezes ex-
perimentamos como demoníaco. Para os cristãos, o perigo
é antes converter, através de uma linguagem descuidada "Não se trata de um tema, mas de
ou mal-entendida, o Deus verdadeiro que faz os ossos res- um mecanismo estruturante .. .
Eu estou falando de um mecanismo
sequidos cobrarem vida <Ez 37), num ídolo que exige estruturante". 1
sangue para satisfazer seus apetites.

Tradução do espanhol por


Lúcia M. E . Orth e Nabor Nunes Filho Freud levou a cabo a primeira tentativa de explicar
geneticamente a cultura a partir de um núcleo que a pró-
pria cultura trata de dissimular. Filogenética e ontogene-
ticamente ele faz remontar a cultura a um núcleo histó-
rico. Um evento histórico especial e fortemente carregado
de emoção teria por efeito um recalcamento, um desvio
e um controle da libido que se mantém latente por t rás
de toda produção cultural. Esse mecanismo freudiano da
cultura está exposto em Totem e Tabu (1913 ) e Conside-
rações sobre a guerra e a morte 0915) , que são retoma-
dos na idade madura, em O futuro de uma ilusão ( 1927),
Mal-estar na civilização 0930) e Moisés e o monoteísmo
(1939 ).
Na origem está um assassinato provocado pelo confli-
to da horda contra o monopólio do chefe (pai) sobre as
mulheres e outros bens. Os filhos que assassinam o pai e
o homem é o arcaísmo que se repete até hoje no com-
plexo de Édipo, origem e motor da cultura. Freud defen-
de a teoria da refeição totêmica (pacto e identificação
com o pai) como marco ritual do controle social de tabus
1 GIRARD, René. Le bouc émissaire. Paris, Grasset , 1985. As citações de
Girnrd são todas de ed ições de bolso da editora Gras~et

220 221
e proibições. A religião e a cultura origmam-se, pois, da
imagem do pai, do sentimento de culpa e do desamparo Pai a quem, por obediência e por estar à sua direita, lhe
(infantil). corrlere a dignidade última. É fora de dúvida que Freud
A estrutura edipiana do desejo é essencialmente con- interpreta a refeição eucarística como um sucedâneo da
flitiva . O parricídio originário vincula a cultura e a socie- refeição totêmica. Não é diferen te o modo pelo qual in-
dade à pulsão de violência, morte e dest ruição. Freud terpreta a concepção de Paulo a respeito da morte expia-
mostra em alguns textos a tendência instintiva à violên- tória de Cristo. ". . . o cristianismo obtém esta re denção
cia e à agressão, à inveja e à destruição. Toda cultura _ por m orte sacrificial d ~ um indivíduo, que assume
adquire uma conotação infeliz que o homem procura en- assirn a culpa comum a t0dos - para deduzir dela a
frentar por derivativos, compensações, ilusões. Especial- ocasião na qual esta protoculpa original pode ter sido
m ente a religião reforça o mecanismo de recalque e de adquirida pela primeira vez, ocasião em que teria acon-
' ilusão e por isso deve ser superada e suprimida. De qual- tecido também a origem da cultura". 5 O cristianismo re-
quer modo religião e cultura estão unidas desde fons et pete assim, com o judaísmo, o mito da origem cultural
origo, ainda que por uma perversão de "Eros" e "Ananke" e a ordem do Pai é preservada com os substitutos sacri-
(os dois pilares que sustentam e movem a cultura). ficiais de animais e do "filho". Mas a necessidade de ex-
piação é continua e recorrente. A inversão na r eligião do
Freud ch&ga a constatar a violência como uma "agres- Filho permanece interna na religião do Pai: a carne e
sividade constitucional de um ser humano contra outro" 0 sangue comidos são do Filho, todos os filhos se iden-
não apenas a pulsão de indivíduo, mas "a violência d~ tificam com ele, mas a expiação nada ma.is é do que o
uma comunidade". 2 A comunidade se mantém unida por reforço da culpa com uma catarse provisória.
duas coisas: a força coercitiva da violência e os vínculos
emocionais de iden tificação entre seus membros. J Essa Essa br evíssima caracterização do mecanismo freudia-
constitucionalidade da sociedade violenta e culpada na no da cultura 6 visa apenas mostrar que muito da inspi-
formação de suas idéias m orais leva Freud a encarar se- ração e dos elementos da teoria girardiana encontra-se
cularmente a cultura como "um prolongaão ato de expia- em Freud. Mas Girard nos adverte que, se há analogias,
ção de culpa que os filhos sentem por terem morto o há também profundas diferenças. Na verdade Girard pro-
pai ... " 4 Freud chega pois a uma concepção expiatória da põe um outro mecanismo de estrutw·ação da cultura,
cultura (sublimação), mas mantém-se fiel e coerente à muito m ais rico em conseqüências para a compreensão ã a
estruturação edipiana do desejo que o leva à rejeição de Bíblia e do evento cristii.o. Essa releitura da filogênese
qualquer aproximação mais positiva com a religião, iden-
tificando Deus com a imagem arcaica de um Pai assassi- cultural repete a manobra freudiana, mas com uma am-
nado e, por isso mesmo, julgador, sangüinário, ameaça- plitude e um sentido diferentes. A estrutura edipiana do
dor, vingativo. Embora Freud encontre na Bíblia e no desejo é deslocada para uma posição segunda. O centro
Novo Testamento sinais de sublimação, não chega a ver é ocupado pela estrutura m imética do desejo. Com isso
a possibilidade de superação religiosa da matriz. Sua in- ele propõe uma nova antropologia fundamental, uma nova
terpretação do cristianismo, apesar de toda genialidade, é compreensão da cultura e da r eligião, uma nova e rev'Jlu-
quase maquinal: se o judaísmo é a religião do Pai, o cionária interpretação do sacrifício e da sociedade sacrifi-
cristianismo é a religião do Filho, pois toma o lugar do cialista, tudo no motor primeiro da violência. Depois de
Pai expiatoriamente e reforça pela sua morte a força do Freud e das interpretações já clássicas do sacrifício (Ty-

2 . FREUD, SiP1I1und. Por q"e a guerra? Obrns Completas. vol. XXTI, p . 247. 5. FREUD, S igmund . EI malestar en la cultura. Madri, Alianza Editorlal,
3. I btd., p . 251, clt . por COSTA, J . E. Violência e psicanálise. São Paulo 1970, p. 77.
Graal , 19º4 o . •8. ' 6 Para uma análise ma•s detalhada , conf. RICOEUR, P . Da interpretação.
4 . LA PORTA. E studo psicanalftico dos rituais afro.brasileiros. Rio Atheneu R'o. lmal!O, 1977; O conflito das interpretações. Rio , Imago, 1978. parte II:
1979, p . 41. ' ' "Hermenêutica e psicanálise"; HESNAID, A. L "oeuvre de Freud. Paris, Payot,
1960; MARCUSE. H . Eros e citrllização. Rio , Zabar, 19S8; BRO WN, N. O . Vida
contra morte. Petrópolis, Vozes, 1977.
222
223
lor, Mauss, Smith) 7 é a primeira contribuição que traz originário formam qua~e .um.a c?isa .só, especialme~te em
elementos realmente novos para elucidação desse fenôme- situação de crise. A v10lenc1a e o mstrumento uruversal
no central de todas as religiões. Alterando o mecanismo es- da produção social do desejo. A violência é pois o motor
truturante, Girard abre a interpretação à Teologia, de um e localiza-se no centro da estrutura mimética. A rivalidade
modo insuspeitado no modelo freudiano. é a sua mãe. Nessa nova estrutura ganha-se em capaci-
dade de estruturação (note-se que vários autores obser-
Vejamos o porquê. Girard vê a essência do desejo e varam a dificuldade que há na história das opiniões de
sua gênese no mimetismo. O desejo não é só fruto da Freud sobre a pulsão de morte e destruição e de uma
necessidade, mas é também mediado pela presença do compreensão congenial do caráter violento da sociedade).
outro e do seu querer. É um desejo que passa pela rela- A rrúrnese reciproca não se explica pela natureza do indi-
ção com o outro e inclui essencialmente o conflito e a víduo mas é por si só um fato social que produz uma
rivalidade. O desejo em Freud é fruto da necessidade e é imagem do social. A violência humana não é um caso par-
fundamentalmente objetal. Mesmo os freudianos que es- t,;cular ou uma anomalia individual - é essencialmente
tudaram a conflitividade, a rivalidade e a inveja no desejo, um fato coletivo. Freud reconheceu a constitucionalidade
como M. Klein e seus discípulos, não conseguiram supe- da violência, mas não soube explicá-la e compreendê-la
rar o esquema objetal do desejo. Girard substitui a estru- como centro do processo social e cultural. O modelo ge-
tura objetal edipiana pela estrutura mimética do desejo. s nético de Girard transcende o da família edipiana na qual
Aqui o desejo se enlaça diretamente com o processo de Freud se fechou. Isso não quer dizer que as imagens do
produção social do desejo. A relação mimética não tem pai e da mãe não sejam art iculações nucleares de com-
s~a gênese nem no sujeito, nem no objeto, mas na rela- preensão. A violência mimética encontra seu ápice não na
çao entre os seres humanos, na existência do outro, na rivalidade ou no conflito mimético de indivíduos mas na
presença do terceiro: o desejo que nasce do querer do "crise mimética", onde todos são envolvidos e na qual
outro já é uma relação de conflito que se desdobra em todos são reproduzidos pela solução: essa solução é a
inveja, medo, respeito, ódio, vontade de destruir, etc. Em matriz da cultura - o sacrifício expiatório restaura então
torno dessa relação transformadora Girard desenvolve, com o mecanismo vitimário que torna possível a cultura. A so-
base numa antropologia fundamental, uma psicologia in- ciedade e a cultura alimentam-se de vítimas expiatórias.
terindividual e diferenciadora que propõe elementos de Todos se "unem" para matar a vítima que carrega assim
compreensão e superação da estrutura mimética dentro "as culpas".
da qual nós vivemos. A produção do desejo se libera
quando é diferenciada e não apenas mimética. 9 A relação entre violência e sacrifício como centrais na
estrutura mimética abre horizontes muitos diferentes dos
Por outro lado Girard entende que na estrutur~o de Freud: Freud viu a r eligião e o sacrifício na origem,
mimética o conflito é muito mais violento que o do cír- mas os interpretou pelo mecanismo edipiano como uma
culo edipiano. A violência essencial e o desejo mimético sublimação da culpa. Girard mantém a religião e o sacri-
fício não só como origem, mas como o mecanismo funda-
: Gf. .JAMES, E. 0 . SW:rifice a~d SacrcmPnt._ Londres, Tbames Rnd Hudam . mental que determina todas as outras relações cultura.is.
l9!;2, MAUSS . Oeuvres. Pans. Mim.ui, 1968; Soc1ologie et anth1·opologie. Paris ,
PUF. 1050: SMITH._ R. T he Relig1on o/ lhe Semites. Nova I o rq ue Merldlan
O sagrado é a matriz e a condição de existência da cul-
Books, 1956 led. o n g. 1889) . • tura em tensão dialética com a violência. A pedra angular
8 . So!>re algumas questões essenciais do identilicação , da dialética est rutu ·
rnnte ob1e ta.l e .da rlialét!ca es truturante não.obj etal , cr. HESNARD, A . Psucha· desse edifício é o sacrificio. A "proibição" é um "contrato"
nnluse d u lren mterhumatn. Paris, PUF. 1957. A psicolC>l(ia coletiva desenvolveu
''árias pers~ti".85 sobre a imitação depois das obras de Tarde. Baldwin e outros.
vinculado ao sacrifício. O sacrifício tem pois um lugar
, 9 ~ '!1'm'.'tL~o é rru.to do desejo coletivo indiferenciado. A dialética da dentro do processo cultural e social tão real quanto a
d ri:-• enc1'.'cao e po15 essencial ao pr oces5o mesmo de uma dialética estruturante .
Ma•s ad1"'!te vam~~. prOCUl'!'r ln terpre":!r . diferencialmente inclusive para evitar família, p. ex. O sacrifício é a resolução concreta da crise
nm m ecamsmo u:uline!'r · ''isuallzando diver>os enrooues possíveis". mas abor· mimética. Portanto, a concepção é muito diferente das
riari~o assuntos q ue_ v~ "a. IIllllS vasta com preensão posslvel da realidade" .
Sob. e a 1~terpretaçao diferenciada , cr. KtlNG, Hans. Ser cristão . Rio, Imago.
1976 . p . 3~7s.
interpretações, corretas sob alguns ângulos, mas secun-

224 225
dárias em relação ao essencial, do sacrifício enquanto a morte de Jesus. A subversão do sacrifício é libertação
"dom" ou "comunhão". Antes de ser "dom" ou "comu- e paz.
~ão" é ~ fato histórico e social real e que tem vigên-
cia na sociedade atual. Isto é, está acontecendo. Não se Entretanto, denuncia Girard, o cristianismo interpre-
trata apenas de projeções e identificações da realidade ta a morte de Cristo como uma repetição do mecanismo
com ~lgumas imagens primordiais ilusórias. Trata-se do vitimário quando ela é, claramente, a sua negação. A cris-
própno processo social sacrificialista (sociedade essencial- tandade, por isso mesmo, não é constitucionalmente di-
mente violenta). ferente de qualquer outra sociedade vitimária: "Graças à
leitura sacrificial, durante quinze ou vinte séculos, pôde
O mecanismo vitimário é, portanto, o mecanismo es- existir o que se chama a cristandade, e é, uma cultura
tru~ante da realidade no qual devemos interpretar a que tem o mesmo fundamento das outras, pelo menos
soCiedad~ e .ª .cul~a .. Esse mecanismo, com as polarida- até um certo ponto, uma vez que se assenta sobre as
des deseJo/v10lencia, crise/sacrifício, proibição/cultura etc mesmas formas mitológicas produzidas pelo mecanismo
l~vanta uma série de questões, insuspeitadas antes, 'esp; fundador". 10 E Girard demonstra sua perplexidade de que
cialme~te para os te~logos. O "locus" do sacrifício já a leitura anti-sacrificial dos evangelhos tenha sido guar-
bastana para dar razao ao tremendo interesse. Mas, te- dada por tantos séculos e que os leitores, cristãos e não
m~s ~ue ver a amplitude que Girard confere à questão. cristãos, não desenvolvam todo o sentido não-sacrificial
Primeiramente, o sacrifício é uma resolução parcial e dis- da Bíblia de forma clara e sistemática: "O verdadeiro
s1mul~da da crise. Os sucedâneos legais do sacrifício se mistério nessa leitura é sua ausência entre nós, é a im-
constituem em novas formas de violência e necessitam a potência milenar de todos os cristãos primeiro, e depois
rep~tiç.ão . ri~a.1 e continuada do sacrifício originário. os não-cristãos, de darem a esse texto uma leitura que
A violencia e virtual e infinita. O rito a "resolve" de for- se impõe com evidência" (CC, p. 211).
ma recorrente e repetitiva. O mito e a cultura dissimulam
a violência que, mesmo recalcada, permanece latente, dis- O cristianismo acumulou uma série de leituras e de
farçada nos meios, mas patente nos efeitos. O rito catalisa teorias do sacrificio para explicar teologicamente e antro-
~iatoriamente, o mito disfarça. O sacrificial, portanto,
pologicamente a morte de Jesus para a fé. As interpretações
e mt~rpretado, no mecanismo vitimário, como uma forma doutrinárias parecem esconder algo ou se mostram inca-
de diluição da violência e de transmutação de suas for- pazes de darem sentido pleno ao fato. Sob o manto do
m~s, mas não é um fator de erradicação da violência
mistério muitas doutrinas inaceitáveis tiveram livre trân-
mrmética. A violência continua vigente e patente em efei- sito ao revei.arem apenas um aspecto das relações envol-
tos e nas crises periódicas. Parece que o pessimismo cul- vidas. Essa história de teorias sacrificiais ou sacrificialis-
tural de Freud se repete. Tal não é o caso. tas merece agora um reexame. Mas não pretendemos
aqui "reabrir o dossiê cristológico". 11 Nosso propósito é
Girard encontra na Bíblia uma espécie de desmonta- mais limitado. Queremos tentar compreender como o
gem do mecanismo. Especialmente na morte de Cristo. mecanismo vitimário estruturante permite compreender a
A pedra angular de subversão do processo vitimário é a morte de Cristo, em que sentido falamos na morte anti-
crucificação de Jesus enquanto vítima consciente e ino- sacrificial de Cristo - respeitando os critérios do meca-
cente. O Antigo Testamento, em particular, o Novo Tes- nismo estruturante. E ao mesmo tempo tentar elucidar
tamento, contém, segundo ele, uma progressiva visão anti· uma constatação no Novo Testamento: como se articula
sacrificial, a expressão mais clara e essencialmente dis·
posta em oposição à violência mimética. A morte de Jesus 10 GIRARD. René. Des chO!es cachées depui$ la fondatton du mon4e (= CC>.
C~isto elucida e revela o mecanismo vitimário. o meca- Co:n OU3HOURLL4...~ , J;)2ll M1chel e LEFORl', Guy. Paris, Grasset, 1978 (LíVTe
de Pocbe), p . 257.
nismo vitimário permite compreender como se estrutura 11. GISEL, Pierre. "Du sacrlfice", em Foi et Vie. Genebra , vol. 83, s . 4,
1989, p. 1-45.

226 227
o sentido anti-sacrificial da morte de Jesus com a lingua- xumadas pela Bíblia e inocentadas da culpa que lhe era
gem sacrificial que encontramos em quase todos os livros ~putada pela _coletividade como um to~o. , ·.~scuta o san-
do Novo Testamento? gua de teu irmao clamar do solo para mim! _ccc, p . 225~.
A linhagem do clamor profético contra a s?~iedade s~cn­
ficial (persecutória) alcança seu ponto cntico no Livro
1 . Girard e a morte de Jesus da consolação de Israel, especialmente nos cantos do
servo Sofredor.
Girard propõe uma tarefa gigante. Desmistificar a so- Podemos notar, desde logo, que Girard enquadra a
ciedade e a cultura p ela "descoberta do mecanismo pro- morte de Jesus em duas linhas de análise e interpreta-
dutor do religioso" (CC, p. 263) . Esta descoberta não é ção: a) na primeira, Jesus é o ponto culmin~te desta se-
uma analogia suplementar mas a "fonte de todas as ana- qüência profético-denunciativa da morte do mocen~ em
logias" que a desmascara. A leitura proposta é "uma lei- oposição à perseguição coletiva movida pela s~c1ed'.'1'de
tura radicalmente sociológica de todas as formas históri- filha do homicídio expiatório (matriz do bode exp1atóno);
cas da transcendência" (CC, p . 263) . Este é o enigma reve- b) a segunda linha de análise e interpretação da morte
lado da "Pedra que os construtores rejeitaram e se tornou de Jesus confronta-se com o sentido específico dessa mor-
a pedra angular" (cf. Lc 20,17). "A frase do SI 118 tem, te como "pedra angular" - e as interpretações da Igreja
portanto, um valor epistemológico prodigioso; ele recla- Primitiva, Paulo, os Evangelhos, e textos como Hebreus
ma uma interpretação que o Cristo propõe ironicamente, e Apocalipse e as próprias interpretações teológicas que
sabendo perfeitamente que ele é o único capaz de a for- se seguem e se prolongam até os nossos dias.
necer se fazendo rejeitar ele próprio, se tornando ele
mesmo a pedra rejeitada, para mostrar que sempre exis- A primeira linha de análise é brilhantemente feita e
tiu esta pedra que a funda de modo velado; e agora, ela revela o sentido maior de uma tradição que traz os ele-
se revela para não fundar mais nada ou antes para fundar mentos não-sacrificialistas, mas que permanece muito divi-
alguma coisa de radicalmente outro . . . Sofrendo a vio- dida, inarticulada, abafada, latente, no Antigo Testamento.
lência até o fim, Cristo revela e arranca pela raiz a. ma- Ela é camuflada, ainda que alguns textos pareçam ba.s-
triz estrutural de toda religião, embora, aos olhos de uma tante claros a respeito (cf. CC, nota 54). Os efeitos de
crítica insuficiente, se trate de uma reprodução dessa oposição ao sacrifício e à sociedade perversamente reli-
matriz que acontece nos Evangelhos" (CC, p. 364) . giosa esboçam a interpretação não-sacrificial, mas em minha
avaliação não chegam a formulá·la talvez na plenitude que
Girard lê as narrativas da paixão de Jesus como cha- Girard afirma, pelo menos para os profetas pré-exílicos.
ve de todo mecanismo e ao mesmo tempo como a liber· Entretanto, essa tradição é plenamente revelada nos textos
tação do mesmo. Seguindo uma constatação de Max Weber evangélicos: "Os textos evangélicos completam o que o
( O judaísmo antigo), desenvolve uma leitura anti-sacrifi- Antigo Testamento deixa inacabado" (CC, p . 236). A partir
cial da Bíblia e da morte de Jesus: a constatação da ten- do fio evangélico, Girard tem condições de desfiar o no-
dência dos escritores bíblicos de se colocarem do lado velo do movimento que assim é colocado em plena luz e
das vítimas. "Nós não p odemos tratar como insignificante bem configurado historicamente. Essa tradição tem dois
uma mudança. de perspectiva que consiste em se colocar pólos muito incisivos: um é a memória da tradição anti-
ao lado da vítima, em proclamar sua inocência e eviden- sacrificial da sociedade e o outro é a denúncia da socie-
ciar a culpa dos assassinos" (CC, p. 223) . Esse é o eixo
dade assassina - que são os elementos detonadores de
de interpretação que Girard usa em coerência com a des-
coberta do mecanismo homicida da sociedade e ao mesmo entregar Jesus, Estêvão e outros, à morte. São exemplos
tempo o eixo que serve para desmontar a ideologia e a marcantes dessa tradição textos como o de Jo 8,43-44 ou
mitologia subjacente a esse mesmo mecanismo. Assim o texto de Mt 23,34-36, que citamos: "Por isso vos envio
"Abel é apenas o primeiro de uma longa lista de vítimas profetas, sábios e escribas. A uns matareis e crucificareis,

228 229

__J
a outros açoitareis em vossas sinagogas e persegwreis de
cidade em cidade. E assim cairá s obre vós todo o sangue infinita e fatal. Assim Paulo instala-se na eficácia da Cruz
dos justos derramado sobre a terra, desde o sangue do "contra toda associação de poderes e principados" - a
justo Abel até o s angue de Zacarias , filho de Baraquias, ruz é assumida na lógica da vítima e não do sistema,
que m atastes ent re o santu ário e o altar. Em verdade vos ~onstituindo-se "uma desmistificação pelo Cristo, pri:ri:-n·
digo: tudo isso sobrevirá a esta geração!" do-o para sempre de sua força estruturadora do espmto
humano" (CC, p. 284) . Este é o sentido do texto-cha~e
Essa tradição permite elucidar um sem-número de d" Cl 2,14-15: "apagou , em detrimento d_as ordens l~ga:s .
textos evangélicos dos ensin os de Jesus, sua pregação do
Reino, as p arábolas do Reino, os conflitos com os fari- 0 título de dívida que existia cont ra vos e o supmruu,
p regando-o na cruz, n a qual ele despojou os principados
seus (cf. a metáfora de túmulo em CC, p. 243n), etc., o e as potestades, expondo-os como espetáculo diante do
que confirma a solidez da descoberta e sua fecundidade: mundo, levando-os em cortejo t riunfal".
o sentido pleno só p ode aparecer se correlacionado ao
mecanismo de estruturação subjacente, de efetivo caráter o saber da cruz é um "sa ber subversivo" (CC, p . 267).
histórico e social. O mecanismo estruturante corretamente "Se virtudes redentor as são efetivamente atribuídas à p~­
configurado abre caminho p ara uma nova radicalidade xão elas devem se situar sobre um outro p la no que nao
histórica, ãiferen te do puro marco do Jesus da história. dev~ nada ao mundo edificado sobre a violência .. . " (CC,
p. 298). Mas na virtude redentora é importante reconhe-
cer que e. morte de J esus n ão é sacri-ficial (CC, p. 336)
O s.entido esp :;cífico da TTWrte de Jesus e 0 sagrado neste sentido é completa e radicalmente d~
cartado: "Eu penso que d evemos eliminar o sagrado, pois
ele n ão exerce nenhum p apel efetivo n a morte de J esus"
A interpretação da morte de Jesus dada por Girard
é a de que o mecanismo estruturante se projeta como (CC, p. 334) .
produtor da morte e do seu sen tido. Os "temas" relativos A mensagem de Jesus, a m ensagem do Reino de Deus
à morte de Jesus não ficam soltos ou presos a teorias não tem nenhuma base sacrificial. Ao contrário, aqueles
p articulares de explicação. O sentido funda-se no meca- que detêm o m ecanismo "em b oa lógica sacrificial são
nismo-base da própria sociedade e em uma antr opologia os que recusam o convite do Reino" (CC, p . 304). "E é
fundamental. Girard tem, p ois, um ponto de partida, em verdade que a pregação do Reino de Deus revela o cará-
geral esquecido ou desconhecido pelos exegetas. ter violento mesmo d as instituições aparentemente e.s
Girard afirma que os Evangelhos e os outros textos mais santas, a hierarquia eclesial, a ordem ritual do Tem-
do Novo Testamento giram em torno da paixão. A paixão plo, a própria familia" (CC, p . 304).
evangélica é essencialmente fruto do mecanismo homicida
J esus é a vítima mais inocente, m ais excelente. A en-
da sociedade e ao mesmo tempo sua denúncia consciên-
cia, reve ação e desmontagem . ' carnação, a divindade de Cristo, o mediador, a transcen-
dência, etc. provêm da perfeita humanidade "que é uma
Em Les choses cachées . . . aparece a força revelatória coisa só com a divindade" (CC, p. 314) : "Reconhecer o
do . evento na oposição da lógica evangélica da vítima à Cristo como Deus é reconhecê-lo como o único ser entre
lóg ca p erversa da violência. A lógica evangélica da vítima nós capaz de t ranscender esta violência que até agora
não provém do mecanismo que a faz sagrada ou sacri- havia transcendido o homem absolutamente" (CC, p. 318).
ficial mas justamente por encarnar o momento de reve-
lação do não-sacrificial. O não-sacrificial da morte de O sentido da morte de Jesus é desvendado p ois em
Jesu~ revela o.utra transcendência e por isso rompe uma consonância com sua eficácia social e histórica. Não se
cadeia, que, vista apenas pela sua lógica própria, parece trata de uma representação simbólica e doutrinária, mas
do drama central e articulador da vida humana.
230
231
Os o_utr'?S dois text os que nos interessam aqui, Le Girard abre caminho para uma teologia, nestes três
bouc émissaire e o La route antique . . . desenvolvem as textos (somados ao lLL violenoe et le sacré), que se estru·
mesmas perspectivas sob ângulos diferente. Em Le bouc tura a partir de um núcleo não-sacrificial radicalmente
é_missaire a análise da morte de Jesus concentra-se a par- fundado na história de Jesus e no fato social de uma
~1r d_a s "narr ativas de perseguição histórico-religiosas" que sociedade perversa. Mas, esse m esmo núcleo, admite, se
ilummam a morte de Cristo. A estrutura perversa e per- desvanece com o distanciamento de textos e interpreta-
secutória da sociedade s acrificial se expressa meridiana- ções da Igreja: "A profundidade desta doutrina só apa-
mente nas n arrativas da paixão. Cada detalhe da trama rece nas primeiras aplicações, as dos Evangelhos e das
da acusação, da prisão, da entrega, do julgamento, d~ epístolas de Paulo. A medida que se avança no tempo do
execução apontam para essa estrutura. Girard destaca cristianismo histórico e essas a plicações se multiplicam,
duas expressões-chaves, maitr e-mots da paixão evangélica. na Idade Média, elas são cada vez mais superficiais"
A primeira diz o seguinte: "Odiaram-me sem razão" (Jo (RA, p . 186-187).
15,25) / "Ele foi contado entre os criminosos" ( Lc 22,37;
Me 15,28) . A segunda está n a boca de Caifás: "Não com-
preendeis que é de vosso interesse que um só homem 2 . E a interpretação sacrificial do Novo Testamento?
morra pelo povo e não pereça a nação inteira?" (Jo
11,50) . As expressões-chave vistas uma pela outra reve- Se aceitamos as teses girardianas sobre o mecanismo
lam a trama: uma coligação escolhe uma vítima especial vitimário e sua interpretação da morte de Jesus, não quer
para se reconciliarem na violência conjugada contra o in- dizer que as questões colocadas pela existência de inter-
defeso; e em Pilatos e Herodes, Caifás e o povo, se tor- pretações sacrificiais nos livros do NT devam ser rejei-
nam um só na ordem sangrenta. "A perplexidade da sexta- tadas como repetitivas e legitimadoras do mecanismo.
feira santa se sobrepõe entre os discípulos a firmeza de É difícil saber com segurança se Jesus mesmo interpre-
Pentecostes e a lembrança da morte de Jesus se perpetua tou a sua morte sacrificialmente ou não. É possível negar
com uma significação absolutamente out ra que aquela de- qualquer interpretação sacrificial, expiatória, da morte de
~ejad_a pelos p oderes ; uma significação que não se impõe Jesus partindo dele mesmo, baseando-se na atual pesquisa
imediatamente em toda sua novidade prodigiosa, mas que neotestamentária 12, mas também é verdade que há pes-
penetra pouco a pouco os povos evangelizados, ensinando-
lhes mais e mais a discernir ent re eles as representações 12. Cf. BOFP, Leonardo. Paixão de Cristo, palzüo do mundo. Petrópolis, Voz.es,
1976, p. 60. Penso que L. BoU e H . Küng têm raz.ão quando criticam a Ideo-
persecutórias e as rejeitar" (BE, p. 162) . logia sacrlliciallsta cristã e partem de uma interpretação não-sacrllicialista da
morte de Cristo, seja por razões exegéticas (como apontadas por BoU>, seja
por razões ma's voltadas para a Interpretação atualizada ela fé Ccomo apontadas
Em La route anti que des hommes pervers ( = RA) por BoU e Küngl. Por outro lado, não creio que seja passivei descartar ou
Girard aproxima Jó e Jesus. Deus é "Goel" - defenso; jogar para um segundo plano irre!evar.te o quadro sacnf'.cial onde se encaixa
a morte de Jesus no NO''º Testamento. A morte de Jesus acontece e "cai"
do fraco, Deus das vítimas. O Deus dos Evangelhos "o num quadro Ideológico existente que é comum, praticamente, a todos os liv:os
do Novo Testamento: e esse quadro é sacrificial. Por isso, se concordo com
Pai, envia seu Filho ao mundo p ara defender as vft~as, a critica de BoU, Küng e Girard, e mesmo aceitando es teses básicas do
ültlmo, discordo da solução dada a respeito do quadro sacrific:al do Novo
os pobres, os deserdados . . . Jesus é sistematicamente Testamento, utilizado pela I greja para interpretar a morte de Cristo. Suspeito
apres~~tad? como defensor das vítimas" <RA, p. 174). que há um •outro sentido" para que esse quadro fosse utilizado pelos cristãos.
Apesar da ambigüldade e dos tremendos "desvios• dogmáticos que provocaram,
A paixao e o Logos do Deus das vítimas que as ciências desenvolvendo uma Interpretação sacrilicialista. O que procurarei demonstrar é
humanas não puderam descobrir (RA, p . 181). o deus a necessidade de uma dialética cillerenciadora antl-sacrlflclalista que parte porém
do quadro de compreensão sacrificial do Novo Testamento. A mesma dialética
retribuidor, o deus persecutório, o deus do logos acusa- é para m!m válida para casos análogos que envolvem n "lei", •o pecado". e
•a culpa" etc. O megno eu poderia dizer de um livro como o de H.ESNARD,
dor (Jo 9,2-3; Lc 13,1-5) cede à força de um outro Logos A. <Moral sem p~cado. Rio, Civilização Brasileira, 1971), que realiza um pro·
cedimento análogo de G!rard com respeito ao sacrifício (embora muito menos
di~no que se estrutura em outras bases que a da "Rota estruturado e fundamentado), criticando a moral que se origina da consclên·
aI_ltlga dos homens p erversos". É muito significativo que eia do pecado e da culpa. Trata-se de desmitificar a consciência do pecado
e dn culpa. Embora Jesus tenha um ensinamento "liberatório da conscl~c_' a
G1rard avance n este texto em direção a uma transcendência religiosa", na Igreja, por "formidável e monstruoso desvio, o preceito cnstao
da caridade rapidamente se veria subjugado pelo retorno do sentimento de
ativa em favor das vítimas. culpa, da falsa moral desumanizada do pecado inter ior" (cf. cit., p. 62).

232 233
quisadores que, utilizando os mesmos métodos, encontram
base para uma conclusão diferente. De qualquer modo, do com interpre_t~ç?es ~o-~acrificiais de Jo 1,29, p. _e~., a
para que os nossos pressupostos não reduzam demais o utodoação sacrificial nao e um ponto, mas era origmal-
nosso "cânon no cânon" do NT, note-se que encontramos a
mente - a v1ºd a d e J esus" . i1
toaa
espalhadas no NT interpretações sacrificiais, que têm ori-
gem exclusiva na Igreja, e outras, retomadas de Jesus Para Joaquim J eremias a primeira comunidade inter-
Cristo mesmo. preta vicariamente a morte de Jesus a partir do próprio
ensino de Jesus e sua identificação com o servo sofredor.
Marlrus Barth 13, por exemplo, admite que estamos Citamos apenas a conclusão: "O s entido da paixão é em
diante de uma morte e muitos pontos de vista. Há no NT toda parte a representação vicária por muitos (Me 10,45;
interpretações sacrificiais e interpretações não-sacrificiais 14 24). Se nos interrogamos como é possível J esus atri-
que são complementares. Na interpretação sacrificial não bttlr à sua morte um valor expiatório tão ilimitado, a re_s-
basta alinhá-la a qualquer sacrifício ou a uma interpreta- posta será: Ele morre como o sez:vo de De~, de ~UJO
ção geral do sacrifício. É preciso verificar de que sacri- sofrimento e morte Is 53 diz que e um sofrimento ime-
fício se fala e que interpretação se dá. Há um núcleo (ou recido (v. 9), suportado pacientemente (v. 7), livre (v. 10),
núcleos) comum dessa interpretação que é comum no querido por Deus (v. 6, 10) e, por isso, expiatório_em sua
ensino e pregação da Igreja (pré-paulino) . Mas Marlrus representação vicária (v. 4s). Por se tratar da VIda com
Barth se surpreende em constatar que, apesar de todo o Deus e procedente de Deus que aí se entrega à morte,
acúmulo de informação e de interpretações, ainda não é que essa morte possui valor expiatório ilimitado" 18
sabemos exatamente o que significa expiação: "Aquilo que
Nossa suspeita é que as perspectivas não-sacrificiais e
de fato é a essência da expiação ainda é desconhecido". 1• a perspectiva sacrificial do NT não se opõem absoluta-
O sacrifício de Cristo no NT é altamente diferenciado mente, mas se correlacionam dialeticamente. 19 É possível
ao mesmo tempo que colocado no quadro sacrificial. 1s :azê·las convergirem num sentido que é levemente acena-
Em um sentido particular é revelação porque é sacrifício. do por M. Barth e à maneira de P . Ricoeur, que faz con-
A ideologia (mitologia) sacrificatória é revelada por uma vergirem as interpretações r ecortadas por metodologias e
pressupostos diferentes, como no caso da economia do
àialética de aceitação, negação, superação ( Auf hebung).
desejo psicanalítica, do estruturalismo e da fenomenolo-
"A morte de Cristo é chamada sacrifício porque é um dom
gia como parte da tarefa hermenêutica. "Parece-me, pois,
de Deus gracioso; porque é uma revelação desse Deus e
que se deve fazer convergir dois métodos: um, mais pró-
porque seu juízo é realizado condenando o pecado em gra-
ximo da psicanálise, que mostra as condições da r einter-
ça e misericórdia; e porque, na história da humanidade
pretação da fantasia em símbolo, o outro mais próximo
é o p onto de r eviravolta (turning poi nt) da escravidã~
da exegese textual, que most ra essa promoção de sentido
para a liberdade, da morte para a vida, da inimizade para
16
a paz". Por outro lado é não-sacrificial por condenar os 17 Op. cit., p . 37.
poderes que instauram e controlam o sacrifício: "De acor- 18: JEREMIAS, J . T eologia do Novo Tes tamento. São . Paulo, Pa:ulinas, J?·. ~52.
19. A morte de Cristo, acontecendo num quadro mterpretat1vo sacrificial,
é acompanhada de uma ambigüidade perig~ . Entretanto, para s!! pr oceder
T&;~bé?:l nesse caso, aceito a critica em seus aspectos gerais, mas tenho difi. dialeticamen te é inevitável a referêncla sacriLc!al, porque constitutiva da re-
cu lc ade em co-icordnr com 11ma vic:1io e 11.-na ~,.,.,,., 0 tão untJ;no:">Rr r espei to ligião e consÍ!tutiva da sociedade. A questão é como interpretar _d!aletlcamen:e
do pecado e da culpa. Como veremos mais adiante a necessidade8 de uma e de forma sacr!fJc!al o evento qi:e carrega a mold~ sacrl!ic:al. Para que
t~o'ogla anti mc:ri!.ic alisto, an tiacusatór.a e persecutoruÍ anWegaJ!sta antl-ritua- isso apareça, é necessário !a!ar nao . apenas da S0C1e<l;ade assassma, ~u da
sociedade perversa, ou da sociedade v:olenta. :e necessário revelar a sociedade
I:sla ~te. nec~ita de nov_os i: f!1'.Des fundamentos (como a antropologia funda·
menta. de G:rard l . ~ mais d'.alet:ca nas soluções propostas. sacrificial que justUica e idolatriza a su~ ordem rel:glo~~ente - por_ uma
falsa ética e uma rellgiosidade ideologicamente 5a~rl!ic:al. Essa sociedade
13 BARTH . Mari<US.
ºli ~-~~-
14 Op. cit., p . 13.
15 Op . c1t., p. 30.
Was Chrlst ·s Death a Sacri/i ce•
. .
Ed!nburgh·Londres sacrificial de ordem divinizada que santifica a v!olénc1a é a sociedade à qual
se opõe a morte de Jesus. O.Rleticai;n~te o "sac:ri!.icic;i de Jesus• só tem sen·
tido em oposição à sociedade sacrif:cial. :e o sentido da mort~ d_o servo
16. Op. cit., p. 35. sofredor apontado por J . J eremias. Mas Jerem:as não promove a dialética llllti·
sacrificial e por isso permanece na ambigü.'.dade. E como tal está ~j~ito às
distorções tlpicas da ldeologia sacri.ficialista, das quais a históna do cnstianiSmo
234 está cheia de exemplos.

235
r-sacrificialmente no quadro mimético-social do sacri-
em ação nos grandes textos míticos. Tomados separada- ~. i e diSpara um· processo que diferencia
ftClO .
dialeticamente
·
mente, esses dois métodos são impotentes: pois o movi- ecanismo. (Vítima inocente e profecia ~ sangue mo-
mento da fantasia ao símbolo pode ser reconhecido apenas o rote diferenciador ~ reclamo de nova justiça ~ esperan-
cen - t· · )
pela mediação dos documentos da cultura, mais precisa- a messiânica ~ demitização da: a:usaçao_ ~rsecu ona.
mente dos textos que são objeto direto da hermenêutica, ~ se completa e supera na mediaçao . ~acrif1cial_ .- anti-
segundo a instrução de Dilthey. Este é efetivamente o erro rüicial de Jesus Cristo (Deus da vitima ~ vitrma p9r
de Freud em Moisés e o monoteísmo: ele pretendeu fazer sa~lência ~ realização-superação do sacrifício ~ todos. sao
a economía da exegese bíblica, isto é, dos textos nos quais ~~cerdotes / todos se identificam c~m a vít~a ~ libe~­
o homem bíblico formou sua fé, e procedeu diretamente tação da culpa vitimária ~ condenaçao da sociedade sacn-
à gênese psicológica das representações religiosas, conten- ficial). 21
tando-se com algumas analogias fornecidas pela clinica.
Por não haver ligado a psicanálise do símbolo com a exe- uma boa maneira de verificar a validade dessa supe-
gese dos grandes textos nos quais a temática da fé se ração dialética da sociedade s~r~icial, . pela media<?-o do
constitui, ele encontrou, ao termo de sua análise, apenas sacrifício da vítima por excelencia, esta na analogia das
o que conhecia antes do projeto: um deus pessoal que atitudes de Jesus (e de Paulo) em relaçã~ à Lei. A Lei,
é, segundo as palavras de Leonardo Boff, apenas um assim nos mostra o mecanismo fundador, e um resultad?
pai transfigurado". 2D do sacrifício da vítima emissária e depende dele. _É evi-
dente que Jesus e Paulo participaram de_ m:1 moVImento
A convergência entre uma visão econômíca, constitu- e um processo de superação da Lei. A Lei nao s~lva. Pelo
cional e estruturante do mecanismo vitimário e a inter- contrário ela desenvolve uma tradição persecutóna e uma
pretação exegética parece-me possível e necessária. O sa- tradição de homens - justificadora da mort~ e da opres-
crifício é constitutivo da sociedade violenta. É constitutivo - É um "fardo" "cativeiro", "morte". Assrm como te-
da cultura e das "ordens" sociais. A superação dessa or- sao. • rifº ·
mos uma tradição anti-sacrificial, podemos ~e icar a _exis-
dem e dessa constitutividade não pode, portanto, ser algo tência de uma tradição análoga que se opoe ao legalismo
totalmente exterior a ela. Deve nascer do seu interior por violento da sociedade e busca por vários meios uma nova
um processo dialético. A superação da ideologia sacrificial Lei.
não pode ser uma negação pura e simples da validade de
Ent retanto, se atentarmos para a pe-:q~a exe_gética,
algo que é constitutivo à sociedade. Se o sacrifício e o vamos •erificar que em Jesus a atitude e diferenciadora_.
mecanismo vitimário fossem como em Freud apenas um Jesus não veio anular a Lei e no Reino de Deus a Lei
desvio, a sua negação e erradicação em nome de algo mais não deve ser abolida mas cumprida até a última g~~
fundamental seria possível e uma necessidade. Mas o me- (Mt 5,17s). Mas cumprir a Lei signüica superar ~ _sacrif1-
canismo vitimário está na origem de uma antropologia cialismo cúltico da Lei que acompanha essa tradiçao. Po~
fundamental, centro mesmo de outras derivações culturais. isso Jesus mesmo transgride em várias ocasiões ª. Lei,
A sua superação nasce da própria condição diferenciadora não dá atenção às proibições rituais de pureza e rmpu-
e interna ao processo. É o caso do sacrüício de Cristo reza (lavar as mãos, tocar os doentes - co:no os lepr?;
visto na perspectiva da estruturação vitimária e a pers- sos), etc. o que é o cumprimento ou a plemtude ~a _Lei.
pectiva diferenciadora exegética. O mecanismo vitimário o amor, a justiça, a misericórdia. As leis que existiram
(crise sacrificial ~ violência originária ~ vítima emíssá-
ria ~ sacerdócio/rito ~ proibições/ cultura ~ Deus viti-
mário) passa por um processo diferenciador dialético em
meio à própria repetição mimética. Jesus Cristo morre
20. RICOEUR, P . O conflito das lnterpretaçôes. Rio, Imago, 1978, p. 293.
237
236

----~~~--~--~-
. resença humana de Deus
é verdadeiramente a p 1 - a plenifi oação
apenas como proibições vieram pela "dureza dos cora- Jesus h omens, isso signüica que e e e
ções" e devem desaparecer com a nova lei do Reino de entre ~~ situações vivi das.
Deus. A nova lei não só supõe uma concepção inteira- de nos t d uma
ue um homem morra do que o a
mente nova da própria lei: não é possível colocar vinhos 'É melhor ~ . em empregada por nossos ai:-
novos em odres velhos. O homem está acima do sábado fanúlia'. Essa e a ~~: humanos. Esse tipo de sacn-
e do código de pureza. A autoridade é nova. Todos têm ce3trais p ara os s~~o ic~articularmente em períodos de
o mesmo status diante da nova lei e todos devem cum- fíciO era apres~i: cerimônias nacionais e de entro-
pri-la igualmente. É algo mrus que Moisés, que a Lei e !!Uerra, em ocas1oes d e 6" uma marae ou ainda,
os profetas. Amar a Deus e amar o próximo como a si ;tlzações ou q';1ando se co~;r d~ença ... etc . 'o sacrifício
mesmo podem resumir essa Lei. Fica abolida a Lei? Nã o . quando sobrevem .um:e ~:~mar a cólera dos deuses para
Mas ela é levada de modo düerenciado ao seu cumpri- hurnano era o me10 d Mas a morte de Jesus é
mento e à sua conseqüente superação. Paulo se prestaria "' o povo de seus peca os. . . . para sal-
à mesma análise (e em alguns aspectos muito mais evi- sal~a: último e exclusivo sacnficw humano
o unico, o todos os povos da terra e por
dente) onde a Lei é vista claramente como um momento var não só um povo, mas . . . ,, ::2
dentro de um processo que leva à Lei de Cristo (Gl 6,2; . a todos os outros sacnficws ·
fim
lCor 9,21). Essa nova lei que liberta o ser humano da
antiga por processo dialético de superação é também o
resultado de um sacrüício absolutamente novo, o sacrifí-
cio d e Cristo (Rm 3,21-26) que reverte todo o processo
sacrüicial da antiga lei (e que corresponde ao mecanismo
vitimário).
Nessa convergência podemos compreender perfeita-
mente que a perspectiva de mecanismo vitimário não se
opõe irremediavelmente a uma compreensão düerencia-
dora e dialética do sacrüício de Cristo.
Como conclusão citamos parte do trabalho de um alu-
no do Instituto Ecumênico de Bossey (Escola Graduada)
- (1989-1990) Michel Hirorau Pareu (TEHAU), pastor na-
tivo da Ilha Mahoi-Nui (Polinésia Francesa) , como exem-
plo de um processo de superação a que nos referimos,
no interior de uma cultura fortemente m arcada pelo sacri-
ficialismo ritual e por uma teologia mais vivida que de-
senvolvida nos livros:
"O evangelho esclarece os ritos . . . A partir dos exem-
plos vistos, podemos afirmar que Jesus Cristo (Palavra-
Logos) se fez carne na vida de nossa história e de nossos
ancestrais.
O mesmo quando Jesus diz: 'Não creiais que eu vim . c!a 1e contexte "mahoi•. InStitut
ab-rogar a Lei ou os profetas; eu não vim ab-rogar , eu 22 _ PAREU. M!chel Hirorau. 1;1i~~~~eque11: citação so!re de ambigü=;;
o ecuménique de Bossey, 1958, p. . t é também ambig"..10 e ao mesmo
vim para cumprir' (Mt 5,17) . Estas palavras traduzem e!•ete o au e no Novo Testamen o
~~ial e dlaleUcamente libertador·
muito bem os exemplos pré-citados de sua vida. E se
239
238
leitura libertadora sem escamotear a violência da cruz.
de -
A cristologia contez:iporanea~ · 1mente no am
e~pecia - b'i t ~ d.. ~
teologia da Iibertaça~, contnbum pa_r~ aclarar a ambigui-
dade das interpretaçoes. 1 Novas analise.s, _no e~tanto, . co-
SACRIFICIALISMO E CRISTOLOGIA:
lOCam novos desafios tanto para ensaios cristológicos
A VIOLÊNCIA DA CRUZ como trinitárias.

Fr. Luiz Carlos Susin l. A "hipocrisia" da cruz como símbolo religioso

A cruz, na sua crueza escandalosa, elevou-se a uma


instituição religiosa, um símbolo ao mesmo tempo exp~a­
tório e fundador de sentido religioso. A passagem da hís-
tória ao símbolo permite o alojamento "diabólico" de um
sentido aparentemente bom - e portanto perverso - na-
A ambigilidade da cruz como símbolo atravessa o co- quilo que de fato é religiosamente um escândalo: o as~­
ração da fé cristã. Vivida historicamente como violência sinato do justo e inocente, abandonado po: De1:15·. ~srm,
social e escândalo teológico, a cruz acaba sendo confes- com a cruz de Cristo se consuma no próprio cns~ianism~
sada como árvore da salvação. Esta ambigüidade não a maldição de Jesus: "Ai de vós, escribas e fanse~ ~­
pode ser contornada. Pelo contrário, reclama uma com- pócritas, que edificais os tú~ul<;>5 ~os pro~et:a-5 e enfei_taIS
preensão sempre árdua e t alvez "escandalosa". Me.smo nas os sepulcros dos justos e dizeis: Se estivessemas vivos
igrejas cristãs, uma compreensão não cristã do trágico nos dias de nossos pais não teríamos sido cúmplices seus
assassinato de Jesus na crucificação tornou-se não só fonte no derramar do sangue dos profetas'. Com isso testifi-
de mal-entendido, mas uma pot encialização religiosa do cais, contra vós, que sois filhos daqueles que ma~
sacrificialismo, com conseqüências transcendentais na his- os profetas. Completai, pois, a medida de vossos pais
tória do cristianismo. Basta lembrar a imagem de Deus CMt 23,29-32).
nas conclusões anselmianas do Cur D eus homo, a liturgia
s acrificial e as paraliturgias penitenciais e seu aparato Na própria dome.sticação e amaciamento da crueldade
administrativo, ou ainda a justificação mais ou menos in- da cruz possibilitadas por uma profissão apressada da
gênua da violência institucionalizada do recurso ao "braço ressurreição e do senhorio ou da divindade de Cristo, há
secular" etc., para recolocarmos a questão da tremenda uma ordenação e uma nova administração - uma insti-
ambigüidade da manipulação religiosa da violência no tucionalização da violência. O símbolo da cruz como "sinal
cristianismo. A ambigüidade e a manipulação da violência do cristão" ao ser desenraizado da hístória, perpetua de
acabam por a tingir e ao mesmo tempo instituir uma con- modo institucionalizado e virulento, no coração da exis-
figuração sadomasoquista e necrófila do Deus que passa tência cristã, o culto à vítima e a mística vitimista como
vitória e como poder. As instituições gerenciadoras da
pela cruz como lugar de revelação e de salvação. Isto é
violência têm à sua disposição, assim, a mais alta sim-
fatal quando se esquecem ou se articulam mal os acon-
bolização da violência - por uma institucionalização sa-
tecimentos também centrais que precederam e que se se- cralizada das relações de violência. Tanto a busca do
guiram à crucificação de Jesus.
1. Basta lemb rar. em nosso meio, a reperCU5são da cristololtia . de Leona•do
Minha intenção, aqui, é de sublinhar alguns pontos BoU desde seu primeiro texto Jesus Cristo Li bertador, e posteriormente Jon
de desocultamento da violência contida na leitura sacrifi- Soo; no. com o texto Cristologia desde América ~ína. Mas também, em
âmbito eurooeu, Chri.s tian Duquoc. na área de língua ~cesa . e Jtlrgen
cial da cruz de Cristo e depois também sublinhar pontos '.'!.1oltmann mi área de Ungua alemã. que sistemat izaram e divulgaram ensai06
e intuições nesse sentido.

240 241
martírio como a cruzada - o martírio do outro - são resposta potente ao patricídio hipotiza~o. ~~r Fre~g·
possíveis e justificáveis em nome de Cristo. Contra a his- UJllª fcidade institucional da cruz intratnmtana. res, e
tória da vida e morte de Cristo. P.. pra ;~ica social deste complexo de ÉdiP? resol~ido_ à~
na pra. le!rttimação do sacrifício às autondad~ -~titui­
avessas. ., ó . acrifi'ci·o Em termos de cnstiarusmo,
pelo pr pno s · . "t' .
das . .f.
sigm ica u ma "ressacrificialização" da obra tnru ana
. t . . de
2 . A cruz "intratrinitária" iSSO libertação de todo sacrüício a partir da his oria_
de A carta aos hebreus usa amplamente a ambigua
A exclusão da cruz histórica para uma configuração Jesus. . ..
unguagem do sacriflcio.
puramente simbólica, inclusive da narrativa histórica da
crucificação, parece obedecer à.s leis de institucionalização
do "bode expiatório", ou - para ficarmos na linguagem .. - . de um conflito histórico
A cruz como consequenc1a
religiosa do Novo Testamento - do "Cordeiro de Deus". 3.
Entramos assim de novo no terreno resvaladio da ambi- O retorno ao "Jesus histórico" e a práxis de liber-
güidade: esta institucionalização não apenas administra - ermitiram um retorno do simbolismo da _e~ ao
religiosamente as violências humanas, mas a violência in- taçao p d . . a história da violência instituciona-
u lucrar e ongem. . das ·
tradivina e as relações de violência entre Deus e o ho- s_e da. .,e da violência das instituições, ou seJa, exi-
mem. Assim a clássica teoria amartiocêntrica (pecadocên- ~a ias institucionais do contexto histórico de J~sus - dª
trica) de origem feudal sobre as razões da encarnação, ge~c Tem lo, etc. - e seu pessoal e n:iecarusm~ e
embora desde cedo criticada, resistiu sempre, para além Lei, .:Ização p inclusive o recurso às instâncias supe17or~s,
mesmo da teologia e da racionalidade, na prática cristã, pena urad'or romano. O re-percurso histórico da v1olen-
o que é um indício sério do seu fascínio permanente e o proc t - tapas.
eia da cruz poderia ser feito em res e .
da sua "praticidade" institucional. A violência da cruz se
planta, em linha coerente com esta extrapolação histórica, a) Violência das condições institucionais, tern:mando
em Deus mesmo, nas relações trínitárias de um "Deus por estabelecer as condições de pureza e as exc~~soes i::~
contra Deus", ou como símbolo da eterna essência divi- . pureza abatendo a "gente humilde da terra ' as -
un • " t E a com-
na do "Deus é dor", ou da eterna decisão divina - Ent- tidões no meio das quais J~us se encon ra. h ani-
scheidung - pela qual Deus é autodistinção e Trindade. aixão de Jesus, sua sensibilidade vulnerá~e~ e um -
Arriscamos por este caminho não só o sadismo mas o t.ria pela paixão em que jazem as multi~o~. A com
masoquismo de um Deus que é pai fillcida, que sacia com paixão não se torna uma mórbida complacencia, mas se
o sangue do filho a sua sede de justiça à lesa-majestade toma ação e ensinamento (Me 6,30s e par.).
praticada pelo homem. O "bode expiatório", assim, me- b) A violência institucional que pesa sobre as mul-
diante a legitimação do Direito, penetra nas relações tri- tidões se concentra na transgressão de Jesus às regras
nitárias. Deus mesmo, na versão trínitária cristã, fica do sistema, planejando a sua morte (Me 3,1-6_ e ;par). Em
aprisionado no círculo infernal de um sacrificialismo ne- resposta Jesus "endurece o rosto para Jerusalem (Lc 9,~1
cessário como reequih'brio da essência divina. O filicídio e par.)'' expressão evocadora do Servo que torna o ros ~
trinitário retoma a configuração de Moloch, cuja potência uma rocha diante daque_les. ~ue ~e _puxam ªbar:~de
e essência - sua soberania - se nutrem de sacrifício. 50,5-11), 0 que, afinal signifi_ca _ fl~ehdade à. sua
Diante desse tipo de soberania há sempre uma divida im- sem se dobrar ao jogo da VlOlenCla.
pagável, uma má consciência, uma ingratidão, por mais
que se renove ou se intensifique o sacrifício. O sacrifício e) Precipita-se a exclusão, ou, e:n o:itros tei:n~s, .ª
mesmo fortalece a consciência do direito soberano da di- "d ·da aos infernos" cuja escada e tecida de Vlolencia
esci • · t· · de en
11

vindadé em exigir mais sacrifício. Enfim, o filicídio trini- histórica e de estruturação do "bode e_xpi~ ?n0 : ,, ·
tário é uma resolução do complexo de l!:dipo às avessas, trega em entrega, até os aspectos mais diabólicos -

242 243
com argument~s pseudodivinos e zelo religioso _ levan-
do à condenaçao de um p or todos: "Caifás, que era sumo 4.
o envolvimento da Trindade na cruz
sa_?erdote naquele ano, disse-lhes: 'Vós de nada entend ·
Nao compreendeis que é de v_osso interesse que um e~ Quem pr ofessa a fé em Deus Pai e Filho e Espírit o
homem morra pelo povo e nao pereça a nação tocta• ,, santo não pode escamotear a pergunta sobre o compor-
(Jo 11,49-50) . tatnento do Pai diante da cruz do Filho, como qualquer
forma de fé em Deus não pode escamotear a pergunta
Na forma de bode expiatório, Jesus é esvaziado de
obre o comportamen to de Deus em face do sofrimento
seu_ ser. A "k~n~sis" é um processo histórico de concte-
~uxnano. É o problema da teodicéia. Não é suficiente o
naçao ~ derelicçao. Jesus se torna "rei-palhaço ", vestido retorno da violência da cruz às suas origens institucionais
e c?rteJado como um rei às avessas, portanto, despoten- biStóricas. Se o Pai não é a origem primeira da cruz e
cializado de qualquer ser real. Está exposto ao processo
da morte do Filho, o "silêncio d e Deus" não é já omis-
com uma humanidade que é verdade sem poder esma: são e uma forma de participação na violência?
gado por um poder sem verdade. Esta despotenci~zação
e est~ confronto de verdade e poder estão exemplarmente Ora, a " tomada de partido " do Pai só pode s er bem
descntos no .co~ronto de Jesus e Pilatos em João. Que compreendida na cruz, se o for, antes, na missão histórica
a verda~e seJa impotente d\ante do poder sem verdade, em que Jesus se sente "enviado" do Pai com autoridade
e <!ue simplesmente aconteça esta dissociação e confron- e companheirismo cria dos p ela responsabilidade confiada
taçao de poder e verdade, não é privilégio de Jesus mas pelo Pai ao Filho na obra do Reino de Deus ( ~t 11,27
en~uanto . "~ode expiatório" precisamente, remete pr~ à e par.). E importante entender que a fé na encarnação
pna . condiç~? da "gente humilde da terra". Sua "descida compreende esta responsabilização de companheiro e igual
~ ~ernos ~ sua exclusão e seu fardo, nesse sentido, são ao Pai, não um Filho divino, mas o Filho humano, es-
solldanos, fiéis, compassivos. As mult idões terão, doravan- vazia do da condição divina (Fl 2,6-8 ) : É na condição hu-
te, _uma . r~pr:sentatividade expiatória e vicária com a qual mana que o Filho é inteiramente obediência ativa e mis-
se 1dentiflcarao. O que não mitiga, mas revela ainda mais sionária, assim como o Pai também é, a seu modo, inteira-
o aspecto violento e perpetuador institucionalmente do mente obediência a tiva ao Filho atendendo-o e glorifican-
poder .diabólico simbolizado em poder divino que provoca do-o (Jo 11,41-42). Este é o amor q ue torna Deus um só,
o sofnmento solidário e vicário. com um só Reino e uma só senhoria. Esta m esma obediên-
cia recíproca ent re o Filho e o Pai está present e no esvazia-
_ ?onsiderando a disposição e o gênero literário dos ment o diante da violência e do sofriment o : ambos obedien-
cantic~s do Servo no Dêutero-Isaias, é diabólica a intEr- tes ao amor até o fim (Jo 13,1) , a o dom até o fim (Jo 3,16) ,
pretaçao que separa o último cântico - do Servo sofre. sem se pouparem até o fim (Rm 8,32), sem se desviarem
dor em e~iação vicária - dos demais cânticos, ou não e s em fazerem recair sobre os outr os o que outros fazem
lhes respe1~ a or~em: Primeiro a consolação ativa, Iiber- recair sobre a Trindade. A Paixão deve ser pensada trini-
~ora e fiel, e so em conseqüência o sofrimento solidá- tariamente para s er um p ensamento justo histórica e teo-
no e absurdo. 2 Isolado, o Servo "sofredor" consagra a logicamente: O Pai está do mesmo lado do Filho, parti-
estrutura do "bode expiatório". cipando da mesma sorte, do mesmo silêncio e da mesma
renúncia. Disso decorre a ent rega e o abandono trinitário,
2. Jon Sobrino critica Justamem
a morte de Jesus segundo 0 texto d~
Jesus, que por una parte siguleron su misió
triunfar el derecho en un mund0
Doeu
fsat
. .
S=
; iento de Pui:bla por interpretar
"Co_n ello quedó r ota la dla léctlca típicaasdel • seJ" c1tar ,.ou!:ro c:dnl:!cos:
ºti e Yab'e. .Y del =
n ac va Y pos1t.iva de bacer
o
o esvaziament o e a exclusão da Trindade.
Na falta de entrosamento entre crist ologia e pneuma-
con la que se enfrentara conllictiv~ Y por otra aceptaron la suerte t ologia, ou da cristologia e Trindade, o Espírito Santo
"Re!lexíones sobr e el d~°e'::~o ~~c':-T!'t~fog!a de dsu emPupebnl-º."
a (SOBRINO, J . fica ausente da compreensão trinitária da missão de Jesus
SELADOC _ p no d .- e e , em : E QUIPO
1981, p . 170). a rama e la teologia latmoamencana V . Salamanca, Sigueme, e, sobretudo, da p aixão e mort e. Isso obscurece e defor·
ma a cristologia. Ora, a humanidade do Filho pode ser
244
245
prolépsis, prefiguração da glória, serviço de desinstitucio-
respeitada porque com ele está o outro enviado, o "outro na!ização e despotencialização da violência pela festa da
paráclito" (Jo 14,16), o consolador e confortador que desde ressurreição, nova criação, novo começo e, ao mesmo tem-
o Jordão é o poder que o impulsiona (Lc 4,14s). O poder po, antecipação d~ sábado ete~o. ~im, s~ a his~ór~
do Espirito é, na condição de com-paixão e da paixão, atingia Deus que e amor vulneravel, e mclus1ve o atingia
um estranho "poder" na forma de piedade - o dom da com sua violência institucionalizada, tornando o Fiiho um
Piedade - capacidade de receber males sem devolvê-los, bode expiatório, Deus atinge a história com a antecipação
mas de dar em resposta o seu contrário, ou seja, a gra.. da glória regeneradora e da alegria do sábado eterno,
tuidade e a liberdade do perdão que desfaz o círculo Vi- rompendo o círculo violento da expiação presa nas ma-
cioso e aprisionante da violência. É a ex-piação que não lhas da violência. Pela "graça" glorificadora do Filho, que
é sacrifício a uma divindade - o Pai também expia a seu
0 estabelece como co-doador da graça e do Espírito (Jo
modo, paternalmente, enquanto permanece fiel com o 111-18), Deus revela que nos regenera mediante a Vida
Filho no dom e no silêncio sem poder da cruz - mas é e' não mediante a morte, e rompe para sempre a confi-
resposta libertadora aos assassinos. A expiação não é uma guração idolátrica do bode expiatório. A "glória" de Deus,
oferta a Deus, mas uma oferta da piedade como poder convidando à comunhão em pura graça e rompendo o
para um novo começo, para uma nova história, livre de círculo insaciável do bode expiatório, é a última palavra
violência. É também a "substituição" enquanto serviço de Deus, sua decisão irrevogável, palavra pura de Vida.
instituidor do novo começo, novo fundamento e nova
chance, resgate e regeneração para o surgimento de um Em conclusão, nem a fé nem a teologia cristã podem
homem novo em céus e terra novos. Essa inversão da passar ao largo da cruciante questão do sacrificialismo,
violência em dinâmica de regeneração, através da gratui- sobretudo a partir do que foi feito historicamente com
dade própria à expiação que dissolve e recria, faz parte Jesus: morto na cruz como bode expiatório e cordeiro de
da dinâmica mesma da "graça" cristã, trinitária: graça Deus. Mas, ao entrar na profundidade do fato e ao falar
pura, sem interesses e desejos de retribuição, graça pró- dele, precisa guardar o máximo de acuidade para fazer
pria do Reino de Deus antes e depois da cruz. É a "vi- justiça ao que Deus mesmo fez com este fato e expres-
tória da graça", que justüica e torna reto o caminho sá-lo de modo justo: o Deus de Jesus nos liberta da ins-
difusivo do Bem puro, segundo a expressão neoplatónica titucionalização religiosa do bode expiatório e de toda
do Bonum diffusivum sui. Na retidão do bem puro, da forma de sacrificialismo. Esta experiência da fé torna-se
pura graça, rompem-se e se dissolvem as torções da fermento libertador no contato humano, nas relações e
violência. instituições humanas.

O an:or . até o. fi:r1, _sem se subtrair e sem se poupar,


sem retnbmr a violencia com violência e sem institucio-
nalizar ?'_violência como salvação, "destrói" a cruz pela
ressurre1çao: Pela ressurreição e glorificação, Deus "saco-
de o pó das sandálias" diante do sistema de sacrifício e
recusa se fixar no "bode expiatório" como forma de res-
g~te. O resgate se consuma na ressurreição e exaltação,
nao na cruz. E a ressurreição glorificadora por sua vez
é obra trinitária, obra de obediência do P~i que atend~
~os clamores do Filho (Hb 5,7-10), do Filho que obedece
a ordem do Pai instituída no envio do Esoírito e do
mesmo Espírito de santidade que separa o Filho d~ morte
e da cruz (Rm 1.4). A glorificação é a instituição do
Filho, por parte do Pai e pela força do Espírito, em
247
246
. tencionalidade recíproca. O desejo deve ser visto na
iJl da produção e reprodução da vida material através
~::jeito trabalhador (cf. Pr 10,4-5) .
SABEDORIA E DESEJO MIMÉTICO Aí está, certamente, a chave da compreensão de Pro-
érbios 10--15. - Este é um livrete que forma um todo
~rgãnico em sua teologia do trabalho e da vida em comu-
Frei Gilberto Gorgulho, op nidade, sem exploração e sem a violência. A vida do su-
jeito trabalhador realiza-se no dinamismo do desejo . que
se encarna n a reciprocidade do valor de uso e de troca
00 contexto do sistema tributário (cf. Pr 12,24) .
Tal perspectiva desvenda o ponto preciso das compa-
rações e das antíteses que cristalizam valores e normas
de ação para o sujeito livre e ativo na comunidade.
Introdução A lógica do desejo mimético é caminho para demi-
tizar, e para descobrir o acesso à Arvore da Vida, confor-
me a sentença:
A ap_lic3:ção en_i Pr 10-15 da ló~ca mimética, estudada
por Rene Glrard, e mais um exemplo de coisas escondidas "A esperança protelada é doença do coração, mas, o
desde a criação do mundo . . . 1 desejo realizado é uma Arvore da Vida" (Pr 13,12).
Este princípio analítico resolve os problemas da ori-
Pretendemos mostrar que a lógica mimética neste
g.e1:1 e. do conteúdo das sentenças isoladas. Mostra a per- livrete surgiu no contexto de uma crise de sacrifício. 2
tu:encia das comparações, das antíteses e das normas de
Sua articulação orgânica vem da teologia da Vida do Justo
aça?· .Indica,. .Principalmente, o caminho da compreensão como dinamismo do desejo que se encarna no valor de
orgaruca do llvrete como um todo bem articulado em seu
conteúdo teológico. uso e de troca.

A p~rtir da análise do desenho mimético, a Sabedoria


surge_ diante do leitor como discernimento da rivalidade I . A violência recíproca e a sabedoria
que mtroduz a violência na comunidade. E a Sabedoria
oferec~ o caminho da libertação, mostrando a saída do A lógica mimética esclar ece a função social de Pr
mecarusmo _da ~iolência recíproca ao revelar 0 dinamismo 10--15. Pois sua articulação tem origem numa resposta à
e a ?etermm~çao do desejo no rumo do amor mútuo e crise social introduzida pela violência recíproca que amea-
da vida. partil~ada em comunidade (Pr 11,14) . Assim, a ça destruir todo o povo de Ju dá e de Jerusalém. Neste
Sabedo:ia manifesta-se com o discernimento da Violência contexto, a coletânea das sentenças apresenta-se na função
e da Vida (Pr 10,6; 13,2) . de restabelecer a diferença entre o Justo e o ímpio para
indicar ao caminho da Vida como saída da crise (cf. Pr
. si:gerimos, no entanto, que a análise do desejo mimé- 12,28) . J - Nesta função social encontramos os passos
tico nao pode manter-se ao nível e ao estágio do jogo da
2. GIRARD, René . La vlolence et le sacré. Paris, Gresset, 1972, p . 76-8-1.
. 1. René _GIRARD esboçou as grandes linhas d · t ta -
E l ch lvo expiat orio. Barcelona, Ed Ana •
f
JUdalco-cr 1Sta através da logica mimética em E sprite 1 ~~~;) Çao da tradição
• P. 551-563. Em
3 Pr 12,28 é umR das sentenças lapidares da coletãneR. E ln fecha a pri·
mP.' re parte de Pr 10-12. ?.'las o texto epresentR·se numa n•leitura que o
TM ro.,•en •e . Pare r estitu' r o texto orig0n<1J, seguimos TOURNAY. R. J. P.B.
~v; io:c ºJ!E'.11ª~0
11
~~retaçâo <!O~~g~~~~s; e~;.esigiJ:~. mR~. ~~
a 69 (1962), p . 49:>-497: a mudança de 'el mf.'Wot paro 'a! máwot foi feita nc
CPE. issa re. e re , Bulle tin du Centre d'Êtudes, no vembro 1983, tempo dos Macabeus d epois da. revelação exnlicita de ressurreição dos mortos.
Também a correção de net ibã pare pe!i bá' deve se- adotada: N o caminho
da Just iça está a Vida / mas e> caminho do I ngênuo leva para a M or te.
248
249
Ingênuo. Não é aqui o lugar para demonstrar a confi-
0guração 4
fundamentais da lógica mimética da violência e de .,_ e a especificidade de cada um deles.
reversão. -- o importante é notar que estes tipos sociais são
rivais do Filho Sábio, e indicam a base do desenvolvimento
da lógica mimética. Estes tipos devem ser vistos na rela-
1 . Resgatar o Povo ção que é o nervo ativo de todo o desenvolvimento da
seqüência das sentenças: sujeito + obj t::to do deseja
A primeira coletânea salomônica de provérbios divide-
se em d1:1as par~es ~~r 10-15 e 16-22,16). Entre ambas h6 + rival.
um ~onJunto_ ~terar10 que serve de interligação e dá a A opos1çao destes tipos soc1a1s cristaliza-se na riva-
t?nalidade bA as_1ca a todo o conjunto desta primeira cole- Udade originária entre a figura do Justo e a figura do
tanea salamoruca (Pr 14,26-16,15) . fJilpio. A Sabedoria estabelece fundamentalmente a dife-
rença entre o Justo e o ímpio. O critério básico da dife-
. Esta tonalidade reflete a teologia deuteronomista da rença está no dinamismo do desejo de ambos: um leva
vida do Po~o ~to como filho de Javé (Pr 14,26 e Dt para a violência e a morte, e o outro para a justiça e a
1_4,1). Ist~ s1gnif1ca. q:-1~ o autor da coletânea via o sen- vida ( Pr 10,3; 11,23; 13,12).
tido da vida comurutána na sociedade através da realid&-
d.e Povo. E~e A a ~presenta como um sujeito coletivo que
sup~ra a v1olenc1a e vive na comunhão e na paz. Esta
3 . A causa da indiferenciação
reali~a~e ~eve ser resgatada e defendida diante da ameaça
da v_io1:nc.1a que a arruína e está ameaçando sua própria A causa da indiferenciação destruidora é trazida pela
subs1stenc1a. O caminho para estabelecer e manter a vida violência recíproca que se instala e destrói a vida comu-
do Pov_o está em restabelecer as diferenças destruídas nitária do Povo. Esta indiferenciação constitui uma crise
pela_ ~nse em todos os níveis da estratificação social na do sacrifício. É nesta perspectiva que deverem os ler as
família, na cidade e na vida nacional (cf. Pr 11 9-14· diversas sentenças sobre o sacrifício neste conjunto (cf.
14,28 e 34). ' ' Pr 15,8-9).
Creio que a articulação original das sentenças se fez
para responder a uma crise social específica . A compre-
2 . Restabelecer as diferenças
ensão desta crise concreta abre o caminho para entender
em profundidade toda a primeira coletânea salomônica
. O cerne da crise do sacrifício está na supressão das (Pr 10,22-26), em suas duas partes, e no seu elemento de
dife~en~as. A . ~be~oria consiste, pois, no discernimento
ligação. Entretanto, não entraremos nos problemas deste
da mdifer~~ciaç~o mtroduzida pela violência avassaladora conjunto e iremos nos ocupar somente de Pr 10-15.
que des~ro1 a vida social. O discernimento consiste para
Pr 10-1:> em mostrar a diferença entre o Fi lho Sábio e o A crise social em questão foi a situação vivida por
~nsensatio,no interior da célula básica da sociedade, que Jerusalém e Judá no final da monarquia davídica. Esta
e a _casa dos camponeses no contexto do Povo. Esta in·
tençao articula as três partes básicas do livrete: Pr 4. Os tipos scciais estão regularmente em paralelL"lllo com o Sábio. 1o
Persplcaz, o Just o. Assim , a oposição dos dois grupos aparece da maneira m8 S
13,1; 15,20-25. l0,1; !ncisóva pcsslvel. O Insensato <Pr 10.1) é o espirita rmpermeável. O E~tu:to
tem uma atitude perfeitamente refletida <Pr 14.3; 15.5) e caracteriza o funclo·
nár' o e o diplomata Us 19,31). Pr 12.1 mostra oue o oposto do ~áb!o é o
. O restabelecimento das diferenças na base da vida animal (cf. Pr 30.2; SI 73.22) . O Zombador é o cético que não leva nada a sério,
&1SCita um con!llto Id eológico e re!fgloso . . O Ingênuo é o simples. se.~
so~ial se ~az pela descrição do desejo e da maneira de iI'..strução: Pr 1,1·4 mostra que o Li.-ro de Provérbios é dest!nado aos pethâ'im,
ou os jovens sem instrução (cf. Pr 1.22; 8.5; 9,4) . E le aceita qualquer palavra
a~r dos div~rsos tipos sociais. - Os tipos fundamentais IPr 14.15).
sao o Pregmçoso, o Insensato, o Estulto, o Zombador. e
251
250
situação instalou-se depois da morte de Josias que havia Por que Tu me fazes ver a iniqilidade
feito a reforma deuteronomista. Quem o sucedeu foi uni e devo olhar a pena?
rei considerado ímpio. - A crise foi agravada e implan- Pilhagem e violência estão diante de mim,
tada de modo devastador pela invasão do exército neoba- há disputa, e suscitam-se querelas.
bilônico entre 604 e 600 aC, conforme o testemunho de
Habacuc (Hab 1,6 e 9). A invasão semeia e espalha a Por isso a Lei está paralisada,
violência destruidora. e o direito não mais aparece.
Como o ímpio envolve o Justo,
A violência trazida pelos caldeus instala a indiferencia- é por isso que o direito aparece torcido".
ção que destrói a sociedade em todos os seus níveis (eco.
nômico, político e ideológico) . Habacuc resume isso di- Hab 2,4 mostra a raiz da rivalidade violenta e indica
zendo que o Povo, o Ungido de Deus, está em perigo imt. também onde se encontra a saída desta situação de pro-
nente de desintegração total (cf. Hab 3,13) . funda crise:
Hab 1,9b descreve a contento esta situação de "Eis o Presunçoso: não é um bem próprio, sua vida
lência com as características da crise do sacrifício, ao nele.
falar do exército invasor: Mas, o Justo viverá por sua fidelidade". 6
"Da massa de seus rostos sai um vento destruidor, O orgulhoso violento é o invasor. Apóia-se erradamente
ele junta os cativos como areia". 5 em sua força e riqueza. A sua violência, que vai por todos
os lados, aparece em seu esplendor triunfante. Contudo,
Com uma imagem semelhante, os caldeus são campa. 0 Presunçoso não pode dispor de sua vida que não lhe
rados a um pescador que reúne peixes em sua rede, ou pertence; ele representa a divinização ilusória da força
pesca a todos com o seu anzol. A invasão engole tudo triunfante da violência. - Então, torna-se claro o princí-
em sua passagem. O Justo é engolido pelo ímpio (Hab pio para a saída desta crise: o Justo viverá por sua fide-
1,13-15). A indiferenciação traz a unanimidade homogênea lidade porque se apóia em Deus que não morre ( cf.
da violência, e o Justo - figura incorporante do Povo - Hab 1,12) .
corre o risco de desaparecer nesta massa compacta de
destruição e de morte.
5. Um projeto de Vida

Nesta crise os Sábios reagem em defesa da liberdade


4 . A saída da crise e da vida comunitária do Povo. A coletânea de Pr 10-15
é a primeira parte de um grande projeto para salvar e
Hab 1,2-4 testemunha a angústia do vidente diante da reestruturar a vida ameaçada deste povo. A segunda parte
gravidade e dimensão da crise: deste projeto encontra-se em Pr 16-22,16.
"Até quando, Javé, gritarei por ajuda, Os Sábios não aceitam o mecanismo e a lógica intrin-
sem que Tu ouças; seca do sacrifício necessario para afastar a violência.
gritarei por Ti: Violência! O Justo não pode se deixar engolir por esta violência
Sem que venhas em ajuda?
6 Hab 2.4: este texto é dos ma is düiceis como provam as divergências na
t:-adução nas ver.;ões antigas e modernas. t. se:;unda parte: mas o Ju.s'o L'it>~
por sua / ideltdade é bem conservada; ela é lembrada como base da Justificação
5. Hab l ,9b é também um texto difícil. Mas a leitura miggammat traz um pela fé <Rm 1.17: GI 3,11; Hb 10,38). A lei tura da primeira parte toma-se
sentido e.'<ce!ente e esclarece o texto Wl linha da violência unánime que caua clara permutando duas letras: he'a/él ( lit. filgnifica o i nchado. cr. Nm 14,44 ).
a crise avassaladora . O bem próprio f11enissàh ).

252 253
unânime, e nem pode ser sacrificado. A Sabedoria pro-
0 Povo da ruína anunciada por Sofonias (Sf 1,10 = Pr
cura o Caminho da Justiça que liberta da Morte (Pr 10,2) 16,19; 17,19; 18,12).
e o Temor de Javé é fonte de Vida (Pr 14,26-27).
Este projeto se faz com sentenças de origem e con-
A coletânea é confeccionada pelos meios sapienciais teúdo diversos. Os exegetas fizeram várias tentativas para
de Jerusalém, que ajudaram na reforma deuteron omista. encontrar um critério para classificar estas sentenças.
Estes elementos propõem um caminho de saída e de sal- A maioria destas tentativas fica no nível da gramática, da
vação para a própria subsistência do Povo. Procuram es- forma literária e dos artifícios lingüísticos. 7
tabelecer um Caminho de Vida para resgatar o Povo do É preciso encontrar um critério que venha do con-
processo de violência. teúdo. Neste sentido, a classificação de William McKane
A saída está na Vida do Justo. A sua força está no é mais clara e a mais promissora para a inteligibilidade
dinamismo do desejo no qual se realiza o princípio da de cada sentença e de sua função no conjunto da coletâ-
retribuição <Pr 12,14; 13-12). O projeto procura desvendar nea formada e estruturada como um todo.
o acesso à Arvore da Vida! Mostra, então, que o Caminho Este autor classifica as sentenças em torno de um
da Justiça leva para a Vida (Pr 12,28). critério antropológico, social e religioso. As antíteses, com-
parações e normas de ação articulam-se em torno de três
pólos de interesse: a realização do indivíduo, a vida co-
II . O dinamismo do desejo munitária no seu aspecto negativo e positivo, e a religião
como inspiração, medida e fonte de ação. 8
O centro de inteligibilidade deste projeto dos Sábios
está na relação entre o desejo e a vida. O caminho de Devemos acolher esta sugestão analítica. Mas é pre-
saída da crise está enraizado e apoiado no dinamismo do ciso completá-la e procurar classificar as sentenças a
desejo que se encarna na Justiça que liberta da morte e partir de um critério mais orgânico ainda: - este é o
realiza a alma do Justo (Pr 10,3) . dinamismo do desejo que se encarna no valor de uso e
no valor de troca na vida do trabalhador no contexto
do sistema tributário. A coletânea surge então como o
1 . O Caminho da Justiça desenvolvimento progressivo do Caminho da Justiça, que
liberta o trabalhador da opressão e da morte ( cf. Pr
Este trabalho dos Sábios apresenta-se explicitamente 12,24; 12,28) . A raiz da Vida do Justo está na Fidelidade
como um conjunto de conselhos e de diretrizes para sal- ( = Verdade) que reverte a violência e orienta o desejo
var o Povo (Pr 11,14). Estas diretrizes são valores e nor- para a Justiça. Assim, o nervo da vida consiste em
mas de ação que apresen tam os marcos da liberdade e fazer a Verdade que realiza a vontade de Deus, expressa
indicam a direção capaz de reverter o processo de vio- em termos de Abominação e Benevolência de Javé (cf.
lência que leva para a morte. Pr 12,22) .
Esta visão da Sabedoria como um conjunto de dire-
trizes tem uma raiz mais imediata na experiência do pro- 2 . O 1dinamismo do desejo
feta Naum (Na l ,9s). Este, no momento da crise trazida
pelo imperialismo assírio, já havia dito que a salvação do A unidade introdutória em Pr 10,1-7 apresenta a pers-
Povo tem suas raízes num discernimento e em diretrizes pectiva para todo o conjunto: a realidade central da cole-
com força de reverter a ação avassaladora da violência
(Na 1,9-12). Os Sábios deuteronomistas retomam este 7 . SCOTT, R . B. Y . Proverbs. Ecclesitutes. Nova Iorque, Tbe Anchor Bib le,
vol. 18, 1982. p . 17s. Cf. WHYBRAY. R . N. T he Book o/ Proverbs. Cambrldge,
princípio e fazem dele o eixo condutor da coletânea no Tbe Cambr'dl!"e B ib le Commentary. 1972, p. 56s.
seu conjunto (Pr 11,14; 12,5; 15,26 e Pr 16,3) para salvar 8 . M:CKANE, W. Proverbs. A New Approach . Filadéllia , Tbe Westminster Press,
1970. p . 415s.

254 255
que se realiza no trabalho da terra e tem acesso
· ·t
tânea é uma promessa de realização positiva do desejo, ( 'iSh)roduto do seu trabalho (Pr 12,8-14) . Este s~Jei o r~-
ou a subjetividade do Justo, que se encarna na práxis 8:º a~e em seu patrimônio, e liberta-se da opressao _do SlS-
do trabalhador. - O entrelaçamento das diversas senten- liZ tributário (Pr 10,15; Pr 12,22-24) . A .h.cnra e a ex~
ças se faz explicitando os quatro aspect os do dinamismo terna - rnais acabada deste dinamismo positivo (Pr 11,16,
do desejo do ímpio e do Justo. P ressao . ·
12,8_11). o sentido da figura do pr_eguiç~so, _
do empo-
Pr ·do e do enfraquecido vem da nao-realizaçao do su-
~;i~~ através do valor do seu trabalho (Pr 10,5; 10,15;
a) Alma e desejo
12,24; 14,31; 15,25).
O vocabulário para exprimir a subjetividade e o su-
jeito ativo em comunidade é regular. A alma é a subjeti-
vidade como fonte continua do desejo e do apetite (Pr e) o valor da trooa
10,3; cf. Pr 6,30) . As sentenças sobre a vida comunitári~ u~ificam-se n a
O desejo é o dinamismo desta subjetividade. Ela se erspectiva do valor de troca. São as ~ais .n.~ lembr~­
realiza no contexto da rivalidade. Daí a oposição e as pas da experiência do ethos tribal 1gualitã.no. ~ .e~o
direções diferentes para o desejo do Justo e o desejo do ~estas sentenças está nos provérbios de cunho Jt~.ndl~o
ímpio. Um conduz para a Morte e o outro para a Vida. ( olta disputa, contenda, querela) e na determmaçao
d~vrela~ionamento com o próximo ( Pr 11,9-14) e na r.ea-
As sentenças sobre o desejo encontram o seu ponto . a ão da solidariedade como valor fundament al d~ V1~
alto em Pr 13. Este capítulo é uma síntese sistemática : cfa1 ( = hesed, cf. Pr 11,17-19). O contexto . da r ealiza'?1o
sobre a realização do desejo visto como realização posi- da troca está na casa, na cidade ~ no _con3unto da v1~
tiva, ou acesso à Arvore da Vida. O Bem e a Violência do povo que se refaz pela comunhao (sod = cf. Pr 11:13,
são as duas determinantes possíveis para o sujeito ativo
CPr 13,2). A instrução do sábio é fonte de vida pois asse- 15,22 ). A troca r ealizada pelo Justo apascenta a mmtos
gura o sucesso, ou a realização positiva do desejo (Pr (Pr 10,21) .
13,12 e 14) . A sabedoria abre o caminho da vida que é
a realização do sujeito ativo em comunidade (Pr 13,25).
d) o dom de Deus

b ) O valor de uso
As sentenças explicitamente religiosas se exp.r~em na
linha da teologia deuteronomista. Elas se unifica~ na
Outras sentenças se preocupam em mostrar qual é o perspectiva do dom de Javé como ~o~~ de s~b:~1:o <~~
sucesso para o Justo. Apresentam o problema da retri- 14 27 ) É o dom de Deus que p ossibilita o din
buição. Esta não está numa avaliação extrínseca: é o dina-
d~sej~ e assegura o jogo do valor de uso e do valor de
mismo do ato do trabalhador que volta para ele a fim troca (Pr 10,3; Pr 10,22-27) .
de realizá-lo (Pr 12,14; Pr 13,4). Nesta perspectiva salientamos dois aspectos destas
Esta realidade do valor de uso explica o dinamismo sentenças:
do trabalho livre, apresenta o sentido da riqueza, da honra _ A sabedoria é discernimento e apropr!ação pes~oal
e da apropriação da vida. A disciplina (músar) é deter- da verdade que possibilita perceber o que e a Abomz~­
minação do desejo e da ação para assegurar o uso pelo ção e a Benevolência de Javé. - Pode se~ que a eXl:'r~sao
sujeito do fruto do seu trabalho. Esta determinação cons- tenha sua origem na sabedoria internacional, e pnnci_Pal-
titui a integridade, a retidão. É a base do Caminho da mente egípcia. Mas a expressão tomou-se um dos eixos
Justiça (Pr 11,3-8) . O uso assegura a vida do homem livre
257
256
da ética deu toronomista. Desta forma os Sábios vêe111 A estrutura literária
1.
nest~ binômio o coração de sua ética. A Sabedoria é dis- s ão muitas a s tentativas p ara explicar a estrutura
cerrumento da Vontade d e Deus, n a prática social con-
. erária de Pr 10-15. Não entramos nos pormenores da
creta (Pr 10,31-11,2; 12,22; 15,8; cf. Pr 17,15; Pr 20,10-23).
~it tificativa e da demonstração da estrutura que nos pa-
- A sab edoria vem do Temor de Deus, que é o Prin· rece mais fecund a . 9
JUS
cípio e a medida do dinamismo do desejo como caminho
da Vida CPr 14,26-27) . A alusão ao Temor de Deus apa.. A estrutura literária deve se: explicada P.el~ pró~rio
rece em Pr 15,33. Esta constitui uma sentença de con- onteúdo do dinamismo do deseJO que constitui o . dina-
clusão de Pr 10-15. E é uma abertura que dá a perspectiva c . mo da Vida do Justo. Neste sentido, pode-se afirmar
axial para se compreender a segunda parte em Pr 16-22,16. !1lJS Pr ! 0-15 apresenta uma estrutura orgânica, muito bem
Esta última apresenta um avanço em reiação à primeira qut\ulada. É uma teologia d a Vida como processo de
ar l . lA . . roca
parte: apresentará a subjetividade do sujeito coletivo libertação do m ecanismo da vio enc1a r ec1p .
orientada p ela Sabedoria que vem do Temor de Deus ~ Aqui indicamos ap enas o espúito desta estrutu~. c;:>s
da Pobreza que liberta da ruína (cf. Pr 15,33; 16 ,~; 18,12; . dícios se encontram no próprio texto pela localizaçao
22,4). - Deve-se notar que esta p erspectiva já aparece em : pensada da expressão F ilho Sábio CPr 10,1; 13,~ ;
Pr 15,25 e mostra que as sentenças de cunho religioso
devem ser compreendidas na perspectiva deuteronomista 1 5~o) . Isso s ignifica que a coletânea foi pensada em tres
partes principais .
de Deus defensor e libertador dos pobres e dos enfraque-
cidos, como Sofonias já havia anunciado. A defesa dos _ Deve-se notar que assim Pr 13 aparece como o
pobres é a m eta para r estabelecer a vida do Povo na centro da estrutura. E isto condiz com o conte~do qu~
Justiça (cf. Pr 14,31; Pr 15,25-26). apresenta a realização da. vida do Justo. O deseJO reali-
Estas sentenças religiosas são importantes para se zado é uma Arvore da V1da.
compreender o sentido da transcendência e da sua m ani- _ Nota se que a primeira parte (Pr 10-12) tem p or
festação no processo do dinamismo do desejo. A trans- preocupação configurar o sujeito ativo, e. m ostrar a ~e­
cendência não é apenas a violência expulsa da comuni- terminação de sua subjetividade que culrmna com . a af~r­
dade pela força da violência unânime. Ela é o Deus mação da liberdade. Esta p arte termina pe.la af1rmaçao
da vida que manifesta a sua presença como um dom que lapidar de Pr 12,28, declarando que o Caminho da Jus·
r everte o processo destruidor da violência recíproca. Os tiça conduz à Vida.
Sábios dizem isso mostrando que J avé é o Deus da Vida
_ A terceira parte mostra o destino da casa e do
que vem em defesa dos Pobres. Aí está a fonte da vida
p ara o P ovo. povo. Por isso, p ode-se afirmar que Pr 14--1~ f~rma um
conjunto que visa a mostrar o contexto e a finalidade da
vida do Justo.
IE . A ºda na fidelidade A p artir do dinamismo do desejo e de sua determi-
nação, propomos então, como estrutura deste conjunto ,
A indicação dos critérios para a classificação das sen-
o seguinte dinamismo orgânico:
tenças deve ser completada pela estruturação oraânica do
conjunto. Este livret e tem uma or ganicida de qu: vem de A - A determinação da subjetividade . . .... . . Pr 10-12
sua exposição sobre o dinamismo d a Vida d o J usto. Este B - A realização da subjetividade . . .. . . . . . .. . P r 13
dinamismo desenvolve a intuição de H abacuc: "O Justo e - A socialização da Vida ...... . . . . .. . . . .. · Pr 14-15.
viverá da Fidelidade" (Hab 2,4). A Vida do Justo r eali·
9 A P"l'SPectiva deutoronomiSta com sua tonalidade religiosa (e~. i:ie 1/0;~
za-se no Caminho da Jus tiça, e o seu núcleo essencial possib'i;ta e•t•be'º "E'T 0 entrelaçamento das sentenças e perceber po q
consiste em fazer a Verdade (Pr 12,17; Pr 12,22 ). agrupadas nesta seqüência.

259
258
ore da Vida (Pr 13,2; 13,12). Aí se encontra o asp~ct?
2. O dinamismo da Vida Arv_ central da instrução do Sábio (Pr 13,14) . Co~titm­
Illª15 a nova comunidade que vem desta per~eI_>çao (Pr
A teologia da Vida do Justo que aí se apresenta se se ~ e vem da urgência de restabelecer o du:eito como
faz pela determinação, realização e socialização do sujeito ~~e que assegura os bens necessários para saciar a fome
ativo que é o trabalhador. dos empobrecidos (Pr 13,23) .

a) A determinação
e) A socialização
O primeiro passo está na apresentação da figura A última parte da coletânea pode ser vista numa
global do J usto, visto como o sujeito ativo que trabalha olarização em torno da casa e da vida s_ocial do Povo
e que através do trabalho encontrará uma vida realizada ~rn torno do Rei. Somente a casa constrmda pe~a Sa~e­
na terra (Pr 10,1-30). doria terá sucesso, ao pa~o qu~ a casa que disse~a
O passo essencial da determinação está em apresen- são altivez e violenc1a sera expressa em benef1c10
tar o que é a integridade: é a deter minação da intencio- ~presma;cos do território vital da viúva (Pr 14,1; 14,28;
nalidade pela Justiça que não deixa o povo cair, e onde 1 ~~5). A casa dos impios se autodestrói, mas ~ tenda dos
Ju'.stos é fonte de fecundidade (Pr 14,11). A vida está n~
se encontra a salvação no relacionamento com o próximo
(Pr 10,31- 11,28). realização da solidariedade e da verdade. n~ nova comuni-
dade que assegura a felicidade dos oprumdos e dos que
O terceiro passo da determinação está no ato con- têm por lavoura a produção do bem (Pr 14,21-22) .
creto da li berdade. Esta se realiza no contexto da casa.
A liberdade encarna-se no at o do trabalho agrícola e li-
berta da opressão da corvéia (Pr 11,29-12,28). Este é o
Caminho da Justiça que leva para a Vida (Pr 12,28).

b) A realização

O centro do dinamismo da vida está em Pr 13: é a


realização pessoal do desejo do Justo. A vida está na
realização do sujeito ativo sem a ameaça da destruição
e da desintegração pela violência.
O ato central de viver é expresso pelo simbolismo
do verbo comer. Ainda aqui é sugestiva e penetrante a
visão de René Girard sobre o simbolismo da nutrição no
mecanismo da violência recíproca. 10 O ato de comer con-
siste na substituição do ato unânime da violência, e é o
n úcleo central através do qual se faz a reversão do de-
sejo como fonte da violência desintegradora do sujeito e
da coletividade. O ato de comer é determinação subjetiva
para o bem que afasta a violência, e abre o acesso à

10. GlRARD, René. liJ. violence, op. cit., p . 3685, 383s.


261
260
ideolóaico de práticas h umanas absurdas, como__não en-
contra"' suficiente fundament o nas p ráticas evangelicas que
emergem do Novo Testamento.
MISERICÓRDIA E SACRIFÍCIO Neste estudo não entraremos no mérito ou deméri-
NO EVANGELHO DE MATEUS tos da produção de Girar d. Ten taremos apenas, no con-
texto da temática fundamental que o ocup~'. contra?or a
ela a percepção nova que emerge da Amen ca Latma, a
partir de uma análise específica do evange~o de ~ateus.
Ely Eser B arreto César A escolha deste evangelho pode ser explicada, srmp:es-
mente, p elo fato de que, desde as. origens, Mateus e o
evangelho p or excelência "da_ IgrcJa". ~aturalmen:e os
limites deste artigo nos levarao a reduzir ao máximo a
extensão de n ossa a..nálise. Ela funcionará, em todo o caso,
como indicativa.
Introdução
L. o lugar do sacrüício n o evangelho de Mateus
A profunda crise social que tem mar cado t odo o sé- ·?)
culo XX tem s ido fecunda par a desvelar percepções radi- 1 .1 A m or t e expiat ória "' J>/ ~
calmente novas de noss a complexidade h umana. Esta
constatação óbvia não acentua tant o a novidade quan to Em p rimeiro lugar é preciso assinalar que a noção do ~
r.11
11

a radicalidade, esta tendência contemporânea de demisti- sacrifício expiatório é praticamente ausente nes~e evange- ~ '> /~~
ficar compreensões tradicionais do real p elo enfrentamen- lho. H á um consenso crescente neste campo e. nao apenas ~,..~
to oas questões radicais. Dentre as explicações que se na América Latina . Primeiro há que se m encionar o f~to ~
submetem a estas r evisões de raiz s e d estacam as expli- de que se criou um consenso de_ que ~ a_JJundantes cita-
cações do fenômeno religioso, percebido mais pela janela ções de cumprimento de profecias p ropnas de Mateus,
de suas expressões concretas que p elo prisma t radicional as formu lae quotationis, representam um t rabalho reda-
da doutrina . A teologia da libertação produz uma releitura cional próprio do autor do evangelho que _tra~uzem suas
revitalizante do velho texto bíblico exatamente por recu- concepções teológicas próprias. Das onze citaçoes de pro-
perá-lo como proce.sso de construção do r eal, como fenô- fecia introduzidas pelas f ormulae quotat i oni s h á duas re-
men o histórico qu e p ermit e a contextualização das ex- lacionadas aos Cânticos do Servo Sofredor do Segundo
pressões de fé à totalidade dos projetos históricos da Isaías, comumente identificadas à noção de sacrifício. _As
humanidade. A novidade r eside, sobretudo, na percepção duas se encontram em Mt 8,16-17 e 12,18-21. As citaçoes
de que projeto histórico bíblico aponta para a causa do não estão n o contexto da morte de Jesus. A p assagem ~ \
pobre. Neste contexto o p rojeto de René Girard, que Mt 8,16-17 nos informa que Jesus curava os enfermos a ·\ o"l
propõe explicações radicais do eterno fenômeno da vio- fim de cumprir-se a profecia de que "ele levou as nossas ~~~
lência, per ceb en do-o p ela raiz antropológico-religiosa das enfe.rmidades e carregou nossas ~oenças". Em Mt 12.18-21, .\ ~..
práticas sacrificiais, radicalmente desveladas no Novo Tes- longa citação de Is 42,1-4, o sofnmento do Servo Sofredor
tamento n a prática de J esus, é potencialmente sugestivo. é introduzido no contexto do conflito aberto entre Jesu~ Jj
De fat o a explicação teológica tradicional da fonte reden- e os religiosos judeus. No contexto de Mateus o sofn- ~ t ~
tora e vivificadora do evangelho com o fenômeno expiató- mento de J esus não é vicário mas resultado de seu com- ~ -
r io necessário e paradigmático não s ó é origem de inú- promisso radical com a justiça histórica, a dilvaiosyne. ~r
mer os equívocos ou véu que funciona como ocultam ento As expressões "ele não contenderá, n em gritará, nem se V {'~·
262 263 ,./'~ v'fr-"
ouvirá s ua voz nas ruas", ao alterar a citação de Isaías .Aliança em meu sangue") e Jo 6,54 ("quem come a minha
não pode ser confundida com a noção de não-violênc~ carne e bebe o meu sangue tem a ~~a etez.:na", onde "o
absoluta ou com a aceitação da humilhação inevitável do ão que desce do céu" de Jo 6,33 e igual a su~ carne),
pobre na história. No contexto de Mateus, Jesus aceita p nstatamos a evolução de uma prática eucarística como
não conten der contra a rejeição histórica, p elos judeus, coemorial da aliança do Reino para uma ce1eb raçao - com
de sua messianidade. Isto é, seu programa não se dirige ~rte simbolismo sacrificial. Neste contexto é s~mpre ~un_­
aos "rejeitadores". O fato que r ealçamos aqui é que, damental con.statarmos a dependênci~ ~a eucar:stia. cnsta
mesmo tendo acesso ao conceito do Servo Sofredor, tra- da Páscoa judaica. Até p or sua antiguida_?.e histórica. no
dicionalmente interpretado no contexto da aceitação do contexto de uma cultura da interpretaçao,. e~a ca~rn~a
sacrifício expiatório, o evangelista o trabalha em outro muitos sentidos: a libertação histór ica d~ cativeiro egipc_10
contexto, exatamente o da tática de enfrentamen to de e a possibilidade histórica da constru~ao de -~ª socie-
seus algozes, ou seja, o contexto da negação da eficácia dade radicalmente solidária à celebraçao sacrificial ~~bs­
histórica do conflito por eles gerado, p rimeiro contra titutiva. Evidentemente esta questão exige melhor análise.
J esus, depois contra a comunidade da fé, na crise com o que sublinhamos aqui é que esta menç_ão em Mate':18
a sinagoga. Contra a ação violenta dos fariseus, presente (26,28) fotografa uma tendência interpretativa da eucans-
em todo o capítulo 12 do evangelho, Jesus contrapõe a tia com potencial sacrificial, tendência que ?ºn~rasta com
eficácia histórica da justiça, sua vitória, no contexto de os traços dominantes do evangelho em direçao oposta.
sua solidariedade radical com os desgraçados, aqui figu. o consenso contemporâneo que se forma em torno das
rados como "caniço rachado" ou "mecha que ainda fu- interpretações de Mateus é que nele não há função para
mega", inutilmente, por já ter nascido o sol. O mais mar- a noção de morte expiatória como resgate de pecados. *
cante nesta obra redacional do evangelista é que ele não
interfere profundamente no relato da Paixão de sua fonte
o evangelho de Marcos. Pelo contrário, embora se valend~ 1. 2 A crítica radical ao I srael contemporâneo
do recurso redacional das citações de cumprimento de
profecias, no relato da Paixão Mateus introduz apenas o evangelho de Mateus, no contexto de sua comuni-
um a vez a formula quot.ationis, em Mt 27,9-10 para citar dade mista, faz uma leitura da boa notícia de Jesus à
Zc 11,12-13, mas ele o faz, n ão para iluminar a paixão de luz dos fundamentos das tradições hebraicas. Jesus tem
Jesus, m as para explicar a origem profética do cemitério sua origem direta em Abraão, via Davi e Salomão (Mt
dos estrangeiros em Jerusalém, comprado pelo Sinédrio 1,1-17) . Ele foi o verdadeiro Messias de Israel (2~6 ) que
com as 30 m oedas da traição, devolvidas pelo arrependi- inaugura o Reino de Deus (5,1-10) . Portanto, ele n ao vem
do Judas. Este cemitério, por causa desta profecia, passou r evogar a Lei e os Profetas mas dar-lhes pleno cumpri-
a se chamar "Campo de Sangue". E a morte de Judas
não funciona como morte sacrificial.
mento (5,17-19) . A justiça do discípulo deve, no entanto,
exceder a dos escribas e fariseus (5,20-47) . n·.?
. Mateus não trabalha com o conceito da morte expia- O Reino de Deus que J esus inaugura é, assim, o pleno j. J
tória, nem mesmo na Paixão. Ele dá novo enfoque aos cumprimento do antigo projeto do Israel primordial, fun- / (\~
textos do Servo Sofredor com os quais trabalha. E se dado numa releitura da Lei que p~etende , rec1;1I?erá-la pe~a ~t '"
ele menciona, no texto da instituição da eucaristia, que o raiz. O sistema de releitura da Lei no pos-exü10 escondia ~
cálice oferecido "é o meu sangue, o sangue da Aliança, a face de Deus, não mais a revelava. Por isso m esmo tJ
que é derramado por muitos para remi ssão dos pecados" esta releitura não promovia a vida, nem apontava para
(Mt 26,28) , ele ecoa a prática litúrgica de seu tempo,
acrescentando um comentário ao texto de Marcos. De • Cf. BONNARD, P . L 'Éllangile selon S. Matthieu. Neuchãtel et Paris, De-
lachattx et N!estlé. 1954; ALBRI GHT, W . A. e MANN, C . S . Matthew. T~
fato, se observarmos diacronicamente os textos de insti- Anclwr B i ble. Garden City CN. Y) , Doubleday •. 1971; GUNDRY, R . H. M a/ thew.
a Commentarv on hls L iterary and Theological Art. Grand Rapids (Mich.),
tuição da eucaristia, de lCor 11,25 ("este cálice é a nova Eerd.manS, 1982, etc.

264 265
~1'~

~J
,~~ o(;o projeto histórico de Deus, o da construção de uma ração deste conflito aberto e se t raduz na radical con·
~~nação da sociedade de acúmul? que_ gera o pobre p~r
CI\ sociedade fraterna, com suas implicações econômicas , so-
" ciais e políticas. A releitura da Lei, no contexto da inau- absoluta incapacidade da verdadeira açao humana, a açao
solidária (cf. Mt 5,1-10; 6,19-21.24.~5-34~ 18,2~-35'. 19,16·26).
!'I
/l{l guração do Reino, se funàava na radicalidade da Lei do
amor (Mt 22,34-40; Mt 5,43-48; 6,33; 7,12, etc.>. seus anúncios antecipados da. Paixao. sao. anunc1os .de su~
rejeição definitiva pelas autoridades Judaicas 06,21, 17,22,
Apesar desta busca de i·a ·calidade nas tradições de 20,17-19; 26,1-5) .
Israel, o evangelho de Mateus retrata um processo de
ruptura entre Jesus e os representantes das instituições
de Israel de seu tempo e entre a comunidade do evan- 1.3 A crítioa radical ao cul to e ao templo de Jerusalém
g:füsta e a sinagoga, a instituição remanescente à destrui-
ção de J erusalém no ano 70. Esta niptura não pode ser J esus não se parece com o religioso tradicional n a
caracterizada com simplicidade. Até porque os r epresen- medida em que ele não privilegia o imaginário re~g~oso
tantes do poder judaico, em seus vários níveis, pactuavam de seu tempo. Ele nem sequer freqüenta como religioso
com o sistema sócio-econômico e político do Império Ro- espaço sagrado da religião. Sua prática r eforça sua r~
mano. Este sistema era sustentado pelo pagamento do 0
jeição básica das práticas religiosas d_o t~mpl~, na medi-
tributo que mantinha uma economia de concentração ne- da em que elas não se fundam na nusencórdia.
cessária à sobrevivência de um Estado gigantesco. Os po-
bres ao tempo de Jesus eram massas de desocupados, Primeiro Jesus escandaliza os judeus por praticar o
camponeses expulsos de suas terras, definidos no evange- perdão r eligioso fora de seu contexto tradicional, ~º?~e­
lho como aqueles que choram, que têm fome e sede de tudo por dispensar, para o perdão, a prática do sacriflc10.
justiça, "multidão cansada e abatida como ovelhas sem Deus perdoa se perdoamos aqueles que nos devem (Mt
pastor" (9,36), os "caniços rachados", "as mechas que 6,12) . Além de eliminar o p erdão via sacrifício, J:sus o

;
>1 apenas fumegam" no início do dia sem nenhum sentido
próprio (12,20). A opressão se manifesta como pobreza,
como doença, como organização r eligiosa desfavorável à
vida a través das manipulações do culto (21,12-16), trans-
coloca no nível das r elações econômicas do p erdao aos
devedores (18,23-35). As curas de leprosos têm uma ponta
de polêmica centra as regras de purificação do templo
(8,1-4). o perdão do paralítico é exemplarmente provoca-
dor da instituição sagrada de Israel (9,1-7).
1formando instituições religiosas em espaços que desorga-
nizam a vida (5,21-47; 6,19-21.24.25-34; 12,1-14, etc.) . Jesus, Em segundo lugar, pode-se mencionar a condenação do
a o inau gurar o Reino que se funda na solidariedade radi-
l cal do antigo projeto social do pós-êxodo, r esponsabiliza
as instituições judaicas por esta situação de absoluto
sábado como dia sagrado (12,1-14), colocada no context?
do conflito máximo com os judeus. A seqüência do ep1- 1
r abandono daquelas multidões de desesperançados. Sua sódio é a culminação da ruptura ( 12,38-45) . ~~
')~ ruptura com o I srael contemporâneo e suas autoridades Em terceiro lugar está a crise de Jesus contra o tem-
é igualmente definitiva (5,21-48; 6,19.24; 12,1-32). "Raça de
víboras, como podeis falar coisas boas se sois maus"?
plo. o episódio da purüicação do templo s e situa n o con-
texto da crítica radical de J esus à ins tituição percebida J1tj
Jy"n
(12,34). As lideranças judaicas são amaldiçoadas (23 ,16-22) como fonte de opressão (21,12-13), não a penas p ela insen-
e a condenação de Israel é definitiva (21,21-32 e 23,13-26; sibilidade do templo para com a miséria circundante como
cf. 12,38 e 13,14-15). O processo condenatório de Jesus é
o clímax desta ruptura, mas é precisamente ela que con- pelo terrível fato de que o templo é i~lmen~e g_er~d~r
firma, para a comunidade, o car áter messiânico de Jesus, de miséria. O contraste é a demonstraçao de misen cor d1a
a possibilidade da vitória da vida sobre a morte a viabi- aos cegos e coxos que Jesus cura t ransformando a mi-
lidade de um novo tempo humano caracterizado como sericórdia em protesto e rejeição de um modelo religioso
tempo de salvação. Assim o projeto de Jesus apar ece no sagrado de costas para a vida (21,14). O louvor das

266 267
de tudo isso" (6,31), isto é, eles não conhecem o projeto
c~ianças a _seguir contrasta com o falso louvor do histórico da misericórdia, do perdão das dividas de nos-
Ele, sim, e e verdadeiro louvor (21,15-16 ). templo. sos devedores (6,12-15 e 18,23-35) como condição para a
plenitude da vida com Deus. como se herda a vida et erna?
Tanto a ruptura com as institui - . . Fazendo os mandamentos. Que prática histórica traduz o
a conaenaçao ao culto de Isra 1 çoes judaicas quanto
fético: falta aos judeus a prá~ic:e dsirua_ no_ c.~mtexto pro- cumprimento religioso desta Lei? "Vai, vende os teus bens
dadeira expressão do verdad a rmsencordla, a ver- e dá aos pobres, e terás um tesouro nos céus. Depois
nusericórd1a que des ºrta erro cu_Ito. E a prática da vem e segue-me" (19,16-22). Por isso "um rico dificilmen-
ças (21 15-16) O pd.... . o verdadeiro louvor das crian- te entrará no Reino dos Céus" (19,23).
, · ver adeiro culto - ·
mas o da prática da misericórdia n~~ e ? d_o -sa?rifício Se se aprofunda a questão da lógica do Reino de
eu quero e não sacrifício" (913) P . misen~o~dia _que Jesus como lógica da partilha solidária que equaciona o
o critério da vida e da sal ' _ ·. or 1:-5?• no jUlZO fmal,
dia aos mais pequeninos ~~ao ~ a pratica da misericór- direito do pobre à vida e a da lógica de acúmulo do
( Mt 25,31-46). Este é o fi'.m fammtos, os nus, os presos Império romano, constata-se que o projeto do Reino só
Remo. Se há transcendê 1 . dament~ _da nova sociedade do se expressa no contexto da ação comunitária, do ato polí-
Paixão e ta . : eia na pratica de J esus e em sua tico, enquanto que o p rojeto d o acúmulo é individualista.
do ardor~ r eside p recisamente na radicalidade histórica Esta antítese sugere enorme gama de níveis de percepção I}
do fenômeno básico da vida em sociedade. De qualquer ~
fl.r)
forma o "pobre" em Mateus é categoria a s er superada (<' .rfi
no p róprio processo histórico. A transcendência da morte :,>Y
2 · A prática radical da justiça de J esus, no contexto do confronto entre a lógica do Rei- )~...
no e a lógica da opressão que gera o sofrimento e a l t/' ~
2 .1 O lugar do pobre no evangelho de Mateus morte do irmão, é, novamente, transcendência da prática 9 ,, . . .
no contexto da lo
. ·gica
· ,, acumulo
ue . '
do Império radical do amor na história. É no contexto do perdão \ _
histórico, fundado na conversão radical dentro de deci- t h l f
sões históricas concretas que se dá a acolhida à vida '\ cY. f ·~
trans-~ B·. ~
O pobre de Mateus já constatam - -
antropológica ou can;maticamente ~:Íi;~~a e ~a figura plena do Reino. A cruz histórica de Jesus tem sua
segundo Mateus não é nem
social nem be~
· er pobre,
resultado nat ural do p rocesso cendência nesta possibilidade histórica do perdão radica- r
graça do Pai car::iremo . ~o . contexto das dádivas da do no amor radical. A r essurreição é sinal histórico dav'-13.-
aventurado ~ue choraº ~r~vil~~~do de . s~l_vação. O bem- possibilidade da vida absoluta na h istória e, como decor-
de superação do sofrimento O o possibilidade histórica rência, aponta para a vitória da vida eterna.
se realiza no processo que . _consolo do choro do pobre Todo este processo tem como nó de passagem a con-
tiça, mesmo que o process~aci~ sua fome e sede de jus- versão autêntica à causa do pobre, aquele que suscita na
ção (Mt 5,3-12). 0 pobre de ~:jt m~rcado pela persegui- história a lógica da misericórdia. O destino eterno da
de concentração radicalm eus e r esultado da lógica v'da pessoal se decide, na história, por esta prática radi-
fonte primeira da injusti e:teu~on~e~ada por Jesus como cal que tem sua raiz no proieto sócio-histórico da orga-
prática da misericórdia. ~or qissoe~a ~ es~aço para a n·zação social pós-êxodo e!tlpcio: "Porque tive fom e e me
tesouros na terra ... pois ond t ~ao ajunteis para vós destes de comer. Tive sede e me destes de beber. Era
!~rã_ também o teu coração" e (:ta 6~9~~) t~;~foº aíd ~- estrangeiro e me r ecolhestes. Estive nu e me vestistes,
rvrr a Deus e ao dinheiro" (Mt 6 ,; . po eis doente e me visitastes, preso e viestes ver-me. . . pois
vos preocupeis quanto ao que h . ,24). Por isso, não cada vez que o fizestes a um desses meus irmãos mais
o vosso corpo, quanto ao que a~eis _de comer, nem com pequeninos, a mim o fizestes" (Mt 25,35-40). O pobre, por
Por quê? Precisamente porque a aveis de _vestir" (6,25).
faz o pão faltar "São . t' preocupaçao com o pão sua situação de vítima sem esperança, é o despertador
. os gen ios que estão à procura
269
268
A\) ~~rJ
ª·· ~tst~rico da misericórdia, na medida em que toda
·~P ..i.Vmaru~a~e é sociedade do mesmo Pa.i e neste c~ ~ u-
h
culto, desprovidos de frutos, são rejeitados. É pelos frutos
que se conhece a árvore, pois urna árvore má não pode ~
~'{' ~~~e~co, ª ~justi~ absol~tamente ~:
dar frutos bons (Mt 7,15-20; 12,33). "O Filho do H omem 111
f . ao pobre é há de vir na glória do seu Pai, e então retribuirá a cada ;( J •"
\ V' e: . P?b~e e caminho de salvação, na medida em u um de acordo com o seu comportamento" (Mt 16,27) · f
• , }·

~
a .IIDSencordia que ele desperta, pela constata - 0 do q e 1
re1to de sua_ re~v~d~cação à justiça, é a dik;::osyne ~­ A justiça do Reino se funda diretamente na prática l '.b,
Deus .. É ~ rmsencordia ~ue encontra expressões concreta! histórica da misericórdia. A justiça do Reino tem con- ~ IJ''

? na histór.a que concretiza o Reino de Deus. Por isso 0


Jesus
-
Çao.
de Mateus faz do pobre caminho de vi·da e salva.
"S
e queres ser perfeito e ter a vida eterna
~ende . os teus ~ens e dá aos pobres, e terás um te~o~~
os ceus. Dep01s, vem e segue-me" (Mt 19 16-22) L
.
tornos próprios . Na parábola do patrão da vinha, o Rei- 1) 1 .,J> ~
no é comparado ao patrão que saiu cedo para contratar oi
trabalhadores para s ua vinha, oferecendo um denário por
dia. E le contrata vários grupos de trabalhadores às 6 da 'f '1
manhã, às 9 horas, ao meio-dia e às 15h. Finalmente ·()
J ·~
ref~r~a este caminho na conversão de Zaq~eu a~ós u~: na "undécima" hora, ou 17h, encontrou ainda desocupa- .k-/
dec1sao ~e dar a metade de seus bens aos pobres "Ho e dos prometendo-lhes idênt ico salário. O pagamento do /
a salvaçao entrou nesta. casa" (Lc 19,1-10) . . j dia começou p elos últimos, que ganharam o denário com-
binado. Os trabalhadores das primeiras horas imaginaram
que teriam paga adicional. No entanto, protestaram contra
2.2 O novo culto do Rei1W é a prática hi stórica da justiça o mesmo salário. O p atrão retruca: "Amigo, não fui in-
justo contigo. Toma o que é teu e vai. Eu quero dar a \ .
P~u~~~o ::::~ss~~~~a a con~epç_ã~ profética de que
este último o mesmo que a ti. O t eu olho é mau porque · ,tV /
0 . lClO mas m1sencordia a part·
sua imensa compaixão pela multidão "
sada e abat·d
'
porque estava can-
d
ir e
eu sou bom?" (Mt 20,1-16). Fundada na misericórdia a ~ ./
justiça do Reino, por isso mesmo, deve exceder a dos ·
escribas e fariseus (Mt 5,17-20) . Ela é justiça misericor- .
.f/
\~
1 a como ovelhas sem pastor" (Mt 9 36) l
l~eal~ente radi?~liza a critica profética no sentia~ ~=
.
diosa, porque se funda exatamente no direito à vida do
i'a.r ae-~o!e:q:sª~~~~-u~qu~r a~ão q':-alitativamente salu-
pobre, aquele a quem a sociedade do acúmulo nega este 9"
po b d 1 iç~e~ JUda1co-religiosas de seu tem- direito. Neste sentido não se trata da justiça formal mas
a . 0- a an . o_no da multidao de pobres é absoluto isto é da justiça dos frutos, da justiça que funda a sociedade
açao r eligiosa dos religiosos embora ostensi~ ' solidária, m arcada pela partilha de seus b ens.
presente na prática dos doutor;s da L . amente
nas sinagogas e no culto do templo, ~ã~~o~~~asm~~
A nova justiça. do Reino é superior à