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Sumário ��. ; .
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8 Mundo
Linha do tempo . ... . ... ..........................10

16 gud
Pré-História... . .... ... 18
Mesopotâmia.... .. . ......2 o
Egito .........,....................................................21
China ............................................................... 22
Civilizações pré-colombianas ........ ............ 23
Grécia .. .. . .. ..... 24
Roma.. .. .. ........ ....... ...... ....... ....... . . .. ....... . ..... .. .26
Exercícios e resumo ................. ......... .... . ..28

3O Idade Média
O poder da Igreja ........... .. ......... .......... ... -32
Império Árabe..... . . . 33
Reino Franco . .... ........... . . .. . ...... ............... .. .. 35
Feudalismo ... . .. . . - �36
Cruzadas e crise feudal ... ......... ............. . 37
Exercícios e resumo... ............................... 38

4O Idade Moderna
Renascimento cultural .... .... .... .... ....... ... .42
Reforma Religiosa...........................................44 ,·

Estado Moderno
e Antigo Regime.................. ... 46
Expansão marítimo-comercial................ 48
Colonização da América .... ... ...... ........ .. .. 49
Revoluções Inglesas do século XVII . 51
Liberalismo e Iluminismo ... ... .. .. ...... .... ..52
Independência dos
Estados Unidos..... .....
88
53
Exercícios e resumo. ....................54 Brasil
Linha do tempo.... . .. . . .. .. ..... .. .. 90
56 Idade Contemporânea
Revolução Francesa .... .......... ............ . ... . .. 58 96 Co
. a
Revolução Industrial... . ........6o Organização
Independência político-administrativa ...............................98
da América Espanhola . . . . . . 62 ' Economia e sociedade colonial . .. .. 99
Doutrinas sociais e lnteriorização ... . ....... 101
políticas do século XIX . 63 Escravidão . . .. ......
..... .... .. .. ................. 102
Revoluções de 1848 e; Independência . .. . .104
Comu n a de Paris . ..... .. ...... :..... ........... 64 Exercícios e resumo .. .... . ............ . ... .. . 106
Unificação da Alemanha/
e da Itália... ..... . 65 108 Império
Imperialismo ............. . ... . ... . . ... ............ . .. ... 66 Primeiro Reinado... .... . ..... 110
I Guerra MundiaL... . . . ..... ..... 68 Regências..... .. . . ....... 111
Revolução Russa . ....... ... . .. .......... ... . . ... ....... lO Segundo Reinado.... . ..... . ... 113
. Crise de 29 e Grande Depressão. .... . .. .. 72 Exercícios e resumo., . .. .. . .. .. ..... .. ....... ... n6
Nazifascismo ........ . . .............. ... ..... ... .. . ... ..... 73
II·Guer.ra Mundial.. . . .. 74 1�8 República
G uerra Fria .. .. ....... . . ...... ........... .......... . ........ 76 República da Espada ................. ............. . 120
RevoJ. uç 9 es no pós-guerra.... ... 78 República Oligárquica ..... m

D'escolonização afro-asiática................ 8o Primeiro governo Vargas .


... . . .......... 124
Ditaduras na América Latina ....................81 República Democrática ....... 126
Crise e retomada da Ditadura Militar 129
hegemonia dos EUA.... . ......... ...... .... ....... ..82 Nova República . .. . . . . . 132
Fim da Guerra Fria Exercícios e resumo ......... . .. .. . .... . ...... ...134 _

e colapso da URSS .... ..... . ....... ... .. . .... . ... ..... 84


Nova Ordem Mundial....... ............................8s
Exercícios e resumo ...... ..... . ....... .... ....... . .. 86 136 Simuladão
i .
6 1 GE HISTÓRIA 2016 t
�R�Y $1GNALCORPI.{.IIy s. NAVY/PREITO ; �ERE\(61 REPRODUÇÃO (7(7RICAROO C HAVEI 181 ANTONIO MILENA
. ) , ... .,
::�.· 'I " .·.�;
MUNDO
LI N HA D O T E M P O

Pré-História e Antiguidade
o n fi ra os pri n c i pais eve ntos da Pré­

C -Histó ria e da Anti g u i dade. Os fatos


que tê m i n d i cação de pág i n as (re­
m issões) correspondem aos assuntos que
mais caem no vestibular.
a.c.
Os sumérios formam a primeira
civilização da Mesopotâmia.
Pág. 2 0

Simultaneamente, tem início a


civilização eglpcia.
Pág. 2 1
13,7 BILHÕES DE ANOS ATRÃS aoooa.c.
Segundo a teoria do Big Bang, o Un iverso surge a partir Começa o Neolltico,
de uma explosão primordial. É o início de toda a matéria, ou Idade da Pedra
energia, espaço e da contagem do tempo. Polida. Tem início a
revolução agrícola.
Pág. 18

JHta.c.

a.C.
O atual Líbano começa a ser
povoado por tribos semitas que
dão origem à civilização fenlcia.
Fundam cidades como Sidon, Biblos
e Tiro e, a partir do século X a.C.,
[6) colonizam vastas áreas nas margens
Surgimento dos primeiros
do Mediterrâneo. Cartago, instalada
hominídeos, ancestrais do homem.
no norte da Atrica em 814 a.C., torna·
É o início da Pré-História e do
se a mais importante cidade fenícia
período Paleolltico ou Idade da Revolução urbana com o
após a conquista de Tiro pelos
Pedra Lascada. Pág. 18 , surgimento das primeiras
macedônios, em 332 a.C. Em 146 a.C.,
11.500 ANOS ATRÃS civilizações e da escrita,
Cartago e destruída pelos romanos
Nessa época vive Luzia, o que marca o começo da
nas Guerras Púnicas.
nome dado ao mais Antiguidade.
antigo fóssil humano A partir da pág. 19
brasileiro, encontrado
na região de Lagoa

�:;':;···'"' "' - 58.000 ANOS ATRÃS


Nessa época, o nordeste brasileiro já
seria ocupado por grupos humanos,
conforme indicam os mais antigos
vestígios arqueológicos do país,
encontrados em São Raimundo Nonato,
no Piauí. Mas ainda há grande polêmica
sobre o assunto: muitos pesquisadores
afirmam que a povoação da América e
Nascem os primeiros Homo do Brasil só começou milhares de anos
sapiens, a espécie a que depois. Veja mais sobre a Pré-História
pertencemos. Pág. 18 brasileira na pág. 19

10 I GE HISTORIA 2016 [IJI4li8JI9J DIVULGAÇÃO [l) [6! [111 MUSEU 00 LOUVRE/FRANÇA [lJ MUSEU NACIONAL OEANTROPOLOGIA/M(XICO
[SI MARCOS HERMES [7J [!li METROPOLITAN MUSEUM/EUA [10) RUBIN MUSEUM Of ART/EUA
l&OOa.C. 753a.C.
Surgimento da mais antiga Fundação Fim do Império Romano do
linha dinástica chinesa a lendária de Ocidente, fato que marca o
deixar registros históricos: a Roma, marco inicio da Idade Média.
dinastia Shang. da civilização Pág.27
Pág. 22 romana.
Pág. 2 6

llSOa.C. l:ZOOa.C.
Os hebreus deixam Ascensão no golfo do O Império Romano divide·
o Egito - onde foram México da civilização ·se em Império Romano do
escravizados - olmeca, que expande Ocidente e Império Romano
e migram para a seus domínios até o do Oriente.
Palestina, guiados pelo litoral do Pacifico. Pág.27
patriarca Moisés, no Os olmecas fornecem
episódio conhecido a base cultural aos
como Exodo. Durante povos que habitariam Os romanos destroem o Templo
dois séculos, lutam a região nos séculos de jerusalém e expulsam os
contra povos da região seguintes, como maias judeus da Palestina, dando
pela posse da terra. Em e astecas. inicio à segunda diáspora
(l) 1010 a.C., Saul torna·se Pág.23 judaica. Eles migram para a
o primeiro rei hebreu. As ia Menor e a Europa.
Seus sucessores, Davi
Hamurabi dá início
e Salomão, impõem
à unificação da
um período de expansão Início da Era Cristã,
Mesopotâmia, que origina
e prosperidade. segundo o calendário
o I Império Babilônico.
Pág. 2 0 gregoriano.

:zoooa.c. 1750a.c. Uma aliança entre


Tem início a Entre 17so e 1400 medos e caldeus Surge o Império
civilização grega. a.C., os arianos derrota o Império Assírio, Macedônico, com
Pág. 2 4 invadem o norte da abrindo caminho Alexandre, o Grande.
atual lndia, dando para o surgimento do Pág. 2 5
origem à civilização li Império Babilônico.
hindu. Os hindus Pág.2 0
praticam a agricultura,
a metalurgia e o
comércio. A sociedade
divide-se em castas:
sacerdotes (brâmanes),
guerreiros (chátrias),
[11(
camponeses (vaisia) llll
e servos (sudras).
Os párias não têm
casta e podem 539a.C.
ser escravizados. Comandados por Ciro 11, o s persas derrotam o s medos, que habitavam o planalto do
Politeístas, os hindus I rã, e fundam o Império Persa. Sob Dario I, que assume em 52 1 a.C., o império atinge
seguem os Vedas, os a extensão máxima, indo do Egito à lndia. Os persas constroem estradas e canais para
mais antigos textos facilitar o comércio e o transporte. Seguem os ensinamentos do profeta Zaratustra, ou
sacros conhecidos. Zoroastro, fundador da religião dualista denominada zoroastrismo. Pág.2 1

A chegada dos hebreus à


Palestina, sob a liderança do

- -@)
'
patriarca Abraão, segundo a MESOPOT.IMIA ARACÓSIA
narrativa bíblica, é o marco da �-

•\ P1RSIA
civilização hebraica.
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Extens�o máxima, ARABIA
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no século V a.C. ! '
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GE HIST0RIA2016 I ll
MUNDO
L I N H A D O TE M PO

Idade Média e Moderna


ej a os acontecimentos mais importantes da Idade M édia,

V que vai de 476 a 1453, e da Idade Moderna, que termina com a


Revolução Francesa (1789), marco da Idade Contemporânea.

Gêngis Khan unifica tribos da Asia


Central (atual Mongólia) e i n icia o
Império Mongol, que se estende da
China até as cercanias da Hu ngria.
Suas conquistas são consolidadas
pelo neto Kublai Khan, que funda na
Após a morte de China a dinastia Yuan. Ele impulsiona
Luís V, último rei o comércio com a Europa. Em 1368, os
da dinastia carolíngia, mongóis são expulsos da China pela
nobres franceses dinastia Ming. O Império Mongol se
elegem Hugo Capeta, desagrega no século XIV.
conde de Paris, Ili
soberano da França.
Nasce o
Inicia-se o processo
Reino Franco. de formação da
Pág. 35 Ili
monarquia francesa.

A Igreja Oriental
(Igreja Cristã Ortodoxa
Grega) e a Igreja
Ocidental (Igreja
Católica Apostólica
Romana) rompem
entre si, no Cisma
Com a coroação de ]ustiniano, o do Oriente.
Império Bizantino começa a viver
seu auge. O imperador reconquista
territórios bárbaros no Ocidente
(veja o mapa abaixo), estimula
as artes e elabora o Código de
)ustiniano, que revisa e o papa João XII nomeia Otto I im perador do Sacro
atualiza o direito romano. Império Romano-Germânico, numa tentativa de
Ao fim de seu governo, em 565, conter os ataques húngaros à Europa cristã. Seus
o império começa a decair. domínios abrangem porções das atuais França,
Em 1204, a capital, Constantinopla, Holanda, Suíça, Alemanha, Austria e Polônia (veja o
é conquistada pelos cruzados, e mapa na pág. 45). Acentua-se a corrupção, e a Igreja
o restante do império é repartido Católica torna-se mais suscetível ao poder político,
entre príncipes feudais. Em 1453, promovendo a venda de cargos eclesiásticos (simonia).
a cidade é subjugada pelos turcos.

iO IMPtRIO
BIZANTINO
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AWNegro
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fkeano J
ACid/lfJro
I

O feudalismo
Inicio do reinado de justiniano (S27-S6S) chega ao
• Conquistas de justiniano auge na Europa.
/
fOftt*:}OS�Arr�rNelsoo Pilettt Tocb.a Hist6ri.,Jrd.A!iu,.p.ig. XII Pág. 36

12 1 GE H ISTORIA 2016
Indignado com a venda de indulgências, Os conquistadores Estoura a Revolução
o monge alemão Martinho Lutero inicia a espanhóis Francisco Puritana, que, com a
Reforma Religiosa. Pág. 44 Pizarro e Diego de Revolução Gloriosa,
A/magro dão início à de 1688, constitui as
destruição do Império Revoluções Inglesas
Inca, no Peru, um dos do século XVII.
marcos da colonização Pág. 51
da América.
O sultão Otman I funda o Império Pág. 49
Turco-Otomano. No século XVI,
o império vive seu auge,
ocupando o norte da Africa,
a região do mar Vermelho e
a faixa do golfo Pérsico até a
Hungria. A partir do século XVII, Tem inicio
)6)
a retração econômica dá início à o primeiro
decadência, mas o sultanato só é conflito europeu
abolido após a derrota na I Guerra Em 12 de outubro, Cristóvão a adquirir lsaac Newton publica
Mundial (1914-1918). Colombo aparta nas atuais Bahamas. proporções Principias Matemáticos
O descobrimento da América é um continentais, da Filosofia Natural.
dos maiores feitos da expansão a Guerra dos Ele é um dos principais
maritima e comercial europeia. Trinta Anos. impulsionadores do
Pág. 48 Iluminismo, no século
seguinte. Pág. 52

A tomada de
Constantinopla­
então sede
do Império Pedro Alvares Cabral e sua esquadra
Bizantino- atingem o litoral da Bahia em 22 de abril.
pelo Império É o descobrimento do Brasil. Pág. 48
Tu rco-Otomano
marca a fim da
Idade Média e
inicio da Idade
Moderna.

{8)

(lO)

Como parte da reação católica à Reforma,


Michelangelo começa a pintar o teto IUI
o religioso espanhol Ignácio de Loyola
da Capela Sistina, no Vaticano.
funda a Companhia de Jesus (ordem
O conjunto de afrescos do gênio É declarada a independência dos
dos jesuítas) com a missão de ser uma
italiano é uma das obras mais famosas Estados Unidos.
instituição de ação política e ideológica
do Renascimento Cultural. Pág. 42 Pág. 53
da Igreja Católica. Pág. 45

GE HISTÓRIA 2016/13
)1) MUSEU 00 LOUVREifRANÇA )2IIJIJ7IJ81 REPROOUÇÀO )4) BNF/FRANÇA ISIIJOI OIVULGAÇ!O )61191 BIBLIOTECA 00 CONGRESSO/EUA 1111 ARQUIVO NACIONAL/EUA
MUNDO
L I N HA D O T E M PO

Idade Contemporânea
companhe os fatos que marcaram a Idade Contem­

A porânea, que tem i n ício com a Revolução Francesa


(1789) e segue até os dias atuais.

[l[ [3[

Início da Os filósofos alemães Karl Marx Ocorre a unificação italiana, que


Revolução e Friedrich Engels publicam o integra os vários Estados e reinos
Industrial, Manifesto Comunista, que origina da península Itálica.
na Inglaterra o socialismo científico, umas das No mesmo ano, Bismarck efetiva
Pág. 60 doutrinas sociais e políticas do a unificação alemã, integrando
século XIX. Pág. 63 os Estados germânicos no 11 Rei c h
(li Império). Pág. 65

A burguesia francesa, As potências europeias


reagindo às medidas regulamentam a partilha da Africa
autoritárias do rei acentuam a oposição na Conferência de Berlim. É um dos
Carlos X, derruba a à monarquia na França momentos mais representativos do
d inastia Bourbon e e levam às Revoluções Imperialismo. Pág. 66
leva ao poder Luís de 1848, conhecidas
Felipe I, u m Orléans como Primavera dos
alinhado com seus Povos, de inspiração
interesses. Seguem-se nacionalista e liberal.
várias insu rreições Pág. 64
semelhantes na Europa,
Napoleão toma o poder as Revoluções Liberais.
como imperador da França.
Pág. 59

Tem início a guerra


pela independência
das colônias
espanholas na
América. Pág. 62
[7[

U m levante popular na capital


francesa im planta um governo
revolucionário de inspiração
socialista - a Comuna de Paris­
[6[ que acaba com os privilégios
e as distinções de classe:
Interesses antagônicos entre os estados do sul dos institui, por exemplo, o ensino
Estados Unidos (latifundiários e escravagistas) e os do gratuito, o controle do preço e a
norte (industrializados e abolicionistas) provocam a distribuição da renda em sistema
Guerra Civil Americana ou Guerra de Secessão. Com cooperativo. Após 72 dias, a
um saldo de 6oo mil mortos, o conflito termina em Comuna é derrotada pelas tropas
[I[ 1865, com a vitória do norte e o fim da escravidão. governamentais. Pág. 64

14 1 GE HISTORIA 2016
=. l.onbon \lt!!J!m�lb .::.
- ._ ... ... -. ..... .

WALL STREET
CRASH! A política de segregação A queda do Muro de
racial do apartheid é Berlim marca o
oficializada na Africa fim da Guerra Fria.
do Sul. Só nos anos 1990, Nos anos seguintes,
o regime é revogado, o planeta assistiria ao
no governo de Frederik desmantelamento do
de Klerk. Em 1994, o líder mundo comunista (pág. 84)'
negro Nelson Mande la e mergulharia numa
é eleito presidente. nova ordem mundial .
(9] (pág. Bs).
Os Estados Unidos
(EUA) enfrentam a
crise de 1929, que
Milhões de se espalharia pelo Golpes de Estado instalam
camponeses mundo. Pág. 72 regimes mi litares no Chile
descontentes com
e no Uruguai. O movimento
o domínio dos
atinge vários outros países do
latifundiários dão
continente. São as ditaduras
início à Revolução
latino-americanas.
Mexicana, a primeira Pág. 81
revolta popular do
século XX.

Começa a
I Guerra Mundial.
Pág. 68
contra o governo
republicano da
Espanha, iniciando a
Guerra Civil Espanhola.
O líder comunista
Mao Tsé-tung
proclama a República
Popular da China e
reorganiza o país nos
moldes socialistas: é a
Revolução Chinesa.
Pág. 78

[!SI

Eclode a Guerra Começa a Guerra da Em 11 de setembro,


da Indochina, u m Coreia, o primeiro as torres gêmeas do
d o s capítulos da grande conflito da World Trade Center,
descolonização Guerra Fria. Pág. 76 em Nova York, são
afro-asiática. derru badas, nc maior
Pág. 8 o ataque terrorista
da história.
Pág. 85
É deflagrada a
Revolução Russa. Em meio a lutas internas
Pág. 70 no Partido Comunista
Chinês, Mao Tsé-tung
(14(
impulsiona a Grande
Revolução Cultural.
jovens militantes são Descontente com o
Benito Mussolini toma o poder na O Estado de Israel é proclamado estimulados a formar a governo pró-Ocidente
Itália, inaugurando cs regimes em maio de 1948, após a aprovação Guarda Vermelha, que do xá Reza Pahlevi,
nazifascistas, que marcariam a pela ONU do plano de partilha da persegue os adversários. a maioria xiita do Irã
Europa após a I Guerra Mundial. Palestina entre árabes e judeus. Pág. 78 inicia a Revolução
Pág. 73 Islâmica. Pág. 82

(1](4] MUSEU DO LOUVRE/FRANÇA (2](3](9](14] REPRODUÇ ÃO (S] MUSEU BOLIVAR/VENEZUELA (6](8((1<] BI BLIOTECA DO CONGRESSO/EUA (7( BIBLIOTECA UNIVERSIDADE NORTHWESTERN/EUA GE HISTORIA 2016 1 15
(10] DEPARTAMENTO OE DEFESA/EUA (ll( (lSJ DIVULGAÇÃO [12( MUSEU CENTRAL ESTATAL OA HISTÚRIACONTEMPORÀNEA OA RúSSIA [13( JORGE ROSEMBERG
MUNDO,.
PRÉ-HISTÓRIA
E ANTIGUIDADE

Negociações
complexas
O progresso das conversações para reduzir
o programa nuclear do Irã pode alterar as
relações de poder em todo o Oriente Médio

programa n uclear do Irã é um dos temas mais

O
controversos da atualidade. O reg i m e dos aia­
tolás alega q ue o desenvolvi mento da tecno­
logia atôm ica tem como objetivo a produção
de energia e outros fin s pacfficos. já os Estados U n i-
dos (EUA) e as potências ocidentais desconfiam q ue o
país asiático tenha a i n tenção de obter a bomba atôm ica.
Um acordo provisório firmado em novembro de 2013 es­
tabeleceu algu mas l i m i tações ao programa de enriq ueci­
mento de u ra.nio do Irã e m troca de um alfvio parcial nas
sanções eco nôm icas q u e o Ocidente aplicara contra o go­
verno i ran iano.
Apesar do progresso das negociações, ainda há agudas
d i vergências. O Irã reitera q ue n ão renu nciará o seu d i­
reito legit i m o de produzir tecnologia n uclear, e n q u anto
os EUA q uerem restrin g i r ao máximo a capacidade atô­
m ica dos i ra n i an os. O i m passe postergou o prazo final
para a obtenção d e um acordo definitivo para o final de
j u nho d e 2015. Um fracasso nas negociações pode i n iciar
um novo ciclo d e host i l i dades entre o Irã e o Ocidente.
O programa n u clear iraniano mobiliza todo o Oriente
Méd io. Para Israel e Arábia Saudita, aliados dos EUA e prin­
cipais rivais do Irã na região, a possibilidade d e Teerã ob­
ter armas n ucleares é i nadm issível. Eles pressionam o Oci­
dente a agir de forma enérgica contra essa i n iciativa. já u m
acordo bem-sucedido nessa q uestão n u clear, abriria as
portas para u m a reaproximação entre os EUA e o Irã. O fim
do isolamento ao governo iraniano ampliaria seu poder na
região, hipótese i ndesejada por israelenses e sauditas.
O Irã tenta au mentar sua i nfluência regional, atual­
mente bastante red uzida em comparação ao poder con­
quistado n o sécu l o V I a.C. pelo Império Persa, do q ual o
país é herdeiro d i reto. Neste capítu lo, você fica sabendo
mais sobre os persas e o u t ras i m portantes civi l i zações
da Antiguidade.

� APOIO DOMtSTICO
Estudante iraniana mostra cartaz que diz "energia nuclear
é nosso direito absoluto" durante manifestação em favor
do programa de enriquecimento de uranio do governo do
Irá, em Teer�
AnA KENARf/AFP PHOTO

LS Ollr
.

C.HT
M U NDO I P R É-HI STÓR I A
P R É - H I STÓ R I A

COBRAS E LAGARTOS
As pinturas rupestres nas
paredes de cavernas revelam
aspectos da vida do homem
da Pré· História

E surgiu o homem
Em cerca de s milhões de anos, o homem moderno dominou a natu reza e inventou a civil ização

A
Pré-História teve início cerca de volução Agrícola. Durante esse período, REVOLUÇAO AGRICOLA Com o domínio da agri­
5,5 milhões de anos atrás, com o sur­ ocorreram mudanças radicais no clima da cultura, as comunidades humanas deixaram
gimento dos primeiros hominídeos Terra, formaram-se vales e rios, e a flora se de viver essencialmente da caça e da coleta,
(família de primatas ancestrais do homem), modificou. Os hominídeos do Paleolítico possibilitando a sua sedentarização, o apri­
e se estendeu até aproximadamente o ano eram nômades, viviam em grupos e utili­ moramento das tecnologias, como o poli­
de 4000 a.C., quando a escrita foi inventada zavam cavernas como habitação. Eram es­ mento das ped;as e a utilização de cerâmica.
e começaram a aparecer as primeiras civi­ sencialmente coletores e caçadores. Lasca­ Essa transformação na maneira de obter
lizações. Esses milhões de anos foram mar­ vam ossos e, principalmente, pedras para a subsistência alterou sensivelmente o mo­
cados pela evolução das espécies huma­ usá-los na extração de raízes e no abate de do de vida do homem. Seu controle sobre
nas, que culminou com o surgimento (entre animais. Assim, inventaram o anzol, o ar­ a natureza ampliou, de forma inédita, as
200 mil e 100 mil anos atrás) e a suprema­ pão, o arco e flecha e a lança. O trabalho era possibilidades da reprodução da espécie.
cia do homem moderno, chamado de Hamo dividido por sexo e idade. Foi também no A sedentarização, o crescimento do nú­
sapiens. Nesse período, ocorreram dois dos Paleolítico que o homem passou a utilizar o mero de integrantes das famílias e a pro­
eventos mais importantes que marcaram a fogo e desenvolveu a linguagem oral e a ar­ gressiva aproximação entre elas, por meio
evolução da espécie na Terra: a Revolução te rupestre - desenhando animais nas pa­ da ampliação dos laços de parentesco, aca­
Agrícola e a Revolução Urbana. redes das cavernas. bou conduzindo essas comunidades à cria­
A fim de organizar os estudos sobre essa ção de um espaço de vida comum, composto
época, a Pré-História foi dividida em dois NEOLITICO de construções que abrigavam e protegiam
grandes períodos: Paleolítico (ou Idade da Por volta de 10000 a.C., com o fim da úl­ as famílias. Também foram criadas regras
Pedra Lascada) e Neolítico (ou Idade da tima glaciação, a Terra começou a adquirir para regular o convívio. O homem cons­
Pedra Polida). a configuração geográfica e climática atual. truiu uma sociedade comunitária com ba­
Algum tempo depois (cerca de 8000 a.C.), o se no conceito de cooperação - a terra, os
PALEOLITICO homem começou a domesticar os animais rebanhos e os instrumentos eram de todos,
O período Paleolítico vai até aproxima­ e a cultivar algumas espécies de grãos, de­ e o indivíduo só poderia se considerar dono
damente 10000 a.C., com o início da Re- sencadeando uma verdadeira revolução. deles se pertencesse à comunidade. A eco-

18 1 GE HISTORIA 2016
A POSSE DO GLOBO

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ZELÂNDIA
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EUROPA E ÁSIA AUSTRÁLIA ILHAS DO PACÍFICO POVOAMENTO DAS AMÉRICAS
Há 1,8 milhão de anos, O Homosapiens chegou à Austrália A partir da Nova Guiné, o homem chegou Segundo a hipótese mais tradicional, o homem
o Homo erectus foi o primeiro há cerca de 50 mil anos, cruzando às ilhas mais próximas há cerca de 32 mil chegou à América 12 mil anos atrás, por terra,
hominídeo a deixar a África, indo pontes terrestres que a ligavam ao anos. As mais distantes permaneceram tendo atravessado a Beríngia, que ligava a
rumo à Europa e ao leste da Ásia Sudeste Asiático e usando balsas desabitadas até 2 mil anos atrás Sibéria ao Alasca.

nomia também evoluiu: as tribos passaram


a produzir mais do que precisavam para - PRIMEIROS
consumo próprio e a trocar esses exceden­
BRASILEIROS
tes com outras comunidades.
Ainda no Neolítico, o homem inventou a Ainda não se sabe exatamen·
roda, confeccionou tecidos e desenvolveu te quando e como os primeiros
meios de transporte, como barcas de cou­ humanos chegaram ao território
ro e carros puxados por força animal. A arte hoje pertencente ao Brasil - e nem
tornou-se mais complexa, com pinturas fi­ mesmo ao continente americano.
gurativas e geométricas em cerâmica e es­ Segundo a hipótese mais tradi·
culturas de baixo-relevo. Teve início ainda cional, há 12 mil anos um grupo
o culto à natureza, aos antepassados e à deu­ vindo da Asia teria atravessado a
sa da fecundidade, relacionada à colheita. pé uma faixa de terra que ligava
IDADE DOS METAIS Nas regiões compreen­ a Sibéria ao Alasca - a Beríngia,
didas entre a Mesopotâmia e o Egito, o co­ formada em razão das glaciações
bre começou a ser utilizado no fim do pe­ no local onde fica o estreito de Be·
ríodo Neolítico (por volta de 4000 a.C.), o ring. De lá, esses migrantes teriam
bronze foi descoberto mais tarde (por vol­ se deslocado no decorrer dos anos ANCESTRAL Reconstituição do rosto de Luzia,
ta de 2500 a.C), e o ferro passou a ser usa­ seguintes em direção à América o mais antigo esqueleto hu mano brasileiro
do por volta de 1200 a.C., conferindo aos Central e à América do Sul. Essa
que dominavam a tecnologia de sua fabri­ tese é embasada em descobertas arqueológicas, como a de Luzia, na região de La·
cação superioridade militar decisiva. goa Santa (MG), o mais antigo esqueleto humano brasileiro conhecido, que teria
REVOLUÇA OURBANAJánofimdo período Neo­ vivido entre 11 mil e 11,5 mil anos atrás.
lítico, por volta de 4000 a.C., esses agrupa­ Os pesquisadores, contudo, acreditam ser impossível que os primeiros america·
mentos interfamiliares originaram as pri­ nos tenham percorrido o longo trajeto entre o estreito de Bering e a América do Sul
meiras cidades. O surgimento desses nú­ em apenas algumas centenas de anos. Porém, antes de 12 mil anos, o estreito de
cleos urbanos, geralmente dominados por Bering estava bloqueado pelo gelo. Surgiram, então, outras teorias.
um poder teocrático (soberano que detinha Uma das mais aceitas sugere que os primeiros americanos usaram barcos para
o poder político e religioso), foi denominado passar da Asia para a América do Norte cerca de 15 mil anos atrás. Uma terceira teo·
de Revolução Urbana. As primeiras cidades­ ria propõe que os primeiros humanos teriam chegado ao continente mais de 6o mil
-Estado, organizadas na forma de teocracias, anos atrás, vindos da Oceania, após cruzar todo o oceano Pacífico. A evidência para
foram a base das primeiras civilizações do a data são ferramentas de pedra e restos de fogueira de 58 mil anos achados no
Oriente Médio (da Mesopotâmia ao Egito).181 sítio arqueológico do Boqueirão da Pedra Furada, em São Raimundo Nonato (PI).

lliAFP/HEMIS.FR/OOELAN YANN lll MARCOS HERMES GE HISTÓRIA 20161 19


M U N D O I A N TI G U I DA D E
M ES O POTÂ M I A I
A vida POVOS MESOPOTAMICOS
Confira onde viveram sumérios, babilônios e assírios
\

entre
dois rios
A geografia privilegiada do
atuall raque favoreceu o PtRSIA
aparecimento das primeiras
cidades-Estado do mundo
Fonte:;osé Arruda e Nelson Pi/etti_ Toda a História, 3 edv Aticd, pJgs.IV, V

A
Mesopotâmia (do grego "entre rios") e 1750 a.C., a Mesopotâmia foi outra vez Babilônia voltou a ser a capital da Meso­
é a região localizada entre os rios unificada, e teve início o I Império Babi­ potâmia, o que deu origem ao II Império
Tigre e Eufrates - território que se lônico. O império dos babilônios (também Babilônico. O apogeu o.:orreu no gover­
situa no atual Iraque -, onde surgiram as conhecidos como amoritas) durou até o sé­ no de Nabucodonosor I I (604-562 a.C.),
primeiras cidades-Estado. Ela faz parte culo XVI a.C., quando tombou após as in­ que expandiu o território até a Palestina,
do Crescente Fértil, área na qual brotou vasões dos hititas - nômades vindos do escravizando o povo local, os hebreus, no
grande parte das civilizações antigas que Cáucaso. evento conhecido como o "cativeiro da Ba­
se estende até o Egito. Todo ano, quando a bilônia". Nabucodonosor também cons­
neve das montanhas da Armênia derretia, o ASSÍRIOS truiu a Torre de Babel e os Jardins Suspen­
Tigre e o Eufrates inundavam as planícies No século IX a.C., outro povo começou sos da Babilônia. Em 539 a.C., a Babilônia
próximas às suas margens, cobrindo-as a despontar como potência: os assírios. foi conquistada pelos persas, tornando-se
com uma camada de lama extremamente Originários do norte do Tigre, conquis­ uma de suas províncias. Era o fim da era de
fértil. Isso atraiu vários povos para a região taram um vasto império, cujo auge foi en­ autonomia da Mesopotâmia.
durante toda a Antiguidade. tre os séculos V I I I e VII a.C., nos reinados
de Sargão II, Senaqueribe e Assurbanipal, CONTRIBUIÇOES
SUMÉRIOS construtor da famosa biblioteca da cidade Os povos que habitaram a Mesopotâmia
Os primeiros habitantes da Mesopotâ­ de Nínive. Os assírios ficaram conhecidos deixaram importante legado. Os sumérios
mia foram os sumérios, lá instalados pelo pelo Exército poderoso e cruel, impondo inventaram a escrita cuneiforme, feita com
menos desde 4000 a.C. Os sumérios domi­ violentos castigos aos povos conquistados. talhes em placas de argila. Entre as prin­
naram os semitas (povos nômades) e fun­ cipais contribuições dos babilônios está o
daram cidades-Estado como Kish e Ur. Por 11 IMPÉRIO BABILONICO Código de Hamurabi, um dos mais antigos
volta de 3200 a.C., já eram organizados em Abalado por revoltas internas e inva­ códigos jurídicos escritos, que contém a fa­
uma civilização. Cada cidade tinha gover­ sões, o Império Assírio tombou em 612 mosa Lei de Talião ("olho por olho, dente
no próprio, centralizado na figura dos pa­ a.C., diante de uma aliança entre me­ por dente"). Os assírios destacaram-se pe­
tesis - reis que concentravam o poder mi­ dos (oriundos das margens do mar Cás­ la criação da Biblioteca de Nínive, com re­
litar, político e religioso. pio) e caldeus (vindos do sul da Meso­ gistros preciosos sobre o seu modo de vida
Em 2300 a.C., as cidades sumérias fo­ potâmia). Sob o domínio dos caldeus, a e dos povos que dominaram. 181
ram unificadas pelos acádios, originários
de tribos do norte da Mesopotâmia. Eles
formaram um império com capital em
Acádia. O domínio acádio ruiu por volta de ��� IMPERIOS TEOCRÃTICOS
2180 a.C., com as invasões dos gutis, vin­ As primeiras civilizações que surgiram nas regiões compreendidas entre a Meso·
dos da Armênia. potâmia e o Egito organizavam-se na forma de cidades-Estado governadas por um
poder teocrático (soberano que unia o poder político e religioso). Algumas dessas
I IMPÉRIO BABILONICO cidades expandiram-se e formaram grandes impérios, preservando a natureza teo­
Por volta de 2000 a.C., nova invasão se­ crática do poder dos soberanos. A forma como esses poderes se articulavam variava
mita deu origem à cidade da Babilônia, que bastante. Em alguns casos, o soberano ou imperador era considerado um enviado
se tornou importante centro político. Sob dos deuses, como no Império Babilônico. Em outros casos, como no Egito, ele era
a liderança do rei Hamurabi, entre 1792 tido como um deus vivo, o que resultava num reforço sensível de seu poder.

20 I GE HISTÓRIA 2016
MUNDO I ANTIGUIDADE
EGITO

O EGITO ANTIGO

Uma veia no Saara


Veja como os faraós ampliaram seus
domínios na Antiguidade

Egito
Terras cultiváveis
Conqu istas egípcias
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As águas do rio Nilo permitiram o surgimento de u m extenso no Oriente Médio durante
o Novo Império
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e opulento império em meio ao deserto africano ,r
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ANTIGO IMPÉRIO (3200·2000a.C.) É marcado pe­

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s antigos egípcios formaram uma civi­ !'

lização que começou a florescer no fim la construção das grandes pirâmides de Gi­ '---· --- ��. . • • " -Ê dom
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da Pré-História, às margens do rio Nilo, zé, monumentais demonstrações do poder -----./ • BAIX · �-" '\
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no desértico nordeste da África, e estendeu­ monárquico, erguidas pelos faraós Quéops, '
: pelo Novo Império
-se até o fim da Antiguidade. A existência da Quéfren e Miquerinos em torno da capital, a c.)
civilização só foi possível em razão das cheias Mênfis. Porém, no fim do período, por vol­

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periódicas do rio, que fertilizav:m1 o solo, tor­ ta de 2300 a.C., os nomarcas voltaram a ga­
nando-o próprio para a agricultura. A história nhar importância política. O poder se des­
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dos antigos egípcios é dividida em dois gran­ centralizou e ocorreu uma série de revoltas ' ·

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des períodos: o pré-dinástico e o dinástico. sociais e lutas entre os líderes locais, com­ J.':7---'•'-<- Ll'mite sul
prometendo a economia do império. do Mt igo lmp�r�o
PERÍODO PRÉ-DINÁSTICO MÉDIO IMPÉRIO (2000·1580 a.C.) Após intensos ' (31GQ a.cs ��oo i

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No início da Antiguidade, a civilização
egípcia via-se organizada em espécies de
confrontos com os nomarcas, restabeleceu­
-se o poder dos faraós, e Tebas tornou-se a
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clãs denominados nomos, cujos líderes nova capital. Entretanto, os hicsos (estran­ '
•. (2000-15�0 a.c.)
eram os nomarcas. Por volta de 3500 a.C., geiros asiáticos) começaram a se instalar no ' .
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os nomos se agruparam formando dois rei­ delta do Nilo e, por volta de 1750 a.C., toma­ .
.
nos - um ao norte (o Baixo Egito) e outro ram o poder do império. Seguiram-se qua­ .
' .
ao sul (o Alto Egito). Em 3200 a.C., o chefe se dois séculos de dominação estrangeira. Fonte: José Arruda. e Nelson Pilerti, Toda a História, 3 ed� Aticd, pJg. IV

do Alto Egito, Menés - considerado o pri­ NOVO IMPÉRIO (1580·525 a.C.) Depois de expul­
meiro faraó (rei) egípcio -, conquistou o sar os hicsos, os egípcios deram início à fase
Baixo Egito e unificou a região. Tinha iní­ de maior expansão territorial de sua história LEGADO
cio o período dinástico. (veja o mapa ao lado). Um dos faraós mais im­ Elementos da religião do Egito antigo
portantes dessa época foi Ramsés II, em cujo podem ser encontrados nas mais diversas
PERÍODO DINÁSTICO reinado o império viveu o auge militar, cul­ religiões do mundo atual, como a ideia da
A era dos faraós começou com o estabe­ tural e econômico. No fim do Novo Império, vida após a morte, a reencarnação e o jul­
lecimento da monarquia teocrática: todo o a monarquia foi conquistada pelos assírios. gamento final. Suas pesquisas voltadas pa­
poder político e religioso ficava concentra­ Os egípcios chegaram a restabelecer o po­ ra a mumificação dos corpos permitiram
do no soberano, considerado um deus vivo. der brevemente, mas não resistiram à inva­ o desenvolvimento de importantes co­
Ele era o dono de todas as terras e ocupava são persa em 525 a.C. Nos séculos seguintes, nhecimentos na área da medicina. Tam­
o topo da pirâmide social, seguido pela no­ ainda sofreriam novas invasões. Em 332 a.C., bém desenvolveram estudos na área de as­
breza, pelos artesãos e camponeses servos foram dominados pelos macedônios, e, em tronomia e matemática, além de técnicas
e pelos escravos. O período dinástico é di­ 30 a.C., pelos romanos, marcando a deca­ agrícolas e de construção de templos e pi­
vidido em Antigo, Médio e Novo Império. dência final da civilização egípcia. râmides extremamente sofisticadas. 181

- HEBREUS, FENÍCIOS E PERSAS FORMARAM OUTRAS IMPORTANTES CIVILIZAÇÕES NA ANTIGUIDADE


Além dos egípcios e mesopotâmicos, três foram dominados pelos macedônicos e pelos ro· Na Pérsia (atual Irã) surgiu um dos maiores impé·
outros povos tiveram destaque na Antiguida· manos, que os expulsaram da região por volta de rios da antiguidade. Ciro I foi responsável pelo início
de Oriental: os hebreus, os fenícios e o persas. 70 a.C., dando início à dispersão hebraica (Diáspora). da expansão no século VI a.C. Cambises conquistou
Os hebreus fixaram-se na região da Pa­ Os hebreus criaram a primeira religião monoteísta o Egito, e Dario I levou o império à sua extensão má·
lestina por volta de 2000 a.C., mas, devido da história ijudaísmo), base de duas das maiores xima. Os persas conquistaram, além do Egito, a Me·
a uma seca prolongada, migraram para o religiões posteriores, o cristianismo e o islamismo. sopotâmia, a Palestina, a Fenícia, a Ásia Menor (Tu r·
Egito, por volta do século XVII a.C., onde A Fenícia (atual Líbano), constitui uma civilização quia) e a lndia. Sob o comando de Xerxes, Dario 11
foram escravizados. A fuga do Egito de diferenciada na Antiguidade Oriental, já que tinha e Dario 111, o império declinou até ser conquistado
volta à Palestina (Êxodo) foi comandada o comércio e as trocas como bases de sua economia por Alexandre, o Grande, no século IV a.C. A religião
por Moisés, que, durante o retorno, teria e se organizava politicamente em cidades-Estados, persa, o zoroastrismo, defendia que os homens que
recebido de Deus os Dez Mandamentos. De enquanto os outros povos, em geral, dedicavam·se praticassem boas ações deveriam ser recompensa·
volta à Palestina, foram constantemente in· à agricultura e possuíam governos centralizados. dos futuramente. Acreditavam no dualismo, a eter·
vadidos, tendo, inclusive, sido escravizados Entre as principais contribuições dos fenícios está na disputa entre o bem e o mal, e no livre·arbítrio,
na Mesopotâmia (Cativeiro da Babilônia). o desenvolvimento de uma escrita alfabética, base pelo qual o homem escolhe o caminho a seguir,
Após retornarem, libertados pelos persas, para grande parte dos alfabetos modernos. tendo consciência das consequências de seus atos.

GE HISTORIA 2016 1 21
M U N D O I A NT I G U I DA D E
CHINA
I
Um gigante
no Oriente
Centralizado pol iticamente
e u nido culturalmente/
o I m pério Chinês foi uma das
grandes potências m u n diais

O
Império Chinês foi uma das civili­
zações mais avançadas do mundo.
Os registros da mais antiga linha di­ SOLDADOS IMPERIAIS O Exército de Terracota adornava o mausoléu do imperador Qin Shi Huang
nástica chinesa, a dinastia Shang, datam de
1600 a.C., mas a unidade do império conso­
lidou-se apenas por volta do século I I I a.C.
to do império, destaca-se o sistema de exa­ vigorado o país, a China não conseguiria
O PRIMEIRO IMPERADOR mes para selecionar os membros da buro­ mais acompanhar o crescimento das po­
O primeiro imperador da China, Shi cracia do império. Esse sistema aumentou tências do Ocidente. No século XIX, após
Huangdi, da dinastia Chin (221 a.C. a a eficiência e o controle do imperador sobre várias invasões, a nação era controlada no
210 a.C.), foi o responsável por centrali­ a burocracia e levou a China a uma espécie norte pelos alemães, no centro pelos britâ­
zar e fundar as bases do poderoso impé­ de Idade do Ouro entre os séculos X e XIII. nicos e no sudoeste pelos franceses.
rio. Entre suas principais realizações, des­ Além disso, os relatos de Marco Polo, en­ Somente depois das duas guerras mun­
tacam-se a unificação do país por meio de tre os séculos XII I e XIV, davam conta de diais e de décadas de guerra civil é que a
uma divisão administrativa do império que os chineses haviam criado a bússola China voltaria a encontrar um eixo unifi­
com representantes locais da autoridade magnética, livros impressos, técnicas navais cador pelas mãos do líder comunista Mao
central; a padronização da escrita, de pe­ sofisticadas, explosivos e uma indústria me­ Tsé-tung, que proclamou, em 1949, a Repú­
sos e medidas e de moedas; e a construção talúrgica cuja produção no séc. XIII só se­ blica Popular da China. A pujança econô­
de estradas e canais de navegação pelos ria igualada pela I nglaterra no século XVIII. mica seria retomada com as reformas eco­
rios. Além das medidas político-adminis­ Apesar do domínio mongol sobre a China, nômicas empreendidas por Deng Xiaoping,
trativas, outro fator que contribuiu para a entre os séculos XIII e XIV, com a retoma­ sucessor de Mao, após o fim da Revolução
coesão do império foi o confucionismo. da do poder pela dinastia Ming a partir de Cultural Chinesa (veja mais na pág. 78). 0
1363, a China parecia reunir condições, que
HIERARQUIA DIVINA nenhum outro império tinha, de expandir
Na base do código confucionista está o
respeito a uma hierarquia cósmica em que
cada pessoa tem seu lugar, devendo venerar
suas fronteiras e poder.

A ÚLTIMA DINASTIA
�� A HISTÓRIA HOJE ---­
quem lhe é superior e cuidar de quem lhe Historiadores estimam que, no início do A CHINA É O MOTOR DA
é inferior. Se todos cumprirem seu papel - século XV, durante o período Ming, a China ECONOMIA GLOBAL
os filhos obedecendo aos pais, os súditos, era a maior potência naval do mundo, bem Desde 2010, quando o Produto Interno Bruto {PIB)
aos imperadores etc. -, a ordem social esta­ superior à famosa Armada espanhola. Entre da China ultrapassou o do Japão, a nação tornou·
rá garantida. Para o imperador, o confucio­ 1405 e 1433, os chineses empreenderam se­ se a segunda maior economia do planeta, atrás
nismo assegurava a legitimidade de seu go­ te expedições de longa distância, do Sudeste apenas da dos Estados Unidos. A atual ascensão
verno, baseado na ideia de mandato divino. Asiático ao golfo Pérsico, chegando à costa econômica do país, iniciada no fim dos anos 1970,
oriental da Á frica décadas antes de os por­ pode ser considerada uma retomada de sua con·
VANGUARDA MUNDIAL tugueses se aventurarem por lá. dição de potência global, que desfrutava entre os
Durante a dinastia Han, vários comer­ Entretanto, menos de um século depois séculos XIII e XV. Tornou-se o principal centro ma·
ciantes enriqueceram com a exporta­ dessas expedições, os chineses perderam a nufatureiro e exportador do mundo, a maior de·
ção de artigos chineses. O percurso des­ dianteira naval para os europeus. Uma das tentora de reservas em dólares e mostra-se um in·
ses produtos até a Europa seria conhecida explicações para isso teria sido a necessi­ vestidor diversificado e agressivo, como no pré-sal
mais tarde como a Rota da Seda, primeiro dade de concentrar esforços militares nas do Brasil, nos minérios da Atrica e nos vinhedos de
elo comercial entre a China e o Ocidente. fronteiras do norte, ainda sob ameaça de Bordeaux, na França. Mesmo em desaceleração, a
Entre as inovações nascidas na China que invasão pelos mongóis. Mesmo depois de economia chinesa cresceu 7,4°/o em 2014, número
foram fundamentais para o desenvolvimen- a dinastia Qing, iniciada em 1644, ter re- muito acima da média mundial.

22 1 GE HISTORIA 1016
MUNDO I ANTIGUIDADE
CIVI LIZAÇÕ E S P R É - C O LO M BIANAS

Impérios do
Novo Mundo
Os incas} os maias e os astecas organizaram Estados teocráticos}
semelhantes aos das primeiras civilizações do Oriente
No auge da expansão

O
s incas, os maias e os astecas foram ci­ confiáveis acerca do tamanho do império,
I ncas (XVI)
vilizações que dominaram boa parte existem atualmente cerca de 4 milhões de
• Maias (IX)
das Américas antes da chegada dos eu­ descendentes de maias, o que dá uma ideia
11 Astecas (XVI)
ropeus ao continente, sucedendo os olmecas, da grandiosidade da sua população.
que se instalaram na região em 1200 a.C. Sua PRINCIPAIS REALIZAÇÕ ES Os maias já enten­
forma de organização era muito semelhante diam o conceito do número zero - que só
à das primeiras civilizações do Oriente, ape­ posteriormente seria bem compreendido tato com os espanhóis, em 1519. Em apenas
sar da grande distância entre elas no tempo e pelos europeus. Também se cercaram de dois anos, os invasores do Velho Mundo do­
no espaço. Possuíam um Estado centralizado obras arquitetônicas tão grandiosas quan­ minaram o mais importante centro asteca:
teocrático, conheciam a escrita, a sociedade to as egípcias e as romanas. A cidade de Tenochtitlán, a atual Cidade do México, que
era rigidamente hierarquizada, a proprieda­ Teotihuacán, com um complexo de 600 tinha mais de 140 mil habitantes e foi a maior
de da terra era estatal e exploravam os cam­ pirâmides, embora tenha sido construída cidade das antigas civilizações da América.
poneses por meio do trabalho coercivo. por uma civilização anterior, foi ocupada PRINCIPAIS REALIZAÇÕES Tinham um calen­
pelos maias. Em Tikal, havia um templo dário com cálculo preciso do ano solar (com
MAIAS com 70 metros de altura, o maior edifício 365 dias). O planejamento urbano era im­
A civilização maia foi a primeira a se con­ erguido na América antiga. pecável. Suas obras públicas incluíam qui­
solidar como império, atingindo o auge no lômetros de estradas e aquedutos. A capital
fim do século IX - época em que o territó­ ASTECAS Tenochtitlán foi erguida em área pantano­
rio maia se estendia do sul do México à Gua­ Já os astecas estavam no auge nesse perío­ sa, cuidadosamente drenada e aterrada para
temala. Arqueólogos especulam que guerras do. A civilização deles surgiu mais ao norte comportar cerca de 100 pirâmides e torres.
ou o esgotamento das terras cultiváveis le­ do México. Enquanto seus "vizinhos" maias
varam a civilização a um rápido declínio a entravam em decadência, os astecas come­ INCAS
partir do ano 900. No início do século XVI, çaram a crescer por volta do século XII. Na América do Sul, os incas viveriam uma
quando os espanhóis desbravaram a Amé­ Formando alianças com Estados vizinhos, história semelhante. Até o século XIV, eram só
rica, os maias encontrados eram simples montaram um grande império que ainda es­ mais uma tribo indígena espalhada pela cordi­
agricultores. Apesar de não haver números tava se expandindo quando ocorreu o con- lheira dos Andes. Mas, a partir do século XV,
expandiram-se ao atacar vilas vizinhas, cons­
truindo um império com 12 milhões de pes­
soas. Quando os espanhóis chegaram, os in­
cas já dominavam grande área do norte do
Equador à região central do Chile. Cuzco, a
capital do império, e Machu Picchu eram as
principais cidades. Epidemias e lutas pela su­
cessão imperial deixaram a civilização enfra­
quecida para enfrentar os conquistadores eu­
ropeus. Assim como fizeram com os astecas,
os espanhóis derrotaram rapidamente o im­
pério inca, entre 1532 e 1535.
PRINCIPAIS REALIZAÇÕES Possuíam conheci­
mentos astronômicos avançados e eram ca­
pazes de aplicar conceitos de matemática e
geometria em suas edificações.
Construíram um incrível complexo de es­
tradas ligando todo o império. O sistema ti­
nha duas vias principais no sentido norte-sul:
uma, com cerca de 3,6 mil km, corria ao lon­
go da costa do Pacífico e a outra, com quase a
RUÍNAS NOS ANDES Machu Picchu foi uma das mais importantes cidades da civilização inca mesma extensão, seguia pelos Andes. 181

[1] GlllES BASSIGNAC/GAMMkRAPHO VIA GETTY IMAGES [2] DIVU LGAÇÃO GE HISTÓRIA2016I 23
I M U N D O I A N TI G U I DA D E
GRÉCIA

sociais que foram equacionados por meio


de processo de colonização, que consistiu
num movimento migratório que visava à
construção de cidades gregas na Á sia Me­
nor, norte da Á frica e sul da Itália (Magna
Grécia), também conhecido como segunda
diáspora grega.
Entre as principais cidades gregas que sur­
giram na Grécia continental no início do perío­
do arcaico, destacam-se Atenas e Esparta.
ATENAS Do ponto de vista econômico, a
principal atividade era a agricultura. De­
vido à escassez de terras férteis na região, a
população logo passou a se dedicar também
ao comércio marítimo e à pesca.
A sociedade era composta basicamente
de cinco classes: eupátridas (famílias mais
tradicionais e proprietários das terras mais
férteis), georgóis (pequenos proprietários),
thetas (homens livres pobres), demiurgos
(comerciantes) e escravos (que predomina­
ram apenas no período clássico).
Em relação à política, a principal carac­
terística da cidade-Estado grega é que ela
se auto governava. Em Atenas, a monarquia
foi extinta logo no início do período arcai­
co, e o governo passou a ser exercido pela
ESCOLA DE ATENAS Esta pintura mostra filósofos gregos, entre eles Platão e Aristóteles, ao centro aristocracia, por meio do Areópago, um ti­
po de conselho que reunia os representan­
tes da aristocracia.
A desigualdade social marcou a história

Os pais do Ocidente de Atenas, com constantes revoltas e insta­


bilidade política. Para tentar resolver as su­
cessivas crises, alguns legisladores impuse­
ram reformas. O primeiro foi Drácon, que,
em 621 a.C., redigiu as leis - até então orais -,
Os gregos deram origem à cultura ocidental ao inventar a dificultando sua manipulação pelos eupá­
tridas. A rigidez do código inspirou o adje­
cidadania, a democracia, a filosofia, a geometria e o teatro tivo draconiano.
As reivindicações populares não cessa­
PERÍODO HOMÉRICO !SK XII SÉC. VIII a.C.l

A
civilização grega, na qual foram esta­ - ram, e, em 594 a.C., outro legislador entrou
belecidas as bases da política e da cul­ Recebe esta denominação porque as prin­ em ação: Sólon. Ele aboliu a escravidão por
tura ocidentais, começou a se formar cipais fontes que temos desse período são dívidas, libertcu os devedores da prisão e de­
em torno de 2000 a.C., na península Balcâ­ os poemas épicos Ilíada e Odisseia, atribuí­ terminou a devolução de terras confiscadas
nica, e entrou em declínio no século li a.C., dos a Homero. Nessa época, a sociedade pelos credores eupátridas.
quando o território foi ocupado pelos roma­ se organizava em comunidades familiares Apesar das reformas, os conflitos sociais
nos. A história da Grécia antiga é dividida (genos) lideradas por um "pater", que rei­ se mantiveram, dando origem a uma guer­
em cinco períodos: pré-homérico, homéri­ nava sobre a família, dependentes, escra­ ra civil. Aproveitando-se da situação de cri­
co, arcaico, clássico e helenístico. vos e bens. No início do séc. VIII a.C., es­ se, em 560 a.C., o eupátrida Psístrato tomou
sas comunidades familiares passaram por o poder, instaurando um novo tipo de gover­
PERÍODO PRÉ-HOMÉRICO processo de fusão (cinesismo), originando no, a tirania (diferentemente de hoje, o ter­
(SEC. XX SÉC. XII a.C.)
- a pólis (cidade). mo não indicava um governo opressor, mas,
Os mais antigos resquícios da ocupação sim, tomado ilegalmente).
humana ao sul da península Balcânica da­ PERÍODO ARCAICO !SK V III - sK VI a.C.l Em 507 a.C., Atenas foi varrida por uma re­
tam de 2000 a.C. A região foi ocupada, suces­ O que demarca o começo do período ar­ volta popular liderada pelo aristocrata Clís­
sivamente, pelos aqueus, jônios e eólios. Até caico é o surgimento da pólis. Do ponto de tenes. Conhecido como "pai da democracia",
o séc. XII a.C., floresceu na região uma civi­ vista político, o regime era aristocrático, ele dividiu a cidade em dez tribos, fortaleceu
lização semelhante às do Oriente, cujo cen­ governado pelas famílias mais tradicio­ a Eclésia, aumentou o número de membros
tro era Micenas, situada na ilha de C reta. A nais, que se apossaram das melhores ter­ da Bulé e criou o ostracismo, que era a sus­
chegada dos dórios, povo guerreiro vindo do ras. o descompasso entre o crescimento pensão dos direitos políticos e o exílio de ci­
norte, destruiu a civilização micênica e deu da população e a disponibilidade de áreas dadãos que ameaçassem a democracia. Com
início à primeira diáspora grega. férteis deu origem a uma série de conflitos essas mudanças, todos os cidadãos de Atenas

24 1 GE HISTÚRIA 2016
-
sia. A luta pela supremacia marítima e co­ tano foi breve. Em 371 a.C., a cidade foi derro­
QUEM É QUEM NA mercial entre gregos e persas (ou medos), co­ tada por Tebas, na Batalha de Leutras.
CULTURA GREGA nhecida como Guerras Médicas, teve como As constantes lutas arrasaram as cidades
estopim o levante das cidades gregas da Á sia e desorganizaram o mundo grego. Empo­
A Grécia antiga nos deixou uma imensa Menor, em 499 a.C., contra a política expan­ brecidas e fracas, as pólis foram presas fá­
herança cultural. Veja quem são alguns dos sionista do imperador Dario, da Pérsia. ceis para o grandioso Exército de Felipe I I ,
principais protagonistas desse legado . Nesse primeiro confronto, os gregos con­ rei da Macedônia (região norte da Grécia
Sócrates: Filósofo. Desenvolveu a maiêutica, seguiram vencer a expedição de 50 mil per­ Continental). E m 338 a.C., teve fim a auto­
método de perguntas e respostas para a sas enviada à planície de Maratona. Mas os nomia das pólis gregas.
busca da verdade. inimigos não desistiram e, em 486 a.C., vol­ O filho e sucessor de Felipe, Alexandre, o
Platão: Discípulo de Sócrates, afirmou taram a atacar as pólis, que se uniram para Grande, foi ainda mais longe: conquistou o
que as ideias são o próprio objeto do vencê-los novamente nas batalhas de Sala­ Império Persa e dominou vastos territórios,
conhecimento intelectual. mina e Plateia. Sabendo que os persas pode­ do Egito até a Í ndia. Com ele, houve grande
Aristóteles: Criador da lógica, defendeu a riam voltar a atacar, várias cidades se reu­ aceleração do comércio, da urbanização e da
existência do real independentemente das niram e, lideradas por Atenas, formaram a mesclagem de valores gregos com os dos po­
ideias, contrariando seu mestre, Platão. Confederação de Delos. vos conquistados. Essa mistura deu origem
Pitágoras: Filósofo e matemático. Criou o Responsável pela administração financei­ à cultura helenística.
teorema que leva seu nome. ra da confederação, Atenas usou os recur­ Em 323 a.C., com a morte de Alexandre,
Hipócrates: Considerado o pai da medicina. sos em benefício próprio, impulsionando seus generais dividiram o império. No sé­
Euclides: Matemático. É tido como o sua indústria e seu comércio. Logo se tor­ culo II a.C., a Grécia e a Macedônia foram
fundador da geometria nou a cidade mais poderosa da Grécia, com convertidas em províncias da nova potên­
Homero: Poeta, a quem são atribuídas elevado desenvolvimento cultural e eco­ cia mundial: a civilização romana. 181
1/íada e Odisseia. nômico. O apogeu dessa fase ocorreu entre
Sófocles: Dramatu rgo. Autor das tragédias 461 e 431 a.C., quando a pólis foi governada
Édipo Rei e Antígona. por Péricles. Durante o século V (chamado
de século de Péricles), ele fez reformas para
diminuir o desemprego e realizou obras pú­
- A HISTÓRIA HOJE ---­

podiam participar diretamente do governo. blicas. Nessa época também surgiram gran­ SOBERANIA GREGA EM XEQUE
Esse tipo de sistema ficou conhecido como des artistas, filósofos e dramaturgos. Eram Considerada o berço da democracia, a Grécia tem
democracia (governo do povo). os "anos de ouro" de Atenas. sua soberania posta em xeque com o agravamento
ESPARTA Localizada no Peloponeso e fun­ Todo esse sucesso acirrou a rivalidade da situação econômica, que afeta o país desde 2008.
dada pelos dórios no século IX a.C., Esparta entre as cidades e fez com que Esparta li­ Para receber os empréstimos do Fundo Monetário
chamava atenção pelo caráter militar de sua derasse a Liga do Peloponeso, que em­ Internacional (FMI) e do Banco Central Europeu
sociedade. Até seu desaparecimento, no sécu­ preendeu, em 431 a.C., uma guerra contra (BCE), a Grécia aceita ser monitorada pelas duas insti·
lo IV a.C., a cidade manteve a estrutura social a Confederação de Delos, a Guerra do Pe­ tuições, que passam a decidir os rumos da economia
estratificada (sem mobilidade) e o regime oli­ loponeso. Com a vitória espartana e a de­ do país. Elas impõem duras condições para ajustar
gárquico. Os espartanos, descendentes dos vastação de muitas cidades, começou o úl­ as contas públicas, como demissões, aumento de im·
dórios, eram os únicos a possuir direitos po­ timo período da história da Grécia antiga. postos e cortes de benefícios. Contrariada com as me·
líticos e monopolizavam o poder; os perie­ didas de austeridade, que tem levado o desemprego
cos habitavam a periferia e dedicavam-se ao PERÍODO HELENÍSTICO !SÉC. IV - SÉC. II a.C.) a atingir taxas recordes, a população realiza diversas
comércio e ao artesanato; os hilotas, escra­ Após anos de guerras, acabou a hegemonia manifestações e greves. Canalizando esse sentímen·
vos de propriedade do Estado, cultivavam as ateniense e teve início a de Esparta, que im­ to de insatisfação geral, o partido Syriza (Coalizão
terras dos espartanos. pôs governos oligárquicos em todas as pólis de Esquerda Radical) vence as eleições de janeiro de
Quem detinha o poder político de fato da Confederação de Delos. Mas o auge espar- 2015 e promete rever as medidas de austeridade.
na cidade era o eforato, formado por cin­
co magistrados eleitos anualmente. Os de­
mais órgãos administrativos eram a diar­ MUNDO GREGO
quia, composta de dois reis hereditários Veja como era o território da Grécia e por onde se estendiam suas colônias no século VI a.C.
que exerciam funções executivas e mili­
tares; a gerúsia, constituída de 2 8 mem­
bros vitalícios que apresentavam projetos t
de leis; e a ápela, ou assembleia popular, "\
formada por todos os espartanos com mais >{.-��·-- •.:----&://
-._
Trebizonda
de 30 anos, com funções consultivas.

PERÍODO CLASSICO ISÉC. VI - SÉC. IV a.C.I


Durante essa fase, a Grécia antiga atingiu Cartag�:J
o apogeu e, por fim, acabou destruída por
AFRICA Mar Mediterrâneo
guerras. Atenas, com seu nvvo sistema de­ FENICIA
• Grécia antiga
mocrático, desenvolveu-se e expandiu-se
Colon ização grega
pelo mar Egeu. Sua política hegemônica, no
entanto, esbarrou em outra potência: a Pé r- Fonte: Alfredo Boulos JUnior, História: Sociedade & Cidadania· s• série, 1 ed., FTD, págs. ll4, 120

jl] PALACIO DO VATICANO/ROMA GE HISTQRIA 2016 I 2S


M U N DO I A NTIGUIDADE
ROMA

Donos
do mundo
Nenhuma civilização foi tão
poderosa, por tanto tempo,
quanto a romana. Veja
como se formou - e por que
desmoronou - o último império
da Antiguidade

.. CENTRO DO PODER O Senado romano deu origem aos Parlamentos que existem hoje

PERÍODO REPUBLICANO 1509-27 a.C.I

F
undada n o século VIII a.C., Roma de­ nado; a Lei das Doze Tábuas (450 a.C.), que
senvolveu um vasto império, cujas Entre as principais instituições do regime compilou o primeiro código de leis escritas
leis, monumentos, táticas militares e republicano destacam-se a Assembleia Cen­ de Roma; a Lei Canuleia, que autorizou o ca­
instituições influenciaram todo o mundo turiata, as Magistraturas (espécie de Mi­ samento com patrícios; e a Lei Poetélia Papí­
ocidental. Sua queda, em 476, marcou o fim nistério) e o Senado. Cabia à Assembleia de­ ria, proibindo a escravidão por dívidas.
da Antiguidade e o início da Idade Média. cidir sobre declarações de guerra e votar leis. EXPANSÃO REPUBLICANA Com a intensifica­
A mítica versão para o surgimento da ci­ As funções executivas e jurídicas eram exer­ ção das lutas entre os plebeus e os patrícios,
dade de Roma, narrada pelo historiador Ti­ cidas pelos magistrados. A principal magis­ o Senado tomou a iniciativa de patrocinar
to Lívio e pelo poeta Virgílio na obra Enei­ tratura era o Consulado, composto de dois inúmeras guerras de expansão. Os plebeus
da, conta que a cidade foi fundada em 753 cônsules responsáveis pela política interna e foram integrados às legiões e, depois de con­
a.C. pelos gêmeos Rômulo e Remo. De acor­ externa. Os edis eram responsáveis pela or­ quistarem praticamente toda a península
do com a lenda, os dois irmãos foram aban­ ganização da cidade; os pretores, pela justi­ Itálica, iniciaram a conquista do Mediter­
donados ainda bebês no rio Tibre e só con­ ça; e os questores administravam as finan­ râneo. A disputa pelo controle dessa região
seguiram sobreviver graças a uma loba que ças. Cabia ao Senado elaborar os projetos de deu origem às guerras contra Cartago (cida­
os amamentou. A história romana é dividida lei e escolher os magistrados. Só os patrícios de fundada pelos fenícios no norte da Á fri­
pelos estudiosos em três grandes períodos: o podiam ser senadores ou magistrados. Des­ ca), as Guerras Púnicas. Elas resultaram
monárquico, o republicano e o império. sa forma, eles controlavam a república. na derrota de Cartago e na transformação
CONQUISTAS DOS PLEBEUS Foram necessá­ do Mediterrâneo no Mare Nostrum (Nosso
PERÍODO MONARQUICO 1753-509 a.C.I rias várias mobilizações para que os plebeus Mar ou Mar Romano).
Nessa época, a sociedade romana esta­ conseguissem interferir na vida política da CRESCIMENTO E CRISE Com as conquistas do
va dividida, basicamente, em três cama­ cidade. Entre as principais conquistas dos período republicano, os patrícios compra­
das: os patrícios, ricos proprietários de plebeus estão a criação do cargo de tribu­ ram as terras dos plebeus, que se tornavam
terra; os clientes, parentes pobres ou ser­ no da plebe, que tinha poder de veto no Se- soldados, e formaram grandes proprieda-
viçais desses proprietários; e os plebeus,
homens livres sem direitos políticos. A
economia era baseada em atividades agro­
pastoris. O rei, eleito por uma assembleia -
a Comicia Curiata , tinha seu poder con­
-
11 A HISTÓRIA HOJE

trolado pelo Senado (ou Conselho dos ESTADOS UNIDOS, A NOVA ROMA
Anciãos), composto apenas de patrícios. Du­ Apesar da crise econômica enfrentada pelos Estados Unidos atualmente, o país ain·
rante esse período, Roma foi invadida pelos da é a maior potência econômica e militar do planeta, o que remete ao exercício de um
etruscos, que a conquistaram e realizaram poder de feições imperiais. A consolidação da hegemonia dos EUA, que se iniciou com
grandes melhorias na estrutura urbana. O a queda do Muro de Berlim e o fim da U RSS, é denominada, por muitos especialistas,
último rei etrusco, Tarquinio, o Soberbo, de Pax norte-americana. A expressão, que também já foi utilizada para definir o tipo
tentou se aproximar da plebe. Sentindo-se de supremacia que a Inglaterra exerceu sobre o mundo no século XIX (Pax britânica),
ameaçados, os patrícios o derrubaram, as­ tem sua origem num padrão de exercício de poder territorial criado por Augusto no
sumiram o poder e implantaram a repúbli­ início do Império Romano. De acordo com esse conceito, a paz é imposta em virtude da
ca em 509 a.C . imensa desproporção de poder militar entre a potência hegemônica e seus inimigos.

26 1 GE HISTORIA 2016
Os sucessores de Otávio retomaram as
Conquistas
guerras de conquista, e Roma se transfor­
• 1' metade do século IV a.C.
• 2' metade do século IV a.C. mou num centro de comércio intenso. No
8 Século 111 a.C. início do séc. II, as fronteiras do Império
• Até 44 a.C. (morte de César) atingiram sua maior extensão. Essa época,
Até o fim do século 11 conhecida como Idade de Ouro, teve co­
(máxima expansão) mo principais governantes Trajano, Adria­
Oceano -+ I nvasões bárbaras
Atlantico
no, Antônio Pio e Marco Aurélio. Entretan­
to, com o fim das guerras, Roma começou. a
mostrar sinais de crise.
l-1""�
LYSITANIA
BAIXO IMPtRIO A principal causa da deca­
dência do Império Romano foi a crise do
HISPANIA sistema escravista. O fim das guerras di­
.{.�- minuiu a oferta de escravos, elevando o seu
valor. Como eram a base da economia ro­
mana, todos os preços começaram a subir.
Algumas reformas foram tentadas. Dio­
BABILONIA /( "·
...
cleciano, em 284, implantou o colonato (ar­
Mar Mediterrâneo
! , · ,j,·........
. .. rendamento de terra por colonos), visando
TRIPOLITANIA • , -Aie�Qdr1a•·"-
:) CIRENAICA ARÁBIA a substituir os escravos. Constantino, em
, EGITO \:-,
., )
Império Romano do Ocidente ; Império Romano do Oriente \ \.; 313, buscou o apoio dos cristãos - até então
Fonte: José Arruda e Nelson Pifetti, Toda a História, 3 edv Atica, págs. VIII, IX, X , perseguidos -, legalizando a religião e con­
vertendo-se a ela. Em 330, mudou a capi­
tal para Constantinopla - atual Istambul.
des nas quais trabalhavam os escravos cap­ romanas. Hábil, ele procurou entender-se Teodósio, em 395, dividiu o império em duas
turados nas guerras. Os mercadores pros­ com o Senado. À medida que os senadores partes: Império do Ocidente, com a capi­
peraram, e os plebeus, em tempos de paz, se convenciam de que ele não representava tal em Roma, e Império do Oriente, com
não tinham como ganhar a vida, tornando­ uma ameaça aos seus interesses, concede­ centro em Constantinopla.
-se uma massa de desempregados perigosa e ram-lhe poderes que haviam negado a Jú­ Porém, com a intensificação das invasões
instáveL Para evitar revoltas da plebe, entre lio Cesar, tais como os títulos de Príncipe dos bárbaros (estrangeiros), que atacavam
133 e 27 a.C., foram adotadas medidas como do Senado e de "Augusto" (líder supremo as fronteiras romanas desde o século I I I ,
a política do pão e circo, ou seja, passou-se da religião com ascendência divina). A con­ Roma não resistiu, e caiu em 476. E r a o fi m
a distribuir trigo aos famintos e a promover centração desses poderes inaugurou uma d o Império Romano d o Ocidente. O Impé­
espetáculos de gladiadores gratuitos para nova etapa da evolução política de Roma, rio do Oriente, também conhecido como
concentrar a atenção da população. Ao de­ conhecida como Império Romano. Império Bizantino, duraria até 1453, quan­
nunciar que essas medidas eram paliativas, do foi dominado pelos turco-otomanos.
dois irmãos eleitos tribunos da plebe, Tibé­ IMPÉRIO 127 a.C.-476 d.C.l Com a queda de Roma, ninguém se sentia
rio e Caio Graco, propuseram uma reforma Esse período costuma ser dividido em duas seguro nas cidades. Começou um processo
agrária, para garantir meios de vida a quem partes: o Alto Império - época de prosperi­ de desurbanização e regressão do comércio.
não tinha trabalho. A medida, é claro, não dade - e o Baixo Império - tempo de crise. Do ponto de vista político, a grande trans­
agradou aos patrícios. Tibério e Caio foram ALTO IMPtRIO Otávio Augusto governou formação é que o poder político centraliza­
mortos, e a tentativa de reforma fracassou. por 41 anos. No início do império, ampliou do, que vigorava no período do I mpério, deu
GUERRAS CIVIS A crise social e a crescen­ os territórios e permitiu que mercadores lugar a uma multiplicidade de reinos bárba­
te importância do Exército romano leva­ ricos tivessem acesso ao Senado. Depois ros, fragmentando a autoridade no Ociden­
ram os generais a ambicionar o exercício de conter a expansão territorial, iniciou-se te. A única esfera de poder centralizado que
direto do poder. Isso originou uma série um período prolongado de paz conhecido sobreviveu foi a Igreja (veja mais no capítulo
de guerras civis entre os chefes militares como Pax Romana. Idade Média, a partir da pág. 30). l8J
e disputas de poder entre eles e o Senado.
Para tentar equacionar os conflitos, foram
organizados os triunviratos. Eles consis­
tiam, basicamente, em um acordo, patroci­
nado pelo Senado, para dividir o poder en­ - CULTURA E LEGADO
tre os chefes militares mais importantes. Os romanos nos deixaram uma rica herança em diversas áreas. Aarquitetura, empre·
O Primeiro Triunvirato foi formado ini­ gada para exaltar as glórias da nação, era a mais desenvolvida das artes, com destaque
cialmente pelos generais Pompeu e Júlio para a construção de aquedutos, estradas e pontes e edifícios de grande valor artístico,
César e pelo banqueiro Crasso. Ao tentar como o Coliseu e o Panteão de Roma. Ao lado do idioma - o latim, que é a base de diver·
concentrar os poderes, Júlio César foi as­ sas línguas, como o português -, o direito é o maior legado romano, base do atual siste·
sassinado pelos senadores. ma jurídico ocidental. Na literatura, merece menção o poeta Virgílio, autor de Eneida.
O Segundo Triunvirato, constituído Por fim, em relação à religião, a pregação de Jesus Cristo, nascido no Império Romano,
por Otávio, Marco Antôni0 e Lépido, tam­ deu origem ao cristianismo, cujos fiéis eram inicialmente perseguidos. Com a conversão
bém fracassou e culminou com a ascensão de Constantino, em 313, a religião cristã ganhou força e, com Teodósio, foi oficializada
de Otávio ao comando de todas as legiões como religião do Império, o que permitiu o surgimento da poderosa Igreja Católica.

[1[ SENATO OELLA REPUBBLICA/IALA MACCARI/ITALIA GE HISTORIA 2016 1 27


M U N D O I A N TI G U I D A D E
E X E RC Í C I O S E R E S U M O

� COMO CAl NA PROVA


(FUVEST 2013) Q u a n d o Bernal D íaz avistou pela p r i m e i ra c) d e m ocracia e a escravi d ão eram consid eradas i nc o m p atíveis,
vez a capital asteca, ficou sem palavras. A n o s mais tarde, pois apenas com l i berdade geral e i rrestrita é que se pode cons·
as palavras viriam: ele escreveu um a l e ntado relato de su· t r u i r u m a d e m ocracia.
as experiências c o m o mem bro d a exped ição espan hola l i d erada d) escravidão permitia que todos os c idadãos p u d essem d e d icar-se
p o r H ernán Cortês rumo ao I m pério Asteca. Naquela tarde de no· apenas ao ó c i o, sem atuar na vida col etiva d a c i d a d e .
vem bro de 1519, poré m, quando D íaz e seus c o m p a n h e i ros d e c o n · e ) d e m o c racia pred o m i n o u, u ma v e z q u e t o d o s e r a m c o n s i d erados
q u ista e m e rg i ram d o desfi l a d e i ro e d e pararam-se pela p r i m e i ra iguais e l ivres por natu reza.
vez com o Vale do M é x i co lá e m baixo, v i ram u m cenário q u e, anos
d e p ois, assim d e s c reveram:"vi s l u m b ramos taman has marav i l has
q u e não sabíamos o q u e d izer, n e m se o q u e se nos apresentava � RESOLUÇÃO
d iante dos o l h o s era real". C o n t r a í d os pr i m e i ram e n te por e n d i v i d a m e n t o e d e p o i s c o m o
RESTALL, Matthew. Sete m i tos d a c o n q u ista e s p a n h o l a. Rio de }anei· p r i s i o n e i r o s de g u e rra, os escravos f o ram o p ri n c ipa l m o t o r d a
ro. Civilização Brasileira, 2006, p 15-16 Adaptado. b
e c o n o m ia da G récia Anti ga . O t ra a l h o escravo estava presente
e m p rat i c am e n te t o d as as atividades eco n ô m i cas, sendo c o m u m
O texto m ostra um aspecto i m portante d a c o n q u ista d a América s u a u t i l i za ç ão pelos c i d adãos ate n i e n ses. C o m o t i n h am t e m p o
pelos espan h ó i s, a saber, l ivre, g e n e r i c a m e n t e c o l ocado a q u i c o m o ó c i o, esses c i dadãos
a) a s u p e r i o r i d ad e c u l t u ral dos nativos americanos em relação aos podiam s e d e d icar à d e m ocrac i a e aos a s s u n to s da pólis ( po l t i ca), í
e u ro p e u s . have n d o, portanto, u m a c o e x i s t ê n c i a e n tre d e m o c racia e
b) o caráter am istoso d o p r i m e i ro e nc o ntro e d a poste r i o r convi· e s c ravidão, tornando as a l t e rn ativas C e D falsas. Logo, não
vência entre c o n q u istad ores e c o n q u istados. havia i n c o m p at i b i l i d ad e entre d e m ocracia e escravidão. Vale dizer
c) a s u r p resa d o s c o n q u istadores d iante de man ifestações cultu· que para s e r cidadão era preciso ser h o m e m, maior de 18 anos,
r ais d o s nativos americanos. fi l h o de pai e mãe ate n i e n ses, ter realizado o ser vi ç o m i litar e ser
d) o rec o n h e c i m e nto, pelos nativos, d a i m p o rtância dos co ntatos l ivre. Exc l u íam-se, d e modo geral, m u l h e res, esc ra•Jos e m etecos
c u l t u rais e c o m e rciais com os e u ro p e u s . (estra n g e i ros). Logo, ser m o ra d o r n ã o e ra s i n ô n i m o de c i d a d a n i a,
e ) a r á p i d a d esaparição das c u lturas n ativas d a Amé r i c a Espan h o l a faz e n d o das alternativas A e E falsas. Outro p o n t o f u n d a m en tal é
q u e a d e m ocrac i a foi u m a c r i ação da c i d ad e de Atenas e e x e rc i d a
d i re ta m e n te p e l o s c i d adãos. Esse s i st e m a p o l ítico n ão e r a c o m u m
� RESOLUÇÃO e m toda a G r é c i a, u m a v e z q u e a s c i dades gregas s e organ izavam
A resposta correta é a C. O s espan h ó i s, ao e n trarem e m co ntato c o m em c i d ad es-Estado ad m i n is trativam e n t e i n d e p e n d e ntes u m a d as
a cu ltura Asteca, especia l m e n te sua capital Ten o c h titlán ( h o j e c i dade o u tras, m a n te n d o ape n as u m a u n i d a d e c u l tu ra l .
d o México), ficaram m arav i l hados c o m s u a orga n ização e b e l eza. RESPOSTA: B
E l e s não p e n saram q u e e n c o ntrariam u m a "c i v i l izaçã o ", nesse novo
conti n e n te, n o s moldes que e n con traram. E m n e n h u m m o m ento
Bernal Díaz relata a s u p e ri o ridade o u reco n heci m e n to e n tre culturas, SA I BA MA I S
fala da relação a m i stosa ou n ão e n tre a m e r i ca n o s e e spa n h ó i s o u
aq u i l o q u e aconteceria m a i s tarde, a destru ição d a "civi l ização" A DEMOCRACIA E O PERIODO CLASSICO
Asteca, c o m o e l e m es m o, m e lancolica m e n te, relata em o utra Veja como era a distribuição social em Atenas em 431 a.C. (estimativa):
oportu n idade: " D i go a i n d a q u e ao ver aq u e l e espetác u l o não p u d e
c r e r q u e n o m u nd o tivesse s i d o d escoberto o u t r o país c o m parável
àquele o n d e estávamos ( ... ). Atual m e n te, a cidade toda está destru ída
e nada nela restou e m pé". (TODOROV, Tzvetan. A conquista da
América. São Pau l o : Mart i n s Fontes, 1•ed., 3•re i m p., 1993. pp.123-125)
RESPOSTA: C

(PUC·SP 2014) "Por natu reza, na m a i o r parte d o s casos, há o


q u e c o m a n d a e o q u e é comandado. o h o m e m l ivre comanda
2 o escravo (. . . ). Estabelecemos q u e o escravo é ú t i l para as
necessidades d a v i d a."
Aristóteles. Política {I V a C). Apud. Marcelo Rede. A G ré c i a A n t i ga. Metecos
São Paulo.· Saraiva, 2012, p 33
• Escravos

O texto, escrito n o século IV a.C., i n d i ca q ue, n o m u n d o grego • Cidadãos


antigo, a • Mulheres e crianças
a) dem ocracia envolvia todos os m o radores das cidades e do cam· dos cidadãos
po, sem fazer d isti nções d e raça o u c o n d i ção social.
b) escravidão era c o n s i derada natu ral e sua i nstitui ção permitiu a Fonte: 5/NCLAIR, R.K. Democracy and Participation i n Athens.
Cambridge: Cambridge University Press, 1988 1 ' ed. p. 9
partici pação dos c i d ad ãos na v i d a p o l ítica.

28 1 GE HISTORIA 2016
RESUMO
(FUVEST 2014) "César não saíra d e sua província para fazer ,.- MESOPOTAMIA E EGITO I A Mesopotâmia

3 mal algu m, mas para se d efender dos agravos d o s i n i m igos,


para restabelece r em seus poderes os tri b u n o s da plebe q u e
e o Egito eram Estados teocráticos, o u seja,
a organ ização política se l igava à rel igião. o
tinham sido, naq u e la ocasião, expu lsos da Cidade, para devolver a l i ­ governante da Mesopotâmia era chamado de
berdade a si e ao povo r o m a n o o p r i m i d o pela facção m i n oritária." patesi, considerado representante dos deuses.
Caio Júlio César. A G u e rra C i v i l . Sd.o Paulo: Estação Liberdade, Já n o Egito, os faraós eram venerados como o
1999, p. 67 próprio deus vivo. O poder estava concentrado
nesses representantes, q u e eram donos das
O texto, d o s é c u l o I a.C., retrata o cenário romano d e terras, tinham a fu nção de proteger seus habi­
a) implantação d a Monarqu ia, q u a n d o a aristocracia perseguia tantes e conduziam as atividades prod utivas.
seus oposito res e o s forçava ao ostracismo, para sufocar revo l ­
tas ol igárq u icas e p o p u l ares. ,.CHINA I Durante a d inastia C h in (221 a 21oa.(.),
b) transição d a R e p ú b l i ca ao I m p é r i o, período de refor m u lações a China foi centralizada politicamente e houve
provocadas pela expansão m e d iterrânica e pelo a u m e nto d a i n ­ a pad ron izaç:to d e escrita, pesos, medidas e
satisfação d a p l e be. moeda. Estavam, assim, montadas as bases
c) consolidação d a R e p ú b l ica, marcado pela partici pação p o l ítica de um p o d e roso i m pério. Na D i n astia Han,
de peq u e n os proprietários r u rais e pela i m p l e m entação d e am­ s u rgiu a Rota d a Seda, primeiro elo comercial
plo programa d e reforma agrária. entre a E u ropa e o Oriente. Após séculos de
d) passagem d a Mo narq u i a à R e p ú b l ica, período d e consolidação pujança, a C h i n a não consegu i u acom panhar
oligárq u ica, q u e provocou a a m p l iação do p o d e r e d a i nfl u ê n c i a o cresc i m e n to d as potências o c i d entais e,
polftica d o s m i l itares. n o s é c u l o X IX, foi d o m i n a d a p o r a l e m ães,
e) decadência d o I m p é r i o, e ntão sujeito a i nvasões estrangeiras e britân icos e franceses.
à fragmentação p o l ítica gerada p e las rebeliões p o p u l ares e pe­
la ação d o s bárbaros. ,.-CIVILIZAÇOES PR�·COLOMBIANAS I São assim
denominados os povos maias, astecas e incas,
q u e precede ram a colon ização e u ro peia na
� RESOLUÇÃO América do Sul. Eram organizados d e forma se­
A questão diz respeito à period ização d a h istória romana, d i v i d i d a melhante à das primeiras civilizações do Oriente
cronologicamente em Monarqu ia, Repúbl ica e I m pério. (estado centralizado teocrático, hierarquia rígi­
A alternativa correta é a B, pois res u m e o cenário h i stórico da d a, propriedade estatal da terra e exploração
passagem da República para o I m pério. As c o n q uistas e m p regadas d os camponeses). Esses povos d o m inavam a
na República prestigiaram os generais romanos, transformaram astronomia e aplicavam avançados conceitos
a sociedade romana em escravista, e n r i q ueceram os patrícios e geométricos e matemáticos nas edificações.
empobreceram os p l e be us. Essas m ud anças geraram u m a crise
social e institucional, pondo fi m à República. A inaugu ração do ,.. GR�CIA I A civil ização grega estabeleceu as ba­
Império d i m i n u i u as con q u istas, i m p l antand o um forte controle ses da cultura e da política ocidentais. Surgiu por
econô m ico e social, época conhecida como pax romana. volta de 2000 a.C. e perdurou até o século 1 1 a.C.
A população vivia em cidades-Estados, das quais
A alternativa A está errada. A i m plantação da Monarquia foi feita Atenas e Esparta eram as mais i m portantes.
por reis d e origem etrusca, e os Tri b unos d a Plebe foram cargos Atenas sobressaía pelo desenvolvimento cul­
políticos orgânicos da República romana, em q u e os plebeus tural e econômico, enq uanto Esparta era uma
podiam e l eger um patrício como seu representante. potência militar. Os gregos criaram a democracia
A alternativa C está errada. O texto mostra uma passagem d e crise e acabaram domi nados pelos romanos.
da história romana, cenário i mp rovável n a i m plementação da
República, pois n esse processo houve u ma aliança e ntre patrícios ,. ROMA I Um dos mais importantes impérios da
e plebeus, em q ue estes faziam parte do exército romano em troca história da h u manidade, d o m i nou q uase toda
de recompensas políticas, pr i n cipalmente a eleição dos Tri b unos da a região do mar Med iterrâneo. Deixou um rico
Plebe. Já a reforma agrária romana foi i m plementada na Repú b l i ca, legado em arq uitetura, d i reito e literatu ra e
pelos Tribunos d a P l ebe, Caio e Tibério Graco, q ue i n c l usive foram costuma ser dividido em três grandes períodos:
assassi nados por defe n d e rem tal proposta. o m o nárq u i co, o republ icano e o i m perial. O
A alternativa D é falsa. Na passagem da M onarqu i a para a Repúbl ica Senado, i nstituiç:to fundamental da pol ftica,
houve o fortalecim ento do Senado, e não dos m i l i tares - estes originou os atuais Parlamentos. Com o fim das
teriam prestígio na passagem d a Repú blica para o I m pério. g u e rras de conqu ista, o n ú mero de escravos
A alternativa E está errada. A crise evidenciada n o texto relaciona­ caiu, prejudicando a economia e a supremacia
se aos orgãos característicos d a R e p ú b l i ca. Além d isso, a crise do romanas. Em 476, foi tomada pelos bárbaros
Império é posterior ao século I, c u l m inando na q ueda d o I m pério germânicos. A queda de Roma marcou o fim da
Romano no sécu l o V. Antiguidade e o i n ício da idad e Média.
RESPOSTA: B
MUNDO,.
IDADE MÉDIA

O Islam ismo
em debate
Extremismo m uçulmano volta a se fortalecer
com o avanço do grupo Estado Islâmico e o
atentado ao jornal francês Charlie Hebdo

ful m i nante avanço da organização extrem is­

O
ta Estado Islâmico (EI) chocou o mundo em
2014 não apenas pela ágil conquista de vastas
áreas no l raque e na S íria, mas pri ncipal men­
te pelas bárbaras táticas de terror empregadas para sub­
jugar os povos conquistados. A ameaça representada pe­
la expansão do El no Oriente Médio obrigou os Estados
Un idos (EUA) a formar uma ampla coal izão i n ternacio nal
para bom bardear as bases do grupo e tentar estancar a
ofensiva j ihadista.
Em meio ao fortaleci mento do extremismo islâ m i co no
Oriente Médio, um atentado que colocou Paris em pâni­
co logo nos primei ros dias de 2015. Dois radicais islâmi­
cos i nvadiram a sede do jornal francês Charlie Hebdo, dei­
xando 12 mortos e 4 feridos. O semanário era polêm ico
por sati rizar diversas religiões em suas charges, i ncluin­
do o islã e o profeta Maomé. Os terroristas, que acabaram
mortos em uma megaoperação pol icial, eram dois irmãos
franceses de o rigem arge l i na, que foram trei nados pelo
grupo fundamentalista AI Qaeda na Península Arábica.
Diante da comoção gerada pelos dois episódios, o isla­
mismo vem sendo alvo de general izações que o colocam
como uma rel i gião i nerentemente extrem ista. É essa vi­
são que provoca o aumento da islamofobia, ou seja, da
aversão ao islamismo. Mas a religião conta com 1,6 bi lhões
de seguidores no mundo e apenas uma m i noria de terro­
ristas usa uma versão deturpada do Carão para atrair se­
guidores e promover atos violentos. As ações do El, que
proclamou a criação de um califado para recriar um Im­
pério Islâmico, e o atentado ao Charlie Hebdo foram vee­
mentemente condenados pelas principais l i deranças islâ­
micas no mundo.
Neste capítulo, você fica sabendo mais sobre a origem
do islamismo e do Império Árabe, um dos temas mais im­
portantes para o estudo da Idade Média.

A PELA LIBERDADE DE EXPRESSA O


Em Paris, milhares de pessoas prestaram solidariedade aos
mortos no atentado que matou 12 pessoas na redação do
jornal Charlie Hebdo, em Paris. No cartaz, a frase·sfmbolo
da manifestação: Je suis Charlie (Eu sou Charlie)
YVES HERMAN/liEUTERS
M U N DO I I DA D E M É D I A
O P O D E R D A I G R EJA I
Forca
ilimitada
Dona de grande poder político e
econômico/ a Igreja foi a principal
SOFRIMENTO A tortura era um método largamente usado pela Inquisição para punir os hereges
instituição da Europa medieval

N
enhuma instituição foi tão rica, bem bruxaria, e Galileu Galilei, que chegou a re­ tre senhores feudais. A principal medida
organizada e influente na Europa me­ negar suas descobertas científicas e foi con­ nesse sentido foi a Trégua de Deus: para
dieval quanto a Igreja Católica. Com denado à prisão domiciliar, em 1633. evitar os prejuízos causados pelos emba­
a transformação do cristianismo em reli­ A intensa participação dos clérigos nas tes, a Igreja proibiu os confrontos em de­
gião oficial do Império Romano, em 391, du­ questões terrenas provocou reações de al­ terminados dias da semana.
rante o reinado de Teodósio, a Igreja pas­ guns cristãos, que se isolaram para viver de A Europa entrou num período de rela­
sou a acumular fortunas e vastos territórios. forma simples, sob votos de castidade e po­ tiva paz e segurança. A agricultura se de­
No século V, a instituição tinha uma organi­ breza. Desse setor nasceram as ordens mo­ senvolveu, o que possibilitou o crescimen­
zação hierárquica definida - com padres e násticas, cujos membros habitavam mostei­ to populacional. Porém, a partir do fim do
sacerdotes na base da pirâmide, bispos logo ros e se dedicavam ao trabalho intelectual e século XIII, aproximadamente, o sistema
acima e o papa no topo - e estava bem ins­ à oração. A Ordem dos Beneditinos, funda­ feudal deixou de dar conta da sociedade em
talada pelo continente. Os religiosos dedi­ da por São Bento, em 525, consolidou a es­ expansão. Sobretudo após as Cruzadas (ve­
caram-se a converter os bárbaros e a pro­ trutura dessas organizações. ja na pág. 37), que liberaram o Mediterrâ­
mover sua integração com os romanos, neo aos europeus, a pressão pelo aumento
ganhando prestígio e passando a assumir DECADÊNCIA do comércio e pela urbanização levou, aos
funções administrativas nos novos reinos. A partir do século XI, as invasões da Eu­ poucos, à substituição do feudalismo por
ropa começaram a cessar. Além disso, a um novo sistema econômico: o capitalismo,
ELITE LETRADA Igreja conseguiu diminuir os conflitos en- que se consolidaria na Idade Moderna. 119
Além de deterem poder político e econô­
mico, os sacerdotes formavam a elite que
sabia ler e escrever e passaram a encerrar
em si o monopólio do conhecimento. Não é
à toa que os maiores expoentes da filosofia
medieval são religiosos: Santo Agostinho e A Inquisição era formada pelos tribunais da Igreja Católica, que perseguiam, julgavam e puniam pessoas
Santo Tomás de Aquino. O pensamento fi­ consideradas hereges. Ela teve duas versões: a medieval, nos séculos XIII e XIV, e a moderna, concentrada
losófico da época foi intensamente influen­ e m Portugal e na Espanha, que durou do século XV ao XIX. Veja como ela funcionava.
ciado pelo cristianismo, confundindo-se
com a teologia. Representantes do Santo Ofício chegavam à aldeia e convidavam as pessoas a
admitir suas heresias. Quem se confessasse, em geral se livrava de penas severas.
INQUISIÇÃO O JULGAMENTO
Quem não o fazia poderia ser denunciado. Convocado a se defender no tribunal,
Com tanto poder nas mãos, as autorida­ o acusado era interrogado por três inquisidores. Para arrancar confissões, o Santo
des católicas fizeram de tudo para aumen­ Ofício recorria a tenebrosas práticas de tortura.
tá-lo ainda mais. Para isso, muitas vezes
usavam como pretexto o suposto combate
O inq uisidor·mor variava a crueldade dos castigos conforme a heresia. Os mais
à heresia (prática contrária à doutrina da
leves incluíam deixar o acusado acorrentado, sem comer nem dormir por vários
Igreja). O símbolo máximo dessa repres­ AS TORTURAS
dias. Mas havia outros bem mais dolorosos, como o aparelho chamado extensão.
são foi a instauração, em 1231, dos tribu­
Por meio de cordas, puxadas por um torniquete, ele fazia com que os punhos se
nais do Santo Ofício, ou Inquisição, que
aproximassem um do outro, pelas costas, até as mãos se tocarem.
tinham poderes para julgar e condenar à
morte os réus considerados infiéis (veja no
quadro ao lado). Na verdade, quase todos
Os autos de fé (cerimônias públicas em que se liam as sentenças do tribunal)
os condenados eram simplesmente pessoas
AS SENTENÇAS geralmente ocorriam na praça central da cidade e eram grandes acontecimentos.
que discordavam dos desmandos católicos
Quase sempre o rei estava presente. As punições iam das mais brandas (como a
ou opositores dos aliados da Igreja. Foram
excomunhão) às mais severas (como a prisão perpétua e a morte na fogueira).
vítimas famosas da Inquisição Joana D'Arc,
queimada viva em 1431, sob a acusação de

32 1 GE H ISTO RIA 2016


M U N D O ! I DA D E M É D I A
IMPÉ R I O Á R A B E
[li

PEDRA SAGRADA
Muçulmanos rezam em torno da
Caaba, templo em forma de cubo
negro localizado em Meca. O local
abriga uma rocha considerada
sagrada pelo Islã

Unidos em nome de Alá


Em apenas 100 anos, o Islã surgiu e deu origem a um império que se expandiu por três
continentes, imprimindo profundas marcas culturais nas regiões em que se estabeleceu
NASCE O PROFETA

A
civilização árabe surgiu no século VII, te do comércio, com a organização de cara­
na península Arábica, com tribos de vanas de camelo para o transporte de pro­ Em 570, nasce Maomé (Muhammad).
origem semita. Anteriormente, elas já dutos. Ao encontrarem melhores condições Criado em um ramo pobre da tribo coraixi­
compartilhavam algumas características, co­ climáticas e solo mais favorável à agricultu­ ta, tornou-se mercador. Aos 25 anos, ele se
mo a língua, mas foi somente nessa época que ra, esses grupos se fixaram e formaram ci­ casou com uma viúva rica e conseguiu esta­
obtiveram união política, conquistada na es­ dades como Meca e Iatreb - atual Medina. bilidade financeira, o que lhe permitiu viajar
teira da pregação do Islã, religião então re­ A religião pré-islâmica era politeísta. Os muito. Nesses deslocamentos, ele entrou em
cém-nascida. Logo, os árabes fundaram um árabes cultuavam cerca de 300 astros, re­ contato com cristãos e judeus. Aos 40 anos,
extenso império, que só se desintegraria no presentados por ídolos. O maior centro re­ começou a ter visões e a ouvir vozes, que
fim da Idade Média e deixaria forte influên­ ligioso da península era Meca, que abriga­ acreditava ser do anjo Gabriel.
cia cultural nas áreas por onde se estendeu. va o templo da Caaba, com todos os ídolos Os chamados que Maomé recebia o
tribais e a pedra negra - provavelmente apontavam como profeta de um deus único
ANTES DE MAOMÉ um pedaço de meteorito, considerado sa­ e onipotente, Alá. Dois anos depois, quan­
Inicialmente, o povo árabe (também co­ grado. Todos os anos, milhares de beduí­ do já era aceito pela família como profe­
nhecido como sarraceno) estava dividido em nos e comerciantes se dirigiam à cidade ta, ele começou a pregar o monoteísmo e
cerca de 300 tribos rurais e urbanas, chefia­ para visitar o santuário, que era adminis­ a abominação dos ídolos a todas as tribos
das pelos xeques. As que habitavam o deser­ trado pelos coraixitas, tribo de aristocra­ de Meca, revelando-lhes a religião islâmi­
to - denominadas beduínas - eram nômades tas que lucravam com as peregrinações e o ca. Seus ensinamentos foram compilados
e se dedicavam sobretudo à criação de came­ comércio realizado na região. no Alcorão, o livro sagrado dos muçulma­
lo e ao cultivo de tâmara e de trigo. Faziam Apesar de compartilharem algumas tra­ nos, usado por muitos países como código
constantes peregrinações em busca de luga­ dições, as tribos se envolviam frequente­ de moral e justiça.
res férteis para sobreviver, os oásis, e guer­ mente em conflitos e guerras, prejudican­ Ao condenar a tradição politeísta, Mao­
reavam entre si. Já aquelas que moravam do o comércio. A unificação viria com o mé ganhou muitos inimigos em Meca e
nos centros urbanos da faixa costeira do surgimento e a disseminação de uma no­ passou a sofrer perseguições. Em 622, ele
mar Vermelho se ocupavam principalmen- va religião: o Islã. fugiu para Iatreb - atual Medina ("cidade

ili iLUITRAÇÃOARTUR lOPES E ROORIGO RAIIER/MUNOO ESTRANHO/EDITORA ABRIL [li DIVULGAÇÀO/CAMERA EYE GE HISTORIA 2016 1 33
I
M U N D O ! I DA D E M É D I A
I M PÉ R I O Á R A B E

A expansão na direção do Ocidente re­


sultou na conquista de todo o norte da
Á frica e da península Ibérica. Ela só foi
detida em 732, na Batalha de Poitiers, pelo
franco Carlos Marte!, prefeito do palácio
dos Merovíngios, que impôs uma barreira
cristã ao avanço islâmico na Europa. A les­
te, as conquistas incorporaram a região da
Mesopotâmia, Pérsia e parte da Í ndia.
Com os califas da dinastia Abássida (750-
1258), o império alcançou sua máxima ex­
tensão. A dinastia foi deposta em 1258, em
Bagdá, pelos mongóis, guerreiros nômades
vindos da Ásia. No século XV, os árabes per­
deram o controle da parte asiática do impé-
111 rio para outra linhagem islâmica, os turcos­
GUERRA SANTA A tela de Charles de Steuben mostra a Batalha de Poitiers, que barrou o avanço isl�mico na Europa -otomanos, e também a península Ibérica
para os cristãos espanhóis (1492), com a que­
da de Granada. Vale ressaltar, no entanto, que
do profeta"). O episódio, conhecido como que a sucessão deveria ser hereditária, en­ a decadência das dinastias árabes não coinci­
hégira, marca o início do calendário árabe. quanto os demais líderes defendiam a esco­ diu com a decadência do islamismo, que com­
Em Medina, Maomé tornou-se líder políti­ lha entre os pares. Os partidários de Ali fi­ pensou as perdas no Ocidente com vitórias
co, religioso e militar. Organizou um Exér­ caram conhecidos como xiitas, e os demais, no Oriente (como a tomada de Constantino­
cito e deu início a uma guerra - dita san­ sunitas. De forma geral, os xiitas defendem pla dos cristãos em 1453, por exemplo).
ta, a jihad - para tomar Meca e propagar a uma interpretação mais ortodoxa do Alco­ Apesar da desagregação do império, a
nova religião. Em 630, a cidade sagrada foi rão. Já os sunitas, além do Alcorão, valori­ tradição islâmica desempenhou papel fun­
tomada; os ídolos da Caaba, destruídos; e zam também a Suna, livro com os ditos e damental. Encravada entre três continen­
os opositores, aniquilados. Ao morrer, dois exemplos do profeta, que pode ser conside­ tes, essa tradição foi importante media­
anos depois, Maomé havia deixado as tri­ rado a base moral do islamismo. dora cultural entre Á sia, Á frica e Europa.
bos árabes politicamente unificadas sob As disputas de poder entre os sucessores Esse fato explica a imensa riqueza e diver­
uma mesma religião. colocava em risco a unidade política cons­ sidade da cultura islâmica e a forma pela
truída por Maomé. A ideia da expansão qual muitas conquistas tecnológicas e co­
O IMPÉRIO surgiu então como uma forma de manter nhecimentos do Oriente - como os algaris­
Após a morte de Maomé, surgiram dispu­ a unidade política em torno de um projeto mos arábicos, o papel, a bússola, a pólvo­
tas sucessórias. Ali, primo do profeta e ca­ de conquistas territoriais, saques e propa­ ra, a luneta, a álgebra etc. - chegaram até
sado com uma de suas filhas, considerava gação do islamismo. a Europa no início da Era Moderna. 119

EXPANSÃO ISLÃMICA 1111 A HISTÓRIA HOJE ---­


PRIMAVERA ARABE
As revoltas populares que varreram diversos
países do Oriente Médio e do norte da Africa em
2011 ficaram conhecidas como Primavera Arabe.
De modo geral, essas revoluções aconteceram em
nações governadas por regimes autoritários e cor·
ruptos, incapazes de promover o bem·estar para
uma população. Oprimido e sem perspectivas, o
povo foi às ruas pedir democracia e justiça social.
Essa onda de protestos teve consequências dis·
tintas em cada pais. Ubia e lêmen viram seus lon·
gevos ditadores caírem, mas mergulharam em um
caos institucional. No Egito, a ditadura de Hosni
Mubarak caiu, mas o presidente eleito em 2012,
Mohamed Mursi, acabou deposto no ano seguinte,
e o país voltou a ser chefiado por um militar, o gene·
ral Abdel Fatah ai·Sisi. Na Síria, o regime de Bashar
ai·Assad luta para permanecer no poder em meio a
• Conquistas dos omíadas (até 750) • Arábia na época de Maomé (622-632) uma violenta guerra civil. Já a Tunísia, é o país que
B Lim ite máximo de penetração árabe na França (732) Primeiras conquistas (até 661) melhor se saiu após as revoltas populares, ao redi·
Fontt:/os� Arrud� e Nelson Piletti, Toda a Hl�tória, 3 ed� Aticd, pJg. XII gir uma nova Constituição e realizar eleições livres.

34 1 GE HISTÓRIA 2016
M U N DO I I DA D E M É D I A
REINO FRANCO

Magnos
bárbaros
Entre a derrocada de Roma
e a instalação definitiva do
feudalismo, os francos
ergueram u m sólido império
� MAGNA COROAÇÃO Sob a liderança de Carlos Magno, o Reino Franco atingiu seu apogeu
na Europa Ocidental

IMPÉRIO CAROLÍNGIO

C
om o fim do Império Romano, sur­ no promoveu a cultura e a educação, impul­
giram inúmeros reinos bárbaros nos A dinastia carolíngia atingiu o apogeu sionando o Renascimento Carolíngio.
territórios correspondentes à parce­ com o filho de Pepino, Carlos Magno. Ele Após sua morte, seus descendentes não
la europeia do império. Um dos mais im­ adotou uma série de medidas visando a conseguiram manter a unidade do impé­
portantes foi o Reino Franco, que se for­ resgatar a tradição do Império Romano. rio. As disputas entre eles acabaram resul­
mou no século V. Após várias tentativas, os Carlos Magno expandiu os territórios tando num acordo, o Tratado de Verdun,
francos finalmente conseguiram instalar­ do reino e buscou reforçar a autoridade do de 843, no qual o império fora dividido. No
-se na antiga província romana da Gália - poder central. Dividiu o império em uni­ decorrer do século X, os últimos reis ca­
atual França. Ele se estendeu até o século dades administrativas (condados e duca­ rolíngios foram depostos, e a dinastia, ex­
IX, fragmentando-se depois da morte de dos), que delegava a vassalos, numa ceri­ tinta. Entre todas as realizações de Carlos
seu mais célebre líder, Carlos Magno. mônia de juramento de fidelidade. Adotou Magno, a que se revelou mais perene foi a
a prática de enviar emissários para fiscali­ relação de vassalagem. Com o fim da suse­
DINASTIA MEROVÍNGIA zar seus domínios, criou leis escritas (ca­ rania do imperador, inúmeros senhores de
Após se fixarem na Gália, os francos per­ pitulares) e buscou o reconhecimento da terras passaram a replicar a relação suse­
maneceram divididos em tribos, cada qual Igreja - em 800, ele foi coroado, pelo pa­ rano-vassalo, originando vários centros de
com seu chefe. Em 482, Clóvis, um des­ pa, imperador do Sacro Império Romano. autoridade e fragmentando o poder políti­
ses líderes, unificou os grupos e se tornou Além de patrocinar o cristianismo e con­ co na Europa. Essa foi uma das bases sobre
o primeiro rei, fundando a dinastia mero­ tinuar a política expansionista do pai, Mag- a qual o feudalismo se constituiu. 181
víngia (cujo nome deriva de seu avô, Mero­
veu). Clóvis empenhou-se em conquistar

®
territórios e converteu-se ao cristianis­
mo, formalizando uma aliança com a Igre­ O IMPÉRIO CAROLÍNGIO
ja Católica. Confira os domínios de Carlos Magno
Depois de sua morte, seus quatro filhos di­
Império Carolingio em 768 Territórios vassalos • Império Islâmico

;
vidiram o reino entre si, enfraquecendo-o.
Na época, a Europa vivia um processo de ru­ Conquistas de Carlos • Império Bizantino � Estados da Igreja
; Magn: (76�·81
ralização e descentralização do poder, com
,
a formação do feudalismo (veja na pág. 36). ,. '} 1
O REPARTE DAS TERRAS
' lz:
/ ;, I)
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Os monarcas que sucederam a dinastia me­ ',(;.. ..�,_ - �;t.)
/'"':J,.I ..!;
.A--�� A'IJr do Norte \ \__-;
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f/C' B:!lllco
rovíngia ficaram conhecidos como reis in­ ,.-.:7 _) ,-:;� '""-,-J� .I
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dolentes, por demonstrar pouca habilidade SAXOES )..._j \..


política. O poder de fato passou a ser exerci­
do por altos funcionários da corte, os prefei­
-��:"'---Paris•
BRETANHA
�· REINO DOS
BOEMIOS

MORÁVIOS
>· BRITÃNIA

tos do palácio, denominados majordomus. FRANCOS


Oceano
Atlântico
- �itiers•
O majordomus Carlos Marte! ganhou
prestígio com a vitória contra os muçul­
.REINO DAS---
manos na Batalha de Poitiers, em 732, que
impediu o avanço islâmico sobre a Euro­
pa Ocidental. Depois de sua morte, seu fi­
lho, Pepino, o Breve, depôs o último mo­
Mar Mediterrâneo
narca merovíngio, Childerico I I I , e, com o
apoio da nobreza e do papa, tornou-se rei,
iniciando a dinastia carolíngia. Fonte:José Arruda t Nelson Pilett� Toda a História, 3 ed� Atica, pdg. XIII Fonte: José Arruda e Nelron Piletti, Toda a História, 3 ed� Ática, pág. XIII

[1[ PALACIO OE VERSALHES/FRANÇA [2[ BRITISH liBRARY GE HISTORIA 2016 1 35


M U N D O ! I DA D E M É D I A
F E U DA L I S M O I
A Europa de padres�
senhores e servos
Após a ruína do Império Romano e a do Carolíngio1 o
sistema feudal reinou no Velho Mundo. Veja como foi
esse processo e como era a vida nessa época

O
feudalismo foi o sistema político, so­ mas, com exceção dos francos (veja matéria
cial e econômico que predominou na na pág. 35), não conseguiram substituí-las
Europa durante a Idade Média. Era por outro Estado forte. A tomada do con­
marcado pela descentralização política, pe­ trole do comércio no mar Mediterrâneo pe­
la imobilidade social e pela autossuficiência los árabes, nos séculos VII e VIII, deixou os
econômica dos feudos - as unidades de pro­ europeus ainda mais enfraquecidos.
dução da época. Começou a se desenvolver O clima de insegurança e instabilidade
após a queda do Império Romano do Oci­ prosseguiu até o século IX, quando ocor­
dente, no século V, consolidou-se no sécu­ reu uma nova onda de invasões, realizadas Ali! SERVIDÃO Camponeses numa propriedade medieval
lo X, atingiu o auge no século XII e a partir pelos húngaros magiares e pelos vikings
do século XII I entrou em colapso. Durante (também conhecidos como normandos).
a Baixa Idade Média, iniciou-se a transição Como forma de defesa, os nobres construí­ a estruturação da ordem feudal vieram de
que o substituiria pelo capitalismo, sistema ram grandes castelos, que funcionavam Roma, como o colonato, que impunha a fi­
dominante na história até hoje (veja Cruza­ como fortalezas, em torno dos quais a po­ xação do homem à terra e virou prática fun­
das e Crise Feudal, na pág. ao lado). pulação pobre se instalou, buscando pro­ damental no regime da Europa medieval.
teção. Essas propriedades ficaram cada Por essa dupla herança, pode-se dizer que
FORMAÇÃO E ECONOMIA vez mais isoladas umas das outras, o que o feudalismo é resultado do choque de dois
A partir do século V, com o enfraqueci­ criou a necessidade de produzir ali mesmo mundos: o romano e o germânico.
mento do Império Romano, a Europa pas­ o que era preciso para sobreviver. A agri­
sou a sofrer diversas invasões dos povos cultura se tornou a atividade econômica SOCIEDADE
bárbaros, como os vândalos; os anglo-sa­ mais importante. A produção era voltada A sociedade feudal estava dividida ba­
xões, que desembarcaram na I nglaterra; e para o consumo interno, e o comércio era sicamente em três estamentos: o primei­
os lombardos, que se instalaram na Itália. quase nulo. Os donos das terras tornaram­ ro estado, formado pelo clero; o segundo,
Eles destruíram as instituições romanas, se os grandes chefes políticos e militares. pelos nobres; e o terceiro, pelos servos e
Era o início do feudalismo. camponeses. Os senhores feudais podiam
pertencer tanto à nobreza quanto à Igreja.

11 A H ISTÓRIA HOJE •••••


POLÍTICA
A principal característica política do feu­
dalismo era a descentralização do poder. O
A posição que as pessoas ocupavam na so­
ciedade (hierarquia) era determinada pe­
lo nascimento, o que significa que a mobi­
FEUDOS CONTEMPORÃNEOS rei tinha pouca ou nenhuma autoridade e, lidade entre os estamentos era impossível.
Recentemente tem se reforçado uma tendência em troca de ajuda militar, era comum que Os servos não eram escravos, porque não
que é a condominização da vida urbana. A formação cedesse grandes porções de terra (os feu­ pertenciam ao senhor - não podiam ser
de núcleos habitacionais murados no interior da me· dos) a membros da nobreza. Esse costume, vendidos, por exemplo -, mas dependiam
trópole tem exercido grande apelo, pois mecanismos o beneficium, se tornou hábito entre os no­ totalmente da estrutura que ele possuía.
de controle de entrada e saída de pessoas parecem bres, e eles passaram a doar terras entre Em troca do direito de usar a terra, eles ti­
oferecer uma maior segurança aos moradores. A si. Numa cerimônia denominada homena­ nham de prestar serviços e pagar uma série
busca da segurança foi um dos fatores principais gem, o proprietário que recebia o domínio ­ de tributos. Entre as principais obrigações
que levou os comerciantes que se reuniam nos vassalo - prometia fidelidade e apoio mili­ servis estavam a corveia, trabalho gratui­
cruzamentos de rotas de comércio na Baixa Idade tar ao doador - suserano. Este, por sua vez, to; a talha, porcentagem da produção dada
Média a murar a área que eles ocupavam. Esse pro· jurava proteção ao vassalo. ao senhor; e a banalidade, pagamento pela
cesso deu origem a vários burgos, ou cidades, e foi a Essa obrigação recíproca, uma das ca­ utilização de instrumentos ou bens.
base do Renascimento Comercial e Urbano na Baixa racterísticas mais marcantes do feudalis­ Além dos servos, havia, em menor número,
Idade Média. Apesar dos diferentes contextos, nos mo, teve origem nas tradições dos invasores outros tipos de trabalhador: os vilões, habi­
dois casos há o reconhecimento de que não há poder germânicos, que praticavam o comitatus - tantes das vilas, trabalhadores livres ligados
externo suficientemente organizado e eficaz na ga· fidelidade mútua entre chefes tribais e guer­ a um senhor; e os pequenos proprietários,
rantia da segurança no contexto da vida urbana. reiros. Outros costumes que influenciaram que usavam mão de obra familiar. [81

36 1 GE HISTÓRIA 1016
MUNDO I IDADE M ÉDIA
CRUZADAS E C R I S E F E U DAL

Fé em Deus e
p é na estrada
Milhares de europeus atravessaram o
continente para matar e morrer em nome
do Criador. Esse foi um dos fatores que
contribuíram para o fim da Idade Média

A
s Cruzadas foram uma série de expedi­
ções militares comandadas pela Igreja .olllll CAVALEIROS DA FÉ
Católica e por nobres europeus, entre o A pintura de Eugene Delacroix
século XI e o XIII, rumo à região de Jerusa­ mostra a entrada dos cruzados
lém. Formalmente, tinham um objetivo reli­ na cidade de Constantinopla Ili
gioso: retomar a cidade - considerada sagra­
da pelos cristãos -, que fora dominada pelos
turcos muçulmanos em 1071. Porém, havia rantida pelas cartas de franquia, documento o nome de jacquerie. Castelos foram quei­
outras motivações, como expandir a fé cris­ que assegurava às cidades direitos como co­ mados, e nobres, assassinados. A nobreza
tã, conquistar novos territórios, escoar parte brar impostos e montar milícia. Livres da tu­ contra-atacou, executando mais de 20 mil
da população europeia (que vinha crescendo tela feudal, as novas cidades se organizaram pessoas. Sublevações também ocorrem na
aceleradamente e representava riscos para a em ligas (ou hansas), para agilizar o comér­ Inglaterra e no norte da Itália.
estabilidade do sistema feudal) e promover cio e congregar interesses. A mais importan­ Além das revoltas, a peste negra chegou
saques nas ricas cidades do mundo árabe. Foi te foi a Liga Teutônica (ou Hanseática). à Europa em 1347 pelo porto de Gênova. A
no campo econômico que as Cruzadas obti­ Dentro das cidades, os burgueses também epidemia, altamente infecciosa, foi trans­
veram maior sucesso: possibilitaram o renas­ se organizaram em corporações. As mais co­ mitida ao homem pela pulga do rato (o que
cimento do comércio no mar Mediterrâneo ­ nhecidas foram as corporações de mercado­ não se sabia na época). Espalhou-se com
o que contribuiria decisivamente para a crise res, ou guildas, que limitavam o comércio grande velocidade e provocou a morte de
do feudalismo na Europa. estrangeiro e controlavam os preços, e as cerca de um terço da população europeia.
corporações de ofício, que agrupavam ar­ Além desses fatores, a guerra também
RENASCIMENTO COMERCIAL E URBANO tesãos - com o objetivo de impedir a concor­ atingiu a Europa nesse período. A pretensão
Com a reabertura do Mediterrâneo ao rência de quem produzisse o mesmo artigo. do rei inglês Eduardo I I I de disputar a su­
comércio, estabeleceram-se rotas ligando Na hierarquia das corporações de ofício, os cessão do trono francês provocou a Guerra
regiões produtoras - como Flandres (atual­ mestres eram os proprietários das oficinas e dos Cem Anos, entre França e I nglaterra.
mente Bélgica e Holanda), famosa porsualã ­ donos das ferramentas. Cabia-lhes estipular No decorrer do conflito, destaca-se a cam­
e as cidades portuárias italianas que contro­ salários e normas de trabalho. Abaixo deles ponesa mística Joana d'Arc (1412-1431), que
lavam o contato com o Oriente - Veneza e estavam os oficiais, trabalhadores especia­ alegava receber mensagens divinas desde
Gênova. Nos cruzamentos dessas novas ro­ listas remunerados, e, por último, os apren­ criança. Sob sua inspiração, as tropas fran­
tas foram organizados centros de comércio dizes, jovens que recebiam roupas, alimento cesas conquistam importantes vitórias, e
temporários. Eram as feiras, que reuniam e moradia em troca de trabalho. ela se tornou heroína nacional.
mercadores de diversas partes da Europa. Capturada pelos ingleses, Joana d'Arc foi
Para se protegerem de assaltos, os mer­ CRISE DO FEUDALISMO acusada de bruxaria e condenada a mor­
cadores passaram a se estabelecer ao redor Um dos primeiros sintomas da crise do rer na fogueira. A guerra terminou em 1453,
de palácios e mosteiros, formando os bur­ sistema feudal foram as revoltas campo­ quando a França recuperou todas as posses­
gos (de onde vem o termo burguês). Com o nesas. A partir de 1358, começando pe­ sões sob o domínio inglês, venceu a guerra
tempo, esses núcleos cresceram, e foram er­ Ja região de Flandres, espalharam-se pe­ e, assim, preservou sua soberania nacional.
guidas novas muralhas a seu redor. Consti­ la Europa. A causa principal foi a queda As principais consequências da crise feu­
tuíam-se, assim, as cidades. No entanto, por da produtividade da agricultura entre os dal foram o enfraquecimento da nobreza e
viverem em áreas ainda pertencentes aos séculos XI e XIV, que, combinada com o a flexibilização das relações de servidão.
feudos, os burgueses eram obrigados a pagar crescimento da população e a resistência Depois do conflito, muito do poder associa­
impostos aos senhores. A luta pela indepen­ da nobreza em reduzir a parte do exce­ do à nobreza foi transferido as reis, fragili­
dência urbana ficou conhecida como movi­ dente que lhe cabia, provocou a fome en­ zando as relações feudo-vassálicas e prati­
mento comunal, e a emancipação era ga- tre os camponeses. Na França, receberam camente pondo fim ao sistema feudal. lEI

111 MUSEU DO LOUVRE/FRANÇA Jll MUSEU CONDE/FRANÇA GE HISTORIA 2016 1 37


M U N DO I I DA D E M É D I A
E X E RC Í C I O S E R E S U M O

� COMO CAl NA PROVA


(FGV Direito/SP 2014) " E, com efeito, concedemos a Moisés
· Segu n d o o autor,
o Livro, e fizemos segu i r d e p o i s d e l e, os M e n sageiros. E con· a) a crise foi p rovocada pelo i m pacto do d esenvo lvimento c o m e r·
cedemos a J e s u s, Filho d e M aria, as evi d ê n c ias e am para· c i ai e u rbano na sociedade, p o i s, na m e d i d a em q u e reforça a ser·
mo·lo com o Espírito Sagrado. E, será q u e cada vez q u e um M e n sa· vi dão, o r i g i n a as i n s u rreições campo nesas e, q ua n d o fragil iza os
gei ro vos c h egava, c o m a q u i l o pelo q u e vossas almas não se vínculos servis, p rovoca as i n su rreições u rbanas.
apaixonavam, vós vos e n s oberbecíeis? Então, a um grupo d e s m e n · b) a crise d o feudalismo nada mais é d o que o marasmo e c o n ô m ico
tieis, e a u m grupo m atáveis. [. . .] E , q ua n d o l h e s chegou u m L ivro d a provocado pela queda d a prod ução, u m a vez que há u m n ú me ro
parte de Allah c o n fi r m a n d o o q u e estava com eles - e e l e s, antes m e n o r de camponeses livres, o q u e leva à crise social do cam p o,
buscavam a vitória s o b reos que renegavam a Fé - q ua n d o, p o i s, prej ud i ca n d o tam bém a n o b reza.
lhes chegou o q u e já c o n h e c iam, renegaram- n o . E ntão, q u e a m a l d i · c) a crise foi motivada por fatores externos ao feu d a l i s m o, i sto é, o
ç ã o de A l l a h s e j a sobre o s renegados d a F é ! " alargamento d o mercado p ressiona o au mento da p rod ução no
Al c o r ã o, 2: 8 7 e 8 9 . tradução do sentido do Nobre Alcorão para a cam p o e na c i d ad e, o q u e leva à q ueda d o s preços e às i n s u rrei·
língua portuguesa. NASR, H. (trad.), Complexo do Rei Fahd para ções cam po nesas e u rbanas.
imprimir o Alcorão Nobre. Medina, s!d d) o d esenvolvime nto comercial e u rbano e m si não leva à crise,
pois o q u e d eve ser levado em c o n s i d e ração é a c rise social p ro·
a) Com pare, d o po nto de vista d o utri nai, a rel igião m u ç u l mana e as vocada pelo enfraq uecim ento d o s laços servis, tanto no campo
religiões j u da i c a e cristã. c o m o na cidade.
b) A Península Arábica no século VI caracterizava-se pela d ispersão e) as i n s u rreições cam po nesas e u rbanas são as respostas para a
política e religiosa. Como a religião muçulmana favoreceu o pro· c rise feudal, p o i s a servidão foi reforçada tanto n o cam p o c o m o
cesso de constituição de uma u n idade polftico-religiosa na região? na cidade, gara n t i n d o a sobrevivê n cia d a n o b reza p o r m e i o d o
c) D u rante o s é c u l o VI l, a l é m d a expansão islâmica, s u r g i u a d ivisão pagamento d e i m postos.
entre s u n itas e x i itas, q u e se m antém até os d i as de hoje. Quais
foram os m otivos d e tal d ivisão?
� RESOLU ÇÃO
O f e u d a l i s m o foi um si stem a e c o n ô m i c o e social esta b el eci d o na
.... RESOLU ÇÃO E u ro p a M e d i eval que t i n ha como p ri n c i pais características u m a
a) A d o u t r i n a d e ssas três r e l i g i õ e s tem como base: o m o n oteís m o; eco n o m ia d e su bsistência, na q ua l a atividade c o m e rcial, c o m parada
a figura de pro fetas c o m o e nviados da palavra d i v i na; as escr it uras com período anterior ou poste rior, é bem m e n o r; a servidão c o m o
sagradas, como a Torá U u dais m o), o Carão ( i s l a m i s m o ) e a Bíblia p ri n c i pal forma d e m ã o de o bra; e a a m b i e n tação n o m e i o r ura l .
(cristia n i s mo); e a c r e n ça n a salvação eterna. As três r e l i g iões O fe u d a l i s m o e n t r o u e m crise q u a n d o essas estruturas c o meçaram
s u r g i ram n a m e s m a região - O r i e n te M é d i o . a s e d esagregar. O autor do texto e n fatiza que o ce ntro nevrá l g i c o
b) Antes do adve n to d o islamismo, os povos da península Aráb i ca d a crise f o i c o n s e q u ê n c i a d o renasc i m e n to c o merc ial e u rb a n o q u e
eram nômades e po li teístas. Porém, m uitos desses povos cultuavam a p r o m oveu a desesta b i l i zação d a servid ão, e m f u n çã o d a cresc e n te
Pedra Negra, local izada em Caaba (Meca), que foi o alicerce i n icial na m i gração d o m e i o rural para os c e n t ro s urbanos. Para n ão perder
u nificação pol ítico-religiosa da região. O processo foi catalisado por mão d e o b ra, os s e n h ores fe u d a i s i n t e nsificaram as relações de
Maomé, u m profeta enviado por Alá, e n carregado pela u n ificação desses servidão, gera n d o revoltas. Por o u tro lado, a i d a às c i dades tam b é m
povos n ômades, q ue se consolidou em torno do m o noteísmo islâmico. provo co u i n su r re ições d ia n te das d e gradantes c o n d ições d e
c) Com a m o rte de M a o m é, que n ã o d e i xara h e r d e i ros h o m e n s e n ão traba l h o .
i n d icara s e u s u c e s s o r, c o m e ç o u a d i s p u ta p o l ít i co-re l i g i o sa para RESPOSTA: A
d e fi n i r q u e m seria o l í d e r dos s e g u i d o res de Alá. A partir d essas
desav e nças s u rg i ram d o i s gr u pos:
que defendem como ú n ico d oc u m e n to o Carão e aceitam
· os x i i tas,
como l íderes somente os d escendentes d e M ao m é - o p r i me i r o na (UNESP 2014) "Mais ou menos a partir do s é c u l o XI, os c ris·
l i n ha h ereditária seria o s e u p r i m o Ali; tãos o rgan izaram expedições e m com u m contra os m u ç u l­
· os s u n i tas, que teriam se o ri g i n a d o do cal i fa do do sogro de M a o m é manos, na Palestina, para reco n q u istar os ' l u gares santos' onde
e , p o r isso, aceitam a e l e ição d e l íd e re s p o l íti cos. E s s a d i v i são Cristo tinha morrido e ressuscitado. São as cruzadas [ ... ] . Os ho·
permanece até hoje no I s l ã . mens e as m u l heres d a Idade M é d i a tiveram então o sentimento de
perte n cer a u m m e s m o grupo de i nstitu ições, d e c re nças e d e hábi·
tos: a c ristandade."
(FGV·EESP 2014) "A crise do f e u d a l i s m o d eriva não propria· }acques Le Goff. A I d ad e M éd i a e x p l i c a d a aos meus fi l h o s, 2007
m ente do renascimento do comércio e m si m e s m o, mas d a
2 maneira p e l a q ual a estrutura feudal reage ao i m pacto d a Segu n d o o texto, as cruzadas
e c o n o m i a de mercado. O revivesc i mento d o c o m é r c i o (isto é, a i ns· a) contribu íram para a construção d a u n idade interna d o cristian is·
tau ração de um setor m e rcantil na e c o n o m i a e o d esenvo lvimento mo, o que reforçou o p o d e r d a I greja Cató l i ca Romana e do papa.
d e um setor urbano na sociedad e) pode promover, d e um lado, a b) resu ltaram na c o n q u ista d e fi n itiva d a Palestina pelos cristãos e
l e n ta d issolução d o s laços servis, e de o utro lado, o e n rijecimento na decorrente d errota e s u b m i ssão dos muçu lmanos.
d a servidão. (... ) N o s dois setores, abre-se pois a c rise social." c) determi naram o aumento d o poder dos reis e dos i mperadores, uma
Fernando A Novais, Portugal e Brasil na crise do Antigo Sistema Colonial. p. 63-4 vez que a derrota dos cristãos debi litou o poder político do papa.

38 1 GE HISTÓRIA 1016
RESUMO
d) estabeleceram o caráter monoteísta do cristianismo medieval, o " O PODER DA IGREJA I Quando o cristianismo
que ajudou a reduzir a influência j u daica e muçulmana na Palestina. foi transformado e m religi:lo, e m 391, a Igreja
e) defi n i ram a separação ofi c ial entre Igreja e Estado, est i p u l a n d o passou a acumular fortunas e vastos territórios.
funções e papéis d iferentes p a r a os l íde res políticos e religiosos. Os sacerdotes formavam uma elite intelectua­
lizada, monopolizando o conhecimento. Para
aumentar seu poder, a Igreja usou o pretexto
� RESOLUÇÃO do combate à heresia (práticas contrárias a sua
As Cruzadas med ievais t i n ham d o i s o bj e ti vo s : doutrina). O maior sim bolo da repress:lo foram
1) objetivo eco n ô m i co: restabelecer a rota c o m ercial c o m o O r i e n te; os tribunais do Santo Oficio, ou lnquisiç:lo, que
2) objetivo re l ig i o s o : ter acesso à Terra Santa, d o m i nada pelos julgavam e condenavam os hereges.
muçulmanos.
Esse d u p l o processo foi o rgan i za d o pela I g reja e pelos reinos " IMPIRIO ARABE I A construç:lo desse i m pério
cristãos e u ro pe u s e era apoiado por pessoas comuns, que viam nas s ó foi posslvel depois que o islamismo u n i u
Cruzadas u m a o po rt u n idade d e e n ri q u e c i m ento. Por um lado, os politicamente as várias tribos d a penlnsula
resultados foram desastrosos, uma vez q u e ho uve m u ita violência. Arábica. Com a morte do lider religioso Maomé,
Por ou tro, o s e u ro p e u s consegu i ram de maneira sistemática o no século VIl, o poder passou para a m:lo dos
restabelecimento da rota comercial c o m o O r i e n te e ter acesso à califas, à frente também d o poder m i litar. Os
Terra Santa. Tem-se, po rt a n t o, um fortal e c i m ento da Igreja e da árabes conqui staram vastos territórios, on­
ordem papal, e a E u ro pa organizou-se d e maneira d u rad o u ra em d e permaneceram por séculos. N o século XIII,
seus diversos n íveis na u n i c idade cristã. conflitos pollticos e religiosos enfraqueceram
RESPOSTA: A o i mpério. Os mongóis ocuparam Bagdá, e os
espanhóis reconquistaram a penlnsula Ibérica .

Jf' REINO FRANCO I O Reino Franco foi o mais


� SAI BA MAIS estável e d u radouro entre os reinos bárbaros.
Formou-se no século V, quando os francos con·
li ESFORÇO CONTI NENTAL
Veja o trajeto das principais expedições, quem as organizou e que resultados tiveram
q u i staram a Gál ia, atual França. N a d inastia
Merovlngia, o rei Clóvis u n i u os francos, antes
d ivididos em tribos. O apogeu veio com o lm·
pério Carollngio, no reinado de Carlos Magno,
coroado i m perado r p e l o papa. M a i s tarde,
guerras sucessórias frag i l i zaram o i m pério e
fortaleceram a nobreza l o cal, resu ltando na
consolidaç:lo do feudalismo na E u ropa.

" FEUDALISMO I Esse foi o p r i n c i pal sistema


p o l ltico, econômico e social na E u ropa me­
d i eval. A sociedade t i n h a pouca m o b i lidade e
estava dividida em três estamentos: o primeiro
estado, formado pelo c lero; o seg u n d o, pelos
n o b res e senhores feu dais; e o tercei ro, pelos
servos e camponeses. O feudalismo entrou
em c o l a p s o n o s é c u l o X I I I, d a n d o l u ga r ao
m e rcantil i s m o.

" CRUZADAS I Foram expedições comandadas


- - - - pela Igreja Católica para reconquistar a Terra
I' CRUZADA (1096-1099) 2' CRUZADA (1147-1149) 3' CRUZADA (1189-1192) 4' CRUZADA (1202-1204) S a n ta O e ru s a l é m ). Suas p r i n ci p a i s m otiva·
Convocada pelo papa Como os turcos já se A Cruzada dos Reis contou Também é chamada de
reorganizavam para
ções foram a necessidade de restabelecer
Urbano li e organizada por com os três principais Cruzada Comercial, o que
nobres cavaleiros, reconquistar Jerusalém, soberanos da época: define bem seus objetivos. o c o m é rc i o com o Oriente e d e obter novas
resultou na conquista da o rei da França, Luís Vil, Ricardo Coração de leão, financiada por Veneza, terras para elevar a produç:lo agrlcola e dar
Terra Santa. foram e o do Sacro Império, da Inglaterra; Felipe resultou num violento
fundados quatro Estados Conrado 111, lideraram Augusto, da França; e saque a Constantinopla, na conta d o au mento popu lacional na E u ropa.
cristãos no Oriente Médio: uma nova expedição. Frederico I, o Barba tomada do controle do As oito Cruzadas oficiais se estenderam até
o Reino de Jerusalém, o Essa, porém, fracassou. Ruiva, do Sacro Império. Mediterrâneo pela cidade
Principado de Antioquia e A cidade acabou
o século X I I I. A reabertura do Mediterrâneo
Um acordo com o sultão italiana e no restabeleci­
os condados de E dessa e voltando par� o domínio Saladino liberou a mento do comércio na ao comércio contr i b u i u para a formaç:lo das
Tripoli. muçulmano. peregrinação a Jerusalém. região. c idades e foi d ec i s iva para que o feudalismo
Fntu: Patn'cia Daniels e 5tephen Hys/op, Atlas da História do Mundo, Abril, p6g. 152; Antonio Pedra, História Antiga e Medieval, 1 ed., Moderna, pdg. 329 fosse su bstituldo pelo capitali s m o.
MUNDO J"'
IDADE MODERNA

Renovacão ,

católica
O papa Francisco desafia os setores
conservadores da Igreja ao tentar consolidar
uma ampla agenda de reformas
m discurso de confraternização do Natal, profe­

E
rido em 22 de dezembro de 2014, o papa F rancis­
co trocou o característico tom amistoso por u m a
forte critica à Cúria Romana - o governo d a Igreja
Catól ica. Na presença do alto escalão do Vaticano, F rancis­
co den u nciou as "doenças" que contami nam a hierarq uia
da Igreja Catól ica, como a burocracia, as rivalidades, o nar­
cisismo e as fofocas. A mensagem do papa tem como alvo
os setores mais conservadores do Vaticano, que fazem for­
te oposição às aspirações reformistas do ontffice.
Alçado ao posto mais i m portante da Igreja Catól ica
após a i nesperada renúncia de Bento XVI, em fevereiro de
2013, F rancisco tenta i mplementar as reformas mais sig­
n i ficativas na Santa Sé em so anos. Um m ês após ser no­
meado, ele i ndicou oito cardeais encarregados de ajudá­
-lo a reescrever a Constituição Apostó l ica, com o objetivo
de descentralizar as ações do Vaticano, dando maior au­
tonomia aos bispos de todo o m u n do, e renovar a forma
como se com u n i ca com os fiéis. Na pauta estão também
medidas para combater a m á gestão e a corrupção no Va­
ticano. Um esboço dessa nova Constituição foi apresen­
tado em setembro de 2014 e será debatido durante 2015.
Numa tentativa de tornar a Igreja mais próxi ma à so­
ciedade, F rancisco não se furta a tratar de assu ntos po­
l ê m i cos para a Igreja Católica. Em depoi mentos e docu­
mentos o ficiais, o papa s i naliza q u e está aberto a rever a
posição da Santa Sé em relação ao celibato dos sacerdo­
tes, à com u nhão de casados em segunda u n ião, ao papel
da m u lher na Igreja e à q uestão homossexual. Sobre este
ú lti mo, ficou famosa u m a frase de F rancisco dita em u ma
entrevista em 2013: "Se u m gay procu rar Deus, q ue m sou
eu para o j u lgar".
G uardadas as devidas proporções, a atual crise na Igreja
Ca ólica nos remete à Idade Moderna, q uando sua estrutu­
ra e seus dogmas passaram a ser fortemente contestados.
Conheça a segu i r outros i m portantes marcos dessa época.

.A CATIVANDO O REBANHO
O papa Francisco chega à Praça de Sao Pedro, no Vaticano,
para sua audiência semanal: o novo llder da santa Sé quer
melhorar a comunicaç1o com os fiéis
ALESSANDRA IARANTIND/AP PHOIO
MUNDO I IDADE MODERNA
R E NASC I M E NTO C U LT U R A L

... CRIADOR E CRIATURA


O afresco A Criação de Adão,
feito pelo pintor renascentista
Michelangelo, adorna o teto da
Capela Sistina, no Vaticano

Explosão cultural
Muitas das mais famosas obras de arte da história foram produzidas na Itália, entre 1300 e 1600.
Saiba por que e confira como essas criações nos ajudam a entender o espírito da época

O
Renascimento foi o movimento inte­ de uma capacidade quase divina de criar, e, to surgiu e atingiu o ápice na região da Eu­
lectual e artístico que ocorreu entre ao exercê-la, aproxima-se de Deus. Ao pro­ ropa onde essas transformações ocorreram
o século XIV e o XVI na Europa. Re­ porem a superação dos ideais medievais - antes e de maneira mais intensa: as cida­
presentou a nova visão de mundo da socie­ segundo os quais Deus era o centro de tudo des italianas. Foi lá que apareceram os pri­
dade que se formava após o surto de desen­ e a fé se sobrepunha à razão - e se inspira­ meiros burgueses endinheirados dispostos
volvimento comercial e urbano iniciado no rem em pensadores da Antiguidade Clássi­ a patrocinar artistas e cientistas: os mece­
fim da Idade Média. Se na estática estrutura ca, os humanistas julgavam estar promoven­ nas como os Médici, de Florença. De fato,
-

social dos feudos valia a força da coletivida­ do um renascimento daquela cultura - daí o Renascimento foi um movimento essen­
de e uma conformada submissão aos desíg­ o nome pelo qual batizaram o período em cialmente elitista, pois só existia para a alta
nios de Deus, no ambiente dinâmico das ci­ que viveram. burguesia e para a nobreza. A Renascença
dades modernas valorizavam-se o indivíduo Outras características fundamentais do italiana costuma ser dividida em três fases: o
e seu imenso potencial de autoaperfeiçoa­ Renascimento foram o naturalismo, a bus­ Trecento (século XIV), o Quattrocento (sé­
mento e criação. ca por uma representação da natureza fiel à culo XV) e o Cinquecento (século XVI).
realidade; o racionalismo, valorização da TRECENTO Foi o período em que se co­
CARACTERISTICAS razão; e o hedonismo, que defende o prazer meçou a romper com os modelos artísticos
O elemento central do Renascimento foi individual como único bem possível. da Idade Média. Na pintura, destacou-se
o humanismo, corrente filosófica que se Giotto di Bondoni, que representava ima­
baseava no antropocentrismo, ou seja, con­ NA ITALIA gens sacras já com forte traço naturalista.
siderava o ser humano o centro das ques­ Intrinsecamente ligado ao desenvolvi­ Na literatura, os maiores nomes foram Dan­
tões. Para os humanistas, o homem é dotado mento comercial e urbano, o Renascimen- te Alighieri, Francesco Petrarca (DeAfrica)

42 1 GE HISTORIA 2016
I CRIADORES E CRIATURAS
Saiba mais sobre alguns dos maiores artistas italianos do Renascimento e entenda como suas obras expressam os valores do movimento

MICHELANGELO BUONARROTI (1475-1564)


Projetou a cúpula da Basílica de São Pedro e decorou a Capela Sistina (ambas no Vaticano) com algumas
das mais conhecidas pinturas renascentistas, como A Criação de Adão (veja na pág. ao lado). Mas foi na escul·
tura que Michelangelo atingiu o auge. Davi (veja ao lado), uma de suas principais criações, diz muito sobre
o que foi o Renascimento: além de exibir contornos precisos, a imponente escultura de 5 metros exprime a
força e a confiança do ser hu mano.
[2]

SAN DRO BOTTICELLI (1445-1510)


Assim como Michelangelo, Botticelli foi um dos artistas financiados pelos Médici e também participou da
decoração da Capela Sistina. Parte de uma série de criações que representavam mitos greco-romanos, O Nas­
cimento de Vênus é uma de suas telas mais famosas. Representa um rompi mento com a tradição med ieval,
pois, em vez de retratar personagens estáticos, enfatiza a l i berdade de movimentos do corpo, em perfeita
sintonia com o dinamismo renascentista.

LEONARDO DA VINCI (1452-1519)


Pintor, arquiteto, botânico, cartógrafo, engenheiro, escultor, físico, geólogo, químico e inventor, entre ou­
tras ocu pações, Da Vinci era o típico humanista, adquirindo e prod uzindo conhecimento em diversas áreas.
Como a famosa Mona Lisa, o Homem Vitruviano (veja ao lado), uma de suas mais conhecidas obras, é um
belo exemplar do espírito do Renascimento: trata-se de um estudo anatômico que busca representar com
perfeição matemática a beleza e a simetria do corpo hu mano.

e Giovani Boccaccio (Decameron). Os três nês Nicolau Copérnico, o alemão Johannes


usavam, em vez do latim, identificado com Kepler e os italianos Giordano Bruno e Ga­
a cultura eclesiástica medieval, o toscano, lileu Galilei, todos astrônomos defensores - RENASCIMENTO
dialeto que originou o atual italiano. da revolucionária teoria heliocêntrica, que NA LITERATURA
QUATTROCENTO C aracterizou-se por in­ rompeu com supostas verdades da Igreja ao Dom Quixote dela Mancha,
tensa produção artística e extrema evolução afirmar que o Sol, e não a Terra, seria o cen­ de Miguel de Cervantes, e A Divina
intelectual. Foi quando, graças ao financia­ tro do Universo. Esses pensadores foram os Comédia, de Dante Alighieri,
mento dos mecenas, os artistas começaram primeiros a utilizar o método científico - sé­ podem ser consideradas as
a deixar de ser encarados como simples ar­ rie rigorosa de testes que pretende garantir duas obras mais importantes
tesãos para se tornar profissionais indepen­ a veracidade das teorias. da tradição cultural do Ocidente.
dentes. Entre os artistas que mais se desta­ Mas o significado delas só pode ser
caram no período estão Leonardo da Vinci e DIFUSÃO avaliado plenamente no contexto
Sandro Botticelli (veja o boxe acima). Seguindo pelas rotas comerciais, o Renas­ das grandes transformações
C I N Q U E C E NTO No século XVI, Roma cimento chegou a várias outras partes da culturais do Renascimento.
substituiu Florença como principal centro Europa. Os Países Baixos destacaram-se na Até então, as expressões artísticas
de arte na Itália, e a Igreja Católica tornou­ pintura, com Brueghel e os irmãos Hubert medievais apresentavam seus
-se o grande mecenas do período. Miche­ e Jan van Eyck, e na filosofia, com o huma­ personagens de forma coerente
langelo (veja o boxe acima) e Rafael Sanzio, nista Erasmo de Roterdã. Na Inglaterra sur­ com a teologia cristã, que
dois dos maiores artistas plásticos do Cin­ giu outro expoente do humanismo, Thomas separava os praticantes do
quecento, produziram importantes obras Morus (Utopia), e um dos maiores drama­ bem e do mal em campos mu ito
para a Sé. Na literatura, sistematizou-se o turgos de todos os tempos, William Shakes­ bem defi nidos e antagônicos.
uso da língua italiana, com autores como peare (Hamlet, Macbeth, Romeu e Julieta). É nesse ponto que as obras
Ariosto, Torquato Tasso e Maquiavel. Este Entre os franceses, os mais notáveis foram de Dante e de Cervantes
último, o mais importante pensador políti­ os escritores Rabelais (Gargantua e Panta­ ganham relevância, pois seus
co do período, é o autor de O Príncipe, en­ gruel) e Montaigne (Ensaios). A península personagens apresentam virtudes
saio sobre a arte de bem governar, que de­ Ibérica não incorporou completamente os e vícios. Eles ganham d imensão
fende a falta de escrúpulos, o uso da força e valores renascentistas, mas também produ­ psicológica, tornam-se complexos,
a diminuição da atuação política da Igreja. ziu célebres escritores no período, como o contraditórios, seres dentro dos
Foi também no século XVI que viveram os português Luís de Camões (Os Lusíadas) e quais convivem o "bem" e o "mal",
grandes cientistas do Renascimento: o polo- o espanhol Miguel de Cervantes. lEI enfim, h u manizam-se.

[1[ J•J J6] DIVULGAÇAD (2( CASA BUDNARRDTI/ITÀUA (li GALERIA DOS DFICIDS/FLDRENÇA (Si ACADEMIA DE BELAS ARTES DE VENEZA GE HISTORIA 2016 1 43
M U N D O ! I DA D E M O D E R N A
R E F O R M A R E L I G I O SA

[1[

..lf INDIGNAÇAO A pintura


mostra Martinho Lutero,
figura central da Reforma
Protestante, queimando a
bula de excomunhão emitida
pelo papa, e outras cenas de
sua vida

Novos tempos� novas crenças


No início da Idade Moderna, a Europa passava por grandes m udanças políticas e econômicas.
Alguns religiosos viram que também era a hora de revolucionar a fé
111 A HISTÓRIA HOJE •••••

E
m meados do século XVI, desenca­ A incipiente burguesia também estava
deou-se na Europa um movimento de insatisfeita. Ao proibir a usura - emprés­
caráter religioso, político e econômi­ timo de dinheiro a juros - e o lucro exces­ O BRASIL É O MAIOR
co que contestava a estrutura e os dogmas sivo (decorrente da venda por um preço PAÍS CATÓLICO DO MUNDO
da Igreja Católica: a Reforma Protestante. superior ao "preço justo"), a doutrina ca­ O Brasil é a nação que reúne o maior número ab·
Ocorrida paralelamente ao Renascimento e tólica freava o desenvolvimento das ativi­ soluto de católicos no mundo, com 123,9 milhões
à formação das monarquias nacionais euro­ dades bancárias e comerciais, prejudican­ de fiéis. Segundo dados do Instituto Brasileiro de
peias, ela expressou a necessidade de ade­ do a alma do negócio burguês. Geografia e Estatística (IBGE), 64,6% da população
quação da religião às transformações decor­ Ao mesmo tempo, formavam-se as mo­ se declara católica. A predominância do catolicis·
rentes do desenvolvimento do capitalismo. narquias nacionais. Com o estabelecimen­ mo no país é resultado de um conjunto de ações
to de fronteiras, a Igreja, grande proprie­ implementadas pelos jesuítas nos primeiros tem·
ANTECEDENTES tária de terras, passou a ser considerada pos da colônia. A Companhia de Jesus foi criada
No fim da Idade Média, a Europa con­ potência estrangeira, o que estimulou con­ na Espanha, em 1534, e depois incorporada pela
vivia com um constante medo dos casti­ flitos entre reis e o papa. Igreja no contexto do combate aos movimentos
gos reservados aos pecadores no inferno. Nesse contexto, começaram a surgir im­ reformadores desencadeados por Lutero e Cal·
Quem estimulava essa tensão era a própria portantes críticos da Igreja Católica. Des­ vino. Os jesuítas, também conhecidos como os
Igreja, que enriquecia com a venda de in­ tacaram-se John Wycliffe, no século XIV, "soldados de Cristo", foram os responsáveis pela
dulgências (perdão dos pecados). A prá­ na Inglaterra, e Jan Huss, no século XV, na implantação do catolicismo na colônia portugue·
tica financiava o luxo do alto clero, mas Boêmia - região do Sacro Império Roma­ sa na América. Eles contribuíram, dessa forma,
provocava profundo descontentamento no-Germânico. Eles condenavam a venda para o lançamento das bases daquela que viria a
dentro da instituição. de indulgências, a opulência do clero e de- se constituir na maior nação católica do mundo.

44 1 GE HISTORIA 2016
fendiam o confisco dos bens da Igreja. Os cipados p rotestaram, o que deu origem ao
dois foram precursores de um movimen­ nome protestantismo. Em 1555, após anos
to revolucionário que começaria, de fato, de luta, foi firmada a Paz de Augsburgo,
no século XVI. que consolidou a vitória do luteranismo.
Foi estabelecida a liberdade religiosa para
A REFORMA DE LUTERO os príncipes - cuja fé deveria ser adotada
Em 1517, indignado com a venda de in­ pelos súditos -, e estes passaram a se apro­
dulgências, o monge alemão Martinho Lu­ priar dos bens da Igreja. Além da Alema­
tero afixou na porta da igreja em que pre­ nha, o luteranismo se difundiu por Suécia,
gava 95 teses, nas quais condenava várias Noruega e Dinamarca.
práticas da Igreja. Após negar as exigên­ As pregações de Lutero estimularam mo­
cias de retratação do papa, Lutero foi exco­ vimentos que pretendiam causar transfor­
mungado, tendo queimado publicamente a mações ainda maiores na sociedade. Um
bula - documento papal que o condenou. dos mais importantes ocorreu em 1524: a
Exilado na Saxônia, o monge desenvol­ revolta camponesa dos anabatistas - no­
veu sua nova doutrina, que tinha como me pelo qual eram conhecidos os mem­
base os princípios de predestinação, de bros do grupo liderado pelo ex-discípulo
Santo Agostinho. Segundo Lutero, a úni­ de Martinho, Thomas Münzer, que defen­
ca saída para a salvação é a fé, não haven­ dia de forma violenta o fim da proprieda­
do necessidade de intermediários entre o de privada e a distribuição igualitária das
homem e Deus - papel dos sacerdotes no riquezas. Lutero ficou do lado dos nobres,
catolicismo. Além da extinção do clero re­ incitando a repressão, que acabou com a
gular, ele defendia a livre leitura e inter­ execução de Münzer no ano seguinte.
pretação da Bíblia pelos fiéis e a submis­
são da Igreja ao Estado. A REFORMA DE CALVINO � NA FOGUEIRA Católicos queim aram livros em
A nobreza germânica apoiou Lutero, pois A primeira tentativa de reforma na Suí­ reação a o avanço das doutrinas protestantes
suas ideias ofereciam uma justificativa pa­ ça se deu com Ulrich Zwinglio, estudioso
ra que eles se vissem livres da interferência de Lutero, que propôs uma doutrina mais
política da Igreja nos principados germâni­ radical. A briga entre protestantes e cató­ Em 1533, o Parlamento britânico apro­
cos do Sacro Império. No entanto, o Vatica­ licos desencadeou uma guerra civil entre vou o divórcio, e o rei se casou com uma
no pressionou, e, em 1521, o imperador Car­ 1529 e 1531, ano em que Zwinglio morreu. dama da corte, Ana Bolena. No ano se­
los V convocou uma assembleia, a Dieta de A Paz de Kappel determinou a autonomia guinte, Henrique V I I I fundou a Igreja An­
Worms, que condenou Lutero por here­ religiosa para cada região do país. glicana, da qual era líder supremo. Após
sia. Porém, o monge continuou atraindo a Alguns anos depois, chegou a Genebra ser excomungado pelo papa, confiscou as
simpatia dos nobres. Oito anos mais tarde, o religioso francês João Calvino, que re­ terras católicas e extinguiu mosteiros. As
na Dieta de Spira, propôs-se tolerar o lu­ conhecia os princípios da predestinação - propostas da nova religião em muito se as­
teranismo onde já tivesse sido instalado, segundo a qual apenas alguns homens es­ semelhavam às do catolicismo, o que re­
mas impedir sua propagação. Alguns prin- tão destinados à salvação - e da justifica­ sultou em sérios conflitos com os purita­
ção pela fé. No entanto, pregava que as nos no século XVII.
atividades comerciais e financeiras eram

i REBELDES DA FÉ
Veja onde agiram os principais
vistas com bons olhos por Deus e, portan­
to, em vez de condená-las, as encorajava.
Ao justificar a moral da ascendente bur­
CONTRARREFORMA
A reação católica à expansão das dou­
trinas protestantes ficou conhecida como
personagens da Reforma guesia, o calvinismo difundiu-se mais que Contrarreforma. O papa Paulo I I I convo­
o luteranismo. Na Escócia - para onde foi cou, em 1545, o Concílio de Trento, que
levado, por John Knox -, seus seguidores condenou o protestantismo e reafirmou os
foram chamados de presbiterianos; na princípios católicos. A Inquisição foi rea­
França, de huguenotes; e na Inglaterra, tivada, e se instituiu o Index Librorum
de puritanos. Prohibitorum - uma lista de livros proi­
bidos aos católicos. Mas algumas reformas
A REFORMA INGLESA internas foram empreendidas: decidiu-se
Na I nglaterra, a reforma foi desenca­ regular as obrigações do clero e o excesso
deada pelo rei Henrique VIII. Querendo de luxo na vida dos religiosos.
tomar para si o poder que a Igreja Católi­ A Contrarreforma não conseguiu acabar
ca tinha em seu país, ele viu em sua mu­ com o protestantismo, apenas freou sua
lher um bom pretexto para criar tensões expansão. Um de seus maiores êxitos foi a
com a Santa Sé. Argumentando que, após disseminação da fé católica pelas colônias
18 anos de casamento, Catarina de Aragão europeias - inclusive o Brasil -, trabalho
U Fronteira do Sacro Império • República de Gênova não lhe havia dado nenhum herdeiro ho­ realizado pela Companhia de Jesus, a or­
Domínios eclesiásticos • República de Veneza mem, pediu a Roma a anulação do matri­ dem dos jesuítas, criada em 1534. É gra­
Domínios dos Habsburgo • H u ngria austríaca mônio. A requisição foi negada, e Henri­ ças a ela que a América Latina comporta o
8 Ordem Teutônica Império Otomano que VIII rompeu com o papa. maior número de católicos no mundo. 181

[l[ BIBLIOTECA 00 CONGRESSO/EUA [l] REPRODUÇÃO GE HISTORIA 2016 1 45


M U NDO I IDADE MODERNA
ESTA D O M O D E R N O E O A N T I G O R E G I M E

.Ali ENTRADA TRIUNFAL


A pintura mostra o rei Luís XIV
chegando a Paris. O monarca
levou o absolutismo ao extremo,
abusando de seu poder e
ignorando a miséria do povo

"O Estado sou eu"


A frase, atribuída ao francês Luís XIV, mostra bem quem mandava na política da Idade Moderna: os reis.
Veja como eles adquiri ram e puseram em prática tal poder absoluto

O
Antigo Regime foi o estilo de governo com o apoio da burguesia, que tinha forte no Nicolau M(lquiavel, autor de O Prínc pe.
i
que marcou a Europa na Idade Mo­ interesse na centralização política, pois a A obra, que analisa os meios mais adequados
derna. Na esfera política, era caracte­ padronização de pesos, medidas e moedas de conquistar e se manter no poder, consiste
rizado pelo absolutismo, ou seja, o poder fi­ e a unificação da justiça e da tributação fa­ em um tratado político que tem importância
cava todo concentrado nas mãos do rei. No voreciam o desenvolvimento do comércio. fundamental na construção do conceito de
campo econômico, vigorava o mercantilis­ A nobreza, sem forças para se impor, Estado como atualmente o conhecemos.
mo, marcado pelo intervencionismo esta­ acabou por aceitar a dominação real - em Na I nglaterra, o grande nome foi Tho­
tal, com vistas ao acúmulo de metais pre­ alguns casos, após sangrentos conflitos. mas Hobbes, autor de O Leviatã. Ele dizia
ciosos, sinônimo de riqueza do reino. Parte dela foi cooptada por meio da forma­ que os homens tendem a viver em guerra
ção das cortes, constituídas por nobres lu­ constante entre si. Para evitar esse caos,
FORMAÇÃO xuosamente sustentados pelo Estado. seria necessário firmar um contrato social
Desde o fim da Idade Média, existia na Os reis puderam, assim, tomar para si to­ entre os indivíduos, e o cumprimento des­
Europa uma tendência de enfraquecimen­ do o controle político, econômico e militar se acordo só poderia ser garantido com o
to do poder dos nobres, por causa da crise dos países. No auge desse processo de cen­ estabelecimento de um Estado forte.
do século XIV (especialmente das guerras tralização, estabeleceu-se o absolutismo. Na França, destacou-se o cardeal Jac­
prolongadas e das revoltas camponesas). ques Bossuet, segundo o qual o rei era o
Para os reis, que durante o período medie­ TEORIAS representante de Deus na Terra e, por di­
val tinham autoridade quase nula, esse era O fortalecimento do poder real era defen­ reito divino, não devia satisfação de seus
o momento ideal de reafirmar seu poder. dido por vários pensadores da época. Um dos atos. Foi na França que o absolutismo se
Em alguns países, os soberanos contaram mais importantes foi o renascentista italia- estabeleceu de forma mais exemplar.

46 / GE HISTÓRIA 2016
de 1572, quando milhares de protestantes fo­
ram mortos por ordem da Coroa. Os confli­
tos terminaram com a tomada do poder por
Henrique IV, que reconheceu os direitos dos
protestantes pelo Edito de Nantes, de 1598.
Fortalecido após a pacificação do país, ele
deu início à dinastia dos Bourbon.
Seu sucessor, Luís XIII, nomeou primei­
ro-ministro o cardeal Richelieu. Ele inten­
sificou a centralização do poder e a política
mercantilista. No campo externo, interveio
na Guerra dos Trinta Anos (1618/1648), ao
lado dos protestantes, derrotando os Habs­
burgos e os reinos católicos do Sacro Impé­
rio. Os tratados firmados no fim da guerra
(Paz dos Pirineus e Tratado de Westfália)
selaram a decadência da Espanha e a ascen­
são da França à condição de potência conti-
1 nental e fundaram o conceito da soberania
.4 PORTO NA REGIAO DA ATUAL ITALIA A balança comercial favorável era um dos pilares do mercantilismo dos Estados nacionais, considerados a par­
tir de então os únicos sujeitos legítimos de
acordos internacionais (os acordos deixam
de depender da mediação e do reconheci­
INGLATERRA te, abrindo caminho para que um herdeiro mento do Império e da Igreja).
A monarquia inglesa teve início em 1066, indireto de ambas assumisse o poder: Henri­ No governo seguinte, de Luís XIV (1643-
quando o duque da Normandia, William I que VII, que fundou a dinastia Tudor. Com a 1715), o absolutismo chegou ao auge. Co­
(também conhecido como Guilherme, o nobreza enfraquecida e o apoio popular, em nhecido como o Rei Sol, ele passou a viver
Conquistador), i nvadiu o país e impôs um razão do fim das guerras, Henrique VII for­ em clima de luxo exacerbado, na corte, no
governo centralizado. Mas o poder real era ­ taleceu sua autoridade. Seu filho e sucessor, Palácio de Versalhes, fora de Paris. O mo­
e, de certa forma, sempre seria - limitado. Henrique VIII, foi além, ao promover a Re­ do de vida do rei tornou-se símbolo do ab­
A Magna Carta, de 1215, e o Parlamento - forma Religiosa no país (veja na pág. 44). solutismo francês. A economia ficou a car­
instituição central na história política in­ Mas o auge do absolutismo inglês se­ go do ministro Colbert, um burguês que
glesa, criada em 1264 submetiam as de­ - ria atingido entre 1558 e 1603, no governo levou ao extremo a política mercantilista.
cisões do soberano à aprovação dos nobres. de Elizabeth I. Hábil administradora, ela
A primeira fase do absolutismo inglês co­ conseguiu manter o Parlamento sob rela­ MERCANTILISMO
meçou após a Guerra das Duas Rosas (1455- tivo controle e promoveu grande expansão Uma série de medidas econômicas, conhe­
1485), quando as duas mais importantes fa­ da economia. Foi em seu reinado que a In­ cidas pelo nome de mercantilismo, garantiu,
mílias da nobreza do país, Lancaster e York, glaterra derrotou a I nvencível Armada da durante o Antigo Regime, a manutenção do
se enfrentaram pela sucessão do trono. Elas rival Espanha e fundou a primeira colônia Estado absolutista e de seus suntuosos gas­
praticamente se exterminaram mutuamen- inglesa na América. Após sua morte, o país tos com o aparelho administrativo, o Exér­
viveria um período de conflitos entre o rei cito e, principalmente, com a corte.
e setores ligados à burguesia que resulta­ A base inicial dessa política era o metalis­
ria no fim do absolutismo (veja na pág. 51). mo, a ideia de que a riqueza de um país de­
pendia de sua capacidade de acumular me­
FRANÇA tais preciosos. Mais tarde, percebeu-se que
Na França, o absolutismo seria mais con­ isso não bastava: era necessário desenvolver
sistente e duradouro. A autoridade real e o a produção interna. Aí se destacaram ou­
sentimento de nacionalidade começaram a tros princípios, corno o da balança comer­
se fortalecer no país após a vitória na Guer­ cial favorável, no qual o valor (expresso em
ra dos Cem Anos (1337-1453) (veja na pág. moeda metálica) das exportações deve su­
37). Nas décadas seguintes, os monarcas perar o das importações. Para isso, muitos
ampliaram os territórios sob seu domínio e, Estados implantaram medidas protecio­
aliados à burguesia, estenderam o contro­ nistas, corno barreiras alfandegárias pa­
le real sobre a economia. A nobreza passou ra produtos estrangeiros, o que favorecia a
a integrar urna numerosa corte. Formou-se, manufatura e o artesanato nacionais.
assim, uma grande aliança entre o monar­ A conquista e a exploração de colônias
ca, os burgueses e os nobres, que duraria também eram fundamentais. Pelo pacto
até a Revolução Francesa (veja na pág. 58). colonial, os Estados absolutistas europeus
Na segunda metade do século XVI, a Fran­ retiravam os recursos que bem desejavam
ça viveu intensos embates entre católicos de seus domínios em outros continentes e
lll e protestantes. Destacou-se o episódio da forçavam os povos colonizados a comprar
.4 MONSTRO SOBERANO Capa do livro O Leviatã Noite de São Bartolomeu, em 24 de agosto os produtos fabricados na metrópole. I8J

Jll REPROOUÇÃO lliGALERIA OOS OFICIOS/FLORENÇA [li BIBLIOTECA OO CONGRESSO/EUA GE HISTORIA 2016 1 47
M U N D O ! IDADE MODERNA
E XPAN SÃO M A R ÍT I M A E C O M E R C I A L E U RO P E I A

i AO INFINITO E ALÉM
Navegar Conheça os comandantes e as rotas das grandes navegações europeias

e preCISO
• •

Em busca de mercados e poder} os Oceano


PJcilico

europeus enfrentaram os oceanos


desconhecidos e marcaram
presença em todo o globo
• Portugal e seu império O Cristóvão Colombo O Vasco da Gama
colomal até 1580
• Espanha e seu império
O Fernão de Magalhães O Pedro A. Cabral

A
expansão marítimo-comercial com­
colonial até 1580 O Bartolomeu Dias
preende o período das grandes viagens
empreendidas pelos países europeus Fonte;José A1rudd e Nelson Piletri, Toda a História, 3 edv Aticot pAgs. XVII, XVIII

nos séculos XV e XVI em busca de riquezas


além-mar. Inseridas no contexto do desen­
volvimento do mercantilismo, elas resulta­ pelo navegador Bartolomeu Dias, que, em CONSEQUÊNCIAS
ram numa importante revolução comercial 1488, contornou o cabo da Boa Esperança: Além de resultar na descoberta de novas
e na formação de vastos impérios coloniais. Dez anos depois, Vasco da Gama chegou à terras e rotas comerciais e na formação de
Índia. Em 1500, a expedição de Pedro Ál­ enormes impérios coloniais, principalmen­
MOTIVOS E CONDIÇÕES vares Cabral aportou no Brasil. te na América (veja a matéria na pág. ao la­
A principal motivação das grandes nave­ Os portugueses estabeleceram diversos do), as grandes navegações provocaram al­
gações foi a necessidade de quebrar o mo­ pontos de comércio nos locais em que pa­ terações profundas na sociedade europeia.
nopólio no comércio de especiarias. Até ravam. Criaram, assim, seu império maríti­ O Velho Mundo se tornou o centro e
então, mercadores de Gênova e Veneza con­ mo-comercial, que, a princípio, só tinha ob­ o principal beneficiado de um comér­
trolavam a entrada dos produtos vindos do jetivos de exploração, não de povoamento. cio mundial que interligava quatro con­
Oriente. Era preciso encontrar outra rota tinentes. A diversificação dos produtos e
que evitasse o mar Mediterrâneo. Além dis­ EXPANSÃO ESPANHOLA o aumento dos valores negociados pro­
so, a Europa vivia um momento de esgota­ Ocupados com a unificação dos reinos lo­ porcionaram um enriquecimento maci­
mento das minas de metais preciosos, o que cais de Aragão e Castela, que ocorreu em ço das burguesias. Essas mudanças, co­
provocava uma verdadeira sede de ouro. 1469, e com a expulsão dos árabes, na Guer­ nhecidas como Revolução Comercial,
Mas, para empreender tamanha aventu­ ra da Reconquista, que só se concluiria em estabeleceriam as condições financei­
ra, era necessário um Estado centraliza­ 1492, os espanhóis começaram sua expan­ ras necessárias para uma transformação
do e forte. Também era fundamental ter a são marítima um pouco mais tarde. ainda maior que viria a acontecer no século
tecnologia apropriada: navios, mapas, ins­ Em 1492, os reis Fernando de Aragão e XVIII: a Revolução Industrial (veja a maté­
trumentos de navegação etc. Os países que Isabel de Castela aprovaram o audacio­ ria na pág. 60). 181
primeiro reuniram essas características fo­ so plano de Cristóvão Colombo de chegar
ram Portugal e Espanha. ao Oriente indo rumo ao Ocidente (veja no

EXPANSÃO PORTUGUESA
Com a unificação como monarquia na­
mapa acima). No meio do caminho, no en­
tanto, o navegador deparou com a ilha de
Guanaani, atualmente parte das Bahamas.
- A HISTÓRIA HOJE •••••

cional desde 1385, quando João I venceu a Mais tarde, o episódio ficaria conhecido co­ OMC REGULA O COMÉRCIO
disputa com o reino de C as tela e assumiu o mo o descobrimento da América. Porém, INTERNACIONAL
trono do país na Revolução de Avis, Por­ até então, pensava-se que as terras faziam Com a missão de promover a abertura dos merca­
tugal foi a primeira nação europeia a lan­ parte da Ásia. Sendo assim, Portugal rei­ dos internacionais, a Organização Mundial do Co­
Çar-se ao oceano Atlântico. Além do go­ vindicou direitos sobre as áreas descober­ mércio (OMC) vê sua margem de ação cada vez mais
verno forte, outros fatores que explicam tas, e, em 1494, as duas potências assinaram reduzida. As dificuldades em liberalizar o comércio
a primazia portuguesa são a posição geo­ o Tratado de Tordesilhas, dividindo en­ global decorrem do fato de que cada país tem interes­
gráfica favorável, a situação de paz inter­ tre si as terras já conhecidas e as que ainda ses específicos. De modo geral, os mais ricos querem
na, a determinação de disseminar a fé cris­ seriam descobertas por meio de uma linha eliminar as taxas de importação dos setores em que
tã e a avançada tecnologia náutica. imaginária (veja no mapa acima). são mais competitivos, como o industrial e o de ser­
A conquista de Ceuta, na costa do Mar­ Somente nos primeiros anos do século se­ viços. já as nações menos desenvolvidas preferem
rocos, marcou o início da expansão ultra­ guinte, a existência do novo continente se­ uma abertura comercial maior no setor agrícola. A si­
marina portuguesa, em 1415 (veja no mapa ria confirmada, pelo navegador florentino a tuação piorou com a crise mundial, que levou muitos
acima). O segundo grande passo foi dado serviço da Espanha Américo Vespúcio. países a adotar medidas ainda mais protecionistas.

48 ] GE HISTÓRIA 2016
M U N D O ! I DA D E M O D E R N A
COLO N I ZAÇÃO D A A M É R I CA

Quintal
continental
Os europeus invadiram/ conquistaram/
escravizaram e exploraram quanto
puderam. Ao mesmo tempo/ forjaram
as bases políticas/ econômicas e
..A OPRESSÃO Os nativos americanos foram escravizados e exterminados pelos colonizadores europeus sociais do que hoje é a América

1111 A HISTORIA HOJ E ---­


A
pós a chegada de Cristóvão Colombo la importar aquilo de que precisasse - com
à América, em 1492, as potências ul­ altos valores. Esse era o tipo de colonização
tramarinas começaram a se instalar empregado pela Inglaterra (na porção sul de HERANÇAS COLONIAIS
no novo continente. Os colonizadores dizi­ sua colônia) e por Espanha e Portugal (veja Na América do Sul, a produção de gêneros agríco·
maram boa parte dos nativos, subjugaram colonização portuguesa na pág. 98). las voltados para a exportação reproduz uma das
os restantes e exploraram intensamente Já a colonização de povoamento foi imple­ características centrais da forma de exploração
quase a totalidade das terras durante cerca mentada na parte norte da colônia inglesa, implantada pelos conquistadores europeus nas pri·
de três séculos, o que resultou em um vigo­ onde o clima não permitia o cultivo de itens me iras décadas da colonização. Do Caribe, passan·
roso fluxo de riquezas para a Europa. diferentes dos plantados na Europa. A pro­ do pelo litoral do Nordeste brasileiro e chegando à
dução era voltada para o consumo interno Argentina, açúcar, carne e cereais eram produzidos
FORMAS DE COLONIZAÇÃO e predominavam a pequena propriedade, a para abastecer o mercado europeu. Desde então,
As colônias europeias dividiam-se, de ma­ policultura e a mão de obra familiar. esses países têm se mantido como exportadores
neira geral, em dois tipos: as de exploração de produtos primários, e somente após a Grande
e as de povoamento. As primeiras, voltadas ESPANHOIS Depressão dos anos 1930 esse quadro sofreu altera·
para o abastecimento do mercado europeu, A América pré-colombiana era ocupa­ ção, com o desenvolvimento da indústria em locais
caracterizavam-se pela grande proprieda­ da por uma população de 50 milhões a 100 como o Brasil. Nos últimos anos, entretanto, a ele·
de, pela monocultura e pelo trabalho escra­ milhões de indígenas, que formavam desde vação nos preços das commodities tem reforçado
vo - uma forma eficiente de produzir muito agrupamentos primitivos até civilizações a vocação agrícola dessas nações.
com custo baixo. Além de agricultura, pra­ sofisticadas. A colonização espanhola teve Outra herança do passado colonial é o fato de
ticava-se intensa extração de metais. Nes­ início com a ocupação das ilhas do Caribe que até hoje as ex·colônias correm atrás do de·
sas regiões, valia o pacto colonial, segundo durante as viagens de Colombo. Em 1531, o senvolvimento atingido pelas metrópoles, apre·
o qual a colônia só podia vender sua produ­ México foi dominado, e a população asteca, sentando, de modo geral, economias instáveis e
ção à metrópole - a preços reduzidos - e de- devastada. No Peru, a conquista do Impé- enormes desigualdades sociais.

[lJ MUSEU QUAUNAHUAC/INAH/MEXICO GE HISTORIA 2016 1 49


e
·.
M U N DO I I DA D E M O D E R N A
C O LO N IZAÇÃO DA A M É R I CA

rio Inca começou em 1532 (veja mais na pág. merosa foi a indígena. Com os AMÉRICA COLONIAL
23). No fim do século XVI, a Espanha já ha­ negros, os nativos estavam na Confira os antigos domínios �spanhóis, · . , ..< 'l,
·
portugueses, franceses, ingleses e ·· ;.
via tomado posse da maior parte de sua co­ base da pirâmide social e, ape­ · ·�

holandeses no Novo Mundo .


lônia americana. Os nativos foram extermi­ sar de não serem oficialmen­ i .

nados por doenças e guerras ou obrigados a te considerados escravos, eram


servir como mão de obra. tratados como tal.
Após a conquista, as autoridades espa­ O clero católico que foi para
nholas trataram de organizar a explora­ a América condenava a explo­
ção. Para isso, criaram a Casa de Contra­ ração dos índios. Algumas ini-,...,.
tação, que controlava o comércio entre ciativas, como a criação das re­
Espanha e América e punia quem tentas­ duções - espaços controlados
se burlar o monopólio. A terra foi dividi­ pelos eclesiásticos nos quais
da em quatro vice-reinos - Nova Espanha, os nativos eram catequiza­
Nova Granada, Peru e Rio da Prata - e em dos, alfabetizados e se dedica­
capitanias - as principais eram as de Cuba, vam à agricultura -, tentaram
Flórida, Guatemala, Venezuela e Chile. amenizar o sofrimento indíge­
A principal atividade econômica das co­ na. Quanto ao escravo negro, a
lônias espanholas era a extração de metais Igreja pouco se manifestou.
preciosos, principalmente a prata do Peru e
do México. A mão de obra indígena era ex­ INGLESES
plorada por meio da mita - regime de traba­ No século XVII, os ingleses
lho forçado que durava quatro meses ao ano. decidiram ocupar o vazio dei­
A prática também era aplicada à agricultu­ xado na América do Norte pe­
ra, que recebia o nome de encomienda. los espanhóis - a quem a terra • Colonização espanhola
A estrutura social da América espanhola pertencia, segundo o Tratado Colonização portuguesa
Colonização inglesa
era dominada pelos chapetones, espanhóis de Tordesilhas. Para iniciar a
• Colonização francesa
que cuidavam da administração. Abai­ colonização, foi criada a Com­ • Colonização holandesa
xo deles estavam os criollos, descenden­ panhia de Plymouth, que cui­
FontH:/osé �rrud.J e Ntlson PileW, Toda a História, J edyA!ic.J, pJ
I..XXI
tes de europeus que formavam a aristocra­ dava do norte, e a Companhia P.Jtríciil �mels e Stephen Hyslop, Atlas da História do Muodo, Aiml, pJg. l99

cia local e exerciam o controle das câmaras de Londres, responsável pelo


municipais - também conhecidas por ca­ sul. Ao todo, foram fundadas 13
bildos ou ayuntamientos. Já os mestiços colônias ao longo da costa. Alguma atividade manufatureira era tole­
eram artesãos ou capatazes, sempre com O norte foi habitado por refugiados po­ rada pela metrópole na região, que cresceu
cargos intermediários na escala produtiva. líticos e religiosos - protestantes calvinis­ economicamente e passou a escoar o exce­
Os negros escravos trabalhavam geralmen­ tas. Eles formaram pequenas propriedades dente para os mercados do sul. Mais tarde,
te nas lavouras. Mas a mão de obra mais nu- baseadas no trabalho livre e no artesanato. criou-se o comércio triangular: merca­
dores da colônia fabricavam rum, que era
trocado por escravos na África; estes, por
sua vez, eram vendidos no Caribe e nas co­
lônias do sul. Nessas últimas, foi implan­
tado um esquema de monocultura algodo­
eira, destinada à exportação, com uso de
mão de obra escrava trazida da África.
Durante anos, a Inglaterra não controlou
totalmente as suas Treze Colônias do norte,
que desenvolveram uma tradição de auto­
governo, fundamental na luta pela indepen­
dência dos Estados Unidos (veja na pág. 53).

FRANCESES E HOLANDESES
Em menor escala, França e Holanda tam­
bém marcaram presença na colonização da
América, a partir do século XVII. Ambos
ocuparam parte das Guia nas e das Antilhas
(ilhas do Caribe) e, nessas últimas, implan­
taram forte esquema de exploração basea­
do na produção açucareira. Tanto france­
ses quanto holandeses ocuparam durante
determinado tempo terras brasileiras. A
111 França ainda teve importante atuação na
� TOMA LA, DACA Os colonizadores i n gleses negociaram com os i n d ígenas que viviam na costa América do Norte, onde fundou Québec e
do Atlântico da América do Norte, região onde fundaram suas Treze Colônias Montreal - atualmente, no Canadá. 0

50 I GE HISTORIA 2016
M U N D O ! I DA D E M O D E R N A
REVO L U Ç Õ E S I N G L ESAS D O S ÉC U LO XV I I

Xeque·
mate
Em d uas jogadas, a burguesia
inglesa deu o gol pe final
no poder absoluto do rei,
deixando a política nas m ãos
do Parlamento e a economia a
cam inho da Revol ução Industrial
ll)

� EXECUÇÃO REAL O rei inglês Carlos I é morto em 1649, após a vitória do levante liderado por Oliver Cromwell

A
· s revoluções inglesas do século XVII
foram duas: a Revolução Puritana,
que estourou em 1642 e resultou na
substituição da monarquia por uma repú­ foi executado, e a monarquia, abolida, e Em novembro de 1688, Guilherme desem­
blica temporária; e a Revolução Gloriosa, instalou-se a República Puritana, liderada barcou na Inglaterra e foi coroado Guilher­
de 1688, que pôs fim ao absolutismo, con­ por Cromwell. me Ill. Para consolidar a supremacia legisla­
solidando a supremacia do Parlamento so­ Nacionalista, uma de suas principais me­ tiva, o Parlamento promulgou a Declaração
bre a autoridade real. Ambas foram, na es­ didas foi a promulgação dos Atos de Nave­ de Direitos (em inglês, Bill of Rights), que
sência, revoluções burguesas, que abriram gação, em 1651, segundo os quais somente limitou fortemente a atuação do rei. O abso­
alas para a instalação do capitalismo no sé­ embarcações inglesas poderiam transpor­ lutismo foi abolido na Inglaterra e substituí­
culo seguinte. tar mercadorias procedentes ou destinadas do por uma monarquia constitucional.
à Inglaterra, o que alavancou a economia A grande beneficiada pelas revoluções
REVOLUÇÃO PURITANA do país. Fortalecido, Cromwell dominou inglesas do século XVII foi a burguesia, es­
Na Inglaterra, os calvinistas eram cha­ o Parlamento, dissolvendo-o mais de uma pecialmente a parcela dedicada às ativida­
mados de puritanos. A religião era popu­ vez, e governou como um ditador até a des manufatureiras. Ela pôde ver, a partir
lar sobretudo entre os ex-camponeses e os morte, em 1658. de então, ruir as restrições mercantilistas,
pequenos burgueses, que andavam descon­ típicas do período absolutista, e abrir-se o
tentes. Os primeiros haviam sido expul­ REVOLUÇÃO GLORIOSA caminho para o desenvolvimento do capi­
sos das lavouras durante os cercamentos, Com a morte de Cromwell, seu filho, Ri­ talismo industrial, no século XVIII. li1l
ocorridos ainda no fim da Idade Média, cardo, assumiu o poder, mas não foi capaz
quando os nobres substituíram a agricul­ de assegurar a estabilidade do governo. Te­
tura autossuficiente pela lucrativa criação mendo que lideranças populares do Exér­
de ovelhas, que alimentava as manufaturas cito assumissem o controle da república,
de lã. E os pequenos burgueses reclama­ o Parlamento decidiu restaurar a monar­
vam por não ter acesso à exportação, cujo quia, regime no qual o chefe de Estado des­
monopólio era concedido pelo rei a poucos cende de uma linhagem aristocrática. Os
comerciantes. Stuart voltaram ao poder, com Carlos II,
Mas o puritanismo - que conflitava com a coroado em 1660.
doutrina oficial do reino, o anglicanismo - Contemporâneo do francês Luís XIV, so­
também crescia no Parlamento, tornando berano que levou o absolutismo ao seu má­
cada vez mais uma ameaça às pretensões ximo, Carlos II quis impor um regime se­
absolutistas da dinastia Stuart, que substi­ melhante na Inglaterra. Seu sucessor,
tuíra os Tudor após a morte de Elizabeth I, Jaime li, que assumiu o trono em 1685, ti­
em 1603. nha as mesmas pretensões. Além disso, ha­
As tentativas do rei Carlos I de criar im­ via se convertido ao catolicismo, o que o
postos sem a aprovação do Parlamento de­ tornava ainda mais impopular. Burgue­
sencadearam uma guerra civil em 1642. O ses e parlamentares reagiram: ofereceram
Parlamento organizou um Exército popu­ a Coroa inglesa ao holandês Guilherme de
lar liderado por Oliver Cromwell, um pu­ Orange, genro de Jaime li. Em troca, pedi­
ritano oriundo da pequena burguesia. Os ram a manutenção do anglicanismo e a li­
combates estenderam-se até 1649. Carlos I berdade do Parlamento. � OLIVER CROMWELL A cabeça por trás da revolução

11] PENNSYLVANIA ACAOEMY DF THE FIN[ ARTS/EUA [2]REPROOU ÇÃO [3]NATIONAL PORTRAIT GALLERY/LONDRES GE HISTÓRIA 2016 1 51
M U N D O I I DA D E M O D E R N A
L I B E R A L I S M O E I LU M I N I S M O

Razão
libera(ismo
e progresso
Para obter mais poder econômico
e político/ a b u rguesia europeia do
século XVIII apresentou ao Ocidente
uma nova maneira de pensar � DIFUSAO DO SABER Para divulgar seus ideais, os iluministas criaram e distribuíram a Enciclopédia

O
Iluminismo foi a corrente de pensa­ da, e cabia ao Estado proteger esses direi­ za de uma nação - em oposição ao comércio,
mento dominante na Europa do sé­ tos, o que limitava seu poder. em que não há produção, apenas troca.
culo XVIII e defendeu o predomínio O também francês Vincent de Gournay,
da razão sobre a fé, representando a visão de SÉCULO DAS LUZES discípulo de Quesnay, cunhou a expressão
mundo da burguesia. Seus pensadores ne­ Os importantes avanços econômicos, cul­ que depois se tornaria símbolo do liberalismo
gavam as doutrinas absolutistas e mercan­ turais e científicos levaram à crença de que econômico: "Laissez faire, laissez passer, le
tilistas e apoiavam valores liberais, tanto na o destino da humanidade era o progresso. monde va de Iui même" ("Deixe fazer, deixe
política quanto na economia. O auge dessa efervescência se deu no século acontecer, o mundo vai por si mesmo").
XVIII - o "século das luzes". Além do racio­ Em sua obra A Riqueza das Nações (1776),
ORIGENS nalismo e do liberalismo, outro princípio ilu­ o pensador escocês Adam Smith aprofun­
Os primeiros teóricos do Iluminismo in­ minista é o anticlericalismo - posição polí­ dou ainda mais esses ideais, ao afirmar que
troduziram as bases do movimento ainda tica contrária ao poder da Igreja. a economia funcionava por si mesma, como
no século XVII, influenciados pelas trans­ Os três nomes mais significativos do Ilu­ se uma "mão invisível" a dirigisse. Ele con­
formações que vinham ocorrendo na Euro­ minismo francês foram os filósofos Voltai­ denava o mercantilismo, via o trabalho co­
pa, como o Renascimento, a Reforma Reli­ re, Montesquieu e Jean-Jacques Rousseau. mo única fonte de riqueza e pregava a livre
giosa, a expansão marítimo-comercial e a O primeiro, ligado à alta burguesia, era um concorrência e a não intervenção do Esta­
ascensão da burguesia. crítico fervoroso do absolutismo, da nobreza do na economia, fundamentando, assim, o
O racionalismo foi fundamentado como e, principalmente, da Igreja. Na política, Vol­ liberalismo econômico.
método científico pelo francês René Descar­ taire foi um dos inspiradores do despotismo
tes, que, em 1637, estabeleceu a razão como esclarecido (veja mais a seguir). Rousseau era DESPOTISMO ESCLARECIDO
único caminho para o conhecimento. Des­ identificado com a baixa burguesia e com os O Iluminismo aterrorizava os soberanos.
cartes partia de verdades básicas - axiomas ­ trabalhadores miseráveis, posicionando-se a No entanto, alguns viram que, para se man­
para atingir conhecimentos mais amplos. Seu favor do Estado democrático e republicano. ter no poder, era preciso adotar reformas de
primeiro axioma ficou famoso: "Penso, logo Trabalhou com a noção do bom selvagem, cunho iluminista. Essa tentativa de moderni­
existo". Segundo o pensamento iluminista, o segundo a qual o homem nasce bom, mas de­ zação ficou conhecida como despotismo es­
avanço do conhecimento poderia se dar tanto pois é corrompido pela sociedade. Foi o maior clarecido. Seu objetivo era aliviar as tensões
pela via do racionalismo abstrato de Descar­ ideólogo da Revolução Francesa. entre a nobreza e a burguesia e preservar as
tes como pela via do empirismo inglês. A fim de divulgar o conhecimento, os ilu­ monarquias absolutistas europeias.
· Nas ciências exatas, o físico inglês Isaac ministas conceberam a Enciclopédia, obra Algumas das medidas adotadas por esses
Newton também revolucionou o pensamen­ com 35 volumes contemplando todo o co­ governantes foram a limitação do poder da
to da época, ao afirmar que o universo seria nhecimento existente até então. Igreja Católica e a redução dos privilégios da
regido por leis próprias, que podem ser co­ aristocracia e do clero. Os principais déspotas
nhecidas pelo homem por meio da ciência. LIBERALISMO ECONÔMICO esclarecidos foram Frederico li, da Prússia; o
Os princípios da política iluminista - li­ Os iluministas também condenavam o marquês de Pombal, ministro de dom José I,
beralismo foram formulados pelo filó­
- sistema econômico do Antigo Regime, o de Portugal; Catarina II, da Rússia; e José II,
sofo inglês John Locke, que defendia uma mercantilismo. Os primeiros contestado­ da Áustria. Apesar das mudanças, a partici­
relação contratual entre o monarca e seus res foram os fisiocratas, como os franceses pação política da burguesia e do povo conti­
súditos. Para Locke, o homem possuía di­ Jacques Turgot e François Quesnay. Eles nuava limitada, o que levaria a revoltas, en­
reitos como liberdade e propriedade priva- consideravam a terra a única fonte de rique- tre elas a Revolução Francesa, em 1789. 181

52 1 GE HISTORIA 1016
MUNDO I IDADE MODERNA
IND E P E N D Ê N C I A D O S E STA D O S U N I DO S

Liberdade no Novo Mundo


Influenciados pelo Iluminismo, FORMAÇÃO DOS EUA
Veja como foi construido o atual
os norte-americanos tornaram­ território norte-americano

se independentes dos ingleses


no fim do século XVI II, • Antigas Treze Colônias
Obtido da Inglaterra no
Tratado de Versa lhes - 1783
o que deu origem à primeira • Comprado da França - 1803
• Anexado em 1812-1819
nação do continente l ivre • Cedido pela Inglaterra - 1846 oceano
• Cedido pelo México - 1848
do domínio colonial Comprado do México - 1853
Pacífico

Anexação do Texas - 1845·1848

A
independência dos Estados Unidos
(EUA) foi um processo que começou
em 1776 - ano em que as Treze Colô­ · ,, HAVAI
nias declararam sua separação da Inglater­ .. .... '
Comprado da Rússia - 1867 Anexado em 1898 Fontt:josé Arruda e Nelson Pi/etri, Toda a História, 1 ed., Atica, pJg. XXI
ra e teve início a guerra entre as duas na­
ções - e estendeu-se até 1783, quando os
ingleses, derrotados, reconheceram a so­
berania de sua ex-colônia. Surgia, assim, o
primeiro país independente das Américas. e a Lei do Selo (1765) - que taxava documen­ UM NOVO PAÍS
tos oficiais, livros e jornais (veja na pág. 50). A Constituição dos EUA foi publicada em
ORIGENS Em 1773 foi a vez da Lei do Chá, que con­ 1787, equilibrando a tendência republicana
Apesar de ter vencido a Guerra dos Sete feriu o monopólio do comE'rcio do produto (que pregava um poder central forte) com a
Anos (1756-1763), contra a França, a Ingla­ à Companhia Britânica das Índias Orien­ federalista (defensora da autonomia política
terra saiu do conflito em péssima situação tais. Prejudicados, comerciantes norte­ para os estados). Foi adotada como forma de
financeira. A solução encontrada foi inten­ americanos destruíram centenas de caixas governo a República federativa presidencia­
sificar a exploração das Treze Colônias por da mercadoria inglesa no porto de Boston, lista, com a separação dos três poderes. Em
meio de impostos como a Lei do Açúcar no episódio conhecido como Festa do Chá, 1789, George Washington foi eleito o primei­
(1764) - que afetava a produção de rum e, ou Revolta do Chá. Como punição, o go­ ro presidente norte-americano.
consequentemente, o comércio triangular - verno inglês interditou o porto e cobrou A independência dos Estados Unidos co­
uma alta indenização. As Treze Colônias laborou para o fim do Antigo Regime eu­
reagiram redigindo a Declaração de Di­ ropeu, ao estimular movimentos seme­
AS TREZE COLONIAS EM 1776 reitos - que exigia igualdade entre coloni­ lhantes nas demais colônias na América e
Confira como era o território dos EUA zadores e colonos - e impondo um boicote ao contribuir para a eclosão da Revolução
na época da independência
comercial à metrópole. Francesa (veja a matéria na pág. 58). Vale

·-=�7\_ DECLARAÇAO E GUERRA


lembrar, no entanto, que os Estados Unidos
se tornaram independentes, mas não abo­
�. >� Em 4 de julho de 1776, uma comissão liram a escravidão, que permaneceu nos
� r:./, ,.._...--./
''.,... _,.. / reunida na Filadélfia, liderada pelo políti­ estados do sul. I8J
MASSACHUSETTS co Thomas Jefferson, promulgou a Decla­
RHOOE ISLAND

ração de Independência, proclamando a
CONNECTICUT
NOVA ]ERSEY liberdade do país. Inspirada nos ideais do
DELAWARE Iluminismo, ela defendia a liberdade indi­
MARYLAND
vidual e o respeito aos direitos fundamen­ E NO BRASIL...
tais do ser humano.
A tensão entre as Treze Colônias e a me­ INSPIRAÇAO GRINGA
trópole evoluiu para uma guerra. Lidera­ Treze anos depois da declaração de
dos pelo fazendeiro George Washington e independência dos EUA, um grupo
apoiados por França e Espanha, os rebeldes de brasileiros influenciados pela
··---'"'\.

\
finalmente derrotaram o Exército inglês em façanha norte-americana tentou

�'- 1781, na Batalha de Yorktown. Dois anos de­


pois, foi assinado na Europa o Tratado de
realizar um movimento semelhante
por aqui, que acabou fracassando:
\ I
"'--:j! Paris, no qual a Coroa britânica reconhe­ a Inconfidência Mineira (veja mais
..
Fonte:jasé Arruda e Nelson Pilett� Toda a História,J � Atica. pJg. XXI ceu a independência dos EUA. na pág, 105).

I!I MUSEU OE BELAS ARTES OE OljON/FRANÇA GE HISTÓRIA 2016 1 53


M U N D O I I DA D E M O D E R N A
EXERCÍCIOS E RESUMO

� COMO CAl NA PROVA


(UFPR 2013) Considere os dois extratos de documentos abaixo: Naturalismo: os estudos da natu reza e dos fenômenos naturais e da
L i lustrações publ icadas na obra De humani corpo ris fabrica, do anatomia h umana (como mostra a imagem);
médico belga André Vessálio (1543). Individualismo: vontade, talento e capacidade de ação são regidos pe­
la l i berdade i n d ividual e pelo seu l ivre arbítrio.

(FUVEST 2014) "O problema agrário era portanto o fundamen­


tal n o ano de 1789, e é fácil compreender por que a p r i m e i ra es-
cola sistematizada d e economia do continente, os fisiocra­
tas franceses, tomara como verdade o fato de q u e a terra, e o aluguel
da terra, era a ú n ica fonte d e renda líq uida. E o ponto crucial d o pro­
blema agrário era a relação entre os que cu ltivavam a terra e os que a
possuíam, os q u e produziam sua riq ueza e os q u e a acu m u lavam."
Eri c Hobsbawm. A era das revo lu ções. 1789 1848. Rio de janeiro: Paz
e Terra, 1982, p. 29.
a) Caracterize o momento social e econômico por q u e a França passa­
va no período a q u e se refere o texto.
b) Quais são as princi pais d iferenças entre as propostas fisiocratas e
as práticas mercantilistas anteriores a elas?

� RESOLUÇÃO
(http.//www.nlm.nih.gov/exhibition!historicalanatomies/vesalius_home.html). a) A França pré-revo l u c i onária vivia sob o Abso lutismo. o m o d e l o
social estava ancorado n u m a d ivisão d a sociedade e m estamentos:
2. "Ac o n s e l ho-te, m e u fi l h o, a q u e e m pregues a tua j u v e n t u d e e m clero, nobreza e o genericamente conhecido como terceiro estado,
tirar bom p roveito d o s estudos e das virtudes (. . .) Do d i reito c i v i l constituído do mais rico b u rguês latifu n d i ário o u ban q u e i ro até o
q u e ro q u e saibas d e cor os belos textos e q u e mos com pare com fi­ mais h u m i l d e d o s servos. O tercei ro estado criticava esse m o d e l o,
losofia. E n q uanto ao c o n h e c i m ento das coisas da natu reza, q uero pois ele estabelecia privilégios aos o utros dois estados, q u e eram
q u e a isso te e ntregues curiosamente ( . . . ) d e p o i s ( ... ) revisita os l i ­ isentos d e tributação. O m o d e l o econ ô mico era estruturado no
v r o s d o s méd icos gregos, árabes e lati n o s, sem des prezar os tal m u ­ m e rcanti l ismo, sendo fortemente regido pelo Estado, com barrei ras
d i stas e cabalistas, e p o r fre q u e ntes anato m ias ad q u i re pe rfeito comerciais e protecionismo. Nesse período, apesar d e poss u i r
co n h e c i m e nto d o o utro m u n d o [o m i crocosm os] que é o h o m e m ." u m a i n d ústria i n c i p i ente, a eco n o m ia francesa era baseada na
RABELA IS, Fra nçois. Pan tagruel [1532]. In: FREITAS, Gustavo o e. agric u l t u ra. Mas o modelo estava em crise em função das secas
goo textos e d o c u m e ntos de H i stó ria. Lisboa: Plá ta n o, 1976, v. 11. q u e afetaram a colheita e a uma i neficiente pol ítica agrária, q u e
mant i n ha a s terras sob controle d a aristocracia.
Considerando os documentos acima, além dos conhecimentos sobre o
período, d isserte sobre as principais características do Renascimento, b) A fisiocracia surge em oposição ao mercantilismo, q u e defende a
relacionando-as com as transformações sociais em cu rso na Europa. intervenção estatal na eco n o m i a e considerava a posse de m etais
preciosos a base da riqueza nacional. Etimologicamente, a palavra
fisiocracia s i g n i fica "governo da natu reza". Vem daí a noção de q u e
� RESOLUÇÃO a m ai o r geradora d e riquezas é a agricu ltura. Defe n d e n d o menos
O Renascimento Cultural ocorreu na E u ropa entre os séculos XIV e XVI. i ntervencionismo d o Estado na eco n o m i a, a fisiocracia esti m u l o u
o movimento estava i ntimamente ligado ao renasci mento comercial e a s teses d e Adam Smith sobre o l i bera l i s m o econômico.
urbano e, por isso, floresceu em cidades italianas q u e faziam comércio
com o Oriente. Essa l igação com a atividade mercantil justifica os
valores burgueses presentes nas características renascentistas. (Fatec 2013) "As caravelas foram u m grande avanço tecnoló­
O Renascimento marcou a passagem da Idade Média para a Idade gico no fi nal d o século XV. Graças a e las, foi possível real izar
.Moderna, caracterizado pelo absol utismo no plano político. viage n s de longa d istância de forma efi c i e nte. Cente nas de
O nome Renasc i mento vem d a valorização da cultura greco-roman a ­ h o m e n s e m barcaram nas caravelas dos d e s c o b r i m e ntos. Alguns
o q u e é ressaltado n o texto d e Rabelais. Entre as principais buscavam e n r i q u e c i m ento ráp i d o, outros, o p o rtu n i dade d e d ifun­
características d o Renasc i m ento, podemos d estacar: dir a fé em Cristo. Estes h o m e n s eram atraíd os pela ave ntu ra, po­
Antropocentrismo: é o "homem como centro" de suas ações, rém as s u r p resas n e m s e m pre e ram agradáve is. Nas e m barcações,
decisões, valorização dos feitos e da i nventividade h u mana, em proliferavam d oen ças e a a l i m e ntação e ra p recária."
oposição ao teocentrismo medieval; Revista d e H istória da B i b l i oteca Nacio nal, setembro de 2012,
Racionalismo: necessidade de explicações comprobatórias p. 22-25. Adaptado.
(verdadeiro, falso, provável), baseadas no método científico. Nesse
período surgem invenções como o telescópio e teorias como o Sobre a é poca d escrita no texto e c o n s i d e rando as informações
heliocentrismo, q u e coloca o Sol - e não a Terra - no centro do U niverso; aprese ntadas, é correto afi rmar q u e as viagens nas caravelas

54 1 GE HISTÓRIA 2016
RESUMO
a) foram real izadas no co ntexto da expansão do mercant i l i s m o e u ­ ,. RENASCIMENTO E REFORMA I O Renascimento,
ropeu, vi s and o tam b é m à a m p l i ação d o cato l icismo. movimento intelectual e artfstico ocorrido na
b) não p rete n d iam descobrir n ovos territórios, apenas estabelecer E u ropa entre os séculos XIV e XVI, representou
rotas para ave n t u re i ros e marginal izados da sociedade. i mportantes rupturas com o pensamento da Ida­
c) t i n h am c o m o p r i n c i pal o bjetivo retirar as p o p u lações m u ç u l ma­ de Média. o humanismo, elemento primordial do
nas d a P e n í n s u l a I b é r i ca, após as G u e rras de Recon q u i sta. movimento, considerava o ser humano o centro
d) eram feitas e m c o n d ições p recárias, pois eram c l a n d estinas, ou das q uestões. Houve u ma explos:lo criativa nas
seja, eram real izadas sem o consentim ento das Coroas e u ro­ artes plásticas, na literatura, na fil osofia e nas
peias. ciências. Paralelamente ao Renasci m ento, a
e) não ocorriam e m c o n d i ções apropriadas, e m bo ra a m a i o r parte E u ropa foi tomada pela Reforma Protestante,
dos t r i p u lantes das caravelas pe rtencesse à n o b reza feudal. movimento de cárater polltico, religioso e eco·
nômico. l niciada pelo alem!o Martinho Lutero,
contestava os dogmas da Igreja Católica.
� RESOLU ÇÃO
A q uestão é sobre a Expansão Marftima E u ropeia, que foi i n i c iada ,. EXPANSAO MARITIMA E COLONIZAçAO I A
pelos portugueses em 1415 com a c o n q u i sta da c i dade d e Ceuta expans:lo marftima teve i n feio com as grandes
(norte d a Africa) e teve como principal consequência a colon ização viagen s exploratórias dos e u ropeus e ntre os
do continente americano. sécu los XV e XVI. A descoberta de novas terras
Seu maior objetivo era encontrar u ma nova rota comercial e rotas comerciais resu ltou na formaç!o d e
maríti ma e m d i reção às l n d ias para expan d i r o comércio e buscar grand e s i mp é r i o s c o l o n i a i s e f e z d o Vel h o
metais preciosos. Essas políticas estavam i n seridas no contexto M u n do o centro do comérc i o m un dial.
do Mercanti l ismo e contaram com amplo apoio dos Estados
centralizados de Portugal e Espanha. ,. ANTIGO REGIME E IWMINISMO I O Antigo Re·
O pioneirismo desses países i béricos fortemente catól icos à gime foi u m estilo de governo predominante na
frente da Expansão Marítima garantiu, além do e n ri q u e c imento Europa d u rante a Idade Moderna. Na esfera po·
econ ô mi c o, a d ifusão do cato l i c i s m o no Novo Conti nente, l ltica, foi marcado pelo abso lutismo - o poder
princi palmente com a Companhia de Jesus, grupo de religiosos estava nas m!os d o rei. No plano econômico,
catól icos responsáveis pela catequ ização das populações vigorava o mercantilismo - o acú m u lo de capi·
americanas. A ordem dos jesu ítas foi criada n o contexto da tal era o seu principal objetivo. No século XVII I,
Contrarreforma, ação tomada pela I greja Católica com o objetivo de fortaleceu-se n o c o n t i n e n te o I l u m i n i s m o,
barrar o avanço das I grejas Protestantes s u rgidas com as reformas corrente de pensamento q u e defe n d i a o pre­
rel i g i osas n o século XVI. d o m f n i o da raz!o sobre a fé e estabelecia o
RESPOSTA: A progresso como destin o da h u m an i dade.

,. REVOWÇ6ES INGLESAS DO StCULO XVII I


.... SAI BA MAIS D u as revoluções aconteceram na I n glaterra
no sécu l o XVII : a Revol uç:lo P u ritana (1642},
Co nfira os feitos d e a l g u n s d o s p r i n c i pais exploradores e u ro p e u s q u e d errubou a m o narq u i a e alçou, tempora·
dos s é c u l os XV e XVI. riamente, ao poder u m regi me repu b l i cano,
e a Revol u ç:lo G l o riosa (1688}, q u e pôs fim ao
abso l u t i s m o e consol i d o u a s upremacia d o
BARTOLOMEU Encarregado de encontrar o limite sul da Africa, em 1488, Parlamento sobre a autoridade real. A burgue·
DIAS foi o primeiro a contornar o cabo da Boa Esperança. sia foi o setor d a sociedade mais beneficiado
pelas revoluções i nglesas.
Convencido da esfericidade da Terra, o genovês propôs a
CRISTOVÃO
Portugal chegar às In dias viajando para o oeste. Rejeitado, ,. I N D EPENDINCIA DOS EUA I A I n g l aterra,
COLOMBO
vendeu o plano à Espanha. Em 1492 chegou às Bahamas. metrópole d o s Estados U n i d os, havia safdo
em péss i m a situaç:lo fi n an ce i ra da G u e rra
VASCO Estabeleceu o domínio português na Africa Oriental dos Sete Anos (1756·1763) com a França. Assim,
DA GAMA e chegou a Calicute, na fndia, em 1498. começou a arrochar i m postos e estabeleceu
o m o n o p ó l i o d a comercializaç:lo do chá. Os
PEDRO Em 1500, a caminho das In dias, desviou-se do trajeto n o rte-am e ricanos, descontentes com as me·
ALVARES original - de propósito, segundo mu itos historiadores ­ d idas, proclamaram a i ndependência em 1776.
CABRAL e chegou ao Brasil. A ten s:lo com a metrópole evo l u i u para u m a
g u erra. Apoiados p o r França e Espanha, o s
FERNÃO DE Português a serviço da Espanha, em 1519 deu início rebeldes venceram a I n glaterra e tiveram a
MAGALHÃES à primeira viagem de volta ao mundo. i ndependência rec o n h ecida, em 1783.
M U N D O ! I DA D E C O N TE M PO R Â N E A
R E V O L U ÇÃO F R A N C ESA
'j (li

� OCASO DA MONARQUIA
A tomada da Bastilha, retratada
na pintura ao lado, foi um
acontecimento fundamental
para a queda da realeza francesa

O levante burguês
Foi u m processo complicado] cheio de reviravoltas] mas] enfim] a burguesia conseguiu: guil hoti nou
o absol utismo na França] tomou o poder e soprou ventos li berais por todo o planeta

À época, o país enfrentava sérias difi­

A
Revolução Francesa, modelo clássi­ A população envolveu-se. Em 14 de julho,
co de revolução burguesa, foi um mo­ culdades econômicas. Além de endivida­ os parisienses tomaram a Bastilha - prisão
vimento social e político que transfor­ da externamente, a França via sua agri­ que simbolizava o poder monárquico -, no
mou profundamente a França de 1789 a 1799. cultura sofrer com secas e sua indústria episódio que marcou o início da revolução.
Sob o lema "Liberdade, Igualdade e Fraterni­ minguar por causa da concorrência ingle­ Grande parte da nobreza fugiu do país, e os
dade", a burguesia revoltou-se contra a mo­ sa. Como solução, os ministros do rei Luís revolucionários avançaram para o interior,
narquia absolutista e, com o apoio popular, XVI, i nfluenciados pelo liberalismo, pro­ atacando seus castelos. Em agosto, a Assem­
tomou o poder, pondo fim aos privilégios da puseram cobrar impostos da nobreza e bleia Constituinte aprovou a Declaração
nobreza e do clero e livrando-se das institui­ do clero, até então isentos de tributos. As dos Direitos do Homem e do Cidadão, que
ções feudais do Antigo Regime. A revolução classes dominantes pressionaram contra estipulava liberdades individuais e estabele­
também criou as condições para que a França o projeto, e a situação política ficou tensa. cia a igualdade de todos perante a lei.
caminhasse rumo ao capitalismo industrial.
ASSEMBLEIA NACIONAL CONSTITUINTE ASSEMBLEIA NACIONAL LEGISLATIVA
ANTECEDENTES O rei convocou a Assembleia dos Esta­ Em 1791 foi finalizada a Constituição. O
No fim do século XVIII, a população fran­ dos Gerais, que se reuniu em 1789. Nesse texto conservava a monarquia, mas instituía
cesa formava uma sociedade de estamentos, órgão, cada Estado tinha direito a um voto, a divisão do Estado nos poderes Executivo,
resquício da Idade Média, mas já se percebia o que garantia o domínio da nobreza e do Legislativo e Judiciário, proclamava a igual­
uma divisão de classes. O clero compunha o clero, seus tradicionais aliados. Cansado dade civil e confiscava os bens da Igreja.
Primeiro Estado; a nobreza, o Segundo Es­ de não ter voz ativa, e ao ver a aristocracia Foi eleita a Assembleia Nacional Legislati­
tado. Eles eram os mais privilegiados, sus­ abalada pela crise econômica, o Terceiro va, com voto censitário (condicionado à ren­
tentados pelos impostos pagos pelo Tercei­ Estado se rebelou: proclamou-se a Assem­ da), de modo que a maioria dos membros
ro Estado, que correspondia a cerca de 98% bleia Nacional Constituinte, dedicando­ pertencia à elite burguesa. Os deputados di­
dos habitantes e era composto de burgueses, se à elaboração de uma nova Constituição vidiam-se em três grupos. Os girondinos,
trabalhadores urbanos e camponeses. para a França. representantes da alta burguesia, senta-

58 1 GE HISTÓRIA 1016
dos à direita do plenário, eram mais conser­ nhecida, funcionou entre 1792 e 1795, passou Popular por suas conquistas militares,
vadores e combatiam a ascensão dos sans­ a controlar os poderes Executivo, Legislati­ ele deu um golpe de Estado em 1799 o 18 -

culottes (os que não usam culotes, traje da vo e Judiciário, e era dirigida pelo Comitê de Brumário -, instalando um novo governo,
nobreza, ou seja, o povo). Osjacobinos, à es­ Salvação Pública. Fortalecidos, os jacobinos o Consulado. Nesse sistema, a nação era
querda, representavam a média e pequena proclamaram a República em 20 de setem­ administrada por três cônsules, dos quais
burguesia, eram apoiados pelas camadas po­ bro de 1792. No ano seguinte, guilhotinaram Napoleão era o mais influente. Em 1804, o
pulares e buscavam ampliar a participação Luís XVI, capturado durante a guerra. general coroou-se imperador. P rosseguiu
do povo no governo. Os deputados do centro, Começava o Período do Terror, que du­ a expansão territorial, formando um gran­
a maioria, apelidados de grupo do pântano, rou de 1793 a 1794. Sob o comando de Robes­ d ioso império que incluía a Áustria, a Ho­
oscilavam entre jacobinos e girondinos. pierre, foi criado o Tribunal Revolucionário, landa, a Suíça, a Itália, a Bélgica e a penín­
Preocupadas com os eventos ocorridos encarregado de prender e julgar traidores. sula Ibérica. Também implantou o Código
no país vizinho, Áustria e Prússia invadi­ Milhares de pessoas foram guilhotinadas, Civil, que confirmou a vitória da revolução
ram a França, em 1792. Os dois países fo­ incluindo jacobinos acusados de conspira­ burguesa e influenciou a legislação de to­
ram apoiados pela nobreza francesa refu­ ção, como Danton e o jornalista Desmoulins. dos os países europeus no século X I X .
giada e pelo próprio Luís XVI, que sonhava O governo jacobino foi popular, mas as per­
em voltar ao poder. Diante da tentativa de seguições levaram à perda do apoio do po­ DERROTA DE NAPOLEÃO
fuga de Luís XVI para se juntar aos nobres vo. Os membros da Convenção acabaram se Napoleão foi derrotado por uma coa­
emigrados e do agravamento das ameaças voltando contra Robespierre, que foi preso e lizão de potências europeias em 1815. No
contran·evolucionárias, os jacobinos, lide­ executado. Assim, chegava ao fim a supre­ mesmo ano, representantes dessas potên­
rados por Robespierre, Jean Paul Marat e macia jacobina. Os girondinos, em aliança cias reuniram-se no Congresso de Viena
Danton, conseguiram aprovar as propostas com o grupo do pântano, instalaram nova­ para redefinir o mapa político da Europa e
de extinção da monarquia, a prisão do rei mente no poder a alta burguesia. do mundo. Sob a liderança do Reino Uni­
e a implantação da República. Com o apoio do, da Áustria, da Prússia e da Rússia, os
dos sans-culottes, derrotaram os exércitos DIRETÓRIO territórios do Império Napoleônico foram
leais às monarquias absolutistas europeias Os novos líderes decidiram redigir outra redistribuídos entre os países vencedores,
e radicalizaram a oposição aos nobres. Constituição, instituindo o governo do restaurando dinastias e fronteiras altera­
Diretório (1795-1799), que consolidou as das pelas guerras napoleônicas. A Santa
CONVENÇÃO aspirações burguesas. Nesse período, o país Aliança, organização política internacio­
A pressão popular fez com que se formas­ sofreu ameaças externas, e, para manter nal, é fundada com o objetivo de manter a
se uma nova Assembleia para preparar outra seus privilégios, a burguesia entregou o França sob vigilância, deter novos movi­
Constituição. A Convenção, como ficou co- poder ao general Napoleão Bonaparte. mentos revolucionários, abafar manifes­
tações separatistas e garantir o equilíbrio
de poder estabelecido entre as grandes po­
tências europeias.

CONSOLIDAÇÃO DO ESTADO BURGUÊS


No entanto, a partir de 1830, com as Re­
voluções Liberais, que começaram na
França e se espalharam pela Europa, o Es­
tado burguês concretizado por Napoleão
foi reerguido, comprovando que as mu­
danças trazidas pela Revolução Francesa
tinham vindo para ficar. li1l

E NO BRASIL...

CORTE FUGIDA
Inimiga da I nglaterra, a França
de Napoleão decretou, em 1806,
o bloqueio continental, impedindo
a Europa de comercializar com
os britânicos. Com a economia
su bordinada à I nglaterra, Portugal
relutou em aderir ao bloqueio.
Napoleão, então, ordenou a invasão
do reino ibérico, provocando a vinda
da família real portuguesa ao Brasil,
em 1808. Isso apressaria nossa
111 independência, ocorrida em 1822
� EM PRAÇA PÚBLICA No Período do Terror, milhares de pessoas foram gu ilhotinadas, inclusive o rei Luís XVI (veja mais na pág. 104 ).

GE HISTÓRIA 2016
IJI PALACIO 0[ VERIALHEI/FRANÇA [11 BNF/FRANÇA 1 59
M U N D O ! I DA D E C O N T E M P O R Â N EA
R EV O L U ÇÃO I N D U STR I A L

.... PROOUÇÁO EM SÉRIE


Primeira linha de montagem
da fábrica da Ford, em 1913:
mudança significativa no modo
de operação das indústrias

Produção a todo vapor


Com as fábricas/ a burguesia tomou de vez para si o poder econômico e m udou
para sempre o modo como o m u ndo trabalha e se organiza socialmente

A
Revolução Industrial foi o conjunto TRANSFORMAÇOES NA AGRICULTURA A partir do servar na Inglaterra uma série de medidas
de transformações socioeconômicas século XVI, a estrutura agrária inglesa pas­ intervencionistas de caráter um pouco di­
vivido a partir do século XVIII que sou por uma série de mudanças. O desenvolvi­ ferente do das adotadas pelas monarquias
alterou a antiga economia agrária e conso­ mento da manufatura têxtil de lã no norte da do continente. Enquanto estas estavam fa­
lidou o capitalismo - sistema econômico e Europa induziu muitos membros da baixa no­ cadas num intervencionismo voltado para a
social caracterizado pela propriedade pri­ breza inglesa e pequenos proprietários livres promoção do poder do Estado, o interven­
vada dos meios de produção, pelo traba­ a expulsar os servos e trabalhadores dedica­ cionismo inglês, depois da revolução, estava
lho assalariado, pela acumulação de capital dos à prática agrícola e a transformar essas mais voltado para a promoção da acumula­
e pelo foco primordial no lucro. Iniciada terras em pastagens de ovelhas. Esse proces­ ção privada do capital. Enquanto no conti­
na Inglaterra, a Revolução Industrial alas­ so, conhecido como cercamento dos cam­ nente o Estado era o fim da política mercan­
trou-se para o resto do mundo nos séculos pos, criou uma das principais pré-condições tilista, na Inglaterra o Estado era um meio.
seguintes, provocando profundas mudan­ do capitalismo, a separação entre o trabalha­ DESENVOLVIMENTO DA MANUFATURA Como a
ças sociais. Desenvolveu-se em três etapas: dor e os meios de produção (a terra, no caso). Inglaterra não tinha colônias tão lucrati­
a. I, a li e a III Revolução Industrial. Dessa forma, o trabalhador, para sobreviver, vas quanto Portugal e Espanha, muito ce­
deveria vender a única mercadoria que deti­ do se firmou a convicção de que o apoio ao
CAUSAS E ANTECEDENTES nha, isto é, sua força de trabalho, surgindo, as­ setor manufatureiro era fundamental pa­
Entre os fatores que levaram à Revolu­ sim, a relação assalariada de produção. Esse ra a economia.
ção Industrial destacam-se as transforma­ processo foi denominado por Marx de acu­ CONTROLE DO MERCADO MUNDIAL O acesso e
ções ocorridas na agricultura inglesa do mulação primitiva (originária) do capital. o controle que a Inglaterra exercia sobre o
século XVI ao XVIII, as revoluções ingle­ REVOLUÇOES INGLESAS As revoluções foram mercado internacional fizeram com que as
sas do século XVII, o desenvolvimento do fundamentais, pois conduziram ao poder demandas desse mercado fossem sentidas
setor manufatureiro e o controle que a In­ uma nobreza aburguesada interessada na com mais intensidade na sua economia, ins­
glaterra exercia sobre o mercado mundial expansão do comércio, das finanças e das tigando, como em nenhum outro país, seu
desde o século XVII. manufaturas. Desde então, foi possível ob- setor manufatureiro.

6 0 I GE HISTORIA 2016
I REVOLUÇÃO
Esse primeiro conjunto de transforma­
- A HISTÓRIA HOJE ••••••

ções ocorreu entre 1760 e 1860, na Ingla­ RUMO A IV REVOLUÇÃO INDUSTRIAL?


terra, e teve início com o surgimento das Muitos especialistas debatem atualmente a possibilidade de estarmos à beira de
primeiras indústrias - a princípio, têxteis. uma IV Revolução I ndustrial. Há divergências, contudo, quanto à natureza das trans·
Até então, o mais eficiente método de pro­ formações que devem moldar os sistemas de produção nos próximos anos. Alguns
dução era a manufatura doméstica: bur­ apontam que o principal fator da mudança será o aperfeiçoamento da nanotecnologia ­
gueses, donos da matéria-prima - no caso, a partir da manipulação de moléculas e átomos, é possível criar novos processos e ma·
algodão -, contratavam o serviço de tece­ teriais ou mesmo novas aplicações a produtos conhecidos. Sua utilização abrange áreas
lões independentes para produzir os teci­
dos a ser comercializados.
A partir de meados do século XVIII, po­
-
variadas, como engenharia, química, eletrônica e medicina. Há ainda os entusiastas das
impressoras 3D máquinas que podem produzir objetos físicos tridimensionais a partir
de desenhos no computador. Eletrodomésticos, brinquedos, calçados e uma infinidade de
rém, a invenção das máquinas de tecer au­ produtos podem ser criados em casa, o que reformularia o atual sistema manufatureiro.
tomáticas permitiria uma mudança radi­ Resta saber se os avanços propostos por esses dois modelos serão suficientes para promo·
cal nesse processo. A máquina tornou-se ver uma IV Revolução Industrial.
mais importante que a mão de obra. Os
burgueses passaram a adquirir esses equi­
pamentos, mais eficientes, criando as in­ fez com que o capitalismo industrial co­ 111 REVOLUÇÃO
dústrias, e arrasando, por meio da con­ meçasse a ser substituído pelo financei­ A I I I Revolução Industrial, a partir da
corrência, a produção doméstica. Nas ro, ou seja, os bancos passaram a se tornar década de 1950, foi marcada pelo apareci­
fábricas, a produção era dividida em eta­ mais poderosos que as indústrias. mento de gigantescos complexos multina­
pas. Cada trabalhador executava uma úni­ A II Revolução Industrial proporcionou cionais e pela informatização, que, ao subs­
ca tarefa, sempre do mesmo modo - a es­ ainda o desenvolvimento da política impe­ tituir a mão de obra humana, contribuiu
pecialização ou divisão do trabalho. rialista pelos países europeus (veja a ma­ para a eliminação de postos de trabalho.
O sistema industrial instituiu duas no­ téria na pág. 66). A industrialização criou Uma das características mais marcantes do
vas classes opostas: os empresários, donos uma crescente demanda por consumido­ período foi o surgimento dos polos tecnoló­
do capital e dos meios de produção (equi­ res, e, com o esgotamento dos mercados gicos, como o do Vale do Silício, na Califór­
pamentos, fábricas, matérias-primas etc.), internos, a solução foi buscar comprado­ nia, nos Estados Unidos, onde apareceram
e os operários, que vendiam sua força de res em outros países. Também havia a ne­ empresas como a Apple e a Microsoft.
trabalho em troca de salário. No início, os cessidade de mão de obra, matéria-prima No Japão, surgiu o toyotismo, em oposição
empresários impuseram duras condições e locais de investimento de capital. Essa ao fordismo, um método de produção mais
aos operários, como baixíssimos salários e procura levou os países capitalistas a colo­ flexível e diversificado: em vez de produzir
desumanas jornadas de trabalho (que che­ nizar outros territórios e a brigar por eles, grandes séries de um mesmo modelo, ele vi­
gavam a 17 horas diárias), para ampliar a à que culminou, em 1914, na eclosão da sa à fabricação de séries menores de uma va­
produção e garantir uma margem de lucro I Guerra Mundial (veja a matéria na pág. 68). riedade maior de modelos de veículos. 181
crescente. A fim de reivindicar melhores
condições, os trabalhadores passaram a se
organizar em associações, que dariam ori­
gem aos sindicatos.

li REVOLUÇÃO
A partir de 1870, teve início a II Revolução
Industrial, marcada pelo uso de novas fon­
tes de energia - eletricidade e petróleo -, pe­
la substituição do ferro por aço e pela cria­
ção da linha de montagem, idealizada pelo
empresário norte-americano Henry Ford, já
no século XX. O método da produção em sé­
rie ficou conhecido como fordismo.
Outra característica desse segundo pe­
ríodo foi a internacionalização das indús­
trias, antes restritas basicamente à In­
glaterra. Foi nessa época também que a
divisão do trabalho se generalizou como
forma de aumentar o lucro. Surgiram os
trustes (fusão de empresas do mesmo ra­
mo para monopolizar a produção, o preço
e o mercado), as holdings (grandes conglo­
merados de empresas) e os cartéis (acor­
dos para eliminar a concorrência). A disse­
minação da prática do financiamento para
viabilizar o surgimento de novas fábricas � EXPLORAÇAO Na primeira fase da Revolução, os trabalhadores recebiam salários baixíssimos

[lj [lJ FORO MOTOR COMPANY GE HISTORIA 2016 1 61


M U N D O I I DA D E C O NT E M P O R Â N E A
I N D E PE N D Ê N C I A D A AM É R I CA E S PA N H O LA I

A elite hispano-americana l ibertou a região do domínio espanhot


mas não rompeu a dependência mantida com a Eu ropa

N
as primeiras décadas do século XIX, var e o argentino José de San Martín,
as colônias espanholas existentes na que percorreram o continente enfrentan­
América travaram guerras contra a do os espanhóis (veja o mapa ao lado). O
metrópole e tornaram-se independentes. primeiro partiu do norte, libertando a Ve­
Em geral liderados pela elite local e apoia­ nezuela (1819), a Colômbia (1819), o Equa­
dos pela Inglaterra, os movimentos resulta­ dor (1822) e a Bolívia (1825). San Martín,
ram no surgimento de várias repúblicas no após conseguir a libertação de seu país, em • Rota de Bolívar
continente americano. 1816, rumou em direção aos Andes, procla­ • Rota de San Martín
mando a independência do Chile (1818) -
MOTIVAÇÕES com a colaboração do líder local Bernardo
A invasão da península Ibérica por Na­ O'Higgins - e do Peru (1821). *As datas referem-se à separação dos atuais países da antiga
Grã-Colômbia, nação independente fundada por Simón Bolivar em 1821
poleão Bonaparte, em 1807, causou o de­ O movimento emancipacionista se esten­
**Refere·se à segunda proclamação da independência em relação
saparecimento temporário da presença da deu à América Central e ao México, de mo­
aos espanhóis. A primeira foi em 1821
metrópole nas colônias espanholas. Ins­ do que, em 1825, as únicas possessões es­
Fonte: Cláudio Vic�ntino e Gianpaolo Dorigo, História
pirados no Iluminismo, na independência panholas no continente eram Cuba e Porto para o Ensmo Méd1o, 1 ed, Scip10ne, pJgs. 326, 317

dos Estados Unidos e na Revolução Fran­ Rico, que passariam ao controle dos Esta­
cesa, e querendo se ver livres do pacto colo­ dos Unidos em 1898, na Guerra Hispano­
nial, que limitava seus negócios, os criollos Americana. NOVA DEPENDÊNCIA
(descendentes dos espanhóis nascidos na A independência representou a separa­
colônia, que compunham uma aristocra­ FRAGMENTAÇÃO ção política em relação à metrópole, mas a
cia local) perceberam que era um bom mo­ Em 1826, Bolívar apresentou na Con­ estrutura social se manteve, com o domínio
mento para ampliar a autonomia das colô­ ferência do Panamá seu projeto de uma dos criollos. As novas nações também con­
nias e brigar pela independência. grande federação de repúblicas, unindo tinuaram subordinadas economicamente,
Para isso, eles contavam com um impor­ as antigas colônias espanholas em um só mas operou-se uma mudança significativa:
tante aliado: a Inglaterra. A maior potência país. Para Bolívar, a unidade da América agora, a subordinação não era mais em rela­
industrial da época tinha grande interesse espanhola era fundamental para mantê-la ção à Espanha, mas, sim, ao capitalismo in­
na liberação dos mercados latino-america­ forte diante de duas ameaças que pairavam dustrial britânico. l8l
nos - até então subordinados ao monopólio sobre os territórios independentes. A pri­
espanhol -, o que lhe permitiria inundá-los
com seus produtos.
meira vinha do Congresso de Viena e seu
"braço" armado, a Santa Aliança. O proje­
to restaurador do Congresso deixava im­
- A HISTÓRIA HOJ E •••••

GUERRAS plícito que a Espanha poderia se aventurar, SIMÕN BOLiVAR E O BOLIVARIANISMO


Os primeiros movimentos pela indepen­ com apoio da Santa Aliança, a reconquistar Nascido em Caracas, atual capital da Venezuela, em
dência ocorreram ainda no século XVII I as colônias na América. 1783, Simón Bolívar foi o líder militar nas lutas de
e foram severamente reprimidos pela me­ Além disso, em 1824, os EUA aprova­ independência da América espanhola no início do
trópole. O mais célebre foi comandado pe­ ram a Doutrina Monroe, que propunha "a século XIX. O seu legado vem sendo historicamente
lo líder indígena Tupac Amaru, no Peru, em América para os americanos" e explicitava reivindicado tanto por líderes da direita como da
1.780. A reação espanhola foi intensa e dei­ que os EUA não aceitariam intervenções esquerda latino-americana. Mas foi o ex-presidente
xou 80 mil mortos. europeias de caráter restaurador na Amé­ da Venezuela, Hugo Chávez, que deu nova dimensão
Quando Napoleão Bonaparte foi derrota­ rica. Implícita à doutrina estava a intenção ao bolivarianismo. Assim como Bolívar, Chávez adota
do na Batalha de Waterloo, em 1815, a Es­ dos EUA de substituir a hegemonia euro­ um discurso contra o imperialismo das potências
panha tentou se impor novamente nas co­ peia sobre a América do Sul pela sua hege­ estrangeiras e em favor da união da América Latina.
lônias, mas as forças emancipacionistas já monia. A união proposta por Bolívar pre­ Durante seu governo (1998·2014), Chávez busca o
estavam bem articuladas e, com o apoio tendia criar um obstáculo às pretensões dos rompimento com os Estados Unidos e abandona as
inglês, intensificaram o embate. Entre os EUA. Mas a ideia fracassou, pois batia de políticas neoliberais. Também é responsável pela
principais líderes que lutavam pela inde­ frente com as ambições das oligarquias lo­ criação da Aliança Bolivariana das Américas (Aiba),
pendência das colônias espanholas, des­ cais, sedentas por poder. Formaram-se, as­ um bloco econômico que reúne os principais governos
tacavam-se o venezuelano Simón Boli- sim, quase duas dezenas de Estados. de esquerda da região, incluindo a Bolívia e o Equador.

62 1 GE HISTÓRIA 2016
MUNDO ! IDADE CONTEMPORÂNEA
D O U T R I NAS S O C I A I S E P O L ÍTI CAS D O S ÉC U LO X I X

ldeias bombásticas
N o século XIX su rgiram teorias q u e marcariam a Idade Contemporânea} esti mu lando guerras e revoluções

dustrialização e a urbanização da Eu­


·

opa vieram acompanhadas do surgi-


ento de novas doutrinas sociais e po­
líticas. Para justificar o sistema econômico
vigente - o capitalismo -, foi elaborado o li­
beralismo. Para combatê-lo, criou-se o socia­
lismo. O avanço dessas ideias provocou con­
flitos durante os quais se desenvolveu outra
inflamada novidade da época: o nacionalismo.

LIBERALISMO
Nascido durante o Iluminismo, o liberalis­
mo teve como principais teóricos, na política,
o inglês John Locke e, na economia, o esco­
cês Adam Smith (veja na pág. 52). Outros no­
mes de peso foram os ingleses David Ricardo
(1772-1823) e Thomas Malthus (1766-1834).
G ma das principais características do libe­
ralismo é a propriedade privada, que seria
um direito natural do ser humano. Com ela, � DIFUSAO DO SOCIALISMO Marx e Engels durante a impressão do jornal Gazeta Renana, que eles editavam
o indivíduo teria liberdade de produzir e co­
mercializar, sem interferência do governo,
que deve apenas garantir a ordem e a justiça. lho excedente realizado pelo trabalhador, propriedades baseadas no auxílio mútuo,
Para os liberais, a economia tem leis pró­ isto é, a diferença entre o valor do trabalho sendo contra a transformação da socieda­
prias que não devem ser violadas. Os preços que ele realiza e o valor que ele recebe na de pela violência. A segunda, liderada pelo
variam de acordo com a oferta e a procura forma de salário. É desse excedente que as russo Mikhail Bakunin, propõe uma revo­
de cada produto, e a livre concorrência en­ classes proprietárias retiram o lucro, o juro lução sustentada pelo campesinato. Operá­
tre as empresas elimina as menos eficientes. e a renda da terra. rios espanhóis e italianos sofrem influên­
Os liberais procuravam justificar as desi­ Os teóricos estimulavam os proletários a cia do anarquismo, mas ele é esmagado
gualdades, afirmando que elas eram natu­ se unir e lutar contra os burgueses. A vitória pelo fascismo. 181
rais e, com o progresso, diminuiriam. A dou­ resultaria na ditadura do proletariado. O
trina influenciou as revoluções liberais de socialismo seria uma etapa de transição para
1830 na Europa, que consolidaram o poder o comunismo, em que o Estado gradualmen­
político da burguesia.

SOCIALISMO
te desapareceria. Tais ide ias influenciariam
a Revolução Russa, de 1917 (veja na pág. 70). - A HISTÓRIA HOJ E ---­

O socialismo propõe a supressão da pro­ NACIONALISMO A CRISE DE 2008 E O


priedade privada e das classes sociais. Os O nacionalismo determina a devoção do NEOLIBERALISMO
primeiros teóricos buscaram solucionar os indivíduo ao Estado nacional. Influenciou A crise que atingiu a economia mundial em 2008,
problemas da classe operária por meio de as unificações da Itália e da Alemanha e as cujos efeitos se fazem sentir até hoje - no alto endi·
projetos idealistas, em geral voltados para lutas de independência das colônias. No sé­ vidamento público dos Estados Unidos e da União
grupos restritos. Esses estudos ficariam co­ culo XX, inspirou os regimes nazifascistas Europeia -, foi resultado de três décadas de políti·
nhecidos como socialismo utópico. (veja na pág. 73). cas de inspiração liberal, o neoliberalismo. A ideia
Em 1848, com a publicação do Mani­ de que o crescimento da riqueza é consequência
festo Comunista, os alemães Karl Marx e ANARQUISMO de um mercado livre de restrições foi elaborada
Friedrich Engels inauguraram o socialismo Outra doutrina a ganhar força no perío­ por Adam Smith, no fim do século XVIII. Essa visão
científico. Eles defendiam a tese de que a do é o anarquismo. Os anarquistas acredi­ exerceu grande influência na Inglaterra a partir de
história é uma sucessão de lutas de classes e, tavam ser possível existir governo (no sen­ meados do século XIX e a ajudou a se firmar como
durante o capitalismo, o conflito se dá entre tido de autogoverno, como na democracia grande potência econômica. A partir da década de
burgueses e proletários (trabalhadores que direta) sem Estado. No século XIX, o movi­ 1980, os EUA e a Inglaterra patrocinaram a adoção
vendem sua força de trabalho). mento se divide em duas correntes princi­ de políticas neoliberais, que reduziram o papel do
Para explicar como estes últimos são ex­ pais. A primeira, encabeçada pelo francês Estado na economia e eliminaram uma série de
plorados, Marx e Engels criaram o concei­ Pierre-Joseph Proudhon, afirma que a so­ regulamentações para restaurar o livre mercado e
to da mais-valia. Ela corresponde ao traba- ciedade deve ser estruturada em pequenas facilitar o fluxo de capitais pelo mundo.

[!IBETTMANN/CORBIS GE HISTÓRIA 1016 1 63


M U NDO ! IDADE CONTEMPORÂNEA
R E VO LU ÇÕ E S D E 1 848 E C O M U NA D E PAR I S

As revoluções de 1848 são consideradas


I
um marco importante, pois, a partir delas,
a burguesia abriu mão de seu projeto re­
volucionário e se converteu no agente de
defesa da ordem. Agora, caberia aos traba­
lhadores a tarefa de dar continuidade às
transformações da ordem social burgue­
sa, com um projeto político próprio e re­
volucionário.

A COMUNA DE PARIS
Com a derrota da França para a Prússia,
na guerra de 1871, os republicanos e os so­
cialistas que controlavam Paris não aceita­
ram os termos do acordo de paz e desafia­
ram os prussianos a invadir e conquistar a
cidade. Receosos, os conservadores e a bur­
guesia abandonaram Paris. Os socialistas e
os comunistas, com o apoio dos trabalhado­
res, proclamaram, então, a Comuna de Paris.
Foi a primeira vez na história que um
governo assumiu e implementou um pro­
.... VIDA CURTA Durante a Comuna de Paris, que durou menos de três meses, barricadas foram montadas nas ruas grama de reformas inspirado no ideário
comunista: a propriedade privada foi abo­
lida, criou-se um sistema de democracia

Paris em chamas
direta, a população foi armada e os operá­
rios assumiram o controle da economia e
do destino da cidade.
Contrária a essas medidas, a burguesia
francesa, reunida em Versalhes, aliou-se
aos prussianos. Juntas, tropas francesas
A capital francesa foi palco de movi mentos revol ucionários q u e e da Prússia invadiram Paris e promove­
ram o maior banho de sangue ocorrido na
tinham como objetivo l evar a classe trabalhadora a o poder história da cidade até então, em que 20 mil
pessoas foram fuziladas, e mais de 50 mil,

A
influência d o ideário socialista s e ma­ de combates na capital francesa, os revolu­ presas ou exiladas. Após 72 dias, chegava
nifestou em dois movimentos revolu­ cionários saíram vitoriosos. O "rei dos ban­ ao fim a Comuna de Paris. liSJ
cionários importantes que eclodiram queiros" foi deposto, e os revoltosos implan­
na França no século XIX: as Revoluções de taram a Segunda República na França.
1848 e a Comuna de Paris.

AS REVOLUÇOES DE 1848
O governo provisório francês, pela pri­
meira vez na história integrado por repre­
sentantes socialistas, aprovou várias me­
11 A HISTÓRIA HOJE ---­
Paris foi o polo irradiador da onda revo­ didas de caráter social, como o direito ao AS DUAS PRIMAVERAS
lucionária que atingiu a Europa em 1848, trabalho e a redução da jornada trabalhista. Em dezembro de 2010, iniciou·se na Tunísia uma
que ficou conhecida como Primavera dos Entretanto, nas eleições da nova Assembleia sequência de revoltas populares que se propaga·
Povos. Desde meados dos anos 1840, gru­ Nacional, a maioria dos deputados eleitos ram nos meses seguintes para Barein, Jordânia,
pos de oposição na França reivindicavam alinhou-se à conservadora burguesia fran­ Egito, lêmen, Líbia e Síria. Esses movimentos que
leis que garantissem as liberdades públi­ cesa. Com isso, as medidas aprovadas pelo ocorreram nos países árabes ficaram conhecidos
cas de organização e manifestação, o fim governo provisório a favor da classe traba­ como Primavera Arabe, em alusão à grande onda
do regime censitário e o combate à corrup­ lhadora acabaram sendo revogadas. Os tra­ revolucionária ocorrida na Europa em 1848, deno·
ção. Em fevereiro de 1848, num ambiente balhadores reagiram com uma nova jorna­ minada Primavera dos Povos. Nessa ocasião, num
de grave crise econômica, com desempre­ da de revoltas e protestos, violentamente contexto de grave crise econômica, os trabalhado·
go em massa e os trabalhadores em esta­ reprimida pela Guarda Nacional. Cerca de res de vários países europeus saíram às ruas para
do de revolta, os grupos de oposição con­ 3 mil trabalhadores foram mortos, e 15 mil, reivindicar o voto universal, o direito ao emprego
vocaram uma grande manifestação em presos e deportados para as colônias. Aca­ e outras reformas sociais. Apesar de a miséria cres·
Paris, que foi imediatamente proibida pe­ bava assim a Primavera dos Povos. cente da população e a opressão política também
lo governo de Luis Felipe, conhecido entre Na França e em outros países europeus, estarem entre os fatores importantes da Primavera
a população como o "rei dos banqueiros". o movimento dos trabalhadores despertou Arabe, ela vem "temperada" com forte influência
Apoiados pelos socialistas, os operários enormes esperanças, mas as tentativas de dos grupos islâmicos radicais. Eles responsabilizam
ergueram barricadas por toda Paris e se dis­ instauração de regimes democráticos fo­ as potências econômicas ocidentais pelas ditadu·
puseram a enfrentar a Guarda Nacional, ram sufocadas pelas forças da ordem, que ras que vêm explorando e oprimindo o povo em
destacada para reprimi-los. Após dois dias reassumiram o controle da situação. vários países árabes há décadas.

64 1 GE HISTORIA 2016
M U N D O ! I DA D E C O N T E M P O R Â N E A
U N I F I CAÇÃO D A A L E M A N H A E DA ITÁ L I A

Surgem
f ALEMANHA UNIFICADA
I o novo pais surgiu a partir da união de dezenas de estados

novos • Anexação da guerra contra


a Dinamarca (1864-1866)
Anexação da guerra

pa1ses
contra o império
• 0.\\���""�
Anexação da guena
franco-prussiana (1871)

_ Confederação Germânica
do Norte (1867-1871)

A criação d a Alemanha e da
Itália no século XIX alterou o
equilíbrio de forças da Eu ropa Fonte: )osé Arruda e Nelson Pi/etri, Toda a História, 3 edv Atica. pJg. XXIV

A
Alemanha e a Itália não conseguiram mitasse um mercado interno e protegesse a em 1859, do líder socialista Garibaldi
se unificar no mesmo momento his­ indústria nascente da concorrência inglesa e (1860/61) e da Alemanha (1870), Cavour in­
tórico dos demais países da Europa francesa era essencial para os negócios. Por corporou territórios de cultura italiana em
(séculos XV e XVI). No decorrer do sécu­ outro lado, a aristocracia que exercia o po­ uma série de guerras contra a Áustria-Hun­
lo XIX, a ascensão de uma burguesia liga­ der nesses Estados sabia que sua capacida­ gria e a Igreja Católica. Veneza foi anexada
da à indústria em alguns estados germânicos de de se impor militarmente diante dos vizi­ em 1866, e Roma, cinco anos depois. A Igreja
e no norte da península Itálica mudou esse nhos dependia da força do setor industrial. A reagiu, rompendo com o Estado italiano re­
cenário. Para essa burguesia emergente, a convergência de interesses entre a aristocra­ cém-criado. As relações só foram normali­
formação de um Estado territorial que deli- cia e a burguesia industrial foi fundamental zadas em 1929, com a assinatura do Tratado
para os processos de unificação na Alema­ de Latrão, que estabelecia a criação do Es­
nha e na Itália. O problema é que a unifica­ tado do Vaticano e o pagamento à Igreja de
ção desses Estados sofria ferrenha oposição uma indenização pelos territórios perdidos.
f A UNIFICAÇÃO ITALIANA da França, pois ameaçava sua hegemonia e o A unificação da Alemanha e da Itália fra­
I A campanha foi iniciada por Piemonte·Sardenha equilíbrio europeu, tal como havia sido defi­ gilizou o equilíbrio da Europa e inaugurou
nido pelo Congresso de Viena. uma nova fase de concorrência econômica
e interestatal que conduziria o continente à
UNIFICAÇÃO DA ALEMANHA I Guerra Mundial. 0
Com o fim das guerras napoleônicas, a
Alemanha tal qual existe hoje compreendia
um conjunto de 38 estados. Em 1818, a Prús­
sia, percebendo o crescimento da influên­
cia inglesa, patrocinou a criação do Zoll­
11 A HISTÓRIA HOJE •••••

verein, uma união aduaneira que integrou RECONHECIMENTO DA ONU AMPLIA


progressivamente todos os estados da con­ LEGITIMIDADE INTERNACIONAL
federação e acelerou o desenvolvimento in­ Com a maior parte de seu território ocupada por ls·
dustrial. O processo de unificação política rael, a Palestina tenta estabelecer um Estado sobera·
fortaleceu-se com a ascensão de Otto Von no. Para isso, busca o reconhecimento como membro
Bismarck ao cargo de chanceler da Prús­ pleno da ONU, mas esbarra na objeção dos Estados
sia em 1862. Ele incorporou territórios de Unidos, principais parceiros dos israelenses. Apesar de
tradição germânica e regiões importantes o reconhecimento da ONU não determinar a existên·
para a industrialização alemã. Assim, em cia de um Estado, ser admitido pelo órgão amplia sua
guerras contra Dinamarca (1864), Áustria­ legitimidade internacional. Em novembro de 2012, a
Hungria (1866) e França (1871), Bismarck Palestina deu um importante passo nesse sentido ao
Reino Piemonte·Sardenha (1859) consolidou a unificação alemã, criando o ser aceita como Estado observador pela ONU.
Anexações de 1859·1861 II Reich (II Império). A luta dos palestinos baseia-se num conceito
• Anexação em 1866 segundo o qual a cada povo (entendido como uma
• Anexação em 1871 UNIFICAÇÃO DA ITÁLIA comunidade étnica com história, língua, tradição e
Anexações em 1919 A unificação italiana começou efetivamen­ costumes mais ou menos comuns) deveria correspon·
- Campanha de Garibaldi te com a ascensão do Conde de Cavour, em der um Estado. Foi com base nessa concepção que os
- Campanha de tropas de Piemonte 1852, ao posto de primeiro-ministro do Reino movimentos nacionalistas na Itália e na Alemanha
Fonte: }osé Arruda e Nelson Pilett� Toda a História, 3 ed., Atica, pâg. XXIV (adaptado) Piemonte-Sardenha. Com apoio da França, foram praticamente concluídos em 1871.

[l[ AFP/COLLECTION ROGER·VIOLLET GE HISTÚRIA 2016 [ 65


M U N D O ! I DA D E C O N T E M P O R Â N E A
I M PERIALISMO

[lJ

.... POSIÇÃO SUPERIOR


U m missionário europeu é

O mundo é deles
carregado nos ombros por
nativos de uma aldeia em
Madagáscar, na Africa

Com o objetivo de elevar seus lucros, as grandes potências industriais produziram uma nova
onda de colonização no século XI X, partil hando entre si as regiões menos desenvolvidas do globo

A
política de expansão de poder e dom i­ gente não era mais o capitalismo comercial, landeses, instalada na África do Sul - deram
nação de um Estado ou sistema políti­ e, sim, o industrial; por fim, em vez da Amé­ origem à Guerra dos Bôeres (1899-1902),
co sobre outros ocorreu muitas vezes rica, foram exploradas a África e a Ásia. que acabou com vitória inglesa.
na história. No entanto, o termo imperia­ Três modalidades de relações neocolo­ A desavença entre as potências imperialis­
lismo surgiu para designar especificamen­ niais foram estabelecidas nesse período: co­ tas crescia, e, para resolver o impasse de quem
te a expansão das potências industriais eu­ lônias (territórios dominados por meio da seria o grande ganhador do centro da África,
ropeias a partir do século XIX. presença militar), protetorados (países go­ os países europeus realizaram, em 1884 e 1885,
vernados por elite local tutelada por uma a Conferência de Berlim. No congresso ficou
CAUSAS E CARACTERÍSTICAS potência industrial) e áreas de influência estabelecida uma partilha do território afri­
A Revolução Industrial criou alguns pro­ (países com governo formalmente autôno­ cano. O resultado foi devastador para o con­
blemas para as nações europeias. Com uma mos, mas submetidos a acordos econômi­ tinente, que teve suas fronteiras redivididas
indústria apta a produzir mais, faltava, ago­ cos desiguais). de acordo com os interesses europeus - o que
ra, mercado consumidor. Além disso, os provocou várias guerras sangrentas entre tri­
grandes burgueses buscavam outras regiões PARTILHA DA ÁFRICA bos rivais no decorrer do século XX - e viu sua
onde pudessem investir mais para obter lu­ A descoberta de jazidas de diamante e economia tornar-se completamente depen­
cros ainda maiores. E também havia a ne­ outras riquezas, como marfim, no território dente da Europa (veja o boxe na pág. ao lado).
c.essidade de achar novas fontes de maté­ africano precipitou a imediata colonização
rias-primas, como ferro e petróleo. da região. Os primeiros a conquistar terreno CONQUISTA DA ÁSIA
Tudo isso levou os europeus a uma nova foram os belgas, detentores do monopólio As regiões asiáticas mais almejadas pe­
expansão colonial. Mas ela teve algumas sobre o Congo (atual República Democrá­ las potências imperialistas foram a Índia e
diferenças importantes em relação à ocor­ tica do Congo), desde 1876, e os franceses, a China. Na Índia, os britânicos já possuíam
rida no início da Idade Moderna, a come­ que avançaram sobre a Argélia, a Tunísia e as bases da colonização estabelecidas desde
çar pelos objetivos, que, nos séculos XV e o Marrocos. Logo depois vieram os ingleses, a Guerra dos Sete Anos (1756-1763), quando
XVI, eram primordialmente a exploração que se apoderaram do Egito, do Sudão e do a vitória sobre a arquirrival França lhes ga­
de metais preciosos e de produtos tropicais. sul do continente. Os conflitos entre britâni­ rantiu hegemonia na região. Em 1857, os na­
Além disso, agora o sistema econômico vi- cos e a população bôer - descendente de h o- tivos se rebelaram na Guerra dos Sipaios,

66 1 GE HISTÓRIA 2016
PLANETA PARTILHADO
Confira os domínios das potências imperialistas na Africa, no Sudeste Asiático e na Oceania - NEOCOLONIALISMO
OU IMPERIALISMO?
Imperialismo é o nome que se dá ao capi·
talismo na fase na qual o capital financeiro
(fusão do capital bancário e industrial mo·
nopolista) torna-se hegemônico. Nencolo·
nialismo é o termo usado para designar as
relações de dominação político-econômi·
cas impostas pelas potências industriais
aos países ou territórios sobre seu contro­
le. Na fase imperialista, são impostas as
relações neocoloniais.

;' IMPERIALISMO JAPONÊS


• Grã-Bretanha • França • Alemanha i TASMANIA-1
/
; • Itália • Holanda • Portugal NOVA ZELANDIA
Assim como a Rússia, o Japão foi, até o
Espanha a Japão • Bélgica século XIX, fechado política e economica­
mente. As mudanças só começaram durante
Estados U n idos
a Era Meiji, no fim do século, quando houve
- �las Histójico Escolar, 8 ed. Fename/MEC, pJgs. J38, 1.39 investimentos em indústrias, acabando com
a antiga estrutura feudal de produção. Em
guerras contra a China, o Japão conquistou
vencida pelos ingleses. Em 1876, a rainha França, Estados Unidos (EUA) e Japão. Em a ilha de Formosa (Taiwan) e a Core ia. Mais
Vitória foi coroada imperatriz da Índia. A 1900, os boxers, um grupo nacionalista com tarde, o país entrou em choque com a Rús­
exploração comercial era feita por meio da apoio popular, sitiou o bairro ocupado pelas sia pela Manchúria, na Guerra Russo-Ja­
poderosa Companhia das Índias Orientais, delegações estrangeiras em Pequim, dando ponesa. Apoiados por ingleses e norte-ame­
detentora do monopólio da atividade. início à Guerra dos Boxers. O confronto ricanos, os japoneses saíram vencedores do
Na China, a penetração europeia foi difi­ findou com a derrota chinesa e com a impo­ conflito em 1905 e tornaram-se a maior po­
cultada pelo governo forte e centralizado. O sição, pelas potências imperialistas, da polí­ tência imperialista do Oriente.
caminho usado pelos ingleses para penetrar tica da "porta aberta", na qual a China tinha
no país foi a exportação ilegal de ópio - po­ de fazer amplas concessões comerciais. IMPERIALISMO NORTE-AMERICANO
deroso narcótico extraído da papoula - para A história de intervenções norte-ameri­
solo chinês, onde seu consumo era proibido. IMPERIALISMO RUSSO canas na América Latina começou em 1846,
As autoridades chinesas reagiram queiman­ Por ter a economia basicamente agrária até com a guerra contra o México, em que os
do 20 mil caixas do produto em 1839. A ten­ o século XIX, somente após 1870 a Rússia sen­ EUA anexaram quase metade do território
são levou às Guerras do Ó pio. Após três tiu necessidade de mercados consumidores e vizinho. Em 1898, na Guerra Hispano-Ame­
anos de batalhas, os ingleses saíram vitorio­ de matéria-prima, dedicando-se às conquistas ricana, o país conquistou Porto Rico e, três
sos e estabeleceram o Tratado de Nanquim, imperialistas. Lançou-se em direção à Crimeia anos depois, garantiu poder de intervenção
no qual o governo chinês se comprometia a (região próxima ao mar Negro) e à Índia, mas sobre a recém-independente Cuba. No Pa­
entregar Hong Kong à Inglaterra e a abrir foi barrada pelas potências europeias, princi­ namá, os EUA apoiaram a independência do
cinco portos ao comércio internacionaL palmente a Inglaterra. A opção foi voltar-se país e garantiram para si o direito de cons­
No fim do século XIX, o enorme territó­ para a região chinesa da Manchúria, rica em truir e controlar o Canal do Panamá, que liga
rio chinês estava dividido em esferas de in­ minerais. Porém, aí também os russos depara­ o oceano Atlântico ao Pacífico. Já no sécu­
fluência de Inglaterra, Alemanha, Rússia, ram com um forte concorrente: o Japão. lo XX, por meio da política do "big stick"
(grande porrete), o país consolidou seu po­
der sobre o Caribe, impondo forte presença

-A HISTÓRIA HOJE ········­


militar e domínio econômico na região.

A SEGUNDA ONDA
FRONTEIRAS ARBITRÃRIAS INFLUENCIAM CONFLITOS NA ÃFRICA Essa primeira fase do imperialismo ter­
A atual divisão política dos Estados africanos é resultado da colonização europeia minou com a I Guerra MundiaL Entre 1914
entre os séculos XVI e XX e foi definida com a Conferência de Berlim (1884-1885). A e 1945, o imperialismo se caracterizou pe­
partilha do continente não respeitou os territórios originais dos diversos povos, agru­ la rápida expansão dos Estados totalitários,
pando-os ou separando-os de forma arbitrária. Desse modo, com a independência, as como a Alemanha nazista, a Itália fascista,
hostilidades étnicas e culturais foram acentuadas e desencadearam duradouros e vio· o Japão e a União Soviética (URSS). Após a
lentos conflitos. O desmembramento do Sudão, em 2011, que deu origem ao Sudão do II Guerra Mundial e o fim dos processos de
Sul, ocorreu após meio século de guerra civil entre o norte, de colonização predomi­ descolonização da África e da Ásia, o impe­
nantemente árabe e islâmica, e o sul, de várias etnias negras e majoritariamente cris· rialismo assumiu a forma de hegemonia po­
tãs. Nações como a Costa do Marfim e a Nigéria também enfrentam profundas divisões lítica e econômica, durante a Guerra Fria
entre o norte islâmico e o sul cristão. (veja a matéria na pág. 76). �

[lJ AFP/COLLECTION ROGER·VIOLLET GE HISTÓRIA 2016 1 67


M U N D O ! I DA D E C O N T E M P O R Â N E A
I GUERRA MUNDIAL

Briga de
cachorro
grande
As maiores potências do planeta
travaram o combate mais
violento que já se vira até então

E
m 1914, um conflito armado entre o Im­
pério Austro-Húngaro e a Sérvia esten­
deu-se às demais potências imperialis­
tas europeias e envolveu dezenas de países
do mundo, transformando-se num con­
fronto generalizado. A guerra durou qua­
tro anos, deixou cerca de 14 milhões de mor­
tos e sacudiu a geopolítica mundial.

MOTIVOS E ALIANÇAS
O principal fator que desencadeou a
I Guerra Mundial foi o choque de impe­ [1[
rialismos: todas as potências europeias es­ AlifTERRA DE TRINCHEIRAS Soldados alemães na I Guerra: o conflito deixou 14 milhões de mortos
tavam empenhadas em expandir suas eco­
nomias e seus domínios, o que provocava
disputas. A situação ficou especialmente

I
complicada no início do século XX porque EUROPA EM 1914
Veja as fronteiras d�Uontinente às vésperas do
a Alemanha, que até pouco tempo antes era
conflito e as forças que se enfrentaram
uma nação sem expressão, despontou como
uma das economias mais pujantes do con­ � Tríplice Aliança e aliados
tinente, após unificar-se e industrializar-se ����';;;RiA( Tríplice Entente e aliados

de forma acelerada. Itália (em maio de 1915, passa


a compor a Tríplice Entente)
A ascensão preocupava britânicos e, so­ Países neutros
bretudo, franceses, que alimentavam revan­
chismo contra os alemães desde a derrota na
Guerra Franco-Prussiana (1870).
A Rússia também tinha atritos com vi­
zinhos. Sob o pretexto do pan-eslavismo
(união de todos os povos eslavos), ela queria
anexar áreas dos impérios Austro-Húngaro
e. Turco-Otomano. Os territórios otomanos
eram desejados pela Sérvia, que sonhava, a
exemplo da Rússia, agregar os eslavos da re­
gião na Grande Sérvia.
Os choques de interesses levaram à cria­
ção de dois sistemas rivais de alianças. Em
1879, a Alemanha firmou com o Império
Austro-Húngaro um acordo contra a Rús­
sia. Três anos depois, a Itália, rival da Fran­
ça no Mediterrâneo, aliou-se aos dois paí­
ses, constituindo a Tríplice Aliança. Do la-

68 1 GE HISTORIA 2016
do oposto, surgiu a Tríplice Entente, que tros países tomaram partido: o Reino Unido Unidos (EUA) entraram na guerra com os
teve origem na Entente Cordiale, formada aliou-se à França; a Turquia, do lado dos ale­ Aliados e decidiram o confronto. O país que­
em 1904 por Reino Unido e França, para se mães, atacou os portos russos no mar Negro; ria preservar o equilíbrio de poder na Euro­
opor ao expansionismo germânico. Em 1907 e o Japão, interessado nos domínios germâ­ pa e evitar uma possível hegemonia alemã.
conquistou a adesão da Rússia. nicos no Extremo Oriente, engrossou o blo­
Uma vez montados os dois blocos, as po­ co contra a Alemanha. TRATADOS DE PAZ
tências iniciaram uma política de militari­ Ao lado da Entente, entraram outras 24 Em julho de 1918, forças inglesas, france­
zação, e surgiram pequenos conflitos. As nações, estabelecendo uma ampla coalizão, sas e norte-americanas lançaram o ataque
atenções se voltavam agora para a região conhecida como Aliados. Já a Alemanha re­ definitivo. As potências centrais recuaram é,
dos Bálcãs, disputada por ambas as alian­ cebeu a adesão do Império Turco-Otoma­ ameaçadas pela ofensiva aliada, começaram
ças e agitada por levantes nacionalistas. no, movido pelos interesses nos Bálcãs. Es­ a solicitar armistícios. Aos poucos, Bulgária,
se primeiro estágio da guerra, que durou até Turquia e Áustria renderam-se. A guerra es­
GUERRA a Batalha do Mame, vencida pelos france­ tava praticamente vencida.
Em junho de 1914, o arquiduque Francis­ ses, em setembro de 1914, ficou conhecido Pelo Tratado de Brest-Litovsk, os bol­
co Ferdinando, sucessor do Império Austro­ como guerra de movimento. Era quando as cheviques, que assumiram o poder na Rús­
-Húngaro, e sua mulher foram assassinados potências ainda acreditavam numa decisão sia, já haviam assinado a paz em separado
em visita a Sarajevo, na Bósnia-Herzegovi­ rápida para o conflito. com a Alemanha, em março de 1918. A fome
na - região que havia sido anexada pelos Já o momento seguinte, a guerra de trin­ e a saúde precária da população alemã leva­
austríacos anos antes -, por um estudante cheiras (ou de posições), foi marcado pelo ram o país à beira de uma revolução. Com a
membro de uma organização separatista. uso de metralhadoras e tanques. Na frente renúncia do kaiser (imperador alemão), exi­
Após confirmada a cumplicidade de políti­ ocidental, a guerra entre França e Alema­ gida pelos EUA, um conselho provisório ne­
cos da Sérvia no atentado, o governo aus­ nha continuou sem vencedores até 1918. Na gociou a rendição.
tríaco enviou um ultimato aos sérvios. Exi­ frente oriental, os alemães abateram a Rús­ Em janeiro de 1919, no Palácio de Versa­
gia, entre outras medidas, a demissão de mi­ sia. A Itália, embora pertencente à Tríplice lhes, iniciou-se a Conferência de Paris, em
nistros suspeitos de participação no crime. Aliança, ficou neutra no início, mas trocou que o Conselho dos Quatro, formado por
A Sérvia relutou em atender às exigências, e de lado em 1915, sob a promessa de receber EUA, França, Inglaterra e Itália, tomou as
o país foi invadido pelos austríacos em 1° de parte dos territórios turco e austríaco. decisões do pós-guerra. O Tratado de Ver­
agosto, dando início aos combates. Em 1917, os únicos países da Entente que salhes determinou que a Alemanha cedesse
Logo, as demais nações que compunham resistiam eram a Inglaterra e a França. Na um sétimo de seu território, perdesse suas
as alianças entraram no conflito. A Rússia Rússia, quase derrotada, a insatisfação po­ colônias, tivesse seu Exército reduzido e pa­
declarou guerra à Áustria; a Alemanha, à pular levou à revolução socialista (veja a gasse uma indenização. Ficou estabelecida,
Rússia. A França mobilizou tropas contra matéria na pág. 70). Com a derrota russa e ainda, a criação da Liga das Nações, encar­
os alemães. Em 3 de agosto de 1914, o con­ o risco de a Alemanha avançar pela frente regada de manter a paz mundial. Pelos trata­
tinente estava em guerra. Em seguida, ou- ocidental e conquistar a França, os Estados dos de Saint-Germain e Trianon, o Império
Austro-Húngaro foi desmembrado, e surgi­
ram a Hungria, a Tchecoslováquia, a Polônia
e a Iugoslávia. A Áustria virou um pequeno
EUROPA EM 1922 Estado, sem poder relevante. A paz com o
Confira como ficou a divisão política após o confronto Império Turco-Otomano, também desmem­
brado, foi selada no ano seguinte. �
Novos países

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�'- (DINAM�RCA)

E NO BRASIL...
..
NÓS E A GUERRA
UNIAODAS A I Guerra Mundial afetou o Brasil de
REPOBLICAS
SOCIALISTAS diversas maneiras. Houve aumento
SOVI!TICAS dos preços e do desemprego e queda
(URSS)
nas exportações de café. Em 1917,
greves de operários ocorreram em
Oce.mo vários estados e foram duramente
ilt/Jntl(fJ
reprimidas. As operações militares
na Europa também reduziram de
forma sign ificativa as importações
brasileiras, estimulando certo
desenvolvimento da indústria
nacional. Em 1917, o Brasil declarou
guerra à Alemanha e enviou à Europa
um grupo médico e uma d ivisão naval.

[l[AP GE HISTORIA 1016 1 69


M U N DO I I DA D E C O N T E M P O R Â N E A
R EV O L U ÇÃO R U SSA
[1[

.oilllll VERVE VERMELHA


Vladimir Lênin discursa para
a população, em Moscou,
após vitória da revolução
bolchevique de 1917

Surge a potência rubra


D u rante a I Guerra Mundiat l ideranças socialistas russas convenceram o povo a derrubar
o im perador e criaram o primeiro país a pôr em prática as ideias de Karl Marx

A
Revolução Russa foi um movimento boiardos e ao clero da Igreja Ortodoxa.
- Após a derrota na Guerra Russo-Japone­
ocorrido entre 1917 e 1928 que derru­ A industrialização, tardia, era um fenôme­ sa, os ânimos populares se inflamaram, e
bou a monarquia no país e culminou no recente, restrito a algumas cidades. Por estourou a Revolução de 1905. No episó­
na criação da União das Repúblicas Socia­ depender do capital de outros países, a Rús­ dio mais marcante, o Domingo Sangren­
listas Soviéticas (URSS) - ou apenas União sia não foi capaz de produzir uma burguesia to, uma manifestação pacífica em São Pe­
Soviética -, o primeiro país socialista do local forte. O proletariado, ao contrário, em­ tersburgo foi massacrada pelo Exército. O
mundo. O processo foi de intensa agitação bora também fosse pequeno, organizou-se clima ficou tenso, seguindo-se greves e pro­
política e militar e influenciou de maneira de forma sólida e combativa, mantendo vín­ testos. Operários, camponeses e soldados
decisiva a história do século XX, ao dar ori­ culos estreitos com as massas camponesas. organizaram-se em conselhos denomina­
gem a uma das potências que dominariam Entre esses operários, germinaram as dos sovietes - mais tarde controlados pelos
por décadas a geopolítica global. ideias revolucionárias vindas da Europa bolcheviques. A burguesia forçou a instala­
Ocidental, o que permitiu o aparecimen­ ção de um Parlamento - a Duma -, em 1906.
ANTECEDENTES to de grupos políticos de oposição ao re­
No fim do século X I X, a Rússia não havia gime czarista. O mais influente era o Par­ REVOLUÇÃO MENCHEVIQUE
passado pelas reformas ocorridas na Euro­ tido Operário Social-Democrata Russo Os altos gastos militares com a I Guer­
pa Ocidental a partir do fim da Idade Mo­ (POSDR), inspirado no ideário marxis­ ra Mundial intensificaram o descontenta­
derna. Na política, vigorava ainda o abso­ ta. Em 1903, a agremiação se dividiu em mento com o governo. A insatisfação al­
lutismo, personificado na figura do czar, o duas facções: os bolcheviques, liderados cançou o auge em 1917, na Revolução de
imperador russo. E, na economia, a servi­ por Vladimir Lênin, defensores da toma­ Fevereiro, quando o Exército se negou a
dão feudal fora abolida em 1861, mas a agri­ da do poder pelos operários e campone­ marchar contra uma manifestação popu­
cultura continuava predominantemen­ ses; e os mencheviques, encabeçados por lar em Petrogrado (como era conhecida
te baseada no trabalho dos camponeses. A Julius Martov - adeptos da revolução gra­ São Petersburgo). Enfraquecido, o czar Ni­
maioria das terras pertencia à nobreza - os dual, por meio de reformas. colau 1 1 foi obrigado a abdicar.

70 I GE HISTÓRIA 2016
Os mencheviques, apoiados pela bur­
guesia, instalaram a República da Duma,
111 A HISTÓRIA HOJ E •••••••

de caráter liberal, liderada por um nobre, A RÚSSIA TEM TRANSIÇÃO CONTURBADA RUMO AO CAPITALISMO
o príncipe Lvov. O fracasso na I Guerra le­ Com o colapso da experiência socialista no início dos anos 1990, a Rússia enfrentou uma
vou à sua substituição por um socialista transição turbulenta para o modelo capitalista, adotando um programa radical de privati·
moderado, Alexander Kerensky. zação e liberalização econômica. Nesse processo, milionários russos adquiriram valiosas
Apesar da concessão, a oposição bolche­ empresas estatais da antiga União Soviética a preços módicos, em troca de empréstimos ao
vique se fortaleceu. Leon Trótski, presiden­ Estado, que estava praticamente quebrado. Ao assumir a Presidência em 2000, Vladimir Pu·
te do soviete de Petrogrado, criou a Guarda tin buscou retomar o controle do Estado com empresas que exploram os principais recuf·
Vermelha, formada por milicianos operá­ sos energéticos do país, como gás e petróleo. É o que aconteceu com a Gazprom, que havia
rios. Lênin, que estava exilado na Finlân­ sido privatizada nos anos 1990 e hoje é a maior produtora de gás natural do mundo. O país
dia, voltou clandestinamente ao país e in­ se equilibra atualmente num modelo híbrido, em que o Estado controla os setores estraté·
citou os sovietes a tomar o poder por meio gicos da economia sem afetar os interesses da iniciativa privada nos demais segmentos.
de uma revolução. Sob os lemas "Pão, paz e
terra" e "Todo o poder aos sovietes", os bol­
cheviques defendiam a retirada do país da
guerra, a tomada do poder pelos conselhos revolução para outros países - a revolu­ culto à personalidade de Stálin. Ele expul­
populares e uma ampla reforma agrária. ção permanente. Já o segundo pretendia sou do partido e do Exército os inimigos
implantar o socialismo apenas na URSS. declarados, potenciais ou meros suspeitos,
REVOLUÇÃO BOLCHEVIQUE Stálin venceu, expulsou o adversário do chegando até a fazer montagens e adulte­
Em 25 de outubro (segundo o calendário país e implantou, a partir de 1928, o regi­ rações de fotos para "apagar" seus desafe­
juliano, que vigorava na Rússia), eclodiu a me mais tarde batizado de stalinismo. tos da história. Milhões de pessoas foram
revolução popular. Apoiados pelas massas, presas, executadas ou enviadas a campos
os bolcheviques derrubaram a Repúbli­ STALINISMO de trabalho forçado. Trótski foi assassina­
ca da Duma e instituíram o Conselho dos Stálin substituiu a NEP por uma no­ do no México, em 1940.
Comissários do Povo, presidido por Lê­ va política econômica baseada em planos Com governo forte e economia pujante,
nin. Ele então deu início à mudança do sis­ quinquenais. Priorizou a indústria pesada a URSS começou a se transformar na po­
tema econômico do país, concedendo aos e coletivizou as terras à força - processo tência que teria papel decisivo na II Guer­
camponeses o direito exclusivo de explo­ durante o qual foram mortos milhões de ra Mundial e dividiria o poder global com
ração das terras, transferindo o controle camponeses. Politicamente, o stalinismo os Estados Unidos durante a Guerra Fria
das fábricas aos operários, expropriando foi caracterizado pelo totalitarismo e pelo (veja na pág. 76). [2]
as indústrias e nacionalizando os bancos.
No ano seguinte, a Rússia saiu da I Guerra
Mundial ao assinar a paz em separado com
a Alemanha, aceitando entregar a Polônia,
a Ucrânia e a Finlândia. O POSDR passou
a se chamar Partido Comunista Russo - o
único permitido no país.
Aristocratas e mencheviques reagiram.
Chamados de Brancos, eles receberam
ajuda de países como Reino Unido, Fran­
ça, Japão e Estados Unidos, e a nação mer­
gulhou numa guerra civil. Para combater
os contrarrevolucionários, Trótski organi­
zou o Exército Vermelho. O conflito aca­
bou em 1921, com a vitória bolchevique.
Milhares de adversários do governo foram
fuzilados, incluindo o czar e sua família.
Para recuperar a economia, abalada pelo
confronto, Lênin estabeleceu a Nova Polí­
tica Econômica (NEP): uma série de me­
didas capitalistas temporárias que deve­
riam preparar terreno para a instalação do
socialismo. Ele permitiu a criação de em­
presas privadas e o comércio em pequena
escala e autorizou empréstimos externos.
Em 1922 foi instituída a U RSS, reunindo as
diversas regiões do antigo Império Russo.
A morte de Lênin, em 1924, provocou
uma luta pelo poder entre Trótski e Josef
Stálin, secretário-geral do Partido Comu-
nista. O primeiro defendia a ampliação da � SOB A FOICE E O MARTELO A gravura mostra a força do guerreiro comunista contra os inimigos capitalistas

GE HISTORIA 2016 1 71
[l] AFP/COLLECTION ROGER·VIOLLET {2] MUSEU CENTRAL ESTATAL DA HISTORIA CONTEMPORÂNEA OA RÚSSIA
M UNDO I IDADE CONTEMPORÂNEA
C R I S E D E 2 9 E G RAN D E D E P R E SSÃO I
lll

� POTENCIA ESFOMEADA
Com a economia em frangalhos,
a população dos Estados Unidos
faz fila para receber sopa

Falência múltipla
Roosevelt criou mecanismos de contro­
le de crédito e um banco para financiar as
exportações. Fixou salários mínimos, limi­
tou a jornada de trabalho, ampliou a previ­
dência social e investiu em obras públicas.
A prosperidade do pós-guerra nos EUA despedaçou-se a partir de Em 1937, o desemprego havia sido reduzido
quase à metade, a renda nacional crescera
1929, dando lugar à maior crise econômica do século no mundo 70%, e a produção industrial, 64%. Porém, a
crise só seria totalmente sanada na 11 Guer­

E
m 1929, o s Estados Unidos (EUA) mer­ alarmados com a situação das empresas, ra Mundial, com a intensificação da inter­
gulharam numa crise econômica que tentaram vender todos os títulos na bolsa. venção estatal e o aumento das exportações.
se espalharia por quase todo o plane­ Na Europa, surgiram as políticas de bem­
ta na década seguinte, o que levou à Grande CRASH estar social, nas quais o Estado oferece ga­
Depressão. O choque obrigou os países a re­ Com muita gente querendo vender ações rantias trabalhistas e serviços como educa­
formar o liberalismo, aumentando a inter­ e poucas pessoas dispostas a comprá-las, ção e saúde à população. Mas a crise tam­
venção estatal na economia. elas se desvalorizaram. A situação chegou bém estimularia o surgimento de regimes
ao extremo em 24 de outubro de 1929, a extremistas, como o nazismo e o fascismo
ANTECEDENTES "quinta-feira negra", quando os preços dos (veja a matéria na pág. ao lado). 181
Após a I Guerra Mundial, os EUA assumi­ títulos despencaram na Bolsa de Nova York.
ram a hegemonia econômica global. O au­ O episódio ficou conhecido como crash,
mento da produção industrial e a melhora
do poder aquisitivo da população fizeram o
consumo explodir. Os investidores, atraídos
crack ou quebra da Bolsa de Nova York.
Muitos investidores ficaram pobres da
noite para o dia. Nos anos seguintes, milha­
- A H ISTÓRIA HOJE ---­

pela expansão das empresas, tomavam em­ res de bancos e empresas faliram. A redu­ ESTADO INTERVÉM
préstimos bancários para comprar ações (tí­ ção dos sa\ários chegou a 60% em 1932. A PARA SALVAR ECONOMIA
tulos que representam o capital das empre­ baixa do preço de matérias-primas e a re­ A quebra de um dos maiores bancos de investi·
sas) e revendê-las com lucro. Esse processo dução dos créditos norte-americanos a ou­ mento dos Estados Unidos (EUA), o Lehman Bro·
especulativo fez com que, de 1925 a 1929, o tros países espalharam a crise pelo mundo. thers, em 2008, foi o estopim da maior crise eco·
valor total das ações negociadas subisse de No Reino Unido e na Alemanha, por exem­ nômica desde a Grande Depressão de 1929. Esses
27 bilhões para 87 bilhões de dólares. plo, o desemprego chegou a 25% em 1932. dois acontecimentos, separados por quase 8o anos,
Porém, o consumo não acompanhou o guardam relações. Em ambos os casos, por exemplo,
crescimento da produtividade. Além disso, NEW DEAL o crédito fácil concedido pelo sistema financeiro
as nações europeias já estavam se recupe­ Foi diagnosticado que a causa da crise estimulou o endividamento de pessoas físicas e
rando da guerra, e suas exportações com­ era o liberalismo econômico. Influencia­ de empresas, até se tornarem inadimplentes. Com
petiam com as norte-americanas. O resulta­ do pelas ideias do economista inglês John isso, os valores das ações das instituições credoras
do foi a formação de enormes excedentes. O Keynes, segundo as quais o Estado deve caíram, e muitas quebraram, provocando desem·
preço dos produtos caiu, cresceu o desem­ intervir pontualmente na economia, o pre­ prego e recessão. Outro ponto em comum foi a in·
prego e empresas faliram. Aí ficou eviden­ sidente norte-americano Franklin Roose­ tervenção do poder público para salvar a economia.
te que as ações estavam sendo negociadas a velt deu início, em 1933, a um programa de Após a falência do Lehman Brothers, o governo dos
valores bem acima dos reais. Os acionistas, reformas: o New Deal (Novo Acordo). EUA injetou bilhões de dólares nos bancos.

72 1 GE HISTORIA 2016
M U N D O I I DA D E C O N T E M P O R Â N E A
N A Z I FAS C I S M O

Ordem
e terror
Na tentativa de superar crises
econômicas, os países europeus
se submeteram a regimes
autoritários que afu ndariam
o planeta em um novo e
sangrento conflito global [l]

� MILITARISMO o líder nazista Adolf Hitler saúda as tropas alemãs em desfile pelas ruas de Viena, na Austria, em 1938

O
período entre as duas guerras mun­ solini foi convocado para ser primeiro-mi­ ra Hitler, os alemães pertenciam a uma ra­
diais foi marcado na Europa pela as­ nistro e assumiu o cargo com plenos pode­ ça pura e superior: a ariana; as demais deve­
censão do fascismo, regime autoritá­ res, passando a ser chamado de Duce (guia). riam ser subjugadas ou exterminadas.
rio baseado na centralização do poder, no No decorrer da década, ele pôs em prá­ Em 1932, apoiados por burgueses e seto­
nacionalismo, no militarismo, no expansio­ tica o novo regime. O Partido Fascista res conservadores nacionalistas, os nazistas
nismo e no cerceamento das liberdades indi­ passou a ser o único permitido. Jornais venceram as eleições. Um ano depois, Hitler
viduais. Esse tipo de governo totalitário ­ críticos ao regime foram fechados, e ad­ foi nomeado primeiro-ministro e, em 1934,
ou seja, em que o Estado domina todos os versários políticos, perseguidos e mortos. tornou-se chefe de governo e de Estado. Pas­
aspectos da vida social - ganhou força ao Mussolini teve especial êxito na implanta­ sou a ser chamado de Führer (líder) e inau­
propor recuperar a economia, drasticamen­ ção do corporativismo, uma das caracte­ gurou o 111 Reich (II I Império Alemão).
te abalada pela I Guerra, e impedir o avanço rísticas centrais do nazifascismo: tanto os O intervencionismo e a planificação eco­
das ideias socialistas. Nos países que saíram sindicatos dos patrões quanto os dos em­ nômica fortaleceram a atividade industrial
derrotados na I Guerra, como a Alemanha, pregados eram controlados pelo governo. e praticamente eliminaram o desemprego.
os fascistas ainda tinham outra arma a seu As medidas surtiram efeitos na esfera Hitler proibiu os partidos políticos - exce­
favor: o sentimento de revanchismo criado econômica pelo menos até 1929, quando a to o nazista -, fechou jornais de oposição e
entre a população contra os vencedores. nação foi abalada pela Grande Depressão. A perseguiu minorias por ele consideradas in­
Apesar de ter sido implantado em ou­ partir daí, o Duce apostou na expansão ter­ feriores, como os judeus. Esses últimos pas­
tros países, como Portugal (salazarismo) ritorial para resolver os problemas internos. saram por dura segregação e acabaram sen­
e Espanha (franquismo), o fascismo atin­ do mortos aos milhões (veja mais na pág. 74).
giu sua expressão máxima na Itália - onde O NAZISMO NA ALEMANHA Os principais instrumentos de terror eram
surgiu - e, principalmente, na Alemanha, As penalidades sofridas pela Alemanha a SS (guarda especial) e a Gestapo (polícia
onde foi chamado de nazismo. após a I Guerra provocaram inflação e de­ política). Em desrespeito ao Tratado de Ver­
semprego em massa. Instalado no fim da salhes, Hitler remilitarizou o país, acenden­
O FASCISMO NA ITÁLIA guerra, o governo republicano, de orienta­ do o estopim para a II Guerra Mundial. 181
Logo após a I Guerra, a Itália estava asso­ ção social-democrata - e, a partir de 1929,
lada por uma grave crise econômica, com chamado de República de Weimar - não ,

inflação galopante, desemprego e queda da conseguia debelar a crise. As tentativas de


produção industrial. O partido socialista revolução socialista também fracassaram. E NO BRASIL.
ampliava sua força de atuação, e as greves Como alternativa, surgiu, em 1919, o Parti­
tomavam conta do país. Foi nesse contexto do Nacional-Socialista dos Trabalhadores VERSÃO BRASILEIRA
que, em 1919, o ex-militante socialista Be­ Alemães, o Partido Nazista, liderado pelo Sob influência do ideário nazifascista,
nito Mussolini fundou o Partido Fascista, ex-cabo do Exército Adolf Hitler. em 1932 surge no país a conservadora
de cunho ultranacionalista, opondo-se ao As propostas nazistas foram sistemati­ e ultranacionalista Ação lntegralista
socialismo e à democracia liberal. zadas no livro Minha Luta, escrito por Hi­ Brasileira (AIB), liderada pelo paulista
Temendo o avanço socialista, a burguesia tler em 1923, quando estava na prisão, após Plínio Salgado. Alguns de seus
apoiou Mussolini. Em 1922, os "camisas ne­ uma tentativa frustrada de golpe de Estado ­ ideólogos dão ao integralismo fundo
gras", como eram chamados os militantes o Putsch de Munique. Além dos aspectos racista ao defender a superioridade
fascistas, desfilaram pela capital no episó­ comuns ao fascismo italiano - totalitarismo, dos brancos sobre negros, mestiços e
dio denominado Marcha sobre Roma, com nacionalismo, militarismo, expansionismo e judeus. O movimento, contudo,
a conivência do rei Vitor Emanuel III. Mus- anticomunismo -, ele pregava o racismo. Pa- se desarticula em poucos anos.

[lJ il] AP GE HISTÓRIA 2016 1 73


M U N D O ! I DA D E C O N TE M P O R Â N E A
1 1 G U E R RA M U N D I A L

� OFENSIVA ALIADA
Bombas são lançadas por
aviões norte-americanos sobre
território francês em março
de 1944, quando o país ainda
estava sob o domínio alemão

O mundo sob bombas


No maior conflito da história} o s combates entre o s cinco continentes deixaram so milhões de mortos

P
rimeiro conflito militar de escala glo­ Em 1938, Hitler invadiu sem resistên­ de ataque por potência ainda não envolvida
bal, a li Guerra Mundial envolveu na­ cia a Áustria - episódio conhecido como na guerra - por exemplo, os EUA. No mes­
ções de todos os continentes, esten­ Anschluss. No mesmo ano, obteve da França mo mês, Hitler bombardeou Londres, mas
deu-se de 1939 a 1945 e deixou cerca de e da Grã-Bretanha a permissão para anexar foi repelido pela Real Força Aérea (RAF) .
50 milhões de mortos. Foi uma nova tenta­ uma região da Tchecoslováquia habitada por Em junho de 1941, a Alemanha invadiu a
tiva de equacionar os conflitos deixados pe­ alemães - os Sudetos. Em seguida, dominou URSS sem declaração formal de guerra. As
la I Guerra - a Itália e a Alemanha não acei­ o país inteiro. No ano seguinte, assinou com tropas nazistas foram barradas pelo rigoro­
tavam a derrota e, juntamente com o Japão, a rival URSS um acordo de não agressão, o so inverno e pelo contra-ataque soviético.
continuavam a exigir uma redivisão dos mer­ Pacto Germânico-Soviético. Abriu-se, as­ Agora, os alemães precisavam lutar em duas
cados mundiais para a expansão de seus res­ sim, o caminho a leste para ocupar uma área frentes: contra os ingleses a oeste e contra
pectivos parques industriais. As consequên­ que permitia à Polônia acesso ao mar e man­ os russos a leste.
cias foram a destruição do III Reich, de Adolf tinha a província alemã da Prússia Oriental HOLOCAUSTO Paralelamente aos combates,
Hitler, o declínio das nações da Europa e a isolada do resto do território. Hitler perseguia os judeus, vistos como uma
emergência de duas superpotências - Esta­ raça inferior. Inicialmente, foram confina­
dos Unidos (EUA) e União Soviética (URSS). AVANÇO NAZISTA dos em guetos, como o de Varsóvia, na Polô­
As tropas nazistas invadiram a Polônia em nia, que abrigou mais de 400 mil pessoas. A
PRIMORDIOS 1° de setembro de 1939, inaugurando a blitz­ partir de 1942, foi implantada a "solução fi­
Ao perceberem que o nazismo bloquea­ krieg, ou guerra-relâmpago: um fulminan­ nal", que previa a deportação e a execução
va ao avanço do socialismo, as potências eu­ te ataque por terra e ar. Logo depois, o Rei­ em massa em campos de trabalho, concen­
ropeias não se opuseram ao crescimento do no Unido e a França declararam guerra aos tração e extermínio na Alemanha e na Polô­
r.egime na Alemanha. Nem mesmo quan­ alemães. Hitler ocupou a Dinamarca, a No­ nia. No fim do conflito, cerca de 6 milhões de
do Hitler desrespeitou o Tratado de Versa­ ruega, a Holanda (Países Baixos) e a Bélgica. judeus haviam sido mortos, num dos maio­
lhes, remilitarizando o país e anexando ter­ Em junho de 1940, dominou a metade norte res crimes da história, o holocausto.
ritórios. Em 1936, ele reocupou a Renânia, do território da França - no sul foi instalado
região na fronteira entre a França e a Bél­ um governo colaboracionista. O subsecre­ REAÇÃO ALIADA
gica, e, em seguida, deu início a uma ofen­ tário de Defesa Nacional francês, o general Os EUA só entraram na guerra em dezem­
siva diplomática. Ofereceu ajuda econômica Charles de Gaulle, exilou-se no Reino Unido, bro de 1941, quando os japoneses bombar­
à Itália fascista e apoiou o general Francis­ passando a dirigir a Resistência Francesa. dearam a base naval de Pearl Harbor, no
co Franco na Guerra Civil Espanhola. Com Em setembro de 1940 foi formalizado o Havaí. Em seguida, a Alemanha e a Itália de­
o Japão, assinou o Pacto Anti-Komintern, Eixo pacto entre Alemanha, Itália e Ja­
- clararam guerra aos EUA. Definiram-se, as­
para frear a expansão da URSS na Ásia. pão que estabelecia o apoio mútuo em caso sim, duas facções em combate: de um lado,

74 1 GE HISTÚRIA 2016
os países do Eixo (Alemanha, Itália e Japão); ra bomba atômica da história em combate,
de outro, os Aliados (França, Reino Unido, matando 100 mil pessoas e arrasando a ci­ A ONU APROVA A CRIAÇÃO DE
EUA, URSS e China). dade de Hiroshima. Dias depois, foi a vez de UM ESTADO JUDEU
A partir de 1942, os Aliados começaram Nagasaki, onde mais 70 mil habitantes fo­ Em 1947, dois anos após o fim da 11 Guerra
a ganhar terreno. Foi nesse ano que o Bra­ ram mortos. Em seguida, os soviéticos ex­ Mundial, a ONU aprovou a divisão da Pales­
sil entrou na guerra (veja a matéria na pág. pulsaram os japoneses da Manchúria (Chi­ tina em um Estado judeu e outro árabe. O
125). No Atlântico, a Marinha anglo-america­ na) e da Coreia. Enfim, em 2 de setembro Estado de Israel foi proclamado em 1948.
na eliminava submarinos alemães; na Alema­ de 1945, o Japão se rendeu. Era o fim da I I jordânia, Egito, Líbano, Síria e lraque - todas
nha, a aviação aliada intensificava o bombar­ Guerra Mundial. nações árabes - se opuseram à decisão e atâ­
deio. No norte da África, o Exército alemão caram Israel, mas foram derrotados. No fim,
rendeu-se em maio de 1943. Os Aliados de­ TRATADOS DOS VENCEDORES o território de Israel cresceu 75%, e os pales­
sembarcaram na Sicília e invadiram a Itália, Em fevereiro de 1945, na Conferência de tinos ficaram sem país. Em 1967, na Guerra
que passou a integrar as forças antinazistas. Yalta, na Crimeia, o presidente dos EUA, dos Seis Dias, Israel voltou a vencer os árabes
No front leste, os alemães sofreram uma Franklin Roosevelt, o primeiro-ministro e ocupou a Faixa de Gaza, a península do Si­
derrota decisiva na Batalha de Stalingrado do Reino Unido, Winston Churchill, e o lí­ nai, as Colinas de Golã, jerusalém Oriental e
(atual Volgogrado), na Rússia, em janeiro de der da URSS, Josef Stálin, reuniram-se pa­ Cisjordânia. Em 1993, palestinos e israelenses
1943. Em 6 de junho de 1944, o DiaD, foi des­ ra redividir o mundo. Os soviéticos ane­ assinaram o Acordo de Oslo, que estabeleceu
ferido o golpe mortal às forças nazistas. Na xaram a Letônia, a Lituânia, a Estônia e o a formação da Autoridade Nacional Palestina
maior operação aeronaval da história, mais leste da Polônia. Em julho, na Conferência (ANP) e iniciou negociações para a criação de
de 150 mil soldados aliados desembarcaram de Potsdam, na Alemanha, foram deter­ um futuro Estado Palestino. No entanto, o
na Normandia francesa. Paris foi liberada minados o pagamento de uma alta indeni­ processo de paz entrou num impasse, agra­
em 25 de agosto. Os soviéticos libertaram a zação pelos alemães e a divisão do país em vado pela construção por Israel de um muro
Polônia e, em 2 de maio de 1945, ocuparam quatro zonas de ocupação militar: soviéti­ na Cisjordânia separando judeus e árabes.
Berlim. Cinco dias depois, a Alemanha se ca, norte-americana, francesa e britânica.
rendeu. Hitler suicidara-se em 30 de abril. A Decidiu-se ainda pelo desarmamento ale­
guerra na Europa estava encerrada. mão e pelo julgamento dos líderes nazistas, das. Em 1944 foi realizada a Conferência
no que ficou conhecido como Tribunal de de Bretton Woods, nos EUA, que estabe­
BOMBA ATÔMICA Nuremberg. A Alemanha foi separada da leceu o dólar como base do sistema monetá­
Os japoneses haviam ocupado uma vasta Áustria, obrigada a devolver os territórios rio mundial. Em 1948, Washington aprovou
área marítima no Pacífico. A situação só co­ da Tchecoslováquia, a entregar Dantzig à um programa de ajuda financeira às nações
meçou a se inverter em 1942, após algumas Polônia e a reconhecer a divisão da Prússia devastadas pela guerra, o Plano Marshall.
vitórias dos EUA. Em fevereiro de 1945, Oriental entre soviéticos e poloneses. Bilhões de dólares foram investidos na re­
ocorreu o desembarque norte-americano Em abril de 1945, durante a Conferência construção de I nglaterra, França, Itália e
em território japonês, na ilha de Iwo Jima. de San Francisco, nos EUA, 50 países as­ Alemanha. Os EUA tornaram-se o centro
Com o inimigo ainda resistindo, os EUA sinaram a carta de criação da Organiza­ capitalista do planeta, tendo apenas a URSS
promoveram uma terrível demonstração de ção das Nações Unidas (ONU). Medidas como rival. As décadas seguintes seriam de
força. Em 6 de agosto, lançaram a primei- econômicas de peso também foram cria- disputa entre os dois países. 181

i A GUERRA NA EUROPA
Confira a dinâmica das fronteiras e das "'�'lll�·
l"í I
- -��

Territórios ocupados
pela Alemanha
em 1939 • em 1940
.,._...

í' I
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A EUROPA APÓS A GUERRA
Veja como ficaram as fronteiras e as alianças
tropas durante o confronto no Velho �. no continente depois do conflito
• em 1941 • em 1942
���� Avanço das tropas aliadas
• 1slANDIA

Países capitalistas
Território alemão em 1/9/1939 • Territórios italianos em 1/9/1939 Estados neutros • Países socialistas
Estados aliados do eixo Roma-Berlim • Grã-Bretanha e territórios sob seu controle � Areas anexadas pela URSS (1940-1941)
Fonte: José Arruda e Nelson Piletti, Toda a História, 3 ed., Atica,. pJg. XXVIII Fonte:JoséArrudiJ. e Nelson Piletti, Toda a História,Jed� Arica. pág. XXVI

[1] AP/U S ARMY SIGNAL CORPS GE HISTÓRIA 2016 / 75


I M U N D O I I DA D E C O N T E M P O R Â N E A

r
G U E R RA F R I A

-- - -- - - - - · ·-

� O MURO DA DISCÓRDIA
Militares da Alemanha Oriental
erguem, junto ao Portão de
Brandem burgo, parte do muro
de concreto que dividiu Berlim
ao meio durante 27 anos

Divisão política
e ameaca nuclear �
A G uerra Fria marca u m dos períodos mais tensos da história: por décadas, o m u ndo viveu sob
a tutela de d uas superpotências rivais e o temor de um apocal íptico conflito atôm ico

A
Guerra Fria foi o confronto ideológi­ isolados, os soviéticos penduraram no meio na Organização do Tratado do Atlânti­
co, político, econômico e militar entre do continente uma cortina de ferro - ex­ co Norte (Otan). Seis anos depois, URSS e
os dois blocos internacionais formados pressão criada pelo ex-primeiro-ministro o Leste Europeu constituíram o Pacto de
no fim da li Guerra Mundial: o capitalista ­ britânico Winston Churchill, em 1946. Varsóvia (veja o infográfico na pág. ao lado).
liderado pelos Estados Unidos (EUA) - e o Em nenhum lugar da Europa a divisão foi Os demais países alinharam-se a uma ou ou­
socialista - encabeçado pela União Soviética tão visível quanto na Alemanha. Em 1949, o tra tendência ou integraram o Movimento
(URSS). O enfrentamento durou até a queda país foi dividido em dois: as zonas de ocupa­ Não Alinhado - que nunca atingiria coesão
do Muro de Berlim, em 1989, que simbolizou ção francesa, britânica e norte-americana in­ nem atuação significativas. A China, que se
o fim do bloco socialista. tegraram a República Federal da Alemanha tornou socialista em 1949, com a Revolução
(RFA ou Alemanha Ocidental), capitalista;já a Chinesa, permaneceu autônoma em relação
DIVISÃO zona soviética originou a República Democrá­ à URSS a partir de 1960.
A polarização do mundo entre os dois tica Alemã (RDA ou Alemanha Oriental), so­
maiores vencedores da l i Guerra Mun­ cialista. A capital, Berlim, que ficava na RDA, ENFRENTAMENTO
dial começou logo após o fim do conflito. seguiu dividida nas quatro áreas de ocupa­ Em 1949, a URSS explodiu sua primeira
Os EUA garantiram sua hegemonia sobre ção. Em 1961, para tentar impedir o fluxo de bomba atômica, num teste controlado. Ago­
o oeste da Europa por meio do Plano Mar­ refugiados para a parte capitalista da cidade, ra, as duas potências tinham a poderosa ar­
shall, de 1948. A URSS projetou-se sobre o o governo socialista ergueu o Muro de Ber­ ma, e um conflito entre elas poderia destruir
Leste Europeu, estimulando a instalação lim, isolando o lado oeste da capital. o mundo. Foi essa condição que deu origem
do socialismo nos países que havia liberta­ O alinhamento internacional ficou eviden­ à expressão Guerra Fria. Afinal, norte-ame­
do do jugo nazista. Na visão ocidental, ao te pela formação de duas alianças militares. ricanos e soviéticos viviam em clima belige­
estabelecerem tais regimes autoritários e EUA e Europa Ocidental uniram-se em 1949 rante, mas não existia um confronto direto.

76 1 GE HIST0RIA 2016
-
I
O PLANETA DIVIDIDO . A HISTÓRIA HOJE •••••
Confira de que lado estava cada pais* na Guerra Fria e a potência
dos arsenais das grandes alianças militares encabeçadas por EUA e URSS
CRISE NA UCRÂNIA REACENDE DISPUTA
ENTRE A ROSSIA E O OCIDENTE
A Ucrânia tornou-se alvo de uma tensa disputa
entre a Rússia e o Ocidente - representado pelos
Estados Unidos (EUA) e pela União Europeia (UE). A
crise teve início quando o governo ucraniano rejei·
tou um acordo comercial com a UE para manter-se
economicamente ligado à esfera de influência da
Rússia. lnconformada com a decisão, parte da popu­
lação aderiu a protestos que resultaram na queda do
presidente Viktor Yanucovich, em fevereiro de 2014.
A deposição de seu aliado gerou forte insatisfação
do governo russo, que respondeu com a anexação da
Crimeia, em março. Essa república autônoma havia
sido cedida pela antiga União Soviética à Ucrânia em
1954. A região, que tem população de maioria russa,
• Estados Unidos e aliados (Otan) também abriga uma frota militar de Moscou.
Países alinhados com os EUA O fato abriu a mais grave crise envolvendo as gran·
• União Soviética e aliados (Pacto de Varsóvia) des potências desde o fim da Guerra Fria. Em retalia·
Países alinhados com a URSS ção, EUA e UE aplicaram fortes sanções econômicas à
[J Países não alinhados Rússia, enquanto o leste da Ucrânia passou a convi·
*lnformações referentes aoanode 198S
ver com violentos distúrbios separatistas.

Indiretos, porém, houve vários. No Tercei­ tros importantes conflitos que opuseram os ganistão (1979-1989). Os EUA, temendo o
ro Mundo - como eram chamados na época dois blocos foram a Guerra do Vietnã (veja avanço socialista na América Latina, apoia­
os países em desenvolvimento -, as forças lo­ a matéria na pág. 82), a Revolução Cubana ram sangrentas ditaduras militares na re­
cais adversárias envolvidas em guerras civis (veja a matéria na pág. 79), a guerra civil em gião (veja a matéria na pág. 81).
e em movimentos anticoloniais acabavam Angola (1961-2002) e a Revolução Sandinis­ Após a morte do líder soviético Josef Stá­
se alinhando às superpotências, em busca ta, na Nicarágua (1979). lin, em 1953, e a ascensão de Nikita Krus­
de apoio, e aí a Guerra Fria esquentava. O A Guerra Fria também foi caracterizada chev, a URSS tentou reduzir a corrida ar­
primeiro grande confronto desse tipo foi a pelas intervenções das potências em suas mamentista por meio da implementação
Guerra da Coreia (1950-1953), iniciada por áreas de influência. A URSS reprimiu vio­ da política de Coexistência Pacífica. Seus
causa da i nvasão da Coreia do Sul, capita­ lentamente rebeliões na Hungria (1956) e efeitos, entretanto, foram limitados.
lista, pela Coreia do Norte, socialista. Ou- na Tchecoslováquia (1968) e invadiu o Afe- O momento mais tenso da Guerra Fria
foi a crise dos mísseis. Em 1962, a URSS
instalou secretamente ogivas nucleares em
Cuba. Os EUA descobriram, e o presiden­
te John Kennedy ordenou um bloqueio na­
val à ilha. Moscou enviou uma frota para
um confronto, mas o líder soviético Nikita
Kruschev cedeu e retirou os mísseis.
Afora as tensões bélicas, a disputa entre
EUA e URSS estendia-se para várias outras
esferas, como a esportiva, a cultural e a cien­
tífica. Um importante capítulo da contenda
foi a corrida espacial, uma acirrada compe­
tição tecnológica que culminou com a chega­
da do primeiro homem à Lua - o norte-ame­
ricano Neil Armstrong -, em 1969.
A Guerra Fria foi amenizada em 1973,
quando as superpotências concordaram
em desacelerar a corrida armamentista, por
meio da Política da Détente. Porém, o acor­
do duraria apenas até a invasão soviética no
Afeganistão, em 1979. O conflito global só
esmoreceu, de fato, a partir de 1985, com a
[l[ subida ao poder do líder soviético Mikhail
A NO MUNDO DA LUA O astronauta norte-americano Buzz Aldrin passeia pela superfície do satélite Gorbatchov (veja a matéria na pág. 84). fg)

[l]AfP [l] NASA GE HISTORIA 2016 / 77


M U N D O I I DA D E C O N T E M PO RÂ N E A
R EV O L U Ç Õ E S N O PÓS - G U E R R A
[li

..oillllll REVOLUCIONÁRIOS
Che Guevara, Fidel Castro
e Camilo Cienfuegos (da
esq. para a dir.): líderes do
movimento que levou o
socialismo a Cuba

A vez do comunismo
Após o término da l i G rande G uerra} o mundo presenciou a eclosão de vários movimentos
revolucionários} entre eles as tomadas de poder pelos socialistas ocorridas na China e em Cuba

REVOLUÇÃO CHINESA 111 A HISTÓRIA HOJE ---­

C
om o fim da I I Guerra Mundial e a
eclosão da Guerra Fria, confronto po­ A Revolução Chinesa de 1949 foi o re­
lítico, militar e ideológico que pôs em sultado de uma longa batalha iniciada lo­ CUBA AVANÇA NAS REFORMAS
campos opostos os Estados Unidos (EUA) go depois do fi m da I Guerra Mundial, em Em janeiro de 2014, o governo cubano inaugurou
e a União Soviética (URSS), o mundo pre­ 1921, com a fundação do Partido Comu­ a primeira etapa do porto de Mariel. Construído
senciou um conjunto de movimentos revo­ nista Chinês (PCC). Os comunistas con­ pela empresa brasileira Odebrecht por meio de
lucionários. Entre eles, dois merecem des­ sideravam que a instauração da República, um financiamento de 957 milhões de dólares do
taque. O primeiro, ocorrido na China no em 1911, e a chegada ao poder do Partido BNDES, o porto faz parte de um projeto que irá
fim dos anos 1940, é relevante por envol­ Nacionalista não resultaram em um Es­ criar uma zona econômica especial na região. As
ver uma civilização milenar, de grande po­ tado efetivamente soberano nem propor­ empresas estrangeiras ali instaladas terão incen·
pulação e extenso território e, consequen­ cionaram reformas sociais profundas que tivos fiscais e aduaneiros para operar.
temente, com grande impacto geopolítico. melhorassem a vida dos trabalhadores ur­ Esta é uma das muitas mudanças que o governo
. O segundo movimento tem sua impor­ banos e rurais chineses. cubano vem promovendo nos últimos anos para
tância por ter acontecido em uma peque­ Desde então, a China viveu períodos al­ tentar dinamizar a economia, que ainda sofre com
na ilha do Caribe - Cuba -, em 1959, com ternados de guerra civil entre nacionalis­ o bloqueio econômico imposto pelos Estados Uni·
poder militar inexpressivo, mas distante tas e comunistas e períodos de aliança, dos em 1962, durante a Guerra Fria, e com o fim dos
apenas cerca de 100 quilômetros da maior nos quais esses dois grupos lutaram juntos subsídios oferecidos pela União Soviética, após
potência do Ocidente no pós-guerra, os contra agressões estrangeiras - o Japão seu colapso em 1991. Entre as reformas apresenta·
Estados Unidos - país que a tutelava des­ invadiu o país durante a década de 1930 e das pelo Partido Comunista Cubano estão o direito
de o início do século. Essas características no decorrer da I I Guerra Mundial. O fim à compra e venda de imóveis, o incentivo ao traba·
acabaram atribuindo à revolução cubana, da II Guerra e a derrota e a expulsão das lho autônomo e cooperativo, o reconhecimento da
de cunho socialista (assim como a chine­ forças japonesas do território chinês abri­ existência de empresas privadas e o arrendamento
sa), grande valor simbólico. ram um novo período de acirrada disputa de terras para ampliar a produção agrícola.

78 1 GE HISTÓRIA l016
de poder entre nacionalistas e comunistas, 1956, ele ·retornou clandestinamente ao nização dos Estados Americanos (OEA).
que resultou na vitória do Partido Comu­ país e, com a ajuda do argentino Che Gue­ Nesse mesmo ano, a União Soviética ten­
nista Chinês em 1949. vara, montou uma base rebelde em Sier­ tou instalar, secretamente, mísseis na ilha,
Com a ascensão dos comunistas ao po­ ra Maestra, no leste da ilha. Em 1959, con­ capazes de atingir o território norte-ameri­
der, várias tentativas de economia planeja­ quistou Havana e instaurou um governo cano. Os EUA descobriram e impuseram um
da foram implementadas, como o Grande revolucionário no país. bloqueio naval a Cuba. A tensão aumentou,
Salto para Frente (1958/1962), com o ob­ Fidel decretou a reforma agrária, fu­ e o mundo esteve à beira de uma guerra nu­
jetivo de acelerar o processo de industria­ zilou colaboradores de Batista e nacio­ clear, até que os soviéticos recuaram, reti­
lização e a modernização da sociedade chi­ nalizou as empresas norte-americanas rando os mísseis da região.
nesa. No entanto, o resultado foi um caos instaladas na ilha, desagradando os Es­ As reformas implantadas pelo governo
econômico, que causou a fome e a morte de tados Unidos. A tensão entre os dois paí­ comunista de Fidel Castro garantiram vá­
milhões de camponeses. Nesse cenário, co­ ses cresceu em abril de 1961, quando exila­ rias melhorias sociais à população, espe­
meçaram a surgir críticas, no interior das dos cubanos treinados pela CIA, a agência cialmente em saúde e educação, mas a eco­
fileiras do PCC, à liderança de Mao Tsé­ central de inteligência dos Estados Uni­ nomia continuou precária e fortemente
tung, que estava na condução dos desti­ dos, desembarcaram na Baía dos Porcos, dependente da ajuda soviética.
nos do país desde a revolução comunista. numa tentativa malsucedida de derrubar o Descontentes, milhares de pessoas dei­
Para neutralizar seus opositores e reverter governo revolucionário. xaram a ilha, criando uma grande comuni­
um movimento que considerava ameaçar Em seguida, Fidel anunciou a adesão ao dade de exilados na Flórida (EUA). Mesmo
as conquistas da revolução, Mao Tsé-tung marxismo-leninismo e aproximou-se da após o colapso da URSS, no início da década
desencadeou a Revolução Cultural. URSS, tornando-se o único país socialis­ de 1990, o regime cubano se mantém atual­
Mao convocou os jovens e, com eles, or­ ta da América. Os EUA reagiram, em 1962, mente com o apoio da Venezuela, que ofere­
ganizou as Guardas Vermelhas, unidades com um bloqueio econômico e político a ce petróleo a preços subsidiados, e é gover­
paramilitares encarregadas de enfrentar Cuba, que acabou sendo expulsa da Orga- nado por Raúl Castro, irmão de Fidel. 181
os burocratas, o "revisionismo burguês" e
manter vivo o "espírito revolucionário". O
grupo, que chegou a ter 11 milhões de inte­
grantes, perseguiu membros rivais do PCC
e pessoas acusadas de conservadorismo.
Logo, as Guardas Vermelhas racharam em
várias facções, cada uma acreditando ser
a legítima representante de Mao, até que
perderam sua força e desapareceram.
A Revolução Cultural, por meio das Guar­
das Vermelhas, também combateu o confu­
cionismo, conjunto de ideias baseadas no
pensamento do filósofo Confúcio (século V
a.C.), que durante milênios influenciaram a
sociedade chinesa. Pelo valor que davam à
hierarquia e ao culto do passado, tais ideias
passaram a ser encaradas como reacioná­
rias. O problema é que, na prática, ela re­
sultou em escolas fechadas, no ataque (não
apenas verbal) a intelectuais e no culto exa­
gerado à personalidade de Mao. � REPRESSÃO jovens franceses são presos pela polícia durante os eventos de maio de 1968
A Revolução Cultural foi encerrada após
a morte do líder, em 1976. Com isso, abriu-se
caminho para a ascensão de Deng Xiao­ A IMAGINAÇÃO NO PODER
ping à chefia do Partido Comunista Chi­ O hoje quase mítico levante de maio de 1968 na França foi uma grande onda
nês. O político iniciaria o processo de re­ de protestos que teve início com manifestações estudantis em Paris para pedir
formas econômicas que faria da China a reformas no setor educacional no país. O movimento francês cresceu e passou
superpotência de hoje. a contar com o apoio dos trabalhadores. Unidos, os manifestantes promove·
ram uma gigantesca paralisação geral, com barricadas pelas ruas de Paris, que
REVOLUÇÃO CUBANA balançou o governo do então presidente francês Charles De Gaulle. Durante
Independente desde 1902, Cuba conti­ os protestos, nasceram frases famosas que se espalharam pelo mundo, como
nuou, por décadas, sendo dominada eco­ "É proibido proibir", "A imaginação no poder" e "Sejamos realistas: peçamos o
nomicamente pelos EUA, que apoiavam impossível". Há uma forte conexão entre os acontecimentos em Paris e os re·
a ditadura militar instalada no país, em !acionados à Revolução Cultural chinesa. Tanto para os estudantes franceses
1952, pelo ex-sargento Fulgencio Batista. quanto para os jovens chineses alinhados a Mao Tsé·tung, a inspiração e a orien·
No ano seguinte, a repressão oficial levou tação para a ação prática deveriam vir do futuro - e não do passado. Os estu·
rebeldes liderados pelo advogado Fidel dantes franceses expressavam uma profunda insatisfação com o consumismo
Castro a atacar o quartel de La Moncada. capitalista e com as alternativas que propunham a sua superação. Já a juventude
Fidel foi preso e exilado no México. Em maoísta buscava um novo socialismo, não previsto pelos cânones marxistas.

111 AfP/CDNSEjO OE ESTADO lliAP/GUY KOPELOWICZ GE HISTÓRIA 2016 1 79


M U N DO I I D A D E C O N TE M P O R Â N E A
D E S C O L O N IZAÇÃO A F R O -A S I ÁT I CA I
Baby boom
de nacões :J

As transformações decorrentes da
11 G uerra M u ndial provocaram uma
onda de independências na Africa
e na Ásia: em poucas décadas�
dezenas de novos países surgiram [l
� NA PAZ O líder Mahatma Gandhi (à esq.) foi um dos líderes do movimento pela independência da lndia

A
descolonização afro-asiática foi o pro­ lista Vietminh, liderado pelo comunista Ho culminou com a queda do governo e a toma­
cesso de independência das antigas co­ Chi Minh, proclamou a independência do da da Presidência pelo herói da I I Guerra
lônias europeias nesses dois continen­ Vietnã. A tentativa da França de retomar o Mundial, Charles de Gaulle, em 1958. Qua­
tes, ocorrido após a II Guerra Mundial. Entre domínio levou à Guerra da Indochina (1946- tro anos depois, ele negociou a paz.
os motivos para tal mudança, podemos desta­ 1954). Os europeus foram derrotados, e os Na República Democrática do Congo,
car o enfraquecimento das nações imperialis­ países obtiveram a independência. O Vietnã colônia belga, a independência foi procla­
tas da Europa durante a II Guerra, o interesse ficou dividido em Vietnã do Norte e Vietnã mada em 1960, por Patrice Lumumba, que
das novas superpotências mundiais - Esta­ do Sul, que só seriam reunificados em 1976, assumiu o governo. A reação das multina­
dos Unidos (EUA) e União Soviética (URSS) ­ após a Guerra do Vietnã. cionais belgas à sua administração levou a
em transformar os territórios coloniais euro­ uma guerra civil com intervenções da Bél­
peus em suas zonas de influência e o surgi­ ÁFRICA gica e da URSS. Lumumba foi assassina­
mento de movimentos nacionalistas nas colô­ A maioria dos países africanos conquis­ do em 1961. Em 1965, num golpe de Estado
nias, impulsionados pela decadência europeia tou a independência na década de 1960, e apoiado pelos EUA, o general Joseph Mo­
e apoiados por EUA ou URSS. apenas em raros casos a separação se deu butu instalou uma sangrenta ditadura.
de forma tranquila, sem guerra. Três dos As colônias portuguesas levaram mais
ÁSIA processos mais conturbados ocorreram na tempo para obter a independência. As ne­
Dois processos distintos marcaram a des­ Argélia, no Congo e em Angola. gociações só ocorreram no fim do regime
colonização asiática: a resistência pacífica, A guerra da independência da Argélia, co­ salazarista, em 1974. O caso mais violen­
na Í ndia, e a guerra pela independência, lônia francesa, durou de 1954 a 1962, deixan­ to foi o de Angola: a partir de 1975, a luta
cujo melhor exemplo é a Indochina. do mais de 1 milhão de mortos. O conflito re­ pela independência virou uma guerra civil, fi­
Na Í ndia, o advogado Mohandas Gandhi, sultou em uma crise política na França, que nalizada em 2002 com 1 milhão de mortos.I8J
o Mahatma (Grande Alma), desencadeou
um amplo movimento de resistência pací­
fica e desobediência civil, pregando o boi­
cote aos produtos da metrópole inglesa e o
não pagamento de impostos. Abalado pela
II Guerra, o Reino Unido viu-se obrigado a - O REGIME DO APARTHEID NA AFRICA DO SUL
conceder a independência, em 1947. A ex­ O fim do império colonial português na Africa, em 1975, e a queda do governo de
colônia foi dividida na União Indiana, de minoria branca na Rodésia, atual Zimbábue, em 1980, contribuíram para pressionar o
me.ioria hindu, e no Paquistão, majoritaria­ regime do apartheid na Africa do Sul. Durante o período em que vigorou, entre 1948
mente muçulmano. A separação levou a um e 1992, a política de segregação racial impediu o acesso dos negros à propriedade da
intenso movimento migratório e a violentas terra e à participação política, confinando·os em territórios tribais, chamados bantus·
lutas entre os grupos religiosos, deixando tões. A perseguição política aos opositores do regime fez milhares de vítimas, incluin·
milhares de mortos. do Nelson Mandela, preso em 1962 e condenado à prisão perpétua.
A Indochina, antiga colônia francesa for­ Sob intensa pressão mundial, o governo da Africa do Sul libertou Mandela em 1990 e, dois
mada por Vietnã, Laos e Camboja, foi inva­ anos depois, aprovou o fim do apartheid. Mandela assumiu como presidente após as pri·
dida pelo Japão na II Guerra Mundial. Após me iras eleições multirraciais do país, realizadas em 1994. Sua morte, em dezembro de 2013,
a rendição japonesa, o movimento naciona- causou comoção mundial, e seu funeral reuniu mais de 90 chefes de Estado do mundo todo.

80 I GE HISTORIA 2016
M U N D O I I DA D E C O N T E M P O R Â N E A
D I TA D U RAS N A A M É R I CA LATI NA

- A HISTÓRIA HOJE -

ARGENTINA E URUGUAI
CONDENAM CRIMES DA
DITADURA
Nos últimos anos, Argentina e Uru·
guai vêm quitando sua dívida com o
passado ditatorial ao julgar militares
e civis responsáveis pelos crimes dê
tortura e assassinatos dos oposito·
res do regime militar. A Argentina
inicia o acerto de contas em 2005,
quando o Congresso anula as leis
que impediam que militares fossem
processados pelos crimes da ditadu·
ra. Os julgamentos fizeram com que
os ex-presidentes Reynaldo Bignone
e Jorge Videla fossem condenados à
prisão perpétua. No Uruguai, a Su·
prema Corte abre caminho para que
os crimes da ditadura possam ser in·
vestigados em 2009. Os ex-ditadores
Gregório Alvarez e )uan Maria Borda·
[li berry recebem sentenças de 25 e 30
.... COM MÃO D E FERRO Militares reprimem manifestantes durante ato antigoverno e m Buenos Aires, e m 1982 anos de prisão, respectivamente.

Continente sitiado
CHILE
Em 1970, o socialista Salvador Allende foi
eleito presidente. Ao nacionalizar minera­
doras norte-americanas, seu governo foi al­
vo de uma campanha de desestabilização
Durante a G uerra Fria, os EUA incentivaram a instalação de regimes promovida pelos EUA. Três anos depois,
Allende foi deposto por um golpe militar e
militares na América Latina para garantir a hegemonia sobre a região se suicidou no palácio presidencial. O po­
der foi assumido pelo general Augusto Pi­

E
ntre os anos 1960 e 1980, estabelece­ rizaram pela perseguição, tortura, prisão e nochet, que permaneceu no cargo até 1990.
ram-se ditaduras militares em vários morte de milhares de oposicionistas. Espe­ Derrotado num plebiscito sobre sua conti­
países da América Latina. Em geral, a cialmente as nações do Cone Sul viveram nuidade no governo, ele entregou a Presi­
instalação e a manutenção desses regimes esse terror patrocinado pelo Estado. dência do país ao civil Patrício Aylwin.
tiveram o apoio dos Estados Unidos, que vi­ A sangrenta ditadura chilena deixou mi­
savam a impedir o avanço do socialismo e ARGENTINA lhares de pessoas mortas, desaparecidas
a manter o continente sob sua influência. Quando o presidente Juan Domingo Pe­ e exiladas. Em 2006, o ditador Pinochet
Além de suprimir liberdades democráticas, rón morreu, em 1974, as duas facções rivais morreu sem ter sido julgado pelos casos
as ditaduras latino-americanas se caracte- de seu partido passaram a se enfrentar, de tortura e assassinato ocorridos durante
mergulhando o país no caos. Sua mulher seu governo, apesar das tentativas realiza­
e vice, Isabelita Perón, assumiu o cargo e das pelo juiz espanhol Baltasar Garzón de
adotou uma postura favorável aos setores apurar as responsabilidades .
E NO BRASIL...
.. conservadores, apoiados pelas Forças Ar­
madas, mas não conseguiu controlar os URUGUAI
CHUMBO VERDE·AMARELO conflitos. Com o pretexto de resolver a si­ Eleito presidente do Uruguai em 1971, o con­
No Brasil, não foi diferente: a tuação, em 1976 o general Jorge Rafael Vi­ servador Juan Maria Bordaberry assumiu
ditadura foi instalada com o golpe dela dissolveu o Congresso e instalou a di­ com a promessa de derrotar o grupo guer­
mil itar de 1964, que depôs o governo tadura. O governo perseguiu ferozmente rilheiro de esquerda Tupamaro. Em 1973,
democrático de João Gou lart. os adversários - esse momento foi batiza­ com o apoio dos militares, fechou o Con­
Os anos de chum bo, marcados pela do de guerra suja -, causando o desapare­ gresso, suspendeu a Constituição e instau­
violação das li berdades individuais cimento de cerca de 30 mil pessoas. A cri­ rou uma das mais repressivas ditaduras do
e dos direitos pol íticos, estenderam­ se econômica e a derrota na Guerra das continente. No fim da década, os EUA che­
se até 1985 e apresentaram Malvinas, contra o Reino Unido, em 1982, garam a cancelar a ajuda militar e econô­
características muito semel hantes enfraqueceram o regime, que chegou ao mica ao país, em represália às violações dos
às dos nossos vizinhos continentais fim no ano seguinte, com a eleição do civil direitos humanos cometidas pelo regime.
(veja a matéria na pág. 129). Raúl Alfonsín à Presidência. A redemocratização ocorreu em 1984. lEI

[li KEYSTONE/GETTY IMAGES ili AP/EOUAROO OIBAIA GE HiST0RiA 2016 I 81


M U N DO ! I DA D E C O N TE M PO R Â N E A
C R I S E E R ETO M A DA D A H EG E M O N I A D O S E UA
[I[

.Ai iSLAMICOS NO PODER


Estudantes iranianos
rasgam a bandeira dos Estados
U nidos após invadirem a
I /
!C' . /
embaixada do país em Teerã,
em novembro de 1979

Yankees, go home!
ta Muhammad Mossadeq, que pretendia es­
tatizar as reservas de petróleo iranianas.
Nos anos seguintes, o regime do xá Re­
za Pahlevi se converteu numa ditadura que
perseguia de forma implacável seus inimi­
gos. Entre eles, se destacava o líder religio­
A derrota na G uerra do Vietnã, a revolução islâmica no I rã e a invasão so Ruhollah Khomeini, que acabou ex­
pulso do país. No decorrer da década de
do Afeganistão pela U nião Soviética puseram em xeque o domínio 1970, uma série de protestos contra o go­
norte-americano. Mas o país reagiu rapidamente verno, por causa de uma grave crise econô­
mica e da intensificação da repressão con­
tra os opositores do regime, iniciou uma

N
o decorrer da década de 1970, vários 1955, com o apoio dos EUA, foi instalada uma escalada de mobilizações de massa que
acontecimentos indicavam que a he­ ditadura no sul. Em 1959, os vietcongues culminou na deposição de Reza Pahlevi, na
gemonia dos Estados Unidos (EUA) (guerrilheiros comunistas do sul), apoiados ascensão do aiatolá Khomeini e na criação
no pós-guerra estava chegando ao fim. Em pelo norte, deram início a uma guerra civil. de uma República Islâmica, em 1979.
1975, o país foi derrotado no Vietnã; em 1979, Os EUA intervieram em 1964. Mas os viet­
a ditadura que tinha ajudado a implantar no congues resistiram à máquina de guerra INVASÃO DO AFEGANISTÃO
Irã foi varrida por uma revolta popular is­ ianque com táticas de guerrilha. Em 1973, No fim da década de 1970, o Afeganis­
lâmica; e, no mesmo ano, a União Soviética após sofrerem muitas baixas e enfrentando tão, que adotava um regime pró-soviético,
(URSS) invadiu o Afeganistão. protestos pacifistas em casa, os norte-ame­ passou por um período de grande instabi­
Em dez anos, portanto, os EUA tinham ricanos aceitaram um cessar-fogo. Em 1975, lidade política, resultante da luta pelo po­
perdido o Vietnã, o Irã e viam a influência a superpotência bateu em retirada. Um ano der entre os principais agrupamentos po­
dos rivais soviéticos avançar numa área es­ depois, o Vietnã foi reunificado sob o regi­ líticos da nação. A situação tornou-se mais
tratégica para seus interesses. A dúvida era me socialista, alinhado à URSS. Morreram grave após a vitória da revolução islâmi­
se essa "vulnerabilidade" era passageira ou no conflito mais de 180 mil vietnamitas e ca no Irã. Grupos muçulmanos passaram
uma reversão de tendência de caráter per­ 45 mil norte-americanos. Foi, até hoje, a a organizar protestos contra o governo,
manente. O país, entretanto, adotou uma sé­ maior derrota militar da história dos EUA. aprofundando a instabilidade política. Te­
rie de medidas para recuperar a hegemonia mendo que a revolução islâmica se propa­
no cenário mundial. REVOLUÇÃO ISLÃMICA gasse pelo Afeganistão e pelas repúblicas
Com o fim da II Guerra Mundial, subiu ao socialistas com expressiva população mu­
GUERRA DO VIETNÃ poder no Irã um governo alinhado aos in­ çulmana, a URSS invadiu o Afeganistão.
Antiga colônia da França, o Vietnã foi di­ teresses das potências ocidentais vitorio­ A ocupação soviética foi até 1988, quan­
vidido no fim da Guerra da Indochina (1946- sas, comandado pelo xá Reza Pahlevi, aliado do Mikhail Gorbatchov ordenou a retira­
1954) em Vietnã do Norte, sob o regime so­ dos ingleses. No decorrer da década de 1950, da do Exército Vermelho. Esse esforço de
cialista liderado por Ho Chi Minh, e Vietnã os EUA intervieram no país. Depuseram e guerra foi um dos fatores da fragilização
do Sul, monárquico e pró-capitalista. Em prenderam o primeiro-ministro nacionalis- da economia soviética e do fim da URSS.

82 1 GE HISTÓRIA 2016
REAÇÃO DOS EUA DIVIDA PÚBLICA NORTE-AMERICANA governos e a desregulamentação do merca­
Os EUA não ficaram paralisados diante Em % do PIB do de trabalho por meio do enfraquecimento
dessas adversidades. Quando a derrota no 70 dos sindicatos. O neoliberalismo é uma relei­
Vietnã tornou-se previsível, o secretário de tura do liberalismo preconizado pelo econo­
Estado Henry Kissinger reorientou a políti­ 60%
mista Adam Smith (no século XVIII), adap­
ca externa do país, buscando uma aproxima­ 60 tada aos tempos da globalização.
ção com a China por meio de um acordo for­ A liberalização dos fluxos de capital
malízado em 1973. Reagiu ao fim da ditadura era uma peça essencial do modelo, pois a
do aliado no Irã, xá Reza Pahlevi, patroci­ 50 t sua adoção implicava que a variação da ta- ·

nando um amplo rearmamento do Iraque e xa de juros dos títulos do Tesouro dos EUA
estimulando o seu líder, Saddam Hussein, a teria impacto imediato no movimento do
iniciar uma guerra contra o Irã. E respon­ 40 capital que circula pelo mundo. Em sínte­
deu à invasão soviética do Afeganistão, ar­ ' -" Governo Reagan;· até Í989 se, a liberalização dos fluxos de capital as­
-Governo G. H. Bush
mando, treinando e fornecendo tecnologia sociada ao papel do dólar como divisa in­
30
de ponta aos guerrilheiros muçulmanos ra­ 1981 1983 1985 1987 1989 1991
ternacional dava aos EUA enorme poder
dicais que lutavam contra o Exército Verme­ Fonte:C,ua 8r,mcà para interferir no equilíbrio econômico e
lho, como os membros da Al-Qaeda. No fim financeiro em escala global.
da década de 1970, os EUA desencadearam
um conjunto de iniciativas (algumas já esta­ CORRIDA ARMAMENTISTA
vam em andamento) com o objetivo de reto­ ceiro Mundo e resgatou o poder da sua moe­ A última peça da estratégia dos EUA foi a
mar a sua hegemonia, como a valorização do da como divisa internacional. decisão do governo Reagan de iniciar uma
dólar, a adoção de reformas neoliberais e a segunda corrida armamentista, ampliando
corrida armamentista. REFORMAS NEOLIBERAIS as encomendas do Estado ao complexo in­
Outros elementos da estratégia de retoma­ dustrial-militar do país. Para não perder a
VALORIZAÇÃO DO DÓLAR da da hegemonia foram a vitória de Ronald paridade com os EUA, a URSS teve de am­
O primeiro movimento dessa estratégia Reagan nas eleições presidenciais de 1980 e pliar seus gastos militares, num contexto
foi a política de valorização do dólar, a par­ a adoção nos EUA de um rol de medidas eco­ em que enfrentava a guerra no Afeganistão.
tir de 1979. Como a moeda vinha se desva­ nômicas denominadas neoliberais, que já vi­ Com uma capacidade praticamente ilimi­
lorizando desde 1973, países "parceiros", nham sendo implantadas na Inglaterra por tada de financiamento, o governo Reagan
como a Alemanha e o Japão, passaram a du­ Margareth Thatcher desde o ano anterior. ampliou, como nunca, no pós-guerra, os gas­
vidar se o dólar era o mais adequado como O neoliberalismo é uma doutrina que de­ tos militares e o déficit do governo para sus­
divisa internacional. Os EUA reagiram a es­ fende a ideia de que a economia deve ser en­ tentar a corrida contra a URSS (veja o gráfico
se questionamento iniciando uma elevação, tregue às leis de mercado, pois a intervenção acima). No fim da década de 1980, a econo­
sem precedente, dos juros. Com isso, a nação estatal inibiria seu desenvolvimento. Suas mia soviética não suportou essa pressão, e o
passou a atrair imensa quantidade de recur­ principais características são a abertura da sistema veio abaixo (veja a matéria na pág.
sos, valorizou o dólar, reduziu sua inflação, economia por meio da liberalização finan­ 84). Com o fim da URSS, os EUA reforçaram
impôs uma severa recessão aos países indus­ ceira e comercial, a adoção de privatizações, sua posição hegemônica, passando a exercer
trialízados, quebrou os endividados do Ter- a redução de subsídios e gastos sociais pelos um poder quase imperial no planeta. 119

111 A HISTÓRIA HOJE •••••

ANTIGOS RIVAIS1 ESTADOS UNIDOS E


VIETNÃ MANTÊM BOAS RELAÇÕES
O ano de 2015 marca os 40 anos do fim da Guerra
do Vietnã, conflito que resultou na maior derrota mi·
litar da história dos Estados Unidos (EUA). Apesar de
vitorioso, o Vietnã unificado sob o regime comunista
saiu da guerra devastado e isolado economicamente.
A partir de 1986, o governo vietnamita passou a
introduzir uma abertura econômica maior, parecida
com o modelo chinês, o que contribuiu para uma
reaproximação com os EUA. Em 1994, os norte·ameri·
canos suspendem o bloqueio econômico ao Vietnã, e
os dois países assinam um acordo comercial em 2001.
A melhoria nas relações permite que os dois países
iniciem uma parceria para descontaminar vastas
áreas do Vietnã do agente laranja a partir de 2012.
Durante a guerra, os norte-americanos espalharam
121 8o milhões de litros dessa arma química, que conta·
� VERGONHA NA ASIA O poderio norte-americano não foi suficiente para vencer os vietcongues minou 3 milhões de vietnamitas.

ll] AP/SAYAD ll] DEPARTAMENTO DE DEFESA/EUA GE HISTÓRIA 2016 1 83


M U N D O I I DA D E C O N T E M P O R Â N E A
F I M D A G U E R RA F R I A E C O LA P S O DA U RSS
I li

� UMA 50 NAÇÃO
Alemães ocidentais comemoram
a queda do Muro de Berlim,
ocorrida em 19 89 . O evento
daria início ao processo de
reunificação da Alemanha

Efeito cascata
A desi ntegração da U RSS e a redemocratização dos países socialistas do Leste Europeu
marcam o fim da Guerra Fria, com o triunfo do capital ismo comandado pelos EUA

O DESMORONAMENTO SOVIÉTICO

U
ma série de reformas adotadas pe­ Tchecoslováquia, Romênia, Bulgária, Hun­
la União Soviética (URSS) nos anos gria, Iugoslávia, Albânia e Alemanha Orien­ Na URSS, a ineficiência da agricultura e as
1980, visando à recuperação da eco­ tal. No passado, era parte da doutrina sovi­ reformas econômicas provocaram escassez
nomia, e a ascensão de movimentos nacio­ ética intervir em nações que se desviassem de alimentos e aumento da inflação. Ao mes­
nalistas e pró-democracia levaram ao es­ do socialismo, mas Gorbatchov indicara que mo tempo, a abertura política fortaleceu os
facelamento da nação, com todo o bloco não usaria a força para manter o bloco unido. movimentos nacionalistas nas 15 repúblicas
socialista. Essa derrocada marcou o fim da A derrocada dos governos socialistas no que compunham o país. O presidente do So­
Guerra Fria, encerrando a polarização entre Leste Europeu teve início na Polônia, onde viete Supremo (Parlamento) da Federação
norte-americanos e soviéticos. greves culminaram em 1980 na formação, Russa, Boris Iéltsin, defendia a aceleração
A URSS já passava por uma séria crise por operários e intelectuais, do sindicato in­ das reformas e, em agosto de 1991, mobilizou
ao fim dos 18 anos do governo de Leonid dependente Solidariedade. Mas em 1982 o a população para evitar um golpe militar con­
Brejnev, em 1982. A nação ficou estagnada, governo tornou o Solidariedade ilegal, me­ tra Gorbatchov. Depois, Iéltsin promoveu a
os gastos com armamentos aumentaram e dida que só seria anulada em 1989. Em ju­ desmontagem das principais instituições so­
o país invadiu o Afeganistão (em 1979), fato nho daquele ano, o Solidariedade venceu as cialistas russas, esvaziando o poder de Gor­
que contribuiu para enfraquecer ainda mais eleições parlamentares e, no ano seguinte, batchov, que renunciou no mesmo ano.
a economia. O panorama político começou a seu líder, Lech Walesa, foi eleito presidente. Em dezembro de 1991, a superpotência te­
mudar em 1985, quando Mikhail Gorbatchov ve fim e, com ela, a Guerra Fria. No lugar da
assumiu o governo, iniciando duas grandes QUEDA DO MURO DE BERLIM URSS, surgiram 15 repúblicas independen­
reformas. Na política, a glasnost (transpa­ Na Hungria, a abertura da fronteira com tes: Estônia, Lituânia, Letônia, Cazaquistão,
rência) abrandou a censura e abriu espaço a Áustria, em setembro de 1989, levou mi­ Geórgia, Ucrânia, Belarus, Moldávia, Azer­
à liberdade de expressão. Na economia, a lhares de alemães orientais a cruzar o terri­ baidjão, Uzbequistão, Quirguistão, Tadji­
perestroika (reestruturação) liberalizou tório húngaro em direção ao austríaco, com quistão, Armênia, Turcomenistão e Rússia.
a economia, restabelecendo, com limites, a destino à Alemanha capitalista. Na Tche­ Nações como a Tchecoslováquia viveram
propriedade privada e permitindo a instala­ coslováquia, os tanques soviéticos esma­ essas transformações de forma pacífica, di­
ção de empresas estrangeiras. Gorbatchov garam em 1968 um processo de democrati­ vidindo-se em dois novos países em 1992:
também melhorou as relações com o Oci­ zação do socialismo, mas, a partir de 1987, República Tcheca e Eslováquia. Já na Iu­
dente e assinou acordos com os Estados intelectuais tchecos lideraram novo movi­ goslávia, as rivalidades entre as repúbli­
Unidos para frear a corrida armamentista. mento de liberalização. Essa efervescência cas voltaram à tona. O país viveu um san­
política se estendeu por todo o Leste Euro­ grento processo de desmembramento, que
AGITAÇÃO POlÍTICA peu e culminou no episódio que simbolizou originou seis novas repúblicas: Eslovênia,
Enquanto a URSS iniciava o processo de a desintegração do bloco: a queda do Muro Croácia, Bósnia-Herzegóvina, Sérvia, Mon­
abertura política e econômica, movimentos de Berlim, em novembro de 1989, quando a tenegro e Macedônia. Em 2008, o Kosovo
pró-democracia ganhavam força em alguns barreira de concreto foi derrubada pela po­ declarou independência da Sérvia, mas a
dos oito países do Leste Europeu que for­ pulação. O evento deu início à reunificação província ainda não foi reconhecida pela
mavam parte do bloco socialista: Polônia, da Alemanha, concluída em 1990. ONU como Estado independente. lEI

84 1 GE HISTORIA 2016
I M U N DO ! I DA D E C O N TE M PO RÂ N E A
N OVA O R D E M M U N D I A L

Da supremacia
preventiva, segundo a qual os EUA poderiam
usar a força contra qualquer país que pudesse
ameaçar sua segurança. A aplicação dessa dou­
trina ficou evidente na invasão do Iraque, em

dos EUA à China


2003, quando a operação que depôs o presi­
dente Saddam Hussein foi lançada sem o apoio
da ONU. Bush encerrou o mandato em 2009,
deixando a seu sucessor, Barack Obama, a di­
fícil tarefa de administrar as campanhas mili- .
tares no Afeganistão e no Iraque. Em dezem­
Com o fi m da Guerra Fria, os Estados Unidos tornam-se a única bro de 2011, termina oficialmente a Guerra do
Iraque, com 119 mil mortos. Em dezembro de
superpotência. Mas o crescimento chinês pode mudar esse q uadro 2014 é a vez de os EUA encerrarem a campa­
nha militar no Afeganistão, que vitimou pelo

A
pós a dissolução da União Soviética, em os antigos rivais se uniram contra o Iraque. menos 35 mil afeganes.
dezembro de 1991, a Rússia, a principal O planeta deixava de ser bipolar.
república soviética, perdeu poder eco­ O intervencionismo militar, político e eco­ CHINA: UM NOVO RIVAL
nômico e militar e deixou de ser ator deci­ nômico dos EUA no Oriente Médio criou o Com crescimento cerca de 10% ao ano
sivo na geopolítica global. O planeta assis­ primeiro grande inimigo do país no mun­ desde a década de 1980, a China entrou no
tiu, então, ao surgimento de uma nova ordem do pós-Guerra Fria: as organizações terro­ século XXI despontando como um país ca­
mundial, marcada pela supremacia de uma ristas islâmicas, responsáveis pelos ataques paz de ameaçar a hegemonia norte-ameri­
única superpotência - os Estados Unidos de 11 de setembro de 2001. Nesse dia, ex­ cana nas próximas décadas. Em 2010, o país
(EUA) - e pela consolidação do capitalismo tremistas muçulmanos sequestraram qua­ tornou-se a segunda potência econômica do
como sistema econômico dominante. tro aviões comerciais nos EUA e realizaram planeta, superando o Japão. A China tam­
o maior atentado terrorista da história, des­ bém superou em 2013 os EUA como a nação
ECONOMIAS INTEGRADAS truindo as torres do World Trade Center, com maior volume de comércio mundial.
Como única potência hegemônica, os em Nova York, e uma das alas do Pentágono Desde o início das reformas na década de
EUA se empenharam em disseminar seu (área administrativa do Departamento de 1970, a China combina uma economia de mer­
modelo político e econômico, contribuindo Defesa), em Washington. O ataque foi atri­ cado com uma ditadura de partido único. O go­
para a expansão da globalização da econo­ buído ao saudita Osama bin Laden, líder da verno mantém a repressão às oposições, vio­
mia mundial e do neoliberalismo. organização terrorista AI Qaeda. lando sistematicamente os direitos humanos.
GLOBALIZAÇÃO É a crescente interdependên­ Após o atentado, o presidente norte-ame­ No campo geopolítico, a tentativa da China em
cia entre mercados, governos e movimentos ricano George W. Bush passou a qualificar consolidar sua hegemonia regional abre duas
sociais que caracteriza o atual período da vi­ o terrorismo como o principal inimigo do frentes expansionistas: o país reivindica a so­
da econômica mundial. Sua origem está na país. Em 2002, incluiu Iraque, Irã e Coreia berania no Mar do Sul da China - em dispu­
expansão marítimo-comercial, a partir do sé­ do Norte no grupo que chamou de "eixo do ta com Vietnã, Filipinas, Malásia e Taiwan -
culo XV, que criou uma rede intercontinental mal" - nações que estariam abrigando terro­ e das ilhas Diaoyu/Senkaku, cuja posse tam­
de comércio, mas o termo é aplicado especi­ ristas. Depois, formulou a doutrina da guerra bém é exigida pelo Japão. {jg
ficamente para definir a situação da econo­
mia global a partir dos anos 1990, quando a
revolução tecnológica nas telecomunicações
- sobretudo o advento da internet - poten­
cializou a troca de informações entre as na­
ções e a circulação do capital. A redução de
barreiras comerciais, a assinatura de acordos
de comércio e o crescente poder das multina­
cionais, com ramificações em dezenas de na­
ções, também moldam a globalização.

SUPREMACIA MILITAR
Sem outra potência para equilibrar as for­
ças, os EUA se impuseram militarmente. Em
julho de 1990, quando o declínio da URSS
se acentuava, um conflito no Oriente Médio
abriu caminho para a hegemonia dos EUA.
O Iraque invadiu o Kuweit, numa disputa
por petróleo e território, e os EUA lideraram
uma coalizão de 28 países contra as forças
iraquianas, na Guerra do Golfo, iniciada em
janeiro de 1991. Se durante a Guerra Fria a
URSS e os EUA estavam em lados opostos
nos conflitos mundiais, na Guerra do Golfo ..ollllll TERROR EM NV Bombeiro no trabalho de resgate após os ataques às torres gêmeas em 2001

[JJREUTERS JlJ U S NAVY!PRESTON KERES GE HISTORIA 2016 / 85


M U N DO ! I DA D E C O N T E M P O R Â N E A
E X E RCÍCI O S E R E S U M O

� COMO CAl NA PROVA


A i nabi l i dade d o I mpério Austro-Húngaro em l idar com as suas d iversas
(FGV/Eaesp 2014) O b s e rve o i n fográfico abaixo: etnias foi determinante para a eclosão da I Guerra M u n d i al. Terminado
o conflito, os Tratados de Saint-Germain e Trianon estabeleceram o
DISTRIBUIÇÃO DE NACIONALIDADES desmembramento do I m pério Austro-Húngaro em outras nações.
DO IMPÉRIO AUSTRO·HÚNGARO 1910 ·
RESPOSTA: C

• Alemães
• Hú ngaros (Unicamp 2014) O cartaz abaixo foi u sado pela propaganda
• Tchecos e eslovacos
soviética contra o capitalismo ocid e ntal, d u rante o pe ríodo
• Poloneses
• Rutenos d a G u e rra Fria.
;_-_-; Romenos
• Croatas
• Sérvios
7.9%
• Eslovenos
• Italianos
• Servo-croatas
(bosníacos)

Fonte: rEIXEIRA, F. C. dilS. e outros (coord.l lmpérios na História.


12.6% Rio de }dneiro: Elsevier/Campus, 2009, p207

Com base n o i nfográfico, é correto afi rmar:


a) A p r i n c i pal característica d o I m pé r i o Austro - H ú n garo, no i n ício
d o s é c u l o XX, e ra a articulação e ntre d iversas nacionalidades
através d e um d e m ocrático regime parlamentarista i n s p i rado
na experiência i nglesa.
b) O l mpérioAustro - H ú n garo constituiu-se como reação nacionalista à
ofensiva do I m pério napoleônico, que procurou i ncorporar antigos
d o m ínios dos Habsbu rgos e do Sacro Im pério Romano-Germânico.
c) A i n a b i l idade p o l ítica em lidar com as m i norias foi fator i m por­
tante no agravamento das tensões q u e d e s e m bocaram na frag­
m e n tação e colapso do I m p é r i o Austro - H ú n garo em 1918.
d) A i n d iscutível maioria eslava levou o I m pé r i o Austro - H ú n garo a
artic u lar-se com Rússia e I ng l ate rra na formação da Tríplice E n ­
tente, q u e c o m b ateria a l e m ães, italianos e franceses d u rante a O texto diz: " Duas i nfâncias. Na URSS (parte s u p e r i o r) crian ças são
P r i m e i ra G u e rra M u nd ial. apo iadas pelo a m o r da nação! Nos países capital istas (fig u ra i nfe­
e) Apesar d a heteroge n e i d a d e d a constitu ição d o I m p é r i o Austro­ r i or), m i l hões de crianças vivem sem c o m i d a ou a b r i go."
H ú ngaro, a q u estão das nacional idades não se revelou relevante a) Como o cartaz d escreve a sociedade capital ista o c i d e n ta l ?
no contexto d a Pri m e i ra G u e rra M u n d ial. b) Cite d o i s c o n fl itos b é l i c o s d o p e r í o d o d a G u e rra Fria .

..4 RESOLUÇÃO ..4 RESOLU ÇÃO


A I G uerra M u nd ial (1914-1918) e clod i u e m f u n ção d a d isputa por a) Segu n d o a propaganda soviética, na sociedade capitalista,
hegemonia e ntre as principais nações e uropeias. O estop i m do representada na figura i n ferior, a criança é reti rada de s u a
confro n to foi o assassinato d o herd e i ro d o I m pério A ustro-H ú n garo, l u d i c i d ad e p o r conta d a exploração do trabal h o e m todas a s fases
Francisco Ferd i nando, em v i sita a Sarajevo {capital da Bósn ia). da vida, i n c lusive na i n fância.
O Império Austro-H ú n garo s ufocava as nacionalidades m i no ritárias, b) Guerra da Corei a (1950-1953): Ao fim da l i Guerra M u n dial, a Coreia
grande parte d elas de origem eslava. Esses grupos pleiteavam foi d ividida em áreas de interesse norte-americano (Coreia do Sul) e
auto n o m i a, princi pal mente depois da i nd e p e n d ê n c i a da Sérvia, soviético (Coreia do Norte). Em 1950, os norte-coreanos invadi ram o sul
.em 1878, q u e n utria o d esejo de reu n i r todos os povos eslavos na na tentativa d e d o minar toda a penínsu la. Tropas da O N U, com grande
Gra n d e Sérvia. A Bósn ia-He rzegovi na tornou-s e i nd e p e n d e n te maioria de norte-americanos, foram enviadas para defender a Corei a
do I mpério Otomano no fi nal do século XIX para, em segu i d a, ser do S u l, enquanto a China lutou ao lado dos norte-coreanos_ Uma
anexada ao I m pé r i o Austro- H ú n garo. trégua em 1953 restaurou as fronteiras entre as d uas Coreias.
A visita d e Ferdinando a Sarajevo fazia parte da estratégica de dar mais Guerra do Vietnã (1959-1975): Após a Guerra da I ndochina, em 1954,
autonomia ao governo bósnio, com o objetivo de enfraquecer a vizinha houve a d ivisão entre Vietnã do Norte (pró-União Soviética) e Vietnã
Sérvia. O responsável pelo assassinato foi u m estudante nacionalista do Sul (pró-Estados U nidos). Em 1960, os norte-vietnamitas invad iram
sérvio, que se opunha ao poder austro-húngaro sobre os Bálcãs. O o Vietnã do Sul, com a i n tenção de u n i ficar o país. Os Estados U n idos
I m pério Austro-húngaro (aliado da Alemanha) responsabil izou a enviaram mais d e 1 m ilhão d e soldados, mas foram derrotados. Ao
Sérvia {aliada da Rússia) pelo crime e declarou guerra. Na sequência, a final da guerra, o Vietnã foi u n i ficado sob comando dos nortistas, e os
Alemanha declarou guerra à Rússia e depois à França. vizinhos Laos e Camboja transformaram-se em países comu nistas.

86 1 GE HISTÓRIA 2016
..... SAI BA MAIS
COREIAS TEM RELAÇÕES CONTURBADAS APÓS A GUERRA
Apesar do cessar-fogo determinado em 1953, a Corei a do Sul e a Corei a do
Norte não assinaram um tratado de paz. Portanto, as duas nações permanecem
tecnicamente em guerra. Os dois países possuem exércitos nu merosos: os norte­
coreanos contam com um efetivo de mais de 1 milhão de m i litares, enquanto os
su l-coreanos mantêm cerca de 520 mil soldados.
Após 1953, a h istória das Coreias teve avanços e retrocessos. Nos anos 1990, a
crise ali mentar na Coreia do Norte tornou-a dependente de ajuda h u manitária
do Sul, o que esti m u lou uma reaproximação. Em 2002, a Core ia do Norte
inaugurou uma zona industrial em Kaeosong, que abriga hoje 123 empresas
su l-coreanas que empregam mão de obra norte-coreana.
No entanto, o avanço do programa nuclear da Core ia do N orte volta a provocar
animosidades entre os dois países. Desde 2006, os norte-coreanos já realizaram
três testes com bom bas atômicas, elevando a tensão na península coreana.

(PUC·SP 2014) "O fato maior do século X I X é a criação de u ma


economia global ú n ica, q u e atinge progressivamente as mais
remotas parage ns d o m u n d o, uma rede cada vez mais d e n ­
s a de transações eco n ô m i cas, c o m u n icações e movimentos d e bens,
d i n h e i ro e pessoas, l i g a n d o os países desenvolvidos e n tre si e ao
m u n d o não d esenvolvido. "
HOBSBAWM, Eri c. A era d o s I m pé r i o s . Rio de ja neiro: Paz e Terra,
2 008, p 95 1875·1914

o processo h istórico descrito no texto corre s p on d e ao


a) avanço da i n d ú stria c h i nesa, q u e superou a concorrência comer·
cial d o s países do Ocidente e passou a m o n o p o l izar os mercados
c o n s u m i d ores da E u ropa e d a América.
b) estab e l e c i m ento d e c lara hege m o n i a p o l ítica e m i l itar soviéti ca,
nos tempos da G uerra Fria, sobre o Leste E u ropeu e o S u l e S u des­
te do conti n e nte asiático.
c) i m perialismo n o rte-americano, que i m pôs seu d o m í n i o econô­
m ico-fi nanceiro sobre a América, a E u ropa Ocide ntal e parte do
conti n e n te africano.
d) sucesso das políticas neoliberais de ampl iação da prod ução i n dus­
trial e dos mercados consu midores, que permitiram o rom pimento
das barreiras alfandegárias mesmo nos países social istas da Asia.
e) expa n s i o n i s m o e u ropeu sobre o Pacífico, a As ia e a Africa, q u e
i m pôs o controle p o l ítico e comercial d e potências ocid entais a
d iversas partes do m u n d o .

.4 RESOLU ÇÃO
o assu nto em q u estão é o i mperialismo e o neocol o n ialismo,
iniciado n o séc u l o XIX. Essa forma de d o m inação foi aplicada
pelas potências e uropeias aos continentes africano e asiático a
fim de conqu istar novos mercados consum idores de prod utos
industrializados e obter matéria-prima para alimentar sua i n dústria.
Esse violento processo de d isputa entre as nações centrais d o
capitalismo eu ropeu c u l m inou na s u b m i ssão pol ítica e econ ô m i ca
de parte da Ásia e de p raticamente todo o continente africano. Vale
dizer que o expansionismo ( s i nô n i mo de i m perialismo na q u estão)
foi também executado por nações não eu ropeias, como Estados
U n id o s, Rússia e Japão, com os mesmos objetivos.
RESPOSTA: E
BRASIL
LI N HA D O T E M P O

Colônia
V
eja os p r i n c i pais acontec i m entos d a
h i stória do Bras i l d u rante o período
colon ial. Neste e nos o utros períodos
a seg u i r, os fatos que têm i n d icação d e pá­
gina (remissão) corresp o n d e m aos assu ntos 1630
que mais caem n o vesti bu lar. Após duas tentativas pouco efetivas na década
anterior, na Bahia, os holandeses invadem o Brasil,
dessa vez em Pernambuco. Para vencer a resistência da
população local, os estrangeiros contam com a ajuda
do pernambucano Domingos Calabar, que considera
O português Pedro Alvares Cabral e sua esquadra a invasão positiva para a região. Permanecem no
chegam ao litoral da Bahia em 22 de abril. É o Nordeste até a Insurreição Pernambucana {1645-1654).
descobrimento do Brasil. Segundo a maioria dos
historiadores, trata-se mais de uma tomada de posse
do que do descobrimento em si, pois a existência do
território - dividido seis anos antes entre portugueses
16JO
e espanhóis pelo Tratado de Tordesilhas - já era
conhecida por Portugal. Nos anos seguintes, tem Nas décadas de 1630 e 1640, chega ao auge no Sudeste
início a exploração do pau·brasil. o movimento das entradas e bandeiras. Pág. 101
[1[

O militar português O domínio holandês no Brasil passa


Martim Afonso de Tomé de Sousa a ser administrado pelo mil itar
Souza comanda a assume o Mauricio de Nassau. Sua atuação
expedição pioneira primeiro governo· em Pernambuco fica marcada pela
de colonização do geral do Brasil. prosperidade econômica e cultural.
Brasil. Em 1532, funda a Pág. g8 Seu governo se encerra em 1644.
primeira vila da colônia,
São Vicente, no atual
estado de São Paulo.

1550
O rei de Portugal, dom Por volta desse Dois anos após a morte do rei
João 111, cria as capitanias ano, paralelamente português dom Sebastião, que não
hereditárias, a primeira à introdução do deixa herdeiro, o espanhol Felipe 11,
divisão política do Brasil. plantio da cana·de· ligado por parentesco à Casa Real
Veja mais na matéria sobre -açúcar, tem início a Portuguesa, impõe-se como rei de
política colonial. Pág. g8 escravidão africana Portugal. A União Ibérica vigora até
no Brasil. Pág. 102 1640 e equivale a uma anexação de
Portugal pela Espanha.

1549
Chegam ao Brasil os primeiros
jesuítas - religiosos da ordem
católica Companhia de Jesus.
Chefiados pelo padre Manoel da 1555
Nóbrega, dedicam-se à catequese dos A França não aceita a partilha das
índios e à educação dos colonos. terras americanas feita pelo Tratado
de Tordesilhas e defende seu direito 1594
de ocupação. A primeira invasão Os aventureiros franceses Jacques Riffault e Charles
francesa no território brasileiro Vaux instalam-se no Maranhão depois de naufragar ao
ocorre na ilha de Serigipe (atual largo da costa. O governo francês os apoia e incentiva
Villegaignon), na baía de Guanabara, a criação de uma colônia no território, a França
onde é instalada a França Antártica, Equinocial. Em 1612, chegam centenas de colonos,
chefiada por Nicolas Durand de que erguem o forte de São Luís, origem de São Luis
Villegaignon. Os portugueses do Maranhão. São expulsos três anos depois pelos
[4[
expulsam os franceses em 1567. portugueses.

90 I GE HISTORIA 2016
1777 1805
As primeiras jazidas de ouro � assinado o Tratado de O mineiro Antônio Francisco
são descobertas no atual Santo lldefonso, que Lisboa, o Aleijadinho, o maior nome
estado de Minas Gerais. No restitui aos espanhóis da escultura barroca brasileira,
século seguinte, a atividade Sete Povos das Missões. conclui sua obra-prima: o conjunto
mineradora se tornaria a mais Os portugueses tentam de imagens sacras: Os Passos da
importante da colônia. obter a devolução da Paixão e Os Doze Profetas, da
Pág. 99 Colônia do Sacramento, Igreja de Bom )esus de Matosinhos,
mas não conseguem. As em Congonhas do Campo (MG).
fronteiras atuais do Rio
1750 Grande do Sul só são
definidas pelo Tratado
O Tratado de Madri reconhece a presença luso·
de Badajoz, em 1801.
·brasileira em grande parte dos territórios a oeste
da linha do Tratado de Tordesilhas. Como parte das
negociações, Portugal cede à Espanha a Colônia do
Sacramento (atualmente no Uruguai) em troca da área
dos Sete Povos das Missões (no atual Rio Grande do Sul).
1789
No âmbito mundial, � deflagrada
a Revolução Francesa a Conjuração
marca o início da Idade Baiana.
Contemporânea. Pág. 58 Pág. 105
1708
Tem início, em Minas Gerais, a Guerra
dos Emboabas. Pág. 105

,...._._
...,. .....1.
..., '-'--lr-'
.-' - ' U-J...I.J l..,.u_

1754 17&8 1817


Os guaranis dos Sete Ao lançar Obras Poéticas, o mineiro Cláudio Estoura a Revolução
Povos das Missões Manuel da Costa inaugura o arcadismo, o Pernambucana. Pág. 105
recusam-se a deixar suas primeiro movimento literário a se afastar
terras, e tem início a dos modelos portugueses, ao retratar temas
1818
Guerra Guaranítica. São tipicamente brasileiros. Costa e Tomás Antônio
derrotados após dois anos, Gonzaga, outro importante poeta árcade, Dom João é coroado rei de Portugal,
por uma aliança entre seriam i ntegrantes da Inconfidência Mineira. do Brasil e de Algarves, no Rio de
hispano·argentinos e janei ro, com o título de dom João VI.
luso-brasileiros.
1821
Pressionado pelo Parlamento português, dom
Ocorre a I nconfidência João VI regressa a Portugal, deixando Pedro, seu
1720 Mineira. Pág. 105 filho mais velho, como regente do Brasil,
com o título de dom Pedro I.
� deflagrada a Revolta
de Filipe dos Santos,
também chamada de
Rebelião de Vila Rica. 1122
Pág. 105 Dom Pedro I proclama a
independência do Brasil. Pág. 104

1711
fundada Vila Rica,
atual Ouro Preto (MG),
símbolo da sociedade
urbanizada que
surge no contexto da
mineração. Veja mais
na matéria sobre a
sociedade colonial. Fugindo de Napoleão Bonaparte, a corte portuguesa
Pág. 99 transfere-se para o Brasil. Pág. 104 [lO]

[I] MUSEU PAULISTA [l[ [l[ [4[ [SJ 18l REPROOUÇAO [61 MUSEU AFROBRASil [li MAR([[O CU RIA [Bi iOSE EDUARDO CAMARGO [9[ PAlÁCIO NACIONAl OA AJUOA [!OI MUSEU IMPERIAl GE HISTÓRIA 2016 1 91
BRASIL
L I N HA D O TE M PO

Império
O Parlamento britânico aprova a
Bill Aberdeen, lei que dá à Marinha
inglesa o direito de prender navios
negreiros no Atlântico. A partir daí, o
tráfico de escravos para o Brasil cai

C
onfira os eventos mais i m portantes d a significativamente. Pág.103
h i stória do Brasil d u rante o período i m ­
perial, de 1822 a 1889.

Isolado no poder, em abril dom Gonçalves de É instituído no país o


Pedro I abdica do trono em Magalhães lança "parlamentarismo às avessas", em
nome de seu filho, Pedro, então Suspiros Poéticos que o imperador permanece com
uma criança. Pág. 11o e Saudades, marco grande poder: é ele quem nomeia o
do romantismo no gabinete e pode dissolver o Executivo
Brasil. O movimento e a Câmara. Pág. 113
desenvolve uma
linguagem própria
nacional e aborda
temas ligados à
natureza e às questões
político-sociais.

Começa a Guerra da Cisplatina, que acaba


em 1828, com a independência do Uruguai,
que fora anexado pelo Brasil como
província Cisplatina em 1821. Pág. 11o

um ano depois de o Ato Adicional de


1834 substitui r a Regência Trina pela
Regência Una, o ex-ministro da j ustiça
Diogo Feijó assume como regente.
As províncias do
Pág. m
Nordeste revoltam­ Aos 14 anos, dom
-se contra o poder Pedro 11 é declarado
imperial, formando Cumprindo acordos
maior de idade e
a Confederação do firmados com a começa a reinar. Tem
Equador. Pág. 110 Inglaterra, o governo início o Segundo
brasileiro declara
Reinado. Pág. 113
suspenso o tráfico
negreiro. Mas a
entrada de escravos
africanos permanece
Dom Pedro I outorga a em grande escala. É o
primeira Constituição trabalho forçado que No Maranhão,
brasileira. Pág. 11o garante os bons preços irrompe a Balaiada.
no mercado externo do Pág. 112
café - principal produto
da economia na época.

O médico Francisco Sabino lidera


Um grupo de malês - nome pelo uma revolta separatista na Bahia,
qual eram conhecidos os negros a Sabinada. Pág. 112
muçulmanos - rebela-se em Salvador.
É a Revolta dos Malês. Ex-escravos que
conseguiram comprar a liberdade, os
revoltosos reclamam que continuam
marginalizados e sofrem opressão O tráfico de escravos é definitivamente extinto no
tanto pela cor quanto pela religião. O país com a Lei Eusébio de Queiroz. Aos poucos,
levante é violentamente repri"mido. trabalhadores assalariados passam a substitu ir os
escravos, principalmente nas fazendas de café. Pág 103
121

92 1 GE HISTORIA 2016
. �
.
A Questão Religiosa, choque
entre a Igreja Católica e o governo
monárquico, leva o clero brasileiro a
apoiar a República, enfraquecendo o
regime imperial. Pág. ns

ISI

Uma série de conflitos


entre o governo
imperial e o Exército ­ Em 13 de maio, a princesa Isabel
a Questão Militar - assina a Lei Aurea (pág. 103), que
abala ainda mais a extingue a escravidão no Brasil. A
monarquia. abolição desagrada aos fazendeiros,
Pág. ns que exigem indenização pela perda de
propriedade. Sem conseguir, aderem
ao movimento republicano como
Pretensões territoriais e interesses forma de pressão. O Império perde sua
econômicos levam à Guerra do última base de sustentação política.
Paraguai, o maior conflito da história
da América do Sul. Pág. n4

.L I
1111

t promulgada t criada a Lei dos


O empresário gaúcho lrineu
Evangelista de Souza, o visconde a primeira lei (li Sexagenários, que
abolicionista, liberta os escravos
de Mauá, inaugura a primeira
ferrovia brasileira, entre Petrópolis a Lei do Ventre Livre. com mais de 6o
Políticos e intelectuais como Joaquim
Ela dá liberdade aos anos mediante
e o Rio de janeiro. Pág. ns Nabuco (na foto) e José do Patrocínio
filhos de escravos compensações aos
criam no Rio de Janeiro a Sociedade
nascidos a partir da proprietários.
Brasileira contra a Escravidão, que
data da assinatura, Pág. 103
estimula a formação de dezenas de
mas os mantêm sob a
agremiações similares pelo pais.
tutela de seus senhores
Pág. 103
até os 21 anos.
Pág. 103

t proclamada a República, pelo


marechal Manuel Deodoro da Fonseca.
Pág. ns

No Rio de janeiro, fazendeiros,


políticos, jornalistas e intelectuais
lançam o Manifesto Republicano,
defendendo um regime presidencialista,
representativo e federativo.

Um dos maiores escritores


brasileiros de todos os
1170 tempos, Machado de Assis
O maestro paulista lança Memórias Póstumas
Carlos Gomes ganha de Brás Cubas, marco no pais
projeção internacional ao do realismo, movimento
apresentar no Teatro Scala que se caracteriza por uma
de Milão, na Itália, sua abordagem objetiva da
ópera O Guarani. realidade.

Ul lll llJ I4l !Sl l6l l1l l91 REPROOUÇÀO IBJ INSTITUTO MOREIRA SAltES G! HISTORIA 2016 1 93
BRASIL
LI N HA D O T E M P O

República Getúlio Vargas implanta a ditadura d o


Estado Novo. A quarta Constituição é
outorgada, oficializando o regime. Pág. 125
Virgulino Ferreira da Silva, o
Lampião, é morto a mando
do governo em Sergipe. Ele é

A
companhe os fatos mais relevantes d a
história rep u b l i cana brasi leira - desde o maior expoente do cangaço.
a proclamação d a Rep ú b l ica, em 1889, Pelo Tratado de O movimento entra para a
Petrópolis, o Brasil história como expressão da
até a eleição da presid ente D i l m a Rousseff,
compra da Bolívia revolta contra a pobreza e o
em 2010.
o Acre, região que abandono dos sertanejos.
havia sido invadida
por seringueiros
brasileiros no fim do
século XIX, com
o ciclo da borracha.

A Revolta da I n icia-se a
Deodoro renuncia. O vice, marechal Vacina ocorre Revolução
Floriano Peixoto, assume a no Rio de Constitucionalista
Presidência. Pág. 120 Janeiro. de 1932. Pág. 124
Pág. m

A Revolução de 1930 Inspirada nas frentes populares


põe fim à República europeias antifascistas, é
Vigência da Velha. É o início do criada a Aliança Nacional
República Velha, Pág. 122 Primeiro Governo Libertadora (AN L). No mesmo
como é conhecido Vargas. Pág. 124 ano, é organizada a Intentona
o período que Comunista. Pág. 124.
compreende a
Repúbl ica da Espada
e a República
O governo federal massacra o
Ol igárquica.
povoado de Canudos, fundado
pelo líder político-rel igioso A Revolta dos 18 do
Antônio Conselheiro. Pág. 122 Forte é a primeira das
Revoltas Tenentistas,
Logo após proclamar fruto da insatisfação de
a Repúbl ica, o setores mil itares com
marechal Deodoro a República Velha. O
da Fonseca assume Prudente de Moraes maior desses levantes é a
provisoriamente o é eleito, pelo voto direto, o primeiro Coluna Prestes, que tem
governo do país. Éo presidente civil brasileiro. Começa início em 1924. Pág. 123
início da República a República Oligárquica. Pág. 121
da Espada, que d u ra O Brasil entra na 11 Guerra
até 1894. Pág. 120 Mundial ao lado dos Al iados.
O primeiro contingente é
Um viole nto confiito social ocorre deslocado em 1944. Pág. 125
no Contestado, área disputada por
Santa Catarina e Paraná. Pág. 122

Getúlio Vargas renuncia. Eurico


Gaspar Dutra é eleito presidente
e toma posse no ano segui nte,
No Rio Grande do Sul, eclode quando promulga a q u i nta
a Revolta Federalista. Constituição brasi leira. É o i n ício da
Pág. 12o República Democrática. Pág. 126
(3( (4(

94 1 GE HISTORIA 2016
O general Emílio
Garrastazu Médici
é empossado
Reeleito, dessa presidente. Ele
vez por voto comanda o período
d ireto, Getúlio Costa e Silva mais brutal da
Vargas assume a fecha o Congresso ditadura, batizado corru pção, Collor
Presidência. Ele e decreta o Ato de anos de chumbo. tem processo de � lançado o Plano
permanece no cargo Institucional impeachment Real. O ministro da
Pág. 130
até 1954, quando se n• s (AI·s), que aberto na Câmara, Fazenda, Fernando
suicida. Pág. 127 institucionaliza a é afastado e Henrique Cardoso,
repressão. Pág. 130 renuncia. Seu vice, elege-se presidente.
Itamar Franco, o Em 1999 tem
o general substitui. Pág. 132 i n ício seu segundo
Ernesto Geisel mandato. Pág. 132
assume a O movimento pelas eleições
João Goulart é deposto pelos Presidência. diretas para presidente
mil itares, que i m põem um Ele i n icia a cresce, e grandes comícios
regime autoritário. � o início da abertura política ocorrem nas principais
ditadura militar. Pág. 129 "lenta, segura e cidades brasileiras, sob o
gradual". Pág. 131 lema Diretas já. Pág. 131

� aprovada a sexta Ocorrem as pri meiras o governo lança o


Constituição eleições diretas Plano Collor,
brasileira, para a Presidência que também não
institucionalizando desde 1960. O consegue conter
a ditadu ra. Pág. 130 vencedor é Fernando a i nflação. Pág. 132
O crescimento do Collor de Mello.
Produto Interno Pág. 132
Bruto (PIB)
ultrapassa 14%.
� o auge do milagre
econômico.
Após uma série de Contra as violentas Pág. 130 � promulgada a Eleito em 2002 e reeleito
governos provisórios, ações repressivas do sétima Constituição em 2006, Lula sai de seu
Juscelino Kubitschek governo, é realizada brasileira, atualmente segundo mandato com
é empossado no Rio de janeiro a em vigor. Pág. 132 prestígio suficiente para
presidente. Pág. 127 Passeata dos Cem eleger sua sucessora,
Mil. Pág. 130 Dilma Rousseff, a
primeira m u l her a
O governo Sarney governar o país. Pág 133
lança o Plano
Os sindicatos começam a reorganizar-se, e Luiz
Cruzado.
Inácio Lula da Silva, como presidente do Sindicato
Pág. 132
dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e
Diadema, lidera a primeira greve do ABC paulista
Jânio Quadros assume desde 1964. Pág. 131
como presidente, mas
renuncia em agosto. O civil Tancredo Neves
A posse de João Goulart, é eleito presidente
tido como esquerdista, pelo Colégio Eleitoral,
é aceita com a condição mas morre antes de ser
de o Congresso instituir o empossado. Seu vice,
parlamentarismo. Só em José Sarney, torna-se o
1963 o presidencialismo primeiro presidente civil
é restaurado. desde o início do Regime
Pág. 128 Militar. Pág. 132
[!OI

[li REPRODUÇÃO/RENATO CHAUI [li (lj [61 [SJ REPROOUÇAO [4[ CLARO JANSSON [SI FORÇASARMAOAS/FAS [71 ORlANDO BRITO [91 OIVUlGAÇAO [lO[ IRMO CElSO [111 ROBERTO STUCKERT FilHO GE HISTORIA 2016 1 95
B R A S i l ,.
COLÔNIA

Dependência
do campo
O agronegócio responde por quase metade da
pauta exportadora do Brasil1 que sofre com a
queda m undial dos preços das commodities

m 2014, a balança comercial bras i l e i ra teve seu

E
pior resu l tado em 16 anos. As i m portações su­
peraram as exportações em 3,93 b i l h ões d e dó­
lares. O resultado é creditado, em boa m e d ida, à
q ueda dos preços m u n diais das commodities. As receitas
de exportaçao com o agronegócio ati n g i ram g6,7 b i l h ões
de dólares, u m a d e p reciaçao d e 3,2% em relaçao a 2013,
ano em q u e a arrecadaç:lo ati n g i u o recorde de q u ase 100
b i lhões de dólares. Como os itens agrlcolas respondem
por 43% d e tudo o q u e vendemos para o exterior, a eco­
n o m i a brasi l e i ra foi bastante afetada por ter uma pauta
exportadora m u ito dependente de produtos básicos.
Em parte, o peso das matérias-primas agrlcolas no co­
m é rcio exterior b ras i l e i ro é res u l tado d e sua p rópria vo­
caç:lo. As abun dantes terras férteis, aliadas ao avanço de
tecnologias q u e permiti ram o aumento de produtivida­
de, tornou o Brasi l u m dos gigantes do agronegócio m u n­
d ial. O pais é o maior produtor e exportador m u n d ial d e
açúcar, café e s u c o d e laranja, a l é m d e ocu par o p ri m e i ro
l u gar como exportador de soja, carne bovina e de frango.
O problema da excessiva dependência dos produtos agrl­
colas na pauta de exportações é que o Brasi l fica bastante
vul nerável frente a safras ruins ou a oscilações dos preços
das commodities - exatamente o q ue ocorreu em 2014. Um
outro fator que compromete o saldo da balança comercial
é que os itens básicos possuem pouco valor agregado em
comparaçao com os produtos i n dustrializados. Por conta
d isso, m uitos economistas defendem a adoçao de u ma po­
lltica que beneficie as exportações i n dustriais.
Neste capit u l o, você fica sabe n d o mais sobre a eco n o­
mia e a sociedad e do Perlodo Colon ial, notando q u e a
atual estrutu ra agrlcola baseada em i m ensas p ro p rieda­
des pouco se alterou em relação à exploraçao da terra
realizada e ntre os séculos XVI e XIX .

.olll lATIFONDIOS SECUlARES


Colheita de soja em Tangarâ da serra, no Mato Grosso: o produto
é o principal item da pauta de exportaç6es do agronegócio
brasileiro, arrecadando 23 bilhlles de dólares em 2014
MARCILO JUIIOJFOlHAPRESS
I
B R AS I L ! C O L Ô N I A
O RG A N I ZAÇÃO PO L ÍT I C O -A D M I N I STRAT I VA

Governo
remoto
Repleto de riquezas, mas
extenso e distante, o Brasil era
um desafio administrativo para
os portugueses. Veja como eles
tentaram resolver o problema
[IJ

CASA GRANDE E SENZALA Vista geral de uma propriedade canavieira da capitania de Pernambuco

C
om o objetivo de tomar posse, explorar A regulamentação do sistema era feita por trutura de transporte e comunicação. Boa
e defender o território brasileiro, Por­ meio dos documentos Carta de Doação e parte do poder, de fato, era exercida pela
tugal deu início, no século XVI, à mon­ Foral. O donatário aplicava a Justiça e po­ Câmara Municipal de cada vila.
tagem da estrutura administrativa colonial. dia doar sesmarias (fazendas) e cobrar im­ Entre os principais governadores-gerais
Primeiramente, dividiu o país em capitanias postos relativos à agricultura e à explora­ estão Tomé de Souza e Mem de Sá. Após a
hereditárias e, mais tarde, aprimorou o sis­ ção dos rios. A Coroa tributava a exploração morte desse último, em 1572, Portugal divi­
tema, criando o Governo-Geral. de pau-brasil, especiarias e metais precio­ diu o território nos governos do Norte e do
sos. O sistema não apresentou os resulta­ Sul. Em 1621, fez nova divisão: foram cria­
CAPITANIAS HEREDITÁRIAS dos esperados por causa do isolamento, dos o Estado do Brasil, com capital em Sal­
Sem recursos financeiros nem humanos dos ataques dos índios e da falta de investi­ vador, e o Estado do Maranhão, com ca­
para empreender uma ocupação em gran­ mentos. Das 15, apenas duas prosperaram ­ pital em São Luís, que, em 1751, passou a
de escala na colônia, o rei dom João III de­ Pernambuco e São Vicente. A primeira se chamar Estado do Grão-Pará e Mara·
cidiu, em 1534, dividir o território brasileiro foi favorecida pela produção açucareira. nhão, com sede em Belém.
em 15 faixas de terra - as capitanias heredi­ A segunda desenvolveu
tárias (veja o mapa ao lado). O direito de ad­ uma economia de subsis­
ministrá-las, vitalício e hereditário, era dado tência. As demais faliram A PRIMEIRA DIVISÃO POLITICA
aos donatários, nobres ou burgueses que se ou nem sequer foram ocu­ Veja como as capitanias hereditárias foram divididas
comprometiam a arcar com os gastos, repas­ padas pelos donatários. e confira o nome dos donatários de cada faixa de terra
sando grande parte dos rendimentos à Coroa.
GOVERNO·GERAL
'

: k Pará Ooão de Barros e Aires da Cunha)

Com o fracasso econô­ ;· · ; r;:-- Maranhão (Fernão Alvares de Andrade)


mico d as capitanias e o ' ·"r- � r:;;:- Ceará (Antônio Cardoso de Barros)
A HISTÓRIA HOJ E ••••• aumento das investidas r:-- Rio Grande do Norte
estrangeiras na colônia, I ; ---, Ooão de Barros e Aires da Cunha)
TERRAS NAS MÃOS DE POUCOS Portugal resolveu impor­ t L ··
Itamaracá (Pero Lopes de Sousa)
A concentração de terras persiste no Brasil. -se para assumir o con­
De acordo com os dados mais recentes do Censo trole efetivo da adminis­
Agropecuário, do Instituto Brasileiro de Geografia tração. Em 1548 surgia o Bahia de Todos os Santos
e Estatística (IBGE), cerca de 1% dos proprietários Governo-Geral, com capi­ (Francisco Pereira Coutinho)
rurais detêm 43% das terras empregadas na agricul· tal em Salvador. O gover·
;, Ilhéus Oorge Figueiredo Correia)
tura e na pecuária. A existência dessas grandes pro· nador·geral coordenava a
priedades é uma herança que remonta ao período defesa, cobrava impostos
Porto Seguro (Pero do Campo Tourinho)
colonial, quando o território foi dividido em capi· e incentivava a economia.
tanias hereditárias e o modelo produtivo adotado Embora o Governo-Ge­ J Espírito Santo (Vasco Fernandes Coutinho)
pelos colonizadores portugueses foi a monocul· ral tenha sido implantado :•
: '-- São Tomé (Pero de Góis)
tura da cana-de-açúcar. Como resultado dessa após as capitanias, ele não
, - ··"" ·L::._ São Vicente (Martim Afonso de Sousa) - 2' lote
estrutura fundiária ocorrem conflitos pela posse as substituiu. A ideia era ,,, L_ Santo Amaro (Pero Lopes de Sousa)
da terra, como os que resultaram na morte do li· impor uma centralização São Vicente (Martim Afonso de Sousa) - 1' lote
:'
der seringueiro Chico Mendes, no Acre (em 1988); política, o que funcionou Sant'Ana (Pero Lopes de Sousa)
. '
dos 19 sem-terra em Eldorado dos Carajás, no Pará na esfera militar, mas não ,. , e Capitanias que prosperaram
(1996); e da missionária norte-americana Dorothy se refletiu no dia a dia, em r, : '

Stang, também no Pará (2005). razão da falta de infraes- Fonte: Alfredo Boulosj(Jnior, História: Sociedade & Cidadania · 7' série, l' ed� FTD, pág. •1

98 1 GE HISTORIA 2016
BRASil ! COlÔNIA
EC O N O M I A E S O C I E DA D E C O LO N IA L

TRABALHO DURO
Os escravos eram a principal
mão de obra empregada nos
engenhos de cana-de-açúcar
do Brasil colônia

Rapto de fortunas
D u rante os três séculos em qu e governou o Brasit Portugal pôs em prática u ma rentável política
econômica com a fi nalidade de transferir as riq uezas da colônia para seus cofres

A
economia do Brasil colônia foi sempre pelos comerciantes portugueses. Em al­ O sistema instalado foi o de plantation,
voltada para o benefício de Portugal. guns pontos da costa foram instaladas fei­ cujas características eram:
Inserida no contexto do mercantilis­ torias para o armazenamento do produto. >> Grandes propriedades (latifúndios) mo­
mo europeu, ela foi caracterizada pelo pac­ A atividade era simples e lucrativa, mas nocultoras (dedicadas a apenas um pro­
to colonial, segundo o qual os brasileiros só trazia um problema: os mercadores lusita­ duto) - os engenhos.
podiam comercializar produtos com os por­ nos vinham ao Brasil, carregavam seus na­ >> Mão de obra escrava (primeiramente in­
tugueses, de modo que esses compravam ba­ vios e voltavam à Europa, sem se fixar na dígena; depois negra).
rato, vendiam caro e ainda tinham exclusi­ colônia, o que facilitava a ocorrência de ata­ >> Produção voltada para o mercado externo.
vidade na exportação das mercadorias do ques estrangeiros. Ou seja, para garantir a Os latifúndios monocultores e a escravi­
Brasil a outras nações. proteção de seus domínios, Portugal preci­ dão permitiam uma produção vasta a baixo
A grande maioria dos lucros destinava-se sava povoá-los urgentemente. Havia uma custo - o que levava a altos lucros. O desti­
à metrópole, especialmente para os cofres maneira bastante rentável de fazer isso: in­ no era a exportação, uma vez que Portugal
da Coroa portuguesa, que cobrava altos im­ troduzir uma atividade produtiva na região. não tinha interesse em desenvolver a econo­
postos sobre a exploração dos produtos co­ mia interna. Os poucos lucros que permane­
loniais. As principais atividades econômicas AÇÚCAR ciam no Brasil ficavam nas mãos dos senho­
realizadas naquele período em nosso terri­ Escolhida a estratégia, definiu-se o pro­ res de engenho - os donos dos latifúndios -,
tório foram a extração do pau-brasil, a pro­ duto: o açúcar. A matéria-prima, a cana-de­ provocando grande concentração de renda.
dução de açúcar, a mineração e a pecuária. açúcar, adaptava-se ao clima e ao solo. Por­ A produção de açúcar foi a principal ativi­
tugal já possuía experiência na produção de dade econômica do Brasil colonial durante
PAU-BRASIL cana nos Açores e na ilha da Madeira, e, para os séculos XVI e XVII, sendo ultrapassada
A primeira riqueza brasileira percebida completar, o açúcar tinha grande aceitação no século XVIII pela mineração.
por Portugal foi o pau-brasil, madeira en­ na Europa, o que era uma garantia de mer­
tão abundante em nosso litoral, usada co­ cado consumidor. Entretanto, faltavam aos MINERAÇÃO
mo matéria-prima para a fabricação de tin­ portugueses capital inicial e uma eficiente Em 1693, abundantes jazidas de ouro fo­
turas. A extração era feita pelos índios, que infraestrutura de distribuição. Essa ques­ ram descobertas na região hoje ocupada por
trocavam a mercadoria - numa prática co­ tão foi resolvida com uma parceria com os Minas Gerais. A notícia se espalhou e milha­
nhecida como escambo - por quinquilha­ holandeses, que já fretavam o açúcar pro­ res de pessoas, das mais variadas origens,
rias, como espelhos e colares, fornecidos duzido por Portugal nas ilhas do Atlântico. rumaram para lá em busca de riquezas.

[1[ MUSEU BOIJMANS VAN BEUNINGEN/HOlANOA [1[ MUSEU CASTRO MAYA GE HJSTÚRIA 2016 1 99
BRASil ! COlÔNIA
ECO N O M IA E S O C I E DA D E C O L O N IAL

ECONOMIA DO BRASIL COLONIA


Veja onde e quando se desenvolveram as atividades econômicas introduzidas em nosso pais durante os três séculos do perlodo colonial

Século XVI Século XVII Século XVIII

TERRAS I
PERTENCENTES!
A ESPANHA
i TERRAS �Oiinda
I PERTENCENTES
�! A PORTUGAL I'
'iõ 5alvador
l
]i sao Jorge dos Ilhéus

I �-
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.,,
:CI Cana-de-açúcar·
�:

I
.. . o Sebastião do Rio de Janeiro

}
Pecuária
1 • São Vicente
1 Cananeia • Mineração
J 8 Drogas do sertão
• Area de ocorrência de pau·brasil • Algodão
• cana-de-açúcar - Vias de transporte
interno '
f
.
Pecuária
Fonte:josé Arruda e Nelson Piletti, Toda a. História, 3 edy A rica. pJgs. XXXI, XXXIII, xxn

A Coroa portuguesa, a fim de impor uma principais exemplos são a sociedade do Nor­ SOCIEDADE DOOURO Formada pela massa mi­
administração mais rígida e garantir sua deste açucareiro, dos séculos XVI e XVII, e gratória atraída pela possibilidade de enri­
parte nos lucros, publicou, em 1702, o Regi­ a do Sudeste minerador, do século XVIII. quecer garimpando ouro, a sociedade mine­
mento Aurífero, que regulava a extração SOCIEDADE DO AÇÜCAR Além de escravista, radora era bem diferente da açucareira. Em
mineraL O documento criava as intendên­ era agrária e estratificada. Agrária porque primeiro lugar, não havia o latifúndio, por­
cias das minas - governos quase autôno­ os principais aspectos da vida econômica e tanto a população não era agrária, estando
mos que prestavam satisfação a PortugaL social se davam em torno dos latifúndios - organizada em núcleos urbanos.
Em 1720, a região mineradora, então par­ os povoados e as vilas tinham papel secun­ Além disso, a mobilidade social era mui­
te da capitania de São Vicente, foi transfor­ dário. Estratificada porque havia pouca ou to maior e o trabalho livre, muito mais
mada na nova capitania de Minas Gerais. nenhuma mobilidade entre as classes. significativo. Surgiu, pela primeira vez no
Para organizar a atividade, as áreas de O grupo mais privilegiado era o dos se­ Brasil, uma classe média, constituída por
ocorrência de metais preciosos foram di­ nhores de engenho, a elite econômica, so­ artesãos, barbeiros, médicos, advogados,
vididas em lavras e faiscações. As primei­ cial e política. Eles eram os donos das ter­ tropeiros e soldados, entre outros. No es­
ras eram amplas, demandando muito ca­ ras, das máquinas e da mão de obra - tudo pectro social, eles ficavam acima dos es­
pital e grande quantidade de escravos. As o que representava riqueza e prestígio. O cravos e abaixo dos grandes comerciantes
faiscações, menores, eram mais numerosas. símbolo máximo do poder era a casa-gran­ e donos de minas. Esse estrato interme­
Quem se dedicava à extração devia pagar de, a sede do engenho, onde o senhor vivia diário da sociedade mineradora é o embrião
20% do ouro encontrado à Coroa - o quin­ com a família e os criados. Por ser pai e au­ da atual classe média brasileira. IR!
to. Em 1725, em razão da sonegação, foram toridade máxima no latifúndio, diz-se que
criadas as Casas de Fundição, nas quais o ele comandava uma sociedade patriarcal.
ouro em pó era transformado em barras e No outro extremo da hierarquia social
tinha o quinto extraído. Só era permitida a estavam os escravos, africanos ou indí­ A HISTÓRIA HOJE •••••
exportação do ouro fundido. Dez anos de­ genas, que eram propriedade do senhor e
pois, a Coroa criou um novo tributo: a ca­ exerciam todas as atividades de produção. REGULARIZACAO DE TERRAS
pitação, que incidia sobre o número de es­ Na época do corte e da moagem da cana, INDiGIENAS CiERA CONFLITOS
cravos usados. chegavam a trabalhar 18 horas. Os escra­ O Brasil abriga 305 povos indígenas. Ao todo, o
A mineração favoreceu o surgimento de vos viviam nas senzalas, alojamentos cuja Censo de 2010 do IBGE registra 896,9 mil indígenas,
núcleos urbanos e o aumento da população. simplicidade se contrapunha à opulência a maioria (38,2%) na região Norte. A Constituição
Também levou a uma integração do mer­ da casa-grande (veja mais sobre a escravi­ de 1988 reconhece o direito dos índios a terras em
cado interno, pois o Sudeste passou a com­ dão na pág. 102). tamanho e condições adequados às suas necessi­
prar gado do Sul e escravos do Nordeste. A Havia, ainda, outras duas classes inter­ dades econômicas e culturais. Desde 1990, o nú­
decadência da atividade se deu por volta de mediárias. Alguns engenhos tinham tra­ mero de terras indígenas regularizadas ou em fase
1800. O esgotamento das jazidas empobre­ balhadores assalariados que ocupavam car­ de regularização aumentou de 352 para 728, e sua
ceu e esvaziou as zonas de extração. gos como o de feitor-mor, responsável pela área cresceu de 76 milhões de hectares para 113,2
administração do engenho; feitor, que vi­ milhões de hectares, 12,9% do território nacional.
SOCIEDADE COLONIAL giava os escravos; alfaiate; pedreiro; etc. No entanto, muitos fazendeiros são contra a de­
Diferentes sociedades floresceram no Bra­ Existiam também os comerciantes, que ne­ marcação das terras indígenas e recorrem à justi·
sil coloniaL Elas compartilhavam certas ca­ gociavam escravos, animais, carne, trigo e ça, ou mesmo a intimidações e agressões para não
racterísticas, como a escravidão, mas apre­ outros produtos. Alguns conseguiam rom­ serem obrigados a ceder sua área aos índios. Mato
sentavam particularidades, que variavam per a típica imobilidade da sociedade açu­ Grosso do Sul é onde a confrontação é mais acen­
conforme as atividades econômicas desen­ careira, acumulando fortunas e converten­ tuada. O estado tem a segunda maior população
volvidas em épocas e regiões distintas. Os do-se em senhores de engenho. indígena do país, atrás do Amazonas.

100 I GE HISTÚRIA 1016


B R A S i l ! C O LÔ N I A
I N T E R I O R I ZAÇÃO

Nas entranhas
DESBRAVANDO O TERRITORIO
Veja as rotas, os Hderes e os objetivos das principais entradas
e bandeiras realizadas entre os séculos XVII e XVIII

do Brasil
Em busca de escravos e ouro}
exploradores paulistas dos séculos
XVII e XVIII penetraram nos
sertões brasileiros e estenderam
como nunca os limites da colônia
- Captura de lndios O Domingos Jorge Velho
- M i neraçao f) Fernão Dias e Borba Gato
- Sertanismo de contrato O Bartolomeu Bueno

E
ntradas e bandeiras foram expedições
e Região de Palmares 8 Raposo Tavares
de desbravamento do interior do Brasil
l Missões 0 Raposo Tavares e Fernão Dias
ocorridas entre o século XVII e o XVIII,
geralmente a partir da capitania de São Vicen­ Fonte:Jos�Arruda e Nelson Piletti, Todi a Hi�tória, 3 ed, Áfiei, pJg. XXXV
te, em direção a todas as regiões do país. De
maneira geral, dizemos que as entradas eram
as campanhas oficiais financiadas pelo gover­
no; já as bandeiras resultavam da iniciativa de ri tório. A maioria se dirigiu ao Sul, onde pa­ para combater índios e negros que resis­
particulares. Seus principais objetivos eram a dres jesuítas haviam instalado missões para tiam à escravidão. Era o sertanismo de con­
captação de mão de obra indígena, a pro­ catequizar os nativos. As incursões eram co­ trato. As mais conhecidas expedições fo­
cura por metais preciosos e o combate aos mandadas por portugueses e descendentes ram comandadas pelo paulista Domingos
negros que resistiam à escravidão. Apesar de de lusitanos, como Antônio Raposo Tavares Jorge Velho, nas décadas de 1680 e 1690,
não terem inicialmente como meta a conquis­ e Fernão Dias Pais Leme. As maiores chega­ e resultaram na destruição do Quilombo
ta de novos territórios, elas acabaram se trans­ vam a reunir alguns milhares de indivíduos, dos Palmares.
formando no maior ciclo de crescimento dos entre familiares, brancos pobres e mamelu­
domínios portugueses na América. A expan­ cos (mestiços de índios e brancos). PECUARIA
são da pecuária também contribuiu para o A criação de gado foi a única das princi­
processo de interiorização do Brasil. EM BUSCA DO OURO pais atividades econômicas do Brasil colo­
Em 1648, Portugal retomou o controle so­ nial que era voltada para o mercado interno.
CAÇA AO ÍNDIO bre o tráfico negreiro no Atlântico. Para­ Fornecedora de força de tração, alimento e
Nas últimas décadas da União Ibérica lelamente, a produção de açúcar, então a meio de transporte aos engenhos, ela foi
(1580-1640), época em que Portugal estava principal atividade econômica da colônia, inicialmente instalada na Bahia e em Per­
submetido ao domínio espanhol, os holan­ começava a entrar em decadência. Os dois nambuco, em meados do século XVI. Como
deses tomaram dos portugueses os princi­ fatores contribuíram para o aparecimento no litoral predominavam as lavouras de ca­
pais pontos de tráfico de escravos na costa de outro tipo de expedição, as bandeiras de na-de-açúcar, o gado foi levado ao interior.
africana. Como consequência, faltou mão prospecção, que buscavam metais precio­ As feiras organizadas para o comércio dos
de obra no Brasil. A solução encontrada foi sos, com o incentivo da Coroa portuguesa. animais acabavam se transformando em vi­
a substituição dos negros pelos indígenas. As primeiras bandeiras rumaram à região las, o que permitiu a colonização dos ser­
Em São Vicente, desde o início da coloni­ que corresponde ao atual estado de Minas tões brasileiros. Além do Nordeste, a ati­
zação, eram organizadas expedições rumo Gerais, permitindo o surgimento da inten­ vidade se desenvolveu com força no sul do
ao interior para o aprisionamento de índios, sa atividade mineradora que ali se desen­ país, onde foi favorecida pelas vastas pas­
utilizados como escravos. Além da experiên­ volveu no século XVIII. Em seguida, dire­ tagens naturais dos pampas.
cia na atividade, outro fator que contribuiu cionaram-se a Mato Grosso e a Goiás, onde Os trabalhadores - vaqueiros - eram li­
para fazer da capitania o principal núcleo de também encontraram ouro, mas em me­ vres e de origem simples, sendo geralmente
irradiação das entradas e bandeiras foi o de­ nor quantidade. Os principais líderes des­ índios ou mestiços. Recebiam, além de um
senraizamento de sua população. A região sas bandeiras foram os paulistas Bartolo­ pequeno salário, algumas cabeças de gado.
ficava muito longe da metrópole, e o solo não meu Bueno da Silva e Manuel de Borba Gato. Com isso, tinham condições de começar o
se adaptou à cana-de-açúcar, o que resultou próprio negócio, o que ajudava a desenvol­
em pobreza e desapego à terra. SERTANISMO DE CONTRATO ver a atividade no país. Com o surgimento
Como não havia mais muitos índios nas Por conhecerem bem os sertões, mui­ da mineração, a pecuária teve novo impul­
áreas próximas ao litoral, as expedições tive­ tos bandeirantes foram contratados por so, por causa da necessidade de abasteci­
ram de adentrar mais profundamente o ter- fazendeiros e administradores coloniais mento das regiões mineradoras. 181

GE HISTÓRIA 2016 1 101


B R A S I L ! C O LÔ N I A
E S C RAVI DÃO

Como animais
..111111 CRUELDADE HISTORICA
Considerados seres inferiores,
os negros africanos viviam em
condições degradantes e eram
duramente castigados

Por q uase quatro séculos, milhões de indígenas e negros foram sequestrados,


vendidos, castigados e obrigados a trabalhar de graça para fazer girar a economia brasileira

A HISTÓRIA HOJE •••••

N
o Brasil, o uso do escravo como mão século XVI. Os nativos envolvidos na ativi­
de obra teve início com a atividade dade eram livres, sendo explorados pelo sis­
açucareira, nos engenhos de cana, tema do escambo (troca). A escravidão só CONFECCÕES USAM TRABALHO
atravessou todo o período colonial e só foi viria com a introdução da cana-de-açúcar, ESCRAVO DE ESTRANGEIROS
oficialmente extinto em 1888, já no fim do por volta de 1550. Nos últimos anos, o Ministério do Trabalho aco·
Império. Durante praticamente todo esse Assim, os indígenas seriam substituídos lheu dezenas de denúncias envolvendo trabalho
período, o trabalho compulsório (força­ pelos negros vindos da Á frica. A principal em condições análogas à escravidão em confec·
do) constituiu a base da economia do país: motivação de Portugal ao efetuar a mudan­ ções de São Paulo. Na maioria dos casos, imigran·
eram os escravos que realizavam a coleta, a ça era econômica: o aprisionamento indíge­ tes de países como Bolívia, Peru, Paraguai e Haiti
pesca, o serviço doméstico e a agricultura. na era uma atividade interna do Brasil, não são aliciados ainda em seus países de origem com
Inicialmente foram escravizados apenas os resultando em renda para os portugueses; já a promessa de trabalhar de forma remunerada na
indígenas; depois, os africanos, que logo se a captura e o comércio intercontinental de capital paulista. Como eles chegam ao Brasil já
tornaram majoritários. Trazidos pelo tráfi­ africanos garantiam importantes ganhos aos endividados em função dos custos da viagem, aca·
co negreiro - que dava enorme lucro à me­ mercadores lusitanos. bam trabalhando em troca de comida e moradia,
trópole -, os negros, assim como os índios, Outros fatores justificavam a troca: os ín­ cumprindo jornadas extenuantes e dormindo em
eram mantidos subjugados mediante uma dios, ao contrário dos negros africanos, não condições insalubres.
política desumana de repressão e controle. estavam culturalmente acostumados à ativi­ Na outra ponta dessa cadeia de produção estão
dade agrícola em larga escala. Por isso, eles famosas grifes de moda. Diversas redes varejistas
ÍNDIOS não se adaptavam bem à produção nos ca­ já estiveram envolvidas em investigações encabe·
A mão de obra indígena foi a primeira a naviais. Além disso, os nativos tinham um çadas pelo Ministério do Trabalho para fiscalizar
ser utilizada no Brasil colônia, para a extra­ bom conhecimento do território brasileiro, as redes que comercializavam produtos de ofici·
ção do pau-brasil, nas primeiras décadas do o que facilitava sua fuga. nas que utilizam trabalho escravo.

102 1 GE HISTORIA 2016


NEGROS continuar·am com o inexplicado assassina­
Estima-se que, entre 1550 e 1850, tenham to de Ganga Zumba. Seu sucessor, Zumbi, li­
chegado ao Brasil 4 milhões de negros trazi­ derou a resistência contra os invasores até
dos do continente africano, especialmente da 1694, quando o principal mocambo de Pal­
Guiné, Costa do Marfim, Congo, Angola, Mo­ mares caiu diante de um batalhão coman­
çambique e Benin. Para aprisioná-los, inicial­ dado pelo bandeirante Domingos Jorge Ve­
mente os portugueses promoviam invasões às lho, contratado pelas autoridades coloniais.
aldeias. Mais tarde passaram a incentivar a lu­ Nos meses seguintes, as outras aldeias capi­
ta entre tribos rivais para depois negociar com tularam. Zumbi fugiu, mantendo a resistên­
os vencedores a troca dos derrotados por pa­ cia. Mas, em 1695, traído, teve o esconderi­
nos, alimentos, cavalos e munições. jo descoberto e foi morto numa emboscada.
Os negros eram trazidos para a América ABOLIÇAO A partir de 1830, já no período
nos porões superlotados dos navios negrei­ imperial, a expansão da cultura cafeeira au­
ros, conhecidos como tumbeiros. A sujeira, os mentou a necessidade de mão de obra. Ao
maus-tratos e a má alimentação matavam até mesmo tempo cresciam as pressões contra o
metade dos escravos transportados. No Bra­ tráfico negreiro, principalmente da Inglater­
sil, os africanos eram vendidos em praça pú­ ra, preocupada com a concorrência, já que
blica como mercadoria. Quando comprados, nas colônias inglesas no Caribe o comércio
tornavam-se propriedade do senhor e ficavam de escravos havia sido proibido, e os produ­
sujeitos a punições. Os castigos mais comuns tos exportados tinham ficado mais caros.
eram a palmatória, o chicote e o açoite. Em 1831, cumprindo acordos firmados com
RESISTENCIA Os negros sempre lutaram con­ a Inglaterra, o governo brasileiro declarou o
tra a escravidão. Algumas práticas adotadas tráfico ilegal no território nacional. Mas o co­
eram a fuga, a queima de plantações, os aten­ mércio continuou em grande escala. Diante
tados a feitores e a senhores e até mesmo a disso, o Parlamento britânico aprovou, em
morte de recém-nascidos e o suicídio. Mas a 1845, a Bill Aberdeen, lei que dava à Mari­
mais expressiva forma de resistência foi a or­ nha de Guerra inglesa o direito de aprisionar
ganização dos quilombos, comunidades au­ tumbeiros em qualquer ponto do Atlântico.
tossuficientes formadas por escravos fugidos. A pressão inglesa era cada vez maior, e, em
Havia quilombos por todo o país. O mais 1850, foi promulgada a Lei Eusébio de Quei­ 121

importante foi o de Palmares, criado no fim roz, que novamente proibia a entrada de es­ ZUMBI Líder de Palmares e ícone da resistência negra
do século XVI, em uma área onde fica a divisa cravos no país. Dessa vez, o governo brasileiro
de Alagoas com Pernambuco. Em seu auge, empenhou-se em cumpri-la. Com o fim do trá­
chegou a ser formado por nove aldeias, deno­ fico, a escravidão entrou em declínio. A pressão sobre o governo levou à publi­
minadas mocambos, contando com uma po­ Para suprirem a demanda por mão de obra, cação de uma série de leis, que, lentamen­
pulação de 20 mil habitantes. Tinha uma eco­ os fazendeiros e o governo imperial começa­ te, conduziram ao fim do trabalho forçado
nomia bem organizada, realizando comércio ram a incentivar a vinda de imigrantes euro­ no país. A primeira foi a do Ventre Livre,
com o entorno. Abrigava, além de negros fu­ peus. O trabalho assalariado tornou-se cada em 1871, que libertava os filhos de escravos
gidos, índios e brancos marginalizados. vez mais comum, em oposição à escravatura, nascidos a partir de então. Em 1885, foi pro­
A existência de Palmares estimulava ain­ que passou a ser vista como algo anacrônico. mulgada a Lei do Sexagenário, que deu li­
da mais a fuga de escravos. Com isso, já no Além disso, percebeu-se que o trabalho com­ berdade aos raros escravos que conseguiam
século XVII, os fazendeiros da região de­ pulsório era um empecilho ao desenvolvimen­ passar dos 65 anos. Em 1888, foi criada a Lei
cidiram reunir milícias para atacá-lo. O lí­ to do capitalismo, pois atravancava a forma­ Áurea - assinada pela princesa Isabel, que
der da comunidade, Ganga Zumba ("gran­ ção do mercado interno. Só por volta de 1880 substituiu o imperador dom Pedro li, em
de chefe"), firmou um acordo de paz com surgiu um movimento pró-abolição, que con­ viagem à Europa -, que finalmente extin­
os brancos em 1678. Contudo, os conflitos tava com jornalistas, políticos, artistas etc. guiu a escravidão no país. 181

�--.r
ENTRADA DE AFRICANOS NO BRASIL* O aumento do ingresso de
escravos na primeira metade
De 1551 a 1860, chegaram 4 milhões de escravos ao país do século XIX - 1,713 milhão
Predomlnio das atividades de mineração,
765,7
que também usaram mão de obra escrava de 1801 a 1850 - relaciona·se à
expansão da cultura cafeeira
Desembarque dos
primeiros escravos Os escravos s�o util izados nas
no Brasil lavouras de cana-de-açúcar
354, 5
3 12,4
,----
A promulgação da
Lei Eusébio de
Queiroz (1850)
põe fim ao tráfico
de escravos para
o Brasil

*fm milhares de pessoas Fonte; luis Felipe Alenc.utro, o Trato dos Viventes · Forma.ç.io do Brasil no Atl.\ntico Sul, Cid. dds letrds,100,pJg. 69

111 REPROOUÇ!O Jll ACERVO 00 GOVERNO DO ESTADO 00 RIO DE JANEIRO GE HISTÓRIA 2016 1103
B R A S i l ! C O lÔ N I A
I N D E P E N D Ê N C IA

MAQUIAGEM ROMANTICA
A independência brasileira
não foi tão gloriosa quanto
retratada no quadro pintado
por François-René Moreaux

I ndependente só no grito
Em 1822, após um longo processo, o Brasil enfim obteve a soberania política - mas ela não
veio acompanhada da independência econômica nem de grandes transformações sociais

REGÊNCIA DE DOM PEDRO

A
separação política entre a colônia bra­ Assim que chegou à colônia, o monarca
sileira e Portugal foi declarada oficial­ decretou a abertura dos portos às nações Em 1820, em Portugal, a burguesia, in­
mente em 7 de setembro de 1822. Ela amigas. Com a possibilidade de comerciali­ fluenciada pelas ide ias liberais da Revolução
resultou de um processo iniciado décadas zar com outros países que não a metrópole, o Francesa, tomou o poder por meio da Re­
antes, com as revoltas emancipacionistas do Brasil ficou praticamente livre do pacto colo­ volução do Porto. Foi instalada uma mo­
fim do século XVI I I e início do XIX (veja o nial. A novidade fez com que a elite econômi­ narquia constitucional baseada nas Cortes
infográfico na pág. ao lado), a vinda da cor­ ca brasileira compreendesse melhor a neces­ Constituintes, que funcionavam como um
te portuguesa ao Brasil e a crise do sistema sidade da independência como uma maneira Parlamento. Elas obrigaram dom João VI
colonial. Fatores externos, como a indepen­ de aumentar seus lucros. Ao mesmo tempo, a a retornar a Portugal e a jurar lealdade à
dência dos EUA, a Revolução Francesa, as Inglaterra, que passou a dominar nosso mer­ Constituição recém-promulgada. Ele vol­
guerras napoleônicas e a pressão da Ingla­ cado após a abertura dos portos, viu que o tou e deixou em seu lugar, como regen­
terra pela liberação dos mercados consumi­ fim do controle de seu aliado Portugal sobre te do Brasil, seu filho dom Pedro, que de­
dores americanos - aos quais queria vender o Brasil não impactaria as relações com nos­ veria conduzir a separação política, caso
seus produtos industrializados - também so país. Formou-se, assim, uma espécie de fosse inevitável.
influenciaram a emancipação. aliança entre a elite brasileira e a inglesa. Pela Constituição portuguesa eram cla­
A família real instalou-se no Rio de Janei­ ras as intenções do novo governo lusitano
VINDA DA CORTE PORTUGUESA ro, transformado em capital do reino portu­ em recolonizar o Brasil. Também era exi­
Em 1806, o bloqueio comercial à Inglater­ guês. Em 1815, o governo joanino (como era gência das Cortes a volta de dom Pedro à
ra imposto na Europa continental por Na­ conhecida a administração de dom João VI) Europa. O príncipe regente, entretanto, re­
poleão Bonaparte foi desrespeitado por Por­ elevou o Brasil à categoria de Reino Uni­ sistiu às pressões, as quais considerava uma
tugal, que dependia economicamente dos do a Portugal e Algarves. Em sua políti­ tentativa de esvaziar o poder da monarquia.
britânicos. A invasão francesa ao território ca externa, dom João VI dominou a Guiana Formou-se em torno dele um grupo de po­
lusitano, como retaliação, tornou-se iminen­ Francesa, entre 1808 e 1817, em represália a líticos brasileiros que defendiam a manu­
te, e, em 1808, o rei português dom João VI Napoleão, e ocupou a Cisplatina (atual Uru­ tenção do status do Brasil de Reino Unido
e sua corte fugiram para o Brasil. guai) entre 1821 e 1828. a Portugal.

104 1 GE HISTÓRIA 2016


MOVIMENTOS PR�·INDEPENDÊNCIA
No período colonial, ocorreram várias revoltas da população brasileira contra os portugueses. As primeiras, chamadas de nativistas, exprimiam rebeldia em relação ao domínio
estrangeiro, mas não propunham a independência. Só a partir do fim do século XVIII aconteceram as revoltas emancipacionistas. Veja como, onde e quando se deu cada uma

Nativistas REVOLTA DOS BECKMAN (16841


• Emancipacionistas Liderados pelos irmãos Manuel e Tomás Beckman, REVOLUÇAO PERNAMBUCANA (18171
fazendeiros se rebelaram contra a má administração A elite local rebelou-se com a falta de autonomia
da Companhia de Comércio do Maranhão. Foram da província. Os rebeldes organizaram, no Recife, o
derrotados, mas a companhia encerrou suas atividades. primeiro governo brasileiro independente e republicano.
I Sem o apoio das províncias nordestinas, capitularam.

GUERRA DOS MASCATES (1710·17111


Revolta dos ruralistas de Olinda contra a emancipação
do Recife decretada pelos comerciantes portugueses (os
mascates). Na época, Recife era parte de O linda. A Coroa
intervém, e o Recife mantém a autonomia. CONJURAÇAO BAIANA (17981
Chamada de Revolta dos Alfaiates, foi organizada por
.A=-1------------------------1 negros e mulatos que queriam a independência, o fim da
escravidão e a instalação de uma sociedade baseada nos
REVOLTA DE FILIPE DOS SANTOS (17201 I ideais da Revolução Francesa. Acabaram presos e mortos.
Também chamada de Rebelião de Vila Rica, foi uma
reação da população às taxas excessivas e ao anúncio
de criação das Casas de Fundição. O movimento foi INCONFID�NCIA MINEIRA (17891
sufocado e seu l lder, Filipe dos Santos, esquartejado. A decretação da derrama, a cobrança forçada de tri butos
da mineração, foi o estopim do movimento. Parte da
'-------1 elite tramou a revolta. Todos foram presos, mas só um
I executado: Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes.

ACLAMAÇAO DE AMADOR BUENO (16411 GUERRA DOS EMBOABAS (1708·17091


Com a notícia da restauração portuguesa, após o fim da Conflito entre mineradores paulistas, descobridores das jazidas de
União I bérica, alguns paulistas resolveram se desligar de Minas Gerais, e garimpeiros de outras regiões - os "emboabas" -,
Fonte:josé Arruda e Nelson Piletri,
Portugal e proclamaram Amador Bueno rei de São Paulo. interessados em explorar a riqueza. Os paulistas foram derrotados;
Toda a História, 3 ed., Aticu, pJg. XXXV O movimento terminou com a recusa do aclamado. e Portugal criou as capitanias de São Paulo e das Minas do Ouro.

Em 29 de dezembro de 1821, dom Pedro re­ inimigas as tropas portuguesas que desem­ colônia e metrópole estava concluída. O re­
cebeu um abaixo-assinado de representantes barcassem no país. Cinco dias depois, assi­ conhecimento oficial da independência pelo
da elite nacional pedindo que não deixasse o nou o Manifesto às Nações Amigas. Nele, governo português, porém, só viria em 1825,
Brasil. Sua decisão de ficar foi anunciada em defendeu a independência do Brasil. quando dom João VI assinou o Tratado de
9 de janeiro do ano seguinte, no episódio co­ Em protesto, os portugueses anularam Paz e Aliança entre Portugal e Brasil.
nhecido como o Dia do Fico. a convocação da Assembleia Constituinte
brasileira, ameaçaram enviar tropas e exi­ SIGNIFICADO
INDEPENDENCIA giram o retorno do príncipe regente. Ao re­ A independência do Brasil representou
Entre os políticos que cercavam o regente ceber as cartas com tais exigências, em 7 de o triunfo do conservadorismo de José Bo­
estavam José Bonifácio de Andrada e Silva, setembro, dom Pedro proclamou a indepen­ nifácio. Ele promoveu a emancipação do
o principal ministro e conselheiro de dom dência do Brasil. Em 12 de outubro foi acla­ país mantendo o regime político - a monar­
Pedro. Ele lutou num primeiro momento mado imperador e, em 1° de dezembro, co­ quia - e o caráter agrário, latifundiário, escra­
pela manutenção dos vínculos com a antiga roado, recebeu o título de dom Pedro I . vocrata e exportador da economia, o que fa­
metrópole. Porém, ao perceber que o rom­ No início d e 1823, realizaram-se eleições vorecia os interesses da elite local. Apesar da
pimento era necessário, tornou-se o princi­ para a Assembleia Constituinte, encarrega­ soberania política, o Brasil continuou econo­
pal ideólogo da independência do Brasil, en­ da de elaborar e aprovar a C arta Constitu­ micamente dependente, não mais de Portugal,
trando para a história como o Patriarca da cional do Império brasileiro. Entretanto, o mas agora da Inglaterra. Era dos ingleses que
Independência. Fora do círculo da corte, órgão entrou em divergência com dom Pe­ comprávamos quase tudo - principalmente
líderes liberais passaram a criticar pesada­ dro I e foi fechado em novembro. O texto os caros produtos industrializados -, e era a
mente o colonialismo português e a defen­ acabou sendo elaborado pelo Conselho de eles que vendíamos a imensa maioria de nos­
der a total separação da metrópole. Estado - instituição nomeada pelo impera­ sa produção - restrita a produtos primários,
Em 3 de junho de 1822, dom Pedro recu­ dor - e foi outorgado (ou seja, imposto) em mais baratos. Além disso, para alavancar nos­
sou fidelidade à Constituição portuguesa e março de 1824. Com a Constituição em vi­ sa economia, contraímos volumosos emprés­
convocou a primeira Assembleia Constituin­ gor e vencidas as últimas resistências por­ timos dos britânicos, o que nos deixou aínda
te brasileira. Em 1° de agosto, ele declarou tuguesas nas províncias, a separação entre mais submissos ao seu poder econômico. 181

[ljMUIEU IMPERIAL DE PETROPOUI GE HIST0RIA2016 I l05


BRASIL I COlÔNIA
E X E RCÍCI O S E R E S U M O

� COMO CAl NA PROVA


(U nesp 2014) "O comércio foi de fato o nervo da c o l o n i zação m intas; Cristo em tudo maltratado, e vós maltratados em tudo. Os fer­
do Antigo Regime, isto é, para i nc re m entar as atividades ros, as prisões, os açoites, as chagas, os nomes afrontosos, de tudo is­
1 mercantis processava-se a o c u pação, povoa m e n to e valori­ to se compõe a vossa i mitação, q ue, se for acom panhad a de paciência,
zação das novas áreas. E aq u i ressalta de novo o sentid o d a c o l o n i ­ também terá merecimento e martírio [... ]. De todos os mistérios da vi­
zação d a é poca Mode rna; i n d o e m curso n a E u ropa a expansão d a da, morte e ressurreição de Cristo, os que pertencem por condição aos
e c o n o m i a d e m ercado, com a m ercant i l ização crescente d o s vários pretos, e como por herança, são os mais dolorosos."
setores p rodutivos antes à margem da c i rc u l ação d e mercadorias ­ P. A n tô n io Vieira, Sermão décimo quarto. In: I. Inácio & T. Lucca (or·
a p rod ução c o l o n ial era u ma prod ução m e rcantil, l igada às gran­ gs). D o c u m e n to s do B r as i l c o l o n i a l . São Paulo: A tica, 1993, P- 73-15-
d e s l i n has do tráfico i nternacional."
(Fernando A. Novais. Portugal e B r a s i l na crise d o Antigo Sistema A partir da l e it u ra do texto acima, escrito pelo padre j e s u íta Antô­
Colonial (1777·1808), 1981. Adaptado) nio V i e i ra e m 1633, pode-se afi r m a r, corretamente, q u e, nas terras
portuguesas d a América,
O mecanismo p r i n c i pal da c o l o n ização foi o comércio entre c o l ô n i a a) a I g reja Cató l i c a defendia os escravos d o s excessos c o m et i d o s
e metró p o l e, fato q u e se man ifesta pelos seus sen h o res e os i n c i tava a se revoltar.
a) na ampliação do movimento de integração econômica e u ropeia por b) as formas de escravi d ão nos engenhos eram mais brandas do
meio do amplo acesso de outras potências aos mercados coloniais. q u e e m o utros setores e c o n ô m icos, pois ali v i go rava uma ética
b) na ausência d e preocu pações capita l i stas por parte dos colo­ religiosa i n s p i rada na Bíblia.
n os, que preferiam mante r o modelo feudal e a hege m o n ia d o s c) a I greja Catól i c a apoiava, com a m a i o r i a d e seus m e m b ros, a es­
s e n h o res d e terras. crav i d ão dos africanos, tratan d o, portanto, de j u stificá-la com
c) nas c ríti cas das autoridades metropol itanas à persistência do base na Bíblia.
escrav i s m o, que i m p e d i a a a m p l i ação d o m e rcado cons u m i d o r d) c l érigos, c o m o P. Viei ra, se m ostravam i n d e c i so s q uanto às ati ­
na colônia. t u d e s q u e d everiam tomar em relação à escrav i d ão negra, p o i s a
d) n o d e s i nteresse metro p o l itano de o c u p a r as n ovas terras con­ própria Igreja se mantinha ne utra na q uestão.
q u istadas, l i m itando-se à explo ração i me di atista das r i q u ezas e) havia formas de d i s c r i m i nação rel i g i osa que se sobre p u n h a m às
encontradas. formas de d i scri m i nação racial, s e n d o estas, assim, pouco s i g n i­
e) n o c o n d i c i o namento pol ftico, d e mográfico e econô m i co d o s es­ fi cativas.
paços c o l o n iais, q u e d everiam gerar l ucros para as e c o n o m i a s
metropol itanas. .4 RESOLU ÇÃO
A resposta correta é a C. O tráfico negreiro e a utilização da mão d e
obra escrava foram u m dos p i lares econômicos mais rentáveis n o
_.. R ESOLU ÇÃO processo d e exploração colonial no Brasil, orquestrados pelo comércio
A q uestão refere-se ao pacto colonial. Esse sistema determi nava triangular (Portugal-África-Brasi l). Os fortes laços i nstitucionais entre
que o Bras i l (col ô n i a) só pod ia estabelecer relações econômicas com a Coroa Portuguesa e a Igreja faziam com que esta tentasse justificar
Portugal (metrópole). A produção colonial era determi nada pela a escravidão africana por meio da Bíblia e, no caso do sermão do Padre
metrópole e só poderia ser vendida a Portugal. Qual q u e r gênero Vieira, estabelecendo um paralelo entre a trajetória de sofrimento de
necessitado pelo Brasil obrigatoriamente deveria vir d e Portugal ou, Cristo e as condições de vida dos escravos africanos, rumo a salvação .
pelo m e n os, ser i ntermediad o pela metrópole. No próprio sermão, o padre Vieira diz " ... se for acompanhada de
Na esfera política, o Brasil foi o rganizado em capitanias hereditárias, paciência, também terá merecímento e martírio", como se esti m u lasse
extensas faixas territoriais d ivididas conforme os i nteresses da a aceitação daquela condição pelos e scravos . A igreja tratava os
metrópole. Posteriormente, houve a d ivisão e m governos-gerais e negros como seres "infiéis", aval izando sua escravização.
vice-re i n ados. Um fato marcante dessa i nterferência na vida polftica RESPOSTA: C
colonial foi a transferência da capital de Salvado r para o Rio de janei ro
(1763), para facilitar o escoamento da produção m i neradora à Portugal . SAIBA MAIS
A medida i nterferiu também no fluxo populacional do território Entenda como funcionava o comércio colonial triangular: a América fornecia
colonial, já que a m i neração atraiu uma grande q uantidade d e pessoas metais preciosos e açúcar, entre outros gêneros tropicais à Europa; esta fornecia
para essas regiões, contrib u i n d o para o processo de i nteriorização da manufaturados à Atrica em troca de escravos que eram trazidos à América
colônia. O povoamento colonial, em função da produção açucarei ra, ' i.
limitava-se, até então, ao litoral. Portanto, conforme aponta a ,-/..v..;_, ' •Europa , �,-

alternativa E, o Pacto Colonial estabeleceu as d i retrizes política,


econôm ica e demográfica da colônia para favorecer a metrópole.
RESPOSTA: E
'
J Antilhas
Africa

(Fuvest 2014) "Não há trabalho, nem gênero de vida no m u n d o '


r

2 mais parecido à cruz e à paixão de Cristo, que o vosso em u m Golfo


da
destes engenhos [...]. A paixão d e Cristo parte foi de noite sem ' Guiné

dormir, parte foi de dia sem descansar, e tais são as vossas noites e os
vossos d ias. Cristo despido, e vós despidos; Cristo sem comer, e vós fa-

106 1 GE HISTORIA 2016


RESUMO
r ORGANIZAçAO POLITICA E ADMINISTRATIVA
(UFMG 2013) Analise este m apa I A fi m d e tomar posse e explorar a colônia
3 recém-descoberta, Portugal d ividi u o territó­
rio brasi le i ro em 15 capita n i as hereditária·s,
e m 1534. E l as foram entregues a n obres ou
burgueses representantes da Coroa. O sistema
n:!.o teve sucesso por falta de investimentos,
ataq ues i n d ígenas e i solamento da c o l ôn ia.
Em 1548, criou-se o Governo-Geral, com sede na
Bahia, numa tentativa de centralizar o poder. O
objetivo foi ati ngido, do ponto de vista m i litar,
mas o d i a a d ia da popu lação continuou a ser
gerido pelas Cãmaras Municipais de cada vila.

r ECONOMIA I A economia colonial era voltada


para o e n ri q u e c i m ento da m etrópole, q u e
ficava c o m grande parte d o s l ucros gerados
no Brasil. A extração do pau-brasil, a prod ução
Expediç6es de resgate
e apresamento dos Guarani, �
de açúcar, a pecuária e a m i neração foram as
1585-1641 (porterra)
principais atividades econômi cas do período.
Expedições de apresamento
de outros grupos, --+

r SOCIEDADE I A sociedade açucare ira era agrá·


sobretudo pós.-1640
Expedições de mercenários
paulistas nas Guerras do
Nordeste, 1658-1720 ria, escravagista e estratificada. O grupo mais
Rota aproxuneda da expediçlo
de Raposo Tavares, 1648-51
privilegiado era dos senhores de engenho. já na
Rota da expediçlo sociedade do ouro, a população se concentrava
de Sebastiio Pais de Basros.
1671-1674 em núcleos u rbanos, e a mobilidade social e o
trabalho livre estavam m uito mais presentes.

A partir d a análise d o m apa e considerando outros c o n h e c i m e ntos r INTERIORIZAçAO I A busca por metais pre·
sobre o assunto, ciosos, a captação de m:!.o de obra i n d ígena e
1. E x p l i q u e um motivo para as Exped ições de A p resamento. o combate a negros fugitivos m otivaram, nos
2 . Cite d o i s p rocessos h istóricos d e c o rrentes das E x p e d i ções de séculos XVII e XVIII, expedições de desbrava·
Apresamento. mente do interior d o Brasil. As "entradas" eram
3. Compare o tratam ento dado aos povos i n d ígenas por parte das campanhas bancadas pelo governo, enquanto
Exped ições d e Apresamento e nas M issões j e s u íticas. as "bandeiras" eram fruto da iniciativa privada.

r ESCRAVIDAO I A economia açucarei ra de­


� RESOLU ÇÃO mandava mão de o b ra barata e abundante.
1: A q uantidade de mão de obra usada nos engenhos de cana·de­ Para su pri-la, Portugal recorreu à escravidão.
·açúcar era enorme, e o tráfico de escravos africanos no período Estima-se que 4 m i l hões de negros africanos
abordado no mapa ainda não era tão i ntenso como nos séculos XVI I I ten ham c h egado ao Brasi l e ntre 1550 e 1850.
e XIX. P o r isso, a s Expedições de Apresamento tinham c o m o principal E l es eram tratados como ani mais e d u ramen·
objetivo a captura de índios para serem usados como escravos. te castigados. Como forma de resistência,
2: Entre os processos d ecorrentes das exped i ções de apresamento, criara m c o m u n i dades autossufi c i e n tes, o s
podemos citar: q u i l o m bos, formados p o r escravos fugitivos.
· O desbravamento do i nterior e o consequente a u m ento d o A escravid:!.o só foi abo l i d a em 1888.
território português n a América - d estaq ue para exped i ção d e
Raposo Tavares q u e chegou à foz d o r i o Amazonas, m u i to além d o r INDEPENDlNCIA I O Bras i l conquistou sua
Tratado d e Tordesi lhas . i ndependência em 7 de setembro de 1822, mas
· O aprisionamento dos índ ios teve como consequência a revoltas emancipacion istas já ocorri a m na
destruição de m uitas c o m u n i d ades i nd ígenas e a perda d a c o l ô n i a desde o fim do século XVI I I . Apesar
identidade cu ltu ral d esses povos. d e politicamente soberano, o pais continuou
3: Tanto nas Exped ições de Apresamento como nas M issões economicamente d e pendente - não mais de
jesuíticas, os i n d ígenas foram sacados de seus modos de vida, Portugal, mas d a I n glaterra. Para alavancar a
costumes e c u l t u ra. Porém, o� objetivos eram d iferentes. economia, recém-emanci pada, o país contraí·
Enquanto as Expedições de Apresamento tin ham como objetivo a ra vol u mosos e m p réstim o s d o s b ritãnicos,
escravização dos índ ios, as M i ssões jesuíticas t i n h a um objetivo tornando-se submisso ao seu poder econômico.
evangelizado r de conversão dos índios ao catolicismo.
B R AS I L �
IMPÉRIO

Segregação
persistente
Caso de adolescente negro espancado e
preso a u m poste no Rio de janeiro remete
ao período da escravidão

queles q ue passaram pelo aterro do Flamengo,

A
no Rio de jan e i ro, na noite de 31 de janeiro de
2014, se d epararam com u m a cena q u e remetia
aos p e l o u r i n hos do período d a escravidão: u m
adolescente negro estava n u , p reso a u m poste pelo pes­
coço com u ma trava d e b i c i cleta. Pouco antes ele havia
sido espancado e ferido com u ma facada n a orel ha, acu­
sado de rou bo. Perg u n tado sobre q ue m havia feito aq u i­
l o, o jovem respondeu: "os j ustice i ros".
l n conformado com os assaltos na região, sobre os
quais as autoridades não tomavam as devidas p rovidên­
cias, um grupo d e jovens d e classe média resolveu fazer
"j ustiça com as p róprias mãos" - a ironia é q u e, meses
mais tarde, u m a parte dessa tu rma d e "j usticei ros" foi
presa por rou bo, fu rto de automóveis, estu p ro e associa­
ção com o tráfico de d rogas.
A repercussão do caso levantou u m d ebate sobre di­
reitos h u manos e segu rança p ú b l ica. Os q ue defendem o
l i nchamento - q ue é u m crime tão ou mais grave q uanto
o praticado pelo agred ido - alegam q u e a pol fcia é o m is­
sa, e a j ustiça, l e n ta e i neficaz. Aqueles que condenam
o espancamento arg u m en tam q ue, em um Estado d e Di­
reito, cabe ao Pode r j u d iciário j u lgar e p u n i r os cri m ino­
sos, além d e oferecer garantias de p l e n a defesa ao réu.
Mas o episódio também fornece bases para u ma d i s­
cussão a respeito da segregação a q u a l a popu lação ne­
gra vem sendo s u b m etida mesmo após o fim da escra­
vidão, em 1888. Diversos i n d icadores mostram q u e os
negros b rasi l e i ros ocupam cargos m enos q ual ificados e
têm salários mais baixos q u e os b rancos. Além d i sso, se­
gundo dados do l pea, um jovem negro - ou seja, do m es­
mo perfil do rapaz agred ido - tem sete vezes mais chan­
ces d e ser assassi nado do que um b ranco.
Neste capítulo, você confere o contexto que levou à
abolição da escravatura e outros i m portantes fatos q u e
marcaram o Império .

...111 PELOURINHO NO StCULO XXI


Jovem negro preso a um poste após ser agredido no Rio de
Janeiro: episódio levantou discussão sobre direitos humanos,
segurança pública e exclusão racial
YVONNE BEZERRA DE MELLO
BRASIL I I M PÉRIO
P R I M E I RO R E I N A D O

para a diminuiç'io da popularidade de dom


Pedro I no decorrer do seu governo.
CRISE ECONOMICA Durante o Primeiro Rei­
nado, nenhum dos principais produtos de
exportação do país (açúcar, algodão, fumo)
passava por um bom momento. Isso resul­
tava em baixa capacidade de importação e
falta de recursos para saldar os compromis­
sos externos do país.
CONFEDERAÇÃO DO EQUADOR Em 1824, a insa­
tisfação do povo com a situação da econo­
mia e com a outorga da Constituição centra­
lizadora resultou numa revolta no Recife.
Os líderes do movimento, entre os quais se
destacava frei Caneca, assumiram o con­
trole da cidade e proclamaram a República.
O objetivo era unir as províncias do Nordes­
te e separar-se do império, criando a Con­
federação do Equador. A revolta foi seve­
ramente reprimida pelas tropas imperiais
e vários de seus líderes executados, entre
eles frei Caneca.
GUERRA DA CISPLATINA Em 1825, os uru­
SAGRAÇÃO Cerimônia d e coroação d e dom Pedro I, cujo governo foi marcado pela instabilidade guaios se rebelarâm contra a dominação
brasileira, imposta por dom João VI, que
tinha anexado a região sob o nome de Pro­
víncia Cisplatina. Apoiados pela Argentina,

Ascensão e queda os uruguaios proclamaram a independência


do país. Contra a vontade das elites brasilei­
ras, dom Pedro I enviou tropas, e a guerra
se estendeu até 1828. O conflito foi equacio­

de dom Pedro I
nado com mediação inglesa, e resultou num
acordo no qual a província se tornava um es­
tado soberano, o Uruguai. A derrota contri­
buiu para o enfraquecimento político do im­
perador brasileiro.
Desde que recebeu a coroa} dom Ped ro I tentou concentrar o poder SUCESSÃO DO TRONO PORTUGU�S O envolvi­
mento de dom Pedro I na tentativa de as­
do país em suas mãos. Conseguiu} mas não por m uito tempo segurar a sucessão do trono português para
sua filha, Maria da Glória, foi encarado por
seus opositores no Brasil como um sinal de
CONSTITUIÇÃO DE 1824

O
Primeiro Reinado cobre o período en­ que ele pretendia, no futuro, reunificar os
tre a independência, em 1822, e a ab­ Tratava-se de uma Constituição de inspi­ dois reinos. Quando provas dessas interven­
dicação de dom Pedro I, em 1831. Du­ ração liberal, baseada na divisão dos pode­ ções vieram a público, a insatisfação popu­
rante esse período, de grande instabilidade res, em Executivo, Legislativo e Judiciário. lar deu origem a revoltas.
política e econômica, o Brasil consolidou Incluía um quarto poder, o Moderador. De
sua independência, escrevendo sua primei­ uso exclusivo do imperador, o artifício lhe ABDICAÇÃO
ra Constituição e caminhando para a insta­ dava o direito de nomear pessoalmente os Em 1831, quando dom Pedro I retornava
lação de um governo brasileiro de fato. senadores, dissolver a Câmara dos Deputa­ ao Rio de Janeiro de uma viagem a Minas
dos, convocar reuniões extraordinárias do Gerais, manifestantes portugueses que o de­
_ASSEMBLEIA CONSTITUINTE Parlamento e suspender juízes. O regime fendiam acabaram entrando em confronto
Durante a elaboração da Constituição, adotado era monárquico, constitucional e com brasileiros que se opunham ao monar­
os partidos que integravam a Assembleia hereditário; foi instituído o padroado (sis­ ca, na série de eventos batizada de Noites
Constituinte, convocada por dom Pedro I, tema de unidade entre o Estado e a Igreja das Garrafadas. Diante da ameaça de que
desentenderam-se em relação à parcela de Católica); as províncias não tinham autono­ novas revoltas pudessem se repetir, dom Pe­
poder que deveria caber ao imperador e ao mia; e o voto era censitário e aberto, ou se­ dro I abdicou em 7 de abril do trono brasi­
Legislativo. Diante das ameaças da Consti­ ja, não secreto. leiro em nome do filho, Pedro, então com 5
tuinte de limitar o poder imperial, dom Pe­ anos. Voltou para a Europa e foi coroado rei
dro I a dissolveu e nomeou um Conselho de QUEDA DA POPULARIDADE de Portugal, como dom Pedro IV. Até que
Estado, para elaborar a Constituição. O tex­ Além do choque com a elite l àtifundiária, o herdeiro do trono brasileiro adquirisse a
to foi outorgado (ou seja, imposto de forma expresso durante a elaboração da Constitui­ maioridade, o país seria administrado por
não democrática) em março de 1824. ção, uma série de outros fatores contribuiu um governo provisório - as regências. l!ll

110 I GE HISTÓRIA 2016


BRASIL ! I M PÉRIO
R E G Ê N C IA

rais, porém contidas, que não chegaram a


transformar radicalmente a estrutura socio­
econômica vigente no Brasil.
REGrNCIA TRINA PROVISORIA Depois da par­
tida de dom Pedro I, a Assembleia Geral
(Parlamento) deveria eleger três líderes
(uma regência trina) para governar o país
até a maioridade de dom Pedro II. Porém,
como em abril de 1831 o Parlamento brasi­
leiro estava em recesso, e a maioria dos de­
putados e senadores não se encontrava no
Rio de Janeiro, os poucos parlamentares
restantes na capital decidiram eleger uma
regência provisória. Para compô-la, foram
escolhidos os senadores Nicolau de Cam­
pos (moderado) e Carneiro de Campos (res­
taurador) e um representante do Exército,
o brigadeiro Lima e Silva. Os três permane­
ceram no poder por dois meses.
Entre suas medidas destacaram-se a rein­
tegração do último ministério deposto por
dom Pedro I e a suspensão temporária do
poder Moderador, que havia sido criado pe­
la Constituição de 1824. Outra iniciativa de
impacto adotada pela Regência Trina Pro­
visória foi a proibição do tráfico de escra­
vos. A entrada de negros africanos no país,
entretanto, continuou ocorrendo em grande
escala. A escravidão era considerada indis­
pensável ao avanço econômico, sobretudo
para atender a demanda criada pela expan­
são da cultura cafeeira.
REGrNCIA TRINA PERMANENTE Em junho, a
Assembleia Geral elegeu a Regência Trina
[l[ Permanente, formada por três moderados:
� NO PODER Diogo Feijó e os regentes Lima e Silva, Costa Carvalho e Araújo Lima (sentido horário) os deputados Bráulio Muniz e Costa Car­
valho e o brigadeiro Lima e Silva. Porém,
quem despontou como homem forte do no­

Em nome do rei
vo governo foi o ministro da Justiça, Dio­
go Feijó. Ainda em 1831, ele criou a Guar­
da Nacional, um corpo militar comandado
pelos grandes fazendeiros - os quais rece­
beram a patente de coronel -, que foi usado
Entre o Primeiro e o Segundo Reinado} o jovem Im pério brasileiro para reprimir com violência as manifesta­
ções das parcelas mais exaltadas da popu­
ficou nas mãos de governantes provisórios} os regentes lação. No ano seguinte, após uma tentati­
va frustrada de golpe de Estado, o regente
AVANÇO LIBERAL

A
pós a abdicação de dom Pedro I , em Feijó renunciou.
1831, o Brasil foi governado por regen­ Nessa primeira etapa do período regen­ Acalmados os ânimos dos setores mais ra­
tes - líderes políticos que agiam em cial, três partidos disputavam o poder po­ dicais, o governo introduziu duas importan­
nome do herdeiro da Coroa, dom Pedro II, lítico: o Exaltado (ou farroupilha), inte­ tes reformas liberalizantes. A primeira foi a
impossibilitado de tomar posse por ser me­ grado pela esquerda liberal, que defendia promulgação, em 1832, do Código do Pro­
nor de idade. As regências se estenderam a implantação de uma política federal des­ cesso Criminal, que conferia ampla auto­
até 1840, quando, aos 14 anos, dom Pedro I I centralizada; o Moderado (ou chimango), nomia judiciária aos municípios. Um efei­
adquiriu antecipadamente a maioridade e composto da direita liberal, que lutava pe­ to da medida foi o fortalecimento do poder
assumiu o trono. Nesses nove anos, o país los interesses dos grandes fazendeiros; e o loc;:al dos fazendeiros.
passou por grande agitação social e política. Restaurador (ou caramuru), constituído A outra foi o Ato Adicional de 1834, que
Entre as principais questões discutidas esta­ pela direita conservadora, cujo maior objeti­ reformou a Constituição de 1824. Ele des­
vam a unidade territorial do Brasil e a cen­ vo era trazer dom Pedro I de volta ao trono. centralizou o poder, ao extinguir o Conse­
tralização ou não do poder. O período cos­ Os integrantes do partido Moderado con­ lho de Estado e instituir as Assembleias Le­
tuma ser dividido em duas fases: o Avanço seguiram se firmar como a principal força gislativas Provinciais, e aproximou o regime
Liberal e o Regresso Conservador. do período, implementando medidas libe- político em vigor do sistema republicano, ao

[l[[l[REPRODUÇÁD GE HISTORIA 2016 1 111


BRASIL I I MPÉRIO
R E G Ê N CIA

substituir a Regência Trina pela Regência REVOLTAS REGENCIAIS


Una, formada por apenas um governante, O período das regências foi marcado por uma série de rebeliões provinciais. De maneira geral,
elas foram motivadas pela miséria da população e pelo descontentamento com o governo
eleito pelo voto censitário para um manda­ central. Veja quais foram esses movimentos e como, onde e quando aconteceram
to de quatro anos.
As duas reformas adotadas na primeira
metade dos anos 1830 representaram o pon­ REVOLTA DOS FARRAPOS
to alto do Avanço Liberal. A partir de então, (1835-1845)
o período regencial seria marcado pela re­ Conhecida como Revolução
tomada do poder pela direita: o Regresso Farroupilha, nasceu do
Conservador. descontentamento dos
estancieiros (latifundiários)
REGRESSO CONSERVADOR em relação aos im postos
sobre o charque gaúcho,
A partir de 1 834, as forças políticas do
que o tornavam mais caro
país se reorganizaram. Naquele ano mor­
do que a carne im portada.
reu dom Pedro I, o que levou à extinção dos Liderados por Bento
restauradores, que pregavam sua volta ao Gonçalves, eles tomaram
poder. Os exaltados também haviam pra­ Porto Alegre em 1835. No
ticamente desaparecido, por causa da re­ ano segui nte, proclamaram
pressão oficial. E os moderados, durante a a República Rio-Grandense.
campanha para a eleição da Regência Una, O movimento se alastrou
em 1835, acabaram divididos em duas fac­ para Santa Catarina,
onde, em 1839, surgiu a
ções. A mais conservadora se uniu aos an­
República ju liana. Em 1845,
tigos restauradores e formou o partido Re­
após derrotas rebeldes, foi
gressista, defensor de um governo forte e
negociada a paz.
centralizado. A mais liberal agregou rema­
nescentes dos exaltados e compôs o parti­
do Progressista, liderado por Diogo Fei­
jó, favorável à monarquia constitucional. CABANAGEM (1835·18401 SABINADA (1837-1838) BALAIADA (1838·1841)
Feijó venceu a eleição e tomou posse em única revolta que instalou Descontente com a falta A miséria causada pela
outubro de 1835. um governo popular de fato, de autonomia da província crise do algodão e pelo
a Cabanagem deve seu nome e com os desmandos da aumento de i m postos e
REGENCIA UNA DE FEIJO Com o Parlamento
ao modo como a massa administração regencial, preços, somada ao descaso
dominado pela oposição, Feijó teve imen­
pobre do Grão· Pará era a classe média de Salvador, das autoridades, motivou a
sa dificuldade para governar. Ele não con­ chamada: cabanas. Cansada apoiada por uma parcela rebelião popular do sertão
seguiu solucionar a crise econômica que da miséria, da opressão do Exército, tomou a cidade maranhense em 1838. O
atingiu o país nem pôde conter rebeliões das elites e do descaso do e proclamou a República movimento era liderado por
que eclodiram no Pará - a Cabanagem - governo, a população tomou Baiana, em 1837. Os rebeldes um chefe de quilombo, o
e no Rio Grande do Sul - a Revolta dos Belém sob o comando de eram liderados pelo negro Cosme; um vaqueiro,
Farrapos (veja o infográfico ao lado). Em líderes populares como médico Francisco Sabino, Raimundo Gomes; 2 um
1837, sob pressão, Feijó não teve outra al­ Félix Clemente Malcher. daí o nome Sabinada. Sem artesão, Manuel Francisco
ternativa senão renunciar ao cargo. Foi A violenta reação oficial, que respaldo popular, porém, o Ferreira, o "Balaio" - daí
teve a ajuda de mercenários movimento se enfraqueceu. o nome Balaiada. Eles
substituído interinamente pelo regressista
estrangeiros, arrasou o No ano seguinte, as tropas ocuparam a vila de Caxias,
Pedro de Araújo Lima, confirmado no cargo
levante em 1840, causando oficiais, apoiadas pelos a segunda mais importante
pelas eleições realizadas em 1838. a morte de 40 mil pessoas ­ latifundiários da região, da província, mas, em 1841,
REGENCIA UNA DE ARAÚJO LIMA Ao chegarem quase metade da população cercaram e derrotaram foram derrotados pelas
ao Executivo, os regressistas decidiram re­ da província à época. os revoltosos. tropas do governo central.
formular as principais medidas adotadas
Fonte: Alfredo Boulos JUnior, História: Sociedade & Cidadania ·la strie, 1 ed. FTO, pJg. J3l
durante o Avanço Liberal. Pela Lei de In­
terpretação do Ato Adicional, de 1840, o
sistema jurídico voltou ao controle do go­
verno, e as Assembleias Provinciais tiveram
a atuação limitada.
111 A HISTÓRIA HOJE ·······­
· Com o objetivo de tentar retomar o po­ CURRAIS ELEITORAIS
der, os progressistas deram início a uma Tem sido frequente, nas campanhas eleitorais do país, o fato de algumas candidaturas se
campanha pela antecipação d a posse de tornarem alvo da lei eleitoral que proíbe a doação de brindes e o transporte de eleitores em
dom Pedro II. A causa ganhou as ruas, e, troca de voto. O resultado é que prefeitos e deputados, por exemplo, acabam sendo proces·
em julho de 1840, dom Pedro II foi decla­ sados pelos tribunais eleitorais e correm o risco de perder o mandato. Esse tipo de prática
rado maior de idade aos 14 anos. Era o fim remonta ao período do Império, quando começaram a ser realizadas as primeiras eleições
do período regencial e o começo do Segun­ no Brasil. Os grandes chefes políticos locais, denominados coronéis, compravam a patente
do Reinado. O Golpe da Maioridade be­ da Guarda Nacional (força militar-policial da província) na época das eleições e exerciam
neficiou os progressistas, que foram esco­ todo tipo de pressão sobre os eleitores para escolher seus candidatos. Uma das mais típicas
lhidos pelo jovem imperador para compor práticas dos coronéis é a formação de currais eleitorais: aproveitando-se da miséria da popu·
seu ministério. lEI lação, os grandes latifundiários oferecem roupas, ferramentas e emprego em troca do voto.

112 1 GE HISTÓRIA 2016


I BRASil I IMPÉRIO
S EG U N D O R E I N A D O

O último
imperador
Pol ítica interna estávet terríveis
confrontos i nternacionais e o café
consolidado como carro-chefe da
economia: assim foi o capítulo
derradeiro da monarqu ia no Brasil

O
Segundo Reinado, o governo mais lon­
go da história do Brasil, teve início
com o golpe da maioridade, em 1840,
e terminou com a proclamação da Repú­
blica, em 1889. Sob a liderança de dom Pe­
dro li, a política interna manteve-se relati­
vamente tranquila, mas o país se envolveu
em sangrentos conflitos com as nações vi­
zinhas. A economia foi impulsionada pelo
café, que contribuiu para uma série de mu­
danças, ocorridas no fim do período, que 111

acabariam colaborando para a queda da mo­ � LONGO REINADO Dom Pedro li é dono do recorde de permanência no poder brasileiro: 49 anos
narquia: a substituição da mão de obra es­
crava pela assalariada, a vinda em massa de
imigrantes europeus e um surto de cresci­
mento industrial. No Brasil, o sistema foi implantado ao con­ POLÍTICA EXTERNA
trário: o imperador nomeava o presidente As relações exteriores brasileiras durante
POLÍTICA INTERNA do Conselho de Ministros (primeiro-minis­ o Segundo Reinado foram marcadas por de­
Logo no início do Segundo Reinado, o Par­ tro), que formava o próprio conselho. Depois, sentendimentos com a Inglaterra - a Ques­
tido Progressista mudou de nome e passou eram convocadas eleições parlamentares, ge­ tão Christie - e por conflitos militares com
a se chamar Partido Liberal, e o Regressis­ ralmente fraudadas para garantir a vitória dos os vizinhos sul-americanos - as Guerras
ta foi rebatizado de Partido Conservador. candidatos do primeiro-ministro. Caso o Po­ Platinas (guerra contra Oribe e Rosas, guer­
Essas duas forças políticas brigariam en­ der Legislativo entrasse em conflito com o ga­ ra contra Aguirre e Guerra do Paraguai).
tre si durante a maior parte do reinado de binete de ministros, o imperador poderia dis­ QUESTAO CHRISTIE Por causa do sumiço de
dom Pedro li. Logo no início do governo, es­ solver a Câmara e convocar novas eleições, de mercadorias de um navio inglês naufragado
sas disputas resultaram, em 1842, numa re­ acordo com o poder Moderador. Também po­ na costa brasileira em 1861 e da prisão de ofi­
volta dos liberais em São Paulo e em Mi­ dia derrubar o Executivo quando quisesse. ciais da Marinha britânica responsáveis por
nas Gerais, logo debelada. REVOLTA PRAIEIRA A adoção do parlamenta­ tumultos na ruas do Rio de Janeiro, no ano
PARLAMENTARISMO As AVESSAS Para evitar rismo garantiria um revezamento pacífico seguinte, o embaixador britânico Willian
que o confronto entre liberais e conserva­ entre liberais e conservadores no poder. A Christie exigiu do governo brasileiro paga­
dores resultasse em novos conflitos arma­ última revolta do Império ocorreu em 1848, mento de indenizações e pedido oficial de
dos - que sempre representavam para as eli­ em Pernambuco. Após o veto do Senado, do­ desculpas. O caso foi levado a uma corte in­
tes o risco de uma revolução popular -, em minado pelos conservadores, à indicação do ternacional, na Bélgica, que deu ganho de
1847 foi adotado o parlamentarismo no país. liberal pernambucano Antônio Chichorro causa ao Brasil. A Inglaterra negou-se a acei­
O regime, entretanto, foi adaptado aos inte­ da Gama a uma cadeira da Casa, a ala exal­ tar a decisão, e os dois países romperam re­
resses da elite agrária nacional. tada do Partido Liberal do estado se rebelou. lações. A situação normalizou-se em 1865,
Nas monarquias parlamentaristas clássi­ Chamados de praieiros (pois a sede de seu quando os ingleses, interessados em fazer
cas, há eleições para a Câmara dos Deputa­ jornal ficava na rua da Praia), eles tomaram negócios com o Brasil e considerando que o
dos, e o partido que obtém maioria na Ca­ O linda e atacaram o Recife, exigindo o fim país era um aliado estratégico, desculparam­
sa compõe o gabinete (primeiro-ministro e da monarquia e a proclamação da repúbli­ se pelo ocorrido. O Brasil continuou na ór­
conselho de ministros), que exerce o Exe­ ca. Foram derrotados em 1849. Seguiram­ bita de influência inglesa, mas passou a ser
cutivo, amparado por maioria parlamentar. se quatro décadas de relativa paz interna. tratado como um Estado soberano.

[lJREPROOUÇÀO GE H ISTO RIA 2016 1 113


BRASIL I I M PÉRIO
S EG U N DO R E I N A D O

A ECONOMIA NO SÉCULO XIX ECONOMIA E SOCIEDADE


Veja quais eram e por onde se estendiam as atividades econômicas brasileiras no período O café foi o maior responsável pelas trans­
formações sociais e econômicas pelas quais
"""
o Brasil passou durante o Segundo Reinado.
Inicialmente produzido apenas para o con­
sumo interno, a partir do começo do século
XIX o café passou a ser exportado para os
Estados Unidos e para a Europa. Na década
de 1830, já era o principal produto de nos­
sa economia. O cultivo, de início restrito ao
Rio de Janeiro, expandiu-se no decorrer do
século pelo interior do Sudeste, encontran­

1
• Oceano do no oeste paulista seu polo de desenvol­
Atlântico vimento (veja o mapa ao lado).
Cana-de-açúcar 1 O produto teve papel fundamental na dis­
Pecuária seminação do uso da mão de obra assala­
• Mineração riada. Em 1850, quando a pressão inglesa
• Drogas do sertão e borracha pelo fim da escravidão levou à proibição do
.I Indústria
f""" tráfico negreiro (veja a matéria na pág. 102),

j Estrada de ferro ·-tlllt"


o café estava em plena expansão, e os imi­
• Café

f
grantes europeus passaram a ser alternati­
• Erva-mate
va aos escravos negros.
• Algodão
• Cacau
� --
Po tp'Aiegre
Inicialmente, vigorou o sistema de par­
ceria, segundo o qual os fazendeiros finan­
• Tabaco ciavam a vinda e a instalação dos estrangei­
Fonte:)osts Arrud.i e Nelson Piletti, Toda a História, 3 ed., Atira. pág. XXXVIII ros em troca de parte da produção. Porém,
os imigrantes ficavam altamente dependen­
tes dos latifundiários, sem nunca conseguir
quitar suas dívidas, acabando submetidos a
GUERRAS PLATINAS Em 1851, o governo bra­ elite agrária no país, e, sem depender de um estado de semisservidão - uma espécie
sileiro interveio no Uruguai e, no ano se­ capital externo, o governo garantia eficien­ de escravidão disfarçada. No fim da década
guinte, na Argentina, colocando no poder tes serviços públicos e significativa distri­ de 1850, esses trabalhadores se rebelaram e
forças políticas simpáticas ao país. No con­ buição da terra e da renda. Esse relativo su­ o sistema fracassou.
flito uruguaio, fazendeiros ligados ao Parti­ cesso passou a ser considerado um perigoso Foi então que foi adotado o sistema do co­
do Blanco, aliados da Argentina, foram de­ exemplo pela Inglaterra e pelos latifundiá­ lonato. O governo pagava a viagem desde a
postos e os colorados, comerciantes ligados rios dos países vizinhos, como o BrasiL Além Europa, o fazendeiro custeava o primeiro
ao Brasil, assumiram o poder. O general ar­ disso, paraguaios, argentinos e brasileiros ti­
gentino Justo José de Urguiza, que ajudou o nham pretensões expansionistas conflitan­
Brasil na campanha no Uruguai, foi recom­ tes entre si, de modo que o confronto arma­
pensado com o apoio brasileiro na luta con­ do era uma questão de tempo. A H I STÓR I A HOJE ---­
tra o ditador Juan Manuel Rosas, seu inimi­ O estopim foi o ataque brasileiro na guerra
go político na Argentina. Juntas, as forças contra Aguirre, que era aliado do presiden­ MERCOSUL UNE RIVAIS E ALIADOS
brasileiras e as tropas de Urquiza derruba­ te paraguaio Solano López. Ainda em 1864, DA GUERRA DO PARAGUAI
ram Rosas. López reagiu declarando guerra ao BrasiL Criado em 1992, o Mercado Comum do Sul
O Brasil fez nova intervenção no Uruguai O primeiro ano do conflito foi marcado pe­ (Mercosul) tem como objetivo promover a livre
em 1864, quando o chefe de governo Ata­ lo sucesso da ofensiva da nação guarani. Em circulação de bens, serviços e pessoas entre os
násio Aguirre rejeitou indenizar estanciei­ 1865, Brasil, Argentina e Uruguai firmaram estados-membros. O bloco é formado por Brasil,
ros gaúchos por prejuízos causados por fa­ o Tratado da Tríplice Aliança e, com o Argentina e Uruguai - parceiros da Tríplice Alian­
zendeiros uruguaios na região de fronteira. apoio inglês, deflagraram um forte contra­ ça na Guerra do Paraguai -, além do próprio Para­
Com o apoio do colorado Venâncio Flores, o -ataque. Sob o comando dos brasileiros Ma­ guai e da Venezuela, que ingressou em 2012.
_Brasil invadiu o U ruguai e derrubou Aguir­ nuel Luís Osório e Luís Alves de Lima e Sil­ No entanto, o projeto de integração econômica do
re do poder. va, o duque de Caxias, em 1869 os aliados Mercosul sofre críticas por impor algumas barreiras
De todos os conflitos ocorridos na região, avançaram pelo país e entraram em Assun­ tarifárias, especialmente por parte da Argentina,
a Guerra do Paraguai foi, sem dúvida, o ção. No ano seguinte, com o assassinato de que limitam a abertura comercial. Mesmo com essas
mais importante - e o que deixou marcas Sol ano López, o confronto foi encerrado. O restrições, o comércio entre os membros do Mercosul
mais profundas. Pequeno e isolado no inte­ Paraguai teve sua economia destruída, cer­ cresce a cada ano. Entre 1991 e 2014, as exportações
rior do continente, o Paraguai não desper­ ca de dois terços de sua população foram di­ do Brasil para o bloco saltaram de 31 para 225 bilhões
tou o interesse das potências estrangeiras zimados e perdeu porções de seu território de dólares. Além da articulação na área econômica,
após sua independência, em 1811, tendo ado­ para os aliados. Apesar de vitorioso, o Bra­ os membros também tentam promover maior inte­
tado um modelo diferente de desenvolvi­ sil saiu da guerra com uma grande dívida, gração política e social, com a criação do Parlamento
mento em relação a outras nações sul-ame­ por causa da importação de armas e equi­ do Mercosul e de fóruns para discussão de temas
ricanas. Quase não havia escravidão nem pamentos da Inglaterra. como direitos humanos e transferência de renda.

114 1 GE HISTÓRIA 2016


ano de estada no Brasil e o imigrante rece­ QUESTÃO MILITAR Após a Guerra do Para­ agrárias. Identificadas com o trabalho assa­
bia um salário fixo anual e mais um rendi­ guai, o Exército brasileiro ganhou grande lariado e com a industrialização, queriam
mento variável, conforme a colheita. Como relevância. Tornou-se popular nos quar­ um novo regime político no qual tivessem
resultado, os europeus afluíram em massa téis a corrente filosófica do positivismo, maior representatividade.
para o país, principalmente os italianos (ve­ que defendia a República como um siste­ Em 1870, foi fundado no Rio de Janeiro
ja o boxe abaixo). ma político superior. Convencidos de que o Partido Republicano. Em 1873, surgiu o
INDUSTRIALIZAÇÃO Desde 1844, os preços cabia a eles impor ao país "ordem e pro­ Partido Republicano Paulista. Nesse mes­
dos produtos importados estavam mais gresso" (típica máxima positivista), os mi­ mo ano, reunidos na Convenção de Itu, os
elevados em razão da Tarifa Alves Branco, litares se indispuseram com a autoridade cafeicultores de São Paulo - o setor mais
aprovada com o objetivo de aumentar a ar­ imperial numa série de incidentes. Os ca­ dinâmico da economia brasileira à época -
recadação do governo. Com o fim do tráfi­ sos mais conhecidos foram o do tenente­ aderiram à causa republicana. A campanha
co de escravos, em 1850, os capitais aloca­ coronel Sena Madureira e o do coronel crescia, mas não obtinha bons resultados
dos no tráfico buscaram nova forma de se Cunha Matos, punidos por terem se ma­ eleitorais. Cada vez ficava mais claro que
valorizar. Essa combinação de fatores favo­ nifestado na imprensa contra o governo - apenas a luta política não seria suficiente.
receu o surgimento de novos empreende­ algo proibido aos militares. Os episódios Em 1888, pressionado, o governo publi­
dores, entre os quais se destacou o gaúcho incentivaram a adesão do Exército à cau­ cou a Lei Áurea, abolindo a escravidão (v e­
Irineu Evangelista de Sousa, o visconde de sa republicana. Em 1887 foi criado o Clube ja a matéria na pág. 102). A medida abalou
Mauá. Ele investiu em companhias de bon­ Militar, que passou a pressionar o gover­ a monarquia, que perdeu o apoio dos lati­
de, navegação, iluminação urbana, fundição, no. Seu primeiro presidente foi o marechal fundiários escravocratas. Os republicanos
em estradas de ferro e até na instalação de Deodoro da Fonseca, futuro líder da pro­ aproveitaram o momento e intensificaram
um telégrafo submarino ligando o Brasil à clamação da República. a conspiração contra o regime. Comandan­
Europa. Sua atuação foi tão importante que CAMPANHA ABOLICIONISTA E REPUBLICANA A te de prestígio, Deodoro da Fonseca foi con­
as primeiras décadas da segunda metade do partir de 1870, teve início na crescente clas­ vidado a chefiar o levante. Em 15 de novem­
século XIX ficaram conhecidas como Era se média uma campanha a favor da abolição bro de 1889, no Rio de Janeiro, à frente de
Mauá. Sem o apoio do governo, porém, ele da escravidão e da instalação da República. suas tropas, ele proclamou a República. A
acabou falindo. A industrialização brasileira As camadas urbanas não mais aceitavam o família real foi desterrada para a Europa,
durante o Império foi apenas um surto que domínio político das antigas aristocracias e Deodoro assumiu o governo provisório.I8J
só teria prosseguimento décadas depois, já
na República.

CRISE DO REGIME
Apesar da prosperidade do Império, a es­
trutura socioeconômica brasileira não so­
freu mudanças realmente significativas. As
lutas pela modernização do país acabariam
impulsionando a queda do regime e a pro­
clamação da República, em 1889. O fim da
monarquia foi resultado da ruptura das rela­
ções do governo com os três setores da socie­
dade que lhe davam sustentação: a Igreja ­
com a "questão religiosa" -, o Exército -
com a "questão militar" -, e a aristocracia
escravista - em razão da abolição da escra­
vatura, em 1888.
QUESTÃO RELIGIOSA Desde a época colonial I!I

vigorava no Brasil o regime do padroado, � SOTAQUE ESTRANGEIRO Imigrantes japoneses em lavoura de café do interior paulista
que foi mantido pela Constituição de 1824.
Segundo esse regime, o imperador detinha FLUXO MIGRATÓRIO PARA O BRASIL
poderes para vetar as decisões papais (be­ As principais levas de imigração para o Brasil ocorreram entre meados do sécu·
neplácito) e nomear os membros dos car­ lo XIX e a primeira metade do XX. Italianos, portugueses, espanhóis, japoneses
gos eclesiásticos mais importantes no país. e alemães constituíram os maiores fluxos. Até a primeira metade do século XIX,
Em 1864, quando o Vaticano proibiu as muitos vinham atraídos por terras oferecidas pelo governo. A partir de 1870, a coi·
relações entre a Igreja e a maçonaria, sur­ sa mudou. Nessa época, o principal produto de exportação do Brasil era o café, e
giu um conflito. Dom Pedro li, que era ma­ sua produção, baseada no uso da mão de obra escrava, estava em crise - o tráfico
çon, foi contrário à decisão papal e a rejei­ de escravos já havia sido suspenso e a abolição total da escravatura viria em 1888.
tou. Porém, em 1872, os bispos de O linda e A saída encontrada pelo governo e pelos grandes fazendeiros para substituir os
de Belém mandaram fechar as irmandades trabalhadores libertos foi incentivar a vinda de mão de obra de fora do país. No
religiosas que se negassem a expulsar os ma­ início do século XX, a crise da indústria cafeeira levou à redução dos incentivos
çons. O governo, então, prendeu os clérigos, aos estrangeiros. Após a I Guerra (1914-1918), porém, o fluxo migratório voltaria
abalando a relação entre a Igreja e a monar­ a crescer, dessa vez impulsionado também por trabalhadores poloneses, judeus e
quia. Desde então, a Igreja deixou de apoiar russos. O período posterior à 11 Guerra (1939-1945) seria marcado pela chegada de
a monarquia. ôutro tipo de estrangeiro: os refugiados de países afetados pelo conflito.

]1] MUSEU HISTORICO OA IMIGRAÇÃO JAPONESA NO BRASIL GE HISTORJA 2016 1 115


BRASIL I IMPÉRIO
E X E R C ÍC I O S E R E S U M O

� COMO CAl NA PROVA


_.. SAI BA MAIS
BRASIL PODERIA TER VIRADO MONARQUIA EM 1993
Em 1993, os e l e itores bras i l e i ros d e c i d i ram e m p l e biscito q ual
seria a forma e o sistema de governo do país. Na c é d u la havia a
o pção pelos sistemas parlamentarista ou presidencialista e pelas
formas de gove rno monarq u ia o u re p ú b l i ca. Na ocasião, os e leito­
res o p taram pelos atuais pre s i d e n c i a l i s m o e re p ú b l ica. O curi oso
é q u e pela c o m b i nação dos votos havia a possi b i l i dade do Brasil
voltar a ser uma m o n arq uia absolutista, u m gove r n o teoricamente
s e m e l hante ao p r i m e i ro e s e g u n d o reinados, caso o presidencial is­
mo ve n cesse como sistema e a m o n arq uia c o m o forma de gove rno.
Veja como foi o rganizada a céd u la desse p l e b i scito:

--.
:

f()fl!!.l. Of; GOVERNO SI$UM.I. DE GO'lERilO


'

QJ;i MOIIAROU I A
[] PARLAAIEIITAAISMO

"O rei, n osso S e n h o r e amo, d o r m e o sono da ... i n d iferen ça.


Os jornais, q u e diariamente trazem o s desmandos d esta situação,
rrr R EPUBLICA
m PAH!l>EIICIALISMO

parece m p r o d u z i r em S u a Majestade o efeito de um narcótico.


Bem ave n t u ra d o, S e n h o r! Para vós, o reino do céu e para o nosso
povo . . o d o i n fe r n o ! "
(Angelo Agostini. Rev i s ta I I l u s t ra d a, 05/02/1 887 Adaptado)
(FGV/Direito-SP 2013 ) E ntre 1831 e 1845, estou raram revol­
Cite d o i s e l e m e ntos p resentes na c harge ou na sua legenda, q u e tas e m d iversas províncias b ras i l e i ras. A Revolta dos Malês
m ostrem críticas a o i m perador D. P e d ro l i, e i d e ntifi q u e d u a s d ifi­ (1835) teve por base a c i d a d e de Salvado r, na Bahia. A Ba­
c u ldades e n f rentadas pela monarq u i a nas d écadas de 1870 e 1880. laiada (1838-1841) alastrou-se p e l o Maran hão e P i a u í. A Farro u p i l ha
(1835-1845) d es e n ro lou-se no R i o Grande do S u l e Santa Cata r i n a.

� RESO LUÇÃO a) Aponte uma característica de cada revolta i n d icada no e n u n c iado.


A charge e a legenda mostram a decadência d e D. Pedro 1 1 . Entre os b) Do ponto d e vista das propostas sociais, q ual a grand e d ifere nça
elementos presentes na i magem q u e denotam criticas ao i mperador, entre os projetos da Balaiada, em sua fase final, e os da Farroupil ha?
está sua i n diferença em relação aos problemas políticos do final da c) Em q u e co ntexto da p o l ítica bras i l e i ra ocorreram tais revoltas?
Monarquia, já q u e ele dorme ao ler o jornal com o noticiário sobre a
situação do Brasil. Não por acaso, o jornal se chama O País, como se o A11l RESOLUÇÃO
Brasil estivesse sendo deixado de lado. Além disso, a charge mostra a a) A Revolta do Malês foi realizada por negros li bertos e escravos
falta de vigor de D. Pedro li e sua idade avançada. segu i dores do i s lam ismo, na cidade de Salvador. Tin ham como
E ntre as d ific u l dades enfrentadas pela m o narqu i a nas d écadas d e objetivo o fim da escravidão africana - mas não do s i stema
1870 e 1880, podemos citar: escravista - e a i m plantação d a religião m u ç u l mana. Os revoltosos
- A Questão M i l itar: o exército saiu fortalecido da G u e r ra d o foram d elatados, os sobreviventes sofreram penas d iversas e cerca
Paraguai e , com isso, q ueria mais e spaço político. I nflu e n ciados de 400 foram d eportados para África.
pelo positivismo, os m i l itares viam como um atraso a falta de ação A Balaiada foi uma revolta popular decorrente da crise do algodão,
da monarq u i CI. e a s uste n tação do escravismo. Vale ressaltar q u e o q ue desencad e ia u m a disputa de poder entre grupos l iberais e
Bras i l l utou na G u erra do Paraguai ao lado de países rep u b l icanos grandes proprietários de terra no sertão do Maranhão. Em função
� omo Argentina e U r uguai, o q u e tamb é m i n f l u e n c i o u os m i l itares. da situação de m i séria, opressão e injustiça social, o confl ito se
- A Questão Religiosa: como os membros da Igreja Católica eram pagos espal h o u por d iversos setores da sociedade, angariando a adesão da
e su bordinados pelo governo monárqu ico, as decisões eclesiásticas da população mais pobre, i n c l u i n d o vaq u e i ros, sertanejos e escravos.
Santa Sé deveriam ser avalizadas pelo i m perador. Essa crise gerou a A Farroupilha foi organizada pela e l ite gaúcha produtora de charque,
condenação de bispos em 1874, e a Igreja deixou de apoiar Pedro 1 1 . q ue exigia do governo central mais vantagens econômicas e m enos
- As cam panhas abolicionistas e rep u b l icanas: a f u ndação do Partido i mpostos. A revolta, que tomou grandes proporções, tinha como
Repu b licano Paulista ( PR), e m 1873, por cafeicultores d o oeste objetivo a proclamação da Repúbl ica e a separação do I m pério.
pau l i sta deu maior i m p ul s o à causa repu b l icana. A l é m d isso, com a b) A Balaiada foi um movimento que fugiu do controle d a e l i te
abolição da escravidão, e m 1888, a m onarqu ia perdeu o apoio de seu rebe l d e f\laran hense e cul m i n o u numa grande revolta popu lar. Ela foi
ú ltimo pilar d e sustentação: a e lite cafe i c u l tora do vale d o Paraíba e defiagrada pela m i séria no sertão maranhense e contou, i n c l usive,
os faze n d eiros do nordeste, q ue util izavam mão de o b ra escrava. com a participação de escravos. o movimento foi fortemente

116 1 GE HISTÓRIA 2016


RESUMO
,. PRIMEIRO REINADO I O Primeiro Reinado
r e p r i m i d o p o r 8 m i l c o m batentes das tropas l e gais. Já a Farr o u p i l h a estendeu-se da independência {1822) à abdica·
f o i , d o c o me ç o a o fim, controlada p e l a e l i te gaúcha pr odutora d e ção de d o m Pedro I (1831). Foi u m perlodo mar·
ch arq u e. C o m o o I m pé ri o t e m i a a separação da região, h o u ve acordos cado pela instabilidade polltica e econômica.
q u e b e neficiaram essa e l ite, i n c l usive anistiando-os pela revol ta. Centralizador, dom Pedro I outorgou uma nova·
c) As revoltas aconteceram n o período regenc ial, é p o ca c o n st i t u íd a Constituição, em 1824, que lhe conferia amplos
p o r g o v e r n o s provisórios e n tre a a bdi cação d e O. P e d r o I (1831) poderes. Revoltas populares, crise econômica e
e a ascen são de O. Ped ro li (1840). Esse p e r í o d o foi bem agi tad o a derrota na Guerra da Cisplatina (que levou à
p o l i t i c a m e n te, c o m a s u cessão de q uatro gover nos r e g e n c i ais. independência do Uruguai, anexado anos antes
Basi cam e n te, a d i s p u ta o p u n h a l i b e rais, forma do p elas e l ites pelo Brasil) fragilizaram dom Pedro I. O monarca
p rovi n c ia i s e s e u s i nteresses r e g i o nais, e c o n s e rvadores, acabou abdicando em nome do fi lho, Pedro 11.
r e p rese n tados p e l o p o d e r c e ntral i n stalado no R i o de j a n e i ro. Essa
i n stab i l i d a d e p o l ítica ace n t u o u-se com a grave c r i se e c o n ô m i c a, ,. REGENCIAS I Dom Pedro 1 1 não pôde assum i r
d ec o r r en te da q u e d a nas e xpo rtações de açúcar e algodão. Este o trono, p o i s só t i n h a 5 anos q u a n d o s e u pai
pe rí o d o foi m arcado, p ortanto, por uma forte c r i s e p o l ítica, ren u nciou. l nstitu lram·se, e ntão, governos
e c o n ô m i c a e u ma b r u tal v i o l ê n c i a estatal c o ntra as revoltas. provisórios, as regências. Esse perlodo é dividi·
do e m duas fases. Na Avanço Liberal, o Partido
M o d e rado efetivou m e d idas progressistas,
como a criação d as Assem b leias Legislativas
Provinciais. Durante o Regresso Conservador,
o Partido Regressista tentou i m p lantar u m
governo forte e centralizador. E m 1840, com o
Golpe da Maioridade, dom Pedro 11 foi coroado
i m perador, com apenas 14 anos.

,. SEGUNDO REINADO I Dom Pedro 1 1 foi o mais


longevo mandatário brasileiro: ficou 49 anos no
poder. Seu reinado foi marcado pelo fortaleci·
mento da economia, graças à produção cafeeira,
e por relativa tranquilidade na polltica interna.
Em 1847, foi adotado o parlamentarismo, para
acalmar os ânimos dos partidos Liberal e Conser·
vador, mas com d i ferenças para as monarquias
parlamentaristas clássicas. Nelas, o rei tinha
uma atuação l i mitada; aqu i no Brasil, cabia ao
"Ch e i o de g l ó r i a, c o b e rt o de l o u ros, d e p o i s de ter d e r r a m a d o s e u i mperador a nomeaçllo do primeiro-ministro.
san g u e e m d efesa d a pátria e l i b e r t a d o u m p o v o d a e s c rav i d ã o,
o v o l u n tá r i o vo l t a ao país natal para v e r s u a m ã e a m a r ra da a u m ,.SEGUNDO REINADO - POLinCA EXTERNA I No
real idade! ...
t r o n c o ! H o r r ív e l " plano internacional, incidentes envolvendo cida·
(Ângelo Agostini. A V i d a F l u m i n e n se, 11/06/1870. Adaptado) dãos e interesses britânicos no Brasi l abalaram
as relações com a Inglaterra (a Questão Christie).
Indique a t e n sã o a p re s e n tada p e l a r e p r e s e n tação e por sua l e g e n ­ o Brasi l também se envolveu em guerras contra
da e a n a l i s e a i m p o rt â n c i a d a G u e r ra d o Paraguai p a ra a l u ta d e seus vizinhos continentais. A Guerra do Paraguai
a b o l i ç ã o d a e s c r av i d ã o . deixou o pais endividado com a Inglaterra, d a
qual comprou armas e equipamentos.
� RESOLU ÇÃO
A t e n sã o apresen tada na i m agem é d e um s o l d ad o i n d i g n ad o ,.CRISEDO SEGUNDO REINADO I A quedada mo·
e afl ito c o m a t í p i ca c e n a d e açoite d e u m escravo. U m a parte narquia resultou da ruptura do regime com três
c o n s i d e ráve l d o Exército bras i l e i ro q u e l ut o u n a G u e rra d o Paraguai importantes setores sociais: a I greja, o Exército
era formada por escravos. M e s m o co m a vitória, até m e s m o e a aristocracia escravagista. O clero revoltou-se
soldados c o n d e corado s c o rriam o r i s c o d e voltar à c o n d ição por causa da s u b miss:io da Igreja ao Estado,
ante r i o r p o r p r e s s ão d o s s e u s a n t i gos d o n os. O u, em o u t ras em vigor desde 1824; os m i litares passaram a
situações c o m o s u gere a l e g e n da, a fam í l i a do solda do a i n d a defender ideais republicanos; e a aristocracia
v i v i a a s mazelas d a escrav i d ão . Parte d a s o c i e d a d e bras i l e ira e d o escravocrata ressentiu-se da campanha a favor
Exé rc i to c o n s i d e ravam a s i t u ação c o n tra d i tór i a: c o m o p o d e alg u é m da abolição. Os republicanos viram nesse cená·
q u e l ut o u p e l a l i b e rd a d e da nação, ace i tar a falta d e l i b e rda de dos rio a chance de proclamarem a República, o que
escravos? S e m o reco n h e ci m e nto p r e t e n d i d o, o Exér cito bras i l ei r o foi feito em 15 de novembro de 1889.
tornou-se, ao l o n go d o t e m po, anti escravista e r e p u b l icano.
B R A S I L ,.
REPÚBLICA

Um gigante

em cr1se
Mais importante empresa brasileira,
a Petrobras é tragada para u m escândalo de
corrupção que envolve políticos e empreiteiras

ais valiosa e m p resa da América Latina e

M
maior p ro d u tora de petróleo do m u nd o e n­
tre as companhias de capital aberto, a Pe­
trobras está m ergu l hada em u ma crise p ro-
porcional ao seu gigantis m o. Uma ação deflagrada pela
Polícia Federal e m março d e 2014, a Operação Lava Ja­
to, desencadeou u m escândalo de corrupção envolven­
do d e n ú ncias d e lavagem d e d i n h e i ro, s u perfat u ramen­
to em o b ras de refinarias e desvio de d i n h e i ro p ú b lico.
Detidos pela Pol ícia Federal, o d ol e i ro Al berto Vous­
sef e o ex-diretor d e Refin o e Abastec i m ento d a Petro­
b ras, Pau l o Roberto Costa, aceitam u m acordo de d ela­
ção premiada, no q u a l eles colaboram com a j u stiça e m
troca d e red ução d a s penas. Costa faz acusações sobre
o desvio de m i lhões de reais em d i n he i ro p ú b l ico envol­
vendo e m p reiteiras como OAS, Mendes J ú n ior, Camargo
Corrêa, Galvão Engenharia, Engevix e UTC. Seg u n d o a de­
n ú ncia, os contratos com essas e m presas para execução
de o b ras para a Petrobras seriam s u p erfaturados, abas­
tecendo o caixa de partidos como o PT, o PMD B e o PP,
q u e negam as acusações.
O escândalo foi detonado j u stamente em u m m omen­
to de frag i l i dade econ ôm ica da Petrobras, q u e apresen­
ta alto grau d e e n dividamento. As d e n ú ncias, somadas
ao p roblema d e caixa na empresa, fazem suas ações des­
pencarem nas b o l sas d e valores. Como a cadeia produ­
tiva d a Petrobras é responsável por 10% do Produto I n­
terno Bruto (PIS) do Brasil, há o temor de q u e a crise na
com pan hia contagie a economia d o país.
A criação da Petrobras, d urante o governo de Getúl i o
Yargas em 1953, representou u m marco da polftica nacio­
nalista, que visava proteger setores estratégicos do capi­
tal estrangeiro. Nas páginas seguintes, você confere esse
e outros i mportantes fatos do Perlodo Republicano.

.o1llll ESTRUTURA ABALADA


Refinaria Abreu e Lima, na área metropolitana do Recife
(PE}: a obra é investigada pela Opera�o Lava Jato em
funç3o das denúncias de superfaturamento
WllTON )UNIOR/ESTADAo CONTEOOO/AE
BRASIL I REPÚBliCA
R E P Ú B LI CA D A E S PA DA

GOVERNO DEODORO DA FONSECA 118911


Depois da aprovação da Constituição,
Deodoro da Fonseca foi eleito indiretamen­
te presidente do Brasil - de acordo com a
nova lei, deputados e senadores do Congres­
so Nacional escolheriam o primeiro gover­
nante. No curto período em que ocupou o
cargo, Deodoro enfrentou dura oposição
parlamentar, que tentou silenciar, em 1891,
fechando o Congresso e determinando esta­
do de sítio. O golpe enfrentou a resistência
do próprio Exército, chefiado pelo vice-pre­
sidente, o marechal Floriano Peixoto. Deo­
doro acabou renunciando ao cargo.

GOVERNO FLORIANO PEIXOTO 11891-18941


Ao assumir a Presidência, Peixoto reabriu
o Congresso e suspendeu o estado de sítio.
Ele governou com mão de ferro e impôs uma
política centralizadora, que priorizava um
Executivo forte. Usou o apoio popular pa­
ra radicalizar a luta contra os setores mo­
narquistas, acusados de conspirar contra o
[li novo regime.
� NOVA ERA Deodoro da Fonseca proclama a Repúbl ica, em quadro de Henrique Bernadelli No âmbito econômico e social, Peixoto
implementou reformas que favoreceram a
nova burguesia e as classes média e baixa.

Com mão de ferro Ele lançou uma política de protecionismo


alfandegário, de empréstimos às indústrias
e baixou o preço do peixe e da carne. Apesar
de ter conquistado o apoio de muitos setores
da sociedade, o presidente precisou enfren­
O in ício da Repúbl ica foi marcado por governos militares tar uma polêmica sobre a legalidade da sua
permanência no poder e teve de lidar com
autoritários e centralizadores que e nfrentaram a oposição de rebeliões e protestos até o fim de seu man­
setores da sociedade civit das oligarqu ias e dos monarq uistas dato, em 1894.
REVOLTA DA ARMADA Em setembro de 1893,
alguns comandantes da Marinha com ambi­

N
os primeiros cinco anos da República, novos negócios. Boa parte do crédito, contu­ ções presidenciais exigiram o afastamento de
de 1889 a 1894, o Brasil foi governa­ do, foi investida em empresas fantasmas e no Floriano Peixoto do poder. A revolta conse­
do por militares. O Exército era favo­ consumo. O resultado foi uma onda de espe­ guiu pouco apoio no Rio de Janeiro e foi ra­
rável a um regime centralizador e com re­ culação na Bolsa de Valores do Rio de Janeiro, pidamente reprimida. Sem chances de vi­
formas que favoreciam as nascentes classes conhecida como encilhamento (em alusão ao tória, os oficiais revoltosos dirigiram-se ao
médias urbanas e os setores industriais. As encilhamento dos cavalos antes das corridas, Sul e tentaram articular-se com os federalis­
oligarquias, entretanto, preferiam uma re­ quando se intensificavan1 as apostas no Jóquei tas gaúchos para alçar o presidente do poder.
pública federativa descentralizada alinha­ Clube do Rio de Janeiro), e a elevação dos pre­ REVOLTA FEDERALISTA No Rio Grande do Sul,
da com seus interesses econômicos. ços. Desgastado pelos efeitos da política emis­ dois partidos disputavam o poder. De um la­
sionista, Rui Barbosa renunciou em 1891. do, estavam os federalistas (maragatos),
GOVERNO PROVISÓRIO !1889·18911 CONSTITUIÇÃO DE 1891 Inspirada na Carta representantes da velha elite do Partido Li­
Com o fim da monarquia, em 1889, foi im­ Magna dos Estados Unidos, foi promulga­ beral do Império; do outro, os republica­
plantado no país um Governo Provisório, da em 1891 a segunda Constituição brasilei­ nos históricos (pica-paus) do Partido Re­
r.residido pelo marechal Deodoro da Fon­ ra. O Brasil era definido como uma Repúbli­ publicano Rio-Grandense. A disputa entre
seca. As primeiras medidas aprovadas por ca Federativa (Estados Unidos do Brasil), eles evoluiu para uma guerra civil.
ele foram a extinção do Conselho de Esta­ presidencialista e com voto aberto limitado Floriano Peixoto recusou o pedido dos
do, a nomeação de interventores estatais, a aos homens alfabetizados. Estabelecia tam­ maragatos de intervenção federal no es­
expulsão da família real, a separação entre bém a divisão em três poderes: Executivo, tado e apoiou os pica-paus. Os maragatos
Igreja e Estado e a naturalização de todos os exercido pelo presidente eleito por voto di­ reagiram e, em janeiro de 1893, teve início
estrangeiros que viviam no país. reto para um mandato de quatro anos; Le­ um confronto armado que se espalhou pa­
ENCILHAMENTO No plano econômico, o minis­ gislativo, formado pelo Congresso Nacional ra Santa Catarina e Paraná. A revolta, en­
tro da Fazenda Rui Barbosa adotou uma po­ (Câmara e Senado) e eleito pelo povo; e Ju­ tretanto, foi violentamente reprimida pelas
lítica de expansão monetária e do crédito vi­ diciário, exercido pelos juízes federais sob forças oficiais. Peixoto terminou seu man­
sando a dinamizar a economia e a impulsionar a supervisão do Supremo Tribunal Federal. dato com a República consolidada. 181

120 I GE HISTORIA 2016


BRASI L ! REPÚBLICA
R E P Ú B L I C A O L I GÁ RQ U I CA

Poderosos
oligarcas
Após o breve comando militar no início do
período republicano, o Brasil passou a ser
controlado pelas oligarquias de Minas Gerais e
[2[
.... REN OVAÇÃO Prudente de Morais (em pé, no centro) foi o primeiro presidente civil d o país São Paulo, que se revezavam no poder

PRUDENTE DE MORAIS 11894-18981

E
ntre 1894 e 1930, o Brasil esteve sob ral", garantindo os votos dos eleitores para
o comando de setores das oligarquias As eleições de 1894 fizeram do paulista os candidatos por ele indicados. Além disso,
paulista e mineira, que controlaram Prudente de Morais o primeiro presiden­ o governo mantinha o controle da Comissão
eleições, fizeram presidentes e dominaram te civil do Brasil. Ele procurou apaziguar de Verificação de Poderes do Congresso Na­
o país. Nesse período, esses grupos se alter­ o país, conter a oposição militar e restau­ cional, responsável pelos resultados eleitorais
naram no governo, contando com a ajuda rar as finanças. Mas as crises perseguiram finais e pela diplomação dos eleitos. Organi­
dos coronéis - e sua impositiva influência o presidente. Dois anos após sua posse, es­ zava-se, assim, a fraude eleitoral.
política e social - para perpetuar-se no po­ tourou a Guerra de Canudos (veja o boxe
der e conter as revoltas da oposição. na pág. l22). A situação econômica também RODRIGUES ALVES 11902-19061
não melhorou, e, no fim de seu governo, a As eleições de 1902 deram vitória ao pau­
RECEITA DE CAFÉ COM LEITE moeda brasileira quase perdera o valor. lista Rodrigues Alves, apoiado por Campos
A denominação República do café com lei­ Apesar disso - e mesmo chegando no fim do Salles. O novo presidente adotou uma políti­
te é feita em alusão à aliança que alternava mandato governando sob estado de sítio -, ca econômica de valorização do café, batiza­
no poder representantes dos estados de Mi­ Prudente de Morais elegeu seu sucessor. da de socialização das perdas: sempre que
nas Gerais, grande produtor de leite, e São o preço do produto caía no mercado interna­
Paulo, líder cafeeiro. Por meio dessa políti­ CAMPOS SALLES 11898·19021 cional, o governo reduzia a taxa cambial, des­
ca, instalada para garantir os interesses de Para garantir o domínio das oligarquias, o valorizando a moeda e aumentando, assim, o
suas oligarquias regionais, os dois estados presidente seguinte, o paulista Campos Salles, lucro dos cafeicultores. Essa desvalorização
mais ricos e populosos do Brasil - reunidos montou o esquema conhecido como politica provocava mais inflação e aumentava o cus­
nos partidos Republicano Paulista (PRP) e dos governadores: o presidente dava suporte to de vida da população, que pagava caro pa­
Republicano Mineiro (PRM) - escolhiam aos candidatos oficiais nas eleições estaduais, ra beneficiar a classe dominante.
um candidato único às eleições presiden­ e os governadores, por sua vez, apoiavam o in­ Amparados por essa política benevolente, os
ciais, ora indicado por São Paulo, ora por dicado do governo nas eleições presidenciais. fazendeiros elevaram demasiadamente a pro­
Minas. Assim, durante todo o período - com Para dar certo, o plano contava com a autori­ dução cafeeira, causando uma crise de super­
algumas exceções que permitiram a entra­ tária e bastante difundida prática do corone­ produção. Para tentar valorizar o produto, foi
da de gaúchos na cena política -, mineiros lismo, por meio do qual os coronéis usavam criado, em 1906, o Convênio de Taubaté ­
e paulistas dominaram o país e ditaram os seu poder sobre o eleitorado regional. Cada acordo entre os governadores de São Paulo,
rumos da nação. coronel controlava o próprio "curral eleito- Minas Gerais e Rio de Janeiro para comprar

[1) [2) MUSEU DA REPÚBLICA GE HISTQRI� 2016 1 121


B R A S I L I R E P Ú B LI CA
R E P Ú B L I CA O LI GÁ R Q U ICA

o excedente estocado. Em troca, os barões do HERMES DA FONSECA 11910·19141 REVOLTA DE JUAZEIRO A política das salva­
café evitariam futuras superproduções. Ape­ Com pouca experiência política, Hermes ções provocou essa revolta, que, no Cea­
sar de ser cafeicultor paulista, o presidente da Fonseca buscou recuperar para os milita­ rá, opôs oligarquias locais ao governo fede­
não reconheceu o convênio, e suas políticas res a influência antes exercida na esfera pú­ ral, em 1911. Para retirar o poder da família
só foram implantadas no governo seguinte. blica. Com esse intento, ele pôs em prática a Acioli, que dominava o estado por meio do
Ainda no plano econômico, Rodrigues Al­ política das salvações, que derrubou as ve­ coronelismo, o presidente indicou um novo
ves investiu na realização de obras públicas. lhas oligarquias estaduais do Nordeste por governador, Marcos Franco Rabelo. Os co­
Com o auxílio do prefeito do Rio de Janeiro, meio de intervenções militares e pôs no po­ ronéis, apoiados pelo padre Cícero, então
Pereira Passos, modernizou a capital federal, der grupos mais afinados com o presidente. prefeito de Juazeiro do Norte, reagiram ar­
que, naquele momento, era uma cidade su­ Mas enfrentou grandes revoltas durante seu mando centenas de sertanejos e enviando­
ja, com focos de ratos e mosquitos transmis­ governo. Além das rebeliões da Chibata e de os à capital, onde foram contidos pelas for­
sores de doenças. Coube ao governo realizar Juazeiro, no fim de seu mandato estourou a ças federais. Rabelo renunciou, e Hermes da
o alargamento de ruas, o saneamento da la­ Guerra do Contestado, na divisa do Paraná Fonseca nomeou um novo interventor, o ge­
goa Rodrigo de Freitas e o acerto do serviço com Santa Catarina (veja o boxe abaixo). neral Setembrino de Carvalho.
de limpeza pública. As melhorias, contudo, REVOLTA DA CHIBATA Também conhecida co­
não foram sempre bem recebidas. mo revolta dos Marinheiros, a rebelião ocor­ VENCESLAU BRÁS 11914-19181
REVOLTA DAVACINAA falta de saneamento bá­ reu na Marinha, no ruo de Janeiro, em 1910. Os Passado o mandato de Fonseca, o minei­
sico no ruo de Janeiro deixava os moradores rebelados queriam o fim dos castigos corpo­ ro Venceslau Brás foi eleito presidente em
vulneráveis a epidemias de febre amarela, va­ rais, aplicados por oficiais brancos em maru­ 1914. É durante seu governo que o Brasil to­
ríola e outras doenças. Uma reforma sanitá­ jos negros, a redução da jornada de trabalho e ma parte na I Guerra Mundial. Nesse con­
ria foi conduzida pelo prefeito Pereira Passos a concessão de anistia. Liderados pelo gaúcho texto do conflito global, o país enfrentava
e pelo cientista Osvaldo Cruz, chefe do De­ João Cândido, assumiram o controle de na­ um crescimento intenso da atividade indus­
partamento Nacional de Saúde Pública. Mas vios da Marinha de Guerra, ancoradas na baía trial, que formou um contingente expressivo
a tensão foi imediata quando, em 1904, o go­ de Guanabara. O presidente prometeu, inicial­ de operários nos grandes centros. Em 1917,
verno impôs a vacinação à população. Na raiz mente, atender às reivindicações, mas acabou influenciados pela revolução que ocorria na
da revolta estava a reurbanização do centro prendendo e deportando muitos deles. Rússia, os trabalhadores se organizaram em
da cidade, que removeu parte da população à
força dos cortiços e morros centrais para bair­
ros distantes. O descontentamento fez da ci­
dade um campo de batalha. A oposição militar CANUDOS
aproveitou-se da situação para tentar depor o
presidente. Mas a revolta foi sufocada, deixan­
do centenas de mortos de ambos os lados.

AFONSO PENA 11906·19091


De acordo com o esquema do café com lei­
te, o paulista Rodrigues Alves foi sucedido pe­
lo mineiro Afonso Pena, que pôs em prática as
decisões do Convênio de Taubaté. Promoveu
a construção de estradas de ferro e portos e
RI O GRANDE DO SUL
ampliou a colonização do interior brasileiro.
Em 1907 ampliou a rede de comunicações do Area do Paraná pretendida
país ao ligar a Amazônia ao ruo de Janeiro por por Santa catarina

meio do telégrafo. Na sucessão de Afonso Pe­ O Regi�o da Guerra ao Contestado WH Ferfovia

na, porém, ocorreu um cisma na aliança entre fonte: Alrredo 8oulosjúnior; História: Sociedade & Cidadania· s�série, 1� edy FTD, pJg. 109

mineiros e paulistas: o nome indicado pelos


paulistas não foi aceito pela maioria do Par­
tido Republicano Mineiro, e o desacordo fez CANUDOS E CONTESTADO: A FE EM ARMAS
com que os mineiros se aliassem aos gaúchos O movimento de Canudos e o do Contestado foram bem diferentes, apesar do caráter messiânico
na escolha do marechal Hermes da Fonseca. de ambos. O primeiro ocorreu em 1896, no sertão da Bahia. Sob a liderança do pregador Antônio Con·
Os paulistas, por sua vez, uniram-se aos baia­ selheiro, milhares de pessoas juntaram-se no Arraial de Canudos. Conselheiro proclamava o início de
pos para lançar a candidatura de Rui Barbosa. uma nova era e convocava os fiéis a combater a República. Fazia duras críticas à Igreja Católica, além de
O esforço de Rui Barbosa ganhou o nome de recusar o pagamento de impostos. Canudos, com cerca de 20 mil moradores, começou a ser visto não só
Campanha Civilista, por opor um civil a um como "arraial de fanáticos", mas também como reduto de rebeldes monarquistas, apesar de seu líder
militar truculento. Na verdade, essa é conside­ não defendê-la Em 1897, o povoado foi destruído por tropas federais, deixando milhares de mortos.
rada a primeira campanha eleitoral de fato no Já o Contestado ocorreu em Santa Catarina, entre 1912 e 1916. O beato José Maria aglutinou mi·
pais, com Barbosa percorrendo várias cidades. lhares de camponeses no Contestado, região de Santa Catarina na divisa com o Paraná (chamava-se
À época das eleições, o governo já era ocupado Contestado por ser uma área disputada pelos dois estados). Uma enorme massa de desempregados
pelo fluminense Nilo Peçanha, vice de Afonso engrossava o rol dos aflitos: eram trabalhadores da Brazil Railway Company, contratados em cida·
Pena, que assumira em 1909, com a morte do des como Salvador para a construção de uma estrada de ferro na região e, após concluído o trabalho,
presidente. O triunfo de Hermes da Fonseca, demitidos e largados à própria sorte. Nos primeiros combates com as tropas estaduais, José Maria
em 1910, representou a vitória da situação. foi morto. Os fiéis resistiram, mas o Exército decidiu o conflito, com milhares de revoltosos mortos.

122 [ GE HISTÓRIA 2016


na Prestes-Miguel Costa - marchou por 25
mil quilômetros de sul a norte do país, mas seu
esforço foi em vão. Em 1927, embora não te­
nham perdido uma única batalha, cansados e
sem o apoio popular, os rebeldes refugiaram­
se na Bolívia.

REVOLUÇÃO DE 1930
Para suceder Bernardes, foi eleito, em
1926, o paulista Washington Luís. Durante
seu governo, ele enfrentou o endividamento
interno e externo do país, a retração das ex­
portações e, a partir de 1929, os problemas
provocados pela crise econômica mundial
com a quebra da Bolsa de Nova York (veja
a matéria na pág. 72). Na verdade, era o au­
ge de toda uma década de crise, com a falên­
cia do Convênio de Taubaté e a ascensão da
classe média e dos movimentos operário e
tenentista formando uma oposição impor­
tante ao governo, com demandas por maior
liberdade, modernização e democracia.
Para sua sucessão, alegando defender os
interesses da cafeicultura, Washington Luís
1 lançou como candidato o governador de São
A A GRANDE MARCHA Coluna Prestes-Miguel Costa: 25 mil quilômetros percorridos em luta contra o governo Paulo, Júlio Prestes, do PRP. Ao indicar ou­
tro paulista, rompeu com a política do café
com leite. Em represália, o PRM foi para a
um movimento que se espalhou por todo o TENENTISMO oposição e, com o apoio do Rio Grande do
país. Inicialmente concentrado no bairro da O paulista Rodrigues Alves foi eleito pa­ Sul e da Paraíba, compôs a Aliança Liberal.
Mooca, em São Paulo, o movimento dos tra­ ra suceder Venceslau Brás, mas morreu antes O gaúcho Getúlio Vargas seria candidato a
balhadores levou a uma greve nacional por de assumir o cargo. Seu vice, o mineiro Del­ presidente, e o paraibano João Pessoa, a vice.
aumento salarial, jornadas de oito horas e fim Moreira, governou por um ano até con­ O programa da Aliança Liberal continha rei­
abolição do trabalho noturno para mulhe­ vocar novas eleições, em 1919. No novo pleito, vindicações democráticas, como a defesa do
res e menores de idade. Após intensos con­ venceu o paraibano Epitácio Pessoa, candi­ voto secreto e da Justiça Eleitoral. Mas, em
frontos, a classe patronal concordou em ne­ dato apoiado pelo PRM e pelo PRP, que go­ 1930, a chapa de Júlio Prestes venceu a elei­
gociar, pondo fim à mobilização. vernou de 1919 a 1922. Seu sucessor foi o mi­ ção. A princípio, a oposição aceitou o resulta­
neiro Artur Bemardes (1922 a 1926), que não do. Foi quando João Pessoa foi assassinado,
conseguiu obter a unanimidade de paulistas em crime passional. Os aliancistas atribuíram
e mineiros. motivos políticos ao crime, deflagrando uma

I
TENENTISMO E REVOLUÇÃO DE 1930 Bernardes também despertou uma oposi­ rebelião político-militar. Articulada entre o
Veja onde ocorreram os movimentos dos jovens oficiais ção militar, principalmente da ala jovem do Sul e o Nordeste, e liderada por Getúlio Var­
e a revolta que derrubou a República do café com leite
Exército. Descontentes diante das instituições gas, a Revolução de 1930 tomou o poder, pon­
RR AP
fraudulentas da República, os oficiais forma­ do fim à República Velha. [8]
ram um movimento armado para derrubar
o governo - o Tenentismo. Contavam com
o apoio de oligarquias dissidentes e de par­ " A SEMANA DE 1922
te da classe média e defendiam o voto secre­ Influenciados por movimentos como o
to, o combate à corrupção e um governo cen­ cubismo e o futurismo, intelectuais e artis·
tral forte. Em 1922, os tenentistas tomaram o tas brasileiros romperam com os padrões
forte de Copacabana, mas a revolta foi sufo­ acadêmicos da arte no país ao realizar a
cada, e a maioria dos líderes, morta. vanguardista Semana de Arte Moderna de
COLUNA PRESTES O auge do movimento te­ 1922, em São Paulo. Seus idealizadores con·
nentista ocorreu após uma tentativa frustra­ denavam a simples ingestão de modismos
da de tomar a cidade de São Paulo em 1924, estrangeiros. Defendiam uma assimilação
que ficou conhecida como revolução pau­ "antropofágica" das estéticas internado·
O Revolta do Forte de Copacabana (1922)
lista. Derrotados, os oficiais fugiram para o nais, que deveriam ser mescladas com ele·
- Coluna Prestes (192 4·1926)
interior e, unidos com rebeldes paranaenses mentos da cultura nacional para originar
- Revolução de 1924, com retirada
para união à Coluna Prestes e gaúchos, lutaram sob a liderança de Mi­ uma arte vinculada à realidade do Brasil.
• Estados que iniciaram a Revolução de 19 30 guel Costa e Luis Carlos Prestes. Buscan­ Entre os expoentes estão o escritor Oswald
• Expansão da Revolução de 19 30 do conquistar a adesão popular, a Coluna de Andrade, a pintora Tarsila do Amaral e o
Fonte:josé Arrudd e Nelson Piletr� Toda a História, 3 fd. Ática, pJg. XL Prestes - também conhecida como Colu- compositor Heitor Vi lia-Lobos.

I!I CPDOC/FGV GE HISTÓRIA 2016 1 123


B R AS I L ! R E P Ú B li C A
P R I M E I R O G O V E R N O VARGAS

Carisma
e poder
Nacionalista e popu lista, em seu
primeiro - e longo - período
à frente do governo, Getú lio
impulsionou o desenvolvimento
do país e i m plementou ganhos
sociais. Mas tam bém criou o
autoritário Estado Novo

D
epois de liderar a revolução que pôs
fim à República Velha, em 1930, Ge­
túlio Vargas assumiu o governo e con­
duziu o país durante um período caracteri­ ..

zado pelo desenvolvimento industrial e pela Allll EMERGE O LI DER Getúlio Vargas comemora a vitória da Revolução de 1930, movimento que o levou ao poder
ampliação das leis trabalhistas. Seu governo,
que durou até 1945, foi marcado ainda pelo
Estado Novo, período de forte autoritaris­ O esforço de guerra empreendido por em­ tretanto, não duraria muito. À época, em
mo, calcado na personificação quase mítica presários (que produziram capacetes, armas território brasileiro se reproduzia um qua­
da figura do presidente, que ficou conheci­ e munições) e pela população (com a doação dro europeu de radicalização política en­
do como o "pai dos pobres". de joias na campanha Ouro para o Bem de tre grupos de esquerda e de direita, com o
São Paulo) ajudou os revoltosos, mas não crescimento de partidos nazi fascistas e co­
GOVERNO PROVISÓRIO (1930-1934) impediu que fossem derrotados. A Revolu­ munistas. No Brasil, essa politização se ma­
Uma das primeiras medidas de Getúlio ao ção Constitucionalista deixou um saldo de nifestou principalmente por meio de duas
assumir o poder foi nomear interventores 633 paulistas mortos. A tentativa da oligar­ instituições opostas: a Ação Integralista
para ocupar o lugar dos governadores nos quia paulista de depor Vargas e voltar ao po­ Brasileira (AIB) e a Aliança Nacional Li­
estados. Na maior parte, esses cargos foram der, sob o pretexto da reconstitucionaliza­ bertadora (ANL). De cunho fascista, a AIB
preenchidos pelos tenentes, que defendiam ção do país, havia fracassado. foi criada em 1932, por Plínio Salgado. Era
um Estado forte e centralizado. A indicação composta de setores mais reacionários e an­
de um tenente oriundo do Nordeste como GOVERNO CONSTITUCIONAL (1934·1937) ticomunistas da sociedade. Já a ANL, funda­
interventor em São Paulo, associada à inde­ Em 1934, foi promulgada a nova Consti­ da em 1935, era formada sobretudo por inte­
finição do prazo para realização de eleições tuição, de caráter liberal. Estabelecia o prin­ lectuais liberais nacionalistas, sindicalistas
para a Constituinte, acirrou a oposição da cípio federativo, mas a União passava a ter e membros do Partido Comunista, sob a li­
oligarquia paulista contra Getúlio Vargas. maior influência na esfera econômica e na derança de Luiz Carlos Prestes.
Numa das manifestações contra o gover­ social. As riquezas do subsolo e as quedas­ No mesmo ano de sua criação, a ANL lan­
no patrocinada por esses opositores, qua­ d'água foram nacionalizadas, assim como os çou um programa de reformas que pregava,
tro estudantes (Miragaia, Martins, Dráu­ bancos e as seguradoras. A Carta Magna ins­ entre outras coisas, a nacionalização imedia­
sio e Camargo) foram mortos pelas forças tituía importantes mecanismos de proteção ta das empresas e a suspensão do pagamen­
o.ficiais. Esse acontecimento, em maio de ao trabalhador, como a Justiça do Trabalho, to da dívida externa. O governo reagiu com a
1932, catalisou a oposição contra o governo o salário mínimo, a jornada de oito horas, fé­ implementação da Lei de Segurança Nacio­
em São Paulo e deu início, em 9 de julho, à rias remuneradas e o descanso semanal. Por nal, que dava ao Estado poderes para com­
denominada "Revolução Constituciona­ fim, o texto - que também criava a Justiça bater qualquer tipo de movimento considera­
lista de 1932". O movimento ganhou as ruas Eleitoral - estabelecia que o primeiro plei­ do subversivo. A ANL, por sua vez, ampliava
da capital e de cidades do interior paulista to presidencial após sua aprovação se daria sua aceitação entre as massas empobrecidas.
e contou com o apoio de industriais, estu­ de forma indireta. Foi assim que, em 17 de Em novembro de 1935, o governo fechou
dantes, intelectuais e políticos ligados à Ve­ julho de 1934, Getúlio foi eleito presidente as portas das sedes da ANL. Foi a deixa para
lha República. A luta, porém, acabou restri­ da República por 175 votos a 71. · que os aliancistas iniciassem uma insurrei­
ta a São Paulo, já que mineiros e gaúchos A calmaria com a promulgação da nova ção político-militar, que ficou conhecida co­
não efetivaram o prometido apoio. Constituição e a eleição do presidente, en- mo Intentona Comunista. Mas o sonho de

124 1 GE HISTÓRIA 2016


envolver as massas numa revolução acabou dora Companhia Vale do Rio Doce. Também dores em geral, por sua vez, constituíram o
logo nos primeiros dias. Revoltosos e simpa­ foi criado o Instituto de Pesquisas Tecnoló­ Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). Certo
tizantes foram perseguidos, presos ou mor­ gicas (IPT), ligado à Escola Politécnica de de que dificilmente conseguiria manter a di­
tos, e o movimento abriu caminho para Ge­ São Paulo, que se dedicava a estudos na área tadura por muito tempo depois que a guerra
túlio endurecer o regime. O principal líder de metalurgia e de resistência de materiais, e acabasse, Vargas se antecipou e adotou um
comunista, Luiz Carlos Prestes, ficou preso o Instituto Nacional de Estatística, que cen­ conjunto de reformas de caráter democráti­
até 1945. Já sua mulher, a militante alemã tralizava dados de vários ministérios. O or­ co, como a liberdade de expressão e organi­
Olga Benário Prestes, apesar de estar grávi­ gão daria origem, em 1938, ao Instituto Bra­ zação e a lei antitruste. Essa legislação previa
da, foi torturada e enviada de volta à Alema­ sileiro de Geografia e Estatística (IBGE). a possibilidade de nacionalização de empre"
nha, onde foi entregue à Gestapo - a polícia LIGAÇÕES PERIGOSAS Entretanto, com a de­ sas estrangeiras que tivessem atuação lesiva
política nazista - e acabou morrendo num flagração da li Guerra Mundial e a poste­ ao interesse nacional. Além disso, estabele­
campo de concentração em 1942. rior adesão do Brasil à causa aliada (veja ceu relações diplomáticas com a União das
O levante veio ao encontro dos planos de o boxe abaixo), Getúlio passou a enfrentar Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) e
Getúlio, que usou o pretexto do perigo co­ uma grave contradição em seu governo: se, convocou, para o fim de 1945, eleições gerais
munista para decretar estado de sítio, abo­ no plano exterior, lutava contra as ditadu­ e para uma nova Constituinte.
lindo as garantias constitucionais. Tudo es­ ras nazista e fascista, internamente era, ele Essas medidas provocaram uma divisão
tava preparado para o golpe que o deixaria próprio, uma ditadura. na oposição. Os militares e a UDN radicali­
no poder por mais oito anos. À medida que os aliados avançavam e o zaram sua postura contra Vargas, enfureci­
fim da 11 Guerra Mundial se tornava imi­ dos com as medidas nacionalistas e a apro­
O ESTADO NOVO (1937-1945) nente, os movimentos de oposição no Bra­ ximação com a URSS. Os setores populares,
De acordo com a Constituição, deveria ha­ sil foram ganhando força. Os grupos empre­ ligados ao PTB e à esquerda do PCB, pas­
ver eleições em 1938. Entretanto, em setem­ sariais liberais, a imprensa e a classe média saram a apoiar Getúlio e a defender a sua
bro de 1937, os jornais publicaram o Plano se organizaram num agrupamento político permanência no poder até que a nova Cons­
Cohen. Segundo informavam, tratava-se de que, posteriormente, originou o principal tituição ficasse pronta. Sob o slogan "Quere­
um plano de tomada do poder elaborado pe­ partido de oposição ao ideário nacionalista mos Getúlio", organizaram um movimento
los comunistas. Diante dessa ameaça, o Legis­ e intervencionista de Vargas, a União De­ de apoio ao presidente, o "Queremismo".
lativo decidiu outorgar poderes excepcionais mocrática Nacional (UDN). Em outubro de 1945, os opositores deram
para Vargas enfrentar a ameaça comunista. Líderes políticos regionais e setores da um golpe e depuseram Getúlio, e foram mar­
Baseado nesses poderes, ele implantou, em burocracia estatal do Estado Novo, aliados a cadas novas eleições. O general Eurico Gas­
novembro de 1937, o Estado Novo e impôs fazendeiros e empresários próximos ao go­ par Dutra, ex-ministro da Guerra de Getúlio,
ao país uma nova Constituição. verno Vargas, criaram o Partido Social De­ candidato pelo PSD e apoiado pelo PTB, foi
A Carta, apelidada de "polaca", por se ins­ mocrata (PSD). Os sindicalistas e os trabalha- eleito novo presidente da República. [8]
pirar na Constituição corporativista da Polô­
nia, dava ao Executivo poder para dissolver o
Congresso e nomear e substituir intervento­
res, suprimia a autoridade dos estados e ex­
tinguia os partidos políticos. A AIB, que havia
sido usada pelo governo contra a ANL, foi fe­
chada. A fim de divulgar as ações do governo
e manter rígido controle sobre os meios de
comunicação, Getúlio criou o Departamento
de Imprensa e Propaganda (DIP).
Por outro lado, o Estado Novo foi marca­
do por avanços nas políticas sociais e econô­
micas. Durante o período, foram criadas e
consolidadas garantias históricas dos traba­
lhadores, como o salário mínimo e as férias
remuneradas. A nova legislação trabalhista foi [li

unificada na Consolidação das Leis do Tra­


balho (CLT), que entrou em vigor em 1943.
Na economia, o período foi marcado pe­
la aceleração do crescimento industrial. O BRASIL NA 11 GUERRA MUNDIAL
Entre 1933 e 1939, por exemplo, o aumen­ Simpatizante do ideário fascista, Getúlio Vargas optou por manter a neutra·
to da produção industrial foi de aproxima­ I idade do Brasil no início da 11 Guerra Mundial, mas dava sinais de que poderia
damente 11% ao ano. Isso se deveu, sobretu­ aproximar-se de Hitler e de Mussolini. Sob pressão dos Estados Unidos, con·
do, à desvalorização cambial, às tarifas sobre tudo, em 1942 declarou guerra aos países do Eixo - Alemanha, Itália e Japão ­
importações, aos investimentos estatais em e constituiu a Força Expedicionária Brasileira (FEB). O grupo foi enviado, em
infraestrutura (como ferrovias e navegação) 1944, para lutar ao lado dos Aliados, e, apesar da falta de preparo bélico e téc·
e a uma política protecionista e nacionalis­ nico, as tropas brasileiras participaram de importantes batalhas e sucessivas
ta. Getúlio criou, entre outras iniciativas, o vitórias. Mas o apoio não foi de graça. Ele foi condicionado à ajuda financeira
Conselho Nacional do Petróleo, a Compa­ norte-americana para a construção de grandes obras, como a CSN, e para a
nhia Siderúrgica Nacional (CSN) e a minera- modernização do aparato militar nacional.

[1) CPDOC/OSCARCABRAL [2) ASSOCIAÇÀO NAC!ONAL DOS VETERANOS DA FEB/RIO DE JANEIRO GE HISTÓRIA 2016 1 125
B R A S i l ! R E P Ú B L I CA
R E P Ú B L I CA D EM O C RÁTI CA
[1[

� NOS BRAÇOS DO POVO


Juscelino Kubitschek desfila
em carro aberto no Distrito
Federal, nos festejos de
inauguração de Brasília

Respiro (quase) democrático


E ntre o Estado Novo e a d itad u ra m i litar, o Brasil viveu uma conturbada democracia, marcada
por governos populistas, tentativas de golpe e tensão entre conservadores e progressistas

N
o período compreendido entre o fim tra, do Partido Social Democrático (PSD), munistas, e interveio em mais de 100 sindi­
do Estado Novo, de Getúlio Vargas, com o apoio do Partido Trabalhista Brasi­ catos, acusados de serem focos de agitação
em 1945, e o golpe militar, em 1964, o leiro (PTB). Saíram derrotados o brigadei­ operária. O governo rendeu-se às pressões
Brasil viveu anos de transição e de adaptação. ro Eduardo Gomes, candidato da União De­ norte-americanas e rompeu relações com
A democracia havia substituído um sistema mocrática Nacional (UDN), e Iedo Fiuza, do a URSS - era o começo da Guerra Fria, que
ditatorial, mas o populismo - política calcada Partido Comunista Brasileiro (PCB). opôs capitalistas a comunistas no plano in­
na figura de um líder paternalista voltada pa­ Dutra tomou posse em 1946 e instalou a ternacional, obrigando os países periféricos
ra as massas populares - dominou a maioria Assembleia Constituinte. Em setembro, a tomar uma posição internamente.
dos mandatos presidenciais, e as forças de di­ foi promulgada a quinta Constituição nacio­ Na economia, ao contrário da política in­
reita e de esquerda viveram em permanente nal, que definia cinco anos de mandato para tervencionista de Getúlio, Dutra adotou o
e exacerbada tensão. No plano internacional, o presidente, garantia a liberdade de expres­ liberalismo, abrindo o país às importações.
a. Guerra Fria polarizava o mundo e exigia o são e concedia ampla autonomia adminis­ Houve um gasto exorbitante das reservas
posicionamento dos países periféricos (veja trativa e política a estados e municípios. nacionais com compras de produtos ditos
mais na pág. 76). O Brasil, na maioria do tem­ Um ano depois, contudo, os ares democrá­ supérfluos dos EUA e, de certa forma, regis­
po, manteve-se ao lado do capitalismo, enca­ ticos já davam sinais de mudança. Primeiro, trou-se quase uma paralisação do processo
beçado pelos norte-americanos. foi extinto o PCB. A medida foi tomada pe­ de industrialização alavancado por Getúlio.
lo Supremo Tribunal Federal, com base no Para conter a inflação, o presidente tentou
O GOVERNO DE EURICO texto constitucional que proibia a existên­ organizar os gastos públicos. Lançou o Pla­
GASPAR DUTRA 11946·19511 cia de partido político contrário ao regime no Salte, prevendo investimentos em saú­
Após a derrubada de Getúlio, foram con­ democrático. Em seguida, o Ministério do de, alimentação, transporte e energia. Mas
vocadas eleições. O vencedor foi o ex-minis­ Trabalho fechou a Confederação Geral dos a falta de recursos minou o projeto, e o país
tro da Guerra de Getúlio, Eurico Gaspar Du- Trabalhadores (CGT), controlada por co- continuou com seu déficit social.

126 1 GE HISTORIA 2016


A VOLTA DE GETÚLIO VARGAS 11951-1954)
Nas eleições de 1950, o "pai dos pobres"
voltou ao poder, dessa vez eleito pelo Par­
tido Trabalhista Brasileiro (PTB). Em seu
novo mandato, continuou o processo de in­
dustrialização. Inaugurou o Banco Nacio­
nal de Desenvolvimento Econômico (BN­
DE) e promoveu a estatização da produção
de energia elétrica. Para atender os traba­
lhadores urbanos, uma de suas principais
bases de apoio, Getúlio flexibilizou a legis­
lação sindical. Tudo era feito para refor­
çar o caráter nacionalista de seu governo.
O auge dessa política ocorreu quando o
presidente enviou ao Congresso o proje­
to de lei que estabelecia o monopólio esta­
tal sobre a perfuração e o refino do petró­
leo brasileiro. O texto provocou polêmica
entre os nacionalistas e os "entreguistas",
os defensores da entrega da exploração do
petróleo ao capital estrangeiro. Após forte
campanha promovida pelo governo e inti­
tulada "0 petróleo é nosso", em 1953, a lei
que criou a Petrobras foi sancionada.
A vitória governista, acrescida do êxi­
to da greve geral por reajuste salarial que � "O PETROLEO t NOSSO" Getúlio promove campanha que culminaria na criação da Petrobras
reuniu 300 mil trabalhadores em São Pau­
lo, causou a ira dos conservadores liderados
pela UDN. Em 1954, no Rio de Janeiro, um
atentado contra o jornalista Carlos Lacerda, ção da população e de militares antigetulis­ to, os operários ganharam concessões sa­
ferrenho opositor udenista, matou um ma­ tas por meio do jornal Tribuna da Imprensa, lariais, a classe média aplaudiu o progres­
jor da Aeronáutica. Ficou comprovado o en­ de Carlos Lacerda. Nas matérias, os udenis­ so econômico e os industriais ampliaram
volvimento de Gregório Fortunato, chefe da tas diziam que os novos governantes tive­ sua ação por meio da facilidade de crédito.
guarda presidencial de Getúlio. Após esse ram apoio dos comunistas e incitavam os Essa relativa estabilidade política - pois
episódio, o governo se fragilizou, num pro­ leitores a rejeitar a posse. Mas a tentativa nunca cessaram os arroubos da UDN - foi
cesso conturbado que atingiu seu ápice com de golpe foi frustrada por comandantes le­ resultado, principalmente, do crescimento
a divulgação de um manifesto dos militares galistas, tendo à frente o ministro da Guer­ industrial. O governo apostou no "naciona­
exigindo a renúncia do presidente. ra, Henrique Teixeira Lott, que mobilizou o lismo desenvolvimentista". Apesar do nome,
Sob pressão e abandonado politicamente, Exército, cercando as bases aéreas e navais a política de expansão industrial não teve
Getúlio se suicidou em 24 de agosto, no Pa­ envolvidas com os golpistas. O presidente nada de nacionalista. Foi, pelo contrário, re­
lácio do Catete, no Rio de Janeiro. Sua morte pôde, então, tomar posse em 1956. pleta de medidas de desnacionalização, com
foi seguida de grandes manifestações popu­ Com um discurso desenvolvimentis­ a abertura do mercado ao capital estrangei­
lares. Considera-se que tenha sido a comoção ta, cujo lema era "Cinquenta anos (de pro­ ro, atraído pela ampliação dos serviços de
popular que tornou desfavorável o contexto gresso) em cinco (de governo)", JK ma­ infraestrutura. Com esses investimentos ex­
político para um eventual golpe udenista - nobrou as diversas facções políticas e se ternos, JK estimulou a diversificação da eco­
dado como certo -, garantindo, assim, uma aproximou dos militares. Em seu manda- nomia nacional, aumentando a produção de
transição do poder dentro da legalidade.

JUSCELINO KUBITSCHEK 11956-1961):


50 ANOS EM 5 - A HISTÓRIA HOJE ········­
Com a morte do presidente, tomou pos­
se o vice, João Café Filho. Cercado por ude­ INDÚSTRIA PERDE PARTICIPAÇÃO NO PIB BRASILEIRO
nistas, o novo mandatário tentou conciliar Considerada um pilares da política desenvolvimentista de Juscelino Kubitschek nos anos
os interesses dos golpistas favoráveis à di­ 1950, a indústria foi perdendo participação na composição do Produto Interno Bruto (PIB)
tadura, dos conservadores antigetulistas e nos últimos anos. Em 2013, as fábricas brasileiras contribuíram com 24,9% do crescimento
dos que queriam manter a política de Ge­ da economia, a menor participação no PIB desde 2000. Os outros dois setores que compõem
túlio. Nas eleições de 1956, saiu vencedor o o PIB - serviços e agropecuária - vêm crescendo a taxas mais elevadas.
candidato da coligação PTB-PSD, Juscelino A indústria é considerada um setor estratégico na economia devido à sua capacidade
Kubitschek, tendo como vice o ex-ministro de produzir bens de maior valor agregado e empregar milhões de brasileiros. Entre 2012
do Trabalho de Getúlio, João Goulart. e 2013, o governo reduziu impostos e facilitou o financiamento para estimular o consumo
Derrotada, a UDN tentou impedir a posse interno e a indústria No entanto, entidades como a Confederação Nacional da Indústria
dos eleitos, em manobras como a mobiliza- reivindicam políticas para desonerar os investimentos e reduzir os custos de produção.

[Ii ALBUM DE FAMILIA [l[ ACERVO PETRDBRAS GE H ISTO RIA 2016 1127
B R A S I L I R E P Ú B L I CA
R E P Ú B L I CA D E M O C RÁTI CA

máquinas e insumos, o transporte ferroviá­


rio e a construção civil. Isso favoreceu, en­
tre outras coisas, a implantação do polo au­
tomobilístico no ABC paulista.
Para sistematizar seu projeto, o presidente
lançou o Plano Nacional de Desenvolvimen­
to. Conhecido como Plano de Metas, ele pri­
vilegiou cinco setores: energia, transporte,
alimentação, indústria de base e educação. O
crescimento da Região Nordeste foi incenti­
vado com a criação da Superintendência de
Desenvolvimento do Nordeste (Sudene).
Em 1957, o presidente decidiu que o Brasil
deveria ter uma nova capital, que integrasse
melhor todo o território e facilitasse o desen­
volvimento do interior. Começou, assim, a
construção de Brasilia, metassímbolo do go­ -...&

verno. O projeto urbanístico foi assinado por .1111 ESTÉTICA BRASILEIRA Glauber Rocha tornou-se um dos principais nomes do nosso cinema
Lúcio Costa, e os principais prédios gover­
namentais foram projetados por Oscar Nie­
meyer. Três anos depois, a cidade era inau­ EFERVESCÊNCIA CULTURAL
gurada, à custa do endividamento externo e A vida cultural brasileira passou por grande efervescência na década de 1950.
da emissão de moeda. Na verdade, toda a po­ Um grupo de atores da Escola de Arte Dramática da Universidade de São Paulo
lítica econômica de JK ocasionou um endi­ (USP) criou, em 1953, o Teatro de Arena, com o objetivo de levar o teatro ao povo.
vidamento externo, associado à alta da infla­ As apresentações ocorriam em escolas, fábricas e clubes. Em 1958, um baiano de
ção e ao consequente arrocho salarial. juazeiro abriu novo caminho para o desenvolvimento da música brasileira. No seu
primeiro LP, Chega de Saudade, João Gilberto inovou com uma interpretação refi­
O BREVE MANDATO DE nada e uma batida original e criou a bossa nova. No inicio dos anos 1960, uma nova
JÃNIO QUADROS 119611 estética cinematográfica ganhou forma por meio de um grupo de cineastas lide­
Nas eleições de 1960, o candidato do Parti­ rado por Glauber Rocha. Eles se insurgiram contra os padrões hollywoodianos e
do Trabalhista Nacional (PTN), Jânio Qua­ fizeram filmes com poucos recursos e linguagem e temática comprometidas com
dros, apoiado pela UDN, venceu a disputa. os problemas que o país enfrentava. O movimento foi batizado de Cinema Novo.
Era a primeira vez, desde 1945, que a coli­
gação PTB-PSD não elegia o presidente -
conseguiu apenas o vice, João Goulart, o e os setores conservadores não admitiam negociação da dívida. Mas o plano fracas­
Jango. A derrota do candidato de JK ocor­ que o esquerdista Jango ficasse no poder. sou, e a inflação voltou a crescer.
reu principalmente pelo estado em que se Sua posse só foi aceita após uma manobra Outras tentativas de reestruturação, co­
encontrava o país no fi m de seu governo: in­ no Congresso, que instituiu o parlamen­ mo as reformas de base (agrária, bancá­
flação alta, desvalorização da moeda e au­ tarismo no país. A Constituição de 1946 ria, eleitoral e fiscal), também não conse­
mento do custo de vida. foi, então, reformada, reduzindo-se os po­ guiam vencer a resistência da oposição.
O novo presidente tinha carisma, e seu deres do presidente em favor de um gabi­ Seguiu-se um período de intensa radica­
discurso populista conseguiu fascinar o nete ministerial chefiado por um primei­ lização política: de um lado, greves e mani­
povo. O símbolo de sua campanha foi uma ro-ministro. festações populares a favor das propostas do
vassoura, segundo ele, "para varrer a cor­ presidente; de outro, adversários de oposi­
rupção". Jânio aplicou a austeridade na JANGO E O GOLPE MILITAR 11961-19641 ção, que responsabilizavam o governo pela
economia, restringiu o crédito e congelou Mesmo com poderes limitados, João Gou­ crise e acusavam Jango de estar preparando
os salários. Adotou uma política externa lart aceitou a proposta e assumiu o governo um golpe comunista. A tensão chegou ao ápi­
independente daquela ditada pelos EUA. num contexto de inflação ascendente, que­ ce em março de 1964. No dia 13, o presiden­
Entretanto, ao manter-se neutro diante da da de investimento e baixo crescimento. te promoveu um comício popular na Central
Revolução Cubana, duramente criticada Numa tentativa de reverter a situação, Jan­ do Brasil, no Rio de Janeiro, com a presen­
pelos EUA, foi atacado por setores conser­ go mobilizou, em 1963, suas forças políticas ça de cerca de 300 mil pessoas para apoiá-lo.
vadores do país, e a UDN rompeu defini­ para a campanha pelo retorno do presiden­ Seis dias depois, seus adversários reagiram
tivamente com o presidente. Pressionado cialismo em novo plebiscito popular. Com com a conservadora Marcha da Família com
com a explosão de denúncias, segundo as o restabelecimento do presidencialismo, Deus pela Liberdade, que reuniu outras 200
quais apoiaria o comunismo, Jânio par­ Jango retomou as rédeas da nação. mil pessoas numa passeata contra o gover­
tiu para uma medida arriscada: renun­ A crise econômica exigia soluções rápi­ no, dessa vez na cidade de São Paulo.
ciou, em agosto de 1961, na esperança de das. Foi então que o governo implementou o A queda de braço continuou até que, no
que seus ministros militares e a população Plano Trienal de Desenvolvimento Econô­ dia 31, tropas do Exército ocuparam as ruas
pedissem sua volta. Nenhuma força social, mico e Social, ou somente Plano Trienal. das principais cidades do país, destituindo
contudo, se mobilizou a seu favor. O programa propunha uma taxa de cresci­ Jango - que se refugiou no Uruguai - e im­
A crise institucional acirrou-se na hora mento de 7% ao ano e a redução da inflação plantando um longo e lamentável regime
de passar o cargo ao vice, pois os militares por meio de empréstimos externos e da re- militar no Brasil. l8l

128 1 GE HISTÓRIA 2016


BRASIL ! R EPÚ BLICA
D I TA D U RA M I LITAR

' � m

...Í DEMONSTRAÇÃO DE FORÇA Sob o olhar da população, tanque de guerra circula pelas ruas do Rio de janeiro, no dia seguinte ao golpe militar que depôs o governo João Goulart

Tempos de chumbo
Com o golpe de 1964, o Brasil passou mais de 20 anos sob os desmandos de
uma ditad ura m i litar, caracterizada pela violação dos direitos políticos e civis

A
ditadura militar no Brasil, instaurada mitando o poder do presidente em favor do O cenário estava preparado. No dia 31 de
pelo golpe de Estado de 31 de março primeiro-ministro. Porém, ao vencer um março de 1964, o Exército ocupou as ruas
de 1964, durou 21 anos. Chamada por plebiscito popular sobre o tema, em 1963, das principais cidades do país, anuncian­
seus defensores de "revolução", foi mar­ Jango restabeleceu o presidencialismo, re­ do a destituição de Goulart. O pretexto pa­
cada pela ruptura do regime democrático, tomando o controle da nação. ra a manobra, que recebeu apoio de grande
por forte centralismo e autoritarismo, pela O país enfrentou, então, um período de parte da classe média e de setores impor­
cassação dos direitos políticos de oposito­ radicalização política, com greves e mani­ tantes da elite nacional, foi o combate à
res e pela violação das liberdades individu­ festações em favor das reformas de base "ameaça comunista", à corrupção e à crise
ais da população. No período, o país viveu (agrária, bancária, eleitoral, fiscal, urba­ político-econômica brasileira. No dia 1° de
ainda a euforia - e, mais tarde, a decepção na e salarial) propostas pelo presidente. abril de 1964, uma junta militar assumiu o
- do "milagre econômico". Além disso, o governo enfrentava uma in­ controle da nação no lugar de Jango, que
tensa crise econômica. Buscando reforçar partiu para o exílio.
O GOLPE sua base política e se fortalecer no poder, Seguiu-se uma onda de repressão, que
Em 1961, o Brasil mergulhou numa agita­ Goulart tentou mobilizar as massas traba­ atingiu entidades como a União Nacio­
da crise institucional causada pela renún­ lhadoras, o que levou o empresariado, par­ nal dos Estudantes (UNE), a Central Geral
cia do presidente Jânio Quadros, ainda no te da Igreja Católica e os partidos de opo­ dos Trabalhadores (CGT) e as Ligas Cam­
começo do mandato. O vice, João Goulart ­ sição, liderados pela União Democrática ponesas. Os militares passaram a decretar
o Jango -, sofria intensa oposição de milita­ Nacional (UDN) e pelo Partido Social De­ os atos institucionais (AI), utilizados pa­
res e dos conservadores e só pôde assumir mocrático (PSD), a denunciar a prepara­ ra dar força de lei às suas ações. O primei­
o governo após uma manobra no Congresso ção de um suposto golpe comunista, que ro deles, o AI-1, imposto em abril de 1964,
que levou à adoção do parlamentarismo, li- contaria com a participação do presidente. cassou mandatos e suspendeu a imunidade

IJJ DIVUlGAÇÃO [l) AGENCIA O GlOBO GE HISTORIA 2016 1 129


B R A SI L ! R E P Ú B LI C A
D I TA D U RA M I LITA R

parlamentar, o caráter vitalício dos cargos tituição, votada em janeiro de 1967. O texto para processar o parlamentar. Por não ter
dos magistrados, a estabilidade dos funcio­ incorporou os atos institucionais, ampliou obtido autorização para processá-lo, o go­
nários públicos, entre outros direitos cons­ os poderes do presidente e reduziu ainda verno decidiu fechar o Congresso Nacio­
titucionais. Com a cassação de membros da mais os do Legislativo. nal. Em seguida, decretou o AI-5, inician­
oposição, os apoiadores do golpe tornaram­ No plano econômico, Castello Branco im­ do a fase mais dura do regime.
se maioria no Parlamento, que referen­ plementou uma política recessiva, com seu As forças policiais e militares passaram
dou como próximo presidente o marechal Plano de Ação Econômica, cuja principal a ter carta branca para prender oposito­
Humberto de Alencar Castello Branco. meta era conter a inflação. Para isso, cortou res do governo sem precisar de acusação
os gastos públicos e aumentou impostos. formal nem registro. A repressão policial
CASTELLO BRANCO 11964·19671 aumentou em larga escala, enquanto gru­
O militar assumiu com a promessa de COSTA E SILVA 11967-19691 pos radicais de esquerda se voltaram para
que a intervenção seria curta e o poder O sucessor de Castello Branco foi o ma­ ações de guerrilha urbana.
voltaria aos civis logo que o país superas­ rechal Arthur da Costa e Silva, ex-ministro
se os problemas que levaram ao golpe. No do Exército. Em seu mandato, a oposição se MÉDICI 1196 9·19741
entanto, três meses após sua posse, ele acentuou e as manifestações pelo fim do re­ Afastado por problemas de saúde, Costa
promulgou a emenda constitucional que gime se multiplicaram. Em março de 1968, e Silva foi substituído por uma junta mili­
prorrogou seu mandato até 1967. Em ou­ o estudante Edson Luiz Lima Souto é morto tar, que governou o país durante dois me­
tubro de 1965, editou o AI-2, que estabele­ pela polícia militar durante uma passeata ses e realizou a própria reforma constitu­
cia a eleição indireta para presidente, ex­ no Rio de Janeiro. O incidente provoca cional, instituindo, entre outras medidas, a
tinguia partidos políticos e permitia ao nova onda de protestos e passeatas estu­ prisão perpétua e a pena de morte a quem
Executivo cassar mandatos. O presidente dantis. Em junho, uma manifestação or­ praticasse ações "subversivas". Ao fim do
também instituiu o bipartidarismo, com ganizada pela UNE contra a ditadura, a período, os ministros reabriram o Congres­
a Aliança Renovadora Nacional (Arena), Passeata dos Cem Mil, tomou o centro da so para que os parlamentares pudessem ofi­
de situação, e o Movimento Democrático capital fluminense. cializar a escolha do novo presidente, o ge­
Brasileiro (MDB), de oposição - ou o que Enquanto isso, o governo também era neral Emílio Garrastazu Médici.
sobrou dela, após as cassações -, e criou pressionado pelos militares da linha du­ Conhecido como "anos de chumbo", o
o Serviço Nacional de Informações ra, que defendiam a intensificação das mandato de Médici foi caracterizado pe­
(SNI), uma espécie de polícia política. ações repressivas. Em setembro, num ou­ la multiplicação das acusações de tortu­
Em fevereiro de 1966, como resposta às sado discurso contra o regime, o deputa­ ra e de desaparecimento de opositores.
pressões pelo fim do regime, foi editado o do oposicionista Márcio Moreira Alves, do Espalharam-se pelo país os centros de tor­
AI-3, tornando indiretas as eleições pa­ MDB, convocou, na tribuna da Câmara, a tura do regime, ligados ao Destacamento
ra governador. Em dezembro veio o AI- população a boicotar a parada militar de 7 de Operações e Informações - Centro de
4, que fechou o Congresso e determinou de setembro. Profundamente irritados, os Operações de Defesa Interna (DOI-Codi).
as regras para a aprovação da nova Cons- militares solicitaram ao Congresso licença A guerrilha urbana perdeu terreno nas ca­
pitais e tentou afirmar-se no interior, co­
mo no Araguaia, mas acabou enfraqueci­
da e derrotada. Os dirigentes de esquerda
Carlos Marighella e Carlos Lamarca fo­
ram mortos nessa época.
No Brasil da ditadura foram i mpostos ao todo 17 atos institucionais. Confira os principais Enquanto isso, o regime apelava ao ufa­
nismo, tentando criar a imagem do "Brasil
Cassou mandatos e suspendeu a imunidade parlamentar, Grande" com projetos megalomaníacos,
Al·l
a vitaliciedade dos magistrados, a estabilidade dos como a rodovia Transamazônica e slogans
(9 DE ABRIL DE 1964)
funcionários públicos e outros direitos constitucionais. do tipo "Brasil, ame-o ou deixe-o". Como
trunfo, o governo alardeava o vigor da eco­
Al-2 Estabeleceu a eleição indireta para presidente, nomia. De fato, entre 1969 e 1973, o Brasil
(27 DE OUTUBRO extinguiu partidos políticos e permitiu ao Executivo viveu o "milagre econômico", crescendo,
DE 1965) cassar mandatos. em média, 11,1% ao ano. Tal pujança se de­
veu, entre outros fatores, a uma política de
Al-3 i nvestimentos no setor financeiro, a subsí­
Fixou eleições indiretas para governador, vice-governador,
(5 DE FEVEREIRO dios e incentivos fiscais para a indústria e
prefeito e vice-prefeito.
DE 1966) a agricultura, à imposição de um arrocho
salarial, ao apoio às exportações e a inten­
Al ·4 sos empréstimos no exterior.
Fechou o Congresso e determinou as regras para
(7 DE DEZEMBRO A euforia começou a se transformar em
a aprovação da nova Constituição.
DE 1966) decepção com a eclosão da crise mundial
do petróleo, ocorrida em 1973, e a escalada
Deu ao presidente plenos poderes para cassar mandatos, das taxas dos juros internacionais. Uma das
Al 5
·
suspender direitos políticos, demitir e aposentar juízes consequências da política governamental,
(13 DE DEZEMBRO
e funcionários; acabou com a garantia do habeas corpus; por exemplo, foi o salto vertiginoso da dívi­
DE 1968)
ampliou e endureceu a repressão policial e militar. da externa no período, que passou de 3,5 bi­
lhões para 17 bilhões de dólares.

130 [ GE HISTÓRIA 2016


No pleito de 1982, foram eleitos 12 gover­
nadores pelo partido alinhado ao gover­
no e dez pelas legendas de oposição, entre
eles os governantes dos principais estados
do país, como São Paulo, Minas Gerais e
Rio de Janeiro. Além disso, a oposição ga­
rantiu maioria na Câmara Federal. Mas
faltava ainda restabelecer a eleição direta
para presidente da República.
O sucessor de Figueiredo deveria ser es­
colhido pelo Colégio Eleitoral em novem­
bro de 1984. Um ano antes, porém, o de­
putado oposicionista Dante de Oliveira
(PMDB-MT) apresentou uma emenda à
Constituição que previa a volta das elei­
ções diretas para a Presidência. Ao mesmo
tempo que a emenda tramitava no Con­
gresso, a campanha ganhava as ruas de to­