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Instituto Superior Técnico

Departamento de Matemática
Secção de Álgebra e Análise
Prof. Gabriel Pires

Linhas. Integrais de Linha

1 Linhas e Caminhos
1.1 Um segmento de recta
Consideremos o segmento de recta R , representado na Figura 1, definido pela equação y =
x
3 + 1 com 0 ≤ x ≤ 3.
Este segmento de recta é o contradomı́nio da função contı́nua g : [0, 3] → R2 definida por
x
g(x) = (x, + 1)
3

R
1

0 3 x

Figura 1: Um segmento de recta em R2

De facto,
x x
R = {(x, y) ∈ R2 : y = + 1 ; 0 ≤ x ≤ 3} = {(x, + 1) : 0 ≤ x ≤ 3} = {g(x) : 0 ≤ x ≤ 3}.
3 3
Se considerarmos a função contı́nua h : [0, 1] → R2 definida por

h(t) = (1 − t)(0, 1) + t(3, 2) = (3t, 1 + t),

facilmente se verifica que R é também a imagem de h em R2 .


Em Rn , o segmento de recta entre pois pontos quaisquer P e Q, é a imagem da função contı́nua
γ : [0, 1] → Rn definido por
γ(t) = (1 − t)P + tQ.

1.2 Uma parábola


Consideremos o pedaço de parábola P definido pela equação y = x2 com −1 ≤ x ≤ 1 e que
se apresenta na Figura 2.
Seja g : [−1, 1] → R2 a função contı́nua definida por

g(x) = (x, x2 )

Então,

P = {(x, y) ∈ R2 : y = x2 ; −1 ≤ x ≤ 1} = {(x, x2 ) ∈ R2 : −1 ≤ x ≤ 1} = {g(x) : −1 ≤ x ≤ 1}

ou seja, a parábola P é a imagem da função contı́nua g.

1
y

1 0 1 x

Figura 2: Uma parábola em R2

0 R x

Figura 3: Uma circunferência de raio R em R2

1.3 Uma circunferência


Seja C a circunferência de raio R e centro na origem em R2 .
Em coordenadas polares (r, θ) , a circunferência C é definida pela equação r = R.
Consideremos a função contı́nua g : [0, 2π] → R2 definida por

g(θ) = (R cos θ, R sen θ)

A circunferência C é a imagem da função g. De facto,

C = {(x, y) ∈ R2 : x2 + y 2 = R2 } = {(R cos θ, R sen θ) : 0 ≤ θ ≤ 2π} = {g(θ) : 0 ≤ θ ≤ 2π}.

1.4 Uma espiral


Consideremos a função contı́nua g : [0, 4π] → R2 definida por

g(t) = (t cos t, t sen t)

A imagem da função g é a linha ou curva Γ que se representa na Figura 4.

1.5 Uma ciclóide


Consideremos a trajectória Γ descrita por um ponto P sobre uma circunferência de raio R
que roda em torno do seu eixo com velocidade constante v (movimento uniforme) tal como se
representa na Figura 5. A esta linha chamamos ciclóide.
Suponhamos que o ponto P se encontra na origem de R2 no instante inicial t = 0. Seja C =
(α, β) o centro da circunferência. Então, sendo o movimento uniforme, o centro da circunferência

2
y

0 x

Figura 4: Uma espiral em R2

C
θ
P

0 x

Figura 5: Uma ciclóide em R2

move-se de acordo com as equações

α(t) = vt ; β(t) = R

Por outro lado, seja T o intervalo de tempo necessário para uma volta completa e seja ω
o ângulo descrito por unidade de tempo (velocidade angular). Sendo o movimento uniforme,
obtemos
2π = ωT ; 2πR = vT
donde se conclui que
v
ω=
R
Suponhamos também que a circunferência roda no sentido de x > 0. Portanto, em cada
instante t > 0 , a posição do ponto P pode ser determinada pelo ângulo θ formado entre o eixo
−−→
y < 0 e o vector CP , medido no sentido horário, tal como se representa na Figura 5.
Sendo ω a velocidade angular, temos
v
θ(t) = ωt = t
R
Assim, o ponto P = (x, y) move-se de acordo com as equações
v
x(t) = vt − R sen( R t)
(

v
y(t) = R − R cos( R t)

3
Portanto, o ciclóide é a imagem da função contı́nua
 v v 
g(t) = vt − R sen( t), R − cos( t)
R R
em que 0 ≤ t ≤ Tf , sendo Tf o instante final de observação do movimento.

1.6 Uma hélice cilı́ndrica


Consideremos a função contı́nua g : [0, 8π] → R3 definida por

g(t) = (cos t, sen t, t)

x
y

Figura 6: Hélice cilı́ndrica em R3

A imagem desta função é a linha ou curva Γ em R3 que se representa na Figura 6. Note-se


que, sendo cos2 t + sen2 t = 1 , a curva Γ está assente sobre a superfı́cie cilı́ndrica de raio um.

1.7 Uma circunferência


Consideremos a linha Γ em R3 definida pelas equações

x2 + y 2 + z 2 = 1 ; y = 0

ou seja
Γ = {(x, y, z) ∈ R3 : x2 + z 2 = 1}
e, portanto, Γ é a circunferência no plano y = 0 de raio igual a um e centro na origem.
Em coordenadas esféricas, temos

r = 1 ; θ = 0 ; 0 ≤ φ ≤ 2π

Assim, seja g : [0, 2π] → R3 a função contı́nua definida por

g(φ) = (sen φ, 0, cos φ)

Então, a circunferência Γ , apresentada na Figura 7, é a imagem da função g.

***

Em cada um destes exemplos foi considerada uma linha ou curva descrita como sendo a imagem
de uma função contı́nua e definida num intervalo limitado de R.

4
z

1 Γ

x y

Figura 7: Uma circunferência sobre uma esfera em R3

Definição 1 A uma função contı́nua g : [a, b] → Rn chamamos caminho em Rn e à sua imagem


chamamos linha ou curva.

2 Integral de linha de um campo escalar


2.1 Comprimento de uma Linha
Sejam A e B dois pontos em Rn . Designemos por [A, B] o segmento de recta entre os pontos A e
B. É claro que o comprimento de [A, B] é dado pela norma kB − Ak. O segmento de recta [A, B]
pode ser descrito pelo caminho γ : [0, 1] → Rn , definido por

γ(t) = A + t(B − A).

Note-se que, sendo γ ′ (t) = B − A, temos


Z 1 Z 1
kB − Ak = kB − Akdt = kγ ′ (t)kdt
0 0
R1
e, portanto, o comprimento do segmento de recta [A, B] é dado pelo integral 0
kγ ′ (t)kdt.
Seja Γ uma linha descrita pelo caminho γ : [0, 1] → Rn .

Definição 2 Seja φ : S → R um campo escalar, em que S ⊂ Rn é um aberto e consideremos


um caminho g : [a, b] → Rn de classe C 1 e que representa a linha Γ ⊂ S.
Chama-se (c.f. [2]) Integral de Linha do Campo Escalar φ ao longo do caminho g
ao integral
Z Z b
φ= φ(g(t))||g ′ (t)||dt
Γ a

2.2 Aplicações
a) Comprimento de um caminho
Seja φ ≡ 1. Então, o integral de linha de φ
Z Z b
l(Γ) = φ= ||g ′ (t)||dt
Γ a

5
é o comprimento da linha Γ.
b) Massa de um fio
Seja φ : S → R a densidade de massa por unidade de comprimento do material que constitui
um fio descrito por um caminho g : [a, b] → Rn . Então, o integral de linha de φ
Z Z b
φ= φ(g(t))||g ′ (t)||dt = M
Γ a

é a massa M do fio.
c) Centro de massa
Seja α : S → R a densidade de massa por unidade de comprimento do material que constitui
um fio de massa M descrito por um caminho g : [a, b] → Rn e seja
1
φ(x) = xi α ; i = 1, 2, . . . , n
M
O centro de massa é o ponto de coordenadas (x1 , x2 , . . . , xn ) calculadas da forma seguinte
Z b
1
xi = gi (t)α(g(t))||g ′ (t)||dt ; i = 1, 2, . . . , n
M a

d) Momento de inércia
Seja L uma linha recta e designemos por dL (x) a distância do ponto x ∈ Rn à linha L.
O momento de inércia da linha Γ relativo à recta L é o integral de linha da função φ(x) =
α(x)d2L (x) , ou seja,
Z b
IL = α(g(t))d2L (g(t))||g ′ (t)||dt
a

2.3 Exemplos
1. Seja Γ uma circunferência de raio R e centro na origem de R2 , (ver Figura 3) e descrita
pela função
g(t) = (R cos t, R sen t) ; 0 ≤ t ≤ 2π
Então, o comprimento de Γ é dado por
Z Z 2π
l(Γ) = ||g ′ (t)||dt = Rdt = 2πR
Γ 0

2. Seja Γ um fio de um material cuja densidade de massa é dada por


1
α(x, y) = p
1 + x2 + y 2
e tem a configuração de uma espiral descrita pelo caminho (ver Figura 4)
g(t) = (t cos t, t sen t) ; 0 ≤ t ≤ 4π

Então α(g(t))||g ′ (t)|| = 1 e, portanto, a massa de Γ é dada por


Z 4π Z 4π
1 p
M= α(g(t))||g ′ (t)||dt = √ 1 + t2 dt = 4π
1+t 2
0 0

A coordenada y do centro de massa é dada por


Z 4π
1 1 −4π
Z
y= yα(x, y) = t sen tdt = = −1
M Γ 4π 0 4π

6
3. Seja Γ ⊂ R3 um fio de um material com densidade de massa α(x, y, z) = z e cuja confi-
guração é a de uma hélice cilı́ndrica descrita pelo caminho (ver Figura 6)
g(t) = (cos t, sen t, t) ; 0 ≤ t ≤ 4π

Então ||g ′ (t)|| = 2 e o momento de inércia de Γ relativo ao eixo z é dado pelo integral
de linha Z √ Z 4π √
Iz (Γ) = z(x2 + y 2 ) = 2 tdt = 8 2 π 2
Γ 0

***

3 Integral de linha de um campo vectorial

Definição 3 Seja S ⊂ Rn um aberto e F : S → Rn um campo vectorial e consideremos uma


linha Γ ⊂ S representada pelo caminho g : [a, b] → Rn de classe C 1 (caminho regular).
Ao integral
Z Z b
F · dg = F (g(t)) · g ′ (t)dt
Γ a
chamamos integral de linha do campo vectorial F ao longo do caminho g ou, trabalho realizado
pelo campo F ao longo do caminho g (c.f. [2]).

Sendo g de classe C 1 , consideremos a sua derivada


g(t + h) − g(t)
g ′ (t) = lim .
h→0 h
Tal como se ilustra na Figura 8, a derivada g ′ (t) define a direcção da tangente à linha Γ
no ponto P = g(t). Note-se que à medida que h → 0 a secante [P, Q] vai-se transformando na
tangente.

T = g ′ (t)
P = g(t)

Q = g(t + h)

Figura 8: Tangente a uma linha

Portanto, se o campo vectorial F for, em cada ponto P = g(t) ∈ Γ , ortogonal ao vector


tangente g ′ (t) nesse ponto, então o trabalho realizado pelo campo F ao longo do caminho g será
nulo.

7
Teorema 3.1 Teorema Fundamental do Cálculo
Seja S ⊂ Rn um conjunto aberto, φ : S → R um campo escalar de classe C 1 e Γ ⊂ S a linha
definida pelo caminho regular g : [a, b] → Rn com inı́cio no ponto A e fim no ponto B.
Então, Z
∇φ · dg = φ(B) − φ(A)
Γ

De facto, sendo A = g(a) e B = g(b), temos


Z Z b
∇φ · dg = ∇φ(g(t)) · g ′ (t)dt
Γ a
Z b
d
= φ(g(t))dt
a dt
= φ(g(b)) − φ(g(a))
= φ(B) − φ(A)

Definição 4 Dado um campo vectorial F : S → Rn se existir um campo escalar φ : S → R tal


que
F (x) = ∇φ(x)
dizemos que F é um campo gradiente e que φ é o potencial escalar de F .

Consequências:
a) O integral de linha de um campo gradiente não depende do caminho. Depende apenas do
ponto inicial A e do ponto final B.
b) Se a linha Γ for fechada, ou seja, se A = g(a) = g(b) = B e se F = ∇φ , então
Z Z
F · dg = ∇φ · dg = 0
Γ Γ

Seja F um campo gradiente e de classe C 1 . Então, existe um campo escalar φ tal que
∂φ
Fi = ; i = 1, 2, . . . , n
∂xi
e, derivando em ordem a xj , obtemos
∂ ∂φ ∂ ∂φ
Dj Fi = = = Di Fj ; ∀i 6= j
∂xj ∂xi ∂xi ∂xj

Definição 5 Dado um campo vectorial F tal que

Dj Fi = Di Fj ; ∀i 6= j

diz-se que F é um campo fechado.

Assim, ser fechado é condição necessária para que um campo vectorial seja gradiente.

Exemplos:

8
1. Campo gravitacional:
Seja M uma massa pontual e situada na origem de R3 . O campo gravitacional gerado pela
massa M é dado por
(x, y, z) −

r
F (x, y, z) = −GM = −GM −

||(x, y, z)||3 || r ||3

em que −

r = (x, y, z) e G é a constante universal da gravitação.
Facilmente se verifica que o campo gravitacional é um gradiente e o seu potencial é a função
1 1 GM
φ(x, y, z) = GM = GM − = p
||(x, y, z)|| ||→
r || x + y2 + z 2
2

ou seja  
∂φ ∂φ ∂φ
F (x, y, z) = (F1 (x, y, z), F2 (x, y, z), F3 (x, y, z)) = , ,
∂x ∂y ∂z
Note-se que o domı́nio do campo F coincide com o domı́nio do respectivo potencial φ, ou
seja, F = ∇φ em R3 \ {(0, 0, 0)}.
2. Consideremos o campo vectorial F (x, y) = (x, y) definido em R2 . Trata-se de um campo
fechado porque se tem
∂F1 ∂F2
= =0
∂y ∂x
e, portanto, há a possibilidade de que seja um gradiente. Para determinar o respectivo
potencial escalar, caso exista, consideremos as equações

 x = ∂φ ∂x
∂φ
 y = ∂y

Da primeira equação, obtemos


x2
φ(x, y) = + K(y)
2
e da segunda equação
y2
K(y) = +C
2
em que C é uma constante.
Assim, o potencial escalar do campo F é dado por
x2 + y 2
φ(x, y) = +C
2

3. Seja F : R2 \ {(0, 0)} → R2 o campo vectorial definido por


 
x y
F (x, y) = ,
x2 + y 2 x2 + y 2

Facilmente se verifica que F é um campo fechado e que


1
F (x, y) = ∇ log(x2 + y 2 )
2
ou seja, F é um campo gradiente p e o respectivo potencial é o campo escalar φ definido por
φ(x, y) = 12 log(x2 + y 2 ) = log x2 + y 2 .
Tanto F como φ estão definidos no mesmo domı́nio, R2 \ {(0, 0)}.

9
4. Consideremos o campo vectorial F : R2 \ {(0, 0)} → R2 definido por
 
y x
F (x, y) = − 2 ,
x + y 2 x2 + y 2

Facilmente se verifica que F é um campo fechado. Note-se que para x 6= 0 , temos


y ∂ y  x ∂ y 
− = arctan ; = arctan .
x2 + y 2 ∂x x x2 + y 2 ∂y x

No entanto, o campo escalar φ(x, y) = arctan xy está definido no subconjunto de R2 em




que x 6= 0 e, portanto, não coincide com o domı́nio do campo vectorial F que é o conjunto
R2 \ {(0, 0)}. Assim, a função arctan xy não é um potencial escalar do campo F.
Seja Γ uma circunferência de raio R e centro na origem e descrita pelo caminho g : [0, 2π] →
R2 definido por
g(t) = (R cos t, R sen t).

Então
2π  
R sen t R cos t
Z Z
F · dg = − , · (−R sen t, R cos t)dt = 2π
Γ 0 R2 R2

Sendo g um caminho fechado, concluı́mos que o campo F não é um campo gradiente em


R2 \ {(0, 0)}.
Se considerarmos o campo F como estando definido apenas no aberto {(x, y) : x > 0} ,
então F é um gradiente cujo potencial é a função
y
φ(x, y) = arctan .
x

O mesmo se passará para o conjunto {(x, y) : x < 0} ou seja, há subconjuntos de R2 \{(0, 0)}
em que F é um campo gradiente.
Note-se que o conjunto S = {(x, y) : x > 0} é convexo, ou seja, dados dois pontos quaisquer
P e Q em S, o segmento de recta [P, Q] está contido em S. No entanto, o conjunto R2 \{(0, 0)}
não é convexo.
Note-se também que o integral de linha de F ao longo de uma circunferência centrada na
origem não depende do raio.

***

Deste exemplo surgem três questões importantes:


a) Será que o campo F é gradiente nos subconjuntos convexos de R2 \ {(0, 0)}?
b) Será possı́vel caracterizar os subconjuntos de R2 \{(0, 0)} em que F é um campo gradiente?
c) Será que o integral de linha de F ao longo de uma linha qualquer fechada em torno da
origem é igual ao integral de linha de F ao longo de uma circunferência centrada na
origem?

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x
P

Figura 9: Conjunto em estrela

4 Homotopia
Questão:
Dado um campo vectorial F : S → Rn fechado, que condição geométrica sobre S garante que
F é um campo gradiente?
A noção de homotopia surge para responder a esta questão.
Seja S ⊂ Rn um conjunto aberto e convexo. Por definição, é claro que existe um ponto P ∈ S
tal que, para qualquer ponto x ∈ S, o segmento de recta [P, x] está contido em S.
Consideremos a função φ : S → R dada por
Z
φ(x) = F · dg
[P,x]

em que g : [0, 1] → Rn é o caminho dado por

g(t) = (1 − t)P + tx

e que descreve o segmento de recta [P, x].


Assim, teremos Z 1
φ(x) = F ((1 − t)P + tx) · (x − P )dt
0
donde se deduz
 
Z 1 n
∂φ X
=  [tDi Fj ((1 − t)P + tx)(xj − Pj )] + Fi ((1 − t)P + tx) dt
∂xi 0 j=1

e, sendo F um campo fechado, obtemos


Z 1
∂φ d
= (tFi ((1 − t)P + tx)) dt = Fi (x)
∂xi 0 dt

o que quer dizer que


F = ∇φ
Portanto, um campo vectorial fechado F : S → Rn será gradiente desde que S seja um conjunto
convexo.
Note-se que basta que no conjunto S exista um ponto P tal que, para qualquer ponto x ∈ S,
o segmento de recta [P, x] esteja contido em S.

11
Aos conjuntos que verificam esta propriedade chamamos conjuntos em estrela ( ver Figura
9).
Há conjuntos em estrela que não são convexos. Como exemplo, considere-se o conjunto R2 \ L,
em que L é uma semirecta.
Sendo S um conjunto aberto, dado um ponto x ∈ S existe uma bola B(x), centrada em x e
contida em S. Uma bola é um conjunto convexo e, portanto, o campo fechado F será gradiente
em B(x).
Assim, dado um ponto qualquer x ∈ S existe uma vizinhança desse ponto em que o campo
é gradiente. Nestas circunstâncias dizemos que um campo vectorial fechado é localmente
gradiente.

***

Suponhamos que S é um subconjunto convexo de Rn e seja Γ ⊂ S uma linha fechada descrita


pelo caminho α : [0, 1] → Rn . Fixemos um ponto P ∈ S e consideremos todos os segmentos de
recta [P, x] em que x ∈ Γ, tal como se mostra na Figura 10. Sendo S convexo, os segmentos de
recta [P, x] estão em S.
Este conjunto de segmentos de recta pode ser descrito pela função H : [0, 1] × [0, 1] → Rn , de
classe C 2 , definida por

H(s, t) = P + s(α(t) − P ) = (1 − s)P + sα(t).

De facto, fixando t ∈ [0, 1], a aplicação s 7→ H(s, t) é um caminho que descreve o segmento de
recta [P, α(t)].
Por outro lado, fixando s ∈ [0, 1], a aplicação t 7→ H(s, t) é um caminho que descreve uma
linha fechada Γs ⊂ S porque H(s, 0) = H(s, 1). Além disso, H(0, t) = P e H(1, t) = α(t), ou seja,
Γ0 = P e Γ1 = Γ.

x = α(t)

P
Γs

Figura 10: Homotopia ou deformação de uma linha fechada num ponto

Portanto, a função H descreve uma famı́lia de linhas que para s = 0 é o ponto P e para
s = 1 é a linha Γ. Sendo α uma função contı́nua, podemos concluir que, num conjunto convexo, H
descreve uma transformação contı́nua (ou deformação) da linha Γ no ponto P, tal como se ilustra
na Figura 10.
Note-se que se substituirmos P por β(t) em que β : [0, 1] → Rn é um caminho que descreve
uma linha fechada C em S, então a função H : [0, 1] × [0, 1] → Rn , definida por

H(s, t) = (1 − s)β(t) + sα(t)

descreve uma deformação contı́nua do caminho α no caminho β.

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Definição 6 Diz-se que dois caminhos fechados α, β : [0, 1] → Rn são homotópicos se existe
uma função H : [0, 1] × [0, 1] → Rn , contı́nua com as seguintes propriedades:
1. H(0, t) = β(t) ; t ∈ [0, 1]
2. H(1, t) = α(t) ; t ∈ [0, 1]
3. H(s, 0) = H(s, 1) ; s ∈ [0, 1].

Seja F : S → Rn um campo vectorial fechado e sejam α : [0, 1] → Rn e β : [0, 1] → Rn dois


caminhos fechados e homotópicos em S que descrevem, respectivamente, as linhas Γα e Γβ . Como
foi visto acima, o campo F é localmente gradiente. Sejam {Bi } as bolas em que F é gradiente e
tais que [
H([0, 1] × [0, 1]) ⊂ Bi .

Ijk
H(0, t) = β(t) H(1, t) = α(t)

1 s

Figura 11:

Dado que o intervalo I = [0, 1] × [0, 1] é compacto, podemos dividi-lo em subintervalos {Ijk }
tais que, para cada par de ı́ndices j, k, existe uma bola Bi verificando a propriedade

H(Ijk ) ⊂ Bi .

Sendo ∂Ijk a fronteira do subintervalo Ijk , então H(∂Ijk ) é uma linha fechada em Bi . Como
F é fechado em Bi , teremos Z
F =0
∂Ijk

Portanto,
XZ Z Z
0= F = F · dα − F · dβ,
j,k ∂Ijk Γα Γβ

ou seja, Z Z
F · dα = F · dβ.
Γα Γβ

Note-se que os segmentos de recta da fronteira de cada subintervalo Ijk contribuem duas vezes,
em sentidos opostos, para a soma anterior tal como se ilustra na Figura 11.
Podemos concluir então que o integral de linha de um campo vectorial fechado é invariante
para caminhos homotópicos.

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Em particular, o integral de linha de um campo vectorial fechado é nulo ao longo de um
caminho fechado e homotópico a um caminho constante.
Portanto, dado um campo vectorial fechado, é importante saber se no respectivo domı́nio as
linhas fechadas são homotópicas a um ponto.

Definição 7 Diz-se que um conjunto aberto S ⊂ Rn é simplesmente conexo se qualquer linha


fechada Γ ⊂ S pode ser transformada continuamente num ponto P ∈ S, ou seja, se existe uma
função H : [0, 1] × [0, 1] → Rn contı́nua, com as seguintes propriedades,
1. H(0, t) = P ; t ∈ [0, 1]
2. H(1, t) = α(t) ; t ∈ [0, 1]
3. H(s, 0) = H(s, 1) ; s ∈ [0, 1],
em que α : [0, 1] → Rn é um caminho que descreve a linha Γ. Nestas circunstâncias, diz-se que a
linha Γ é homotópica a um ponto.

Exemplos:
1. Qualquer conjunto S ⊂ Rn convexo é simplesmente conexo. De facto, considere-se a função
H : [0, 1] × [0, 1] → Rn definida por

H(s, t) = P + s(α(t) − P ).

Esta função estabelece a homotopia (deformação contı́nua) entre uma linha qualquer fechada
Γ ⊂ S, descrita pelo caminho α : [0, 1] → Rn , e um ponto qualquer P fixo em S.
2. Qualquer conjunto em estrela é simplesmente conexo. Dado que num conjunto S ⊂ Rn em
estrela existe um ponto P tal que o segmento de recta [P, Q] se encontra em S para qualquer
ponto Q ∈ S, a homotopia pode ser definida do mesmo modo do exemplo anterior.
3. O conjunto R2 \ {(0, 0)} não é simplesmente conexo. Dada uma linha fechada em torno da
origem não é possı́vel deformá-la num ponto. No entanto, qualquer linha Γ fechada em torno
da origem é homotópica à circunferência centrada na origem e raio igual a um. De facto,
seja γ : [0, 1] → R2 o caminho que descreve a linha Γ. É claro que a função α : [0, 1] → R2
definida por
γ(t)
α(t) =
kγ(t)k
é um caminho que descreve a circunferência centrada na origem e raio igual a um. Assim, a
função
H(s, t) = α(t) + s(γ(t) − α(t))
estabelece a referida homotopia.
4. O conjunto R3 \ L, em que L é uma semirecta, é um conjunto em estrela e, portanto, é
simplesmente conexo.
5. O conjunto R3 \ L, em que L é uma recta, não é simplesmente conexo. Não é possı́vel
deformar continuamente uma circunferência, centrada na recta L e situada sobre um plano
perpendicular a L, num ponto de R3 \ L.
6. O conjunto R3 \ {(0, 0, 0)}, não é em estrela mas é simplesmente conexo. Qualquer linha
fechada neste conjunto pode ser continuamente deformada num ponto qualquer distinto da
origem.

14
Assim, num conjunto simplesmente conexo o integral de linha de um campo vectorial fechado
ao longo de uma linha fechada é nulo.

***

Sejam P e Q dois pontos em S e suponhamos que o integral de linha de um campo vectorial


contı́nuo ao longo de qualquer linha fechada é nulo. Então o integral de linha desse campo é
independente da linha que une os dois pontos P e Q.
Fixemos um ponto P em S e seja φ : S → Rn o campo escalar definido por
Z
φ(x) = F
Γ

em que Γ é uma linha em S que une o ponto P ao ponto x ∈ S. Este campo está bem definido
porque o integral de linha de F é independente da linha que une os pontos P e x.

x x + hek

Figura 12:

De seguida veremos que o campo φ é um potencial escalar de F, ou seja,


∂φ
= Fk ; k = 1, 2, . . . , n.
∂xk
Consideremos o segmento de recta [x, x + hek ] ⊂ S, em que ek é o vector unitário de Rn com
todas as componentes nulas excepto a k-ésima que é igual a um, tal como se ilustra na Figura 12.
Dado que
∂φ φ(x + hek ) − φ(x)
(x) = lim ,
∂xk h→0 h
e sendo o integral de linha de F independente do caminho percorrido, temos
∂φ φ(x + hek ) − φ(x)
(x) = lim
∂xk h→0 h
1
Z
= lim F
h→0 h [x,x+he ]
k

1 h
Z
= lim F (x + tek ) · ek dt
h→0 h 0

1 h
Z
= lim Fk (x + tek ) dt
h→0 h 0

= Fk (x).

15
Portanto, se o integral de linha de um campo vectorial contı́nuo é independente do caminho
percorrido, então esse campo é um gradiente.
Assim, podemos enunciar o seguinte teorema (c.f. [1]).

Teorema 4.1 Seja S ⊂ Rn um conjunto simplesmente conexo e F : S → Rn um campo vectorial


de classe C 1 .
Então o campo F é um gradiente sse F for um campo fechado.

***

Exemplos:
 
y x
1. Consideremos o campo F (x, y) = − x2 +y 2 , x2 +y 2 . Já sabemos que F é fechado no seu
2
domı́nio R \ {(0, 0)}. Para além disso, o integral de linha de F ao longo de qualquer circun-
ferência centrada na origem e percorrida uma vez no sentido positivo tem o valor 2π.

Γ
C

Figura 13:

Seja Γ uma linha fechada em torno da origem e descrita por um caminho α, tal como se
ilustra na Figura 13. É claro que Γ é homotópica à circunferência C, centrada na origem,
percorrida no mesmo sentido de Γ e descrita por um caminho g. Portanto, temos
Z Z
F · dα = F · dg = 2π.
Γ C

Se a origem não se encontrar no conjunto limitado pela linha Γ, tal como se mostra na Figura
14, então a linha Γ será homotópica a um ponto e, portanto, o integral de linha de F em Γ
será nulo.
Portanto, o integral de linha de F ao longo de uma linha fechada e percorrida uma vez no
sentido positivo só pode tomar os valores 0 e 2π.

16
y

0 x

Figura 14:

2. Consideremos o campo
 
z x
F (x, y, z) = − 2 2
, y, 2 .
x +z x + z2

O domı́nio de F é o conjunto S = R3 \ {(0, y, 0) : y ∈ R} e facilmente se verifica que F é um


campo fechado. Embora S não seja um conjunto simplesmente conexo, as possı́veis linhas
fechadas, Γ ⊂ S, serão de dois tipos: ou serão homotópicas a um ponto ou serão homotópicas
à circunferência C definida por
C = {(x, y, z) ∈ R3 : x2 + z 2 = 1 ; y = 0}.

Na figura 15 ilustra-se o caso de uma linha homotópica à circunferência C.

C Γ

y
x

Figura 15:

No primeiro caso o integral de linha de F será nulo. No segundo caso, suponhamos que Γ é
homotópica à circunferência C percorrida uma vez no sentido positivo quando vista de um
ponto da forma (0, y, 0) com y > 0, tal como se ilustra na figura 15. Então,
Z Z
F · dγ = F · dg,
Γ C

17
em que g : [0, 2π] → R3 é o caminho que descreve C, ou seja,

g(t) = (sen t, 0, cos t).

Portanto, teremos
Z Z
F · dγ = F · dg
Γ C
Z 2π
= (− cos t, 0, sen t) · (cos t, 0, − sen t) dt
0
= −2π

3. Consideremos o campo vectorial


 
y x−1
F (x, y, z) = − , , z .
(x − 1)2 + 4y 2 (x − 1)2 + 4y 2

e o caminho fechado que descreve a linha quadrada no plano z = 1 que une os pontos
(0, −1, 1), (2, −1, 1), (2, 1, 1), (0, 1, 1) e percorrida por esta ordem. Seja C esta linha.
Note-se que o domı́nio de F é o conjunto R3 \ {(x, y, z) ∈ R3 : x = 1 ; y = 0}.
Consideremos também a elipse Γ, definida por (x − 1)2 + 4y 2 = 1 ; z = 0, percorrida no
sentido anti-horário quando observada do ponto (1, 0, 5).
Seja γ : [0, 2π] → R3 , o caminho definido por
 
sen t
γ(t) = 1 + cos t, ,0 ,
2

e que descreve a elipse Γ.


Usando a definição para integrais de linha de campos vectoriais temos
Z Z 2π
F · dγ = F (γ(t)) · γ ′ (t) dt =
Γ 0
Z 2π    
sen t cos t
= − , cos t, 0 · − sen t, , 0 dt = π.
0 2 2

1
Γ y

Figura 16:

18
É fácil ver que o campo F é fechado. Dado que o quadrado C e a elipse Γ são linhas fechadas
e homotópicas no domı́nio deste campo, tal como se ilustra na figura 16, podemos concluir
que Z Z
F · dg = F · dγ = π,
C Γ
em que g é um caminho que descreve C.
Note-se que é fácil calcular, pela definição, o integral de linha do campo F ao longo da elipse
Γ. O mesmo não acontece para a linha C.

***

Nota: Suponhamos que a função H : [0, 1] × [0, 1] → Rn , que estabelece a homotopia entre dois
caminhos fechados é de classe C 2 . Neste caso é fácil verificar que o integral de linha de um campo
vectorial fechado é invariante sobre linhas homotópicas.
Seja Γs a linha descrita pelo caminho gs (t) = H(s, t). Então, temos
Z Z 1 Z 1
d d d ∂H
F = F (gs (t)) · gs′ (t)dt = F (H(s, t)) · (s, t)dt
ds Γs ds 0 ds 0 ∂t
Z 1 n
!
d X ∂Hk
= Fk (H(s, t)) (s, t) dt
0 ds k=1
∂t
 
Z 1 X n X n n 2
∂Fk ∂Hj ∂Hk X ∂ Hk
=  (H(s, t)) (s, t) (s, t) + Fk (H(s, t)) (s, t) dt
0 ∂x j ∂s ∂t ∂s∂t
k=1 j=1 k=1
 
Z 1 X n X n n 2
∂Fj ∂Hj ∂Hk X ∂ Hk
=  (H(s, t)) (s, t) (s, t) + Fk (H(s, t)) (s, t) dt
0 j=1
∂x k ∂s ∂t ∂s∂t
k=1 k=1

porque F é fechado.
É fácil verificar que
n n n n
d X ∂Hj X X ∂Fj ∂Hj ∂Hk X ∂ 2 Hk
Fj (H(s, t)) (s, t) = (H(s, t)) (s, t) (s, t)+ Fk (H(s, t)) (s, t)
dt j=1 ∂s j=1
∂xk ∂s ∂t ∂s∂t
k=1 k=1

e, portanto,
 
Z Z 1 n
d d
X ∂Hj
F = Fj (H(s, t)) (s, t) dt
ds Γs 0 dt j=1 ∂s
n n
X ∂Hj X ∂Hj
= Fj (H(s, 1)) (s, 1) − Fj (H(s, 0)) (s, 0)
j=1
∂s j=1
∂s
= 0
porque H(s, 0) = H(s,
Z 1).
Assim, a função F não depende de s, ou seja o integral de linha de F é invariante sobre
Γs
linhas homotópicas.

Referências
[1] M. P. Do Carmo. Differential Geometry of Curves and Surfaces. Prentice Hall, 1976.
[2] Luı́s T. Magalhães. Integrais em Variedades e Aplicações. Texto Editora, 1993.

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