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Os rockeiros de Goiânia: tensões e disputas na formação da identidade local

Aline Fernandes Carrijo1

Procura-se aqui realizar uma comunicação em relação às disputas presentes no processo de


formação da identidade goiana. Conhecida e estereotipada em cenário nacional como
produtora de música sertaneja, Goiânia vem se afirmando como um novo pólo de rock no
país. Já é palco de um dos mais importantes festivais de rock independente do Brasil,
o Goiânia Noise, além de vários outros festivais, bares, casas noturnas, selos e produtoras
musicais especializadas no gênero. Diante disso, percebe-se uma dualidade ou até mesmo
uma contradição dentro da cultura goiana e na formação de suas identidades, o que pode ter
influenciado a afirmação do rock na cidade. Assim, a pesquisa pretende analisar as tensões e
disputas presentes no processo de formação da identidade goiana através das experiências e
dos discursos políticos dos participantes do movimento de rock na capital, principalmente, na
década de 1990.

Palavras-chaves: Identidade – Goiânia - Rock.

Goiânia vem se afirmando como um novo pólo de rock no país, principalmente, após a
segunda metade da década de 1990. Já é palco de um dos maiores e mais importante festivais
de rock independente do Brasil, o Goiânia Noise, que surgiu em 1995, além de dois outros
festivais que atendem mais a comunidade de rock local: o Bananada e o Vaca Amarela. Há
ainda a criação da Rádio Feminina 10, especializada no gênero rock’n’roll, a proliferação de
vários bares e casas noturnas voltada ao estilo musical e uma crescente representatividade de
bandas de rock goianas em cenário nacional. Sem falar na criação de grandes estúdios, selos e
produtores de eventos focados em rock na cidade, dentre eles: Monstros Discos, Two Bear e
Not to Bears, Fósforo Cultural e o Rocklab.
O desenvolvimento desta cena parece, a princípio, improvável em um local como
Goiás, conhecido como um estado rural, agrícola e sertanejo. Isso fica claro em manifestações
de figuras públicas importantes, como Roberto Carlos, que denominou a capital goiana como
uma “roça asfaltada” – nesse caso, em sentido positivo, de lugar onde todos se conhecem 2.
Essa imagem de “ruralidade” é alimentada pela economia do Estado, baseada na
agropecuária, e também pelo estilo de música mais conhecido da cultura local: o sertanejo,
representado, em especial, por famosas duplas goianas, como Leandro e Leonardo, Zezé de

1
Mestranda do Programa de Pós-Graduação em História Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
2
Reportagem “A conquista do Oeste”. In: Revista Tam, ano 2, n. 20, Agosto de 2009, p. 86 a 93.
2

Camargo e Luciano e Bruno e Marrone. Além disso, essa representação do sertanejo aparece
com força na mídia local e nas políticas públicas.
Observa-se, então, que essa mistura acaba criando uma espécie de tensão nas
representações locais da identidade goiana. Ao que se parece, o início da formação da cena
não havia um grupo de pessoas com intenções claras de ação. Isso parece ter se formado ao
longo do próprio andamento do movimento, através, também, de imprevistos, dúvidas e
indecisões. De qualquer forma, desde o momento de maior afirmação do movimento –
considerado, neste trabalho, a realização do primeiro Goiânia Noise Festival, em 1995 – já
havia um discurso de contestação por parte dos integrantes desta cena. Na reportagem do
Jornal O Popular, do dia 4 de maio de 1995, sobre o 1º Goiânia Noise Festival, este discurso
é mencionado. O seguinte trecho fecha a reportagem intitulada “Festival do Barulho na
Praça”:

Querem mostrar que Goiânia não é só a terra natal de ‘Leandros e Leonardos’ e


que de uns cinco anos para cá muita coisa tem acontecido, principalmente, no
rock’n roll. ‘Vamos mostrar para um público mais amplo o que está acontecendo
nos subterrâneos da terra do pequi’. E aproveitam para lançar uma espécie de
desavio: ‘Quem vier (e vier), verá’.

Portanto, há uma contestação explícita sobre a representação que se tem de Goiás, por
parte deste movimento. Por outro lado, neste mesmo ano, o então prefeito da cidade lança um
projeto que intitularia Goiânia como a capital country do Brasil, mas a população não aceita a
caracterização, o que gera bastante polêmica. Assim, percebe-se que o movimento de rock na
capital goiana surgiu também como uma negação e contestação a algo que é extremamente
forte na cultura local, no caso, o sertanejo.
Desta forma, compreende-se o movimento de rock independente em Goiânia como
palco de tensões em que se configuram certos conflitos relacionados ao que se quer apresentar
como identidade goiana – elemento constitutivo de um processo histórico marcado por
indefinições e disputas. Como já mencionado, num primeiro momento, Goiânia aparece como
um lugar improvável para o desenvolvimento de um movimento como este, devido às suas
características próprias. Primeiramente, devido à história do Estado de Goiás, ligada à
ruralidade, sendo identificada, na maioria das vezes, por este tipo de referencial.
Em pesquisa sobre patrimônio cultural em Goiânia, Clarinda Silva e Cristiane Mancini
falam que o aspecto agrário do estado de Goiás, que se estende à capital, passa por um
enfoque na cultura sertaneja – representações presentes na mídia sobre a capital e seu estado.
De acordo com o estudo, Goiânia possui vários rótulos, que, de forma geral, são ligados a
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esses aspectos: como rural, interiorana, country, terra de migrantes, “cidade das praças, das
flores, ecologicamente correta”:

No caso de Goiânia o sertão também se reveste de potencial identitário. A imagem


do sertão se contrapõe com a concepção de modernidade e civilização que surge
com a nova capital de Goiás. Mas, também, é retratada, principalmente, na música
sertaneja como uma característica marcante da identidade goiana. O paradoxo
entre litoral e interior; cidade e sertão publicado pela Revista Oeste em 1942,
época do batismo cultural de Goiânia, evidencia o papel da paisagem nos dilemas
da construção da identidade goiana. (SILVA, 2007: 12)

Da mesma forma, o geógrafo Eguimar Felício Chaveiro (2007, P.27), em seu livro
“Goiânia, travessias sociais e paisagens cindidas”, também apresenta esses rótulos nos quais
Goiânia é enquadrada como “capital do cerrado”, “capital do sertão”, “capital country”,
“capital da música urbaneja”, “capital do pequi”. Ou seja, Goiânia e Goiás carregam consigo
essas características, ao menos, no campo da idéia.
Fazendo um balanço historiográfico em relação aos estudos sobre a cultura e política
goiana, aparecem muitas referências relativas à tradição e ao moderno convivendo
concomitantemente no Estado e, provavelmente, gerando essas contradições. As construções
das identidades contemporâneas, da mesma forma, são realizadas nessa ambiência tensa,
contraditória e híbrida. Haesbaert fala sobre a construção da identidade cultural no mundo
contemporâneo, mostrando sua fragmentação e ligação com o mercado:

Se no passado podíamos estabelecer identidades mais estáveis e buscávamos


referenciais com uma base territorial mais concreta em nossos processos de
identificação social, acreditando até mesmo numa coerência obrigatória entre
coesão territorial e identidade cultural, neste final de século o que parece dominar
é a fragmentação identitária, tanto pela atomização individualista quanto pela
“identificação desidentificadora” da mercantilização, onde todo objeto seduz pelo
seu valor de mercado. (Haesbaert,1999: 186)

Portanto, o próprio processo de construção da identidade no mundo de hoje, aliado à


idéia e “vontade de modernidade” parecem estar imbricados nessa complexidade. Goiânia
aparece como mais um exemplo desse desejo pelo moderno. Capital planejada, foi fundada
em 1933 e surgiu, principalmente, em função de discursos e práticas modernistas, presentes
não só em Goiás, mas em grande parte do Brasil no início do Século XX. Nesse momento,
almejava-se o progresso e a modernidade, embasada no discurso médico-científico. Imbuída
do pensamento político da época, a nova capital foi construída, dentre outros objetivos, para
representar um marco entre o estado do sertão, incivilizado, versus o Estado que se queria ter,
desenvolvido, rumo ao progresso:
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Goiânia, muito mais do que uma nova cidade, representava um local onde as
relações capitalistas se processavam no bojo da acumulação em Goiás. (...) O
estado de Goiás, na época, era essencialmente agrário, com uma população quase
que totalmente rural dedicada à agropecuária. Desta forma, podemos notar a
expansão capitalista cada vez mais ativa com a construção de Goiânia,
demonstrando a transição onde o rural e o urbano se mesclavam. (CHAUL, 1998ª:
110-111)

Apesar de a construção de Goiânia3 ter representado a idéia de “rumo a um estado


capitalista/ moderno”, as mudanças culturais e estruturais começaram a acontecer,
principalmente, a partir da década de 1970 – mesmo assim, é importante frisar que Goiás teve
um processo de urbanização ocorrido sem a industrialização correspondente, que vem
tardiamente.
Heliane da Costa Braga (2006), estudiosa da área da Geografia, analisa o território
goiano a partir de suas dimensões materiais e simbólicas, aprofundando a discussão em
relação à tradição e modernidade goianas. A partir do momento citado (1970), esses dois
elementos passam a coexistir e conflitar durante as décadas seguintes ao processo de
modernização, que se iniciou no campo. Para a autora, a “ordem social do espaço goiano”, no
sentido utilizado por Badie, como materialização das “relações e ações praticadas por e entre
indivíduos e grupos num determinado território”, está relacionada às estruturas produtivas que
compunham sua realidade material antes e depois do advento da modernidade:

Até a modernização-urbanização de Goiás, pode-se pensar numa identificação da


sociedade goiana com seu espaço de vida pautada pelos referenciais comuns e
pelos símbolos que dão sentido à existência daquela sociedade. Citam-se as
relações de proximidade com a natureza, o conhecimento da terra, o trabalho
desenvolvido com técnicas rudimentares, a contagem cíclica do tempo, a
linguagem, as vestimentas, a camaradagem e a confiança. Esse modo comum de
compartilhar a vida (...) permeava as relações entre fazendeiros e agregados
inexistindo uma distinção clara entre ambos. (BRAGA, 2006: 6)

Sobre isso, Chaveiro (2005) diz que havia um universo conhecido composto pelas
paisagens construídas, pelos objetos e pelas próprias relações pessoais, que constituíam
elementos identitários. Cita como exemplo a arquitetura das casas de fazenda, os carros de
boi, as rodas de fiar, a enxada, as relações de compadrio e até mesmo a moral machista. Braga
mostra que as mudanças estruturais do estado foram resultado de políticas econômicas e

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A construção da nova capital veio quase que em paralelo com a conhecida Marcha para o Oeste, durante o
Governo Getúlio Vargas, quando se iniciam políticas nacionais que pretendem integrar os chamados estados
“periféricos”, como Goiás, ao resto da nação. Portanto, é a partir disso, que o Estado goiano “atrela-se” à história
nacional, pois o movimento objetivava, exatamente, a integração do Estado à economia nacional. E foi também
isso que deu as bases para a modernização do território goiano (BRAGA, 2006).
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serviram de base para a modernização do território. “A agricultura passa a ser desenvolvida


nos moldes capitalistas e, a partir daí , cria-se uma migração rural-urbana que orienta a
urbanização do estado”. Os efeitos dessa modernização teriam sido sentidos, principalmente,
a partir de 19704. A territorialidade goiana passa a ser comandada por signos urbanos, como
produtos industriais, arquitetura moderna e a presença de mídias. Dessa forma, alteram-se os
valores, as paisagens e as representações dos sujeitos, logo, alteram-se as “formas de conceber
e viver o mundo”.
No entanto, é preciso ir além da categoria de tradicional e moderno. Néstor Canclini,
em seu livro Culturas Híbridas e através dessa denominação, discute a complexidade das
culturas urbanas e defende que alguns pares opostos de categoria convencionais (como
tradicional e moderno) são subalternos e hegemônicos e não dão conta de compreender o
nível de hibridação ao qual as culturas atuais alcançaram e, portanto, “requerem outros
instrumentos conceituais” (CANCLINI, P. 283). Assim, é também necessário ir para além
dessas denominações, a fim de possibilitar o encontro de novos elementos para o
entendimento de certas conjunturas.
Partindo-se desse direcionamento de pesquisa, a idéia é analisar a cena cultural em
Goiânia na década de 1990, tentando descrever a relação entre a cena de rock na capital e o
complexo campo cultural do qual ela faz parte. Ou seja, como, no interior de uma
configuração histórica específica, funcionam as estratégias e ações de agentes culturais – no
caso, os rockeiros de Goiânia – para afirmação de uma nova representação e para ganhar
espaço físico e simbólico na cidade. Através das trajetórias de alguns participantes da cena, e
de como se apresentava este cenário nos principais jornais da cidade, pretende-se
compreender essa configuração histórica.
Nesta busca, também está inserida a relação do movimento com os órgãos políticos e
com as políticas culturais, ou seja, a relação do campo de produção no qual se configura a
cena independente de rock goiana com um campo de produção cultural mais amplo. Como
mostra Rubens Benevides (2008), a cena de rock em Goiânia se constitui enquanto campo
próprio, relativamente autônomo. No entanto, para se estabelecer, precisa jogar o jogo, ou
seja, estar em contato com um campo maior de produção cultural. A última edição do Festival

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Goiás tinha população majoritária no campo até 1970, mas houve uma movimentação em direção as cidades
antes disso. Várias famílias percorreram o caminho em direção a cidade a partir da década de 1960. Dados do
censo demográfico do IBGE mostram que 69,2% dos goianos, de um total de 1.917.460, viviam na zona rural
em 1960. Ou seja, apenas pouco mais de 30% estava na cidade. Dez anos depois, essa imagem mudou bastante.
A migração fez com que a população da zona urbana subisse para 42,5%, mas agora de um total de 2.899.266
goianos. “O restante ainda continuava no campo, mas não por muito tempo. A virada ocorreu em meados da
década de 1970”. (CUNHA, P.10)
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Goiânia Noise, 2008, por exemplo, teve patrocínio da Novo Mundo (via Lei Goyazes – lei de
cultura do Estado de Goiás) e apoio da Agepel, Prefeitura de Goiânia, Lei Municipal de
Incentivo à Cultura. E, na medida em que a cultura está diretamente ligada à hegemonia e
incentivos culturais, isso deve ser levado em consideração.
Desta forma, atenta-se para a necessidade de um levantamento mais sistemático sobre
a relação do movimento com essas políticas culturais. Para tanto, a análise dos discursos
políticos dos participantes da cena torna-se de extrema importância, já que mostra a forma
como se quer apresentar o movimento a um público maior.
Em uma primeira seleção, foram utilizadas matérias do site independente OverMundo,
que, afim de “promover a diversidade cultural brasileira”, produz textos e conteúdos dos
próprios leitores, se caracterizando como um site colaborativo. Nos textos escritos por pessoas
de Goiânia, há menções claras e diretas sobre a intenção de se mostrar ao Brasil outra faceta
de Goiás, colocando a produção musical alternativa do Estado em circuito nacional. Em um
dos textos sobre o lançamento do Guia Goiânia Rock City – “um mapa contendo informações
sobre os principais lugares ligados ao rock em Goiânia” – escrito por uma das produtoras do
guia, Geórgia Cynara (ou, ao menos, postado por ela no site), é assim mencionado:

A Mitocôndria decidiu encarar o desafio e realizar esse mapeamento em razão da


atual efervescência cultural alternativa observada em nossa capital. “Entendemos o
rock não apenas como sendo um estilo musical, mas como uma vertente cultural
marcada pela criatividade e pela ruptura com o tradicional; um movimento intenso
e caótico em sua complexidade, responsável pela criação de novos estilos de
pensar, se vestir, se divertir, se alimentar”, reflete Geórgia Cynara. “Queremos
mostrar à nossa cidade, nosso estado e aos demais estados brasileiros a cadeia
produtiva que envolve esse processo cultural em Goiânia – cadeia esta formada
tanto por iniciativas já consagradas quanto por aquelas que caminham em busca da
profissionalização”, completa. (CYNARA, Geórgia, 2006)

Lendo este trecho da matéria, fica explícita a vontade de se mostrar a “cadeia


produtiva” que o rock move na capital, não apenas para o resto do Brasil, mas para a própria
capital goiana e para o resto do Estado. Ou seja, para os agentes da cena, um dos problemas
parece ser o desconhecimento do movimento de rock não só fora do Estado, mas, (talvez)
principalmente, dentro dele e na própria capital. Possivelmente, isso ocorre devido à falta de
exposições e referências dos acontecimentos da cena na mídia local.
Em outro artigo, escrito por Fabrício Nobre, um dos donos da Monstro Discos – que
está entre os principais selos independentes do país – fala-se sobre a condição periférica de
Goiás e sobre a política de valorização das bandas locais:
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O grande objetivo dos festivais MONSTRO sempre foi tentar estabelecer um


diálogo honesto e eqüitativo entre a produção musical goiana e aquela que ocorre
entre outros Estados. Goiás é periferia? Sim, mas não no rock! No rock, Goiás fala
de igual pra igual com qualquer região do Brasil e, muito provavelmente, do
mundo. Chegou então o momento de tentarmos consolidar esta situação, que nos é
favorável. E a idéia é que, a partir de agora, o BANANADA seja o festival de
priorização desse bicho maluco e irreverente chamado rock goiano.(...) A idéia de
priorizar o rock goiano é uma política que já vinha sendo implementada pela
MONSTRO. Na verdade, o que queremos agora é dar uma sistematizada nisso,
para que a imagem do rock produzido por aqui acabe se fixando nas cabeças do
resto do País. (NOBRE, Fabrício, 2006)

É interessante notar neste artigo a estratégia de enaltecimento do movimento, ao


colocá-lo diante de uma realidade desvalorizada: no caso, a condição periférica do Estado. Ou
seja, o rock de Goiás se sobressai e consegue dialogar “de igual pra igual com qualquer região
do Brasil”, o que não ocorre em outras áreas de atuação do Estado, mantendo-o na condição
de excluído. O caráter político desta afirmação é inegável, já que postula que o responsável
por levar mais longe e em melhor forma o nome do Estado é o movimento de rock da capital.
Em seguida, Nobre afirma como, através do festival, será possível “consolidar esta situação”,
mostrando o papel ativo da Monstro para a afirmação do rock em Goiânia.
Ainda em outro texto deste mesmo site, escrito por Túlio Moreira sobre o 13º Goiânia
Noise, a referência aos estereótipos do Estado é clara, assim como o elogio por não vangloriar
as famosas duplas sertanejas da capital:

Essa idéia de “cidade agroboy” ainda existe, mas Goiânia é cada vez mais ponto de
encontro de seguidores do Punk, Hard Rock, Metal, Gothic Rock, Alternativo, Folk,
Britpop, Indie Rock... Além de De Volta ao Samba, da elogiada Nova MPB goiana,
com Ton Só e a Parafernália, Milla Marques, Rodolfo Vieira, Larissa Moura,
Débora di Sá e TomChris.
O GNF busca essa indefinição de barulhos, com Woolloongabbas se apresentando
no mesmo evento que a gaúcha Pata de Elefante e os portugueses do The Legendary
Tiger Man. O cartão vermelho para Bruno e Marrone e Zezé di Camargo nesse
jogo é o grande troféu para o público goianiense. Como diz o jornalista e roqueiro
Pablo Kossa, em terra de cowboy quem toca guitarra é doido (MOREIRA, Túlio,
2007).

Neste texto, está disposta de forma explícita a contestação em relação à imagem da


capital como “cidade agroboy”, ou produtora apenas de grandes duplas sertanejas. Aparece,
portanto, esta luta de representação, que caracteriza o movimento de rock local, mostrando
suas especificidades.
Não se pode deixar de mencionar, no entanto, que, com o advento da sociedade
moderna e da dita globalização, o acesso a qualquer tipo de bem cultural se tornou muito mais
fácil. Nesse sentido, as identidades culturais se tornam muito mais flexíveis, híbridas e
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independentes do território físico. Stuar Hall, em seu livro Identidade Cultural na Pós-
modernidade, diz que há uma crise de identidade que faz parte de um processo de mudanças
bem mais amplo, que desloca “estruturas e processos centrais da sociedade moderna” e acaba
por abalar “os quadros de referência que davam aos indivíduos uma ancoragem estável no
mundo social”. (HALL, P. 7) Dessa forma, as identidades modernas estão sendo
“descentradas”, deslocadas ou fragmentadas:

O sujeito, previamente vivido como tendo uma identidade unificada e estável, está
se tornando fragmentado, composto não de uma única, mas de várias identidades,
algumas vezes contraditórias e não-resolvidas. [...] O próprio processo de
identificação, através do qual nos projetamos em nossas identidades culturais,
tornou-se mais provisório, variável e problemático. (HALL, P.12)

Entende-se, portanto, que a formação da identidade goiana está também relacionada a


essa característica do mundo moderno: instável e “provisório”, assim como o próprio
movimento de rock. Assim, a cena em Goiânia, para além de suas especificidades e
contestações, também possui características em comum com o movimento de rock nacional e
internacional.
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