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Capítulo 7 SISTEMAS POLIFÁSICOS EQUILIBRADOS

Tensões polifásicas são geradas do mesmo modo que tensões


monofásicas. Um sistema polifásico é simplesmente um conjunto
de vários sistemas monofásicos interconectados e defasados entre
si de modo a resultar em sistemas polifásicos. Em geral, o
deslocamento elétrico entre fases de um sistema n-fásico
equilibrado é 360o/n graus elétricos. Sistemas trifásicos são os
mais comuns, embora para certas aplicações especiais seja usado
um maior número de fases.

7.1. Gerador Trifásico

Um típico gerador trifásico de dois pólos é ilustrado na Figura 7.1, o


qual consiste de um rotor, parte girante, com um enrolamento de
campo alimentado por uma fonte cc. A corrente contínua da fonte
cc é transferida à bobina de campo através de escovas e de anéis
coletores. A parte fixa do gerador é denominada de estator. Três
enrolamentos são posicionados espacialmente no estator de forma
simétrica, defasados de 120º entre si. Cada enrolamento do estator
constitui uma das fases do gerador. O rotor gira por ação de uma
máquina motriz primária, e a variação relativa do fluxo magnético
da bobina de campo como vista pelas bobinas de estator induz um
conjunto de três tensões nos enrolamentos do estator.

Figura 7.1: Gerador trifásico de dois pólos.

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6-2

7.2. Motor Trifásico

O tipo mais comum de motor ca é o motor de indução trifásico.


Basicamente consiste de um estator com enrolamentos de estator
e um rotor cilíndrico com barras metálicas curto-circuitadas
assumindo o formato de uma ‘gaiola de esquilo’, como ilustrado na
Figura 7.2. Quando tensões trifásicas são aplicadas aos
enrolamentos do estator, é estabelecido um campo magnético
girante. À medida que o campo magnético gira, são induzidas
correntes nas barras metálicas da gaiola de esquilo do rotor. A
interação das correntes induzidas e o campo magnético produzem
forças que levam o rotor a girar.

Figura 7.2: Motor de indução trifásico.

7.3. Sistemas Trifásicos

A característica principal de um circuito trifásico equilibrado é o fato


de que a fonte produz uma tensão trifásica equilibrada. Um
conjunto de tensões trifásicas equilibradas é constituído por três
tensões senoidais de mesma freqüência e amplitude, defasadas
entre si de 120º. As três fases são genericamente denominadas de
a, b e c; a fase ´a´ é tomada como referência.

Existem duas formas de ligar os enrolamentos de um gerador


trifásico; estas configurações, denominadas Y e Δ, são mostradas
na Figura 7.3, na qual os enrolamentos do gerador estão
representados por fontes de tensão independentes.

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a a
+
~ Va _ +
_ Vca Vab
~ ~
n
_ _ Vb Vbc _
Vc +
~ ~ _
b ~ + b
+ +
c c
(a) (b)
Figura 7.3: Conexões típicas de um gerador trifásico (a) ligação tipo Y
(b) ligação tipo Δ.

O terminal comum da ligação em Y é denominado de neutro do


gerador e é representado por n. O terminal neutro pode estar ou
não disponível para conexões externas; quando disponível, a
ligação é dita ser trifásica a quatro fios, ou trifásica tetrafilar. Cargas
monofásicas são colocadas entre a linha e o neutro; cargas
trifásicas são conectadas entre as linhas a, b e c. As ondas de
tensão geradas são mostradas na Figura 7.4.

T/3

Figura 7.4: Ondas de tensão senoidais de gerador trifásico.

O diagrama fasorial de um sistema trifásico tetrafilar é representado


na Figura 7.5. Deve ser observado que um diagrama fasorial de
tensões e correntes de um circuito representa relações no tempo
das fases e não relações espaciais do circuito. O diagrama fasorial
da Figura 7.5 mostra as tensões relativas ao neutro, denominadas
de tensões de fase ou tensões entre linha e neutro, e as tensões
entre os terminais externos a, b e c, denominadas de tensões de
linha. As tensões de fase são representadas pelos fasores Van, Vbn
e Vcn. É comum utilizar apenas um sub-índice quando se faz

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referência às tensões de fase, resultando em Va, Vb e Vc. As


tensões de linha são representadas por sub-índice duplo, Vab, Vbc,
Vca.

a -Vbn
+ Vcn Vcn Vab
~ Va
_ 60º
30º
n
Vc _ _ Vb Van Van
~ ~ -120º
+ + b
Vbn Vbn
c

Figura 7.5: Tensões de fase e de linha em um gerador trifásico tetrafilar.

Pelo diagrama fasorial da Figura 7.5, as tensões de fase


equilibradas são definidas fasorialmente como:

Van = Van ∠0 D
Vbn = Vbn ∠ − 120 D (7.1)
Vcn = Vcn ∠ + 120 D

Em sendo o conjunto de tensões trifásicas equilibradas, suas


magnitudes são iguais, |Van|=|Vbn|=|Vcn|, e defasadas de 120º
elétricos; isto significa que, considerando o sentido de rotação anti-
horário, a tensão Van está adiantada de 120º em relação à Vbn, ou
seja, 1/3 do período da onda, e Vbn adiantada de 120º em relação à
Vcn. Isto significa que os valores máximos positivos das tensões
acontecem a cada 5,56 ms para uma onda de 60 Hz. Os fasores de
tensão quando giram na seqüência an, bn, cn ou simplesmente
abc, é dito girar na seqüência positiva ou seqüência direta.

Para obtenção da tensão de linha Vab, tem-se que:

Vab = Van − Vbn


= Van − Van ∠ − 120D

( ( )
= Van 1 − cos −120D − jsen −120D ( )) (7.2)
⎛ 1 3⎞
= Van ⎜⎜1 + + j ⎟
⎝ 2 2 ⎟⎠
⎛3 3⎞
= Van ⎜⎜ + j ⎟⎟ = 3Van ∠30 V
D

⎝2 2 ⎠

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Como as tensões de linha são equilibradas, tem-se que:

Vbc = Vab ∠ − 120D


= 3 ⋅ Van ∠ − 90DV (7.3)
= 3 ⋅ Vbn ∠ + 30D V
e
Vca = Vab ∠ − 240D
= 3 ⋅ Van ∠ − 210D V
(7.4)
= 3 ⋅ Van ∠ + 150DV
= 3 ⋅ Van ∠ + 30D V

Portanto, a tensão de linha na conexão trifásica estrela ou Y,


equilibrada, é √3 a tensão de fase e faz um ângulo de 30º com as
tensões de fase correspondentes.

O diagrama fasorial das tensões de linha de um gerador trifásico


conectado em delta é mostrado na Figura 7.6.

a
Vab
_ +
Vca Vab
~ ~
Vbc _ Vca
+
_ +
~ b Vbc
c

Figura 7.6: Tensões de fase e de linha em um gerador trifásico.

Às vezes a impedância dos enrolamentos é tão pequena em


comparação com as outras impedâncias do circuito que pode ser
desprezada; neste caso, o gerador pode ser representado
exclusivamente por fontes de tensão ideais, como na Figura 7.5 e
7.6. Quando a impedância dos enrolamentos não pode ser
desprezada, estes são representados por impedâncias em série
com as fontes de tensão, Rw+jXw. Como os enrolamentos dos
geradores trifásicos são todos iguais, as impedâncias são as
mesmas para as três fases.

A Figura 7.7 mostra o circuito de um gerador trifásico, conectado


em Y, alimentando uma carga trifásica. No circuito do gerador é

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desconsiderada a resistência em relação à reatância, e omitida a


fonte interna de tensão para simplificação da figura.

IL1 IL1
IL2 VL1
+ IF1 IF2
+
_ +
VF1 __ VF2 VL2 VL3 IF1
Carga VF3 VF1 VL1 Carga
n _ Trifásica VL3
_ Trifásica
+ IF3 IF2 IL2
IF3 VF3
_ V +
+ IL3 F2 IL3 VL2

(a) (b)
Figura 7.7: Geradores conectados em Y e Δ alimentando carga trifásica.

As tensões nos terminais dos enrolamentos do gerador são


denominadas de tensões de fase, VF, e as correntes através dos
enrolamentos são denominadas correntes de fase, IF. As correntes
nas linhas conectando os enrolamentos do gerador à carga são
denominadas de corrente de linha IL, e as tensões nos terminais
das linhas são denominadas tensões de linha, VL. Note que em
uma conexão Y a corrente de linha IL é igual à corrente de fase IF;
observe ainda que duas magnitudes de tensão são disponibilizadas
nos terminais do sistema trifásico tetrafilar: a tensão de fase, VF, e
a tensão de linha, VL.

Assim, no gerador equilibrado conectado em estrela tem-se que:

IL = IF (7.5)

VL = 3 VF (7.6)

Se os terminais dos geradores forem denominados a, b, c, e a lei


de Kirchhoff aplicada ao nó n, tem-se a corrente no neutro dada
por:

I n = − ( I F1 + I F 2 + I F 3 ) = − ( I a + Ib + Ic )
(
= − I a + I a ∠ − 120D + I a ∠ + 120D )
(
= − I a 1∠0D + 1∠ − 120D + 1∠120 ) D
(7.7)
⎛ 1 3 1 3⎞
= − I a ⎜⎜1 − − j − +j ⎟=0
⎝ 2 2 2 2 ⎟⎠

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A Equação 7.7 demonstra que em um sistema equilibrado a


corrente que circula no neutro é nula.

Examinando a Figura 7.7.(b) é visto que as tensões de fase são


iguais às tensões de linha em um gerador conectado em Δ,
entretanto as correntes de linha diferem das correntes de fase.
Considerando as correntes de fase Iab, Ibc, e Ica, representadas por
sub-índices duplos, definidas como:

I ab = I F 1 ∠0 D = I ab ∠0 D A
I bc = I F 2 ∠ − 120 D = I bc ∠ − 120 D A (7.8)
I ca = I F 3 ∠ + 120 D = I ca ∠ + 120 D A

As correntes de linha são obtidas por:

Ia
a
I a = I ab − I ca
Ica Iab I b = I bc − I ab (7.9)
Ib I c = I ca − I bc
b
Ibc Ic c

Segue-se que:
I a = I ab − I ca
= I ab − I ab ∠ + 120D
(
= I ab 1 − cos120D − jsen120D ) (7.10)
⎛ 1 3⎞
= I ab ⎜⎜ 1 + − j ⎟
⎝ 2 2 ⎟⎠
⎛3 3⎞
= I ab ⎜⎜ − j ⎟⎟ = 3I ab ∠ − 30 A
D

⎝ 2 2 ⎠

Como as correntes são equilibradas, resulta para Ib e Ic:

I b = I bc − I ab = 3I ab ∠ − 150D A (7.11)

I c = I ca − I bc = 3I ab ∠ + 90D A (7.12)

O diagrama fasorial para as correntes de fase e de linha é


mostrado na Figura 7.8.
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Vca Ica
Ica

Vab Iab
θ -30º
Ibc
Iab
Vbc Ibc -Ica Ia

(a) (b)
Figura 7.8: Diagrama fasorial das correntes de fase em relação às tensões de
fase (a) e das correntes de linha e de fase (b) em uma conexão delta.

Pelas Equações de 7.10 a 7.12 é visto que a magnitude da corrente


de linha é √3 vezes maior que a corrente de fase e que há um
ângulo de fase de 30º entre cada corrente de linha e a corrente de
fase mais próxima.

7.3.1. Análise de Sistema Trifásico

Como as fontes e cargas trifásicas podem ser ligadas em Y e Δ, o


circuito formado por fonte e carga pode assumir quatro diferentes
configurações básicas:

Fonte Carga
Y Y
Y Δ
Δ Y
Δ Δ

7.3.1.1. Sistema Y-Y

A Figura 7.9 mostra uma fonte conectada em Y alimentando uma


carga conectada em Y. Os blocos Za, Zb e Zc representam
impedâncias da carga, as quais podem ser resistivas, reativas ou
ambos. A carga é balanceada de modo que Za=Zb=Zc. As
impedâncias dos cabos que interligam a fonte à carga são
desconsideras.

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a Ia

+ Va Vb + b Ib Zb Za +
+
Ia _ _ Ib Vb _ _ Va
_ _

Vc Ic Zc Vc
Ic
+ c +

Figura 7.9: Fonte conectada em Y alimentando carga conectada em Y.

Quando uma carga equilibrada (Za=Zb=Zc) conectada em Y é


alimentada por uma fonte equilibrada conectada em Y, pode-se
afirmar que a corrente da carga é obtida pela tensão de fase (Va,
Vb, Vc) da fonte aplicada sobre a impedância da carga.

7.3.1.2. Sistema Y-Δ


Ia a

Ib Vab Zab

+ Va Vb + b
Iab
Ia _ _ Ib Vca Ica
_ Vbc
Zbc Ibc Zca
Vc Ic
Ic
+ c

Figura 7.10: Fonte conectada em Y alimentando carga conectada em Δ.

Quando uma carga equilibrada em Δ é alimentada por tensões de


linha equilibradas, tem-se que:

Vab = V ∠0D
Vbc = V ∠ − 120D (7.13)
Vca = V ∠ + 120D

As correntes de fase são obtidas por: I ab =


Vab
Z ab
Vbc
I bc = (7.14)
Z bc
Vca
I ca =
Z ca

A soma das correntes de fase é dada por:

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Vab Vbc Vca


I ab + I bc + I ca = + + (7.15)
Z ab Z bc Z ca

Como a carga é equilibrada, tem-se que Zab=Zbc=Zca=Z, e a


corrente no interior do delta:

1
I ab + I bc + I ca = (Vab + Vbc + Vca )
Z
=
1
Z
(
V ∠0D + V ∠ − 120D + V ∠ − 120D ) (7.16)
V ⎛ 1 3 1 3⎞
= ⎜⎜1 − − j − +j ⎟=0
Z ⎝ 2 2 2 2 ⎟⎠

A equação (7.16) mostra que em condição de equilíbrio de carga e


fonte não há circulação de corrente no interior do delta.

7.3.1.3. Sistema Δ-Y


Ia a
Vab _ Ib
+
_ Iab b + Zb Za +
+
Ibc
Ib _ _ Ia
Vca + _ Vbc _
Ica Zc Ic
Ic c +

Figura 7.11: Fonte conectada em Δ alimentando carga conectada em Y.

7.3.1.4. Sistema Δ-Δ


Ia
a
Vab _ Vab Ib Zab
+
_ Iab b
+ Iab
Ibc
Ica
Vca + _ Vbc Vca Ibc
Vbc Zbc Zca
Ica
c Ic

Figura 7.12: Fonte conectada em Δ alimentando carga conectada em Δ.

7.3.2. Potência em Sistemas Trifásicos

Nos circuitos trifásicos equilibrados a potência instantânea total é


dada pela soma das potências instantâneas de cada fase. Assim,

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6-11

p a = υ a ⋅ i a = Vp I p cos(ωt ) ⋅ cos(ωt − θ )
( ) (
p b = υ b ⋅ i b = Vp I p cos ωt − 120 D ⋅ cos ωt − θ − 120 D ) (7.17)
p c = υ c ⋅ i c = Vp I p cos(ωt + 120 ) ⋅ cos(ωt − θ + 120 )
D D

em que Vp e Ip representam a tensão e corrente máxima de fase.

A potência instantânea total é dada por:

p3φ = p a + pb + p c
(
⎡cos(ωt ) ⋅ cos(ωt − θ ) + cos ωt − 120 D ⋅ cos ωt − θ − 120 D
= Vp I p ⎢
) ( )⎤
⎥ (7.18)
( )
⎢⎣+ cos ωt + 120 ⋅ cos ωt − θ + 120
D
( D
) ⎥⎦
= 1,5V p I p cos θ = 3VEF I EF cos θ

Potências pa,pb,pc,pT
6000

5000

4000

3000

2000

1000

-1000
0 0.005 0.01 0.015 0.02 0.025 0.03 0.035
tempo

Figura 7.13: Potência instantânea nas fases a, b e c e potência total.

Para uma única fase, a potência instantânea é dada por:

p1φ = V p I p cos (ωt ) cos (ωt − θ )


Vp I p Vp I p
= cos θ − cos ( 2ωt − θ ) (7.19)
2 2
= VEF I EF cos θ ⋅ (1 − cos 2ωt ) − VEF I EF senθ ⋅ sen2ωt

As Equações 7.18 e 7.19 revelam que enquanto a potência


instantânea monofásica varia no tempo, com uma variação de
freqüência dupla em relação ao tempo e valor médio igual a
VEF.IEF.cosθ, a potência instantânea trifásica equilibrada, sob

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condições de regime permanente, é constante no tempo, cujo valor


médio é definido como três vezes o valor médio da potência
monofásica, 3.VEF.IEF.cosθ.

7.3.2.1. Potência em Sistema Conectado em Y

Para um gerador conectado em Y, a potência entregue pela


máquina é dada por:

Vc
S3φ = Va I a* + Vb I b* + Vc I c*
Ic = Va I a ∠θ + Vb I b ∠θ + Vc I c ∠θ
n Va = 3 Va I a ∠θ (7.20)
θ
Ib Vab
Ia =3 I a ∠θ
Vb 3
= 3 Vab I a ( cos θ + jsenθ ) ≡ 3 Vab I a ∠θ

Considerando que a potência aparente complexa trifásica é


definida como:

S3φ = P3φ + jQ 3φ (7.21)

tem-se que a potência útil e reativa entregue por um gerador


conectado em Y é igual a:

P3φ = 3 VL I L cos θ (7.22)

Q 3φ = 3 VL I L senθ (7.23)

em que |VL| e |IL| representam as magnitudes da tensão e da


corrente de linha do sistema equilibrado. Vale salientar que θ é o
ângulo entre a tensão de fase e a corrente de fase e não entre a
tensão de linha e corrente de linha.

A abertura angular θ entre a tensão de fase e a corrente de fase


define o sentido de fluxo da potência útil e reativa como
demonstrado no Capítulo 4, seção 4.10.

Da Equação 7.20 verifica-se que a magnitude da potência aparente


é dada por:

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6-13

S3φ = 3 VL I L
(
= 3 3 VF ⋅ I F ) (7.24)
= 3 VF I F

Em que |VF| e |IF| representam valores eficazes de fase.

Com base na Equação 7.22 e 7.23 tem-se que:

P32φ + Q 32φ = ( 3 VL I L ) ⋅ (sen θ + cos θ ) = S


2 2 2

2
(7.25)

Assim,
S3φ = P32φ + Q 32φ (7.26)

7.3.2.2. Potência em Sistema Conectado em Δ

Para um gerador conectado em delta, a potência trifásica entregue


pelo gerador é calculada por:

Ia S3φ = Vab I *ab + Vbc I *bc + Vca I *ca


a
= Vab I ab ∠θ + Vbc I bc ∠θ + Vca I ca ∠θ
Ica Iab = 3 Vab I ab ∠θ (7.27)
b Ia
= 3 Vab ∠θ
Ibc 3
c
= 3 Vab I a (cos θ + jsenθ )

Assim,
P3φ = 3 VL I L cos θ
(7.28)
= 3 VF I F cos θ
e
Q 3φ = 3 VL I L senθ
(7.29)
= 3 VF I F senθ

7.3.3. Fator de Potência de Deslocamento

O fator de potência de deslocamento de um sistema trifásico


equilibrado é definido pela relação entre a potência útil trifásica e a
potência aparente trifásica. Assim,

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P3φ
FPD = (7.30)
S3φ

Pela Equação 7.24 e 7.28 tem-se que:

FPD = cos θ (7.31)

O fator reativo é definido pela relação da potência reativa e da


potência aparente, assim,

Q3φ
FR = = senθ (7.32)
S3φ

O ângulo θ das Equações 7.31 e 7.32 representa a abertura


angular entre a tensão de fase e a corrente de fase, independente
de ser a conexão Δ ou Y.

7.3.4. Medição de Potência em Circuitos Trifásicos

O instrumento básico usado para medir potência útil em circuitos


trifásicos é o Wattímetro. O wattímetro eletromecânico contém duas
bobinas. A primeira, chamada bobina de corrente, é estacionária e
recebe uma corrente proporcional à carga. A segunda, chamada
bobina de potencial, é móvel e recebe uma corrente proporcional à
tensão na carga. O wattímetro acusa uma leitura proporcional ao
produto da corrente através da bobina de corrente pela tensão
aplicada à bobina de potencial e pelo co-seno do ângulo de fase
entre a tensão e a corrente. A Figura 7.13 mostra os símbolos
básicos e a conexão de um wattímetro medindo a potência de uma
carga. O resistor em série com a bobina de tensão limita a corrente
através da bobina a uma pequena parcela proporcional à tensão
aplicada à bobina. Note na Figura 7.13 (b) que o terminal positivo
da bobina de corrente deve ser conectado na direção da fonte e o
terminal positivo da bobina de potencial deve ser ligado ao outro
terminal da bobina de corrente para que haja uma medição correta
do sentido da potência medida.

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6-15

1 BC 2
BC 2
1
+
+ + 3
+3 BP
BP VF RL

4
4

(a) (b)
Figura 7.13: Esquema de um wattímetro (a) e um wattímetro medindo potência
de uma carga.

7.4.1.1. Método dos Três Wattímetros

Com três wattímetros é possível a leitura da potência em uma


carga trifásica balanceada ou desbalanceada, conectada em Y ou
em Δ. A Figura 7.14 mostra a medição da potência em uma carga
conectada em Y e em Δ.

Figura 7.14: Medição de potência trifásica com três wattímetros em carga Y e Δ.

A potência total é determinada pela soma da medição de cada


wattímetro.

P3φ = P1 + P2 + P3 (7.33)

Para uma carga balanceada, a potência total é simplesmente três


vezes a leitura de um wattímetro.

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6-16

Em muitas cargas trifásicas, particularmente cargas em Δ, não é


exeqüível interromper as fases da carga em Δ para ligação do
instrumento. Para a carga em Y, é necessário levar-se a ligação ao
ponto neutro. Este ponto não é sempre acessível. Daí ser
geralmente empregado um outro método que faz uso de apenas
dois wattímetros para medir potência trifásica.

7.4.1.2. Método dos Dois Wattímetros

Este método é aplicável para ligações trifásicas a três fios (3 fases)


equilibradas ou não. A conexão de dois wattímetros a uma carga
trifásica quer conectada em Y ou Δ é mostrada na Figura 7.15.

IL
1 2
a
W2
3 VL Carga
4
b Y ou Δ
IL
1 VL
2
c
W1
3
4

Figura 7.15: Método dos dois wattímetros.

Note que a bobina de tensão de cada wattímetro é conectada à


tensão de linha e que através da bobina de corrente circula a
corrente de linha. A mesma recomendação apresentada em
relação à polaridade das bobinas de corrente e de potencial deve
ser observada na conexão de mais de um wattímetro, i.é.,
polaridade positiva da bobina de corrente ligada à fonte e
polaridade positiva da bobina de tensão ligada ao outro terminal da
bobina de corrente, terminal junto à carga.

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6-17

Vcb

Vcn

Ic Vab
-30º

30º
Van

Ia

Vbn
Figura 7.16: Diagrama fasorial de tensões e correntes com a fase b como
referência.

Considerando que a fase ‘b’ é a fase comum à ligação das bobinas


de potencial de ambos wattímetros, tem-se que:

W1 = Vcb I c cos δ
Vcb
Ic (
= Vcb I c cos −30D − ( −θ ) )
(
= Vcb I c cos θ − 30D )
(7.34)
W2 = Vab I a cos δ
Vab
Ia
= Vab I a cos 30D − ( −θ )( )
(
= Vab I a cos θ + 30D )
O ângulo θ representa o ângulo da impedância da carga ou o
defasamento entre a tensão de fase e a corrente de fase da carga.

Como a carga é equilibrada, tem-se que:

W1 = VL I L cos θ − 30D ( )
(7.35)
W2 = VL I L cos (θ + 30 ) D

A soma das leituras dos wattímetros W1 e W2,

W1 + W2 = VL I L ( cos 30D cos θ + sen30D senθ + cos 30D cos θ − sen30D senθ )
= 2 VL I L cos θ cos 30D (7.36)
= 3 VL I L cos θ

Portanto, a soma algébrica da leitura dos dois wattímetros mede


corretamente a potência num sistema trifásico de qualquer fator de
potência.

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6-18

Se a fase comum fosse a fase ‘c’, ter-se-ia como diagrama fasorial


e leitura dos wattímetros W1 e W2:
Vcn

Ic

Van

Ia
-30º
Ib -θ 30º

Vbn Vac

Vbc

Figura 7.17: Diagrama fasorial de tensões e correntes com a fase c como


referência.

W1 = Vac I a cos δ
Vac
Ia
( )
= Vac I a cos − 30 D − (− θ ) = VL I L cos θ − 30 D ( )
(7.37)
W2 = Vbc I b cos δ cos(30 − (− θ )) = V (
I L cos θ + 30 D )
Vbc
Ib
= Vbc I b D
L

cuja soma é igual a da Equação 7.36.

Se a fase ‘a’ fosse considerada como referência, então:

Vca
Vcn

Ic
30º

Van
-30º
Ia
Ib -θ
Vba

Vbn

Figura 7.18: Diagrama fasorial de tensões e correntes com a fase a como


referência.

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6-19

W1 = Vba I b cos δ
Vba
Ib
( ) (
= Vba I b cos − 30 D − (− θ ) = VL I L cos θ − 30 D )
(7.38)
W2 = Vca I c cos δ = Vca I c cos(30 − (− θ )) = V (
I L cos θ + 30 )
Vca D D
Ic L

As leituras dos wattímetros W1 e W2 resultam em valores


diferentes, na grande maioria das vezes. Em condição de equilíbrio,
somente quando o fator de potência de deslocamento da carga for
unitário, i.é., θ=0o, a leitura de W1 e W2 é igual, resultando na soma
algébrica igual à potência útil total de √3|VL||IL|.

(
W1 = VL I L cos 0 D − 30 D =)2
3
VL I L
(7.39)
(
W2 = VL I L cos 0 D + 30 D = )
2
3
VL I L

Para a condição de fator de potência igual a ½, i.é., θ=60º,


adiantado ou atrasado, a leitura em um dos wattímetros será nula.
Quando FPD for igual a 0,5 adiantado, a leitura no wattímetro W2 é
nula e a potência total é simplesmente igual à leitura de W1. Por
outro lado, para um fator de potência igual a 0,5 atrasado, θ=-60º, a
leitura no wattímetro W1 é nula.
W1 = VL I L cos(60 D − 30 D ) =
3
VL I L
2 (7.40)
W2 = VL I L cos(60 D + 30 D ) = 0

Para θ=90º (fator de potência nulo), a leitura de W1 e W2 é igual,


porém de sinais contrários, resultando na soma algébrica igual a
zero para a potência útil total.

W1 = VL I L cos(90 D − 30 D ) =
1
VL I L
2 (7.41)
W2 = VL I L cos(90 D + 30 D ) = − VL I L
1
2

É essencial no método dos dois wattímetros que os sinais corretos


sejam dados às leituras dos mesmos, e que a soma seja feita
algebricamente.

7.4.1.3. Volt-ampère Reativos

Os volt-ampère reativos num circuito trifásico equilibrado podem


ser expressos por:

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6-20

(
Q1 = Vab I a sen θ + 30 D )
(7.42)
Q2 = Vcb I c sen(θ − 30 )
D

A potência reativa total,

Q 3φ = Q1 + Q 2
[
= VL I L senθ cos 30 D + sen30 D cos θ + senθ cos 30 D − sen30 D cos θ ] (7.43)
= 3 VL I L senθ

A potência reativa pode também ser obtida a partir da diferença


entre as leituras dos wattímetros, multiplicada por √3.

Q3φ = 3 (W1 − W2 ) (7.44)

Como a relação entre os volt-ampères reativos e a potência útil é


igual à tgθ, segue-se que pela relação entre as equações que
definem a potência reativa a partir da leitura do wattímetro dividida
pela soma das leituras dos wattímetros, que define, por sua vez, a
potência útil, tem-se:

3 (W1 − W2 )
tgθ = (7.45)
W1 + W2

E consequentemente pode-se obter o fator de potência de


deslocamento.

7.3.5. Vatagens dos Sistemas Trifásicos sobre os Monofásicos

Todos os sistemas são comparados na base de uma determinada


quantidade de potência transmitida a uma determinada distância
com a mesma quantidade de perda e para a mesma tensão
máxima entre condutores. Em todos os casos, o peso total de
cobre será diretamente proporcional ao número de fios, uma vez
que a distância é fixada e inversamente proporcional à resistência
de cada fio. Como é suposto que fator de potência e tensão são
iguais tanto para o sistema monofásico como para o trifásico, tem-
se que:

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6-21

P1φ = VI1φ cos θ


(7.46)
P3φ = 3VI 3φ cos θ
Como
P1φ = P3φ
VI1φ cos θ = 3VI 3φ cos θ (7.47)
I1φ = 3I 3φ
Também,
I12φ R 1φ × 2 = I 32φ R 3φ × 3 (7.48)
ou
R 1φ 3I 32φ 3I 32φ 1
= = = (7.49)
R 3φ 2I 2
1φ 3I × 2
2
3φ 2

N D condutores trifásicos
Cobre trifásico R 3φ
= D
Cobre mofásico N condutores monofásicos
R 1φ
N D condutores trifásicos R 1φ
= × (7.50)
N D condutores monofásicos R 3φ
3 1 3
= × =
2 2 4

A relação acima mostra que a mesma quantidade de potência pode


ser transmitida a uma determinada distância com uma determinada
perda na linha com apenas três quartos da quantidade de cobre
que seria necessário para a transmissão monofásica ou 1/4 a mais
de cobre é necessário para a monofásica do que seria para a
trifásica.

Como visto na Equação 7.18 e 7.19, a potência trifásica é


constante, enquanto a monofásica é pulsante; isto significa que
máquinas motoras trifásicas apresentam um conjugado ou torque
contínuo ( τ = P ω ) e as máquinas monofásicas, conjugado pulsante
o que resulta em maior estresse para a máquina.

Profa Ruth P. S. Leão Email: rleao@dee.ufc.br URL: www.dee.ufc.br/~rleao


Referências

[1] Floyd, T.L. Principles of Electric Circuits, 6th Ed. Prentice Hall,
2000. ISBN 0-13-095997-9.927p.

[2] Nilsson, James W., Reidel, Susan A., Circuitos Elétricos, LTC,
6a Edição, 2003.

[3] Kerchner, R.M., Corcoran, G.F., Circuitos de Corrente


Alternada, Porto Alegre, Globo, 1973.

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