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Supremo Tribunal Federal

Ementa e Acórdão

Inteiro Teor do Acórdão - Página 1 de 21

21/02/2022 PRIMEIRA TURMA

HABEAS CORPUS 194.637 DISTRITO FEDERAL

RELATOR : MIN. MARCO AURÉLIO


REDATOR DO : MIN. ALEXANDRE DE MORAES
ACÓRDÃO
PACTE.(S) : DOMINGOS LAMOGLIA DE SALES DIAS
IMPTE.(S) : PIERPAOLO CRUZ BOTTINI E OUTRO(A/S)
IMPTE.(S) : IGOR SANT ANNA TAMASAUSKAS
ADV.(A/S) : EUGENIO JOSE GUILHERME DE ARAGAO
COATOR(A/S)(ES) : SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA

EMENTA: HABEAS CORPUS. DENÚNCIA POR CRIMES DE


ASSOCIAÇÃO CRIMINOSA, CORRUPÇÃO ATIVA E LAVAGEM DE
CAPITAIS. AUSÊNCIA DE IMPUTAÇÃO POR CRIME ELEITORAL.
INEXISTÊNCIA DE VIOLAÇÃO AO ENTENDIMENTO DO SUPREMO
TRIBUNAL FEDERAL NO INQ 4.435/DF. INCOMPETÊNCIA DA
JUSTIÇA ELEITORAL. INDEFERIMENTO DA ORDEM.
1. Inexistência de imputação, pelo Ministério Público, de infração
eleitoral aos agentes. Denúncia oferecida com a efetiva descrição dos
crimes de corrupção, lavagem de capitais e quadrilha; fatos criminosos
pelos quais os denunciados deverão se defender, nos exatos limites da
denúncia.
2. A mera alegação, em tese, da prática de crime eleitoral não basta
para caracterizar a efetiva violação do entendimento adotado pela
CORTE no INQ 4.435 AgR-quarto/DF, com o consequente deslocamento
da competência para a Justiça Eleitoral (Rcl 36.665/TO, Rcl 38.275/TO, Rcl
37.322/TO e Rcl 37.751/TO, Rel. Min. ALEXANDRE DE MORAES).
3. A menção de cunho político-eleitoral contida na descrição fática
refere-se à estruturação do grupo criminoso e, portanto, não tem o
condão de caracterizar indícios da prática de crime eleitoral. Inexistência
de violação ao entendimento adotado no INQ 4.435 AgR-quarto/DF.
4. Habeas Corpus INDEFERIDO.

AC ÓRDÃ O

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Ementa e Acórdão

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HC 194637 / DF

Vistos, relatados e discutidos estes autos, os Ministros do Supremo


Tribunal Federal, em Sessão Virtual da Primeira Turma, sob a Presidência
da Senhora Ministra CÁRMEN LÚCIA, em conformidade com a ata de
julgamento e as notas taquigráficas, por maioria, acordam em indeferir a
ordem de Habeas Corpus, nos termos do voto do Ministro ALEXANDRE
DE MORAES, Redator para o acórdão, vencidos os Ministros MARCO
AURÉLIO, Relator, e DIAS TOFFOLI.

Brasília, 21 de fevereiro de 2022.

Ministro ALEXANDRE DE MORAES


Redator para o acórdão

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Supremo Tribunal Federal
Relatório

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03/08/2021 PRIMEIRA TURMA

HABEAS CORPUS 194.637 DISTRITO FEDERAL

RELATOR : MIN. MARCO AURÉLIO


REDATOR DO : MIN. ALEXANDRE DE MORAES
ACÓRDÃO
PACTE.(S) : DOMINGOS LAMOGLIA DE SALES DIAS
IMPTE.(S) : PIERPAOLO CRUZ BOTTINI (25350/DF, 163657/SP)
E OUTRO(A/S)
IMPTE.(S) : IGOR SANT ANNA TAMASAUSKAS (25399/DF,
173163/SP)
ADV.(A/S) : EUGENIO JOSE GUILHERME DE ARAGAO
(04935/DF, 30746/ES, 428274/SP)
COATOR(A/S)(ES) : SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA

RE LAT Ó RI O

O SENHOR MINISTRO MARCO AURÉLIO – Adoto, como relatório,


as informações prestadas pelo assessor Caio Salles:

O Ministério Público Federal denunciou, no Superior


Tribunal de Justiça, o paciente e outras 36 pessoas, considerados
os crimes dos artigos 288 (quadrilha) – redação anterior à Lei nº
12.850/2013 –, 333 (corrupção ativa) do Código Penal e 1º,
incisos V e VII (lavagem de capitais), da Lei nº 9.613/1998,
sendo os dois últimos por 23 vezes. Narrou a participação do
paciente e demais acusados, de 2006 a 2010, em associação
liderada pelo então deputado federal José Roberto Arruda – que
veio a ser Governador do Distrito Federal a partir de 2007 –,
visando a prática de crimes de corrupção e lavagem de
dinheiro. Descreveu o esquema ilícito de arrecadação de valores
de empresas prestadoras de serviços de informática a órgãos e
entidades da Administração Pública distrital, detalhando a
coordenação das tarefas. Ressaltou integrar o paciente os
núcleos encarregados de receber e distribuir as propinas, além
de auxiliar na compra de apoio político e parlamentar,

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Relatório

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HC 194637 / DF

mediante oferecimento de quantias a representantes de partidos


políticos e Deputados Distritais, buscando atuação favorável à
aprovação de projetos de lei de interesse do grupo, deixando de
realizar, adequadamente, atividade de controle externo do
Poder Executivo. Salientou voltado o grupo criminoso à
implementação de projeto de poder, assegurando obtenção de
verbas públicas e, consequentemente, o enriquecimento dos
membros. Destacou nomeado o paciente, em setembro de 2009,
para o cargo de Conselheiro do Tribunal de Contas do Distrito
Federal, com a finalidade de aprovar as contas do Governo.

A Corte Especial, em 5 de junho de 2013, resolveu questão


de ordem no sentido de desmembrar o processo, declinando da
competência no tocante a não detentores de prerrogativa de
função. Em relação ao paciente, único titular da prerrogativa de
foro, manteve o curso do processo no Superior Tribunal de
Justiça. Em 7 de maio de 2014, recebeu a denúncia quanto aos
crimes de quadrilha e corrupção ativa – ação penal nº 707/DF.
Em 26 de agosto de 2015, o Relator, ante a renúncia ao cargo de
Conselheiro do Tribunal de Contas do Distrito Federal,
declinou da competência para a primeira instância.

O Juízo da Sétima Vara Criminal de Brasília/DF, no qual


passou a tramitar o processo – autuado sob o nº
2015.01.1.108470-9 –, não acolheu pedido de declaração de
nulidade dos atos praticados e designou audiência de instrução.

A defesa, apontando ser o caso de competência da Justiça


Eleitoral, formalizou a exceção de incompetência nº
2019.01.1.019925-2. O Juízo extinguiu-a, sem resolução do
mérito. Teve como adequado o exame do pedido no momento
da sentença. Ressaltando encontrar-se o processo na fase das
alegações finais, concluiu pela ausência de interesse processual.

No Superior Tribunal de Justiça, a Quinta Turma negou


provimento ao recurso em habeas corpus nº 128.447/DF.

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Relatório

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HC 194637 / DF

Os impetrantes sustentam caracterizados, observada a


narrativa da peça acusatória, os crimes dos artigos 350
(falsidade ideológica) e 354-A (apropriação indébita) do Código
Eleitoral, a revelarem a competência da Justiça Eleitoral.
Articulam com o princípio do juiz natural. Aludem ao decidido,
pelo Pleno, no quarto agravo no inquérito nº 4.435/DF, da
relatoria de Vossa Excelência. Mencionam os artigos 35, inciso
II, do Código Eleitoral e 78, inciso IV, do Código de Processo
Penal.

Requerem o reconhecimento da competência da Justiça


Eleitoral.

A Procuradoria-Geral da República manifesta-se pela


inadmissão do habeas corpus, dizendo-o substitutivo de recurso
extraordinário. Afirma inexistir ilegalidade.

Publicado sem revisão Art. 95 do RISTF.

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Voto - MIN. MARCO AURÉLIO

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03/08/2021 PRIMEIRA TURMA

HABEAS CORPUS 194.637 DISTRITO FEDERAL

VOTO

O SENHOR MINISTRO MARCO AURÉLIO (RELATOR) –


Improcede a preliminar suscitada pela Procuradoria-Geral da República.
O fato de a decisão impugnada desafiar, em tese, recurso extraordinário
não obstaculiza a impetração. Atentem para a via estreita daquele, a
pressupor atendimento ao requisito temporal, transgressão à Constituição
Federal e repercussão geral da matéria.
Conforme consta da parte inicial da denúncia, o Ministério Público
Federal narrou praticadas, pelo grupo, em 2006, condutas ilícitas voltadas
à arrecadação de verbas ilícitas para a campanha eleitoral de José Roberto
Arruda ao Governo do Distrito Federal:

[…]
Na campanha eleitoral de 2006, quando os vínculos
firmes, estáveis e permanentes desta nova formação da
quadrilha foram estabelecidos, os principais operadores do
novo esquema criminoso juntamente com Durval Barbosa
Rodrigues foram Omézio Pontes e Domingos Lamoglia de Sales
Dias, que integravam o Gabinete do então Deputado Federal
José Roberto Arruda na Câmara dos Deputados, como Assessor
de Comunicação e Chefe de Gabinete, respectivamente.
Omézio Pontes e Domingos Lamoglia reuniam-se com
Durval Barbosa a fim de receber, em espécie, os recursos ilícitos
por este arrecadados junto a empresários e destinados para a
campanha eleitoral de José Roberto Arruda e de Paulo Octávio
Alves Pereira.
Nesse contexto de entrega ilícita de dinheiro recebido
criminosamente por Durvai Barbosa, ele gravou em vídeo a
entrega de R$ 100.000,00 (cem mil reais), em espécie, para
Omézio Pontes e Domingos Lamoglia em 04 de setembro de
2006, conforme Laudo nº 550/2010 - INC/DITEC/DPF (vol. 6/9,
fls. 1.425/1.434, do Inq. 650-DF). Na gravação, Durval Barbosa

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Voto - MIN. MARCO AURÉLIO

Inteiro Teor do Acórdão - Página 7 de 21

HC 194637 / DF

entrega a citada quantia para a dupla, momento em que


Domingos Lamoglia ainda lhe pede mais dinheiro (Laudo nº
550/2010 - INC/DITEC/DPF - vol. 6/9, fl. 1429, do log. 650 -DF).
[…]

No mesmo trecho da peça acusatória, verifica-se, na nota de rodapé


de nº 33, ante conversas gravadas e depoimento do delator Durval
Barbosa, a destinação do montante arrecadado no período para a
campanha eleitoral:

[…]
Segue trecho do Laudo nº 550/2010 - INC/DITEC/DPF (vol.
1/2, fl. 1.429, do Inq. 650 -DF): "Domingos: Mais quinzinho você
consegue?"_ Conforme Durval Barbosa (vol.1/2, fls. 16/22, do
bui. 650 -DF): 'QUE no período em que Arruda fechou sua
adesão cena o declarante, ARRUDA já apresentava como seus
legítimos representantes as pessoas de Domingos Lamoglia e
Omézio Pontes, que doravante executariam os seus pleitos
junto ao declarante e demais unidades de governo do DF; (...)
QUE em outro vídeo apresentado aparece novamente Omézio
Pontes e Domingos Lamoglia, os quais solicitam a quantia de
150 mil reais, a mando de Arruda, como parte de uma
programação especifica da campanha eleitoral, para um
período determinado; QUE naquela oportunidade, entretanto,
somente receberam R$ 100 mil reais."
[…]

A descrição fática evidencia a repercussão eleitoral do contexto


criminoso, considerada a utilização, na campanha de José Roberto
Arruda, de valores decorrentes de propina. A narrativa revela suposto
cometimento do crime do artigo 350 do Código Eleitoral, atraindo a
competência da Justiça Eleitoral para o julgamento do processo.
A circunstância de o Ministério Público ter atribuído a prática dos
crimes dos artigos 288 e 333 do Código Penal, sem imputação de crime
eleitoral, não afasta a competência da Justiça especializada.

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Voto - MIN. MARCO AURÉLIO

Inteiro Teor do Acórdão - Página 8 de 21

HC 194637 / DF

Defiro a ordem, para assentar a competência da Justiça Eleitoral.

Publicado sem revisão Art. 95 do RISTF.

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Extrato de Ata - 03/08/2021

Inteiro Teor do Acórdão - Página 9 de 21

PRIMEIRA TURMA
EXTRATO DE ATA

HABEAS CORPUS 194.637


PROCED. : DISTRITO FEDERAL
RELATOR : MIN. MARCO AURÉLIO
PACTE.(S) : DOMINGOS LAMOGLIA DE SALES DIAS
IMPTE.(S) : PIERPAOLO CRUZ BOTTINI (25350/DF, 163657/SP) E
OUTRO(A/S)
IMPTE.(S) : IGOR SANT ANNA TAMASAUSKAS (25399/DF, 173163/SP)
COATOR(A/S)(ES) : SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA

Decisão: Após os votos dos Ministros Marco Aurélio, Relator, e


Dias Toffoli, que deferiam a ordem, para assentar a competência da
Justiça Eleitoral, pediu vista dos autos o Ministro Alexandre de
Moraes. Primeira Turma, Sessão Virtual de 25.6.2021 a 2.8.2021.

Composição: Ministros Dias Toffoli (Presidente), Marco


Aurélio, Rosa Weber, Luís Roberto Barroso e Alexandre de Moraes.

Luiz Gustavo Silva Almeida


Secretário da Primeira Turma

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Voto Vista

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21/02/2022 PRIMEIRA TURMA

HABEAS CORPUS 194.637 DISTRITO FEDERAL

VOTO–VISTA

O SENHOR MINISTRO ALEXANDRE DE MORAES:


Presidente, peço vênia ao eminente Ministro relator, para divergir.
Conforme relatado, o Ministério Público denunciou "o paciente e
outras 36 pessoas, considerados os crimes dos artigos 288 (quadrilha) – redação
anterior à Lei nº 12.850/2013 –, 333 (corrupção ativa) do Código Penal e 1º,
incisos V e VII (lavagem de capitais), da Lei nº 9.613/1998, sendo os dois últimos
por 23 vezes".
Neste habeas corpus, a defesa sustenta a competência da Justiça
Eleitoral para processar e julgar a causa, pois, observada a narrativa da
denúncia, estariam caracterizados os crimes do art. 350 (falsidade
ideológica) e do art. 354-A (apropriação indébita), ambos do Código
Eleitoral. Destaca, por consequência, a violação ao entendimento firmado
pela CORTE no INQ 4.435 AgR- quarto/DF (Rel. Min. MARCO
AURÉLIO, Tribunal Pleno, DJE de 21/08/2019), cuja ementa é a seguinte:

COMPETÊNCIA – JUSTIÇA ELEITORAL – CRIMES


CONEXOS. Compete à Justiça Eleitoral julgar os crimes
eleitorais e os comuns que lhe forem conexos – inteligência dos
artigos 109, inciso IV, e 121 da Constituição Federal, 35, inciso II,
do Código Eleitoral e 78, inciso IV, do Código de Processo
Penal.

Entretanto, para caracterizar a efetiva violação do entendimento


adotado pela CORTE no INQ 4.435 AgR-quarto/DF, com o consequente
deslocamento da competência para a Justiça Eleitoral, não basta a mera
alegação da prática, em tese, de crime eleitoral (Rcl 36.665/TO, Rcl
38.275/TO, Rcl 37.322/TO e Rcl 37.751/TO, Rel. Min. ALEXANDRE DE
MORAES). Somente com a análise dos fatos narrados e das provas
coligidas nos autos é que se poder verificar, no caso concreto, a existência

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Voto Vista

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HC 194637 / DF

ou não de indícios da prática de crime eleitoral.


Na presente hipótese, o Ministério Público não imputou nenhuma
infração eleitoral ao paciente. Em sua longa e minuciosa denúncia, o
Parquet imputou ao paciente – juntamente com outros 36 agentes –
apenas a prática dos crimes de quadrilha, corrupção ativa e lavagem de
capitais.
Para melhor compreensão dos fatos, trago este trecho da denúncia
constante do tópico "Os membros da quadrilha e a divisão de tarefa entre
eles":

A quadrilha estava estruturada em núcleos, segundo as


tarefas predominantemente praticadas por seus membros, em
Brasília, antes de 2007, mas sobretudo a partir de janeiro de
2007, quando completou-se a transição da liderança da
quadrilha exclusivamente para José Roberto Arruda (seu líder
máximo) e Paulo Octávio Alves Pereira (o segundo no
comando). As principais tarefas atribuídas e executadas pelos
integrantes de cada núcleo serão narradas a seguir, e podem ser
descritas a esta altura do seguinte modo:
1. O Núcleo Dirigente, integrado por José Roberto Arruda
e Paulo Octávio Alves Pereira, liderava a quadrilha. Seus
membros tinham prerrogativas de poderes hierárquicos sobre
os demais membros, que a eles se subordinavam, cumprindo
ordens e executando tarefas por eles ditadas. Com o auxílio dos
membros dos demais núcleos, Arruda e Paulo Octávio
definiram o estratagema de dominação da máquina
administrativa e seu uso para fins criminosos. Principalmente a
partir de 2007, quando assumiram os cargos de Governador e
Vice-Governador do DF, fizeram a nomeação e a indicação de
membros da quadrilha para ocupar postos chaves para a prática
de atos administrativos que visaram garantir as finalidades e
objetivos da quadrilha. Dirigiam os três outros núcleos da
quadrilha, atribuindo as tarefas de seus membros; controlando
seus atos e o modo de dissimulá-los eficientemente;
fiscalizando o cumprimento de suas ordens; solicitando de
empresas um percentual certo de propina, a ser calculado sobre

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HC 194637 / DF

os pagamentos feitos pelo GDF por prestação de serviços;


idealizando e controlando todos os atos administrativos e
privados que viabilizaram o pagamento de verbas públicas,
sobre cujo valor é calculado o valor da propina; exigindo a
entrega para si, às vezes, de sua parte na propina; e
determinando o pagamento de propina para comprar apoio
político e econômico no interesse da quadrilha.
2. O Núcleo Coordenador e Gestor dos Atos
Administrativos necessários à quadrilha, integrado por José
Roberto Arruda, José Geraldo Maciel, Durval Barbosa
Rodrigues, Ricardo Pinheiro Penna, Roberto Eduardo Ventura
Giffoni, José Luiz da Silva Valente, Fábio Simão, Gibrail Nahfh
Gebrim, Adailton Barreto Rodrigues, Masaya Kondo, Luiz
Cláudio Freire de Souza França, foi responsável pela edição de
atos administrativos que dissimularam a atuação da quadrilha e
atenderam seus objetivos. A dispensa de licitação e a licitação
fraudada atingiram o objetivo de assegurar a contratação de
empresas envolvidas no esquema ilícito da quadrilha. O
reconhecimento de dívida por prestação de serviços que
deveriam ter sido licitados garantiu elevados pagamentos às
empresas envolvidas no esquema ilícito da quadrilha. A
assinatura destes contratos ou o reconhecimento da dívida
dependiam de atos do Secretário de Planejamento Ricardo
Pinheiro Felina, do Corregedor Distrital Roberto Giffnni, do
Secretário de Estado de cada pasta José Geraldo Maciel, José
Luiz da Silva Valente e de funcionários graduados (Gibrail
Nabib Gebrim, Adailton Barreto Rodrigues, Masaya Kondo,
Luiz Cláudio Freire de Souza França) à qual o serviço era
prestado, além da homologação expressa do Governador
Arruda. Além disso, os pagamentos feitos a tais empresas eram
autorizados, recusados e controlados pelo Secretário da pasta e
também diretamente por Arruda e Durval Barbosa. Estes dois,
por meio do sistema SIGGO, que registra a emissão da ordem
bancária de cada pagamento feito, controlavam a data em que o
pagamento era feito à empresa. Deste modo, coordenaram o
cálculo do valor e o momento de recebimento da propina

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solicitada do representante da empresa por Arruda e Paulo


Octávio e por ela oferecido a eles, e que era entregue a um dos
membros do núcleo de arrecadação de propina.
3. O Núcleo de Arrecadação de Propina e Distribuição
entre os Membros da Quadrilha, integrado por Durval Barbosa
Rodrigues,19 Oinézio Pontes, Marcelo Toledo, Marcelo
Carvalho de Oliveira, Domingos Lamoglia de Sales Dias, Luiz
Paulo Costa Sampaio, Fábio Simão, Gibrail Nahih Gebrim,
Adailton Barreto Rodrigues, Masaya Kondo, Luiz Cláudio
Freire de Souza França, teve a atribuição de receber a propina
dos representantes das empresas, no momento mais próximo à
data do pagamento da prestação de serviços pelo GDF, no exato
valor correspondente ao percentual incidente sobre o valor
pago, conforme previamente definido e/ou combinado
diretamente pelos líderes Arruda e Paulo Octávio com os
representantes das empresas, que ofereciam a propina. Durval
Barbosa Rodrigues centralizou todo o esquema de arrecadação
de propina, mais intensamente a partir meados de 2007.
Controlava rigidamente cada pagamento e o valor da propina
correspondente, solicitando de alguém vinculado a cada
empresa a oferta e entrega a ele mesmo, em seu local de
trabalho. Durval delegou a tarefa de receber esta propina, em
alguns casos e ocasiões a Marcelo Toledo Watson que a
entregava a ele ou diretamente Arruda. Omézio Pontes pegava
parte desta propina com Durval Barbosa para si mesmo e para
ser entregue a Arruda e a outros membros da quadrilha.
Marcelo Carvalho pegava parte desta propina com Durval
Barbosa para ser entregue a Paulo Octávio.
4. O Núcleo Gestor de Apoio Político e de Pagamento a
Parlamentares e Representantes de Partidos Políticos, integrado
por Durval Barbosa Rodrigues (por certo período), José Geraldo
Maciel, Omézio Pontes, Domingos Lamoglia e Fábio Simão,
teve a atribuição de auxiliar os líderes da quadrilha a conquistar
e comprar apoio político, entregar propina a parlamentares e
representantes de partidos políticos, oferecida por José Roberto
Arruda e Paulo Octávio Pereira, em troca de apoio político e

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parlamentar. Também atuavam para evitar que parlamentares e


representantes de partidos políticos corrompidos por eles
fizessem eficiente fiscalização legislativa da atuação
administrativa e política do Governador e sua equipe de
governo.
5. O Núcleo de Tarefas Gerais era integrado por Marcelo
Toledo Watson, Rodrigo Diniz Arantes e Luiz Paulo Costa
Sampaio, que auxiliava Arruda e Durval Barbosa Rodrigues,
respectivamente. Eles executaram tarefas de transporte de
propina arrecadada pela quadrilha, participaram de reuniões
dos membros da quadrilha, e cumpriam tarefas gerais de
interligação entre seus membros.
Esta quadrilha tinha duplo objetivo: a) implementar um
projeto de poder político que lhes garantisse acesso direto ao
dinheiro público, para desviá-lo e dele se apropriar mediante
corrupção; e b) assegurar o enriquecimento ilícito dos seus
membros, mediante lavagem de dinheiro. (fls. 52/55)

Tanto pela leitura da extensa denúncia, como também pela leitura


dos trechos dela extraídos, que retratam, em síntese, os fatos criminosos
imputados ao paciente, não houve qualquer menção da prática de
eventual crime eleitoral pelo paciente. O que há na denúncia, de fato, é a
efetiva descrição dos crimes de corrupção, lavagem de capitais e
quadrilha, fatos supostamente criminosos pelos quais os denunciados,
dentre eles o paciente, deverão se defender, nos exatos limites da
denúncia.
A propósito, embora não seja necessário lembrar, o réu se defende
dos fatos narrados na denúncia e não da capitulação legal nela contida,
sendo permitido ao Magistrado sentenciante, quando da prolação da
sentença, corrigir a definição jurídica contida na denúncia, nos exatos
termos do art. 383, do CPP (instituto da emendatio libelli). A denúncia, à
medida que descreve e imputa a alguém um episódio criminoso, limita e
fixa os limites da atuação do Magistrado, que não poderá decidir além ou
fora daquela imputação. Daí a inteira aplicação do "princípio da
correlação".

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É por esse motivo que o art. 41, do CPP, prevê que a denúncia deve
conter a exposição do fato criminoso, com todas as suas circunstâncias, a
qualificação do acusado ou esclarecimentos pelos quais se possa
identificá-lo, a classificação do crime e, quando necessário, o rol das
testemunhas. A esse respeito, são inúmeros os precedentes desta CORTE:
HC 177.452 AgR/ES, Rel. Min. RICARDO LEWANDOWSKI, Segunda
Turma, DJe de 13/02/2020; HC 133.914/RJ, Rel. Min. CÁRMEN LÚCIA,
Segunda Turma, DJe de 02/06/2016; Inq 3.393/PB, Rel. Min. LUIZ FUX,
Primeira Turma, DJe de 14/11/2014; RHC 110.085/DF, Rel. Min. AYRES
BRITTO, Segunda Turma, DJe de 16/04/2012; HC 88.875/AM, Rel. Min.
CELSO DE MELLO, Segunda Turma, DJe de 12/03/2012; Inq 3.016/SP, Rel.
Min. ELLEN GRACIE, Tribunal Pleno, DJe de 17/02/2011; Inq 2.677/BA,
Rel. Min. AYRES BRITTO, Tribunal Pleno, DJe de 22/10/2010; HC
100.908/SP, Rel. Min. AYRES BRITTO, Primeira Turma, DJe de 05/02/2010
e HC 83.125/DF, Rel. Min. MARCO AURÉLIO, Primeira Turma, DJe de
07/11/2003.
Aliás, a mera menção de cunho político-eleitoral contida na
descrição fática dos crimes pelos quais o paciente foi denunciado
refere-se à estruturação do grupo criminoso e não tem o condão de
atrair a competência da Justiça Eleitoral, tampouco para caracterizar
fortes indícios da prática de crime eleitoral, especialmente aquele
previsto no art. 350, do Código Eleitoral, pois para a tipificação do
referido crime há a necessidade de comprovar-se que (1) houve o
efetivo recebimento de valores, (2) os valores foram utilizados e não
foram declarados e que (3) tinham por objeto financiar campanhas
eleitorais.
A esse respeito, bem destacou a Procuradoria-Geral da República no
seu parecer:

18. Muito embora a denúncia tenha feito menção a fatos


ocorridos no curso da campanha eleitoral, o contexto que
ensejou a acusação não foi a campanha muito menos as
eventuais atividades ilícitas praticadas no seu curso. A
denúncia alcançou condutas delituosas praticadas na gestão de

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José Roberto Arruda como Governador, mais especificamente


a atuação do grupo criminoso que se instalou nos poderes do
Distrito Federal, cujas atividades permitiram o desvio de
vultosos valores.
19. E tanto é assim que a denúncia não fez a descrição de
fatos que pudessem tipificar crime eleitoral, o que impede o
reconhecimento da competência da justiça eleitoral, como quer
o Impetante.

No mesmo sentido, registrou o Superior Tribunal de Justiça quando


do julgamento do RHC 128.447/DF, Rel. Min. REYNALDO SOARES DA
FONSECA, oportunidade em que, por unanimidade de votos, não se
reconheceu a presença de indícios mínimos da prática de crime eleitoral
nos fatos narrados na denúncia:

[...]
A Corte local, por seu turno, assentou que "a denúncia não
imputou ao paciente os crimes eleitorais mencionados, e os
impetrantes tampouco dão notícia de qualquer diligência ou
encaminhamento da instrução criminal capaz de justificar o justo
receio de eventual emendatio libelli nesse sentido. Além disso, os
trechos da denúncia pinçados pela defesa não contêm as
elementares dos crimes eleitorais mencionados, de modo que a
remota possibilidade de emendatio libelli por ocasião da sentença
realmente carece de qualquer lastro no processo que justifique até
mesmo o interesse de agir do paciente ao arguir a exceção de
incompetência".
Consignou, ademais, que "não há nenhuma notícia nos autos
de que os supostos delitos eleitorais praticados pelo paciente
ocorreram, ou que, pelo menos, estejam em apuração. Pelo contrário,
do que se sabe, o paciente não é investigado ou processado por crimes
eleitorais, daí porque se mostra totalmente desnecessária a discussão
sobre a existência ou não da imaginada conexão. Ora, para que se
justifique o simultaneus processus, pressupõe-se, no mínimo, a
existência de apuração formal dos supostos delitos conexos, via
inquérito policial, situação, todavia, inexistente no caso".

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[...]
Conforme relatado, o recorrente aduz, em síntese, que "a
descrição dos fatos narrados na denúncia aponta para a suposta
participação, em tese, nos crimes eleitorais" descritos nos arts. 350 e
354-A, ambos do Código Eleitoral. A propósito, transcrevo
mencionados tipos penais:
Art. 350. Omitir, em documento público ou
particular, declaração que dele devia constar, ou nele
inserir ou fazer inserir declaração falsa ou diversa da que
devia ser escrita, para fins eleitorais:
Pena - reclusão até cinco anos e pagamento de 5 a 15
dias -multa, se o documento é público, e reclusão até três
anos e pagamento de 3 a 10 dias -multa se o documento é
particular.
Art. 354-A. Apropriar-se o candidato, o
administrador financeiro da campanha, ou quem de fato
exerça essa função, de bens, recursos ou valores
destinados ao financiamento eleitoral, em proveito
próprio ou alheio:
Pena - reclusão, de dois a seis anos, e multa.
De pronto, destaco que não é possível imputar ao
recorrente o crime do art. 354-A do Código Eleitoral, uma vez
que se trata de figura típica inserida no ordenamento pátrio por
ocasião da Lei n. 13.488/2017. Dessarte, revela-se notória a
impossibilidade de aplicação retroativa de norma penal
incriminadora, visto que os fatos narrados na denúncia foram
praticados em momento anterior à entrada em vigor da
mencionada lei.
[...]
No que diz respeito ao art. 350 do Código Eleitoral, tem-se
que se trata de falsidade ideológica com finalidade eleitoral.
Contudo, o Tribunal de origem, ao analisar a alegação do
recorrente, assentou que "os trechos da denúncia pinçados pela
defesa não contêm as elementares dos crimes eleitorais
mencionados".
Como é de conhecimento, "a par da existência do tipo penal

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eleitoral específico, faz-se necessária, para sua configuração, a


existência de violação do bem jurídico que a norma visa tutelar,
intrinsecamente ligado aos valores referentes à liberdade do
exercício do voto, a regularidade do processo eleitoral e à
preservação do modelo democrático" (CC 127.101/RS, Rel.
Ministro Rogerio Schietti Cruz, Terceira Seção, julgado em
11/02/2015, DJe 20/02/2015).
[...]
Nesse contexto, não há se falar em equívoco evidente na
capitulação, uma vez que as instâncias ordinárias, soberanas no
exame dos elementos fáticos e probatórios dos autos,
concluíram pela não configuração da finalidade eleitoral nas
condutas narradas. Dessa forma, não há se falar em declínio da
competência para a Justiça eleitoral.
A propósito, confira-se precedente da minha relatoria,
também relacionado à Operação "Caixa de Pandora":
PENAL E PROCESSO PENAL. AGRAVO
REGIMENTAL NO RECURSO EM HABEAS CORPUS. 1.
OPERAÇÃO CAIXA DE PANDORA. "FARRA DOS
PANETONES". CRIME DE FALSIDADE IDEOLÓGICA.
INCOMPETÊNCIA DA JUSTIÇA COMUM. NÃO
VERIFICAÇÃO. 2. AUSÊNCIA DE FINALIDADE
ELEITORAL. IMPOSSIBILIDADE DE
RECONHECIMENTO DA COMPETÊNCIA DA JUSTIÇA
ELEITORAL. 3. AGRAVO REGIMENTAL A QUE SE
NEGA PROVIMENTO. 1. O recorrente pretende, em
síntese, demonstrar que a competência para julgar o crime
de falsidade ideológica é da justiça eleitoral, por se tratar,
em verdade, de crime eleitoral, previsto no art. 350 do
Código Eleitoral, e não de crime comum, previsto no art.
299 do Código Penal. Contudo, pela leitura da denúncia,
da sentença e do acórdão recorrido, não ficam dúvidas
com relação à finalidade da conduta imputada ao
recorrente, que visava alterar a verdade sobre fato
juridicamente relevante, com o objetivo de "encobrir e
justificar as imagens em vídeo veiculado na imprensa, na

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qual ele é mostrado recebendo vultosas quantias de


dinheiro". 2. Dessarte, não há se falar em crime eleitoral
porquanto, "a par da existência do tipo penal eleitoral
específico, faz-se necessária, para sua configuração, a
existência de violação do bem jurídico que a norma visa
tutelar, intrinsecamente ligado aos valores referentes à
liberdade do exercício do voto, a regularidade do processo
eleitoral e à preservação do modelo democrático". (CC
127.101/RS, Rel. Ministro ROGERIO SCHIETTI CRUZ,
TERCEIRA SEÇÃO, julgado em 11/02/2015, DJe
20/02/2015). No mesmo diapasão: CC 123.057/BA, Rel.
Ministro RIBEIRO DANTAS, TERCEIRA SEÇÃO, julgado
em 11/05/2016, DJe 19/05/2016 e CC 39.519/PR, Rel.
Ministro ARNALDO ESTEVES LIMA, TERCEIRA SEÇÃO,
julgado em 14/02/2005, DJ 02/03/2005, p. 182. 3. Agravo
regimental a que se nega provimento. (AgRg no RHC
93.467/DF, Rel. Ministro REYNALDO SOARES DA
FONSECA, QUINTA TURMA, julgado em 06/12/2018, DJe
19/12/2018)

Oportuno consignar, outrossim, que o mandamus não se


destina à correção de controvérsias ou de situações que
demandem aprofundado exame de fatos e provas. Restringe-se,
portanto, ao controle de decisões no plano objetivo, ou seja, que
contemplem ilegalidade passível de reconhecimento de forma
objetiva, sem ingresso no plano de subjetivismo próprio da
atividade jurisdicional ordinária.

Portanto, ao menos neste via processual, as menções contidas na


denúncia apenas descrevem a sistemática do grupo criminoso, com
atuação de agentes públicos e empresários, vinculados pela união nos
desígnios de cometer os mesmos crimes, um sofisticado estratagema de corrupção
e de desvio de recursos públicos no Distrito Federal.
Ausentes, portanto, indícios mínimos da prática de crime eleitoral
pelo paciente, conforme verificado pela descrição dos fatos criminosos
imputados na denúncia Ministerial, não verifico a existência de

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constrangimento ilegal ao paciente pela violação ao entendimento


adotado no INQ 4.435 AgR-quarto/DF (Rel. Min. MARCO AURÉLIO,
Tribunal Pleno, DJe de 21/08/2019).

Diante do exposto, INDEFIRO a ordem de HABEAS CORPUS.


É o voto.

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Extrato de Ata - 21/02/2022

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PRIMEIRA TURMA
EXTRATO DE ATA

HABEAS CORPUS 194.637


PROCED. : DISTRITO FEDERAL
RELATOR : MIN. MARCO AURÉLIO
REDATOR DO ACÓRDÃO : MIN. ALEXANDRE DE MORAES
PACTE.(S) : DOMINGOS LAMOGLIA DE SALES DIAS
IMPTE.(S) : PIERPAOLO CRUZ BOTTINI (25350/DF, 163657/SP) E
OUTRO(A/S)
IMPTE.(S) : IGOR SANT ANNA TAMASAUSKAS (25399/DF, 173163/SP)
ADV.(A/S) : EUGENIO JOSE GUILHERME DE ARAGAO (04935/DF, 30746/ES,
428274/SP)
COATOR(A/S)(ES) : SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA

Decisão: Após os votos dos Ministros Marco Aurélio, Relator, e


Dias Toffoli, que deferiam a ordem, para assentar a competência da
Justiça Eleitoral, pediu vista dos autos o Ministro Alexandre de
Moraes. Primeira Turma, Sessão Virtual de 25.6.2021 a 2.8.2021.

Decisão: A Turma, por maioria, denegou a ordem, nos termos do


voto do Ministro Alexandre de Moraes, Redator para o acórdão,
vencidos os Ministros Marco Aurélio, Relator, e Dias Toffoli.
Primeira Turma, Sessão Virtual de 11.2.2022 a 18.2.2022.

Composição: Ministros Cármen Lúcia (Presidente), Dias Toffoli,


Rosa Weber, Luís Roberto Barroso e Alexandre de Moraes.

Luiz Gustavo Silva Almeida


Secretário da Primeira Turma

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