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Viagem Incompleta
A EXPERIÊNCIA BRASILEIRA (1500-2000)

A GRANDE TRANSAÇÃO

Carlos Guilherme Mota


(ORGANlZADOR)

DEDALU~.. Acervo - FFLCH-HI .'


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21200002681

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Viagem incompleta: a experiência brasileira (1500-2000) : a


grande transação I Cados Guilherme Mota organizador.
- São Paulo: Editora SENAC São Paulo, 2000.

Vários autores.
'Bibliografia. SBD-FFLCH-USP
ISBN 85-7359-111-0

1. Brasil- Civilização 2. Brasil- Condições sociais 3. Bra-


sil- História-1500-2000 4. Brasil- Política e governo 5. Lite- 11IIIl,,1 111

ratura brasileira 6. Raças - Brasil!. Mota, Cados Guilherme,


1941-.

00-0077 CDD-981 .
EDITORA
c:==::J Co-edição:
Índices para catálogo sistemático: senac
1. Brasil: História: 1500-2000 981 00
SÃOPAULO
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SÃO PAULO

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Introdu~ão

Es~e ensaiotem comotemaa políticabrasileiranos anos noventa,


questionando ~m que medida o discurso e a prática de nossos govemantes /

,orientaram-se por valores democráticos. Até que ponto os governos Femando


Collor de Mello, Itamar Franco e Femando Henrique Cardoso ~ontribuír~
para definir uma maneira nova de pensar e fazer política no Brasil? Será
que se confirmaram as avaliações feitas nos anos oitenta, segundo as quais
- concluída a transição do regime militar para o estado de direito - nossos
atores políticos passariam a ver a democracia como valor universal, como

ri jogo aberto de possibilidades, marcado pelo conflito e pela indeterminação?


Ou teria o país continuado a conviver com argumentos e práticas de
questionável afinidade com a democracia? Que conceitos pautaram a ação)
"ê,
pública nos últimos anos? Foram conserva<;las em nossa agenda noções
excludentes de modernidade? Leituras que sujeitam a história a leis ou "mar-
chas inelutáveis" continuaram em evidência? Manteve-se o exercício do
poder amparado em pactos e conciliações de elites, que, em nome da
'!;
govemabilidade, inibem o dissenso, comprometem a alteridade?
.,é
Antes de pretender respostas, faremos breve retrospectiva dos anos
oitenta. Recordaremos o clima de moderado otimismo que se observava
quanto às perspectivas do Brasil para a década atual. Esperava-se que a
meta de estabilização da economia, vista como prioritária, fosse a1cançada
sem prejuízo do objetivo de consolidação da democracia, a despeito das
~
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.""'----- perdas a serem impostas a vários setores. Daremos destaque à interpretação
de que a "linguagem da democràcia" estar-se-ia tomando hegemônica, de
que os atores políticos teriam aprendido a valorizar o conflito como ineren-
te à prática democrática. A expectativa era de que questões econômicas e
sociais seriam encaminhadas segundo um processo discursivo, negociado.

'-~
" 251
" 250 Torcísio Costa
Os anos noventa: o ocoso do político e o socrolizoção do mercodo

Neste contexto, trataremos, com algum detalhamento, a experiência consti-


tuinte de 1987-1988. Apresentaremos a Constituição como inovadora no
com a' recessão em curso,' tinha-se
-como inevitável que o Estado teria de
~
abdicar do papel deindutor do desen-
plano político e ambígua em termos econômicos, refletindo o discurso que
volvimento e da diversificação do par-
predominava.
5:.
que produtivo nacional. Tampouco o
Estado disporia de meios para se man-

o elogio do conflito J
i'X
ter como rede de proteção da iniciati-
va privada, socializando perdas de
ii'
I:f: empresários falidos, protegendo com
Em geral, as análises sobre a conjuntura brasileira produzidas no fim i barreiras ou subsídios formas arcai-
dos anos oitenta avaliam como positiva a evolução da política nacional no ~
,'" ças de produção, incentivando o de-
período. Lembram que, enquanto aqueles anos representaram "década per- ~. senvolvimento de áreas de ponta que
dida" em termos econômicos, com agravamento da crise do Estado e fra- I "
, não tinham condições de competitivi-
casso dos planos de estabilização da moeda, o calendário de liberalização
dade. Chegara o momento de pôr fim
política foi cumpridQ'a contento. Os militares regressaram à caserna, de jj; ao modelo varguista em favor de uma
forma consentida; os civis ascenderam ao poder com José Sarney, após o ~.
falecimento inesperado de Tancredo Neves; a Assembléia Nacional Consti- t
.,',
solução de contornos ainda indefini-

tuinte revogou o "entulho autoritário", dotando o país de uma Constituição


que pela primeira vez em nossa história constitucional definiu direitos de
.,.. dos, mas que privilegiaria o mercado
como motor do desenvolvimento, sem ~
prejuízo do objetivo de restaurar a
cidadania antes de atribuições do Estado; e foi retomada a prática de eleição
capacidade de investimento do Esta-
direta para presidente da república, após hiato de quase trinta anos. Tam-
do, sobretudo para programas sociais.
bém é lembrada a participação crescente da sociedade civil no debate polí-
Alguns analistas ressaltavam Capa do livro "Diretas já". de Henfil,
tico, indicada por marcos como a campanha "Diretas-já!", em 1984, e a Editora Record. 1984.
que não seria fácil conciliar as condi-
.,mobilização popular. em torno do exercício .constituinte. ções para o ajuste econômico com a
A expectativa que prevalecia nas análises era de que nos 'anos noventa .'
f perspectiva de aprofundamento da de-
política e economia tomariam a mesma direção, o processo de con solidação mocracia. Francisco Weffort chegava a falar de uma contradição entre eco-
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da demócracia..evoluiria passo a passo com a.estabiliza~o da moeda e a nomia e democracia que se imporia a todos os segmentos do espectro político.
retomada do crescimento, segundo um novo modelo de desenvolvimento. *"
O conflito se daria entre as exigências para o saneamento do Estado e as
Se alguma lição havia sido extraída do malogro dos quatro planos econômi- '.'.
.,., expectativas de atendimento das demandas sociais colocadas em pauta com
cos produzidos durante a "Nova República", era o reconhecimento de que a a liberalização política. Não se alcançaria o equilíbrio das finanças do Esta-
~stabilização da economia somente viria com o equacionamento das crises do sem sacrificar as perspectivas imediatas de democratização econômica e
fiscal e financeira do Estado, o que exigia mudança no padrão de desenvol-
social, que dependeriam, obviamente, de um reforço das políticas públi-
" vimento. Parecia generalizada a percepção de que o Estado não reunia con-
(
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dições de continuar a atender aos objetivos do modelo desenvolvimentista
em voga desde Vargas, a não ser mediante crescente endividamento inter-
- cas.1 O caminho inverso tampouco parecia promissor para os democratas.
Sabia-se dos riscos embutidos em um descontrole dos gastos públicos e

\ no, com forte impacto inflacionário.


Francisco Weffort. "Capítulo 6", em Qual democracia? (São Paulo: Companhia das Letras, 1992),
Por várias razões, entre as quais a redução dos fluxos externos de fi-
pp. 121-40,
nanciamento a partir da crise do México (1982) e aqueda de receitas fiscais

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Torcísio
(osto Os onos novento:o ocasodo político e o socrolizoçãodo mercodo

seus efeitos inflacionários, especialmente diante do histórico dos países la- . do em ambos os lados do espectro político pela violência do fim dos anos
tino-americanos. Albert Hirschman lembrava a "seqüência cícIica simples e
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sessenta e início dos anos setenta, conservadores e socialistas estariam con-
desoladora" que teria caracterizado a política da região neste século, com siderando a democracia não mais como simples instrumento para manuten-
ditaduras instáveis alternando lugar com governos civis pródigos e infla- ção ou conquista do poder, como tinha sido praxe desde a República Velha. ,

cionários, sempre em detrimento do quadro social, cada dia menos equãni- Ela passara a ser reconhecida como um valor em si mesma, sustentava!
me.2 _.
Weffort. Isto implicava atribuir autonomia à ação política, rejeitando I
Outros se reportavam, ainda, como possível fonte de instabilidade, às determinismos. Não haveria espaço nesse novo discurso para leis da his-
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perdas que deveriam advir da mudança do papel do Estado para vários gru- tória, sujeitos privilegiados ou déspotas esclarecidos. A política se trans-
pos privados, muitos dos quais com reconhecido trânsito nos meandros do il formava em uma cosa a fare, em processo aberto, caracterizado pela
poder. A construção de um Estado menos patrimonialista afetaria desde se- indeterminação. Suas regras seriam sempre passíveis de atualização, desde
tores agrários tradicionais, acostumados a políticas de cotas e preços míni- que para tanto se manifestasse a maioria, segundo procedimentos que aca-
mos, até segmentos influentes do empresariado urbano, que subsistiam à tassem o dissenso, a diferença, o conflito. Em vez de ser tido como disfunção
custa de subsídios e proteção tarifária, passando por áreas que se haviam ,em uma realidade harmônica e uniforme, o conflito de interesses se conver-
-
cartelizado sob anuência ou estímulo - do Estado. Isto sem falar das mais tia em base de legitimidade para o modelo político que aos poucos estaria se
variadas formas de "corporativismo popular", organizadas em defesa de consolidando no Brasil.5
estratos mais bem aquinhoados dos assalariados, como os funcionários de A defesa do dissenso como essencial à democracia constava do dis-
empresas públicas, de bancos oficiais federais e de determinados ramos da curso dos intelectuais de oposição ao regime militar, pelo menos desde a
magistratura. a.,.. primeira metade dos anos setenta. Basta lembrar a crítica feita por Femando
Feitas essas qualificações, não há como negar que o sentimento predo- Henrique Cardoso, em artigo escrito em 1973, à leitura segundo a qual o
minante entre os analistas era de moderado otimismo. A despeito dos riscos retomo à democracia significaria a "eliminação dos conflitos pela via de
de escalada inflacionária e de deterioração do quadro social, acreditava-se na adesão simbólica a valores pseudoconsensuais que estabelecem uma ordem
possibilidade de inaugurar um novo modelo de desenvolvimento por meio do supostamente homogênea". Nada poderia ser menos de acordo com os de-
exercício da democracia e não contra o exercício da democracia. Mesmo safios da conjuntura de então, argumentava Cardoso, no mpmento em que o
aqueles, como Bolívar Lamounier, qúe sugeriam haver demanda reprimida país se debatia para sair da fase mais repressiva do período autoritário. Para
por lideranças fortes após a "débil presidência Sarney~', não viam o retroces- que se desse um passo adiante rumo à liberalização do regime, o que se
so político como ameaça presente.3 Agravando-se a situação social, Francis- impunha era a articulação de um conjunto de forças políticas que pudesse
co Weffort admitia a hipótese de congelamento do processo de consolidação assegurar a legitimação da divergência, dentro e fora do aparelho do Esta-
democrática, mas não estimava como provável o retemo ao autoritarismo.4 do. Aceitar o argumento de que a burocracia estatal, os partidos existentes ou
Desde meados da década, em seu livro Por que democracia? (1985), pretensas vanguardas revolucionárias poderiam "engolfar" a variabilidade
Weffort argumentava que a direita e a esquerda estariam cada dia mais afei- dos interesses sociais, sob bandeiras como a do "Brasil-Potência" ou a do
tas à linguagem da democracia. Por conta de fatores como o trauma causa- imediato nivelamento social, seria alentar o discurso totalitário, abafar a
dissonância cada dia mais necessária. Tampouco era bem-vinda para Cardo-
so a hipótese de condução do processo por um condottiere que procedesse,
2 Albert Hirschrnan, "A economia polftica do desenvolvimento latino-americano", em Revista Bra- com seu carisma pessoal, ao arquivamento da doutrina de segurança nacio-
sileira de Ciências Sociais, nO3, fevereiro 1987.
3 Bolívar I.amounier, "Capítulo I", em De Geisel a Coltor: o balanço da transição (São Paulo:
Sumaré, 1990), pp. 13-36.
4 Francisco Weffort, "Capítulo 4", em Qual democracia?, cit., pp. 85-104. Francisco Weffort, Por que democracia? (São Paulo: Brasiliense, 1985).
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, Torcísio(osto Osanosnoventa:o ocasodo políticoe o socrolizoçãodo mercado

seus efeitos inflacionários, especialmente diante do histórico dos países la- do em ambos os lados do espectro político pela violência do fim dos anos
tino-americanos. Albert Hirschman lembrava a "seqüência cíc1ica simples e sessenta e início dos anos setenta, conservadores e socialistas estariam con-
desoladora" que teria caracterizado a política da região neste século, com siderando a democracia não mais como simples instrumento para manuten-
ditaduras instáveis alternando lugar com governos civis pródigos e infla- ção ou conquista do poder, como tinha sido praxe desde a República Velha. ,
cionários, sempre em detrimento do quadro social, cada dia menos equãni-
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Weffort. Isto implicava atribuir autonomia à ação política, rejeitando
Outros se reportavam, ainda, como possível fonte de instabilidade, às determinismos. Não haveria espaço nesse novo discurso para leis da his-
perdas que deveriam advir da mudança do papel do Estado para vários gru- tória, sujeitos privilegiados ou déspotas esclarecidos. A política se trans-
pos privados, muitos dos quais com -reconhecido trânsito nos meandros do formava em uma cosa a fare, em' processo aberto, caracterizado pela
poder. A construção de um Estado menos patrimonialista afetaria desde se- indeterminação. Suas regras seriam sempre passíveis de atualização, desde
tores agrários tradicionais, acostumados a políticas de cotas e preços míni- que para tanto se manifestasse a maioria, segundo procedimentos que aca-
mos, até segmentos influentes do empresariado urbano, que subsistiam à tassem o dissenso, a diferença, o conflito. Em vez de ser tido como disfunção
custa de subsídios e proteção tarifária, passando por áreas que se haviam .em uma realidade harmônica e uniforme, o conflito de interesses se conver-
cartelizado sob anuênci'a - ou estímulo - do Estado. Isto sem falar das mais tia em base de legitimidade para o modelo político que aos poucos estaria se
variadas formas de "corporativismo popular", organizadas em defesa de consolidando no Brasi1.5
estratos mais bem aquinhoados dos assalariados, como os funcionários de A defesa do dissenso como essencial à democracia constava do dis-
empresas públicas, de bancos oficiais federais e de determinados ramos da curso dos intelectuais de oposição ao regime militar, pelo menos desde a
magistratura. , primeira metade dos anos setenta. Basta lembrar a crítica feita por Femando
Feitas essas qualificações, não há como negar que o sentimento predo- Henrique Cardoso, em artigo escrito em 1973, à leitura segundo a qual o
minante entre os analistas era de moderado otimismo. A despeito dos riscos retomo à democracia significaria a "eliminação dos conflitos pela via de
de escalada inflacionária e de deterioração do quadro social, acreditava-se na adesão simbólica a valores pseudoconsensuais que estabelecem uma ordem
possibilidade ~e inaugurar um novo modelo de desenvolvimento por meio do supostamente homogênea". Nada poderia ser menos de acordo com os de-
exercício da democracia e não contra o exercício da democracia. Mesmo safios da conjuntura de então, argumentava Cardoso, no momento em que o
aqueles, como Bolívar Lamounier, que sugeriam haver demanda reprimida país se debatia para sair da fase mais repressiva do período autoritário. Para
por lideranças fortes após a "débil presidência Sarney~', não viam o retroces- que se desse um passo adiante rumo à liberalização do regime, o que se
so político como ameaça presente. 3Agravando-se a situação social, Francis- impunha era a articulação de um conjunto de forças políticas que pudesse
co Weffort admitia a hipótese de congelamento do processo de consolidação assegurar a legitimação da divergência, dentro e fora do aparelho do Esta-
democrática, mas não estimava como provável o retemo ao autoritarismo.4 do. Aceitar o argumento de que a burocracia estatal, os partidos existentes ou
Desde meados da década, em seu livro Por que democracia? (1985), pretensas vanguardas revolucionárias poderiam "engolfar" a variabilidade
Weffort argumentava que a direita e a esquerda estariam cada dia mais afei- dos interesses sociais, sob bandeiras como a do "Brasil-Potência" ou a do
tas à linguagem da democracia. Por conta de fatores como o trauma causa- '-0-- imediato nivelamento social, seria alentar o discurso totalitário, abafar a
dissonância cada dia mais necessária. Tampouco era bem-vinda para Cardo-
so a hipótese de condução do processo por um condottiere que procedesse,
2 Albert Hirschman, "A economia política do desenvolvimento latino-americano", em Revista Bra- com seu carisma pessoal, ao arquivamento da doutrina de segurança nacio-
sileira de Ciências Sociais, n° 3, fevereiro 1987.
3 Bolívar Lamounier, "'Capítulo I", em De Geisel a Colfor: o balanço da transição (São Paulo:
Sumaré, 1990), pp. 13-36.
4 Francisco Weffort, "Capítulo 4", em Qual democracia?, cit., pp. 85-104. 5 Francisco Weffort, Por que democracia? (São Paulo: Brasiliense, 1985).
"254 255
Tarcísio Costo Os onos noventa: o ocaso do político e a sacrolizaçóo do mercodo

"

nal, à suspensão do arbítrio. Seria mais legítimo e seguro congregar os seto- pela participação direta de um número expressivo de grupos sociais nas pró-
res moderados do regime e os segmentos realistas da oposição em tomo de prias deliberações da Assembléia, que abriu várias instâncias para interven-
uma pauta que permitisse o pronto restabelecimento das liberdades de asso- ção da sociedade no processo constituinte, entre as quais audiências públicas
ciação e de expressão. Daí se iniciaria a esperada construção de uma "de- e emendas populares. Das primeiras, realizadas nos primeiros meses da As-
mocracia substantiva", que pudesse materializar, sempre a partir do embate sembléia, participaram mais de uma centena de organizações não governa-
de posições conflitantes, uma utopia brasileira, contemporânea, igualitária, mentais, associações de classe e grupos de interesse, provenientes das diversas
socializante e democrática.6 regiões do Brasil e cobrindo os mais diferentes campos. Os depoimentos co-
Dez anos depois, nos anos oitenta, Cardoso, no te~to "Regime político lhidos influenciaram os projetos elaborados pelos comitês temáticos que com-
e mudança social: a transição para, a democracia", faria eco ao otimismo punham a Assembléia. Quanto às emendas populares, foi tabulado um total
qualificado de Weffort. O Brasil teria mudado. Embora sob as limitações do de 122 contribuições, subscritas por mais de 12 milhões de assinaturas. Algu-
modelo de "transição controlada", seriam inúmeras as possibilidades aber- mas emendas tiveram acolhida favorável e serviram de referência para dispo-
tas para a ação política. O ativismo dos movimentos sociais era dado novo sitivos do projeto final de Constituição, aprovado pelo plenário da Assembléia
e importante. Questionava uma tradição elitista no tratamento da coisa pú- em outubro de 1988.
blica, além de estimu~ar uma ética de solidariedade para com os mais po- Muito em função de seu caráter participativo, a Assembléia Consti-
bres. Faltaria a esses movimentos, contudo, uma perspectiva de conjunto, tuinte produziu um resultado consoante o Brasil daquela década: inovador
uma estratégia abrangente e contínua de transformação social. Daí a neces- no campo dos direitos e indefinido no plano econômico. Além de reafirmar
sidade de continuar a pensar o que fazer "no" e "com" o Estado, de modo a os direitos e garantias individuais presentes na Carta de 1946, a Assembléia
redirecioná-Io a favor da maioria, postulava Cardoso. Deveriam ser introduziu institutos com9 o mandado de segurança coletivo, o habeas data
priorizados os objetivos de controle e socialização do Estado, a serem per- (facultando aos cidadãos o acesso às informações disponíveis a seu respeito
seguidos por partidos políticos e outras formas de representação que se re- no âmbito do Estado) e o mandado de injunção (salvaguardando o exercício
velassem devidamente afinados com o perfil heterogêneo e conflituoso da de direitos e liberdades constitucionais, na falta de norma reguladora). Dis-
sociedade brasileira. A valorização do dissenso continuava na ordem do pôs, explicitamente, que o princípio da igualdade perante a lei implicava
dia. Enquanto os gestores da transição insistiam em manter separadas a ausência de discriminação de minorias. Considerou o racismo crime
esfera do social da esfera do político, Cardoso reivindicava a subordinação inafiançável e imprescritível. Aprovou dispositivos específicos para prote-
da primeira à segunda, o controle e a crítica pela sociedade e atores políti- ção dos direitos dos índios, crianças, adolescentes, idosos e deficientes físi-
cos da formulação e da gestão das políticas públicas.7 cos. Estendeu às associações voluntárias, aos sindicatos e aos partidos
Logo surgiu ocasião para que o político pudesse pautar o social e .0 políticos o direito de se fazerem representar na Justiça como pessoas coleti-
il econômico: a Assembléia Nacional Constituinte. Vista como desenlace da vas. Consagrou a liberdade de associação partidária. Previu, além dos me-
transição, ou ato de fundação normativa da nova ordem, a Constituinte pro- canismos clássicos de representação, formas de democracia direta, como a
rJ vocou mobilização social sem precedentes. Foi a experiência constituinte mais iniciativa popular, o plebiscito e o referendum. Dotou o parlamento de
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participativa na história do país. Não somente pelo intenso envolvimento da
sociedade civil na discússão de temas constitucionais, mas principalmente
maiores poderes, embora mantivesse o sistema presidencialista. Aumentou
a parcela do bolo tributário reservada a estados e municípios, ainda que sem
o repasse correspondente de obrigações, o que sobrecarregou a União.
~ Ampliou os direitos sociais, introduzindo prerrogativas como a semana de
6 Femando Henrique Cardoso, "A questão da democracia", em Autoritarismo e Democratização 44 horas, licença-paternidade, licença de 120 dias à gestante e proteção aos
(Rio de Janeiro: paz e Terra, 1975), pp. 223-40.
~ 7 Id., "Regime político e mudança social: a transição para a democracia", em A construção da trabalhadores domésticos. Garantiu o direito irrestrito de greve. Manteve a
l~, Democracia (São Paulo, Siciliano, 1983), pp. 257-72. unicidade sindical e a contribuição compulsória, mas permitiu centrais sin-
! '--
-I,

256 Torcísio
(osto

"ONDE o BRASIL?" (Carlos Drummond de Andrade) "

dicais e eliminou o poder do Estado de autorizar a criação ou de interferir


nos sindicatos.
Na área econômica, o resultado foi mais ambíguo. Se de um lado o
texto constitucional situou a livre iniciativa como elemento central na Cons-
trução da nova ordem, de outro manteve participação ostensiva do Estado
na economia, seja com a preservação do monopólio estatal em vários se-
tores, seja contemplando uma regulação excessiva em algumas áreas. No
\ artigo primeiro da Constituição, a iniciativa privada foi considerada
'i"fundamento" do estado democráfico de direito, formulação sem corres.,.
I pondente em Cartas anteriores. Tal princípio foi reafirmado no artigo ini-
cial do capítulo dedicado às diretrizes gerais da ordem econômica. Esse
título dispõe, ainda, que a exploração direta de atividade econômica pelo
Estado somente será ~ermitida quando atendendo a imperativos "defini-
dos em lei" (segurança nacional e relevante interesse coletivo), excluindo
a possibilidade de criação de empresas públicas por deliberação exclusiva
,";'-aó executivo, como tinha sido praxe até então. O número de setores da
economia sob controle do Estado não foi, contudo, reduzido. Continuaram
como monopólios estatais a pesquisa, a lavra, a refinação e o transporte do
petróleo, bem como pesquisa, lavra, enriquecimento, industrialização e
"""":"""'-i'!"!"""""'W"',~-"""",,",,,'~w--~~"":r""""""""'~'"7""""""'""'.","
comércio dos recursos minerais. Também sob competência da União foi
POIS É :-"SAQUAR~MA.ÓLl30 DÉPANé~~I.)955. (Reproduçã~/CoI~çãoJulio Bogoricin, 1986)
mantida a exploração de serviços de telefonia, telecomunicações, energia
elétrica, transporte e de serviços portuários. Foi previsto tratamento favo-
recido para as empresas brasileiras de capital nacional. Ampliou-se a ca-
""
'
'
.'
pacidade regulatória do Estado em diversos campos, do capítulo tributário ';
à ordem financeira, em que se chegou a fixar o teto de 12% ao ano para as 1,,
taxas de juros.
Com esse perfil, ousado no plano político e contraditório na esfera
econômica, o processo constituinte terminou se apresentando como obra
inacabada. Não apenas pelo fato de que várias das disposições acordadas
ficaram na dependência, para sua eficácia, de regulamentação por leis com-
plementares ou ordinárias, mas também pela circunstância de que o texto
aprovado previa sua revisão, sob quorum especial, dentro do período de
cinco anos. As expectativas quanto à futura reforma constitucional varia-
vam segundo a orientação política dos atores envolvidos. Para os conserva-
dores, a ênfase deveria recair sobre a revisão da ordem econômico-financeira
que estaria aquém das necessidades de reforma do Estado e da exigência de CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE (Nem de Tal/Agência Estado)
maior integração do Brasil na economia intemac,ional. Nos últimos anos da
n: >:,n;,~
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Os anos noventa: o ocaso do político e o sacrolízoçõo do mercado 257
I]
o ELO PERDIDO :~
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década, com o culto generalizado ao mercado, que se seguiu à derrocada do
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Jt\
"A ausênciado liberalismoqueexpressava
umadínâmico ,~
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J ~; dentrodorealidadesociale econômico
estagnouo'inovi- .,..~..:: socialismo real, intensificou-se a oposição às diretrizes mais acentuadamente
intervencionistas e nacionalistas da Carta, a maior parte das quais herdada,
, mentopolítico,impedindoque,aosedesenvolver,abrigas-
sea emancipação, comoclasse,doindústrianócional.Seu
cumpre assinalar, de experiências constitucionais anteriores. A esquerda,
impacto revelaria'uma classe,retirando-a do névoa
"'.,',r"
por sua vez, insistia em pontos que implicassem democratização imediata
estamentalna qual se enredou[...]. O socialismo,'
numa
de oportunidades. Pregava a pronta implementação dos direitos sociais e a
fasemaisrecente,partiriadeuni patamardemocrático,
de "" reforma dos artigos relativos à reforma agrária, de modo a permitir que ela
baseliberal,comovalorpermanente
e nãomeramente
ins- se fizesse também em terrras produtivas.
trumental [...]. O Estado
seriaoutro,nãoo monstro ~. ' Também estava em pauta uma reforma política que contemplasse
patrimanial-estamentol-autoritário
queestávivona reali-
",'., não só o plebiscito agendado para 1993 sobre sistema de governo, mas
I>' dadebrasileira." também mudanças na legislação eleitoral e no quadro partidário. Eram
defendidas, assim, alterações no sistema de representação, que passaria a
Raymunda Faara, Existe um pensamento pol{~ico brasileira?, :' ~ir~
\, associar elementos do modelo proporcional vigente com aspectos do mo-
conferência inaugurol do Instituto de Estudos Avançadosda
delo distrital, nos moldes da experiência alemã. Isto permitiria maior co-
USp, agosto d~ 1986 brança aos parlamentares por seus eleitores, sem-sacrificar a representação
o ;;;;i~;;":;;o;;~;~;~~~;~~;'FAORO no parlamento das correntes de opinião, que se supõe assegurada pelo
(Salomon CytrynowiczlPulsar) modelo proporcional. Cogitava-se representação mais equilibrada dos es-
tados na Câmara dos Deputados, com aumento da participação relativa
A HISTÓRIA CONTINUA
I das regiões mais populosas. A possibilidade de financiamento público das
eleições, reduzindo a influência do poder econômico nos resultados elei-
t torais, era outro tema em discussão. Quanto ao sistema partidário, propu-
I nha-se a definição de um patamar mínimo de votos para que os partidos
pudessem ter assento no parlamento, com o objetivo de inibir a prolifera-
ção de legendas de ocasião. A introdução da fidelidade partidária consta-
" va igualmente da possível agenda de reformas, no entendimento de que
It.[
" ela ajudaria a dotar os partidos de maior consistência doutrinária, fazen-
:\
'" do-os atuarem mais em função de conceitos e menos em função de inte-
resses transitórios. Esperava-se, por fim, a regulamentação pelo Congresso
das modalidades de democracia direta inscritas na Carta.
Essa era a agenda que, na virada dos anos oitenta, parecia impor-se
aos atores políticos. A expectativa dos analistas, como lembrado anterior-
mente, era de que a pauta econômica fosse perseguida sem prejuízo das
'~~-=~-'."'\"""'~""""""""'.""""~"""""',="",..., "..".,., reformas sociais e políticas, do aprofundamento da democracia. Se na dé-
FLORESTAN FERNANDES, SOCIÓLOGO MILITANTE E DEPUTADO FEDERAL DO P ÁRTIDODOS

TRABALHADORES, DISCURSA EM FRENTE AO CONGRESSO NACIONAL, EM 1989. (Carlos Menandro/JBr)


cada que terminava, a política havia prosperado em meio às incertezas da
economia, era de esperar que nos anos seguintes a busca de novo padrão de
desenvolvimento, cuja necessidade era reconhecida à direita e à esquerda,
"O fatodeasclasses
burguesas
e suaselitesseveremcondenadas
à contra-revolução
permanente
conto,por '" "

si mesmo, - e todaa história,quesedesenrolou


outrarhistória e estásedesenrolando," '
não conflitasse com o objetivo de modernização política. A sustentar tal

Flores/anFernandes,
A revoluçãoburguesano Brasil,1975
~ ,
C"""
'

,
,."..,,
'"

::~h~-
I 'é
258 Torcísio Costa Os anos noventa; o ocaso do político e o socrolização do mercado 259 .",

...

expectativa, cabe repetir, estava o entendimento de que o Brasil teria apren-


dido a cultivar valores democráticos, a conviver com o dissenso, a respeitar
a alteridade. A transição democrática iniciara com o reconhecimento da le-
gitimidade do conflito. Com o transcurso da transição, a política teria pas-
sado a ser percebida como experiência eminentemente conflituosa, aberta,
avessa a determinismos, sem espaço para sujeitos oniscientes ou verdades
inelutáveis. Seria agora extemporâneo cogitar eliminar o conflito em nome
de metas supostamente consensu<iÜscomo estabilidade econômica ou refor-
ma do Estado. Segundo os padrões de legitimidade que se diziam vigentes,
as metas somente deveriam ser perseguidas mediante deliberação, confron-
to de posições, distribuição negociada de perdas e ganhos. Procedimentos
que não esses estariam fora do repertório acatado como legítimo no Brasil
pós-Constituinte. O, governo Fernando CoIlor de MelIo viria pôr à prova
esse entendimento.'

."
A repúblicade (ollor ."..

Inaugurada em março de 1990, a gestão do primeiro presidente eleito ,-


J.~;:

por voto direto após o regime militar não poderia ter sido mais desalentadora I~
Ih."
i7ii'c
jl
para os democratas. Voltado para uma agenda marcadamente econômica,
f: I-
-

It~
CoIlor de MeIlo fez do mandato uma negação da política, que reduziu a
'
'

ili
li
gestos voluntaristas e manobras publicitárias, a serviço de metas definidas "
~
II arbitrariamente, ainda que em conformidade com o discurso dominante. ii ,
,

Estabilização da moeda, liberalização da e:::onomia e integração do país ao ~'


""t""
comércio internacional eram as metas que compunham a receita de mo- ~
, ",'
, ,

dernidade oferecida ao país pelo presidente CoIlor. Alcançados os objeti-


vos, o Brasil seria alçado ao Primeiro Mundo, ingressaria no concerto das J
fi ".".

l
i!
nações civilizadas. Quem se oporia a isso senão os arcaicos, os amigos do
passado, incapazes de perceber a direção do fluxo da história, para onde ",",

convergiam desde a Rússia ao Vietnã? Sem interIocutores que reputasse


como legítimos, CoIlor de MelIo ensaiou essa peça de uma só nota até outu- ~'-

i
bro de 1992, quando foi destituído do cargo e teve os direitos políticos
?"'<'.,;

cassados pelo Senado Federal, por crime de responsabilidade.


O estilo de Fernando ColIor se fez patente desde a campanha eleitoral.
1 A estridência no ataque aos "marajás" e o discurso de satanização dos polí-
I -,'
Charge "A Guerra das Cores", de Paulo Caruso, publicada
jornal "O Globo", de 26 de agosto de 1992.
no

ticos eram indicativos claros do gosto do futuro presidente pela política- ,I:
.~
,8'
I-.
, 1I
d
261
~ :;
260 T arcísi a Costa Os anos noventa: o ocaso da politico e a socIalização do mercado

,q.

;i
:, espetáculo, pela teatralização da vida pública, que se acentuou nos dois hierárquicos e competitivos do mundo empresarial, sem preocupação maior
iI
d:
primeiros anos de mandato. A cada semana, e com forte apoio publicitário, com o princípio da isonomia, com a legitimidade dos conflitos ou com ou-
Ili
:j!
"li
:' Collor fazia questão de colocar em destaque sua juventude e dinamismo, tras noções caras ao discurso democrático. No topo da máquina do Estado
li'
:, ora em corridas pelo cerrado, ora pilotando jatos supersônicos, sempre com estaria um jovem executivo, soberano para dispor sobre os recursos públi-
i, ,~
;1' gestualidade cênica. A imagem presidencial passou a ser associada aos atri- cos como se inscritos em seu patrimônio pessoal.
,i butos de vontade e força física, como se deles dependesse o exercício efi-
ti Tal estilo de gestão foi definido por observadores como populismo i
. i~;
,;I ciente do cargo, a superação dos problemas nacionais. A inflação seria :fijj. de mercado, que conservaria do populismo tradicional o interesse do go- !
:i:
'I,
:;'
vencida "com um só tiro", ou por um golpe de caratê. Questões que exigi- i~
I'BJ""
vernante em personalizar o poder, em legitimar seus atos por uma relação
'1 am solução racional, discursiva, foram transpostas para o campo do direta com o povo. Estaria voltado, contudo, para objetivos diferentes
,:1 ,
1
i
voluntarismo, ou da simples força bruta. A população ficou a acompanhar
as façanhas de Collor de' Mello pelo vídeo, no papel de passiva espectadora,
II
~
daqueles perseguidos pelo populismo dos anos quarenta e cinqüenta. Não
se buscaria mais a incorporação pelo Estado dos conflitos sociais via le-
'j
:1 "a quem se prodiga o fascínio mas se nega a ação", na feliz caracterização I
~f:'.
i'f;' gislação trabalhista e sindicalismo tutelado. Essas fórmulas estariam data-
de Renato Janine Ribeiro.8 O público não poderia ir além do aplauso ou da ""
das. A cooptação das massas pelo líder se daria agora mediante a produção
"'1 :1
,,: vaia. O palco seria exclusivo do presidente e de seu círculo íntimo, senho- de um inimigo comum: o próprio Estado; intervencionista, cartorial, para-
,i res do enredo, com autonomia plena para definir a agenda pública. sitário. Saneado o Estado, reduzido seu escopo, o mercado ocuparia a
LI Ao dramatizar a política, Fernando Collor diluiu as fronteiras entre cena diminuindo custos, aumentando competitividade, expandindo renda,
~ :1 público e privado. Os códigos da vida pública passaram a ser determinados beneficiando trabalhadores. Se os ganhos para os assalariados não fossem
'I

1I ,I
-
por categorias e práticas da vida privada de apelo publicitário mais ime- mais tão imediatos quanto os providos pelo modelo varguista, seriam du-
diato, por dispensarem crítica, deliberação. A começar pela construção da radouros, permanentes. Outra não seria a receita que estaria orientando a
imagem pública do adversário a partir de aspectos de sua vida pessoal: uma busca do bem-estar social ao redor do mundo, das democracias consoli-
"',',,
il ,I suposta irresponsabilidade conjugal, uma alegada rejeição do papel pater- dadas da Europa ocidental às novas democracias da Europa central, dos
no. Assumidos de antemão como verídicos, pela presumida credibilidade Estados Unidos ao México e Chile, sem mencionar as experiências bem-
.,
de quem os trouxe à baila, tais aspectos seriam suficientes para desqualificar sucedidas do Sudeste asiático. Para que o Brasil não ficasse à margem
Luís Inácio Lula da Silva como homem público, independentemente de dessa tendência, que se presumia definitiva, bastaria confiar na capacida- !
suas posições políticas. O anti-herói era convertido ipso facto em mau de do líder de controlar o Estado, de dar livre curso às forças do mercado, I

governante. Já o presidente eleito, apresentado à exaustão como maridc fiel sem mediações políticas ou sc,.:iais. I
e pai dedicado, seria inelutavelmente bom líder, dirigente virtuoso, ampara- De fato, Fernando Collor fez pouco caso das instâncias supostamente
do, de resto, como lembra Marilena Chauí, por uma estreita identificação destinadas a mediar sua interlocução com a sociedade, a começar pelos
':1 com o modelo yuppie, sempre com respostas prontas, tom resoluto.9 Ao partidos políticos. Não parecia motivar-lhe, sobretudo no início de seu go-
'il
contrário de seu opositor na campanha, Collor de Mello estaria apto a pau- verno, a idéia de contar com uma base parlamentar estável ou trânsito flui-
'

'~
"

tar sua gestão pelos critérios de administração e mando característicos da do junto aos setores organizados da sociedade civil. Eleito por uma legenda
"

íi; burocracia empresarial. A coisa pública passaria a ser regida pelos padrões
"I:!
.
, ,I de ocasião, cuja bancada não reunia mais do que 8% do Congresso, Collor
',':
.
l .. de Mello governou com base em maiorias ad hoc, refeitas a cada votação,
IL
I
com integrantes dos partidos conservadores (PRN, PDS, PFL, PL, PTB e
8 Renato Janine Ribeiro, "A política como espetáculo", em Evelina Dagnino (org.), Anos 90: poU- .- PMDB). O papel atribuído a essas maiorias era basicamente o de homolo- ~
,hl tica e sociedade no Brasil (São Paulo: Brasiliense, 1994), pp. 31-40.
\ rj 9 MarilenaChauí, "Política e cultura democráticas:o público e o privado entram em questão", gar as posições do Executivo, que se transformou no principal poder I
1 Caderno Letras, em Folha de S. Paulo, 16 jun, 1990, pp, F-4-5. legiferante. Somente no primeiro ano de governo foram promulgadas 148/
, li
! i'
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262
Torcísio
Costa "263
Os anos noventa: o ocaso do político e a sacralizaçõo do mercado

"
"-
"

, medidas provisórias, com um grau mínimo de rejeição pelo Congresso. Os


Decretado em março de 1990, o controle de preços foi suspenso - contra-
. :1' impulsos normativos do Palácio do Planalto não encontravam resistência
'il
," riando expectativas - em setembro do mesmo ano, para ser retomado (no
no parlamento, onde a esquerda, atônita, inibida pela avalanche publicitária
tocante aos produtos de consumo corrente) quatro meses depois, em ja-
do novo governo (que a tachava de arcaica, retrógrada, "jurássica"), não
neiro de 1991, no marco de novo plano de estabilização, desta vez acom-
conseguia articular um discurso de oposição além das palavras de ordem da
campanha presidencial. panhado de aumento das tarifas públicas. A reforma administrativa seguiu
rumos não menos aleatórios, ditados segundo o sentimento do presidente
I Não se tem registro de qualquer diálogo mais consistente entre gover-
e de seus inter10cutores mais próximos. Órgãos extintos em março de 1990
I no e organizações sociais. A despeito de suas especificidades, sindicatos e foram recriados com outra moldura institucional. Planos de demissão fo-
'" . associações de classe eram apresentados no discurso oficial como parte ram revistos: reduzidos em alguns casos, ampliados em outros. No fim de
"
uniforme de um passado corporativista que se bilscava superar. Todos os
1991, a credibilidade do plano junto aos agentes econômicos e à opinião
gatos seriam pardos. Na caça aos inimigos do erário, o reducionismo vigen- pública era praticamente nula. A inflação retomava níveis elevados, em
te não fazia distinção entre os setores que se haviam beneficiado de acesso
meio a uma desorganização orçamentária e administrativa sem preceden-
,,', privilegiado aos canais de poder, como parcelas do patronato urbano e do
I.
d,
tes. O Estado que se pretendia reformar, exaurido, parecia fadado à
i~; funcionalismo das empresas estatais e demais instâncias de representação desestruturação.
de interesses públicos e privados. Estendia-se a todos o corporativismo de
"I Foi então que Collor de MelIo ensaiou significativa mudança de esti-
alguns. Esse abuso da metonímia afetou particularmente os funcionários
! ~ lo: a passagem do voluntarismo à persuasão. Pressionado pelas circunstân-
i,
públicos. Os assalariados do Estado, de contínuos a presidentes de autar-
!/
'li
quias, viram-se convertidos em potenciais "marajás", em pedras no caminho
t cias, quis passar da política-espetáculo à deliberação, a uma acomodação
de interesses com o Congresso, que se mostrava crescentemente refratário
rI! de um Brasil moderno, competitivo, antiburocrático. Também penalizados
às suas diretrizes. Procedeu à reformulação do ministério, substituindo no-
pela retórica dominante foram os sindicatos associados à Central Única dos
fi mes de sua "fase heróica" por personalidades de reconhecida idoneidade e
il Trabalhadores, qualificados de intérpretes de um sindicalismo elitista, em
prestígio, como José Go1demberg e Marcílio Marques Moreira. A manobra
oposição ao representado pela figura de Antonio Magri, indicado ministro
I,
revelou-se tardia. Logo vieram à tona as denúncias de Pedro Collor, irmão
do Trabalho como reconhecimento à suposta atenção àqueles mais neces-
:1
sitados, sem amparo algum: "os descamisados". do presidente, sobre corrupção e improbidade no governo. A seqüência de
eventos desde a divulgação das denúncias pela revista Veja até o impeachment
Nada mais exemplificativo do desapreço do governo Fernando ColIor
il'
; pelo debate do que SU:1gestão econômica. Lembremos o Plano ColIor. A
é conhecida: veiculação de novas denúncias pela imprensa; caracterização
dos vínculos entre o alvo principal das suspeitas, Paulo César Farias, e o
i falta de diálogo foi a marca dessa iniciativa, pautando sua formulação,
Palácio do Planalto; convocação de comissão parlamentar de inquérito; iden-
il i caracterizando sua implementação e precipitando seu fracasso. Formula-
tificação de testemunhas-chave cujos depoimentos foram tidos como pro-
do por um grupo reduzido de assessores nas semanas que antecederam a
vas definitivas do envolvimento do presidente; mobilização da opinião
(I ;I.
posse, o Plano CoIlor foi lançado tão logo instalado o governo, sem con-
pública, dos "caras-pintadas"; e a decretação do impeachment do presidente
, sul ta prévia a lideranças empresariais ou sindicais. Continha elementos
'
'

'
i ,;
i~ l
que não teriam sobrevivido a uma elaboração negociada: congelamento
pelo Senado Federal, cóm suspensão de seus direitos políticos por 10 anos.
I
,,,

Nas leituras feitas sobre esse período, encontramos com freqüência o


! :1
,~ de preços e salários, confisco de ativos financeiros, violação de contas e
argumento de que a era Collor representou pouco mais do que a sobrevida
i' sigilo bancário, descumprimento de contratos, extinção ex officio de ór-
:~ de um Brasil arcaico, obscurantista, autoritário, que estaria cedendo lugar, a
li,
: gãos públicos. Ainda que ministros e assessores fossem à mídia, com fins
"

i~ passos largos, a novas práticas e valores, voltados para o futuro. Daí a ca-
il ,
supostamente didáticos, a fase de implementação não foi menos impositiva
racterização do governo Collor como a República das Alagoas, projeção
,

Jt e errática. Recorde-se a evolução do plano quanto à política de rendas.


:~ dos grotões sobre o Brasil que se modernizava. Daí o entendimento de que
i~

.JJ!
264 265
Tarcísia Costo Os anos novento: o ocaso do político e o sacrolização do mercado

Collor foi digerido a contragosto pela elite política e empresarial brasileira, alguns'depoimentos, a começar por comentários ao Plano Collor. Assim se
por falta de opção ao candidato do Partido dos Trabalhadores. Tanto que lhe pronunciou o deputado César Maia (PDT-RJ): "Como é possível que um
teria faltado apoio logo que insinuado seu envolvimento com as irregulari- governo de extração conservadora adote as medidas fiscais e monetárias
dades cometidas por PC Farias. Importaria menos ao Brasil progressista que há tantos anos os democratas vinham apregoando?". 10 Mais enfático foi
incorrer no trauma da destituição de um presidente eleito do que prolongar o senador Saturnino Braga (PS-RJ): "A essência do plano [é] a redistribuição
seu beneplácito ao filho de uma oligarquia decadente, cujo apelo não iria da renda nacional [. . .] o socialismo não morreu no mundo com a perestroika,
além de um refinamento postiço ou do domínio que aparentava ter sobre o nem vai morrer no Brasil com o sucesso desse plano, que é, na sua essência,
marketing político. uma revolução social-democrática."ll O ex-deputado Márcio Moreira Alves
Entendemos que a afinidade' ideológica entre as elites e Fernando Collor " chegou a conclamar a esquerda a apoiar o plano: "Nunca, desde a Lei
de Mello era bem mais ,estreita do que a interpretação acima faz Supor, ~ Áurea, os haveres da classe dominante brasileira sofreram golpe como o do
'4
.~.
sobretudo no que diz respeito à caracterização daquilo que faria do Brasil Plano Antiinflação [. . .] esperemos que as forças progressistas no Congres-
?:
um país moderno. Collor não foi o único porta-voz, nem o mais articula- ., so tenham lucidez suficiente para se despirem de preconceitos, apoiando
do, de um discurso que reduziu a modernidade ao mimetismo de fórmulas [Fernando Collor e seus colaboradores]."12 Um ano mais tarde, quando o
econômicas, sem preocupação maior cqm o político, com as instituições fracasso do plano estava configurado, com sua constitucionalidade questio-
representativas, nem sequer como garantia de legitimidade da administra-
I ~~ nada em decisões judiciais, Luiz Carlos BresserPereira insistia em situar a
"o'.
ção do erário, das políticas públicas. A sacralização do econômico teve muitos gestão de Collor de Mello como comprometida com a modernidade,já que
outros adeptos, não unicamente um nome paradigmático como Roberto Cam- ~.. expressava "a superioridade do mercado sobre o Estado para promover a
pos, que desde meados dos anos oitenta brandia que o único choque de eficiência econômica". Quanto às dificuldades encontradas pela política de
"
liberdade de que necessitava o Brasil era o choque do mercado. Para Cam- estabilização, esclarecia Bresser Pereira, elas não se deviam a práticas
pos, a democracia seria, àquela altura, fato consumado, a dispensar passos = populistas, uma vez que Collor "[não tinha] medo de tomar medidas impo-
que não fossem medidas pontuais, tópicas. Tampouco vêm à lembrança
- pulares". A razão do impasse estaria em não se dar "devida importância ao
apenas liberais conservadores dispersos em siglas como PDS (hoje PPB) e caráter inercial da inflação brasileira". 13 Alguns meses depois seria a vez de
... Hélio Jaguaribe saudar artigos assinados pelo presidente (supostamente
PFL, que jamais souberam conciliar mercado com liberdades públicas, pos-
-.-
to que estas sempre foram vistas como ameaças a seu mando oligárquico. escritos por José Guilherme Merquior) sobre o social-liberalismo como "o
ir
Pensamos também, e principalmente, em personalidades que se haviam pro- J... mais importante discurso político nos últimos decênios no Brasil" ,15 Em um
jetado na vida pública pela resistência ao autoritarismo, pela defesa do esta- deles fazia-se profissão de fé no pluralismo, em claro descompasso com a
do de direito e seu permanente aperfeiçoamento. Temos em mente nomes ~
prática do governante: "ao lado dos poderes constituídos, atuam os parti-
que nos anos setenta haviam escapado ao fascínio do "Brasil-Potência" sob
...
dos, os sindicatos, as organizações sociais, a imprensa instrumentos vitais -
o lastro do "milagre econômico", preferindo a opção mais prosaica de um da democracia que devem, em debate permanente, articular, a cada momen-
país democrático. to histórico, a vontade coletiva da nação". 15
Não foram poucos aqueles com histórico de oposição ao arbítrio que
secundaram Fernando Collor na veiculação de uma leitura economicista da 10 César Maia, "Moeda cínica", Folha de S. Paulo, 6 abro 1990.
11 Saturnino Braga, "Depois da confirmação, a prática", Jornal do Brasil, 24 abro 1990.
modernidade. Atores que buscavam afirmar-se como formuladores de uma 12 Márcio Moreira Alves, "A revolução capitalista", Jornal do Brasil, 20 mar. 1990.
proposta social-democrata para o país admitiram qualificar o governo Collor, 13 Luiz Carlos Bresser Pereira, "O governo Collor e a modernidade", Novos Estudos Cebrap, n° 29,
São Paulo, Editora Brasileira de Ciência, mar. 1991, pp. 3-9.
em razão de suas diretrizes econômicas, como moderno e progressista, mal-
14 Folha de S. Paulo, 9 jan. 1992.
grado as evidências ostensivas do descaso daquele governante pela política 15 Fernando Collor de Me110, "Agenda para o Consenso: uma proposta social-liberal", Jornal do
como de~iberação, pelo diálogo com a sociedade organizada. Recordemos Brasil, 5 jan. 1992.
1
W
ii-
'I
fi
266
li Tarcísia Costa 267
Os anas novento: o ocaso do político e o sacralização do mercado
C
"
É de se perguntar o que motivou supostos democratas a apoiarem a
11''
1 algumas disposições que se antepunham à liberalização da economia brasi-
plataforma reducionista de Fernando ColIor, pelo menos em alguns mo-
,I
11
leira e à sua maior integração na economia mundial, mencionadas na pri-
mentos-chave e com afirmações eloqüentes. Segundo analistas, a resposta
::'!
"", meira seção deste artigo (e herdadas, em sua maioria, de Cartas anteriores),
.ti! estaria na instabilidade do quadro econômico, na ameaça de hiperinflação.
li1 a Constituição passou a ser vista como receituário do atraso. Passava-se ao
cd, Bolívar Lamounier sustenta que a perspectiva de descontrole inflacioná- C'"
J,:::: largo não somente das qualificações feitas na Carta a favor da livre iniciati-
:t rio teria criado ambiente propício a soluções voluntaristas, especialmente I ,~;,
"", va, mas dos avanços alcançados pela Constituinte no campo dos direitos.
:i-
..~ após o estilo tíbio do governo anterior. Para um número crescente de ato- :i'"
"',
::: Não se considerava o fato de que a Constituição havia ampliado os direitos
",
res à esquerda e à direita, o interesse nacional estaria exigindo a estabili-
~ civis, valorizado modalidades de democracia direta, atualizado os direitos
ik zação da moeda como prioridade do poder público, com os meios que se
sociais e dotado as minorias de instrumentos legais para o reconhecimento
"t ~ mostrassem disponíveis.'6 O pragmatismo para a superação da crise viria
Jjr. de suas identidades. Esquecia-se de que a consolidação dessas conquistas
'if I antes do respeito à legalidade democrática há pouco restaurada. Vide o
dependia da importância que lhes fosse atribuída pelos atores políticos,
,fi
'"I
" apoio concedido por nomes como Nelson Jobim e Afonso Arinos a passos
-, mesmo porque muitos dos dispositivos pertinentes, como já ressaltado, ne-
d nitidamente abusivos, entre os quais a Medida Provisória 173, que proibia
;h
cessitavam de regulamentação para se tomarem eficazes. Tampouco se aten-
'11 a concessão de limimires em ações contra a limitação imposta pelo Plano -,
ill tava para a recomendação por demais óbvia do relator da CPI do impeachment
:/ Collor aos saques bancários. Igualmente endossada foi a MP 190, poste-
I/i de que a melhor garantia contra a reedição dos desmandos há pouco obser-
riormente rejeitada pelo Supremo Tribunal Federal, que facultava a sus-
i dt pensão de aumento salarial concedido pelos Tribunais Regionais do
I~ vados seria o aperfeiçoamento das leis relativas à estrutura partidária e ao
'I~ sistema eleitoral, incluindo a forma de financiamento das campanhas. Essas
Trabalho. Não fosse a oposição de personalidades como Hélio Bicudo, I'~;"
i,"
i,~ questões, bem como outras afins que se esperava viessem a constar de uma
l Fabio Konder Comparato e Márcio Tomás Bastos a medidas daquela na- j'::i;
!,ô I," reforma política - como o modelo de representação - continuaram a ser
:r. tureza, o Brasil teria presenciado inusitado consenso de juristas contra o vistas como temas menores. O discurso da reforma constitucional limitou-
fi respeito à Constituição. Tudo pela "conveniência política" de não com-
f[, prometer a estabilização monetária. f~ se desde então à discussão das cláusulas econômicas e daquelas alusivas à
~!I administração do Estado, com exceção do debate que antecedeu o plebisci-
. i& Acate-se ou não a explicação de Lamounier, o importante é que se
to de 1993 sobre sistema de governo. Debate que logo arrefeceu, uma vez
i~ mostra de difícil sustentação a idéia de que a era ColIor resumiu-se à peri-
,~ feita a escolha pela permanência do presidencialismo. Em vez de aproveitar!
pécia quixotesca de um político provinciano, auxiliado por alguns correli-
as lições do impeachment para pôr também em discussão a possibilidade de
:~ gionários. Como recordamos, a alegada aventura foi amparada por um
r aprimoramento das leis e instituições, optou-se pela preservação de uma
~ discurso com incontáveis adeptos, de diferentes partidos (incluindo social-
I:
d: agenda eminentemente econômica, como se houvesse uma antinomia ne-
democratas de critérios demasiadamente flexíveis), mas coincidindo na de-
'I: cessária entre mercado e modernização política.
fesa do primado do econômico sobre o político, da moeda sobre a lei.
Diante do continuado descaso do discurso dominante pelo político, ;
I" A caracterização do governo ColIor nesses termos, como inscrito em
não é de estranhar que se tenha procurado reduzir a importância do papel
:~
iI, : um marco ideológico mais amplo, ajuda a compreender a sobrevivência de
l \ alguns sofismasao processode impeachment.A leitura da Constituição como
desempenhado pela mobilização popular no processo de impeachment. Tor-
nou-se corrente a leitura de que a destituição de Fernando Collor teria resul-
ir : obstáculo à modernização do Brasil foi um deles, talvez o mais grave, por
tado basicamente de uma conspiração de empresários e políticos, insatisfeitos
;~
\ servir de justificativa a uma continuada indiferença pelo político. Por trazer
com o voluntarismo daquele supostamente eleito para zelar por seus inte-
h. "
lI: resses. Os "caras-pintadas" teriam avalizado uma trama orquestrada
I
Bolívar Lamounier, "Capítulo 2", em Depois da transição: democracia e eleições no governo
~II[,
16
Coltor (Sãq Paulo: Loyola, 1991), pp. 23-35. intramuros. O fato deu lugar à versão. O movimento social de mais amplo
,p escopo desde a campanha das "Diretas Já", sem o que os parlamentares
,
i
.
... ..
"'li
li
d
.,
'I' 269
I: 268 Torcísio Costa Os anos novento: o ocoso do político e a socrolizoçõo do mercodo

,-

dificilmente teriam levado o impeachment a seu termo, vê-se reduzido a Mas nem tudo ditado pelo mercado Itamar Franco acata. Defende os
'J mero adereço das elites. Janine Ribeiro se volta contra essa tese do "ceticis- direitos sociais. Tem certamente mais sensibilidade social do que Collor.
,I
mo conservador": "[o estamento conservador] não estará apenas se refletin- Ficou constrangido com as negociatas de PC Farias. Afastou-se de Collor
! ,'"
! 'li do num espelho, na medida em que coloca seu próprio modo de proceder bradando pela moralidade pública. Até mesmo para salvar recursos para os
I ,,~ como o único possível, e desconsidera formas outras, e novas, de construir desvalidos, ou "descamisados", que continuavam necessitados. Para Itamar,
a coisa pública?"!? Queremos crer que sim. A muitos soava estranha a hipó- ";"', ,""'?"'" '.,""i<t.".,."+':""
~",'

tese de que a dinâmica política pudesse evoluir sob condicionantes outros ,~':';;:!,!\~'",(4~1:',1:;:~' ~~:,';#""" 'q',1

que não fossem interesses localizados. A pressão difusa, sem rosto, da opi-
nião pública, não poderia constituir causa próxima de mudanças políticas.
Os "caras-pintadas" eram vitimados pelo mesmo desdém reservado aos gru-
pos sociais que acreditaram no exercício constituinte como espaço de cria-
ção de novos direitos, de invenção de uma modemidade sem exc1udências.

':] A modernidade segundo Itamar


1
':j.
\ ,~'
!:t Com a decisão da Câmara dos Deputados, em 29 de setembro de 1992, '~
'"
de autorizar o julgamento de Femando Collor pelo Senado Federal, provo-
It:, ,
cando seu afastamento do cargo, o vice-presidente Itamar Franco assumiu o
,I
I~
:~
',.
1"
"
!>
poder. Restavam dois anos de mandato. Para muitos, era uma incógnita.
Não se tinha a expectativa de que Itamar Franco desse continuidade ao
plano de trabalho de seu antecessor. Sabia-se que a chapa Collor-Itamar não
r
i;
havia sido criada em função de um programa. Femando Collor viu em Itamar
,ij
rm
um parceiro útil, com trânsito em um dos mais importantes colégios eleito-
I '\j rais do país, Minas Gerais. Talvez os tenha aproximado a inclinação populista,
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o gosto pelo contato direto com o povo, à margem das instituições. Mas
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' eram e são populistas com estilos e bandeiras diferentes. Faltam a Itamar os
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dotes cênicos de Collor. Não lhe apetece a política-espetáculo. É mais da
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prosa ao pé do ouvido. Tampouco sonha com o ingresso no Primeiro Mun-
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il'~ do. Parece satisfeito com Juiz de Fora. Não é fascinado por tecnologia de
ponta, muito menos se vier d' além-mar. Prefere o fusquinha, que lhe evoca
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l' a indústria nascente. Seria mais protecionista se o discurso liberal não se
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, I~ revelasse tão avassalador.


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Esta charge de Paulo Caruso foi extra(da do livro "Avenida Brasil: o circo do
17 Renato Janine Ribeiro, op. cit., pp. 37-8.
poder", de Caruso, publicado pela Editora Globo, 1994.
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270
T OIcísio Costa
T-i Os anos noventa: o ocaso do político e a socralizaçoo do mercado
771 ., ..
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,:i,., o moderno seria o social. Daí a importância de chamar a esquerda para xandre Costa em Integração Regional. Às críticas de que seu gabinete era
Jr compor o governo, com o PFL, o PMDB e o PSDB. Todos teriam vez. Os C demasiado heterogêneo para manter uma ação coerente, Itamar respondia
conservadores teriam as reformas econômicas, mantidas em pauta. Bastava lembrando a excepcionalidade do momento e marcando distância dá gestão
I
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rir conduzi-Ias com lisura, especialmente as privatizações. As reformas políti- anterior: "O país não está em quadra tão estável que lhe permita discriminar
I
~jhji cas ficariam à ventura. A agenda já estaria preenchida com o plebiscito ideologias, que lhe aconselhe caçar bruxas ideológicas. A Nação [...] só
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:jt-' sobre sistema de governo e a CPI do orçamento. Além do mais, o aperfei- I não admite os que a queiram trair, os que desejem a erosão de sua sobera-
:I~ çoamento da cidadania, segundo Itamar, seria função muito mais da melhoria nia, os que se proponham, como alguns se propuseram tão recentemente, a
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, das condições sociais do que de eventuais ajustes no modelo político, por saqueá-Ia." O importante, e isso bastaria ao presidente, era que todos colo-
iJ bem-vindos que fossem, , cassem "dignidade e inteligência a serviço do povo" .19
De fato, a nota distintiva do discurso de Itamar Franco foi a ênfase ao Menos por inoperância dos ministros do que pela inconstância no hu-
i! social. Quis estabelecer neste âmbito a principal diferença entre sua gestão mor de Itamar Franco, foram freqUentes as mudanças ministeriais. No pri-
1 11
'.J, e a de seu ex-companheiro de chapa. Qualificava como falsa a modernidade meiro ano de governo, a pasta da Agricultura contou com quatro titulares. A
I;1 promovida por Collo,:, "uma modernidade que se paga com a miséria do Fazenda teve seis responsáveis nos dois anos de mandato. Essas alterações
i .:f pOVO".18Argumentav'a apontando para a recessão dos três anos anteriores, se fizeram, de toda maneira, segundo a orientação rationae persona que
J quando a rendaper capita caiu aproximadamente 10%. Contrapunha uma pautou a escolha original, o que deixou os gabinetes que se foram suceden-
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proposta de retomada do crescimento com políticas públicas dirigidas aos do tão ideologicamente amorfos quanto o primeiro, reunindo de comunis-
mais pobres, que habilitaria o país a resgatar dívidas históricas, a ser genuina- tas históricos a egressos do regime militar. Em lugar de uma equipe coesa
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Ln mente moderno. Seria falacioso sugerir que seu governo estivesse excluindo em idéias, Itamar preferiu recrutar nomes com trânsito no Congresso, que
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o país da "marcha da história" por dedicar-se prioritariamente à questão soci- lhe ajudassem a viabilizar medidas capazes de distinguir sua gestão aos
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al. Pelo contrário, a afirmação internacional do Brasil dependeria, antes de olhos da opinião pública. Isso passava por políticas voltadas a dar concre-
,I~ tudo, da elevação do nível de vida da população. tude à sua retórica sobre o social, como o Plano de Combate à Fome e à
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Para enfrentar esse desafio, cuja urgência dispensaria comentários, Miséria, que compreendia ações emergenciais em áreas como alimentação
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Itamar Franco esperava contar com o empenho dos "homens de bem deste escolar, distribuição de leite a gestantes e repasse de alimentos aos flagelados
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país", independentemente de preferências ideológicas. Com tal espírito com- da seca. De cunho eminentemente assistencialista, iniciativas como essa
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pôs o ministério. A esquerdajamais havia tid0 ou voltaria a ter tantos assen- "'-"',' (".."""
não chegavam a compor um programa de transformação social, mas suge-
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',','!i tos no poder quanto em seu governo, ainda que ocupados, boa parte deles, riam a possibilidade de uma parceria mais estreita entre o Estado e a socie-
a título pessoal: Luíza Erundina na Secretaria da Administração Federal, dade na implementação de políticas públicas. A distribuição de alimentos;
iI~
Antonio Houaiss no Ministério da Cultura, Jamil Haddad no Ministério da no âmbito do Plano de Combate à Fome e à Miséria foi conduzida com a !
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Saúde, Roberto Freire na liderança do governo na Câmara dos Deputados. colaboração da Igreja e do movimento Ação da Cidadania.
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Yeda Crusius no Planejamento e Fernando Henrique Cardoso - no Itamarati Se é possível identificar algumas contribuições de Itamar Franco na '

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e depois na Fazenda - representavam o PSDB. Os conservadores mantive- .....
área social, não se tem registro de um maior empenho seu ou de sua base
' !/t ram seu quinhão com nomes como Gustavo Krause na Fazenda, Andrade no Congresso para promover reformas institucionais. A campanha em tor-
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ii
"'li Vieira em Indústria e Comércio, Hugo Napoleão nas Comunicações e Ale- no do plebiscito sobre sistema de governo chegou a colocar em pauta
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18 Itamar Franco, Discursos de política externa: de novembro de 1992 a maio de 1993, Brasília, 19 Idem, Discursos: de outubro de 1992 a agosto de 1993, Brasília, Presidência da República,
I' Presidência da República, 1993, p.45. 1993, p. 69.
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:\ 'I, 273
, 272 Torcísio
Casto Os anos noventa: o ocaso do político e o socrolizoçõo do mercodo
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mudanças na legislação partidária e no modelo de representação, sem des- va vantagem que o candidato do Partido dos Trabalhadores, Luís Inácio
dobramento concreto. Para os presidencialistas, a opção parlamentarista Lula da Silva, detinha nas pesquisas de opinião.
11' faria sentido se precedida da introdução da fidelidade partidária e de
;
.! maior equilíbrio de representação entre os estados. Caso contrário, argu-
mentava-se, os governos seriam marcados pela instabilidade e por des- A confrariado consenso
compasso crônico com a vontade do eleitorado. Seria melhor que o
plebiscito mantivesse o sistema vigente, pelo menos até que se criassem , As expectativas dos analistas em relação ao governo Fernando
.', condições para uma reforma política mais abrangente. Os defensores do Henrique Cardoso eram bastante positivas. Mesmo os mais céticos lem-
parlamentarismo sustentavam que sua adoção precipitaria a reforma do bravam as qualidades de que dispunha o presidente eleito para realizar
1f quadro partidário e do modelo de representação, inclusive para assegurar boa gestão. Fazendo contraponto ao estilo de Fernando Conor, Janine Ri-
,.
a legitimidade da nova estrutura de governo. Mantido o presidencialismo, beiro via a chegada de Cardoso ao poder como a afirmação da "prosa" na
não haveria estímulo para a promoção de reformas. Os parlamentaristas vida pública brasileira. Fernando Henrique representaria a possibilidade
.iI.
perderam no plebiscito, mas acertaram na previsão. A ampla vitória do de um diálogo "habermasiano", que, posto em prática, ajudaria a sanar as
presidencialismo pr~ticamente suspendeu o debate sobre temas políticos,
1 excetuando-se as discussões no âmbito do Congresso - sob o impacto da
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CPI do Orçamento - sobre algumas medidas tópicas destinadas a inibir a
corrupção no exercício de funções públicas.
.~ A pauta do último ano de governo limitou-se basicamente à imple-
.:f mentação de novo programa de estabilização da economia, o Plano Real.
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!~ Fogem aos objetivos deste texto os fundamentos técnicos do plano, que se ~ " 1
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distinguiu das tentativas anteriores de estabilização da moeda, como se JtfFoRMASAo
:\~ sabe, pela ênfase que atribuiu ao equilíbrio das finanças públicas, bem
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J~ como pela estratégia que seguiu, com a Unidade Real de Valor, para a
desindexação de preços e salários. Interessa-nos antes a importância do
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i plano como fato político. Por ter obtido o esperado controle da inflação, o
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. Plano Real definiu a sucessão de Itamar Franco, assegurando a eleição de ..
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i.~~", Fernando Henrique Cardoso - o quarto ministro da Fazenda em um ano e
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li ' meio de governo. Credita-se a Cardoso a responsabilidade maior pelo êxi-
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to do plano, inclusive por superar a inclinação de Itamar e outras lideran-
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ças políticas por soluções mais traumáticas, na linha do Plano Cruzado,
, que implicassem controle artificial de preços. Vitoriosa a argumentação
ií em favor de um programa de estabilização mais gradual, negociado e trans-
li
"I ! parente, Cardoso se transformou no nome de maior projeção do governo.
Isso tanto para a própria estrutura de poder - em que atuava com a desen-
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voltura de primeiro-ministro -, como para formadores de opinião e popu-
\~ lação em geral. A condição de "pai do Real" o fez postulante praticamente Esta charge de Erthal foi publicada no jornal "O Globo ", em 06/05/95. Também
:~ consta do livro" Erthal apresenta: fatores de risco", publicado pela Ediouro, 1998.
imbatível à presidência, capaz de em poucas semanas reverter a expressi-

II
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274 Tarcísio Costa 275
Os anos noventa: o ocaso do político e a sacralizaçôo do mercado

"
fraturas deixadas por Collor na relação entre Estado e sociedade civil.2° por Chico de Oliveira, aceita e elogiada por Giannotti. O tema suscita várias
Francisco de Oliveira saudava as últimas eleições como um retorno da questões. A começar pela dúvida, sempre à baila, sobre a consistência que
racional idade à política nacional. Embora Lula tivesse sido sua opção para poderia existir entre o estilo de agregar consensos e a compreensão da de-
a presidência, Oliveira não descartava a hipótese de que Cardoso, por seu mocracia como processo necessariamente conflituoso, que se nutre do
comprovado apego à democracia, exercesse o mandato de maneira dissenso ao invés de rejeitá-Io. Em que medida a prática de Cardoso de
satisfatória, promovendo temas que significassem "avanço sobre formas governar com uma aliança omnibus condiz com a apologia que fazia do
passadas tanto de dominação política quanto de exclusão social". Alertava, conflito durante a transição democrática? Estaríamos falando de contextos
de todo modo, para as dificuldades que lhe seriam trazidas por seus alia- históricos diferentes que não poderiam reclamar soluções políticas afins?
dos conservadores.21
Quais desafios estariam exigindo uma concertação partidária ainda mais
Outros, mais afinados com o novo presidente, como José Arthur elástica do que a buscada por Tancredo Neves para levar a transição a ter-
Giannotti, justificavam seu entusiasmo com o resultado das eleições sob o mo? Ou daquela montada aleatoriamente por Itamar Franco para gerir o
argumento de que à frente do governo estaria "um democrata dos mais com- espólio de Collor? As reformas constitucionais seriam razão suficiente para
petentes e uma pessQa cuja vida foi antes de tudo dedicada ao pensamento e aceitar uma composição política com lideranças tão identificadas com o
às causas populares". A esses atributos deveria ser acrescido "o faro de conservadorismo autoritário como Paulo Maluf e Delfim Netto, que fica-
estadista", que se teria revelado no tempo correto com que Cardoso havia ram inclusive à margem da Aliança Democrática de Tancredo/Samey? Qual
conduzido a elaboração do Plano Real. Graças às virtudes do então ministro a reforma do Estado que Cardoso supôs possível de ser conduzi da por cor-
da Fazenda, afeito à pedagogia, à persuasão, explicava Giannotti, teria sido rentes que serviram de sustentação à privatização da máquina pública nos
possível angariar, em doses crescentes, o apoio político necessário à conse- anos setenta e oitenta? Considerava-se capaz de induzir seus liderados a se
cução de cada uma das etapas iniciais do programa de estabilização. Com oporem a teses ym cuja defesa haviam definido suas identidades políticas?
seu tino de estadista, Cardoso certamente conseguiria manter o suporte de Qual a prioridade atribuída por Cardoso às reformas política e social? Pre-
que necessitava para dar continuidade ao plano e "reparar as profundas de- tendia realizá-Ias com a mesma confraria de aliados? Ou teria em mente um
sigualdades sociais do nosso país". Sobretudo diante do expressivo crédito rearranjo da base de apoio num segundo mandato, de modo a contar com
de confiança que o eleitorado, demonstrando racionalidade, havia acabado parceiros mais receptivos aos objetivos de modernização política e de trans-
de lhe conferir, acrescentava Giannotti. 22 O intelectual que se projetou pre- formação social? Seria plausível uma reorientação de rumo que nos permi-
gando o dissenso, ou sua centralidade para a democracia, era valorizado por tisse ir além da presente proposta de modernização conservadora?
sua capacidade de somar forças, de construir consensos. Para Cardoso e seus pares, a aliança com os conservadores foi justifi-
Aqui talvez esteja uma chave útil para se discutir a primeira gestão de cável tanto por razões pragmáticas, como meio de assegurar a gover-
:~ Fernando Henrique Cardoso: sua política de alianças, vista com reservas nabilidade e a passagem das reformas constitucionais, quanto pelas afinidades
lU'
! que existiriam entre a social-democracia, tal como formulada pelo PSDB, e
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o social-liberalismo, como definido pelo PFL. A idéia de uma coalizão em
lI\ torno do "pai do Real"" teria partido do PFL. Consultadas por Cardoso, as
20 Renato Janine Ribeiro, "O Brasil pela novela", Rumos: os caminhO!;do Brasil em debate, n2 1,
Brasília, Comissão Nacional paraas Comemorações do V Centenário do Descobrimento do Bra-
lideranças do PSDB teriam sido unânimes em aceitar a proposta. Não teria
l~
sil, dez. 98-jan. 99, pp. 44-50. havido objeção ao argumento de Cardoso de que "podemos ganhar sozi-
21 Francisco de Oliveira, "O Cebrap, as eleições e a democracia", Novos Estudos Cebrap, n" 39, nhos as eleições [...] mas não governaremos, porque não temos força para
São Paulo, Editora Brasileira de Ciências, juJ. 94, pp. 3-4; "Quem tem medo da governabilidade?",
Novos Estudos Cebrap, n2 41, São Paulo, Editora Brasileira de Ciências, mar. 95, pp. 61-77. governar". Bastaria recordar o desenlace dos governos que dispensaram o
22 José Arthur Giannotti, "Em torno das eleições", Novos Estudos Cebrap, n2 40, São Paulo, Edito- apoio de maiorias sólidas no Congresso, ponderava Cardoso: "a experiên-
ra Brasileira de Ciências, novo 94, pp. 3-4.
cia do Jânio Quadros, quando tentou governar sem o Congresso para fazer

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276 Tarcísio
Costa Osanosnoventa:o ocasodo político e o socrolizoçõodo mercado 277

reformas, foi desastrosa [. . .]; a experiência do Collor, que tentou governar mente a defesa de pontos como fim dos monopólios estatais, desre-
1':
,,' sem o Congresso, foi pior: levou ao impeachment [...]. A experiência do gulamentação da economia, abertura do país aos fluxos internacionais de
~i João Goulart, que perdeu a maioria, resultou em golpe militar".23 Não cabe- comércio e finanças, racionalização da máquina do Estado, concessão de
[' ria correr riscos do gênero, sobretudo diante da magnitude dos desafios que serviços públicos à iniciativa privada e eliminação de privilégios na Previ-
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1f
se impunham ao novo governo, argumentava. Além da preservação do Real, dência Social que faria daquelas siglas partidos modernos, sintonizados com
ti1 tinha-se como inadiável a tramitação das reformas. Itamar Franco havia as tendências em voga na Europa e nos Estados Unidos. Coligados, o PSDB
.
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perdido a chance de vê-Ias aprovadas pelo quórum de maioria absoluta, e o PFL habilitariam Cardoso a pôr em prática no Brasil o que Clinton
dentro do prazo antecipado nas disposições transitórias da Constituição, prop,unha em Washington, Blair em Londres, Sampaio em Lisboa, Prodi
esgotado em meados de 1994. Agora a tarefa teria de ser cumprida segundo em Roma, Jospin em Paris. A "terceira via" chegava ao Brasil, integrando o
o quórum regular de três quintos em cada casa do Congresso, com dois país ao mundo, reformando o Estado, que perderia o monopólio que de-
turnos de votação. Daí o imperativo da política de alianças. tinha desde sempre no tratamento da questão social, a ser gerida agora em
Alianças que deveriam ser feitas com os partidos que se mostrassem parceria com o terceiro setor, com as associações públicas não estatais. Aqui
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mais identificados con: a meta que constituiria o objetivo último do presi- estaria o caminho para a modernidade, a "utopia possível", insistiam Car-
í dente eleito: a superação da era varguista, como ressaltado no discurso de
despedida de Cardoso do Senado. Isso reclamaria antes de tudo revisão das
doso e seus pares. Só não perceberia isso, diziam eles, a esquerda arcaica, ,

..~ presa a modelos obsoletos de interpretação da realidade social, cujo hori-


Ir cláusulas constitucionais tidas como xenófobas e estatistas. Depois viriam zonte de progresso "foi delineado no passado, quando o Labour nacionali-
rtj a reforma administrativa, a começar pela revogação do dispositivo da Carta zava as minas, a China fazia a Revolução Cultural e a União Soviética
1 relativo à estabilidade no emprego, e a reforma da Previdência. Na seqüên- transformava a opressão burocrática em virtude da classe trabalhadora"~ 25
cia, tramitariam a reforma tributária e a reforma política. Essa hierarquização Faltaria credibilidade às acusações feitas por supostos progressistas
1 de prioridades seria aconselhável não apenas pela urgência de algumas eta- no sentido de que Cardoso havia aderido ao neoliberalismo, dado uma
., pas, cujo cumprimento facilitaria o equilíbrio das contas públicas e a proje- guinada à direita. Não haveria uma direita no Brasil, sustentava Cardoso.
;
~ tada mudança do modelo de desenvolvimento -
como aquelas associadas à Corrente política alguma estaria defendendo o Estado mínimo, postulan-
1
reforma do Estado, à abertura da economia -, mas também pela resistência do valores autoritários, sobrepondo os valores de mercado ao social.
que se previa do Congresso a determinadas reformas, como a política. Car- Roberto Campos seria um liberal, jamais um atrasado. Sua associação
-ioso dizia-se convencido de que, caso privilegiasse no início do mandato a com o autoritari ~mo teria sido fortuita, ocasional, como havia sido o caso
reforma política, iria ficar "discutindo política sem governar", tamanha a de Severo Gomes e de muitos outros ("quase toda a nossa classe domi-
I celeuma que deveriam causar propostas como a fidelidade partidária e o nante se acomoda ao governo"). Delfim Netto, por exemplo, seria hoje
voto distrital misto.24 De modo a evitar um impasse, cumpriria iniciar as crítico do regime militar. O PFL certamente não comportaria o rótulo de
li! direita, ressaltava Cardoso. Seria no máximo "um partido de centro olhando
, reformas com matérias sobre as quais fosse possível antecipar uma atuação
coesa da base de apoio. para a direita". Bastaria atentar para a "coloração socia}'.' desse partido,
Assumia-se como certa a afinidade entre o PSDB e o PFL quanto às traço que se acentuaria em nomes como Marco Maciel, Gustavo Krause e
t
r reformas econômicas e àquelas relativas à estrutura do Estado. Era exata- Inocêncio Oliveira, todos comprometidos com o social-liberalismo, lem-
brava o presidente. Inexistindo a direita, a distinção que se impunha seria

23 Fernando HenriqueCardosoe Mário Soares, "CapítuloIV", em O mundo em português: um


diálogo (São Paulo: Paz e Terra, 1998), pp. 55-62; Fernando Henrique Cardoso, "Capítulo 3",
em O presidente segundo o sociólogo (São Paulo: Companhia das Letras, 1998), pp. 34-42. 25 Fernando Henrique Cardoso, "Notas sobre a reforma do Estado", Novos Estudos Cebrap, n° 50,
24 lbid., p. 108: São Paulo, Editora Brasileira de Ciências, mar. 98, p. 12.
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278 ! Os anos noventa: o ocaso do político e o socrolizoçõo do mercado 279


Torcísio Costa
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;'i !~ a chapa Cardoso-Maciel. Entre os governistas vingou o entendimento de
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entre o atraso e a modernidade. Adeptos do atraso seriam todos os apega-
dos ao uso do público para fins privados: clientelistas, corporativistas ou que a melhor estratégia para a vitória nas urnas seria evitar que algo de
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fisiológicos. A esquerda estaria repleta dos corporativistas. Clientelistas e novo interviesse no processo, ou pelo menos que as inovações, quando pro-
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fisiológicos não teriam endereço ou sigla certa, estariam em toda a parte, duzidas pela oposição, fossem prontamente assumidas pelo Planalto.
concluía Cardoso. 26 Sempre que necessário, o governo se dispunha a ser, ao mesmo tem-
É difícil deixar de caracterizar o mapeamento feito por Cardoso dos po, porta-voz e crítico de suas ações. A estratégia foi aplicada em várias
políticos brasileiros como demasiado generoso com seus aliados. Parece- frentes. O argumento da oposição de que o governo estaria "dourando a
nos no mínimo imprecisa a sugestão de que os chamados clientelistas e pílula" ou minimizando a dimensão da crise por razões eleitoreiras, serviu
fisiológicos perambulam sem paragem definida. Como se pôde comprovar de gancho para que o Planalto adotasse novas medidas de contenção mone-
nas inúmeras votações provocadas pelo Palácio do Planalto em sua primei- tária, em nome da estabilidade orçamentária. O alerta sobre o desemprego
ra gestão, a prática de troca de votos por cargos ou benesses pessoais é crescente e o descaso com o social foi respondido com o discurso de conde-
característica daqueles com quem Cardoso aliou-se para reformar o Estado. nação de desperdícios na execução dos programas sociais. O problema es-
Se parte da esquerda. objetou a propostas como a quebra da estabilidade no taria no uso e não no volume de recursos à disposição dos agentes públicos.
emprego por motivações que podem ser classificadas como corporativistas, O aumento do desemprego decorreria basicamente, como em outras partes
a responsabilidade por sujeitar as reformas a uma lenta e desgastante aco- do mundo, das inovações técnicas, mas j á estariam em estudo medidas com-
modação de pleitos de duvidoso interesse público cabe aos conservadores, pensatórias como reforço aos programas de treinamento de mão-de-obra. O
aos integrantes do PFL, PMDB, PTB e PPB, que com o PSDB reuniam PFL passou a privilegiar a questão, no marco de seu social-liberalismo.
maioria suficiente à aprovação de toda e qualquer reforma constitucional. Sem esquecer o argumento básico de que, assegurada a estabilidade da
Ao comportamento desses atores se deve o tímido desempenho do primeiro moeda, a economia logo voltaria a crescer a taxas que permitiriam absorver
governo Cardoso em sua política de reformas. Das medidas previstas, so- os desempregados. As críticas recebidas eram convertidas em argumentos
mente foram aprovadas, após quatro anos de mandato, a eliminação do para a reeleição. Graças à coalizão no poder, o Brasil tinha rumo. Ninguéin
monopólio estatal em áreas como pesquisa de lavras, refino e transporte de melhor do que os mentores dessa conquista para identificar os corretivos
petróleo, a possibilidade de concessão de serviços públicos à iniciativa pri- necessários a que o país se mantivesse no caminho certo.
vada, a revogação de privilégios a empresas brasileiras de capital nacional e A resposta do eleitorado a esse discurso foi matizada. Cardoso foi
a quebra da cláusula de estabilidade no serviço público. Pour.o se avançou reeleito no primeiro turno, mas deixou de contar com o apoio de três esta-
na reforma da Previdência e nenhum passo foi dado no tocante às reformas dos-chave: Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e Minas Gerais. A vitória do
tributária e política. PSDB em São Paulo tampouco deve ser associada à popularidade de Car-
Os resultados talvez tivessem sido mais satisfatórios não fosse o espa- doso, que se manteve eqüidistante na disputa entre Mário Covas e Paulo
ço ocupado na agenda governamental, nos dois últimos anos de mandato, Maluf. Covas venceu com um discurso próprio, contando no segundo turno
pelo tema da reeleição. Negociada à exaustão, com estreito envolvimento com um decisivo voto petista. Com exceção do PSDB, todos os partidos da
do presidente, a emenda da reeleição foi aprovada por larga margem de coalizão perderam representantes no Congresso, Já os partidos que apoia-
votos. Não houve dissensões significativas na base de apoio. Uma vez pro- ram Lula aumentaram sua representação, especialmente o PT. A interpreta-
mulgada a emenda, os altos índices de popularidade mantidos por Cardoso ção que nos parece mais plausível desses resultados é de que o eleitorado
dissuadiram seus aliados de apresentarem candidatura própria. Foi mantida reiterou seu apoio à estabilização econômica e à condução do processo por
; ".
Cardoso, mas deixou clara a preocupação com o quadro social, em particu-
lar com os índices de desemprego. Salvo melhor juízo, os eleitores sinaliza-
26 Fernando Henrique Cardoso e Mário Soares, op. cit., pp. 63-5, e Fernando Henrique Cardoso, O
presidente segundo o sociólogo, cit., pp. 208-13. I ram estar pouco receptivos ao argumento caro ao presidente de que o governo
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fez o possível pelo social e de que o reforço das políticas públicas viria a ;: Teríamos a ressaltar a indiferença pelo aperfeiçoamento das institui-
ci ',I seu tempo, uma vez afastados os riscos ao Real.
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ções, comum aos três governos, que coincidiram em promover uma leitura
Muito em função do que se supõe ter sido a mensagem das urnas, .;.
deturpada da Constituição e, por conseguinte, das necessidades de sua re-
cogitou-se, logo após as eleições, da possibilidade de que Cardoso pode- forma. Fizeram da revisão constitucional apêndice das tentativas de estabi-
ria montar nova base de apoio no segundo mandato, inclinando-se à es-
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lização da economia. Desprezaram as reformas partidária e eleitoral. Collor,
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querda. Covas seria o principal articulador dessa estratégia, contando para t .;~ ,
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em nome de uma modernidade tosca, partilhada por muitos e que se propu-


tanto com o bom trânsito de que dispõe junto aos governadores da oposi- .
nha a deixar-nos na ante-sala do Primeiro Mundo. Itamar, por desinteresse.
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ção. O diálogo que se sabia inevitável entre o Planalto e aqueles governa- Cardoso, pragmático, para evitar atrasos adicionais na tramitação de refor-
dores em torno da reforma fiscal era tido como um passo importante. mas econômicas e da estrutura do Estado. Reformas que têm saído a conta-
t Transcorridos alguns meses da posse, tal cenário afigura-se remoto. Sob o gotas, fato que não se deve à postura da esquerda, ao contrário do que
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,~ impacto da crise cambial e de sucessivos escândalos envolvendo assesso- argúem os governistas. Os "jurássicos", segundo Collor, ou os "neobobos",
.j:Jt:. res imediatos, Cardoso mostra-se pouco propenso a colocar em risco apoios segundo Cardoso, jamais tiveram peso suficiente no Congresso para blo-
pretensamente co~solidados. A oposição não acena com a possibilidade quear os interesses do Planalto. A responsabilidade pela lentidão das refor-
i,~, de um diálogo màis estreito. Algumas de suas vozes caminham em dire- mas é dos integrantes da base omnibus do presidente.
ção oposta, propondo a abertura de processo de impeachment do presi- Foram tantos os agregados, muitos dos quais com tamanho apego ao
dente, sob alegação de que teria havido improbidade na condução do fisiologismo, que não se observa maior unidade de propósitos entre os
programa de privatizações. Cardoso parece sujeito aos aliados, pelo me- aliados do atual governo. A concertação partidária se esvai em repetidos
nos até que a aproximação da campanha presidencial precipite o lança- desacertos e disputas pontuais, em que vigora moeda nem sempre de fácil
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mento de candidaturas específicas, mensuração. Somente nos parece claro o custo político da prática de conci-
liação. Ao se insistir em um consenso fictício, acoberta-se a política menor,
prosperam os sofismas, inibe-se o conflito que se sabe essencial à democra-
Comentários finais
cia - aquele que se dá em torno de idéias. Bom seria que o gosto pelo
dissenso houvesse sobrevivido à "década perdida".
Os anos noventa significaram o reverso dos anos oitenta. Se a década
passada havia sido caracterizada pela estagnação econômica e por avanços
I1 institucionais importantes, os últimos 10 anos trouxeram sustentada estabi- .,t;..

lização monetária, mas frustraram os que esperavam cruzar o milênio com


um modelo político mais bem estruturado. É verdade que a década termina,
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em termos políticos, melhor do que começou. Com Fernando Collor de ..,'

Mello, o Brasil beirou o patético, sob um populismo histriônico, autoritário :~:..


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e corrupto. Veio o populismo assistencialista de Itamar Franco, que ao me-
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n nos se manteve nos limites do idôneo e esboçou disposição para dialogar .~.
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com o Congresso e a sociedade civil. Concluímos a década com Fernando ~


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Henrique Cardoso, o primeiro presidente reeleito por voto popular. Por cima
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das diferenças entre as três gestões - que existem e não cabe negligenciar,
sob o risco de banalizarmos as razões que levaram ao processo de im-
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peachment - houve continuidades de Collor a Cardoso.

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282 Torcísio Costa

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