Você está na página 1de 123

UNIVERSIDADE CATÓLICA DE MOÇAMBIQUE

Centro de Ensino à Distância

Manual do Curso de Licenciatura em Ensino da Língua Portuguesa

Sociolinguística
Código: P0190

Módulo único
17 Unidades
Direitos de autor (copyright)

Este manual é propriedade da Universidade Católica de Moçambique, Centro de


Ensino à Distância (CED) e contém reservados todos os direitos. É proibida a
duplicação ou reprodução deste manual, no seu todo ou em partes, sob quaisquer
formas ou por quaisquer meios (electrónicos, mecânico, gravação, fotocópia ou
outros), sem permissão expressa de entidade editora (Universidade Católica de
Moçambique-Centro de Ensino à Distância). O não cumprimento desta advertência é
passível a processos judiciais.

Elaborado por: dr. Geraldo Fernando VUNGUIRE Licenciado em Ensino de


Português pela Universidade Pedagógica.

Colaboradores do Curso de Licenciatura em Ensino do Português do Centro de


Ensino à Distância (CED) da Universidade Católica de Moçambique-UCM.
Universidade Católica de Moçambique
Centro de Ensino à Distância-CED
Rua Correira de Brito No 613-Ponta-Gêa

Moçambique-Beira
Telefone: 23 32 64 05
Cel: 82 50 18 44 0

Fax:23 32 64 06
E-mail:ced@ucm.ac.mz
Website: www..ucm.ac.mz
Agradecimentos

A Universidade Católica de Moçambique-Centro de Ensino à Distância e o autor do


presente manual agradecem a colaboração das entidades individuais e instituições
na elaboração deste manual.
Centro de Ensino à Distância i

Índice
Centro de Ensino à Distância ii

Visão geral 4

Benvindo a Sócio-Linguística 4
Objectivos do curso ....................................................................................................... 4
Quem deveria estudar este módulo ............................................................................ 6
Como está estruturado este módulo ........................................................................... 6
Ícones de actividade ...................................................................................................... 6
Habilidades de estudo ................................................................................................... 7
Precisa de apoio? .......................................................................................................... 7
Caro estudante: .............................................................................................................. 7
Tarefas (avaliação e auto-avaliação) .......................................................................... 7
Avaliação ......................................................................................................................... 8

Unidade1 Introdução à Sociolinguística 9

Unidade 2 Língua e Sociedade 18

Unidade 3 Mudança Linguística 26

Unidade 4. Universais linguísticos 32

Unidade 5. Relação Língua e Pensamento 36

Unidade 6. Relação entre Língua e Cultura 41

Unidade 7. A Hipótese Sapir e Whorf 50

Unidade 8 Comunidade de fala e teorias de Labov e Hymes 54

Unidade 9 O mito da deficiência linguística 59

Unidade 10 Aquisição de Lingua Segunda 63

Unidade 12 A Variação linguística 69

Unidade 13 Norma Padrão vs Variedade 73

Unidade 14 Relação entre Língua e Sociedade 76

Unidade 15 Comunidade Línguistica 79


Centro de Ensino à Distância iii

Teoria da monogénese 83

Unidade 16 Línguas Veiculares 84

Unidade 17 Bilinguismo 87

Unidade 18 Plurilinguismo e multilinguismo 91

Unidade 19 Códigos Sociolinguísticos 97

Unidade 20 Política e Planificação Línguistica 101

Unidade 21 Estratificação social do inglês em Nova Iorque 104

Unidade 22 O papel da rede social na variação e mudança linguística de


Moçambique 109
Centro de Ensino à Distância 4

Visão geral

Benvindo a Sócio-Linguística
O presente modulo integra-se nas linguisticas e dum modo específico é
designada sociolinguística, ciência que surgiu em 1964 num congresso
organizado por William Bright, na Universidade de Califórnia, em Los
Angels (UCLA), onde participaram vários estudiosos que se tornaram mais
tarde referências clássicas na tradição dos estudos referentes à questão da
relação entre a língua e a sociedade

Neste módulo pretendemos fazer perceber que o contexto social: espaço; o


tempo; o contexto; o contacto de linguas são factores que interferem na
variação linguistica concorrendo assim para um maior conhecimento das
questões da diversidade linguistica no país e no mundo em geral.

Objectivos do curso

Quando terminar o estudo de sociolinguística o estudante/cursante será


capaz de:

1 Definir Sociolinguística;

2 Distinguir o objecto de estudo da Sociolinguística;


Objectivos
3 Estabelecer a relação entre língua e pensamento;

4 Estabelecer a relação entre língua e cultura;

5 Estabelecer a relação entre língua e sociedade;

6 Distinguir comunidade linguística de língua;

7 Saber o que são línguas veiculares;

8 Diferenciar política linguística de planificacão linguística;

9 Definir universais linguísticos;


Centro de Ensino à Distância 5

10 Diferenciar plurilinguismo de multilinguismo.

Páginas introdutórias

11 Um índice completo.

12 Uma visão geral detalhada do curso / módulo,


resumindo os aspectos-chave que você precisa conhecer
para completar o estudo. Recomendamos vivamente que
leia esta secção com atenção antes de começar o seu
estudo.

Conteúdo do curso / módulo

O curso está estruturado em unidades. Cada unidade ncluirá


uma introdução, objectivos da unidade, conteúdo da
unidade incluindo actividades de aprendizagem, um
sumário da unidade e uma ou mais actividades para auto-
avaliação.

Outros recursos

Para quem esteja interessado em aprender mais,


apresentamos uma lista de recursos adicionais para voce
explore. Estes recursos podem incluir livros, artigos ou sites
na internet.

Tarefas de avaliação e/ou Auto-avaliação

Tarefas de avaliação para este módulo encontram-se no


final de cada unidade. E sempre que necessário, dão-se
folhas individuais para desenvolver as tarefas, assim como
instruções para as completar. Estes elementos encontram-
se no final do modulo.
Centro de Ensino à Distância 6

Comentários e sugestões

Esta é a sua oportunidade para nos dar sugestões e fazer


comentários sobre a estrutura e o conteúdo do curso /
módulo. Os seus comentários serão úteis para nos ajudar a
avaliar e melhorar este curso / módulo.

Quem deveria estudar este módulo

Este Módulo foi concebido para todos aqueles estudantes que queiram ser
professores da disciplina de Português no futuro. E espera-se que os
futuros professores de Português possam ensinar esta língua com
correcção, não deixando de prestar atenção à variação linguística nos
discursos orais e escritos dos aprendentes.

Como está estruturado este módulo

Todos os manuais das cadeiras dos cursos oferecidos pela Universidade


Católica de Moçambique-Centro de Ensino à Distância (UCM-CED)
encontram-se estruturados da seguinte maneira:

Ícones de actividade

Ao longo deste manual irá encontrar uma série de ícones nas margens das
folhas. Estes icones servem para identificar diferentes partes do processo
de aprendizagem. Podem indicar uma parcela específica de texto, uma
nova actividade ou tarefa, uma mudança de actividade, etc.

Acerca dos ícones

Pode ver o conjunto completo de ícones deste manual já a seguir, cada um


com uma descrição do seu significado e da forma como nós interpretámos
esse significado para representar as várias actividades ao longo deste
curso / módulo.
Centro de Ensino à Distância 7

Habilidades de estudo

Caro estudante, procure reservar no mínimo 2 (duas) horas de estudo por


dia e use ao máximo o tempo disponível nos finais de semana. Lembre-te
que é necessário elaborar um plano de estudo individual, que inclui, a data,
o dia, a hora, o que estudar, como estudar e com quem estudar (sozinho,
com colegas, outros).

Lembre-se que o seu sucesso depende da sua entrega, você é o


responsável pela sua própria aprendizagem e cabe a si planificar,
organizar, gerir, controlar e avaliar o seu próprio progresso.

Evite plágio.

Precisa de apoio?

Caro estudante:

Os tutores têm por obrigação monitorar a sua aprendizagem, daí, o


estudante deve ter a oportunidade de interagir objectivamente com o tutor,
usando para o efeito os mecanismos apresentados acima.

Todos os tutores têm por obrigação de facilitar a interacção. Em caso de


problemas específicos, ele deve ser o primeiro a ser contactado, numa fase
posterior contacte o coordenador do curso e se o problema for da natureza
geral, contacte a direcção do CED, pelo número 825018440.

Os contactos só se podem efectuar nos dias úteis e nas horas normais de


expediente.

Tarefas (avaliação e auto-avaliação)

O estudante deve realizar todas as tarefas (exercícios, actividades e auto-


avaliação), contudo nem todas deverão ser entregues, mas é importante
que sejem realizadas. As tarefas devem ser entregues antes do período
presencial.
Centro de Ensino à Distância 8

Para cada tarefa serão estabelecidos prazos de entrega, e o não


cumprimento dos prazos de entrega, implica a não classificação do
estudante

Os trabalhos devem ser entregues ao CED e os mesmos devem ser


dirigidos ao tutor/docentes.

Podem ser utilizadas diferentes fontes e materiais de pesquisa, contudo os


mesmos devem ser devidamente referenciados, respeitando os direitos do
autor.

Avaliação

Será avaliado durante o estudo independente (80% do curso) e o período


presencial (20%). A avaliação do estudante é regulamentada com base no
chamado regulamento de avaliação.

Os trabalhos de campo por si desenvolvidos, durante o estudo individual,


concorrem para os 25% do cálculo da média de frequência da cadeira.

Os testes são realizados durante as sessões presenciais e concorrem para


os 75% do cálculo da média de frequência da cadeira.

Os exames são realizados no final da cadeira e durante as sessões


presenciais, eles representam 60%, o que adicionado aos 40% da média
de frequência, determinam a nota final com a qual o estudante conclui a
cadeira.

A nota de 10 (dez) valores é a nota mínima de conclusão da cadeira.

Nesta cadeira o estudante deverá realizar: 3 (três) trabalhos; 2 (dois) teste e


1 (exame).
Centro de Ensino à Distância 9

Unidade1 Introdução à Sociolinguística

Introdução

Ao falarmos da sociolinguística é importante tecer algumas


considerações com relação ao seu surgimento, ao seu objecto
de estudo e as características particulares da língua
portuguesa tendo em conta o contexto das relações entre
língua e sociedade.

A figura da sociolinguística é sem dúvida William Labov, que,


nos anos 1960, começou uma série de investigações sobre a
variação linguística investigações que revolucionaram nossa
compreensão de como os falantes utilizam sua língua.

Ao completar esta unidade / lição, você será capaz de:

 Compreender como surge a sociolinguística;

 Identificar o objecto de estudo da


Objectivos
sociolinguística;

 Indicar as fases da evolução da língua


portuguesa.

Surgimento da Sociolinguística

Os estudos linguísticos começam a ser trilhados em uma


perspectiva diacrónica. Na busca de comprovação do parentesco
linguístico entre as línguas chamadas de indo-europeias, surge, no
Centro de Ensino à Distância 10

século XIX, o estudo histórico - comparativo das Línguas através da


Filologia, ciência cujo objecto são as Línguas e textos estudados a
partir do método histórico - comparativo. Os métodos comparativos
criados por Franz Bopp, aliado ao histórico desenvolvido por Jacob
Grimm, levaram Friedrich Diez a realizar um estudo histórico - -
comparativo nas Línguas românicas.

Ainda nessa época, outro alemão, August Schleicher, dissocia a


tradição filológica dos estudos linguísticos, colocando-a como uma
ciência histórica. Schleicher insere a Linguística no campo das
ciências naturais comparando a língua a uma planta que nasce,
cresce, se desenvolve e morre. Ele propõe uma teoria naturalista da
língua, inspirado no evolucionismo de Darwin e traz uma
classificação genealógica para as Línguas.

A orientação de Schleicher vai afastar a Linguística de qualquer


consideração de ordem social e cultural no trato do fenómeno
linguístico.
Nos fins do século XIX, surge uma nova escola linguística que critica
essa teoria naturalista das Línguas: a escola neogramaticista. E, os
neogramáticos Hermann Osthof e Karl Brugmann, pregavam que a
língua tinha que ser estudada ligada ao indivíduo falante e que o
mais importante nao era chegar a língua original indo-europeia, mas
estudar as Línguas vivas actuais para entender suas mudanças.
Inicia-se a Investigação dos mecanismos de mudança e surgem as
leis fonéticas para estudar essas mudanças.
Hugo Schuchardt realiza crítica aos neo-gramáticos, propondo que
as Línguas mudam de acordo com os falantes e que as variedades
estão condicionadas por inúmeros factores. Nesse momento inicia-
se a trilha da Didactologia e da Sociolinguística.

Enquanto o século XIX e marcado pela comparação histórica das


línguas, a tradição de relacionar língua, cultura e sociedade, faz
Centro de Ensino à Distância 11

parte da reflexão de vários autores do século XX.

O século XX traz uma concepção sociológica do falante e merece


destaque o linguista francês Antoine Meillet. Discípulo de Saussure,
Antoine Meillet propõe que a história da língua e inseparável da
história da cultura e da sociedade. Para Meillet, a língua e um fator
social e as condições sociais influenciam decisivamente sobre a
língua, e, consequentemente, sobre a mudança.

Embora o aspecto social da língua tenha chamado a atenção desde


cedo, tendo tido relevância ja no trabalho do linguista suíço
Ferdinand de Saussure no início do século XX, foi talvez somente
nos anos 1950 que este aspecto tenha começado a ser investigado
minuciosamente.
Pioneiros como Uriel Weinreich, Charles Ferguson e Joshua
Fishman chamaram a atenção para uma série de fenómenos
interessantes, tais como a diglossia e os efeitos do contacto
linguístico.

Mas pode-se dizer que a figura chave da Sociolinguística foi William


Labov, que, nos anos 1960, começou uma série de investigações
sobre a variação linguística investigações que revolucionaram nossa
compreensão de como os falantes utilizam sua língua e que
acabaram por resolver o paradoxo de Saussure. Seu modelo de
análise surge como uma reacção a ausência do componente social
no modelo gerativista. Seu primeiro estudo foi em 1963, sobre o
inglês falado na ilha de Martha's Vineyard, Estado de
Massachussets, EUA. A partir de então, vários outros estudos
seguiram-se, além de outros pesquisadores da área. No Brasil, por
exemplo, há o estudo do português falado nas cidades de São
Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Belo Horizonte.

Com isso, desenvolveram-se o estudo e o conhecimento das


Centro de Ensino à Distância 12

implicâncias que os factores sociais / externos, tais como: classe


social, nível de escolaridade, sexo, idade, situação de formalidade x
informalidade) tem na diversidade linguística, e o quanta eles
contribuem para a mudança (predominância de uma variante em
detrimento de outra). Foi, portanto, a partir de Labov que se
repensou a relação entre língua e sociedade, percebendo-se a
variação como um fenómeno geral e universal, presente em todas as
línguas, passível de ser sistematizado.

Objecto de estudo

O termo Sociolinguística, relativo a uma área da Linguística, fixou-se


em 1964, em um Congresso organizado por Willian Bright na
Universidade da Califórnia em Los Angeles. Nesse Congresso,
vários estudiosos que posteriormente constituíram as referências da
ciência, estiveram presentes: John Gumperz, Einar Haugen, William
Labov, Dell Hymes, John Fisher, José Pedro Rona.

Em 1966, William Bright publicou os trabalhos apresentados no


referido Congresso sob o título Sociolinguistics, e escreveu um texto
introdutório que define e caracteriza a nova ciência: As dimensões
da Sociolinguística. A proposta de Bright para a Sociolinguística é
relacionar as variações linguísticas observáveis em uma
comunidade com as diferenciações existentes na estrutura social
desta mesma sociedade. Assim, o objecto de estudo da
Sociolinguística será a diversidade linguística.

Na verdade, o surgimento da Sociolinguística, é uma continuação de


estudos iniciados no século XX e nasce marcada por uma origem
interdisciplinar. Neste século, estudiosos e pesquisadores conciliam
Linguística com Antropologia e surge a Antropologia Linguística que
defende que linguagem, cultura e sociedade são considerados
fenómenos inseparáveis. Há uma união entre os estudiosos das
ciências sociais com os estudiosos da língua. A Sociolinguística
Centro de Ensino à Distância 13

surge do interesse de vários pesquisadores em conciliar a


linguagem com os aspectos de ordem social e cultural. Nos
prenúncios dessa ciência, podemos destacar dois pesquisadores:

Dell Hymes que em 1962 publica um artigo em que propõe um novo


domínio da pesquisa: a etnografia da fala, mais tarde conhecida
como etnografia da comunicação. Esse novo domínio, procura
definir as funções da linguagem a partir da observação da fala e das
regras sociais próprias de cada comunidade;

William Labov que em 1963 observa a diversidade linguística em


uma comunidade (ilha da Martha's Vineyard em Massachussetts -
E.U.A.) e sublima o papel decisivo dos factores sociais na
explicação da variação linguística, ou melhor, da diversidade
linguística observada. No ano seguinte (1964), Labov fixa um
modelo de descrição e interpretação do fenómeno linguístico no
contexto social de comunidades urbanas ao finalizar sua pesquisa
sobre a estratificação social do inglês de Nova York. Esse modelo
de descrição passa a ser conhecido como Sociolinguística
Variacionista ou Teoria da Variação, de grande impacto na
Linguística contemporânea.
Os processos de mudanças contemporâneas que ocorrem na
comunidade de fala são o objecto de estudo da Sociolinguística.
Dessa forma, para a Sociolinguística, as comunidades de fala,
frequentemente, possuem formas linguísticas em variação, isto é,
formas que estão em co-ocorrência (quando duas formas são
usadas ao mesmo tempo) e em concorrência (quando duas formas
concorrem). Essas formas em variação recebem o nome de
"variantes linguísticas". Segundo Tarallo (1986, p. 08): "variantes
linguísticas são diversas maneiras de se dizer a mesma coisa em
um mesmo contexto e com o mesmo valor de verdade. A um
conjunto de variantes dá-se o nome de variável linguística". Daí ser
a Sociolinguística Variacionista também denominada de Teoria da
Centro de Ensino à Distância 14

Variação. Toda a análise sociolinguística passa então a ser


orientada para as variações sistemáticas, inerentes ao seu objecto
de estudo, a comunidade de fala, concebidas como uma
heterogeneidade estruturada, ou seja, existe uma organização por
trás dessa heterogeneidade da Língua falada. Conforme observou
Mollica (1992, p. 14) acerca da teoria variacionista:

"Ela parte do pressuposto de que toda variação é motivada, isto é,


controlada por factores de maneira tal que a heterogeneidade se
delineia sistemática e previsível".

Assim, a Teoria da Variação considera a língua em seu contexto


sociocultural, uma vez que, parte da explicação para a
heterogeneidade que emerge nos usos linguísticos concretos e pode
ser encontrada em factores externos ao sistema linguístico e não só
nos factores internos à língua. Desse modo, um estudo
sociolinguístico visa a descrição estatisticamente fundamentada de
um fenómeno variável, tendo como objectivo analisar, apreender e
sistematizar variantes linguísticas usadas por uma mesma
comunidade de fala. Para tanto, calcula-se a influência que cada
falar, interno ou externo ao sistema Linguístico, possui na realização
de uma ou de outra variante. Ao formalizar esse cenário, a análise
sociolinguística busca estabelecer a relação entre o processo de
variação que se observa na língua em um determinado momento
(isto é, sincronicamente) com os processos de mudança que estão a
acontecer na estrutura da língua ao longo do tempo (isto é,
diacronicamente) .

As pesquisas sociolinguísticas têm buscado traçar um perfil da


mudança em progresso e um perfil da variação estável através da
combinação dos resultados das variáveis: idade, sexo, classe social
e nível de escolaridade, a partir da noção de prestígio.
Centro de Ensino à Distância 15

Podemos concluir então que o objecto de estudo da Sociolinguística


e o estudo da língua falada, observada, descrita e analisada em seu
contexto social, isto é, em situações reais de uso.

A ponto de partida da Sociolinguística será a comunidade linguística,


ou seja, um conjunto de pessoas que interagem verbalmente e que
compartilham um conjunto de normas com respeito aos usos
linguísticos a que vai caracterizar uma comunidade linguística, não
será o facto de ser constituída por pessoas que falam da mesma
maneira, mas por pessoas que se relacionam por diversas redes
comunicativas e que utilizam as mesmas regras para o seu
comportamento verbal.
Enfim, ao estudar-se uma comunidade linguística, seja ela de onde
for (Madeira, Teofilandia, Coimbra, Nova York), teremos uma
constatação imediata: existe a diversidade ou variação nessa
comunidade, ou seja, toda a comunidade caracteriza-se pelo
emprego de diferentes modos de falar. São essas diferentes
maneiras de falar que a Sociolinguística chama de variedades
linguísticas. Assim, língua e variação são inseparáveis.
Podemos considerar uma língua homogénea apenas do ponto de
vista do sistema linguístico, mas a realização de uma língua, seja
ela qual for, é sempre heterogénea. Assim, falamos em Portugal um
único sistema linguístico como padrão: o português. Mas a
realização dessa língua portuguesa vai variar de acordo com
inúmeros factores: classe social, profissão, idade, sexo, região,
etnia, etc.

História da língua Portuguesa

O Português surge do latim que se falava em Roma. Com as guerras


e as conquistas romanas, esse idioma expandiu-se por toda a
Europa. Os romanos impuseram sua língua, sua cultura e seus
costumes aos povos conquistados. Para garantir a dominação
política, os romanos exigiam que, em todo o vasto Império, o latim
Centro de Ensino à Distância 16

fosse de uso obrigatório nas escolas, nas transacções comerciais,


nos documentos, nos actos oficiais e no serviço militar.

Entretanto, o contacto dos romanos com a cultura grega deu-se de


forma contrária: foi o latim que incorporou uma grande quantidade
de palavras gregas que, consequentemente, também vieram a fazer
parte da língua portuguesa. Todavia, não foi o latim clássico,
literário, usado pelos grandes escritores romanos (Cícero, Horácio,
César, Virgílio, Ovídio, etc.), que foi imposto às populações
dominadas. Foi o latim vulgar, falado pelos soldados romanos.

Aos poucos, os povos dominados absorveram o falar dos romanos,


que se misturou com os falares regionais, originando as línguas
neolatinas: português, espanhol, francês, italiano, romeno, galego e
outras.

FASES DA LÍNGUA PORTUGUESA

a) Fase pré-histórica: vai do século V ao Século IX (mistura do latim


vulgar com falares locais).

b) Fase proto-histórica: vai do século IX ao XII. Nessa fase, já se


encontram documentos escritos em latim bastante transformado,
misturado com palavras portuguesas.

c) Fase histórica: Fase do português arcaico: vai do século XII ao


século XVI.

Aparecem os primeiros documentos inteiramente redigidos em


português. O primeiro texto escrito em língua portuguesa foi a poesia
“Cantiga da Ribeirinha”, de Paio Soares de Taveirós, no século XVI
até nossos dias. Sob a influência dos autores humanistas e
clássicos, houve um progresso linguístico muito grande, datando
dessa época a obra-prima da língua portuguesa, Os Lusíadas, de
Luís Vaz de Camões.
Centro de Ensino à Distância 17

A língua portuguesa é actualmente a quinta mais falada no mundo,


com mais de 300 milhões de falantes. A comunidade lusófona é
constituída por:

a) Portugal;

b) Ilhas de Madeira, dos Açores e Cabo Verde;

c) Brasil;

d) Angola, Moçambique, Guiné Bissau, São Tomé e Príncipe (na


África);

e) Goa, Macau, Timor (na Ásia)

Em alguns lugares da África e da Ásia, como Sri-Lanka, Macau,


Java, Málaca, Cabo Verde, Guiné, Cingapura, a língua portuguesa,
em contacto com os idiomas nativos, sofreu muitas alterações,
dando origem ao dialecto crioulo, usado nas transacções comerciais.

Exercícios

1. Explique, detalhadamente, o contexto de surgimento da


Sociolinguística como ciência da linguagem.

2. Apresente a definição de Sociolinguística e indica o


expoente máximo dessa ciência.

3. Qual é o objecto de estudo da Sociolinguística.

4. Diga, até que ponto o contexto social condicionou a


historia da língua portuguesa.

5. Caracterize as fases da evolução da língua portuguesa.


Centro de Ensino à Distância 18

Unidade 2 Língua e Sociedade

Introdução

Depois de termos falado do surgimento da sociolinguística e do seu


objecto linguístico, que é a diversidade linguística, trazemos nesta
unidade a ligação entre língua e sociedade, pois as línguas evoluem
e são modificadas no contexto social.

Ao falarmos deste item é indispensável trazer o conceito de dialecto,


dos factores que condicionam o seu surgimento assim como a sua
diversidade, pois todos estes elementos são condicionados pela
sociedade.

Ao completar esta unidade / lição, você será capaz de:

1. Identificar a relação entre língua e sociedade.

2. Relacionar a língua/ sociedade com a variação da


Objectivos
língua

3. Conceituar o dialecto, gíria e eufemismo.

Língua e sociedade

Linguagem e sociedade estão ligadas entre si de modo inquestionável.


Podemos até dizer que o ser humano é constituído dessa ligação. A língua
de um povo está intimamente ligada à história desse povo. Para além disso
é preciso observar que, somente se sabe de onde é um homem, após ele
ter falado. A sua língua o distingue dos outros falantes.

Cada região tem a sua língua, cada comunidade expõe de forma própria
essa língua e cada falante tem o seu jeito particular de realizar essa
mesma língua. Será que estamos falando de uma única língua ou existem
Centro de Ensino à Distância 19

várias Línguas dentro de uma mesma língua? É um caso para se pensar e


questionar.

Na verdade, politicamente falando, toda a região tem a sua língua oficial,


aquela que é aprendida por todos e em que se redigem os documentos e
textos dessa região. No entanto, uma região possui várias comunidades
linguísticas com Línguas distintas. Não estamos falando aqui em variantes
linguísticas, mas em línguas distintas. Por exemplo, aqui em Moçambique
têm apenas uma língua oficial, o português, porem, temos outras línguas
que são faladas aqui em comunidades diversas: Ndau, Sena, Ronga etc.
Nessa disciplina, o nosso objectivo não é estudar as diversas línguas de
um povo, mas as diversas variações linguísticas de uma mesma língua.

Ao observarmos, com mais cuidado a língua falada, perceberemos que ela


se apresenta como um universo aparentemente caótico. Principalmente no
contexto da realidade Moçambicana, reino de diversidades, a impressão e
de que não há sistematicidade alguma nesse meio de tantas variedades de
fala. Tal fenómeno deve-se ao facto de que duas ou mais maneiras de se
dizer a mesma coisa (denominadas variantes Linguísticas) coexistem, e
são realizadas no mesmo período de tempo pelos membros de uma
comunidade.

No entanto, essa heterogeneidade, diversificação e o uso de uma ou outra


variante podem ser analisados e sistematizados, dando entendimento de
como funciona e como muda a Língua a partir da diversidade.

Analisar e sistematizar as variantes em uma comunidade é o objectivo da


Sociolinguística (ou Teoria da Variação modelo teórico - metodológico que
tem como base a relação entre língua e sociedade, ou seja, os aspectos
sociais que determinam as relações entre os homens. São muitas as
influências que, nesse âmbito, determinam o modo de falar dos milhões de
falantes que compõem a nossa língua: condição social e económica; lugar
de origem ou de situação; contacto entre línguas; acesso ou privação aos
bens culturais que a sociedade produz e perpetua; identidade sexual; etnia;
Centro de Ensino à Distância 20

modo de actuação nos diversos sectores da sociedade (trabalhos


institucionais, relações pessoais); situações diversas de grau de
formalidade ou informalidade; influência da escola; influência da mídia.

Da mesma forma, tais factores, além de influenciar a maneira do indivíduo


realizar sua fala, também determinam o modo como ele irá perceber,
avaliar e julgar a variação, assim como a sua própria fala.

As variações da língua

Dialecto

Podemos entender por dialecto as variações de pronúncia, vocabulário e


gramática pertencentes a uma determinada língua. Os dialectos não
ocorrem somente em regiões diferentes, pois numa determinada região
existem também as variações dialetais etárias, sociais, referentes ao sexo
masculino e feminino e estilísticas.

Dialectos regionais e sotaques

Como exemplo de variação regional, encontramos certas palavras


possuindo significados que necessitam de “tradução”, caso de “pastelaria”
significando para os brasileiros o lugar onde se vende pastel de carne,
queijo e palmito basicamente. Em Portugal vamos à pastelaria comprar
pães doces, bolinhos e outras guloseimas do género. Um carro velho e
muito usado é apelidado de “chocolateria” em Portugal, mas no Brasil não
se usa esse termo.

Existem dialectos que evidenciam o nível social ao qual pertence um


indivíduo. Os dialectos mais prestigiados são das classes mais elevadas e
o da elite é tomado não mais como dialecto e sim como a própria “língua”.
A discriminação do dialecto das classes populares é geralmente baseada
no conceito de que essa classe por não dominar a norma padrão de
prestígio e usar seus próprios métodos para a realização da linguagem,
“corrompem” a língua com esses “erros”. No entanto, as transformações
Centro de Ensino à Distância 21

que vão acontecendo na língua se devem também à elite que absorve


alguns termos de dialectos de classes mais baixas, provocando uma
mudança linguística, e aí o “erro” já não é mais erro... e nesse caso não se
diz que a elite “corrompe” a língua.

Língua e Idade

A camada mais jovem da população usa um dialecto que se contrasta


muito com o usado pelas pessoas mais idosas. Os jovens absorvem
novidades e adoptam a linguagem informal, enquanto os idosos tendem a
ser mais “conservadores”. Essa falta de conservadorismo característica no
dialecto dos jovens costuma trazer mudanças na língua. Algumas gírias
usadas por jovens da década de setenta no entanto não entraram na língua
e são hoje em dia raramente usadas como “pisante” para sapato ou
“cremilda” para dentadura. A palavra “legal” entretanto, foi aceita e hoje é
usada amplamente na linguagem informal, abrangendo todas as faixas
etárias.

Esses exemplos comprovam o fato de que nem tudo que é novo e diferente
irá se efectivar numa língua, podendo alguns vocábulos simplesmente ir
desaparecendo e outros continuarem existindo dentro de um determinado
dialecto, ou até abranger seu uso por outros, sem necessariamente cobrir
todos os dialectos existentes nessa língua.

Linguagem e discriminação sexual

As mulheres possuem algumas peculiaridades no uso da língua e os


homens possuem outras. Para exemplificar essas variações referentes ao
sexo observamos os diminutivos como “bonitinho”, “gracinha”, “menininha”,
sendo usados mais pelas mulheres e aumentativos de nomes próprios
como “Carlão” e “Marcão” sendo mais usados por homens.

Dependendo do ambiente em que o indivíduo se encontra, ele usará a


linguagem coloquial, formal ou informal e essa diferença de tratamento faz
parte da variação estilística.
Centro de Ensino à Distância 22

Por último, o dialecto falado também se difere do dialecto escrito.

Alguns dialectos são usados com diferentes sotaques regionais como


ocorre na norma culta da língua portuguesa. Os sotaques então, não
podem ser confundidos com dialecto, pois o que caracteriza o sotaque é
apenas a diferença de pronúncia dos falantes.

“A questão é que certas diferenças fonéticas entre sotaque podem ser


estigmatizadas pela sociedade, da mesma forma como certas diferenças
lexicais e gramáticas entre os dialectos o são. O sotaque e o dialecto de
uma pessoa variam sistematicamente segundo a formalidade ou
informalidade da situação em que se encontra. (Linguagem e linguística.
Uma introdução - John Lyons).”

A transcrição da fala mostrou que os falantes usam a variante “culta” da


língua, porém a variante informal e com características próprias da fala.
Mas essas transcrições, podem gerar problemas se levarmos em conta os
sotaques usados pelos diversos falantes de uma mesma variante. Alguma
palavra poderia ser transcrita de acordo com o sotaque de um determinado
falante. Um carioca por exemplo transcreveria “poix é”, diferentemente de
um paulista, que usaria “pois é”. Em consequência, a transcrição seria lida
de forma diferente também. A língua escrita, seja ela formal ou informal
possui certas normas gramaticais que facilitam a leitura de qualquer
falante. As transcrições fonéticas seriam mais adequadas para melhor
diferenciarmos os diferentes tipos de sotaques existentes.

As pessoas que não dominam a escrita como ela é ensinada na escola,


tendem a colocar na escrita os traços da fala. Uma característica facilmente
encontrada nos textos que diferem a escrita da fala actualmente é o uso de
“u” e “i”, no lugar de “o” e “e”. Esse aspecto pode significar uma mudança
em andamento na língua. Entretanto não seria correcto dizer que essa
mudança irá chegar à escrita devido a força que as gramáticas normativas
adquiriram na imposição do que é “correcto” na língua escrita.
Centro de Ensino à Distância 23

A fala possui algumas peculiaridades que não são encontradas na escrita,


e são referentes à funcionalidade e outros factores que a escrita usa do
outro modo para se fazer entender.

É compreensível que as pessoas que não observam com atenção o


funcionamento da língua, possam fazer afirmações como: “O português é
muito fácil de aprender porque é uma língua que a gente escreve como se
fala.” O fato é que frequentemente não nos damos conta que a mente
produz as descodificações necessárias para a compreensão imediata e
perfeita da língua. E é claro que aquelas transcrições foram feitas
propositadamente, para que se torne mais claro que a linguagem é muito
mais complexa do que imagina-se com certa frequência.

A gíria

O dicionário Michaellis (1998:1034) trata a gíria como uma linguagem


especial de um grupo pertencente a uma classe ou a uma profissão, ou
como uma linguagem de grupos marginalizados.

Na mesma perspectiva, o dicionário Aurélio (1999:989) complementa a


definição acima com a expressão “linguagem de malfeitores, malandros
etc”, usada para não ser entendidos pelas outras pessoas e fala ainda em
“calão” e “geringonça”, que segundo o próprio Aurélio é “coisa malfeita e de
duração ou estrutura precária.

Como se pode ver, alguns gramáticos não chegam sequer a mencionar o


que seja gíria, onde encontrá-la ou usá-la e aqueles que a mencionam,
tratam-na de forma preconceituosa, devendo ser eliminada.
Centro de Ensino à Distância 24

O Eufemismo

Eufemismo, segundo o dicionário Aurélio (1999), é uma figura de estilo


que emprega termos mais agradáveis para suavizar uma expressão. É uma
forma de tornar mais amena, mais bonita, ou mais importante, coisas que
não o são.

Existem alguns eufemismos que ficaram famosos, dentre eles o de Mário


Quintana ao dizer "verdades que esqueceram de acontecer" em lugar de
mentira, ou o de Alvarez de Azevedo quando disse "era uma estrela divina
que ao firmamento voou!" em lugar de morreu.

Pois é. Ultimamente, uma parte visível de nossa imprensa tem sido pródiga
na utilização de eufemismos. Só que, ao invés de utilizar tal recurso de
linguagem para amenizar algum facto mais impactante para a população,
utiliza-o com finalidades ideológicas, de protecção a um sistema com o
qual ela se acumpliciou e do qual sobrevive.

Assim é que lemos nas últimas notícias palavras como “seguranças”


quando deveríamos ouvir “jagunços ou capangas”; “produtor rural” quando
deveríamos ler “invasor e espoliador de terras dos índios”; “trabalho de
mais de 30 anos” quando deveríamos ler “expropriação impune das terras
indígenas por mais de 30 anos”.

Muitas vezes, ocorre o inverso, ou seja, ao invés de amenizar uma


expressão, a imprensa venal procura dar a ela um sentido mais degradante
e que cause maior repúdio na população. Por exemplo: ao invés de usar o
termo “movimento social” (principalmente se estiver tratando do MST), ela
fala em “terroristas”, “sequestradores”, “assassinos”, etc. Se estiver
tratando de reivindicações de professores em relação ao governo do
Estado, eles evidentemente serão denominados “baderneiros”.

Ah, e dependendo da fazenda na qual estiver acontecendo o facto, se lhes


convier, eles darão nome a todos os bois, por mais insignificante que seja o
indício de prova de algum ilícito. Já, em algumas outras, elas omitirão os
Centro de Ensino à Distância 25

nomes sob a justificativa de preservar a dignidade de pessoas que, ao final


do processo, poderão ser consideradas inocentes. Ou seja, aplicam o
Princípio da Presunção de Inocência conforme os seus interesses espúrios.

Exercícios

1. Estabeleça a relação entre língua e sociedade.

2. Aponte dois factores que condicionam a varação das


línguas.

3. Elabore um quadro esquemático resumindo os


conceitos de Dialecto, gíria e eufemismo.

4. Fale sobre a Linguagem e discriminação sexual


Centro de Ensino à Distância 26

Unidade 3 Mudança Linguística

Introdução

Na unidade anterior falamos sobre a língua e a sociedade apresentamos


alguns elementos que condicionam o surgimento da variação linguística
porem, nesta unidade trazemos um elemento novo que não de ser
confundido com o anterior que é a mudança linguística.

A Mudança linguística distingue-se da variação linguística pois, enquanto


um ocorre e observável na diacronia o outro é observável na sincronia mais
os dois originam alterações na língua.

Ao completar esta unidade / lição, você será capaz de:

1. Definir a mudança linguística

2. Distinguir a mudança linguística e variação linguística.


Objectivos
3. Caracterizar as diferentes mudanças linguísticas.

3.1 Conceito de Mudança Linguística

Segundo wikilingue

Chama-se mudança linguística ao processo de modificação e


transformação que, em sua evolução histórica, experimentam todas
as línguas em general, e as unidades linguísticas da cada um de
seus níveis em particular.

A mudança linguística diferencia-se da variação linguística em que


no primeiro as modificações são diacrónicas e, por tanto, as estuda
Centro de Ensino à Distância 27

a linguística histórica, enquanto as variações são sincrónicas e a


analisa, entre outras disciplinas, a sociolinguística.

Dois factores que têm intervindo desde sempre na mudança


linguística têm sido os empréstimos e a analogia, o primeiro é um
exemplo de causa externa e o segundo de causa interna.

3.2 Caracterização da mudança linguística (Labov, Weinreich, Herzog)

 Não corresponde a desvios resultantes da fala, só quando se


generaliza (vindo dum subgrupo da comunidade) e impondo-se
gradualmente até ser reconhecida como regra (ex. Informar de que:
o «de» tem tendência a desaparecer).

 Não pode confundir-se estrutura com homogeneidade. A variação


nunca é desordenada, há regras. Falar uma língua é dominar as
estruturas heterogéneas que o constituem (fala de Olhão, de Braga,
etc.).

 Nem sempre a variação implica mudança no sistema, porém toda a


mudança resulta da variabilidade do sistema.

 A mudança não se generaliza de forme uniforme e instantânea, o


sistema pode albergar formas alternativas durante muito tempo
antes de adoptar alguma delas como regra.

 A mudança ocorre nos idiolectos. Estes não são coesos nem


internamente consistentes pois dependem de factores sociais.

 A mudança não se restringe à variação dentro da família para ser


considerada como tal tem de transmitir-se a toda a comunidade.

 A mudança decorre da conjunção de factores intra e extra


linguísticos indissociavelmente ligados. Todas as perspectivas que
Centro de Ensino à Distância 28

se limitam ao estudo de apenas umas destas vertentes, falha na


descrição dos fenómenos.

3.3 Níveis das Mudanças

As mudanças linguísticas agrupam-se por conveniência em três níveis:


a mudança fonético, a mudança morfosintáctico e a mudança léxico-
semántico.

3.3.1 No nível fonético-fonológico

É uma mudança condicionada básica por factores internos, relacionados


com as propriedades articulatórias ou facilidade de articulação como
a assimilação fonética, isto a partir da elisão de outros sons.

A mudança linguística afecta os vários níveis constitutivos da língua:


fonético, fonológico, morfológico, sintáctico e semântico.

Fonética: estudo dos sons da fala (fones).

Fonologia: estudo dos sons da língua (fonemas).

Princípio da regularidade da mudança fonética; um som muda


quando:

- Se mantém o contexto fonético em que ocorre.

- Ocorre num determinado período de tempo.

- Se verifica na mesma região ou comunidade.

- Não houver interferência de nenhum factor de outra natureza


como por exemplo:

- Condicionamento semântico

- Influência de tipo dialectal

- Influência de articulação individual.


Centro de Ensino à Distância 29

Na península Ibérica, antes da queda do Império Romano:

3.3.2 Nível morfosintáctico

Na mudança morfosintáctico e morfológico joga um papel muito importante


a ambiguidade estrutural e a gramaticalizacao. A ambiguidade permite o
aparecimento de reanálise morfémico.

3.3.3 Nível Semântico

A mudança semântica refere-se à especialização ou redução do significado


de uma palavra (por exemplo em inglês deer originalmente designava a
qualquer animal selvagem como seus cognado latino fēra 'fera') ou a
generalização ou ampliação do significado de uma palavra. Estes
processos de especialização e generalização têm que ver com a
metonimia e a metáfora.

Pelo contrário a mudança léxico tem que ver com a substituição de uma
forma lexical por outra para denominar a uma mesma realidade. E também
com o processo de empréstimo linguístico que normalmente consiste na
incorporação de formas lexicais para designar conceitos novos, ou para
nomear casos especializados de conceitos existentes (grande parte
dos anglicismos recentes em espanhol, são deste tipo)

Considerando, agora, apenas o último dos referidos níveis, recorde-se que


são três os processos que conduzem à mudança semântica de uma
unidade lexical:

- Alargamento ou ampliação do significado


Centro de Ensino à Distância 30

SIGNIFICADO ORIGINAL SIGNIFICADO ACTUAL


PALAVRA
(LATIM)
Caderno Folha dobrada em quatro Conjunto de folhas brancas
encadernadas
Calamidade Destruição de searas Grande catástrofe que matou
muita gente
Companheiro Que partilha connosco o pão Amigo
Fogo Lar onde se acende o lume Lume

Restrição ou redução do significado (especialização)

PALAVRA SIGNIFICADO ORIGINAL SIGNIFICADO ACTUAL


(LATIM)
Licor Qualquer liquido Bebida alcoólica doce
Ministro Aquele que serve Político que faz parte do
governo
Solteiro Que vive só Não casado e nunca casou

- Troca de significado

SIGNIFICADO ORIGINAL SIGNIFICADO ACTUAL


PALAVRA
(LATIM)
Aresta Barba de espiga Linhas que contornam os
lados dum sólido
Capela Diminutivo de capa Igreja
Parvo Pequeno Estúpido
Centro de Ensino à Distância 31

3.4 Linguas Mortas

Língua morta é uma língua, idioma, que não possui mais falantes nativos,
mas que possui a gramática e vocabulário conhecidos e está registrado em
documentos escritos, podendo assim ser estudado e usado na atualidade
mesmo que sua pronúncia seja desconhecida. Difere do conceito de língua
extinta, pois, esta última ocorre quando uma língua não é mais utilizada e
não pode mais ser aprendida por meio de documentos, sendo reconhecida
apenas pela influência que possam ter efetuado sobre outras línguas.
Exemplos de línguas mortas são o copta, o latim e o grego antigo.

Exercícios

1. Defina mudança linguística.

2. Apresente num quadro resumo as diferenças entre


mudança linguística e variação linguística.

3. Quais são as características de mudança linguística.

4. Distinga em esquema as diferentes mudanças da


língua (fonéticas, morfosintacticas, e semânticas)
Centro de Ensino à Distância 32

Unidade 4. Universais linguísticos

Introdução

Nas unidades anteriores falamos sobre os factores sociais que


condicionam quer a variação linguística assim como a mudança das
línguas mas é importante dizer que embora hajam diferenças entre
as línguas, há elementos comuns em todas as línguas do universo.

Estes elementos são designados universais linguísticos que se


distinguem em dois grandes tipos: Absolutos e implicacionais esto
de acordo com as suas características.

Ao completar esta unidade / lição, você será capaz de:

1. Conhecer os Universais linguísticos

2. Conceituar universais linguísticos.


Objectivos
3. Caracterizar os universais linguísticos.

Conceito de universais linguísticos

Chama-se universais linguísticos às semelhanças existentes em todas


as línguas e que permitem afirmar que, por exemplo, todas as línguas
faladas têm vogais e consoantes. Os universais linguísticos interessam
à psicolinguística, à etnolinguística e à tipologia linguística.

A investigação teve o seu pioneiro em Joseph H. Greenberg, que fixou um


conjunto de universais básicos (relacionados sobretudo com a sintaxe) a
partir do estudo de umas trinta línguas, mas cobrou força a partir da
formulação das gramáticas generativas na década de 1960 . Para Noam
Chomsky, os seres humanos somos capazes de produzir um numero
infinito de orações, incluídas orações que ninguém dissera antes, a partir
Centro de Ensino à Distância 33

de um conjunto reduzido de regras gramaticais e um conjunto finito de


vocábulos. A capacidade para estruturar a nossa produção desta maneira
é inata, parte do património genético dos seres humanos e chama-se
gramática universal. A partir desta gramática universal, a criança que
aprende uma língua concreta acede a esta precisando adquirir só umas
poucas particularidades.

Um exemplo de universal linguístico é a dupla articulação da


linguagem humana: todas as línguas contam com uma articulação não
significativa da corrente falada (os fonemas) e outra em unidades de nível
superior, os morfemas, que já são significativos. Outro é que cada língua
comporta um inventário limitado de fonemas (entre 10 e 70) e que só utiliza
50% das oposições fonológicas possíveis para distinguir esses fonemas.

Uma primeira tipologia distingue entre universais absolutos e implicativos.


Os universais absolutos são verdadeiros para todas as línguas
conhecidas e são relativamente poucos (por exemplo: todas as línguas
têm pronomes). Os universais implicacionais são relevantes para línguas
que contam com um rasgo determinado que sempre se acompanha de
outro (por exemplo, se uma língua tem número trial também o tem dual).

Outra tipologia distingue entre universais de substancia e universais de


forma. Os universais de substancia são os rasgos comuns que existem
nas diversas línguas segundo os que se organiza a substancia linguística
(o continuum da experiência representável). Por exemplo, as categorias
sintácticas (verbo, substantivo, etc.). Os universais de forma são as
combinações com os que a substancia linguística se manifesta. Por
exemplo, as ferramentas denominam-se em todas as línguas não a partir
das suas qualidades físicas, senão com referência à actividade humana
que possibilitam.

Distinguem-se finalmente quatro tipos de universais: os universais


fonológicos, gramaticais e semânticos (exemplos anteriores) e os
universais simbólicos (Por exemplo: a palavra que designa à "mãe"
possui uma consoante nasal em muitíssimas línguas).
Centro de Ensino à Distância 34

As particularidades que são comuns em cada língua:


1. Onde existem seres humanos, há sempre língua;
2. Não existem línguas primitivas: todas as línguas têm a
capacidade de exprimir ideias, conceitos e o seu vocabulário
pode ser alargado;
3. Todas as línguas do mundo estão em constante mudança;
4. Em todas as línguas, os signos são arbitrários, isto é, a
relação entre os sons e os sentidos e a linguagem falada é
universal;
5. Todas as línguas possuem um sistema limitado de sons;
6. Todas as gramáticas contêm regras de formação de palavras;
7. Cada língua possui segmentos distintos de sons;
8. Todas as línguas possuem um sistema limitado de vogais e
consoantes, todas estas possuem categorias gramaticais
idênticas;
9. Em todas as línguas do mundo existem universais semânticos
(feminino e masculino)
10. Qualquer língua tem a capacidade de referenciar o passado,
o presente e o futuro, como também fazer perguntas, formular
respostas e declarações, etc.;
11. Os falantes de todas as línguas são capazes de produzir e
entender um conjunto infinito de frases, isto porque existem
universais sintácticos;
12. Qualquer crianção normal de qualquer ponto geográfico,
independentemente das suas características é capaz de
aprender qualquer língua;
13. Em todas as línguas existem palavras proibidas.

Exercícios

1. Defina Universais linguísticos.

2. Distinga os universais Absolutos dos implicacionais.


Centro de Ensino à Distância 35

3. Escolha três universais linguísticos e apresente


argumentos que os tornam elementos que possam ser
considerados universais.
Centro de Ensino à Distância 36

Unidade 5. Relação Língua e Pensamento

Introdução

O ser humano é feito de corpo e espírito. Nesta estrutura há um elemento


que é fundamental, o espírito, que até certo ponto pode ser considerado
indispensável para o desenvolvimento do ser humano e da sociedade em
geral.

É neste elemento que encontramos o pensamento que torna lógico


qualquer comportamento humano. Neste caso concreto, estamos falando
da língua, que sem dúvida também é orientada pelo pensamento que por
sua vez exterioriza o seu pensamento.

Ao completar esta unidade / lição, você será capaz de:

1. Compreender a relação existente entre língua e


pensamento.
Objectivos
2. Entender o postulado da psicologia genética.

Relação entre Língua e Pensamento

Para VYGOTSKY, todo o homem tem a faculdade de pensar. Mas o


pensamento, em tanto que linguístico, implica, por outras palavras,
que a aquisição a linguagem faz variar a psique o indivíduo.
Tomando o caso dos surdo-mudos e cegos, Vygotski mostrou que
estes, ao adquirirem a linguagem, podem também adquirir um
pensamento lógico.
Centro de Ensino à Distância 37

A Psicologia genética postula que:


1. A faculdade da palavra não é inata ao homem, a não ser na
medida em que os iindivíduos herdam a estrutura do cérebro
e dos órgãos para “assim poderem falar, tanto assim é que
existem indivíduos que não falam. Finalmente afirmam que o
pensamento e a palavra são produtos sociais.

2. Estudos feitos confirmam a ideia da unidade orgânica entre o


pensamento e a linguagem.

HARDER e HUMBOLDT postularam que a linguagem dá ao


pensamento humano os seus limites e os seus contornos. A
linguagem limita o pensamento: (o que a linguagem não expressa é
porque não existe). Para eles, entre estes dois conceitos não existe
nenhuma independência – defendem a ideia de uma unidade
orgânica. Para a corrente dualista. Os dois processos são diferentes
e um nada tem a ver com o outro.

Na verdade, a questão do fundo é saber se haverá ou não um


processo de pensamento separado do processo de verbalização
desse mesmo pensamento?

Ora, a psicologia genética fornece alguns dados à linguística


tentando decifrar esta relação. Os geneticistas fizeram experiências
com 04 crianças selvagens, cujos resultados mostaram a existência
de uma unidade orgânica entre o pensamento e a linguagem.

Jean PIAGET defende a ideia de que a linguagem e o pensamento


são processos unitários, tendo se baseado no que apelidou de o
egocentrismo da fala que a criança manifesta.

VYGOTSKI, por sua vez é de opinião que a linguagem e o


pensamento ocorrem paralelamente até uma certa fase (até 2 anos),
Centro de Ensino à Distância 38

estas dissociam-se quando a criança descobre que cada objecto tem


nome. Ele conclui, apoiando-se nos dados da psicologia genética,
que o pensamento desenvolve-se mais depressa que a linguagem.

ADAM SHAVE defende a ideia de que o pensamento é mais rico que


a linguagem. As imagens da realidade não têm por si uma natureza
linguística apesar de terem uma relação linguística.

Tanto o pensamento como a linguagem são produto social. “o


homem pensa como fala” conclui HUMBOLDT. Para ele, se o
indivíduo fala uma certa língua, o seu pensamento será influenciado
por essa língua. Quer dizer, a língua é que cria a realidade. A
linguagem é a apreensão da realidade”

A este propósito, surgem duas questões: será que a língua é um


acto de criação da realidade, ou é o reflexo da realidade?
Segundo as conclusões de HUMBOLDT, a língua etermina em
absoluto a nossa maneira de enchergar a realidade. A língua é, por
assim dizer, a maneira de organizar o caos exterior.

Mas, contrapõe-se, se a língua é reflexo da reallidade, então ela é


extrínseca ao homem. Ela exite objectivamente e o homem apropria-
se nela.

GEORGES MONIN considera a existência de 05 universais


linguísticos, sendo:
a) cosmogónicos – tudo que nas lgs se refere à nossa vida no
planeta, nomeadamente: situação de chuva, sol, reino animal,
etc
b) Universais biológicos – respiração, sexo, alimentação,
bebidas, etc.
c) Universais psicológicos - medo, humor, fantasmas, alegria
choro, riso, etc.
Centro de Ensino à Distância 39

d) Universais culturais – instalam a convivência entre as línguas


nos domínios da religião, política, poder, tecnologia etc;
e) Universais linguísticos – estrutura das línguas, categorias
sintácticas, expressões da noção de distância e de tempo etc.

Porém, FREDERIC FRANÇÕIS critica tal tipologia considerando que


MONIN peca em alguns conceitos do seu estudo, nomeadamnete
porque o seu estudo é feito fundamentalmente com base nas línguas
europeias.

MONIN realça que, em princípio, todas as línguas exprimem a noção


da distância. Realça a existência de elementos contínuos (noção do
quente e frio – referencialidade não universal) e descontínuos ( a
referencialidade da terra e do céu – não universal)

Mais uma vez, coloca-se a questão: porque é que há tantas


semelhanças (tantos elementos comuns) entre as línguas? O facto
de as sociedades estarem mais isoladas umas das outras faz com
que haja uma maior convergência entre as línguas?

Para ADAM SHAVE a linguagem não cria o mundo e tão pouco é


reflexo deste. Contudo, ela é as duas coisas de uma forma
moderada porque tem que ver com o factor social. O Ser humano
que utiliza a língua e apreende o mundo por meio de óculos sociais,
pela influência de outras gerações e influências sociais do meio em
que vive.
Isto leva-nos a tirar certas conclusões: a primeira é que o sistema de
uma língua define, em certo sentido, a nossa visão do mundo. A
segunda é que não é o homem que determina de forma arbitrária as
coisas, elas existem objectivamente.
Centro de Ensino à Distância 40

Exercícios

1. Porque é que entre língua e pensamento não existe


independência.

2. Que ideia defendia Jean Piaget.

3. O que postula a Psicologia genética.


Centro de Ensino à Distância 41

Unidade 6. Relação entre Língua e Cultura

Introdução

È obvio que a língua é um produto social e o sistema linguístico influencia,


de certa maneira, a nossa maneira de abordar e interpretar o mundo.
Porém, a relação entre língua e cultura já não é bionívoca como pode
parecer, pois que a língua evolui mais de vagar que a cultura.

Na unidade acima falamos da relação entre lingua e pensamento e nesta


de modo mais abrangente tambem trazemos lingua e cultura para além do
pensamento.

Ao completar esta unidade / lição, você será capaz de:

 Compreender a relação existente entre língua/


pensamento e cultura.
Objectivos
 Fundamentar o contributo de Sapir e Whorf na relação
entre língua e cultura.

Relação entre língua e Cultura

A língua é um produto social e o sistema linguístico influencia, de certa


maneira, a nossa maneira de abordar e interpretar o mundo.
Porém, a relação entre língua e cultura já não é bionívoca como pode
parecer, pois que a língua evolui mais de vagar que a cultura.

WHORF entende que a língua tem de ser vista com todos os seus
componentes, acrescentando que a gramática modela as ideias e a
actividade mental e altera os pontos de vista da sociedade (sistema
Centro de Ensino à Distância 42

linguístico) e não só o léxico. SAPIR, por sua vez, admite que a língua é
identificada pela cultura, e que ela, de facto, evolui mais lentamente que a
cultura. Quer dizer, tanto SAPIR como WHORF admitem o facto da
existência de um princípio de relatividade linguística. Porém, tal facto pode
ser difícil de ser provado, visto que isso significaria que sem uma língua
comum, não haveria sociedade humana.

Não existe relação entre a forma da língua e a forma de cultura daqueles


que a falam. Apenas o vocabulário pode ser indicador sensível de cultura.

As teorias de SAPIR e WHORF suscitaram acesos debates entre linguístas


de vários quadrantes. A noção de universais linguisticos foi uma tentativa
de demonstrar e negar a teoria de relatividade linguística, pelos seguintes
motivos: ficou provado que existem aspectos que são comuns a todas as
línguas; assim, fica claro que diferentes sistemas linguísticos não podem
corresponder a diferentes visões do mundo.

PIAGET opõe-se à teoria da relatividade linguística, argumentando que o


mundo não tem nada a ver com as influências da língua e nem a língua é
responsável pelo pensamento. A língua não é apenas uma espécie de
função simbólica, ela facilita a função simbólica sobre o pensamento. Ou
seja, a língua e o pensamento são elos num ciclo genético. Em última
análise, ambas dependem da inteligência que antecede a língua e é
independente dela. A línguas não é preponderantemente, mas sim, é um
instrumento que pode facilitar o desenvolvimento do pensamento. Os
estádios do pensamento são universais.
Antes dos 2 anos, o pensamento é pré-verbal, mas depois a fala é racional,
isto é, quando o pensamento começa ser verbal. Até por volta dos 7 anos,
a língua realiza tanto a função interna de guiar e orientar o pensamento,
assim como a sua função externa, que é a de comunicar com os outros o
resultado do seu pensamento. No pensamento existe uma parte que não é
verbal (discurso incompleto).
Centro de Ensino à Distância 43

Para VIGOTSKY, o pensamento desenvolve-se mais cedo que a língua. E,


segundo CHOMSKY, existem pensamentos, que através da língua, podem
expressar e entender realidades recíprocas.

Relação entre pensamento, linguagem e cultura

CULTURA
Cultura (do latim cultura, cultivar o solo, cuidar) é um conceito desenvolvido
inicialmente pelo antropólogo Edward Burnett Tylor para designar o todo
complexo e metabiológico criado pelo homem . São práticas e ações
sociais que seguem um padrão determinado no espaço. Refere-se a
crenças, comportamentos, valores, instituições, regras morais que
permeiam e identificam uma sociedade. Explica e dá sentido à cosmologia
social; É a identidade própria de um grupo humano em um território e num
determinado período.

Diversos sentidos da palavra variam consoante a aplicação em


determinado ramo do conhecimento humano:
Sociologia - o conceito de cultura tem um sentido diferente do senso
comum. Sintetizando simboliza tudo o que é aprendido e partilhado pelos
indivíduos de um determinado grupo e que confere uma identidade dentro
do seu grupo que pertença. Na sociologia não existem culturas superiores,
nem culturas inferiores pois a cultura é relativa, designando-se em
sociologia por relativismo cultural, isto é, a cultura do Brasil não é igual à
cultura portuguesa, por exemplo: diferem na maneira de se vestirem, na
maneira de agirem, têm crenças, valores e normas diferentes... isto é, têm
padrões culturais distintos.

Filosofia - cultura é o conjunto de manifestações humanas que contrastam


com a natureza ou comportamento natural. Por seu turno, em biologia uma
cultura é normalmente uma criação especial de organismos (em geral
microscópicos) para fins determinados (por exemplo: estudo de modos de
vida bacterianos, estudos microecológicos, etc.). No dia-a-dia das
Centro de Ensino à Distância 44

sociedades civilizadas (especialmente a sociedade ocidental) e no vulgo


costuma ser associada à aquisição de conhecimentos e práticas de vida
reconhecidas como melhores, superiores, ou seja, erudição; este sentido
normalmente se associa ao que é também descrito como “alta cultura”, e é
empregado apenas no singular (não existem culturas, apenas uma cultura
ideal, à qual os homens indistintamente devem se enquadrar). Dentro do
contexto da filosofia, a cultura é um conjunto de respostas para melhor
satisfazer as necessidades e os desejos humanos. Cultura é informação,
isto é, um conjunto de conhecimentos teóricos e práticos que se aprende e
transmite aos contemporâneos e aos vindouros.

A cultura é o resultado dos modos como os diversos grupos humanos


foram resolvendo os seus problemas ao longo da história. Cultura é
criação. O homem não só recebe a cultura dos seus antepassados como
também cria elementos que a renovam. A cultura é um fator de
humanização. O homem só se torna homem porque vive no seio de um
grupo cultural. A cultura é um sistema de símbolos compartilhados com que
se interpreta a realidade e que conferem sentido à vida dos seres
humanos.

O uso de abstração é uma característica do que é cultura: os elementos


culturais só existem na mente das pessoas, em seus símbolos tais como
padrões artísticos e mitos. Entretanto fala-se também em cultura material
(por analogia a cultura simbólica) quando do estudo de produtos culturais
concretos (obras de arte, escritos, ferramentas, etc.). Essa forma de cultura
(material) é preservada no tempo com mais facilidade, uma vez que a
cultura simbólica é extremamente frágil.

A principal característica da cultura é o chamado mecanismo adaptativo: a


capacidade de responder ao meio de acordo com mudança de hábitos,
mais rápida do que uma possível evolução biológica. O homem não
precisou, por exemplo, desenvolver longa pelagem e grossas camadas de
gordura sob a pele para viver em ambientes mais frios – ele simplesmente
Centro de Ensino à Distância 45

adaptou-se com o uso de roupas, do fogo e de habitações. A evolução


cultural é mais rápida do que a biológica. No entanto, ao rejeitar a evolução
biológica, o homem torna-se dependente da cultura, pois esta age em
substituição a elementos que constituiriam o ser humano; a falta de um
destes elementos (por exemplo, a supressão de um aspecto da cultura)
causaria o mesmo efeito de uma amputação ou defeito físico, talvez ainda
pior.

Além disso a cultura é também um mecanismo cumulativo. As


modificações trazidas por uma geração passam à geração seguinte, de
modo que a cultura transforma-se perdendo e incorporando aspectos mais
adequados à sobrevivência, reduzindo o esforço das novas gerações.

A cultura é dinâmica. Como mecanismo adaptativo e cumulativo, a cultura


sofre mudanças. Traços se perdem, outros se adicionam, em velocidades
distintas nas diferentes sociedades. Dois mecanismos básicos permitem a
mudança cultural: a invenção ou introdução de novos conceitos, e a difusão
de conceitos a partir de outras culturas. Há também a descoberta, que é
um tipo de mudança cultural originado pela revelação de algo
desconhecido pela própria sociedade e que ela decide adotar.

PENSAMENTO

Pensamento e pensar são, respectivamente, uma forma e processo mental.


Pensar permite aos seres modelarem o mundo e com isso lidar com ele de
uma forma efetiva e de acordo com suas metas, planos e desejos. Palavras
que se referem a conceitos e processos similares incluem cognição,
senciência, consciência, ideia, e imaginação. O pensamento é considerado
a expressão mais "palpável" do espírito humano, pois através de imagens e
idéias revela justamente a vontade deste.

O pensamento é fundamental no processo de aprendizagem (vide Piaget).


O pensamento é construto e construtivo do conhecimento.
Centro de Ensino à Distância 46

O principal veículo do processo de conscientização é o pensamento. A


atividade de pensar confere ao homem "asas" para mover-se no mundo e
"raízes" para aprofundar-se na realidade.

Etimologicamente, pensar significa avaliar o peso de alguma coisa. Em


sentido amplo, podemos dizer que o pensamento tem como missão tornar-
se avaliador da realidade.

Segundo Descartes (1596-1650), filósofo de grande importância na história


do pensamento, "a essência do homem é pensar". Por isso dizia: "Sou uma
coisa que pensa, isto é, que duvida, que afirma, que ignora muitas, que
ama, que odeia, que quer e não quer, que também imagina e que sente".

O pensamento faz a grandeza ou a pequenez do homem. A grandeza


decorre do pensamento bem pensado, que avalia a multiplicação do real e
se esforça para desvendá-lo atentamente, saboreando sua riqueza e
diversidade. Tal pensamento aprendeu a filosofar: a desejar amorosamente
a verdade, a amar a sabedoria.

A pequenez humana decorre do pensamento obscuro, mesquinho que


desconhece o sabor da busca do saber. Esse tipo de pensamento
transforma-se em meio de ocultação da realidade. Por meio dele a
atividade pensante, em vez de servir à liberdade pode transforma-se em
instrumento de dominação social.

Em linguagem comum, a palavra pensar cobre numerosas e diversas


atividades psicológicas. É as vezes um sinônimo de "tender a acreditar",
especialmente se não for com total confiança ("Eu acho que vai chover,
mas não tenho certeza"). Outras vezes denota o grau de atenção ("Eu fiz
isso sem pensar" ou qualquer coisa que esteja na consciência,
Centro de Ensino à Distância 47

especialmente se isso se referir a alguma coisa fora do ambiente imediato


("Isso me fez pensar na minha avó").

Características
O pensamento lógico se caracteriza por operar mediante conceitos e
raciocínios.
• Existem padrões que possuem um começo no pensamento e criam um
final, iso acontece em miléssimos de segundos, por sua vez milhares de
começos e finais fazem disso um pensamento lógico; este depende do
ambiente externo e para estar em contato com ele dependemos dos cinco
sentidos.

• O pensar sempre responde a uma motivação, que pode estar originada


no ambiente natural, social ou cultura, ou no sujeito pensante.

• O pensar é uma resolução de problemas. A necessidade exige satisfação.

• O processo de pensamento lógico sempre segue uma determinada


direção. Esta direção vai em busca de uma conclusão ou da solução de um
problema, não segue propriamente uma linha reta e sim um formato zigue-
zague com avanços, paradas, rodeios, e até mesmo retrocessos.

• O processo de pensar se representa como uma totalidade coerente e


organizada, no que diz respeito a seus diversos aspectos, modalidades,
elementos e etapas.

• O pensamento é simplesmente a arte de ordenar as matemáticas, e


expressá-las através do sistema linguístico.

• As pessoas possuem uma tendência ao equilíbrio, uma espécie de


impulso para o crescimento, a saúde, e ao ajuste. Existem uma série de
condições que impedem e bloqueiam esta tendência. O aprendizado de um
conceito negativo de si mesmo é uma das condições bloqueadores mais
Centro de Ensino à Distância 48

importantes. Um conceito equivocado ou negativo de si mesmo deriva de


experiências de desaprovação ou ambivalência que o sujeito passou nas
etadas iniciais de sua vida.

LINGUAGEM

Linguagem é qualquer e todo sistema de signos que serve de meio de


comunicação de idéias ou sentimentos através de signos convencionais,
sonoros, gráficos, gestuais etc., podendo ser percebida pelos diversos
órgãos dos sentidos, o que leva a distinguirem-se várias espécies de
linguagem: visual, auditiva, tátil, etc., ou, ainda, outras mais complexas,
constituídas, ao mesmo tempo, de elementos diversos.

Os elementos constitutivos da linguagem são, pois, gestos, sinais, sons,


símbolos ou palavras, usados para representar conceitos de comunicação,
idéias, significados e pensamentos. Embora os animais também se
comuniquem, a linguagem propriamente dita pertence apenas ao Homem.

Não se devem confundir os conceitos de linguagem e de língua. Enquanto


aquela (linguagem) diz respeito à capacidade ou faculdade de exercitar a
comunicação, latente ou em ação ou exercício, esta última (língua ou
idioma) refere-se a um conjunto de palavras e expressões usadas por um
povo, por uma nação, munido de regras próprias (sua gramática).

Noutra acepção (anátomo-fisiológica), linguagem é função cerebral que


permite a qualquer ser humano adquirir e utilizar uma língua. Por extensão,
chama-se linguagem de programação ao conjunto de códigos usados em
computação.

O estudo da linguagem, que envolve os signos, de uma forma geral, é


chamado semiótica. A linguística é subordinada à semiótica porque seu
Centro de Ensino à Distância 49

objeto de estudo é a língua, que é apenas um dos sinais estudados na


semiótica.

A função biológica e cerebral da linguagem é aquilo que mais


profundamente distingue o homem dos outros animais. Podemos
considerar que o desenvolvimento desta função cerebral ocorre em estreita
ligação com a bipedia e a libertação da mão, que permitiram o aumento do
volume do cérebro, a par do desenvolvimento de órgãos fonadores e da
mímica facial.

Devido a estas capacidades, para além da linguagem falada e escrita, o


homem - aprendendo pela observação de animais - desenvolveu a língua
de sinais adaptada pelos surdos em diferentes países, não só para
melhorar a comunicação entre surdos, mas também para utilizar em
situações especiais, como no teatro e entre navios ou pessoas e não
animais que se encontram fora do alcance do ouvido, mas que se podem
observar entre si.

Exercícios

1. Apresente a relação existente entre língua, cultura.

2. “Cultura é criação” comente a afirmação.

3. Distinga os conceitos de linguagem e de língua

4. Indique quatro elementos que fudamentam a relação entre língua e


pensamento.
Centro de Ensino à Distância 50

Unidade 7. A Hipótese Sapir e Whorf

Introdução

Nesta unidade falaremos de aspectos ligados à teoria de Sapir e


Whorf. Apresentaremos pormenorizadamente as ideias que
perpassam nesses teóricos bem como a sua aplicação no mundo
sociolinguístico.

Ao completar esta unidade / lição, você será capaz de:

 Compreender a hipótese Sapir e Whorf.

 Ilustrar o paradoxo da hipótese Sapir e Whorf.

Objectivos

A Hipótese Sapir e Whorf

Inicialmente, chamo atenção para o fato de que Sapir e Whorf


tratam explicitamente das relações linguagem/cultura e
linguagem/pensamento. Entretanto, considerando-se que « cultura
pode ser descrita como conhecimento adquirido socialmente, isto é,
como o conhecimento que uma pessoa tem em virtude de ser
membro de determinada sociedade » (Hudson 1980: 74 apud Lyons
1987: 274 grifo meu), pode-se dizer que há uma estreita ligação
entre cultura e sociedade.

Segundo Sapir, "não há duas línguas que sejam bastante


semelhantes para que se possa dizer que representam a mesma
realidade social‟ (1969:20 grifo meu). Assim, para efeito da
discussão proposta nesta secção, tomo o termo 'sociedade' como
equivalente à 'realidade social' e, grosso modo, à 'cultura'.
Centro de Ensino à Distância 51

De acordo com Sapir, a realidade é produzida pela linguagem, o que


significa dizer que não há mundos iguais, visto que não há línguas
iguais. Para o autor, a linguagem possui, sobretudo, o papel de
produzir e organizar o mundo mediante o processo de simbolização.
O caminho para compreensão do(s) mundo(s) se dá pela decifração
dos símbolos, que referem (produzem) a realidade e remetem a
conceitos (pensamento). Por exemplo: entender um poema exige a
"compreensão plena de toda a vida
da comunidade, tal como ela se espelha nas palavras ou as
palavras a sugerem em surdina" (op. cit).

O processo de simbolização da linguagem exige um sistema


fonético que articule imagens acústicas "gerando" o símbolo, o qual
proporcionará condições para a produção de
conceitos/pensamentos. Sem os símbolos na matemática, por
exemplo, um raciocínio matemático não seria possível, o que vale
dizer que a matemática não existiria e muito menos se expandiria
em níveis de complexidade. Os símbolos, por sua vez, geram um
efeito sobre a linguagem que é o de sua ampliação (abstração),
mediante um processo de classificação, categorização e seriação -
característicos do pensamento. É dessa forma que o mundo ao
nosso redor é possível/ construído, segundo Sapir.

Uma ilustração clássica da construção da realidade a partir da


linguagem é apresentada por Whorf em relação à língua hopi, na
qual não é possível pensar o tempo de forma linear como em outras
línguas, pois não há palavras, expressões ou formas gramaticais
que permitam isso. Ao invés das noções de tempo e espaço
(passado, presente e futuro), essa língua permite organizar o
contraste entre partícula e onda 2, obrigando, "ao ser obrigatório
pela forma de seus verbos, o povo hopi a perceber e observar os
fenómenos vibratórios, animando-os além disso a encontrar nomes
e a classificar esta classe de fenómenos" (1971:72).
Centro de Ensino à Distância 52

Para o autor, é possível descrever qualquer fenómeno observável


no universo sem levar em consideração os contrastes entre espaço
e tempo, ou seja, sem considerar o espaço como algo homogêneo e
independente do tempo, mas sim levando em conta as inter-
relações existentes entre os fenómenos.

Segundo Whorf, "o ponto de vista da relatividade, pertencente à


fisica moderna, é um desses pontos concebidos em termos
matemáticos, e a concepção universal do hopi é outra muito
diferente e que não é matemática, mas sim linguística"(p. 74).

As ideias desses dois estudiosos costumam ser referidas como a


"hipótese de Sapir-Whorf", podendo ser assim sintetizadas:

(i) a linguagem determina a forma de ver o mundo, e


consequentemente, de se relacionar com esse mundo (hipótese do
determinismo linguístico);
(ii) para diferentes línguas há diferentes perspectivas e diferentes
comportamentos (hipótese do relativismo linguístico). É interessante
destacar que, para Sapir, tanto a língua como a cultura (realidade
social) são passíveis de modificações: é da natureza da linguagem a
mudança, visto que "não há nada perfeitamente estático" e a "deriva
geral de uma língua tem fundo variável" (1969: 137).

Entretanto, existe um paradoxo: embora ambas estejam sujeitas a


mudanças, essas se dão em velocidades diferentes - a língua se
modifica mais lentamente, pois "um sistema gramatical, no que
depende dele próprio, tende a persistir indefinidamente. Em outras
palavras, a tendência conservadora se faz sentir muito mais
profundamente nos lineamentos essenciais da língua do que da
cultura" (p. 61). As consequências disso são que as culturas não
poderão ser sempre simbolizadas pela linguagem, conforme a
Centro de Ensino à Distância 53

passagem do tempo; e que será muito mais fácil simbolizar a cultura


no passado do que no momento actual.

Posto isso, remeto-me às questões colocadas na introdução: para


Sapir e Whorf, a linguagem determina a realidade social Todavia, a
versão forte da hipótese do determinismo linguístico parece se
enfraquecer diante do descompasso verificado entre as mudanças
na língua e na cultura, conforme exposto no parágrafo acima.

Exercicios

1. Apresente sinteticamente a teoria Sapir Whorf.

2. Na teoria de Sapir e Whorf também pode se dizer que há um


paradoxo. Diga porque?

3. Porque é que se diz que a linguagem determina a realidade


social.
Centro de Ensino à Distância 54

Unidade 8 Comunidade de fala e teorias de Labov e Hymes

Introdução

Nas unidades anteriores falamos sobre a relação entre a sociedade e a


língua e dissemos que a língua dentro da sociedade que esta sujeita a
mudanças que são condicionados pelos factores sociais políticos e
económicos.

Na mesma tona falamos da comunidade de fala que, muitas vezes não tem
tido o conceito consensual. Porem, na presente abordagem procuramos
trazer algumas teorias que nos orientam a aquisição de um conhecimento
abrangente na questão em estudo.

Ao completar esta unidade / lição, você será capaz de:

1. Conceituar a comunidade de fala.

2. Fundamentar a teoria de comunidade de fala segundo


Objectivos
Labov

3. Sistematizar as teorias de comunidade de fala.

O conceito de comunidade de fala

Segundo Terezinha Cristina C. R.(2006)1 O conceito de comunidade


de fala não é consensual. Ao contrário, trata-se de uma questão que
apresenta grande controvérsia, tanto no que concerne ao
estabelecimento de limites geográficos ou sociais, quanto no que toca
aos critérios de demarcação de uso da língua. As definições ora se
apresentam complexas demais ora muito amplas e pouco precisas,

1
Centro de Ensino à Distância 55

dependendo dos autores que as empregam, possibilitando, desta


forma, diferentes alcances e concepções. O termo tanto pode referir-se
a grandes ou pequenas comunidades urbanas ou rurais, quanto a
bairros e subgrupos (homens, mulheres, crianças).

8.1 Teoria de Labov

Alguns linguistas tendem a rejeitar esse conceito, como sugere Labov


(1972), é impossível compreender tais fenómenos fora do contexto
social da comunidade onde eles se produzem. Portanto, um estudo
que leva em conta a variação linguística, um método produtivo para a
observação e colecta de dados, deve partir das situações concretas de
uso da fala, ou seja, da comunidade de fala, que, segundo o autor, é
constituída por um grupo que compartilha um mesmo sistema
normativo de valores na interpretação dos fenómenos linguísticos, bem
como normas e atitudes diante do uso da linguagem.

Na pesquisa sociolinguística o que se quer analisar é o grupo de


indivíduos e não o indivíduo tomado isoladamente, pois conforme
argumenta Labov (1972) o vernáculo é propriedade de um grupo e não
de um indivíduo. (Entendendo aqui como vernáculo a primeira forma de
linguagem adquirida e empregada de forma natural entre falantes de
um mesmo grupo.)

Inicialmente, a primeira dificuldade encontrada para que se levantem


os conceitos diz respeito à utilização do termo que ora se apresenta
também como comunidade linguística

De acordo com Labov (1972, p.120-1): a comunidade de fala não é


definida por qualquer acordo marcado no uso de elementos da língua,
nem pela participação em um jogo de normas compartilhadas. Estas
normas podem ser observadas em tipos manifestos de
comportamentos avaliativos e pela uniformidade dos padrões
abstractos de variação, invariantes em níveis particulares de uso.
(Tradução nossa.)
Centro de Ensino à Distância 56

Labov foi quem primeiro levou em conta a uniformidade de padrões


linguísticos, no sentido de variação estruturada, como critério para
definir comunidade de fala. Sua concepção de uniformidade diz
respeito a regras de gramática que são compartilhadas na forma de
regras variáveis. Ao definir comunidade de fala, Labov enfatiza o
primeiro termo do sintagma, deixando em evidência o objecto da
sociolinguística: a comunidade social em seu aspecto linguístico, isto é,
a comunidade de fala.

8.1 Teoria de Hymes

Para Hymes (1967/1972) o conceito de comunidade de fala está ligado


a pessoas que compartilham regras de conduta e interpretação de fala
de pelo menos uma variedade linguística. Na base de sua descrição de
comunidade de fala está, antes do critério linguístico, o critério social,
ou seja, a comunidade de fala deve descrever entidades sociais, mais
que linguísticas. Dentro dessa visão, compartilhar apenas as regras
gramaticais não é condição suficiente para se caracterizar uma
comunidade. Ele critica aqueles que limitam seu espectro, discordando
desse ponto de vista. Referindo-se a Bloomfield (1933), diz que, no
passado, a noção de comunidade de fala reduzia-se à noção de língua;
aqueles que falavam a mesma língua (ou a mesma primeira língua, ou
língua padrão) eram definidos como membros de uma mesma
comunidade de fala. Para o autor essa é uma definição muito limitada.

Segundo Corder (1973) a comunidade de fala é composta por


indivíduos que se consideram falantes de uma mesma língua. Eles não
precisam ter nenhum outro atributo definido. Nota-se aqui uma visão
bastante ampla e subjectiva. Da mesma, forma Halliday adopta esse
critério em sua definição, como se constata em sua explicação:

A comunidade de fala é um grupo de pessoas que se consideram


como usuários da mesma língua. Neste sentido, existe uma
comunidade de fala “dos chineses”, uma vez que eles se julgam
falantes do “chinês” e não do pequinês, cantonês etc. Por outro lado,
Centro de Ensino à Distância 57

não há uma comunidade de fala em relação às línguas escandinavas,


muito embora estas sejam, em grande parte, compreensíveis entre si
(HALLIDAY et. all apud DITTMAR, 1997, p. 134). (Tradução nossa.)

A partir do exposto observam-se basicamente três tendências gerais


para a definição de comunidade de fala: a primeira refere-se à
comunidade de fala como constituída por pessoas que têm a mesma
primeira língua, ou seja, elas interagem por meio das regras
compartilhadas para o uso da língua materna. A segunda tendência
considera o carácter pragmático da comunicação, independentemente
do número de línguas ou variedades empregadas; nesse sentido uma
comunidade de fala pode se constituir de pessoas que se
compreendem ao fazer uso da mesma língua, mesmo não sendo esta
a materna. Por último, uma comunidade de fala pode se constituir de
pessoas que julgam pertencer a uma dada comunidade de fala, já que
se identificam socialmente com ela.

A tarefa de definir comunidade de fala não é simples, no entanto, essa


dificuldade precisa ser transposta, quando o desenvolvimento de um
trabalho visa compreender a variação e mudança linguística, pois
assenta-se numa tomada de posição sobre esse conceito, que
determina o tipo de amostra a ser seleccionada.

A concepção aqui adoptada é a de que os membros de uma


comunidade de fala são aqueles que nela nasceram e nunca dela se
afastaram com a finalidade de se estabelecerem em outro lugar,
portanto, que não tenham morado fora, Desta forma, compartilham
características sociais e atitudes sobre determinados aspectos
linguísticos que os caracterizam em termo de uma comunidade.

Por estarem os membros da comunidade de fala inseridos em


contextos sociais e económicos que determinam diferenças entre eles,
mudam seu comportamento linguístico conforme mudam os contextos
e as estratégias de comunicação. Portanto, os membros de uma
Centro de Ensino à Distância 58

mesma comunidade de fala tendem a apresentar comportamentos


distintos, de acordo com o conteúdo das interacções e com a situação
de comunicação. As pessoas não falam sempre da mesma maneira. A
variação linguística reflecte, justamente, a necessidade de as pessoas
serem vistas como iguais às outras em algumas situações ou como
diferentes em outras. De acordo com essa necessidade elas dão a
orientação ao seu discurso.

Exercicios

1. Defina a comunidade de fala.

2. Sub forma esquemática apresente de forma distintiva as teorias


de Labov e Hymes.

3. “As pessoas não falam sempre da mesma maneira.” Comente a


afirmação.
Centro de Ensino à Distância 59

Unidade 9 O mito da deficiência linguística

Introdução
A teoria de deficiência linguística traz-nos a noção de influencias as
relações sociais predominantes no grupo social até certo ponto
determinam o código linguístico a ser usado pelos indivíduos que o
constituem.
Todavia, esta teoria opõe-se à teoria de diferença linguística que é
apresentada por William Labov em 1973.

Ao completar esta unidade / lição, você será capaz de:

1. Conhecer o conceito de deficiências línguisticas

2. Relacionar a deficiência linguística a diferença


Objectivos
linguística.

A teoria do déficit linguístico

Um dos grandes responsáveis pela teoria da deficiência linguística tem


sido considerado Basil Bernstein, cuja obra foi escrita entre 1958 e 1973
sob título de Class, Codes and Control. A essência do pensamento desse
sociólogo consiste no facto de apontar a existência de uma relação de
causa entre a classe social de que a criança faz parte, sua linguagem e
seu rendimento escolar. Segundo ele, as relações sociais predominantes
no grupo social é que vão determinar o código linguístico a ser usado pelos
indivíduos que o constituem.
Centro de Ensino à Distância 60

A teoria da diferença linguística

A teoria da diferença linguística surgiu como uma reacção à teoria do


deficit linguístico. O principal defensor da teoria da diferença foi William
Labov que já em 1972, em seus primeiros trabalhos, considerava a teoria
do deficit um mito que não resistia a um exame científico cuidadoso. De
acordo com as pesquisas realizadas por Labov, a teoria da deficiência
linguística mascara a verdade dos factos ao atribuir às crianças dos guetos
de Nova York, sujeitos das suas primeiras pesquisas, uma “privação
linguística”. Para ele, as dificuldades que essas crianças apresentam na
escola são criadas pela própria escola, que não apresenta disponibilidade
de aceitação do dialecto falado pelas minorias desfavorecidas socialmente,
porque é diferente do dialecto padrão falado pelas crianças das classes
sociais favorecidas.

Nesse ponto reside a base de todas as pesquisas de Labov: a valorização


dos diferentes dialectos linguísticos. Para ele a teoria de deficiência
linguística, ou “teoria da privação” como ele prefere, repousa sobre
modelos falsos, uma vez que foi construída por especialistas não -
linguistas que não tinham o conhecimento necessário da variedade
linguística. Ao realizar suas pesquisas com as crianças do gueto do
Harlem, Nova York, relatadas no livro Language in the inner city (1972),
Labov demonstra que essas crianças recebem muita estimulação verbal e
falam uma língua mais estruturada que as crianças de classe média e
ainda mostra o grande valor que as minorias negras dos Estados Unidos
atribuem à linguagem oral, diferentemente da cultura da classe média que
dá mais valor á linguagem escrita. Ele discute também a “gramaticalidade”
da fala das classes menos favorecidas socialmente, mostrando ser a fala,
num registo informal, muito mais gramatical que a fala proferida num
registo formal. Segundo ele, as crianças das minorias desfavorecidas
socialmente utilizam um vocabulário básico igual ao de qualquer outras e
dominam um dialecto que é um sistema perfeitamente estruturado e têm
uma capacidade para a aprendizagem de conceitos e para o pensamento
Centro de Ensino à Distância 61

lógico idêntico à das crianças das classes sociais privilegiadas. Essa é a


base de todas as pesquisas de Labov.

Ele demonstra que as pesquisas sociolinguísticas, para terem valor,


precisam ser realizadas com critérios e dentro de situações naturais e
distensas, sem quaisquer interferências artificiais. Para entrevistar as
crianças negras dos guetos, por exemplo, ele utilizou como informante uma
pessoa negra do mesmo ambiente, sem gravador, capaz de criar situações
espontâneas para a fala das crianças, porque para Labov, a situação social
constitui o mais forte determinante do comportamento verbal.

A incompreensão do problema linguístico das crianças que falam uma


variedade linguística não prestigiada pelo meio escolar, ou melhor, o
desconhecimento do problema da variação linguística e da sua correcta
valorização torna-se um real perigo quando se estabelece uma relação
entre aprendizagem conceitual e variação linguística, tal como fizeram os
criadores da “teoria da privação verbal”. O fato de a criança falar uma
variedade de língua estruturada de forma diferente daquela falada pela
criança de classe social favorecida, não significa que ela não seja capaz de
assimilar conceitos transmitidos pelo ensino escolar, ou de desenvolver
qualquer habilidade relacionada com o uso do raciocínio. Labov demonstra
na sua pesquisa sobre Inglês Vernacular Negro (Black english Vernacular)
que as diferenças entre o dialecto e o dialecto padrão acontecem apenas
no nível de estrutura superficial e não podem ser causa do fracasso
registado na leitura das crianças das escolas dos guetos. Segundo esse
sociolinguista a causa do fracasso escolar dessas crianças reside no
Conflito Cultural que subjaz ao comportamento das crianças negras na
escola, conflito este que acontece entre os valores que estas crianças
incorporam nos seus grupos de rua e os valores das crianças de classe
média.

Transportando as descobertas feitas por Labov em suas pesquisas, para o


problema do fracasso escolar das crianças nas escolas brasileiras,
Centro de Ensino à Distância 62

constataremos que o problema desse insucesso reside no conflito que


ocorre entre os padrões linguísticos que as crianças de classe
desfavorecida socialmente trazem incorporadas ao seu comportamento e
os padrões linguísticos que a escola valoriza. A experiência linguística
reflecte os valores culturais que as crianças incorporam no seu meio
ambiente.

As crianças de classes sociais desfavorecidas não apresentam nenhuma


deficiência de ordem cognitiva, são capazes de aprender tudo que a escola
se dispõe a ensinar-lhes, apenas falam uma variedade de língua diferente
daquela prestigiada pela escola e, então, o desafio que se apresenta ao
ensino é o de habilitar essas crianças no domínio da variedade - padrão da
língua. Para tanto, voltamos mais uma vez à recomendação de Lemle
(1978, p.62) quando diz que a missão do professor não é a de fazer com
que os educandos abandonem o uso da gramática “errada”, para o
substituírem pela gramática “certa”, mas sim a de auxiliá-los na aquisição
de competência no uso das formas linguísticas da norma socialmente
prestigiada, como se fosse uma segunda língua, a título de acréscimo aos
usos linguísticos regionais e coloquiais que já dominam. Para a autora a
noção essencial nesse aspecto é a de adequação de usos de actos de
comunicação verbal em contextos apropriados. Cabe ao professor agir
com clarividência diante do fenómeno da variedade dialectal, se quiser
ensinar com eficiência a variedade linguística prestigiada socialmente a
todos os seus alunos.
Centro de Ensino à Distância 63

Unidade 10 Aquisição de Lingua Segunda

Introdução

Na sociedade moçambicana assim como em outras sociedades que


sejam ou não falantes da língua portuguesa, há fenómenos de
coexistência de duas ou mais línguas e neste contexto, terá de
haver sem dúvida uma que seja língua primeira.

No processo de aquisição da língua segunda há uma serie de


aspectos que devem ser observados tais como: o contexto, o
carácter progressivo da sua aquisição entre outros.

Ao completar esta unidade / lição, você será capaz de:

3. Compreender os processos de aquisição da aquisição


da L2
Objectivos
4. Caracterizar o processo de aquisição da L2

AQUISIÇÃO DE LÍNGUA SEGUNDA

O que acarreta a aprendizagem de uma L2? De acordo corn uma


teoria geral de ALS, uma característica fundamental da aquisição
de L2 é que ela tem urn desenvolvimento progressivo, em passos
sucessivos, ou uma aproximação a uma norma da língua-alvo. Em
muitos casos, estas tentativas, chamadas estruturas de
desenvolvimento , isto é, as estruturas linguísticas que não existem
na língua-alvo , mas que, de forma transparente, reflectem a
natureza da habilidade dos aprendentes num período de tempo
específico, são abandonadas.
Centro de Ensino à Distância 64

Na terminologia de ALS, os estágios, na aquisição da língua,


produzidos por urn aprendente, são conhecidos como interlínguas,
sistemas 'interinos' de regras e estruturas que ainda não são
idênticos a língua-alvo tal como é falada pelos nativos. Uma
interlíngua é, para todos os efeitos, a versão ou modelo da língua-
alvo que urn aprendente tem a sua disposição em certa altura do
seu processo aquisitivo.

Todas as interlínguas do aprendente partilham algumas


características comuns da definição. Como são por natureza
instáveis e transitórias são variáveis e flutuantes do ponto de vista
linguístico.

Outra característica importante da interlíngua do aprendente e


que muitas estruturas podem ser descritas em termos de etapas
de desenvolvimento. A aprendizagem de uma língua não é uma
questão de tudo ou nada. É urn processo que leva o seu tempo e
pode-se acompanhar a progressao da aquisição de urna dada
estrutura através , de uma série de passos. Para algumas
estruturas, estes têrn evidenciado grandes similaridades entre
falantes e línguas, e são também mais ou menos semelhantes
para aprendentes de L2, adultos ou crianças.

Urn conceito central de ALS que diz respeito as interlínguas é a


fossilização. Este termo refere-se à cessação da aprendizagem,
resultando num sistema de interlíngua mais estável, porém
incompleto ou não-nativo. A aquisição incompleta é normalmente
mais saliente entre aprendentes adultos, mas mesmo os
aprendentes crianças, que alcançam urn nível final de quase-
nativos ou semelhante ao nativo, mostram evidências de
fossilização. Numa tentativa de explicar porque e que os
aprendentes fossilizam, apresentam-se hipóteses cobrindo
Centro de Ensino à Distância 65

fenómenos tão variados como causas neurológicas, cognitivas, ou


de atitude. Alguns pesquisadores destacaram o valor da instrução
numa língua para ajudar a concentrar a atenção dos aprendentes
em aspectos da língua fossilizada dos quais eles, de outro modo,
não teriam verdadeira consciência. Contudo, é incerto se a
fossilização é ou não uma condição crónica de aprendizagem mal
sucedida da língua-alvo.

As interlínguas são vistas como o resultado de varias estrategias


de aquisição que os aprendentes usam. Uma dessas estratégias
e a simplificação das estruturas e elementos da língua-alvo, onde
os aprendentes produzem estruturas reduzidas corn padrões
fonológicos simples, morfologia reduzida e ordem de palavras
não marcada. É típico que as interlínguas simplificadas
contenham também um pequeno número de verbos e
substantivos básicos usados em sentidos alargados. Existe ainda
uma preferência por construções analíticas e perifrásticas. A
simplificação pode ocorrer a todos os níveis de aquisição,
embora seja mais frequente e generalizada nos estágios iniciais.

A sobregeneralização das estruturas da língua-alvo é uma noção


geralmente aplicada ao uso pelo aprendente de uma estrutura,
regra au item correctos da língua-alvo, num leque mais vasto de
contextos linguísticos do que e possível nessa língua. Por outras
palavras, o aprendente não adquiriu ainda as condições-limite numa
estrutura alvo correcta que cinge o seu uso aos contextos
específicos.

Uma terceira característica proeminente das interlínguas é a


transferência. Transferência é a extrapolação de estruturas, items e
regras da língua materna ou outra língua para a língua-alvo. Isto
resulta, com frequência, em formas da língua-alvo não gramaticais
ou incorrectas, chamadas interferências. Pensa-se que a
Centro de Ensino à Distância 66

transferência ocorre em todos os níveis de aquisição, mas que e


constrangida por relações tipológicas e pela existência de valores
marcados na língua-alvo e na língua materna: quanto mais
semelhantes as linguas forem do ponto de vista tipológico, maior e
a probabilidade de os falantes transferirem elementos entre elas.
Para além do mais, estruturas não marcadas ou simples serão mais
susceptíveis de serem transferidas do que items linguísticos
específicos e marcados, complexos.

A aquisição da língua não e apenas influenciada por processos e


estratégias psicolinguísticos dos 'indivíduos', mas é também
determinada pelo uso de contexto em que a aprendizagem tem
lugar. Os contextos em que os aprendentes se deparam com uma
L2 canstrangem o nível de proficiência que eles serao capazes de
alcançar nessa língua. Isto acontece porque contextos diferentes
oferecem tipos distintos de input de língua ou modeIos de língua
para o aprendente reproduzir, assim como fornecem condições
diferentes para usar a língua, isto é, diferentes oportunidades para
output linguístico. .

A teoria da ALS isolou alguns importantes factores contextuais que


determinam a aquisição. Os aprendentes necessitam, claramente,
de serem suficientemente expostos à língua por forma a
construirem uma representação mental de como ela devia ser
falada. Para além disso, o input que urn aprendente recebe deve
ser input compreensível (para que possa ocorrer uma aquisição
bem sucedida da língua. Isto significa que, relacionando quaisquer
items novos e desconhecidos da estrutura e léxico que possam
ocorrer numa elocução, com o significado ou a essência geral da
mensagem, o aprendente pode predizer a função ou significado do
item desconhecido. Os aprendentes precisam, por conseguinte, de
ser capazes de participar em interacções linguísticas em tomo da
negociação com sentido de mensagens a urn nível de
Centro de Ensino à Distância 67

complexidade linguística ligeiramente acima das suas próprias


competências. A teoria de aquisição de L2 sublinhou igualmente a
importância do output por forma a que os falantes se tomem
proficientes numa língua. O uso da língua num leque de contextos
coloca aos aprendentes exigências comunicativas da vida real. lsto
não só motiva o aprendente a produzir e consolidar a língua que ele
adquiriu, mas também fornece urn contexto para aprender novos
elementos da língua-alvo através da interacção e negociação.
Informação valiosa sobre o estilo e a adequabilidade de items
lexicais e estruturais e também mais facilmente disponibilizada ao
aprendente que participa em muitos discursos diferentes numa
língua. Os aprendentes são igualmente expostos a uma retro-
alimentação comunicativa de ordem 'correctiva' dos interlocutores.
Para além disso, quaisquer mal-entendidos que ocorram na
conversação forçam os interlocutores a 'reflectir'
metalinguisticamente sobre o seu próprio discurso. Finalmente, a
possibilidade de consolidaçao da língua já aprendida através da
prática frequente e repetição e um importante factor determinante
da fluência numa língua.

Por várias razões, a maior parte da pesquisa ALS têm sido


desenvolvida em contextos do Primeiro Mundo, mais
especificamente nos E.U.A., Canadá, Austrália e na Europa
ocidental e setentrional. Estes contextos diferem social, cultural e
sociolinguisticamente dos contextos do Terceiro Mundo. Embora
seja bastante provável que muitas das generalizações teóricas e
das descobertas elmpíricas da teoria de ALS possam, não obstante,
ser relevantes para contextos africanos, isto não pode ser tomado
como garantido. Concordamos com Sridhar & Sridhar quando eles
argumentam em relação a VVI que: o que é necessário é uma
reavaliação da aplicabilidade das teorias de ALS a circunstâncias
particulares nas quais as VVI são adquiridas, em vez de,
simplesmente, se legitimizar os aprendentes das VVIs como
Centro de Ensino à Distância 68

adquiridores 'normais' de L2 de acordo com os modelos


actualmente em Yoga.)

Uma das questões mais imperativas para o PPOM é alcançar uma


compreensão do que a aquisição de Iínguas metropolitanas envolve
no contexto sociolinguístico multilingue de Moçambique. A
sociolinguística das Iínguas ex-coloniais, em contextos multiIingues,
tem consequências para a forma como os aprendentes tratam de as
adquirir, uma vez que a aprendizagem de uma L2 pode ser vista
como um processo de "tornar-se membro de uma comunidade de
discurso, regida, à semelhança de outras formas de comportamento
verbal, por normas que obtém nessa comunidade particular"
(Muysken, 1984:101). A questão será então: como caracterizar a
situação sociolinguística de tais línguas? Na secção seguinte,
analisaremos alguns factores que determinam as formas variadas
em que as Iínguas são faladas.

Exercícios
1. “uma característica fundamental da aquisição de L2 é que ela tem
urn desenvolvimento progressivo”
a) Fudamente a citação apresentada olhando para o processo
de aquisição do portugues em Moçambique.

2. No processo da ALS destaca-se a aprendizagem incompleto ou não-


nativo. Diga como se processa.
3. Apresente as caracterististicas das interlínguas.
Centro de Ensino à Distância 69

Unidade 12 A Variação linguística

Introdução

Nesta etapa, vamos tratar da diversidade linguística em si, ou seja,


da variação no português, você pode, a título de reflexão, começar
a observar as diferentes formas de fala que Ihe rodeiam: na
família, no trabalho, nas ruas, revistas, jornais, t.v rádio. Analise-as
conforme vai estudando o assunto.

Em toda a comunidade de fala há formas alternativas de se dizer a


mesma coisa numa mesma situação. A essas formas dá-se o
nome de variantes linguísticas. A um conjunto de variantes chama-
se variável linguística.

Ao completar esta unidade / lição, você será capaz


Objectivos
de:

1. Compreender o fenómeno de Variação linguística.

2. Distinguir os conceitos de Variedade, variável e


variante.

Como se observam as Variações?


Veja-se o exemplo que se segue.
Nas frases abaixo, temos uma variável: a marcação de plural no sintagma
nominal (SN). A variação na marcação de plural do SN pode tomar as
formas:
1. Os meninos
2. Os menino f
Centro de Ensino à Distância 70

Em configuração proposta por Tarallo (2004), a forma entre parênteses


angulares < > indica a variável; os colchetes [], as variantes. Assim, temos:
<s>

Em (1) houve retenção da marca de plural em todo o sintagma, tendo o


suposto falante reflectido a norma-padrão do português. Em (2) o núcleo
do sintagma tem marca zero de plural, uma realização da variante não -
padrão pelo falante. Ou seja, para a variável <s> de marcação de plural
temos duas variantes: a presença do indicador [s] e a sua ausência [t].
Conclui-se, desse modo, que a marcação de plural no SN do português
falado do Brasil e um fenómeno variável.

A Sociolinguística trabalha com três termos que podem ser


facilmente confundidos entre si:

Variedade - e o termo que corresponde, grosso modo, ao termo


dialecto. Assim, por exemplo, as variedades do português
setentrional são os dialectos do português falado no norte de
Portugal. A variedade standard e o padrão linguístico de uma
comunidade. Sociolinguisticamente, e comum encontrar a
variedade standard junto dos centros de decisão e de poder de
uma comunidade. Assim, em Portugal, a variedade standard é a
falada na região de Lisboa. Contudo, na comunidade linguística
do Brasil a variedade standard esta associada as variedades de
várias capitais estaduais. Cada variedade linguística tem uma
gramática própria igualmente valida. Dentro de cada variedade há
tensões e grupos sociais com traços próprios. Dentro de cada
variedade linguística há variação interna em função dos vários
critérios: idade, sexo, escolaridade, etc.

Variante - o termo variante e utilizado nos estudos de


Sociolinguística para designar o item Linguístico que e alvo de
mudança. Assim, no caso de uma variação fonética, a variante e
o alofone. Representa, portanto, as formas possíveis de
Centro de Ensino à Distância 71

realização.

Variável e o traço, forma ou construção Linguística cuja


realização apresenta variantes observadas pelo investigador.

A constatação da variedade em qualquer comunidade linguística


e inegável. Também não podemos negar que todas as línguas do
mundo são continuações hist6ricas deixadas por gerações
sucessivas de indivíduos que legam aos seus descendentes o
domínio de uma língua particular. As mudanças temporais são
parte da história das línguas. Já as mudanças sincrónicas, as
variações observadas são relacionáveis a diversos factores:
idade, sexo, profissão, classe social...

Podemos considerar cinco campos de estudo da variação


linguística:

1. Variação diacrónica as diversas manifestações de uma língua


através dos tempos;
2. Variação sincrónica - as variações em um mesmo período de
tempo;

3. Variação diatópica geolinguistica ou dialectal: a variação


relacionada com factores geográficos (pronuncia diferente,
diferentes palavras para designar as mesmas realidades ou
conceitos, acepções de um termo diferentes de região para
região, expressões ou construções frásicas pr6prias de uma
região);

4. Variação diastratica modos de falar que correspondem a


c6digos de comportamento de determinados grupos sociais.

5. Variação diafasica - variação relacionada com as diferentes


situações de comunicarão, factores de natureza pragmática e
discursiva: em função do contexto, um falante varia o seu registo
Centro de Ensino à Distância 72

de língua, adaptando-o as circunstâncias

Exercícios

1. A semelhança do exemplo de variação linguística


apresentada acima, traga um exemplo da variação
linguística em Moçambique e descreva-o.

2. Enumere cinco (5) campos de estudo da variação


linguística e destaque a natureza de cada um deles.

3. Faça o resumo desta unidade


Centro de Ensino à Distância 73

Unidade 13 Norma Padrão vs Variedade

Introdução

Depois de termos falado da variação linguística e dos factores que


os condicionam na sociedade, é pertinente fazer perceber que toda
e qualquer língua têm as suas variantes tomando como ponto de
referência o padrão.

Dum modo geral, o padrão é uma variedade com maior prestígio


social e que é deve ser usada por todos os falantes como modelo
da língua em causa.

Ao completar esta unidade / lição, você será capaz de:

1. Saber o que é língua padrão

2. Conhecer alguns factores usados para a definição da


língua como padrão.
Objectivos

A ciência apresenta uma caracterização da realidade


sociolinguística do português como bipolarizada, entre:

• Uma norma culta, definida a partir dos padrões de fala das


classes media e alta,
• E uma norma popular ou vernácula, reunindo os falares
das classes baixas.

Em determinados contextos, o conceito mais veiculado de norma


entende-a como modalidade linguística sustentada na tentativa de
Centro de Ensino à Distância 74

padronização, prescrição e julgamento de valor quanta as outras


modalidades, perpetuando uma variedade - padrão e atribuindo-lhe
um grau de maior prestigio na comunidade.

Assim, já que se tenta estabelecer apenas uma modalidade


representando um padrão desejável, tal concepção constitui-se
arbitraria e sustentada por autoridade (representada pelas formas
de poder do domínio social, cultural, politico e económico).

Estabelece-se, dai, a noção do "bom uso", do cultivável e,


consequentemente, estigmas e diversas formas de preconceito
aquilo que vai de encontro a tal padrão. Como por exemplo, Os
padrões linguísticos de uma pequena elite dominante e letrada,
consideravelmente influenciados pelo padrão normativo de Portugal,
contrastam com os padrões linguísticos da grande maioria da
população brasileira, em parte pouco escolarizada e alijada de seus
direitos sociais básicos.

Pelo facto de não haver factores internos ao sistema da língua que


indiquem aquilo o que é puro e elevado (ou o que não é ), chega-se
a conclusão de que a noção de norma se liga directamente a
parâmetros sociais, incluindo-se ai a autoridade de usuários tidos
como sábios da língua (por exemplo, os gramáticos).
Nessa correlação (língua - para metros sociais), vislumbramos duas
situações:

- Uma sociedade diversa e heterogénea em suas várias instâncias;


portanto, diversa no modo de realizar e perceber os fenómenos da
língua;

- Um sistema social sustentado na dominação política, económica e


cultural de pequenos grupos; portanto, tentativa de sobrepor a
diversidade um desejável modelo de realizar e perceber os
fenómenos da língua.
Centro de Ensino à Distância 75

Dessa maneira, as classes e grupos sociais que não fazem parte ou


não tem acesso ao poder e aos bens culturais terão suas formas
linguísticas peculiares estigmatizadas, passíveis de preconceito e
discriminação, em função de pressões étnicas, classe social e
escolarização.

Diversos estudos demonstraram que etnia, status profissional,


sexo, faixa etária e nível de escolaridade do falante são
relevantes para determinar o grau positivo ou negativo de
marcação social das alternativas linguísticas. Alem disso,
indivíduos com maior cotação no mercado linguístico tendem a fazer
maior uso das formas de prestígio, assim como empregos
linguísticos prestigiados são encontrados principalmente em
pessoas com prestígio social alto.

Por outro lado, a norma-padrao também aponta como modelo a ser


seguido e prestigiado na tradição literária, o usa corrente em
escritores "clássicos" da língua, ainda que constitua risco propor
lições que ignoram a variabilidade e evolução da língua e haja
inexactidão quanta ao que e "Legitimo", já que haverá outros bons
escritores que não seguem os mesmos parâmetros.

Exercícios

1. O que se pretende destacar quando se fala de norma culta e de


norma popular.

2. A que parâmetros esta ligada a noção de norma?


Centro de Ensino à Distância 76

Unidade 14 Relação entre Língua e Sociedade

Introdução
A língua pode também ser definida como um elemento de
identificação; de diferenciação cultural e de educação. Quanto mais
falantes existirem, utilizando uma dada variedade linguistica, maior
será a sua vitalidade, autonomia, historicidade e normalização

Ao completar esta unidade / lição, você será capaz de:

3. Identificar relação entre lingua e sociedade.


Objectivos
4. Identidficar atitudes perante língua.

Relção entre língua e Sociedade

Na segunda unidade do nosso manual falamos da relação entre


língua e sociedade mas destacamos apenas alguns aspectos que
denotam que a língua difere de sociedade para sociedade e que há
vários factores sociais que condicionam a diferentes formas de
realizar a língua.

Destacamos também que cada região tem a sua língua, cada


comunidade expõe de forma própria essa língua e cada falante tem
o seu jeito particular de realizar essa mesma língua. Porem, A
língua pode também ser definida como um elemento de
identificação; de diferenciação cultural e de educação. Com efeito,
perante a lingua, pode-se assim ter uma determinada atitude.
Centro de Ensino à Distância 77

Atitude perante a língua

Normalização: trata da definição de normas padrões do uso da lg;

Historicidade: encarrega-se pela procura de uma história passada


de modo a salientar as variantes que se tornaram autónomas. Esta
fornece a base e as variação vocabular que se impõem à língua. As
variantes se tornam historicidade quando são uma ideologia, uma
tradição;

Vitalidade: É uma capacidade de verificação da utilidade da lg em


todas as funções vitais. A sua presença define a atitude dos homens
perante uma variedade linguistica. Quanto mais falantes existirem,
utilizando uma dada variedade linguistica, maior será a sua
vitalidade, autonomia, historicidade e normalização.

Tipo de variantes

Normalização Autonomia Historicidade Vitalidade


Língua + + + +
normalizada
Língua - ± +
popularizada
Dialecto - - + +/±
Crioulo - - + +
Pidgin - - - -
Língua + + + -
clássica
Língua + + - -
artificial
Centro de Ensino à Distância 78

Exercícios

3. Distinga língua de sociedade.

4. Aponte os tipos de variantes que conhece


Centro de Ensino à Distância 79

Unidade 15 Comunidade Línguistica

Introdução

A comunidade linguística resume-se num grupo de pessoas que


interagem usando uma linguagem. Sendo assim, nesta unidade não
vamos trazer apenas o conceito de comunidade mas também as
modificações linguísticas que ocorrem a partir da comunidade
linguística.

Os crioulos, pidgins, os tabus são alguns fenómenos que surgem a


partir do contacto entre línguas ou ainda que surgem a base da
comunidade linguística.

Ao completar esta unidade / lição, você será capaz de:

1. Distinguir comunidade linguística do ponto de vista de


BLOOMFIELD de John LYONS

2. Conhecer os diferentes fenómenos que surgem da


Objectivos
comunidade linguística.

3. Conhecer os factores que estão por detrás dos


diferentes fenómenos que ocorrem na comunidade
linguística.

COMUNIDADE LINGUÍSTICA

Trata-se do campo de acção da sociolinguistica com as suas


variedades de análise.
BLOOMFIELD, (1933), ao abordar a questão da linguistica considera
que a comunidade linguistica resume-se num grupo de pessoas que
interagem usando uma linguagem; John LYONS(1970), por sua vez
postula que “ são todas as pessoas que falam uma dada língua ou um
dado dialecto”.
Centro de Ensino à Distância 80

Segundo Joshua FISHMAN, a sociolinguistica debruça-se sobre uma


série de problemas, nomeadamente a interacção no seio de um grupo e
o facto de pertencer ao grupo mais largo, o uso linguistico e a atitude
linguistica, as normas da lg e do comportamento, as modificações que
essas normas sofrem como se pode ver nos topicos seguintes.

Crioulo e Pidgin (São-vicente, Cabo-Verde, São-Tomé)

Crioulo são as interferências de duas línguas produzem-se de tal


maneira que até formam signos linguísticos, quebrando o carácter
interferencial, constituindo uma nova língua dessa comunidade de
falantes.

Pidgin: trata-se de uma L2 nascida do contacto entre duas línguas


p.ex. Inglês e Chinês em condições bionivocas a saber: deste contacto
as duas lgs tem que ser ininteligíveis mutuamente; a 2 a é preciso que
haja uma necessidade de intercompreensão numa situação de tempo
limitada e transitória.

Os pidgins distinguem-se dos sabires porque estes são bilaterais (no


sentido em que podem ser utilizados pelo grupo dominante e
dominado) e por locutores que são mutuamente incompreensíveis.

É um sistema de comunicação verbal que não é a lg materna de


ninguém. Ao percurso deste sistema dá-se o nome de pidginização.

Historicamente distinguem-se dois grandes sistemas de pidgins:


Pidgins endógenos e pidgins exógenos

 Pidgins endógenos: nascem do contacto entre uma população


autóctone e um grupo de comerciantes
Centro de Ensino à Distância 81

 pidgins exógenos: nascem do contacto entre grupos dos quais


nenhum é autóctone, local.

Há condições que determinam estes fenómenos


1. socio-historicos
- a chegada massiva de um contingente de m-d-o
- isolamento dum grupo dominante
- a presença de mulheres e crianças
- a duracao dos contactos
- a possibilidade de se instalar num local
-
2. socio-linguisticos (pidginização e crioulização)
- multiplicidade de línguas
- o corte linguistico cultural com a origem
- a necessidade de comunicação entre os escravos
- ausência de uma língua comum.

Criptografia
São léxicos utilizados com objectivos pictográficos e que se relacionam
com o calão, comportando certos léxicos técnicos de uma eterminada
linguagem (geralmente são muito comuns entre os reclusos).

Tabus linguísticos
Têm que ver com muitos factores de natureza tradicional, cultural,
sociais d e cada sociedade. Às vezes são influenciados/motivados pela
repreensão do Governo. E traduzem-se em expressões como: “...não
se diz em público...perante as mulheres...perante os mais
novos...perante os homens...”

Dialectologia
Ocupa-se pelas dimensões geográficas
Centro de Ensino à Distância 82

Eufemismos
Forma de referir-se algo, mas com recurso a outras palavras
(consideradas mais leves)

Influência dialectal

Uso/utilização de léxicos próprios duma língua materna (dialecto) em


outras línguas. Atenção aos ítens lexicasi lexicalizados que ao serem
tomados por empréstimos de outras línguas a partir das línguas Bantu
adquirem uso progressivo nessas línguas puras.
P.ex: matapada, culimar, txovar, mamana. Há também as palavras não
lexicalizadas (palavras fixas), tais como Ngoma, Xigubo, Msaho...

Deslexia
Dificuldades e /ou perturbações na aprenizagem da fala e da escrita por
ex: no lugar de FELICIDADE, o falante tenderá a pronunciar
FLICIDADE. o indivíduo desléxico não consegue dizer uma palavra
normalmente. Trata-se de um efeito que nada tem que ver com a
inteligência do inivíduo.

Hiper-correcção

Consiste na correcção desnecessária da ocorrência de alguns sons


entro da palavra. Este tipo de erros é resultante da fraca ou incompleta
competência do falante, que o leva a não distinguir onde reside o erro.

Sabires: distinguem-se dos crioulos por estas não possuírem uma


estrutura segura, podendo desaparecer facilmente. Nascem tb do
contacto entre duas línguas mas são unilaterais. São sistemas
linguisticos menos complexos, sendo geralmente falados pelos
dominados. São de uso oral, (apenas por grupos culturas
desfavorecidos), caracterizadas pela existência de permanente
Centro de Ensino à Distância 83

instabilidade de estrutura e falta de autonomia em relação a outras


línguas.

A teoria da poligénese
A teoria da poligenese defende que os sabires surgiram e se
desenvolveram a partir de varias lgs em resposta a diferentes situações
de contacto de lgs.

Os sabires podem fixar-se quando começam a ser usados de forma


crescente por outros interlocutores. Podem ainda transformarem-se em
crioulos se for a primeira lg de um grupo de pessoas e que com o uso
constante, pode estabilizar-se e cristalizar-se.

Teoria da monogénese
Esta teoria defende que os vários sabires devem porvir de uma mesma
língua porque existe alguma coisa comum que é o português (origem
comum) muito embora resultem da resolução de problemas de contacto
entre lgs. Estes afirmam que entre os sabires existe intercompreensao,
os sabires se organizam perto de grandes pontos de passagem de
comunicação marítima. O proto-sabir – com base no portugues, surgiu
no sec. XV e se espalhou por todo o mundo. O sabir medieval era
considerado o sabir proto-português.

Exercícios

1.O que é comunidade linguística na concepção de BLOOMFIELD.

2. Fale do surgimento do Crioulo e Pidgin (São-vicente, Cabo-Verde, São-


Tomé) tendo em conta o fenómeno de contacto de línguas.

3. Diga o que são Sabires e compares as teorias de poligénese das


monogénese
Centro de Ensino à Distância 84

Unidade 16 Línguas Veiculares

Introdução

Nesta unidade iremos falar de línguas veiculares. Línguas veiculares, são


aquelas que surgem para resolver problemas de intercomunicação entre
grupos que falam línguas diferentes.

Ao completar esta unidade / lição, você será capaz de:

1. Definir o conceito de língua veicular.

2. Identificar os factores que estão na origem da mesma.


Objectivos

Linguas veiculares
São aquelas línguas que surgem para resolver problemas de
intercomunicação entre grupos que falam línguas diferentes.
Elas nascem de situações particulares, sendo;
 Dificuldade da falta de intercomunicação;
 Expansão militar, religiosa, política, comercial que fazem com que se
torne necessária uma certa comunicação linguistica.

Ex. de línguas veiculares. MANDING no Mali; WOLOF no Senegal; Swahili


na África do leste; o ÁRABE no Magreb; OUECHUA no Peru...

Factores de expansão linguistica (condições de surgimento)

O grau de veicularidade de uma lg é medido a partir do numero de falantes


que não a tem como lg materna. Nenhuma instituição política pode
determinar a veicularidade de uma lg, ela é-o na medida em que o nr de
seus falantes aumentam.
Centro de Ensino à Distância 85

Factor geográfico: estas línguas localizam-se nas costas, passagens de


estradas (meio de comunicação social). A situação geográfica não esta na
expansão desta, mas sim contribui

Factor económico: da a certas línguas carácter veicular devido a


intensidade do comercio. Contudo, este factor não determina a aparição de
uma lg veicular

Factor político: o factor político so vem reforçar a expansão linguística

Factor religioso: há certas línguas ligadas ao sagrado (livros de caracter


sagrado escritos em lgs veiculares) esse acaba sendo um factor de
expansão linguistica.

Factor prestigio e historico: os falantes de certas línguas no processo de


realização da lg podem

Factor humano: este tem influencia na aquisição de uma lg uma vez que
ir a cidade significa aprender outra língua e nesse processo, há
interferências;

Factor urbano: este favorece a veicularidade da língua. O factor êxodo


rural produz efeitos como os de aquisição de uma língua (da cidade), o que
resulta em cruzamento de línguas.
A dicotomia cidade-campo reenvia-nos para os factores económicos (q.d. a
ligação existente entre a lg da cidade com a industrialização, o comercio, a
administração etc.) a cidade torna-se um elemento importante para a
expansão de uma língua. No caso do SUDAO p.ex., o Árabe se tornou
numa lg veicular devido as rotas comerciais e outros factores. A cidade
esta também ligada ao eixo económico e reforça a função do factor
geográfico.,

Exercícios

1. Definir o conceito de línguas veiculares


Centro de Ensino à Distância 86

2. Que factores intervêm no surgimento de língua veiculares.

3. Diferencie factores de expansão linguística de factores geográficos.

4. Diferencie factor humano de factor urbano


Centro de Ensino à Distância 87

Unidade 17 Bilinguismo

Introdução

Nos estudos sociolinguísticos é importante o fenómeno de contacto entre


línguas para além de destacar a coexistência de duas ou mais línguas o
que torna as comunidades bilingues. Este aspecto e tantos outros são
polémicos e muitas vezes não se tem adquirido um conceito único.

Assim, nesta unidade trazemos os diferentes conceitos de bilinguismo e


destacamos os fenómenos que ocorrem nestas sociedades.

Ao completar esta unidade / lição, você será capaz de:

1. Compreender quando é que uma sociedade é bilingue.

2. Conhecer os diferentes níveis do bilinguismo.

Objectivos

Conceito de Bilinguismo

Não é singelo precisar e delimitar o conceito de bilinguismo, pois


resulta complexo encontrar uma definição precisa. As causas da
dificuldade são múltiplas. Em primeiro lugar, com o bilinguismo se
diversifica em variáveis de tipo geográfico, histórico, linguístico,
sociológico, político, psicológico, e pedagógico (situação geográfica
e histórica da comunidade linguística, políticas aplicadas, identidade
cultural de seus membros, modelos de ensino, nível de
concorrência, necessidades educativas, etc.)

Em segundo lugar, quando falamos de bilinguismo nos podemos


referir a uma situação individual, isto é, à forma peculiar de relação
de um sujeito com e em duas línguas ou ao grupo social que se
relaciona utilizando ou não línguas diferentes. Ademais por bilingue
Centro de Ensino à Distância 88

pode-se denominar à pessoa que domina à perfeitamente dois ou


mais idiomas, ao emigrante que se comunica em uma língua
diferente à própria (independentemente do nível que possua) ou ao
estudante que realiza um curso. Cabe assinalar que ao longo do
tempo, se usaram outros termos como sinónimos: diglosia,
biculturalismo, plurilinguismo, polilinguismo que, no entanto,
possuem significados diferentes, pois enquanto os dois últimos
conceitos fazem referência ao conhecimento e utilização a mais de
duas línguas, a acepção biculturalismo leva implícitos sentimentos
de pertence cultural. No caso da diglosia, a distinção radica na
funcionalidade social que assume a cada uma das duas línguas em
uma comunidade.

Assim mesmo, o conceito de bilinguismo, além de ser um termo


pouco unívoco, não é algo estático, senão que tem evoluído e evolui
através do tempo com grande dinamismo. Por esta razão, as
definições estão continuamente transformando-se ou remodelando-
se desde as perspectivas diferentes segundo seja o campo de
estudo ou a especialização desde a que se aborde.

Algumas definições:

“O bilinguismo é o uso habitual de duas línguas em uma mesma


região ou por uma mesma pessoa."

“Capacidade de um indivíduo de expressar-se em uma segunda


língua respeitando os conceitos e as estruturas próprias da mesma”.
(Titone, R. 1976).

“Bilingue é aquela pessoa que é capaz de codificar e recodificar em


qualquer grau, sinais linguísticos provenientes de dois idiomas
diferentes”. (Blanco, A. 1981, p.51)
Centro de Ensino à Distância 89

Desde uma vertente sociológica, o conceito de bilinguismo


fundamenta-se na relação que se estabelece entre grupo social e
linguagem, que é a adoptada por Vão Overbeke em sua definição.

Desde uma concepção mais psicológica do conceito, encontramos


as definições de Blanco e Titone, e desde um âmbito interdisciplinar,
encontrar-se-ia a definição de Cerdá Massó, já que da definição
extraída de seu dicionário desprendem-se três vertentes: a
psicológica (aptidão do habitante para expressar de uma maneira
fácil), a socióloga (o emprego de duas línguas diferentes por uma
comunidade ou conjunto de problemas linguísticos, psicológicos e
sociais que se propõem a esses habitantes), e a linguística ( se
expressar correctamente).

Níveis de bilinguismo

Quantos níveis de bilinguismo se podem distinguir? Dois, segundo


analise-se desde uma dimensão pessoal ou desde uma vertente
social, ou seja, o bilinguismo individual e bilinguismo social. Esta
dimensão designa coexistência de duas línguas faladas por dois
grupos sociais, ou a qualidade que um indivíduo tem para as falar
com fluidez. Esta diferença encontra-se na definição que realiza Vão
Overbeke.

Quando se fala de bilinguismo individual, nos referimos ao


conhecimento e domínio que uma pessoa tem de duas línguas; ao
uso que um indivíduo faz das mesmas; aos factores que intervêm no
processo de aquisição, e às variáveis entre indivíduo, médio e
língua.

Desde o ponto de vista social, é necessário fazer uma breve


referência a algumas situações políticas que têm gerado um
tratamento e uma consideração específica para as línguas. Entre
elas, cabe assinalar as consequências sociolinguísticas que teve a
colonização europeia no continente asiático e africano, já que em
Centro de Ensino à Distância 90

bastantes casos desapareceram grupos com línguas e culturas


próprias ao ficar assimiladas pela metrópole correspondente.

Também é obrigado fazer referências àquelas outras situações


gerais como consequências da proibição de uso de línguas próprias
em uma comunidade ou região. Por exemplo, em 1939 em
Cataluña, proíbe-se a utilização do catalão na vida cultural e
administrativa; escolas, centros oficiais e administrativos. Outra
modalidade de bilinguismo social, hoje em auge, é a que deriva dos
contactos internacionais de países entre si, que fazem indispensável
a aprendizagem de línguas para poder se comunicar. Por isso, os
países têm introduzido em seus sistemas educativos a
aprendizagem de outras línguas.

Existem outras situações bilingues que se originam por causa das


migrações a outros países mais industrializados em procura de uma
melhora económico trabalhista. Isto provoca um bilinguismo forçado,
ainda que o nível que se adquira na língua do país de acolhida seja
básico para poder manter uma comunicação elementar.

Características

As características do bilinguismo são:


 Função: os usos que dá o bilingue aos idiomas implicados.
 Alternância: até que ponto o bilingue alterna entre idiomas.
 Interferência: até que ponto o bilingue consegue separar
esses idiomas.
Exercício

1. O que faz com que seja dificil conceituar o bilinguismo?

2. Conceitualize o bilinguismo.

3. Distinga os diferentes niveis de bilinguismo.


Centro de Ensino à Distância 91

Unidade 18 Plurilinguismo e multilinguismo

Introdução

A questão da gestão do plurilinguismo é complicada e deve ser


tratada tendo em conta o número de falantes em cada lingua assim,
cada grupo de falantes poderá determinar a sua existencia ou até a
sua difinição como uma língua capaz de unificar o País.

Na abordagem que se segue destacam-se alguns exemplos de


gestão do plurilinguismo e multilinguismo. Neste caso específico
destacamos os casos da india na guine, da guine conacry e de
moçambique.

Ao completar esta unidade / lição, você será capaz de:

1. Compreender o plurilinguismo

2. Indicar as principais dificuldades encontradas na


Guiné Conacry
Objectivos

A GESTÃO DO PLURILINGUISMO E MULTILINGUISMO

O CASO DA ÍNDIA E DA GUINÉ


Em termos linguisticos na Índia, quando se fez o recenseamento em
1951, constatou-se que existiam 728 línguas. Porém, no
recenseamento de 1961 o número subiu para 1652 lgs e dialectos.
Entretanto, há que notar que nos recenseamentos efectuados, foram
também contadas línguas estrangeiras, e o facto de que nem todas
elas tivessem locutores. As línguas não duplicaram, evidentemente,
segundo como apontavam os dados, depois de 10 anos. As
disparidades deveram-se a dificuldade que os falantes tinham em
Centro de Ensino à Distância 92

identificarem a lg materna e ao facto de nomearem a mesma lg com


dois nomes diferentes.

Todavia, na India existem 04 grupos de lgs

1 Línguas indo-europeias
a. Hindi 73%
b. Gujerati
c. Khasmiri
2. linguas dravidianas
a) telegu/tamil 24%
3. Austrio-asiatico 1,5%
4. Sino-tibetanos 0,7%

O Hindi é falado por 30% da população na Índia. Em 1961, não


havia, na Índia, uma língua capaz de unificar o País. Só mais tarde e
que o Inglês surgiria como língua unificadora.

No Sec. XV, no inicio, surge um conflito político linguistico religioso


entre os Hindus de Lg Hindi e os Muçulmanos de Lg Urdu. Os
hindus apoiam-se aos colonizadores britânicos. Como
consequência, os britânicos substituíram o Urdu pelo Hindi como lg
do Estado, passando, mais tarde, o Hindi a ser a lg mas comum de
todo o pais. Com efeito, o Hindi e escrito em caracteres do sânscrito
e o Urdu em árabe. Entretanto, as duas línguas são mutuamente
compreensivas. As diferenças que provocam incompreensibilidade
partem de premissas religiosas e políticas. A incompreensão entre
as lgs dá-se entre variantes totalmente diferentes.

O Hindustani é uma língua que contém elementos do Hindi e do


Urdu. Esta poderia ter sido a língua veicular em toda a Índia. Indira
Ghandi, em 1925, tentou jogar o tratado, propondo o Hindustani
como língua oficial, o que foi aceite. No reforça a ideia, mas, apesar
Centro de Ensino à Distância 93

disso, o conflito deu-se, pois extremistas muçulmanos e a população


do sul, opunham-se a vontade governamental de adoptar o
hindustani como veicular.

O Partido do congresso nacional de lg Hindi e a Liga Muçulmana de


língua Urdu ambos se opõem. Foi neste momento, pouco antes da
aplicação do Hindustani como lg de unificação, que o Paquistão
proclama a sua independência, adoptando o Urdu como lg oficial do
pais.

Em 1949, a assembleia constituinte reúne-se em duas lgs e se


organiza uma campanha a favor do Hindi e o governo e obrigado a
votar e a vantagem foi de 78 Hindi por 77Hindustani., enquanto, no
sul, continuam as lgs (talim, telegu e Kamaya).

Em 1949 ainda, foi votada a lei de compasso de espera, a qual


preconiza o seguinte: ate 1963 falar-se-ia o Inglês como lg oficial e
neste período cada Estado podia escolher uma lg de modo que
fosse a lg do pais. Este pensamento implicava uma destruição de
fronteiras e demais coisas. E importante ver que as lgs escolhidas
pelos Estados não eram as maioritarias.

Em 1963, nota-se que já não tinha sentido impor o Hindi, já que


todos os Estados tinham a sua lg. Deste modo, adoptou-se, em
1967, o Inglês como lg oficial, tal como o Hindi, que passou a ter o
mesmo estatuto.

O caso da GUINE CONACRY

Este Pais e o único pais africano francôfono que elevou as suas lgs
a um estatuto de lgs nacionais e de ensino para as crianças e para
os adultos nas escolas. Quer dizer, a Guine é símbolo de luta contra
o neocolonialismo.
Centro de Ensino à Distância 94

Em 1952, a Guine Conacri tinha 20 lgs, três das quais ostentando o


nível de veiculares, regionalmente. Já por volta dos anos 60, o
partido da Guine escolheu 8 lgs como lgs nacionais. Em 1962,
introduz-se uma campanha de alfabetização de adultos nas 8 lgs. A
perspectiva era eminentemente progressista. Os alfabetizandos
aprendiam a sua lg materna e obtinham formação técnica
(alfabetização funcional).

Em 1971, a Guine conhece um conflito grande com a UNESCO,


órgão que patrocina as campanhas de alfabetização. Porem,
interessa realçar que, em 1968, aquando da definição do programa
de acção nas escolas, foi definido que toda a 1a classe seria dada
nas lgs regionais. O Francês seria introduzido na 3 a classe, como
matéria de ensino e não como lg de ensino. Entraria, portanto, como
uma das disciplinas ensinadas naquele nível.

Principais dificuldades

1. Seriam precisos muitos professores para ensinarem


nas escolas as 08 línguas;
2. seriam precisos manuais escolares;
pelo que, volvidos anos de tanta dificuldade, o programa de ensino
ficou ultrapassado em 08 anos, justamente na altura em que Sekou
Touré morreu.

O caso de Moçambique
Centro de Ensino à Distância 95

Moçambique, como se sabe, é um país multilíngue. A maioria dos


Moçambicanos tem como língua materna uma língua de origem
Bantu, sendo que o português constitui língua segunda para muitos
dos cidadãos 24,2%, e cerca de 1,2% a tem como língua materna, e
outros 75,6% não falam o Português (de acordo com o
recenseamento de 1980).

Os homens da mesma faixa etária, falam melhor o português que os


seus concidadãos do sexo oposto, o que pode revelar, de alguma
forma, o privilegio que os homens tem relativamente ao acesso a
educação básica.

Do mesmo modo, as estatísticas revelam que o português e falado


com alguma frequência nas cidades e poucas pessoas o falam no
campo. No meio rural, predominam as línguas africanas, ao mesmo
tempo que o português, insistentemente e falado apenas no recinto
escolar, com o professor e o director da escola.

Mas a língua portuguesa foi adoptada como língua oficial no país. E


uma língua internacional, de ensino, da administração publica e tem
uma função literária e e usada na imprensa( escrita e falada-oral)

As línguas bantu estão circunscritas a utilização familiar, nas


relações sociais, num uso fundamental e predominantemente oral,
uma função que não mudou muito com a independência.

Na era colonial, o português era menos falado, ao passo que as


línguas nacionais de hoje, caiam num desprestigio sem
precedentes, devido as imposições da dominação e repressão.

O uso das línguas bantu constitui, por assim dizer, uma forma de
luta, de resgate cultural e de identidade. Com a independência,
estas línguass tem conhecido novo estatuto e lugar na sociedade.
Centro de Ensino à Distância 96

Contudo, a língua não pode ser reivindicada particularmente por


ninguém, visto tratar-se de uma herança, mas, sobretudo de uma
conquista colectiva.

Exercícios

1. Quais foram as principais dificuldades em relação à língua na


Guiné Conacry.

2. Faça um resumo promenorizado sobre o plurilinguismo e


multilinguismo em de Moçambique
Centro de Ensino à Distância 97

Unidade 19 Códigos Sociolinguísticos

Introdução

Os Codigos sociolinguísticos constituem diferentes produtos sociais,


isto é, diferentes grupos sociais produzem diferentes codigos
linguisticos.
Assim, nesta unidade apresentamos dois grandes codigos
sociolinguisticos que são o codigo restrito ou linguagem pública e
codigo elaborado ou linguagem formal.

Ao completar esta unidade / lição, você será capaz de:

1. Conceituar o código linguístico.

2. Diferenciar os diferentes códigos linguísticos.

Objectivos

Código Restrito e Código Elaborado

Segundo a tese de Bernstein, a estrutura social gera códigos linguísticos


diferentes que transmitem a cultura do grupo, e dessa forma, acaba, por
determinar comportamentos e modos de pensar e interpretar a realidade.
Ele aponta a existência de dois códigos linguísticos a que ele chamou
Código Restrito e Código Elaborado. Em seus primeiros estudos, ele
falava em linguagem pública e linguagem formal, partindo da
pressuposição. Linguagem pública seria aquela em que predominassem as
implicações emotivas sobre as lógicas. Nela, o falante faria uso de frases
curtas e perguntas em que o simbolismo seria concreto e com um baixo
grau de generalização. Por outro lado, a linguagem formal seria aquela
Centro de Ensino à Distância 98

relativamente complexa e que propiciaria ao falante uma percepção mais


aguda dos objectos e da realidade.

Mais tarde Bernstein passa a chamar essas duas linguagens Código


Restrito e Código Elaborado que são definidos como funções do
relacionamento social ou como qualidades da estruturação social. Em seus
trabalhos ele faz referência a duas classes sociais apenas: a classe média
(Midle Class) e a classe operária (Working Class). As crianças da classe
média adquiririam os dois códigos, o restrito e o elaborado; as da classe
trabalhadora teriam acesso apenas ao código restrito, no seu processo de
socialização.

As características do Código Restrito seriam as seguintes: frases


curtas, gramaticalmente simples, sintaxe pobre, predomínio da voz activa,
uso de conjunções que se repetem, como por exemplo: “so”, “then”, “and”,
“because”; uso frequente de ordens e perguntas curtas; uso de advérbios e
adjetivos de forma limitada; simbolismo com grau de generalização muito
baixo; linguagem de significados implícitos.

O Código Elaborado se caracterizaria por uma organização gramatical


mais cuidadosa, e mais complexa, especialmente pela utilização de uma
série de conjunções e orações bem concatenadas; pela selecção
adequada de advérbios e adjectivos; por um simbolismo expressivo que
diferencia os significados dentro de sequências de fala.

Os dados de relacionamento social dos indivíduos processam-se dentro


desses códigos. Com base no uso de um ou de outro código é possível
prever as atitudes dos indivíduos nos grupos ou entre grupos. O usuário do
código restrito demonstra tendência à submissão e à lealdade ao grupo em
termos de aspirações e normas sociais. O indivíduo é acomodado e
perfeitamente adapto ao grupo, já que sua linguagem é percebida como
meio de produzir símbolos sociais que são de todos e não como uma
Centro de Ensino à Distância 99

forma de verbalizar as próprias experiências e vivências, ao contrário do


indivíduo que utiliza o código elaborado.

Segundo Soares (1986, p.25), in Bernstein, mais tarde, na caracterização


dos dois códigos passa a enfatizar mais os aspectos semânticos em vez
dos aspectos lexicais e morfossintáticos, ou seja, os aspectos semânticos
passam a determinar os demais: “a forma de relação social actua
selectivamente sobre os significados a serem transmitidos, e estes, por sua
vez, determinam escolhas gramaticais e lexicais específicas”. Haveria,
então, os significados universalistas, que são linguisticamente explicitados
e independentes do contexto e, portanto, acessíveis a qualquer pessoa.

Esses significados universalistas determinam as opções gramaticais e


léxicas resultando em um “código elaborado”. Haveria também os
significados particularistas linguisticamente implícitos e vinculados ao
contexto de forma estreita, de modo a serem compreendidos só por
aqueles que participam do mesmo contexto. Esses significados
particularistas determinam escolhas gramaticais e lexicais que resultam
num “código restrito” (id. Ibid. p.26).

Posição de Bernestein em relação à escola

O trabalho de Bernstein gerou intensa discussão e muito interesse, pois


coincidiu com um período em que era grande a preocupação com o
fracasso escolar de crianças de classes sociais desfavorecidas. A
interpretação que ganhou notoriedade para a explicação do fracasso
escolar baseou-se em preconceitos deterministas e foi influenciada pela
tese dos dois códigos nomeados por Bernstein, concluindo que a
linguagem de crianças das classes baixas é pobre, sem imaginação, sem
coesão, imprópria para abstracções e classificações. As crianças que
utilizam o código restrito seriam portadoras de uma “deficiência linguística”,
o que implicaria uma deficiência cognoscitiva e daí, o fracasso escolar
Centro de Ensino à Distância 100

Exercícios
1. Apresente as diferenças existentes entre código restrito e código
elaborado
2. Fale da posição de Bernestein em relação à escola e os codigos
linguisticos.
Centro de Ensino à Distância 101

Unidade 20 Política e Planificação Línguistica

Introdução

Esta unidade é reservada para falar da política e planificação linguística.


Teoria que surge graças a HAUGEN, que utilizou os termos Language
planning em relação a política linguistica de Noruega.

Este termo é definido como o conjunto de posições, opções e escolhas


conscientes que partem da realidade linguística do pais, realmente feitas
pelo Estado, enquanto que, Planificação linguística – é a pesquisa e a
realização de acções necessárias para a aplicação da política linguística, e
a concretizarão da política linguística A planificação linguística implica a
existência de uma política linguística

Ao completar esta unidade / lição, você será capaz de:

1. Compreender os processos de política linguística e de


planificação linguística.

Objectivos

POLÍTICAS LINGUÍSTICAS E PLANIFICAÇÃO LINGUSTICA

Em 1959, aparece pela primeira vez, com o linguista americano


HAUGEN, utilizando os termos Language planning em relação a
política linguistica de Noruega.

Entretanto, só em 1970, com Joshua FISHMAN e que aprece o


termo política linguistica.
Centro de Ensino à Distância 102

Ora em que é que então diferem estes termos/conceitos?

Política linguística – define-se como o conjunto de posições, opções


e escolhas conscientes que partem da realidade linguistica do pais,
realmente feitas pelo Estado, sendo evidente que haja um
conhecimento profundo da situação linguistica do pais.

Planificação linguística – é a pesquisa e a realização de acções


necessárias para a aplicação da política linguistica, e a
concretizarão da política linguistica (põe em marcha as opções
feitas), determina as acções que devem ser levadas a cabo em cada
étapa até chegar ao objectivo visado.

A passagem da política linguistica a planificação linguistica


compreende, entre outros factores, a intervenção do estado.

A planificação linguistica implica a existência de uma política


linguistica.

Esquematicamente representar-se-ia:

Política Linguística

Função prática
As que tiveram uma consequência
De passagem a pratica/acção
Função simbólica
Nunca passaram a acção/pratica
Permaneceram como simbolismo

Planificação linguística

Acção sobre as línguas


Centro de Ensino à Distância 103

- a nível da ortografia
- a nível do léxico (introdução de novos vocábulos)
- a nível das formas dialectais(se se eliminam ou
subsistem)
- Acção sobre as línguas
- na escolha de uma lg nacional
- organização do plurilinguismo
- representação funcional
- quando se faz repartição racional

O caso da Indonésia

Em 1928, na Indonésia, o partido nacionalista definiu uma política


linguistica – a língua do pais devia ser o Himalaio. Durante 30 anos
a opção teve uma função simbólica que nunca passou para a
pratica. Porem, com a revolução, o Himalaio, passou a lg nacional.

Sumário

Política linguística – define-se como o conjunto de posições, opções


e escolhas conscientes que partem da realidade linguistica do pais,
realmente feitas pelo Estado, enquanto que, Planificação linguística
– é a pesquisa e a realização de acções necessárias para a
aplicação da política linguistica, e a concretizarão da política
linguistica

Exercícios

1. Distinguir política linguistica de planificação linguistica.

2. Faça o resumo desta unidade


Centro de Ensino à Distância 104

Unidade 21 Estratificação social do inglês em Nova Iorque

Introdução

O processo de estratificação do ingles em nova iorque foi um processo


contínuo e constitui um exemplo de estudos sociolinguisticos sobre a
estratificação social das linguas.
O estudo foi feito usando um grupo na cidade de nova iorque pelo pai das
relações entre lingua e sociedade. Este estudo permitu mostrar que os
estudos linguisticos não devem ser centralizados no individuo mas sim no
grupo social.

Ao completar esta unidade / lição, você será capaz de:

1. Compreender o processo de estratificação social do


inglês em Nova Iorque.

2. Destacar as diferentes etapas da pesquisa de Labov.


Objectivos

O texto de William Labov tornou-se um clássico dos estudos


sociolinguísticos, como um texto fundador da abordagem social
sobre a linguagem. É claro que outros autores já tinham esboçado a
importância em se ver a língua como facto social, Meillet, por
exemplo.

Entretanto, Labov inaugura aqui toda uma metodologia e uma


concepção de investigação científica conhecida como quantitativa.
Deste livro, surgiram as directrizes para inúmeras pesquisas no
âmbito da linguística com interesse na inserção da língua no
contexto social.

No texto, o autor busca dar argumentos para sua teoria da variação


linguística e detalha uma de suas pesquisas, em Lower East Side,
Centro de Ensino à Distância 105

na cidade de Nova Iorque. Os capítulos se dividem de forma que


seus argumentos vão aparecendo enquanto sua metodologia é
explicada. Desse modo, podemos acompanhar claramente como
todo o processo de investigação foi feito, enquanto vamos
enquadrando seus passos de acordo com os conceitos
apresentados por Labov.

É importante frisar que o texto a que esta resenha se refere é uma


versão revisada e comentada pelo próprio autor quarenta anos
depois do lançamento da obra. Temos a oportunidade de ler suas
impressões sobre algumas de suas afirmativas na década de 60 e
opiniões e listagens do pesquisador sobre o que já foi feito por
outros investigadores desde então (até 2006).

A Comunidade de Fala estudada é a de falantes de inglês em Nova


Iorque. O autor esclarece seu embasamento teórico, opondo-o à
tradição de se focar o estudo da linguagem no indivíduo. Para ele, o
estudo da comunidade é anterior à capacidade do indivíduo. As
estruturas sociais mudam com o tempo, e a língua, que é uma forma
de representação da sociedade – além de constituinte dela -,
acompanha essas mudanças.

Podemos perceber que o intuito geral do livro é mostrar que a


variação é parte da estrutura linguística, não podendo ser
desconsiderada a partir de argumentos de que a comunidade possui
uma linguagem heterogênea. É justamente nessa “inconsistência”
que Labov pretende encontrar padrões, a fim de comprovar que a
variação tem motivação na estrutura social de uma Comunidade de
Fala, de forma que constituam parte da estrutura linguística.

Depois de um pequeno levantamento histórico dos estudos já


realizados em Nova Iorque, citando, por exemplo, o Linguistic Atlas
of the Eastern United States (Kurath, 1939) e as pesquisas de Allan
Centro de Ensino à Distância 106

F. Hubbell (The Pronuncitation of English in New York City), o autor


apresenta as variáveis com as quais ele trabalha em sua
investigação.

As variáveis são cinco: 1) o r em coda e pré-consonantal, podendo


ser realizado ou não; 2) a altura da vogal æh, subdividida em uma
escala de 1 a 6; 3)a vogal oh, também subdividida em seis; 4,5) th e
dh, variáveis que podem ser fricativas ou não. Apesar de declarar o
estudo ser sobre as vogais no inglês em Nova Iorque, Labov
acrescenta as variáveis 1, 4 e 5 como forma de se estudar de forma
indireta as vogais e ter outros parâmetros para comparar os
resultados, a partir da análise dessas variáveis diversas.

O estudo do r vai se mostrar o mais produtivo na construção de


índices e parâmetros de comparação. Essa variável também
inspirou a investigação de Labov nas lojas de departamentos em
Nova Iorque. Ao perguntar a um funcionário de lojas com diferentes
públicos em qual andar se encontrava a ala de sapatos, ouviu as
respostas “fourth floor”, e de novo, ao perguntar “what?”. A
investigação permitiu que Labov levantasse dados sobre a
estratificação do r em Nova Iorque.

Ainda no estudo em Lower East Side, Labov apresenta os estilos


que isolou após muita observação e estudo. Eles variam em quatro
níveis principais: fala informal (de A1 a A5); fala formal na entrevista
lingüística (B); leitura (C); e lista de palavras (D e D‟).

Atenção especial é dada ao contexto/estilo A, que envolve o


vernáculo, a fala íntima quotidiana. Observá-la consiste no paradoxo
do observador. Contudo, o pesquisador tenta chegar o mais próximo
dela durante a entrevista. O contexto/estilo A1 engloba a fala fora da
entrevista; o A2 considera a interação do entrevistado com uma
terceira pessoa; o A3, da fala que não é resposta a uma das
Centro de Ensino à Distância 107

questões da entrevista; o A4 trata das lembranças da infância; e o


A5, da ameaça de morte.

Isolar esses estilos é o primeiro passo no esforço de encontrar de


modo mais fiel a verdadeira fala do entrevistado, aquela sem
preocupações e cuidados com a língua. Para alcançar esse objetivo,
a estrutura da entrevista deve ser meticulosamente discutida. O
autor explica como é estruturado seu questionário e no que
consistem suas perguntas, além de elucidar o objetivo de cada
etapa da entrevista.

Labov também nos conta como funciona a região de Lower East


Side. Essa imersão na Comunidade de Fala estudada é essencial
para qualquer pesquisa linguística. O autor descreve a região e
como se envolveu com ela, achou seus informantes e como foi feito
o trabalho de entrevista. O investigador deve recorrer a outros
índices e pesquisas que tiveram sua região de estudo também como
objecto. Labov busca apoio nas entrevistas do projeto American
Language Survey. Ele também nos conta como se envolveu no
projeto Mobilization for Youth, além de utilizar dados do censo da
região.

A abordagem histórica e o detalhamento da estratificação social,


suas etnias, classes... nos aproxima da natureza da Comunidade de
Fala, além da visão antropológica que temos da estrutura da
comunidade. A mesma preocupação com a história da comunidade
se repete em Sociolinguistic Patterns (1972), ao tratar de Martha‟s
Vineyard.

Outra consideração interessante, feita pelo autor após 40 anos, é


sua decepção com os rumos tomados pela Linguística e Sociologia.
O autor acredita que uma aproximação maior poderia ter nos dados
cada vez mais resultados confiáveis no estudo na língua na
Centro de Ensino à Distância 108

sociedade. Apesar de grande evolução dos estudos da linguagem


em associação com a Psicologia, Antropologia etc., a Sociologia
ainda se encontra distante da Linguística. Situação crítica em uma
ciência que tem a língua e a sociedade entrelaçadas.

É uma vantagem do texto o facto de termos, além dos


procedimentos detalhadamente descritos, revisão e comentários
críticos sobre tradições históricas da pesquisa linguística. O próprio
texto nos dá base para entender o que o autor pretende apresentar.
Além dos já citados comentários feitos na edição de 2006.

Por fim, a empreitada de mostrar que a variação é parte da estrutura


linguística de uma Comunidade de Fala é bem sucedida e, como
não poderia deixar de ser, norteia estudos na área da
sociolinguística há mais de 40 anos.

Exercício

3. Quais foram as variáveis do estudo desenvolvido em Nova Iorque.

4. Como deve ser feita a pesquisa em sociolinguística.


Centro de Ensino à Distância 109

Unidade 22 O papel da rede social na variação e mudança linguística de


Moçambique

Introdução

Dadas as perpectivas acima apresentadas é importante trazer o


conceito de rede social pois, todos os aspectos acima estudados
estão ligados os diferentes grupos socias que causam as variações.

A rede social desempenha um papel prepoderante em todos os


contextos na variação linguistica em moçambique. Neste sentido na
presente unidade trazemos alguns factores que interferem na rede
social e na mudança linguiatica em moçambique.

Ao completar esta unidade / lição, você será capaz de:

1. Compreender o conceito de Rede Social,

2. Conhecer os factores que condicionam as Variações


linguísticas na rede social moçambicana.
Objectivos

REDE SOCIAL: CONCEITO E ANTECEDENTES


O conceito de rede social já vem sendo explorado em ciências sociais há
bastante tempo (Bott, 1971; Mitchell, 1969). Para a sociolinguística, porém,
só veio a ser mencionado por Blom e Gumperz (1972), Gal (1979), e
tornou-se bem conhecido depois da publicação do estudo feito em Belfast
por Milroy (Milroy & Milroy 1978; Milroy 1980).

O conceito de rede social postula que existe uma relação entre as


escolhas linguísticas do falante e as pressões dos contactos sociais
Centro de Ensino à Distância 110

informais que ele tem dentro de uma dada comunidade. Isto explica-se
pelo facto de o grau de integração do falante na sua rede poder funcionar
como um mecanismo de reforço e cumprimento da norma linguística.

A aplicação do conceito de rede social ao estudo da variação e mudança


linguística representa um dos desenvolvimentos mais importantes da
sociolinguística nestas últimas duas décadas. Como se sabe, pelo menos
desde Hymes (1964), e sobretudo Labov (1963;1966) - no seu clássico
estudo sobre a centralização de ditongos em Martha‟s Vineyard, e mais
tarde academicamente tornado público no também clássico Empirical
Foundations for a Theory
of Language Change de Weinreich, Labov e Herzog (1968) - o eixo social
tem sido examinado dentro do paradigma quantitativo laboviano, que
mostrou que a variação linguística está correlacionada com variáveis
sociais como idade, sexo, classe social, etc. Entretanto, alguns estudiosos
de orientação mais inovadora, cujas pesquisas foram levadas a cabo fora
dos Estados Unidos da América, têm estado a pôr em causa a
aplicabilidade do conceito de classe social, tal como Labov o definiu, em
comunidades mais complexas que a da Nova Iorque, ao mesmo tempo
que introduzem novas perspectivas na análise da variação e mudança
linguística, focalizando o estudo do papel do indivíduo, i.e., como é que o
indivíduo se relaciona com os outros, em que ocasiões, em que lugares e
com que frequência interage com a, b ou c. É neste contexto que surge
uma nova abordagem que toma em consideração a identidade das
pessoas com quem o falante regularmente interage, em adição à
identidade dos próprios falantes. Nesta nova abordagem, surge o conceito
de rede social, no qual se assume que há uma relação dialéctica entre o
comportamento linguístico do falante e as relações inter-pessoais, i.e., o
uso da língua é influenciado e condicionado pelo tipo de contacto social
que os falantes estabelecem entre si.

Factores históricos da variação linguística

Duma perspectiva histórica, as condições de formação subjacentes às


variedades actuais do Português de Moçambique encontram-se, em parte,
Centro de Ensino à Distância 111

nas suas raízes coloniais, onde serviram para criar e manter a hegemonia
duma elite colonial, e, parcialmente, no papel desempenhado na altura da
independência como língua da resistência e „ferramenta‟ da unidade
nacional e étnica. Antes da independência, políticas linguísticas rígidas
regulamentavam a relação entre o Português e as línguas africanas. Estas
políticas desempenhavam um importante papel como parte de uma
legislação colonial que ajudou a construir espaços sociais e culturais
separados para negros e brancos. O conhecimento do Português tornou-
se um bem de consumo valioso, uma vez que o seu domínio significava
que um moçambicano negro podia aspirar aos direitos de um assimilado.
A função discriminatória do Português mudou com a independência,
quando houve uma quebra significativa na política linguística colonial, e
subsequentemente no estatuto social atribuído à língua portuguesa. O
advento da independência requereu o desenvolvimento e difusão de outra
postura ideológica em relação ao Português, como língua de resistência e
unidade. Actualmente, as atitudes linguísticas emrelação ao Português e
às línguas bantu são complexas e multifacetadas, compreendendo valores
herdados da era colonial ao mesmo tempo que reflectem a dinâmica social
do Moçambique de hoje. O Português ainda serve funções importantes no
contexto nacional intra-grupo. A influência mais importante sobre o
desenvolvimento do Português desde a independência encontra-se nas
áreas urbanas. A base demográfica urbana alterou-se radicalmente na
altura da independência quando grande número de moçambicanos negros
se transferiu para a cidade. Quase que da noite para o dia, o Português
tornou-se parte de uma ecologia multilingue urbana. A partir de então, a
cidade continuou a experimentar um enorme crescimento, parcialmente
devido ao fluxo de refugiados provocado pela guerra, predominantemente
das áreas rurais do país, e parcialmente devido a um substancial
movimento urbano de desempregados em busca de trabalho. Um novo
desenvolvimento interessante com o advento da paz é o regresso em larga
escala de populações às áreas rurais, onde surge um novo ambiente de
contacto para a aquisição de Português
entre a população rural.
Centro de Ensino à Distância 112

Factores socioculturais da variação


As condições socioculturais em que o Português de Moçambique está
inserido são também factores na formação da amplitude de variedades
que se podem distinguir. No Português de Moçambique, são numerosos
os exemplos de linguagem socioculturalmente específica. Algumas das
manifestações mais salientes deste factor são os itens lexicais comuns
que se referem a aspectos da cultura moçambicana, tais como chapa-cem,
machimbombo, etc. Um exemplo da influência sociocultural nos padrões
de discurso é o uso intensivo da
repetição da sua própria elocução ou a de outro falante para finalizar ou
assinalar a mudança de tópico. O Português de Moçambique diferencia-se
também do Português europeu na forma como certas rotinas interactivas
ou conversacionais são executadas, tal como se
verifica relativamente à distribuição das formas tu e você .

Política linguística nacional como factor da variação


A política linguística oficial moçambicana reconhece o Português como a
única língua oficial, onde a variedade de Português, que é designada
variedade oficial, é a norma do Português europeu. A norma europeia
integra uma arena para discurso prescritivista, onde as ideologias do
purismo são propostas e também contestadas. Isto significa que esta
variedade do Português constrange o desenvolvimento e propagação de
alternativas a variantes padronizadas que podem surgir desta situação de
contacto. A escolha de uma norma linguística que é externa à nação na
qual a língua é falada significa que as instituições oficiais como a escola e
outras arenas tais como o mercado de trabalho, acabam por exercer
controlo sobre quem terá acesso à língua. Uma consequência deste facto
é a criação de certo número de mercados linguísticos, mais ou
menos integrados num „mercado‟ linguístico oficial no qual os falantes
podem aproximar-se da norma (europeia), e a existência simultânea e
paralela de alguns mercados linguísticos não oficiais. Nestes últimos
mercados, outros factores tais como o contexto social local (veja-se em
seguida sobre redes sociais) influenciam a forma que a língua toma. Os
indivíduos desenvolverão também atitudes e orientações complexas em
relação a estes mercados integrados.
Centro de Ensino à Distância 113

Contacto de línguas como factor da variação


Em Moçambique, são faladas, potencialmente, entre 15 a 20 línguas bantu
(as estimativas variam), assim como um punhado de línguas de origem
asiática. Nas áreas urbanas onde é falado, o Português ocorre em
situações diferentes de contacto linguístico diário com estas línguas. Em
áreas urbanas centrais, é o meio de comunicação quotidiano mais
frequente. Por outro lado, nas áreas suburbanas etnicamente mistas, o
Português pode funcionar somente como uma língua franca entre falantes
com diversas línguas nativas. Finalmente, em distritos onde a maior parte
dos membros da comunidade partilham uma ou mais línguas bantu
mutuamenteinteligíveis, o Português será confinado a um leque limitado de
funções e contextos de L2. Estes ambientes diferentes significam que
tanto a quantidade como a qualidade do Português variará bastante
dependendo do lugar onde é falado.

Factores sociais da variação


A noção de classe social é notoriamente difícil de se aplicar à sociedade
moçambicana já que os factores geralmente incluídos num indicador de
classe social não são de fácil utilização entre a população moçambicana.
Em Maputo, por exemplo, pouco sentido faz usar a área residencial como
dimensão de classe social para a população em geral, uma vez que a
maioria das casas pertencem ao Estado e as rendas são muito baixas. Da
mesma maneira, o nível de educação é
igualmente de pouco uso como variável neste contexto, porque a grande
maioria dos falantes de Português em Moçambique tem um baixo índice
de escolaridade. Nem o rendimento nem a ocupação estão claramente
relacionados entre si, nem mesmo qualquer destas variáveis se
relacionam com o nível de educação. O único grupo que pode ser extraído
na base da classe social é a minoria da elite urbana que compreende uma
pequena fracção da população. Um conceito social mais útil para as
condições moçambicanas é o de rede social. Muitos habitantes de Maputo
movem-se entre dois espaços vitais diferentes, com consequências para
as suas redes
sociais. Por um lado, as pessoas vivem e participam em redes tradicionais,
familiares e de vizinhança. Por outro lado, muitos indivíduos participam
Centro de Ensino à Distância 114

numa economia de mercado, integrados em redes sociais que não estão


relacionadas com a família ou o bairro.

Idade como factor da variação


A idade como factor subjacente à variação linguística promete ser uma
variável frutuosa para se estudar o Português de Moçambique. Contudo,
os papéis sociais e as experiências associadas
com a idade estão sujeitas à variabilidade cultural, e isto pode produzir, na
língua, efeitos distintos dos que se encontram em sociedades
industrializadas ocidentais. Na maioria dos casos, por exemplo, as
crianças moçambicanas crescem num ambiente multilingue com uma
língua africana em casa, e tendo uma língua africana e o Português,
frequentemente com um código misturado, como a língua da comunidade
imediata e do grupo de companheiros. Em Maputo, contudo, os
casamentos interétnicos tornaram-se mais comuns desde os meados dos
anos 80 e isto quer dizer que os pais, muitas vezes, não têm uma língua
mutuamente inteligível em comum. Nestes casos, a língua da família será,
frequentemente, uma versão de L2 do Português. As versões do
Português faladas nos grupos de amigos das crianças diferem das de
casa. De facto, é muito provável que estejamos a assistir à transformação
de uma L2 numa língua primeira em contextos de socialização de
companheiro-companheiro. O estudo deste fenómeno noutros lugares, que
têm algumas similitudes com a crioulização, mostrou resultar em algumas
interessantes variantes de discurso 3. O sentido social da adolescência
está também sujeito à variação cultural. Por exemplo, embora as redes
moçambicanas dos adolescentes em comparação com as redes da
infância mostrem significativamente mais contactos com uma base
regional e social mais alargada, elas tendem, mesmo assim, a serem mais
fortes, mais permanentes e baseadas na vizinhança do que em contextos
do Primeiro Mundo. Para além disso, embora as redes de adolescentes
em Moçambique marquem uma quebra significativa com a infância, é
menos óbvio até que medida elas também servem para assinalar a uma
divisão nítida relativamente à geração dos pais, uma vez que a orientação
à família e uma partilha de responsabilidade é uma característica muito
saliente da vida social em Moçambique. Linguisticamente, isto significa
que as características e os processos linguísticos associados com a
Centro de Ensino à Distância 115

adolescência em Moçambique podem ser menos dramáticos e inovadores


do que é geralmente imputado aos adolescentes ocidentais. Dito isto, a
objecção necessária é, naturalmente, a de que a qualidade das redes de
adolescentes divergirá grandemente, dependendo, por exemplo, do facto
de serem ou não rurais /suburbanas ou urbanas 4, das oportunidades que
os membros têm de emprego, se os membros migraram ou não há muito
tempo para o local actual de residência, etc.

Em relação à idade adulta jovem, mais uma vez, não é claro até que
medida este período envolve processos sociais similares em Moçambique
tal como em contextos do Primeiro Mundo. A nossa impressão, que teria
de ser substanciada, é a de que os jovens adultos continuam a manter um
contacto relativamente intenso com os companheiros enquanto
consolidam simultaneamente a vida familiar. No mínimo, este é um
período extremamente dependente do sexo dos falantes, onde as
mulheres tendem a ter uma maior responsabilidade pela família e os
homens gozam de bastante independência. Contudo, de igual modo, para
a adolescência, os estilos de vida na idade adulta jovem estão também
sujeitos à variação dependendo de um conjunto de factores tais como
educação, padrão de local de residência urbano-rural, etc. A meia-idade e
a velhice em Moçambique, tal como em contextos do Primeiro Mundo,
envolvem também, provavelmente, uma consolidação de normas de língua
adquiridas em fases anteriores da vida. Contudo, devido à nova situação
políticolinguística, após a independência, a meia-idade e a velhice
envolvem também uma quantidade significativa de aprendizagem de L2
entre os que, previamente, pouco ou nenhum acesso haviam tido ao
Português. Por várias razões 6, os aprendentes mais velhos abordam a
tarefa de aprendizagem da língua de maneira diferente da dos
aprendentes jovens, e isto tem implicações para o tipo de Português que
eles irão adquirir e para o grau de „nativismo‟ que eles irão
atingir na proficiência da língua. Uma situação comum da aprendizagem
para o grupo dos mais velhos é o que Mesthrie (1995:252) chama de “ciclo
de reforço fechado”, em que os pais/avós
aprendem uma L2 dos netos.
Centro de Ensino à Distância 116

As diferenças de idade em relação ao Português são melhor


conceptualizadas, em larga medida, como originando um continuum de
proficiência, em que os falantes mais velhos do mesmo sexo serão, em
geral, menos proficientes em Português que os mais novos, na maioria
das classes sociais.

Sexo como factor da variação


Mais uma vez, trata-se de uma questão aberta, i.e., se o significado social
atribuído às diferenças de sexo têm ramificações linguísticas similares, em
Moçambique, às que se têm verificado em contextos do Primeiro Mundo.
Tradicionalmente, as mulheres em Moçambique têm tido menos acesso
que os homens às línguas de prestígio, devido a diferenças nas
oportunidades educacionais e também devido ao facto de que,
normalmente, possuem ocupações tradicionais. Embora as mulheres
moçambicanas hoje tenham maiores oportunidades de adquirirem o
Português do que antes da independência, os seus deveres familiares,
combinados com a estrutura do mercado de trabalho a que têm
normalmente acesso, constrange ainda fortemente o tipo de linguagem
que elas encontram. É curioso que, embora as mulheres e os homens
tenham exactamente a mesma variedade e tipo de redes sociais, os
indivíduos do sexo masculino falam um Português mais padrão do que as
mulheres, e estas falam melhor as línguas bantu locais que os homens.
Uma explicação para isto é que as redes recebem o seu sexo de acordo
com
a língua; as ocupações que as mulheres têm são mais orientadas para o
uso de línguas bantu locais contrariamente aos homens. Uma vez mais,
esta dimensão está sujeita a variação dependendo de um conjunto de
circunstâncias sociais e económicas.

Profissão e educação como factores da variação


Por causa da base estreita que o Português tem na sociedade
moçambicana, as instituições e arenas oficiais públicas, onde o Português
é usado numa variedade de funções diárias, tornaram-se determinantes de
relevo na formação de variantes do Português. Já notámos acima como
algumas diferenças na proficiência da língua portuguesa estão
relacionadas com o sexo, o que por sua vez está correlacionado com a
Centro de Ensino à Distância 117

profissão/ocupação. A educação é também um fórum importante para a


aquisição do Português. Isto significa que uma grande parte da variação
encontrada estará relacionada com registos e estilos ensinados
academicamente e seus concomitantes léxico, discurso e sintaxe.

Contexto como factor da variação


Uma das questões mais interessantes referentes ao Português de
Moçambique diz respeito à variedade estilística que rodeia os falantes. Em
primeiro lugar, o Português em Moçambique é uma L2 para a maioria da
população, o que, naturalmente, coloca constrangimentos de proficiência
sobre até que ponto o falante de L2 ou não nativo consegue adaptar a sua
linguagem aos diversos contextos. Em segundo lugar, como L2 ou língua
não nativa, com usos predominantemente oficiais, os falantes raramente
se deparam com o Português, assumindo outros usos que não sejam os
oficiais.

Exercício

1. Apresente o conceito de Rede Social.

2. Quais são os diferentes factores que condicionam as variações


linguísticas na rede moçambicana.

3. Explique três factores a sua escolha.


Centro de Ensino à Distância 118

Bibliografia

Marrom, Cecil H. (1976) “princípios gerais de partonomy anatômico humano e de


speculations no crescimento da nomenclatura partonomic.” Ethnologist
americano 3, No. 3, biologia popular, pp. 400-424

Terezinha Cristina Campos de Resende COMUNIDADE DE FALA REVISTA DE


LINGUAGEM, CULTURA E DISCURSO ANO 3 - NUMERO 4 - JANEIRO A
JUNHO 2006

Comrie, Bernard (1981) Universais da língua e typology lingüístico. Chicago:


Universidade da pressão de Chicago.

Enfield, entalhe J. & Asifa Majid & categorisation Cruz-lingüístico de Miriam


camionete Staden (2006) 'do corpo: Introduction (introdução especial de Ciências
da língua).

Ferguson, Charles A. (1968) “fundo histórico da pesquisa dos universais”. Em:


Greenberg, Ferguson, & Moravcsik, Universais de línguas humanas, pp. 7–31.

Goddard, penhasco e Wierzbicka, Anna (eds.). 1994. Universais semânticos e


lexicais - teoria e Findings empíricos. Amsterdão/Filadélfia: John Benjamins.

Goddard, penhasco (2002) 'A busca para o núcleo semântico compartilhado de


todas as línguas'. Em Goddard & em Wierzbicka (eds.) Significado e gramática
universal - teoria e Findings empíricos volume 1, pp. 5-40, Amsterdão/Filadélfia:
John Benjamins.

Greenberg, Joseph H. (ed.) (1963) Universais das línguas. Cambridge, massa.:


Pressão do MIT.

Greenberg, Joseph H. (ed.) (1978a) Universais da língua humana Vol. 4: Sintaxe.


Stanford, Califórnia: Pressão da universidade de Stanford.

Greenberg, Joseph H. (ed.) (1978b) Universais da língua humana Vol.


3: Estrutura da palavra. Stanford, Califórnia: Pressão da universidade de
Stanford.
Centro de Ensino à Distância 119

Heine, Bernd (1997) Fundações Cognitive da gramática. New York/Oxford:


Pressão da universidade de Oxford.

Rosch, E. & Mervis, C.B. & cinzento, W.D. & Johnson, D.M. & Boyes-Braem, P.
(1976) “objetos básicos em categorias naturais”,Psychology Cognitive 8-3, 382-
439.

Wilkins, David P. (1993) `da peça à pessoa: tendências naturais da mudança


semântica e da busca para cognates', No. de papel de funcionamento. 23, Grupo
de pesquisa Cognitive do Anthropology no instituto máximo de Planck para o
Psycholinguistics.

Você também pode gostar