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NOTA PÚBLICA: ANADEP e ADEP-DF criticam a criação da

advocacia dativa no âmbito do Distrito Federal

A Associação Nacional das Defensoras e Defensores Públicos (ANADEP) e a


Associação das Defensoras e Defensores Públicos do Distrito Federal (ADEP-DF) vêm
REPUDIAR o encaminhamento de projeto de lei pelo Governador do Distrito Federal
com a finalidade de precarizar o serviço de assistência jurídica integral prestado à
população vulnerável do Distrito Federal, por meio de projeto de lei que compromete
recursos públicos para pagamento de profissionais, admitidos sem concurso público.
Tal ação caracteriza-se como verdadeiro retrocesso no que diz respeito ao acesso à
justiça às pessoas em situações de vulnerabilidades.
A Defensoria Pública do Distrito Federal conta com 260 membros, está presente em
mais de 95% das unidades jurisdicionais do DF e atende grande parte da população
carente, que necessita dos serviços jurídicos de excelência prestados por seus
membros, tal como determina a Constituição Federal, que atribui ao Estado, por meio
da Defensoria Pública, a missão de prestar assistência jurídica integral e gratuita aos
necessitados. Só em 2021 foram mais de 600 mil atendimentos jurídicos.
É preciso reforçar que a Constituição Federal determina que o Estado prestará
assistência jurídica integral e gratuita aos que comprovarem insuficiência de recursos e
tal prestação será realizada e remunerada pelo Estado, DE FORMA EXCLUSIVA PELA
DEFENSORIA PÚBLICA.
Não é por outra razão que o Congresso Nacional aprovou, em 2009, a Lei
Complementar n⁰ 132, que estabelece que “a Assistência jurídica integral e gratuita
custeada ou fornecida pelo Estado será exercida pela Defensoria Pública” (§ 5º do art.
4º da LC 132/09).
O Legislador Federal sabe que o serviço prestado por defensores públicos é mais
adequado e eficiente para a população. O defensor público não se limita a uma atuação
processual. Sua atribuição legal começa, antes do processo, ao priorizar a conciliação
e a mediação, podendo atuar na educação em direitos, na orientação preventiva e na
defesa extrajudicial ou coletiva de grupos de pessoas carentes. Isso está na LC 80, de
1994, que é a Lei Nacional da Defensoria Pública.
A jurisprudência do Supremo Tribunal Federal (STF), por repetidas vezes, vem
reiterando sobre esse procedimento ou qualquer outro que vise a resolver a falta de
Defensor Público com advogado dativo, contratação temporária de advogados,
convênios com OAB ou qualquer outra forma que não seja a dada pela Constituição
Federal (ADI 3.700, ARE 767.615-AgR, ADI 3.892 e ADI 4.270).
É preciso ratificar também que o planejamento de ações, as políticas públicas
formuladas pela Defensoria Pública e o atendimento em grande escala são fatores que
diluem significativamente os custos por processo e por atendimento.
Até a presente data, o motivo que impedia a ampliação do quadro de pessoal da
Defensoria Pública era a questão orçamentária. Esse motivo, porém, já não subsiste,
pois se o Governo do Distrito Federal tem previsão de abrir crédito adicional no exercício
de 2022 de até R$ 6.000.000,00 para pagamento de recursos para advogados dativos,
não há dúvidas de que tais recursos são mais do que suficientes para a ampliação da
atuação Defensoria Pública rumo ao cumprimento do mandamento constitucional para
atendimento integral da população na forma do artigo 98 do ADCT.
A ANADEP e a ADEP-DF defendem a estruturação da Defensoria Pública de forma
integral, o que depende do fortalecimento orçamentário da instituição, a fim de
possibilitar o cumprimento do mandamento constitucional de atendimento integral da
população vulnerável, a defesa e a promoção dos direitos humanos e a educação em
direitos.
As entidades observam que o Projeto de lei em questão não prevê nenhum critério de
seleção dos profissionais que terão a incumbência de atender. Além disso, atribui ao
juiz o poder de nomear o advogado dativo que atuará nas causas que ele próprio julgará,
bem como exercer o controle sobre a atividade do advogado dativo, vale dizer,
maculando por completo a independência do advogado, que atuará no processo por
escolha do juiz da causa e sob seu controle. Acrescente-se que essa solução esbarra
na efetiva independência funcional e os meios para a plena defesa dos interesses de
seus representados.
Por tudo isso, a Associação Nacional das Defensoras e Defensores Públicos e a
Associação das Defensoras e Defensores Públicos do Distrito Federal entendem que a
aprovação do referido Projeto de lei para a contratação de advogados dativos não
atende ao interesse público. As entidades envidarão todos os esforços para combater
as medidas que afrontem ou violem o direito constitucional da população à assistência
jurídica integral, gratuita e de qualidade, prestada por profissionais selecionados em
concursos públicos e dotados de independência funcional. A assistência jurídica
prestada pelo Estado não é favor, mas direito constitucional de todo cidadão que dela
necessita.

Diretoria ANADEP e ADEP-DF


Brasília, 11 de maio de 2022.

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