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Juarez Campos - http://www.blogdojua.com

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Meses atrás reservei um final de semana para percorrer todos os 56 legislativos dos
estados, capitais e Distrito Federal, Senado e Câmara dos Deputados. Pesquisei projetos
de leis (PLs) referentes apenas a bebidas não alcoólicas, refrigerantes, sucos, água
mineral, energético etc.. Encontrei 487. Todos, de certa maneira, representando
exigências, gerando gastos extras para os fabricantes e, evidentemente, produto mais
caro para o consumidor. Tudo isso sem contar os demais 5 mil e tantas famigeradas
câmaras de vereadores.

Os farristas do legislativo são exímios criadores de leis. Sem senso, mas excelentes
economistas nas causas próprias, utilizam-se desse expediente como moeda de
troca.Assim como fazem com o Executivo, por meio de chantagens e dificultando a
aprovação de propostas, com os PLs criam dificuldades para vender facilidades na
iniciativa privada.

No último dia 25, o jornal francês Le Monde, sob o título ³Des chiffres à donner le
tournis´ que traduz-se em Î  
  , publicou um resumo sobre as
quantas anda o Brasil de verdade, mas de quem pouco se fala. A reportagem contou 30
mil projetos e propostas legislativas pendentes no Congresso, com seus 513 deputados e
81 senadores. Projeta que menos de um em cada dez desses projetos será, um dia,
votado.

Não observou o jornal que tratam-se de projetos para negociatas. Somente irão a
Plenário se não surtirem efeitos nas negociações com os envolvidos, atingidos,
interessados, direta ou indiretamente. São moedas, Letra de Câmbio, notas promissórias
para barganha.

Contabiliza-se, ainda, 975 emendas constitucionais que não foram, sequer, apreciadas.
Jazem em alguma gaveta até que suas ações se valorizem, ou em algum momento sejam
oportunas para interesse grupal, pessoal, econômico, sobretudo. A mais antiga desses
chamados PEC ± Proposta de Emenda Constitucional ± tem 16 anos de idade.

Neste domingo, 28 de maio de 2011, o jornal Correio Brazilense, de Brasília, reporta


que nos primeiros 120 dias do ano os deputados, no DF cognominados Distritais,
reuniram-se por 16 sessões e, na metade, faltou quórum. Nas demais, foram apreciadas
moções, vetos e requerimentos. Os projetos ficaram de lado.

A primeira sessão do Legislativo do DF começou em fevereiro com a aprovação e


pagamento do 14º salário e a programação do pagamento do 15º em dezembro. Com
salário mensal de R$ 20 mil, os ilustres parlamentares têm, ainda, direito a inúmeros
penduricalhos e isenções que, no milagre da multiplicação, mais que triplicam esses
valores. No restante do País não é diferente. Em Minas, o Orçamento da Assembléia
Legislativa, que não produz absolutamente nada de útil, é superior ao do município de
Contagem, com 500 mil habitantes, na Região Metropolitana de Belo Horizonte e
abarrotado de tudo quanto é tipo de problemas e carências.

O jornal francês lembra ainda a ascensão do Executivo sobre os demais poderes,


ressaltando as fatídicas MPs, as medidas provisórias que fazem do Presidente da
República o legislador de fato.

³O Congresso tem um talento único para não decidir. Porque ele é dividido,
desintegrado em uma seqüência de interesses escusos e farras, sufocada pela burocracia,
sujeitos ao clientelismo e expostos às pressões da presidência. Resultado, cabe,
especialmente ao Executivo, legislar. A Constituição autoriza o chefe de Estado a tomar
³medidas provisórias´ há 20 anos: em média, uma MP por semana.´.O que quer dizer,
fazer gato e sapato dos legisladores e chacota da população que elege e sustenta a todos.

Essas MPs também são lucrativas fontes de negociatas. A famigerada pauta trancada,
nada mais é do que a cópia da chave do cofre para o esbanjamento e o desvio do
dinheiro público. O mesmo que falta para os setores essenciais.

Enquanto não fazem nada sério, ou se o fazem são com outras intenções mais rendosas,
os legisladores azucrinam a vida dos brasileiros que os sustentam, quando não com
projetos esdrúxulos e vergonhosos, com leis que restringem, travam e agridem as
liberdades individuais.

Pondo de lado problemas crônicos como a violência, a impunidade, a falta de


infraestrutura, de estradas, de saneamento básico, a corrupção, ministros que defendem
drogas e pornografia nas escolas, o Le Monde enumera uma série de comparações que
colocam o Brasil como o campeão de impostos e de carestia em todo o mundo.

Diz por exemplo, sem citar os combustíveis, que o bilhete de metrô em Brasília é seis
vezes o valor da passagem em Buenos Aires; Automóveis, vestuário, calçado,
medicamentos, brinquedos, perfumes, alimentos e uma enorme lista de bens e serviços
são muito mais caros no Brasil do que no exterior.

Um Big Mac custa, no Brasil, bem mais do que na Europa e nos EEUU. Um croissant
num bar custa cinco vezes mais do que em Paris, e uma caixa de aspirina custa o dobro;
uma pizza em Londres é metade do preço cobrado em Brasília. Um filme custa duas
vezes mais do que em Buenos Aires. E, entre centenas de exemplos, um carro japonês,
no Brasil, é duas vezes e meia mais caro do que nos EEUU.

E enquanto o povo se esborracha e se endivida, os legisladores fazem farra com o


dinheiro público, se locupletam com o nosso suor e usam as prerrogativas do poder para
um jogo monetário, onde ficam com o bônus e a Nação com o ônus. Um verdadeiro
projeto caracu.VV