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O cientificismo contemporâneo à luz do pensamento

cartesiano

O poeta espanhol Antonio Machado disse em sua obra “Proverbios y


Cantares”: "La verdad es lo que es, y sigue siendo verdad aunque se piense al
revés". Nesse sentido, o pensamento cartesiano, iniciado no século XVII, partiu
do pressuposto do “cogito”, isto é, da máxima: “Penso, logo existio”. Dessa
maneira, por meio da análise de si mesmo e dúvida radical de todos os objetos
externos, Descartes buscou, em primeiro lugar, se desvencilhar de
conhecimentos arcaicos que, em sua época, ainda estavam em voga,
chamados de esotéricos, como a astrologia e a alquimia. Em segundo lugar,
decidiu se afastar do arcabouço teórico grego baseado em uma falsa
racionalidade, tendo em vista que se sustentava nos sentidos e não no
entendimento propriamente dito, como é o caso de Platão e Aristóteles.
Destarte, por meio da razão pura, conceito posteriormente definido pelo filósofo
alemão Immanuel Kant, Descartes concluiu que a única verdade conhecida
estaria no pensamento. Relacionando com a frase de Machado citada no
começo desse texto, a verdade, mesmo que se pense ao contrário, permanece
igual. Entretanto, o filósofo francês postulou um conceito que caminha em uma
direção tortuosa e diferente daquela de Machado: a verdade, já que não é
conhecida pelos sentidos, só pode ser encontrada no pensamento e,
consequentemente, a existência daquele que pensa é comprovada.
Com efeito, Descartes dividiu o mundo externo em “res extensae” ou “coisas
extensas”, que são desprovidas de qualidades secundárias, como a cor, e “res
cogitans”, ou “mente particular”, que é tudo aquilo que não é uma coisa
extensa. Essa visão serviu de base para a ciência moderna que, anos depois,
se fundamentou em um método de verificação de hipóteses por meio de
experimentos. O método científico atual, portanto, está diretamente relacionado
a essa visão do filósofo francês que, conforme denominação do físico Wolfgang
Smith, se trata de uma “bifurcação cartesiana”, ou seja, uma simplificação do
mundo que leva a um reducionismo científico.
Logo, com física contemporânea, depois da descoberta do princípio da
incerteza de Riemann e da Mecânica Quântica por Heisenberg, a objetividade
do método científico, acreditada com tanto afinco por Descartes ao ponto de
desprezar a percepção sensível, se tornou prejudicada. O exemplo do gato de
Schrondigger, inclusive, já é uma evidência habitual para sustentar a afirmação
anterior.
Portanto, conclui-se que o pensamento de Descartes deu início ao atual mito
da objetividade científica materialista, a qual pode também ser chamada de
cientificismo contemporâneo. Por consequência, em última análise, a
objetividade, que era o alvo do filósofo francês ao criar seu método,
paradoxalmente, levou ao efeito inverso: atualmente, na ciência
contemporânea, herdeira de Descartes, não há mais objetividade material.

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