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O APARELHO PSÍQUICO:

ASPECTOS CLÍNICOS E TEÓRICOS


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“O sonho é a estrada real que conduz
ao inconsciente. Os poetas e os
filósofos descobriram
o inconsciente antes de mim. O que eu
descobri foi o método científico que nos
permite estudar o inconsciente”.

Sigmund Freud
APARELHO
PSÍQUICO: GRUPO ZAYN
ASPECTOS CLÍNICOS EDUCACIONAL
E TEÓRICOS
EMENTA: CONTEÚDO PROGRAMÁTICO

Na disciplina APARELHO PSÍQUICO: 1. Introdução


ASPECTOS CLÍNICOS E TEÓRICOS
2. O aparelho psíquico
será possível compreender o primeiro
3. Primeira e Segunda tópica de Freud.
e segundo método de Freud, o
4. Consciente, pré-consciente e
consciente, pré-consciente e
inconsciente.
inconsciente. Além disso, serão
5. Id, ego e superego.
descritos, de forma mais aprofundada,
6. Transições na obra freudiana.
as noções de id, ego e superego,
7. Mecanismos de defesa do mente.
mecanismos de defesa da mente e
8. Método de interpretação dos
método de interpretação dos sonhos.
sonhos.
Referências

Organização do conteúdo:
Prof.ª Diana Pacheco Laia
CARACTERIZAÇÃO DA DISCIPLINA
Disciplina: APARELHO PSÍQUICO: ASPECTOS CLÍNICOS E TEÓRICOS

EMENTA

Na disciplina APARELHO PSÍQUICO: ASPECTOS CLÍNICOS E TEÓRICOS


será possível compreender o primeiro e segundo método de Freud, o consciente,
pré-consciente e inconsciente. Além disso, serão descritos, de forma mais
aprofundada, as noções de id, ego e superego, mecanismos de defesa da mente
e método de interpretação dos sonhos.
1. Introdução

2. O aparelho psíquico

3. Primeira e Segunda tópica de Freud.

4. Consciente, pré-consciente e inconsciente.

5. Id, ego e superego.

6. Transições na obra freudiana.

7. Mecanismos de defesa da mente.

8. Método de interpretação dos sonhos.

Referências

.
OBJETIVOS

Compreender o aparelho psíquico descrito por Freud e seus principais aspectos


clínicos e teóricos.
Sumário

1. Introdução 7

2. O aparelho psíquico 8

3. Primeira e Segunda tópicas de Freud 11

4. Consciente, pré-consciente e inconsciente 13

5. Id, ego e superego 19

O que é ID?⠀ 19

O que é EGO? 19

O que é SUPEREGO? 19

6. Transições na obra freudiana - de princípio do prazer ao princípio de


realidade 21

7. Mecanismos de defesa do mente 24

8. Método de interpretação dos sonhos 27

8. Referências 32
7

INTRODUÇÃO À PSICANÁLISE

1. Introdução

O conceito freudiano de aparelho psíquico designa uma organização psíquica que é


divida em instâncias. Essas instâncias – ou sistemas – são interligadas entre si, mas
possuem funções distintas. A partir desse conceito Freud apresentou dois modelos: a
divisão topográfica e a divisão estrutural da mente (PSICANÀLISE CLÍNICA, 2017).

Podemos recorrer a outros autores, comentadores de Freud, para compreender


melhor o conceito. Segundo Laplanche, o conceito de aparelho psíquico de Freud
seria uma expressão que ressalta as características que a teoria freudiana atribui à
psique. Essas características seriam a sua capacidade de transmitir ou transformar
uma energia determinada, e a sua diferenciação em instâncias ou sistemas
(PSICANÀLISE CLÍNICA, 2017).

Quando falamos em Consciente, tal conceito se refere aos fenômenos que nos damos
conta, ou seja, aqueles em que podemos pensar através da razão, aqueles cuja
existência atual é clara para nós. O Pré-consciente é o ambiente daqueles fenômenos
que não estão “na nossa cara” em determinado momento, mas que não são
inacessíveis à nossa razão. Os fenômenos pré-conscientes são aqueles que estão
prestes a chegar a consciência, a transitar para o nível consciente. Já O Inconsciente
é o terreno dos fenômenos obscuros. Medos, desejos, pulsões… Tudo que a mente
evita para não sofrer, habita o inconsciente. Temos acesso a esses fenômenos
apenas por meio dos atos falhos, dos sonhos ou da análise psicanalítica
(PSICANÀLISE CLÍNICA, 2017).

O id, ego e superego também são constituintes do aparelho psíquico descrito por
Freud, sendo, para o teórico, esses três sistemas os responsáveis pela personalidade
do sujeito.
8

2. O aparelho psíquico

Freud chama seu modelo da mente humana de aparelho psíquico e o compara,


inclusive, com um telescópio ou microscópio. Freud incorpora um conceito da
fisiologia chamado de arco reflexo para pensarmos nesse movimento.

Fonte: Goldberg (2021)

Para o entendimento da lógica em jogo em Freud não precisamos nos ater aos
detalhes da neurologia. O leitor provavelmente conhece esse circuito, pois algum
médico averiguou seu reflexo patelar: um martelinho e uma pequena batida em seu
joelho seguida da extensão da sua perna. Um receptor sensível (pele/ tendão) recebe
um estímulo, um órgão efetuador (músculo) responde.

Freud incorpora esse movimento e parte do pressuposto de que nosso aparelho


psíquico responde à toda excitabilidade com uma descarga como forma de regulação.
A excitabilidade podemos chamar de desprazer e a descarga de prazer.

Eu seu primeiro modelo, Freud isola três instâncias do aparelho psíquico: o pré-
consciente, inconsciente e consciente. Na extremidade do polo sensível o que nos
interessa tem a ver com nossas percepções. Portanto, por analogia, a base de nosso
aparelho reflexo ficaria assim:

● Excitação -> Descarga

● Sensível -> Motor

● Estímulos [Internos ou Externos] -> Inervações

Nesse primeiro modelo de aparelho psíquico, entre o que recebemos de estímulos


(internos ou externos) e a atividade motora, há um circuito que faz com que essas
9

excitações se propaguem em um sistema que Freud chama de mnêmico: “Das


percepções que nos chegam, permanece um traço em nosso aparelho psíquico, que
podemos chamar de ‘traço mnêmico. Portanto, o sistema perceptivo recebe o
estímulo, mas não retem nada relativo à memória, e esse segundo, o mnêmico,
conserva “traços de memória”. Há várias camadas desse “sistema mnêmico”, mas
podemos pressupor que a primeira camada irá fixar associações desses traços de
memória pela simultaneidade, portanto, pelo encontro do estímulo (excitação) no
mesmo espaço-tempo que o traço de memória. Nas camadas seguintes, podemos
admitir que as associações ficarão fixadas por similaridade, ou seja, pelas relações
íntimas entre esses traços mnêmicos, em seu grau de resistência a condução do
estímulo (GOLDBERG, 2021, p. 25).

Para exemplo: Imaginemos então que, o que percebemos, do lado esquerdo,


aumentará nosso grau de excitabilidade e percorrerá esse circuito através de traços
de memória. Esses traços de memória podem ser divididos, em sua relação íntima,
entre o primeiro, marcado pela simultaneidade, e os sequentes, marcados pela
similaridade. Há uma relação entre eles e nossas impressões dos estímulos geram
essas marcas. As primeiras, que inauguram essas marcas, são as da primeira
infância, por óbvia cronologia. Essas produziram, também, o mais forte efeito sobre
nós mesmos, e, portanto, quase nunca se tornam conscientes. O leitor percebeu que
aqui introduzimos uma instancia psíquica, a consciência. Voltemos então ao nosso
modelo, incluindo as três instâncias referidas:

Fonte: Goldberg (2021)


10

Ao visualizar a figura, introduzimos as três instâncias psíquicas, e agora, qualquer


estímulo que atravessa o sistema perceptível passa por 5 sistemas: Sistema
Perceptível -> Sistema Mnêmicoà Inconsciente -> Pré-Consciente -> Consciente. Em
Freud, esse é o modelo de aparelho psíquico que aparece em 1900, na Interpretação
de Sonhos.

O circuito funciona desta maneira: o sistema recebe um estímulo interno ou externo e


há uma excitação vista como desprazer, essa excitação atravessa os traços de
memória, e se relaciona com esses traços por similaridade e simultaneidade, ou seja,
por informações que sejam análogas a outras já experimentadas e de acordo com o
encontro no tempo entre essas informações. No inconsciente, elas se transformam
em palavras e imagens que obedecem à duas formas de transformação, ao
deslocamento e a condensação (GOLDBERG, 2021, p. 26).
Enquanto efeito do recalcamento, as pulsões sexuais serão sempre
representadas por decorrências de deslocamento e condensação. O
inconsciente se estrutura dessa forma: substituindo palavras que se “colam”
com imagens que remontem diretamente ao proibido do incesto, atenuando
por substituição ou transformando por condensação a mensagem. Depois de
um primeiro recalcamento, há recalques posteriores que podemos pensar
enquanto mensagens cifradas com o valor de sintoma (GOLDBERG, 2021,
p. 27).

No aparelho psíquico, a figura e o caráter descritivo servem sobretudo para uma


apresentação didática de tais instancias. Lembremo-nos sempre que o Eu é uma parte
diferenciada do Isso, e que o Super-Eu é uma derivação do Eu, consequência da
identificação, na travessia do Complexo de Édipo, que resulta na incorporação, pela
criança, do que ele entendeu ser a moral do pai (GOLDBERG, 2021, p.27).

Percorramos então o aparelho psíquico: lembremo-nos que quando Freud se refere a


fonte da pulsão, a pensar retroativamente relacionada à suas metas: as pulsões
parciais então, se organizam representando zonas erógenas especificas 82. Há
pulsões escópicas, ligadas ao olhar, coprofílicas, ao excremento, oral anal, fálica.
Podemos pensar a pulsão, então, de acordo com um estímulo representado na fonte
(excitabilidade), que percorre um movimento de vasão, de forma constante e mira a
satisfação, sempre impossível (incesto mítico, meta última) (GOLDBERG, 2021, p.
27).
11

Para Freud, há sempre algo que continua na passagem pelo Complexo de Édipo,
sendo esse algo o responsável por produzir sintomas e determinar a forma como o
sujeito deseja, as fantasias que utiliza e seu modo de funcionar no mundo. O destino
da libido do sujeito pode ser a fantasia, que opera a possibilidade do sujeito exercer
sua sexualidade e seus investimentos libidinais, e a sublimação, que possibilita que o
sujeito mire essas pulsões em realizações culturais, artísticas, da família e do
cotidiano (GOLDBERG, 2021).

3. Primeira e Segunda tópicas de Freud

A primeira tópica de Freud se refere ao aparelho Psíquico é visto, sendo, nessa tópica,
dividido em três partes: o inconsciente, o pré-consciente e o consciente. Cada um
deles possui uma função específica no aparelho psíquico, funções essas que serão
vistas no próximo tópico. Ainda na primeira tópica, Freud destaca os sonhos como
fundamentais para compreender o aparelho psíquico, os quais possuem os
mecanismos de condensação, deslocamento e representação.

● Deslocamento: há uma substituição: um elemento psíquico valioso é


substituído por um fragmento menos expressivo, por exemplo, uma lembrança
do dia a dia, e então, uma ideia cede à outra seu montante de investimento
(GOLDBERG, 2021).

● A condensação foi dita pela primeira vez por Freud (1900). Pode ser produzido
de várias maneiras. Sendo que o elemento (pessoa) é preservado apenas por
estar presente em diferentes pensamentos do sonho. Vários elementos podem
se reunir em uma unidade desarmônica. Ou então, a condensação de várias
imagens pode fazer com que as características que não coincidam
desapareçam. Mantendo ou reforçando as características comuns
(PSICANÁLISE CLÍNICA, 2021).

● Representação: e acordo com Freud, as representações são analógicas e


imagéticas. Elas são unidades mentais de objetos, situações, sensações,
12

relações, etc. E as associações se inter-relacionam por meio de redes


associativas. Essas associações surgem a partir de um processo fisiológico
cerebral, baseado em uma rede de neurônios (PSICANÁLISE CLÍNICA, 2017).

Sobre o surgimento da segunda tópica, Freud percebeu algumas limitações na


primeira tópica que impediam um entendimento mais expressivo dos achados
psicanalíticos, propondo então um novo modelo para o aparelho psíquico.

Nesse modelo, Freud amplia seu entendimento sobre a dinâmica das instâncias
psíquicas e diz uma nova forma de compreensão, chamado de: O Modelo estrutural
do aparelho psíquico (PSICANÁLISE CLÍNICA, 2018).

No novo modelo proposto por Freud em sua segunda tópica, não há mais um
entendimento virtual, mas sim de estruturas ou classes psíquicas. Tais estruturas
interagem de forma constante para que ocorra o funcionamento da psíque, sendo elas
o Id, Ego e Superego.

Justapondo a primeira e a segunda tópicas freudianas em uma única imagem, e


considerando a metáfora (ou alegoria) do iceberg em Freud (isto é, apenas uma parte
para fora d’água representa a mente acessível ao consciente, todo o resto está
submerso em pré-consciência e, principalmente, inconsciência), teríamos:
13

Fonte: Psicanálise Clínica (2018, s.p.).

Ao observar a imagem, é importante destacar que o id é TODO inconsciente (todo


submerso), mas o inconsciente não é inteiro Id (uma parte do que está submerso é
também ego e superego); o inconsciente engloba o Id todo e partes do superego e
do ego.

Comparando as duas tópicas, concluímos que:

● O Id é TODO inconsciente, como já dissemos;

● O ego é parte consciente (da lógica racional e do que estamos pensando


agora, por exemplo) e parte inconsciente (dos mecanismos de defesa do
ego, por ex.);
14

● O superego é parte consciente (das regras morais que estamos cientes que
existem, como “não matar”) e parte inconsciente (das crenças e valores que
temos e que acreditamos serem naturais, por exemplo contidos na
linguagem, no discurso, na religião, na forma de vestir, na forma de
diferenciar os gêneros etc.) (PSICANÁLISE, 2018, s.p.).

4. Consciente, pré-consciente e inconsciente

A consciência, para Freud, é a parte do aparelho psíquico que temos total acesso no
presente. Gomes (2003) ao comentar sobre o consciente aponta:

“No modelo teórico apresentado no Projeto de uma Psicologia, manuscrito de 1895, a


consciência é atribuída à atividade de um sistema hipotético de neurônios, o sistema
ω (ômega). Este está em conexão com o sistema ψ (psi), que é responsável pelos
processos psíquicos em geral: percepção, memória, desejos, fantasia, etc. Em relação
à percepção consciente, Freud supõe que a excitação proveniente do mundo exterior
atinge inicialmente o sistema φ (phi), ligado aos receptores sensoriais, de onde se
transmite a ψ e finalmente a ω (Freud, [1895/]1950/1975). A escolha dessas letras
gregas não é difícil de explicar: φ e ψ são as iniciais de fi siológico e psíquico,
respectivamente, e ω assemelha-se graficamente à letra W, inicial da palavra alemã
para percepção, Wahrnehmung. Vemos desde aí a íntima conexão que Freud
estabelece entre percepção e consciência. A consciência, no entanto, não é só
percepção consciente, ela compreende também as lembranças conscientes, as
fantasias conscientes, os desejos conscientes, o pensamento consciente, etc. No
Projeto, Freud os concebe todos como processos que ocorrem num sistema (psi) e
cuja consciência é constituída pela atividade de outro (ômega). A consciência que uma
pessoa tem de seus próprios processos psíquicos, ou de seu conteúdo, é uma forma
de percepção, pelo sistema ômega, de parte do que se passa em psi. Freud fazia uma
dicotomia entre qualidade e quantidade. Para ele, os processos inconscientes e pré-
conscientes envolviam unicamente quantidades de excitação no aparelho psíquico.
Já a consciência se caracterizava pela identifi cação de qualidades, transmitidas, de
alguma forma, pelas excitações provenientes dos órgãos dos sentidos. Além das
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percepções do mundo exterior, a consciência percebe variações do nível de tensão


do aparelho psíquico como sensações de prazer e desprazer. As “excitações de
prazer e de desprazer apresentam-se como quase a única qualidade das
transposições de energia no interior do aparelho” (Freud, 1900/1982, cap. 7, D, p.
547). Além disso, Freud indica aqui um outro tipo de conteúdo para a consciência. Ela
percebe também uma parte dos processos de pensamento do pré-consciente. A
consciência é então, para Freud, consciência da percepção do mundo externo,
consciência dos estados afetivos do continuum prazer-desprazer, e consciência de
uma parte dos processos psíquicos do próprio sujeito. Este terceiro aspecto sem
dúvida tem grande interesse, do ponto de vista das neuroses e da prática psicanalítica.
A consciência que o sujeito tem de seus próprios processos psíquicos é, ela mesma,
assimilada a uma forma de percepção. Num processo psíquico consciente, há então
dois elementos, o próprio processo e sua percepção pela consciência. Freud concebe
os afetos como processos de descarga ou acumulação de tensão que ocorrem no
aparelho psíquico e são percebidos pela consciência como sensações da série que
vai do prazer ao desprazer (aí incluindo a angústia) (p. 119-122).

Partindo para o pré-consciente, temos a parte do aparelho psíquico que guarda


informações as quais podemos trazer para consciência com maior facilidade.

O pré-consciente é uma área da psique que, embora não seja consciente, faz parte
do inconsciente. Isto significa que o sistema consciente tem acesso aos conteúdos do
pré-consciente através de certos procedimentos. Os conteúdos do inconsciente
podem chegar ao pré-consciente quando superam a censura que separa estes dois
sistemas. O pré-consciente costuma ser chamado de “subconsciente”, mas Freud não
utiliza esse termo para se referir e esse nível da mente.

Uma característica do pré-consciente é que as informações que chegam ali não


permanecem nesse lugar. Tais informações são necessárias em nossa vida,
necessárias ao funcionamento do consciente, com conteúdos que não costumamos
pensar com frequência, como nosso número de telefone, endereço, o nome de um
amigo ou parente. Essas informações não estão presentes no consciente mas elas
podem ser acessadas a qualquer momento.

A partir de posteriores desenvolvimentos das suas teorias, Freud começou a usar o


conceito de pré-consciente como adjetivo para qualificar determinados processos e
operações da psique, e nem tanto para se centrar num sistema ou lugar. Os processos
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pré-conscientes, neste sentido, não fazem parte da consciência, mas estão ligados ao
inconsciente.

Pode-se entender o pré-consciente como uma zona de trânsito entre o inconsciente e


a consciência, o que significa que os conteúdos pré-conscientes podem aparecer na
consciência assim que seja necessário um processo de transformação, como ocorre
com os conteúdos inconscientes. Uma curiosidade é que o pré-consciente, apesar de
parecer que possui relação com o consciente, na verdade está relacionado com o
inconsciente.

O sistema pré-consciente é uma via de comunicação entre a consciência e o sistema


inconsciente. Um acontecimento que tenha ocorrido durante a tarde, por exemplo,
pode desaparecer da consciência, passar para um estado latente do pré-consciente e
finalmente incorporar-se no sistema inconsciente como um sono que se acontece
durante a noite. ou seja, ele funciona como uma espécie de filtro tanto para as
informações que chegam até o inconsciente quanto para as chegam até o consciente,
ou seja, informações que passam de um nível mental para outro (do consciente para
o inconsciente e do inconsciente para o consciente).

Sobre o inconsciente, ele é a parte do aparelho psíquico mais estudada por Freud.

“O conceito de inconsciente formulado, reformulado e recriado por Freud sempre


esteve no desenvolvimento da teoria psicanalítica e, de certa forma, fora o
responsável por uma mobilidade teórica que não cessou até os últimos anos da vida
do criador da psicanálise. O método de Freud fora justamente guiado pela escuta do
inconsciente, por isso que se difere absolutamente de qualquer outra terapêutica
baseada em uma cura, homeostase ou equilíbrio. Cada vez que Freud assentava em
um equilíbrio, em algum esquema pronto, ele se deparava com alguma manifestação
produzida pelo inconsciente e se dispunha a reformular suas premissas. Seu
funcionamento é uma consequência lógica do recalcamento, sua economia dá vazão
às pulsões e seu horizonte é a descarga de excitabilidade. O recalcamento, efeito da
proibição do incesto, que inclui o atravessamento do Édipo e a instalação do supereu,
empresta uma condição ao desejo humano característica: a de ser atravessado,
sustentado por uma fantasia que inclui tal conteúdo de maneira transformada –
através da condensação e do deslocamento – e que se apresenta de diversas formas
para o sujeito. O produto do inconsciente é também produto do encontro entre fala e
escuta, entre falar e se fazer escutado. Muitas vezes, o analista é aquele que traduz
17

o produto do inconsciente, insta o paciente a traduzi-lo ou desdobra o conteúdo em


cadeia com outros conteúdos, através da associação. É por isso que ao paciente é
solicitado que fale o mais livremente possível, para que possa haver uma associação
livre, única regra e princípio para uma análise” (GOLDBERG, 2021, p. 29).

“Toda pulsão precisa atravessar a barra do recalcamento para se transformar e ser


traduzida em algo da consciência, algo que no máximo seria uma ideia que a
represente. Para Freud, os sintomas são efeitos de uma certa economia regulatória
da passagem do representante da pulsão pela barra do recalcamento. Acontece que
nessa passagem, o Eu, ao invés de considerar esse representante pulsional como
algo interno, o recebe como se fosse externo, um sinal de angústia vindo de fora. Há
certo contrainvestimento em parte do representante pulsional. Nessa fronteira, o
resultado da intensidade do recalcamento, somado ao investimento pulsional vindo do
inconsciente ao consciente, produz um sintoma. O inconsciente é basicamente o lugar
dos representantes pulsionais que objetivam descarregar seu investimento. Essas
pulsões, como vimos no segundo capítulo, podem coexistir sem se contradizer. Duas
pulsões podem ser exatamente antagonistas, portanto, “eu desejo e não desejo algo”
e uma não invalida a outra, tampouco subtrai algo da outra” (GOLDBERG, 2021, p.
29).

“A transferência acontece justamente quando o analista encarna o objeto no qual as


pulsões do sujeito estão investidas. Precisamente por isso, as manifestações do
inconsciente, em uma entrada de análise, costumam incluir o analista. Isso coloca em
jogo um produto do inconsciente que pode permanecer no inconsciente, recalcado, e
então permear a consciência e revestir os encontros amorosos através dos objetos ou
pode permanecer no eu, o protegendo. Geralmente este produto está em jogo em
ambas as instâncias, e a ele chamamos de fantasia. A fantasia mobiliza as pulsões
em direção ao objeto de prazer. Todas as nossas relações estão permeadas pela
fantasia, incluindo o que Freud chamou de amor de transferência, momento no qual o
analisante coloca o analista neste lugar de objeto amado, que encarna sua fantasia e
o mobiliza, o fazendo produzir sonhos, lapsos, chistes e sintomas em direção a ele.
18

Lembremo-nos que Anna O. produz uma gravidez psicológica (sintoma) direcionada


ao seu médico, Breuer (analista). Essa manifestação do inconsciente pode ser tomada
como transferência e motor de uma análise” (GOLDBERG, 2021, p. 30).

Goldberg cita que há três características lógicas que não habitam o inconsciente:

1 – No inconsciente não há negação;

2 – No inconsciente não há dúvida;

3 – No inconsciente não há graus de certeza.

Essas características transformam o inconsciente em um sistema que opera seus


conteúdos apenas através de graus de intensidade. Portanto, a mobilidade das
pulsões obedece apenas a dois processos: o deslocamento e a condensação. Há uma
lógica do inconsciente que não é alterada pelos fatos cotidianos, pelo que
costumeiramente chamamos de realidade, e tampouco se altera pela passagem do
tempo: em psicanálise é impossível falarmos que haja “maturidade do inconsciente”.
Essas duas características orientam todo o trabalho do analista:

1 – Os processos do inconsciente são atemporais, estão fora do tempo, fora do


domínio do tempo do relógio;

2 – Os processos do inconsciente são alheios da realidade (GOLDBERG, 2021,


p. 30).

A recomendação de Freud aos analistas é clara: “mantenha todas as influências


conscientes longe de sua capacidade de memorização e se entregue completamente
à sua “memória inconsciente”, ou, dito de maneira puramente técnica: ouça o que lhe
dizem e não se preocupe se vai se lembrar de algo ou não (GOLDBERG, 2021, p. 30).

Exemplo dos conteúdos presentes no consciente, pré-consciente e inconsciente.


19

Fonte: divagacoesligeiras.com

5. Id, ego e superego

O que é ID?⠀

Id é a fonte de energia psíquica ligada à impulsividade, ou seja, trata-se do aspecto


da personalidade ligado às pulsões. É totalmente inconsciente e consiste nos
desejos orgânicos pelo prazer, vontades e pulsões primitivas.

O Id é irracional, busca uma solução imediata para as tensões, não aceita


frustrações e não conhece qualquer tipo de inibição. Além disso, esse aspecto
perverso desconhece o juízo, a lógica, os valores e a moralidade (HÉLIO FADEL,
2022).

O que é EGO?

Ego é o aspecto racional da personalidade. Ele é responsável pelo controle das


pulsões, servindo como mediador e facilitador da interação entre o Id e as
circunstâncias do mundo externo.

O Ego representa a razão (racionalidade), ao contrário do impulso insistente e


irracional do Id. Por isso, obedece à realidade, refreando as demandas em busca do
20

prazer – até encontrar o objeto apropriado para satisfazer a necessidade e reduzir a


tensão.

Sendo assim, a principal função do Ego é buscar a harmonia entre os desejos do Id


e a repressão do Superego (HÉLIO FADEL, 2022).

O que é SUPEREGO?

Superego é o componente moral da mente humana. Com isso, ele representa os


valores da sociedade. Reprime, por meio de punição ou sentimento de culpa,
qualquer impulso contrário às regras e ideais. Também força o Ego a se comportar
de maneira moral, conduzindo o indivíduo ao que é ”certo”.

O Superego forma-se após o Ego, enquanto a criança assimila os valores recebidos


dos pais e da sociedade. Ele pune o indivíduo não apenas por ações praticadas,
mas também por pensamentos inapropriados ou inaceitáveis. O Superego, então,
está em conflito com o Id.

Juntas, essas três estruturas compõem o aparelho descrito por Freud e nos ajuda a
entender um pouco mais sobre a personalidade humana (HÉLIO FADEL, 2022).

Imagem retirada da internet.


21

Esses três componentes da formação da personalidade – Id, Ego e Superego – são


as representações da impulsividade, da racionalidade e da moralidade,
respectivamente.

● O Ego surge a partir da interação do ser humano com a sua realidade,


adequando os seus instintos primitivos (o Id) com o ambiente em que vive;
● O Superego se desenvolve a partir do Ego e consiste na representação dos
ideais e valores morais e culturais do indivíduo, durante o período da latência
que vai da infância até a o início da adolescência;
● O Id é o componente nato dos indivíduos, ou seja, as pessoas nascem com
ele. Consiste nos desejos, vontades e pulsões primitivas, formado
principalmente pelos instintos e desejos orgânicos pelo prazer. A partir do Id se
desenvolvem as outras partes que compõem a personalidade humana: Ego e
Superego (CLÍNICA POLI, 2019).

Fonte: Clínica Poli (2019).


22

6. Transições na obra freudiana - de princípio do prazer ao princípio de


realidade

“Os conceitos de princípio do prazer e princípio de realidade foram abordados de


forma sistemática por Freud no texto Formulações sobre os dois princípios do
acontecimento psíquico (FREUD, [1911] 1998b), embora eles não surjam na teoria
nesse momento, mas derivem de hipóteses que começam a ser formuladas no Projeto
de uma psicologia(FREUD, [1950] 1998c) e são desenvolvidas nos textos
metapsicológicos subsequentes. De acordo com a teoria apresentada em 1911, o
princípio do prazer governaria os processos inconscientes, ou processos primários,
e direcionaria o funcionamento mental no sentido da fuga do desprazer e da obtenção
da satisfação da forma mais direta possível, sem consideração pelo mundo
externo. Em um funcionamento mental regido unicamente por tal princípio não
estaria presente a diferenciação entre fantasia e realidade e os desejos
conduziriam à alucinação do objeto desejado. A partir de certo momento,
contudo, esse modo primário de funcionamento mental não seria mais eficiente
para propiciar a satisfação das necessidades e emergiria, então, uma forma
inibida de funcionamento mental, denominada “processo secundário” ou “pré-
consciente”, o qual seria guiado pelo “princípio de realidade”. Nos processos
mentais governados por esse último princípio, a busca alucinatória da satisfação
seria inibida e o mundo externo seria levado em consideração, o que permitiria a
real satisfação das necessidades da criança e, portanto, sua sobrevivência”
(CAROPRESO e NETO, 2021, p. 51-52).

Após o nascimento, a criança ingressaria em um novo estágio do desenvolvimento


psíquico, o qual é denominado período da onipotência alucinatória mágica. Nessa
nova etapa, ela deixa de ter suas necessidades instantaneamente satisfeitas e a
primeira consequência de tal perturbação seria o reinvestimento alucinatório do
estágio de percepção abandonado. No caso da criança bem cuidada, os
cuidadores compreenderiam instintivamente seus desejos, a partir de
manifestações como o choro e a agitação motora, e se esforçariam para colocá-
la em situações que se, o máximo possível, da situação intrauterina perdida. Uma
23

vez que o mundo externo não responderia sempre imediatamente aos desejos da
criança, a partir de certo momento, ela se veria diante da necessidade de
encontrar novas maneiras de alcançar a realização de seus desejos. Essa
frustração e a necessidade de adaptação fariam com que o bebê passasse a usar
descargas motoras, como o grito e a agitação, como se fossem sinais mágicos, cuja
emissão, com um auxílio externo do qual ela não suspeitaria, seria capaz de trazer a
satisfação. Como a criança conseguiria exprimir suas necessidades a partir
dessa linguagem gestual e como os adultos buscariam satisfazê-la da forma
mais rápida possível, o sentimento de onipotência continuaria presente. Ferenczi
denomina essa nova etapa do desenvolvimento psíquico Período de onipotência pela
ajuda de gestos mágicos” (CAROPRESO e NETO, 2021, p. 53-54).

Ferenczi ([1913] 1916) sustenta que a consciência se instala no psiquismo


concomitante ao desenvolvimento da linguagem. As representações de palavras,
ao se associarem às representações inconscientes, dotariam essas de qualidades
sensoriais, possibilitando a rememoração consciente. O autor considera que “o
pensamento consciente por meio de signos verbais é a maior realização do aparelho
psíquico e sozinho faz o ajustamento à realidade possível através do retardamento da
descarga motora reflexa e da liberação do desprazer” (FERENCZI, [1913] 1916, p.
195, apud CAROPRESO e NETO, 2021, p. 56). A sensação de onipotência, no
entanto, ainda seria parcialmente preservada, uma vez que, inicialmente, os desejos
que a criança concebe sob a forma de pensamento são pouco numerosos e
complexos, de forma que os cuidadores facilmente os inferem e conseguem realizá-
los. Essa realização do desejo que se segue à produção da fala faria com que a
criança continuasse acreditando deter poderes mágicos. Ferenczi atribui a regressão
psíquica do paciente acometido pelos sintomas da neurose obsessiva ao Período de
pensamentos e palavras mágicas. Como comentamos, a tentativa de
compreender a onipotência tanto dos pensamentos como das palavras presentes
nos rituais e ações obsessivas foi um dos motivos que o incitou a realizar essa
investigação1. O triunfo do princípio de realidade, por sua vez, teria como
condição a dissolução da onipotência dos desejos e pensamentos em meras
condições, ou seja, teria como condição a percepção do determinismo. Essa
24

dissolução ocorreria gradualmente à medida que o indivíduo se deparasse com a


frustração decorrente da falha em suas tentativas onipotentes de alcançar a
satisfação CAROPRESO e NETO, 2021, p. 56).

Ferenczi ([1913] 1916) sustenta que o processo de transição do princípio do prazer


ao princípio de realidade apresenta diferentes estágios. Nos três primeiros –o estágio
da onipotência incondicional, o da onipotência alucinatória e o da onipotência com a
ajuda de gestos mágicos –a onipotência predominaria e não estaria presente a
distinção entre o eu e o mundo externo. Nos estágios seguintes do desenvolvimento
do eu –o estágio animista e o estágio dos pensamentos e palavras mágicas –,
a realidade começaria a se sobrepor à fantasia e a diferenciação entre o eu e a
realidade externa seria gradualmente construída, até que a criança ingressasse no
“estágio científico” de conhecimento do mundo, no qual a onipotência seria
finalmente abandonada ou, mais precisamente, estaria presente em seu menor
nível. O autor enfatiza que o processo de aquisição do sentido de realidade é
um processo longo impulsionado pela frustração e pela necessidade de adaptação.
Em seu texto de 1922, Spielrein argumenta que os três estágios do
desenvolvimento da linguagem verbal –o autístico, o mágico e o social –
correspondem à sequência do desenvolvimento do princípio de realidade, descrita por
Freud em Formulações sobre os dois princípios do acontecimento
psíquico(FREUD, [1911] 1998b). Os estágios autístico e mágico corresponderiam à
fase do princípio do prazer e o estágio social da linguagem corresponderia à etapa do
desenvolvimento psíquico em que o princípio de realidade predominaria. Com sua
teoria sobre os estágios do desenvolvimento do sentido de realidade, Ferenczi
especifica as características do processo de transição do princípio de prazer ao
princípio de realidade, descrito por Freud” (CAROPRESO e NETO, 2021, p. 61-62).

7. Mecanismos de defesa do mente

Para Freud, o ego está em constante tensão, o que está relacionado aos mecanismos
de defesa da mente humana, os quais, por sua vez, estão relacionados à forma como
a psicanálise explica a formação da mente. De acordo com a teoria psicanalítica, a
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mente humana é formada pelo consciente, pelo pré-consciente e pelo inconsciente.


Já o inconsciente, que é um dos focos do método psicanalítico, também é formado
por três elementos: o Id, o Ego e o Superego. De acordo com Freud, são eles que
determinam e coordenam o comportamento humano. Para entender porque o Ego
está em constante tensão, deve-se entender o que é o Id e o Superego. E como eles
funcionam e se relacionam (PSICANÁLISE CLÍNICA, 2017).

Os mecanismos de defesa são estratégias que o Ego cria para diminuir o medo. Ele
deforma a realidade, para que, assim, consiga excluir da consciência os conteúdos
indesejados. Dessa forma, os mecanismos de defesa satisfazem apenas de forma
parcial os desejos do Id. Não obstante, para o Id, uma satisfação parcial é melhor do
que nenhuma (PSICANÁLISE CLÍNICA, 2017). Assim, os principais mecanismos de
defesa da mente, descritos por Freud, são:

● Recalcamento, recalque ou repressão: o Recalque, repressão ou


recalcamento, em Psicanálise, nasce do conflito entre as exigências do Id e a
censura do Superego. Assim, é o mecanismo que impede que os impulsos que
causam ameaças, desejos, pensamentos e sentimentos dolorosos cheguem à
consciência. Através da Repressão, o histérico vai a fundo no inconsciente da
causa de seu distúrbio. Então, o acesso ao elemento recalcado é censurado.
Sua energia se sintomatiza, isto é, transforma-se em mal-estar, transferindo-se
para o próprio organismo as dores do inconsciente e transforma-as em sonhos
ou em algum sintoma da neurose. Os processos inconscientes se tornam
indiretamente conscientes através dos sonhos, neuroses e outros mecanismos.
Assim, o recalque é uma defesa para a dificuldade em aceitar ideias penosas.
Ou seja, é um processo que tem por objetivo proteger o indivíduo, mantendo
no inconsciente as ideias e representações das pulsões que afetariam o
equilíbrio psíquico. Além disso, o recalque é uma força contínua de pressão,
que baixa a energia psíquica do sujeito. Por isso, o recalque pode surgir na
forma de sintomas e o tratamento visa o reconhecimento do desejo recalcado.
O fim dos sintomas é consequência do processo da análise;
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● Negação: A negação (ou negativa, em algumas traduções) é um mecanismo


de defesa que nega a realidade exterior e a substitue por outra realidade que
não existe. Portanto, ela tem a capacidade de negar partes da realidade que
não são agradáveis, pela fantasia de satisfação dos desejos ou pelo
comportamento. Assim, a negação pode ser pontual (e ser uma neurose) ou se
tornar sistêmica e combinar uma sequência de negações para a criação de um
universo paralelo, que é uma condição essencial para o desencadeamento de
uma psicose;

● A regressão, em psicanálise e psicologia, é o recuo do ego, fugindo de


situações de conflitos atuais para o estágio anterior. Um exemplo é quando um
adulto volta a um modelo infantil, no qual se sentia mais feliz e mais protegido.
Assim, a infatilização é uma forma de regressão que protege o ego do encontro
com as dificuldades do mundo adulto;

● O deslocamento acontece quando os sentimentos e emoções (geralmente a


raiva) são projetados para longe da pessoa que é o alvo e, de forma geral, para
uma vítima mais inofensiva. ou seja, quando muda os sentimentos da sua fonte
provocadora de ansiedade original, para quem você percebe ser menos
provável de lhe causar mal;

● Projeção: O mecanismo de defesa da projeção é um tipo de defesa primitiva.


Assim, é caracterizada pelo processo no qual o sujeito expulsa de si e localiza
no outro ou em alguma coisa, qualidades, desejos, sentimentos que ele
desconhece ou recusa nele. Por isso, a projeção é muito vista na paranoia;
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● Isolamento: O isolamento é o mecanismo de defesa típico das neuroses


obsessivas. Ele atua de forma a isolar um pensamento ou comportamento,
fazendo com que as demais ligações com o conhecimento de si ou com outros
pensamentos fiquem interrompidos. Assim, os outros pensamentos e
comportamentos são excluídos da consciência.

● Sublimação: O conceito psicanalítico da sublimação só existe pelo fato de um


recalque o precede, ou seja, a sublimação é o processo através do qual a
libido se afasta do objeto da pulsão para outra espécie de satisfação. Isto é, o
sujeito transforma a energia da libido (desejo sexual, agressividade e
necessidade imediata de prazer) em trabalho ou arte, sem saber que o
faz. Com isso, o resultado da sublimação é a mudança da energia do objeto de
desejo para outras áreas, como realizações culturais ou produtivas, por
exemplo. A sublimação, para Freud, é um mecanismo de defesa muito positivo
para a vida em sociedade, pois grande parte dos artistas, dos grandes
cientistas, das grandes personalidades e dos grandes feitos só foram possíveis
graças a esse mecanismo de defesa. Isso porque, ao invés de manifestarem
seus instintos tais como eram, eles sublimaram os instintos egoístas e
transformaram essas forças em realizações sociais de grande valor. O
problema a sublimação não permite a realização nem de uma pequena parte
da satisfação do desejo e não gera ao sujeito a mesma gratificação, aí podemos
ter a origem de neuroses. Por exemplo, quando uma pessoa reprime sua libido
para um trabalho obsessivo;

● Formação reativa: Esse mecanismo de defesa ocorre quando o sujeito sente o


desejo de dizer ou fazer alguma coisa, mas faz o oposto. Assim, surge como
defesa de reações temidas e a pessoa procura cobrir algo inaceitável por meio
da adoção de uma posição oposta. Ademais, padrões extremos de formação
reativa são encontrados na paranoia e no Transtorno Obsessivo Compulsivo
(TOC), quando a pessoa se prende em um ciclo de repetição de
comportamento que ela sabe, a nível profundo, que é errado;
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● Racionalização: Quando falamos da Racionalização como defesa, não se trata


de uma crítica à razão e à lógica, pelo contrário. Trata-se de um recurso “pouco
racional”, em que o sujeito usa de argumentos lógicos, simplificações e
estereótipos para que o ego permaneça em sua situação atual de “conforto”.
Os limites de um mecanismo em relação a outro nem sempre são exatos e
estanques. Por exemplo, se você voltar ao mecanismo do isolamento, verá que
ele pode ser elaborado pela racionalização, quando isolamos um raciocínio de
outros e impedimos que este raciocínio seja problematizado ou questionado.
Por exemplo, ocorre a racionalização como mecanismo de defesa quando
listamos uma série de argumentos lógicos para criticar uma pessoa (estando
ou não o nosso raciocínio correto), para evitar compreender as causas
inconscientes que nos levam a isso. A racionalização funciona bem para a
nossa psique, porque quando estamos raciocinando acreditamos que estamos
corretos (PSICANÁLISE CLÍNICA, 2020, s.p.).

O psicanalista deve estar atento e preparado para perceber as manifestações dos


mecanismos de defesa do ego, que surgem da tensão entre o Id e o Superego.

8. Método de interpretação dos sonhos

Na Interpretação dos Sonhos, Freud introduz um elemento para a interpretação até


então inédito, ou seja, ele é o primeiro autor a considerar um elemento a mais para
fazer a análise da nossa vida onírica. Além do conteúdo manifesto do sonho – o que
contamos sobre o que acabamos de sonhar – Freud também leva em conta as
associações do próprio sonhador.

Temos, portanto, dois elementos:

1) o conteúdo manifesto – o que o sonhador conta, a narrativa do sonho tal qual o


sonho é lembrado ao acordar ou nos dias seguintes;
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2) o conteúdo latente – que é o significado do sonho, depois de analisado.

Para chegar ao conteúdo latente, o analista parte das associações individuais do


sonhador de cada parte do que sonhou. No capítulo II, Análise de um sonho modelo,
Freud escreve:

“Nosso primeiro passo no emprego desse método nos ensina que o que devemos tomar como objeto
de nossa atenção não é o sonho como um todo, mas partes separadas de seu conteúdo. Quando digo
ao paciente ainda novato: “Que é que lhe ocorre em relação a esse sonho?”, seu horizonte mental
costuma transformar-se num vazio. No entanto, se colocar diante dele o sonho fracionado, ele me dará
uma série de associações para cada fração, que poderiam ser descritas como os “pensamentos de
fundo” dessa parte específica do sonho”.

Cada elemento do sonho deve ser separado dos demais e para cada elemento
devemos buscar as associações individuais para os elementos, para as partes do
sonho. Por isso, o que contamos ao acordar, o conteúdo manifesto, praticamente
nunca vai trazer logo de início o significado subjacente do sonho. Existem sim sonhos
que são claros e até fáceis de entender, mas a maior parte vai precisar das
associações individuais para que se possa descobrir o significado real, por trás do
conteúdo manifesto (SOUZA, 2021).

Souza (2021, s.p.) demonstra um exemplo de Freud sobre a interpretação dos sonhos:
“Freud relata um sonho de uma paciente. No sonho, ela via o seu sobrinho morto, em
um caixão. A princípio, não podemos dizer nada sobre o significado do sonho, sem as
associações da sonhadora. Deste modo, Freud começa a pedir para que ela
associasse, dissesse o que cada elemento do sonho a fazia lembrar e pensar. E logo
chegaram ao sentido do sonho: realmente, há pouco tempo, um outro sobrinho seu
havia falecido e naquela ocasião uma pessoa por quem ela era apaixonada apareceu
no enterro. Com isto, o que o sonho mostrava é que ela desejava ver novamente a
pessoa por quem ela era apaixonada e que, por motivos alheios à sua vontade, não
conseguira estabelecer um relacionamento amoroso”.
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Portanto, entre o conteúdo manifesto e o conteúdo latente nós temos as associações:

Conteúdo manifesto: sobrinho morto em um caixão.

Associações:
Sobrinho: sobrinho morto (há pouco tempo). No enterro do sobrinho: presença do
homem por quem era apaixonada.

Conteúdo latente: desejo de reencontrar o homem por quem era apaixonada.


Importante: na perspectiva da psicanálise de Freud, portanto, a interpretação é
sempre individual. Cada pessoa é que vai associar aos elementos do que sonhou
outras representações. Esta paciente do Freud sonhou com caixão e pode associar a
presença de um pretendente. Outra pessoa poderia sonhar com caixão e lembrar do
avô, outra pessoa poderia sonhar com caixão e se lembrar do tempo em que trabalhou
em uma funerária, quer dizer, a associação de cada elemento de um sonho vai ser
sempre de cada um, vai ser sempre individual.

Imagem retirada da internet.


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Para Freud, o sonho constitui “uma realização (disfarçada) de um desejo (reprimido)”.


Possui um conteúdo manifesto, que é a experiência consciente durante o sono, e
ainda um conteúdo latente, considerado inconsciente. Este é composto por 3
elementos: as impressões sensoriais noturnas (por exemplo, a sensação de sede
durante o sono), os restos diurnos (registros dos acontecimentos da véspera) e as
pulsões do id (relacionadas a fantasias de natureza sexual ou agressiva). Esses
elementos do sonho latente tendem a fazer o indivíduo despertar. E, durante o sono,
em função da completa cessação da atividade motora voluntária, a repressão está
enfraquecida, o que aumenta a possibilidade de as pulsões terem acesso à
consciência. Todavia o sonho atua como “o guardião do sono” (CHENIAUX, 2006, p.
170).

“O conteúdo manifesto dos sonhos é aparentemente incompreensível porque consiste


numa versão distorcida do conteúdo latente. Essa distorção se dá, em primeiro lugar,
porque no sono há uma profunda regressão do funcionamento do ego, que faz com
que prevaleça o processo primário do pensamento. Este é caracterizado pelo
predomínio das imagens visuais (em detrimento da linguagem verbal) e pelos
mecanismos de condensação (fusão de duas ou mais representações) e de
deslocamento (substituição de uma representação por outra). Além disso, entre o
inconsciente e o consciente existiria uma instância censora, que deliberadamente
disfarçaria o conteúdo do sonho, para que o sonhador não reconheça sua origem
pulsional, proibida” (CHENIAUX, 2006, p. 170).

Em “A Interpretação dos Sonhos”, Freud argumenta que mesmo os pesadelos não


contradizem a formulação de que os sonhos são realizações de desejos. Segundo
ele, nesse caso, apesar da censura onírica, o conteúdo latente consegue chegar à
consciência pouco deformado e é reconhecido pelo ego. Este então reage produzindo
a ansiedade, com o objetivo de despertar o indivíduo. Freud cita ainda uma variante,
os sonhos de punição, nos quais o ego antecipa a culpa (pela realização do desejo
reprimido), e o conteúdo manifesto está representando uma fantasia de punição.
Seria, portanto, a realização de um desejo do superego, e não do id. Mais tarde,
porém, em “Além do Princípio do Prazer”, de 1920, o próprio Freud42 aponta uma
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importante exceção à sua formulação: os sonhos repetitivos que sucedem eventos


traumáticos e os que evocam traumas da infância não são realizações de desejos.
Tais sonhos, de acordo com ele, obedecem à compulsão à repetição, que seria algo
mais primitivo do que o princípio do prazer (e independente deste) e têm como função
a sujeição ou dominação das excitações relacionadas à recordação do trauma
(CHENIAUX, 2006, p. 170).
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Referências

CAROPRESO, Fátima; NETO, João. A transição do princípio do prazer ao de


realidade segundo Ferenczi e Spielrein. Rev. Filos., Aurora, Curitiba, v. 33, n. 58, p.
49-63, jan./abr. 2021.

CHENIAUX, Elie. Os sonhos: integrando as visões psicanalítica e neurocientífica.


Rev. Psiquiatr, RS maio/ago 2006;28(2):169-177.

GOLDBERG, Leonardo. Freud: uma introdução à clínica psicanalítica. São


Paulo: Edições 70, 2021.

GOMES, Gilberto. A Teoria Freudiana da Consciência. Psicologia: Teoria e Pesquisa


Mai-Ago 2003, Vol. 19 n. 2, pp. 117-125.

HÉLIO, Fadel. Id, Ego e Superego: entenda melhor esses conceitos. Minas Gerais,
2022.

POLI, Pedro. Você sabe o que é Id, Ego e Superego? São Paulo, 2019.

PSICANÁLISE CLÍNICA. Mecanismos de defesa da mente. 2017.

PSICANÁLISE CLÍNICA. Os 9 Mecanismos de Defesa na psicanálise. 2020.

SOUZA, Felipe. Como interpretar os sonhos – segundo Freud. São Paulo, 2021.

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