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SEMINÁRIO TEOLÓGICO INTERDIOCESANO DE SÃO PIO X – MAPUTO

Docente: Pe. Virgílio; Discente: Sebastião de Almeida, nº 28

Antropologia Teológica: A Doutrina Cristã da Criação

Introdução

O presente trabalho visa abordar de forma clara, sucinta e fundamentada, sobre a primeira
tese da Antropologia Teológica que trata da doutrina cristã da criação; a fé de Israel e da
Igreja primitiva; os pontos salientes do desenvolvimento doutrinal e os lineamentos
teológico-sistemáticos.

I. A DOUTRINA CRISTÃ DA CRIAÇÃO

Ao falar da doutrina cristã, referimo-nos dos princípios ou do conjunto dos princípios do


cristianismo no que diz respeito a Criação. Porém, não se trata dos princípios filosóficos ou
científicos, e sim doutrinais.

1.1. Definição do conceito: «Criação»

A palavra «criação» é um conceito justamente teológico de fé judaico-cristão e trata do


conjunto de todos os seres com o sinónimo de criaturas. De acordo com o número 51 do
Compêndio do Catecismo da Igreja Católica (C.C.I.C.), a criação é “o fundamento de todos
os divinos desígnios salvíficos, e manifesta o amor omnipotente e sapiente de Deus; é o
primeiro passo para a aliança do único Deus com o seu povo; é o início da história da
salvação que culmina em Cristo; é a primeira resposta às interrogações fundamentais do
homem acerca da própria origem e do próprio fim” (Cfr. CIC 279 – 289;315).

1.2. A Criação no contexto bíblico (na Bíblia)

A Bíblia explica que, Deus é o Criador e relação, e a sua presença na Criação envolve todos
os seres na rede criacional. O próprio Deus se revela como Criador (cf. Sl. 145,9) e, diz
também Papa João Paulo II, na Dives in misericórdia: «...Deus, o qual já enquanto Criador
vinculou-se com especial amor à sua criatura» (DM, 4).

1.2.1. Antigo Testamento

No Antigo Testamento, designa a acção criadora de Deus, colocando diversas palavras como
asâh que quer dizer «fazer» (Génesis 1,7,8,19); qnâh que significa «fundar, criar» (Génesis
14,19); yaçar que significa «modelar, formar» (Génesis 2,7,8; Jeremias 1,5) e o verbo
hebraico barã (criar), da tradição sacerdotal, para designar a criação de Deus. Ele significa a
criação não condicionada e livre de requisitos como marco histórico da natureza e do espírito.

1.2.1.1. A criação nas tradições bíblicas

O Antigo Testamento apresenta-nos duas narrações da criação: A primeira narração da


criação (Génesis 1,1-2,4a) é parte da tradição sacerdotal. “O povo, desterrado a Babilónia,
está cheio de desalento e, quando regressa a sua terra deve começar de novo”; A segunda
narração da criação (Génesis 2, 4b-25) pertence à tradição javista. Nesta narração, o homem
não é mais cimo, mas sim o centro da Criação. Por esta razão, se alude só simples e
brevemente a criação do mundo e, ao contrário a criação do homem se narra com grande
amplidão e plasticidade (Cfr. AA VV., Dios Padre, plano de formação sistemática do
Instituto de Teologia a Distância, Madrid, 1998, p. 28).

1.2.1.2. A Ideia da Criação

No Antigo Testamento, à luz da doxa «δοξα», se torna clara a Criação, mas não se trata da
ideia da Criação no sentido de uma prova lógica e de um ponto doutrinário, e sim, sob a
forma da narrativa de um facto. Portanto, o Antigo Testamento apresenta-nos duas
concepções sobre Deus que nos levam ao pensamento da Criação:

a) Primeira ideia: Deus, senhor absoluto: Da superioridade de Deus, a matéria lhe é obediente
sem resistência e coisa alguma lhe é impossível (Jeremias 32,17);

b) Segunda ideia: Deus é o Criador: aqui a omnipotência de Deus tem como última
consequência a sua actividade criadora, ou mais exactamente, a criação do nada. Então, no
que concerne a este facto da criação, observamos que a Criação é obra da omnipotência
divina, cuja grandeza ela proclama pela própria existência: “Ele criou o Céu e a Terra, os
homens e os animais da Terra pelo seu grande poder e com o seu braço estendido e os dá a
quem quer” (Cfr. Salmos 8; Jr 27,5).

1.2.2. O Novo Testamento

A concepção teocêntrica da Criação do Antigo Testamento continua válida no Novo


Testamento. Aqui, porém, com uma peculiaridade: a inserção de Cristo que nos remete a uma
visão cristocêntrica da criação. Nesta concepção cristã da criação, marca-se pela revelação da
salvação de Deus na história de Jesus Cristo: “o mistério da vontade de Deus e do seu
beneplácito é colocar tudo sob uma só cabeça, em Cristo” ( JOHANNES B. BAUER, dicionário
de teologia bíblica, vol. I, 4ª. Edição, Edições Loyola, São Paulo, 1988, p. 239).

II. A FÉ DE ISRAEL E DA IGREJA PRIMITIVA


No que tange ao termo fé, importa referir que ela, como dom de Deus é a resposta positiva ao
convite de Deus que se revela e revela o seu mistério. Convite este de estar em comunhão
com Ele e, portanto, adesão racional a verdades e adesão existencial que implica o abandono
total e entrada em comunhão (Cfr. GIORDANO FROSINI, Teologia Hoje, Editorial Perpétuo Socorro,
Porto, 2011, p.16).

2.1. A Fé de Israel

Israel interpretou a origem do mundo em função de sua própria origem como povo de Deus,
por meio de descrições orais que foram crescendo até formarem a unidade histórica, plano de
fundo para a sua narração. Tudo o que ocorreu desde a criação do mundo foi concatenado
pelas gerações que conduziram o fluxo dos acontecimentos até chegar a Abraão, fundando
suas raízes no limiar da história e do tempo. Todavia, ao longo de toda sua história, Israel
teve a experiência da presença e da acção salvadora de Iahweh, o seu Deus. Por meio da
eleição como povo da aliança, da libertação da escravidão do Egipto e da libertação do exílio
na Babilónia, e sua recondução à terra prometida, Israel descobre a Iahweh Deus sendo
Senhor da história e seu salvador. E a sua convicção no Deus libertador lhe leva à fé em Deus
Criador. Portanto, a fé de Israel não é identificada com os poderes cósmicos próprios, mas
com a história de um povo (Deuteronómio 26, 5-10) que é escolhido por Deus que o criou e é
o Criador do Céu e a Terra (Cfr. Génesis, 1). Nos textos de Juízes 4-5, Êxodo 15, 1-8,
verifica-se a consolidação do poder da fé em Iahweh.
2.2. A Fé da Igreja Primitiva

Na Igreja primitiva a criação está no quadro geral das manifestações do poder de Deus e, dos
actos de Deus Todo-Poderoso está em primeiro lugar a Criação como paradigma fundamental
das manifestações da omnipotência de Deus. A Igreja primitiva glorifica o Senhor como
aquele “que criou tudo, o céu, a terra, o mar e tudo que neles existe e pede ao Todo-Poderoso
continuar as acções na pregação do Evangelho” (Cfr. Actos 4,24-30). Na fé da Igreja
primitiva tem a adesão da acção criadora de Deus. Por isso, os Apóstolos crêem ser pelo
poder de Deus que eles faziam obras maravilhosas.

III. OS PONTOS SALIENTES DO DESENVOLVIMENTO DOUTRINAL


A doutrina da criação suscitou sempre grandes dificuldades e objecções no decurso do tempo
no âmbito do seu desenvolvimento. Foi negada a criação como obra de Deus. Nesta linha, os
Padres da Igreja consideravam a criação por Deus como acto de bondade gratuito, e o
domínio de Cristo e de sua mediação na história da salvação. Entretanto, para Clemente de
Roma, a criação do homem aparece como ponto culminante em ligação com a salvação por
Cristo. De acordo com Ladaria:

É precisamente a acção salvífica que abre o caminho para o significado cósmico


universal de Jesus. Se na morte e ressurreição Jesus reconciliou o mundo com o Pai,
ou, em outras palavras, o Pai reconciliou consigo o mundo em Cristo (cf. 2 Cor
5,19ss.), a primitiva comunidade cristã está convencida de que essa não pode ser uma
acção sem significado para todo o universo e toda a história (Cfr. LADARIA, p.40).

IV. OS LINEAMENTAS TEOLOGICO-SISTEMÁTICOS

Actualmente, a teologia na sua obrigação, apresenta-nos a criação no quadro dos escritos


neotestamentários, que também são a base dos ensinamentos do concílio Vaticano II.

4.1. A dimensão Trinitária da criação

No ponto de vista cristão, a criação do mundo é um acontecimento Trinitária: o Pai cria pelo
Filho e no Espírito santo. Durante muito tempo, a tradição teológica concebeu a criação como
obra do Pai, Senhor de sua criação (monoteísmo).

4.2. A criação contínua

A fé em Deus criador não inclui o acto da criação realizado de uma vez para sempre, pois se
assim fosse, uma vez o Universo criado, Deus não o acompanharia com as suas leis, não o
conservaria.

Considerações finais

Depois de uma abordagem sucinta entorno da doutrina cristã da criação, importa salientar
que em todos os períodos, ela criou uma problemática difícil de superá-la. São muitos que
lhes resulta problemático acreditar que tudo quanto existe é fruto da obra criadora de Deus,
tanto o mundo como o homem. Os progressos tecnológicos e científicos, que abordaram
extraindo muitos enigmas desconhecidos pela humanidade até hoje, parecem dar soluções a
algumas perguntas feitas pelo homem desde sempre e que sua resposta mais favorável se
confessa na fé cristã.

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