Você está na página 1de 7

Paradigmas de Investigação

 sábado, 24 novembro 2012


 
 Eduardo Soeiro
 
 MI1
 
 24575 Hits

Paradigma de investigação pode definir-se como um conjunto articulado de postulados, de


valores conhecidos, de teorias comuns e de regras que são aceites por todos os elementos de
uma comunidade científica num dado momento histórico. (Coutinho, 2011)

Ainda segundo a mesma autora, “Cumpre os propósitos de unificar os conceitos, pontos de


vista, a pertença a uma identidade comum e o de legitimar a investigação através de critérios
de validez e interpretação “(Coutinho, 2011, p.9).

Trata-se, portanto de uma visão geral, um modelo, ou como é apelidado por Creswell (2010),
uma “conceção filosófica”. Creswell (2010, citando Guba, 1990) diz ter optado por este termo
pois refere-se a “um conjunto de crenças básicas que guiam a ação”. Afirma que essas
conceções filosóficas estão presentes em toda a investigação mas, por vezes, existe a
intenção deliberada de as manter ocultas. Aconselha, por isso, a que se explicite claramente a
visão filosófica subjacente à investigação. O mesmo autor refere então que existem quatro
grandes conceções ou paradigmas associados à investigação, nomeadamente à investigação
em Ciências Sociais e Humanas: pós-positivista, construtivista, reivindicatória/participatória
(paradigma sociocrítico) e pragmatismo, esta última mais recente no tempo e que veio, de
alguma forma, amenizar os extremismos sobre o modelo a seguir.

De um modo geral, a visão pós-positivista está associada à forma tradicional de pesquisa


pois baseia-se em metodologias quantitativas de recolha e análise de dados. É uma visão que
se pretende objetiva, experimental, mesmo que adaptada à realidade social. O pesquisador
deve ser neutro, não interveniente, admitindo, no entanto, que o conhecimento nunca é
totalmente objetivo fruto da interpretação humana. Procura-se a explicação da causa através
da verificação empírica, baseando-se na ideia que toda a realidade pode ser mensurável.
Utiliza um método hipotético-indutivo em que a confirmação das hipóteses leva à
generalização dos casos particulares numa lei geral. Usher (1996, citado em Coutinho, 2011)
é um dos autores que critica este modelo uma vez que não é possível aplicar à realidade
social, que é aberta e indeterminada, um modelo que concebe o mundo como sendo
ordenado, previsível e sujeito a leis.

O paradigma construtivista apoia-se numa perspetiva qualitativa de recolha e análise de


dados, em que o pesquisador reconhece o seu próprio significado sobre a realidade e sobre
ela exerce influência, posicionando-se no seu interior. Ele dá significado à realidade que os
sujeitos em estudo apresentam, através do diálogo e interação com os participantes. Em vez
de começar com uma teoria, os investigadores desenvolvem um padrão de significado a partir
da interpretação que fazem da interação com o sujeito. Neste sentido, são utilizadas questões
abertas dando azo à interpretação das respostas.

O paradigma sociocrítico, ou conceção reivindicatória/participatória, é mais recente e


defende que a investigação deve servir propósitos políticos e sociais, através do debate e
discussão, de modo a lançar as bases para uma mudança social. Assume claramente que
nenhum pesquisador é neutro em termos ideológicos ou políticos. A investigação decorre com
os sujeitos que são envolvidos ativamente, participando na recolha e análise dos dados e,
inclusivamente, no rumo a seguir. Segue o método da investigação-ação, centrando-se,
essencialmente, em grupos ou indivíduos marginalizados pela sociedade, abordando questões
como a desigualdade, opressão, alienação.

Recentemente, surgem correntes que afirmam não fazer sentido esta divisão em paradigmas
pois a metodologia a seguir, nomeadamente na recolha e análise de dados, deve ser a que
melhor responde ao problema definido. O mundo não sendo uma realidade absoluta deve ser
compreendido à luz de diferentes métodos (métodos mistos). Nesse sentido, o pesquisador é
livre na escolha dos métodos, técnicas e procedimentos a seguir. Centra-se, também, na
aplicação do conhecimento ao real, nas soluções práticas para os problemas, tendo presente
que o contexto social, cultural, histórico e político devem ser considerados pois influenciam a
investigação. É o paradigma pragmático.

A definição clara de um paradigma ou conceção subjacente a uma investigação deve ser feita
de modo a entender perfeitamente as opções do investigador, nomeadamente no que se
refere a metodologias, métodos e técnicas. Koetting (1996, citado por Coutinho, 2004) refere
que “As metodologias carregam em si mesmas interesses que condicionam os resultados
procurados e encontrados, razão pela qual o investigador deverá procurar identificar os
interesses humanos que estão sempre por detrás das diferentes formas de investigar.”
(p.438). A mesma autora defende que ao conhecer o(s) paradigma(s) de investigação
possibilita tomar decisões fundamentadas, questionando assim os “porquês” das opções
metodológicas, fazendo assim uma viagem ao pensamento científico inerentes à prática de
investigação.

Referências:

Pedro, N. (s.d.). Paradigmas de Investigação. Texto de Apoio à Unidade Curricular de


Metodologias de Investigação I. Universidade de Lisboa
Creswell, J. (2010). Seleção de um projeto de pesquisa. In: Projeto de pesquisa. Métodos
qualitativo, quantitativo e misto. (pp. 27-35). (3ª Edição). Artmed Editora.
Coutinho, C. (2011). Paradigmas, Metodologias e Métodos de Investigação. In: Metodologias
de Investigação em Ciências Sociais e Humanas. (p.9-41).Lisboa. Almedina.
Coutinho, C. (2004). Quantitativo versus qualitativo: questões paradigmáticas na pesquisa
em avaliação. (p. 436-448) [On-line] Retirado de: http://hdl.handle.net/1822/6469

Paradigmas de investigação

No capítulo 1 do seu livro intitulado “O Estudo de caso na investigação em educação”, José


Carlos Morgado (2012) dissertou com algum afinco sobre uma das questões mais prementes
com que a investigação científica tem debruçado. A divergência de posições, com argumentos
pós e contra, tem fixado de forma rígida barreiras entre duas abordagens distintas: a
metodologia de investigação de natureza experimental e a metodologia de investigação de
natureza hermenêutica e fenomenológica.

De facto, a sobrevalorização da primeira abordagem marcou lugares e épocas, configurando-


se como “modelo global de racionalidade científica”, (Santos 1999, apud Morgado 2012,
p.11), tendo sido apoiada pelo princípio de que o “rigor científico é proporcional ao rigor da
medida” (Morgado 2012, p.12), ou seja, a quantificação dos dados é a condição sine qua non
para que qualquer investigação e consequente resultado sejam reconhecidos como sendo
científico. Para tanto, segundo Morgado (ibidem), “O controlo das variáveis e a medida dos
resultados, expressos preferencialmente de forma numérica, são preocupações sempre
presentes ao longo de todo o processo investigativo”. Um dos grandes princípios deste
modelo e que constituiu preocupação constante “é a necessidade de analisar as acções
humanas de forma objectiva e neutra”, ou seja, desvinculando os indivíduos do seu real
contexto em que realizam as suas vidas, examinando-os “como se de meros objectos se
tratasse” (ibidem). Observando que o homem é, em parte, fruto de sua realidade social, e, no
exercício de uma investigação que tem como sujeito e objecto de estudo seres humanos, não
estranhamos que tal modelo encontra-se em crise e, portanto, forçando o emergir de uma nova
ordem metodológica, onde “a analise das condições sociais, dos contextos culturais e dos
modelos organizacionais de investigação científica passam a ocupar um lugar central no
campo da reflexão epistemológica”. (idem, p.17)

Em boa verdade, podemos dizer que segundo Shulman (1989, apud Morgado, 2012, p.26)
“paradigmas não são teorias; são mais formas de pensar ou modelos para a investigação que,
quando se aplicam, podem conduzir ao desenvolvimento de teorias” e, no que se refere ao
campo do ensino, os investigadores tem-se desdobrado ora optando pelo modelo quantitativo,
ora pelo modelo qualitativo e ora mesclando-os, sujeitando-se às dicotomias que as mesmas
oferecem. Tanto é que, no dizer de Husén (1988 apud Moreira 2012, p.32), “ em face de um
dado problema educativo, se podem seguir rotas metodológicas distintas, desde que as opções
se revelem úteis e necessárias para a sua resolução, o que demonstra que que não devem
existir procedimentos de investigação que, a priori, sejam epistemologicamente
privilegiados”.
Referindo-se concretamente aos principais paradigmas em investigação educacional, e,
socorrendo do autor e da obra que vimos citando, podemos dizer que é possível identificar
três grandes paradigmas: o paradigma positivista, o paradigma interpretativo e o paradigma
crítico (Morreira, 2012, p.39).

1. O paradigma positivista

Apelidada também de paradigma racionalista, o paradigma positivista assume uma realidade


estável, muito objectivo e orientado basicamente para o resultado do ensino em termos de
eficácia, através de uma medição rigorosa e controlada. (Carmo e Ferreira, 1998, p.177)
Associada essencialmente á investigação experimental ou quase-experimental, a investigação
educativa conduzida sob os desígnios deste paradigma tem como propósito primeiro formular
leis gerais e encontrar um conjunto de proposições que traçam e impõem as acções
educativas. O modelo incita alguns riscos quanto á excessiva sobrevalorização do rigor
metodológico com grande relevância para a quantificação dos dados, ao contrapor
rigidamente e silenciando qualquer tentativa do despoletar de outras dimensões humanas, tais
como a realidade social e cultural dos indivíduos. Comportando uma visão particularmente
materialista da educação, os defensores deste modelo acreditam que se mais recursos forem
colocados à disposição da educação melhores resultados poderão ser alcançados. (Morreira,
2012, p.40)
2. Paradigma interpretativo

Comummente conhecido no meio académico como paradigma qualitativo, este paradigma


surgiu em face das profundas críticas feitas ao paradigma positivista e tem particular objectivo
a compreensão do comportamento humano a partir dos próprios pontos de vista daquele que
actua, através de uma observação naturalista e subjectivo. (Carmo e Ferreira, 1998, p.177)
Orientado para o processo mais de que para o resultado, seu interesse focaliza o estudo dos
significados e dos sentidos da interacção humana. No campo da educação, a investigação
procura compreender e interpretar os fenómenos educativos, socorrendo de recursos e
estratégias metodológicas de natureza qualitativa e interpretativa. Assumindo-se como uma
realidade dinâmica, considera-se que a compreensão da realidade tal com ela é vivida pelos
sujeitos, onde se pode trabalhar mais intensamente as características não directamente
observáveis pode proporcionar grandes resultados e melhorias significativas nas investigações
no campo educativo. (Morreira, 2012, p.41-42)

3. Paradigma crítico

Segundo Arnal et al. (1994 apud Morreira, 2012, p.42), este paradigma surge para
contrabalançar os dois paradigmas atrás descritas, criando um meio-termo, ou seja, “surgiu
como resposta ao reducionismo da tradição positivista e ao conservadorismo do paradigma
interpretativo”. Tendo em consideração que a ciência social não se rege somente á base do
empírico nem tão pouco somente á base do interpretativo, este paradigma “associa a ideologia
e a auto-reflexão crítica aos processos de construção de conhecimento” tentando, portanto,
conciliar “a interpretação empírica dos dados sociais com os contextos políticos e ideológicos
em que se geram as acções sociais”. (Sarmento, 2003, apud Morreira, 2012, p.42) Apesar da
sua grande semelhança com o paradigma interpretativo, os defensores deste paradigma não se
coíbem de somente descrever e compreender a realidade tal como ela é vivida pelos sujeitos,
tentando contudo também vivenciá-la com o claro propósito de transformá-la, para que
desperte a consciência crítica em cada individuo. (Moreira, 2012, p.42-43).

Referência:

Morgado, J. C. (2012). O Estudo de Caso na Investigação em Educação. Defacto: Santo Tirso


– Portugal.
Paradigmas de Investigação em Educação
METODOLOGIA DE INVESTIGAÇÃO EM EDUCAÇÃO/FORMAÇÃO 2008/2009
 
PARADIGMAS DE INVESTIGAÇÃO EM EDUCAÇÃO
 
Paradigma positivista Paradigma Interpretativo Perspectiva crítica
(quantitativo) (qualitativo)
Pressupostos básicos Pressupostos básicos Pressupostos básicos
A epistemologia positivista, para a - Segundo Bogdan & Bilken - Filosofia marxista
qual "Objectividade", "meios para (1994), teve origem no século - Nível crítico:
ser objectivo" são as palavras XIX;          - Adorno e
fortes, está na base deste - Ideologicamente: Habermas, Economia
paradigma. Segundo esta positivismo (Augusto Comte) liberal
epistemologia, o mundo é e empirismo (Locke e Stuart          - Marcuse,
objectivo, existe Mill); Alienação consumista
independentemente do sujeito e o - Ontologicamente, na opinião das
investigador deve ser o mais neutro de Guba (1990), este sociedades Capitalistas;
possível para não interferir na paradigma adopta uma - Nível pedagógico:
realidade. O mundo social é igual posição relativista (múltiplas           - Paulo Freire
ao mundo físico: importa conhecer realidades que existem sob a (pedagogia da
as relações causa-efeito. O seu forma de construções mentais libertação)
objectivo é prever, explicar e social e experiencialmente           - Anos 80-90,
controlar fenómenos. localizadas); movimento pedagógico
A epistemologia positivista levou - Valoriza o papel do de Michael Apple e
ao paradigma positivista da investigador/construtor do Henry Giroux nos
investigação que enfatiza: conhecimento (epistemologia Estados Unidos da
  o determinismo (há uma subjectivista); América (Gitlin, Siegel
realidade a ser conhecida) - Substitui as noções & Boru, 1993;
 a racionalidade (não podem científicas de explicação, Marques, 1999).
existir explicações previsão e controlo - Ideologia como forma
contraditórias) (paradigma positivista) pelas de construção do
 impessoalidade (procura a de compreensão, significado e conhecimento
objectividade e evita a acção; científico
subjectividade o mais - Saber é poder, e não
possível) - Sujeito (investigador) e algo puramente técnico
 irreflexivilidade (faz objecto (sujeito) da e instrumental;
depender a validade dos investigação têm a - Cada actor social vê o
resulatdos de uma correcta característica comum de mundo através da sua
alicação dos métodos serem, ao mesmo tempo, racionalidade 
esquecendo o processo de “intérpretes” e “construtores  
investigação em si). de sentidos” (Usher, 1996:19);
 Previsão ( capacidade de  
prever e controlar os
fenómenos)
 
Procedimentos Metodológicos Procedimentos Procedimentos
Metodológicos Metodológicos
A metodologia é de cariz - “Teoria Fundamentada” – - Desmascarar as
quantitativo e Construção de teorias que se ideologias que
adaptam a sustentam o status
baseia-se no método dedutivo.
problemas/situações muito social e intervir de
Os métodos de investigação específicas; forma activa para
próprios das ciências físicas são modificar essas
( procuram adaptar)adaptados às - Segue um quadro conciliável
situações;
ciências sociais. com as propostas positivistas e
Em primeiro lugar, o investigador pós-positivistas. - Desmascarar as
formula uma teoria. Dessa teoria ideologias que
- “Dupla Hermenêutica” – sustentam o status
surgem problemas e formulam-se Processo de dupla busca de
hipóteses que resultam num social restringindo o
sentido na qual investigador e acesso ao
conjunto de conceitos e variáveis a investigado interagem e cada
ela associado que não se alteram ao conhecimento aos
um por si molda e interpreta grupos sociais mais
longo da investigação. Segue-se a os comportamentos de acordo oprimidos;
recolha de dados que visa a com os seus esquemas sócio-
confirmação da teoria. O papel da - Intervir de forma
culturais; activa para modificar
teoria é fundamental e muitas - Busca dos significados;
vezes, o objectivo central da as situaçõos anteriores.
- Construção indutiva da -Semelhanças
investigação é simplesmente teoria; O investigador procura metodológicas com o
verificar a teoria. padrões, regularidades rumo à paradigma qualitativo;
No âmbito da investigação em teoria
educação, o estudo ocorre - Inclusão da
- Papel central assumido pelo componente ideológica
geralmente na sala de aula,
investigador, admitindo várias confere-lhe cariz
simulando situações laboratoriais.
vias metodológicas; interventivo;
- Desintegração Como
- Utilizam-se
nenhuma forma de
preferencialmente técnicas de
conhecimento pode ser
observação.
separada da linguagem,
  dos textos e discurso de
uma dada cultura, o
método tem por
objectivo proceder a
uma análise em que o
texto é decomposto em
busca de oposições
(antitexto).
 

Limitações Limitações Limitações


Este paradigma perde força quando “...mudou as regras mas não a Leitura dos fenómenos
aplicado às ciências sociais, pois natureza do jogo” (Mertens, condicionada pela
esbarra na impossibilidade de obter 1997:15). racionalidade
um conhecimento totalmente individual.
 
objectivo, uma vez que existe uma Visão anti-essencialista
interacção entre investigador e Conservador. (todo o conhecimento é
objecto.  contingente e
  perspectivado dentro
Não está, portanto, garantida a de uma dada prática da
neutralidade da investigação. O conhecimento resultante é
investigação)
parcial e perspectivado (…) e
 
Segundo Firestone (1990:112) a depende da Tradição.
realidade social não é única e é A linguagem utilizada
modelada por valores pessoais. A  
na investigação influi
investigação num dado paradigma Não inclui nos seus objectivos na produção do
constitui mais uma visão do explícitos a intenção de conhecimento, porque
problema. modificar o mundo rumo à é o reflexo de uma
liberdade, justiça e dada cultura e
  democracia.   condiciona a forma
  como os investigadores
  agem dentro dessa
cultura (Stronach &
MacLure,1997).

Você também pode gostar