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COPYRIGHT 2020 OLIVIA UVIPLAIS

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devida autorização prévia e expressa do autor conforme a Lei 9.610/98.
Esta obra literária é ficção. Qualquer nome, lugar, personagem e
situação são produtos da imaginação do autor. Qualquer semelhança com
pessoas e acontecimentos reais é mera coincidência.
Sumário
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 2
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
Capítulo 13
Capítulo 14
Capítulo 15
Capítulo 16
Capítulo 17
Capítulo 18
Capítulo 19
Capítulo 20
Capítulo 21
Capítulo 22
Capítulo 23
Capítulo 24
Capítulo 25
Capítulo 26
Capítulo 27
Capítulo 28
Capítulo 29
Capítulo 30
Capítulo 31
Capítulo 32
Capítulo 33
Capítulo 34
Capítulo 35
Epílogo
Agradecimentos
Redes sociais
Outras histórias
DIAGRAMAÇÃO – CAPA
JT Design de Capa
REVISÃO
Lidiane Mastello
Tenho muito a perder
Nunca estive tão indefeso
Você continua construindo suas cercas
Mas eu nunca estive tão indefeso

Defenceless – Louis Tomlinson


Esse livro é um spin off de Adorável Babá. São histórias independentes, mas
é recomendado que você leia, o link está AQUI.
Capítulo 1

— Os relatórios estão atrasados, senhorita Webber — o senhor


Gostosão-Destruidor-de-Mundos ladrou quando saiu do elevador.
Nada de "bom dia", nada de "como vai?" ou "como foi o final de
semana que você passou trabalhando, por que eu solicitei relatórios na
sexta-feira?". Apenas o seu habitual mau humor. Mordi meu lábio inferior e
o olhei atravessar em direção à sua sala, como se desfilasse numa passarela.
Alex Wright. Meu pesadelo em forma de chefe. Meu pesadelo que
parecia um modelo.
Seria bem mais fácil para mim se ele fosse um velho esquelético e
ranzinza saindo do quarto casamento com uma modelo na casa dos vinte, no
entanto, nada nele era fácil para mim. A pele levemente bronzeada, o cabelo
sempre desarrumado de maneira estilosa e o blazer preto que fazia os olhos
verdes dele praticamente brilharem, me impediam de amaldiçoá-lo
explicitamente. E, também o fato de que ele pagava meu salário.
— Estará na sua mesa às nove, senhor Wright — respondi e ele não se
deu o trabalho de me olhar, estendeu a mão em direção à minha mesa e eu
entreguei seu café expresso duplo. Revirei os olhos, sabendo que ele nunca
estaria olhando em minha direção.
Afinal de contas, não bastava eu trabalhar no fim de semana, eu tinha
que acordar vinte minutos mais cedo e passar no Starbucks para pegar o café
da madame. Secretamente desejei que o barista tivesse cuspido no expresso.
— Às nove não é bom o suficiente, senhorita Webber — disse,
unicamente antes de fechar a porta.
— Bom dia, senhorita Webber. Fico agradecido que você gastou o seu
final de semana, que poderia ter sido aproveitado com sua melhor amiga e
seus afilhados, trabalhando na merda desses relatórios. Obrigada por ser tão
competente e, a propósito, você cortou o cabelo? — resmunguei meu
monólogo dos sonhos, olhando para a porta de madeira escura.
Apesar do meu patrão, trabalhar na Wright Company, era um sonho
que havia se tornado realidade. Sempre quis estar no ramo literário e eu
aprendia mais a cada dia. O salário era bom, muitos originais realmente
interessantes passavam pelas minhas mãos e eu tinha a oportunidade de
aperfeiçoar a minha escrita. Não trocaria aquele trabalho por nada, mas
seguramente trocaria Alex Wright por qualquer coisa.
Ele não era um chefe abusivo, eu tinha que admitir. Eu ganhava
bonificações gordas pelos finais de semana e tinha descoberto com Kelly, do
financeiro, que o aumento de trezentos dólares na minha folha de pagamento
tinha sido pelos cafés. Mas ele era enervante. Havia algo sempre superior e
inacessível ao redor dele, algo irritante, arrogante, mandão e dominador que
me fazia querer jogar o grampeador em sua direção.
Comecei a digitar no computador moderno passando os últimos dados
dos lançamentos dos livros do mês passado para a planilha. Era
impressionante, toda vez que eu tinha que checar aqueles dados eu ficava
embasbacada. Sob a chefia de Alex, a Wright Company tinha saído da quase
falência para o primeiro lugar de vendas em apenas dois anos de sua direção.
E naquele mês, o faturamento tinha aumentado em 10%, uma média
impressionante considerando o tempo de crise no mercado.
“O bastardo é feroz”. Mordi meus lábios para meus próprios
pensamentos. Eu não precisava de adjetivos como "feroz" para pensar no meu
chefe idiota.
"Feroz, dominador, rasgando minha blusa de seda…" Pigarreei
sozinha.
E ainda tinha aquilo.
Alex não era somente um mandão inveterado. Ele era maravilhoso.
As secretárias, agentes literárias e todos que tinham pelo menos um pouco de
atração por homens em um raio de 20km sabiam daquilo. O apelido tinha se
espalhado. Senhor Gostosão. Nos bebedores, nos corredores, nas cabines dos
banheiros, todos os cochichos eram sobre a forma física invejável do senhor
Wright.
Bebi um gole da minha água. Ele era bonito e eu às vezes me pegava
usando o apelido, mas no fundo eu sabia que meu descontentamento por ele
era muito maior do que um rosto anguloso, músculos proporcionais e aquele
olhar penetrante. Ou pelo menos era disso que eu tentava me convencer.
Enquanto eu pensava nos atributos físicos de Alex, o telefone soou
me despertando das minhas ilusões.
— Sara Webber, do escritório do senhor Alex Wright, da Wright
Company — saudei com a mensagem decorada.
— Oi querida, sou Marge Wright, mãe de Alex. Gostaria de falar com
o meu filho. — A voz doce chamou e eu e eu vasculhei na minha agenda.
Escrito em vermelho e sublinhado várias vezes estava o lembrete "sempre
atender Marge Wright independente de qualquer coisa".
— Bom dia, senhora Wright — cumprimentei, usando a minha voz
mais amável sabendo que qualquer reclamação em minha direção por parte
da mãe de Alex custaria meu emprego. — Vou passar sua ligação.
— Obrigada, querida. — A forma suave como ela me chamou me fez
sorrir. Aparentemente a má educação era coisa exclusiva de Alex.
Apertei a tecla que colocava a mãe de Alex em espera e liguei para a
sala dele, enrolando ansiosamente meus dedos no fio do telefone sabendo que
ele detestava atender ligações.
— Diga — a voz grossa falou impaciente e eu suspirei
silenciosamente.
— Sua mãe no telefone, senhor Wright — falei e ele suspirou. Ergui
uma sobrancelha, curiosa demais para ficar apática. Ele sempre atendia
prontamente os telefonemas da mãe, tinha saído de reuniões para o fazer, mas
por que agora parecia cansado? Curiosidade ardeu em mim.
— Passe — ele comandou e eu o fiz.
Tirei o chocolate da minha gaveta dos sonhos e mastiguei um
quadradinho do doce branco que derretia minha boca. Eu sabia que era cedo
ainda, mas o que eu podia fazer? Curiosidade me corroía e tudo era motivo
para comer um chocolate.
Passei a digitar analisando cuidadosamente os resultados finais, eu
podia confiar nos computadores para calcular, mas tinha que sempre checar
meu próprio trabalho. Eu era um pouco obcecada com isso, a sensação de
saber que tudo estava impecável. Uma workholic, Aurora, minha melhor
amiga, iria dizer, mas nos últimos empregos não tinha sido assim. Mesmo
quando eu trabalhava para Ethan, que era noivo de Aurora, eu não tinha toda
aquela ferocidade em fazer o meu trabalho. Eu não gostaria de admitir, mas
Alex me instigava a fazer aquilo.
O telefone tocou novamente me tirando de meus devaneios. O ramal
da sala de Alex brilhou e eu franzi o cenho.
— Senhor Wright — cumprimentei e ele ficou mudo. Franzi o
cenho. — Senhor... — chamei novamente e ele pareceu engolir do outro lado
da linha.
Aquilo era estranho, ele não falava comigo pelo telefone a não ser que
fosse excepcionalmente necessário como... Eu não tinha uma situação para
comparar.
— Senhorita Webber... você pode... venha até a minha sala... por
favor. — Por favor. Aquelas duas palavras me surpreenderam. Alex não era
exatamente o que podíamos chamar de educado.
Merda, eu estava sendo demitida.
Meus ombros arriaram. Ele me chamaria e diria que tinha adorado
trabalhar comigo (mentira), que esperava que eu fosse feliz (mentira) e que
eu poderia passar no RH para pegar os meus direitos. Na verdade, era mais
provável que ele fizesse como no O Aprendiz e quando eu chegasse na porta
dissesse apenas "demitida".
— Senhorita Webber? — ele chamou agoniado e eu pisquei algumas
vezes.
— Estou indo, senhor Wright — murmurei triste.
Olhei ao redor da minha mesa. Adeus clipes de papel em formato de
coração, adeus canetas em gel de alta pigmentação, adeus cadeira
confortável que deixa minha bunda das nuvens, adeus elevador que me dá
uma visão do Gostosão, adeus chamá-lo de Gostosão. Comecei a me
despedir das coisas ao meu redor sabendo que, apesar de tudo, aquele era o
melhor emprego que eu tinha tido.
Caminhei devagar até a porta de madeira escura e moderna,
protelando a minha demissão. Mas ela se abriu em um solavanco e a
expressão desesperada de Alex me saudou. O olhei assustada e fiquei ainda
mais em choque quando ele agarrou meu pulso sem aplicar muita força e me
puxou para sua sala, fechando rapidamente a porta atrás de mim.
— Senhorita Webber eu preciso da sua ajuda — ele me implorou. Os
olhos verdes faiscando em minha direção.
O que estava acontecendo?
Capítulo 2

— Querido — minha mãe me cumprimentou pelo telefone e eu me


encolhi. Se alguns dos meus investidores me vissem naquela cena eles ririam.
Lá estava eu, o CEO da Wright Company, quem colocava as linhas no
mercado literário americano me encolhendo sob as palavras suaves de uma
senhorinha cujo passatempo era mergulho com seu grupo da terceira
idade. — Mamãe está na cidade — ela cantarolou.
— O quê? — Me levantei em um solavanco, olhos
arregalados. Merda, merda, merda, merda. — Quer dizer... isso é ótimo,
mãe! — Comecei a olhar de um lado para o outro, esperando a resposta
aparecer diante dos meus olhos.
— Você sabe, vou para Seattle para o casamento da Jane e depois tem
a minha viagem para o Havaí — ela disse alegre e eu me joguei de volta na
cadeira. — Pensei em passar os quinze dias antes do casamento com você e
sua namorada misteriosa. — Ela riu e eu quase soltei o telefone.
— Ela adoraria, eu adoraria — respondi mecanicamente, me enfiando
ainda mais na mentira. Fechei meus olhos e apertei a ponte do meu nariz.
— Que bom, gatinho. — ela falou amável, usando meu apelido de
infância e eu bati minha mão contra minha testa. — Para ser bem sincera
estou a caminho da empresa, porque pensei em eu, você e a garota tomarmos
café da manhã juntos. Se não for incomodar é claro... seu pai adorava tomar
café comigo durante o expediente da empresa — ela murmurou nostálgica e
eu senti meus ombros arriarem.
Eu sabia que teria que enfrentar minha mãe. Dizer que quando ela
ligou mês passado em desespero pensando que eu estava solitário eu havia
entrado em pânico e inventado uma namorada, me desculpar por mentir e
implorar seu perdão.
Tinha sido uma ideia idiota, uma ideia imprudente, uma mentira
deslavada. Mas ainda assim, mesmo com toda culpa e o desespero da
situação eu sabia que se tivesse que fazer de novo eu faria.
A morte do meu pai há três anos, tinha sido uma dor muito grande
para nós dois, eu pensei em desistir da empresa e voltar para Port Angeles
para ficar ao lado dela, mas minha mãe foi valente e passou seu período de
luto sozinha seguindo sua vida da maneira mais corajosa que conseguia. E
então o câncer.
Seis meses depois de perder o papai ela descobriu um câncer de
mama e foram dias longos e dolorosos, eu me revezei entre colocar a Wright
Company no topo e fazer com que minha mãe tivesse todo o apoio e calmaria
que precisasse.
No meio de tudo isso o término do meu relacionamento.
Lauren, minha namorada na época tinha terminado comigo, me traído.
Na cama com meu melhor amigo. Minha mãe, pesando vinte quilos a menos
e mal se aguentando de pé, quase surtou pelo meu coração quebrado. Por
alguns meses eu tinha conseguido contornar sua obsessão por minha vida
amorosa, mas minha esquiva tinha acabado. E para tentar fazer com que ela
ficasse melhor, eu havia inventado uma mulher.
Minha mãe superou toda a situação e estava há dois meses em
remissão, sem nenhum novo sintoma e florescendo novamente para sua
própria vida. Florescendo para minha vida também.
Ela se sentia culpada. Eu conhecia Marge Wright o suficiente para
saber que ela se considerava a raiz da minha solteirice, pensava que o tempo
que eu dediquei a ela era o motivo pelo qual eu não tinha uma namorada e
num movimento desesperado.
Eu sabia que devia ter sido verdadeiro. "Mãe, eu estou bem passando minhas
noites sozinho e fodendo mulheres bonitas e desconhecidas nos finais de
semana", mas isso lhe causaria uma aneurisma, eu sabia.
— Filho? — ela chamou e eu percebi que estava há alguns segundos
em silêncio.
— Também sinto falta de tomar café da manhã com o papai, mãe —
respondi em um suspiro e ouvi uma lamúria baixa do outro lado da linha.
Respirei fundo. Eu daria um jeito. Nem que tivesse que contratar uma atriz,
ou então pedir... Merda! Eu tinha uma opção.
— Mãe, nos vemos já, preciso desligar — falei apressado e ela soltou
uma risada.
— Um workholic sobre essa empresa igualzinho ao pai. — Ela riu
divertida. — Até mais então, querido.
O telefone ficou mudo, mas eu continuei o segurando, em choque
pelo plano que eu tinha tido. Mas aquela era a única maneira. Com minha
mãe há minutos da empresa só havia uma pessoa próxima o suficiente para
aquela maluquice.
Sara Webber.
Minha secretária sempre sorridente, solícita e o pior:
desesperadoramente atraente, era a única mulher num raio de quilômetros que
eu poderia minimamente confiar para aquela missão. Puxei meus cabelos de
forma cansada, não acreditando no que estava prestes a fazer.
Eu era fodidamente atraído por minha secretária, mas isso não era
muito impressionante, ela era linda. Os cabelos loiros caindo em ondas
suaves pelos seus ombros, a pele branca e macia, os lábios vermelhos e
cheios que pareciam me chamar em sua direção.
Eu era rigoroso com minhas relações de trabalho, mantinha tudo o
mais profissional o possível e com a loira sentada do lado de fora daquele
escritório eu tinha que reforçar o muro ao meu redor. Nunca avançaria em sua
direção, aquele era um ambiente seguro de trabalho e eu não era um maldito
assediador pervertido, mas eu sabia que qualquer indicação de uma relação
pessoal entre nós dois seria o suficiente para fazer com que eu perdesse
minha cabeça.
Eu queria minha secretária e esse era o motivo pelo qual eu tinha que
mantê-la longe e, mesmo assim, mesmo com todo esse afastamento, eu estava
prestes a fazer o impensável. Eu pediria para que ela fingisse ser minha
namorada pelos próximos quinze dias.
Aquela seria minha ruína.
Respirei fundo e digitei o ramal de seu telefone. Um toque e ela
atendeu.
— Senhor Wright — ela respondeu com sua voz suave e sempre
solícita. Pense em outra coisa, pense em outra coisa, pense em outra coisa.
Tentei comandar a minha mente, mas não tinha opções — Senhor... — Sara
repetiu e eu engoli seco.
Seria um desastre.
— Senhorita Webber... você pode... venha até a minha sala... por
favor. — Minha voz soou desesperada. Ela ficou em silêncio. O tempo estava
correndo. — Senhorita Webber? — chamei novamente.
Minha mãe estava a caminho da empresa, eu tinha cerca de dez
minutos para convencer a minha secretária a fingir ser minha namorada, a
não me processar por assédio sexual e combinar uma história para que minha
mãe não ficasse ainda mais preocupada.
— Eu estou indo, senhor Wright — ela murmurou desanimada. Franzi
o cenho. O que estava acontecendo?
Coloquei o telefone no gancho e me levantei. "Senhorita Webber,
preciso que você finja ser... preciso que você haja como se fosse...", tentei
organizar os pensamentos na minha cabeça, mas tudo parecia maluquice, não
importava o quanto eu fosse gentil na escolha das palavras.
Eu teria que oferecer algo em troca.
Eu sabia que ela trabalhava na Wright Company, porque tinha uma
paixão enorme pelos livros. Eu podia ver em suas apresentações durante as
exposições de dados que ela fazia nas reuniões, não apenas cumprimento do
trabalho, era gosto pelo que fazia. Também tinha ouvido em conversas de
corredores que ela tinha seu próprio livro engavetado. Praticamente todos ali
tinha.
Um contrato. Eu poderia dar um contrato a Sara Webber.
A decisão pareceu certa na minha cabeça. Era aquilo! Eu iria dar um
contrato de publicação para ela.
Abri a porta impaciente e vi ela aparecer de ombros arriados e com
um biquinho triste nos lábios. Não tínhamos tempo.
Agarrei suavemente seu pulso e a trouxe para dentro da sala.
— Senhorita Webber, eu tenho uma proposta para você — falei e ela
arregalou os olhos parecendo descrente.
— O que você... — ela começou a perguntar, perdendo até mesmo o
tom sempre educado e o "senhor" que ela sempre mantinha para se referir a
mim.
— Preciso de um favor seu — disse fechando a porta atrás dela e me
afastei. Tudo que eu menos precisava era que ela achasse que se tratava de
uma proposta indecente e saísse gritando e correndo em direção ao RH.
— Um favor.... — Sara repetiu intrigada.
— Vamos dizer que... É um favor pessoal. — Ela ergueu uma
sobrancelha e cruzou os braços. — Você obviamente pode optar por não o
fazer e nada disso vai afetar seu trabalho, sua remuneração, mas eu estou...
pedindo fortemente para que considere.
— Do que se trata? — questionou curiosa.
— Você acabou de atender minha mãe ao telefone, certo? — Sara
balançou a cabeça positivamente. — Ela está vindo para a cidade e eu posso
ter... eu posso ter insinuado, insinuado não, confirmado, que estou em um
relacionamento estável com uma mulher — falei cuidadosamente, mas ela
continuou confusa. — No entanto, eu não estou em um relacionamento de
longa data com uma mulher, senhorita Webber. — Sara abriu a boca em
choque provavelmente entendendo. Me encolhi esperando a gritaria e corrida
em direção ao RH
— Você é gay? — ela praticamente guinchou e eu a olhei
boquiaberto. — Quer dizer: não tem problema é claro, meu Deus, como eu
estou sendo preconceituosa! Claro que não é um problema... olha, eu tenho
alguns amigos que saíram do armário, eles podem...
— Eu. Não. Sou. Gay. Senhorita. Webber — falei pausadamente,
irritado por ter que explicar o óbvio para Sara e ela piscou algumas vezes
confusa, mas em seguida conteve um sorrisinho. — O que acontece é que eu
não tenho uma namorada no momento, e não posso desmentir toda a história
para minha mãe, estou pedindo, implorando, para que você finja ser a minha
namorada.
Seus olhos se arregalaram e ela tomou uma respiração funda.
— Fingir ser sua namorada, porque ela está vindo... — Ela tentou
organizar os pensamentos e eu me encolhi.
— Durante os quinze dias que ela vai passar na cidade — murmurei.
Ela me olhou chocada novamente. Aparentemente aquela confusão
toda era muito mais do que o cérebro da senhorita Webber podia aguentar.
— Você pode negar, isso não vai significar qualquer mudança em seu
trabalho ou na forma como eu enxergo sua posição nessa empresa. — Ela
continuou meditativa. — Mas se você o fizer, e eu estou pedindo fortemente
que você o faça, posso te conseguir uma audiência para o livro engavetado
que você tem. — Os olhos dela brilharam em minha direção.
— O quê?
— Essa é a minha oferta: você finge ser a minha namorada por quinze
dias e em troca eu te consigo um contrato de publicação com tudo que você
tem direito.
Ela continuou calada, olhando para as próprias mãos, parecendo
pensativa, eu podia ver o conflito em seus olhos. Sara Webber era alguém
focada em seu trabalho, aquele era o tipo de dilema ético que sua postura
correta não podia suportar. Mas eu sabia que ela tinha talento. Sara tinha um
bom faro para escrita, os manuscritos que passavam por sua mão e chegavam
até a minha sempre eram um sucesso, ela tinha um olhar apurado e talento
nato. Ela merecia aquele contrato, eu estava apenas encurtando o caminho
para ela.
— Senhor Wright, eu não acho que eu possa... — ela começou a
dizer, a batalha interna parecendo ser travada dentro dela.
— Querido! — a voz da minha mãe chamou e a porta se abriu. Sara e
eu ficamos imediatamente imóveis olhando assustados um para o outro. O
tempo tinha acabado. — A secretária não está... Ah, aí está você! — ela
disse.
Sara se virou para minha mãe e choque tomou seu rosto quando ela a
viu. Minha secretária rapidamente se recompôs e deu um sorriso educado,
mas seus olhos ainda estavam focados no lenço de seda no lugar onde
deveriam estar os cabelos da minha mãe, que a quimioterapia tinha levado.
— Não sabia que estava ocupado, filho. Posso voltar depois... —
minha mãe propôs educadamente.
— Não! Não precisa, senhora Wright — Sara falou parecendo
culpada. — Eu já estava de saída.
— Não tem problema, querida. — Minha mãe sorriu calorosa para
ela. — Me chame de Marge. — Ela estendeu a mão em um cumprimento em
direção a Sara que tomou uma respiração profunda antes de retribuir.
— Sou Sara Webber, é um prazer conhecer a senhora — ela falou as
palavras devagar e em seguida olhou para mim parecendo assustada, mas deu
um pequeno balanço positivo de cabeça em minha direção. — Eu sou a
namorada do Alex.
Capítulo 3

Eu assisti os olhos da mulher a minha frente se iluminarem e um


sorriso crescer em seu rosto. Meu coração se quebrou. Eu estava mentindo
para ela, seu filho estava mentindo para ela. Mas quando eu a vi... eu não
sabia exatamente o que tinha pensado. Eu já tinha decidido não aceitar.
E então Marge chegou.
Ela claramente tinha passado por um processo de quimioterapia, a
pele pálida, o lenço ao redor do lugar onde os cabelos deveriam estar. Fui
incapaz de não lembrar do meu pai, a dor em meu peito apunhalou ainda
mais. O corajoso Carl Webber tinha perdido a luta para a leucemia há dois
anos.
Quando eu vi Marge eu tinha podido ouvir a voz cansada de meu pai
na última vez que eu o tinha visto "encontre alguém para ficar ao seu lado
como sua mãe ficou ao meu, amar e ser amada é tudo que eu te peço,
pequena". Marge queria isso para seu filho, queria ter a certeza de que ele
tinha alguém. Eu não podia dar aquilo ao meu pai, mas Marge ainda tinha
essa chance, de ver seu filho com alguém, mesmo que fosse apenas de
mentirinha. Foi uma escolha fácil.
— Então você é a namorada misteriosa! — Ela riu, unindo as mãos
em alegria, retribui com um sorriso envergonhado.
Alex passou o braço ao redor da minha cintura, numa demonstração
para Marge que sorriu ainda mais largamente. Contive a sensação de
estremecimento em minha coluna. Aquela definitivamente era uma cena
estranha, eu só podia imaginar Alex tocando em mim em meus sonhos mais
molhados. Mas diferente de todas as minhas ilusões, não havia ele
derrubando todos os papéis de sua mesa e me jogando sobre ela, havia uma
mãe orgulhosa na sala e uma sensação estranha de que eu havia entrado na
maior furada da minha vida.
— Eu sou a secretária no final das contas — intervi, quando, Alex,
parecia não saber o que responder. — Não é um relacionamento público,
achamos melhor manter em segredo porque... você sabe, a relação patrão
funcionário. — Eu inventei meio desesperada e ele balançou a cabeça
positivamente em um solavanco.
— Sei que você nunca contaria para ninguém, mãe, mas era melhor
manter isso em segredo quando estávamos começando — Alex refinou minha
desculpa esfarrapada e a mãe dele crispou os lábios de maneira divertida.
— E agora os pombinhos mal podem esconder que estão
apaixonados — ela constatou e eu arregalei os olhos no meio do meu sorriso
educado. Não era aquilo que tínhamos dito. — Fico feliz que estejam prontos
para enfrentar o mundo juntos agora. Você é linda, Sara, tem com certeza a
minha benção e quem olhar para vocês e não ver o amor transpirando está
cego.
Eu me mantive em um silêncio chocado. Amor transpirando? Eu
tinha prometido para mim mesma que jogaria um grampeador na direção,
como eu podia parecer apaixonada? Bem, aparentemente seria mais fácil
enganar Marge do que tínhamos pensado, ela via nós dois, travados ao redor
um do outro, e pensava que estávamos perdidamente apaixonados.
— Eu sugeri para Alex que tomássemos café juntos, o que acha Sara?
Eu vim de Port Angeles essa manhã e ainda não tomei meu café, eu poderia
devorar quinze bolinhos. — Ela riu e o filho dela endureceu ao meu lado.
— A senhora não pode ficar sem comer. — As palavras escaparam da
minha boca, antes que meu suposto namorado pudesse repreender a própria
mãe.
Ela me lançou um olhar doce.
— Não se preocupe, querida, isso aqui não é nada. — Ela apontou
para o lenço em sua cabeça. — E eu poderia ficar dias sem comer se isso
significasse comer as rosquinhas de canela daquela cafeteria aqui perto.
— Me desculpe por me intrometer — falei verdadeira. — Meu pai
também conseguia passar muito tempo sem comer e depois devorar uma
pizza inteira, acho que é efeito da quimioterapia — tentei me explicar.
— Seu pai teve câncer, querida? — Marge questionou educadamente
e eu me encolhi. Ótimo, eu estava prestes a falar do meu pai morto por câncer
para uma mulher viva por câncer.
— Sim, leucemia... — Torci meus dedos em minhas mãos e mordi
meu lábio lhe lançando um olhar de desculpas. — Ele faleceu há dois anos.
— Oh, querida, eu sinto muito! — ela disse penalizada e para minha
surpresa o braço de Alex se apertou ao meu redor, como se ele estivesse me
dando um abraço reconfortante, fiquei levemente assombrada ao perceber que
seu toque realmente trouxe algum acalento. Ergui meus olhos e lhe lancei um
pequeno sorriso de agradecimento, ele retribuiu parecendo culpado.
— Podemos tomar café, se eu não for incomodar é claro — eu propus
a contragosto. "Que eu incomode, que eu incomode, que eu incomode", orei
mentalmente.
— Nunca incomodaria! — ela disse feliz, juntando aos mãos
novamente. Parecia o tempo todo que Marge estava prestes a aplaudir nosso
relacionamento falso. — Podemos ir então? — ela chamou, dando um passo
para o lado indicando a porta.
Eu devia ter me desculpado naquele momento. Dizer que sentia muito
e que não queria enganá-la e que provavelmente nem mesmo Alex queria
passá-la para trás, mas não podia fazer aquilo. Ao invés disso quando Alex
pegou a minha mão eu retribuí e me deixei ser conduzida em direção a saída.

No caminho da cafeteria eu me mantive silenciosa no banco de trás do


carro, enquanto Alex e Marge colocavam o assunto em dia. Eles
conversavam animados sobre algum assunto que eu não entendia, envolvendo
fofocas da família e eles estavam dedicados a contar cada detalhe. Tentei me
animar com aquilo, talvez fosse mais fácil do que eu tinha imaginado, Marge
provavelmente iria querer a atenção exclusiva do filho e somente do filho,
nada de uma namorada desconhecida aparecendo sempre.
Me reclinei no banco deixando o couro macio me abraçar. Seria
tranquilo. Durante os quinze dias eu poderia aparecer para um almoço ou
dois, Alex podia confessar para a mãe que na verdade, estava cansado de
mim e deixar que ela partisse com a ideia de que estávamos por um fio.
— Sabe, Sara, você iria adorar a minha irmã Brenda — Marge disse,
me tirando de meus devaneios se esticando para me ver do retrovisor. —
Talvez vocês se conheçam no casamento! Ela disse que se tivesse um voo
durante o dia ela com certeza viria.
— Mãe, eu te disse que não vou ao casamento — Alex falou
inflexível e eu contive um sorriso, se ele pensava que podia convencer a mãe
dele daquilo estava muito enganado. Meu sorriso desmoronou quando eu
percebi o que ir ao casamento significava.
— É a ocasião perfeita para apresentar Sara para todo mundo. Brenda
precisa ver que não é só a filha dela que tem uma namorada bonita e bem
sucedida. — Eu abri a boca, mas nenhuma palavra saiu dela.
Convencer uma mãe doce e adorável que eu era a namorada de seu
filho era uma coisa terrível diga-se de passagem, mas tentar fazer com que
toda uma família de velhinhas adoráveis pensassem que Alex e eu éramos um
casal era outra completamente diferente.
— Você não acabou de dizer que ela tinha que conhecer a tia Brenda
por que ela iria adorar? — Alex questionou, tentando esconder sua tensão em
um tom divertido.
— Brenda é ótima, mas precisa de uma lição para parar de dizer que
só a filha dela consegue uma namorada maravilhosa. — Engoli em seco, eu
estava competindo com a companheira verdadeira da filha de alguém, eu não
podia lidar com aquilo.
— Nós vamos discutir isso, mãe — Alex falou e Marge lhe deu um
sorriso largo.
— Vamos mesmo, querido — ela respondeu doce, quando ele
estacionou e eu estremeci. Aquela era uma briga que Alex já tinha perdido.
Isso significava que eu havia perdido.
A cafeteria ficava há poucos quarteirões do prédio da Wright
Company. Era um espaço muito aconchegante, as paredes de tijolinhos
vermelhos com quadros negros escritos em giz colorido dando os preços das
bebidas e doces, as mesas dispostas perto uma das outras, o balcão de
mármore com duas atendentes bonitas e sorridente.
Era claramente um lugar para família e mesmo assim eu estava ali.
Me afundei a contragosto na cadeira ao lado de Alex, quando Marge tomou o
lugar a sua frente de propósito tombando a cabeça em minha direção para que
eu me sentasse junto dele.
— Posso fazer nossos pedidos? — Marge pediu delicadamente.
— Mãe, eu que...
— Sim — eu intervi e ele me deu um olhar curioso. — Eu quero
um latte macchiato e você um café preto duplo, não é? — eu questionei para
Alex que balançou a cabeça positivamente.
— Certo, vou trazer uns bolinhos também — Marge disse sorridente e
se levantou.
Esperei até que ela estivesse longe o suficiente para não ouvir e me
virei para Alex.
— Que merda é essa? — questionei e minha voz saiu muito mais
estridente do que eu planejava.
— Me desculpe! — ele disse culpado, passando as mãos pelos
cabelos castanho claros, nervoso como eu nunca tinha visto. — Eu vou
conversar com ela na volta para casa, vou dizer que tudo não passou de um
mal entendido, não se preocupe com nada...
— Não — murmurei, me encolhendo e olhei para a mulher no balcão
inspecionando os doces com um sorriso relaxado. — Eu gostaria que meu pai
tivesse tido a oportunidade me ver com alguém, eu entendo os motivos dela e
de certa forma os seus.
— Eu nunca, nem em um milhão de anos, teria te envolvido nisso se
soubesse que... — ele começou a dizer dando vazão em toda culpa que sentia.
— Agora já foi — interferi, impedindo que ele entrasse ainda mais
naquele assunto doloroso. — A sua parte está de pé? — questionei. Eu estava
indo para o inferno por aquilo, poderia fazer direito.
Ele me deu um sorriso, o primeiro verdadeiramente direcionado para
mim, muito diferente da sua postura mandona e altiva no escritório.
— Está — respondeu unicamente.
— Então temos um acordo — eu assegurei e respirei fundo.
Eu seria a namorada de Alex Wright por quinze dias.
Capítulo 4

— Espero que você goste de bolinhos de canela — Marge falou,


equilibrando os três cafés e uma pilha de bolinhos em uma bandeja. Alex se
levantou para ajudar a mãe que lhe deu um sorriso doce. Olhar para os dois
interagindo poderia me dar cáries nos dentes, era claro que eles eram
carinhosos um com o outro e olhar de adoração da mãe para o filho deixava
explícito os motivos pelos quais Alex tinha se metido naquela confusão.
— É ótimo — disse baixinho e recebi dela um olhar camarada quando
me passou meu copo de café.
— Vocês vem muito aqui? — ela questionou se sentando.
— Não — respondi sem pensar.
— Sim — Alex disse, ao mesmo tempo me fazendo arregalar os
olhos. Eu era uma péssima mentirosa, me virei devagar para ele pronta para
implorar o perdão de Marge e correr em direção a uma agência de empregos.
Para minha surpresa meu patrão me deu um sorriso brilhante.
— Temos definições diferentes de muito, não é mesmo? — ele disse
esticando seu braço e passando pelos meus ombros me dando um sorriso
brilhante que eu nunca via no escritório. Seus olhos eram mornos para mim e
ele se inclinou na minha direção ficando próximo de mim como se estivesse
prestes a me beijar, mas então virou-se para mãe. — A gente veio aqui umas
vezes, mas Sara prefere que a gente peça coisas no escritório.
— É mesmo, Sara? — ela questionou, tomando um gole de seu café
parecendo querer me conhecer mais, mesmo que não houvesse nenhum
aspecto muito importante no fato de que eu aparentemente pedia café por
delivery. — Eu sempre gostei muito de sair para cafés. Eu e o pai de Alex
saíamos para comer bolo todos os dias religiosamente às três da tarde por
pelo menos vinte anos. Esses momentos, coisas simples como uma xícara de
café, ficam com a gente para sempre. É assim que eu me lembro dele.
Suas palavras foram carregadas de uma adoração ferrenha e aquilo
quebrou meu coração. Era como se Marge estivesse me dando uma dica de
relacionamento, enquanto abria uma parte profunda dela mesma. Eu não
merecia ouvir aquilo, ela devia estar dizendo aquilo a uma mulher que
amasse Alex.
— Eu como um abacate todas as manhãs. — Soltei inesperadamente
até mesmo para mim. Meus olhos se arregalaram e ao meu lado Alex
comprimiu os lábios contendo uma risada. Marge tombou a cabeça para o
lado franzindo as sobrancelhas ralas, enquanto um sorriso nascia em seus
próprios lábios. A namorada de seu filho era uma lunática.
— Abacate… — Marge tentou acompanhar meu pensamento
— Uma coisa que meu pai fazia de manhã, dividia um abacate
comigo todos os dias antes de ir trabalhar e eu ir para a escola. Construímos
essas memórias desde o ensino fundamental até eu me mudar para ir para
faculdade. Eu me lembro dele todas as manhãs. Você tem razão, são nesses
pequenos momentos que a vida se faz. — Na tentativa de contornar meu
comentário estranho, acabei dando a Marge e Alex um bocado do meu
coração.
Eu nunca falava sobre aquilo, nem mesmo com Aurora, mas ainda
assim eu estava dizendo aquilo para os dois semidesconhecidos a minha
frente.
— Eu não sabia disso — Alex falou e havia uma emoção que eu não
consegui reconhecer. Eu lhe dei um meio sorriso. Ele não teria como saber,
no final das contas ele era apenas meu patrão.
— Não tinha como você saber. — Dei a ele certa indulgência muito
mais pelo benefício de Marge do que pelo dele, tentei me convencer. Mas no
fundo eu não queria dar a Alex uma dose maior de culpa. — Então você fazia
pausas frequentes para o café. — Tentei mudar de assunto. — Isso seria
muito agradável.
Uma alfinetada em seu filho trouxe para Marge o seu habitual sorriso
brincalhão. A mãe lançou uma censura divertida para ele.
— Um workaholic. — Ela revirou os olhos. — Não me surpreende
em nada que ele tenha achado você no escritório, Alex é tão concentrado
nessa editora quanto o pai, talvez até mais, duvido que ele pudesse ter uma
namorada de fora. Imagino que você escute longos monólogos sobre isso o
dia todo.
"Longos monólogos?", eu queria dizer. "Esse homem late o meu nome
o dia inteiro, enche minha mesa de arquivos para serem catalogados,
reuniões para serem preparadas e nem me faça falar do cafezinho".
— Você não faz ideia — falei quase entredentes e dessa vez Marge
espremeu os olhos para o filho.
— Espero que você não seja um carrasco com a Sara, Alexander —
disse devagar e Alex se endireitou. Ergui uma sobrancelha. Eu nunca tinha
visto ninguém chamar ele de Alexander, na editora todos sabíamos que era
Alex a não ser se você quisesse ser duramente corrigido.
— Eu sou profissional, mãe — ele respondeu e eu tentei me controlar
para não começar a planejar minha vingança naqueles quinze dias. A imagem
mental de Marge arrastando Alex com um puxão de orelha pelas escadas da
editora encheu minha cabeça e eu me deleitei. — Mas trato todo mundo
muito respeitosamente.
Mordi um dos bolinhos me impedindo de dar um rosnado contrariado.
Respeitoso ele era, completamente respeitoso. Mas educado? Ensinar um
labrador a cumprimentar as pessoas seria mais fácil do que fazer com que
Alex distribuísse alguns bons dias.
— Eu espero realmente que seja! Não quero você sendo um turrão do
lado de uma jovem tão educada e amável — ela me elogiou e eu dei um
sorriso tímido para Marge. A culpa batendo no fundo da minha cabeça.
— Eu sou um gentleman — Alex respondeu e uma risada irônica saiu
da minha garganta e eu tentei disfarçar com tosses falsas. Peguei um
guardanapo e limpei ao redor da minha boca. — Mas quando ela pede eu
posso ser bem ríspido — ele falou de maneira brincalhona em vingança e eu
verdadeiramente engasguei transformando as tosses mal disfarçadas em
verdadeiras crises.
— Alex, não seja grosseiro — Marge o repreendeu, mas havia certa
diversão ali.
— Sou estou sendo verdadeiro, não é, Sara? — ele questionou e eu
enfiei meu cotovelo em suas costelas, enquanto me recuperava.
Eu não estava preparada para piadinhas sexuais, envolvendo Alex
feitas por Marge, mas eu nem em um milhão de anos poderia esperar
piadinhas sobre sexo selvagem vindas de Alex. O homem frio, com um ar de
superioridade e indiferença havia desaparecido dando lugar a um
desconhecido brincalhão e aberto.
Eu detestava Alex Wright. Isso era uma verdade absoluta. Eu podia
admirá-lo como dono da editora, mas como pessoa eu poderia ensinar uma ou
duas lições. No entanto, vendo-o ali se esforçando para fazer a mãe feliz... Eu
tinha ideias pré-concebidas dele, mas elas estavam sendo colocadas a prova
naquele momento. Talvez aqueles quinze dias pudessem mudar a impressão
que eu tinha de Alex. Eu não sabia ao certo se aquilo seria bom ou ruim.
— Eu não quero tomar muito mais do tempo de vocês, queridos.
Acho que agora vou tirar um tempo para descansar no hotel — Marge disse e
eu me contive para não soltar um suspiro aliviado. Ela podia ser uma
companhia agradável, mas a pressão de estar mentindo me deixava tensa.
— Mãe, você sabe que eu tenho espaço o suficiente no apartamento,
não precisa ficar num hotel. — Dava para perceber que aquele não era um
convite por educação, ele realmente queria a companhia de Marge.
— Ainda bem, eu estava esperando seu convite, o café da manhã do
hotel é terrível. — Ela riu e eu fui incapaz de não a acompanhar. — Você
pode me levar até lá para eu buscar as malas?
— Claro — ele disse prontamente e se levantou parecendo só se
lembrar de mim quando estava de pé. — Você quer... — Alex começou a
dizer e eu me levantei em um solavanco.
— Tenho muito trabalho para fazer, vou caminhando e você a leva
para sua casa, que tal? — Dei a opção mesmo que por dentro eu estivesse
implorando para não ter que responder mais perguntas sobre mim mesma.
— Ok, te vejo na empresa então — ele falou e deu um passo para trás.
Nenhum beijo ou abraço de despedida, Marge franziu o cenho e eu me
encolhi.
— Querida, foi um prazer conhecê-la — ela disse erguendo os braços
para um abraço e eu o fiz timidamente. — Você é maravilhosa e eu fico tão
feliz em ter lhe conhecido, posso sentir que seremos boas amigas.
Dei um sorriso amarelo para Marge. Eu não era uma boa amiga para
ela, era uma mentirosa que havia aparecido em sua vida.
— Foi um prazer também, Marge — falei.
Alex me deu um aceno de cabeça antes de passar o braço pelos
ombros da mãe e a guiar para fora do pequeno café. Quando eles não estavam
mais no meu campo de visão meus ombros arriaram e eu me joguei na
cadeira onde tinha estado para respirar fundo. "O que eu estava fazendo?",
me questionei enfiando meu rosto nas minhas mãos, desejando desaparecer
por um momento.
Meu celular vibrou em meu bolso e eu o levantei sem muito interesse.
Não queria voltar ao trabalho, não queria ir para casa, só queria mais uma
rodada de bolinhos de canela.
"Obrigado por hoje.", o e-mail começou e eu já sabia quem era.
"Durante os próximos quinze dias você vai receber férias remuneradas, nada
que interfira nas férias que você já tem, é apenas um bônus.
PS: Ela amou você.
PS2: Mas ela comentou sobre não termos um beijo de despedida,
precisamos resolver isso."
Mesmo em seu e-mail o tom era prático. No entanto, a menção de um
beijo de despedida fez a minha pele se arrepiar. Como era possível que aquele
bastardo falasse de coisas como férias remuneradas e beijos de despedida ao
mesmo tempo? E o que ele queria dizer com "temos que resolver isso?".
Eu tinha tantas perguntas e nenhuma resposta para elas. Talvez eu
realmente precisasse de férias pelos próximos quinze dias, porque seriam
duas semanas longas.
Capítulo 5

Era sábado e mesmo assim eu acordei preocupada. Nos meus


sonhos o café com Marge e Alex não terminava com ela dando um beijo na
bochecha e dizendo que havia sido um prazer me conhecer como havia
acontecido, mas sim com a mãe alegre e afetuosa jogando bolinhos de canela
na minha cabeça e me chamando de mentirosa.
Depois daquele pesadelo não consegui continuar deitada, toda posição
parecia desconfortável quando na verdade, o maior desconforto estava na
minha cabeça. Culpa. Eu tinha mentido para uma senhorinha sorridente sobre
namorar o filho dela, o filho dela tinha abraçado a minha cintura e dito que
estávamos juntos há seis meses, quando na realidade, naquela mesma manhã
eu tinha desejado que alguém cuspisse no café dele, porque para mim Alex
Wright não passava de um patrão idiota. Gostoso e idiota.
A culpa me fez levantar muito mais rápido do que qualquer
despertador poderia. Peguei meu celular com um gemido e digitei uma rápida
mensagem para Aurora, minha melhor amiga, "preciso falar com você, é
meio urgente", respondi depois de digitar vários emojis de corações coloridos
para as fotos dos gêmeos e de Zoey beijando a barriga grávida de seis meses
dela.
Como era muito cedo num sábado não esperei por uma resposta,
Aurora precisava dormir, os gêmeos já andavam e Zoey tinha passado por
uma temporada de gripe, que tinha assustado a todos nós, mas depois de o
médico jurar que era só uma gripe ficamos mais tranquilos, mas, ainda assim,
Aurora, precisava descansar.
Mandei também uma mensagem para minha mãe que tinha na noite
anterior me enviado um gif de boa tarde mesmo que fosse noite. Sorri e lhe
mandei uma das fotos coloridas escrito "eu te amo" que eu tinha salvado
exclusivamente para ela. Desde a morte do meu pai ela vinha tentando se
ocupar, tricô, aulas para crianças na igreja e imagens coloridas.
Quando eu vi a mãe de Alex Wright lembrei do meu pai, de como ele
sempre dizia que eu devia circular pelo hospital e arranjar um encontro, de
como em seu último mês de vida ele repetia que eu tinha que arrumar alguém
que me fizesse feliz. Tinha medo de deixar sua princesinha sozinha, e dizia
isso até para a minha mãe. Que quando ele morresse que ela arranjasse
alguém que cortasse a grama todo final de semana.
Mas não foi só no meu pai que eu pensei quando vi Marge, foi em
minha mãe. Os olhos de Lucy Webber cheios de esperança, o desejo que eu
fosse feliz mesmo que isso significasse que eu estivesse longe dela.
Me levantei em um pulo, conectando meu celular a minha caixinha de
som decidindo que só um dia produtivo podia me livrar da culpa e de todas as
lembranças. Eu arrumaria meu guarda-roupa, arrumaria os armários da
cozinha e limparia as janelas e o box do banheiro. Gemi e fiz biquinho, eu
sentia falta de Aurora naquela casa o tempo todo, mas na hora de fazer a
faxina eu podia sentir lágrimas se formando.
Aproveitei o tempo ocioso para colocar uma máscara de argila no
rosto depois de escovar os dentes e desistir de trocar o pijama velho por um
moletom velho. Eu não sairia daquele apartamento nem se me decretassem
que eu tinha que sair. Seria um dia para me livrar da culpa, deixar a minha
pele lisinha e tudo organizado.
Eu estava comendo uma tigela de cereal enquanto trocava a música
para Creep do Radiohead. A campainha tocou, enquanto eu cantava e
dançava o refrão a pleno pulmões. Bufei indo em direção a porta segurando
fortemente o meu pote de sucrilhos.
Eu tinha certeza de que era Edith, minha vizinha de duas portas
depois. Ela detestava música alta, mas não se incomodava com a cabeceira da
própria cama batendo repetidamente na parede, quando seu namorado
estranho estava ali. Brigar com certeza era a minha coisa favorita para me
demover de toda a culpa. Desliguei o som e fui pronta para a discussão.
Eu abri a porta em um solavanco pronta para jogar na cara dela que
gemer "isso, cavalinho, isso" não era sexy, na verdade, era bem nojento.
— Senhorita Webber? — A última voz que eu gostaria de ouvir soou
assustada.
O cereal foi parar nos meus pés quando eu larguei o bowl com um
grito.
— Alex, o que você está fazendo aqui? — questionei estridente,
fechando a porta por impulso. — Que merda, não podia ter ligado? —
perguntei incrédula, puxando a barra da minha camiseta e esfregando a massa
seca e verde do meu rosto. Eu estava horrível, máscara facial, um coque torto,
cuja base começava na minha orelha e não no topo da minha cabeça e a
merda daquele pijama tão curto que era indecente da edição do grupo de
leitora, com várias boquinhas dentadas de vampiro e "Me morda" estampado
no centro da blusa de alcinhas.
— Me desculpe! Eu... — ele bufou e se silenciou. — Precisamos
conversar.
— Inventaram mensagem, ligação! — explodi, sentindo que
provavelmente estava arrancando a minha cara fora. — Pode me dar um
minuto para...
— Claro! Me desculpe por...
Eu corri em direção ao meu quarto xingando todos os palavrões que
eu sabia. Tropecei em um tênis que eu tinha tirado para a doação, mas me
ergui com agilidade o suficiente para pegá-lo e lançá-lo do outro lado do
quarto.
No banheiro eu liguei a pia e enfiei minhas mãos embaixo dela, joguei
toda a água no meu rosto sentindo o frio e quase me afogando. Lavei tudo o
mais rápido até minha pele se tornasse vermelha. "O fim da pele macia e
saudável", pensei com tristeza.
Saí do banheiro já tirando o pijama e procurando pelo jeans e uma
camisa decente que não estivesse escrito "me morda", afinal de contas o
bastardo esperando na porta ainda era meu chefe e não queria dar uma
impressão errada.
— Só um acordo! — me lembrei, passando o suéter vermelho pela
minha cabeça. — Só um acordo e eu vou ter um livro publicado...
Me olhei no espelho. As manchas vermelhas no meu rosto, o cabelo
loiro parecendo feno. Eu estava horrível, mas era absolutamente culpa do
idiota lá fora, eu não o tinha convidado ao final de contas. Ajeitei os fios num
rabo de cavalo.
Peguei o esfregão e comecei a juntar o cereal no chão.
— Sara? — Wright chamou e eu me lembrei dele parado na minha
porta, a fonte dos meus problemas. O idiota de cabelos claros que vinha até a
minha casa num sábado e de quebra dizia para a mãe que eu era a namorada
dele.
— Sim, senhor Wright. — Abri a porta num solavanco segurando o
esfregão firmemente.
— Eu vim para conversarmos — falou cuidadosamente, os olhos
oscilando entre o meu rosto e o pedaço de madeira em minhas mãos. Era bom
que ele tivesse entendido o recado.
— Por favor, entre senhor Wright — convidei e ele continuou me
olhando com cuidado.
— Me chame de Alex, por favor — falou e eu indiquei com a cabeça
para que entrasse. Meu sábado perfeito indo pelos ares e pensar que eu
provavelmente iria almoçar pizza e depois provavelmente tomar sorvete com
Aurora e as crianças. Mas agora eu tinha meu chefe estacionado no meu sofá,
parecendo pronto para levar um esfregão na cabeça.
Recolhi o sucrilhos do meu chão ficando ainda mais irritada por
perceber que meu dia de faxina também tinha acabado.
— Você quer um café ou... — Aumentei a minha oferta mesmo que
café fosse o máximo que ele iria receber. Ele que ousasse vir com expresso
duplo ou qualquer coisa do tipo. Alex Wright podia ser meu chefe, mas na
minha casa eu dava as regras.
— Não, obrigado — ele recusou.
Meu patrão se sentou no sofá verde no centro da minha sala dividindo
espaço com quadros que eu e Aurora tínhamos pintado numa aula de artes na
faculdade. Alex Wright mesmo fora da empresa parecia absolutamente pronto
para trucidar investidores que queriam dar menos do que podiam. Ele parecia
magnífico, os cabelos claros levemente úmidos, a barba que ele cultivava
alinhada. Tudo nele gritava caro, imponente e decidido, mas, mesmo assim,
ele estava ali, na sala da minha casa, junto com a tentativa da Vênus que
Aurora tinha feito cuja cara era da Meredith Grey.
— Sobre o que quer conversar? — perguntei, muito mais por
educação e para abrir o assunto do que qualquer coisa. Nem em um milhão de
anos ele iria na minha casa se não fosse exatamente pela situação que estava
acontecendo naquele momento.
— Precisamos nos... entender...
Suspirei e cruzei os braços. Meu dia de felicidade tinha se tornado
aquilo, um dia de negócios. Eu sabia como Alex poderia ser, eu colocaria
aquilo nos meus termos. Se tínhamos um acordo ele seria igual para nós dois.
— Você vai manter seu lado? Porque eu não quero magoar a sua mãe,
o primeiro de tudo, mas quero ter certeza de que isso tudo não vai ser um
estresse em vão. — Eu não queria soar como uma maldita interesseira, queria
que minha voz fosse inflexível e cordial, mas tudo que eu parecia era uma
massa medrosa e indefesa.
— Claro, claro! — ele disse de maneira confiante. — Eu nunca
deixaria de cumprir a minha palavra. Temos um acordo e você terá seu
contrato de publicação. Eu nunca voltaria atrás com isso, o que vim conversar
é sobre... temos alguns aspectos do nosso relacionamento que precisam ser
refinados, as histórias precisam bater.
Fiquei surpresa ao perceber que ele não estava tentando puxar o meu
tapete, fazer tudo as custas da minha vontade. Alex Wright era um homem
que sabia defender seus interesses, eu já o tinha visto sair de reuniões com
acionistas com muito mais do que valiam, ele não jogavam para perder e,
mesmo assim, não estava tentando tirar proveito da minha situação. Controlei
a onda irracional de emoção que me tomou.
— Bem, então quais aspectos você veio aqui discutir?
— Precisamos acertar... não acredito que vou dizer isso... — Ele
tomou uma respiração profunda e me olhou como olhava para um de seus
parceiros de negócios. — Minha mãe comentou o fato de que... de que
parecemos travados perto um do outro. Eu vim aqui, porque de uma maneira
prática e profissional precisamos nos beijar.
Eu o olhei embasbacada. Ele estava pedindo para que eu o beijasse?
Capítulo 6

Sara me olhou embasbacada por alguns segundos e eu me encolhi. Eu


sabia o que parecia, um cara idiota que aparecia em sua casa dizendo que
tínhamos que nos beijar. Eu nunca admitiria isso, mas eu adoraria beijar Sara
Webber, mas a última coisa que eu deveria querer era o fazer naquelas
condições. Mas, ainda assim, quando as palavras saíram dos meus lábios eu
mal podia esperar. Engoli em seco, me sentindo a porra de um pervertido,
mas eu sabia os motivos que tinha. Não era desejo desenfreado, não era um
tipo torpe de assédio, era a necessidade desesperada de fazer minha mãe
acreditar que a mulher a minha frente era minha namorada.
— Parece... razoável — Sara disse e eu ergui uma sobrancelha. Ela
deu de ombros. — Se ela desconfiou ontem e nós continuarmos errando ela
pode desconfiar ainda mais e acho que a última coisa que você quer é isso,
uma mãe que desconfie do seu relacionamento.
Ela não parecia 100% convencida de suas próprias palavras, falava
para explicar não somente para mim, mas para ela mesma.
— Talvez devêssemos começar... sentando um ao lado do outro? —
sugeri e ela pensou por um segundo antes de sentar-se ao meu lado, nossas
coxas se tocando.
— Me conte coisas sobre a sua mãe, coisas que você contaria a uma
namorada. Para eu estar preparada caso ela pergunte — ela pediu. Sua
postura ainda era meio rígida, eu passei o braço ao redor de seus ombros, ela
não endureceu quando eu o fiz. Estávamos um pouco mais confortáveis.
— Ela era uma enfermeira, foi até eu me formar em administração,
quando meu pai faleceu, nessa mesma época, ela parou de ser e foi se dedicar
aos seus hobbies. Foi então que o câncer veio. Ela foi muito forte naquela
época, sempre foi. Minha mãe é doce, educada, do tipo que se fosse uma avó
seria a que deixa os netos comerem docinhos antes do almoço.
— Ela parece ser realmente uma boa pessoa — Sara acrescentou com
um sorriso verdadeiro. A simpatia tinha sido mútua. — Tem algumas coisas
que você precisa saber sobre mim, eu acho... Eu nasci em Sacramento na
Califórnia, mas meus pais se mudaram para Seattle quando eu tinha 12 anos,
fiz faculdade de administração na UW e lá conheci minha melhor amiga,
Aurora, com quem eu dividia esse apartamento. Hoje em dia ela mora com o
esposo dela, bem... na realidade, noivo, e eles tem três filhos, estão esperando
o quarto, e eu sou madrinha dos gêmeos... Hum, eu amo Jane Austen e foi
por isso que eu apliquei para o emprego na Wright. Minha mãe voltou para
Sacramento depois que papai morreu e eu ainda passo minhas férias lá.
Cada pequeno detalhe que ela me deu de maneira tão suave moldava a
doce personalidade que ela parecia emanar.
— Eu sou de Port Angeles, mas meu pai tinha a editora antes aqui em
Seattle, então eu passava muito tempo aqui. Me formei na Columbia também
em administração e assumi a empresa mais ou menos quando meu pai se foi,
em decorrência de um enfarto. Eu sempre quis levar a empresa. Sou o
orgulhoso pai de uma vira-lata chamada Coco e jogo basquete nos finais de
semana, mantemos um pequeno time, ganhamos o campeonato do bairro no
ano passado.
— Coco — ela repetiu com uma risadinha, olhei curioso para ela. —
Me desculpe, eu não consigo imaginar você colocando um nome tão doce
num cachorro como Coco. Você tem mais cara de Brutus... Thor... Zeus...
— Coco destruidora de sapatos definitivamente deveria ter um nome
forte como esse, mas eu queria dar um benefício da dúvida. — Dei de ombros
e ela deu uma risadinha.
O silêncio caiu sobre nós. Imediatamente fiquei consciente de nossa
proximidade e a maneira como o jeans escuro.
— E o que você acha de mim? — a pergunta escapou pela minha
boca e ela franziu as sobrancelhas. De repente o que ela pensava de mim era
importante. — Para eu saber o que preciso pensar, ajustar. Por exemplo, sou
muito...
— Você é um babaca — disse prontamente.
— O quê? — eu guinchei.
— Não me leve a mal, senhor Wright. — Sua voz era falsamente doce
e havia um sorriso querendo aparecer em seus lábios. Para minha surpresa
sua mão foi em direção ao meu rosto e ela fez um carinho, parte do
treinamento de proximidade. — Mas você está longe de ser fácil. Trabalho
com você há um tempo e posso contar nas mãos quantas vezes você me deu
bom dia. Você me chamou se senhorita Weller durante os seis primeiros
meses e sempre que eu corrigia sua resposta era "que seja", Alvin — ela
alfinetou errando propositalmente meu nome.
Eu era um homem rígido, eu não podia negar. Levava meu trabalho
muito a sério e, ironicamente, preferia manter o máximo de distância entre
minha vida pessoal e profissional.
— Quando eu não estou pedindo para que as secretárias finjam ser
minhas namoradas, eu gosto de manter o profissionalismo, Samile — eu
respondi acidamente, brincando com as madeixas loiras de seu cabelo. O
treinamento de proximidade podia ser um jogo que nós dois podíamos jogar.
Quando meus dedos passaram pelos fios ela estremeceu levemente.
— É muito profissional não cumprimentar seus
funcionários, Aaron. — Ela revirou os olhos. Fiquei feliz em saber que ela
confiava suficientemente em mim para saber que o que quer que ela falasse
fora da empresa, dentro daquela circunstância seria dito em um ambiente
seguro, mas enervado que ela tivesse aquele tipo de pensamento por mim.
— Como se você fosse muito mais educada que isso,
senhorita Weller — eu alfinetei e ela fez uma cara brava e chocada. — Você
praticamente rosna o meu nome todas as manhãs e ao longo do dia não se dá
ao trabalho de olhar por cima da mesa quando eu passo — expliquei meu
ponto e Sara revirou os olhos.
— Você me comeria viva se eu lhe mandasse um "aonde vai, senhor
Wright?", eu ouvi as fofocas, sei que você praticamente demitiu a última
secretária por isso. — Ela jogou em minha direção e foi a minha vez de
revirar os olhos.
— As pessoas inventam demais, não foi por isso. — Me encolhi me
lembrando da ruiva que estava sempre sorridente demais e questionava todo
passo que eu dava "está indo a algum lugar?", "posso ir com você?". Aquilo
com certeza me dava nos nervos, mas percebi que se fosse Sara ao fazê-lo eu
estaria levemente satisfeito. — Ela era irritante.
— Você é irritante — Sara corrigiu, mordendo o canto interno da sua
bochecha para controlar um sorriso.
Um silêncio desconfortável passou por nós. Tínhamos nos entretido
ali, mas no final das contas eu tinha algo a fazer, nós dois tínhamos. Eu me
virei em sua direção e para minha surpresa ela já estava olhando para mim.
Mesmo comigo sentado Sara mal chegava ao meu queixo. Havia algo
diferente com ela ali, tão natural em sua casa, percebi que ela não usava a
maquiagem básica de sempre, sua pele sempre macia e perfeita tinha
adoráveis sardas ao redor do nariz, os olhos azuis de um tom meio arroxeado
incomum pareciam brilhar ainda mais. Os cabelos loiros não estavam em um
penteado com cada fio no lugar, pelo contrário, estavam presos de maneira
meio bagunçada. O tipo de beleza simples, mas não comum, Sara Webber era
tudo menos comum.
Seu olhar fixo em mim e eu estava tão preso nela quanto ela em mim.
— Acho que temos que nos beijar — ela sussurrou, mesmo que antes
estivesse falando em um tom normal. Suas palavras baixas como se ela
estivesse insegura delas.
— É — eu concordei. — Acho que temos.
Mas nenhum de nós dois se moveu. Continuamos parados olhando um
para o outro. Como eu nunca havia percebido aquilo? Cada pequeno detalhe
nela. Eu sabia que ela era atraente, custava boas dores de cabeça tentar não a
olhar com lasciva. Mas, naquele momento, não era só desejo, era pura
adoração. Sara parecia um anjo.
Ela se inclinou em minha direção umedecendo os lábios perfeitos com
a pontas da língua por um segundo. Minha mão ganhou vida própria e foi em
direção ao seu rosto trazendo-a para mais perto.
Eu sabia que aquilo era parte de um acordo, sabia que estava beijando
Sara Webber porque ela tinha se comprometido em fingir que era minha
namorada, mas, mesmo assim, não consegui conter a euforia. Sua pele era
ainda mais suave em contato com a minha.
E então nós nos beijamos. Foi como se tudo ao meu redor se
apagasse. Seus lábios doces primeiro foram tímidos contra os meus, mas
então ela os abriu levemente me dando espaço e eu não pude recusar. Seu
gosto era doce e havia a sensação inquietante de morango. Quando inspirei
pude sentir cheiro de lavanda. Minha mão seguiu seu caminho e foi até a sua
nuca aprofundando ainda mais o beijo.
Sara, encorajada por aquele movimento, se inclinou em minha direção
virando-se completamente sobre mim e saindo de sua posição sentada para
apoiada em seus joelhos, suas mãos também fizeram seu caminho e foram
direto para o meu peito.
Eu segurei sua cintura, perdendo completamente a noção, deixando
que o fato de que aquilo nada mais era que um treinamento, uma simulação,
voar pelos ares. Para minha surpresa ela foi parar em meu colo, beijando-me
com a mesma fome que eu reservava a ela.
E então What Make You Beautiful da One Direction começou a tocar
alto.
Nós dois parecemos despertar. Ela se afastou de mim de olhos
arregalados, os lábios vermelhos e inchados não fizeram nada para melhorar
voracidade que eu sentia. Ela empurrou meu peito e se levantou em um pulo.
— É o meu celular — ela resmungou, arrastando-se em direção a
estante onde a TV ficava.
Merda.
Fechei meus olhos por um segundo. Que merda eu tinha feito?
Sara pegou eu celular e olhou para a tela e para mim.
— É a minha melhor amiga, acho que pode demorar, talvez você
devesse... — ela começou a dizer, as bochechas coradas.
— Ah, claro. — Me levantei do seu sofá pegando a deixa. Culpa
ardendo fundo em mim. — Eu queria que...
— Está tudo bem — ela me garantiu com um sorriso, mas seu
semblante parecia confuso. — Só tenho muito o que falar com ela.
Eu saí de seu apartamento quando ela pigarreou e disse um "alô" meio
afetado para a pessoa do outro lado da ligação. Saí de seu pequeno
apartamento mecanicamente, sem realmente saber o que estava fazendo.
Quando as primeiras gotas da chuva típica das manhãs de sábado em
Seattle bateram em meu rosto eu pareci despertar.
O que eu tinha feito?
Capítulo 7

— Você parecia estranha no telefone ontem de manhã — Aurora


comentou sugando o drink sem álcool em seu canudo me dando um olhar
inquisidor. — Toda misteriosa para confirmar se viria ou não tomar um sol
na piscina comigo e com as crianças — pressionou. Eu bebi um gole da
minha piña colada. Eu não sabia como contar aquilo para ela.
Aurora era minha melhor amiga em todo mundo e me conhecia como
ninguém. Quando ela me ligou na manhã do dia anterior, eu estava segundos
antes sentada no colo do meu chefe, com quem aproposito eu estava fingindo
um relacionamento, beijando ele e sua boca imbecil. Ela tinha sacado aquilo
de cara. Sabia que tinha alguma coisa de errada comigo.
Beijar Alex Wright devia ter sido fácil, uma coisa rápida só para testar
que se tivéssemos que o fazer na frente da mãe dele não terminaria com nós
dois vomitando um em cima do outro e com a senhora Wright descobrindo
tudo. Mas o fazer na prática foi... eu não tinha palavras para descrever
aquilo.
A forma como meu corpo pareceu ter vida própria, como meus lábios
pareciam se encaixar nos seus, como os braços fortes dele presos em minha
cintura pareciam os únicos certos, como se todos os caras que me beijaram e
abraçaram antes dele fossem... sem graça. Era para ser só um teste, um
momento para garantir que tínhamos o mínimo de interação para não
parecermos dois idiotas. Mas a química entre nós tinha sido explosiva. Deus
sabe o que teríamos feito se eu não tivesse recebido aquela ligação.
— Sara? — minha melhor amiga chamou e eu me virei para ela
saindo abruptamente da minha linha de pensamentos.
— Eu estou fingindo ser a namorada do meu chefe pelo tempo que a
mãe dele está na cidade — desembuchei me virando em sua direção e ela
praticamente pulou em sua espreguiçadeira agarrando a barriga de seis meses
de gravidez sob o maiô.
— Tudo bem ai? — Ethan, seu esposo super protetor, perguntou do
outro lado da piscina, onde brincava com os bebês gêmeos e a filha mais
velha Zoey.
— Tudo certo, querido. — Ela ergueu o copo da bebida colorida com
um sorriso, Ethan lhe deu um olhar curioso, mas retribuiu o sorriso amoroso,
me contive para não revirar os olhos sentindo as cáries se formarem tamanha
doçura.
Eu me encolhi e ela se virou em minha direção a boca aberta em
choque e os olhos dançando em curiosidade. Puxei meu canudo e bebi o resto
da piña colada em um único gole, esperando que o canudinho me escondesse,
mas eu sabia que era em vão, nada podia escapar da inquisição de Aurora
Devonne-Lewis.
— Você está fingindo ser a namorada do patrão que você detesta com
todo o seu coração? — ela questionou devagar.
— Sim. — Minha voz não passou de um murmuro.
E então aconteceu. Aurora explodiu em gargalhadas, se inclinando
sob a barriga grávida e rindo tanto que as bochechas ganharam uma
coloração vermelha. Eu crispei os lábios e esperei ela retornar, mas minha
melhor amiga continuava gargalhando como se eu tivesse contado a mais
engraçada das piadas.
— Espere, você só pode estar brincando, eu não acredito... — Ela
tossiu e secou uma lágrima que ameaçou cair de seu olhos. Se ela não
estivesse grávida aquele com certeza era o momento de jogá-la na piscina.
— É sério — falei frustrada e ela reprimiu mais uma risadinha. — Ele
chegou do nada dizendo que precisava da minha ajuda, o cara nem me deu
bom dia e de repente me chamou na sala dele me ofereceu a publicação do
meu livro e...
— Espere! — Ela arregalou os olhos e colocou sua bebida em cima da
mesinha. — Você vai ter o seu livro publicado? Isso é incrível, Sara! —
Aurora tinha feito literatura e era uma expert, a única pessoa que eu tinha
confiado de ler meu original, ela gostava e via futuro, sua empolgação era
nítida.
— Eu não aceitei em um primeiro momento.
— O quê? — ela questionou e eu me encolhi.
— Eu falei que não poderia fazer isso, ele me garantiu que minha
recusa não mudaria nada em minha posição na empresa, e então a mãe dele
apareceu.
— Ela apareceu? — Aurora guinchou, era como se ela estivesse
acompanhando sua série preferida e ela finalmente tivesse chegado ao
clímax.
— Eu acho que foi meio que uma decisão de última hora. Ele tinha
dito que namorava, mas não esperava que ela fosse chegar do nada, pelo que
eu entendi tem um casamento em duas semanas e ela deveria ter vindo
somente na cerimônia.
— Mas se você não aceitou... — Aurora começou a interrogar.
— Ela chegou lá com um lenço na cabeça, sem sobrancelhas... eu não
consegui desmentir... eu me lembrei do meu pai... Então eu me apresentei
como namorada dele. — Os olhos de Aurora se tornaram suaves e ela esticou
seu braço para unir nossas mãos em sinal de carinho.
Ela tinha estado ao meu lado quando tudo aconteceu, ainda grávida
dos gêmeos e com Zoey recém-curada da anemia aplástica, mas ainda
precisando de cuidados e mesmo assim, ela ficou ao meu lado o tempo todo.
Ethan chegou até a passar algumas noites com meu pai no hospital quando
todas nós estávamos cansadas demais.
— Meu pai durante todo o tempo dizia que tinha medo de partir e de
não me ver com alguém e até queria isso para minha mãe. A mãe de Alex só
queria isso para o filho e num momento de desespero ele concedeu o desejo
da mãe. Impensado e descuidado, mas se você me perguntar isso é o certo. O
que eu deveria ter feito também.
— Ah, querida. — Ela se esticou e abraçou meus ombros me dando
todo o apoio que sempre me deu. Minha irmã para todos os efeitos. De
repente ela soltou uma risadinha. — Pelo que você me disse ele é bonitão,
talvez não seja tão ruim assim, pode tirar umas casquinhas — ela cochichou e
eu mordi o lábio inferior quando ela me soltou. — Espere, você já... — ela
começou a questionar com os olhos arregalados.
— Ontem quando você me ligou... nós... pode se dizer que nós
estávamos nos beijando — falei, tentando manter o meu tom mais inocente
possível.
— Como assim "pode se dizer que estavam se beijando"? — ela
questionou fazendo aspas com as mãos.
— Não era um beijo de verdade... Ele foi até a minha casa, porque
depois que a mãe dele nos viu e eu me apresentei como namorada nós fomos
a um café e obviamente não nos tocamos em momento algum e a mãe dele
desconfiou e então ele apareceu no dia seguinte para testarmos nossas
química para que a mãe dele... que cara é essa, Aurora? — questionei, à
medida que o sorriso dela só crescia e se tornava mais sacana a cada
momento.
— Você gostou não foi? — ela cochichou maliciosamente. — Gostou
do beijo do Gostosão.
— Não! — guinchei, desviando o olhar.
— Então por que está tão vermelha? — Ela riu pegando sua bebida
novamente e bebendo o resto em gole. Eu a ignorei terminando a minha piña
colada. — Me conta!
— Eu meio que... gostei — confessei, cutucando o resto do gelo com
o canudo, incapaz de admitir aquilo olhando para ela. — Mas isso não
significa nada, ele é meu chefe idiota que me manda relatórios numa sexta-
feira nos últimos dez minutos do turno para que eu possa ter trabalho durante
todo o fim de semana, me impedindo de sair com você e as crianças. O fato
de que ele beija bem não significa nada. Estou fazendo isso pelo contrato,
pelo bem da mãe dele, mas definitivamente não por ele.
Aurora continuava com um sorriso estúpido no rosto.
— O que foi? — questionei mal-humorada.
— Eu conheço essa história, o patrão bonito, um beijo bom... isso
termina bem. — Ela deu um sorriso nostálgico e eu revirei os olhos. Não era
como a história de amor dela e Ethan, eu não estava vivendo a eminência de
um romance, eu tinha um objetivo bem definido e Alex também.
— Eu não vou me tornar a mãe dos filhos dele, Aurora — brinquei e
ela revirou os olhos. — É diferente do que vocês tinham, eu o detesto e pode
ter certeza de que o sentimento é mútuo. Quando tudo acabar e eu tiver a
minha publicação ele vai provavelmente me mudar de setor, vou ser a
secretária de um dos investidores, não vai acontecer um pedido de
casamento.
— Você está apostando contra uma mulher grávida? — ela brincou,
se levantando com dificuldade, a barriga já pesada. — Eu não sei, Sara. A
linha entre o amor e o ódio pode ser tênue e eu te digo: um beijo bom pode
turvar ainda mais essa divisão. Não estou dizendo que vai se casar com ele,
estou dizendo para tirar proveito do que a vida te dá de bom e deixar as
coisas irem.
— Eu te conheço, Aurora. — Me levantei e fui para o seu lado. —
Você está dizendo para eu me casar com ele. — Ela deu de ombros
teatralmente.
— O que eu posso dizer? Acredito no casamento. — Aurora riu e
lançou um olhar amoroso em direção ao marido, que estava deitado na
espreguiçadeira do outro lado da piscina com os gêmeos dormindo em seu
peito e acompanhando sorridente, Zoey, nadar de um lado para o outro da
piscina de maneira ágil.
Seu olhar foi tão doce que por um momento eu a entendi. Aquilo era
algo a se desejar, uma família amorosa e um companheiro paciente. Mas
definitivamente aquele não era Alex Wright.
— Vamos lá dentro vou fazer mais piña colada para você, te
embebedar até você me dar detalhes sobre os beijos do Gostosão — ela
brincou e uniu nossos braços em um abraço cúmplice. — Ele parece o tipo
que morde... Eu gosto quando Ethan morde.
— Aurora! — ralhei entre risadas.
Uma tarde tranquila com minha amiga era tudo que eu precisava para
colocar as coisas no lugar e não pensar que eu estava prestes a me envolver
em duas semanas de mentira.
Capítulo 8

Eu estava meio tensa naquela manhã. Alex tinha me mandado um e-


mail me dando férias no tempo em que sua mãe estava na cidade. Em uma
situação normal eu estaria dando pulinhos pela casa programando dias de
folga e talvez até uma viagem a Sacramento para passar uns dias com a
minha mãe. Mas a questão é que agora eu também estava envolvida na visita
de Marge Wright a Seattle.
Me ocupei em fazer meu café da manhã e tentar encontrar alguma
coisa relaxante na Netflix para que eu pudesse entrar no espírito das férias. Eu
não tinha motivos para estar nervosa. Que tipo de mãe queria passar o tempo
todo com a namorada do filho? Não era comum, eu provavelmente teria que
vê-la somente mais umas duas vezes e claro que seria educada e agradável,
mas eu não teria que sustentar aquela mentira durante muito tempo.
Mas quando meu celular começou a tocar e eu olhei para tela e dizia
"Senhor Wright" eu me encolhi e quis jogá-lo até o outro lado da sala.
— Alô — saudei incerta. Eu devia chamá-lo de querido?
— Sara! — a voz feminina e doce chamou e eu arregalei os olhos. —
É a Marge, querida, como você está?
— Eu estou bem? — soou como uma pergunta e eu me encolhi. —
Bem e você? — questionei, tentando soar amigável. Claro que com a sorte
que eu tinha minha sogra de mentira iria querer conversar comigo ao
telefone.
— Estou bem, obrigada. Desculpe por ligar tão cedo, mas eu imaginei
que pudéssemos passar algum tempo juntas o que acha? — ela perguntou,
havia uma incerteza fofa em sua voz, se ela fosse realmente minha sogra eu
teria prontamente dito que sim e me derretido. Mas ela não era minha sogra
de verdade, ela era uma mulher que eu estava ajudando o filho a enganar.
Alguém que se eu desse um passo em falso perceberia a armação.
— Sim! — respondi prontamente em desespero me xingando
mentalmente. Tanto eu poderia ter dito "me desculpe, estou com meus
afilhados esse fim de semana", "estou me sentindo meio doente" ou até
"não". — Claro que podemos, o que você quer fazer?
— Ah, ela aceitou, Alex! Eu te disse que ela aceitaria. — Ela riu,
falando não comigo, mas com o filho. — Que tal fazermos compras? Percebi
que meu vestido para o casamento de Jane está meio sem graça, podemos
encontrar alguma coisa melhor, o que você acha?
Compras era bom, ela podia se enfiar em provadores e eu poderia
querer comprar coisas casualmente fora da sessão que ela estava. Uma pilha
de roupas nos separando, nada de perguntas pessoais que eu não saberia
responder. Dentro das possibilidades compras era sem dúvida o melhor.
— Compras é perfeito, Marge — falei, tentando manter minha voz
estável. — Hum... posso falar com Alex por um momento? — questionei, me
esforçando para soar casual. Namoradas podiam querer falar com os
namorados, não é?
— Claro, querida — confirmou e eu me encolhi. A forma doce como
ela me chamava de querida me deixava desconfortável.
— Alô — a voz conhecida saudou e eu quis poder socar o nariz
perfeito dele.
— Sua mãe está nos ouvindo, querido? — falei de maneira
exageradamente doce.
— Não, amor. — A ironia da palavra não foi perdida por mim.
— Eu não posso passar o dia inteiro sozinha com a sua mãe e se eu
acabar falando alguma coisa errada? Nós não combinamos toda a história.
Você precisa estar lá.
— Você não precisa se preocupar com isso, essa fusão de empresas
não vai acontecer, é uma situação hipotética que com certeza não vai
acontecer — ele disse, mas eu podia sentir o tom de diversão em sua voz, ele
estava achando engraçado o meu desespero. Mas aquele era um jogo que dois
poderiam jogar.
— Não, baby, você não entendeu. Se você não for, eu posso acabar
tendo que falar com a sua mãe de detalhes muito sórdidos de nossa vida a
dois e como não existe uma vida a dois, você vai perceber que eu posso ser
muito inventiva. Para o bem e para o mal — ameacei e ele permaneceu em
silêncio. Se ele ousasse não aceitar eu adquiria meu exemplar de Cinquenta
Tons de Cinza no caminho e aprenderia tudo que tivesse para contar para a
mãe dele.
— Sabe, baby, eu estou com tanta saudade. Você não se importaria se
eu fosse com vocês, não é? — ele questionou entredentes e eu contive uma
risada.
— Isso, bem do jeito que a baby gosta — o provoquei. Eu tinha que
aproveitar, eu pegava o café daquele homem todas as manhãs, eu podia me
divertir um pouco.
— E você, mãe? Não vou atrapalhar, não é? — ele questionou e eu
não consegui ouvir sua resposta, mas torci para que não fosse uma recusa.
— Perfeito! Eu te busco em duas horas, querida. — A vitória era
doce. — Esteja preparada. — Era uma ameaça.
— Espere! Alex, não brinque comigo! O que você quer dizer
com... — Ele havia desligado.
Ele não ousaria me colocar em nenhuma situação constrangedora.
Não mesmo.
Mesmo com tempo de folga eu me levantei e fui começar a me
arrumar. Eu não sabia que tipo de roupas uma namorada de mentirinha
deveria usar. Eu deveria causar uma boa intenção? Deveria causar uma má
impressão? Percebi que não queria que Marge me achasse uma completa
idiota, eu queria que a mulher de sorriso fácil e que me chamava de querida
constantemente gostasse da minha presença.
Em meio a todas as opções um vestido de florido, modesto, mas que
marcava minhas curvas e prendi meu cabelo em um arco de tranças. Eu
parecia bem, não era o tipo de roupa que eu usaria no escritório, lá eu
costumava estar o mais básica possível, pronta para me camuflar na mobília
para não dar a Alex nenhum motivo para me criticar além de seu mau humor
de sempre.
Com um pouco de gloss e meus brincos dourados de argola, eu
parecia muito bem. Esperava que a aparência doce que eu tinha cultivado
milimetricamente enchesse o coração de Alex para que seu aviso maligno de
"esteja preparada", fosse esquecido. Mas eu sabia que aquele era um jogo em
que dois poderiam jogar, se Alex fizesse qualquer piadinha eu devolveria
duas vezes pior.
Me peguei sorrindo para a possibilidade. Eu sabia que era um acordo
sério, que envolvia a relação dele com a própria mãe e provavelmente ele
tinha ciência daquilo muito mais do que eu tinha, no entanto, havia um certo
clima de... camaradagem ao redor daquilo. Fora do escritório quando ele não
estava ladrando ordens para mim, Alex parecia ser uma pessoa minimamente
divertida e poderia até ser agradável.
Tínhamos nossos objetivos estabelecidos. Ele queria fazer a mãe um
pouco mais feliz e eu queria meu livro publicado, mas aparentemente aquilo
não impedia que a nossa relação antes estritamente profissional (e um pouco
homicida da minha parte) ficasse um pouco mais amigável.
Meu celular vibrou sobre a cômoda, a mensagem de Alex "já estamos
na porta de seu prédio" me pegou desprevenida, o tempo passando rápido
demais, pedras de gelo rodaram no meu estômago e eu me peguei nervosa.
Agarrei-me a minha bolsa entoando o mantra "é apenas um dia de compras, é
apenas um dia de compras".
Quando cheguei ao lado a corrente de ar frio passou por mim e eu
estremeci, deveria ter separado um casaco, mordi meu lábio inferior, congelar
seria um risco que eu correria, estava ansiosa demais para voltar e buscar uma
blusa e quando vi o Volvo estacionado em frente ao meu prédio e o rosto
sorridente e acenante de Marge Wright eu caminhei sentindo minhas pernas
amolecerem e o sorriso de Alex não fez nada para melhorar.
— Oi, bom dia — eu cumprimentei, subindo no banco do carona,
porque Marge por motivos que eu podia imaginar, estava no banco de trás. —
Como foi sua primeira noite em Seattle, Marge? — perguntei educada,
querendo que ela fosse o foco de todo aquele passeio.
— Foi ótimo, querida. Alex me levou para comer num restaurante
muito charmoso de comida tailandesa — disse pacificamente e eu relaxei
sobre o banco de couro. Não seria tão ruim, mantendo os assuntos neutros e
estabelecendo uma boa relação eu conseguiria sobreviver a aquilo. — Ah,
vocês dois não precisam agir todos puritanos perto de mim, podem se
cumprimentar como sempre fazem. — Marge riu e eu endureci. Seria mais
difícil do que eu tinha pensado.
Alex parecia relaxado e me deu um sorriso largo, a provocação
dançando em seus olhos, quando ele se inclinou em minha direção.
— Oi, baby — disse e eu prendi minha respiração. Expectativa se
apoderou irracionalmente de mim, mas o que eu podia fazer? Tinha sido um
beijo bom.
Mas aquele era um jogo de dois.
— Oi, senti sua falta — sussurrei e, também me inclinei em sua
direção. Ele arregalou os olhos por um segundo e então me deu um sorriso
perverso capturando meus lábios por um segundo e soltando-me do beijo
rápido. Mesmo com o pouco contato senti minha pele se arrepiar.
O bastardo era bom.
— Prontas para as compras? — questionou dando um sorriso
inocente.
Aquele seria um longo dia.
Capítulo 9

Marge Wright parecia uma força da natureza quando estava dentro de


uma loja de roupas. Eu assisti boquiaberta ela demandar de maneira doce
pedidos muito específicos de roupas muito caras. Os olhos da atendente se
iluminaram imaginando a comissão gorda que ela receberia. Alex e eu
ficamos parados ainda na porta do estabelecimento de roupas caras, meio sem
saber o que fazer.
— Nós devíamos entrar? — eu questionei baixinho para ele, sem tirar
os olhos da mulher que ria livremente quando a funcionária dizia que eles
tinham uma super oferta para camisas de seda.
— Nós devíamos chamar a polícia — Alex respondeu baixinho e eu
comprimi meus lábios para não gargalhar. Aparentemente o comportamento
quase compulsivo da mãe era surpresa para ele também. — É como se eu
estivesse assistindo aos Delírios de Consumo de Beck Bloom — ele
comentou e eu ergui uma sobrancelha.
— Você entende tudo de comédias românticas agora? — questionei
brincalhona e ele bufou me ignorando. Mordi um comentário malicioso
ouvindo o "esteja preparada" dele soar em meus pensamentos.
— ... e aqueles são... — Marge se virou em nossa direção e ergueu
uma sobrancelha. — O que você estão fazendo aí ainda, parados como se
estivessem amedrontados? — ela questionou e foi a vez da vendedora
esconder uma gargalhada.
— Estávamos olhando os manequins — falei impensadamente,
apontei para as figuras estáticas do meu lado sem realmente saber o que elas
vestiam. Quando os olhos de Marge se arregalaram e um sorriso cresceu em
seus lábios eu olhei confusa para o modelo.
Um manequim com uma barriga proeminente indicava a venda do
estoque de roupas de grávidas.
Foi a minha vez de arregalar meus olhos.
— Sara está procurando um presente para Aurora, a melhor amiga
dela, que está grávida — Alex interveio me lançando um olhar irritado. Não
passou despercebido por mim que ele se lembrava que minha melhor amiga
se chamava Aurora e que estava grávida. — Acho que essa não é a melhor
escolha, amor — ele afirmou quase entredentes, a última palavra soando
como um palavrão deveria soar.
— Claro, claro — respondi ainda meio em choque por ter apontado
para uma manequim grávida e por Marge Wright parecer estar prestes a botar
um ovo de animação. Aquilo. Não. Podia. Estar. Acontecendo.
— Eu preciso de um casaco de inverno — falei quase em desespero
querendo tirar o foco de mim e da minha gafe em aparentemente admitir uma
gravidez imaginária. — Você poder me ajudar a escolher um? — questionei
para Marge cujos olhos se iluminaram novamente com a possibilidade de
mais tempo de compras.
Ao meu lado Alex soltou uma risadinha parecendo ter esquecido o
lance com a falsa gravidez e seus ombros relaxaram. Era engraçado ver como
ele reagia aos sentimentos da mãe, quando Marge estava feliz ele estava feliz,
quando ela estava apreensiva ele estava apreensivo. Era bonito de se ver. Mas
vê-lo rindo de mim por estar preso numa manhã de compras não era nada
bonito.
— Por que você não vem comigo, amor? — indaguei agarrando um
punhado de sua jaqueta de couro e o puxando. — Sua opinião é tão
importante para mim — falei desafiadoramente dando um sorriso largo em
sua direção. Se ele pensava que passaria um dia livre, passeando pelo
shopping, enquanto eu estaria presa em provadores, ele estava muito
enganado.
— Eles não são a coisa mais doce que você já viu? — Marge
questionou cutucando a vendedora que nos olhava de sobrancelhas franzidas.
— O que vocês precisam? — a loira solicita questionou.
— Casacos, vestidos, calças, meias, preciso atualizar meu guarda-
roupa — provoquei colocando a imagem mental de Alex Wright passando o
dia todo sentado do lado de fora de um provador segurando sacolas e mais
sacolas.
— Perfeito. — Marge bateu palminhas e seguiu a vendedora. Meus
ombros arriaram. Alex passar o dia todo do lado de fora de um provador
implicava em eu passar o dia todo dentro de um provador.
— Parece que teremos uma manhã loooonga — Alex provocou
falando em meu ouvido fazendo com minha pele se arrepiasse, mas eu bati
meu cotovelo em suas costelas tentando afastá-lo.
E foi um inferno.
Para meu prazer não foi uma chatice somente para mim, cada vez que
Marge aparecia com mais uma pilha de roupas caras em minha direção Alex
era comandando a ficar de prontidão atrás da minha cortina para dar palpites
sobre as meus modelitos e dos da mãe dele. Vez ou outra eu via seus olhos
demorarem demais nas minhas pernas nuas por um short de paetês muito
curto ou no decote da blusa de seda que Marge insistiu que ressaltava meus
olhos. Nesses momentos ele engoliu em seco e rosnava um "perfeito".
Quando Marge saiu de perto depois de deixar uma pilha de saias
tubinho — eu nem sabia que podiam existir tantos modelos — eu coloquei
minha cabeça para fora da cortina. Os shorts que eu experimentava presos na
metade dos meus joelhos por serem pequenos demais e o suéter vermelho
pinicando a minha pele. Eu nunca mais iria querer fazer compras na minha
vida.
— Você não pode pará-la? — questionei Alex, que estava sentando
em uma postura desleixada e cansada sobre a cadeira de uma maneira que eu
nunca tinha visto, ele era como um menino sendo carregado pela mamãe para
as compras. Fofo.
— Você que inventou que queria reformar seu guarda-roupa. — Ele
se levantou esticando as costas, enquanto se espreguiçava. — Talvez eu
devesse fingir que tenho uma ligação e desaparecer por um tempo. Se eu tiver
que dizer "lindo", para mais um dos lenços de cabelo dela que são todos
exatamente iguais eu vou ter um ataque.
— Você não pode me deixar aqui sozinha com sua mãe. Eu te disse,
um passo para fora do meu lado e eu vou até a livraria mais próxima adquiro
meu exemplar de Cinquenta Tons de Cinza e dou detalhes gráficos para
Marge — ameacei e ele me deu um sorriso brilhante não me levando a sério.
— Esse acordo... — ele começou a dizer, mas sua mãe vinha em
nossa direção, perto demais e poderia ouvir seja lá o que ele fosse dizer. Para
proteger nosso segredo e somente para isso eu agarrei sua camisa e colei
nossos lábios juntos.
Minha reação pareceu pegá-lo de surpresa. Eu não esperava que ele
reagisse, mas suas mãos agarraram a minha cintura mesmo com a cortina nos
separando e colou nossos corpos. Estremeci em seus braços.
Todas as sensações paralisantes da manhã de sábado estavam ali. O
arrepio, as suas mãos firmes e quentes podendo ser sentidas mesmo através
da camada de tecido. E novamente eu me via fora de mim, como se eu não
tivesse mais controle.
— Tão lindos — Marge falou com a voz transbordando de felicidade
e nós nos separamos, no entanto, Alex manteve suas mãos presas na minha
cintura e eu deitei em seu peito dando a Marge um sorriso largo que
provavelmente não era convincente.
— Mãe, a Sara está com fome. Podemos parar as compras por agora
para almoçar? — ele falou e Marge fez biquinho. Belisquei a lateral de Alex
por ele jogar a culpa em mim tão covardemente e ele deu um pulinho. Se no
escritório Alex parecia me roubar todos os anos de vida, ali, perto de sua
mãe, parecíamos dois adolescentes.
— Claro que podemos! O restaurante na praça de alimentação tem
comidas maravilhosas. Vamos comer? — ela sugeriu e eu balancei a cabeça
querendo desesperadamente sair daquela situação complicada em que eu me
encontrava com um short apertado nos meus joelhos e nos braços do meu
patrão. — Venha, Alex. Sei que você não consegue tirar as mãos dela, mas
ela precisa vestir as próprias roupas — Marge brincou e eu travei meu
sorriso. Não tinha como ficar mais constrangedor.
Depois de passar nossas compras e Alex carregar literais quinze
sacolas da mãe fomos para o adorável restaurante de comida vegetariana que
Aurora e eu comíamos quando estávamos no shopping. Estremeci ao
imaginar os comentários de duplo sentido que minha melhor amiga teria ao
me ver naquela situação.
Fizemos os pedidos e novamente eu me vi ao lado de Alex, enquanto
Marge se posicionava a nossa frente com um sorriso largo. Eu podia ver a
felicidade que ela transmitia ao ver seu filho e eu juntos. Eu desejei que em
breve, quando toda aquela armação terminasse, que Alex realmente tivesse
uma namorada amorosa para apresentar a mãe e que ela pudesse sorrir e ser
doce verdadeiramente, sem um contrato na história. Por algum motivo a ideia
de uma morena escultural ao lado de Alex com a cintura enlaçada pelas mãos
firmes dele me causava uma pontada vazia no peito. Respirei fundo tentando
me livrar da sensação.
— Sabe de uma coisa... — Marge começou a dizer me tirando da
minha linha de raciocínio estranhamento dolorosa. — Vocês nunca me
contaram como começaram a sair... — disse curiosa quando a garçonete
colocou nossos pratos na mesa. Eu imediatamente travei.
"Bem, começamos a 'namorar' segundos antes de você entrar no
escritório. Tão romântico. E a propósito ele me prometeu um contrato, não é
adorável?". Aquela com certeza não era a resposta correta. Por impulso enchi
minha boca com brócolis gratinado deixando que Alex inventasse uma
história. Afinal de contas era culpa dele, sábado teria servido para alinharmos
essas histórias, não para terminar comigo sentada em seu colo devorando sua
boca. Uma golada de Coca-Cola foi adicionada a equação me impedindo de
soltar qualquer comentário desesperado.
— Essa é a minha história favorita — Alex disse e me olhou com um
traço de diversão, como se meu desespero o divertisse. — Era a
confraternização de Natal da empresa. O pessoal da contabilidade tinha
enchido o escritório de luzinhas e ela tinha levado deliciosos biscoitos de
chocolate. Sam do controle de qualidade colocou All I Want For Christmas Is
You e de repente eu a vi... — A voz dele pareceu cheia de emoção. — Sara
estava usando um suéter horrível de Natal, mas que nela ficava perfeito, duas
tranças do lado dos cabelos e entregava biscoitos para os filhos dos
funcionários, sob as luzes de Natal ela parecia brilhar, enquanto cantarolava
sorridente. Olhando-a daquele jeito era como se todo o brilho da sala tivesse
sido sugado do lugar e se concentrasse nela, eu devia parecer um idiota do
outro lado da sala olhando-a como se um milagre tivesse acontecido diante
dos meus olhos e para ser sincero realmente tinha acontecido, um anjo tinha
aparecido ali. Ela já trabalhava para mim, é claro, mas aquela pareceu ser a
primeira vez que eu podia vê-la de verdade. Eu enchi um copo com ponche
sem álcool em busca de alguma coragem e me aproximei... e desde então eu
nunca mais me afastei. — Ele passou o braço sobre os meus ombros num
abraço falsamente caloroso. Eu parei embasbacada.
Todos os detalhes daquilo eram verdade. A festa realmente tinha
acontecido, eu estava de suéter, eu estava de tranças, eu me lembrava de tocar
All I Want For Christmas Is You, enquanto eu servia biscoitos. Todos
aqueles pequenos detalhes calorosos que ele jogou eram verdade. A única
diferença era que a noite não tinha terminado com ele se aproximando de
mim, na verdade, eu pensava que Alex nem tinha me notado ali, mesmo
quando eu entreguei a lembrancinha que todas as secretárias tinham feito.
Mas, ainda assim, ele havia se lembrado de mim com detalhes e acrescentado
um brilho enervantemente amoroso, colorido tudo com os tons que só olhos
apaixonados pareciam enxergar. Por algum motivo irracional meus olhos se
encherem de lágrimas.
— Ah meu Deus você está emocionada! — Marge comentou, seus
próprios olhos brilhantes e o nariz mais avermelhado. Senti o olhar de Alex
em mim e desviei os olhos. — É uma história linda, parece um conto de
fadas.
— É, não é? — respondi sem poder realmente olhá-lo.
Eu sabia que aquelas lindas palavras de amor eram ditas em benefício
da própria mãe que achava que tínhamos um relacionamento. Mas eu não
podia controlar a forma como meu coração tinha estado acelerado. Era só um
acordo, eu tentei me lembrar, mas, ainda assim, a emoção me assaltou. Fingir
ser a namorada de Alex Wright seria mais difícil do que eu tinha imaginado.
Capítulo 10

Acordei cedo para trabalhar no meu livro. Fiz uma xícara de café e
comi uma parte de um abacate. Tentei não pensar muito nos motivos pelos
quais eu estava em casa naquele dia e tentei me concentrar no trabalho que eu
tinha pela frente. Estar envolvida com Marge e Alex Wright não era somente
parte de uma loucura que meu patrão tinha me colocado, mas parte de um
contrato. Eu tinha que trabalhar no meu manuscrito.
Escrever era parte fundamental de quem eu era. Mesmo tendo feito na
verdade administração eu sempre acabava me esgueirando pelas salas e
colocando em meu horário matérias que envolviam literaturas. Administração
era no que eu era boa, literatura era o que eu fazia para viver.
Sorri ao me lembrar que foi me escondendo dentro da aula de
Fundamentos da Literatura que eu tinha conhecido Aurora. Mandei uma
mensagem para ela, a única pessoa que tinha lido o rascunho do meu livro,
avisando que eu estava escrevendo e mandei bom dia para minha mãe que
tinha enchido minha caixa de mensagens com vídeos coloridos de bom dia.
Minha história era um romance romântico histórico, completamente
influenciada por Jane Austen, eu tinha que admitir. E contava a história de
uma jovem rebelde filha da nobreza que acabava se encantando por um
misterioso lorde que vai passar um tempo na propriedade de seu pai.
A história já estava 70% escrita e revisada, eu tinha certeza de
absolutamente tudo que já estava pronto e colocaria minha mão no fogo pela
qualidade do que já tinha escrito. Foram longos momentos de pesquisa e
preparação e eu não tinha dado espaço para pontas soltas. No entanto, o
momento em que eu tinha parado estava ligado ao fim do ponto de virada e o
caminho para o "felizes para sempre".
Sentei-me em frente ao computador e olhei para a tela em branco. Ali
deviam estar confissões de sentimentos mais profundos, do amor que tinha
nascido da impossibilidade. Eu sabia quais os rumos a história devia tomar,
mas não fazia ideia de como demonstrar aquilo. Tomei um gole do café e
peguei meu caderno de anotações para ler algumas das frases que eu tinha
rascunhado.
— Você me faz feliz — li em voz alta com uma careta a única coisa
que eu tinha reservado de sentimentalismo para aquele capítulo.
A verdade é que eu poderia passar horas destrinchando cenas
complexas de lutas a cavalo, fazendo pesquisas especificas sobre costumes de
épocas antigas, mas quando se tratava de transmitir a verdade do amor eu era
um total fracasso.
Eu acreditava no amor, obviamente. Mas não tinha tido o suficiente
dele em minhas amostras de relacionamentos fracassados. Alguns casos de
uma noite, alguns namoros de poucos meses e que esfriavam antes mesmo de
começarem. Eu não conseguia escrever suficientemente bem sobre amor,
porque ele nunca tinha existido naquela intensidade para mim. Como eu
poderia falar de coisas profundas do coração sendo que todos os meus
relacionamentos até aquele momento tinham sido rasos?
— E agora eu estou num relacionamento falso — falei em voz alta,
contemplando o quão ferrada eu estava sentimentalmente.
Meu "relacionamento" atual não passava de um acordo que envolvia
mentir para uma senhora e dar beijos quentes sentada no meu sofá. Nada
naquela mentira poderia me ajudar.
"Olhando-a daquele jeito era como se todo o brilho da sala tivesse
sido sugado do lugar e se concentrasse nela, eu devia parecer um idiota do
outro lado da sala olhando-a como se um milagre tivesse acontecido diante
dos meus olhos e para ser sincero realmente tinha acontecido, um anjo tinha
aparecido ali". As palavras falsas de Alex encheram minha cabeça naquele
momento, e meu coração traidor ousou bater mais rápido. Não havia
sentimento ali, mas, ainda assim, suas palavras continham uma emoção forte
e que me desafiava.
Alex comandava o mercado literário no nosso país. Os romances que
ele escolhia e editava a dedo eram Best Sellers na lista dos mais vendidos por
semanas. Eu tinha muito que aprender com ele naquele sentido. Mentir
sentimentos, era parte do trabalho dele, palavras doces e cheias de emoções
eram o que garantiam os TOP10. E por algum motivo aquela constatação
trouxe um vazio estranho ao meu peito.
Era por que eu sentia que não conseguia fazer o mesmo? Era por que
eu invejava sua capacidade de falsear? Não, eu sabia que não. Era porque
suas palavras tinham sido direcionadas a mim.
Com um suspiro resignado me levantei para buscar mais café,
decidindo deixar aquela parte da história para mais tarde. No caminho da
minha busca por mais cafeína meu celular tocou e eu suspirei quando vi o
nome de Alex brilhando em minha tela. Aparentemente a folga tinha sido
estabelecida para que eu estivesse a disposição dele o dia inteiro. Percebi com
certa insatisfação que na verdade, a companhia dele e de Marge não eram de
todo ruim.
— Alô — atendi meio a contragosto.
— Sara — Alex cumprimentou e eu percebi a animação exagerada em
sua voz. Sua mãe provavelmente estava perto, mordi uma risada. Era
engraçado vê-lo atuando. — Amor, estamos perto da sua casa, quer
almoçar? — questionou relaxado e a forma como o apelido carinhoso soou
tranquilo em sua voz me fez estremecer.
— Almoçar? — disse curiosa olhando ao redor procurando um
relógio e me vi surpresa por já estar perto do meio-dia. Meu trabalho não
tinha rendido nada. — Claro, me dá dez minutos? — questionei olhando ao
meu redor pensando no que vestiria.
— Ok, estaremos em frente à sua casa — confirmou e eu desliguei
antes que tivesse que ouvir algum tipo de despedida melosa.
Me concentrei em me vestir adequadamente, dessa vez colocando o
suéter vermelho que eu havia comprado antes e calças jeans escuras. Prendi
meu cabelo num rabo de cavalo, peguei minha bolsa, carteira, chaves e
celular, escovei meus dentes e corri para fora em tempo recorde me
perguntando se eu devia ter posto algum tipo de maquiagem.
Quando estava do lado de fora percebi que Alex não estava me
esperando no carro como tinha feito no dia anterior. Ele estava encostado,
relaxado do lado de fora na porta do carona usando malditos óculos escuros
que o deixavam impossivelmente gostoso. Contive a vontade de revirar os
olhos para meu próprio pensamento e me aproximei timidamente.
— Oi — cumprimentou e quase devagar demais se aproximou para
beijar-me e eu percebi que já estava meio que acostumada com sua presença
física. — Sua voz estava diferente no telefone, está tudo bem? —perguntou
baixinho e eu dei um sorriso contido, mesmo que sua mãe estivesse dentro do
carro atenta ao seu próprio telefone eu sabia que aquilo, de alguma forma era
uma demonstração para ela então me aproximei dele também e agarrei um
punhado da camisa verde musgo que pendia na lateral do seu corpo numa
espécie de abraço.
— Está tudo bem — respondi entre sorrisos e ele me olhou curioso
antes de me beijar suavemente por um segundo.
Fingir até que a mentira parecesse verdade. Aquela aparentemente era
uma lição que eu devia aprender com Alex, porque quando seus lábios se
aproximaram dos meus eu pude sentir uma centelha que parecia verdadeira
em seu beijo.
Alex abriu a porta para mim gentilmente e eu entrei com um sorriso
contido, mas que aumentou verdadeiramente para cumprimentar Marge que
largou seu celular para me receber com seu habitual bom humor.
— Marge, é muito bom vê-la — eu ofereci verdadeiramente, quando
Alex entrou na porta do motorista. — Espero que tenha passado bem a noite.
— É bom vê-la também, Sara — Marge disse radiante e eu me
lembrei da minha mãe. Quando toda aquela loucura acabasse talvez eu tirasse
o tempo de férias para viajar com ela. — Alguma indicação de restaurante
para irmos? — perguntou.
— Que tal aquele tailandês que você disse que gostou? — ofereci e ao
meu lado Alex sorriu.
— Comida tailandesa é a minha favorita aqui em Seattle, vocês têm
ótimos restaurantes — Marge disse e eu me encostei no banco, sentindo que
aquele podia ser um almoço tranquilo, longe de assuntos que eu não saberia
como responder. — Jane vai colocar comida tailandesa no cardápio, ela
também gosta tanto quanto eu.
— Você e Jane sempre tiveram muito em comum, sua sobrinha
favorita — Alex apontou enciumado e eu fui incapaz de não rir do meu
sempre carrancudo patrão se mostrando um filho ciumento.
— Seja bonzinho, Alexander — A mãe dele chamou sua atenção e ele
revirou os olhos. — Jane está mais do que ansiosa para conhecê-la, Sara. Na
verdade, toda família está.
— Perdão? — disse. O que ela queria dizer com "toda família"?
— Eu liguei para Jane, Patrice, Simone, Clara e Percy — falou os
nomes que eu aparentemente deveria saber. — Todos estão mais do que
curiosos sobre a namorada de Alex, você já é famosa e querida por todos nós.
“Por todos”. Aquelas duas palavras me empalideceram e eu olhei
assustada para Alex que apertou suas mãos no volante.
— Não tem nada demais no fato de eu estar namorando, mãe — ele
tentou dizer de maneira relaxada, mas soou falso até mesmo para mim.
— Tem sim, estão todos animados porque é a primeira vez desde... —
Marge parou no meio de sua frase e eu olhei curiosa pelo retrovisor. Ela
arregalou os olhos como se tivesse cometido uma grande falha. Alex se
endireitou no seu banco. Alguma coisa estava acontecendo ali. — Desde a
última vez que você apresentou alguém para eles. — Marge sorriu, mas eu
podia ver que aquela era uma estratégia para tentar consertar o clima que já
estava definitivamente estragado.
Curiosidade me corroeu. Eu obviamente não sabia sobre o que ela
estava falando, eu tinha zero conhecimento sobre a vida amorosa de Alex. Às
vezes as secretárias fantasiavam sobre o quão festeiro ele deveria ser e com
quantas mulheres deveria sair, mas ele era tão discreto que eu sequer sabia se
ele era hétero. Aquela frase devia ter me deixado no mínimo vingada, saber
que meu tormento diário aparentemente tinha tido seu coração partido no
passado devia me dar uma sensação vil de justiça, mas eu estava... sentida?
Alex aumentou o som do rádio e o vinco no meio de suas
sobrancelhas não desapareceu. Marge tinha uma expressão culpada no fundo
do carro e eu estava mais do que confusa. Por via das dúvidas não tentei falar
nada. Eu fingia estar num relacionamento estável com ele, nossos antigos
namoros com certeza seriam públicos entre nós, mas como eu não sabia
absolutamente nada sobre o que se tratava resolvi assumir a posição de
namorada ciumenta, como se falar sobre aquilo me incomodasse. Meu
coração se quebrou por ter que colocar Marge no lugar de vilão, mas eu não
podia arriscar tudo falando algo sem sentido.
— Eu vou estacionar, vocês podem me esperar aqui — Alex falou,
respirando fundo algumas vezes e dando um sorriso forçadamente simpático
para a mãe quando nós duas saímos do carro.
Marge olhava para baixo e sua postura era tão culpada que eu desviei
o olhar e enfiei as mãos nos bolsos tentando manter uma fachada alheia.
— Ela não é mais importante para ele. — Minha falsa sogra quebrou
o silêncio. Merda. — Eu estava preocupada, depois... dela ele ficou centrado
no meu tratamento e depois disso passou a ter uma vida boêmia. Quando ele
me disse que tinha alguém eu quase não pude acreditar e depois que eu vi a
maneira como ele te olha... Sara, Lauren é parte do passado. Vendo vocês eu
sei que isso é cem por cento verdade — ela falou, emoção e devoção saindo
por sua voz, culpa me abateu quando eu percebi que aqueles eram
sentimentos direcionados a mim. Marge achava que eu era a mulher que
havia curado o coração do filho dela.
E então de repente eu não podia mais fazer aquilo. Eu pensava em
meus próprios pais quando tomei aquela decisão, no quanto de conforto eu
daria a eles, mas nunca pensei naquela situação. Marge achava que o filho
dela estava feliz, não mais traumatizado com um término difícil. Mas se ele
não estivesse? Eu estava colaborado não só para uma mentira inocente, eu
estava sendo cúmplice de algo grande, não permitindo que uma mãe soubesse
o que estava acontecendo com o filho.
— Marge... — comecei a dizer, minha voz ardendo em culpa.
— Vamos entrar? — A voz de Alex me sobressaltou e seu toque
quente e ao mesmo tempo revoltantemente acolhedor na base da minha
coluna me despertou. — Aposto que o restaurante já está cheio — comentou
e havia de novo aquele tom galanteador e divertido que ele reservava para
falar perto de Marge.
— Claro, claro. — Marge se animou ao ver o filho ficando mais
contente.
— Está tudo bem, querida? — questionou e eu olhei para seu rosto
piscando algumas vezes tentando voltar para o papel que eu deveria
desempenhar.
— Claro — falei exageradamente animada. Marge tornou a sorrir
largamente vendo a paz ser reestabelecida. Mas Alex e eu sabíamos que algo
estava errado.
Ele se inclinou como se fosse me dar um beijo logo acima da orelha,
mas sussurrou no meu ouvido:
— Conversamos depois — Alex me garantiu e eu assenti
minimamente.
Capítulo 11

Marge, Alex e eu nos sentamos em um silêncio que era confortável,


sem aquele clima estranho do carro. Eu ainda estava curiosa sobre a tal
Lauren, sobre como a simples menção a ela podia fazer todo o bom humor
(que eu não conhecia) de Alex desaparecer em questão de segundos. Eu
estava penalizada por ele, muito mais do que num nível simples de empatia.
Ele devia ser a última pessoa na face da terra com quem eu deveria
empatizar, mas ainda assim saber que seu coração tinha sido magoado me
deixava chateada.
— Oi, eu sou o Jackson, serei o garçom de vocês essa manhã. Já tem
os pedidos? — O rapaz bonito, meio jovem demais, com cabelos escuros e
rosto simpático cumprimentou. Seu sorriso demorou apenas alguns segundos
em Marge e Alex e depois foi direcionada para mim. Ergui uma sobrancelha,
ele provavelmente ainda estava na faculdade e sorria tão brilhantemente para
mulheres acompanhadas? Corajoso.
— Eu vou querer um Pad Thai — Alex falou azedo e se virou para a
mãe.
— Para mim o mesmo — Marge pediu e Jackson anotou no seu
bloquinho.
— Eu vou de Som Tum — pedi e o garçom me olhou como se eu
tivesse dito algo brilhante.
— Ótima pedida! É um prato bem picante, mas você parece que gosta
de coisas quentes. — Aquela tentativa de duplo sentido foi muito mais
divertida do que sedutora e eu imaginava que aquela fosse sua intenção. Nos
anos de faculdade eu trabalhei em uma sorveteria e sabia que às vezes flertar
com os clientes de um jeito engraçadinho podia render boas gorjetas.
— Sim, ela gosta — Alex respondeu o tom repentinamente possessivo
e passou o braço ao redor dos meus ombros.
Jackson ergueu uma sobrancelha e eu me controlei para não bufar, no
entanto, quando olhei para Alex havia algo quase... selvagem em sua
expressão. Ele estava realmente disputando testosterona com um garoto?
Aparentemente sim, porque o jovem aceitou o desafio dando mais um de seus
sorrisos brilhantes antes de se virar, o que fez meu chefe endurecer sua
postura ao meu lado.
— O menino só estava sendo simpático, Alex — Marge falou
parecendo surpresa.
O quê? Aquela não era a conduta comum de Alex? Eu tinha teorizado
que um garçom dando em cima de sua namorada fazia com que ele ficasse
em estado de alerta e naturalmente aquilo seria parte do show para Marge,
mas a forma quase chocada como a mãe o repreendeu me fez perceber que
talvez ele estivesse exagerando no personagem.
— Amor, é só um menino tentando arranjar 10% a mais de gorjeta —
falei suavemente. A performance lógica seria eu dizer aquilo e ele amolecer
sob o meu pedido, seria suave e gentil, uma amostra açucarada para Marge.
— Ele está brincando com fogo e não sabe — Alex respondeu
unicamente olhando por cima do ombro.
Ok... agora eu tinha me perdido em seu personagem.
— Sara, você ficou ótima nesse suéter. Vermelho é definitivamente a
sua cor — Marge comentou para mudar de assunto, mas Alex não se
demoveu de sua postura meio protetora, meio irada.
Cansada demais para tentar entender qual era seu objetivo eu me
deixei entrar na conversa tranquila com Marge.
— Eu e minha amiga Aurora já fizemos aqueles testes para saber
quais cores combinam mais com a gente. Fiquei surpresa com o vermelho, eu
tinha certeza de que me deixaria como um pimentão... — comecei a falar e
logo nos inteiramos naquela conversa que não envolvia garçons atiradinhos e
ex-namoradas destruidoras de coração.
Alex continuou olhando em direção a cozinha, como se estivesse
prestes a saltar naquela direção. Mas o que mais me chamou a atenção foi o
leve carinho que a ponta de seus dedos começaram a me fazer no ombro.
Enquanto Marge me falava das dificuldades de combinar lenços para a
cabeça com peças de roupas mais sóbrias eu olhei pelo canto de olho e meu
suposto namorado não parecia estar prestando atenção no que fazia. O
carinho era uma demonstração natural.
Aquilo me desconcertou. Alex era bom demais naquilo, em fingir
estar confortável ao meu lado, em demonstrar aqueles pequenos gestos que
davam verdade ao relacionamento. Cada olhar, cada carinho mínimo.
Provavelmente era tudo planejado e ele só era um ator muito bom, mas não
deixava de ser desconcertante porque por algum motivo desconhecido meu
coração insistia em bater mais forte.
— Vermelho fica realmente muito bem em você — ele atirou de
repente e me olhou de cima a baixo. Um tipo de olhar que não se dá na frente
da mãe, um tipo de olhar que não se dá a alguém que você finge ser
namorada. Minha respiração travou.
A atração potente que eu sentia por Alex apareceu naquele momento.
Eu tentava ignorar aquele fato, ignorar que quando seus dedos tocavam a
minha pele eu sentia o arrepio enervante surgir. Ignorar que um simples tocar
de lábios fez com que eu me perdesse.
— Aqui está. — Jackson voltou com a bandeja equilibrando nossos
pratos e servindo cuidadosamente Marge e eu, deixando Alex por último e
sendo mais desleixado. — Trouxe também, por minha conta, um suco de
romã. É muito refrescante e afrodisíaco. — A última palavra foi dita
diretamente olhando para Alex. Não era mais sobre mim, era uma espécie de
“quem tem o maior pau”.
— Obrigada, Jackson — Marge agradeceu e eu dei ao garoto um
sorriso alegre.
— Você pode pegar um copo para você, Jackson. É por minha conta.
Você parece precisar — Alex respondeu e eu comprimi meus lábios para
suprimir uma risada. Meu super poderoso chefe, que era capaz de me fazer
tremer com um olhar, estava competindo com um garoto de no máximo vinte
e usando um suco afrodisíaco como intermédio. Eu não aguentei.
A gargalhada que escapou da minha garganta foi alta e ruidosa,
provavelmente cabeças se viraram em minha direção, mas eu estava me
divertindo demais para perceber. Só me dei conta quando a risada alta de
Marge me acompanhou.
O rosto de Alex se desfez de sua raiva e passou a tentar esconder sua
própria risada.
— Me desculpe! — eu falei ainda entre gargalhadas e me inclinei em
sua direção sem pensar encostando minha cabeça em seu ombro. Alex me
abraçou e deixou a risada fluir. Era raro vê-lo daquele jeito, em anos
trabalhando com ele, eu só o tinha visto rir daquela maneira na presença da
mãe.
— Certo, Jackson, obrigado pelo suco — Alex respondeu dando a
devida importância ao garoto: nenhuma. Ele não tinha motivos para estar tão
irritado e eu achava que talvez não tivesse nada a ver com seu
comportamento normal. Seria aquela uma reação ao falarmos de sua ex-
namorada? Ou uma improvisação para a mãe?
— Me desculpe, não sei o que deu em mim — ele pediu, quando eu
me afastei de seu abraço. Um segundo de comunicação silenciosa passou por
nós. Ambos parecíamos confortáveis demais nos braços um do outro, mas a
promessa da conversa ainda pairava ali e ele sabia que eu iria questioná-lo.
No entanto, eu sabia, de alguma forma, que não podia questioná-lo agora, que
devia lhe dar espaço. Pela primeira vez priorizei ele em detrimento ao nosso
contrato.
— Está tudo bem — eu ofereci. — Hoje está sendo um dia cheio,
podemos conversar depois. — Inesperadamente ele se inclinou e beijou
minha têmpora.
— Obrigado — ele sussurrou, deixando transparecer toda a gratidão
que ele realmente sentia.
Capítulo 12

Sara foi genial em dizer que precisava trabalhar em seu romance


quando o almoço terminou. Eu me sentia aliviado em não a ter por perto pelo
tempo que iria se seguir. Estranhamente desde que nosso acordo torto tinha
começado eu conseguia encontrar certa diversão em sua companhia. Na
empresa, eu me mantinha ainda mais longe dela do que me permitia estar de
outros funcionários, não me dando o luxo de acabar cedendo a atração que eu
sentia por ela. No entanto, durante aquele curto espaço de tempo em que ela
fingia ser minha namorada eu tinha descoberto outro ponto enervante sobre
ter Sara Webber por perto: eu gostava de sua companhia.
Engraçada, inteligente e uma mentirosa ruim. Pequenos pontos de sua
personalidade que eu não podia observar no escritório, mas que com ela se
permitia mostrar, enquanto sustentávamos aquela farsa.
Mas especialmente depois de falar sobre Lauren eu não a queria por
perto. Não queria ninguém por perto.
— É uma pena que você tenha que continuar trabalhando mesmo nas
férias, Sara — minha mãe falou, enquanto me acotovelava nas costelas, me
repreendendo.
— É o tipo de trabalho que eu gosto de fazer, mas que precisa ser
feito de qualquer forma, mesmo nas férias. — Sara sorriu e eu percebi seus
olhos brilhando ao falar daquele pedaço específico do trabalho. Eu sabia que
ela era uma secretária competente, sabia que ela era organizada e
provavelmente mais competente do que qualquer um tinha sido naquela vaga,
mas dava para ver que escrever era a sua paixão. Ela não estava na Wright
Company simplesmente porque pagávamos bem, Sara estava na minha
empresa porque amava o que fazíamos.
Talentosa. Mais um ponto acrescentado em sua lista de qualidades
que só parecia aumentar. Era mais fácil não fazer qualidades se empilharem
quando ela estava sentada atrás daquela mesa.
— De qualquer forma, foi ótimo almoçar com você e de qualquer
forma hoje seria um dia que não poderíamos passar juntas, embrulharemos as
lembrancinhas do casamento da minha sobrinha então..., mas vou compensar!
Sei que você tem coisas muito melhores para fazer durante suas férias do que
acompanhar essa velha sogra para os lugares, mas eu estou realmente tão
feliz em conhecer você.
Sara, endureceu e deu um de seus sorrisos travados. Eu podia ver
culpa estampada em seu rosto. Toda vez que minha mãe a elogiava ela
parecia pronta para sair correndo, enquanto gritava desculpas.
— Também estou muito feliz em conhecê-la, Marge — Sara falou
verdadeiramente, enquanto apertava as mãos da minha mãe e lhe cedia um
sorriso caloroso.
— Então vamos deixar você subir, amor — disse não querendo cortar
o momento, mas sabendo que se Sara fosse puxada demais poderia se fundir
ao seu espiral de culpa.
— Obrigada pelo almoço, foi realmente muito agradável — Sara
agradeceu sorrindo para minha mãe e depois dando um passo em minha
direção. — Nos vemos depois? — ela perguntou colocando doçura em sua
voz, mas percebi que não era do tipo falso que ela tinha me dado em
provocação nos primeiros dias de nosso acordo.
— Nos vemos depois — prometi sabendo sobre o que ela estava
falando. Minha reação exagerada fez com que ela ficasse preocupada e eu
tinha que garantir que nada do que tinha acontecido estaria matutando em sua
cabeça e transformando aquilo numa coisa muito maior do que era.
Me inclinei em sua direção pousando minha mão em sua cintura
macia e fina e plantei um beijo demorado em seu pescoço. Demonstração
para ela e para minha mãe. Meus lábios imediatamente se aqueceram sobre a
pele que cheirava atrativamente a morangos. Ouvi ela dar um suspiro baixo,
só nós dois conseguíamos escutar, e me afastei dando-lhe um sorriso de lado.
Sara piscou algumas vezes e tropeçou para trás.
— Ótimo almoço — ela repetiu e eu comprimi meus lábios para não
rir. Sara não sabia disfarçar bem, minha proximidade física realmente a
afetava. — Vejo vocês depois.
— Até mais, Sara — minha mãe falou e nós dois voltamos para o
carro, enquanto minha namorada de mentira subia os três degraus da entrada
de seu prédio.
Eu conhecia Marge Wright suficientemente para saber que seu
silêncio, enquanto saíamos do bairro residencial era muito bem escolhido.
Soltei uma respiração pesada, minha mãe era impossível.
— Solte, mãe — falei e ela bufou ao meu lado.
— Quando eu te vi com Sara tinha a certeza de que o caso com
Lauren tinha sido superado, mas a forma como você reagiu hoje... — ela
começou a dizer. — É minha culpa, eu não devia ter trazido o assunto desse
jeito, mas... filho eu me preocupo com você.
De repente tudo fez sentido. Minha mãe não estava ali só porque tinha
medo de que eu tivesse perdido algo durante o tempo que tinha passado ao
lado dela por causa da doença. Ela estava ali, também, porque achava que eu
não tinha superado um coração partido. Travei minhas mãos no volante.
— Eu estou bem, mãe. Estou namorando Sara, seguindo em frente.
Perfeitamente bem — confirmei tentando soar incisivo.
Eu não estava bem. Dois anos atrás eu tinha pegado a mulher que eu
amava, que eu tinha pedido em casamento, com meu melhor amigo. Esse tipo
de merda muda uma pessoa. Tínhamos descoberto o câncer, estávamos todos
apreensivos e de repente eu estava vulnerável, com medo de perder aquela
que era a minha única família. Num movimento desesperado eu quis começar
uma nova, aprofundar os laços que eu tinha.
Comprei um anel de diamantes e entreguei para ela, Lauren chorou e
respondeu “sim, mil vezes sim”, me dando o porto seguro que eu precisava. E
então ela me traiu.
— Se eu não tivesse visto você com Sara diria que está mentindo, a
forma como reagiu... mas posso ver que essa moça te faz bem. — Ela parou
por um segundo e então sorriu. — Não perca Sara, filho. Sei que vocês estão
juntos há poucos meses, mas dá para ver que vocês fazem bem um pelo
outro. A forma como vocês sorriem, como se tocam, como guardam uma
camaradagem... — ela suspirou feliz. — Queria que Jane e Louis tivessem
isso as vésperas do casamento, eles se amam, eu sei, mas Jane ameaçou
cortar a cabeça do coitado umas nove vezes desde que eu cheguei.
Relaxei com a mudança de assunto.
— Jane sempre foi estourada, não vai me surpreender se ela xingar o
padre durante a cerimônia. — Eu ri. Eu gostava da minha prima, tínhamos
nos afastado desde o meu término com Lauren, porque as duas eram amigas,
mas eu estava feliz por ela estar feliz com Louis, o cara tranquilo que fazia
sua própria cerveja artesanal.
Dirigi em um silêncio que não era mais carregado. De alguma forma a
farsa que eu mantinha com Sara tinha convencido minha mãe de que eu
estava bem. Eu não gostava de pensar nas implicações disso, não gostava de
pensar que talvez eu não estivesse, não gostava de pensar que quando eu
contasse para minha mãe do término com Sara sua reação tornasse a ser
exagerada. Mas por um momento me deixei não me preocupar com aquilo,
um problema de cada vez.
— Obrigada pela carona, filho — minha mãe agradeceu, quando
paramos em frente da casa de cercas brancas onde Jane morava e que agora
servia como uma espécie de QG do casamento. Estremeci só de pensar no
tipo de trabalho que elas estavam fazendo ali, criar cachos em fitas com
tesouras e o tipo de coisa que me mataria de tédio.
— Não foi nada, mãe. Quando quiser me ligue e te busco — ofereci,
gostava do tempo que passávamos juntos.
Ela desafivelou o cinto e saiu do carro, mas antes de fechar a porta me
deu um de seus sorrisos calorosos e cheios de sabedoria.
— É o amor e não o tempo que cura todas as feridas. Você vai ficar
bem, eu prometo — ela falou e eu dei um sorriso de lado.
Não saí dali imediatamente, assisti ela entrar na casa tipicamente
familiar e então fiquei de espectador da chuva que começava a cair pelo para-
brisa. Eu tinha desejado ficar sozinho depois da carga emocional que apenas
falar de Lauren tinha trazido, mas percebi com certa surpresa que havia uma
pessoa que eu queria que estivesse ali. Um par de azuis arroxeados, cabelos
louros e um sorriso que parecia iluminar tudo.
Capítulo 13

— Alex, eu não acho que seja mentalmente... — Comecei a dizer para


meu reflexo no espelho, mas pareceu estúpido até para os meus ouvidos. —
Ok, melhor: eu não sou um tapa buracos na sua vida... credo, que pesado.
Alex, sua mãe acha... eu acho que...
Eu estava desde as sete da manhã tentando ensaiar o que diria para
Alex na reunião que tínhamos hoje. Depois de sua mensagem: “temos que
acertar algumas partes da história. Beijos, Alex”, uma série de situações
passaram pela minha cabeça. Ponto um: estávamos mentindo para a mãe dele
sobre um relacionamento, ponto dois: podíamos estar prestes a mentir para
grande parte da sua família, ponto três: ele parecia ter problemas com seu
último relacionamento, ponto quatro: a mera mensagem “beijos, Alex”, tinha
feito todo meu corpo se arrepiar.
— Merda, merda, merda, merda, merda — falei para mim mesma no
espelho. Era demais, muitos pontos a serem analisados, alguns emergenciais,
outros enervantes, alguns amedrontadores.
O toque do celular me despertou da minha atuação e eu olhei para o
aparelho vibrando ao som One Direction nervosa com a possibilidade de ser
Alex, mas quando foi o nome de Aurora que apareceu eu senti meus ombros
relaxarem.
— Oi, Aurora — cumprimentei aquela que provavelmente era a única
pessoa que podia me consolar no meio daquela loucura.
— A caminho de sua super reunião? — ela questionou. Eu odiava o
fato de que ela estava desconfortável com o estágio que estava da gravidez e
ficava acordando de quinze em quinze minutos para fazer xixi, mas isso era
tudo que eu tinha no meio da minha insônia e que Deus abençoe meu futuro
afilhado ou afilhada, eu precisava da companhia de Aurora. Na noite anterior
foi com ela que eu troquei mensagens sobre a “reunião” com Alex.
— Provavelmente vou sair daqui a pouco, ele vai me buscar aqui —
falei alinhando os cabelos atrás da minha orelha.
— E o que você está usando? — perguntou com a voz cheia de
malícia. Os hormônios de Aurora estavam descontrolados.
— Isso é importante? — questionei revirando os olhos.
— Desde que eu estou dezessete quilos mais gorda, não consigo
enxergar meus pés e nenhuma das minhas calças me serve, para mim, tudooo
é importante — falou animada. Aurora estava se divertindo demais com a
minha condição de falsa namorada.
— Jeans, camiseta branca e cardigan caramelo? — falei confusa.
— Você fica bem de caramelo...
— Isso não é importante — tentei soar firme. — Você acha mesmo
que fico bem? — sussurrei me virando em frente ao espelho para ter uma
visão completa.
— Alex vai gostar.
— Isso não é para Alex, Aurora.
— Ah, você está paquerando, se vestir bem é parte importante —
falou como se explicasse alguma coisa óbvia.
— Eu não estou paquerando, Aurora. Pelo amor de Deus, é um
acordo, eu não quero paquerar Alex, isso é sobre o livro, sobre o bem-estar da
mãe dele...
— Beijos no pescoço que arrepiam, demonstrações de possessividade
no restaurante. O relacionamento falso...
— É falso e ponto — resmunguei.
— Então garanta que você e ele sabem disso, se proteja. Estar tão
perto de alguém pode turvar seus pensamentos e fazer com que o que era
falso se torne verdadeiro — ela me garantiu.
Como sempre Aurora estava certa. Mas eu sabia meus limites, sabia
que por mais que sua proximidade física mexesse comigo eu não me deixaria
ser levada pela atração. Aquilo estaria em segundo plano, eu tinha minhas
prioridades bem organizadas e não deixaria aquilo inferir. Ou pelo menos era
disso que eu tentava me convencer.
— Eu sei o que estou fazendo, Aurora — falei suavemente, entendia
sua preocupação. Éramos mais que melhores amigas, protegíamos uma, a
outra. — Mas obrigada por se preocupar.
— Sempre vou me preocupar — garantiu amorosa. — Além disso,
Ethan já começou sua “licença paternidade” e não me deixa nem descer as
escadas sem o seu apoio. Seu acordo com seu chefe é meu único momento de
diversão.
— Fico feliz em saber que meu martírio te diverte — falei debochada
e ela riu. A partir dali entramos em assuntos mais tranquilos, falamos das
crianças, um pouco sobre meu livro e como sempre Aurora me deu conselhos
maravilhosos.
Quando ela desligou, a onda de ansiedade voltou e eu retornei a me
encarar no espelho. Eu tinha dito a Aurora que sabia o que estava fazendo e
que o fato de estar atraída por Alex não mudaria nada no acordo, mas sozinha
naquele quarto, eu não conseguia ser tão inflexiva sobre essa parte em
específico. Eu estava me enfiando cada vez mais naquilo e minha promessa
de me proteger parecia idiota.
Resolvi não me torturar mais com aquilo e ir fazer algo produtivo,
meu livro ainda estava empacado na parte que eu não conseguia resolver, a
cena da confissão de sentimentos. Abri o documento e comecei a reler o
pouco que eu já tinha escrito daquela cena. Me concentrei naquele momento
da história, os personagens tinham acabado de fugir da propriedade da
mocinha, estavam no mesmo quarto de uma estalagem escura. Me imaginei
naquela situação e para minha surpresa a forma que meu personagem ganhou
foi a de Alex.
A cena começou a fluir, a inspiração surgia das palavras, dos toques,
dos beijos falsos que eu havia trocado com meu patrão. Eu sempre tinha
deixado a verdade pingar pelas páginas dos meus livros, minhas experiências
ou de pessoas que eu conhecia, partes verdadeiras de nossas vidas revestidas
pela magia da literatura. Mas nunca a mentira e era isso que Alex e eu
estávamos fazendo: fingindo. Como eu estava sendo inspirada por aquilo?
Me assustei, por estar fechada demais na minha bolha criativa,
quando meu celular voltou a vibrar com a mensagem recém-chegada. Era
Alex, ele já estava me esperando na porta do prédio.
Tentei reorganizar respirando fundo e me fazendo entrar no modo de
negociadora. Agarrei minha bolsa e repeti para mim mesma enquanto saía do
apartamento: eu vou ser forte e impor, eu vou ser forte e iria me impor.
Mas quando eu vi Alex parado relaxado do lado de fora de seu carro,
meu cérebro virou mingau e eu me deixei levar pela visão que ele estava me
dando. Como era possível que aquele bastardo ficasse tão bem em simples
jeans e casaco preto? Ele parecia maravilhoso e me senti irracionalmente
tentada a mordê-lo, o fato de que ele estava de bom humor e nada como tinha
ficado depois do comentário de sua ex parecia só melhorar as coisas.
Como era de praxe e sem pensar muito, me aproximei e segurei seu
rosto perfeito e beijei seus lábios. Alex abraçou minha cintura e fizemos a
nossa típica demonstração de afeto. Mentalmente lutei contra meu instinto de
simplesmente aproveitar os beijos que eram os melhores que eu já tinha tido.
— Isso foi muito legal — Alex falou quando nos afastamos e eu sorri.
— Mas minha mãe não está hoje.
— O quê? — eu guinchei, empurrando seu peito e dei um passo para
o lado me abaixando e vendo que o banco de trás que ela geralmente ocupava
estava vazio. — Por que me deixou fazer isso então? — questionei nervosa
sentindo meus lábios ainda sensíveis pelo beijo.
— Não pareceu educado pará-la. — Havia um sorriso sacana em seu
rosto, muito diferente da constante carranca que ele mantinha no escritório.
Eu tinha pensado que seu bom humor direcionado a mim era exclusivamente
para o bem de Marge, mas aparentemente mesmo sem sua presença ele podia
me tratar de maneira decente.
— Se Marge não está aqui não precisamos ir até a empresa, podemos
ter essa “reunião” aqui na minha casa — falei, mas imediatamente me
arrependi. Memórias de como eu tinha parado no seu colo da última vez que
tínhamos decidido que meu sofá era bom o suficiente para uma reunião.
— No escritório parece mais adequado — respondeu travando o
maxilar. Ele também se lembrava. — Afinal de contas uma coisa grande
mudou no nosso acordo.
— O quê? — perguntei franzindo as sobrancelhas.
— Você vai conhecer toda a minha família. — Arregalei os olhos. —
Nós vamos ao casamento de Jane.
Capítulo 14

Durante o caminho para a empresa eu mantive meu polegar travado


em meus dentes, mordendo os cantos de ansiedade. Nós íamos ao casamento
de Jane, seja lá quem fosse Jane. Era algo grande dentro de nosso acordo
porque não se tratava só de mentir para a mãe solícita e educada (o que para
mim já era uma tarefa enorme), estar naquela celebração consistia em fingir
para várias pessoas que o homem ao meu lado, para quem eu tinha
direcionado uma boa dose de rancor durante toda o tempo que eu conhecia,
era alguém que eu amava.
Nervosa era pouco para o que eu sentia. Alex pareceu sentir a tensão
ao meu redor e não tentou conversar comigo durante o trajeto, escolhendo de
maneira inteligente um ambiente controlado para aquele momento. Para
controlar meus sentimentos repeti na minha mente a cena em que eu jogava
um porta-lápis na direção de Ethan quando ele ainda era meu patrão, mas
colocando Alex na cena ao invés do marido de Aurora.
Quando paramos em frente da Wright Company, o homem relaxado
que tinha me buscado em casa parecia ter sido deixado no último quebra-
molas. Alex desceu do carro, abriu a porta para mim sem ao menos me olhar,
e praticamente pisou o inferno para fora em direção da editora.
Eu assisti chocada a forma como ele de repente tinha se tornado o
chefe de novo. Parte de mim queria socá-lo direto em seu queixo perfeito e
outra parte, que eu gostaria de omitir, queria abrir sua blusa e lamber seu
peito. Mas eu era boa em controlar ambos os impulsos.
— Bom dia! — Sally Sorridente cumprimentou quando passamos
pelo hall de entrada. Sally Sorridente, era na verdade, Sally Printer a adorável
recepcionista da Wright Company, funcionária favorita de todos nós.
— Bom dia Sally, que saudade! — falei contente.
— Saudade de você também — ela respondeu. — Bom dia, senhor
Wright.
E Alex acenou a cabeça.
Acenou a cabeça.
Ele passou pela pessoa mais doce e excepcional de toda a empresa
que ele comandava e acenou a cabeça. Eu o olhei chocada, boquiaberta.
Lancei a Alex um olhar questionador e ele me deu o exato olhar que me dava
quando eu passava o copo de café para ele todas as manhãs e não parecia
bom o suficiente.
Alex, o homem que passava os braços ao redor dos meus ombros para
fazer carinhos em frente a sua mãe, tinha se transformado no Senhor Wright.
Me imaginar jogando um objeto de escritório em sua cabeça nunca pareceu
tão fácil.
Quando estávamos no elevador ele não falou uma palavra, mantendo
seus ombros eretos como sempre fazia ao caminhar de um lado para o outro
como um tirano. Eu lhe dei um olhar zangado e ele apenas ergueu uma
sobrancelha.
O andar de sua sala basicamente só tinha o meu espaço e seu
escritório enorme, além de uns arquivos que raramente eram consultados por
outros funcionários. O lugar perfeito para berrar com ele.
— Podemos começar — falou quando trancou a porta de sua sala.
— Você não cumprimentou Sally Sorridente.
— Perdão?
— Você. Não. Cumprimentou. Sally. Sorridente — falei devagar e
articulada como falaria para uma criança.
— Do que você está falando, Sara? — perguntou parecendo realmente
não entender qual era meu ponto. Será que em algum momento que eu não
tinha visto ele tinha batido a cabeça e perdido completamente a coerência? —
A Sally Printer? Eu a cumprimentei.
— Você acenou a cabeça — corrigi.
— Qual o seu ponto, Sara?
Eu olhei para aqueles insuportáveis olhos verdes e de repente entendi.
— Você faz um personagem aqui dentro — constatei chocada.
— Do que você está falando? — perguntou cada vez mais frustrado.
— Toda a sua postura de chefe durão e amargo. Você é absolutamente
normal lá fora, mas foi só entrar aqui dentro que a chavinha do idiota foi
ligada — falei e ele me olhou ainda sem entender. — Você não
cumprimentou Sally sorridente.
— Sara, eu juro que se você disser Sally sorridente mais uma vez...
— Você tem problemas de confiança — constatei e ele me olhou em
choque. — Essas pessoas, todos nós nessa empresa, idolatramos você pelo
trabalho que você faz, mas você é um absoluto idiota nas relações pessoais.
Você não confia na gente, não se permite gostar de nenhum de nós.
— E você tirou essa conclusão porque eu não cumprimentei Sally.
— O apelido dela é Sally Sorridente, todo mundo ama aquela mulher
aqui dentro. Ela faz casacos de lã para todos nós no Natal. E você passou por
ela como se ela fosse nada. Como se ela fosse eu.
— Eu sou profissional aqui dentro... — ele começou a se defender e
de repente mudou a linha de pensamento. — Eu nunca te tratei como se você
não fosse nada.
— Isso é por causa de Lauren? Ela te deu problemas de confiança? —
Soltei sem pensar.
Foi como se ele tivesse levado um tapa, sua postura se tornou retraída
e o rosto chocado.
— Me desculpe! — pedi imediatamente.
— Você me acusa de não ser profissional e agora vem com essa... —
Alex falou frustrado puxando os cabelos.
— Você não cumprimentou... — comecei a dizer, mas o olhar irritado
que ele me deu fez eu mudar meu exemplo. — Eu! Nossa relação nos últimos
dois anos. Quando, antes de toda essa farsa, nós trocamos mais do que duas
frases? Eu sou sua secretária, eu literalmente marco o veterinário do seu
cachorro e você sequer sabe meu nome do meio.
— Marie — falou repentinamente e eu fiquei levemente surpresa. Ele
tinha prestado mais atenção em mim do que eu julgava.
— O que aconteceu entre você e Lauren que te deixou assim? —
perguntei baixinho e ele me olhou por um segundo, decidindo se iria ou não
dizer. Me vi implorando mentalmente para que ele o fizesse. De uma maneira
que não era racional eu queria ajudar Alex Wright.
— Por que você acha que isso tudo está relacionado? — questionou
cansadamente.
— Porque você não negou.
— Ela foi a minha primeira namorada séria — ele começou solene se
sentando no pequeno sofá de sua sala e eu o imitei indo para o seu lado. —
Lauren... incendiou tudo ao meu redor. Era aquele tipo de amor louco, cada
ponto de equilíbrio da minha vida estava cheio dela. Eu estava 100%
apaixonado e entregue, ela dizia “fique” e eu respondia “por quanto tempo,
querida?”. Minha mãe ficou doente e então de repente eu estava arruinado,
tentando fazer a editora dar certo, enquanto literalmente lutávamos pela vida
da minha mãe. Eu senti que ia perdê-la a qualquer momento e ficaria sozinho
no mundo. Quis construir a minha própria família e o fazer com Lauren era
mais do que certo.
Escutei pacientemente enquanto ele parecia imerso em seus próprios
pensamentos.
— Eu a pedi em casamento com direito a buquê de flores e jantar à
luz de velas. Ela chorou, me abraçou e disse que sim, que se casaria comigo
mil vezes se fosse necessário. Minha mãe começou a piorar, as
quimioterapias a deixavam muito fraca e eu me revezava entre estar aqui e
com ela. Um dia eu estava cansado demais e tia Margareth disse que podia
ficar com ela eu cheguei em casa e boom: Lauren na cama com Taylor, meu
melhor amigo de faculdade.
— Meu Deus, Alex — falei chocada e por impulso toquei seu ombro
buscando dar a ele algum conforto. Meu movimento pareceu fazê-lo
despertar da série de lembranças e ele me deu um pequeno sorriso.
— Até ontem eu não tinha percebido que minha mãe não estava aqui
só porque achava que o tempo que fiquei ao seu lado tinha me tirado da
jogada e sim porque ela achava que eu estava de coração partido.
— É sobre isso que eu queria falar... — comecei a dizer e ele me
olhou curioso. — Alex, existe uma diferença entre mentir para sua mãe para
o próprio bem dela, para lhe dar algum alívio, e em fazê-la acreditar que você
está bem quando você não está.
— Esse não é o tipo de coisa com a qual você deveria se preocupar.
— Mas eu me preocupo. Nós não somos... amigos e nem nada do
tipo, mas me magoaria muito pensar que estou tirando de uma mãe a
oportunidade de ajudar um filho que não está bem.
— Eu estou bem — me garantiu, mas nós dois sabíamos que era
mentira. — Não é nada que você ou minha mãe tenham que cuidar.
— Eu tenho uma nova condição ao nosso acordo. — Antes que ele
pudesse me interromper resolvi ser imperativa. — Você me disse que se
surgissem novas condições você estaria pronto para acatá-las — lembrei. Eu
sabia que Alex era um bom negociador, mas que seu caráter estava no lugar
certo, depois de me ter prometido ele não voltaria atrás.
— Diga — ele suspirou.
— Quando os quinze dias acabarem e sua mãe voltar para casa você
vai procurar algum tipo de ajuda... ajuda psicológica eu quero dizer.
— Sara, eu não acho que isso seja... — ele começou a dizer.
— É minha condição — falei firmemente. — Não tem nada de ruim
em procurar ajuda, mesmo para problemas que você ache que pode resolver
sozinho.
Ele estudou meu rosto por alguns segundos e aos poucos um sorriso
cresceu em seus lábios. Alex me olhava com um tipo estranho de admiração.
— Você é uma boa pessoa, senhorita Webber — comentou e eu podia
ouvir a verdade em suas palavras. Senti minhas bochechas corarem,
desconcertada com o elogio repentino. — Temos um acordo — ele disse e
ergueu sua mão para que pudéssemos ter um aperto formal
— Fechado.
— Agora podemos ir ao relatório sobre toda a família? — questionou
e eu engoli em seco, mas balancei a cabeça positivamente, se eu estava na
chuva era para me molhar. Seguiríamos com aquela maluquice até o fim. —
Já te garanto: você não está preparada para as maluquices dos Wright.
Respirei fundo.
— Manda ver.
Capítulo 15

— Próxima pergunta.
— Ok, me deixe pensar... — Alex meditou. — Qual das minhas tias é
a mãe da noiva?
— Você acha que eu sou amadora nessa história de ser namorada de
mentirinha — brinquei. — Tia Margareth é a mãe de Jane, a futura esposa de
Louis.
— Exatamente! — ele respondeu.
O processo de decorar quem e o que fazia cada pessoa da família de
Alex estava sendo mais tranquilo do que eu pensava que seria. Depois de
toda a conversa sobre traição e sua promessa de depois que tudo aquilo
terminasse procurar ajuda, alguns muros tinham cedido. Alex tinha um
passado, como o resto de nós, reles mortais, sua figura antes tão inalcançável
parecia mais humana agora.
E havia o motivo pelo qual estávamos mentindo, ele tinha um
contrato de publicação para mim e eu tinha quinze dias para ser sua falsa
namorada. Quando entrei naquela pensei que sairia pronta para esquecer
tudo, virar a secretária de algum outro funcionário e esperar ansiosamente
meu livro nas mãos de todo mundo. No entanto, agora que eu conhecia outro
lado de Alex parecia mais difícil do que deveria ser, simplesmente abandonar
esses quinze dias e voltarmos a sermos um par que vez ou outra grunhia
cumprimentos um para o outro.
Eu tinha ganhado um...? Não sabia exatamente qual era o tipo de
relação que eu agora mantinha com Alex. Mas mentir ser sua namorada nos
unia de certa forma.
— Podemos parar para um sorvete, o que você acha? — ele
questionou. O espaço do escritório tinha ficado muito pequeno para nossa
conversa e logo começamos a fazer uma caminhada pelo quarteirão para
diminuir meu nervosismo. O que realmente ajudou, me lembrou dos meus
anos de faculdade em que eu estudava andando pela casa, enquanto Aurora
me sabatinava com a matéria das provas.
— Me parece ótimo — falei percebendo que tínhamos realmente
caminhado por quase todo o parque que ficava perto da editora. — Meus
sapatos estão em matando, um pouco de sorvete com certeza vai ajudar. —
Levantei meu pé e girei meu tornozelo que protestou, por todo o andar sem
sapatos adequados.
Para minha surpresa, Alex ofereceu-me seu braço forte e como apoio.
Olhei por um segundo para o bíceps torneado onde eu iria me apoiar, minha
mente traidora criando imagens muito reais do amontoado de músculos me
abraçando.
A atração por Alex sempre estivera ali, mas eu tinha que admitir que
todos os beijos falsos que estávamos trocando com certeza não estavam
ajudando em nada.
— Eu costumo vir aqui aos sábados para caminhar com Coco, minha
cachorra — ele comentou olhando ao redor, enquanto praticamente me
rebocava para fora do parque em direção a sorveteria. — Isso me leva a uma
nova pergunta: quem tem um canil para animais resgatados?
— Hum... — Comecei a pensar, a resposta na ponta da língua, mas a
forma como o cabelo claro de Alex brilhava no sol da manhã me
desconcentrando. — Anastasia? Sua prima, irmã de Jane.
— Correta! — ele comemorou e eu ri, ele soava como um daqueles
apresentadores de programas de auditório.
— Foi dela que você adotou Coco? — perguntei realmente curiosa.
Havia em mim aquela vontade estranha de realmente conhecer Alex. Eu
tentava falar para mim mesma que não passava de uma tentativa de me
convencer que eu não estava beijando um completo babaca.
— Sim. — Seus olhos se tornaram nostálgicos quando paramos em
frente do sinal que estava fechado para pedestres. — Ela tinha sofrido todo
tipo de violência com seus antigos donos. Anastasia tinha me dito que ela
tinha medo até mesmo dos outros cachorros, porque provavelmente tinha sido
colocada em rinhas. — Arfei para aquela informação, tamanha crueldade. —
Quando eu fui visitá-la pela primeira, Coco estava toda retraída no fundo da
gaiola, que parecia impossível levá-la, mas ela farejou minha mão, se
aproximou e do nada pulou em mim. Eu sabia que ela seria minha
companheira.
Os olhos de Alex brilharam, enquanto ele falava da cachorrinha e eu
senti meu coração esquentar, soltei um suspiro e foi impossível não deitar a
cabeça no ombro dele. Aquela simples conversa sobre adotar um cãozinho
me trouxe uma noção que tinha passado quase despercebida por mim: Alex
era admirável.
Eu sabia o quanto eu achava seu trabalho impecável e tinha até
aprendido o quão dedicado ele era com a mãe, mas tudo isso, somado ao seu
pequeno discurso sobre como ele tinha trazido Coco para sua vida, me
mostravam que ele era alguém passível de admiração, e mais que isso: eu o
admirava.
Ele riu do meu contato, mas ao invés de se afastar, uma vez que não
tinha para quem demonstrar nenhum afeto, ele usou sua mão direita, a que eu
não estava pendurada no braço, para cobrir a minha própria mão. Um sinal
doce. Quem passasse veria o que Marge fantasiava: um casal preso numa
bolha de doçura. Era perigosamente fácil fingir, mesmo sem os olhos da mãe
dele nos vigiando.
— Suas primas são Jane-noiva, Anastasia-dona-do-canil, Lisa-cuja-
namorada-é-muito-legal. Seus primos são Paul-que-conserta-carros,
Matthew-jornalista e Austin-que-ainda-mora-com-a-mãe — recitei por
impulso me afastado do meio abraço que estávamos dando.
— Ótima maneira de decorar, mas duvido que você possa chamá-los
assim, principalmente Austin. Ele é bem sensível — Alex brincou e eu revirei
os olhos.
— Uma coisa de cada vez. Mas não se preocupe, não vou acabar
chamando ninguém de Christina-que-deu-o-golpe-do-baú-por-isso-seu-
marido-tem-a-mesma-idade-do-pai-dela — falei divertida. — Mas
movimentaria a recepção, admita.
— Guarde essa carta na manga, aposto que ninguém vai poder causar
mais que você — Alex debochou e eu ri livremente. Não estava mais tão
nervosa quanto tinha estado, de certa forma ele tinha me trazido algum
conforto.
Quando chegamos a sorveteria eu me sentei num dos banquinhos em
formato de picolé para dar uma folga aos meus pés, enquanto Alex foi até o
balcão fazer os pedidos. Fiquei meio vidrada enquanto ele conversava com o
atendente. Alex era lindo, inteligente, resgatava cachorrinhos maltratados nas
ruas e tinha bíceps muito definidos. Cada vez que eu chegava mais perto um
pequeno aspecto de sua personalidade me deixava mais encantada.
Aurora estava certa? Havia alguma coisa crescendo em mim? Negar
aquilo seria bobagem, eu havia mudado minha percepção sobre ele. Alex não
era só meu chefe lindo e mal educado, que me passava horas, e mais horas
extras de trabalho e me fazia acordar cedo para pegar seu café. Na verdade,
havia muito pouco daquele homem fechado nele agora. Olhando para ele
pedindo milkshake de morango silvestre para mim, na verdade, se não pela
beleza, nada me lembrava do homem que ele era no escritório.
Eu estava apenas admirando, Alex. Talvez me sentisse mais
conectada com ele porque estávamos juntos em um acordo. Eu o achava
legal, mas não mais num nível profissional, mas pessoal também. O fato de
eu gostar de seus beijos e me arrepiar sob seus toques não tinha que entrar
naquela equação.
Resgatador de cachorrinhos, conhecedor exímio da própria família,
apaixonado por livros, engraçado. Um bom amigo. Quando tudo aquilo
terminasse talvez pudéssemos ser amigos de verdade. Aquela constatação em
trouxe uma dor estranha no peito, franzi o cenho, enquanto acariciava meu
tornozelo. Por que ser amiga de Alex me incomodaria?
— Quem é que fez as cervejas artesanais do casamento? — ele
perguntou aparecendo com os milkshakes nas mãos e me assustando, pisquei
algumas vezes tentando apagar as constatações da minha cabeça, eu tinha
outros momentos para refletir sobre aquilo.
— Louis, o noivo — respondi prontamente.
— E, mesmo assim, Jane o ama, ama um homem que faz cerveja
artesanal — ele comentou e eu ri quando peguei o milkshake em suas mãos.
— O amor não nos deixa escolher, certo? — brinquei, mas minha voz
saiu mais séria do que o esperado. Alex desviou o olhar e deu de ombros.
— Algo assim. — Sentou-se ao meu lado e eu me tornei hiper
consciente de novo. Coloquei o canudo na boca me impedindo novamente de
começar um tagarelar estranho e sem sentido. — Você me disse que estava
tendo problemas com uma parte específica do seu romance? A parte do
romance mais especificamente. — Alex mudou o rumo da conversa. Tentei
resgatar na minha memória quando tínhamos tido aquela conversa, mas
novamente o rosto perfeito dele me deixou desconexa. Eu estava realmente
com dificuldades em escrever as partes mais românticas, porque minhas
experiências eram todas... sem graças demais. Mas então a mentira que nós
dois estávamos vivendo apareceu na minha vida.
— Acho que não tenho mais — cochichei.
Capítulo 16

Olhando para a multidão naquela manhã fria, encontrei Marge que


acenava para mim com tanto entusiasmo que foi impossível não retribuir. Ela
parecia radiante com o casaco colorido que eu reconhecia da nossa manhã de
compras e um lenço amarelo sobre a cabeça, eu podia ver alguns olhares em
sua direção, mas eu queria acreditar que eles eram de admiração, como ela
merecia, e não de estranhamento.
Atrás dela estava, Alex, que estava tão bonito como sempre usando
um suéter caramelo, ele também sorriu para mim e eu sorri de volta enquanto
me aproximava. Marge, tinha arquitetado uma manhã para passear nas
barcas, para nós que morávamos um Seattle era algo cotidiano, mas para ela
que estava de volta a cidade depois de algum tempo parecia uma aventura.
— Bom dia, querida. Como você está? — ela me cumprimentou,
enquanto me dava um abraço caloroso que me fez sentir acolhida. Aquele
definitivamente não era um dia fácil.
— Bom dia, Marge! — falei, tentando conferir entusiasmo em minha
voz. — Eu estou bem e você?
— Não poderia estar melhor.
Alex apareceu logo em seguida e um vinco apareceu em suas
sobrancelhas enquanto ele olhava para meu rosto. Eu tentei manter minha
expressão o mais neutra possível e deixei um sorriso se espalhar de propósito
no meu rosto. Ele me abraçou e eu me permiti suspirar em seus braços pelo
contato.
— Podemos ir? — Marge questionou animada e eu sorri balançando a
cabeça positivamente. Para minha surpresa Alex não se afastou, deixou que o
abraço acabasse, mas segurou minha mão de um jeito natural e
despreocupado.
Nós dois acabamos ficando mais para o final da fila, porque Marge
tinha preferência ali e não ter sua presença mediando e definindo o contato
que Alex e eu teríamos não era mais um problema, tínhamos encontrado um
ponto de equilíbrio, mas, ainda assim, me mantive calada. A enxurrada de
qualidades que eu tinha enumerado para ele na tarde anterior na sorveteria
estava voltando a minha mente.
— Está tudo bem? — ele questionou e eu endureci. Obviamente ele
tinha que perceber que aquele era um dia ruim, não podia simplesmente
deixar passar.
— É aniversário da última internação do meu pai — falei deixando
meus ombros caírem sem mais tentar me manter normal. — Num dia como
hoje foi a última vez que eu o vi bem... quer dizer razoavelmente bem.
Os olhos de Alex se arregalaram e o aperto que ele fazia na minha
mão foi mais forte enquanto seu polegar fazia círculos suaves na minha pele.
— Eu não sabia... sinto muito, Sara. — Sua voz transparecia uma
agonia que eu não consegui reconhecer. — Podemos ir embora se quiser, não
precisa ficar aqui. Minha mãe vai se divertir mesmo sozinha.
A forma como ele disse “podemos ir embora” como se para onde quer
que eu fosse ele viesse junto para me consolar aqueceu meu coração. Era o
tipo de coisa que um namorado de verdade diria, o tipo de coisa que Alex só
precisava falar quando sua mãe estivesse por perto e ainda assim éramos só
nós dois.
— Está tudo bem — garanti. — Na verdade, é bem legal poder sair e
espairecer hoje, geralmente esse é o tipo de dia que eu passo com Aurora,
mas ela está tão cansada por conta do estágio avançado da gravidez que eu
acabaria ficando sozinha.
— Você não precisa ficar sozinha hoje. Vamos ter um dia agradável e
se você se sentir mal, sobrecarregada ou qualquer coisa do tipo podemos
parar e ir para a casa. — Ele falou “casa” como se aquele fosse um lugar em
comum para nós dois.
— Obrigada, Alex — sussurrei, realmente agradecida e ele me deu
um sorriso contido e meio culpado.
A fila avançou e nenhum de nós falou novamente. Vez ou outra eu
sentia o olhar de Alex em mim, mas não me virava para vê-lo, mantive meus
pensamentos cuidadosamente envoltos em amenidades para não pensar na
dor que um dia daqueles me fazia sentir e para não entrar na confusão que
Alex tinha me feito sentir no dia anterior.
Logo estávamos dentro da barca e eu respirei o cheiro salgado do mar,
isso fez com que eu me sentisse mais consolada. O burburinho das pessoas,
entre turistas e trabalhadores que viam o meio aquático como uma opção de
locomoção naquela cidade cercada por água também teve seu efeito
normalizante sobre mim.
— Não é lindo? — Marge apareceu com os olhos febris de tanta
animação e eu fui incapaz de não rir para sua excitação. — Eu amo minha
cidade, mas Seattle tem uma parte enorme do meu coração... isso aqui faz eu
me sentir como se estivesse no Titanic.
— Não é um sentimento muito tranquilizador, mãe — Alex brincou e
recebeu um revirar de olhos divertido da mãe. A interação dos dois também
me deixava mais à vontade, mesmo naquele curto período em que estávamos
naquela situação estranha, a presença de Alex e Marge era confortável.
— Me sinto como se estivesse no Titanic e fosse uma riquinha da alta
sociedade — ela corrigiu-se e ele Alex concordou com a ponderação.
— É realmente muito lindo, é uma pena que não aproveitamos isso
tão bem como podemos. — Parecia o tipo de comentário seguro o suficiente
a se fazer.
— Eu sei! — ela concordou. — Se tem uma coisa que esse maldito
câncer me ensinou é que o mundo está aí, do lado de fora, esperando para ser
descoberto. Passamos a vida toda presos em nossas casas, esperando o
próximo horário comercial como se nosso tempo fosse infinito e ele não é.
Seu discurso foi tão bonito, tão cheio de força que eu senti meus olhos
marejarem. Eu gostaria que meu pai tivesse enfrentado a mesma constatação,
que pudesse estar ali de novo e ver a vida pós-câncer.
— O que foi, querida? — Marge questionou parecendo culpada.
— Eu gostaria... que meu pai também tivesse tido essa oportunidade
— falei e respirei fundo. Os olhos de Marge derreteram em minha direção e
ela me deu um olhar acolhedor.
— Tendo uma filha como você com certeza seu pai fez tudo que
podia e tinha que fazer por esse mundo. — Foi a voz de Alex que me
consolou. — A vida é uma merda às vezes. Mas faça valer a pena por ele.
Olhei para o meu patrão, o mesmo homem que me fazia acordar mais
cedo para buscar seu café e não tinha a coragem de me dizer um obrigado.
Menos de sete dias tinham transformado ele em alguém com a capacidade de
me consolar, suas palavras tiveram um efeito curativo em mim.
— Ele ia gostar que eu andasse por cada centímetro dessa balsa e não
perdesse tempo me sentindo mal — falei.
— Então vamos fazer isso! — Marge disse entusiasmada sacando a
pequena câmera de sua bolsa pronta para ser a turista perfeita. — Vamos
registrar cada momento desse passeio e sermos felizes pelo tempo que
podemos aqui.
Marge anunciou e caminhou decidida até a proa da barca distribuindo
cliques decidida a capturar qualquer coisa, ordinária ou extraordinária.
Meu celular vibrou e eu olhei para o identificador o nome “mãe”
brilhou e um sorriso triste escapou pelos meus lábios. Aquele era o tipo de
dia que minha mãe gastava todinho em obras de caridade em nome do meu
pai, honrando sua memória, mas sempre começava me ligando para contar
qual seria sua programação.
— É minha mãe, já volto — falei para Alex que sorriu balançando a
cabeça positivamente e se voltando curioso para Marge que agora fotografava
o chão.
Caminhei para um pouco longe da aglomeração para poder atendê-la
sem muito barulho. Me peguei animada para falar com minha mãe. Ela
definitivamente não era muito de ligações, gifs animados brilhantes por
mensagens era mais o seu estilo.
— Mãe! — chamei deixando a alegria que sentia em conversar com
ela transparecesse.
— Oi bebê — ela chamou e eu ri do apelido. — Como você está?
— Melhorar agora que estou falando com você.
— Que filha galanteadora eu tenho. — Ela riu. — Você está indo
mais tarde para o trabalho? Tem um barulhão atrás de você, posso ligar
depois...
— Não! — falei imediatamente. — Na verdade, eu estou de férias...
— Não queria mentir para ela, mas sabia que a situação que tinha me
colocado de férias era complicada demais e com certeza não era algo que eu
queria compartilhar com ela.
— Férias? Por que não me disse? Podíamos ter viajado juntas — ela
falou ressentida e eu senti a culpa se alastrando pelo meu corpo. “Bem, mãe,
porque na verdade, essas são férias para convencer a mãe do meu patrão de
que eu sou a namorada dele, mas adivinhe? Eu não sou.”, eu duvidava que
minha mãe levaria aquilo com ânimo leve.
— São só por poucos dias e eu estou trabalhando naquele projeto
que... — comecei a explicar, mas uma mão em meu ombro me sobressaltou.
— Sara, sabe o que seu namorado acaba de me dizer? — Marge
chamou divertida e eu congelei.
— Namorado? Sara, você está namorando? — A voz da minha mãe
do outro lado da linha me sobressaltou. Merda!
— Ah, desculpe, querida. Não vi que estava falando ao telefone —
Marge pediu envergonhada, enquanto Alex se aproximou horrorizado.
— Mãe, nos falamos depois — eu disse covardemente me
encolhendo.
— Sara Marie Webber o que você... — ela começou a dizer, mas eu
desliguei.
Minha mãe tinha ouvido sobre meu namorado. Agora eu estava ferrada.
Capítulo 17

Eu me sentia com doze anos de novo. A mochila nas minhas nas


costas, cheia com pijama, escova de dentes e roupas para o dia seguinte,
como se eu estivesse a caminho de uma festa do pijama, aniversário de uma
das minhas amiguinhas que provavelmente só tinha me convidado porque
seria estranho não me chamar. Mas não. Eu era uma mulher adulta e eu
estava prestes a entrar no apartamento do meu chefe e fingir que ele era meu
namorado e que aquela era mais uma noite comum.
Eu era uma adulta. Eu podia fazer aquilo. Uma adulta que tinha
mandado uma mensagem para mãe dizendo que o telefone tinha caído no mar
porque não podia falar com ela sobre o motivo pelo qual ela tinha ouvido um
"namorado". Mas aquilo seria um problema para outro dia. Um passo de cada
vez. Primeiro convencer Marge que éramos um casal feliz e depois convencer
a minha mãe que que não tinha namorado algum. Fácil.
Mas eu estava super nervosa. Eu teria que agir integralmente como a
namorada dele enquanto Marge provavelmente nos olharia como se estivesse
vendo filhotinhos fofos e não dois estranhos tentando estar confortáveis perto
um do outro. E eu não queria pensar no que a proximidade com Alex traria
para mim.
Toquei a campainha e me perguntei se eu deveria ter a chave. Com
outros namorados eu dificilmente ficava tempo o suficiente para ter minhas
próprias chaves. “Outros namorados”, pensei amarga “como se ele fosse um
dos meus outros namorados”. Os outros beijos não pareciam consumir minha
razão, as personalidades não me deixavam admiradas, ele não era como meus
namorados. E teve um cara que eu namorei por um mês porque ele tinha um
tanquinho legal. Deus, como a minha vida romântica era estranha. Esperava
que Alex não percebesse isso quando lesse o meu manuscrito, que estava
impresso em minhas mãos trêmulas.
Ouvi as chaves rodando e me recompus. Hora do show.
— Sara! — Foi Alex quem me recebeu, sua voz era tão animada que
imaginei que sua mãe estivesse logo atrás. Sorri mesmo sem querer para o
seu entusiasmo.
— Oi, baby — cumprimentei e me ergui na pontas dos pés para beijar
rapidamente seus lábios. Ele sorriu durante o movimento. Meu coração se
aqueceu.
Ele abriu espaço para que eu entrasse e eu senti meus olhos se
arregalarem para seu apartamento. Eu não imaginava nem em um milhão de
anos algo assim. Era tudo claro, chique e clean, os quadros nas paredes não
eram como os meus, cópias fajutas de artistas que eram muito mais
fraudadores do que pintores, mas elegantes e combinavam entre si mesmo
nas molduras. Nos fundos da sala ampla, uma escada de madeira clara e
suspensa davam para um segundo andar e a arquitetura aberta dava para o
que devia ser uma cozinha. Eu quase fiquei envergonhada por tê-lo aceitado
no meu pequeno apartamento onde todos as xícaras eram sapos de porcelana.
Quase porque eu não vi Marge em lugar nenhum no sofá branco e perfeito.
Ela não estava por perto para ver nossa demonstração.
— Onde está sua mãe? — perguntei e deveria soar ultrajado, mas não
parecia tão ressentido quanto eu gostaria. Seria hipócrita se dissesse que não
gostava de ser recebida com beijos, mas nunca diria aquilo em voz alta.
Parecendo ter ouvido ser chamada, Marge apareceu na porta que devia dar
para cozinha com um vestido de verão musgo, descalça, com a cabeça nua
sem um lenço e com um pano de pratos nos ombros.
— Sara, querida. — Ele caminhou com um sorriso largo em minha
direção e beijou minhas bochechas. — Estou fazendo meu famoso macarrão,
você vai amar.
— O cheiro está ótimo. — Parecia algo tranquilo o suficiente para se
dizer, pensei em talvez “Alex sempre fala dele”, mas poderia ser forçado
demais e aquele seria um dia que requeria estratégia.
— Venha, vou colocar suas coisas no meu quarto. — “Meu quarto”,
eu não queria pensar na dinâmica que envolvia o sono, mas antes que eu
pudesse responder com alguma coisa constrangedora um som ruidoso e
descoordenado encheu a sala, olhei surpresa em direção a escada e então a vi
descendo.
Quando Alex mencionou Coco ele se esqueceu de dizer que se tratava
de uma vira-lata gigante que corria numa velocidade impressionante para o
piso que estava lustrado e parecia escorregadio, mas nem mesmo um aviso
poderia me preparar para o amontoado de músculos fofos se erguendo nas
patas traseiras e batendo contra meu peito para lamber meu rosto com tanto
afinco. Coco parecia uma atriz muito melhor do que eu era. Me lembrei da
história comovente que Alex tinha me contado e gargalhei animada ao
perceber que os anos de abuso eram parte do passado e que agora a cadela
estava feliz.
— Oi Coco — cumprimentei rindo, enquanto me estabilizava e
coçava suas orelhas. Alex me sustentou plantando sua mão firmemente na
base da minha coluna. — Como você está, garota? — perguntei e ela lambeu
meu rosto mais uma vez.
— Acho que ela estava com saudade de você. — Marge riu. — Nem
eu recebi uma recepção assim e olha que eu trouxe vários biscoitos e
brinquedos para ela.
— Acho que ela realmente estava — Alex respondeu, olhando curioso
para a cachorra que abanava o rabo alegremente enquanto recebia meus
carinhos. — Vamos deixar Sara se instalar primeiro certo, garota? — Ele
coçou as orelhas dela e a puxou gentilmente para longe de mim. — Vá
beliscar almôndegas com a vovó na cozinha.
Marge riu e puxou Coco que pareceu entender que seria
recompensada e saiu alegremente. Percebi as cicatrizes em seu pelo
amarelado e senti meu coração afundar.
— Ela te babou inteira. — Alex riu, enquanto eu limpava o rosto com
a manga da blusa.
— Não tem problema, na verdade, eu fiquei muito feliz em vê-la de
novo... — murmurei a última parte e ele riu novamente. Em casa Alex parecia
ainda mais aberto. Aquela versão usando uma camisa de basquete, shorts
folgados e cabelos ainda molhados parecia ainda mais atraente. Tentei não
me concentrar muito nos bíceps desnudos.
— Na verdade, eu fiquei bem surpreso com a reação dela, você ouviu
minha mãe, Coco, não reage tão bem a visitas, mesmo com quem ela
conhece. — Ele me conduziu pelas escadas e pegou gentilmente a mochila.
— Ela deve ter gostado de você — disse meditativo.
— E o que tem para não gostar? — brinquei enquanto dava de
ombros. Tentei não parecer muito enxerida e observar cada pequeno canto do
apartamento enquanto falávamos.
— Nada. — Ele me deu um sorriso tão afetuoso que me fez corar.
Quando paramos percebi que estávamos na porta do seu quarto. — É aqui.
O espaço era tão chique quanto o resto da casa, mas não era branco
como o resto, na verdade, tudo ali era em diversos tons de azul marinho, o
que quebrava a escuridão era a parede que ia do chão ao teto apinhada de
livros e com uma TV no centro. Aquilo combinava mais com a personalidade
de Alex. Enquanto olhava tudo tentei não me ater a cama e sim ao pequeno
divã aos pés dela, mentalmente dimensionei qual de nós dois caberia melhor
ali e percebi com tristeza que seria eu.
— Talvez você queira tomar banho, ainda mais depois de ser babada
pela Coco. O banheiro é ali, acho que mais... discreto se você o usar. Tem
uma toalha para você lá. — Ele apontou para a porta a esquerda e eu balancei
a cabeça positivamente sem saber o que dizer. — Olha, sei que isso é meio...
— Estamos juntos nessa, Alex — interrompi querendo
repentinamente consolar o tom desconfortável em sua voz. — Além disso
para compensar que eu usarei seus xampus essa noite, e eu trouxe isso... —
Entreguei para ele maço de folhas em minhas mãos. Meu livro. — Em papel,
Times New Roman 12, espaçamento 2 e duas páginas por folha, do jeito que
você gosta. — Para minha surpresa os olhos dele brilharam em direção ao
amontoado de papel e eu me senti... bem. Parte de mim sabia que ele só
estava lendo o meu livro e prometendo uma publicação, porque eu estava
sendo a namorada dele durante aqueles quinze dias, então quando ele pareceu
animado meu coração se aqueceu. Ele acreditava no meu talento.
— Isso é perfeito. — Ele pegou o manuscrito e sorriu para mim. —
Trabalharei nele lá embaixo, fique à vontade.
Alex desceu e eu entrei no quarto, quis ir em direção a estante e ver os
títulos que ele tinha, mas me contive deixando aquela tarefa para mais tarde,
quando eu estivesse insone e espremida no divã, poderia fazer daquilo a
minha gincana, “quantos títulos posso ler no escuro esperando amanhecer?”.
Instigante.
Segui para o banheiro e me vi chocada ao perceber que ele era maior
do que a sala no meu apartamento e ainda mais surpresa ao perceber que ali
havia tantos produtos de beleza como teria uma perfumaria. Tranquei a porta
atrás de mim e coloquei minha mochila em cima da pia e segui para os
rótulos dos xampus e cremes hidratantes, tentando descobrir qual deles dava
a Alex o aroma fresco de menta e canela.
Sabia que não poderia demorar muito, então deixei minha inspeção de
lado e entrei no banho. Secretamente me deixei aproveitar de seu sabonete
líquido caro e da ducha que caía tão forte e quentinha que parecia ter sido
feita por anjos. Mas quando meu cronômetro mental de quinze minutos
acabou eu saí, dizendo para mim mesma que meu próximo salário seria para
um chuveiro daqueles.
Olhei-me no espelho e tomei algumas respirações para me convencer
a sair dali usando uma camiseta escrito “fora de órbita” e calças largas com
diversos planetinhas desenhados. Pensei em como Marge e Alex pareciam
relaxados então resolvi que aquela deveria ser a minha postura também e
qualquer inconsistência deveria ser apenas motivada por estar ali pela
primeira vez na presença da minha sogra.
Desci as escadas pensando no quão não patéticos eram meus chinelos
com pelúcia, me concentrando em parecer tranquila enquanto segurava minha
cópia surrada de Razão e Sensibilidade para que Jane Austen do além me
iluminasse a não cometer uma burrada colossal ou me envergonhar.
Alex estava sentado na mesa de jantar, enquanto a mãe cozinhava
despreocupada. Meu coração acelerou quando eu percebi que ele já devia
tinha ultrapassado umas cinco páginas no meu manuscrito e escrevia nas
entrelinhas anotações escassas. Era um fiasco tão grande que nada podia
salvar ou tão bom que precisava de poucas correções?
— Você precisa de ajuda, Marge? — perguntei não querendo me
concentrar no trabalho de Alex. Não podia estar ansiosa por mais esse
acontecimento. Uma coisa de cada vez, antes que eu explodisse. Me
martirizei por ter protelado tanto, já passava das nove e eu devia ter chegado
mais cedo para coisas como ajudar no jantar. Me peguei secretamente
desejando que Marge realmente tivesse bons pensamentos sobre mim.
— Não, querida. Já estou quase terminando — falou olhando-me por
cima do ombro com um sorriso doce. — Sente-se com Alex, mas duvido que
ele vá ser educado o suficiente e parar o trabalho... igualzinho o pai.
— Sei como é... — falei divertida, parecia o tipo de comentário
inocente o suficiente. Alex não ergueu os olhos para ver nossa conversa
concentrado demais. Eu já o tinha visto daquele jeito, na verdade, era sua
forma mais frequente, compenetrado e dedicado.
Sentei-me ao lado dele e abri num dos capítulos iniciais, onde a
apresentação dos personagens tinha terminado e a história já começava a se
desenrolar para me acalmar com a narrativa conhecida. Mas toda a aura de
calmaria foi por água abaixo quando o braço de Alex atravessou o encosto da
minha cabeça e sua mão começou a brincar com a ponta do meu rabo de
cavalo úmido. O mirei cerrando os olhos, mas sua concentração parecia
verdadeira e o movimento natural. Às vezes a capacidade de atuação de Alex
me deixava surpresa.
— Tudo pronto — Marge cantarolou e o cheiro da massa me fez
salivar. Meu macarrão instantâneo antes de sair de casa parecia ainda mais
horrível agora. — Sara, você se importa se comermos no sofá? Estamos
maratonando um reality e não quero perder. Hoje eu tenho certeza de que a
Maximus vai ser eliminada.
— Só nos seus sonhos mãe — Alex ironizou levantando-se e
espreguiçando, no caminho afagando meus ombros. — Maximus, vai ser a
campeã.
Parecia um sonho estranho quando nos sentamos com nossos pratos
no colo, com Coco no tapete, enquanto Marge e Alex discutiam
ferrenhamente sobre qual das Drag Queens merecia o primeiro lugar na prova
de dublagem. Me peguei rindo com os dois, os comentários ácidos um para o
outro e previsões falhas de quem iria melhor em cada fase. Fiquei a maior
parte do tempo em silêncio vendo a dinâmica adorável deles.
Então eu realmente entendi o motivo pelo qual Alex tinha se metido
naquela rede de mentiras comigo. Ele amava a mãe. A forma como falava,
como parecia feliz cada vez que ela ria. O nível de adoração e amor estava
palpável, eu podia senti-lo no ar e ver como era mútuo. Ele nunca machucaria
os sentimentos dela, mesmo que ao fazer isso tivesse que mentir para
consolá-la do fato de que ele era solitário e tinha um coração partido. Alex
faria qualquer coisa para que ela estivesse feliz.
— Vou aproveitar esse intervalo para pegar sorvete — ele anunciou e
se levantou num rompante do sofá. Ele pegou o próprio prato, o meu e o da
mãe. — Eu cuido da louça amanhã.
— Eu posso fazer isso — me ofereci, mas ganhei um olhar bravo.
— Me diga, Sara, você realmente acredita que Maximus tem uma
chance? Ela mal consegue andar de saltos — Marge disse e fingiu
estremecer.
— Para mim Sky tem muito talento.
— Ouviu isso, Alex? — ela perguntou quando o filho entrou na sala
com três potes pequenos de Ben & Jerry’s e colheres. Alex olhou para mim
com uma expressão falsamente enojada.
— Amadora. — Revirou os olhos teatralmente, enquanto entregava-
nos os sorvetes. Ele puxou duas cobertas que enfeitavam uma poltrona no
canto e entregou uma para Marge e se sentou com outra. — Vem aqui — ele
chamou e sua voz tinha um pouco de... manha? Ri e me aconcheguei em seu
peito tentando não pensar no que estava fazendo. Deixando seu calor me
preencher, enquanto a manta nos cobria. No meu ouvido seu coração batia
mais rápido. Ele estava tão nervoso quanto eu.
Eu não devia fazer aquilo. Mas pensar que ele estava desconcertado
como eu estava me deixou mais corajosa, pensando que ele interpretaria
aquilo como uma brincadeira. Eu devia ter previsto. Alex era vingativo.
Equilibrei o pote de sorvete em uma mão e deixei a outra se infiltrar,
gelada, sob a blusa dele. Era para ser um movimento inocente, como encostar
meus pés frios nele, queria que ele reclamasse e fosse engraçado sobre o
toque. Mas quando eu o fiz Alex gemeu. Gemeu. Baixo, vindo do fundo de
sua garganta. Meus olhos se arregalaram e eu imediatamente retirei minha
mão da sua lateral e olhei para Marge que parecia concentrada demais no
momento do confessionário em que uma Queen falava mal da outra.
— Desculpe — sussurrei sentindo minhas bochechas queimarem.
Estávamos fingindo ser um casal de verdade. Assistindo TV lado a
lado como se realmente fôssemos namorados. Parecia tão tranquilo fazer uma
brincadeira de quinta série como aquela, mas sua reação me surpreendeu. Foi
a vez do meu coração acelerar.
— Só quero te lembrar que no meu quarto só tem uma cama — Alex
se inclinou e cochichou no meu ouvido. Aquela seria uma noite longa.
Capítulo 18

Marge bocejou pela terceira vez desde o último bloco do programa e


eu me encolhi. A hora de dormir estava cada vez mais próxima, não tinha
como protelar mais. Pensei em talvez fingir que estava dormindo e ser
deixada ali no sofá, mas como eu meu encontrava em cima de Alex sabia que
aquilo não seria possível, a não ser que eu fingisse que tinha morrido, o que
não era de todo ruim.
— Boa noite, queridos. — Marge se esticou e caminhou para fora da
poltrona se arrastando pelo tapete e parando apenas para coçar as orelhas de
Coco que já estava dormindo. — Tenham juízo — falou brincalhona, mas
cansada e eu quis desaparecer.
Alex bocejou e me tirou de cima dele quando a mãe desapareceu
escadas acima. Era relativamente cedo, eu estava acostumada a dormir
quando já passava dá uma da manhã, mas imaginei que com sua mãe em casa
e não tendo que ir até a editora ele estava dormindo mais cedo.
— Vamos? — ele chamou erguendo sua mão e eu a peguei curiosa.
De mãos dadas fizemos o mesmo caminho que Marge fez.
— Vou escovar os dentes — Alex anunciou quando entramos no
quarto e eu o olhei intrigada. O que tinha acontecido com toda a sua
vingança? Eu não queria qualquer que fosse o seu plano para termos somente
uma cama e não sabia o motivo pelo qual eu estava meio decepcionada para
sua postura natural.
Alex desapareceu no banheiro e eu me sentei no sofá onde era
suficientemente seguro e comecei a minha inspeção pela fileira mais próxima
do chão dos títulos. Era ali que ele mantinha os autores russos cujos nomes eu
nem sabia como pronunciar, mas no canto um box de edição de colecionador
de Percy Jackson. Eu sorri para o seu bom gosto.
— Ontem ao telefone... você parecia meio chocada quando minha
mãe te interrompeu — ele comentou com a boca cheia de espuma aparecendo
no batente da porta. A camisa que ele usava antes tinha evaporado e o
peitoral trincado apareceu. Olhei embasbacada. Eu já tinha namorado um cara
por um abdômen bonito, mas percebi que tinha expectativas muito baixas,
porque o que Alex me mostrava tinha sido esculpido pelos próprios deuses.
Como seria a sensação contra a minha língua... — Sara?
— Me desculpe, o quê? — perguntei, piscando algumas vezes
tentando encontrar meu bom senso.
— Você parecia meio chocada quando minha mãe te interrompeu —
falou devagar, rodopiando a escova e fazendo com que os músculos se
movessem... Cristo.
— Minha mãe ouviu a sua dizendo que você era meu namorado —
falei, Alex pareceu engasgar e aquilo de despertou.
— E o que você fez?
— Desliguei e falei que meu telefone tinha caído no mar.
— Como você falou que seu celular tinha caído no mar? —
perguntou repentinamente brincalhão.
— Falei que consegui recuperar, mas que ele estava muito ruim e que
tinha que mandá-lo para o conserto. Isso vai me dar alguns dias de folga, ou
talvez, anos. Você sabe como são as assistências técnicas — tentei brincar,
mas suspirei. — Não quero ter que mentir para ela.
— É mais difícil do que parece — falou meditativo, o rosto mais
acessível coberto por pasta de dente. — Às vezes eu me pergunto se fiz a
escolha certa ou se só estou atrasando o inevitável.
— Nosso término não precisa ser difícil, eu posso continuar amiga
dela depois, eu posso... continuar sua amiga. — Alex me olhou com a
expressão triste e eu me perguntei se realmente podia, se poderíamos ser
amigos depois daquilo, se eu podia manter contato com Marge.
— Vai ser difícil —disse baixo e eu me perguntei se ele quis que eu
ouvisse, mas repentinamente sorriu e voltou-se para o banheiro.
Talvez terminar aquilo fosse mais difícil do que começar tinha sido.
— Está livre — anunciou e eu peguei minhas coisas. De todas as
coisas que eu tinha imaginado sobre a noite na cama de Alex, tristeza era a
última coisa que eu imaginava sentir. Nem mesmo quando meus verdadeiros
relacionamentos estavam prestes a acabar havia aquela sensação profunda de
perda.
Escovei meus dentes com pasta de dentes o suficiente para três
escovações querendo que o cheiro fresco durasse até a manhã seguinte, mas o
que ganhei foram olhos marejados. E não era só pela menta excessiva.
Quando eu saí Alex já estava deitado na cama, as luzes todas
apagadas com exceção de um abajur ao seu lado, encostado nos travesseiros
ele tinha a cópia do meu livro nas mãos e eu me perguntei se ele tinha ido até
lá embaixo buscá-la. Sua concentração era exemplar e ele demorou alguns
segundos para perceber que eu estava parada no meio do seu quarto, sem
saber o que fazer.
— Sara? — ele chamou e eu revirei os olhos. — Uma cama, você já
estava avisada. — Havia malícia em seu tom e eu engoli em seco, mas ele
interpretou aquilo com lentes erradas. — Somos adultos e mentalmente
estáveis o suficiente para saber que é apenas sono. — Eu queria ter o controle
que ele tinha, meu pensamento de minutos atrás tinha sido de lamber seu
abdômen, eu não estava no meu melhor estado mental.
— Estou mais preocupada se você vai roncar — menti, indo em
direção a cama e me enfiando até o nariz no meio das cobertas caras, o cheiro
de amaciante de lavanda, o mesmo que eu usava em casa, fez eu me sentir
mais tranquila.
— Ronco não é um problema. Mas eu gosto de me aconchegar. — Ele
riu travesso e todas as minhas apreensões voltaram além de uma dose de
adrenalina.
— Alex! — soltei um gritinho e fiquei grata que ele não podia ver
minhas bochechas ficando vermelhas.
— Com esse grito você vai ser muito convincente para a minha mãe.
— Riu baixinho.
— Oh Deus...
— Isso, assim. — Riu e eu lhe lancei um olhar bravo. Não estávamos
tendo uma conversa suja para a mãe dele. Respirei fundo algumas vezes e
então coloquei mais do que meus olhos para fora do cobertor.
— O que está achando? — perguntei e ele me deu um sorriso doce.
— Você sabe que eu não gosto de falar sobre a obra com o autor
nessa fase. Quero ler o que você escreveu e não sua explicação sobre o que
está escrito. Mostre não diga. — Eu conhecia o estilo e trabalho de Alex, mas
estava curiosa. — No entanto, posso dizer que você escreve como alguém
que sabe editar. — Fiz uma careta, aquilo era bom ou ruim? Um escritor tinha
que ser um bom editor, mas primeiro de tudo um bom escritor. — Vá dormir,
Sara. Deixe o trabalho comigo. E se tiver medo do escuro eu estou aqui para
te abraçar.
— Idiota — falei e me virei fechando os olhos e me obrigando a ir
dormir.
Alguns minutos se passaram e o som da caneta contra o papel e das
páginas passando trouxe a sonolência para mim. Me aconcheguei no
travesseiro macio e já estava à beira da inconsciência quando a voz tranquila
de Alex sussurrou:
— Você fez um excelente trabalho, Sara. Estou orgulhoso de você. —
Sorri minimamente e me deixei cair num sono profundo.

Calor. Minha bochecha esquerda e toda extensão do meu pescoço e


seios parecia estar sobre brasa, além do pedaço de madeira quente que estava
sobre as minhas pernas envolvendo-as e minha cintura ardendo em dois
espaços diferentes. Mas não era ruim, era um calor bom, as manhãs frias de
Seattle pediam calor como esse. Suspirei satisfeita inalando o cheiro de
canela e menta. Como um bolinho. Eu estava dormindo abraçada a um
bolinho recém saído do forno? Parecia o tipo de sonho que eu gostaria de ter.
Suspirei novamente.
— Fico feliz em saber que sou mais confortável que seu travesseiro
habitual. — A voz rouca e divertida falou e eu abri os olhos num rompante.
Eu não estava deitada sobre brasas, muito menos sobre uma fornada
de bolinhos. Eu estava deitada sobre Alex Wright. Meu chefe. O que eu senti
não foram pedaços de madeira envolvendo minhas pernas, mas a perna dele,
e na minha cintura as suas mãos.
— Ah! — gritei e rolei para o outro lado, enquanto ele ria de mim. Eu
tinha babado nele? Falado alguma coisa constrangedora durante o sono?
Cristo, eu tinha abraçado ele. — Você me agarrou! — acusei, mesmo
sabendo que aquilo tinha sido coisa minha.
— Eu estou exatamente do meu lado da cama, você que veio se
ajeitando para cá. — Ele apontou e eu me cobri de novo, deixando apenas os
olhos de fora, mas dessa vez foi para esconder um sorriso. Alex, o idiota,
parecia muito bem recém-acordado, os olhos inchados eram adoráveis e o
sorriso sonolento me fazia sorrir de volta. Idiota.
Eu sabia que parecia péssima, toda amassada por ter dormido com o
cabelo preso e úmido, mas, mesmo assim, ele me olhava com aquele rosto...
feliz. Eu queria socá-lo, mas queria me inclinar e beijar aqueles os olhinhos
inchados... Deus eu precisava de uma xícara de café, estava ficando
incoerente.
— Você pode sair daqui? Preciso escovar os dentes — falei e ele riu.
— Você vai escovar os dentes antes de tomar café da manhã? —
questionou gargalhando e eu ri tentando sair de seu olhar, mas ele segurou
meus braços e se posicionou em cima de mim. — Escovar os dentes antes?
— É claro! — Ri me remexendo, mas ele se aproximou mais
afundando seu quadril contra o meu. E então eu me tornei consciente de seu
corpo perfeito sobre o meu, senti o calor se espalhando pelos pontos mais
inadequados do meu corpo. Engoli em seco. O sorriso no rosto dele também
morreu, os olhos escurecendo, se concentrando no espaço logo abaixo do
meu pescoço. Deus...
— Vou deixar você... — ele começou a falar e se levantou
cambaleando.
Num segundo ele estava em cima de mim e no outro fugindo. Era
adulto o suficiente ficar debaixo das cobertas para sempre?
O que tinha acontecido comigo? O que tinha acontecido com ele?
Me levantei percebendo que eu estava brava. Comigo mesma, com
ele, com o acordo que fizemos, com a atração estranha que eu sentia.
Quando sai do banheiro minutos mais tarde, já vestida e arrumada
para ir para casa e me afundar em sorvete, peguei meu telefone e vi mais uma
chamada perdida da minha mãe. Meu coração se retorceu. Nunca pareceu tão
ruim ser uma mentirosa horrível.
Desci as escadas e fui saudada por Coco que latiu animada e se
levantou novamente para receber carinho entre as orelhas, eu sorri, sentindo
meu humor melhorar consideravelmente com a doçura daquele cachorro.
Talvez eu devesse arranjar um cachorrinho, já que homens bonitos fugiam de
mim.
— Mãe, isso não é um problema... — Alex disse penalizado e eu
percebi que algum tipo de conversa triste acontecia ali, considerei voltar em
meu caminho e deitar de novo na cama macia e espaçosa esperando aquele
dia terminar.
— Só não serve, querido — Marge falou entristecida. — Esse vestido
foi feito especialmente para essa ocasião e agora não serve porque meu corpo
tem esse efeito sanfona estranho desde... desde o câncer. Como eu posso ficar
bonita se... querida, oi — Marge disse quando me viu meio escondida,
limpando as lágrimas do canto dos seus olhos e abrindo um sorriso amoroso.
— Bom dia. — Entrei na cozinha mordendo o lábio inferior, estava
sendo mais do que intrometida, inadequada ali, mas eu tinha que perguntar.
Eu não podia não me importar, por mais que eu quisesse. Mãe e filho, os
Wright tinham um espaço no meu coração. — Está tudo bem, Marge?
— O casamento é amanhã... — Ela sorriu, mas seus lábios tremeram.
— Mas meu vestido não me serve mais, porque eu repentinamente emagreci,
umas coisas estranhas que meu corpo faz agora. Eu só queria estar bonita...
— Mãe...
— Mas você ainda pode estar! — falei me aproximando e segurando
suas mãos. — Podemos ir a uma loja e arranjar um lindo vestido, você vai
estar maravilhosa não importa como seu corpo vai estar. Além disso eu
preciso de um vestido também...
— Você ainda não tem um vestido?
— Eu estava esperando usar alguma coisa emprestada de Aurora, mas
se podemos ir às compras não há motivos para não o fazê-lo. — Dei de
ombros querendo parecer casual, meu pai não gostava quando parecia que
estávamos mudando nossas rotinas para fazer as coisas mais fáceis para ele.
Marge sorriu e pareceu revigorada.
— Sempre há motivos para fazer compras — ela cantarolou. —
Arrume-se, Alex você vai nos levar para o shopping.
Marge praticamente dançou para fora e então éramos de novo Alex e
eu. Olhei para os meus pés e então para ele, para minha surpresa não havia,
dessa vez, a estranha eletricidade que parecia correr diretamente para mim,
havia... gratidão.
— Você ouviu sua mãe, precisa se arrumar — tentei brincar, enquanto
ajeitava uma mecha rebelde do meu cabelo atrás da orelha. Ele se levantou e
se aproximou de mim.
— Obrigado — disse pegando a mesma mecha de cabelo e
arrumando. — Por tudo. — Sua voz era forte e continha todas as coisas pelas
quais ele me agradecia, as quais eu nem sabia.
— Não há de quê. — Sorri e ele saiu. O sorriso em meus lábios
demorou para desaparecer.

Se da última vez que estivemos ali Marge parecia voraz, agora era
muito mais do que um furacão, não conseguia pensar em um evento da
natureza que se comparava a Marge. Ela caminhava apontando para peças,
enquanto a atendente parecia tão concentrada quanto ela debatendo se aquela
cor combinaria com os sapatos que ela tinha descrito.
— Precisamos de alguma coisa para ela também. — Apontou e a
vendedora me olhou de cima abaixo.
— Tenho a peça perfeita. — A mulher era tão compenetrada quando
ela. Olhei para Alex e ele parecia assombrado de novo. — Você pode ajudar
a escolher. — Alex arregalou os olhos.
Era como um déjà vu e eu estava ainda mais assustada. No entanto,
dessa vez eu me sentia confortável, era perigoso, mas quando eu rebocava
Alex de mãos dadas atrás da sua mãe meus dedos envolviam os seus com
tranquilidade, como se aquele fosse um movimento natural, de uma vida
inteira.
Me enfiei no provador e Alex me lançou um olhar empático com uma
pilha que chegava até o meu queixo repleta de lantejoulas e tecidos que
beliscavam minha pele.
O primeiro vestido era de estampa de oncinha que em uma frente
única que me deixou parecendo a Jane do Tarzan. Olhei no espelho e não
consegui conter a risada. Do lado de fora ouvi Marge e Alex cochichando.
— Baby, está tudo bem aí? — Alex chamou e eu abri a cortina num
rompante, enquanto gargalhava. Quando o trio do lado de fora, incluindo a
vendedora, me viu seus rostos passaram de normais para repressores, até que
uma gargalhada escapou de Alex que se dobrou sobre o próprio corpo rindo.
— Pedrita, você está incrível — ele caçoou e eu acompanhei sua
risada. Marge lhe deu um olhar bravo. Ela usava uma versão muito sem graça
de longo que não deixava nenhuma curva. — Desculpe — Alex pediu para
mãe.
— Talvez essa não seja a sua... cor — Marge tentou contornar a
situação e eu fiz uma careta. — O que achou do meu?
— Ele não te destaca, parece o tipo de coisa que uma avó usaria. —
Ela olhou para o tecido brilhante e balançou a cabeça positivamente. —
Vamos experimentar outros.
O meu próximo modelito parecia ter saído diretamente da família
Adams, um vestido que ia até meus pés e punhos, preto de veludo, que
abraçava minha cintura, mas desaparecia com meus peitos com sua gola U
até o pescoço. Horrível. Onde estavam os bons vestidos daquele lugar?
Saí e Alex fez uma careta enquanto balançava a cabeça. A vendedora
coçou os cabelos se arrependendo das escolhas que fez. Marge apareceu em
seguida usando um modelo muito parecido com o anterior, mas usando um
casaco menta que combinava com a verdadeira túnica que acompanhava por
baixo.
— Talvez devêssemos mudar a abordagem? — sugeri e Marge
assentiu. — Qual é o conceito desse casamento?
— Uma coisa meio... campo? — Ela mordeu o lábio inferior. — Jane
queria que parecesse um romance de Jane Austen.
— Temos coisas assim — a vendedora falou e andou em direção a
araras trazendo algumas peças.
— Deus, o que está acontecendo com esse lugar? — Marge perguntou
baixinho e eu ri.
— O importante é o caminho — brinquei pegando as novas peças.
Dessa vez um tule roxo cobriu minha cintura me transformando numa
caixa. Me perguntei se um dia a vendedora já tinha lido um dos livros de Jane
Austen. Marge, não parecia muito melhor com uma versão pastel dos
vestidos de Dolores Umbridge, o único ponto bom daquilo eram suas pernas
que davam um show.
— Talvez devêssemos desistir — Marge anunciou, enquanto saía com
um conjuntinho vermelho apagado que não a valorizava em nada. — O que
pode ficar bom quando as curvas sumiram e sem um cabelo para emoldurar?
Meu coração se partiu. Segurei o tule que se arrastava no chão e
caminhei até ela. Não era só sobre achar um bom vestido as vésperas de um
casamento para o qual ela estava empolgada, era sobre tentar se encaixar num
corpo que tinha passado por muita coisa.
— Você brilha, Marge, não existe cabelo ou cintura que poderiam
tirar isso de você. — Segurei sua mão. — Você é uma sobrevivente, as
marcas que você carrega são de uma luta intensa, deixe que o mundo veja
essas cicatrizes e como isso só te deixou mais bonita. Não estamos com muita
sorte, mas vai acontecer. — Me virei para a vendedora, assumindo minha
melhor postura de maníaca que anos de Home & Health tinham me dado. —
Para ela você vai procurar alguma coisa acima do joelho em tons quentes e
escuros, tente algo preto e grafite. Para mim...
— Vermelho — Alex interrompeu se aproximando e colocando a mão
no meu ombro. — Você fica incrível de vermelho — falou, brincando com os
cabelos da minha nuca num carinho que deveria ser inocente, mas me
acendeu.
— Algo vermelho então, longo e de alcinhas — comandei.
A vendedora saiu obstinada e se ela viesse com mais alguma
abominação eu usaria um daqueles sacos de batatas para vasculhar aquela
loja estúpida em busca de alguma coisa que fosse boa, que deixasse Marge
feliz e bonita como ela merecia. E eu não estava brincando.
— Você ficou linda mesmo nessas coisas horrorosas, mãe — Alex
tentou consolar tocando o braço de Marge e lhe lançando um olhar caloroso.
— Não me bajule, Alexander — a mãe brincou. — Mas ela está certa,
tenho que mostrar para o mundo o que passei e como isso só me deixou mais
forte e mais bonita, mesmo que eu esteja diferente.
— É isso ai! — Bati palmas, enquanto ria e Alex abraçou minha
cintura e plantou um beijo certeiro logo abaixo da minha orelha depois
inspirou a pele roçando-se devagar ali. Engoli em seco. Os pensamentos que
eu tinha naquele momento não eram adequados em frente a mãe dele então
dei um tapinha em sua mão numa mistura de constrangimento e desejo.
Dessa vez a vendedora não trouxe milhares de opções, os cabides
expostos eram promissores, lantejoulas delicadas e um tecido vermelho que
parecia delicioso em contato com a pele. O olhar que a vendedora nos deu foi
confiante.
Quando olhei no espelho fiquei impressionada, me perguntei como
era possível que a mesma loja que tinha aquelas atrocidades, tinha também
aquele vestido maravilhoso. O vestido conseguia a proeza de fazer com que
meus seios pequenos parecessem decentes e a fenda me transformava numa
verdadeira femme fatale, mas, ainda assim, tinha um caimento suave que não
me deixaria deslocada num casamento doce.
Abri a cortina dessa vez não tão confiante, me preocupando de
repente com o que Alex iria pensar. Eu nunca deixaria que ninguém me
dissesse o que e como me vestir, mas me peguei desejando que ele me
achasse bonita. Olhei para os meus próprios pés descalços quando estava do
lado de fora. Houve um momento de silêncio
— Uau. — Alex se levantou parecendo... não havia palavras para
descrever sua expressão. Era como se ele estivesse deslumbrado, maravilhado
e eu me senti triste. Queria que aquele olhar fosse real, que houvesse verdade
em cada toque, em cada palavra. Eu não entendia aquela dor estranha, estava
há meses sem um namorado, era pura carência? — Você está linda —
sussurrou se aproximando, colocando sua mão sobre a minha bochecha. —
Você é realmente real? — cochichou e eu ri sem graça.
— Perfeito! — a vendedora disse, quando a outra cortina se abriu e eu
me virei. Um sorriso se espalhou pelos meus lábios. Marge estava incrível. O
vestido cinza escuro brilhava em sua pele, o decote e os braços de fora eram
perfeitos, as pernas um escândalo. O tecido era solto e cada vez que ela se
movia ele parecia voar ao seu redor.
— Ah meu Deus! — dissemos, eu e ela em uníssono. — Você está
linda! — elogiei.
— E olhe para você! — Marge caminhou em minha direção. —
Parece uma princesa! Alex, veja isso!
— Eu estou vendo, mãe. — Sua mão desceu para meu ombro. — Eu
estarei com as duas mulheres mais lindas da festa.
— Vão ser esses, sem discussão. — Marge virou-se para a vendedora
que sorria aliviada.
Nós duas voltamos para o provador e eu me olhei de novo no espelho
me perguntando se eu deveria comprar um de cada cor daquele e usar em
todas as situações da vida. Desci as alcinhas enquanto ainda me admirava no
espelho.
— Pode levar esses outros — Alex instruiu e eu ouvi o farfalhar dos
tecidos e os passos da vendedora se afastando.
Para minha surpresa a cortina se mexeu e eu agarrei a frente do
vestido que desceu pelas alças estarem fora dos meus ombros. Alex apareceu
olhando-me de cima para baixo com se concentrando em todas as partes que
ele não deveria se concentrar.
— Precisa de ajuda? — sussurrou entrando e eu pisquei atônita.
— Alex... — Minha voz era trêmula.
— Parece precisar de ajuda. — Alex se posicionou atrás de mim e
minhas pernas ficaram bambas, como se percebesse minha instabilidade suas
mãos seguraram minha cintura e ele se voltou para o mesmo ponto no meu
pescoço.
— O que você... — comecei a dizer.
— Shiu... — comandou e suas mãos se arrastaram para cima, ele
massageou meus ombros e se inclinou para beijar logo abaixo da minha nuca.
— Você está tão linda — sussurrou rouco e eu fechei meus olhos minhas
mãos estavam tremendo.
— Não devia fazer isso. — Minha voz não continha nenhuma força,
na verdade, ela contrariava o que minhas palavras estavam dizendo. —
Ninguém está vendo.
— Esse é o problema — sussurrou plantando outro beijo. — O que eu
quero fazer quando ninguém está vendo. — Alex se ergueu e mordeu meus
ombros o suficiente para um gemido mal contido escapar.
— O que vocês dois estão fazendo aí? — A voz de Marge do lado de
fora fez com que eu pulasse voltando as alças para os lugares certos no meu
ombro.
— Ela precisava de ajuda para tirar o vestido — Alex falou e sua voz
era normal, nada afetada como a minha soaria.
— Um vestido de cetim? — Marge não pareceu acreditar. — Vocês
têm uma coisa com provadores...
— Não queremos que rasgue — ele disse para a mãe do lado de fora,
mas então se inclinou pairando sobre meu ouvido, os lábios roçando meu
lóbulo. — Eu quero rasgar.
Cristo.
Alex saiu do provador e começou uma conversa elogiosa para a mãe
dizendo sobre como ela ficaria bem no vestido e como ele era bem melhor do
que o que ela tinha trazido.
Olhei-me no espelho, minhas bochechas coradas e pupilas dilatadas, a
respiração saindo rápida como se eu tivesse corrido e não parada num
pequeno provador. Dei batidinhas nas maçãs do meu rosto tentando fazendo
o sangue voltar a circular e não se acumular ali.
Agora não estava somente difícil, mas sim impossível ficar perto de
Alex e da tentação que ele representava. O pior: eu não queria me afastar.
Capítulo 19

Como sempre antes de qualquer festa eu estava atrasada. Perdi um


pouco de tempo fazendo inspeção dos cheiros dos produtos caros de Alex e
como eu não estava na minha própria casa, coisas como chutar a toalha para o
cesto depois do banho não poderiam acontecer e com certeza me tiraria
tempo.
Eu parei em frente ao grande espelho no quarto com o secador que eu
tinha carregado da minha casa depois das compras. Era estranho como de
repente as minhas coisas estavam espalhadas pelo quarto de Alex. Mas
depois que Marge insistiu em um dia de garotas para me arrumar pareceu
grosseria não aceitar. Eu estava na chuva por que não me molhar?
— Eu não estou maravilhosa? — Marge rodopiou em cima dos pés
descalços para mostrar para um Alex recém-chegado a maquiagem que eu
tinha feito. — Meus olhos estão brilhando e vejam meus cílios. — Ela piscou
para o filho algumas vezes. — São falsos, ela me emprestou.
— Você parece maravilhosa, mãe — Alex cumprimentou e deu um
beijo na testa dela. — E você não parece pronta. — Alex franziu o cenho para
mim, enquanto eu pegava o secador.
— Vá ajudá-la ao invés de reclamar. — Marge deu um tapinha nas
costas dele. — Olha todo aquele cabelo, use essas horas na academia para
alguma coisa.
Alex caminhou em minha direção parecendo incerto enquanto eu me
sentava em frente ao espelho. Eu tinha um par de braços sobrando qual seria
o motivo de não usar?
— Ela não está aqui, preciso realmente fazer isso? — perguntou e eu
espremi os olhos para ele. Eu podia citar algumas situações em que ele não
ligava de Marge não estar olhando.
— Você ouviu sua mãe, me ajude, mocinho. — Entreguei o secador
na mão dele. — Não é difícil, só tem que apontar o secador ligado...
— Engraçadinha. — Ele revirou os olhos.
— Fazer movimentos de um lado para o outro de cima para baixo. —
Encorajei e me ajeitei na cadeira.
— Para ser sincero estou com medo de te machucar, puxar com muita
força e te queimar. — Ele fez uma careta e eu vi pelo reflexo a ruga em seus
olhos.
— Não se preocupe. — Eu gosto que puxem meu cabelo. — Você vai
fazer um ótimo trabalho, mas não temos muito mais tempo por isso se
apresse.
— Você está certa — falou e apertou o botão de ligar do secador. A
distância que Alex deu entre meu coro cabeludo e o bocal era mais do que
exagerada, mas eu não o repreenderia, sua expressão preocupada era
adorável.
Mas quando ele começou a passar os dedos pelas mechas molhadas eu
poderia jurar que se tratava de um sonho. Aquela mão enorme se
movimentava com tanto cuidado que parecia realmente um carinho. Me
contive para não ronronar sob o toque dele. Mas fechei os olhos deixando que
toque me relaxasse, aproveitando mais dele do que eu deveria.
— Acho que está seco — disse alguns minutos depois, quando
desligou o secador. Abri os olhos e me surpreendi. Ele tinha um talento
escondido.
— Meu Deus, está muito bom — falei balançando as mechas que
estavam completamente alinhadas, muito mais do que quando eu fazia. —
Você faz isso melhor que eu.
— Seu cabelo está macio — elogiou acariciando do topo até as
pontas. — É divertido — admitiu.
Não quis dizer que parte da maciez envolvia um dos seus cremes
caros e eu sorri em resposta. Ele não saiu do quarto, como eu imaginava que
fosse fazer, deitou-se na cama com a cópia do meu livro e passou a ler
enquanto escrevia nos cantos do papel. Ele não tinha pressa para se arrumar,
havia um terno cuidadosamente passado perto da porta, tudo que ele tinha
que fazer era relaxar. Idiota.
— Isso parece requerer muito concentração — falou, quando eu
estava milímetros da minha pálpebra com o delineador.
— Sim — respondi sem respirar, um erro poderia me deixar
igualzinha a um panda e eu devia estar matadora.
— Imagino que quando alguém fala deve ser mais difícil ainda —
provocou.
— Principalmente quando eu tenho que responder — falei
entredentes, mas sorri. O idiota era divertido. Percebi que em sua companhia
eu ria mais que o de costume.
— No reality de drags não parece tão difícil.
— No reality de drags são todas profissionais e não tem alguém as
desconcentrando.
— Elas fazem tudo...
— Alex! — eu meio gemi e meio ri, ele gargalhou.
— Vou parar, prometo. É só muito fofo ver você toda concentrada em
alguma coisa que não seja esconder os doces na sua mesa.
— Você sabe sobre os doces na minha mesa? — Me virei para olhá-lo
e ele me deu um sorriso de lado.
— Eu sei sobre tudo, baby — provocou. Não passou despercebido por
mim que ele usava o apelido romântico que tínhamos para nos referir um ao
outro perto da mãe.
Aqueles momentos me confundiam. Eles não deviam me confundir,
mas ali estava a dúvida plantada na minha mente. Era apenas hábito? E o
mais importante: por que eu me fixava naquilo?
Trabalhei na maquiagem me focando em cada detalhe e vez ou outra
Alex olhava por cima do meu ombro, mas quando eu retribuía, os olhos
voltavam para a página. O ignorei, não podia deixar braços musculosos me
distraírem e me transformassem numa palhaça assimétrica. Eu tinha que
causar uma boa impressão. Me peguei querendo que os Wright gostassem de
mim tanto e com tanta verdade quanto Marge o fazia.
No final do delineado suave, correção de manchas e batom vermelho,
mandei uma foto de como tinha ficado minha produção para Aurora e fui me
trocar no banheiro. Tentei não pensar na reação inicial de Alex para o meu
vestido ao mesmo passo que eu queria que ele cumprisse sua promessa.
— Seu telefone está vibrando, Sara — Alex gritou do quarto, e eu saí
correndo apenas com um pé enfiado na sandália antes que One Direction
começasse a tocar de novo.
O visor mostrava uma chamada de vídeo de Aurora, eu imediatamente
sorri e atendi.
— Me mostre, me mostre, me mostre — ela cantarolou e ao fundo eu
podia ouvir Zoey dizendo "também quero ver!".
— Como eu estou? — perguntei, focando a câmera no espelho para
uma visão completa e me levantando num pé só, o único calçado.
— Um único salto é uma escolha — ela brincou, mas eu podia ver os
olhos dela concentrados em um ponto atrás de mim. Podia quase ouvir as
engrenagens funcionando na sua mente fértil.
— Não consegui calçar o outro — falei e ela riu. Ela tombou a cabeça
para o lado e franziu o cenho.
— Assim fica melhor — Alex falou do meu lado e eu me assustei
com sua aproximação sorrateira. Ele abraçou minha cintura e eu me
estabilizei sem precisar me equilibrar como um pirata sobre uma perna só.
— Quem é esse? — Zoey apareceu de repente em frente a câmera.
— Sou o Alex, prazer Zoey — ele cumprimentou e eu me lembrei de
mencionar o nome dela só uma vez. — Oi Aurora. — Alex agia como se as
conhecesse há tempos e como se minha melhor amiga não soubesse do nosso
acordo.
— Oi Alex, ela está linda, não é?
— Perfeita — concordou, me olhando com um dos sorrisos sacanas
do provador. Me senti envergonhada de Aurora ver aquilo.
— Foi bom você ter ligado, senhorita. — Me desvencilhei do abraço
de Alex. — Preciso de sua ajuda para escolher os brincos.
— Você devia confiar na sua escolha, porque esse batom está perfeito
— ela falou e se mexeu de um lado para o outro como se inspecionasse ao
meu redor e quando não viu Alex tocou a orelha direita e depois esquerda
enquanto falava, sem som, "fones de ouvido".
E lá vamos nós...
Peguei meus fones dentro da minha bolsa e caminhei de volta para o
banheiro. Apoiei o celular em cima do suporte do espelho e podia ver ela
quase quicando de tanta curiosidade. Conectei o fone e dei um olhar bravo,
mas Aurora não pareceu se afetar. Mostrei os dois brincos, um em cada
orelha e deixei que ela começasse.
— O que foi isso? — Sua voz era tão animada e estridente que eu me
encolhei. — Não se faça de desentendida, Sara. A mão boba na cintura... uau,
a química, o olhar. Meu Deus, aquele olhar.
— Que tipo de olhar, mãe? — Zoey questionou e Aurora olhou para
ela, além do que a câmera permitia.
— É conversa de adultas, querida. Te chamo de volta quando tia Sara
estiver pronta, enquanto isso vá ver se o papai e seus irmãos já fizeram o
nosso suco.
— Esse é o exemplo que quer dar para a sua filha? — ironizei e ela
revirou os olhos.
— Só vou te dizer uma coisa: isso que vocês têm não é coisa de quem
está fingindo, ok?
— O em formato de gota ou o comprido? — Mostrei os brincos,
tentando ignorá-la, tentando ignorar o fato de que ela estava certa. Não era
mais uma mentira, não para mim.
— Eu tenho um pressentimento de grávida que me diz que esse
casamento vai mudar tudo para vocês — falou como uma cartomante
charlatã, mas eu suspirei.
— Eu também acho — confessei baixinho.
— E eu prefiro o comprido. — Escolheu e eu virei meu rosto para que
ela pudesse ver melhor. — Você está incrível, passível de um pedido de
noivado falso. Ou pelo menos de amassos decentes, vocês dois querem isso,
eu estou vendo.
— Veremos. — Era para soar provocativo, mas pareceu muito mais
desejoso.
Capítulo 20

A cerimônia tinha sido uma das coisas mais lindas que eu já tinha
visto. A prima de Alex, Jane, tinha um senso de estética maravilhoso e o
lugar estava decorado em tons suaves de branco e creme contrastando com o
verde do jardim onde a troca de votos tinha acontecido.
Como madrinha, Marge, teve que ficar no altar e graças ao nosso
atraso ela chegou exatamente na hora o que evitou que os parentes deles
viessem nos cumprimentar, mas eu podia ver, mesmo enquanto a noiva
entrava, olhares em minha direção, os quais eu evitava a todo custo.
Na hora do sim eu desabei em lágrimas e para minha surpresa Alex
riu baixinho e abraçou meus ombros e eu nem precisava me virar para saber
que aquilo foi uma atração para os convidados que não prestavam atenção no
casamento. Meu choro só passou quando irrompemos em palmas para o
primeiro beijo do casal como marido e mulher. Nesse momento, Alex e eu
trocamos um olhar que eu imaginei ser mais uma demonstração e eu deitei
minha cabeça em seu ombro. Casais apaixonados eram sempre afetados por
demonstração de amor. Foi muito fácil fingir naquele momento.
Seguimos a fila para cumprimentar os noivos e eu me senti nervosa.
Ficar sentada e fingir que ninguém olhava para mim era fácil, mas me
levantar e interagir com eles era uma missão quase impossível. A mão de
Alex na minha cintura foi a única coisa capaz de me fazer andar.
— Relaxe — sussurrou na minha orelha ,deixando os lábios roçarem
no lóbulo da minha orelha. Trapaceiro. — Jane! — ele saudou e a mulher se
desvencilhou do abraço de uma senhora. Os olhos da noiva brilharam para o
primo, mas quando caíram sobre mim parecia ter visto um fantasma. Me
encolhi.
— Alex, fico tão feliz que tenha vindo — disse se recompondo e
segurando o rosto dele. Ambos se abraçaram por alguns segundos, enquanto
eu cumprimentei sem graça o noivo com um apertar de mãos.
— Parabéns, Louis! — falei e ele me deu um sorriso agradecido.
— E essa é a famosa Sara? — Jane questionou se inclinando para me
abraçar. — Marge não parava de falar de você, é ótimo te conhecer.
— Bom te conhecer também, Jane — respondi. — Parabéns pela
cerimônia, foi incrível.
— Louis e eu nos superamos, não é, docinho? — ela perguntou e deu
um tapinha de leve nele que riu como se ela tivesse contado a melhor piada
do mundo. Eles estavam tão apaixonados que pareciam contagiar, me vi
acariciando devagar as costas de Alex. — Mas eu preciso dizer que sinto
muito que você nos conheça assim, Sara. Daqui a poucas horas você vai ver o
pior da nossa família.
— Não a assuste. — O noivo riu, mas então cochichou em minha
direção. — Eles são loucos.
Os primos riram e eu engoli em seco. A noiva olhou para alguma
coisa acima do meu ombro e de repente sua expressão se tornou séria.
— Olha, Alex, não fica bravo comigo, mas... — Jane começou a
dizer, uma ruga surgindo entre as sobrancelhas.
— JJ! — Uma voz feminina chamou atrás da gente e ao meu lado
Alex travou. Me virei para ver. — Você realmente se casou!
— Pois é, Lauren! — Jane riu sem humor e eu me controlei para meu
queixo não ir ao chão. Aquela era a Lauren? A julgar pela expressão de Alex
sim.
A mulher usava um vestido azul de um ombro só e tinha os cabelos
escuros amarrados num rabo de cavalo estilizado. Ela tinha a pele bronzeada
e sem nenhuma imperfeição e enquanto se aproximava do casal seu andar
parecia muito mais um desfilar. Ela não pareceu nos notar ali, até que o fez.
Quando seus olhos pairaram sobre Alex eles se arregalaram levemente, mas o
que mais pareceu lhe chamar a atenção foi a mão na minha cintura.
Ao meu lado Alex recompôs a expressão para uma neutra e amigável,
mas em direção do noivo e não das duas amigas que se abraçavam. Mas eu
não conseguia ser tão imparcial assim, foquei-me na morena e dei a ela meu
melhor olhar irritado. Não foi difícil e não era fingimento, eu já detestava
aquela mulher por tudo que ela representava. Ela tinha traído e quebrado um
homem que amava e precisava dela, eu não me daria o luxo de ser nem
mesmo educada com ela.
Quando Lauren soltou Jane, ela deu um abraço rápido em Louis e
então se virou para Alex.
— Oi — ela cumprimentou parecendo afetada. Me imaginei enfiando
meu salto no globo ocular dela e me senti relaxar.
— Lauren — Alex falou frio, mas educado.
— Não sabia que você viria. — "Por que ele não viria?", eu queria
gritar "Você não é bem-vinda aqui e não ele."
— Claro que eu viria. — Ele deu de ombros.
— Esse casamento também foi uma oportunidade de Alex nos
apresentar a Sara — Louis interveio e eu queria bater um high five para ele.
A mulher que parecia estar evitando olhar para mim finalmente o fez e eu
tombei minha cabeça levemente para o lado, em desafio.
— Sara... é um prazer te conhecer. — Tentou ser amistosa e ergueu a
mão para mim, eu queria ser superior e devolver com a mesma frieza, mas
meu sangue ferveu.
— Só pela sua parte — respondi e ela ergueu uma sobrancelha e
recolheu a própria mão. Ao meu lado Alex tossiu falsamente para abafar uma
risada. — Podemos pegar uma cerveja, amor? — perguntei me virando para
ele com minha melhor cara sensual. — Estou com tanto calor.
— Eu fiz as cervejas — Louis disse alegremente, chamando um
garçom com um sinal.
— Alex me disse! Estou curiosa para experimentar. — Dei um sorriso
largo deixando claro que minha única antipatia ali era com a idiota vestida de
azul.
— Você sabe quem está aqui? — Jane perguntou para Lauren
segurando sua mão. — Marisa, vocês têm que se ver! — falou e começou a
rebocar a idiota. Quando as duas estavam a alguns metros de distância, Jane
pediu desculpas silenciosamente por cima do ombro.
— Foi mal por isso, cara — Louis pediu, entregando duas garrafas
pequenas da cerveja com um rotulo colorido. — Jane a chamou por
educação, não imaginávamos que ela fosse vir. Elas são amigas, mas acredite
em mim, sua prima sabe que ela não é uma pessoa decente.
— É o casamento de vocês, podem chamar quem quiser — Alex
garantiu, pegando as cervejas e me entregando depois de abri-la. Dei uma
golada sentindo a minha garganta seca, mas me arrependendo no momento
seguinte.
Que horror. Tentei manter minha expressão neutra, mas a minha sorte
tinha sido Louis estar olhando culpado para Alex e não para mim.
— Mesmo assim, me desculpe — pediu. — Vou atrás da Jane e vou
garantir que Lauren não chegue mais perto de vocês. — Eu forcei a cerveja a
descer pela garganta e sorri quando Louis me deu um tchauzinho e saiu atrás
da, agora, esposa.
— Você não precisava fazer isso — Alex disse se virando em minha
direção com olhos tão calorosos que me fizeram sorrir em resposta. — Você
não precisa fingir ter raiva de Lauren por mim.
— Eu não estava fingindo. Acho que ela mulher não merece estar
aqui e com sorte vou colar chiclete no cabelo dela. — Ele riu acariciou
levemente a minha cintura, seu rosto se tornando brincalhão. Fiquei feliz ao
perceber que a presença da sua ex-namorada traidora não tinha o afetado
tanto quanto eu imaginei que faria. Gostei de pensar que talvez eu tivesse
minha parcela de ajuda naquilo.
— O que achou da cerveja?
— Tem gosto de urina — confessei e ele gargalhou, enquanto me
abraçava.
— Esqueci de te dizer que nós não bebemos a cerveja de Louis. Só
pegamos e agradecemos. — Fiz uma careta me lembrando do sabor esquisito.
— Você se saiu muito bem, mas o pior ainda está por vir.
— O quê? Do que você está falando? — perguntei em alerta e ele
inclinou a cabeça levemente para o lado e eu segui seu olhar onde uma moça,
muito parecida com Jane acenava em nossa direção. — Sua primeira prova,
Anastasia.
— A dona do canil? — questionei desesperada e ele balançou a
cabeça positivamente. Peguei uma taça de champagne de um dos garçons que
passava e tomei todo o conteúdo em um único gole. Era a hora do meu show.
Não foi tão difícil falar com a família de Alex. Todos eram muito
simpáticos e pareciam estar nas nuvens cada vez que viam nós dois
interagindo, deixaram bem claro, principalmente as primas, que abominavam
a presença de Lauren ali e eu concordava furiosamente ganhando, sem
nenhum esforço a simpatia deles.
Mas uma pequena dinâmica se formou ali. Discreta. Toda vez que um
parente se aproximava eu virava uma taça de champagne para me incentivar e
depois de todas as tias, primos, amigos e agregados eu me sentia meio tonta.
— Acho que essa devia ser a última — Alex falou, segurando com
cuidado a minha sexta... sétima... oitava taça? Enquanto eu tropecei para
frente, mesmo com seus braços em meu entorno. Ele me abraçou por trás e
beijou meu pescoço para cochichar. Meu corpo inteiro se arrepiou e minhas
mãos seguravam a dele prendendo-o ali. — Você fez um ótimo trabalho, não
precisa se embebedar.
— Mas eu quero — cantarolei e ele riu beijando de novo a pele
sensível. Nós deixamos de ser a sensação da festa quando sua prima
Christina-que-deu-o-golpe-do-baú-por-isso-seu-marido-tem-a-mesma-idade-
do-pai-dela, começou a se agarrar com o marido em questão deixando todo
mundo meio incomodado.
Alex estava prestes a protestar quando o som da pista de dança
começou com os primeiros acordes que eu conhecia muito bem. Me virei
para Alex sentindo tudo girar ao meu redor, mas eu não podia deixar aquilo
passar.
— Hips Don't Lie! — eu gritei, puxando Alex pela mão em direção a
pista de dança. — Eu amo essa música!
— O que você... — ele começou a perguntar, mas eu já estava ao lado
dos outros convidados rebolando ao som de Shakira. — Ah meu Deus... —
Me encostei contra o corpo dele deixando meus quadris se movimentarem
livremente. Se os convidados não estavam mais olhando para nós, agora eles
estavam.
Alex não tentava me conter, muito pelo contrário, ele se mexia com
tanto vigor quanto eu, suas mãos segurando minhas laterais apenas para
garantir que o contato fosse permanente. Meu corpo se aqueceu ao sentir os
efeitos que a fricção constante tinha causado nele.
Meus olhos se fecharam e eu aproveitei a embriagues e a desculpa de
uma dança para deixar sua aproximação me consumir. Eu queria Alex. Não
tinha motivos para negar aquilo. Eu o queria. De todas as formas que eu
podia pensar.
A música acabou e eu me sentia hiperventilando. Abri meus olhos só
para encontrar a carranca arrependida de uma Lauren que nos olhava
desgostosa, lancei para ela um sorriso sacana que deixava claro, mesmo que
fosse na verdade, uma mentira, que aquilo era só uma amostra do que nós
podíamos ser.
Me virei para Alex, seus olhos deixavam claro que a parte da mentira
tinha que ser deixada de lado, tanto quanto eu queria que fosse. Ele me puxou
para perto e me devorou em um beijo faminto.
— Vamos para casa — ele implorou e eu balancei a cabeça
positivamente.
Tropeçamos pelo estacionamento e por sorte o nível de álcool dos
outros convidados nos fez passar despercebido. Sob a sombra onde a
iluminação do casamento não chegava era fácil demais pensar que não tinha
ninguém vendo. Fácil demais ceder.
— Quero beijar você — Alex implorou, me pressionando contra a
porta do carona e eu não podia negar. Agarrei seu rosto e deixei que ele me
beijasse com avidez. Suas mãos estavam menos tímidas e passearam sobre o
decote do meu vestido. Explorei seu dorso por cima do tecido irritante do
terno.
— Alex… — eu gemi, quando ele puxou os cabelos da minha nuca
fazendo com que minha cabeça se erguesse para seus beijos suaves no meu
pescoço. — Por favor... — sussurrei debilmente, friccionando minha cintura
contra a dele.
Ele nos separou arfando e riu.
— Se você não começar a... dirigir... então vamos começar outra coisa
aqui... — ralhei e ele abriu a porta do carro para que eu me sentasse.
Contornou rapidamente e assumiu o lugar no volante, mas antes de
ligar o carro se inclinou para mais um beijo arrebatador. Alex estava
brincando com fogo e eu gostava daquilo.
Ele manobrou para fora do estacionamento e as ruas iluminadas, mas
vazias de Seattle eram nossa única companhia. Dentro daquele espaço
fechado, a poucos centímetros dele era difícil de pensar.
— Fácil dirigir assim, não é? — questionei e ele me olhou intrigado.
Soltei o meu cinto e me curvei em sua direção.
— Sara, o quê... — começou a dizer, mas quando minhas mãos
encontraram seu cinto sua pergunta se tornou um gemido.
— Olhos na estrada — comandei, ele o fez e eu ri. — Bom garoto.
O obstáculo dos tecidos desapareceu e eu sorri. Segurei a base firme e
com a língua circulei o topo do seu pau. O motor roncou quando Alex pisou
com rigor no acelerador. Olhei-o travessa e ele soltou a respiração em uma
lufada.
— Você... vai pagar por isso... senhorita Webber — disse com os
dentes trincados e eu sorri em desafio para depois deixar que o cumprimento
atravessasse a minha boca aos poucos, centímetro por centímetro, até
encostar no fundo da minha garganta. Alex projetou o seu quadril para frente,
mas eu o retirei. — Porra — ele gemeu em meio a um rosnado.
— Estou te atrapalhando? — perguntei com uma falsa inocência,
enquanto meu polegar acariciava a carne úmida pela minha saliva.
— Não — me respondeu e eu parei a centímetros, deixando meus
lábios roçarem sobre a glande.
— Acho que estou te distraindo — falei e puxei devagar a calça de
volta para o lugar certo. — Vamos seguir as regras de trânsito, isso foi só um
incentivo.
— Sara! — brigou e eu sorri mordendo a ponta do meu polegar.
Mais uma vez Alex pisou no acelerador enviando o carro para uma
velocidade de cento e oitenta por hora. Eu era uma mulher responsável, tinha
as regras e as leis bem estabelecidas na minha cabeça, mas a quantidade de
bebida no meu sistema e a excitação me impediam de pensar direito. Eu
queria Alex, provocá-lo até o ponto do intolerável para então repetir a dose.
Quando reconheci a fachada do prédio meu coração bateu mais rápido
e eu senti a mistura de expectativa e ansiedade se acumulando. O homem ao
meu lado parou como um ás do volante estacionando sem nenhum problema.
Minha mão voou em direção da maçaneta, mas antes que eu pudesse saltitar
para fora do carro, Alex segurou meu pulso e eu o olhei curiosa. Em sua
expressão encontrei desafio e uma pitada de divertimento.
Ele me puxou em sua direção segurando meu braço esquerdo,
apoiando minha cintura para me passar sobre o câmbio e me sentou em seu
colo sobre a ereção. Fechei meus olhos instintivamente quando ele me
segurou ali.
— Você foi um garota muito ruim, Sara. — Sua voz era grave e eu
me sentia confusa quando suas mãos passaram a apertar minhas coxas e
subir. — Muito ruim — sussurrou e me beijou, mordendo de leve meu lábio
inferior.
Comecei a me mexer quase em desespero sentindo a umidade se
acumular em meu centro, mas Alex segurou minha cintura me mantendo
parada. Gemi em represália, mas ele riu.
— Não... — falou entre os beijos. — Nós só estamos começados e
isso vai ser do meu jeito.
— Alex... por favor — implorei sem nem entender o que eu pedia.
— Vamos subir, baby. — Usou o apelido que tínhamos inventado,
mas a provocação ali ganhava outro status.
Ele abriu a porta e me deixou sair primeiro, tive dificuldades em me
manter de pé e não sabia se era efeito do álcool ou da excitação. Minha pele
se arrepiou para o frio e eu estremeci. Ao perceber aquilo seu braço circulou
minha cintura enquanto o outro afagava meu braço para conferir algum calor
e seu peito firme cobriu minhas costas, fechei meus olhos para o contato.
— Você está bem? — A luxúria ainda fervia por debaixo de seu tom,
mas cuidado era dominante em sua voz. — Parece meio fora de órbita.
— Estou ótima — garanti. — Estou tonta porque não fui bem fodida
ainda — provoquei e ele me apertou com uma risada baixa.
— Vamos entrar e resolver isso — disse e me ajudou a caminhar para
dentro do prédio.
Ele praticamente me levantou pelos degraus e eu permiti que me
conduzisse até a porta do meu apartamento. Me perguntei onde estavam as
minhas chaves e pensei no quão estranho seria se meus vizinhos nos
achassem nus pela manhã no corredor. Não tão estranho assim.
— Aqui. — Ele puxou meu chaveiro do bolso e eu o olhei confusa. —
Você me deu pouco antes da terceira taça de champagne.
— Não me lembrava disso. — Eu ri e Alex me guiou pela escuridão.
A percepção de que estávamos sozinhos ali ativou meu lado mais divertido e
eu me virei em seus braços. — Chegamos. — Me inclinei para beijá-lo, no
entanto, ele me parou segurando meu rosto delicadamente. Fiz biquinho para
sua recusa.
— Vai para o sofá — ele pediu e eu franzi o cenho. — Confie em
mim, vá para o sofá.
— Não entendo como isso vai mudar a minha condição de não ter
sido bem fodida ainda — resmunguei e ele riu deixando que eu me
movimentasse. Tirei aos chutes as minhas sandálias sem ao menos perceber
para onde elas iam, mas ouvi o burburinho de Alex na cozinha.
Me sentei no sofá e o homem alto se materializou a minha frente, de
pé.
— Aqui — disse e me ofereceu uma garrafa de água. — Vai te ajudar
a não ter uma ressaca amanhã.
— Não quero água — neguei, mas peguei o plástico de suas mãos. Eu
queria água, só não queria água naquele momento.
— Ah você vai querer — ele falou e empurrou com delicadeza minha
mão até que o bocal estivesse em meus lábios. Bebi um gole grande que
levou mais da metade do conteúdo, meu estômago que antes estava agitado se
acalmou para a hidratação.
Para provocá-lo, quando me senti saciada, passei a língua devagar
pela boca da garrafa. Daquela distância, mesmo no escuro, podíamos nos ver
e eu assisti os olhos de Alex faiscarem para mim. Eu adorava como ele
sempre reagia a minha presença.
Ele pegou a garrafa das minhas mãos e sorriu.
— Esse sofá me traz tantas lembranças boas — sussurrou. — Te
beijei aqui pela primeira vez. — Se aproximou ficando a centímetros da
minha boca. — Você se lembra? — perguntou doce e eu balancei a cabeça
positivamente. — Vou te fazer gozar aqui pela primeira vez também.
Minha respiração acelerou e ele acariciou meus cabelos devagar.
— Me mostre — ele comandou e como mágica minhas pernas se
abriram, o tecido do meu vestido se acumulando na minha cintura. — Mostre
para mim como você faz, baby — pediu dominador e eu deixei meus dedos
flutuarem sobre a renda da minha calcinha. Joguei minha cabeça para trás
imaginando os dedos dele no lugar dos meus. — Agora pare. — Eu
imediatamente o fiz.
— Alex... — eu gemi. Que tipo de poder hipnótico ele tinha sobre
mim? Bastava uma palavra e eu me via desfeita.
— Você foi má no carro, Sara — disse e eu ouvi o cinto e o zíper
sendo abertos. Curiosidade me fez me inclinar em sua direção. — E eu disse
que você iria pagar. — Uma de suas mãos segurou a base do pênis e a outra a
outra segurou meu maxilar, me trazendo para mais perto. Minha boca se
abriu por instinto e ele sorriu. — Você quer, não é? O quanto você quer meu
pau, Sara?
Eu não iria responder. Mas então eu respondi.
— Muito, por favor... — pedi e ele acariciou minha bochecha com o
polegar. Carinho e cuidado se fundindo com luxúria e domínio.
Novamente seu pau tocou meus lábios e eu lambi e chupei com
avidez. Alex gemeu e o som me incentivou a ocupar o lugar que sua mão
ocupava na base. Coloquei devagar tudo que conseguia e acariciei com as
mãos a parte que eu não podia engolir.
— Porra... — ele gemeu, segurando meus cabelos, mas sem nunca me
forçar para baixo. — Sua boca... — disse e sua respiração se tornou ainda
mais arfante. Meus dedos voltaram a remexer o ponto necessitado em mim.
— Tão boa para mim, quero retribuir o favor — falou e me empurrou de
volta para o sofá.
De joelhos ele abriu minhas pernas e eu gemi pela expectativa. Mas
ele não foi direto para onde eu mais precisava dele. Beijou minhas coxas
devagar, traçando linhas imaginárias pela minha pele enquanto mantinha
minha cintura presa pela sua mão. Ele ia e voltava, parando a centímetros da
barra da minha calcinha apenas para voltar para o começo.
— Alex... — gemi e ele riu baixinho
— Tão exigente... — disse, mas então afastou a renda deixando a
umidade exposta para o hálito quente da sua boca. — E tão linda... — elogiou
e se aproximou. — Macia e molhada. — Beijou o meu clitóris sensível e eu
arfei.
A língua de Alex fazia movimentos circulares suaves, mas rápidos.
Ele contornava a abertura e eu me sentia contrair em expectativa. Minha
respiração ficando cada vez mais rápida enquanto ele me torturava de
maneira deliciosa. Continuou me chupando, enquanto os seus dedos entraram
na equação. Primeiro um, devagar e explorador e depois o segundo, exigente
e dominador, me fodendo um ritmo que me fazia gemer cada vez mais alto.
Eu me sentia na borda. Tão perto do ápice que minhas pernas tremiam.
E então ele parou.
— Não! — eu gemi desesperada, lançando meus quadris em sua
direção, mas ele me segurou ali, um sorriso prepotente nos lábios que me fez
rosnar.
— Eu te disse que você tinha sido má — brincou e eu arfei. —
Respire, Sara — comandou e eu tomei uma respiração profunda. — Vamos
recomeçar... nós temos a noite toda.
Alex se ergueu e me beijou devagar e sensualmente. Puxou a barra do
meu vestido para cima e eu empurrei minha calcinha para baixo poupando
tempo, ele riu para minha ansiedade e fez o mesmo com o meu sutiã.
— Você está vestido demais — reclamei, enquanto ele me deitava no
sofá.
— Podemos providenciar isso — garantiu, tirando o blazer e em
seguida a gravata e a camisa branca. Seu abdômen musculoso me distraiu
tanto que quando me dei conta ele estava nu na minha frente. Nem em meus
sonhos mais pervertidos eu podia conjurar uma perfeição maior que aquela.
— Vem cá — implorei e seu corpo cobriu o meu, enquanto ele
beijava meus lábios com avidez. Sua ereção pairando sobre meu abdômen
fazendo eu me movimentar por instinto para aumentar a fricção. — Você tem
camisinha certo? Por favor, Alex tenha uma camisinha.
— Sempre preparado. — Ele riu e rasgou o plástico. Assisti ele cobrir
toda a extensão volumosa. Alex voltou a me beijar, enquanto eu abri minhas
pernas para enlaçá-lo e trazê-lo para mais perto. — Se você soubesse o
quanto eu quero te foder e há quanto tempo eu quero — gemeu posicionando
a ponta do seu pênis contra a minha entrada, deixando que ela passasse pelo
meu clítoris fazendo meu corpo estremecer. — Tão macia — rosnou entrando
devagar.
— Alex... — eu gemi e ele tomou minha boca. Começou estocando
devagar e eu afundei minhas unhas em suas costas. — Assim... — comandei
entre os beijos.
Nossos corpos se moviam numa sintonia impressionante e parecia que
nos conhecíamos há anos. O encaixe era perfeito e eu me sentia perdendo a
cabeça.
— Mais rápido — implorei e Alex não pensou duas vezes antes de
começar a estocar num ritmo mais acelerado.
Os barulhos de nossos gemidos descontrolados, das nossas peles se
chocando enchendo todo o apartamento e no fundo da minha mente me
perguntei se todos podiam ouvir e eu quis que todos pudessem.
— Você é tão gostosa, Sara — Alex disse em êxtase e eu agarrei seus
cabelos, enquanto ele ia cada vez mais fundo e cada vez mais rápido.
— Eu... — solucei, quando a tensão prazerosa que ele criava
aumentava. — Alex...
— Você vai gozar, baby? — perguntou e mordiscou meu pescoço.
Não encontrei as palavras para respondê-lo e apenas balancei a cabeça. —
Vamos gozar juntos, baby. Goza para mim. Goza para mim, baby — disse
com a voz rouca e eu senti o orgasmo vindo, enquanto ele estocava mais
rápido.
— Alex! — gritei quando o ápice chegou e ele rosnou chupando meu
pescoço, enquanto eu convulsionava.
— Porra — ele disse e estocou pela última vez caindo arfante sobre
mim. — Sara... — falou eu ri ainda sem fôlego.
— Senhor Wright — respondi.
— Não me chame assim... — ele implorou. — Só a ideia de você
chamando de senhor Wright me deixa duro de novo.
— E não é isso que queremos?
— É exatamente isso que queremos — disse e voltou a me beijar. —
Vamos para o seu quarto — pediu.
Só estávamos começando.
Capítulo 21

A pior coisa sobre beber é a ressaca. A dor de cabeça, a boca seca, a


sensibilidade aos sons. Mas pior do que tudo isso é o sentimento de eu sou
um sucesso, a rainha do mundo e depois, quando o efeito da bebida passa,
tudo que resta é o eu sou um fracasso, minha boca tem gosto de cabo de
guarda-chuva. Era assim que eu me sentia.
Rolei devagar sentindo minha cabeça latejar. Como eu iria para o
trabalho daquele jeito? Não conseguiria tomar duas aspirinas, não sem
vomitar, e ter que suportar pegar o café... “Espera aí”, minha mente foi
invadida por uma série de informações que eu não conseguia processar.
Eu não tinha que ir trabalhar.
Porque eu estava fingindo ser a namorada de Alex.
Eu tinha ido ao casamento.
Eu tinha bebido demais.
Ele tinha me trazido para casa.
Nós tínhamos transado.
— Merda! — gritei, me levantando em um solavanco, mas em
seguida fiquei completamente imóvel, segurando o lençol ao redor do meu
peito. Mirei pelo canto do olho o espaço ao meu lado na minha cama.
Desarrumado, mas vazio. Merda. Me permiti respirar.
A série de imagens gráficas e perturbadoramente atrativas encheram
minha mente. Meu sofá, o tapete na minha sala, o caminho até a cama, sobre
a minha escrivaninha, no meu chuveiro. “Uau”, pensei convencida do meu
próprio desempenho.
Alex e eu tínhamos passado a noite juntos. “Onde eu estava com a
cabeça?”, minha mente se encheu com todas as memórias nítidas de todos os
caminhos que minha cabeça tinha feito na noite anterior.
Me joguei sobre o colchão. Complicações. Aquilo tudo tinha sido um
erro. “Um erro muito bom”, me corrigi a contragosto. Mas, ainda assim, um
erro. Erro. Tínhamos um acordo, quinze dias e eu teria meu livro publicado, o
trabalho de meses de pesquisa e momentos debruçada sobre meu computador
e mais que isso: mesmo depois do término dos quinze dias ele ainda era meu
chefe, o cara que pagava minhas contas. Eu tinha transado com meu chefe.
— Muito inteligente — resmunguei para mim mesma. — Espera aí...
— falei debilmente e me levantei devagar. Alex ainda estava no meu
apartamento?
Enrolei o lençol ao meu redor como uma capa para garantir que todas
as partes do meu corpo estivessem cobertas, mantendo certa decência. Pelo
menos tentando.
Caminhei devagar para fora do meu quarto, pé por pé, tentando
escutar ele em algum cômodo e achando partes da minha roupa da noite
passada. Um dos meus saltos na porta do meu quarto e o outro em cima do
sofá, meu vestido em cima do abajur e meus brincos brilhando sobre a TV.
Quando cheguei na cozinha percebi que ele não estava em lugar
nenhum e fiquei surpresa com a onda de desapontamento que me abateu. Eu
não queria ter que confrontar Alex sobre em que pé aquele deslize colocava
nosso acordo, mas eu também não queria que ele tivesse desaparecido antes
que eu acordasse. Sentei-me numa cadeira sentindo um peso estranho no meu
peito.
Quando eu estava prestes a entrar na minha bola de autopiedade uma
sacola em cima da pia me chamou a atenção, junto com ela um pedaço de
papel e a caligrafia que eu conhecia das anotações que eu tinha que revisar
praticamente todos os dias.
Me levantei curiosa e segui até lá. O conteúdo da bolsa de plástico
aqueceu meu coração. Era uma garrafa de um isotônico de morango,
rosquinhas da padaria perto da minha casa e uma cartela nova de aspirinas. O
bilhete me trouxe um sorriso idiota para o rosto.
Trate de se hidratar. Se cuide.
Volto mais tarde. :)
A.
Como era possível que o conjunto formado por um sinal de dois
pontos e um parêntese torto pudessem me deixar feliz? Me vi sorrindo no
caminho para o banho, deixando de lado todos os problemas que aquela noite
poderia causar e pensando só no que ela tinha me trazido, uma quantidade
infinita de alegria e hematomas que eu teria dificuldade de explicar sem
corar.
No banheiro tentei não pensar na bagunça que tínhamos feito na pia
quando eu tinha estado debruçada sobre ela. Para o bem e para o mal, aquele
apartamento agora estava infestado com memórias claras.
Lavei meu cabelo demorando bastante no processo que me relaxava.
Mas tive que sair e ir enfrentar o pandemônio que o apartamento estava.
Pensar em faxinar, quando eu me sentia no ápice da pior das ressacas me
deixava tonta.
Vesti uma calça de moletom e uma camiseta da época da faculdade e
fiz o meu máximo recolhendo as minhas roupas, aspirando os cômodos,
colocando o emaranhado de tecidos na máquina de lavar e consertando a
série de canetas, livros, porta-retratos que tínhamos derrubados na nossa
expedição.
Mandei uma mensagem para Aurora, que aparentemente ainda não
tinha acordado, contando sobre a festa, mas sem entrar em detalhes do
depois. Minha amiga tinha a tendência de sempre ver as coisas de uma
maneira enviesada, se eu contasse o que tinha acontecido ela provavelmente
pintaria um cenário colorido em que Alex estava super apaixonado por mim e
eu não conseguiria lidar com aquilo. Não podia deixar aquela teoria se
infiltrar em mim e acabar me apegando a uma coisa que não era verdade.
A série de mensagens não lidas da minha mãe doeu meu coração. A
última datava de ontem e eu esperava que ela tivesse se convencido de que
meu celular estava no conserto e que eu não podia me comunicar. Pensei em
entrar no Facebook e deixar uma mensagem dizendo que eu estava ocupada
com um texto e dando uma previsão sobre a volta do meu telefone, talvez
programar um fim de semanas juntas para compensar. Tudo isso ao final dos
próximos sete dias, quando a minha vida tivesse voltado ao normal.
Mas seria tolice da minha parte pensar que tudo voltaria ao que era
antes? Eu estava sendo ingênua? Com certeza a noite passada tinha mudado
as coisas, mas eu sabia, no fundo do meu coração, que mesmo que eu tivesse
voltado para a casa sozinha, os próximos dias ainda assim seriam difíceis e
voltar para a dinâmica anterior não seria impossível.
Como seria quando Marge voltasse para casa? Ele continuaria a
grunhir suas ordens enquanto eu ficava sentada na minha mesa esperando a
próxima vez que ele me diria para desmarcar seus compromissos? Fazer parte
daquele acordo tinha parecido uma ideia genial, eu teria meu livro publicado
e a mãe dele estaria contente pensando que o filho tinha uma namorada, mas
agora quando meu coração estava confuso, o plano não era mais tão
brilhante.
Me sentei no sofá já limpo e sem nenhum salto pendurado, segurando
a garrafa do isotônico e uma das rosquinhas com cobertura rosa e granulado
colorido. Peguei o controle e liguei a TV, contente pela maratona de Os
Simpsons e nenhum jornal super elaborado estar passando. Eu precisava de
alienação que só desenhos podiam me dar. Tomei também a aspirina, mas ela
não fez muito efeito sobre a dor de cabeça da desidratação e eu prometi que
nunca mais beberia em toda a minha vida.
O terceiro episódio de Halloween terminou quando eu ouvi a
campainha tocar. Me inflei de raiva pensando ser Edith vindo reclamar dos
barulhos da noite passada. Claro, ela podia gritar todas as esquisitices que
quisesse com o protótipo de salsicha que ela chamava de namorado, mas eu
tinha que ficar em silêncio.
Me levantei fazendo a minha melhor cara de ressaca para que ela
percebesse que eu não estava disposta. Mas quando abri a porta foram olhos
verdes e cabelos castanhos desarrumados que me recepcionaram.
— Você parece péssima. — Ele sorriu e eu o imitei mesmo sem
pensar. — Eu trouxe sopa. — Ergueu a sacola onde havia pote de plástico
exalava um cheiro delicioso. — Receita de Marge Wright.
— Aposto que foi feito por Marge Wright — brinquei, dando-o
espaço para entrar e pegando cuidadosamente o plástico de suas mãos. —
Não precisava fazer isso... e as rosquinhas... foi muito legal da sua parte. —
Ele me olhou intrigado e eu fechei a porta atrás dele. — Você sabe... não
precisava... se preocupar.
— Sara, com que tipo de cara você andou saindo? — Devia ser
brincadeira, mas a ruga entre seus olhos estragou qualquer traço de diversão.
— Você ficaria surpreso — falei ressentida, mas pigarreei. — Vou
colocar isso na cozinha. Obrigada de novo. — Era uma desculpa para me
esquivar dele, dos olhos sensíveis e das mãos que traziam sopa, porque sabia
que eu estaria de ressaca. “Inferno”, eu queria praguejar. Por que tinha que
ser tão fácil sustentar a mentira de que eu me importava com Alex Wright?
— Sara. — Ele segurou meu pulso e eu me virei em sua direção. —
Não estamos mentindo mais, não é? — Alex questionou parecendo
incomodado.
— Eu acho que não, Alex — confessei e ele sorriu na amostra do
sorriso mais brilhante que eu já tinha visto ele dar.
— Era exatamente isso que eu queria ouvir — Alex disse e me puxou
em sua direção, calando com um beijo todas as dúvidas que eu tinha.
Capítulo 22

Acordei com os braços de Alex ao meu redor. Entre horas infinitas da


tarde e da madrugada de domingo aquele foi o primeiro momento em que eu
consegui pensar racionalmente e não só me deixar ir por tudo que eu queria
fazer. Eu tinha transado com Alex Wright, meu chefe, o homem com quem
eu fingia ter um relacionamento. O homem cujas últimas palavras coerentes
tinham sido “não estamos fingindo mais, não é?”.
Levantei minha mão devagar para pegar meu celular perto do abajur e
chequei que eram oito da manhã. Considerando todo o tempo acordada
durante as duas últimas noites eu estar desperta naquele horário era um
milagre. No entanto, eu não queria estar. Se pudesse dormir por talvez um ou
dois anos e deixar a confusão que possivelmente tinha me medito passar
aquilo poderia trazer alguma paz.
Mas eu estava acordada e pela respiração começando a descompassar
perto de mim, em breve Alex também estaria. Como se pudesse me ouvir, ele
se remexeu seu primeiro movimento foi beijar a pele da minha nuca, onde
meus cabelos estavam desordenados. Me vi novamente presa ao frenesi que
tinha me governado nas últimas horas. “vamos lá, Sara, mantenha alguma
decência, mulher!”, me implorei. Já tinha tido o bastante, podia me controlar
por algumas horas, não podia? Ele voltou a beijar minha nuca e eu me
perguntei se realmente podia.
— Bom dia — sussurrou rouco, esfregou a testa contra as minhas
costas e eu quase podia ouvi-lo ronronar. Um de nós dois tinha que estar
menos envolvido para colocar juízo em nossas cabeças, mas aparentemente
nenhum de nós teria moral. Seria mais difícil que eu imaginava. — Você está
com fome? — perguntou.
— Sim. — De todas as coisas que eu tinha que fazer ainda, como
tomar um banho, me vestir e tentar entender em que pé nosso acordo e nosso
recém existente relacionamento estava, comer parecia o mais fácil e o mais
necessário.
— Eu conheço um lugar que entrega brunch em casa. Está meio cedo
pra brunch, mas eu não me importo, você se importa? — Alex perguntou e
eu me vi surpresa com o quão naturalmente ele estava levando aquilo. Talvez
fosse paranoia da minha cabeça, ou ele havia entendido toda aquela situação
como algo casual? Me vi mais magoada do que poderia imaginar que estaria.
Aquela noite podia não ter significado tanto para ele quanto tinha para mim,
talvez, para Alex, não houvesse o que explicar. — Se importa? Por que se
sim podemos...
— Não me importo, pode pedir nesse lugar — cortei e ele se apoiou
em seu braço, se erguendo para me ver e eu me virei a contragosto. — Não
funciono direito de manhã, estou levando mais tempo do que o de costume
para processar o que você está dizendo — menti e ele pareceu acreditar,
desviei o olhar e me espreguicei, me separando dos seus braços. Era um
pouco revoltante que ele parecia ter acabado de sair de uma sessão de fotos,
enquanto eu devia estar toda amassada e bagunçada.
— Você funciona muito bem de manhã — ele gracejou e se inclinou
para beijar meu pescoço. “Se controle, se controle, se controle, se controle,
se controle”, eu me comandei, mas me vi toda contorcida em sua direção.
Não. Eu tinha que criar algum espaço que me deixasse pensar.
— Sei, sei. — Me afastei e ele me deu um olhar de criança
emburrada. — Seja bonzinho e me deixe ir tomar um banho, está bem? —
pedi e ele revirou os olhos, mas se afastou.
— Você parece suficientemente limpa — ele provocou. — Eu sei,
porque provei.
— Meu Deus, Alex. — Chutei o lençol saindo da cama. Primeiro: por
que ele estava dizendo coisas tão absurdas? Segundo: por que eu estava
gostando das coisas absurdas que ele dizia? — Não ouse levantar daí. —
Apontei quando vi ele se esgueirando para fora da cama.
— O quê? Eu também preciso de um banho. — Deu de ombros, mas
os olhos cheios de segundas intenções. Eu não podia em sã consciência
deixá-lo vir atrás de mim, uma coisa levaria a outra e acabaria comigo
algumas horas depois acordando naquela mesma cama com as mesmas
dúvidas.
— Você pode esperar — garanti e ele revirou os olhos. — Não ouse
se levantar e me seguir, Alex.
— Você criou algum tipo de pudor agora? — perguntou risonho e
meu coração se aqueceu. Eu estava sendo contagiada pela risada do cara que
me fazia pegar os cafés dele de manhã, mas de certa forma eu sabia que havia
uma mudança ali. Me perguntei se eu tinha me parcela na transformação de
um turrão para o homem parado na minha cama e desejei que sim.
— Ainda cem por cento despudorada — falei e vi o sorriso em seus
lábios se tornar malicioso. Não, não, não. — Mas você fica aqui. Não
queremos que o entregador chegue e dê de cara com cenas inapropriadas a
essa hora do dia.
— Fale por você mesma. — Ele riu e se deitou obediente na cama.
Fiquei parada por um segundo pensando no quanto eu queria jogar minha
própria regra para longe, mas eu tinha que pensar.
Fui para o banheiro depois de pegar uma muda de roupas limpas —
que eu tinha a intenção de manter no meu corpo —, fechei a porta atrás de
mim com um suspiro ao perceber que era muito mais fácil surtar quando ele
não estava por perto. Senti meus ombros cederem ao me olhar no espelho.
Por que eu parecia tão feliz? Por que a resposta não tinha a ver somente com
boas noites de sexo? Por que tinha que ter mais?
Entrei no banho e me senti mais cansada do que já tinha me sentindo
antes. Eu sabia que tinha que começar uma conversa, deixar claro que o que
para ele era só mais um caso estava se tornando algo mais para mim e aquela
conversa não terminaria bem, eu sabia e seria minha culpa.
Lavei meus cabelos, me concentrando no movimento mecânico
enquanto formulava algumas frases desconexas em minha cabeça. “Ou
então...”, a vozinha na minha cabeça chamou, “você pode fingir. Se isso é
casual para ele, por que não seria para você? Por que sofrer agora por algo
que você pode sofrer em sete dias com um contrato de publicação em
mãos?”. O contrato de publicação era algo a ser considerado, aquela seria
uma grande oportunidade e eu acreditava no meu livro, sabia que Alex não o
estava publicando somente em razão do nosso acordo, era uma história que
tinha futuro e eu não podia deixar nenhum sentimento interferir nisso.
Homens vem e vão, sonhos e metas são para sempre.
Então decidi.
Se Alex levaria aquilo como uma coisa casual eu também podia levar.
Estava acertado.
— Deve ser o entregador, vou abrir — ele gritou, quando eu já secava
o meu cabelo, vestida com a calça de ioga e a blusa dos Ramones e eu me
assustei, não tinha ouvido a campainha. Deixei a toalha na pia e fui
acompanhá-lo, sabendo que ele tentaria pagar tudo e eu não podia deixar
afinal de contas estava com tanta fome que acabaria comendo tudo sozinha.
Peguei minha carteira na cômoda e segui para a sala, onde Alex
estava de costas, usando apenas a boxer em frente a porta aberta.
— Você não é o entregador... — ele começou a dizer.
— Onde está a Sara? — Uma voz assustada e terrivelmente familiar
perguntou.
Puta que pariu.
— Mãe? — guinchei correndo em direção a eles.
Meu Deus, meu Deus, meu Deus, meu Deus, meu Deus.
Lucy Webber, estava parada em pessoa na porta da minha casa
olhando para o abdômen desnudo de Alex parecendo confusa e o pior:
esperançosa.
— O que você está fazendo aqui? — perguntei estancando, sem saber
como reagir, o que fazer, mas o susto pareceu ter desaparecido.
— Você não atendia o telefone. — Deu de ombros, mas em seguida
parou. — Sara, o mais importante: por que tem um homem nu na sua sala?
As palavras me faltaram, mesmo as verdadeiras que eu podia ter dito.
Para minha surpresa foi Alex quem quebrou o silêncio.
— Oi... senhora Webber — ele cumprimentou.
Agora sim eu estava ferrada.
Capítulo 23

Eu esperei pacientemente que o mundo acabasse naquele momento.


Que uma bomba explodisse, que um terremoto engolisse a cidade, que minha
vizinha aparecesse com uma motosserra e cortasse a minha cabeça. Mas,
infelizmente, nada disso aconteceu. Minha mãe ficou olhando para a minha
cara com o rosto tranquilo, enquanto Alex parecia mais perdido do que
qualquer coisa. Um novo plano surgiu em minha mente, talvez se eu ficasse
ali, parada por tempo o suficiente, os fundos começassem a me comer viva.
— E quem é o seu amigo, Sara? — Minha mãe quebrou o silêncio
impedindo que meu plano desse certo.
Mais silêncio.
“Mãe esse é Alex Wright, meu patrão com quem eu estou fingindo ter
um relacionamento nos últimos setes dias e com quem eu faço sexo há quase
vinte e quatro horas consecutivas”, não parecia bom o suficiente.
— Senhora Webber — Alex chamou e eu me virei em sua direção. —
Sou Alex Wright. O namorado de Sara.
Namorado. De todas as coisas que ele poderia ter dito, Alex escolheu
namorado. Um amigo, um assaltante, um vizinho, um conhecido, meu
cafetão. Qualquer uma dessas coisas seria mais fácil de explicar do que um
namorado. Mas foi namorado que ele escolheu dizer.
— Namorado? — Minha mãe me olhou de olhos arregalados e um
sorriso apareceu em seu rosto, tão radiante quando poderia ser. — Você não
me contou que estava namorando, querida. Por que não me contou? Você
sabe que eu não ia reagir exageradamente a isso — brincou e eu não
conseguir esboçar uma reação. Minha mãe era conhecida por reagir
exageradamente, na verdade, reações exageradas era o único jeito que ela
sabia fazer as coisas.
— É muito recente — Alex explicou, sua voz se tornando cada vez
mais normalizada e casual, como se ele estivesse contando uma verdade a sua
verdadeira sogra e não uma mentira para minha mãe, enquanto usava nada
além de uma cueca. — Nós trabalhamos juntos na editora e não queríamos
que...
— Ah, querido — minha mãe se compadeceu, seu rosto tomado pela
empatia. — Você também é um dos pobrezinhos que sofre com o patrão
idiota dela?
Os olhos de Alex faiscaram em minha direção e eu olhei para o outro
lado inocentemente.
— Vocês vão conseguir se livrar dele, com sorte ele esteja sei lá...
com alguma super DST que o deixe de cama por muitos dias.
— Mãe por favor, não deseje uma DST para o meu chefe — implorei.
Ela não sabia o quão errado era desejar uma doença sexualmente
transmissível para o meu chefe. — Porque na verdade ele é o meu chefe. —
Os olhos da minha mãe se arregalaram e rubor nasceu em suas bochechas. —
Mãe, esse é Alex Wright. Meu chefe e... meu novo namorado — falei a
segunda parte com menos dicção que podia para que, talvez, ela não
entendesse. Mas os ouvidos de Lucy Webber estavam mais do que calibrados
para o que ela não devia escutar.
— Era uma piada, Alex. — Tentou se desculpar e ergueu a mão para
cumprimentá-lo. Meu falso namorado riu, parecendo estar aproveitando mais
da situação do que deveria. Não contente em estarmos mentindo para Marge
agora tínhamos que mentir para a minha mãe?
Os dois trocaram um aperto de mão caloroso e eu me senti prestes a
desmaiar. “Não dê essa mão que estava nos meus seios para a minha mãe!”,
eu queria gritar. Mas a confusão já estava armada e eu tinha que resolver
aquilo tudo e a primeira coisa necessária era que Alex desaparecesse da
minha frente, eu não podia pensar coerentemente com ele ali.
— Alex, você estava de saída, não é? — perguntei, quando eles
terminaram o cumprimento. — Sua mãe... deve estar esperando você.
— Sim! — Ele aceitou a deixa imediatamente. — Minha mãe está na
cidade então preciso passar o máximo de tempo ao lado dela.
— Ah, ela está? Passar tempo com ela é muito gentil da sua parte —
minha mãe elogiou e então se voltou para mim. — Você já a conheceu, Sara?
— O tom era doce demais e eu sabia que era uma armadilha.
— Sim — falei derrotada.
— Ah então a sua sogra sabe do relacionamento, mas eu não? —
perguntou e eu podia ouvir a pontada da mágoa em sua voz.
— Foi minha culpa, senhora Webber — Alex interveio. — Queríamos
contar para a senhora, mas queríamos fazer isso do jeito certo.
— Isso é muito atencioso da sua parte, Alex — Minha mãe respondeu
comovida. — Muito mais atencioso do que certas filhas fazem com as mães
— resmungou para mim e eu revirei os olhos, enquanto continha um sorriso
aliviado por ela ter parecido cair na história e mais que isso, eu sorria
estupidamente porque ela parecia ter aprovado Alex. Mesmo que não
houvesse nada para aprovar. — E me chame de Lucy, por favor. Senhora
Webber faz com que eu me sinta uma idosa.
— Lucy — ele respondeu com um sorriso relaxado, como ele
estivesse vestido e não só de cueca na minha sala conversando com minha
mãe.
— Alex, você estava de saída — lembrei.
— Ah, é mesmo! — Piscou algumas vezes e começou a olhar ao
redor procurando as roupas.
— No quarto — falei e ele saiu para buscar sua decência.
Quando ficamos só eu e minha mãe eu quis que Alex voltasse. As
perguntas iam todas reaparecer e eu não queria lidar com aquela inquisição
principalmente por eu ter que mentir para a minha mãe.
— Você tem um namorado, Sara — ela começou e eu me encolhi. —
Filha, não tem motivo para você esconder isso de mim, eu sou adulta, você é
adulta. Eu fico feliz que você esteja se engajando num relacionamento, eu
nunca te criticaria. Ainda mais quando seu namorado tem um tanquinho
daqueles... — Ela riu e eu me aproximei dela, recebendo um dos famosos
abraços de Lucy Webber. Eu odiava esconder as coisas dela, odiava mentir,
mas odiava mais ainda não poder contar com minha mãe. — Aquilo ali é o
seu celular que tinha caído no mar?
— Ele chegou da assistência técnica — menti, me afastando do
abraço e ela revirou os olhos.
— Estou indo então. — Alex apareceu vestindo roupas amassadas e
claramente prestes a passar por uma caminhada da vergonha. — Foi ótimo
conhecê-la, Lucy.
— O mesmo, Alex. — Minha mãe voltou a sorrir para ele, mas eu
podia ver as engrenagens funcionando em sua cabeça. — Podemos marcar
para as sogras se conhecerem, certo? Já que sua mãe está aqui.
— Podemos — Alex confirmou, parecendo assustado pela primeira
vez. Trocamos olhares assustados e minha mãe pareceu alheia a aquele
momento. — Vamos marcar então.
— Certo — falei e abri a porta para ele sair. — Nos vemos depois —
me despedi, querendo que ele desaparecesse o quanto antes. Mas acostumado
demais ao nosso jogo ele se aproximou, deu um beijo suave em minha testa e
em seguida sorriu.
Fechei a porta atrás dele e percebi com certa surpresa que eu ia sentir
falta dele pelo tempo que estivesse ali.
— Vocês são bonitos juntos, Sara! — minha mãe disse e eu me virei
para ela. — Nunca gostei muito dos caras que você trouxe para minha casa,
mas esse homem... sinto que vocês vão dar certo.
— É o que eu espero, mãe — respondi, percebendo a verdade na
minha voz.
Capítulo 24

Minha mãe obviamente ficou muito mais empolgada com a ideia da


minha publicação de um livro do que com o fato de que agora eu tinha um
namorado e eu consegui entretê-la com aquela informação por bastante
tempo. Lucy Webber, parecia prestes a explodir de orgulho a qualquer
momento, me fez ler o primeiro capítulo para ela e ouviu atentamente cada
uma das palavras mesmo que aquele não fosse um gênero que ela costumava
ler.
Me senti um pouco culpada por omitir de onde exatamente vinha
aquela oportunidade. A verdade era que eu não estava publicando um livro
porque eu era a melhor escritora ou por uma rede de contatos solidificada, eu
estava prestes a ser lançada, porque eu estava fingindo ser namorada do dono
da editora.
— Isso é maravilhoso, Sara! — minha mãe elogiou quando eu
terminei a leitura do primeiro capítulo. — Eu já me apeguei aos personagens,
você não faz nem ideia.
— Essa é a intenção, mãe. — Tentei adequar o meu humor a sua
animação.
— Eles vão ficar juntos no final, não é? — perguntou e eu sorri, tinha
em minhas mãos uma romântica incurável.
— É uma história de amor, o mais justo é que eles fiquem juntos, não
é? — Dei de ombros, me virando para me esconder de seu olhar cheio de
sabedoria e fingi pegar minha garrafa de água para um gole. Fiz todo o
processo o mais devagar possível, mas quando voltei a encará-la a
curiosidade ainda estava em seus olhos.
— Esse cara... Alex. — Me controlei para não suspirar. — Vocês
estão juntos há quanto tempo?
— Há alguns meses — falei mecanicamente a resposta padrão, mas
quando ela fez uma careta percebi que precisava refinar. — Passamos um
tempo como amigos sem exclusividade então as datas às vezes se confundem
— tentei incrementar, mas os detalhes de “amigos sem exclusividade” só
pareceram chocá-la.
— Preciso dizer que se eu encontrasse Obama na sua sala seria menos
estranho do que encontrar ele aqui. Eu ouvi reclamações sobre o
comportamento inaceitável dele por meses e de repente ele está aqui... sem
camisa. — A ponta de malícia em sua voz não foi perdida por mim, ergui
uma sobrancelha, ela estava secando o meu suposto namorado?
— Ele é um chefe muito... — babaca. — Exigente, mas fora do
escritório é um perfeito cavalheiro, engraçado, companheiro, educado... —
Comecei a lista que era muito mais fácil de elaborar do que eu poderia ter
imaginando.
— Você realmente gosta dele, não é? — minha mãe perguntou e eu
parei por um segundo.
A verdade estava ali, embaixo do meu nariz todo o tempo. Eu tinha
passado uma vida de amores fracos, indo e saindo de relacionamentos que eu
sabia que não duraria, que eu não queria que durassem. Nada era mais fácil
para mim que deixar que pessoas mornas entrassem na minha vida e saíssem
num ciclo quase viciante.
Mas então sete dias tinham mudado tudo. Era isso que estava
acontecendo todo esse tempo? Eu estava me apaixonando por Alex Wright?
— Gosto, mãe — confessei, me sentindo repentinamente mais fraca.
— Ah, querida e por que essa cara? — minha mãe indagou agoniada
abrindo espaço no meu sofá e eu me enfiei em seu abraço deixando que ela
acariciasse meus cabelos, enquanto eu me escondia dos meus próprios
sentimentos. — Você gosta do cara com quem está namorando, qual é o
grande problema disso?
Eu quis rir. Se fosse simples assim. Se toda desorganização que Alex
trazia para os meus sentimentos viesse acompanhada da certeza de que no
final de quinze dias ele ainda estaria comigo não haveria motivos para me
entristecer. Mas havia. Porque tudo não passava de um acordo. Mesmo que
tivéssemos complicado as coisas.
— Sempre tem a possibilidade de ele ir embora — escolhi contar
somente a metade.
— Ah, querida, não seja boba — minha mãe ralhou suavemente,
enquanto penteava meus cabelos com os dedos suaves. — Você já percebeu
como ele olha para você? Como se você fosse a coisa mais bonita que ele já
viu, mesmo na minha frente, mesmo vestindo nada além de uma cueca. Tudo
que ele podia fazer era olhar para você. Eu duvido que ele possa partir,
mesmo que queira.
— Não é tão simples assim — resmunguei.
— O problema é que é simples assim — ela corrigiu. — Estou nessa
estrada há mais tempo que você, querida. Sei como é, a gente sente um monte
de coisa e guarda para nós mesmas pensando que podemos lidar com tudo,
deixar passar, deixar curar. Mas se quer saber, você não pode. O amor é para
dois, às vezes mais. — Ela riu. — Mas nunca é solitário, principalmente
nesse caso em que vocês se olham desse jeito.
— Eu me sinto uma idiota, sou uma adulta.
— E desde quando o amor tem idade para nos deixar de fazer de
bobas? — Minha mãe riu, mas então se tornou séria, como se estivesse
prestes a confessar um crime. — E eu acho que estou pronta para isso de
novo.
— Mãe, isso é incrível. — Me levantei e os olhos dela estavam cheios
de incertezas. Lucy Webber estava certa, não havia idade para deixar o amor
nos mudar. — Estou muito feliz com isso.
— Acho que seria o que seu pai gostaria. — Tentou sorrir e foi a
minha vez de confortá-la. — Para mim e para você.
— Seria exatamente o que ele gostaria, mãe — confirmei. — Já tem
algum pretendente em vista?
— Bem, o rapaz mais bonito que eu já vi estava de seminu na sala da
minha filha então acho que por enquanto não. — Ruborizei fechei os olhos de
constrangimento. — E o segundo cara mais bonito engravidou Aurora e
falando nisso como está a minha menina?
— Aurora está muito bem, mãe. — Minha mãe e melhor amiga
tinham uma amizade a parte, confidentes que adoravam fofocar sobre mim.
— As crianças estão enormes e com mais um bebê a caminho ela está ainda
mais feliz. Ela é uma mãe incrível, não me surpreenderia se ela acabasse
tendo dez filhos.
— Com um marido como aqueles eu não me importaria de ter dez
filhos. — Ela gracejou e eu revirei os olhos.
Minha mãe e eu passamos o resto da manhã e começo da tarde
comendo o brunch que Alex tinha comprado e colocando as notícias em dia.
Ela me contou de cada uma das outras senhoras da igreja, a filha de uma
tinha entrado para medicina, o ex-marido da outra quebrado o quadril com
uma mocinha que tinha a idade da babá dos netos dele. Escândalos no
subúrbio de Sacramento.
Era bom ter a minha mãe em casa. Eu sentia falta do nosso tempo
juntas, mas eu sabia que ela tinha orgulho de mim e o sentimento era
recíproco. Lucy Webber, tinha reconstruído a vida completamente depois de
décadas ao lado de sua alma gêmea. Saber que ela estava se abrindo de novo
era algo maravilhoso.
Eram duas da tarde quando meu celular tocou e o nome de Alex
apareceu na tela.
— Alô? — atendi e gelo se acumulou no fundo do meu estômago.
Estava mais difícil agora que eu tinha admitido que de certa forma eu gostava
dele.
— Oi, baby — ele chamou pelo apelido estúpido que tinha me dado
por pura ironia e que agora saía terno de seus lábios. — Você e sua mãe estão
disponíveis hoje à tarde? A minha quer muito conhecer a sua. — Congelei.
Provavelmente Marge estava ao lado dele praticamente quicando de alegria e
eu podia ver a minha mãe ficando atenta ao meu telefonema. O que eu devia
fazer? Negar? Por que ele não tinha me mandado uma mensagem? Quem em
nome do papa ainda telefonava?
— Eu...
— Ela pediu para dizer que está super empolgada — disse a
contragosto e eu suspirei.
— Mãe — chamei colocando meu telefone em meu ombro. — Marge,
mãe de Alex, quer aproveitar que vocês duas estão na cidade para que você a
conheça. Quer ir? Tomar um café agora a tarde talvez?
— Querida, isso seria fantástico. — Ela se levantou no sofá de
animação. — Diga a eles que será um prazer.
— Você ouviu — falei e do outro lado da linha ele riu, fiz o mesmo
por puro reflexo.
— Nos vemos mais tarde.
— Até mais — me despedi.

Era o mesmo café onde tínhamos ido há exatos sete dias para que eu
conhecesse Marge. 168 horas depois do que eu tinha imaginado ser uma
visita única, ali estava eu, prestes a apresentar a minha mãe para ele e o pior:
sentindo que tudo havia deixado de ser um acordo.
— Ali. — Apontei para a mesa onde os dois esperavam. Marge usava
um lenço azul Royal combinando com a calça e o suéter. Olhei pelo canto do
olho a reação da minha mãe, pensando se o fato da minha suposta sogra estar
se recuperando de um câncer traria algum prejuízo para ela, mas muito pelo
contrário, ao meu lado, Lucy Webber, sorriu largamente.
— Oi Marge, oi Alex — cumprimentei e eles se levantaram. Marge
me deu um abraço rápido, mas logo se virou para minha mãe com o rosto
cheio de felicidade e divertimento, minha mãe respondeu a altura e elas se
abraçaram como se fossem velhas amigas e não duas completas
desconhecidas.
— Oi, baby — Alex disse e se aproximou de mim, me lancei sem
pensar em seus braços e me deixei aproveitar da proximidade que agora eu
podia entender. — Parece que elas já se gostaram — ele cochichou no meu
ouvido e eu sorri.
Capítulo 25

A dinâmica das nossas mães foi um show à parte. Elas riam,


conversavam e comiam rosquinhas como velhas amigas. Em certo ponto
deixou de ser sobre sogras se conhecendo e passou a ser sobre Marge e Lucy
sendo grandes amigas.
Alex, parecia tão entretido pela instantânea amizade entre elas quanto
eu. Ele ouvia a conversa das duas, se pronunciando entre os momentos que
elas deixavam, e fazia círculos suaves com a ponta dos dedos no meu ombro.
Tentei não pensar muito sobre isso. Minha recém descoberta martelando na
minha cabeça.
Eu estava me apaixonando por Alex Wright. Tinha ido de extrema
aversão por ele, para coração acelerado a cada vez que ele falava alguma
coisa. Os beijos que dávamos não eram mais em nome de um acordo, pelo
menos não da minha parte. Suas palavras também me confundiam "não
estamos mentindo mais, não é?", o que aquilo significava? Ele se sentia da
mesma forma que eu?
— Então eles também mentiram para você? — Minha mãe riu e foi
acompanhada por Marge. As duas não paravam de sorrir na presença uma da
outra.
— Alex só me contou sobre Sara quando eu cheguei aqui há uns dias.
Antes disso ele estava todo misterioso — Marge explicou, revirando os olhos
e uma pequena ruga nasceu entre os olhos da minha mãe, me encolhi. Lucy
Webber, era conhecida por sua intuição e quando seu sexto sentido lhe dizia
alguma coisa, aquilo geralmente acontecia não havia desistência até que tudo
fosse descoberto. Tinha sido assim que cada aniversário surpresa que meu pai
e eu organizávamos tinha dado errado.
— Não queríamos que fosse público porque tínhamos medo de que as
pessoas na editora descobrissem e colocassem nossa credibilidade em
cheque. Sara é uma das profissionais mais competentes que eu já conheci, o
fato de estarmos num relacionamento não compromete o nível do trabalho
dela e eu não quero nem imaginar alguém contestando isso — Alex interveio.
Uma onda de emoção passou por mim. Era mentira, eu sabia, mas meu
coração traidor não deixava de se emocionar. — Ela contou que estamos
prestes a publicar o livro dela?
— Eu não sabia! — Marge disse chocada. — Isso é incrível.
— Ela leu o primeiro capítulo para mim e está mais que perfeito. Tem
um tom Jane Austen que eu adoro.
— Também gosto muito de Jane Austen, por mais que o meu favorito
seja o impopular Emma. — Marge riu, esquecendo-se completamente da boa
notícia.
— Meu Deus, Emma é o meu favorito também. — Elas voltaram para
o mundinho delas.
Alex se inclinou em minha direção e deu um beijo logo abaixo da
minha orelha.
— Se me perguntar, seu livro é melhor do que o de Jane Austen —
sussurrou e eu revirei os olhos. — Estou muito orgulhoso de você.
Me virei para olhá-lo e vasculhei seu rosto procurando por qualquer
sinal da mentira. Tinha que estar ali, a bajulação gratuita. O indicador de que
aquilo era apenas parte do acordo.
Nada.
Apenas afeto e orgulho.
Nossas mães continuaram conversando pelo que pareceu uma
eternidade. Alex continuou tranquilo ao meu lado, mas vez ou outra ele se
remexia dando indícios do cansaço.
— Ah meu Deus já são cinco da tarde! — minha mãe disse olhando
para o relógio depois de seu terceiro pãozinho de canela. — Marge, Alex, me
desculpem! Eu estou aqui falando como se vocês não tivessem mais o que
fazer.
— Imagine! Na verdade, nós estamos te atrapalhando, você acabou de
chegar de viagem, precisa descansar.
— Descansar? Eu estou mais do que ligada. Na verdade, sabe o que
podíamos fazer? — Minha mãe se virou para mim e Alex. — Podíamos ir
para uma boate!
— Uma boate? — perguntei. A caseira e pacata Lucy Webber estava
sugerindo uma noitada?
— É uma ótima ideia! — Os olhos de Marge brilharam. — Mas
realmente acho que você precisa descansar, podemos ir amanhã.
— Eu estou super disposta.
— Isso é o açúcar falando, mãe. A viagem de Sacramento até Seattle
é cansativa. — Deixei o descontentamento aparecer em minha voz.
— Ela tem razão, você precisa descansar — Marge concordou. —
Não teríamos nem marcado café se soubéssemos que você precisava dormir.
— Podemos fazer o seguinte — minha mãe ponderou. — Eu descanso
e amanhã à noite saímos, que tal?
Marge pensou por um segundo e em seguida abriu um sorriso largo.
— Por mim parece ótimo.
— Então está combinado.
E foi com essa decisão autônoma que nos despedimos. Marge e Alex
foram para casa e minha mãe e eu para nossa.
— Eles são muito legais. Mesmo usando roupas, Alex parece ser um
bom rapaz. — Ela riu quando eu abri a porta do apartamento. — E Marge,
que mulher encantadora, ela é tão inteligente, tão educada e parece tão bem
apesar de estar se recuperando.
— Eles são realmente muito gentis.
— Podemos falar sobre o quanto Alex está caidinho por você? —
minha mãe perguntou e se jogando no sofá e eu me encolhi. — Ele mal podia
tirar as mãos de você, querida. É até bonito de se ver.
— Mãe... — eu gemi.
— Vamos lá, Sara. Ele é o seu namorado mais legal.
— Claro, claro. — Tentei fugir. — Você quer que eu arrume a cama
para você? Ou cometeu a desfeita de alugar um quarto de hotel?
— Você sabe que sua velha mãe não perde a oportunidade de ficar ao
seu lado. — Ela riu.
Foi uma noite tranquila. Depois de tomar banho e jantarmos, minha
mãe e eu sentamos no sofá e ficamos vendo episódios de CSI. Ela não tocou
mais no assunto Alex, mas vez ou outra distribuía um elogio para Marge.
Meu coração afundou um pouco ao perceber que a amizade recém-formada
não duraria, porque em alguns dias ambas receberiam um telefonema com a
história trágica de como Alex e eu tínhamos rompido. Mas a impressão que
eu tinha era que não seriam elas as mais entristecidas, mas eu.
Apesar do claro cansaço da minha mãe seguimos madrugada a fora e
fomos dormir juntas, como costumávamos fazer logo depois da morte do
papai. Era reconfortante tê-la ali. Por mais confuso que fosse, a presença dela
me impedia de pensar demais no que eu estava sentindo de verdade.
Acordamos tarde no dia seguinte e minha mãe me obrigou a passear
nas barcas e a fazer uma sessão de compras em que ela adquiriu um vestido
ousado que ia até os joelhos para a boate, além de centenas de presentes para
Aurora e as crianças.
Minha mãe estava muito empolgada com toda a situação e eu sentia
aquele estranho frio na barriga.
— Como eu estou? Não pareço uma idiota vestindo uma roupa de
mocinha, não é? — Ela rodopiou deixando as franjas da barra do vestido
alcinhas balançarem.
— Você está linda. — Lucy Webber era conhecida pelas calças jeans
e as camisas xadrez, ela era uma mulher simples, mas, com certeza, não
aparentava em rosto ou em corpo a casa dos cinquenta em que ela estava. —
Muito mais bonita que eu.
— O quê? Você está linda. — Ela me olhou de cima abaixo checando
minha calça de cintura alta e o top preto combinando. — Alex vai enfartar te
vendo assim.
Nós pegamos um táxi pela comodidade de apenas entregar o
endereço. Tínhamos recebido uma oferta de carona, mas eu queria postergar a
presença de Alex. Preferia que quando o encontrasse a iluminação fosse
escura e a música alta porque não queria encará-lo, mas sentia minha pele se
arrepiar apenas com o pensamento do que aquelas condições poderiam fazer
comigo. O que poderiam fazer com ele.
— Lucy, Sara! — Marge chamou do outro lado da rua, enquanto eu
pagava o taxista. Minha mãe não me esperou e atravessou animada em
direção a eles. Assisti as duas se abraçarem animadas. Alex sorriu largamente
para mim e eu retribui mesmo sem querer.
O lugar não era uma boate qualquer, era um espaço chique e nossas
mães não se destacavam ali uma vez que homens de blazer caríssimos da
idade dela estavam ali com mulheres mais jovens que eu.
— É de um amigo meu. — Alex deu de ombro explicando por que
não precisamos pegar uma fila e entramos direto para a pista.
Do lado de dentro tudo era ainda mais chique e não se parecia em
nada com os lugares que Aurora e eu frequentávamos na época da faculdade.
— Eu quero um uísque — minha mãe anunciou alto por cima da
música dançante. Marge balançou a cabeça positivamente e as duas saíram de
braços dados.
— Não parece que é realmente uma saída com os filhos. — Alex se
inclinou para cochichar no meu ouvido. — Inclusive eu tenho um palpite que
pode te chocar.
— Um palpite? — perguntei curiosa. Mantive meus braços
cuidadosamente na lateral do meu corpo, resistindo ao impulso de aproximá-
lo de mim.
— Acho que na verdade, elas estão tendo um encontro. Só não sabem
disso.
— O quê? — guinchei.
Ele ergueu o queixo e apontou para o outro lado da pista onde elas já
dançavam animadas numa proximidade no mínimo suspeita com copos
cheios nas mãos.
— Não acho que seja isso — comentei me voltando para ele. Perto
demais. Prendi a respiração.
— Acho que assim não temos que nos preocupar com elas. — Ele
colocou uma mão no meu rosto e com a outra puxou minha cintura me
deixando completamente acesa.
— Alex... — Eu queria falar que devíamos conversar, mas ele se
inclinou e beijou o ponto sensível logo abaixo da minha orelha, onde ele
sabia que me desestabilizaria.
— Shhh... — ele pediu. — Vamos aproveitar.
"Eu quero aproveitar, mas e quando isso quebrar meu coração?"
— Temos que fazer uma boa atuação — ele brincou e eu fechei os
olhos, dessa vez de tristeza. Atuação, era sobre isso que se tratava.
Fingir era o que fazíamos. Eu tinha que me afastar, desenhar as linhas
ao meu redor e me proteger. Mas ao invés disso eu abri os olhos e deixei que
o clima elétrico que ele tinha estabelecido me tomar. Como uma viciada
deixei que meu corpo tomasse conta, não importava o quanto aquilo me
destruiria depois.
As luzes piscavam sobre nós, a não de Alex na minha cintura, seus
lábios se aproximaram dos meus.
— Sua mãe não pode nos ver daqui — falei trêmula.
— Eu sei, por isso vou te beijar assim — respondeu e avançou. O
beijo caótico, cheio de desejo e lembranças que eu ainda tinha vivas na minha
memória.
Me deixei ser pressionada contra a parede da boate num canto escuro
onde ninguém podia nos ver, ou pelo menos assim eu queria pensar, mas não
conseguia raciocinar suficientemente para me importar se estávamos
chocando nossas mães.
— Senti sua falta — ele ofegou, quando foi a minha vez de me erguer
para beijar o caminho do seu maxilar. — Realmente senti.
Alex tinha sentido falta da química explosiva que tínhamos, eu tinha
sentido falta dele. A diferença era gritante.
— Shhh — comandei e ele riu se afastando segurando meu rosto entre
as mãos, para minha surpresa não recomeçou um beijo feroz, mas deu um
selinho cheio de afeto.
— Vamos beber alguma coisa? — perguntou e eu o olhei meio
embasbacada. Alex tinha deixado bem claro que tinha sentido falta do que
tínhamos e eu estava ali, disposta e ele me convidava para beber? — Pode
ser? — questionou de novo quando eu apenas fiquei olhando sem entender
para ele.
— Sim. — Balancei a cabeça positivamente ainda mais confusa. —
Cerveja — falei a única coisa que me veio à cabeça.
Ele me conduziu por entre as pessoas de mãos dadas e abriu espaço
no bar.
— Duas cervejas — pediu para o bartender e se sentou no banquinho,
olhei ao redor para ver se ao lado tinha outro vago, mas ele me puxou para o
seu colo, sem se preocupar com as pessoas ao nosso redor. — Cheguei até o
final do seu livro. Você por um segundo me fez acreditar que eles não
ficariam juntos. — Pegou uma mecha errante da minha franja e a posicionou
atrás da minha orelha.
— Nos livros eles sempre ficam juntos no final — respondi ainda sem
entender. Onde estavam os beijos?
— Vou te enviar os apontamentos que fiz ainda essa semana — falou
acariciando minha cintura. Seus gestos eram relaxados e quase domésticos.
— Você tem um sucesso nas mãos.
"Por que você está falando assim?", queria gritar. Aquele era o tipo
de conversa que eu queria ter, eu podia e queria ficar escutando ele falar. Mas
com ele era diferente por que tudo que ele queria era o acordo físico, certo?
"Certo?", gritei mentalmente, mas ele não pareceu se abalar.
As cervejas chegaram e Alex continuou a conversa tranquila, mas
quando os copos estavam vazios nos levantamos. Ouvi a música que
começou a ressoar pelas caixas de som e quis me enfiar na terra.
— Hips Don't Lie — comemorou e eu senti minhas bochechas
corarem.
— Esqueça isso! — ladrei e ele riu me puxando para o peito onde as
minhas costas bateram.
— Impossível — Alex sussurrou no meu ouvido. — Como eu posso
esquecer da imagem que fica vinte e quatro horas na minha cabeça?
Fechei meus olhos e deixei meus quadris se movimentarem ao som da
música contra os dele.
Naquele momento, deixei que minha mente fantasiasse, me deixei
imaginar como seria se fôssemos um casal de verdade. Como seria se quando
os braços dele me circulassem houvesse um sentimento real? Se quando ele
me beijasse sentisse o mesmo que eu?
Mas eu sabia que a mera ilusão com aquilo era errada. Eu iria me
machucar e o pior: eu deixaria Alex me machucar.
Capítulo 26

Meu apartamento nunca pareceu tão pequeno. Minha mãe tinha


desaparecido logo de manhã com uma ligação de Marge. No começo quando
Alex sugeriu que elas poderiam estar se conhecendo melhor eu tinha achado
improvável, mas a forma como ela sorriu e saiu quase sorrateira me fez
perceber que talvez eu tivesse que começar a reconsiderar o fato de que eu
tinha uma mãe heterossexual.
No fundo eu sabia o motivo pelo qual estava tão amarga.
Repetidamente durante a minha vida eu tinha me dado conta de que estava
apaixonada, mais de uma vez eu tinha deixado aquele sentimento me invadir
e tinha sido bem clara com o alvo daquelas sensações. Tinha levado alguns
pés na bunda e não sido correspondida algumas vezes. Mas nunca tinha sido
daquela forma.
Para começar eu nunca tinha fingido ser a namorada de ninguém. Eu
vivia relacionamentos reais, pouco intensos, mas reais. No entanto, agora, o
de maior intensidade de todas, estava prestes a acabar porque não havia de
fato um relacionamento.
Me virei desconfortável no sofá. Eu estava agindo feito uma idiota,
pensando feito uma idiota e sentindo feito uma idiota. Qual era o grande
problema em Alex Wright não gostar de mim? O que ele tinha sido durante
todo o tempo que nos conhecíamos se não um homem ríspido, mandão e...
educado, divertido, beijando como um Deus.
— Ugh! — gemi insatisfeita, pegando meu celular e checando minha
caixa de mensagens só para ver que não havia nada dele.
Fui para a minha conversa com Aurora, ela sempre tinha bons
conselhos e coisas adequadas para dizer, por mais que eu suspeitasse que
ouvindo tudo aquilo, minha melhor amiga pensaria que eu estava vivendo um
grande caso de amor, quando na verdade, eu estava sofrendo.
“Está em casa hoje?”, mandei a mensagem e tentei me concentrar no
noticiário da tarde, tentando não ficar exageradamente focava em receber
uma resposta.
“Sim, meus sogros estão chegando para passar um tempo, até o bebê
nascer. Por quê?”, me encolhi. Eu gostava da mãe de Ethan e do marido
dela, eles eram um casal divertido, mas o problema era eu, não estava no
humor adequado para ser uma boa convidada.
“Ia te convidar para ir ao shopping”, menti “Podemos fazer isso no
meio da semana, minha mãe está aqui também, aposto que elas iriam
adorar”.
“Lucy está aqui? Estou com muita saudade dela, vamos marcar para
quarta?”
“Combinado :)”, respondi e suspirei. Seriam horas enfurnada naquele
apartamento sem propósito algum, apenas curtindo uma fossa que eu nem
deveria estar em primeiro lugar.
Fiz o que eu sabia fazer de melhor, peguei um pote de sorvete no
fundo do meu congelador e me deixei descontar as frustrações ali. Alguns
episódios de Grey’s Anatomy depois e eu já estava me sentindo melhor. Era
incrível o que alguns médicos bonitos podiam fazer pelo meu humor.
Quando eu estava prestes a entrar em um dos meus episódios
favoritos a campainha tocou e eu franzi o cenho, enquanto limpava o canto da
boca com o dorso da mão. Seria minha mãe? Implorei para que fosse ela já
que ficar trancada naquele apartamento sozinha estava entediante.
Me levantei sem me preocupar com o quanto meu cabelo estava
despenteado ou o quão estranha eu ficava com aquela camisa dos Jonas
Brothers de quando eu tinha 16 anos. Abri a porta esperando encontrar uma
mãe cheia de risinhos porque tinha passado a manhã e parte da tarde com sua
“nova amiga”.
Mas não foi isso que eu encontrei.
— Alex? — Por que as pessoas insistiam em aparecer na minha porta
quando eu menos esperava e por que eu estava feliz que ele tivesse feito isso?
— Que surpresa, eu não...
— Você esqueceu na minha casa! — Ele levantou o pequeno frasco e
eu franzi o cenho não reconhecendo. — É um descongestionante nasal. Ouvi
dizer que as pessoas não conseguem dormir se não tiverem isso.
— Ah sim! — respondi confusa. — Eu tenho vários desses aqui em
casa, mas... obrigada — falei, pegando o pequeno remédio das mãos dele. —
É... isso? Por que você de verdade não precisava se importar, eu…
— Não é só isso — interrompeu com uma expressão derrotada, mas
então se recompôs e ergueu as sacolas que tinha nas mãos e que eu não tinha
percebido. — Imaginei que você estaria entediada e eu trouxe... ingredientes
para fazer cookies.
Senti meu coração afundar um pouco, uma mistura agridoce de
felicidade e tristeza. Felicidade, porque ele tinha atravessado a cidade para
me entregar um remédio que ele sabia que não era de uso contínuo,
simplesmente porque se preocupava e tristeza, porque ainda assim não
parecia o suficiente. Mas o que eu tinha pensado que aconteceria? Que ele
viria até ali confessar seu amor por mim? Estupidez. Mas a possibilidade
trouxe mais uma rodada de tristeza, fazendo com que a felicidade inicial
desaparecesse.
— Cookies parece ótimo. — Dei um passo para o lado e o deixei
entrar, escondendo meu rosto dele, porque lágrimas idiotas apareceram em
meus olhos, tentei disfarçar prendendo meu cabelo. — Desculpa a bagunça,
está tudo meio... — Minha voz me traiu e quebrou, pigarreei tentando
disfarçar, mas foi em vão.
— Sara? — Alex chamou, e só o fato dele dizer meu nome criou mais
lágrimas. O que estava acontecendo? Por que eu estava tão emocional? —
Está tudo bem?
— Sim — menti e não foi convincente nem aos meus próprios
ouvidos. — Eu só estou... você sabe... — Não consegui inventar uma
desculpa boa o suficiente. O que eu diria? É TPM, sabe como é? Estou
chorando porque um personagem da minha série favorita está prestes a
morrer? Nada convincente o suficiente e ainda assim as lágrimas não
paravam.
— Não, me desculpe, eu não sei — falou com a voz suave, e tocou
meus ombros, em um movimento delicado. — Você quer conversar? Quer
que eu vá embora? — questionou angustiado.
— Não. — Senti meu corpo cansado, como se eu tivesse corrido uma
maratona e então eu desisti. — Não quero que você vá embora, Alex e esse é
o problema.
— O quê?
Eu não podia mais lidar com aquilo. Fingir que era forte e que poderia
continuar sob as expectativas que ele mantinha de nós dois. Eu não poderia
viver daquele jeito, fingindo que aquilo não estava me magoando, dar a Alex
todo o poder de me quebrar sem ao menos implantar nele a consciência de
que ele tinha toda aquela força nas mãos.
— Acho que deveríamos acabar com isso — disse e assisti a
expressão dele congelar, mortificada. — Podemos falar para nossas mães que
tivemos uma grande briga e que terminou mal, podemos falar que não estava
dando certo há um tempo, mas... precisamos terminar isso.
— Por quê? — perguntou cuidadosamente.
As lágrimas acumuladas continuaram a extravasar e eu mal podia
contê-las. O aperto de Alex nos meus ombros deixou de ser apenas para
apoio emocionou e passou a ser físico também, eu me sentia tão fraca que
poderia desaparecer a qualquer momento.
— Porque não é mais uma mentira para mim — falei cansada. — Eu
não sei quando começou, mas de repente os sentimentos que fingimos não
são mais apenas uma mentira para mim. — Ele permaneceu em silêncio,
esperando e eu imaginei que fosse um pedido de desculpas e eu estava pronta
para oferecer. — Eu não sabia que isso iria acontecer, não sabia que eu ia me
sentir dessa forma. Era só um acordo quando eu aceitei, mas agora... me
desculpe, eu acho que realmente me apaixonei por você, Alex. E isso tem que
parar antes que eu me machuque... mais.
Silêncio. Alex continuou me olhando naquela mistura de expectativa
e curiosidade, mas eu não tinha mais nada a dizer. Apenas fiquei em silêncio
esperando que ele colocasse o ponto final.
Mas ele não fez isso, na verdade, fez a última coisa que eu esperava
que ele fizesse. Alex começou a rir.
Não de um jeito debochado ou nervoso, mas rir como se o que eu
tivesse acabado de dizer fosse a coisa mais engraçada que ele tinha ouvido
em anos.
— Por que você está rindo de mim? — perguntei frustrada entre
soluços. Meus sentimentos eram uma piada para ele?
Minha fala chorosa pareceu despertá-lo e a risada instantaneamente se
transformou em culpa e ele me abraçou dando tapinhas consoladores em
minhas costas.
— Não, estou não, baby. Me desculpe — pediu e deu um beijo
demorado no topo dos meus cabelos bagunçados. — Eu reagi assim porque
estou surpreso, foi uma reação idiota, me desculpe, não queria invalidar seus
sentimentos.
Me deixei ser consolada pelos seus braços mesmo que aquilo não
fizesse sentido. Eu tinha acabado de dizer que tínhamos que acabar com o
acordo e mais que isso: acabar com a relação estranha que tínhamos, mas,
ainda assim, ele me abraçou e o pior: eu me deixei ser abraçada.
— Fui pego de surpresa porque pensei que estava claro — falou, me
soltando depois que os soluços se transformaram em um fungar vergonhoso.
— Você ouviu o que eu disse para você não ouviu? — Segurou meu rosto em
suas mãos, os olhos queimando para mim. — Nós não estamos mentindo
mais. Eu pensei que tinha ficado claro, Sara. O que você sente não é uma
mentira, porque o que eu sinto também não é mais.
Olhei-o chocada. Todas as vezes que ele tinha parecido se importar
com meus sentimentos, todas as vezes que tinha desejado estar comigo eram
reais? Há quanto tempo aquilo estava acontecendo?
— Para mim era só um acordo também, Sara — disse, limpando com
o polegar os remanescentes do choro. — Eu já me sentia... atraído por você,
mas tinha colocado todos os alertas na minha cabeça. Esses quinze dias
seriam apenas negócios. Mas então aconteceu.
Eu conseguia entender completamente o que ele dizia. Antes era sobre
fazer Marge feliz e publicar meu livro, mas então os toque foram ganhando
cada vez mais verdade, a sensação aquecida dos sentimentos bons foi
crescendo e de repente estávamos ali, exatamente onde estávamos agora.
— E o que fazemos agora? — perguntei incerta. Agora eu podia ver a
verdade em suas palavras, mas um relance de medo passou pelos olhos dele e
eu me lembrei com quem de fato eu estava lidando. Alex, não era apenas o
homem por quem eu estava me apaixonando, mas também alguém que lidava
com bagagens que eu mal conseguia conceber.
— Cookies? — perguntou e eu assenti. Uma coisa de cada vez.
Capítulo 27

— Me desculpe, mãe — implorei pela milésima vez desde que


tínhamos acordado. — Não iria se não fosse muito importante, mas Alex
disse que essa reunião de emergência é essencial para o meu livro. — Minha
mãe revirou os olhos do lugar onde estava sentada na mesa tomando café da
manhã, enquanto eu tentava colocar os brincos sem muito sucesso.
— Querida, está tudo bem, não é porque eu estou na cidade que você
precisa ficar vinte e quatros horas comigo. É seu trabalho, vá lá e arrase —
pediu e eu a olhei emocionada. Seu apoio incondicional era tudo que eu
precisava.
Nas últimas vinte e quatro horas minha vida tinha dado um grande
giro. Eu tinha confessado meus sentimentos por Alex e em resposta ele tinha
admitido que o que eu sentia era recíproco. Tínhamos passado a tarde
fazendo cookies e sendo felizes.

Não tínhamos rotulado o que estávamos fazendo, eu achava um passo


bem pensado, principalmente tendo em vista que tínhamos um acordo em
questão, mas eu também podia ver a insegurança de Alex. Seu último
relacionamento tinha partido seu coração, estava óbvio e eu não poderia, nem
se quisesse, pressioná-lo.
E então veio a ligação.
O cheiro de cookies dominava minha cozinha, mas eu não conseguia
prestar atenção naquele delicioso detalhe porque eu estava sentada sobre o
balcão de granito com as pernas enlaçadas ao redor de Alex enquanto ele me
beijava como se o mundo dependesse disso.
Suas mãos estavam firmes na minha cintura, me mantendo no lugar,
enquanto sua boca explorava cada centímetro da minha. Tudo poderia
explodir ao nosso redor e nem nos daríamos conta tamanha imersão em
nossa ‘atividade recreativa’. Beijar Alex Wright estava no meu top5 de
coisas favoritas e eu estava mais interessada em aprofundar do que parar.
Quando ele mordeu de leve meu pescoço um gemido escapou por entre meus
lábios.
Mas o celular dele tocou e eu praticamente rosnei quando uma de
suas mãos saiu da minha cintura para pegar o telefone no bolso. Ele riu,
enquanto acariciava a pele exposta da minha lateral com a outra mão.
— Não atende — implorei fazendo biquinho e ele riu dando um
selinho rápido. — Estamos de férias — lembrei.
— Eu sei — respondeu se inclinando para me beijar de novo. — Mas
é do escritório pode ter acontecido alguma coisa.
— Atende então — bufei, mas me peguei preocupada também. Aquele
não era só o emprego de Alex, era o meu também e eu precisava dele.
— Alô — atendeu e o rosto se tornou imediatamente sério como ele
costumava ficar sempre que estava no escritório. A carranca que antes tinha
me feito querer jogar um grampeador em sua direção agora me fazia querer
beijar o maxilar quadrado. — Mas isso devia acontecer só no final do mês —
Alex ralhou e eu fiquei contente por não ser eu quem estava fazendo besteira
dessa vez.
A voz do outro lado respondeu e Alex respirou fundo enquanto
passava a mão pelos cabelos de maneira nervosa. Alguma coisa estava
errada.
— Todos os livros novos têm o briefing para essa reunião acontecer?
— perguntou e eu ouvi certo desdém em sua voz. — Como assim, “isso é o
mais fácil de providenciar?” É amanhã, Jason.
Jason, era um dos investidores da Wright Company, ele e Alex eram
amigos e eu imaginei que essa amizade era tudo que fazia com que ele não
estivesse esbravejando nesse momento. Alex respirou fundo algumas vezes e
então voltou a responder.
— Eu vou adicionar um original na lista. — Seus olhos faiscaram em
minha direção. — É um original que eu pessoalmente estou incluindo na
lista... Não precisa, eu mesmo vou conseguir as informações desse… Jason,
eu já te decepcionei com as minhas escolhas alguma vez? Tenho ouro nas
mãos — falou e sorriu para mim. Alex estava falando do meu livro?
Arregalei meus olhos. Qual tinha sido o teor da conversa até agora? Por que
eu não tinha prestado atenção?
— Te vejo amanhã então… — Do outro lado Jason questionou
alguma coisa, Alex de um sorriso travesso. — Ah, ela vai estar lá, afinal de
contas é do livro dela que estou falando — disse enigmático e desligou sem
se despedir.
— O que Jason queria? — perguntei assustada. Percebendo meu
estado de espírito ele se voltou para o nosso abraço anterior, mas agora sem
tanta malícia. Ele queria me acalmar.
— Os investidores querem adiantar a apresentação dos lançamentos
do próximo semestre e eu vou incluir seu livro nele. — Arregalei os olhos e
comecei a negar, mas ele voltou a correr os polegares delicadamente sobre a
minha cintura. — Relaxe, só vamos apresentar a sua história.
— Ela não precisa ser lançada esse semestre — gemi.
— O mercado está ótimo para histórias como a sua, daqui há seis
meses a previsão é que fantasia esteja em alta de novo por causa do
lançamento da K. J Raspwall. Esse é o momento para apresentar sua história
para o mundo.
— O livro ainda nem tem nome — gemi, escondendo meu rosto em
minhas mãos sentindo a ansiedade me tomar. Alex riu baixinho e beijou meu
pescoço.
— Eu tive uma ideia para isso. — Beijou a pele abaixo do meu
lóbulo. — Que tal… A Dama de Waterford? — perguntou e eu me encolhi,
enquanto ele ria da minha reação. — Gostou?
— Não é só porque você tem um bom nome para a história que ela
está pronta — resmunguei.
— Na verdade, ela está mais que pronta — Alex contrariou. — Só
precisamos de um briefing.

Então tínhamos passado o resto da tarde trabalhando e depois de Alex


ir embora, a contragosto depois de eu expulsá-lo para que eu pudesse
continuar me concentrado. Continuei pela madrugada preparando textos
convincentes, slides e minhas próprias falas, afinal de contas eu ainda era a
secretária de Alex e ele tinha outros dois originais para apresentar. Eu tinha
que trabalhar para que tudo fosse perfeito.
— Você vai se sair muito bem — minha mãe falou e eu aterrissei
novamente. Enfiei os brincos e chequei pelo reflexo do micro-ondas. Meu
cabelo estava solto e eu usava um casaco laranja que tinha sido um presente
de aniversário de Aurora. Eu parecia bem e esperava que aquilo contasse
pontos.
— Obrigada — falei e respirei fundo algumas vezes. Meu celular
vibrou e eu vi a mensagem de Alex avisando que já estava na porta do meu
prédio. — Preciso ir. Alex chegou — disse, pegando minha bolsa e agenda
em cima da mesa. Me inclinei para beijar minha mãe.
— Sucesso, minha filha — desejou, beijando minha bochecha. —
Você é uma mulher bem-sucedida e merece essa oportunidade. Repita.
— Mãe, eu... — comecei a dizer, mas ela me olhou por cima dos
óculos com sua cara de mãe brava. — Eu sou uma mulher bem-sucedida e
mereço essa oportunidade — repeti e ela riu.
— Você merece todas as oportunidades do mundo, querida. Tenha um
bom dia — desejou e eu saí do apartamento feliz por tê-la por perto.
Do lado de fora Alex me esperava em frente ao seu carro inclinado
sobre a porta do carona. A ansiedade se dissipou um pouco com a percepção
de que aquela era a primeira vez em que o beijo seria verdadeiro em nosso
cumprimento matinal.
— Animada? — ele perguntou com um risinho depois de um selinho
rápido.
— Nem um pouco. — Fiz uma careta e ele sorriu cheio de empatia.
— Vai dar tudo certo — me garantiu e eu assenti deixando que suas
boas vibrações me atingissem.
O caminho até a Wright Company foi tranquilo. Conversamos um
pouco sobre as expectativas que tínhamos para a reunião e Alex novamente
me tranquilizou, teríamos quatro outros livros a serem analisados e o meu não
era nem de longe o que mais geraria polêmicas. Isaac Duncan, um dos
investidores mais antigos da editora tinha visões retrógradas e um mau gosto
que fazia com que ele e Alex tivesse discussões homéricas.
— Ele vai apresentar um livro de um escritor da década de cinquenta,
quer que compremos os direitos de distribuição nos Estados Unidos —
esclareceu, enquanto estacionava. — Mas o cara teve literalmente ligações
com o partido nazista. Algumas de suas inclinações políticas ficam claras no
texto.
— O quê? — perguntei boquiaberta, enquanto saía do carro.
— Esse é o nível de Duncan — Alex disse com um suspiro. — Ele
pode tentar te desmerecer de alguma forma, mas eu não vou deixar. Já está
mais do que na hora de todo mundo parar de ouvi-lo — comentou, enquanto
entrávamos pelo saguão da editora. — Bom dia, Sally — cumprimentou com
um leve aceno.
— Bom dia, senhor Wright — Sally respondeu, enquanto eu lhe dava
um tchauzinho chocado. — Bom dia, Sara.
Quando entrei no elevador mal podia conter meu sorriso e Alex
pareceu perceber.
— O que foi? — perguntou curioso e eu sorri querendo beijá-lo.
— Você cumprimentou Sally sorridente — falei e ele revirou os
olhos.
— Lá vem você de novo com essa história — disse com um sorriso
que mal conseguia esconder. — Vamos nos concentrar, sim senhorita
Webber? — Usou seu tom de chefe, mas havia uma sombra de humor em
seus olhos. — E no final de seu turno talvez você mereça uma gratificação.
— Não brinque comigo, senhor Wright — falei aproveitando dos
últimos momentos de seu bom humor, a partir dali estaríamos trabalhando.
Foi como se, novamente, uma chavinha tivesse sido virada no cérebro
dele. De sorridente e relaxado, Alex passou a ser neutro e quase ofensivo,
como se estivesse prestes a atacar quem estivesse em seu caminho. Se antes
eu já o achava super atraente quando entrava em seu modo Gostosão-
destruidor-de-mundos, agora que eu o beijava ficava ainda mais difícil me
concentrar.
Não fomos para a sala dele, mas para a de reuniões. Reconheci Vivian
Jackson, Leonard Lewis e Isaac Duncan na sala junto com seus respectivos
assistentes, Sam, Emily e Leah, três outras secretárias que eu conhecia bem
uma vez que nós frequentemente almoçávamos juntas, porque nossos horário
sempre batiam. Os dois primeiros investidores mantinham uma conversa
animada junto com as secretárias. Dava para ver que Isaac não era querido
ali.
— Bom dia — Alex cumprimentou e a conversa parou
imediatamente. Todos começaram a se rearranjar na sala. Ninguém tinha
coragem de permanecer casual com ele na mesmo cômodo. — Podemos
começar?
— Bom dia — Vivian respondeu. — Eu e Sam gostaríamos de
começar. Sam, comece a projetar, favor — pediu e a secretária ligou o slide
num quadro branco de plástico que era usado em situações como aquelas.
Tomei notas porque não era só a escrita que seria meu trabalho ali.
Me peguei insegura, Vivian tinha levado um original indie, um tipo de
romance familiar que se caísse no gosto do público seria um sucesso e com as
estratégias de divulgação que ela tinha sugerido primariamente aquele seria o
caso.
Duncan não se envolveu muito naquela discussão, Leonard e Alex
concordaram instantaneamente vendo o potencial daquela história. Meu
nervosismo só aumentava.
— Podemos ir para a minha publicação? — Alex perguntou e eu vi
Isaac se ajeitar, um brilho quase sádico aparecendo em sua expressão.
— O que tem para nós, Alexander? — perguntou o homem.
— Tenho um romance histórico. Vocês podem conferir a sinopses
aqui. — Ele passou as folhas com as informações principais do meu livro. —
A premissa é jovial e interessante, carrega boas mensagens, eu pessoalmente
li o original e é ouro. — Deu um meio sorriso e eu abaixei o rosto,
secretamente orgulhosa.
— O plot é realmente interessante — Vivian disse. — Gosto do
conflito e da resolução e acima de tudo confio no seu faro, afinal de contas
foi você quem trouxe os melhores livros do ano passado. — Saber que um
dos maiores nomes da editora confiava no potencial do meu livro era uma
sensação ímpar.
— O nome — Duncan chamou. — Sara Webber é sua secretária,
certo? — perguntou a Alex ao invés de diretamente para mim. — Isso não
poderia ser algum tipo de conflito de interesse?
— Sara Weber conhece o projeto editorial da Wright Company como
ninguém, se um autor está preparado para ser publicado por nós é ela —
defendeu e eu senti um pouco da minha ansiedade se dissipar, Alex
defenderia a qualidade do meu trabalho.
— Mas o fato que você está dormindo com ela pode ser um conflito
de interesses — jogou e eu senti meu corpo congelar. O clima na sala
instantaneamente mudou. — Quer dizer, todos nós traçamos as secretárias às
vezes, mas dar um contrato para ela por causa disso... exagerado.
Duncan não tinha nem lido a sinopse que tinha sido entregue, não
tinha se dado ao trabalho de olhar para o meu rosto enquanto me acusava.
Numa sala em que a maioria era composta por mulheres ele tinha preferido
acreditar que o que eu possuía no meio das pernas era o facilitador do meu
sucesso e não a minha capacidade.
Olhei mortificada para Duncan que ainda encarava Alex.
— Você está demitido — o homem ao meu lado disse. — Pode passar
no RH e acertar com Marissa o que que lhe cabe.
Silêncio.
Olhei incrédula para Alex. Isaac Duncan não era um simples
funcionário, ele era um dos investidores da editora. Mas, ainda assim, o
homem ao meu lado, por quem eu me vi um pouquinho mais apaixonada,
estava mandando o idiota que tinha me desrespeitado embora.
— Eu não posso ser demitido. — Duncan se inclinou sobre a mesa, os
olhos injetados em uma raiva que poderia matar. — Sou dono dessa editora
tanto quanto você.
— Não, Isaac. — Alex deu um sorriso falso de lado. — Você tem
cinco por cento das ações, isso não te faz dono de nada. Estou te dando uma
oportunidade, saia enquanto há alguma decência ou espere até que eu tome as
medidas legais para expulsá-lo daqui por assédio moral. Aposto que dentro
dessa sala mais de uma senhorita gostaria de depor contra você.
— Não pode fazer isso — o velho se revoltou.
— Quer pagar para ver? — perguntou, esbanjando seu poder. — E
acredite, o preço é muito mais alto do que você pode pagar.
Duncan olhou para sua secretária que imediatamente desviou o olhar.
— Pro inferno com essa editora de merda. Eu sabia que tudo estava
acabado depois que o seu pai morreu. — Isaac jogou os papéis no chão e
deixou que sua cadeira tombasse atrás de si.
Alex assistiu tranquilamente a cena que seu investidor recém-
demitido tinha feito e se virou para os outros colaboradores na sala.
— Sara Webber é minha namorada, mas nada em nossa relação
pessoal influi no trabalho ou no meu — falou diretamente para cada um dos
presentes. — Se mais alguém acha que a maneira como eu ou ela tocamos
nossas vidas pessoais atrapalha nosso trabalho sinta-se à vontade para se
juntar a Duncan no RH.
Os outros cinco funcionários pareciam tão surpresos que mal
conseguiam conter suas expressões. Um misto de emoções conflitantes me
sacudiam de um lado para o outro e de repente a sala de reuniões parecia
apertada demais para mim.
— Vamos dar uma pausa — Alex disse, como se pudesse ler meus
pensamentos. — Senhorita Webber, se importa de me acompanhar? —
chamou.
Eu o segui até o corredor me sentindo ainda fora de órbita. Em
questão de minutos tudo tinha virado uma confusão sem tamanho.
— Me perdoe! — falou cheio de culpa, se virando em minha direção
quando paramos. — Eu não queria que isso estivesse acontecendo, eu nem
sei como Duncan ficou sabendo disso. Nunca em um milhão de anos eu
queria comprometer sua posição nessa empresa. Sara, mais do que qualquer
coisa você é uma profissional impecável... o que foi?
Não consegui me conter.
Risadas nervosas irromperam pela minha garganta e eu não podia
parar. Minha barriga até doía.
— O quê? — perguntou confuso.
— A primeira vez que você me chamou... a primeira vez que me
chamou de namorada foi numa reunião... — a risada continuava. — Porque
Duncan, o idiota nazista, acha que eu sou uma incompetente. — Meu lábio
inferior tremeu e as risadas se transformaram em lágrimas. O estresse me
deixando incoerente.
Para minha surpresa Alex riu e me abraçou.
— Prometo que vou fazer alguma coisa melhor do que te anunciar
numa reunião para oficializar nosso relacionamento — brincou, afagando
minhas costas. — Qualquer pessoa que questionar seu trabalho aqui pelo
relacionamento que você mantém comigo é um cego que não consegue ver a
qualidade de tudo que você faz e não merece estar aqui — disse, cheio de
força. — Desculpe por fazer tudo isso tão difícil — pediu.
— Não é sua culpa. — Limpei as lágrimas errantes.
— Agora vamos lá para dentro e explicar por que o seu livro vai ser o maior
sucesso que essa editora já viu — chamou. — Você é incrível, Sara. —
Deixei que as palavras me confortassem, sem saber o que futuro ainda
reservava.
Capítulo 28

— Sai de cima dela, Coco — Alex ralhou, enquanto trazia uma taça
com sorvete. Estávamos na casa dele comemorando o aceite do meu livro.
Parecia que tinha sido há uma vida o momento em que eu tinha estado
naquele mesmo sofá pensando em como seria dividir uma cama com ele, mas
ali estava eu, ocupando o lugar verdadeiro de namorada.
A cachorrinha pareceu entender que o clima era de animação e pulava
de um lado para o outro no meu colo. Eu estava confortavelmente sentada
com as pernas para cima no sofá caro de Alex aproveitando do sorvete Ben &
Jerry de sabores quase ilimitados sendo mimada por ele e pelo pet. Um dia
perfeito.
— Deixe ela — falei, afagando entre as orelhas peludas. Coco gostar
de mim me deixava estranhamente animada, eu queria que um cachorro fosse
com a minha cara simplesmente porque era o cachorro dele. — Ela sabe
apreciar uma boa escritora quando vê uma.
— Claro que sabe. — Alex me entregou o sorvete, levantou minhas
pernas e se sentou no lugar onde elas estavam, deixando que agora pairassem
confortavelmente sobre o colo dele. — E todo mundo na agência soube
também.
— Nem todo mundo — lembrei amarga, e o rosto de Alex tensionou
com a menção ao incidente na Wright Company.
— Todo mundo sabia que Duncan era um idiota, eu sabia, mas por
causa da amizade que ele mantinha com meu pai resolvi fazer vista grossa
aos absurdos dele, mas aquilo foi a gota d’água. Não só ele admitiu
comportamento indecoroso com as secretárias, mas te ofendeu de uma
maneira horrível. Eu não posso admitir nenhuma dessas coisas na minha
editora. Nunca. — Sorri emocionada, não somente por ele me defender, mas
por criar um ambiente confortável para que outras mulheres trabalhassem ali.
A lista de qualidades só aumentava a cada vez que eu passava mais tempo ao
seu lado. Me apaixonando toda hora um pouquinho mais.
— Obrigada por isso, significa muito para mim — agradeci e ele se
inclinou para mim com um sorriso relaxado.
— Você merece todo apoio do mundo. É talentosa, esforçada e
concentrada. Me orgulho de você, senhorita Weller — brincou, usando o
nome pelo qual ele tinha me chamado durante praticamente um ano.
— Eu aprendi com o melhor, senhor White — impliquei e ele riu
afagando meu joelho enquanto eu tomei uma colherada do sorvete caro. —
Vai ser uma grande mudança no escritório — falei e ele ponderou por um
segundo.
— Acredito que para as outras pessoas, no começo, pode ser estranho.
Sempre que as portas estiverem fechadas eles vão pensar: o que será que eles
estão fazendo? — Deixou malícia rechear suas palavras e eu revirei os olhos.
— E eles sempre vão estar certos sobre o que estaremos fazendo.
— Trabalhando, senhor Wright. É uma editora de respeito — lembrei.
— Obviamente. Eu jamais deixaria que pensassem mal da minha
adorável secretária — brincou. — Uma coisa que com certeza vai mudar é a
nossa dinâmica de trabalho. Afinal de contas eu não preciso mais me
esconder atrás da figura de seu carrasco.
— Se esconder atrás da figura do meu carrasco? — perguntei confusa.
— Alex, nenhuma ofensa, mas você é o meu carrasco, não estava se
escondendo em nenhum personagem. — Dei um sorriso de lado, mas o rosto
dele estava pensativo.
— Acredite em mim, eu estava. — Ele começou a afagar meus
joelhos num movimento inconsciente. — A primeira vez que você colocou os
pés na minha sala eu sabia que você poderia ser o tipo de mulher pela qual eu
poderia me interessar e isso era um pesadelo. Não só você tinha acabado de
ser contratada como era genuinamente interessante. Passei dois anos inteiros
tentando não me concentrar no seu bom gosto, na forma como você era
simpática e solícita e aí eu acabei com tudo quando pedi para que você se
tornasse a minha falsa namorada.
Olhei-o boquiaberta. Eu tinha absoluta certeza de que ele me odiava
há alguns dias e agora Alex estava me contando que tinha passado os últimos
meses me evitando porque poderia se interessar por mim.
— Lembra da história que eu contei para minha mãe sobre o Natal? O
dia em que eu supostamente te chamei para sair? — Riu meio envergonhado
e eu balancei a cabeça positivamente. — Aquele dia, naquela festa de Natal,
eu realmente estava pensando em conversar com você, deixar de ser o babaca
e tomar alguma coragem. Obviamente não aconteceu... — Coçou a nuca num
movimento tímido e eu nunca quis beijá-lo tanto como naquele momento.
— Eu teria aceitado. — Ele me olhou curioso. — Tudo bem que você
me fazia pegar o seu café todos os dias de manhã, mas seus braços ficam
bonitos no blazer, já era o suficiente para mim — provoquei e ele revirou os
olhos.
— Então isso é tudo que eu sou para você? Um corpinho bonito? —
questionou, se inclinando para me beijar.
— Não, você é um corpinho muito bonito — corrigi e ele revirou os
olhos antes de me dar um beijo rápido.
— Então você sairia comigo mesmo falando mal de mim para a sua
mãe? — perguntou e eu me encolhi.
— Vai ser complicado explicar para um monte de gente como eu
acabei beijando o cara de quem eu sempre falava para elas. Minha
cabeleireira, Aurora, meus vizinhos... vou ter um trabalhão daqui para frente.
— Então eu já tenho uma fila de odiadores por aí? — questionou. —
Muito animador — gemeu e eu me peguei sorrindo para o quão fofo ele era.
— Não, você não tem uma fila de odiadores — falei, deixando o pote
de sorvete no chão e me arrastando para o colo dele onde fui recebida com
um sorriso que ele tentava esconder enquanto fazia uma expressão falsa de
tristeza. — Meu chefe tem uma fila de odiadores, você não.
— Ah o seu detestável chefe. — Riu, enquanto afagava a minha
cintura. — O que sua mãe desejou que tivesse DST.
— Minha mãe é meio extrema nos desejos — defendi. — Mas eu
nunca iria querer uma coisa dessas para ele. Meu patrão merece ser feliz. Ou
não. Sabe como é, poder aos trabalhadores e tudo mais.
— Absolutamente certa. — Se inclinou para beijar meu pescoço. —
Todo poder para os trabalhadores — sussurrou as palavras de maneira
risonha e traçou com os lábios o caminho do meu ombro até meu maxilar.
Fechei meus olhos com um suspiro aproveitando a sensação.
Quando sua tortura passou a ser intolerável puxei seu rosto para o
meu e assisti seu sorriso se tornar presunçoso quando o beijei. Suas mãos me
prenderam parada sobre seu colo quando tudo que eu mais queria era me
movimentar livremente, em resposta mordi de leve seu lábio inferior.
Mas antes que Alex pudesse retribuir o favor seu telefone tocou e eu
travei minhas mãos em seu maxilar.
— Não — gemi e ele riu. Por que as ligações não podiam chegar
quando eu terminava de beijá-lo?
— Pode ser sobre seu livro — lembrou e eu espremi meus olhos em
sua direção. Jogo baixo, eu atenderia um telefone sobre meu livro mesmo se
meus tornozelos estivessem nos ombros dele.
— É bom ele já estar na lista de mais vendidos — reclamei, sentando-
me mais comportada ao lado dele, enquanto Alex pegava seu celular no
bolso.
— Não conheço esse número. — Franziu o cenho e eu olhei para tela.
Quando ele estava prestes a deslizar sobre o botão esquerdo para desligar
reconheci a série de números.
— É o telefone da minha mãe — falei e ele me olhou preocupado.
Qualquer ponto de descontração desaparecendo de seu rosto.
— Alô? — chamou e eu fiquei atenta. — Sim, sou eu, Lucy. — Ele
escutou as palavras da minha mãe e de repente se levantou. — Em qual
hospital vocês estão? Estou indo para aí. — O segui sentindo meu coração
gelar. Algo tinha acontecido com Marge? Era a única razão para minha mãe
ligar para Alex ao invés de mim. Pensei em todas as possibilidades e senti
meu estômago afundar. — Chego em quinze minutos — prometeu e desligou
o telefone andando rápido em direção a mesinha de centro para pegar as
chaves do carro.
— O que está acontecendo? — perguntei agoniada e ele se virou para
mim, o rosto pálido e sem expressão.
— Alguma coisa está errada com minha mãe — respondeu.
Capítulo 29

Alex passou o caminho inteiro em silêncio, as mãos travadas no


volante enquanto fazia curvas rápidas demais para o trânsito. Eu sentia que
devia dizer alguma coisa, tentar acalmá-lo, mas Alex estava tão imerso em
seus próprios pensamos que qualquer coisa que eu dissesse só serviria para
desconcentrar. Esse foi o meu grande erro.
Estacionamos em frente ao Hospital Geral de Seattle e mesmo com
todo o nervosismo ele parou ao meu lado e segurou a minha mão de maneira
firme. Percebi que não era Alex me sustentando, mas sua necessidade de
apoio. Retribui o aperto.
Uma atendente solícita nos indicou qual andar procurar e nos
entregou adesivos com os dizeres “visitante”.
— Você tem alguma notícia de como ela está? — ele perguntou
agoniado e a mulher lhe deu um sorriso empático.
— Infelizmente não, senhor. Mas o doutor responsável pelo quadro
vai poder te explicar melhor — informou e Alex respirou fundo.
No elevador ele mexia nos cabelos de maneira nervosa, olhando para
o visor que mostrava o ritmo preguiçoso no qual avançávamos pelos andares.
Fiz círculos suaves com a ponta dos meus dedos em sua mão, recebi um olhar
grato em resposta. Desde a ligação da minha mãe parecia que o homem ao
meu lado tinha envelhecido uns cinco anos.
Quando as portas de metal se abriram seu passo em direção ao quarto
indicado era quase vacilante, como se ele tivesse medo do que estava prestes
a encontrar.
Mas o que vimos não era o cenário desesperador que as nossas mentes
conjuraram. Marge estava deitada sorridente numa maca enquanto minha mãe
estava sentada na cadeira do acompanhante ao lado. As suas conversavam
alegres com o médico que tinha uma postura relaxada.
— Aí está ele! — Marge disse, quando viu o filho. Alex a olhou
confuso. — Esse é o meu Alexander, doutor Lee.
— Alexander, meu nome é Jefferson Lee e eu sou o oncologista do
Hospital Geral de Seattle. — Assisti Alex engolir em seco para a
especialidade do médico, mas o deu um aperto de mão firme. — A sua mãe
deu entrada essa manhã depois de um desmaio. Fizemos alguns exames e
constatamos um pequeno enraizamento do tumor. Uma estrutura mínima e
que demoraria anos para ser descoberta, tão inicial que será fácil remover,
além de o número de mínimo de quimioterapias. Foi uma sorte sem tamanho
sua mãe ter escolhido vir ao hospital depois do desmaio.
Alex piscou atordoado algumas vezes antes de olhar para a mãe. Sua
expressão era neutra, mas eu podia ver a dor irradiando por seus olhos. Marge
parecia muito tranquila.
— Sinto muito, mãe — falou desolado, como se uma bola de
demolição tivesse batido contra o seu peito. Marge lançou um olhar terno
para o filho e então sorriu. Alex soltou a minha mão e caminhou até o lado da
maca.
— Por que você parece tão triste, querido? Você ouviu o que o doutor
disse? Está bem no começo, fácil de tratar, rápido. Um milagre comparado ao
que eu vivi nos últimos meses. — Segurou a mão do filho, enquanto dizia. As
memórias do meu pai me consolando numa cama muito semelhante àquela
me fizeram desviar o olhar antes que lágrimas pudessem começar a
aparecerem.
— Sim, eu ouvi. Mas ainda assim é... ruim. — Escolheu as palavras
atenuadoras, eu sabia que ele usaria algo mais pesado para descrever aquele
que era seu maior pesadelo. — Você tinha tantos planos... — Sua voz rachou
e meu coração se encolheu.
— É sobre isso que estávamos falando antes de você chegar querido.
— Marge olhou para a minha mãe e em seguida para o médico, abriu um
sorriso largo e disse as palavras que quebrariam Alex. — Eu vou seguir meus
planos.
O silêncio que pairou sobre a sala enquanto ele olhava boquiaberto
para a mãe.
— Seguir com os planos? — questionou cuidadosamente.
— Vou ter minhas férias no Havaí.
— Depois que as quimioterapias acontecerem? — Alex perguntou,
tentando entender as palavras que sua mãe falava com tanta certeza.
— Não — Marge negou suavemente. — Vou assim que os resultados
dos exames saírem.
Alex ficou parado tomando a proporção dos dizeres. Olhei para minha
própria mãe em busca de respostas, mas ela olhava orgulhosa para sua amiga
recém feita. Se Lucy Webber tivesse um dedo naquilo...
— Mãe, isso é loucura. — Sua voz era desesperada e mais alta do que
o tom baixo que estávamos mantendo desde então. — Você pode começar o
tratamento agora e acabar com isso em pouco tempo, vai poder fazer sua
viagem depois... mãe, não seja absurda por favor — implorou, agarrando os
próprios cabelos. Marge balançou a cabeça negativamente.
— Eu me decidi, Alex — falou tranquila. — Arranjei uma ótima
colega viagem e vamos viver a aventura que merecemos. — Apontou para
minha mãe que sorria, mas tinha a testa franzida. — Se eu esperar corro o
risco de para sempre ficar sentada esperando a próxima vez que o câncer vai
aparecer e me derrubar de novo.
— Isso é loucura, você não pode apoiar uma coisa dessas. — Virou-se
para o médico. — Pode fazer o seu trabalho e colocar juízo na cabeça dela?
— Na verdade, senhor Wright. — O médico que até então tinha sido
muito educado parecia ter endurecido para o estado desesperado de Alex. —
Vamos repetir os exames para confirmar todos os pontos que tivemos com os
testes preliminares. Esse é o desejo da sua mãe e como médico não posso
obrigá-la a nada. Se quer saber minha opinião como oncologista há mais de
vinte anos, ela está tomando a decisão certa. Um mês de felicidade não vai
matá-la.
— Mas o câncer vai! — Alex contestou desesperado. — Isso é...
vocês estão... — As palavras faltavam. Ele se afastou da maca e passou por
mim para fora do quarto, saindo em desespero.
— Ele vai entender... — Marge disse com um suspiro.
— Como ele pode entender? — questionei e de repente o trio no
quarto pareceu me enxergar ali. — Se a coisa que ele mais teme é perder
você?
— Sara! — Minha mãe chamou minha atenção, mas eu ignorei.
— Não estou dizendo que não deve fazer isso — me corrigi. — Estou
dizendo que é difícil para ele entender. Alex faria qualquer coisa para te ver
feliz, mas te quer viva acima de tudo.
— Eu sou uma adulta, querida — ela disse com a voz terna. — Alex
não precisa me proteger do mundo. — Se Marge ao menos soubesse o que o
filho dela estava disposto a fazer somente para dar paz de espírito a ela. —
Essa é a minha obrigação com ele, não o contrário.
— Talvez seja melhor você ir atrás dele, filha — minha mãe pediu. —
Ele parecia realmente chateado.
Estava confusa demais. Eu podia entender o que levava Marge a
tomar aquela decisão, mas, ao mesmo tempo, podia sentir o mesmo medo que
Alex sentia para aquilo tudo. Até onde eu sabia eles tinham passado maus
bocados lidando com a primeira vez que a doença tinha surgido. Eu podia
enxergar a lógica por trás dos dois pensamentos extremos.
Suspirei e fiz o caminho que Alex tinha percorrido. Encontrei-o
sentado num banco em um corredor vazio com nada além de umas macas e
portas fechadas. Ele tinha os cotovelos apoiados nas coxas e o rosto
enterrado, nas mãos. O homem que sempre parecia uma fortaleza
impenetrável, naquele momento nada mais era do que um filho assustado. A
imagem trouxe lágrimas para meus olhos.
Deixei que ele ouvisse minha aproximação, mas ele não se moveu.
— Alex... — chamei sem saber o que realmente dizer, mas esperando
que minha presença pudesse confortá-lo.
Ele se ergueu, mas não olhou para mim. Manteve o olhar fixo na
maca a sua frente.
— Isso não vai dar certo, Sara — falou com a voz vazia.
— É o que ela... — comecei a dizer, não podendo deixar que ele
pensasse que a mãe estava apenas sendo egoísta.
— Não — negou ainda olhando para frente. — Nós dois. Não vai dar
certo.
— O quê? — perguntei, sentindo como se gelo tivesse sido injetado
em minha corrente sanguínea.
— Me desculpe — pediu, mas nunca fez o movimento para me olhar.
— Não vai dar certo.
Meu cérebro não me deu respostas, parecendo não registrar o que ele
tinha acabado de dizer. Alex não se mexeu e nem emendou com “hahahaha é
uma brincadeira, eu comecei esse relacionamento com você há horas, não
posso terminá-lo assim hahahaha”, não houve um complemento. Continuou
olhando para frente sem realmente parecer enxergar nada.
— Ok. — Minha voz era controlada, de uma maneira que eu não me
sentia. — Se é isso que você acha.
— É o melhor — respondeu e voltou para sua posição inicial.
Saí dali sentindo minhas pernas fracas, meu estômago revirar e meu
coração se quebrar em mil pedaços. O que tinha acabado de acontecer?
Capítulo 30

— Eu vou matá-lo — Aurora prometeu e eu ri sem humor secando


uma lágrima que teimava em cair do canto do meu olho. — Não ria, Sara, eu
juro que vou matá-lo.
Desde que eu tinha chegado a casa dela, a mulher grávida andava de
um lado para outro dizendo o quanto ela gostaria de acabar com a vida de
Alex. Aurora segurava a cintura com uma das mãos e acariciava a
protuberância do seu quarto filho.
— Ele só quis terminar... isso acontece. — Meu lábio inferior tremeu,
mas eu mantive a compostura. Aurora me olhou com as narinas infladas
enquanto caminhava de um lado para o outro na sala bonita.
— Claro que acontece, mas dois minutos depois de começar um
relacionamento? — questionou, a voz subindo para um nível mais agudo.
Suas palavras me fizeram perceber o quão estúpida eu era. Fechei os olhos
para parar e enxurrada de lágrimas. — Desculpe! — ela pediu se sentando do
meu lado. — Só é... estranho. — Escolheu as palavras que eu sabia que
seriam muito mais tranquilas.
— Estranho? Isso é um saco, Aurora — confessei. Até então estava
levando em bons ânimos pelo bem da minha amiga grávida demais que
poderia ficar abalada pela minha tristeza, mas eu me sentia tão frágil que não
conseguia mais aguentar. — Se eu tivesse ficado calada, se não tivesse
contado como me sentia, esse acordo terminaria em alguns dias e eu não teria
um coração quebrado.
— Nisso você está errada — falou com a voz mansa. — O problema
não foi você expressar seus sentimentos, nunca é isso. O problema foi o que
ele fez com o quanto você gostava dele.
— Nós estávamos comemorando meu livro, ele tinha me defendido e
assumido um relacionamento, mesmo estando claramente com medo. Ele me
deu esperanças só para destruir tudo? — perguntei indignada, e Aurora
escutou paciente, me deixando extravasar. — Você sabe o que é o pior? Ele
não conseguiu olhar para o meu rosto me dar uma explicação.
— Tem alguma chance... — Começou devagar, mas mudou o
caminho de suas falas. — Pelo que você me disse foi um momento de
estresse para ele. A mãe está doente de novo e não quer tratamento agora... é
um momento de fragilidade.
— Eu ia estar do lado dele, eu fiquei do lado dele. Quando ele saiu eu
contestei Marge e minha mãe, eu fui atrás para consolá-lo... — Enfiei meus
dedos entre meus cabelos. — Por que ele não pode confiar em mim? —
questionei e Aurora passou seu braço pelos meus ombros me dando o
conforto que eu precisava.
Como se tivesse sentido o quão para baixo estava o clima na sala,
Zoey apareceu correndo com uma boneca nas mãos. Tratei de limpar as
lágrimas e me culpei por estar naquele estado deplorável. Que exemplo eu
estava dando para a enteada da minha melhor amiga?
— Por que você não me contou que a tia Sara estava aqui, mãe? —
Ela apareceu com o sorriso que se desmanchou ao ver a minha cara inchada.
— O que aconteceu? — perguntou fazendo um biquinho.
— Nada demais, querida — falei e abri os braços para a menina que
sorriu e avançou suavemente sobre mim. — Como você está? Estava com
saudades.
— Bem — respondeu unicamente. — Você está triste? — Por que as
crianças faziam as perguntas mais difíceis?
— A tia Sara… — Aurora tentou contornar me pedindo socorro com
os olhos.
— Eu estou — confessei e a criança me olhou com uma empatia que
era reconfortante. — Mas eu vou ficar bem.
— Não tem problema ficar triste, tia Sara — disse sábia. — Não é,
mãe? — perguntou orgulhosa para Aurora, que deu um sorriso brilhante para
a enteada como se estivesse vendo a estrela mais brilhante do sistema solar e,
de fato, estava.
Zoey era uma criança maravilhosa, tão pouca idade e passado por
tanta coisa, mas ainda assim era doce e inteligente.
Aurora e ela tinham um laço sanguíneo, afinal Jane, a mãe biológica,
e minha melhor amiga eram meia irmãs que nunca tinham se conhecido. Mas
a pequena guardava muito da madrasta, coisas que DNA não podiam garantir.
Elas se amavam e Zoey se espelhava em Aurora, seu maior exemplo.
— Nenhum problema, filha — concordou, afagando os cabelos da
enteada que estava nos meus braços. — Não existem emoções ruins...
— O ruim é não falar sobre elas — completou e a dinâmica aqueceu
meu coração.
Aurora era parte fundamental da minha família e a dela ter crescido de
maneira tão linda me deixava feliz por estar incluída ali. Eu amava ser a tia
Sara, a madrinha e, de certa forma, a cunhada. Momentos como aquele só me
mostravam o quanto era importante ter laços fortes.
— Você está absolutamente certa, querida — elogiei e ela me deu um
sorriso idêntico ao de Aurora.
— Aí está você! — Ethan chamou da porta com uma mamadeira nas
mãos, os gêmeos provavelmente tocando o terror com a babá em algum lugar
da casa. — Zô, o que eu falei... — Começou com o que deveria ser uma voz
de repreensão, mas não fazia nem cosquinhas.
— Eu não estou me metendo nas conversas de adulto, pai. — Revirou
os olhos. — Só estava dando oi para a tia Sara.
— Eu sei, querida. Mas nós vamos fazer biscoitos para ela, certo?
Vamos ter muito tempo para dar oi quando estivermos comendo — brincou e
a menina riu animada com a boneca nas mãos e correu para os braços do pai.
— Vai guardar a Lily, já estou indo para começarmos os biscoitos —
pediu e a menina desceu se debatendo e correu para fora da sala.
— Oi Ethan — cumprimentei e ele se aproximou, o cenho franzido.
— Só me diz o nome do idiota — pediu e eu revirei os olhos. — Não
sei o que ele fez, mas se fez alguma coisa é um babaca.
— Queria que fosse fácil assim — respondi e ele se sentou no braço
do sofá ao lado da futura esposa. — Mas é difícil.
— Você sempre foi uma secretária dada a jogar grampeadores na
cabeça dos seus chefes... talvez essa fosse uma das circunstâncias necessárias
— falou e eu ri me lembrando da minha demissão dramática da época em que
eu era sua secretária.
— Talvez eu deva fazer uma cena quando for me demitir — brinquei,
enquanto fungava. — E acertar o grampeador, de fato.
— Boa ideia. — Riu e se levantou, comprimiu os lábios, como se
estivesse tomando uma decisão difícil, mas então resolveu dizer. — Não sei o
que aconteceu e provavelmente ela não vai soltar a língua essa noite. —
Apontou para Aurora. — Mas às vezes as coisas são mais complicadas do
que parece, mesmo para quem quebrou corações — disse e eu suspirei.
— Não sei por que, mas eu acredito em você — concordei. — Mas
talvez eu só esteja apaixonada demais para deixar a verdade aparecer.
— Em qualquer um dos casos — Aurora interveio. — Estamos aqui
por você, para segurar a sua mão ou jogar grampeadores na cabeça.
Capítulo 31

— Você vai trabalhar hoje? — minha mãe questionou e eu respirei


fundo. Estava sendo mais difícil do que eu imaginava, a mera menção de ir
até a Wright Company me fazia querer chorar. Ela arregalou os olhos. —
Você está bonita. — Tentou contornar.
— É maquiagem — sussurrei e ela riu abrindo os braços para que eu
me escondesse, exatamente como fazíamos quando eu era criança.
— Não é maquiagem, você é linda como é — me garantiu, afagando
meus cabelos e eu me senti impotente, mas reconfortada. Meu coração tinha
se quebrado em mil pedaços, no entanto, eu tinha minha mãe para me dizer
que eu estava bonita e abraçar a tristeza.
— Vou... pedir o aviso prévio — contei e ela me olhou de cenho
franzido. — Sei que vou conseguir alguma coisa legal. Ethan está desde
sempre me tentando fazer voltar para a empresa, talvez seja hora... — Dei de
ombros, tentando parecer firme enquanto pegava uma xícara de café para me
manter acordada uma vez que insônia tinha sido minha maior companhia.
— O seu livro... — mamãe começou a dizer e eu fechei os olhos por
um segundo tentando me recompor. Não tinha sido só um namoro relâmpago
a ser terminado, mas um sonho de anos que agora encontrava seu fim
prematuro.
— Tem outras editoras por aqui. — Nenhuma tão boa. — E eu fiz
contatos ao longo desse tempo — garanti e ela me deu um sorriso orgulhoso.
— Marge disse que pode... — começou a dizer e eu a cortei.
— Não quero favores, mãe. — Eu não culpava Marge, de maneira
nenhuma. Ficava feliz por ela parecer encontrar uma amizade tão verdadeira
na minha mãe e vice-versa. Elas pareciam felizes na companhia uma da outra
e isso por si só já era um ganho enorme. Mas eu não queria estar ligada a
Alex de nenhuma forma, nem por meio de sua mãe, para quem eu tinha
começado a nutrir um carinho genuíno.
Meus términos nunca tinham sido tão dramáticos. Eu passava no dia
seguinte nos apartamentos para buscar minhas coisas, às vezes gastava umas
lágrimas, às vezes sorria de alívio, porém nunca tinha sido assim. Quinze dias
tinham sido mais que suficientes para deixar marcas em mim e quando o
conto de fadas tinha acabado, havia pedaços faltando nos espaços que Alex
tinha crescido em meu coração.
— Você é talentosa, filha, vai encontrar outro trabalho e outro
namorado — prometeu e eu fiz um som forçado de nojo com o fundo da
garganta, por mais que eu me sentisse muito mais triste do que qualquer outra
coisa.
— Eu vou me aposentar do namoro, mãe — afirmei e ela riu, mas
tentou disfarçar com uma tosse antes de me lançar um olhar doce.
— Você está só começando, querida — garantiu, quando eu estava
prestes a retrucar. — Corações partidos vêm e vão, o tempo todo. Eu tive a
minha cota antes de encontrar seu pai.
— Mas você o encontrou.
— Acha que eu sabia que iria encontrar? — perguntou no meio de
uma risada. — A vida é uma caixinha de surpresas, Sara. Agora que tudo
passou parece que estava escrito, que seu pai estava no meu caminho. Mas
durante o percurso é confusão.
— Então devo estar indo bem, porque o que mais tive é a confusão —
disse amarga e minha mãe tomou um gole de seu café.
— Há beleza na confusão — constatou e eu suspirei.
— Preciso ir — avisei e ela balançou a cabeça.
— Vou passar o dia fora comprando roupas de verão já que estou indo
para Havaí. — Riu jovial de sua própria coragem. — Mas se quiser almoçar
podemos nos encontrar.
— Podemos — falei sem nenhuma força. Encontrá-la significa
encontrar Marge, encontrar Marge significava pensar no filho estúpido dela e
eu não queria aquilo. — Nos vemos mais tarde — me despedi e ela soprou
um beijo e voltou-se para seu celular onde ela lia as notícias com calma.
Peguei meu próprio carro, a primeira vez em semanas. Tentei não me
lembrar da carona divertida que eu estava recebendo. Eu não teria nada
daquilo. Controlei a onda de lágrimas, mas quando Adele começou a cantar
na rádio eu entendi como um sinal do universo me dizendo que eu devia
curtir meu sofrimento. Aproveitei a maquiagem estrategicamente a prova
d’água e me permiti derramar algumas lágrimas enquanto cantava desafinada
o refrão.
Quando parei na minha vaga da Wright Company percebi que nem
mesmo a discografia completa de qualquer cantora poderia me fazer
extravasar o mal-estar que eu sentia.
Comecei a sentir ódio. Raiva de mim mesma, de Alex, daquele
emprego estúpido que eu tinha gostado tanto, do dia em que eu tinha aceitado
aquela vaga, mais ainda do dia em que eu tinha aceitado fingir ser namorada.
Do plano ridículo do qual eu não tinha que participar e que tinha me levado
tanto. Ódio puro e genuíno.
— Bom dia, Sara! — Sally Sorridente me cumprimentou e eu me
virei para vê-la. Quando seus olhos pararam em mim, seu sorriso amoleceu.
— Está tudo bem, querida? — questionou e eu me perguntei qual era o estado
do meu rosto. Péssima ideia ter me deixado chorar.
— Está tudo bem — garanti, mas ela fez um biquinho, sabendo que
eu estava mentindo. — Ou pelo menos tudo vai ficar bem. — Para aquelas
palavras ela sorriu e eu a acompanhei.
Tinha sido fácil. Talvez todas as etapas daquele dia fossem.
Provavelmente Alex estaria em casa tentando convencer a mãe que ela estava
cometendo uma loucura e não daria as caras por ali. Meu coração patético se
apertou para a lembrança de sua expressão desolada de segundos antes dele
me deixar desolada.
Eu devia desejar que ele estivesse tão chateado quanto eu estava, mas
no fundo, tudo que eu queria era que Alex encontrasse paz na decisão de
Marge. Ela estava seguindo com a própria vida, ele devia fazer o mesmo.
Me lembrei de sua história, de como ele tinha, logo no começo da
vida adulta, se transformado no chefe da família, no responsável pela saúde
própria mãe e no dono de uma editora.
Por mais que eu quisesse pensar o contrário, Alex merecia
tranquilidade, a grande questão residia em eu não fazer parte daquilo. Mas
um passo de cada vez.
Perdida em pensamentos saí do elevador no andar do RH que eu tinha
ocupado pouquíssimas vezes me escondendo das demandas severas de Alex
em meio as fofocas das minhas colegas de trabalho.
Foi Marissa, com quem frequentemente eu almoçava e trocava ideias
sobre meu livro, que me viu e abriu um sorriso largo e cheio de segredos ao
me ver. As notícias deviam ter se espalhado, não só tinha ocorrido uma
demissão por minha causa, mas um anúncio público de relacionamento.
E agora eu estava prestes a me demitir.
— Sara! — ela comemorou, levantando-se de sua cadeira tentando ser
silenciosa, mas percebeu meu humor. — O que aconteceu? Duncan... —
começou a formular uma teoria, mas eu silenciei.
— Estou aqui para pedir demissão — contei.
— Pedir demissão... — Marissa repetiu como se as palavras não
fizessem sentido. — Por quê? — a pergunta escapou e eu respirei fundo.
— Não posso estar aqui, sabe como é, trabalhar com o ex. — Tentei
fazer uma piada, mas pareceu miserável até mesmo para mim.
— O ex? — A voz dela se tornou estridente e a cabeça das outras três
funcionárias se viraram em minha direção. — Vocês terminaram? —
sussurrou, me puxando para fora do cubículo onde elas trabalhavam.
— Sim. Acabou — contei e as palavras doeram.
— Mas o livro... a demissão de Duncan... o senhor Wright disse na
frente... — tentou formular confusa.
— Não deu certo. — Dei de ombros, tentando parecer alheia. Queria
ter falado que ele era um idiota, que tínhamos mentido para a mãe dele, mas
as palavras para caluniá-lo não saíram. — Acontece.
— Eu sinto muito... — Marissa começou a dizer e pegou minhas
mãos num gesto acolhedor que me emocionou.
Atrás de nós o elevador se abriu com um bip indicando que alguém
tinha parado naquele andar. Mesmo sem olhar para trás eu sabia quem tinha
chegado, meu corpo traidor reagiu se arrepiando para a mudança na sala.
— Bom dia — Alex cumprimentou e eu respirei fundo.
Era hora de nos despedirmos de vez.
Capítulo 32

— Vai ficar nesse sofá para sempre? — minha mãe questionou,


enquanto Coco estava sentada como um cão de guarda ao meu lado, com a
cabeça pousando sobre a minha barriga, parecendo sentir que eu estava mal,
ela quase não se mexia. — Alex... — ela chamou, a voz triste e eu me virei
para olhá-la.
— Estou curtindo meus últimos minutos de férias. — Dei um sorriso
que deveria ser tranquilo, mas fez ela franzir o cenho. Eu me sentia
miserável.
O momento em que minha mãe tinha resolvido negar tratamento
parecia ter rasgado meu peito de todas as maneiras possíveis, mas o que se
seguiu, dizer as palavras para Sara, parecia ter dado outra dimensão a dor. Eu
me sentia como uma casca oca, todos os pedaços sendo tirados de mim.
— Quer conversar? — Minha mãe se aproximou e eu permaneci
imóvel. O que eu poderia dizer? “Mãe, parece que todos que eu amo estão
sempre me deixando e você está fazendo isso agora”, não parecia educado.
Ela estava vivendo seu sonho, não deixando que o câncer a abatesse, mesmo
que tudo que eu enxergasse fosse suicídio.
— Estou bem — garanti. — Apenas descansando com Coco.
— Não quer falar sobre o fato de que você terminou com Sara? O fato
de que estava tudo bem com vocês e de repente você termina tudo? Ela é uma
garota maravilhosa e vocês se gostavam tanto e de repente porque eu
decido...
— Não quero — disse e me levantei em um rompante. — Acabou.
— Essa conversa não acabou, Alexander… — começou a dizer, mas
eu a cortei.
— Você me obrigou a aceitar que postergar o tratamento era a sua
escolha então respeite as minhas — falei e ela me olhou chocada, respirei
fundo. Não queria magoá-la. — Mãe, está tudo bem, ok?
Ela suspirou e voltou para a cozinha. Desde sua chegada do hospital
quando eu tinha contado sobre o fim do relacionamento, minha mãe insistia
em tentar entender o que estava acontecendo. Eu não podia responder, o
primeiro por uma questão lógica, a que eu tentava manter no meu sistema. Eu
não sabia como justificar o término para a história oficial. Minha mãe e Lucy
pensavam que aquele era um relacionamento de seis meses e não de algumas
horas.
Os quinze dias do acordo tinham acabado no final das contas.
No fundo eu queria que Sara estivesse nesse momento gritando aos
quatro ventos que eu era um canalha que a tinha usado. Eu merecia que todos
soubessem sobre o plano estúpido que eu tinha forjado, talvez ter que lidar
com as consequências do acordo aplacasse um pouco da dor.
A segunda razão era a mais desesperadora: eu ainda estava em choque
e não conseguia pensar além da dor. Se eu tivesse que responder ao simples
questionamento do “por quê?”, eu não saberia como responder.
Eu tinha terminado com Sara e minhas motivações para confusas até
mesmo para mim.
Coco esfregou seu focinho em meu joelho e deu um gemido
desesperado por atenção. Cocei entre suas orelhas e a chamei para o andar de
cima.
Era hora de voltar para a minha vida, ou o que ainda existisse dela.
Me vesti e abri meu notebook para ver quais demandas eu teria que realizar
ao longo do dia. Obviamente minha lista pessoal não estava atualizada
porque eu tinha quebrado o coração da minha secretária.
Na caixa de e-mail um com palavrões como título me chamou a
atenção. Duncan ainda estava ressentido. Não perdi tempo lendo nenhuma de
suas palavras. Puxei meu celular e busquei pelo contato.
— Alô? — ele chamou sonolento. Óbvio que o idiota ainda não tinha
acordado, se ele era um incompetente enquanto estava trabalhando o que o
desemprego faria.
— Eu dei o meu aviso, tentei ser bom te dando os pagamentos legais
que te cabem, mas você vai responder por assédio moral e o que mais eu
conseguir imputar a você. Sua carreira está destruída, Duncan.
— Seu moleque... — Começou, mas a raiva que eu sentia, todo o ódio
descontrolado de mim mesmo me tomou.
— Você não devia estar no lugar que ocupou e nunca vai merecer. É
uma benção que tenha saído. Agora vai sofrer o que merece. — Eu não sabia
se estava falando para Duncan ou para mim e então desliguei o telefone.
Joguei meu celular sobre a cama e agarrei meus cabelos, me sentindo
tonto pela dor no meu peito. Respirei fundo algumas vezes tentando me
controlar. Eu não podia ser uma confusão quando entrasse na Wright
Company, tinha que ser o líder e não uma sombra atormentada.
Fui até o banheiro e joguei água no rosto. Meu próprio reflexo me
deixou assustado, eu parecia assombrado, com olheiras começando a se
formar e uma expressão caída. Tão diferente da figura quase febril que eu
tinha sido durante os dias anteriores.
Me despedi de Coco dando-lhe alguns petiscos mesmo que ela já
tivesse comido, me sentindo na obrigação de mimar minha única
companheira daqui para frente. Peguei meu celular de volta na cama e minhas
chaves me preparando para aquele dia.
No meu carro tudo parecia estar repleto de Sara. Me peguei indo na
direção da sua casa ao invés de para o trabalho. Se ainda fosse antes eu a teria
esperado em frente do prédio e assistido ela sair usando uma de suas roupas
adoráveis, carregando sua bolsa sempre cheia. Ela sorriria para mim e
começaria a contar uma infinidade de coisas interessantes enquanto mexia
nos cabelos loiros.
Segui pelo caminho certo evitando as lembranças.
Na Wright Company, tudo pareceu pior. Eram por aquelas portas que
ela passava, tinha sido ali que eu tinha proposto o acordo, onde eu tinha
contado sobre minha história com relacionamentos, onde eu tinha assumido
nosso namoro publicamente e antes disso foram sob aquelas paredes que eu
tinha enxergado e tentado lutar contra a atração que eu tinha por ela.
— Bom dia, senhor Wright — Sally cumprimentou e eu me virei para
ela. Tinha sido realmente há somente alguns dias que Sara tinha me
repreendido sobre ser educado? Parecia uma vida atrás. — Está tudo bem? —
a mulher questionou franzindo o cenho.
— Sim, Sally — garanti, mas ela não pareceu mais tranquila. —
Obrigado por perguntar. — Tentei soar gentil e ela sorriu para mim. De todas
as coisas que eu tinha aprendido com Sara aquela era que eu gostaria de
carregar comigo. Naquela editora eu não era só um chefe, mas parte de uma
equipe e começaria a agir assim.
Subi pelo elevador agradecido por estar sozinho e me permitir ser
miserável ao mesmo tempo que eu queria uma companhia em específico.
O caminho para o escritório pareceu demorar uma eternidade muito
em razão de eu não saber o que esperar. Talvez ela me ignorasse
completamente, fingisse que nada tinha acontecido ou nem aparecesse. Em
todo caso a última opção me desesperou e eu me vi apressando o passo pelos
corredores para encontrar sua mesa vazia.
Suspirei quase aliviado ao ver que todas as suas coisas ainda estavam
ali, mas me lembrei que o RH era o lugar que eu devia procurá-la em
primeiro lugar.
Me vi calculando quanto tempo eu teria até a minha primeira reunião
para aparecer na casa dela caso Sara não viesse. Não era da minha conta se
ela desistisse do emprego, mas somente a ideia de não a ter ali me
desesperava.
Quando a porta do elevador se abriu a primeira coisa que eu vi foi a
silhueta pequena e de cabelos loiros.
— Bom dia — cumprimentei, esperando que ela se virasse mesmo
que para gritar comigo, mas sua reação foi se encolher. Eu a tinha
machucado.
Mesmo com sua reação polida ao término agora eu podia ver.
— Bom dia, senhor Wright. — Marissa que era sempre muito
sorridente respondeu como se estivesse prestes a agarrar meu pescoço. —
Estou dando sequência ao pedido de demissão da senhorita Webber, tenho
certeza de que alguma das outras meninas pode atendê-lo.
Demissão?
— Você está saindo? — questionei e então ela passou a me olhar.
Não havia raiva ali, apenas desapontamento.
— É o certo — respondeu unicamente.
— Você não tem — comecei a dizer e ela me cortou.
— É a única maneira, Alex. — Sua voz mostrava os resquícios da
dor. — Foi ótimo trabalhar com você, senhor Wright.
— Igualmente, Sara. — Não quis chamá-la pelo sobrenome estéril,
porque tínhamos avançado mais que aquilo, no entanto para ela, eu tinha
voltado à estaca inicial.
— Aqui, Sara — Marissa chamou com um formulário em mãos.
— Garanta que ela receba todos os direitos trabalhistas que são
possíveis — comandei e a mulher do RH balançou a cabeça. Sara se virou
para assinar os papéis.
Fiquei imóvel no fundo da sala assistindo ela terminar. O processo
burocrático foi simples e ela recebeu abraços das outras funcionárias. Não
ouvi o que elas diziam, minha mente atordoada demais.
Depois da despedida Sara passou por mim sem me olhar e entrou no
elevador. Eu acompanhei sua partida e no último segundo, com as portas de
aço se fechando, ela deixou os ombros penderem para baixo, desfazendo sua
postura firme e os olhos se fechando para o começo de um choro dolorido.
Alguns minutos se passaram, poderiam ser horas e eu não senti.
Provavelmente estava atrapalhando as funcionárias, mas eu não conseguia me
mexer. Na minha cabeça a imagem dela saindo se repetia de novo e de novo,
enquanto meu sofrimento aumentava na mesma proporção.
O elevador abriu de novo com Isabella, do setor de diagramação,
carregando alguns papéis. Aquilo me despertou. Balancei a cabeça num
cumprimento e entrei no elevador. Puxei meu celular do bolso e digitei o
número conhecido.
— Alex? — a voz feminina confusa perguntou. — Porque, você... —
Havia surpresa e uma pitada de ressentimento em seu tom.
— Lauren, podemos conversar?
Capítulo 33

Me sentei em uma das mesas para dois do restaurante que eu


costumava almoçar todos os dias. Jacob, o garçom conhecido, me ofereceu o
menu e eu sorri sem animação para ele. Parecendo perceber meu estado de
humor, o recepcionista encaminhava casais apaixonados para o mais longe
possível de onde eu estava.
Eu me sentia confuso ali, a parte racional de mim dizia que eu deveria
me levantar e ir embora enquanto o lado emocional e perturbado me
mantinha sentado ali esperando por quem eu menos deveria ver naquele
momento.
A vi primeiro do que ela a mim. Lauren questionou alguma coisa para
o hostess inclinando-se em sua direção atravessando seu espaço pessoal num
movimento inconsciente. Como eu nunca tinha percebido aquilo? Ela
magnetizava sem nem perceber, era parte de sua personalidade, quem ela era.
Jacob apontou para a minha mesa e minha ex-namorada acompanhou-
o. Sua expressão não era animada, pelo contrário, quando ela me viu sua
sobrancelha se franziu em pena. Suspirei, enquanto ela praticamente desfilava
em minha direção.
— Alex — ela cumprimentou, parada em frente da cadeira, talvez
esperasse que eu agisse com educação e me levantasse para cumprimentá-la,
mas o ressentimento ainda estava ali.
— Lauren — respondi e me mantive sentado, ela deu de ombros e me
acompanhou puxando a cadeira e se sentando em frente a mim.
Entrelaçou os dedos em frente do corpo e esperou. Mas eu não sabia o
que dizer.
Jacob apareceu e ofereceu o menu para Lauren que ao ver que aquela
não seria uma conversa tranquila pediu apenas um refrigerante.
— Obrigada — agradeceu, com um sorriso sedutor. Assistiu o rapaz
sair e então se voltou a contragosto para mim. — Fiquei muito surpresa em
receber sua ligação e ainda mais com a... proposta de almoço.
— Eu não gosto de você, Lauren. — Ela não pareceu abalada com
aquilo. — Na verdade, eu quase não suporto olhar para sua cara.
— Esse é o Alex que eu conheço — tentou brincar.
— Mas eu sinto que você pode me dar respostas. — Suas
sobrancelhas se franziram. — Preciso saber o motivo pelo qual você me traiu.
Ela se mexeu desconfortável e o copo de Coca-Cola foi colocado à
sua frente. Dessa vez não sorriu para o garçom, ganhou tempo bebendo um
gole e olhando para baixo.
— Isso foi há muito tempo, Alex. — Crispou os lábios.
— Mas eu quero saber. — Me sentia como sempre estava em sua
presença: com ódio.
— Por quê? — perguntou e raiva tingiu sua voz. — Por que agora?
Nos vemos há poucos dias no casamento de Jane e você parecia muito bem
em não olhar para minha cara e agora chega exigindo respostas que você
claramente não faz questão de ter.
— Não é sua obrigação saber quais respostas ou não eu quero receber.
— Isso já acabou, Alex. Faz meses que não nos vemos, faz meses
desde que você olhou para mim e para Taylor na sua cama e agiu como se
não fosse nada, pegou minhas roupas colocou numa mala e com toda calma
do mundo expulsou nós dois de lá. Eu era sua noiva, você tinha pedido minha
mão em casamento, me viu com seu melhor amigo e agiu com toda a frieza
do mundo.
— Você fala como se o errado fosse eu, quando claramente quem não
tem caráter é você.
— Por que você me chamou aqui, Alex? — perguntou indignada.
— Porque eu terminei com a Sara — falei e ela arregalou os olhos.
Sua postura armada se desfez na hora e ela repousou contra o encosto da
cadeira, abismada.
— Você terminou com a perfeitinha? — Desviei o olhar e ela tratou
de se recompor. — Louis fez questão de deixar bem claro para mim que
vocês eram um casal perfeito, na verdade, toda sua família fez, como se eu
não pudesse ver com meus próprios olhos vocês se comendo na pista de
dança... o que aconteceu, Alex? — perguntou e de repente ela não era mais a
destruidora de corações que tinha me traído, mas sim Lauren, a garota que eu
tinha conhecido na faculdade e que fazia aulas de cerâmica.
— O câncer da minha mãe voltou... — Como eu não tinha as
respostas para o que ela me perguntava resolvi começar pelo que era mais
fácil e, ao mesmo tempo, difícil.
— Sinto muito — respondeu e seu tom mostrava que ela realmente
sentia. — Foi por isso que você terminou com ela?
— Eu não... — comecei incerto, mas minha voz morreu ali com um
suspiro.
— Eu não te traí porque sua mãe estava doente se é isso que você
pensa.
— É exatamente isso que eu penso. — Ela trincou o maxilar para
minha resposta.
— Então você é um idiota — cuspiu. — Quer saber? Nem você
acredita nisso. Aposto que resolveu terminar tudo com a loirinha porque
pensou que ela fosse ir pelo mesmo caminho que eu fui, mas nosso término
não foi minha culpa exclusivamente, mas dessa vez, com ela, é sua culpa e
você pode fazer o mínimo admitindo isso para você mesmo.
— Sara nunca iria fazer o mesmo que você.
— Então me fala o motivo pelo qual terminou com ela? — provocou
e eu permaneci em silêncio. — Eu te traí, não porque sua mãe estava doente e
precisava de ajuda e atenção, não porque o babaca do Taylor era melhor que
você em nenhum sentido, mas porque você desistiu de mim. E agora você
desistiu dela também, porque você é assim, Alex. Não são as pessoas que te
amam que estão te deixando é você que as deixa ir.
— Eu não...
— Analise nosso relacionamento antes de você me pedir em
casamento, por favor. Nós mal nos falávamos fora cama, você não me dava
atenção, agora lembre-se do que aconteceu semanas antes de todo esse
tratamento de gelo.
— Você disse que me amava pela primeira vez — respondi e ela
balançou a cabeça positivamente.
— Não fui em quem te deixou primeiro, Alex, foi você. E agora você
fez a mesma coisa com ela porque você tem medo. Posso assumir parte do
trauma, mas a outra é completamente por sua conta.
— Quando eu peguei vocês dois foi como se uma merda muito grande
estivesse acontecendo, mas não doeu. Não doeu nada, Lauren, mas agora...
Parece que tudo que existia de bom se apagou.
— Muito sensível da sua parte — resmungou, no entanto suspirou. —
Para mim também não doeu... fiquei quase aliviada.
— Qual a diferença? Por que eu me sinto desse jeito agora? —
perguntei, quase fora de controle.
— Porque você a ama de verdade. Diferente de como era comigo. —
Tristeza saturou suas palavras. — Mas quando você ama alguém você não
abandona, não importa a quantidade de medo e desespero que sinta.
Ficamos em silêncio. As palavras dela rodando em minha cabeça. A
resposta tinha estado diante de mim todo o tempo. Eu tinha deixado Sara
porque eu tinha medo e agora, diferente de como tinha sido com Lauren, eu
sofria e a culpa era todo minha. O pior: Sara sofria, eu podia ver aquilo em
seus olhos.
A mulher que eu amava estava sofrendo e a culpa era toda minha.
— Eu devia ir embora — Lauren sussurrou e ajeitou sua bolsa, que
nunca saiu de seu ombro. Voltei a olhá-la.
— Obrigado... aceitar se encontrar comigo e me desculpe. — O
pedido de perdão era verdadeiro e ela pareceu desconcertada.
— Faça alguma coisa com isso. Peça desculpas para ela. Faça alguma
coisa grande pela loirinha agressiva porque ela vale a pena. — Se levantou e
mordeu o lábio inferior. — Sinto muito... por nós também. Não estrague tudo
dessa vez.
— Você também, tente não estragar tudo com o próximo. — Dei um
meio sorriso envergonhado.
Lauren saiu, mas seus conselhos permaneceram. Não estrague tudo
dessa vez. Faça algo grande.
Eu sabia exatamente como devia consertar as coisas.
Capítulo 34

Minha mãe tinha viajado com Marge há dois dias e eu não parava de
receber atualizações por mensagem sobre como elas estavam felizes no
Havaí. Sorri com a última foto tremida que ela tinha me mandado, eram as
duas ladeando um homem bonito vestido tipicamente num abraço engraçado.
Pelo menos alguém estava feliz.
Eu tentava não parecer deprimida, mas mesmo por SMS a perceptiva
Lucy Webber podia sentir que eu estava miserável.
— Como estão as coisas por aí? — perguntou pela chamada de vídeo
que não enquadrava muito bem seu rosto.
— Está tudo bem, mãe — menti. — Estou me arrumando para a festa
de despedida que as outras secretárias e o pessoal do RH estão fazendo para
mim. Ethan me conseguiu uma entrevista de emprego, cumpri meu aviso
prévio em home office então estou pronta para... um novo trabalho.
— Talvez você devesse vir passar um tempo comigo. Pegue um avião
e venha, não se preocupe com nada, tenho dinheiro o suficiente para a gente.
— Mãe, isso seria muito legal, mas eu preciso... — Não tinha
desculpas boas o suficiente então optei pela verdade. — Me permitir sofrer.
Foi um baque muito grande e eu tenho que me recuperar.
— Por que não se recuperar com uma piña colada?
— Alcoolismo é sempre uma ótima saída mãe — brinquei e ela
revirou os olhos. — Talvez no inverno a gente possa tirar uma semana e ir
esquiar em algum lugar.
— Desculpe, filha, mas qualquer lugar que eu não possa usar biquíni
e tomar drinks o dia todo não é mais um lugar para mim. — Eu ri e ela me
acompanhou. Minha mãe olhou para alguma coisa fora do meu campo de
visão e então crispou os lábios. — Você sempre fala demais — sussurrou e
aguardou uma resposta que eu não vi, revirou os olhos. — Sara, Marge quer
falar com você.
Tomei uma respiração funda. Não sabia se queria ver Marge, mas
antes que eu pudesse negar ou aceitar, o rosto conhecido com um lenço de
cores vibrantes cobrindo o lugar onde deveriam estar os cabelos apareceu. Ela
sorria largamente para mim e eu senti meu coração afundar.
Eu sentia falta dela.
— Oi, Marge — cumprimentei.
— Sara, querida. Você devia ouvir sua mãe e passar um tempo com a
gente. — Olhou a mulher ao seu lado que balançou a cabeça positivamente.
Franzi o cenho. Alguma coisa estava acontecendo. — Mas faça suas
entrevistas e o que você precisar aí antes de vir.
— Eu vou... estou muito animada com a indicação que recebi. É uma
empresa de tecnologia, uma área em que eu já estive então... pensamentos
positivos — respondi e ela ergueu a mão me mostrando os dedos cruzados.
— Você tem notícias do Alex? — perguntei deixando escapar. Me
encolhi. Aquilo não era minha conta.
Marge me deu um olhar cheio de empatia.
— Ele está bem como você está, querida — disse amável e eu
balancei a cabeça.
— Isso é... ótimo. Porque eu estou muito bem... é bom que ele esteja
também. — Me custou uma força tremenda dizer aquelas palavras com um
tom neutro e mesmo assim eu falhei.
— Vocês dois vão... — Começou a dizer, mas o rosto dela
desapareceu da tela do celular.
— Filha, Marge e eu estamos atrasadas para a nossa excursão até o
parque nacional dos vulcões, precisamos sair agora.
— Ok, mãe, Marge, tenham um bom passeio — respondi meio sem
entender, enquanto ela mandava tchauzinhos.
A ligação foi encerrada e eu me senti com uma interrogação no meio
da testa. As duas estavam agindo muito estranho há uns dois dias. Me
perguntei se deveria checar sobre o consumo de marijuana recreativa no
Havaí, mas decidi que aquilo era parte da diversão das duas e não era da
minha conta.
Dirigi para a Wright Company com a certeza de que aquela seria a
última vez. Se não fosse por Marissa e Leah eu não teria mexido um músculo
para ir até a festa de despedida, mas elas haviam me prometido que Alex
estava há dias sem aparecer na editora, trabalhando remotamente. Ele não
tinha sido convidado também.
Uma parte menos racional minha, queria vê-lo. Estava sendo um
esforço consciente não stalkear nas redes sociais para vê-lo. Eu era uma
mulher madura e sabia lidar com términos mesmo que eu não soubesse de
verdade.
Estacionei minutos depois na porta do prédio e suspirei. Eu iria
aguentar as horas que precisasse para me despedir de maneira decente de
todos e depois iria me afundar em sorvete com Aurora. Não seria fácil, mas
eu conseguiria.
Sally Sorridente não estava na portaria e eu estranhei a falta de
movimentação. A editora tinha aberto há algumas horas, mas ela sempre
ficava em seu posto, pronta para receber qualquer um. Talvez aquilo fosse
um final de ciclo apropriado.
Segui para a sala de reuniões onde geralmente fazíamos nossas
comemorações e fiquei mais aliviada ao ouvir a conversa baixa vindo da
porta aberta. Mas não foram as palavras que me fizeram congelar ao chegar
lá. Foi a decoração.
Uma árvore de Natal indo até o teto com bolinhas vermelhas e luzes
serpenteando no fundo da sala, falsas bengalas de açúcar pendendo do teto,
paredes decoradas com meias de Papai Noel. Até o ar-condicionado estava
ligado no máximo para dar a sensação fria. Biscoitos de gengibre estavam
dispostos decorados em cima da mesa que estava coberta de guirlandas. Tudo
isso no meio do verão.
— O que... — comecei a dizer.
— Feliz Natal! — Sally disse e passou um cachecol pelos meus
ombros.
— Estamos em julho — respondi embasbacada e ela riu.
— Sempre é dia de festejar a magia do Natal. — Marissa riu, mas
parecia desconfortável. Minha surpresa era mal educada, todos que estavam
presentes tinham se esforçado.
— Deixem-me adivinhar, a decoração de Natal estava mais perto no
depósito — brinquei e todo mundo riu meio nervoso. — É ótimo, eu adoro
Natal, de verdade!
— Eu sei disso. — Não foi nenhuma delas que me respondeu, mas a
voz conhecida que eu tanto temia ouvir. Alex.
— Nós tínhamos preparado uma coisa mais simples e sem um tema
tão... peculiar, mas o senhor Wright chegou há duas horas com tantas coisas
bonitas e brilhantes. Foi impossível não refazer tudo. Ele pendurou as
bengalas no teto. Uma cena e tanto — Sally falou e segurando meus ombros e
me virando na direção de onde vinha a voz de Alex.
Olhá-lo me fez querer chorar. Eu estava me controlando tanto para
garantir que o sentimento estivesse coberto, mas quando o vi percebi que por
mais que eu tentasse sempre estaria ali. Eu estava apaixonada por Alex
Wright e nada podia mudar aquilo. Nem um coração quebrado.
— Bem-vinda de volta. — Ele sorriu parecendo mais bonito do que
qualquer lembrança minha era capaz de conjurar. Seu rosto era tranquilo e o
sorriso sereno. Marge não tinha mentido ao dizer que ele estava bem, eu era
quem enganava dizendo que não estava mal.
— É uma festa de despedida — lembrei como uma idiota e minhas
palavras não fizeram nada para perturbá-lo
De repente eu quis cumprir minha promessa e jogar um grampeador
em sua cabeça. Por que ele parecia tão bem? Tão feliz enquanto eu me sentia
um fracasso.
— Vocês se importam se eu tirar a senhorita Webber da
comemoração por um minuto? — ele questionou olhando sobre o meu
ombro.
— Se importam — eu respondi.
— Não mesmo — Sally disse dando dois tapinhas nos meus ombros.
— A festa ainda vai estar aqui quando você voltar, querida. Vamos garantir
que Stuart não coma todos os biscoitos.
— Me acompanha? — Alex pediu e eu queria negar, xingá-lo e dizer
que ele era um idiota se achava que eu iria atrás dele.
— Sim — sussurrei, sem pensar e ele abriu espaço na porta para que eu o
seguisse.
Capítulo 35

Alex me comandou pelos corredores que eu estava acostumada a


andar todos os dias me guiando para a sala dele. Mas alguma coisa no
processo, talvez ver a minha mesa vazia, me fez perceber que nossa dinâmica
não era mais aquela. Eu não devia nada a Alex e não precisava ficar
seguindo-o pelos lugares.
— Não. — Estanquei.
— O quê? — Se virou para mim quando estávamos em frente ao lugar
que eu ocupava.
— Eu não vou para sua sala — tentei soar altiva, mas tudo que
consegui foi arrancar um sorriso simpático dele.
— Eu recomendo fortemente que você entre, Sara.
— E desde quando eu tenho que seguir suas recomendações? —
perguntei brava. — Eu não me lembro de termos algum tipo de relação. Na
verdade, se bem me lembro não temos nenhum tipo de relação. Quinze dias já
se passaram, o acordo acabou e no hospital você deixou bem claro que não
daríamos certo. Você não tem o direito de falar comigo, Alex.
Meu pequeno discurso inflamado me fez hiperventilar e eu sabia
como soava estúpida falando aquilo, mas eu estava frustrada. Como ele podia
aparecer do nada cheio de sorrisos, enquanto eu me concentrava para não
pensar nele. Não era justo.
— Você me fez arrepender de me sentir como eu me sentia. Me fez
ficar arrependida de confessar o meu amor. Eu passei todas as noites desde
então pensando como seria se eu tivesse seguido calada. As duas semanas
teriam passado e eu conseguiria contornar o amor, mas eu disse e você
correspondeu. Me deu esperanças de que a gente pudesse ficar juntos. Isso é
triste, Alex. Eu me arrependo de sentir amor e esperança. — Dessa vez minha
voz não era brava, mas esgotada. Fechei meus olhos para impedir as lágrimas
de correrem. Respirei fundo algumas vezes.
— Me desculpe. Você não merecia isso, não mesmo. Me desculpe. —
Sua voz transbordava arrependimento e eu não esperava por aquilo. — Mas
você precisa entrar na sala para entender.
— Eu não vou... Alex! — Minha recusa estava na ponta da língua,
mas para minha completa surpresa ele avançou em minha direção. Suas mãos
seguraram forte na minha cintura e por um segundo eu me derreti para a
lembrança de todos os nossos momentos, no entanto, não tive muito tempo
para pensar uma vez que ele me levantou no ar me colocou sobre o ombro. —
Me solta!
— Me desculpe, Sara — pediu e ele parecia mesmo culpado. — Mas
você precisa mesmo entrar nessa sala.
Com poucos passos sacudindo-me com delicadeza e mantendo minha
cintura presa sob seu braço forte ele caminhou até não a abriu comigo em
seus braços.
— Eles podem ouvir você por isso tente ser agradável — sussurrou no
meu ouvido, causando um arrepio.
— Do que você... — comecei a perguntar, mas ele me conduziu para
dentro da sala e eu me virei.
— Me perdoem a demora, a senhorita Webber teve um problema para
entrar — falou de maneira elegante e eu olhei para a sala. O escritório de
Alex tinha se transformado em uma segunda sala de reuniões, sua mesa
comprida e sempre repleta de papéis dessa vez continha pastas organizadas e
um notebook que projetava na parede esquerda um PowerPoint. Mas não era
a organização que mais me chamava atenção, mas quem estava ali.
— Senhorita Webber, sinta-se à vontade para tomar um lugar. —
Alex apontou e eu andei meio bamba e confusa sentando-me na cadeira
disponível
Vivian Jackson, Leonard Lewis, da minha última reunião estavam ali,
eles eram responsáveis pelos novos títulos, mas além deles, Jason Tomlinson,
Naomi Dalcher e Vicent D’ancona, os outros três investidores majoritários da
editora estavam presentes. O que quer que estivesse acontecendo ali era
grande. Enorme.
— É ótimo finalmente conhecê-la, senhorita Webber — Vicent
D’ancona, Vicent D’ancona disse sorrindo ao meu lado e eu abri a boca e
pisquei algumas vezes. Vicent D’ancona em pessoa.
— O mesmo — respondi incrédula.
— Podemos começar? — Vivian pediu com um sorriso.
— Como eu disse no e-mail. Essa é a reunião de apresentação de A
Dama de Waterford, o romance de Sara Webber. — “O quê?”, me virei
chocada para ver o slide com um design sofisticado mostrar uma capa linda
com tons de azul e uma moça com um vestido de época na frente de um
castelo. — Eu mesmo supervisionei cada etapa e me dediquei integralmente a
esse projeto. A previsão é que o livro chegue nas livrarias em outubro. Vocês
podem ver nas pastas detalhes da diagramação — ele falou e eu abri trêmula
o papel pardo para ver as folhas cor creme e de textura suave com uma
amostra do texto. O meu texto. As minhas palavras.
— Você nos obrigou a ler esse original do dia para noite, Alex —
Vicent começou —, e eu não me arrependo nem um pouco, temos realmente
ouro em nossas mãos. Concordo que deve ser o nosso primeiro lançamento,
antes de qualquer outro. Como equipe vocês fizeram um ótimo trabalho.
— Sara é uma das autoras mais competentes que eu conheço. Esse
original passou por uma breve edição minha, ele já estava lapidado quando
chegou em minhas mãos — Alex garantiu.
— Jason e eu estaremos mais do que felizes com a repercussão que
uma obra de tão alto nível vai trazer para os lucros da editora. Seu pai deve
estar orgulhoso agora, menino — Naomi falou e ao lado dela Jason sorriu
para o amigo.
— Aqui temos o contrato, Sara. Parabéns, você é a revelação do ano
para a Wright Company. — Vivian estendeu o maço de folhas grampeadas
para mim e eu ainda estava paralisada.
— Ela precisa ler as cláusulas com calma, se importam de esperar lá
fora? — Alex questionou do seu típico jeito mandão.
Todos os presentes se levantaram e saíram. Vicent D’ancona tocou no
meu ombro me parabenizando e eu soube que nunca mais poderia lavar
aquela parte do meu corpo.
Quando estávamos sozinhos na sala Alex se aproximou ficando do
outro lado da mesa olhando para mim com um sorriso inseguro.
— Parabéns, Sara. — Orgulho e amor transbordavam de sua voz.
Amor. Como era possível?
— Você fez tudo isso... — comecei a dizer, mas ele me cortou.
— Porque você merece. Porque você é uma mulher incrível, uma
profissional brilhante e a melhor pessoa que já passou por essa editora. —
Então era aquilo. Alex sentia que tinha uma dívida comigo. Uma dívida
profissional.
— Obrigada — respondi e minha voz continha a mágoa que eu sentia.
— Você é uma pessoa muito maior do que o amor que eu sinto por
você, Sara. — As palavras me pegaram desprevenida.
— Amor... — Repeti embasbacada.
Sua expressão se amenizou, mas culpa ainda estava ali.
— Eu nunca disse, porque eu nem sabia, quais foram minhas
motivações para terminar com você daquela maneira. — Sentou-se à minha
frente. — Mas era por medo.
— Medo? Alex eu nunca faria...
— Eu sei — garantiu. — A única pessoa a magoar fui eu e eu vou me
culpar por isso para sempre, por te fazer sofrer. Mas ainda assim eu tinha
medo. Como uma velha inimiga me disse, não são as pessoas que estão me
deixando sou eu que as deixo ir. Porque eu tenho tanto medo de que elas
quebrem meu coração que eu desisto. E eu fiz isso com você.
— E o que mudou?
— Perceber que ficar sem você é maior do que qualquer coração
quebrado. — Alex deu um meio sorriso envergonhado. — Do que adianta um
coração inteiro se ele não bate no meu peito? Ele está em suas mãos, Sara. É
seu, mesmo para quebrar, afinal de contas é isso que o amor é, não é? Vale a
pena se for com você... está chorando? — perguntou horrorizado.
— Por que você não me disse, seu idiota? — questionei com lágrimas
nos olhos. — Eu não estou aqui para quebrar seu coração, Alex.
— Doutor King me fez perceber isso.
— Doutor King?
— Minha parte no acordo. — Deu de ombros. — Um psicólogo e um
contrato de publicação. Ainda bem que você não me exigiu mais que isso
porque só tive tempo para essas duas atividades, na verdade três, mas a
terceira é apenas um plano de emergência. Vai depender de uma coisa.
— Uma coisa?
— Sara — ele disse meu nome com tanto carinho que senti meu corpo
de derreter. — Você pode me perdoar? Mesmo eu sendo um covarde?
Mesmo que eu não te mereça.
— Alex, eu realmente queria ter um grampeador agora — bufei entre
lágrimas e risadas.
— Um grampeador? — questionou confuso.
— Longa história — disse fungando e ele deu de ombros depois de
ponderar. Seus olhos se focaram em mim com expectativa. — Você fez tudo
isso não por amor, mas por admiração. Você transformou meu original num
livro de verdade não porque me quer de volta, mas sim porque me admira?
— Exatamente. — Se encolheu. — Eu peço para que me perdoe
porque eu sou um idiota. Tinha medo de que quebrasse meu coração como
Lauren fez. Mas a diferença é que não estar com você dói mais do que
qualquer coisa. Por isso estou pedindo desculpas. Meu coração é seu para
você quebrar.
Mais lágrimas surgiram nos meus olhos e dessa vez elas eram um
misto de confusão e carinho.
— Por amor você me pede desculpas com as palavras mais doces.
Como eu poderia não te perdoar, Alex? Meu coração também é seu, não
tenho como negar, mas eu estou implorando, tente não o quebrar.
— Não prometo não ser um idiota às vezes, mas vou fazer o meu
melhor. — Se levantou contornou a mesa, vindo parar na minha frente. — Eu
ainda estou aprendendo, Sara. Aprendendo a como te amar direito. Mas posso
dizer: Eu te amo, Sara Webber. — Ajoelhou-se a minha frente e segurou meu
rosto, escovando para longe as lágrimas remanescentes.
— Eu também te amo — sussurrei e ele se inclinou encaixando
suavemente meus lábios no seus. Deixei que uma das minhas mãos agarrasse
os cabelos de sua nuca e a outra fosse para seu peito, onde o coração batia
acelerado. Apoiei meus dedos ali com carinho, deixando a pulsação ter o
contato com a pele e acariciei devagar como quem dissesse pode se acalmar,
você está em casa.
Ele se afastou distribuindo beijos pelo meu rosto e me abraçando
firme.
— Estou tão feliz que você esteja aqui — ele disse baixinho,
inspirando sobre meus cabelos.
— Estou feliz em estar aqui — afirmei, mas me remexi para olhá-lo.
— No entanto... qual era a terceira coisa? Seu plano b?
— Eu trouxe uma caixinha de som e colocaria Hips Don’t Lie da
Shakira para te convencer. — Balancei a cabeça e ri de sua piada. — Não é
brincadeira, senhorita Webber.
— O quê? — guinchei e ele se inclinou, ainda me mantendo em seus
braços, para pegar o aparelho de som. — Alex... isso é muito idiota. — Eu ri
e ele me acompanhou.
— O amor nos faz estúpidos, não é? Estou completamente sem defesa
para você, senhorita Webber — declarou apaixonadamente e eu suspirei. No
entanto, não podia deixar passar aquilo. — E pensar que era só um contrato
— suspirou, brincando e eu o acompanhei.
— Ninguém nunca me disse que não poderia me apaixonar. — Dei de
ombros.
— Parece uma boa forma de terminar um acordo.
— Uma ótima forma — concordei e me inclinei para beijá-lo.
Epílogo

— A primeira pergunta é da... — Lisa, do departamento de marketing


checou na sua ficha. — Beth King — disse e eu assisti uma mulher ruiva de
óculos estilosos em formato de gatinho se levantar e ir até o microfone.
— Sara, primeiro queria dizer que seu livro é incrível eu o devorei em
horas — Beth falou e eu sorri em agradecimento. — Mas eu gostaria de saber
quais foram suas inspirações para escrevê-lo.
Balancei a cabeça e meditei por um segundo. Eu tinha passado a noite
passada respondendo perguntas como aquela para Alex, minha mãe, Marge,
Aurora e Ethan, mas eu ainda assim me sentia meio nervosa. Aquele não era
o ambiente confortável do apartamento do meu namorado, não havia Coco
descansando em meus pés, meus afilhados não estavam me cercando e não
tinha cheiro do biscoito que minha melhor amiga fazia.
— Eu acredito que o mundo está cheio de histórias para serem
contadas e a Dama de Waterford, é uma dessas histórias. Minha inspiração
vem do cotidiano. Diana, a personagem principal tem muito da minha melhor
amiga, Henry tem muito de um professor que eu tive na faculdade... as
histórias estão ali, esperando para serem contadas. — Sorri. — Respondi sua
dúvida, Beth?
— Sim! — A mulher riu e em seguida se tornou travessa. — Só mais
uma coisa: o Alex para quem você dedica a história é Alex Wright do seu
lado? O que você chama de “meu amor”? — A olhei de olhos arregalados e
senti minhas bochechas corarem enquanto eu gargalhava. Na cadeira à minha
esquerda Alex riu também, meio sem jeito. O público também caiu em
risadas e eu podia ver Aurora se contorcendo ao lado da minha mãe na fileira
da frente.
— Alex Wright é uma figura que eu conheço há alguns anos —
concordei com a cabeça. — Ele é o dono da Wright Company, que é o selo
que lança o meu livro, mas antes disso foi meu chefe, eu era a secretária e ele
me preparou para muito do que eu vivo agora. Além disso editou o meu livro
e está editando o spin off... eu não devia ter contado do spin off, certo? —
questionei, quando as pessoas começaram a comemorar na pequena plateia na
livraria Wolf. — E nas horas vagas ele é meu namorado — emendei.
— Nas horas vagas? — Alex brincou em seu próprio microfone e eu
ouvi as mulheres suspirarem. — Se não tivermos mais perguntas vamos fazer
uma pausa de cinco minutos e seguir para os autógrafos — disse e Lisa
levantou o polegar para cima indicando que não havia mais perguntas
programadas.
O pessoal da editora começou a organizar os leitores numa fila
enquanto todos conversavam com seus exemplares de a Dama de Waterford
em mãos. Eu sorri e acenei enquanto Alex pegava minha mão e me conduzia
para uma área mais afastada. Ouvi mais suspiros. Aparentemente meu
namorado fazia tanto sucesso quanto meu livro.
— Falei muita besteira? — perguntei, quando ele me passou uma
garrafa de água. Alex revirou os olhos e se inclinou para me dar um beijo
suave na testa.
— Claro que não, você foi perfeita! — garantiu e eu relaxei. — O
pior vem agora... — falou e segurou meus ombros para me virar. O trio
formado por minha mãe, Aurora e Marge vinha sorridente em minha direção.
A pequena Anitta, a bebê recém-nascida da minha amiga, também se juntava
ao grupo.
— Você foi incrível! — minha mãe foi a primeira a me saudar e
circulou seus braços ao meu redor, retribui o abraço com carinho. — Minha
bebê é uma pessoa importante!
— Não exagere, mãe — pedi e ela beliscou minha bochecha ao me
soltar.
— Ela não está exagerando, você foi muito bem — Marge concordou
e foi a vez dela de me abraçar. Fiquei feliz por tê-las ali. Minha sogra por
esbanjar tanta saúde e estar cem por cento recuperada das sessões de
quimioterapia e minha mãe por parecer tão radiante. — Fiquei tão feliz por
vocês se assumirem assim na frente de todo mundo.
— Foi muito lindo, principalmente sua cara toda vermelha — Aurora
brincou e eu revirei os olhos, enquanto ela beijava minha bochecha. — Estou
tão orgulhosa! Aurora e Sara da faculdade que se esgueiravam para as aulas
de literatura estão aplaudindo você agora.
— Será que agora vem os netos? Alex me disse que estão pensando
— Marge disse e eu arregalei os olhos. Minha mãe ficou boquiaberta e eu
podia ver sua animação crescendo.
— Netos? — questionei.
— Mãe, nós não falamos sobre isso. — Alex massageou meus ombros
tentando me fazer relaxar. — Eu te disse sobre irmãos caninos para Coco.
Vamos adotar um outro cachorrinho. Nada de bebês humanos por enquanto.
— Eu também falava isso — Aurora provocou. — E estou no quarto
filho. — Lancei um olhar implorativo para ela que sorriu e enfiou seus braços
nos de Marge e Lucy. — Vamos pensar nos nomes dos bebês e deixá-los com
a produção? — falou e o trio saiu rindo. — Vemos vocês na fila de
autógrafos!
Alex abraçou minha cintura e deu um beijo em minha têmpora.
— Eu espero que você não esteja enchendo a cabeça de nossas mães,
Alexander — falei e ele riu.
— Só o de praxe. — Deu de ombros. — Mas pense bem, podemos
dizer para elas por quinze dias que temos um filho e arranjar um bebê —
brincou
— Se bem conheço essa história o bebê nunca mais vai embora
depois disso. — Revirei os olhos.
— Nunca mais? — ele perguntou manhoso. — É disso que estamos
falando? Do para sempre?
— Podemos firmar um acordo sobre isso. Somos bons em acordos.
— Com certeza somos — falou e me virou em sua direção. — Estou
muito orgulhoso de você, Sara. — Sua voz fervia em adoração e eu fui
incapaz de não sorrir.
— Estou orgulhosa também. De nós dois. — Apontei para mim e
depois para ele. — Demos uma volta completa desde aquele dia no escritório
e eu preciso confessar uma coisa sobre aquele dia: eu queria muito que o
barista tivesse cuspido no seu café.
— Eu devia ter mais cuidado perto de você, senhorita Webber. — Ele
riu e colou sua testa sobre a minha. — Não me arrependo de nada daquele dia
porque me trouxe até você.
— Antes do meu pai falecer ele me disse para encontrar alguém que
eu amasse e que me amasse de volta. — Passei a ponta do meu nariz
suavemente pela dele. — Eu te encontrei.
— Uma linda história de amor, senhorita Webber — Alex disse com
um sorriso relaxado.
— Uma linda história de amor, senhor Wright — concordei.
Agradecimentos

Que jornada até aqui! Escrever essa história foi retomar os meus
primeiros passos como escritora porque foi com Adorável Babá que eu
comecei a escrever. Sara sempre foi uma das minhas queridinhas e poder dar
para ela uma história me fez tão feliz.
Gostaria de começar agradecendo a minha família pelo apoio infindo e
por entender os momentos em que eu fico olhando como uma maníaca para a
tela do computador. Obrigada por me entenderem, amo vocês.
Também quero agradecer aos meus amigos por me ouvirem falando de
todos os dilemas de ser uma escritora de romances. Obrigada, obrigada,
obrigada, obrigada. Mas se vocês estão lendo isso alguma coisa deu errado,
voltem!
Por último e não – nunca – menos importante quero agradecer a você
leitor que me acompanhou em mais essa história. Eu ainda fico perplexa em
pensar que vocês leem as coisas que eu escrevo e que gostam delas, isso é um
presente que eu só posso tentar retribuir sempre deixando histórias mais
divertidas aqui.
Nos vemos na próxima,
Olivia Uviplais.
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Outras histórias

Conheça minhas outras histórias.

Adorável Babá
Aurora Devonne é uma jovem espirituosa e cheia de vida que se encontra em
meio de um mar de dívidas. Por ironia do destino ela se vê numa entrevista
de emprego para ser babá de uma doce menininha, mesmo sem nenhuma
experiência ela embarca nessa jornada.
Era para ser apenas pelo salário, sem nenhum envolvimento pessoal e laços
de afeto. Mas a adorável babá acaba conquistando toda a família, em especial
Ethan Lewis, seu patrão milionário, recluso e que vive as agruras da morte de
sua esposa. Aurora trás para casa dos Lewis não só seus serviços, mas lições
de vida, amor e um grande mistério que ronda-a desde seu nascimento.

Motivos Para Ficar


Rosalie Aubry nunca foi uma moça impulsiva. Sempre muito calculista, a
garçonete de um pequeno bar em Seattle se orgulhava de sua
responsabilidade. Entretanto quando seu patrão resolveu arbitrariamente a
demitir, Rose sentiu que tinha que se vingar dormindo com o cliente mais
mulherengo do bar porque sabia que irritaria seu futuro ex-patrão.
Oliver Brandon é o típico mulherengo. Uma mulher por noite e sem nunca
ligar no dia seguinte. Mas havia uma mulher em específico que ele não
conseguia, a garçonete de língua afiada de seu bar preferido. Até que em uma
noite toda sua paquera funciona e a garçonete estava em seus braços.
Três anos depois a consequência daquela noite está nos braços de Rosalie e
Oliver não tem como ignorar o fato.

Tente Ficar
Kate aprendeu com os erros da melhor amiga e quando o resultado do teste
de gravidez dá positivo, ela vai até Simon Hunt, o pai da criança, e diz que
eles terão aquele bebê. E então Simon some. O artista gentil e extravagante
não quer arcar com as responsabilidades de ter um filho e deixa para Kate
apenas um bilhete em seu estúdio.
Ryan Hunt está acostumado a ter que lidar com as besteiras de Simon,
pagando seu aluguel, garantindo que ele não vai morrer de fome e
financiando sua arte. Mas quando uma mulher jovem, bonita e grávida
aparece em sua porta, de repente aquela é a primeira vez que ele quer
realmente lidar com os problemas do irmão mais novo.

Jogos de Poder
"A máfia não pode ser parada"
Serena Greco tentou ao máximo fugir do fato de que era filha da família que
comandava a máfia em Chicago, a Outfit. Mas agora era hora de voltar e,
numa armadilha de seu próprio pai, ela será o elo de ligação entre a Outfit e a
Cosa Nostra.
Edward Bellini, o Corvo, é o mais novo Capo da Cosa Nostra. Ele quer
comandar Las Vegas do jeito que ele e seus irmãos sempre sonharam e o
primeiro passo: destruir a Outifit de dentro para fora. E quando os Greco
mandam Serena para casar-se com ele, Edward vê ali uma nova
oportunidade.
Uma das duas famílias cairá, mas um sentimento nascerá disso. Edward e
Serena poderão deixar que esse sentimento viva?

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