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que é a Doença
Mental?
Doença mental é um termo que abarca tudo: a clínica, as ciências e a
sociedade.

Já é antiga a afirmação: “de médico e de louco todos temos um pouco”.


Todos “podemos” afirmar quem é doente mental, mas não estamos imunes à
doença mental.
Na maioria das vezes, as pessoas clivam e assumem-se como “médicos”
(doentes são os outros) ou em parte “loucos” - mas no bom sentido, porque
loucos, verdadeiramente, são sempre os outros.
É como pensarmos que os “normais” são como nós e os doentes são os
diferentes. Nada de mais errado. Mas fica-nos o pseudo-bem-estar de que,
excluindo os outros, excluímos de nós a doença mental.
Assim começou e continua o estigma da doença mental.
A história da doença mental revela que, desde cedo, as pessoas com
comportamentos e atitudes desajustadas da sociedade e com situações
extremas de doença fossem segregadas e remetidos para prisões onde eram
contidas, colocando “a salvo” a sociedade (e não os doentes). Só muito
posteriormente estes viriam a ser alvo de atenção e intervenção, surgindo
neste contexto prisional os primeiros tratamentos médicos psiquiátricos.
O termo doença mental tem, infelizmente, ainda um sentido pejorativo, por
ignorância e sentimento de ameaça e vulnerabilidade das pessoas. A imagem
e conceito de doença são ainda associados a pessoas violentas, agressivas,
incapazes, “tolinhas” ou que só cometem loucuras. Nada de mais errado. A
doença mental é, atualmente, extremamente comum.
A doença mental não deve ser confundida com a quebra de normas ou
funcionamentos sociais, de sentimentos, de crenças ou valores religiosos ou
morais que divirjam deste ou daquele grupo, sociedade ou cultura.
Há ainda um grande desconhecimento da evolução do diagnóstico e
tratamento das doenças mentais entre os profissionais de saúde (não ligados à
saúde mental) e na sociedade, o que contribui para a estigmatização da
doença mental.
Compete aos técnicos de saúde mental estudar, avaliar, tratar e refletir, para
que se consiga evoluir mais e intervir cada vez melhor, bem como informar e
alertar a sociedade para desmistificar a doença mental. Mas este aspeto
também se aplica a outras doenças que, de igual modo, tiveram que
ultrapassar muitas barreiras. O cancro, por exemplo, foi alvo de grandes
campanhas que promoveram o diagnóstico precoce, apesar do conhecimento
científico incompleto e da complexidade e grau de eficácia insuficiente dos
tratamentos, que contribuíram para uma grande evolução nessa área.
Ainda hoje se verifica que, por motivo de doença mental, a pessoa pode
necessitar de baixa ou estar incapaz de exercer as suas tarefas diárias e ser
mal vista pela sociedade.
Ou seja, além de estar doente, tem ainda de enfrentar ou refugiar-se da atitude
de ignorância dos outros.
A doença mental é hoje definida e estudada por profissionais com métodos e
rigor científicos.
O desenvolvimento de critérios de diagnóstico de doença mental dos manuais
da Associação Americana de Psiquiatria ou da Organização Mundial de Saúde
vieram definir e orientar, do ponto de vista clínico, uma uniformidade de
conceitos sobre o que é ou não a doença mental.
Os psiquiatras e outros profissionais de saúde mental têm hoje critérios de
diagnóstico, métodos de intervenção e terapêuticas fundamentados em
estudos científicos.
A procura de um serviço de saúde mental não significa necessariamente que
se está doente mentalmente segundo os critérios clínicos, mas tão-somente
pode significar que se está em sofrimento emocional, com dificuldades
relacionais ou preocupado com aspetos profissionais e pessoais, por exemplo.
A conotação da doença mental com aspetos pessoais e sociais negativos é
algo que vem do passado longínquo e se projeta nos dias de hoje, sem
qualquer correspondência com a realidade atual.
Ao longo dos tempos, o Homem sempre revelou dificuldade em compreender a
doença mental, mas com a evolução científica e a maior oferta de serviços de
tratamento da doença mental, atualmente a pessoa em risco de doença ou com
doença mental ou que sente algum mal-estar ou sofrimento emocional procura
muito mais facilmente ajuda, apoio e tratamento.
O modelo estritamente biomédico considera que a doença mental é
equiparável a outras doenças, com um substrato físico, associado a alterações
cerebrais, nomeadamente, de neurotransmissores, recetores neuronais que
provocam sintomas e são tratados com medicação.
Claro que isto é uma realidade, mas não se pode reduzir a doença e o
sofrimento mental da pessoa apenas ao biológico. A dimensão da doença
mental está muito para além do substrato biológico que está presente em todas
as emoções e comportamentos, quer sejam patológicos ou não. A doença
mental é muito mais complexa e, por isso, coloca dificuldades ao técnico e a
quem dela sofre. Esta complexidade, apesar de ser difícil de compreender, não
pode ser desvalorizada ou negada e, por isso, desviada para aspetos
interpessoais, sociais, morais e culturais.
O termo doença mental tem, ao longo dos tempos, acentuado e contribuído
também para a dualidade mental/físico, o que não é realidade. Nem as
doenças físicas são só físicas, nem as mentais são só mentais. Ambas se
manifestam numa pessoa que é simultaneamente corpo e mente.
As doenças mentais não são problemas da vida, são um problema na vida do
doente.
As pessoas não adoecem porque querem ou escolheram ser doentes. Também
não melhoram apenas com a vontade e desejo pessoal. A pessoa com doença
mental necessita de tratamento como qualquer outra pessoa que sofra de
diabetes, cancro ou hipertensão arterial.
A doença mental deve ser encarada como algo que funciona mal no nosso
cérebro e que provoca a doença, tal como noutras doenças orgânicas ou como
resposta a circunstâncias anormais e, neste caso, constitui uma disfunção
psicológica.
Em qualquer dos casos, em que uma ou mais variáveis (disfunção cerebral ou
circunstâncias anormais) estão presentes temos uma doença ou risco de a ter.
Caso as duas variáveis estejam bem teremos provavelmente um estado de
saúde mental. Mas nem sempre.
Temos também de inserir a doença mental no domínio psicológico, em que a
pessoa sem lesão ou sem substrato físico prévio alterado, em determinadas
situações de crescimento psicológico ou acontecimentos de vida pode adoecer
mentalmente.
A pessoa pode possuir défices ou mecanismos psicológicos prévios que,
mesmo em circunstâncias aparentemente “normais” , evolui para a doença
mental.
Claro que as condições físicas e psicológicas são indissociáveis e a
importância de uma ou de outra muda de doente para doente, não existindo
uma sem a outra.
A doença mental não é um desvio do comportamento ou atitude social, mas
pode implicar ou desencadear alterações do comportamento social ou
cumprimento de normas sociais.
A doença mental implica sempre uma disfunção no indivíduo e não apenas
uma diferença.
Uma coisa são as normas sociais, isto é, situações em que as pessoas
infrinjam ou não cumpram ou não concordem com determinados valores, outra
coisa é uma perturbação do comportamento ou violação dessas regras por
doença mental.
Muitos dos problemas que atualmente diminuem a saúde mental das pessoas
são relevantes em termos de disfunção psicológica, mas não em grau
suficiente para que possam ser considerados doença mental no sentido mais
estrito do termo, em que o componente biológico é determinante ou
clinicamente significativo, mas afetam a qualidade de vida das pessoas e
colocam-nas em risco de adoecerem.
A doença mental implica a presença de um conjunto de sinais ou sintomas
clinicamente significativos e que não são uma resposta comum, adequada,
inserida no contexto cultural e social em que a pessoa vive, mas resultado de
uma disfunção ou anomalia psicológica, biológica e social.
São critérios da doença mental mal-estar ou défice funcional clinicamente
significativo, um impacto e prejuízo na vida da pessoa doente, ao nível pessoal,
social, ocupacional ou qualquer outra área importante da vida da pessoa,
deteriorar as capacidades ou provocar uma mudança inequívoca no
funcionamento da pessoa.
Outro dos critérios é a duração e persistência dos sintomas.
Não é demais salientar a diferença que existe entre doença mental e as
diferentes emoções, comportamentos, atitudes, reações das pessoas enquanto
indivíduos inseridos nos mais variados grupos, contextos ou cultura.
As causas das doenças mentais são múltiplas, diferindo de doente para
doente.
Um dos aspetos característicos da doença mental é a heterogeneidade dos
quadros clínicos. Podemos ter uma depressão em pessoas muito diferentes,
daí a grande complexidade das apresentações clínicas e dos problemas
associados a cada pessoa. As pessoas sofrem de doença mental e não são “a
doença mental”. Por isso, devemos dizer que a pessoa tem uma depressão e
está deprimida e não que é um deprimido.
Atendendo a esta complexidade, os diagnósticos devem ser feitos por
profissionais com formação clínica apropriada, experiência e capacidade de
avaliação clínica.
Outro aspeto muito relevante é o facto de, para o mesmo diagnóstico, termos
pessoas com manutenção da capacidade funcional, outras com incapacidade
funcional parcial ou total e, dentro da mesma pessoa e diagnóstico, podemos
ter alterações da capacidade funcional conforme o momento da avaliação.
Perturbação mental é o termo que tem sido usado nos manuais de
classificação das doenças mentais por se basearem em descrições físicas e
critérios de diagnóstico.
Não há uma definição completa da doença mental, isto é, que englobe todas as
situações de doença mental.

Por isso, cientificamente e clinicamente temos de nos orientar por critérios de


diagnóstico que vão sendo, como em todas as áreas do conhecimento, revistos
e atualizados e têm contribuído para uma maior objetividade no diagnóstico e
tratamento da doença mental.

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