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Deleuze e a Literatura

A obra de Gilles Deleuze forma-se num perene diálogo que flui entre o filosófico e o não
filosófico. Para ele, a literatura, assim como a pintura, o teatro e o cinema, funcionam como um
intercessor, sendo este um conceito seu, que mobiliza seu pensamento para a formação de conceitos. O
conceito é a sua idéia, é a idéia do filósofo, assim como os blocos de afectos e perceptos são a idéia do
artista. Ele pretende, com isso, romper a imagem clássica do pensamento, almejando criar uma nova
imagem: o problema da imagem do pensamento é uma constante em sua obra. Este pequeno e amador
trabalho que escrevo é sobre a literatura e a relação entre vida e arte. Por vezes me afastarei do assunto
e mencionarei outras perspectivas criadas em sua obra, e por vezes serei impreciso, incompleto e
talvez até incorreto.

Se existe algo que pode adoecê-lo, existe algo que pode curá-lo: ante as doenças do mundo, a
literatura apresenta-se como uma clínica, e o escritor, como um médico. O escritor é atravessado pela
vida, pelas doenças que ela carrega, e, numa tentativa de curá-la, curando, ao mesmo tempo, a si
mesmo, ele faz literatura. Essa doença mobiliza o pensamento do escritor, fazendo com que ele
produza a sua idéia, em forma de literatura. Se a idéia do escritor apresenta-se, contudo, em forma de
literatura, isso não significa que a literatura tenha uma forma estabelecida, ou mesmo que seja a
imposição de uma forma: a literatura é informe, quer dizer, não que esta tenha forma alguma, mas que
apresenta uma forma inacabada, que ainda está para ser feita, sempre em constante renovação,
reinventando-se constantemente. Assim como a doença que é combatida pelas defesas do corpo, o
escritor combate as doenças do mundo, e desse encontro surge a literatura, aprendizado que engendra
um novo anticorpo, que evoluiu durante o combate com o corpo estranho. A literatura consiste em
criar esse anticorpo que falta.

Escrever não é combater as doenças com os mesmos anticorpos combatidos, a menos que deles
resultem os anticorpos ainda porvir, potencial latente despertado pela infecção. Esses anticorpos são
um povo, um povo menor, que dorme dentro do escritor, e encontra expressão no escritor e através
dele. Não um povo menor que ambiciona tornar-se maior: é um povo sempre menor, sempre
inacabado, sempre em devir. São forças que se relacionam entre si e guiam o autor. O devir sempre é
minoritário, nunca majoritário. O devir ocorre numa zona de vizinhança com algo que permita o
escritor criar os meios para fazer literatura, assim como também há devir na criação de conceitos de
Deleuze, que se estabelece numa zona de vizinhança entre outros conceitos, permitindo a criação do
seu próprio. Assim como no teatro do menos, de Carmelo Bene, onde este subtrai as figuras de poder,
que são por vezes ironizadas, e privilegiando as personagens secundárias, principalmente a
personagem feminina, sempre minoritária. E a literatura menor, criadora, distanciadora da literatura
vigente e dominante. É no minoritário onde encontra-se o devir, pois nas coisas dominantes não há, de
fato, transformação, mudança, há apenas o acabado, o determinado. Eis por que Deleuze sempre
valoriza o minoritário, pois este sempre renova-se, em oposição ao majoritário, que nunca se altera.

Essa indiscernibilidade, essa passagem que torna impossível diferenciar uma coisa da outra,
provocada pelo devir, evidencia-se de forma clara nos quadros do pintor Francis Bacon, os quais
serviram de intercessores para Deleuze pensar o problema da representação pictórica. Esse problema
da imagem estar subordinada a um conteúdo, e este a uma imagem, pode ser associado à visão clássica
da linguagem como sendo mera representação de uma idéia, de um conteúdo, ao invés de ser criadora
de uma idéia, de um conteúdo. A arte tem o caráter de simplificar a vida, torná-la mais compreensível.
Mas a literatura, assim como a arte, não apenas representa idéias de um mundo ideal, mas consegue
desvelar, na forma de idéia, a vida que passa pela linguagem.

Para Deleuze, a linguagem não é essencialmente representativa, não representa um conteúdo já


concebido: a linguagem não é mera roupagem para uma idéia. A linguagem não representa um
conteúdo concebido e sim concebe, cria um conteúdo, uma idéia em seu processo. E o escritor é aquele
que concebe através da linguagem. O escritor, nessa perspectiva, concebe enquanto escreve, como se a
linguagem tivesse uma função semelhante ao sentido da visão. O escritor vê a vida desvelada nas
coisas através do devir e escreve essa idéia, formada pela passagem da vida na linguagem, que só
aparece no movimento: a linguagem concebe um outro objeto. A literatura produz uma minoração na
língua maior: a criação de desvios que possibilitem desvelar a vida nas coisas: o conjunto desses
desvios chama-se sintaxe. O escritor cria esses desvios para poder revelar a vida nas coisas através da
linguagem.

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