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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE

Instituto de Letras e Artes (ILA)

Disciplina: História, Teoria e Crítica da Arte Contemporânea


Prof. Dr. Felipe Caldas

Discente: Eduardo S. Stigger Matrícula: 132473

Referência Bibliográfica:
CAUQUELIN, Anne. Arte contemporânea: uma introdução. São Paulo: Martins,
2005.

Autor:
Anne Cauquelin, professora emérita da Université Paris X e Université de Picardie, é
uma filósofa, artista plástica e ensaísta francesa do século vinte e começo do século
vinte e um. Foi ainda, de 2001 a 2011, redatora chefe da Nouvelle revue
d’esthétique.

Contextualização:
Esta resenha aborda a introdução do supracitado livro de Anne Cauquelin, onde a
autora busca explicitar brevemente quais são os problemas enfrentados por aqueles
que desejam aventurar-se no amplíssimo universo da arte contemporânea, expondo
de forma enxuta os assuntos que serão abordados.
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Utilizando-se de uma linguagem bastante acessível, Anne Cauquelin começa


traçando-nos um quadro claro do público da arte contemporânea: desnorteado em
relação aos novos conceitos, porém cheio de boa vontade e disposição. Entretanto,
devido a velocidade em que as mudanças se dão atualmente e a este despreparo do
público em relação ao sistema atual, carregam ainda diversos preconceitos. A autora
argumenta que, aos olhos destes, o consumo de arte e cultura é algo de vital
importância - principalmente no intuito de não ser denominado inculto - por estarem
pouco preparados, todavia, buscam suas referências no passado, no modernismo
que era vigente nas duas décadas anteriores, inculcando na arte contemporânea
algumas das mais marcantes características desse ultrapassado período. Assim,
temos espectadores que, apesar de herdarem dos conceitos modernos de progresso
a noção de que consumir arte e cultura é fundamental para o pleno desenvolvimento
das sociedades, ainda não está completamente ciente do funcionamento do novo
sistema que se instaurou.
Este público, de qualquer forma, acompanha o que está acontecendo. Ainda
que tenham uma visão moderna tentando criar sentido em um mundo talvez
pós-moderno, há muito na arte contemporânea que seja de seu interesse - por
exemplo, e talvez principalmente, os valores exorbitantes das obras que, de um dia
para o outro, podem acabar tornando-se imensamente maiores. É neste instante que
precisam confiar nos especialistas, naquilo que já é consagrado, pois não
conseguem captar o que, de fato, está acontecendo. Não se pode nadar contra esta
corrente sem ser taxado de inculto. Então, temos um público que é capaz de aceitar
que as “obras do passado” valham realmente e literalmente milhões, mas que olha
para a arte contemporânea e pensa em especulação, valor-refúgio e mercado
fictício. Talvez a dificuldade esteja, exatamente, em criar uma distinção palpável
sobre o que é moderno e o que é contemporâneo.
Segundo a autora, isso se dá pelo fato da obra de arte contemporânea ter
outros fluxos no que diz respeito à sua constituição, não possuindo formulação
estabilizada e, desta forma, acabando por não possuir também reconhecimento. Não
que essa tarefa seja de fácil resolução: argumenta-se, ainda, que os critérios que
julgarão essa arte não podem ser buscados apenas nos conteúdos das obras.
Faz-se necessário, devido à imensa dispersão e pluralidade de “agoras”, que
aqueles que tentam analisá-las busquem referências em temas culturais recolhidos
de registros literários ou filosóficos ou, de outra forma, tentem traduzi-la em termos
de sucessão temporal: um trabalho verdadeiramente hercúleo, levando em conta as
inúmeras tendências e os artistas que transitam livremente entre estas. Cauquelin
acaba por argumentar que estas exigências criaram um paradoxo onde o número de
obras de arte, museus e galerias cresce exponencialmente, embora nunca tenham
estado tão afastadas do público.
Na tentativa de elucidar como isso acontece, a autora elenca dois pontos,
sugerindo que ambos reúnem-se na formação deste problema: a incompreensão
diante das obras, que já não podem mais ser julgadas nos moldes antigos, e a
factível expulsão das pessoas comuns dos domínios da arte. Fala-se ainda sobre
desinformação, critérios mal ajustados, uma verdadeira ideologia carregada pelo
público sobre o que deve ser artista, arte e todos os outros itens que a integram.
Quanto a isto, segundo a autora, nem mesmo os meios especializados, revistas,
jornais, catálogos ou trabalhos específicos parecem ser suficientes para instruir
todos os que estão perdidos nessa imensa confusão.
Há, porém, a intuição de que deve haver um sistema regendo tudo isso, e
essa intuição não poderia ser mais verdadeira. Para Cauquelin, é exatamente a
compreensão desse sistema que nos permite compreender o conteúdo das obras. É
ele que orquestra o funcionamento dos muitos agentes ativos nesse processo
(produtores, compradores, críticos, publicitários, curadores, conservadores, etc).
Esse, no entanto, não é o mesmo que prevaleceu até recentemente, sendo produto
de uma revolução tamanha que já não podemos mais compará-lo ao que antecedeu
- ativo há pouco tempo atrás, contudo não mais capaz de avaliar o que acontece
atualmente. A autora continua, dizendo-nos que pesquisadores de outras áreas
veem-se intrigados pelo fenômeno. São sociólogos, economistas, politicólogos,
dentre outros, abordando o tema sob três ângulos diferentes: os que estudam as
noções de modernidade, o mercado da arte e, finalmente, a recepção do público.
Ademais, surgem questionamentos deveras pertinentes: qual o verdadeiro
valor da arte contemporânea? Qual o verdadeiro valor da arte antecedente?
Cauquelin questiona-se: perdemos algo? O que havia antes era melhor do que
temos agora? De fato, adiante, a autora defende que os artistas e a arte gozaram de
diferentes patamares de privilégio ao longo da história - algo em constante
transformação, inclusive dentro da contemporaneidade. Finalmente, conclui: seriam,
por conseguinte, exatamente as ideias que temos sobre a arte que nos impedem de
enxergá-la com clareza. Assim, posiciona-se contra certos conceitos
pseudo-universais e pseudo-imortais, sendo eles: a ideia de continuidade ao longo
de uma cadeia temporal marcada pela inovação; a ideia da arte em ruptura com o
poder instituído; a ideia do valor em si da obra de arte; a ideia da comunicabilidade
universal das obras, baseando-se na intuição sensível; a ideia de “sentido” na obra
de arte. Estes conceitos, por sua vez, são advindos de elementos heteróclitos,
díspares, saídos principalmente do século XVIII (Kant, Hegel, romantismo...) e
século XX (Crítica Social e arte para todos).
Talvez seja, efetivamente, esta arte do passado que é, porém, bastante
recente que nos impede de observar com propriedade a arte contemporânea. Como
a autora explica-nos, o passado foi ontem. Estamos ainda presos a conceitos que já
não são mais válidos em toda a sua potência, e estes, agônicos, impedem a total
potência do que é novo. São como raízes antigas e secas, impedindo que o solo
respire, dificultando o medrar de ervas novas. Faz-se necessário,
consequentemente, que alguma mão esteja posta a arrancá-las.

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