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ARTIGO DE REVISÃO

D a tendência grupal aos grupos operativos


com adolescentes: a identifi cação dos
pares facilitando o processo de
orientação e educação em saúde1
From group tendency to the teenagers’ operative groups:
the identification of the pairs facilitating the process
orientation and education in health
A lisson A raújo1; Regina Lunardi Rocha2; Lindalva C arvalho A rm ond3

RESU M O

Trata-se de um a revisão teórica sobre grupos operativos com adolescentes com o práti- 1
Enferm eiro, Mestre em C iências da Saúde: Saúde da
C riança e do A dolescente, Professor A ssistente I do D e-
ca educativa em saúde,levando em consideração tanto a tendência grupal m anifesta partam ento de Enferm agem da U niversidade Federal dos
durante a adolescência quanto a dinâm ica,a estrutura,os princípios organizacionais e Vales do Jequitinhonha e Mucuri - U FV JM.
2
Médica Pediatra,D outora em Medicina Tropical,Professora
as finalidades do grupo operativo.Tem com o objetivo oferecer aos profissionais de saú- A ssociada do D epartam ento de Pediatria da Faculdade de
de reconhecim ento desta estratégia com o form a de educação em saúde e de enfrenta- Medicina da U niversidade Federal de Minas Gerais – U FMG.
3
Enferm eira, D outora em Enferm agem , Professora A po -
m ento das adversidades do cotidiano dos jovens,viabilizando e estim ulando um a ação sentada da E scola de Enferm agem da U niversidade Fede-
educativa que valoriza as vivências de cada participante. ral de Minas Gerais - U FMG.Mem bro do Setor de Saúde do
A dolescente do H ospital das C línicas da U FMG.
Palavras-chave: C om portam ento do A dolescente; Educação em Saúde; Saúde do
A dolescente.

A B STRA CT

This treats about a theoretician review about operative groups with teenagers as an
educative practice in health considerating as the group tendency manifested during the
adolescence, as the dynamic, the structure, the organizational principles and the finalities
of the operative groups. Has as an objective, to offer to the professionals of health, recog-
nition of this strategy as a form of education and health and of facing of the adversities of
the youngsters’ quotidian, visualizing and stimulating an educative action that values the
customs of each participant.
Key words: Adolescent Behavior; Health, Education; Adolescent Health.

IN T R O D U Ç Ã O

N as últim as décadas, a adolescência tem ocupado distinto interesse por di-


versas áreas do saber, através de inúm eros estudos que perm itiram percebê-la
com o um período necessário e único do desenvolvim ento hum ano tão im por-
tante quanto a infância e a idade adulta.
O s vários conceitos e definições acerca do que seja adolescência foram
originados das diferentes áreas do saber hum ano, ora am plas, diversificadas,
ora buscando a exatidão, sem que tenha ocorrido o encontro de um a única

1
Texto extraído da D issertação de Mestrado: “O Grupo de A dolescentes na Escola: A Per- Endereço para correspondência:
A lisson A raújo
cepção dos Jovens Participantes”, defendida na Faculdade de Medicina da U FMG pelo Rua: do Progresso 88
B : V ila O perária
Program a de Pós-Graduação em C iências da Saúde: Saúde da C riança e do A dolescente, D iam antina- MG
C EP: 39.100-000
em abril de 2007. E -m ail: alissonenf@ hotm ail.com

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D a tendência grupal aos grupos operativos com adolescentes:
a identifi cação dos pares facilitando o processo de orientação e educação em saúde

definição resultante do equilíbrio e da pertinência C om o objetivo de oferecer aos profissionais de


de todas as dem ais. Esses conceitos foram elabo - saúde um a m elhor com preensão acerca dos gru-
rados a partir de arcabouços de conhecim entos pos operativos, com o estratégia de educação em
construídos, historicam ente, m arcados pelo ob - saúde junto aos adolescentes, realizarem os um a
jeto de seus estudos. A ssim , para a Sociologia, a revisão teórica sobre esse assunto, alm ejando co -
adolescência depende da inserção do indivíduo nhecer as características da tendência grupal des-
em determ inada cultura; já a A ntropologia a com - sa fase e as bases conceituais do grupo no alcance
preende por ritos de iniciação e passagem ao al- de seus objetivos.
cance da vida adulta; enquanto o D ireito pauta-se
nas questões de m enor e m aioridade a partir de
um legislação vigente.1 D E S E N V O L V IM E N T O
N o que tange à área da saúde,as O rganizações
Pan-am ericana de Saúde (O PA S) e Mundial de O s estudos realizados por Maurício K nobel,em
Saúde (O MS) delim itam a adolescência com o a se- 1992, levantaram im portantes observações acerca
gunda década de vida (10 a 19 anos) onde ocorre da adolescência e influenciaram outros trabalhos
um processo fundam entalm ente biológico de vi- já publicados, principalm ente na A m érica Latina,
vências orgânicas,em que a aceleração do desen- contribuindo am plam ente para a identificação
volvim ento e da personalidade são m arcantes.2 dessa enquanto suas m anifestações do desenvolvi-
C om as intensas transform ações dessa fase sur- m ento psicológico -em ocional esperadas.6
gem diversas peculiaridades com o a necessidade N esse sentido, o autor utilizou dos conceitos
de construção de um a nova identidade, o desem - de luto da psicanálise, destacando a adolescên-
penho de novos papéis sociais, a m udança na re- cia com o um estágio de vivência e elaboração de
lação de dependência da fam ília para o grupo de lutos da identidade infantil, da perda dos pais da
pares,além da escolha de um projeto de vida e dú- infância e da perda do corpo infantil; o que acarre-
vidas sobre as transform ações ocorridas neles pró - ta “crises”, “dor”, conflitos e a necessidade de um
prios. Em decorrência de tais peculiaridades, que ajustam ento psicossocial.
acarretam tantas m udanças de com portam ento A partir desse ajustam ento psicossocial,esse
esperadas na adolescência, percebe-se o quanto autor define as características do desenvolvi-
essa fase deve ser particularm ente valorizada por m ento psicológico -em ocional com o Síndrom e
caracterizar um período de m aior vulnerabilidade da A dolescência N orm al6, facilitando assim sua
dos adolescentes à exposição de riscos.3 com preensão:
C onform e Mandu4,dentre esses riscos que cons- ■ busca de si e da identidade;
tituem os principais agravos à saúde do adolescen- ■ tendência grupal;
te podem os citar: as diversas form as de violência; ■ desenvolvim ento do pensam ento abstrato, ne-
uso de álcool, fum o e outras drogas; gravidez na cessidade de intelectualizar e fantasiar;
adolescência; aborto e as D ST/A ID S. ■ crises religiosas (do ateísm o ao m isticism o);
N a perspectiva de buscar um a assistência que ■ deslocação tem poral, onde o pensam ento ad-
previna esses agravos e prom ova a saúde dos ado - quire características do pensam ento prim ário;
lescentes, tornam -se necessárias ações de cunho ■ evolução sexual m anifesta desde o auto -erotis-
educativo direcionadas ao jovem em seu contexto m o à heterossexualidade genital adulta;
de vida. ■ contradição sucessiva em todas as m anifesta-
Essas ações educativas, através de m etodo - ções de conduta;
logias participativas, devem valorizar os conhe- ■ separação progressiva dos pais;
cim entos e experiências dos integrantes, envol- ■ constantes flutuações de hum or e estado de
vendo -os na discussão, identificação e busca de ânim o.
soluções para problem as que em ergem de suas
vidas cotidianas.(5) D essa form a, trazendo em seu Sob esta óptica, a adolescência é percebida
bojo essas considerações, a estratégia de grupos com o um período necessário e único do desen-
operativos constitui um instrum ento im portante volvim ento hum ano, tão im portante quanto a
no processo educativo dos adolescentes. infância e a idade adulta. Esse processo é funda-

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m entado não som ente “no forte com ponente físi- existencial, vivenciando a m esm a crise, os m es-
co -corporal decorrente de um processo evolutivo, m os questionam entos. Isso torna cada integrante
m as tam bém de processos produzidos no âm bito m enos frágil, m enos solitário; além de fortalecer
da sociedade, definindo -se e m odificando -se na a auto -estim a individual. C ontudo, a necessidade
interação com seus diversos com ponentes - eco - de suporte em ocional nessa fase, faz com que os
nôm icos, institucionais, político -éticos, culturais, adolescentes se subm etam às atitudes que passam
físico -am bientais.É no concreto da vida,na cons- a ser soberanas no grupo.
trução/reconstrução e apropriação ou não de seus N um a fase em que questionam autoridade,
bens e valores m ateriais e culturais, na interação instituições e m odo de vida dos adultos, os ado -
desse com processos som áticos, genéticos e físi- lescentes necessitam de um “senso de pertencer”,
co -am bientais que se definem os diversos m odos que se realiza através do forte vínculo ao grupo
de vida adolescentes”7. N esse contexto, fam ília, de pares e à “cultura jovem ”. D em onstram ego -
escola e sociedade com o um todo, influenciam e centrism o, falta de em patia nas relações com os
sofrem influência do processo de adolescer num a adultos e profunda identificação e solidariedade
perspectiva do que se viveu no passado, experi- com os am igos.10
m enta no presente e espera para o futuro. Essa identificação profunda entre os pares,ao
K nobel6 estudando,m inuciosam ente,as carac- m esm o tem po em que oferece o distanciam ento
terísticas do ajustam ento psicossocial na adoles- da fam ília,dá força ao senso de independência do
cência identificou dentre essas, a tendência gru- adolescente. D efender a independência constitui
pal. O autor afirm a que o espírito de grupo entre um a das lutas m ais desapiedadas em um período
os adolescentes se m anifesta pela busca de suas em que os pais ainda possuem um papel ativo na
identidades próprias. Recorrem , com o com porta- vida do indivíduo.É por isso que na tendência gru-
m ento defensivo,a um a certa uniform idade grupal pal o adolescente procura um líder ao qual sub -
– superidentificação em m assa – que pode propor- m eter-se,ou então,erige-se ele próprio com o líder
cionar segurança e estim a pessoal. A s atuações para exercer o poder do pai ou da m ãe.6
desse grupo com seus integrantes representam a C hipkevitch10 ressalta que a tendência grupal
oposição às figuras parentais e um a m aneira ati- se m anifesta diferentem ente em função do gênero
va de determ inar um a identidade diferente da do e da faixa etária, e descreve im portantes observa-
m eio fam iliar. ções do com portam ento adolescente pela divisão
Para B eirão etal.8,a tendência grupal é neces- da adolescência em inicial (10 aos 13 anos),m édia
sária para construir um a nova identidade para o (14 aos16 anos) e final (17 aos 20 anos).
adolescente,tornando -o independente da fam ília. Esse autor observou que na adolescência ini-
A ssim ,o grupo oferecendo segurança e auto -esti- cial a turm a de m eninos é geralm ente unissexual,
m a funcionaria com o um a ponte entre a fam ília tendendo a ser m ais num erosa que a das m eninas,
e o laço social. Para tanto, o adolescente rom pe que com um ente são com postas por duas ou três
esses vínculos e parte na busca de si, junto com am igas. O grupo dessas m eninas é m arcado por
outros que vivenciam o m esm o processo longe um a m aior intim idade e troca de confidências,
da fam ília, a fim de perceber-se sem influências enquanto os grupos m asculinos são barulhentos e
parentais.9 centrados na resistência a autoridade adulta.A es-
N essa ruptura,a identificação m útua dos ado - colha de am igos é guiada m ais pelas preferências
lescentes desloca o sentim ento de dependência pessoais e interesses com uns do que pelas caracte-
dos pais para o grupo de com panheiros e am i- rísticas de personalidade.N esse período o envolvi-
gos, fazendo com que o indivíduo pertença m ais m ento em ocional tende a ser pouco intenso.
ao grupo de coetâneos do que ao grupo fam iliar, Já na adolescência m édia, o grupo aum enta a
inclinando -se às regras da turm a em relação a confiança m útua,a troca de confidências e o envol-
m odas, vestim entas, costum es e preferências de vim ento afetivo com as am izades verdadeiras,cum -
todos os tipos.6 prindo m elhor a função de suporte em ocional que
C onform e Saito e Silva1, este senso de per- pode ser im portante em situação de conflito.A qui,
tencim ento ao grupo é m uito m arcante entre os os grupos constituem im portantes fontes de infor-
jovens pelo fato de estarem no m esm o m om ento m ação e encorajam ento nos relacionam entos, que

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neste m om ento passam a ser de pares de sexo dife- lescente podem tender à vulnerabilidade e riscos,
rentes,orientados para a interação heterossexual. ao agir no sentido do rom pim ento com valores
N a fase final da adolescência,dim inui o núm e- fam iliares, m uitas das vezes de form a arriscada
ro de am igos, em bora os relacionam entos sejam e destem ida.
m ais profundos, estáveis e significativos. O s que Guim arães e Ferreira13 afirm am que tanto as
nam oram costum am se desligar parcialm ente do form as de adoecer quanto as causas de m orte
grupo.A necessidade de m anter-se nos padrões do dos adolescentes estão com um ente associadas
grupo é reduzida e as opiniões dos pais tendem a aos com portam entos ditados pelos grupos que os
ganhar m ais peso que os valores do grupo.Segun- norteiam .
do Maakaroun9, ao final da adolescência os pais O com portam ento do adolescente, por ser
em ergirão do distanciam ento de outrora e,se tudo m uito influenciado pelo grupo, principalm ente,
correu bem , serão novam ente eleitos figuras de na adolescência inicial e m édia, torna-se aspira-
identificação. ção inquietante para o candidato a integrante de
Em todas as faixas etárias, independente do tal grupo. O utra reflexão quanto a esses com por-
gênero, o grupo de pares cum pre im portantes tam entos faz-se, por exem plo, na experim entação
funções para o desenvolvim ento psicossocial do coletiva de cigarros, bebidas e drogas ou em atos
adolescente. C om o todos se parecem na procu- anti-sociais. Por estar em grupo, a responsabilida-
ra de si m esm os, nas angústias e na recusa pelos de na concepção do adolescente parece diluir-se;
valores adultos, os adolescentes cultuam o grupo ele acredita que tais atitudes não oferecem ne-
com o espaço privilegiado para a troca de idéias, nhum tipo de risco.10
sentim entos e experiências.C om isso,a segurança A escolha do adolescente ao assum ir os com -
em ocional, a com preensão, o suporte e o encora- portam entos que colocam sua própria saúde, sua
jam ento podem ser adquiridos com a vivência gru- vida em risco está m uito pautada no “currículo
pal.A s relações aícontidas incentivam o desenvol- oculto” que traz consigo. Saito e Silva1 explicam
vim ento dos diversos papéis e habilidades sociais essa denom inação com o algo apreendido em ter-
influenciando o futuro padrão adulto de am izades m os de valores fam iliares, m esm o antes de seu
e vida pública.O desenvolvim ento das qualidades nascim ento até a adolescência. N esse percurso,
com o sensibilidade, m utualidade, reciprocidade e as autoras afirm am que a fam ília funciona com o
cooperação são possíveis tanto pela diversidade prim eiro grupo de referência do ser hum ano e cer-
de características próprias dos integrantes quan- tam ente vai influenciar sua inserção em outros.
to pelas nuances da adolescência. A lém disso, os D essa form a,os adolescentes tendem a se vin-
grupos perm item a vasão dos im pulsos sexual e cular a am igos e ao grupo de pares que espelham
agressivo, facilitando o desligam ento das figuras seus próprios valores e sem elhanças,sendo que a
parentais.10 fam ília tem um a influência sobre esta escolha de
Todavia, o jovem que, para ser incluído em um m odo m ais expressivo do que se pensava.U m a
determ inado grupo, assum e com portam entos de relação m uito conflituosa com as figuras parentais
seus pares sem estar preparado,convive com o in- tende a levar os adolescentes a se orientarem pre-
crem ento de riscos que podem levar a agravos em dom inantem ente pelo grupo. Se o grupo m olda
graus variáveis.1 inúm eros com portam entos assim com o atitudes
D essa form a “o grupo nem sem pre tem um ca- e linguagem transitórias, os pais acabam tendo
ráter integrativo ou está a serviço de prom over a m aior ascendência em questões de ordem m oral
integração da personalidade,solidariedade e con- ou nas escolhas a longo prazo. B andos e gangues
tinuidade do sistem a social. Pode se tornar foco de condutas delinqüentes, freqüentem ente, são
potencial de anorm alidades ou de propostas de form ados de adolescentes oriundos de fam ílias
transform ação social, o que traz à tona o caráter desorganizadas e com integrantes portadores de
potencialm ente problem ático de grupos juvenis e distúrbios psicopatológicos.10
da própria juventude com o condição chave para o Em um a discussão sobre “A dolescência,C ultu-
processo de transm issão da herança social”.11 ra,V ulnerabilidade e Risco - A Prevenção em Q ues-
D e acordo com Marques et al.12, as caracte- tão”,Saito e Silva1 m ostram um outro aspecto com
rísticas do desenvolvim ento psicossocial do ado - relação à adolescência e m arginalidade. A s auto -

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ras com entam que os estereótipos e os preconcei- O atendim ento em grupo,com o recurso da área
tos criados pelos adultos acerca da adolescência de saúde,teve suas origens em 1905 com o m édico
são frutos da cultura social. O s jovens são vistos Joseph Pratt no H ospital geral de Massachussets,
com o sendo irresponsáveis, desconsiderando que nos EU A . Prim eiram ente, Pratt e seus seguidores
a própria sociedade cultua um a adolescência de utilizaram o m étodo de grupo em pessoas com
longa duração, indeterm inada, de elevada carga doenças som áticas e depois em tuberculosos,dia-
de conflitos e apresentando grosseira assincronia béticos e cardíacos.O s grupos partiam do pressu-
entre m aturidade sexual e m aturidade social; à posto de que os resultados do tratam ento depen-
custa da susceptibilidade às novidades tanto políti- diam da influência benéfica de um a pessoa sobre
cas com o tecnológicas veiculadas pelos m eios de a outra,através do suporte em ocional existente en-
com unicação. tre indivíduos com preocupações e experiências
Sendo assim , a vinculação do adolescente ao sem elhantes. D entre os estudiosos que, no início
grupo pode ser utilizada de m aneira positiva e do séc.X X,utilizaram grupos com o recursos para
não encarada sem pre com o um a form a perigosa, assistir pessoas podem os citar: Marsh e Lazell com
agressiva e fortalecedora de condutas anti-sociais. pacientes psiquiátricos institucionalizados; Trigant
Por outro lado, a tendência grupal na adoles- B urrow nas terapias grupais com pessoas fora das
cência pode configurar-se com o fator de proteção, instituições,assim com o W ender e Schilder do Set-
através da prom oção de m udanças de atitudes e ting grupal em experiências distintas; Jacob Lew in
de com portam entos próprios entre seus pares, Moreno criador da abordagem psicodram ática
levando -os a fazer escolhas m ais saudáveis e a teatral e B ion e Foulkes na psicoterapia de grupo
exercer m elhor o controle sobre a sua saúde e o analítica.18,19
am biente que o rodeia.14,15 A partir da década de 30 as contribuições de
N essa perspectiva,a utilização da estrutura gru- K urt C ow ini m arcaram consideravelm ente todos
pal com o instrum ento de prom oção, prevenção e os estudos que vieram a seguir. Foram os prim ei-
atenção à saúde integral dos adolescentes destaca- ros trabalhos m ais sistem atizados sobre os gru-
se com o estratégia de ação.A necessidade de bus- pos que os delim itavam com o cam po de estudo
car suas identidades e de apoio durante essa fase e pesquisa. A lém de criar a expressão “dinâm ica
possibilitam ao grupo ser m ediador de questões de grupo” que popularizou-se desde a segunda
que favoreçam com portam entos secundários. guerra m undial, este pesquisador diferenciou-se
Para tanto, Munari e Furegato16 afirm am que dos dem ais até o m om ento, pois na sua perspec-
estudar a im portância dos grupos é incontestável, tiva “o grupo não é m eram ente um a coleção de
pois grande parte das atividades desenvolvidas pe- indivíduos,m as um a entidade em si m esm o,com
los seres hum anos é realizada em grupos,desde o qualidades que podem diferir daquelas de cada
seu nascim ento até a m orte. m em bro em particular”. A ssim , os grupos que até
A través dos grupos (fam ília,am igos,trabalho), então eram utilizados com finalidades estritam en-
os sujeitos hum anos se reconhecem com o partici- te terapêuticas, passam a ter ênfase no contexto
pantes de um a sociedade, inseridos em um a teia educacional com pequenos grupos,desviando -se
de relações e papéis sociais, através dos quais do m odelo m édico.19
constroem suas vidas.O s grupos podem ser dividi- D esde então, os estudos de Lew in possibilita-
dos em grandes grupos com o classe social,dentre ram um a grande expansão da utilização do en-
outros e em pequenos grupos com o os de convi- foque grupal no contexto dos m ovim entos norte-
vência e grupos de atendim entos. Estes últim os, am ericanos.D entre estes destacam os o da terapia
cada qual a sua m aneira, possuem um a ligação gestálica de Parls, dos grupos tipo Synanom , das
com um a instituição; valores e práticas sociais,ex- terapias nudistas, dos grupos de terapia da bioe-
pressas por leis, norm as e costum es para fam ília, nergética e das m aratonas além dos trabalhos de
m undo de trabalho, am izades, religião, etc. D essa C arl Rogers que da terapia centrada no cliente
form a,os grupos tem um a história própria com as- transportou-a para o contexto grupal.18
pectos particulares,um jeito de ser próprio,singu- O s trabalhos com grupos na atualidade, norte-
lar e um pertencim ento social pelo qual se fazem ados pelos estudos até aqui m encionados,diversi-
sim ilares a outros grupos.17 ficaram -se em m uitas vertentes. D entre estas ver-

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tentes tem os a do grupo operativo que teve com o m ente dito. A tarefa com o trajetória que o grupo
precursor Enrique Pichon-Revière.20 percorre para atingir suas m etas, necessita de
Pichon-Rivière (1907-1977) foi um m édico psi- aprendizagem que,para Pichon-Revière,é sinôni-
quiatra e psicanalista que nasceu na Suíça e viveu m o de m udança.14
na A rgentina desde os 4 anos de idade. D esen- A o caracterizar grupos operativos,A fonso17 afir-
volveu a teoria e técnica de grupos operativos, a m a que a m udança é exigida diante de um a pro -
partir de um a atitude extrem ada, colocando pa- blem ática que é influenciada especialm ente por
cientes m enos com prom etidos em seu estado de fatos sociais, culturais e psíquicos, transform ando
saúde para cuidar dos m ais com prom etidos. Essa não apenas a m ente, com o tam bém as práticas e
atitude ocorreu durante um a incidente greve do relações que os participantes desenvolvem em seu
pessoal de enferm agem no H ospital D e Las Mer- cotidiano.
cês,em Rosário,onde era docente e clínico.N essa A ssim ,a aprendizagem ocupa lugar im portante
situação observou que am bos os subgrupos de pa- perante as m udanças.Para B erstein23,é através da
cientes apresentaram significativa m elhora de seus capacidade do grupo e de cada um de seus inte-
quadros clínicos.O s elem entos referenciais do pro - grantes que se torna possível o desenvolvim ento
cesso de evolução desses pacientes foram possí- de condutas alternativas diante das m udanças,
veis através da ruptura de definições de papéis de através da com preensão e da ação transform ado -
quem cuida para quem é cuidado e do novo pro - ra da realidade,não repetindo sem pre as m esm as
cesso de com unicação estabelecidos entre eles.O condutas.
resultado intrigante levou Pinchon-Rivière a estu- Para Gayotto 24, aprender em grupo significa
dar os fenôm enos grupais a partir dos postulados que, na ação educativa, estam os preocupados
da psicanálise,da teoria de cam po de K urt Lew in, não apenas com o produto de aprendizagem ,m as
que culm inaram nas bases estruturantes dos gru- com o processo que possibilitou a m udança dos
po operativos.14 sujeitos. É um a ação form adora do sujeito para a
Essa com preensão dos fenôm enos grupais não vida,rejeitando a sim ples transm issão de “conver-
partem do ponto de vista psicoterápico, m as sim , sas do saber”.
da operação de tarefas objetivas que no âm bito D iscutindo a estrutura e dinâm ica do grupo
institucional m édico, pedagógico e em presarial operativo, A bduch14 esclarece que esse é com -
tem influenciado e difundido idéias de Pichon-Ri- posto por,no m áxim o,15 integrantes e possui um
vière e seus seguidores desses tem as no B rasil.21,22 coordenador e um observador. Seus integrantes
D e acordo com Pichon-Rivière 20, essas tarefas entram em tarefa por m eio de um disparador tem á-
juntam ente ao vínculo constituem os princípios or- tico,passando o grupo a operar ativam ente com o
ganizadores do grupo operativo. O vínculo é um protagonista.O s grupos possuem norm as básicas
m ecanism o de interação que,ao m esm o tem po,é de conhecim entos, com o local e horários defini-
bicorporal pela presença sensorial de dois corpos, dos.O coordenador é um facilitador do processo,
e tripessoal, pois além das duas pessoas existe na m edida em que cria condições para com uni-
um a terceira que vem do m undo interno e interfe- cação e diálogo, auxiliando o grupo a superar os
re nessa relação.Essa estrutura rege todas as rela- obstáculos que em ergem na realização da tarefa.
ções hum anas, por incluir fantasias inconscientes C om pete ao observador um a percepção global do
que são produtos de interação entre os vínculos. processo (por sua distância ótim a do grupo) atra-
C onfigura-se um a estrutura com plexa que rege, vés de registros gráficos e de expressões verbais e
incluindo um sistem a transm issor-receptor, um a gestuais dos integrantes e do coordenador, a fim
m ensagem ,um canal.20 de auxiliá-lo na elaboração da crônica evolucio -
C om o tarefa, com preende-se o m odo pelo nária do trajeto percorrido pelo grupo.
qual cada integrante interage segundo suas pró - Segundo A fonso17,o papel do coordenador nes-
prias necessidades em torno de objetivos co - ta m odalidade grupal “é cada vez m ais o de um
m uns,em ergindo daíobstáculos de várias nature- co -pensador e co -operador, de um dinam izador
zas. C om o diferenças e necessidades pessoais e das relações, de um m ediador das inform ações e
transferenciais,diferenças de conceitos e m arcos da reflexão, do que de um educador que detém
referenciais e do conhecim ento form al propria- conhecim ento”.

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D a tendência grupal aos grupos operativos com adolescentes:
a identifi cação dos pares facilitando o processo de orientação e educação em saúde

A inda caracterizando a estrutura do grupo ope- nando com o um potencial indutor desse processo.
rativo,A bduch14 relata que cada participante com pa- A ssim ,esses hábitos de vida orientados pelo cons-
rece com sua história pessoal consciente e incons- truído na aprendizagem grupal, configuram -se
ciente,isto é,com sua verticalidade.N a m edida em com o fatores de proteção à saúde do adolescente
que constituem grupos, passam a com partilhar ne- rum o à vida adulta.
cessidades em função de objetivos com uns e criam Repensar as práticas educativas em saúde, en-
um a nova história, a horizontalidade do grupo que volvendo adolescentes, pressupõe um novo olhar
não é sim plesm ente a som atória de suas verticalida- sobre o jovem e seu papel na fam ília, escola e so -
des,pois há um a construção coletiva,resultante da ciedade, em que as tarefas a serem desem penha-
interação de aspectos de sua verticalidade,gerando das nestes contextos possam ser discutidas num
um a história própria, inovadora, que dá ao grupo processo dinâm ico e criativo,norteado pela expe-
sua especificidade e identidade grupal. riência de cada um .
C om relação a im portância do grupo operativo
para os adolescentes, B eirão et al.8 explicam que
a adolescência, com o processo de desconstrução R E F E R Ê N C IA S
e reconstrução da identidade, traz consigo m uitas
tarefas que o jovem terá de cum prir no seu cam i- 1. Saito MI,Silva LEV.A dolescência: prevenção e risco.
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intensas transform ações físicas,psíquicas e sociais 2. B rasil. Ministério da Saúde. Saúde do A dolescente.
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desse m om ento tornam os adolescentes m ais vul-
http:// w w w.saude.gov.br.
neráveis a diversas situações do seu dia-a-dia,que
3. A m ado C R,Leal MM.A nticoncepção de em ergência
possam por em risco a sua integridade. Por outro na adolescência.Rev Pediatr Mod.2001 m aio; 37(Ed.
lado, o desconhecim ento do processo de adoles- Esp.):7-9.apud D om ingos SRF.A consulta ginecológi-
cência e a falta de espaços aos quais possam recor- ca sob a ótica de adolescentes: um a análise com pre-
rer tornam -lhes m ais inseguros. ensiva [dissertação].B elo H orizonte: Escola de Enfer-
Para tanto, os m esm os autores ressaltam a m agem da U FMG; 2003.
im portância de se criar espaços plurais onde os 4. Mandu EN T.A dolescência: saúde,sexualidade e re-
adolescentes possam se expressar de m odo m ais produção.In: A ssociação B rasileira de Enferm agem
- Projeto A colher.A dolescer: com preender,atuar,aco-
am plo; não só receber inform ações, m as tam bém lher.B rasília: A B En; 2001.p.61-76
falar de si,discutir m elhor as suas questões e expor
5. Lopes EB.Metodologias participativas.In: A ssociação B ra-
seus sentim entos,ou seja,possam ser vistos na sua sileira de Enferm agem – Projeto A colher.A dolescer: com -
singularidade. Em bora seja im portante focalizar o preender,atuar,acolher.B rasília: A B EN ; 2001.p.144-153.
sujeito, é junto a outros que os jovens terão m ais 6. K nobel M.A síndrom e da adolescência norm al.In:
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lher.A dolescer: com preender,atuar,acolher.B rasília:
D iante do exposto, o estudo da estratégia de A B EN ; 2001.p.13.
grupos operativos com adolescentes possibilita 8. B eirão MMV.A dolescência.In: A lves C RL,Viana MRA .
um a m elhor com preensão de sua dinâm ica,estru- Saúde da fam ília: cuidando de crianças e adolescen-
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que tange aos profissionais da saúde, reconhecer 9. Maakaroun MF.C onsiderações gerais sobre a adoles-
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