O trabalho do pedagogo na escola pública: frente à avaliação, ao ensino noturno e a educação profissional

Lucia Cavichioli Pereira* Eliane Cleide da Silva Czernisz**

Resumo: O objetivo deste artigo é apresentar uma análise que nos possibilite compreender e discutir os desafios do trabalho do pedagogo na escola pública hoje, focalizando instâncias de organização educativa tendo em vista a democratização da escola. São discutidas ações que precisam ser desenvolvidas pelo pedagogo visando a superação de um processo avaliativo excludente, além de análises e reflexões que desmistificam a realidade do ensino noturno e da formação profissional dos jovens. São apontadas algumas alternativas de mediação que devem ser viabilizadas pelo pedagogo no processo educativo, no sentido de redimensionar a qualidade do trabalho pedagógico e reconfigurar o papel social da escola.

Palavras-chave: profissional.

pedagogo;

avaliação;

ensino

noturno;

educação

INTRODUÇÃO

À medida que são expostos os desafios que a escola pública tem a enfrentar, mais se evidencia o papel do pedagogo enquanto agente que deve desvelar as contradições que estão presentes no contexto escolar público, assumindo o compromisso de orientar o processo educativo para dimensões mais amplas e de forma que venha a promover a democratização dos espaços de participação, tendo em vista o acesso de todos aos conhecimentos historicamente produzidos pela humanidade. A ação do pedagogo deve envolver toda a problemática educativa e sua
*

Pedagoga (UEL); Especialista em Avaliação Educacional (UEL); Mestre em Educação (UEL); Professora do Colégio Estadual Jayme Canet (Bela Vista do Paraíso); Professora da Faculdade UNINORTE (Londrina).
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Professora do Depto. de Educação – Curso de Pedagogia - Universidade Estadual de Londrina. Orientadora deste trabalho.

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historicidade, enquanto campo de vivência de diferentes interesses e conflitos sociais, colocando com clareza as contradições em que se configuram a sociedade e o mundo do trabalho. Para isso, o pedagogo tem como desafio provocar a realização de um trabalho educativo mais crítico, desocultando os interesses que estão por trás das propostas educacionais, das políticas públicas de educação, dos programas e projetos que fazem parte da configuração da escola. Para ter clareza das relações que se configuram no interior da escola, como práticas avaliativas autoritárias e currículo escolar incompatível com as características e necessidades dos alunos dos cursos noturnos e educação profissional, que reafirmam uma visão alienada do mundo e do trabalho, é necessário analisá-las a partir dos pressupostos teóricos que têm sustentado a prática educativa de um lado e de outro, buscar eixos teóricos que apontem outras perspectivas para a democratização do espaço escolar. Dessa forma, neste trabalho, a avaliação do ensino e da aprendizagem, o ensino noturno e o ensino profissionalizante são considerados espaços e instâncias da escola que apresentam fragilidades e equívocos que contribuem para uma ação educativa excludente. Consideramos que o pedagogo deve ser o articulador de caminhos que favoreçam a busca e a consolidação de uma trajetória educativa que permita reorganizar e democratizar esses espaços educativos, levando em conta o contexto da escola atual e o da escola desejada. Um profissional, portanto, capaz de compreender as relações educativas que ocorrem no âmbito da sociedade, dos sistemas de ensino, da escola, da sala de aula, das modalidade de ensino, todas elas consideradas em seu contexto e que envolvem, simultaneamente, dimensões individuais e sociais. Ao analisar as múltiplas fragilidades da escola, cabe observar que a avaliação se configura como uma das instâncias do processo pedagógico que não tem possibilitado aos alunos refazerem, reorganizarem ou retomarem as suas trajetórias de aprendizagem, nem

que possibilite aos jovens uma capacitação profissional sólida. de forma que a ação educativa se consubstancie em espaço coletivo de trabalho. assentada num Estado capitalista regulado pelas leis do mercado econômico internacional. sobretudo com aqueles que freqüentam o ensino noturno.3 tão pouco de concretizarem uma formação profissional mais humana e consistente. que exige formação especializada. visto que o processo educacional deve estar voltado para as reais necessidades de seus integrantes. ou seja. criado para atender alunos trabalhadores. com conhecimentos e habilidades cada vez mais complexos. Antes de tudo. tem atualmente se apresentado como um dos maiores desafios para o ensino público. que não este modelo autoritário e excludente muito presente na escola pública. 1995. na sociedade capitalista. é necessário ter clareza sobre as políticas públicas que direcionam a educação brasileira. observados os dados de altas taxas de reprovação e de abandono. 158). Referindo-se a educação profissional também são históricos os problemas e as dificuldades já que nesta área de formação as políticas públicas não têm apresentado as bases necessárias para uma formação consistente. no modelo “educar para a cultura do mercado” (GENTILI. que são cada vez mais acentuadas e que expressam uma contradição: uma formação rápida e precarizada para os que não puderam ter assegurada uma escolaridade na idade/série adequada e. por conseguinte. . p. Este é um desafio por excelência. Entendemos que o pedagogo é o profissional da educação co-responsável na tarefa de promover uma relação dialógica entre os princípios presentes no cotidiano escolar e outros que dele poderão fazer um espaço da aquisição e produção de conhecimentos. na sua maioria. jovens trabalhadores e pobres. O ensino noturno. ingressam precocemente num mercado de trabalho seletivo. instituindo-se uma outra lógica. subjugadas assim à relação custo benefício. aliada a uma visão crítica da realidade advinda de conhecimentos científicos adquiridos na escola.

o pedagogo também é refém das circunstâncias que envolvem o processo educativo e a ele cabe refletir e buscar fundamentos teóricos que o auxiliem na tomada de consciência da realidade e de sua própria formação. que se constituem . como por exemplo. para num movimento crescente de ampliação das perspectivas de compreensão do papel da educação. Dessa forma. visto que na prática educativa observa-se que o pedagogo lida com a avaliação da aprendizagem depois que esta já está consolidada. fazer o seu trabalho de forma mais consistente e provocativa.4 É de fundamental importância a ação do pedagogo nestas instâncias da escola aqui focalizadas. Seria então sua função intervir nas relações que hoje se encontram tão cristalizadas. como mediador de análises e provocador de caminhos que possam consubstanciar uma outra perspectiva para a escola. de práticas avaliativas autoritárias e que não avançam no sentido de reorganizar a avaliação como momentos para desconstruir velhos rituais que não dão aos alunos a possibilidade de integrarem-se ao processo educativo como sujeitos. possa. O PEDAGOGO E O PROCESSO AVALIATIVO A instância avaliativa da escola está longe de ser um canal que poderia permitir aos alunos uma participação mais efetiva no processo que deveria servir de guia/orientação dos seus processos de aprendizagem. cabe indagar aqui: qual a real responsabilidade do pedagogo no processo de avaliação educacional? Como dar conta de interferir nessa área de ação pedagógica. Contudo. ao discutir com os professores nos Conselhos de Classe os resultados do desempenho dos alunos em determinado período? Pelo menos são estas as práticas mais comuns que observamos no cotidiano escolar. por conseguinte.

ou seja. longe possibilitar aos alunos a tomada de consciência de seus próprios processos de aprendizagem. mas também quando podem ocupar espaços de participação na vida escolar. estamos com de julgamentos vinculados conceitos. retomar e/ou avançarem o processo do aprender. conceitos ou menções. O pedagogo precisa assumir-se enquanto profissional que compreende mais profundamente as implicações do processo educativo. conseqüentemente. Com isto o pedagogo tem que provocar no meio escolar uma releitura das práticas avaliativas. Este profissional da educação deve atuar de modo mais coerente com uma perspectiva de avaliação menos excludente. assegurando-lhes a possibilidade de refazer. menos incisiva. a serviço do acompanhamento dos avanços e dificuldades dos alunos. numa perspectiva dialética. de avaliar. Nesse processo de tomada de consciência de que a escola realiza um processo avaliativo excludente. os processos de ensinar. confrontadas com outras perspectivas que devem ser experimentadas sem que a escola abdique do seu papel de condutora do processo de ensino e de aprendizagem. simplistas e alienados de práticas já configuradas no moldes da visão mercadológica da educação. cabe-nos observar que o papel do pedagogo é fundamental no sentido de virar esse jogo da avaliação para uma perspectiva afirmativa. é importante compreender que tal prática reflete uma visão precarizada do sistema de ensino como um todo. de aprender. ficam comprometidos. Voltando às indagações acima colocadas. uma vez que a aprendizagem é um processo complexo e não permite uma configuração simplista expressa apenas em notas. não há metacognição.5 não só no processo de aquisição de conhecimentos. Isto significa que deve paradoxalmente criar e . a autoavaliação não se consolida. Ao analisar as práticas avaliativas na escola fica claro que ainda são utilizados instrumentos a notas para ou atribuição de valor. Sendo equivocada a compreensão do papel da escola. já que eles traduzem modelos superficiais.

Sendo assim. uma compreensão mais clara das concepções que sustentam o modelo de ensino e de avaliação praticados na escola. Ao lado disso. as atitudes e as concepções tanto de alunos. já que na sociedade capitalista nosso desafio constante é superar padrões historicamente construídos a partir de uma concepção positivista. favorecendo a reflexão sobre a prática cotidiana. uma ação avaliativa mais abrangente. como por exemplo. Dessa forma. acompanhadas de um movimento constante de busca de referenciais que expliquem as fragilidades e orientem trajetórias de ações mais democráticas. para dar conta desse movimento dialético do pensar e do fazer pedagógico. pois compreender as relações que envolvem esse processo. certamente fortalece a perspectiva de transformação pensada da realidade escolar. antes de tudo. Pensar a avaliação pela dimensão dialética é uma via que o pedagogo certamente deve promover. criar uma outra perspectiva de análise da realidade e de práticas mais autônomas de participação nas relações de avaliação da aprendizagem exige. provocar a reflexão sobre as práticas. No entanto. a compreensão de que os comportamentos. mediado pelo espaço coletivo e sob a orientação do pedagogo é preciso ter clareza das direções que podem ser tomadas e das concepções adotadas. como aquelas que abrem a possibilidade de se pensar uma escola para todos. . estão fortemente vinculadas aos paradigmas que orientam as relações humanas na sociedade capitalista. Entender as múltiplas e complexas relações dos e entre os processos de ensinar e de aprender é estar consciente das implicações que podem estar envolvidas nas ações do cotidiano escolar. criar ou fortalecer espaços de participação e vivências mais inclusivas e humanizantes deve ser uma das práticas do cotidiano do pedagogo.6 quebrar tensões. à luz de conhecimentos teóricos que instrumentalizam um fazer mais coerente. quanto de professores e também de pedagogos sobre tais questões.

mas acima de tudo. garantir espaços de participação dos alunos nos Conselhos de Classe e auxiliá-los na sistematização das suas análises e proposições. sustentados por uma frágil crença de competência e de versatilidade. resultados e alternativas de superação de dificuldades e de conflitos. que vão reproduzindo exatamente os mesmos padrões de seleção. uma capacidade de articular-se nos engendramentos cada vez mais complexos do universo em que vivemos. a avaliação na escola. reunir-se periodicamente com alunos ou representantes de sala para ouvir suas críticas e sugestões. Com ações simples o pedagogo conseguirá instigar todas as instâncias da escola a olhar de forma diferente o processo de avaliação. será um instrumento a serviço desse modelo social excludente. Gerir o espaço pedagógico é uma das mais importantes atribuições hoje do pedagogo e a avaliação representa a ferramenta chave para desencadear outras práticas. se praticada de forma autoritária. propondo. colocar-se como elo entre professores e alunos para rediscutir formas de avaliação. indo ao encontro do que dela se espera: assegurar uma sólida aprendizagem a todos os alunos. Dessa forma. por exemplo: estudo contínuo de textos. livros. voltados para a avaliação dos conteúdos mais significativos do currículo escolar. não somente após a emissão dos boletins. utilizar as reuniões de Conselho de Classe não só para constatar se o aluno se apropriou ou não dos conteúdos. Dessa forma. já que ela pode revelar as reais dimensões e finalidades da escola. ou seja. estimular a formação de grupos de estudo também entre os alunos para . orientar os professores na elaboração de instrumentos de avaliação mais adequados e variados. vídeos que tragam uma abordagem avaliativa na perspectiva de acompanhamento do processo de aprendizagem dos alunos.7 Vivemos num mundo altamente seletivo e excludente e a inserção nos espaços sociais exige uma grande versatilidade por parte das pessoas para adequarem-se aos padrões exigidos pela sociedade capitalista. para planejar ações pedagógicas que atendam as dificuldades dos alunos. a escola acaba utilizando também mecanismos seletivos que são como espectros da natureza social.

com atuação crítica no sentido de propor e provocar uma ação educativa mais eficiente.8 fortalecer a cultura do estudo para aquisição de conhecimentos e não apenas para obtenção de notas. quando o processo educativo se realiza na perspectiva inclusiva. os resultados desse processo ficam explícitos nas altas taxas de abandono e de reprovação. fundados nos princípios do trabalho coletivo. Consideramos que a dimensão avaliativa representa um dos mecanismos que assegura à escola a possibilidade de criar uma outra cultura para compreender como se estabelecem as teias que resultam num processo educativo não inclusivo. especialmente dos alunos que muito cedo passam por processos educativos massificadores. combater relações autoritárias na avaliação e fortalecer relações mais democráticas. Dessa forma. principalmente dos alunos que buscam no ensino noturno e na educação profissional a possibilidade de continuidade/conclusão da escolaridade básica. entendemos que o espaço escolar necessita da figura do pedagogo para assegurar uma luta contínua para superação de práticas avaliativas alienadas e excludentes. mais próxima das necessidades dos alunos e da lógica de um mundo melhor para todos. da ética e da liberdade como componentes imprescindíveis para uma escolarização de qualidade. a avaliação representa um meio para reorientar e consolidar a ação educativa de forma mais intensa. que não asseguram uma aprendizagem consistente. favorece o progresso contínuo. o pedagogo entra nesse contexto como o articulador das ações que vão engendrar a cultura de que a escola é a única instituição que tem a finalidade específica de assegurar a transmissão humanidade. Quando a escola não dá conta de ensinar. ou nos precários resultados de “provões”. dos conhecimentos historicamente consolidados pela . atuar como mediador na divulgação de experiências de sucesso nessa área. Com isso. Pelo contrário.

A dualidade se fez progressivamente presente na educação de adolescentes e jovens pela inexistência de articulação entre o mundo da “educação”. enquanto a classe trabalhadora freqüenta o ensino profissional pelo seu caráter terminal. Por que não atende? Por que é a modalidade em que se concentram altos índices de evasão. dos interesses das classes populares. PEREIRA. de formação profissional. atendendo preferencialmente aos interesses das minorias privilegiadas e distanciando-se. uma vez que a distribuição dos alunos pelos diferentes ramos e . que deve desenvolver as capacidades intelectuais independentemente das necessidades do sistema produtivo. de reprovação. antes de tudo. portanto. como é ensinado e as características de quem necessita freqüentar a escola noturna? Responder a estas questões demanda. em que é nitidamente clara a marca social dos privilégios das classes burguesas. 1998). cujas oportunidades de acesso ao nível superior são viabilizadas pela freqüência a cursos secundários de caráter propedêutico. de defasagem idade/série? Como conciliar trabalho e educação de qualidade? Por que se observa um descompasso entre o que é ensinado. deixando a escola em segundo plano. Revisitando a história da educação brasileira observa-se que o ensino para os jovens teve um desenvolvimento lento. considerar as circunstâncias sociais e econômicas da maioria dos jovens brasileiros que muitas vezes. são forçados a ingressar precocemente no mercado de trabalho. que exige o domínio de funções operacionais que são ensinadas em cursos específicos. Seguiu-se um período longo.9 O PEDAGOGO E O ENSINO NOTURNO O ensino noturno foi criado para atender os alunos que já são trabalhadores e para aqueles que almejam ingressar no mercado de trabalho. atendendo às exigências e aos interesses do capital (GIULIANI. fragmentado e irregular. Essa desarticulação se explica pelo caráter de classe do sistema educativo. e o mundo do trabalho.

A escola destinada aos alunos trabalhadores não pode descuidar da formação integral. de carentes e que.10 modalidades de formação se faz a partir de sua origem de classe (KUENZER. muitas vezes com fome. quando vai para a escola já está na 3ª jornada. p. a escola em nada contribui para modificar esse círculo vicioso já que as políticas educacionais apenas expandiram o ensino noturno. trabalhando o mesmo currículo dos cursos diurnos. ou evadem. sem darem conta de resolver e recuperar a possibilidade de uma formação integral a que todos têm direito. Vê-se. seja pela não apropriação dos conhecimentos produzidos historicamente. Sendo assim. A maioria dos alunos do ensino noturno. formada por jovens trabalhadores. seja por uma falsa idéia de que estão preparados para o mundo do trabalho. cansados. e continue marginalizada. ajeitando-os de forma que essa população passe pela escola. têm um tratamento escolar mais flexível. nem tampouco desconsiderar que a maioria precisa ter acesso ao conhecimento científico e tecnológico que lhes permita uma formação profissional que garanta igualdade de . por isso. ou então. em todos os níveis da educação. a perpetuação da exclusão. 1992. a escola faz de conta que cuida da formação destes jovens. certifique-se. menos rígido e então. desta forma. sendo reféns de uma trama que os coloca na condição de desfavorecidos. É consolidada a trajetória de grande parte dos estudantes dos cursos noturnos: ou reprovam. por se tratar de uma parcela muito significativa de alunos que são trabalhadores e que só têm possibilidade de formação escolar em cursos noturnos. permanecem numa escola que não está estruturada para atender as especificidades desses alunos e que segue por décadas com esse quadro de perpetuação do fracasso. Repensar um currículo que seja adequado ao perfil e às necessidades dos jovens trabalhadores é um desafio urgente para a educação brasileira. 8). já que na idade devida esses alunos não tiveram a escolaridade a que tinham direito.

ou de docilização do que é ensinado. O que cabe então ao pedagogo. o seu papel e a sua importância social. a fazer intervenções positivas. de facilitação. Aí o pedagogo pode então atuar como desencadeador de mecanismos que assegurem aos alunos e. tornando-se assim um canal que viabilizará o avanço na trajetória de redefinição do papel social . Representantes de Turmas. está deixando de cumprir a tarefa educativa para reafirmar a exclusão social. também. também aos professores. Grêmio Estudantil. nesse quadro adverso da escola noturna? Com que alternativas pode contribuir para dar maior sentido e significado aos que precisam da escolarização noturna e. O aluno do ensino noturno precisa encontrar na figura do pedagogo um profissional que esteja aberto a ouvir. com práticas de flexibilização do conhecimento. Atuar nesse contexto e nessa configuração da escola noturna brasileira é um desafio que se coloca a professores e aos demais profissionais da escola. Faz-se necessário constante reflexão para colocar em prática alternativas de trabalho pedagógico compatíveis com os anseios e necessidades daqueles que muito precisam de escola de qualidade. Conselhos de Classe). a incentivar a participação nas diferentes instâncias escolares (Conselhos Escolares. aos professores que aí atuam? O enfrentamento desse desafio exige envolvimento a partir da compreensão mais profunda das circunstâncias em que estão estruturadas as escolas que ofertam ensino noturno. O pedagogo que atua no ensino noturno precisa ter clareza das relações que configuram o mundo do trabalho e como essas relações interferem na organização do processo de ensino. do perfil dos alunos e das políticas que orientam seus currículos. Percebe-se que quando a escola precariza as condições de ensino. Para isso é fundamental que a escola assegure a compreensão do mundo do trabalho.11 oportunidades. a compreensão da realidade a que estão submetidos. a intermediar os conflitos. a promover a motivação para o estudo e freqüência às aulas.

fundado nos princípios da democracia e do viver bem. na ousadia. vivam e interfiram no mundo de forma mais consistente para superar a alienação. caminhar no sentido de: ao mesmo tempo em que se desenvolvam os conteúdos de forma mais elaborada. como a instituição que precisa assegurar a todos o direito a escolarização. ainda que em condições não ideais. é fundamental promover a formação inicial e continuada dos profissionais envolvidos. na criatividade para o enfretamento da realidade e o apontamento de caminhos a serem trilhados. juntamente com os demais profissionais que atuam na escola. equipamentos tecnológicos etc. mediados então pelo esforço do pedagogo no sentido de intensificar espaços de relacionamento interpessoal.12 da escola. Uma visão mais crítica do mundo e da sociedade se fortalece se a escola cumprir sua tarefa específica de contribuir para a formação histórico-cultural dos cidadãos-alunos. buscando na reflexão coletiva uma compreensão mais clara do currículo e dos conhecimentos necessários para a melhoria da qualidade do ensino noturno. . O pedagogo precisa. ter como perspectiva mediações que viabilizem uma ação educativa pautada não no determinismo ou no conformismo. com certeza. Ser pedagogo no ensino noturno demanda. promovam-se condições para que todos compreendam. mas no embate. colaborando para o desenvolvimento de comportamentos compatíveis com uma vivência coletiva colaborativa. laboratórios. incluindo espaços pedagógicos que complementem o currículo e enriqueçam a qualidade do trabalho educativo: bibliotecas. É necessário considerar que as alternativas acima apontadas precisam estar alinhadas com políticas públicas que viabilizem melhores condições humanas e materiais para as escolas que ofertam a modalidade de ensino noturno. Além disso. videotecas.

mas levando mais tempo e. principalmente dos pobres que necessitam ingressar mais cedo no mercado de trabalho. com características de terminalidade. com conteúdos superficiais e repetitivos. com a possibilidade de continuidade dos estudos superiores e.13 O PEDAGOGO E A EDUCAÇÃO PROFISSIONAL A trajetória da educação profissional no Brasil é marcada por políticas públicas que destinaram a esta modalidade de ensino um espaço pouco substancial de formação dos jovens trabalhadores. tecnológicos e histórico-culturais. portanto. tendo mais custos. O que sempre predominou foi uma estrutura educacional com uma formação mais geral e diferenciada destinada as classes privilegiadas. O que observamos são novas formas de camuflar os privilégios. arremedos de formação profissional e precárias condições para aquisição de fundamentos científicos. . Há possibilidade de uma formação profissional. destinada aos trabalhadores. 2006) observa-se que o Ensino Médio revela altas taxas de reprovação e de abandono. o que representa um grande desafio no sentido de reverter tal quadro. A formação geral se dá sem a mediação do conhecimento científico-tecnológico para a maioria. Há que se considerar que além da parcela significativa de jovens que são excluídos pela reprovação ou abandono. há uma parcela considerável que nem tem acesso a essa etapa da educação básica. outra. As mudanças dos últimos anos não alteraram o quadro anterior do Ensino Médio. com políticas públicas que dêem conta de corresponder e de atender à demanda de formação dos jovens brasileiros. Nos dados apresentados pelo Censo Escolar no quadro abaixo (MEC/INEP. inclusive de oportunidades.

9 13.1 10. Observa-se que ao lado do que já é estabelecido na LDB 9394/96 sobre a educação profissional.5 10. Kuenzer (2007) aponta algumas análises da educação profissional nestes últimos anos. de forma que pudessem transitar por diversas modalidades de oferta e. amenizar as desigualdades.6 Brasil Norte Nordeste Sudeste Sul Centro-Oeste Fonte: MEC/INEP.5 70.1 72. A democracia pressupõe liberdade de escolha e liberdade de escolha pressupõe diversidade de ofertas.2 17.Taxas de Rendimento Escolar Aprovação Reprovação Abandono 73. assim. Reprovação e Abandono. PLANFOR (Plano Nacional de Qualificação do Trabalhador).9 15. PNQ (Plano de Qualificação Profissional) – Analisados por KUENZER (2007). foram então criados esses programas (PLANFOR.0 13. sem nenhum controle e avaliação desses processos pelo Estado. ao invés de restringir. o que nos leva a compreender que a fragilidade continua.0 14.5 8.3 71. O investimento na melhoria da qualidade da educação média deveria priorizar a opção pelos desfavorecidos socialmente. segundo a Região Geográfica .Taxas de Aprovação. PNQ)1 que estão sob a coordenação de outras Secretarias. Seria recomendável a pluralidade de alternativas para o Ensino Médio.3 20.8 20. os estudos da autora explicitam a destinação de recursos públicos para a iniciativa privada desenvolver programas de formação profissional de forma precarizada e aligeirada.2 70. não 1 Programas de formação profissional criados nos governos de Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva.6 . Pelo contrário.14 Ensino Médio 5.5 11. mascarada pelo discurso de diferentes programas e políticas. faz-se necessário buscar a integração entre formação geral e ensino profissionalizante para desenvolver as múltiplas capacidades que promovem novas formas de preparação para a cidadania e para o mundo do trabalho.2005 Unidade da Federação Ensino Médio .9 76. sem qualquer comprometimento efetivo do Estado em assumir a sua responsabilidade nesta área.7 9. .

25). para dar conta das carências dessa área do sistema educacional. mas ao mesmo tempo dando sua contribuição criadora e transformando a sociedade (PARO. Paro (2001) afirma que é preciso que se coloque no centro das discussões (e das práticas) a função educativa e global da escola. reserva para a maioria o trabalho alienado. Desvelar as configurações que nos parecem naturais no mundo do trabalho é uma tarefa fundamental da escola. . 25).15 vinculados diretamente ao MEC. p. pode-se então destacar o quanto é complexa a tarefa do pedagogo que atua em escolas que ofertam educação profissional para jovens que buscam na escola uma qualificação para inserção no mundo do trabalho. no sentido de patrocinar nos estados o ensino médio profissional integrado. permanecendo. Assim. mas advêm das relações que são colocadas pelo capitalismo. usufruindo daquilo que o homem histórico produziu. se entendemos que a educação é atualização histórico-cultural dos indivíduos e se estamos comprometidos com a superação do estado geral de injustiça social que. e dos recursos para a sua execução para o setor privado sob a alegação da eficácia e da ampliação da capacidade de atendimento. p. que se compreenda como é visto o trabalho na sociedade capitalista. antes de tudo. em lugar do bem viver. no Governo Lula não houve avanços no sentido da publicização. segundo a concepção do público não-estatal a ser operacionalizada pelas parcerias com instituições privadas (KUENZER. 2001. Com estudos de diferentes pesquisadores sobre a realidade atual do ensino profissionalizante. a mesma lógica: o repasse de parte das funções do Estado. Essa tarefa exige. ou quase nenhum esforço. Vê-se assim. então é preciso que nossa escola concorra para a formação de cidadãos atualizados. Segundo Paro (2001) é fundamental que se compreenda que essas condições de formação profissional precarizadas e a visão que se constitui do trabalho não são naturais. e de modo mais intenso. capazes de participar politicamente. 2007. Do ponto de vista do repasse de recursos públicos para a iniciativa privada. pouco.

a análise crítica e reflexões coletivas no sentido de instrumentalizar todos os atores da escola. concepções. tendo em vista a superação da visão do trabalho alienado na sociedade capitalista. práticas e crenças que advogam a idéia de que a escola deve preparar para o mercado de trabalho? Seria equivocado pensar que o pedagogo sozinho pode dar conta de virar esse jogo.16 O que cabe então ao pedagogo que atua em tais circunstâncias? É possível atuar sob outras perspectivas que não a de agente passivo diante das condições adversas em que está configurada a formação dos jovens no final da educação básica? Como desvincular-se de visões. de educar para a cultura do trabalho e não para a cultura do mercado. . com certeza. de recolocar a finalidade da formação profissional. precisam da ousadia e da coragem de todos aqueles que sonham com uma escola que garanta a todos o acesso ao conhecimento historicamente acumulado. Mas existe a possibilidade de provocar a discussão. As ações que podem ser implementadas são ilimitadas e. de delinear outros horizontes. CONSIDERAÇÕES FINAIS Mais que enunciar as dificuldades que se fazem presentes no cotidiano escolar pelo implementar de outras políticas públicas de educação. a partir de pequenos passos – muitas vezes tímidos – é possível tracejar uma transformação pautada no compromisso com a aprendizagem de todos e com a construção de um tempo e um contexto mais humanos. na certeza de que. urge que algumas possibilidades de ação sejam sugeridas no sentido de vislumbrar outras perspectivas.

reorientar o processo educativo.17 Desta forma. buscando continuamente cultivar o hábito de estudar. tendo uma atenção maior para com as políticas públicas de educação. com referencial bibliográfico crítico e atualizado. de escrever. • Avançar com uma postura politicamente mais esclarecida e cientificamente melhor fundamentada acerca da natureza do ensinar e do aprender. faz-se necessário: • Cuidar da formação. colocando-se de forma perspicaz e crítica em relação aos órgãos superiores. mas também uma compreensão mais ampla e clara do mundo. neste trabalho são apresentadas algumas sugestões que o pedagogo deve promover na escola. • Incentivar na escola a superação de uma postura avaliativa predominantemente classificatória para realizar uma avaliação mais . de organizar grupos de estudo. • Acreditar na possibilidade de mudança. de produzir materiais. tendo em vista não só o aprimoramento profissional. ter ousadia e buscar alternativas de trabalho que garantam a aprendizagem e o crescimento de todos os alunos. Então. • Incentivar os professores e os demais funcionários da escola a buscarem fontes teóricas para estudo e reflexão sobre o contexto educacional e social. de participar de eventos. cobrando das autoridades educacionais e políticas posturas e caminhos que supram as necessidades da escola. de trocar experiências com os companheiros de função. do trabalho e das relações humanas e um maior comprometimento social. conseqüentemente. • Auxiliar os professores na elaboração e utilização de técnicas e instrumentos de avaliação da aprendizagem que dêem mais liberdade aos alunos para revelarem seus avanços e suas dificuldades e. • Utilizar uma consciência mais crítica na análise e no desenvolvimento da prática educativa.

em decorrência de uma compreensão mais clara do porquê fazer. cabe salientar que o pedagogo. . deixando em último plano o que seria o foco principal do seu trabalho: mediador da ação educativa. os conteúdos e conhecimentos a serem trabalhados. etc. possam desencadear ações que tenham perspectivas políticas de uma escola pública verdadeiramente mais democrática. • Estabelecer metas a serem alcançadas. comprometida com o sucesso de todos os alunos. Sendo assim. buscando compreendê-las a partir dos pressupostos teóricos que apontem para a democratização do espaço escolar.. • Promover o ato de planejar como forma de ultrapassar o improviso e garantir um percurso mais fundamentado da ação e uma maior clareza acerca do o que fazer e do como fazer. sem reflexão e planejamento. portanto. especialmente dos trabalhadores. integrada ao processo de ensino e de aprendizagem e. que contemplem a aquisição dos conhecimentos historicamente construídos e que assim. enquanto articulador de ações educativas deve ajudar a escola a redefinir a sua prática. as avaliações para que todos os alunos tenham a possibilidade de aprender com consistência o que é ensinado. atendimento de salas que estão sem professores. que favoreça e estimule o interesse do aluno pela busca do conhecimento de forma mais relevante e significativa para a sua vida. especialmente com os alunos dos cursos noturnos e/ou da educação profissional. no sentido de desmistificar as relações que se configuram no seu interior. dando a escola conta de atender as especificidades dos jovens.18 processual. que muitas vezes ficam circunscritas a atividades de reorganização de horários. as metodologias. pelo respeito e pela amistosidade. • Contribuir para o fortalecimento de uma relação pedagógica permeada pela tolerância. • Rediscutir continuamente o plano curricular. É fundamental que o pedagogo supere práticas cotidianas isoladas.

ainda. quando se diferenciam as possibilidades de atendimento para os que podem estudar daquelas ofertadas para os que têm que trabalhar. menos desigual e mais democrática. procurando construir uma escola mais democrática e acessível a todos. mas com políticas públicas de educação mais sérias.19 Pensar alternativas. Enfim. não podemos deixar de destacar que cumpre ao Estado o papel fundamental de garantir condições para que sejam resolvidos os problemas da escola. Isto é um sonho. que deve alimentar e encorajar a construção coletiva de um projeto educativo. aparentemente. esboçando uma escola com alternativas mínimas para o atendimento de uma grande parcela da população que tem na escola pública. a única possibilidade de sair da periferia do sistema. Dessa forma. cujos repertórios de diretrizes não contemplam as reais necessidades dos que buscam uma escola pública comprometida com uma formação crítica e consistente visando uma sociedade mais humana. precisamos romper com a cultura da seletividade e da exclusão. de aprendizagem e de avaliação mais compatíveis com as necessidades dos alunos. com . o conformismo. É não perder de vista a perspectiva de que o trabalho pedagógico requer continuamente uma capacidade de análise para não ficar refém o tempo todo das armadilhas da sociedade capitalista: a exclusão. são escassas as possibilidades de articulação entre formação cidadã e educação profissional. oportunizar espaços de reflexão implica co-responsabilizar-se na efetiva escolarização dos alunos. são cada vez mais restritos – porque não reduzidos – os compromissos do setor público com a educação. atenuar posturas avaliativas classificatórias e evoluir para abordagens de ensino. comprometida com a transformação da realidade. mas um sonho que não é impossível. a marginalidade. o consumismo. No Ensino Médio.. a alienação. não apenas via determinação formal ou legal. desatreladas de acordos internacionais estrategicamente planejados. Contudo..

KUENZER.br.br . GIULIANI. valores que. . KUENZER. 20. V. A. o respeito e a dignidade. a pesquisa para que a escola possa ser um lugar onde se viva a solidariedade. a consciência crítica. PEREIRA. qualidade total e educação: visões críticas. Rio de Janeiro./set. Escritos sobre educação. 405-20. H. São Paulo: Cortez. 1995. A Educação Profissional nos anos 2000: a dimensão subordinada das políticas de inclusão. v.pr. 166p.1998. C. São Paulo: Xamã. é preciso salientar que o pedagogo é o profissional que deve cultivar a esperança. Disponível em www. SILVA. Ensaio: Avaliação e Políticas Públicas em Educação. poderão dar um novo rumo a um processo educativo transformador que. quiçá. Ensino de 2º grau: o trabalho como princípio educativo. Disponível em www. M.. . GENTILI.gov.20 a luta de todos pelas condições necessárias para concretização de um mundo melhor. Curitiba: 2007. C.gov. Censo Escolar. A. n. Petrópolis: Vozes. 6. 2001. Z. Mais do que nunca. A. jul. Os (des)caminhos da educação profissional no Brasil. 2. 2. MEC/ INEP. A. P. p. Neoliberalismo. Z. T. o debate. REFERÊNCIAS BRASIL. Z. faça emergir uma outra sociedade. certamente. ed. portanto. 1992. A.inep. Sinopse Estatística da Educação Básica 2006. T da (org.).pde. ed. PARO.

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