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EXCELENTÍSSIMO SENHOR MINISTRO PRESIDENTE DO EGRÉGIO

SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL

OMAR JOSE ABDEL AZIZ, brasileiro, casado, Senador da República,


portador do documento de identidade nº 0320295-0 e do CPF nº 075.886.152-49,
residente e domiciliado nesta cidade na Avenida Efigênio Sales 2477, Condomínio
Efigênio Salles, Rua Anamã nº 220 – Aleixo, CEP 69060-020 – Manaus, AM, por seu
advogado adiante identificado (e-mail: ncoronin@hotmail.com) constituído com os
poderes de representação judicial em anexo, com fulcro nas disposições do art. 144
do Código Penal, vem a presença de Vossa Excelência, propor a presente
INTERPELAÇÃO JUDICIAL CRIMINAL contra JAIR MESSIAS BOLSONARO, brasileiro,
casado, Presidente da República Federativa do Brasil, portador da Cédula de
Identidade RG nº 3.032.827/SSP-DF, inscrito no CPF/ME sob o nº 453.178.287-91, com
endereço no Palácio da Alvorada, SPP Zona Cívico Administrativa, Brasília, Distrito
Federal, CEP 70.150-000, pelos motivos de fato e de direito a seguir expostos:

I – DA COMPETÊNCIA
O presente pedido explicação, fundado no art. 144 do CPP, é proposto
em face da pessoa do Presidente da República Federativa do Brasil, e, portanto, deve
ser analisada por esta e. Suprema Corte, consoante disposição do art. 102, inciso I,
alínea “b”, da Constituição Federal, bem como pacífica jurisprudência:
COMPETÊNCIA PENAL ORIGINÁRIA DO SUPREMO TRIBUNAL
FEDERAL PARA O PEDIDO DE EXPLICAÇÕES. A competência
penal originária do Supremo Tribunal Federal, para
processar pedido de explicações em juízo, deduzido (…)
com apoio no Código Penal (art. 144), somente se
concretizará quando o interpelado dispuser, ‘ratione
muneris’, da prerrogativa de foro, perante a Suprema
Corte, nas infrações penais comuns. (CF, art. 102, I, ‘b’ e
‘c’)” (RTJ 170/60-61, Rel. Min. CELSO DE MELLO, Pleno)

Assim, mostra-se presente a competência desta Suprema Corte para


analisar a presente interpelação judicial criminal.

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II - DOS FATOS:
No dia 16 de maio de 2022, ao participar da abertura de um evento
promovido pela Associação Paulista de Supermercados, a 36ª Edição da APAS Show,
um encontro de diversos empresários do setor alimentícios e de bebidas, o
Interpelado, enquanto Presidente da República, realizou uma fala sobre o
Interpelante, passível de ser interpretada como a imputação de um fato criminoso
ou, ao menos, difamatório a este.
A fala ora questionada, proferida pelo Sr. Jair Messias Bolsonaro, segue
transcrita abaixo, podendo também ser verificada através de um vídeo publicado na
rede social Youtube, no perfil do Palácio do Planalto, tempo 01:25:50 a 01:27:15
mediante o link: https://www.youtube.com/watch?v=iqz2aF1ce0o.
“Não, é porque o Melo Araújo falou, aqui, se não me engano, foi ele
que, sem corrupção.

Eu tive o prazer, outro dia, de entrar um empresário na minha sala,


na frente de vários outros e falar: ‘olha, passei pelo SPU e pela
primeira vez não fui achacado, lá’. Isso está sendo uma regra no
nosso governo. Se aparecer algo, a gente vai pra cima, ajuda a
investigação.

Olha a CPI da Covid... Se achar que eu devo encerrar, eu paro aqui,


pessoal...

Olha a CPI da Covid. Eu podia ter acabado com a CPI, nas primeiras
semanas. Como? Se eu aceitasse uma emenda do Omar Aziz, que eu
não vou falar “de um senador” que pega mal, né? Do Omar Aziz.
Emenda, também, do Renildo Calheiros, que é irmão do Renan
Calheiros, a mesma emenda, cópia autêntica. Relator, saltitante,
Randolph Rodrigues.

O que que dizia essa emenda, Paulo Guedes? Que governadores e


prefeitos, não quero generalizar governadores e prefeitos, a
grande maioria eu sei que são pessoas de bem. Mas, governadores
e prefeitos poderiam comprar vacina de qualquer lugar do mundo,
sem a certificação da Anvisa e sem licitação. Que maravilha,
Consórcio do Nordeste...”

Aqui, não se mostra exagerado elucidar que a CPI da Covid citada pelo
Interpelado é a Comissão Parlamentar de Inquérito do Senado Federal que investigou
a atuação do governo federal no combate à Pandemia da Covid-19, a qual foi presidida
por este Interpelante, cujo resultado foi um relatório pedindo o indiciamento do Sr.
Jair Messias Bolsonaro. Ou seja, foi um órgão colegiado do Parlamento Brasileiro
criado para examinar possíveis crimes cometidos pelo interpelado, enquanto
presidente da república.
Sucede que a fala acima destacada se mostra manifestamente
ambígua, pois dela é possível extrair diversas interpretações. A afirmação de que o
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Interpelado poderia ter acabado com a “CPI da Covid”, se tivesse aceitado uma
“emenda” de autoria deste Interpelante, há, pelo menos, duas leituras possíveis de
serem depreendidas.
Ao utilizar o termo “emenda”, o Interpelado não deixa específico qual
seria a sua natureza, de modo que este termo pode ser entendido como uma Emenda
Constitucional. Logo, estaria afirmando que se tivesse aceitado essa emenda
constitucional proposta pelo Interpelante, a CPI que investigou a sua atuação como
chefe do executivo federal não teria durado mais que algumas semanas. Ocorre que
essa primeira interpretação possível, perfazendo-se em uma afirmação ilógica e
hermética, pois não cabe ao presidente da república aceitar ou não uma emenda à
Constituição Federal.
No entanto, uma segunda interpretação possível do discurso transcrito
acima é a de que o termo “emenda” utilizado pelo Interpelado seria referente a um
pedido de emenda parlamentar, ou seja, destinação de verbas orçamentárias. Assim
o sendo, o Interpelado estaria imputado falsamente ao Interpelante o ato de ameaçá-
lo, pedindo emendas parlamentares para que não desse continuação à CPI que o
investigava, a fim de que as verbas orçamentárias dessa emenda fossem destinadas
à compra de respiradores pelo Consórcio do Nordeste.
Dessa forma, tendo em vista o discurso dúbio ora questionado, resta-
se presente a aparente imputação de uma conduta criminosa ao Interpelante, ou pelo
menos desabonadora à sua imagem, mostrando ser necessário que o Interpelado
realize determinados esclarecimentos, para que seja possível a realização de uma
exata compreensão de sua fala.

II –DO CARÁTER CALUNIOSO/DIFAMATÓRIO DO DISCURSO E DO


CABIMENTO.
De acordo com a narrativa fática, a fala que aqui se reclama se mostra
bastante dúbia e ambígua, sendo uma de suas interpretações a afirmação de que o
Interpelante se utilizou do cargo público para obter vantagens pessoais,
desvirtuando um instrumento constitucional que é uma Comissão Parlamentar de
Inquérito.
Esta afirmação imputa ao Interpelante uma prática que pode ser
tipificada como crime de Concussão, nos termos do art. 316 do Código Penal, pois foi
atribuído falsamente ao Interpelante o ato de pedir vantagens pessoais para sim e
demais pessoais, utilizando-se do cargo de Senador da República e Presidente de
Comissão Parlamentar de Inquérito que investigava o Interpelado:

Art. 316 - Exigir, para si ou para outrem, direta ou indiretamente,


ainda que fora da função ou antes de assumi-la, mas em razão
dela, vantagem indevida:

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Pena - reclusão, de 2 (dois) a 12 (doze) anos, e multa.

Ainda que o ato falsamente atribuído ao Interpelante não seja passível


de configurar um tipo penal, o que não parece ser o caso, restar-se-ia a prática de um
ataque difamatório, pois se perfaz em evidente ato desabonador à imagem do
Interpelante a acusação de que este teria se utilizado do múnus público do cargo de
Senador para chantagear o Presidente da República, mediante o instrumento
constitucional que é uma CPI, a fim de obter vantagens pessoais em detrimento do
interesse público.
Não obstante a tipificação criminal em que possa ser configurada a fala
aqui controvertida, calúnia ou difamação, as práticas falsamente imputadas ao
Interpelado foram feitas de maneira concreta, individualizada e específica, uma vez
que se pode inferir do discurso controvertido a imputação do ato de pedir “emenda”
ao Interpelado, a fim que não dar seguimento a investigação sobre sua atuação como
agente público:
“De acordo com a jurisprudência desta Corte, o crime de calúnia
exige, para sua configuração, a imputação concreta e
individualizada de fato definido como crime. Precedentes.” [...]
(STF - AgR-segundo ARE: 1197257 DF - DISTRITO FEDERAL 0009308-
32.2016.8.07.0001, Relator: Min. RICARDO LEWANDOWSKI, Data de
Julgamento: 18/10/2019, Segunda Turma, Data de Publicação: DJe-
234 29-10-2019)
-----------------------------------------------------------------------------------------------------------
Ementa: QUEIXA-CRIME. INJÚRIA. PRESCRIÇÃO. CALÚNIA.
DIFAMAÇÃO. AUSENTE DESCRIÇÃO DA CONDUTA. QUEIXA-CRIME
REJEITADA. [...] 3. A inicial também não narrou o crime difamação,
cujo tipo penal demanda, além do insulto, a imputação, ao
Querelante, de fato específico e definido, ofensivo à sua reputação.
4. Queixa-crime rejeitada.
(STF - Inq: 2870 GO, Relator: Min. JOAQUIM BARBOSA, Data de
Julgamento: 15/03/2012, Tribunal Pleno, Data de Publicação:
ACÓRDÃO ELETRÔNICO DJe-154 DIVULG 06-08-2012 PUBLIC 07-08-
2012)

Entrementes, mostra-se evidente que, do discurso emitido pelo


Interpelado, pode-se inferir calúnia e/ou difamação contra o interpelante, de modo
que se faz plenamente cabível o presente pedido de explicações judicial, consoante
disposição do art. 144 do Código Penal:
Art. 144 - Se, de referências, alusões ou frases, se infere calúnia,
difamação ou injúria, quem se julga ofendido pode pedir
explicações em juízo. Aquele que se recusa a dá-las ou, a critério do
juiz, não as dá satisfatórias, responde pela ofensa.

A balizada jurisprudência desta corte preleciona que é cabível


interpelação judicial criminal, a fim de requisitar explicações sobre determinada fala
ou discurso passível de ser configurando em crimes contra a honra, senão vejamos:

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INTERPELAÇÃO JUDICIAL. PROCEDIMENTO DE NATUREZA
CAUTELAR. MEDIDA PREPARATÓRIA DE AÇÃO PENAL REFERENTE A
DELITOS CONTRA A HONRA (CP, ART. 144). [...]
- O pedido de explicações, admissível em qualquer das modalidades
de crimes contra a honra, constitui típica providência de ordem
cautelar, sempre facultativa (RT 602/368 – RT 627/365 – RT 752/611
– RTJ 142/816), destinada a aparelhar ação penal principal tendente
a sentença condenatória. O interessado, ao formulá-lo, invoca, em
juízo, tutela cautelar penal, visando a que se esclareçam situações
revestidas de equivocidade, ambiguidade ou dubiedade, a fim de
que se viabilize o exercício eventual de ação penal condenatória.
[...]
- Onde não houver dúvida em torno do conteúdo alegadamente
ofensivo das afirmações questionadas ou, então, onde inexistir
qualquer incerteza a propósito dos destinatários de tais
declarações, aí não terá pertinência nem cabimento a interpelação
judicial, pois ausentes, em tais hipóteses (como sucede na espécie),
os pressupostos necessários à sua adequada utilização. Doutrina.
Precedentes. [...]
(STF - Pet 5.146 - rel. Min. Celso de Mello, DJe de 21/2/2014)

Portanto, havendo evidente emissão de um discurso dúbio e ambíguo


por parte do Interpelado, do qual se infere calúnia/difamação, mostra-se necessário
que este realize esclarecimentos sobre o seu conteúdo.

III – DOS PEDIDOS


Forte nesses argumentos, albergado na previsão normativa insculpida
no art. 144 do Código Penal, requer seja deferido a presente interpelação judicial,
notificando o Exmo. Sr. Presidente da República Federativa do Brasil, Jair Messias
Bolsonaro, para que, no prazo máximo de 15 (quinze) dias, responda os seguintes
questionamentos:
a) Quem foi(ram) a(s) pessoa(s) que o procurou(aram), em nome do
Senador Omar Aziz, para tratar sobre a “emenda” citada no
discurso?

b) Quando alguém o procurou, em nome do Senador Omar Aziz, para


tratar sobre essa “emenda”, qual a data específica?

c) Qual é a natureza da “emenda” citada no discurso controvertido?

d) Caso seja uma emenda constitucional, por quê este aceitaria ou não
uma emenda constitucional, uma vez que não é função do
presidente da república aceitar, ou sequer sancionar, um projeto
dessa natureza?

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e) Caso seja uma emenda parlamentar, qual seria o seu valor, a sua
finalidade e a sua destinação?

Nesses termos,
pede e deferimento.
Manaus, 23 de maio de 2022.

RAQUEL PINTO Assinado de forma digital por


RAQUEL PINTO VALENTE
VALENTE Dados: 2022.05.25 09:03:46 -04'00'
NILSON CORONIN RAQUEL PINTO VALENTE
OAB/AM 1.925 OAB/AM 6.771

ADALTO A. DE MOURA NETO


OAB/AM 16.531

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