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4.

Evolução do Sistema Tributário Moçambicano

4.1 Período antes da independência

Segundo Ibraimo Ibraimo , mesmo antes da chegada dos portugueses já existia o imposto em
Moçambique que era essencialmente pago em forma de roupa, gado, escravos e outros bens.
Mas uma das principais evidências da existência do imposto em Moçambique foi com o
surgimento dos prazos da Zambézia, em que se utilizou o tributo tradicional pela primeira vez.

O Vale do Zambeze em meados do séc. XVII estava organizado politicamente e


tradicionalmente por vários chefes em cada região. O governador do distrito era designado por
mambo” que era assistido por um chefe local “mpfumu”, e pelo chefe das povoações. Uma das
atribuições do “mpfumu” era de cobrar o imposto Dentro dos prazos, todos os habitantes
estavam sujeitos ao pagamento de um imposto anual designado por “mussoco”, que era pago
como forma de afirmar o poderio do mambo sobre a terra. O conteúdo, a taxa e o montante
do “mussoco” atribuído a cada família não era fixo nem estabelecido, variava de prazo a prazo
e de região para região.

Os camponeses, através do “mussoco”, renda em géneros, canalizavam parte dos seus


excedentes agrícolas para a “elite” dos prazos, sendo, muitas das vezes, utilizados para
alimentação. Com a penetração crescente do capitalismo colonial, o “mussoco” passou a ser
cobrado em trabalho e, depois, em dinheiro, o que exprime uma mudança profunda nas
relações sociais de produção.

Segundo Carlos Serra , o imposto de palhota foi introduzido ao abrigo do decreto de 9 de Julho
de 1982 e cobrado à luz do Regulamento do Imposto de Palhota de 30 de Julho de 1892. Os
proprietários das palhotas situadas no interior ficavam obrigados ao pagamento anual de 900
reis por palhota utilizada como habitação. Nos dois primeiros anos, o imposto de palhota
podia ser cobrado em dinheiro ou género, mas em 1894 passou a ser obrigatoriamente
recebido em dinheiro. Aquele que não cumprisse com esta obrigação era punido com trabalho
forçado durante os dias necessários do valor do salário oficial local acrescentado 50 por cento
no valor após a finalização do trabalho forçado.

Salienta-se que a administração directa durou até 1892, e era feita através dos agentes da
autoridade, cuja função não era apenas de cobrar o “mussoco” mas, também de controlar os
chefes locais.
Como forma de obter dinheiro para pagamento do imposto de palhota a maior parte dos
homens moçambicanos residentes na zona sul do país emigravam para África do Sul para
trabalhar nas minas, o que facilitava a cobrança.

Segundo Ibraimo Ibraimo, o fenómeno de emigração no sul do nosso país influenciou a política
fiscal porque fez com que o Estado colonial encarasse duas questões que não lhe agradavam:

- Com a emigração, o número de trabalhadores para as Companhias reduziu;

- Os salários praticados na África do Sul eram substancialmente mais elevados que os da


Companhias que operavam em Moçambique. Este facto anulava a política existente de elevar
os impostos para obrigar os trabalhadores a permanecerem mais tempo nas suas terras.

Ao mesmo tempo, este fenómeno causava problemas no próprio orçamento do Estado


colonial e na balança de pagamentos. Por um lado, necessitava de promover a emigração, de
obter o imposto em libras - ouro, e por outro lado necessitava da mão-de-obra.

Após o imposto de palhota, a outra forma de tributação introduzida foi a tributação indirecta,
que incidia sobre os bens de consumo produzidos pelos indígenas, como forma de os levar a
concorrer para as despesas públicas.

E, nesse sentido, foram criados alguns impostos directos, nomeadamente:

- Impostos prediais – que incidiam sobre os prédios rústicos e urbanos situados na baixa da
cidade, dentro do território das companhias;

- Tributação das actividades comerciais e industriais – que eram tributados por taxas
variáveis, em função do valor das mercadorias importadas por cada contribuinte, a
legislação e a cobrança deste imposto era feito com base nas declarações dos
contribuintes;

- Contribuição de Juros – que consistia num imposto sobre o crédito e sobre a aplicação de
capitais, com base numa taxa fixa;
- Sisa – que incidia sobre os actos de transmissão da propriedade de bens imóveis a título
oneroso;

- Imposto sucessório – que incidia sobre os actos de transmissão de propriedade móvel a título
gratuito.

4.2. Período à data de Independência

Segundo Ibraimo Ibraimo, na véspera da independência, o sistema tributário aplicado em


Moçambique era basicamente o então vigente na Metrópole – resultante da reforma de 1959-
1963 e da política de harmonização fiscal, enquadrado no programa de integração económica
dentro do na época chamado espaço português.

Nessa época vigorava um sistema tributário moldado aos objectivos do Estado que estava
dimensionado às necessidades orçamentais deste mesmo Estado. Para tal, estava organizado
um sistema administrativo adequado e dotado de pessoal apropriado, convenientemente
treinado. Era um sistema fiscal com uma legislação complexa e quase inacessível à grande
maioria dos contribuintes, e não respeitava os princípios de justiça social , onde todos deviam
pagar impostos independentemente da sua condição social e financeira.

O Estado Português em Moçambique tinha um orçamento que integrava as receitas por um


lado e as despesas por outro lado. E, a tabela de despesas procurava responder às
necessidades dos gastos do Estado na altura. Segundo ainda o mesmo autor, para fazer face as
despesas, o Estado Português tinha uma tabela de receitas correntes alimentada em 82% pelas
receitas fiscais. O conjunto das receitas destes impostos equilibrava o orçamento corrente do
Estado Português em Moçambique.

De acordo ainda com Ibraimo Ibraimo, os impostos indirectos por exemplo como o imposto de
consumo e direitos aduaneiros, tinham algumas taxas proteccionistas para a importação de
produtos que aparentemente eram supérfluos e taxas mais pesadas para outros produtos
considerados essenciais para consumo da população, mas que beneficiavam se de taxas
aduaneiras preferenciais, quando importadas de certos países.

Pode-se, em suma, caracterizar o sistema fiscal à data da independência como:


- Um sistema concebido e dimensionado de acordo com a política do Estado e suficiente para
fazer face à correspondente tabela de despesas.

- O nível de receitas era suficiente para fazer face às despesas de funcionamento do seu
aparelho administrativo.

- O conjunto de pequenas taxas e impostos de nível local ou regional cujas características e fim
a que as receitas se destinavam - despesas das instituições locais e autónomas - estavam em
perfeita consonância com a forma de organização administrativa e eram dotados de processos
orçamentais que permitiam estipular as cobranças.

Ibraimo Ibraimo menciona que os principais impostos vigentes nessa altura eram:

- Contribuição Industrial – que incidia sobre os lucros das actividades industriais e comerciais;

- Contribuição Predial Urbana – que incidia sobre o lucro das explorações agrícolas, silvícolas,
pecuárias, ficando sujeitas todas as pessoas singulares ou colectivas nacionais ou não, desde
que se desenvolvessem actividades em terrenos, prédios ou concessões no território nacional;

- Imposto Profissional – que incidia sobre os rendimentos de trabalho, e este por sua vez
eram sujeitos a imposto quando auferidos por pessoas singulares, nacionais ou
estrangeiras, que em Moçambique exerciam qualquer actividade por conta de outrem ou
por conta própria;

- Imposto sobre aplicação de capitais – que incidia sobre os rendimentos provenientes da


simples aplicação de capitais;

- Imposto Complementar – que incidia sobre o rendimento global das pessoas singulares e
colectivas.

4.3. Período após a Independência


Após a independência ocorreram várias reformas no sistema fiscal:

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