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Acórdãos TRL Acórdão do Tribunal da Relação de Lisboa

Processo: 3018/2008-3
Relator: CARLOS ALMEIDA
Descritores: TRÁFICO DE ESTUPEFACIENTE
SUSPENSÃO DA EXECUÇÃO DA PENA

Nº do Documento: RL
Data do Acordão: 04/23/2008
Votação: UNANIMIDADE
Texto Integral: S

Meio Processual: RECURSO PENAL


Decisão: NEGADO PROVIDO

Sumário: A pena de 4 anos e 6 meses de prisão imposta pela


prática de um crime de tráfico internacional
organizado de cerca de 2 quilogramas de cocaína não
deve ser suspensa porque a isso se opõe a necessidade
de defesa do ordenamento jurídico.

Decisão Texto Acordam, em conferência, no Tribunal da Relação de Lisboa


Integral:
I – RELATÓRIO

1 – A arguida E… foi julgada na 3ª Vara Criminal de


Lisboa e aí condenada, por acórdão de 5 de Dezembro
de 2007, pela prática de um crime de tráfico de droga
previsto e punível no artigo 21º, n.º 1, do Decreto-Lei n.º
15/93, de 22 de Janeiro, com referência à tabela I-B
anexa a esse diploma, na pena de 4 (quatro) anos e 6
(seis) meses de prisão.
Nessa peça processual o tribunal considerou provado que:
1. «No dia 31 de Maio de 2007, pelas 12.40 horas, a
arguida desembarcou no aeroporto de Lisboa, no voo
VR 606, procedente da Praia, Cabo Verde, com destino
final em Lisboa.
2. Em seguida e nas instalações do aeroporto de
Lisboa, nesse terminal aéreo, foi seleccionada para
revista pelos serviços alfandegários.
3. No decurso dessa inspecção, os funcionários dos
serviços de alfândega detectaram que a mesma
transportava dissimuladas nas pernas, envoltas em
ambas as coxas, 2 (duas) embalagens que continham
uma substância em pó, de cor branca, com o peso
líquido total de 1.983,411 gramas.
4. Submetida a exame toxicológico elaborado pelo LPC
a substância mencionada em 3.foi identificada como
cocaína (cloridrato).
5. Na mesma ocasião, a arguida tinha consigo, os
seguintes objectos e valores que lhe foram
apreendidos:
1 (um) telemóvel de marca Motorola, modelo L 6, com
cartão da TMN 0000201701867, com o IMEI nº
353008014612416, no valor de € 15,00;
1 (um) telemóvel de marca Motorola, modelo C 550,
com cartão da TMN 000016963803691, com o IMEI nº
352718003881472, no valor de € 10,00;
€ 270,00 (duzentos e setenta euros);
400 escudos de Cabo Verde;
3 folhas relativas à viagem efectuada;
1 cartão de embarque;
2 etiquetas de bagagem.  
6. O produto estupefaciente mencionado em 3. e 4.
encontrado na posse da arguida, foi-lhe entregue na
cidade da Praia, Cabo Verde, por um indivíduo de sexo
masculino, de identidade desconhecida, apenas
referenciado por “Vítor” para que transportasse aquela
substância desde Cabo Verde até Lisboa, onde seria
contactada por pessoa não identificada a quem
entregaria a cocaína.
7. A arguida tinha conhecimento de que transportava
consigo cocaína, assim como da natureza
estupefaciente dessa substância e mesmo assim, com o
único intuito de auferir proventos pecuniários, quis
fazê-lo e concretizou os seus intentos, indo receber pelo
transporte efectuado quantia aproximada a € 2.000,00.
8. Os telemóveis, importâncias em dinheiro e
documentos apreendidos e discriminados em
5.destinavam-se a ser utilizados e eram fruto da
actividade descrita em 1. a 4., todos do elenco dos
factos provados.         
9. A arguida agiu livre e conscientemente, bem sabendo
que a sua conduta era proibida e punida por lei.
10. A arguida possui nacionalidade cabo-verdiana.
11. A arguida confessou livre, integralmente e sem
reservas os factos por que vinha acusada da prática.
12. A arguida reside em Portugal há cerca de 9 anos e
começou, de imediato, a trabalhar como empregada de
limpezas e cuidando de crianças em casas particulares,
actividade que desenvolveu de modo regular, embora
sem vínculos laborais.
13. Entre 2001 e 2004 a arguida manteve um
relacionamento marital, na sequência do qual tem uma
filha com 4 anos de idade.
14. Desde a separação, há cerca de 3 anos atrás, a
arguida antes de detida residia com a sua filha na
morada constante do TIR, ficando esta aos cuidados de
uma ama, pessoa de confiança da arguida, sempre que
esta se ausentava para trabalhar.
15. A arguida, desde há um ano, mantém uma relação
com o actual companheiro, com quem nunca chegou
efectivamente a coabitar mas que a auxilia
materialmente.
16. A arguida tem familiares e amigos em Portugal, que
a apoiam, designadamente no sentido de arranjarem
emprego à arguida quando esta sair em liberdade.
17. A filha da arguida, após a detenção da mãe, ficou
aos cuidados da ama referenciada em 13., com quem
reside, recebendo a arguida assiduamente a visita da
filha no EP de Tires, acompanhada pelo pai desta.
18. A arguida não tem antecedentes criminais.
19. A arguida tem de habilitações literárias o 9º ano de
escolaridade».

2 – A arguida interpôs recurso desse acórdão.


A motivação apresentada termina com a formulação das
seguintes conclusões:
1. «Considerando que a ameaça da pena e a censura do
facto são suficientes para afastar a arguida da
criminalidade, deve a pena de prisão ser suspensa na
sua execução com sujeição a regime de prova.
2. Os factos dados como provados permitem efectuar
um juízo de prognose favorável quanto a esta arguida.
3.  O cometimento do crime de tráfico de droga, na
modalidade de "correio de droga", não pode afastar a
aplicação do instituto da suspensão da pena de prisão.
4.  O legislador, quis, com a nova redacção do CP,
introduzir a suspensão da execução da pena de prisão
aos condenados pelo crime de tráfico de droga – art. 21°
do Decreto-Lei 15/93 de 22/1.
Violaram-se as seguintes normas jurídicas: Artigos 40°
e 50° do Código Penal.
Nestes termos e demais de direito, deverá o presente
recurso obter provimento, suspendendo-se a execução
da pena de prisão aplicada à recorrente».
3 – O Ministério Público respondeu à motivação apresentada
defendendo a improcedência do recurso (fls. 307 a 315).

4 – Esse recurso foi admitido pelo despacho de fls. 317.

5 – Neste tribunal, o sr. procurador-geral-adjunto, quando o


processo lhe foi apresentado, emitiu o parecer de fls. 343 a 347,
no qual defende a improcedência do recurso.

6 – Foi cumprido o disposto no artigo 417º, nº 2, do Código de


Processo Penal.

II – FUNDAMENTAÇÃO

7 – A única questão que a recorrente suscita na motivação


apresentada é a da substituição da pena de 4 anos e 6 meses de
prisão, em que foi condenada, pela suspensão de execução da
pena de prisão uma vez que a nova redacção dada pela Lei n.º
59/2007, de 4 de Setembro, ao artigo 50º do Código Penal o
permite.
8 – Sobre essa questão deveremos dizer[1], seguindo o
ensinamento de Figueiredo Dias[2], que os fins das penas «só
podem ter natureza preventiva – seja de prevenção geral,
positiva ou negativa, seja de prevenção especial, positiva ou
negativa – não natureza retributiva».
«Primordialmente, a finalidade visada pela pena há-de ser a da
tutela necessária dos bens jurídico-penais no caso concreto» [3],
tutela essa «não obviamente num sentido retrospectivo, face a
um crime já verificado, mas com um significado prospectivo,
correctamente traduzido pela necessidade de tutela da
confiança (de que falava já Beleza dos Santos) e das
expectativas da comunidade na manutenção da vigência da
norma violada; sendo por isso uma razoável forma de
expressão afirmar como finalidade primária da pena o
restabelecimento da paz jurídica comunitária abalada pelo
crime. Uma finalidade que, deste modo, por inteiro se cobre
com a ideia da prevenção geral positiva ou prevenção de
integração; e que dá por sua vez conteúdo ao princípio da
necessidade da pena que o artigo 18.º-2 da Constituição da
República Portuguesa consagra de forma paradigmática».
Entre a medida óptima de tutela dos bens jurídicos e o mínimo
imposto pela defesa do ordenamento jurídico, «abaixo do qual
já não é comunitariamente suportável a fixação da pena sem
pôr irremediavelmente em causa a sua função tutelar de bens
jurídicos», ou seja, «dentro da moldura ou dos limites
consentidos pela prevenção geral positiva ou de integração»
«devem actuar, em toda a medida possível, pontos de vista de
prevenção especial, sendo assim eles que vão determinar, em
última instância, a medida da pena».
Significa isto que as finalidades de prevenção geral de
integração se sobrepõem às considerações de prevenção
especial, em qualquer das suas modalidades.
É o que resulta claramente da parte final do n.º 1 do artigo 50º
e do n.º 1 do artigo 40º do Código Penal.
A substituição da pena de prisão não deve ter lugar quando a
isso se opuserem «considerações de prevenção geral sob a
forma de exigências mínimas e irrenunciáveis de defesa do
ordenamento jurídico»[4].
É o que se verifica num caso como este de tráfico internacional
organizado de cerca de 2 quilogramas de cocaína.
A aplicação de uma pena de substituição, mesmo a suspensão
da execução da prisão em qualquer modalidade que pudesse
vir a ser imposta não responderia à necessidade de defesa do
ordenamento jurídico.
Por isto, o recurso interposto pela arguida não pode, em nosso
entender, proceder.

9 – Uma vez que a arguida decaiu no recurso que interpôs é


responsável pelo pagamento da taxa de justiça e dos encargos a
que a sua actividade deu lugar (artigos 513º e 514º do Código
de Processo Penal).
De acordo com o disposto na alínea b) do nº 1 e no nº 3 do
artigo 87º do Código das Custas Judiciais a taxa de justiça
varia entre 1 e 15 UC.
Tendo em conta a situação económica da arguida e a
complexidade do processo, julga-se adequado fixar essa taxa
em 4 UC.

III – DISPOSITIVO
Face ao exposto, acordam os juízes da 3ª secção deste Tribunal
da Relação em:
a) Negar provimento ao recurso interposto pela arguida E… .
b) Condenar a recorrente no pagamento das custas do recurso,
com taxa de justiça que se fixa em 4 (quatro) UC.
Lisboa, 23 de Abril de 2008

 (Carlos Rodrigues de Almeida)


 (Horácio Telo Lucas)

______________________________________________________
[1]
Tal como o fizemos já, por exemplo, no acórdão proferido no dia 12 de Março de
2008 no recurso n.º 1951/08.
[2]
DIAS, Jorge de Figueiredo, in «Direito Penal – Parte Geral», Tomo I, 2ª edição,
Coimbra Editora, Coimbra, 2007, p. 78 e segs., que se acompanhará de perto e a
quem pertencem os fragmentos transcritos.
[3]
Por isso, não se pode afastar liminarmente a aplicação de uma pena de substituição
quanto a determinado tipo de crime, verificados que sejam os respectivos
pressupostos formais e materiais.
[4]
DIAS, Jorge de Figueiredo, in «Direito Penal Português – As consequências
jurídicas do crime», Aequitas, Lisboa, 1993, p. 344, § 520.

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