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PODER JUDICIÁRIO DO ESTADO DO PIAUÍ

GABINETE DA 2ª VARA DOS FEITOS DA FAZENDA PÚBLICA DA COMARCA DE TERESINA


RUA GOV. TIBÉRIO NUNES, S/N, CABRAL, TERESINA-PI

PROCESSO Nº: 0025180-52.2016.8.18.0140


CLASSE: Procedimento Comum Cível
Autor: RAIMUNDO NUNES REGO
Réu: BELAZARTE -SERVIÇOS DE CONSULTORIA LTDA -ME, CLEIDE MARIA CARVALHO DE SABOIA,
FRANCISCO DE JESUS DOS REIS, RAYNERE NUNES PEREIRA REGO, JUNTA COMERCIAL DO ESTADO
DO PIAUÍ

SENTENÇA

Vistos etc.
Trata-se de Embargo de Declaração com efeito infringente oposto por
BELAZARTE-SERVIÇOS DE CONSULTORIA LTDA contra sentença proferida às fls.
556/571, na qual este juízo julgou parcialmente procedente a Ação para:
a) Anular o registro do ato constitutivo registrado na Junta Comercial do
Estado do Piauí em, 19/09/2013, sob o nº 29681, por ser fruto de falsificação na aposição
da assinatura, conforme laudo pericial, reconhecendo como inexistente a transferência de
80%(oitenta por cento) das cotas do capital social da sociedade empresarial realizada entre
Antônia Vaz Pereira Rêgo e Raynere Nunes Pereira Rêgo. (Aditivo Social nº 07).
b) Anular todos os atos subsequentes ao Aditivo Social nº 07 em relação a
cessão de 80% do capital social;
c) Declarar válida a transferência de 20% do capital social para os sócios
Cleide Maria Carvalho de Saboia e Francisco de Jesus dos Reis, devendo cada qual ser
detentor de 10% do capital social.
A parte recorrente aponta omissão, contrariedade, obscuridade na sentença,
quais sejam, I. Ilegitimidade ativa do Sr. Raimundo Nunes Rêgo; II. Incompetência absoluta
da Vara da Fazenda Pública; II.3.Inobservância do direito ao recurso; IV.4. das questões
relativas ao Sr. Raynere Nunes Pereira Rêgo; Das contradições da sentença;
Diante do pedido, ouviu-se a parte adversa, tendo o Embargado apontado
inexistência de omissão e contradição no julgado (fls. 582).
É o relatório. Passo a decidir.

ILEGITIMIDADE ATIVA DO SR. RAIMUNDO NUNES RÊGO

Como é sabido, os Embargos de Declaração têm seu cabimento e alcance


disciplinados no CPC, art. 1.022, in literis:

Art. 1.022. Cabem embargos de declaração contra qualquer decisão judicial


para:

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conforme art. 1º, III, "b", da Lei 11.419/2006.

A autenticidade do documento pode ser conferida no site http://www.tjpi.jus.br/themisconsulta/documento


informando o identificador 27049325 e o código verificador 4ECBE.1F9D5.454B6.4CE09.E718D.92ACF.
I – esclarecer obscuridade ou eliminar contradição;
II – suprir omissão de ponto ou questão sobre o qual devia se pronunciar o juiz
de ofício ou a requerimento;
III – corrigir erro material.
Parágrafo único. Considera-se omissa a decisão que:
I – deixe de se manifestar sobre tese firmada em julgamento de casos
repetitivos ou em incidente de assunção de competência aplicável ao caso sob julgamento;
II – incorra em qualquer das condutas descritas no art. 489, § 1º.

No presente caso, fundamenta-se a oposição dos presentes Embargos em


contradição decorrente da ausência de competência do embargado para propor a presente
ação.
O embargante alega que “o legitimado por lei para propor a presente demanda
seria tão somente o inventariante do espólio da Sra. Antônia Vaz Pereira Rêgo”, tendo em
vista que “na vara de família competente para inventariar os bens da Sra. Antônia Vaz
Pereira Rêgo, não só os seus filhos, bem como seu esposo supérstite declararam não haver
bens a inventariar”.
Inicialmente, insta salientar que legitimidade de parte é matéria de ordem
pública, conhecida de ofício em qualquer tempo ou grau de jurisdição, conforme artigo 485,
VI, § , do CPC, in verbis:
Art. 485. O juiz não resolverá o mérito quando:
(...)
VI - verificar ausência de legitimidade ou de interesse processual;
(...)
§ 3º O juiz conhecerá de ofício da matéria constante dos incisos IV, V, VI e IX,
em qualquer tempo e grau de jurisdição, enquanto não ocorrer o trânsito em julgado.

O mencionado inciso também é matéria que uma vez conhecida, impede o


exame do processo, tendo em vista que tratam de questões sobre o juízo de admissibilidade
do processo.
A possibilidade de reexame das questões denominadas de ordem pública em
qualquer tempo e grau de jurisdição, está na impossibilidade de se operar a preclusão em
razão de tais matérias, por serem de interesse que vão além dos particulares que litigam,
visando assegurar a segurança jurídica.
Corroborando tal entendimento, tem-se a seguinte jurisprudência:
AÇÃO DECLARATÓRIA DE INEXISTÊNCIA DE DÉBITO EM FACE DA
ILEGITIMIDADE PASSIVA C/C INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS. CONTRATOS
BANCÁRIOS - CÉDULA RURAL. MATÉRIA DE ORDEM PÚBLICA. NÃO CONFIGURADA A
PRECLUSÃO. INCABÍVEL EM AÇÃO AUTÔNOMA. FALTA DE INTERESSE DE AGIR. 1.A
legitimidade da parte é matéria de ordem pública e, como tal, pode ser conhecida até
mesmo de ofício, não se operando os efeitos da preclusão quanto a esta questão, conforme
inteligência art. 485, VI e § 3° do Código de Processo Civil. 2. As alegações relativas à
legitimidade passiva podem ser aviadas a qualquer tempo e por simples petição, sendo
imprópria a via processual adotada pelos autores da ação autônoma, visto que o presente
incidente deveria ser apresentado diretamente nos autos da execução. 3. Sendo incabível a

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discussão da legitimidade passiva em ação autônoma, deve ser extinto o presente feito sem
resolução de mérito, por falta de interesse de agir, na forma do art. 485, VI, do CPC. 4.
Conforme orientação firmada no âmbito do STJ, a majoração dos honorários advocatícios
em decorrência da sucumbência recursal depende da presença dos seguintes requisitos: (a)
sentença recorrida publicada na vigência do CPC/2015; (b) recurso desprovido ou não
conhecido; (c) parte recorrente condenada em honorários no primeiro grau. (TRF4, AC
5001378-17.2017.4.04.7127, QUARTA TURMA, Relator LUÍS ALBERTO D'AZEVEDO
AURVALLE, juntado aos autos em 19/06/2019)
No caso dos autos, trata-se a matéria de ordem pública, sendo imperioso se
fazer aplicar o efeito translativo, para reconhecer de ofício a ilegitimidade ad causam.
O efeito translativo, dá-se, quando o sistema autoriza o tribunal a julgar fora do
que consta das razões ou contrarrazões do recurso, não podendo falar em julgamento ultra,
extra ou infra petita. Isso ocorre normalmente com as questões de ordem pública, que
devem ser conhecidas de ofício pelo juiz e a cujo respeito não se opera a preclusão.
EMBARGOS DECLARATÓRIOS. EFEITO TRANSLATIVO. MATÉRIA DE
ORDEM PÚBLICA. ILEGITIMIDADE PASSIVA. CONHECIMENTO. PELO EFEITO
TRANSLATIVO DOS RECURSOS AS QUESTÕES DE ORDEM PÚBLICA,
ESPECIALMENTE AS DE NATUREZA PROCESSUAL, PODEM SER CONHECIDAS,
MESMO NO JULGAMENTO DOS EMBARGOS DECLARATÓRIOS. EMBARGOS
DECLARATÓRIOS CONHECI-DOS, PARA SUPRIR A OMISSSÃO, MAS SEM
EMPRESTAR EFEITO MODIFICATIVO AO JULGADO. 00001324-05.2016.5.22.0106, Rel.
Wellington Jim Boavista, Tribunal Regional do Trabalho da 22a Região, 1a Turma, julgado
em 26/02/2018.

No presente caso, questiona-se a ilegitimidade ativa do autor, o Sr. Raimundo


Nunes Rêgo.
Pois bem. A causa de pedir da demanda tem por fundamento a nulidade da
transferência de cotas empresariais da falecida Antônia Vaz Pereira Rêgo.
Ocorre que após o óbito a legitimidade de representação do espólio de cujus é
do inventariante, nos termos do art. 75, II do CPC, in verbis:

Art. 75. Serão representados em juízo, ativa e passivamente:


(…)
VII - o espólio, pelo inventariante;
(…)

Referida regra dá-se em razão do impedimento legal de requerer em nome


próprio direito alheio (art. 6º do CPC). Ora, o autor busca a anulação de negócio jurídico
praticado por pessoa já falecida.
Assim, em que pese a nulidade do negócio jurídico auferir benefícios ao autor,
tão fato por si só não caracteriza a sua legitimidade, demonstrando tão somente um
interesse jurídico, qualificando-se como um terceiro interessado na lide.
Assim, fica evidente que a sentença, é omissa quanto a ilegitimidade ativa.

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Desta forma, reconhecendo a ocorrência de omissão, acolho o presente
embargo e deixo de analisar os demais pontos apresentados nos embargos, tendo em vista
que a ilegitimidade, por si só, gera a extinção só processo sem resolução do mérito.
Diante do exposto, conheço do presente embargo de declaração, eis que
preenchidos os requisitos legais de admissibilidade, para, reformar a sentença constante às
fls. e julgar extinto o processo sem resolução do mérito, nos termos do art. 485, VI, do CPC,
por ausência de legitimidade ativa do autor.
P.R.I

TERESINA, 19 de setembro de 2019

ADERSON ANTONIO BRITO NOGUEIRA


Juiz(a) de Direito da 2ª Vara dos Feitos da Fazenda Pública da Comarca de TERESINA

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