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Copynght 0 2014 Ed'tora

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. 1: Visão Editorial' Crist,ana Gonzaga S Correa e Julia na Morais
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Capa: Departamento Editorial da Editora Manole
O ANALISTA LACANIANO E O
RELATO DO QUE SE PASSA EM SUA
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
CLÍNICA: COMO CONTAR UM CASO?
(Câmara Bras11eira do Livro, SP, Brasil)

Psicanálise: a clinica do Real/ Jorge Forbes


[editor]; Claudia Riolfi [organizadora] , ··
Barueri, SP : Maneie, 201.4.

Bibliografia,
ISBN 978-85-204-3736•0 Claudia Riolfl
1. Lacan, Jac.ques, 1901-1981 2. Psicanálise
1. Forbes, Jorge. li. Riolfi, Claudia.

C00-150.195

indices para catâlogo sistemático:


1. Lacem, Jacques: Teoria psicanc1litica
150.195

Todos os direttos reservados.


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INTRODUÇÃO
dos editores.
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do sujeito, isto é, à realidade da cura. (LACAN, 1951,
1• ed,ção- 2ou,
1� reimpressão-2015 p. 90)
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paciente em uma narrativa. Aposta que o ato de pre­
Impresso no Brasil
Printed r.n Braz1/
parar um relato clínico já é uma interpretação analítica
• entrou em
Este lwro contempla as regras do Acordo Ortografico da Lmgua Portugu esa de 1990, que
vrgor no Brastf em 2009. e, como tal, tem efeitos na condução da análise do pa­
das nesta obra.
. - .
São de responsab1hdade dos autores. da orgamzadorc1 e do edrtor as 1nforma<;ôes conti ciente cujo caso é relatado, no estado atual da análise
do psicanalista e na própria elaboração da psicanálise.
IV
Esses efeitos se devem ao fato de que o caso clínico lhe comparar a ninguém, como inclassificável por ex­
não preexiste à sua escrita. Ele é efeito do trabalho do celência. Mas há um segundo momento, o momento
analista que, para interpretar, deve exercer uma série de estruturalista, no qual nós nos referimos aos tipos de
ações: causar o laço social a partir do qual o paciente tem sintomas e à existência da estrutura. (HENRY, JOLIBOIS
vontade de falar; obter, por meio das perguntas exatas, o & MILLER, 1997, p. 268)
material necessário para construir o caso clínico; escolher
um ponto a partir de onde organizar a narrativa; e ainda Como essa posição chegou a ser construída? Na di­
cortar as informações que excedem o fio condutor para reção de responder essa questão, o presente capítulo,
poder produzir uma história compreensível. cujo objetivo mais amplo é discutir o papel da escrita
Assim, ao escrever, o analista elide o que pode servir do caso clínico na invenção da psicanálise, está dividido
de "cortina de fumaça'' para a depreensão do que é sin­ em duas partes.
gular no caso que se propõe a narrar. Ignora o que torna Na primeira, mais breve, fornecemos alguns elemen­
opaco o programa narrativo principal da vida de seu pa­ tos de ordem geral que fundamentam a apreensão da
ciente. Separando o joio do trigo, constrói o caso clínico, relação que Freud mantinha com o ato de escrever e
inexistente antes de sua operação de escrita. Ao o fazer, seus efeitos sobre a invenção da psicanálise. Na segun­
será que é guiado pela teoria ou prescinde dela? da, por meio do exame da elevação da história banal
Para Miller (HENRY, JOLIBOIS & MILLER, 1997), nem da adolescente problemática Ida Bauer ao inesquecível
uma coisa, nem outra. Em sua avaliação, circunscrever "Caso Dora", ainda hoje paradigmático para o estudo da
um caso demanda a adoção de uma posição dupla por histeria, recuperamos alguns elementos que nos permi­
parte do analista. Por um lado, quando o sujeito chega, tem vislumbrar o estatuto dado por Sigmund Freud às
o analista deve, à moda dos nominalistas, suspender histórias narradas por seus pacientes e às operações
todos os preconceitos e classificações prévias para necessárias para a sua transmudação em caso clínico.
acolher o "frescor inaugural" do paciente. Por outro, à Esclarecemos, preliminarmente, que não se trata,
moda dos estruturalistas, deve crer na existência de aqui, de um estudo histórico ou exegético, mas, sim,
espécies objetiváveis. Em suas palavras: de aprender, com o grande mestre, como um analista
- mesmo os contemporâneos, praticantes da clínica do
Na clínica, há um momento nominalista, é aquele no Real - deve escrever para tocar o seu leitor e colaborar
qual acolhemos o paciente na sua singularidade, sem para a manutenção da vida da psicanálise.
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SIGMUND FREUD E A INVENÇÃO DA ESCRITA DA
PSICANÁLISE Na verdade, começo o tratamento solicitando que me
"Freud, de novo?", pode se interrogar o leitor. Por que, seja narrada toda a biografia do paciente e a história
em pleno esforço de construir a clínica do Real, na qual de sua doença, mas, ainda assim, as informações que
não estamos preocupados com o que se explica, valeria recebo nunca bastam para me orientar. (p. 1 4)
a pena retornar ao fundador? Esclarecemos preliminar­
mente, portanto, que não buscamos explicações. Se Prosseguindo em sua argumentação, confessa inclu­
aqui retornamos a Freud, essa escolha se deve ao fato sive que, para poder concretizar a escrita de um caso, o
de concordarmos com a avaliação de Forbes (201 O), analista deve contar com a "incapacidade dos doentes
para quem, "além de nos explicar, Freud deu dicas para desfazerem uma exposição ordenada de sua biogra­
um mundo menos chato", mais especificamente, em fia no que ela coincide com a história de sua doença"
dois de seus trabalhos, publicados em 1908: "A novela (FREUD, 1905, p. 14-5).
familiar do neurótico" (Romances familiares) e "O poe­ Um pequeno excerto, dedicado ao esclarecimento do
ta e o fantasiar" (Escritores criativos). estatuto dado pelo psicanalista aos fatos empíricos rela­
Como essas dicas nos foram dadas? Se consultarmos tados pelos pacientes, pode nos auxiliar a compreender
os inúmeros textos que se dedicam ao exame do modo que, para o pioneiro, uma psicanálise não se faz de rees­
como Freud relatava seus casos clínicos, poderemos crita, mas, sim, da ressignificação dos fatos narrados,
verificar que um julgamento é praticamente consensual: que, ao serem relatados, são reconstruídos. Leia-se:
o de que o autor, oscilando entre um modelo literário e
um modelo científico, inaugurou uma escrita até então O fato de que o sujeito revive, rememora, os eventos
inexistente. Teria ela o caráter de uma transmudação formadores da sua existência, não é tão importante.
dos fatos narrados pelo paciente para a escrita? O que conta é o que ele disso reconstrói. O de que se
Não parece ser o caso. Se examinarmos, por exemplo, trata é menos lembrar do que reescrever a história
a introdução feita por Freud ( 1905) antes da escrita de (FREUD, 1 934, p. 21 -2)
seu célebre "Caso Dora", veremos que o autor declara,
explicitamente, a impossibilidade de escrever um caso Este aspecto relativo à participação do analista na
sem uma participação, no mínimo bastante ativa, por reconstrução da história que, por meio da análise, pode
parte do analista. Ele afirma: ser reescrita, é central no caso clínico que tomamos
como exemplo neste capítulo. Antes de prosseguirmos
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com a exposição, cumpre pontuar que, cerca de cin­
milhança da narrativa; e, por fim, argumentar de modo
quenta anos após a formulação de Freud, ele foi reco­ cientificamente válido. Posto isso, passemos ao detalha­
nhecido por Lacan, como se lê no que se segue: mento de como ele faz.

[ ... ] o Caso Dora é exposto por Freud sob a forma de Freud pesquisa
uma série de reviravoltas dialéticas, durante as q uais, A posição de Sigmund Freud, ao receber um caso clíni­
pouco a pouco, Freud consegue 'revirar' a lógica do co, está longe de poder ser associada com a de alguém
que Dora dizia, levando-a a perceber sua implicação que, diante de um novo caso clínico, permanece em
nos males dos quais se queixava. Não se trata aqui uma inércia esperançosa. Ele observa, inquire, formula
de um artifício de ordenamento [ ... ] trata-se de uma hipóteses e as testa. O Quadro 1 , na sequência, nos
escansão das estruturas onde se transmuda para 0 traz um fragmento de cena por meio do qual se pode
sujeito a verdade [ ... ] (de) sua própria posição en­ ver que o austríaco não estava só observando sua pa­
quanto sujeito... (LACAN, 1951 , p. 90) ciente naquele dia, como costumava fazê-lo.

Quadro 1 Observação direta do comportamento do paciente


Uma série de questões se coloca para o leitor. A partir ---- -- --- --
Ocorre que, nesse dia, ela trazia na cintura uma bolsinha porta-moedas
de que ponto o analista lê o caso? Como gera suas revi­
do fonnato que havia entrado em voga (coisa que nunca fizera antes
ravoltas dialéticas? Como as registra na construção da nem faria depois ) e, enquanto falava estendida no divã, pôs-se a brincar
narrativa sem as degradar para um artifício de ordena­ com ela: abria-a, introduzia um dedo, tomava a fechá-la, etc. Olhei-a por
mento? Como marca a posição do sujeito que é tomado algum tempo e depois lhe expliquei o que vem a ser um ato sintomático.

em análise? No que segue, essas questões cruciais estão Chamo de atos sintomáticos as funções que as pessoas executam,
como se costuma dizer, de maneira automática e inconsciente, sem
respondidas por meio de recortes do texto de Freud.
reparar nelas, como que brincando, querendo negar-lhes qualquer
significação e, se inquiridas, explicando-as como indiferentes e casuais.
O QUE FREUD FAZ QUANDO CONTA UM CASO? A observação mais cuidadosa, porém, mostra que tais ações, das quais
Por meio de exemplos, mostraremos as principais opera­ a consciência nada sabe ou nada quer saber, expressam pensamentos e
impulsos inconscientes, sendo, portanto, valiosas e instrutivas enquanto
ções realizadas por Sigmund Freud na direção de construir
manifes tações pennitidas do inco_t:t�iente. (EREUD , 1905 [1901 ), �- X3)
um caso clínico, quais sejam: pesquisá-lo; construir a nar­
rativa, respeitando seus aspectos estruturais canônicos;
explicitar os métodos empregados para obter a verossi-
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Vê-se, portanto, que se é verdade que, ordinariamen­
te, Freud se subtraia do olhar do paciente, não é me­ sonho, essa questão se deve ao seu julgamento prévio
nos verdade que ele não se privava de utilizar o próprio de que ·havia necessidade clínica de "estabelecer a re­
olhar para, por meio da observação direta dos detalhes lação" entre os acontecimentos empíricos e o material
introduzidos na sessão pelo paciente, pudesse utilizá- presente no sonho. Desse modo, vê-se que as pergun­
-los, seja para elaborar hipóteses, seja para con firmar tas de Freud são sempre consequentes.
as hipóteses já formuladas.
O Quadro 2, por sua vez, mostra que, ao prosseguir 0 Freud narra
curso da sessão, Freud costuma ter em vista o estado Se tomannos qualquer livro no qual se encontrem
atual de sua pesquisa antes de formular as questões por questões ligadas ao ensino da escrita (p. ex., RIOLFI,
meio das quais pode avançar em sua formulação. 2008), veremos que, ao narrar, Freud segue passo a pas­
so o modelo da narrativa escolar, do tipo mais clássico
Quadro 2 Transcrição de diálogos com questões do analista ensinado para crianças nas fases intermediárias de sua
Cabia-me agora estabelecer a relação entre os acontecimentos em L e escolarização. Em primeiro lugar, como se lê no Quadro 3,
os sonhos do mesmo teor que ela tivera nessa época. Assim, perguntei: o autor constrói a relevância do fato a ser narrado, intro­
você teve o sonho nas primeiras noites em L ou nas últimas, antes de sua duzindo a narrativa por meio de uma operação argumen­
partida? Quer dizer, antes ou depois da conhecida cena no bosque? (De tativa que visa a persuadir o leitor que o investimento de
fato, eu sabia que a cena não ocorrera logo no primeiro dia, e que depois tempo necessário para seguir a narrativa vale a pena.
disso ela ainda permanecera alguns dias em L sem deixar transparecer
nenhum indício do incidente.) Sua primeira resposta foi "Não sei", mas, Quadro 3 Explicitação dos motivos que levaram o narrador a
passados alguns momentos, acrescentou: "Mas creio que foi depois". contar a história
Portanto, agora eu sabia que o sonho fora uma reação àquela experiência.
O presente fragmento da história do tratamento de uma jovem
M�s po�que s� repetira ali três yeze� _(FREUD, 1905 ( l�Q 1 l.,_p. .§?·?) histérica destina-se a mostrar de que forma a interpretação dos
._
sonhos se insere no trabalho de análise. Ao mesmo tempo, dar­
me-á uma primeira oportunidade de trazer a público, com extensão
Sem entrar nos detalhes clínicos que podem ser fa­
suficiente para evitar outros mal-entendidos, parte de minhas
cilmente esclarecidos pelo leitor que se disponha a ler concepções sobre os processos psíquicos e condições orgânicas da
0 caso na íntegra, cumpre esclarecer que Freud não histeria. (FREUD, 1905 ( 1901 ], p.13)
faz perguntas ale·atoriamente; ao contrário. Quando ele ,
por exemplo, interroga Dora a respeito da dat a de seu
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128
Quadro 4 Características físicas e psicológicas da protagonista
Ao ler O fragmento transcrito no Quadro 3, o leitor
não só se orienta com relação ao grande tema da nar­ (continuação)
tarefas domésticas. Dora procurava evitar os contatos sociais; quando
rativa (a histeria) e conhece o recorte escolhido (pro­
a fadiga e a falta de concentração de que se queixava o permitiam,
cessos psíquicos e condições orgânicas) como também
ocupava-se em ouvir conferências para mulheres e se dedicava a
descobre antecipadamente qual será o "ponto de fu gah �o_u, P 2 .!l
estu dos r:na� 3�rios.: _(FREU�, 1 �O� [_1 ...:
da narrativa (a inserção da interpretação de son hos
no curso de uma análise). De posse desses elementos,
pode optar por prosseguir, ou não, com a leitura. Se, para preservar a identidade da paciente, não são
Posto isso, prossigamos pelo exame dos aspectos oferecidos detalhes que permitissem sua identificação
estruturais das narrativas escolares. Lendo-se os casos
(p. ex., s,e era loira ou morena), as substituições feitas
escritos por Freud, vê-se que as marcações textuais que
por Freud bastam para que o leitor retenha o essencial
permitem a construção de personagens, espaço e tem­
a respeito do julgamento do escritor: a protagonista era
po se encontram claramente delimitadas. Desse modo,
bonita e ,inteligente. Os mesmos cuidados são tomados
o psicanalista constrói um texto claro, cuja progressão
com relação aos personagens secundários, como se lê
textual é acessível a todos os leitores, inclusive aos não
no Quadro 5, na sequência.
especialistas. Iniciemos a exemplificação pelo cuidado
com o qual a descrição do protagonista da narrativa (o
Quadro S Descrição dos personagens secundários
paciente) é construída, como se lê no Quadro 4, a seguir.
o círculo familiar de nossa paciente de dezoito anos incluía, além dela
Quadro 4 características fisicas e psicológicas da protagonista própria, seus pais e um irmão um ano e meio mais velho que ela. O
pa i era a pessoa domi nante desse círculo, tanto por sua intel igência
Entrementes Dora havia crescido e se transformar
a numa moça em e seus traços de caráter como pelas circunstâncias de sua vida, que
flor, com feições i nteligentes e agradávei s,
mas que era fonte de
sérias preocupações para seus pais. O forneceram o suporte sobre o qual se erigiu a hi stóri a infant il e patológi ca
desâni mo e uma alteração do
caráter se ti nham tomado agora os da paci ente. Na época em que aceite i a jovem em tratamento, seu pai
princ ipai s traços de sua doença.
Era evidente Que não estava satis já beirava os c i nquenta anos e era um homem de atividade e talento
feita consigo mesma nem com a
família, tinha uma atitude i nam bastante incomuns, um grande industrial com situação econômica
istosa em relação ao pai e se dava
f!!!Ji to ma� com a mãe, que esta muito cômoda. (FREUD, 1905 [1901 ])
v� dete_ rmi_nada a f�ê-la_p�rti_cipa.!:_��
(continua)

130
Protagonista e personagens secundário s são ai
nda Q,iacto 7 Marcas terJl)Orais que permitem a reconstrução do caso
ente reme tido s ao espa ço físico n
CUI•dadosam ..
o qUai
Os
perm itind o que, co (continuaÇão)
eventos ocor rem, mo se lê no Q
o cená Í896 . Cena do be ijo.
dro 6, 0 leitor possa locali zar rio no qual O dr
a�:­
1898 . (Princípios do verão:) Primeira visita de Dora a Freud. (Fins de
da neurose é construído. junho:) Cena junto ao lago. (Inverno:) Morte da tia. Dora em Viena.
l899 - (Março:) Apendicite. (Outono:) A família deixa B e se muda para
Quadro 6 Localização geográfica dos prin cipais eventos a cidade onde ficava a fábrica.
_
N� outo� segui�te, como a saúde do pai parecia justificar ess� 1900 - A família se muda para Viena. Ameaça de suicídio. (Outubro a
a família deixou defmitivamente a estação de B, mudan do-se a princípio dezembro:) Tratamento com Freud.
1901 - Redação do caso clínico.
para a cidade onde ficava a fábrica do pai e, depois, decorrido pouco
1902 - Última visita de Dora a Freud.
menos de um ano, fixando residência permanente em Viena. (FREUD,
1905 - Publicação do caso clínico.
1905 [19011}
(STRACHEY, James. Apud FREUD, 1905 [1901] Nota do editor inglês:
17-18)

Por fim, como se lê no Quadro 7, Sigmund Freud é


cuidadoso o suficiente na inclusão de marcas temporais O cuidado com o fornecimento de todos os elementos
explícitas ao longo da narrativa de forma que, a partir estruturais necessários, por parte de Freud, permite ao
de seu exame, um estudioso (p. ex., seu editor inglês leitor acompanhar a construção do enredo - no caso,
James Strachey) consiga reconstruir o caso cronologi­ utilizando-nos aqui de uma passagem marcada por Jorge
camente. Forbes - caracterizado por ser uma tragédia que Freud
tenta elevar para um drama clínico (FORBES, 1989).
Quadro 7 Marcas temporais que permitem a reconstruÇão do caso Assim, Freud inicia a exposição da história de Dora
1882 - Nas.cimento de Dora. por uma espécie de exposição que permite contrastar o
1888 • Pai tuberculoso. Família muda-se para 8. curso normal dos acontecimentos com a situação con­
1889 • Enurese noturna. flitiva que leva o protagonista a procurar auxílio junto a
1890 · Dispneia. terceiros.

---- ---
1892 • Deslocamento da retina do pai.
1894 • Crise confusional do pai. Visita dele a Freud. Enxaqueca e tosse
nervosa.
- - --- -- a)
(continu

133
132
efeitos ge rados pela quebra
QumS �........ dos
....___;,.J1t> _ - Quadro 9 Explicitação do momento de quebra do curso normal
. -an os, ela entrou em tratamento comigo, tossia _dos �contec�ntos (co_ntinuação)
Quando, aos dezoito Em seguida voltou e, em vez de sair pela porta aberta,
. O numero des ses aces sos externas.
eira característica.
novament e de man estreitou subitamente a moça contra si e depôs-lhe um beijo nos lábios.
. do mas sua duração era de três a cinco
não pôde :ser determina Era jus tamente a situação que, numa mocinha virgem de quatorze anos,
vários meses. O sintom a
semanas, e numa ocas,ao •- se estendeu por despertaria uma nítida sensação de excitação sexual. Mas Dora sentiu
uma dess as crises,
. . • a primeira metade de
mais incomodo duran te naquele momento uma violenta repugnância, livrou-se do homem e
ser a perda completa da
1 s anos costumava
pelo menos nos u• it·mo
passou correndo por ele em direção à escada, daí alcançando a porta

-----· ----
ZO) da rua. (FREUD, 1905 [1901 ], p. 25-6)
voz. (FREl!JD, 1905 [1901], P·

O caráter pitoresco do evento narrado no Quadro 9


Nessa direção, é importante notar o cuidado de Freud permite-nos, neste momento, voltar nossa atenção para
com o leitor ao precisar, inclusive, o momento da que­ o cuidado de Freud com a construção da verossimilhan­

bra nele gerado por meio do encontro do protagonista ça da narrativa. O que permite ao psicanalista julgar a
com um evento inusitado que, para ele, à moda das nar­ sinceridade das palavras que lhe são dirigidas? E ainda, o
rativas épicas, por exemplo, introduziu um conflito em que garante que ele mesmo seja um narrador confiável?
sua vida. Isso está exemplificado no Quadro 9, a seguir. Estamos, então, prontos para discutir como Freud cons­
trói as condições de verossimilhança de sua narrativa.
Quadro 9 Explicitação do momento de quebra do curso normal
dos acontecimentos Freud explicita as condições para a obtenção da
Dora comunicou-me uma experiência anterior com o Sr. K., mais bem verossimilhança
talhada ainda para operar como um trauma sexual. Estava então com Freud é muito cuidadoso na construção da imagem de
quatorze anos. O Sr. K. combinara com ela e com sua mulher para que, à si próprio como um interlocutor digno de confiança.
tarde, ela,s fossem encontrá-lo em sua loja comercial, na praça principal
No Quadro 1 O, a seguir, podemos ver que, longe de
de B, para dali assistirem a um festival religioso. Mas ele induziu sua
mulher a ficar em casa, despachou os empregados e estava sozinho
tentar convencer o leitor de que o psicanalista é uma
quando a moça entrou na loja. Ao se aproximar a hora da procissão, espécie de super-homem, o austríaco, ao colocar o es­
" a• moça que o aguard
pe diu tado atual de sua análise em jogo, leva-nos a avaliar
asse na porta que dava para a escada que
leva� ao ª�!' superior, enquanto ele s que estamos em face de uma pessoa criteriosa e co­
- portas corrediça
abaixava as
(continua) nhecedora dos próprios impasses e limitações.

135
134
para o analista que conta um caso". Assim, se você que
7. Tome notas do que é relevante para construir um
acaba de ler este capítulo vai se dedicar à redação de
caso. Caso você anote tudo, se arrisca a ter uma ten­
um caso clínico, tenha certeza de seguir, não seguindo,
dinite. Caso não anote nada, vai fritar na cama, de tão
os seguintes passos:
angustiado.
8. Opere sobre os significantes anotados, esvaziando-os
1. Após escolher um caso, estude a composição dos ca­ de sentido. A ideia é que o seu leitor tome conhe­
sos clássicos semelhantes. Pega mal tentar inventar cimento do gozo do paciente, não das fantasias e
a roda outra vez. sintomas de seu analista.
2. Ao narrar, esteja mais preocupado em fazer a psica­ 9. Dê-se ao luxo de construir um ponto de vista. Como o
nálise ressoar do que com a fidelidade a qualquer teo­ mundo é velho e a psicanálise tem mais de cem anos,
ria prêt-à-porter. Você quer partilhar com os pares o provavelmente alguém já falou algo a respeito do que
que descobriu em sua clínica, não continuar mandan­ você tem a dizer, mas, se este alguém não foi você, é
isso que o leitor precisa conhecer.
do cartas de amor aos seus autores prediletos.
1O. Colha ellementos para emoldurar o que você quer
3. Separe o que é fundo do que é saliente. Um diamante
mostrar. Sem um contraste, o olho humano se perde
pode ter o mesmo peso, mas não tem o mesmo valor
no indiferenciado. Sem um fluxo do que é o "normal"
de um pedregulho.
da vida da pessoa, ftca difícil mensurar sua crise.
4. Desfolhe os modos cristalizados da vida genérica. Se
11. Ressignifique inventivamente o que foi escutado. Se o in­
é para dizer algo que é verdade para todo e qualquer consciente existe, é verdade que não há pessoa alguma
um, para que dizer? Todo mundo já sabe. capaz de saber, de antemão, por que disse tudo o que
s. Selecione o detalhe clínico que merece ser narrado. disse. Construa a sessão. Faça sua parte.
Você quer dar a ver algo relevante da singularidade 12. Redija o caso de modo a dar a ver um aspecto inusita­
do gozo do paciente, não enlouquecer o seu leitor do. Não há porque gastar tempo e matar uma árvore
com preciosidades enciclopédicas. se for para redigir o que todo mundo já sabia, menos
6. Localize o que, para além das capturas imaginárias e você. Seja curioso. Normalmente, até o mais chato
simbólicas, fez marca no corpo. Se a clínica do Real dos seres humanos tem um "charme secreto" que
se funda na possibilidade que este tem de juntar 0 merece ser digno de atenção, caso seja investigado.
simbólico com o corpo, por que mesmo você deixaria
isso de fora? 141

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