UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA CENTRO DE EDUCAÇÃO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO

Ensinar exige disponibilidade para o diálogo: uma contribuição metapsicológica à uma premissa freiriana para o ato educativo

Katherinne Rozy Vieira Gonzaga

João Pessoa (PB) Agosto de 2009

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da Universidade Federal da Paraíba. João Pessoa (PB) Agosto de 2009 2 . Professoras Edineide Jezine e Socorro Xavier. para a conclusão da disciplina Educação Brasileira.Katherinne Rozy Vieira Gonzaga Ensinar exige disponibilidade para o diálogo: uma contribuição metapsicológica à uma premissa freiriana para o ato educativo Trabalho apresentado ao Programa de PósGraduação em Educação.

1996. 39ª ed. impregnava e assegurava a submissão à ideologia dominante ou o domínio de sua ação educativa. 2 Mestranda em Educação (CE/PPGE/UFPB). como matéria-prima inicial para a descoberta de novas palavras. Membro da Sociedade Psicanalítica da Paraíba (SPP). sim. ou seja. Quando fui outro. etc. dificuldades silábicas e. Psicóloga Clínica – Psicanálise. P. Freire defende entre os saberes essenciais à prática educativa. estabelecer uma relação dialógica com o alfabetizando/educando. exploradores.. sendo este processo favorável à criatividade. a palavra . para o diálogo. ou 1 FREIRE. Ele lembra que dizer é renovar. – Rio de Janeiro: Objetiva. 3 PESSOA. quando defende que o ato de ensinar requer disponibilidade. coordenando-a sem apoderar-se dela ou determiná-la. 4 Termo utilizado por Althusser para explicar a função da escola. ou seja. uma vez que considera todo o processo educativo marcado pela relação dialógica.. de sílabas. ou seja. agem e se sentem explorados. São Paulo: Paz e Terra.Ensinar exige disponibilidade para o diálogo1: uma contribuição metapsicológica à uma premissa freiriana para o ato educativo Katherinne Rozy Vieira Gonzaga2 “Dizer! Saber dizer! Saber existir pela voz escrita e a imagem intelectual! Tudo isto é quanto a vida vale (. E é o que traz Paulo Freire em sua premissa para uma pedagogia da autonomia.)” Fernando Pessoa. Membro do Centro Jean Laplanche – Psicanálise. de maneira que eles acreditem estarem de acordo. que a maioria das pessoas angustia-se pela dificuldade de dizer o que vê e o que pensa. 20063 O poeta e filósofo Fernando Pessoa destaca. 3 . para o educando. letras. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. mas que também divulgava. O autor evidenciava a escola como uma instituição geradora de conhecimento. incutindo nos agentes da produção o desempenho de suas tarefas.a comunicação. em sua prosa A Maioria da Gente Enferma (2006). sobretudo. assim como também considera o diálogo . concluindo que dizer e saber dizer são condições à existência. FERNANDO. por parte do educador. seja condição sine qua non a uma educação libertadora do aparelho ideológico escolar4. o saber de se disponibilizar ao diálogo. a partir da fala a pessoa tem a possibilidade de construir novos sentidos e reconstruir outros. 2006.como meio de descoberta.

assim como no reconhecimento de seus deveres.. uma ciência transversal. Cortez. A CONFINTEA VI NO CONTEXTO DO BRASIL E DA AMÉRICA LATINA: Uma oportunidade para a Educação Popular.org/pt/confinteavi/> Acesso em 24 de maio de 2009. – uma vez que é exaltado como mestre por muitos. mas também vislumbrar o planeta como uma escola permanente. geradora de tomadas de decisões. Não se trata de ver somente a „Cidade Educativa‟ (Edgar Faure). datada de 29 de maio de 1996. intitulado Paulo Freire: uma Biobibliografia.com.unesco. uma educação com conseqüências autonômicas. quando cita Gadotti: A pedagogia é. 2001. com vistas a conscientizar o educando sobre o meio e as situações em que vive. Sempre com vistas a alcançar uma escola cidadã.7 Autor. podemos aprender e apreender entendendo que Paulo Freire percebia a educação como um elemento de formação da cidadania. nacionais e internacionais. autônoma.pdf Acesso em 27 de abril de 2009. e lembra ainda que Paulo Freire tem sua obra traduzida em duas dezenas de línguas. Carlos Alberto. centrada na questão do ensino e aprendizagem de uma educação com qualidade social5.seja. propõe a prática de círculos de cultura para o exercício da relação dialógica entre educador e educando. pensador e/ou educador.br/anpae/62.isecure. Novos Pontos de Partida da Pedagogia Política de Paulo Freire. 5ª ed. participativa. (. na gestão colectiva do conhecimento social que deve ser socializado de forma ascendente. anunciado em uma reportagem da revista Veja. teórico.000 estudiosos ou admiradores. amado ou odiado. com a participação de 150 autores. na sua essência. incluindo 5 GADOTTI. Paulo Freire. democrática. Moacir Gadotti organizou um “livro-monumento” em 1996. Com Torres. de responsabilização política e social ao educando. mas sempre supracitado. 4 . 7 FREIRE. Disponível em <http://www. humanizada e de qualidade. seja concordando com ele ou não. Política e Educação: ensaios..é um criador digno de atenção. P. citando 3.6 Assim. Moacir. Para tanto. foi alvo de críticas positivas e negativas. . Disponível em <http://www. mas também criticado e descrendenciado por tantos outros . Freire entende a educação como veículo de substrato ao sujeito para usufruir de seus direitos políticos e civis de um Estado.São Paul.) [Freire] insistia na conectividade. que enfatiza as suas 766 páginas. 6 TORRES. enfatizando sua capacidade crítica e criativa. Paulo Freire sempre movimentou e povoou o pensamento de educadores e educadoras.

Neste sentido. 19. o sujeito muda de postura. Idem. faria do homem sujeito ativo de sua história. imaginamos uma questão em torno de sua obra. p. Paz e Terra. que a prática freiriana atinge seus objetivos. Rio de Janeiro. é bem verdade. o povo. a partir da relação dialógica. sem consciência e sem opção diante das oportunidades do Estado. Sergipe e Rio Grande do Sul receberam seus cursos). em aproximadamente 45 dias. respeitado como pessoa e não visto apenas com mero instrumento alienado. Alfabetizar as camadas populares. (. refletindo e auto-refletindo sobre as situações em que vive e que o permeiam? A proposta deste artigo é discutir sob uma perspectiva metapsicológica10 o uso e a efetividade da palavra para o processo de ensino-aprendizado criado por Paulo 8 9 FREIRE. e mais tarde espalhando-se pelo cenário internacional.. A considerar os resultados8 obtidos com suas primeiras experiências. pela força de Paulo Freire na educação contemporânea. abrangendo primeiramente os setores urbanos e na seqüência os setores rurais. quando alfabetizou um grupo de adultos camponeses. Educação que.o chinês e o grego. iniciando uma campanha de alfabetização. 10 Metapsicologia. tanto para os que o admiram quanto para os que o criticam. autonomia e liberdade de expressão. através de uma educação que as colocasse numa postura de auto-reflexão e de reflexão sobre o seu tempo e seu espaço.) [tendo sido] inadiável e indispensável uma ampla conscientização das massas brasileiras. 5 . Paulo. 9 E uma questão que ocorre é: o que acontece do ponto de vista psicodinâmico. Educação como prática da liberdade. cerca de 300 trabalhadores. destacando a sua influência no pensamento de uma considerável parte do mundo. São Paulo. seja uma força de mudança e de libertação. Bahia. 2008. desvestida da roupagem alienada e alienante. ou seja. p. evidente. do funcionamento psíquico dos alfabetizandos que. um sujeito de escolhas críticas. FREIRE. P. e a dimensão que seu trabalho passou a ocupar no cenário nacional (Estados como Rio Grande do Norte.. Educação que renarcisaria a sociedade. 44. termo utilizado por Freud para dar a conhecer uma psicologia que considera o inconsciente. na década de 60. ou seja. com vistas à leitura. escrita. 31ª Ed..

Merleau-Ponty. com vistas a manter o homem pensando. “Todo empenho do Autor se fixou na busca desse homemsujeito que. ao invés disso. Na nascente de suas idéias sobre uma educação libertadora. resultados. dentre outros. velhos conhecidos e novos ansiados. como sujeito pensante.Freire. E neste sentido. na época. Freire divulga suas idéias sobre o homem e sua relação com o meio em que vive. o forma. livre para suas escolhas e idéias. uma vez que privilegia a relação dialógica. recriação e decisão”12. Freire defende uma prática educativa geradora de liberdade ao sujeito. 51.”11 Paulo Freire apóia-se em autores como: Erich Fromm. Freire. Muito embora. acomodar-se a ele. Destaca a necessidade de o homem estar integrado ao seu contexto e o risco de. p. 6 . sendo uma relação de “criação. portanto. Pinto. implicaria em uma sociedade também sujeito. FREIRE. tendo em vista que é este processo que permite ao homem criar e criticar. refletindo e criticando. sem condição para julgar e opinar. Marcuse. Karl Marx. Jean Paul Sartre. necessariamente. Para Freire. a privação da liberdade. experimentava um processo de mudança. 44. Idem. P. a integração é resultante da capacidade de reconhecer e reconhecer-se diante da realidade e da capacidade de transformá-la. pois. assim. Paulo Freire: para uma educação libertadora A educação libertadora intencionada por Freire visa o reconhecimento do homem popular. crítico e criativo. Com sua seguridade baseada nestes autores. ele evoca a importância de temas a serem discutidos. revela uma sociedade em que. Álvaro V. sem consciência crítica e. gerando a ele a liberdade. uma vez que a relação estabelecida do homem com o meio em que vive. responsabilizando-se por ele. considerando seus. torna-o ajustado e acomodado. P. Fanon. caracterizada 11 12 FREIRE. ao mesmo tempo que o faz. esta tarefa exija uma constante atitude crítica. Antônio Gramsci. p. dinamiza o meio. a realidade. satisfatórios. Idem. dominando. do homem oprimido. Para isso.

ativismos. sobretudo. temas e tarefas. que propusesse ao povo reflexão sobre si mesmo. 7 . humilde e. comunicativa. é acolher o que lhe é estranho. é refletir de forma crítica. que estava na convicção do inacabado. que Freire destaca: a condição para a transformação é a responsabilização. Para ele. A responsabilidade é um dado existencial. gerada pela concepção radical. neste sentido. Para Freire a fase de trânsito. violentando-o. P. antidiálogos. respeitando sua escolha. instigando-o a fazê-la de modo irreflexivo. a capacidade de o sujeito pensar. com a sociedade em processo acelerado de mudança surgem as contradições entre os novos e os velhos temas. Assim. suscitando atitudes optativas. trazia a esperança. p. o sujeito só se responsabiliza por aquilo em que está implicado. Já o homem sectário.”13. o direito de escolha. O homem radical apresenta uma postura crítica e reflexiva. reconhecer o outro é permitir espaço para discussão. Idem. não sendo viável incorporá-la ao homem de maneira intelectual e sim através das vivências. anticomunicações e fanatismos. como lembra Freire. 13 FREIRE. com absolutismos. Uma educação crítica. uma vez que nega a ele. “Sendo a fase de trânsito o elo entre uma época que se esvaziava e uma nova que ia se consubstanciando. E é através do desenvolvimento deste sentimento de pertença. tinha algo de alongamento e algo de adentramento. Esperança crítica e reflexiva. o direito do outro. nadifica o outro. portanto. como mecanismo de inserir o sujeito no processo de transformação cultural a educação. reconhece o direito de optar do outro. pois. No entanto. sobre seus problemas é a via de transformação do meio em que vive. instituía um clima de esperança. Paulo Freire propõe como instrumento para auto-responsabilização. quando se reconhece. através de posturas radicais assumidas pelos sujeitos. tendo em vista que se reconhece a incompletude quando se reconhece a diferença em relação ao outro. Esta sociedade marchava em alta velocidade em busca de novas idéias. de esperança reflexa-crítica.como sociedade em trânsito. é suportar o que lhe é estranho e. criticamente e conscientemente. Posições assumidas a partir do processo de trânsito que caracterizam a radicalização e a sectarização no homem. 56.

deste levantamento escolhem-se palavras a serem trabalhadas. um Método de investigação psicossociológica uma vez que possibilita aos sujeitos participantes apropriarem-se de inúmeros aspectos de sua vida psíquica e real. Um método que faça uso do diálogo. participante e crítico. Idem. chamadas por ele de temas geradores. p. Mas para que este diálogo ganhe sentido ele precisa implicar o sujeito que fala. se diz dela que seu pecado é ser „teórica‟. Faz comunicados. Aquele que fala precisa ser parte integrante do que ele dialoga. p. 8 . E nesta perspectiva. Freire sugere um método ativo. Identifica-se assim.sobre seu tempo. Em poucas palavras o método de ensino-aprendizagem proposto por Paulo Freire acontece em cinco fases que se fazem: por um levantamento do vocabulário adjacente à população com quem se trabalhará. dialógico. [Mas] Nossa educação não é teórica porque lhe falta esse gosto da comprovação. Não comunica. Freire propõe discussões que girem em torno da vida. 14 Ele lembra: “Quase sempre ao se criticar esse gosto da palavra oca. É „assistencializadora‟. da invenção. Um diálogo que não se perca na verbosidade acima salientada. É „sonora‟. FREIRE. depois. de situações da vida e aspectos da realidade dos alfabetizandos. coisas diferentes. p. P. P. P. Idem. 16 FREIRE. Para ele. da verbosidade. portanto. 67. Palavresca. absurdamente. criam-se situações tipicamente vivenciadas pelo grupo de alfabetizandos. em nossa educação. teoria com verbalismo. que provavelmente passariam despercebidos em outras condições de ensinoaprendizagem que não se valorizam as discussões de situações vivenciadas pelos componentes do grupo. 101. Ela é verbosa. da pesquisa. suas responsabilidades e seu papel no clima cultural da época. comunique. que ganhe sentido e. Idem. 158. 16 14 15 FREIRE.”15 Para tal educação. em seguida. elaboram-se fichas-roteiro para auxiliarem os coordenadores nos debates e por fim. fazem-se fichas com a decomposição das famílias fonêmicas referentes aos vocábulos escolhidos.

Idem. que o acolha física e afetivamente) e bebê. na coerência entre o que faço e o que digo. criticidade e reflexividade ao educando.) É no respeito às diferenças entre mim e eles ou elas. da falta. P. de que sou o „maior‟. para a aquisição da condição do sujeito em identificar e acolher a diferença.20 Com isto o professor revela a importância do sentimento de segurança para a prática do diálogo.. 9 . Uma vez que. 39ª ed.. (. entre mãe (ou quem quer que cuide dele. lidando com ela no intuito de conhecê-la e respeitá-la.. segurança para deixar o outro se expressar sem querer negá-lo. Não à toa. ensinar é próprio do humano e “exige disponibilidade para o diálogo”. autonomia. O professor lembra: (. São Paulo: Paz e Terra. 18 Conceito utilizado pelo psicanalista Winnicott para ilustrar no relacionamento interpessoal.como essencial à disponibilidade ao diálogo. E esta atitude exige da parte de quem se disponibiliza. Idem. que o materne. 1996. integrando-a ao conjunto de saberes já conhecidos.O Método freiriano evidencia o lugar da linguagem. além de conhecimento. para ele. Minha segurança se funda na convicção de que sei algo e de que ignoro algo a que se junta a certeza de que posso saber melhor o que já sei e conhecer o que ainda não sei.. sem querer abafar o que ele tem a dizer. que me encontro com eles ou com elas. de uma educação geradora. condições necessárias a uma prática pedagógica que se ocupe de uma educação efetiva. 135. 19 FREIRE. p. p. do diálogo no processo e prática educativos. a relação dialógica se instala quando se permite ao outro falar e respeitase o seu direito de optar. 135. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. o cuidado e acolhimento necessários ao desenvolvimento da criança. 17 FREIRE. indispensável à própria disponibilidade. É na minha disponibilidade à realidade que construo a minha segurança.) Minha segurança não repousa na falsa suposição de que sei tudo. uma vez que esta prática implica a consciência de ser inacabado. Para ele. em seu livro Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa17. – o saber de que não se sabe tudo .19 Um saber essencial à prática educativa: dialogar Freire considera o reconhecimento do inacabado. da incompletude. Freire coloca as condições para o educador e/ou professor ser suficientemente bom18. 20 FREIRE.

que atinge os desdobramentos acima referidos? Como se processa a mudança de postura no alfabetizando. assim como também. reconheça no outro a falta. da própria condição. mas. além do sentimento de segurança ser desenvolvido a partir do conhecimento reconhecimento desta falta. 21 De certo as idéias freirianas de uma metodologia de ensino-aprendizagem que enfatize a relação dialógica entre educador/professor e alfabetizandos. assim como na forma de lidar com os desafios da vida cotidiana. Paulo Freire considera que quando o educador/professor se abre ao diálogo com seus alfabetizandos. a partir do dispositivo da prática dialógica? Aqui. de Freire. e. adquirida. Idem. desconhecedor de algo. 137. portanto. O dito e suas conseqüências: contribuição metapsicológica à premissa de Freire A legitimidade da idéia freiriana de educação está na busca. Neste sentido. Evidentemente que não se pretende completa e nem tampouco verdadeira. com o aprendizado e apreensão. o que se passa na relação entre professor/educador e alfabetizando. tornando-os sujeitos críticos e reflexivos. para o ensino-aprendizagem. uma leitura viável. também. p. ou seja. influenciando na maneira como compreendem o meio em que vivem. conhecendo a realidade deles e a integrando ao processo de ensino-aprendizagem esta tarefa traz desdobramentos positivos tendo em vista que colabora com o conhecimento. instigando a apreensão da realidade por parte dos alfabetizandos. através de condições e métodos para que os alfabetizandos tornem-se sujeitos de escolhas e 21 FREIRE. 10 . a partir da prática do diálogo. perguntamo-nos novamente: no plano psicodinâmico – da ordem do pensamento e do afeto .incompleto.como se pode explicar o alcance da proposta metodológica. tem desdobramentos positivos. influenciada pela reflexão e auto-reflexão sobre as situações em que vive e que o permeiam. apenas. propomos uma leitura possível e que pode atender à expectativa de tal explicação. de forma que o sujeito se reconheça sujeito de falta. como já mostramos acima. por parte dos alfabetizandos.

[.. na leitura da lingüística moderna. A linguagem tem em si a inscrição da experiência humana porque ela processa a troca entre o ser falante e seu receptor permitindo o intersubjetivo. 23 BENVENISTE. Segundo Benveniste a língua gera instrumentos com os quais permite ao sujeito se criar. constituindo aquele que fala. e o pronome eu. Segundo Benveniste. Trad. 46. Trad. I. A linguagem só é possível se existir aquele que fala e se apropria desse eu. In: Problemas de lingüística geral. a possibilidade da subjetividade. Vol. É o discurso do sujeito direcionado ao outro que irá transformar a linguagem na enunciação da subjetividade.) A linguagem é. Eduardo Guimarães [et al. [. tu e ele].] A „subjetividade‟ de que tratamos aqui é a capacidade do locutor para se propor como „ sujeito‟. A linguagem e a experiência humana. por gerar auto-reflexão. 24 (. na sua realidade que é a do ser. – Rio de Janeiro: RelumeDumará. 1988. no que elas têm de intersecção. uma nova pessoa. Maria da Glória Novak & Luiza Néri. o conceito de „ego‟. 24 BENVENISTE. E. Vol. Da subjetividade na linguagem. 1993.. 1989.] não é mais que a emergência no ser de uma propriedade fundamental da linguagem. permitelhe quando posto em discurso introduzir-se enquanto ser presente.S. que não é descrita. 69.” 23 Assim o discurso viabiliza a experiência humana. II. a cada vez. pelo fato de conter sempre as formas lingüísticas apropriadas à sua expressão. pois é a partir dela que se atinge o outro e se é reconhecido por este... já para os psicanalistas é impensável que a linguagem esteja fora do discurso de um sujeito. presença sem a qual não há linguagem. se transforma em uma designação única e produz. p. de elemento de um paradigma. Campinas: Pontes. e posicionem-se como atores críticos e criativos nesta História. Campinas: Pontes. e o discurso 22 ROZA. É na linguagem e pela linguagem que o homem se constitui como sujeito. 286 11 .responsabilizações. In: Problemas de lingüística geral.. pois.. Quando brincar é dizer: a experiência psicanalítica na infância. E. O fato de todo sujeito se colocar em sua individualidade através do eu. no entanto. O que Freire associa a tomada de consciência e que resultará em sua inserção na História social e pessoal. p. este alguém os assume. p. porque só a linguagem fundamenta na realidade. E.22 A linguagem é uma via de comunicação e o que ela comunica é subjetividade.]. sujeito e discurso são simultâneos. “quando alguém os pronuncia [os pronomes eu.

12 . p. o ambiente facilitador pode ser tido como certo na teoria dos estágios mais precoces do crescimento humano. mas à medida que ele vai sendo objetivamente percebido.provoca a emergência da subjetividade. se faz através da comunicação – quando adulto. por isso. psicanalítico. Onde não dominam a cena nem a privação nem a perda.W. parte dele. com um objeto que vai sendo cada vê mais percebido objetivamente. Para ele as Relações com os objetos são um fenômeno complexo. vai-se adquirindo a noção de outro. 27 WINNICOTT. nos primeiros tempos. vivenciou-se a noção de continuidade e acolhimento gerados por parte daquele(s) que o cuidou. p. pelo fato de consistir de instâncias discretas. ou seja. Porto Alegre. é dispensável a comunicação explícita com ele. Como sempre. Enquanto o objeto é percebido apenas subjetivamente. através da comunicação falada – que irá expô-lo e para arriscar-se nesta exposição é necessário estar assegurado de suas possibilidades e condição. 289 Relações objetais é um termo.25 Assim. por parte daquele que está se desenvolvendo. e onde. com os objetos que fazem. Trad. 1983.164. Winnicott nos lembra que a comunicação e a capacidade de se comunicar. gradativamente se desenvolve. Sobre este tema. por Irineo Constantino Schuch Ortiz. ou seja. a maturação (em psicologia) requer e depende da qualidade do ambiente favorável. a 25 26 Idem. muda gradativamente.27 Winnicott revela que a capacidade de se comunicar está na condição de perceber o mundo externo como ambiente seguro e confiável. D. e o desenvolvimento de uma capacidade para se relacionar com os objetos de forma alguma é o ponto simples no processo de maturação. estão estritamente relacionadas com as relações de objeto 26. referente às relações estabelecidas entre pessoas. A linguagem de algum modo propõe formas „vazias‟ das quais cada locutor em exercício de discurso se apropria e as quais refere à sua „pessoa‟. objetivamente. O teórico lembra ainda que a relação. O ambiente e os processos de maturação: estudos sobre a teoria do desenvolvimento emocional. definindo-se ao mesmo tempo a si mesmo como eu e a um parceiro como tu. E esta segurança se faz possível quando. no indivíduo. uma mudança na natureza do objeto. que fala. a subjetividade do discurso está naquilo que torna implicado àquele que expõe. Artmed. vai passando de uma relação subjetiva para uma relação mais objetiva. de diferente de si. uma vez que relacionarse com ele.

1988 e 1989) gerando segurança e confiança. E um aspecto que vai tornar viável esta aquisição da maturidade é a comunicação. Como bem nos lembra Freire. o que nas idéias de Winnicott chama-se maturidade.comunicação torna-se inelutável.. como uma revolução organizada e sistematizada de materiais conhecidos. ou seja. é “por isto.Trad. de maneira que ele a influencie e reflita criticamente sobre ela. diante do meio em que vive. Aspecto chave do processo de maturação28. onde na relação educadoreducando dialógica e problematizadora é experimentada como meio de libertação. a interação dialógica. 1990. que promove o acolhimento da subjetividade do sujeito veiculado na fala (BENVENISTE. de modo que ele se compromete com o ambiente e consigo mesmo. considerando seus desejos. 17ª ed. D. Assim. conduzida pela prática da interação dialógica. 28 WINNICOTT. Natureza Humana. 29 FREIRE. 1987. P. de confiança e segurança. 13 . antes. – Rio de Janeiro: Imago Ed. uma vez que faz emergir o sujeito. é através do encontro com o outro que se reconhece e se é reconhecido. acolha e valorize o que é dito pelo alfabetizando. o diálogo uma exigência existencial”29. A proposta freiriana de prática educativa é voltada ao convívio do alfabetizando com a sociedade em que vive. Rio de Janeiro: Paz e Terra. p. uma vez que a maturidade á adquirida à luz do sentimento de pertença. ter alguém no ambiente que perceba. de maneira desestruturada. à convivência do alfabetizando com o outro e com o meio em que vive. Davi Litman Bogomoletz. estabelecendo uma relação de troca. Pedagogia do Oprimido.173. condição producente. e sente-se capaz de se governar por si mesmo. possibilitando ao indivíduo posicionar-se na vida.W. sem romper com as normas de convivência em sociedade. favorece o processo de maturação e a aquisição de maturidade – como defende Winnicott e como propõe a pedagogia da autonomia freiriana – sendo a linguagem.

Vol. FREUD. FREIRE. Educação como prática da liberdade. . Campinas: Pontes. Direção de Jayme Salomão. Campinas: Pontes. A linguagem e a experiência humana. Paz e Terra. 1917. XVII). 1987. ______________. 1996. (Edição Eletrônica Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud.]. Eduardo Guimarães [et al. 14 . Trad. Rio de Janeiro. Uma dificuldade no caminho da psicanálise. 1988. BENVENISTE. 31ª Ed. V. Louis. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. – São Paulo: Paz e Terra. Aparelhos Ideológicos de Estado: nota sobre os aparelhos ideológicos de Estado (AIE). 5ª ed. 2008. 1989. Rio de Janeiro. 1983. Cortez. Moacir. – Rio de Janeiro: Edições Graal. Política e Educação: ensaios. In: Problemas de lingüística geral. Pedagogia do Oprimido.. S. Maria da Glória Novak & Luiza Néri.. Trad. E. 39ª Ed. A CONFINTEA VI NO CONTEXTO DO BRASIL E DA AMÉRICA LATINA: Uma oportunidade para a Educação Popular. Paulo.São Paul. ______________. ______________. I.REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALTHUSSER. 2001. In: Problemas de lingüística geral. Paz e Terra. _______________. Da subjetividade na linguagem.. Tradução de Walter José Evangelista e Maria Laura Viveiros de Castro. Vol. Rio de Janeiro: Imago. II. CD-ROM GADOTTI. 17ª Ed.

. – Rio de Janeiro: Objetiva. TORRES.Disponível em <http://www.com. Pedro Tamen. Vocabulário de Psicanálise.unesco. Natureza Humana. ROZA. Trad. Imago Ed.. Carlos Alberto. Porto Alegre. 1993. – Rio de Janeiro: Relume-Dumará. Quando fui outro. Artmed. – Rio de Janeiro: Imago Ed. 1992.W. WINNICOTT. 1990. O ambiente e os processos de maturação: estudos sobre a teoria do desenvolvimento emocional. 1983. – Rio de Janeiro. Davi Litman Bogomoletz.pdf Acesso em 27 de abril de 2009. FERNANDO. Da pediatria à psicanálise: obras escolhidas.Trad. Davi Litman Bogomoletz. São Paulo: Martins Fontes. Novos Pontos de Partida da Pedagogia Política de Paulo Freire.br/anpae/62. Disponível em <http://www.isecure. 15 . Trad. PESSOA. Por Irineo Constantino Schuch Ortiz. 2006. E. Trad. 2000. LAPLANCHE e PONTALIS.org/pt/confinteavi/> Acesso em 24 de maio de 2009. Quando brincar é dizer: a experiência psicanalítica na infância. D. ________________. ________________.S.

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