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CASO CONCRETO

Marcelo Dias Campos, primário, foi investigado por meio do Inquérito


Policial nº 123.456/789-10 em razão da prática do delito previsto no art. 155,
§ 4º, I do Código Penal.

No dia 28 de novembro de 2020, o agente quebrou o vidro de veículo


automotor com o intento de subtrair aparelhos eletrônicos (um notebook e
um aparelho celular) que estavam em seu interior. Por ocasião do
depoimento perante a autoridade policial, Marcelo confessou espontânea e
detalhadamente a conduta que havia praticado. Ademais, devolveu,
voluntariamente, os bens subtraídos.

Concluído o Inquérito Policial e remetidos os autos ao Ministério Público, o


órgão ministerial ofereceu denúncia contra o agente imputando-lhe o crime
de furto qualificado pela destruição de obstáculo (art. 155, § 4º, I do Código
Penal).

A partir das informações narradas, responda às seguintes questões práticas:

1. É possível dizer que o Ministério Público agiu corretamente ao oferecer


denúncia e não um Acordo de não Persecução Penal (ANPP)? Por quê?

Não. Artigo 28-A no Código de Processo Penal. O Ministério Público


poderá propor ao investigado acordo de não-persecução penal, quando,
cominada pena mínima inferior a quatro anos e o crime não for
cometido com violência ou grave ameaça à pessoa, o investigado tiver
confessado formal e circunstanciadamente a sua prática.
No caso em tela, subtrair, para si ou para outrem, coisa alheia móvel:
art. 155, § 4º CPP - A pena é de reclusão de dois a oito anos, e multa, se
o crime for cometido: IV - mediante concurso de duas ou mais pessoas.
Pena mínima de dois anos.

2. O ANPP é um direito subjetivo do agente?

Não. A Quinta Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ), no AgRg


no RHC 130.587/SP, decidiu que o acordo de não persecução penal não
constitui direito subjetivo do investigado, podendo ser proposto pelo
Ministério Público conforme as peculiaridades do caso concreto e
quando considerado necessário e suficiente para a reprovação e a
prevenção da infração penal.

Dessa forma, o Ministério Público poderá e não deverá propor ou não o


referido acordo, uma vez que é o titular da ação penal pública (art. 129,
I, da Constituição Federal).
AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO EM HABEAS CORPUS. ACORDO DE NÃO
PERSECUÇÃO PENAL. IMPOSSIBILIDADE DE OFERECIMENTO MEDIANTE
FUNDAMENTAÇÃO IDÔNEA. GRAVIDADE CONCRETA DA CONDUTA. CONDENAÇÃO
SUPERIOR A QUATRO ANOS DE RECLUSÃO. POSSIBILIDADE DE OFERECIMENTO A SER
AFERIDA, EXCLUSIVAMENTE, PELO MINISTÉRIO PÚBLICO, COMO TITULAR DA AÇÃO
PENAL. AGRAVO REGIMENTAL DESPROVIDO

3. Ante a recusa de proposição do ANPP pelo Ministério Público, qual a


possível medida a ser adotada pelo agente?

O indiciado pode requerer a remessa dos autos da investigação ao órgão


colegiado do MPF, na forma do art. 28 do CPP: “

4. O Poder Judiciário pode intervir no sentido de determinar o Ministério


Público a firmar o ANPP? Eventual intervenção nesse sentido violaria o
sistema processual penal acusatório?

No julgamento do Habeas Corpus nº. 194677, a 2ª. Turma do STF


decidiu que o caso de uma venezuelana condenada por tráfico
internacional de drogas deve ser remetido à Câmara de Revisão do
MPF, para avaliar a possibilidade de oferecimento do acordo de não
persecução penal. No caso julgado, o Juiz de primeira instância aplicou
a pena de quatro anos e dez meses de prisão. O Procurador da República
recusou propor o acordo e, em seguida, o Juiz não permitiu que o
processo fosse remetido ao órgão superior do MPF para reavaliar a
questão.

Segundo o relator do HC, Ministro Gilmar Mendes, não cabia ao Juiz


impedir que o caso seja analisado pela Câmara Recursal do MPF; pelo
contrário, esse deveria ser um ato automático, após pedido da defesa.
A defesa tinha direito ao reexame da negativa apresentada pelo
representante do MP em primeiro grau, sendo ilegítima a recusa do
julgador que impediu a remessa.

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