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CENTRO UNIVERSITÁRIO IBERO-AMERICANO

Daniel Babalin dos Santos

IDEOLOGIA, LINGUAGEM E PENSAMENTO EM 1984, DE GEORGE ORWELL

SÃO PAULO 2009

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CENTRO UNIVERSITÁRIO IBERO-AMERICANO

Daniel Babalin dos Santos

IDEOLOGIA, LINGUAGEM E PENSAMENTO EM 1984, DE GEORGE ORWELL

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Centro Universitário Ibero-Americano como requisito parcial para obtenção do título de bacharel em Letras – Tradutor e Intérprete.

Orientadora: Profa. Gisele Novaes Frighetto

SÃO PAULO 2009

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Dedicatória A todos os que ainda são livrepensantes.

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Agradecimentos Sobretudo à minha família, que me deu a base e o suporte para que eu pudesse ser o que sou hoje. A todos os meus amigos que me incentivaram (ou não) para que eu completasse essa fase de minha vida. A todos os professores que tive ao longo da minha vida na Unibero e no Pueri Domus, dos quais absorvi muitos valores e conhecimentos. Por último, mas não menos importante, à professora Gisele Novaes Frighetto por toda sua ajuda e por suas aulas de alto nível, responsáveis por grande parte da minha motivação para esse trabalho.

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“Estamos condenados a pensar com palavras, a sentir em palavras, se queremos pelo menos que os outros sintam conosco” (Virgílio Ferreira)

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RESUMO

1984 por George Orwell, é um romance que teve boa repercussão e despertou grande interesse desde sua primeira publicação em 1948, sendo considerado um dos mais influentes e reconhecidos romances antiutópicos de todos os tempos. O trabalho tem por objetivo perceber como o romance de George Orwell tematiza a relação entre discurso, ideologia e pensamento, objetos de estudo da linguística e da filosofia da linguagem. A fundamentação teórica compreende os estudos de de Vygotski (2008), Piaget (1999) e Bakhtin (1981) de maneira a mostrar como esses conceitos são compreendidos pela filosofia da linguagem e pelos estudos de psicolingüística. Depois o trabalho fez considerações sobre o autor do romance analisado, buscando perceber suas convicções. Por fim, o trabalho procede à análise discursiva da obra para mostrar como nela os aspectos estudados se revelam. Palavras Chave: 1984, George Orwell, Ideologia, Linguagem, Pensamento

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ABSTRACT Nineteen Eighty-four by George Orwell has been widely discussed since its first publication for it is one of the most influential and acknowledged dystopian novels of all time. Contemporary Linguistics studies have developed different areas concerning language acquisition, concept development, language philosophy and discourse analysis, studies which may have influenced Orwell’s writtings. This paper intends to indentify possible references and signs that estabilish a connection between Orwell’s novel and these linguistical studies. In order to do that, fundamental theories are going to be analyzed (Bakhtin, 1981; Vigotski, 2008; Fiorin, 2003) and excerpts of the aforementioned novel will be shown to exemplify these theories. This paper might show whether linguistics play a signicant role in 1984 and if this aspect is somewhat ignored by contemporary readers. Keywords: Nineteen Eighty-Four, George Orwell, Ideology, Language, Thought.

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO .............................................................................................................9 1 TEORIAS LINGUÍSTICAS E PSICOLINGUÍSTICAS .............................................11 1.1 Vigotski e a relação entre pensamento e linguagem ...........................................11 1.2 Bakhtin, consciência e a filosofia da linguagem ..................................................16 2 ERIC ARTHUR BLAIR, UM ESQUERDISTA ANTISSOCIALISTA?......................21 3 IDEOLOGIA, LINGUAGEM E PENSAMENTO EM 1984........................................25 CONSIDERAÇÕES FINAIS........................................................................................37 REFERÊNCIAS...........................................................................................................39

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INTRODUÇÃO Este trabalho tem como objetivo identificar e analisar a presença de paralelos entre algumas teorias linguísticas e o romance 1984 de autoria de George Orwell. O romance, que retrata uma fictícia sociedade no futuro, dominada por um regime totalitário extremamente abusivo, não se resume apenas a uma evidente crítica ao dito “socialismo” russo imposto por Stalin e outras tiranias totalitárias da época que agiam sobre o pretexto de uma sociedade justa e igualitária. É necessário atentar para o importante papel que as questões lingüísticas desempenham no desenrolar da história, que é o que este trabalho propõe e oferece, um estudo diferenciado da obra, que tenha seu foco fora das questões políticas já exaustivamente debatidas. Para que esse estudo seja realizado, serão expostos alguns conceitos teóricos desenvolvidos e estudados por grandes pensadores da linguagem e também da psicologia, uma vez que muitos desses conceitos acabam ficando interdependentes dessas duas áreas de estudo. Por tal razão serão analisados textos do psicólogo Piaget (1999) juntamente com as duas obras principais que nortearam a parte teórica deste trabalho, Marxismo e Filosofia da Linguagem de Bakhtin (1981) e Pensamento e Linguagem de Vigotski (2008) obras estas que esclarecem bem a influência da linguagem no pensamento social. O enfoque do trabalho se dará, sobretudo, pelo viés lingüístico, dentro do qual podemos destacar as áreas de psicolingüística, dentro da qual teremos em Vigotski o principal representante, e de análise do discurso. Juntamente com o enfoque lingüístico teremos também o estudo da filosofia da linguagem que tem em Bakhtin o seu mais forte expoente. A comparação dos conceitos teóricos com algumas passagens da obra de Orwell será feita para evidenciar a importância que o autor deu para essa relação entre pensamento e linguagem em seu mundo fictício e a forma como tal relação ajuda a construir a imagem de um partido impiedoso e consciente de seu domínio.

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O trabalho apresenta inicialmente o estudo lingüístico teórico, expondo no primeiro capítulo os conceitos básicos que serão observados na análise posterior. Em seguida será feita, no segundo capítulo, uma breve apresentação do escritor inglês George Orwell e seus principais trabalhos, para que o leitor compreenda melhor as circunstâncias de criação de 1984. Logo após, no terceiro capítulo, será feita a análise discursiva do livro à luz dos conceitos previamente expostos, juntamente com uma exposição parcial da trama do romance. Ao final do trabalho, levando em consideração a pesquisa e análise aqui retratadas, será possível ter uma percepção aprimorada da importância da linguagem no romance de Orwell e do que isso ainda significa para a sociedade atual.

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1 TEORIAS LINGUÍSTICAS E PSICOLINGUÍSTICAS Para que as posteriores interpretações da obra 1984 sejam compreendidas dentro da proposta deste trabalho, é necessário que o estudo teórico seja explicitado, assim possibilitando uma visão completa e pormenorizada dos elementos que serão analisados dentro da obra central. Neste capítulo, serão expostas as principais teorias, sobretudo linguísticas, que nortearam o trabalho, bem como suas inter-relações.

1.1 Vigotski e a relação entre pensamento e linguagem Lev Semenovitch Vigotski (ou também nas variações de tradução, Vygotsky, Vygotski ou Vigotsky) é mais conhecido por seus trabalhos na área de psicologia do que como um linguista propriamente dito. Não obstante, grande parte de seus estudos foram voltados para a questão da aprendizagem, da aquisição de linguagem e como esta afeta o pensamento, o desenvolvimento e a interação das pessoas. Em sua obra, cuidadosamente estudada para a realização deste trabalho, entitulada intitulada “Pensamento e Linguagem” o autor tem por objetivo central estudar a interrelação entre estes temas, para isso, ele e seus colaboradores abordam a problemática do assunto de forma inovadora para a época e propõem um método experimental parcialmente novo para investigar o processo de formação de conceitos e como estes se desenvolvem. De acordo com Vigotski, o maior fator que explica o pouco progresso nesse campo do pensamento verbal anterior ao seu trabalho provém do método falho de análise. Segundo ele, dois metódos de análise são possíveis, um deles analisando isoladamente os elementos componentes do pensamento verbal: o pensamento e a palavra. Nesse caso, para Vigotski, o

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único trabalho a ser feito consistiria em “tentar descobrir a interação mecânica dos dois elementos na esperança de reconstruir , de modo puramente especulativo, as propriedades do todo [pensamento verbal]”(2008, p.3). Para Vigotski e seus colaboradores, o segundo método é o correto a se utilizar, como podemos ver nesta passagem:
Em nossa opinião, o caminho é usar outro tipo de análise, que pode ser chamado de análise em unidades. Com o termo unidade queremos nos referir a um produto de análise que, ao contrário dos elementos, conserva todas as propriedades básicas do todo não podendo ser dividido sem que as perca. (VIGOSTSKI, 2008, p.5 grifo do autor)

Percebe-se logo a importância que o autor confere ao fato de que tanto o pensamento quanto a linguagem são indissociáveis no estudo do pensamento verbal, sendo errôneo estudálos separadamente e negligenciar a forma como interagem. Como bem resume José Luiz Fiorin, conhecedor e estudioso da obra de Vigotski:
As funções da linguagem e do pensamento não podem ser dissociadas e, muito menos, opostas. [...]apesar de o pensamento e a linguagem serem diferentes em sua origem, ao longo do processo evolutivo, soldam-se num todo indissociável de forma que, no pensamento verbal, torna-se impossível dissociar as idéias da linguagem. (FIORIN, 2003, p.34)

Esta unidade à qual se refere Vigotski encontra-se no significado da palavra, é nele que o pensamento e a fala se fundem em pensamento verbal e portanto nos oferece meios para respondermos questões sobre essa relação. A palavra é uma generalização em si própria, uma vez que ela agrega referências não apenas a um único objeto mas sim a um grupo de objetos. A generalização é por sua vez um ato que reflete a realidade de uma forma bem diferente quando comparado à percepção e à sensação. Este reflexo generalizado da realidade é o próprio cerne do significado da palavra e portanto esse significado é em si um ato de pensamento. (VIGOTSKI, 2008) Nesta mesma obra, Vigotski (2008) afirma que as contribuições de Jean Piaget à psicologia são imensuráveis e muitas delas foram possíveis graças a ousadia que ele teve em

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sua abordagem, analisando qualitativamente as diferenças entre pensamentos de uma criança e pensamentos de um adulto. Parte fundamental dos estudos de Piaget sobre crianças e sua linguagem repousa na questão da fala e do pensamento egocêntrico. Ele define esse pensamento egocêntrico como uma evolução do pensamento autístico e precedente do pensamento dirigido, sendo expresso assim por todo o ato sonoro que a criança produz subconscientemente quando os objetivos que persegue não estão claramente presentes em sua consciência. O pensamento egocêntrico ainda
Tende a gratificar desejos, e não a estabelecer verdades, e permanece estritamente individual e incomunicável como tal por meio de linguagem, uma vez que opera basicamente em imagens e, para ser comunicado, precisa recorrer a métodos indiretos, evocando, por meio de símbolos e de mitos, os sentimentos que o guiam. (PIAGET, 1999, p.68)

Vigotski aceita a definição de Piaget quanto ao que é a fala egocêntrica e quais são suas características, porém tem ideias divergentes quanto à sua função e a importância dela no desenvolvimento intelectual da criança. Conforme Vigotski (2008, p.19), Piaget afirma que a fala egocêntrica “não cumpre nenhuma função verdadeiramente útil no comportamento da criança e que, simplesmente se atrofia a medida que a criança se aproxima da idade escolar”. (2008, p.19). No entanto Vigotski, a partir de suas experiêencias, acredita que a fala egocêntrica possui uma função muito definida e importante no desenvolvimento das crianças. Seus estudos indicam que esta não é apenas um acompanhamento das atividades da criança, mas que além de ser um meio dela se expressar e liberar a tensão, a fala egocêntrica passa a ser um instrumento do pensamento propriamente dito, o qual busca e planeja meios para que uma dificuldade seja superada. Essa divergência de pensamentos se torna ainda maior quando o objeto de análise é o destino posterior da fala egocêntrica.

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Enquanto Piaget acredita na queda gradual do seu uso, até que ela se torne completamente atrofiada, Vigotski acredita que os resultados obtidos em sua pesquisa sugerem que a fala interior (que representa o “pensar para si próprio”) seja o produto final da evolução da fala oral, processo de evolução no qual a fala egocêntrica desempenha um papel transitório relevante:
A fala egocêntrica enquanto uma forma linguística separada, é o elo genético de extrema importância na transição da fala oral para a fala interior [...] É esse papel de transição da fala egocêntrica que lhe impresta um interesse teórico tão grande. Toda a concepção do desenvolvimento da fala varia profundamente, de acordo com a interpretação que for dada ao papel da fala egocêntrica. Desse modo, o nosso esquema de desenvolvimento – primeiro fala social, depois egocêntrica, e então iterior – diverge[...] da sequência de Piaget que parte do pensamento autístico não verbal à fala socializada e ao pensamento lógico, através do pensamento e da fala egocêntricos. (VIGOTSKI, 2008, p.23 a 24)

Pode-se notar a diferença das concepções de desenvolvimento da fala entre os dois. Piaget acredita que a fala é puramente autística no princípio e que, com a pressão da sociedade, ela passa a ser uma fala social, passando por um período transitório para tal, a fala egocêntrica. Vigotski por sua vez, acredita que a fala é primariamente social, que a mais rudimentar e inicial fala de uma criança já é social em sua essência, buscando uma comunicação. Nessa primeira instância, ela é global e não cumpre funções específicas distintas, a não ser o contato com a mãe, depois é que essa fala terá funções diferentes. Em um certo ponto a fala social evoluirá e tomará dois rumos distintos: a fala egocêntrica e a fala comunicativa. Para Vigotski, a fala egocêntrica aparece “quando a criança transfere formas sociais e cooperativas de comportamento para a esferas das funções psíquicas interiores e pessoais” (2008, p.23) e ele acredita que Piaget conhecia bem essa tendência que as crianças tem de interorizar padrões de comportamentos que eram sociais no início, apenas não deu a importância que lhe cabia. Aqui se encontra o ponto em que a divergência do trabalho desses dois estudiosos se torna mais evidente. Piaget acredita que o desenvolvimento do pensamento

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é inicialmente individual e depois

torna-se socializado quando adentra a esfera social.

Vigotski acredita que o pensamento é, antes de tudo, social e que este pensamento socializado adentra primeiramente na esfera individual, definindo e se tornando um pensamento individualizado. Pode-se concluir que, para Vigotski, essa influência social no pensamento e na fala individual dá-se através da palavra, pois é nela e na capacidade evolutiva de seus significados que se pode perceber a interferência da sociedade.
A linguística não percebeu que, na evolução histórica da linguagem, a própria estrutura do significado e a sua natureza psicológica também mudam. A partir das generalizações primitivas, o pensamento verbal eleva-se ao nível dos conceitos mais abstratos. Não é simplesmente o conteúdo de uma palavra que se altera, mas o modo pelo qual a realidade é generalizada e refletida em uma palavra. (VIGOTSKI, 2008, p.152, grifo nosso.)

No trecho acima podemos ver os indícios de um outro problema se formando a partir das investigações iniciadas por Vigotski e seus colaboradores, problema esse que ele próprio cita no final de seu livro dizendo que

[...] a característica fundamental das palavras é uma reflexão generalizada da realidade. Esse aspecto da palavra leva-nos ao limiar de um tema mais amplo e mais profundo – o problema geral da consciência. O pensamento e a linguagem, que refletem a realidade de uma forma diferente daquela da percepção, são a chave para a compreensão da natureza da consciência humana. (VIGOTSKI, 2008, p.190)

Tal tema, indicado pelo autor, foi explorado pelo linguista russo Mikhail Bakhtin e a importância de seus estudos sobre esses problemas será exposta a seguir.

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1.2 Bakhtin, consciência e a filosofia da linguagem.

Para Mikhail Bakhtin, renomado filósofo e linguista russo, o problema da consciência foi, por muito tempo, tomado como o asylum ignorantiae de todo estudo filosófico, ou seja, um reduto para muitas questões não resolvidas. O linguista se deparou com tal problema durante seus estudos sobre a filosofia da linguagem e sua relação com a teoria marxista da criação ideológica. Bakhtin concluiu que os problemas da filosofia da linguagem, em um certo ponto, representavam os obstáculos que impediam o avanço do método marxista em diversos setores importantes de seu desenvolvimento científico, portanto uma solução deveria ser encontrada e para isso ele iniciou uma séria de examinações sobre tais problemas. (BAKHTIN, 1981) De forma que as concepções de Bakhtin possam ser compreedidas, necessita-se ter uma idéia de suas posições sobre ideologia e signos. “Um produto ideológico faz parte de uma realidade [...] ele também reflete e refrata outra realidade que lhe é exterior. [...] Tudo que é ideológico é um signo. Sem signos nao existe ideologia” (BAKHTIN, 1981, p.31, grifo do autor). Os signos, que propiciam essa produção ideológica só existem em um terreno interindividual, onde indivíduos se comunicam de uma forma socialmente organizada como o próprio Bakhtin afirma:
[...] não basta colocar face a face dois homo sapiens quaisquer para que os signos se constituam”. É fundamental que esses dois indivíduos estejam socialmente organizados, que formem um grupo (uma unidade social): só assim um sistema de signos pode constituir-se. A consciência individual não só nada pode explicar, mas, ao contrário, deve ela própria ser explicada a partir do meio ideológico e social. (BAKHTIN, 1981, p.35)

Pode-se traçar um paralelo quanto às conclusões de Vigotski sobre a fala e as conclusões de Bakhtin sobre a consciência, ambos creditando a sua base como sendo social e não individual, ao contrário do que estudos anteriores defendiam. No caso de Vigotski, Piaget com sua crença em uma fala inicialmente autística e depois social, e no caso de Bakhtin, as

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crenças da filosofia idealista e do psicologismo em matéria de cultura que situam a ideologia como produto da consciência individual. Bakhtin deixa claro que a consciência individual é fruto de uma realidade ideológica e que toma a forma dos signos criados por um certo grupo de acordo com suas interações sociais. Interações essas que são definidas sobretudo pelas formas de produção e interações econômicas. A obra de Bakhtin (1981, p.36) aproxima-se ainda mais dos conceitos de Vigotski quando se propõe a discutir a palavra como “fenômeno ideológico por excelência. A realidade toda da palavra é absorvida por sua função de signo. A palavra é o modo mais puro e sensível de relação social”. Assim como vimos anteriormente com Vigotski, Bakhtin também acredita que na palavra é onde mais evidencia-se a influência social na consciência individual, que a palavra como signo ideológico é determinada pela realidade e por sua vez, é um reflexo e uma refração desta. Segundo Bakhtin (1981), as mudanças sociais, antes de atingir o ponto de reformas, revoluções, ou até mesmo protestos são perceptíveis na palavra. A palavra está presente em todos os processos comunicacionais e interativos entre indivíduos e assim registra cada transformação social, mesmo as que ainda não adquiriram uma forma sólida, que não se apoiam em um sistema ideológico propriamente dito, essas transformações vão se acumulando aos poucos dentro das palavras até que ganhem força suficiente para constituir uma nova e acabada forma ideológica. É por isso que a palavra constitui sempre o meio mais sensível pelo qual poder-se-á observar as mais ínfimas mudanças sociais. Segundo Georgi Plekhanov, um revolucionário russo, a psicologia do corpo social é algo que forma uma espécie de conexão entre a ideologia e a estrutura sócio política, e de acordo com Bakhtin tal psicologia do corpo social se materializa unicamente na forma de interação verbal, num processo de comunicação real. Ainda segundo Bakhtin, a psicologia do

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corpo social é completamente exteriorizada, no ato da fala, e de forma alguma reside em algum lugar no interior do indivíduo. Ela é exprimível em sua totalidade, reside completamente na troca, sobretudo na troca verbal. É necessáario entretanto, ter uma visão do que determina e define tal troca de material verbal, sobre isso Bakhtin tem a dizer que:
As relações de produção e a estrutura sócio-política que delas diretamente deriva determinam todos os contatos verbais possíveis entre indivíduos, todas as formas e os meios de comunicação verbal: no trabalho, na vida política, na criação ideológica. Por sua vez, das condições, formas e tipos da comunicação verbal derivam tanto as formas como os temas dos atos de fala. (1981, p.42)

Observa-se então que para Bakhtin a forma de produção é a responsável primária por toda uma rede de interações sócio-políticas que geram todo tipo de comunicação verbal possível dentro de uma sociedade, presente nas mais diversas situações, desde conversas casuais em corredores, troca de opiniões em eventos esportivos, encontros de negócios, reações verbais diante aos acontecimentos cotidianos, discursos interiores etc. Todas as formas e aspectos da criação ideológica ininterrupta encontram-se nessa chamada psicologia do corpo social, que como o próprio nome sugere, é determinada socialmente, pelos modos de produção. O linguista ainda afirma que todas essas diferentes formas de interação verbal tem uma reação muito sensível aos deslocamentos da atmosfera social pois estão ligadas de uma forma muito próxima às condições de uma determinada situação social. E é por isso que na palavra, cerne e materialização da psicologia do corpo social, vão se acumulando essas mudanças que quase não são percebidas, até que tenham bagagem e relevância suficiente para encontrarem, posteriormente, uma expressão em produções ideológicas propriamente ditas. Afastando-se da questão das interações sociais como fato que determina as formas do signo, Bakhtin acha interessante que se discuta o aspecto do índice de valor de um determinado signo, o qual qualifica todo o conteúdo deste. O signo linguístico, com suas propriedades de signo ideológico, é parte de um processo de relação social e, portanto, é

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delimitado pelo horizonte social de um grupo social determinado, em um determinado momento. Os signos são provenientes apenas de um grupo de objetos valorizados socialmente, e a cada nova etapa do desenvolvimento social, apenas os objetos que se tornam alvo da atenção da sociedade são os objetos que ganham um valor particular, estes são, geralmente, objetos com alguma ligação aos meios sócio-econômicos do grupo social em questão. Mais uma vez fica clara nos estudos de Bakhtin a influência social na esfera ideológica individual, também no que tange o índice de valor de um signo, sobre o qual o ele afirma:
Evidentemente, o arbítrio individual não poderia desempenhar aqui papel algum, já que o signo se cria entre indivíduos, no meio social; é portanto [sic] indispensável que o objeto adquira uma significação interindividual; somente então é que ele poderá ocasionar a formação de um signo. Em outras palavras, não pode entrar no domínio da ideologia, tomar forma e aí deitar raízes senão aquilo que adquiriu um valor social. (1981, p. 45, grifo do autor)

Por essa natureza essencialmente interindividual e ideológica é que o índice de valor, mesmo quando realizado pela voz de um organismo individual, constitui um índice social, pois faz parte de um consenso social. O grupo de objetos com valor social dá origem aos signos, que carregarão esse índice social de valor. Tal índice quando interiorizado pelo indivíduo, fará parte da consciência individual, e se tornará, de certa forma, índice individual uma vez que a consciência o toma como seu, porém não se deve esquecer que a origem dos índices de valor, mesmo dos individuais, é orientada socialmente. Passando do panorama do índice de valor para um panorama mais amplo da interação verbal, chega-se na questão da expressão, que é definida brevemente por Bakhtin como “tudo aquilo que, tendo se formado e determinado de alguma maneira no psiquismo do indivíduo, exterioriza-se objetivamente para outrem com a ajuda de algum código de signos exteriores”. (1981, p.111).

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Aqui se faz necessária uma distinção de grande importância: o fato de a expressão ser algo formado no psiquismo do indivíduo, isso não quer dizer que a expressão é, em sua essência, individual. Ledo engano afirmar que qualquer expressão, por mais espontânea que seja, é algo puramente individual uma vez que qualquer expressão tem um conteúdo a ser exprimido, e esse conteúdo é feito de material semiótico, ou seja, de signos estabelecidos pela interatividade social, que foram se interiorizando em cada indivíduo com o passar do tempo e de suas experiências sociais. Observa-se então que a direção da expressão verbal não é do interior (individual) para o exterior (social), pelo contrário é a interação social que determina o conteúdo interior de cada indivíduo, e sobre isso Bakhtin afirma:
Não é a atividade mental que organiza a expressão, mas, ao contrário, é a expressão que organiza a atividade mental, que a modela e determina sua orientação.[...] não é tanto a expressão que se adapta ao nosso mundo interior, mas o nosso mundo interior que se adapta às possibilidades de nossa expressão, ao seus caminhos e orientações possíveis. (1981, p. 112 e 118, grifo do autor)

Sobre o assunto Bakhtin conclui, portanto, que “O centro organizador de toda enunciação, de toda expressão, não é interior, mas exterior: está situado no meio social que envolve o indivíduo” (1981, p.121) e completa afirmando que cada elo da cadeia linguística e enunciativa é social: a estrutura da enunciação, a estrutura da atividade mental a ser exprimida, a elaboração estilística e a própria cadeia verbal. Todo esse debate realizado, tanto por Bakhtin como por Vigotski, ao invés de representar um estudo concluído e fechado sobre o assunto, deixa questões em aberto e sugere que novos trabalhos possam ser feitos a partir de suas postulações sobre assuntos que antes eram negligenciados ou então abordados de forma errônea. O trabalho deles permitiu que estudiosos contemporâneos expandissem essa idéia de influência social para campos mais atuais da lingüística, como a ideologia e a análise do discurso.

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2 ERIC ARTHUR BLAIR, UM ESQUERDISTA ANTISSOCIALISTA? Esse capítulo tem por objetivo apresentar um breve resumo da trajetória de vida do George Orwell (pseudônimo de Eric Arthur Blair). Segundo informações extraídas no site da Encyclopædia Britannica (2009), Eric Arthur Blair, que adotou George Orwell como pseudônimo para publicação de seus livros e ensaios, nasceu em Bengal, na Índia em 1903. Seu pai era um oficial britânico servindo na Índia que, naquela época, ainda era colônia britânica. Parte de uma família de classe média, Orwell declarou, depois de velho, que durante sua infância sua família se portava de modo repotente, apesar de não ter muitas posses, dando grande importância para questões de status social. Ele retornou à Inglaterra ainda criança. Logo se destacou dos alunos da escola que freqüentava graças ao seu brilhantismo intelectual e também por ser mais pobre que os demais. Seu desempenho escolar garantiu bolsas de estudo para dois dos mais proeminentes colégios ingleses da época, Winchester e Eton, e Orwell acabou por estudar em Eton, segundo ele a mais cara e mais esnobe escola da Inglaterra. Lá escreveu seus primeiros ensaios, já influenciado por Aldous Huxley, que também estudara em Eton. Ao sair do colégio, Orwell serviu como parte da polícia imperial, em Myanmar, por cinco anos, decidiu então resignar seu cargo após presenciar por vezes a fio como o povo local tinha sua vontade reprimida pelo Estado britânico, fazendo-o detestar o imperialismo. Tal vivência, primeiro contato com opressão e diferenças sociais, foi fator fundamental para sua orientação sociopolítica posterior e para o desenvolvimento de sua escrita incisiva e sarcástica. Já com a idéia de ser um escritor, Orwell decidiu levar uma vida na pobreza, em parte para se livrar um pouco do ressentimento de não ter conseguido se misturar com o povo de Myanmar, por conta de barreiras raciais e de classes, e em parte para conseguir vivenciar essa discriminação.

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Para tanto, ele foi para East End, uma região notoriamente pobre de Londres com grande concentração de imigrantes, morou em cortiços junto com operários e depois foi para Paris, onde morou na periferia, entre 1928 e 1929, trabalhando como lavador de pratos e escrevendo romances que depois destruiu, uma vez que ninguém os aceitava publicar. Voltou para Londres e viveu junto aos desempregados, miseráveis, e semicriminosos das piores regiões, passando fome em várias ocasiões. Todas essas experiências serviram de material para sua obra de não ficção Na Pior em Paris e Londres (Down and Out in Paris and London), que foi editada em 1933, fato que rendeu algum reconhecimento literário e que resultaria na possibilidade de escrever seu primeiro romance Dias na Birmânia (BurmeseDays), obviamente inspirado na sua experiência como oficial em Myanmar. Nesta época, por volta de 1934, é que Orwell começou a se sustentar com o dinheiro que recebia por seus escritos. Apesar de nunca ter tido opiniões políticas claramente definidas, Orwell declara, no prefácio da versão ucraniana de 1947 de seu livro Animal Farm, ter se tornado pró-socialista mais por conta de uma aversão à opressão dos trabalhadores dos setores mais pobres pelo capitalismo do que devido a uma admiração teórica por uma sociedade planificada. Se Ccasou- se em 1936, praticamente uma semana antes do início da Guerra Civil Espanhola, e sua consciência política fez com que ele e sua mulher fossem para a Espanha lutar pelo governo espanhol, serviu por algum tempo para a milícia do POUM (Partido Operário de Unificação Marxista), uma espécie de partido trotskista espanhol, até ser ferido em combate por um tiro que lhe atravessou o pescoço. Foi obrigado a fugir da Espanha quando, em 1937, os comunistas passaram a controlar o governo espanhol e perseguir todos os trotskistas. Muitos de seus amigos foram capturados, presos por longos períodos, torturados ou mesmo executados sem julgamento, e quando retornou à Inglaterra, Orwell se surpreendeu que muitas pessoas sensatas, bem informadas,

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que acompanhavam as notícias acreditavam em relatos totalmente fantasiosos sobre conspirações, sabotagem e traição, que a imprensa inventava dos processos de Moscou. Foi com isso que Orwell formou sua visão da propaganda totalitarista e da sua influência e sua capacidade de controlar a opinião de pessoas com boa educação, questão essa muito presente em seu principal romance, 1984, que seria escrito anos mais tarde. Sua experiência na Guerra Civil Espanhola rendeu um livro de relatos chamado Lutando na Espanha (Homage to Catalonia), na época que o livro foi publicado Orwell já estava consolidado como jornalista, e após ter sido rejeitado pelo exército britânico no começo da 2ª Guerra Mundial, começou a trabalhar para a BBC. Nos últimos anos da guerra, ele deixou a BBC e começou a escrever regularmente para o periódico Tribune, jornal de orientação socialista ligado ao líder do partido trabalhista, Aneurin Bevan. Em 1944 Orwell escreveu seu primeiro grande sucesso literário, A Revolução dos Bichos (Animal Farm), história que estava em sua cabeça desde sua vivência com as conseqüências do socialismo tirânico exercido após a Revolução Russa, e após a vitória comunista na Guerra Civil Espanhola. Sua intenção era a de denunciar o mito do socialismo soviético numa história de fácil compreensão e de fácil tradução para outras línguas, e assim ele criou a analogia entre animais e proletariados que são explorados, respectivamente, pelos donos da fazenda e pelos donos dos meios de produção ou ditadores. Apesar desse livro ter sido usado mais tarde como propaganda anticomunista pela CIA, não deve se tomá-lo como uma obra essencialmente capitalista ou mesmo antissocialista. O próprio Orwell afirma ser contra um sistema socialista centralizado e hierarquizado, e condena principalmente como essa tentativa frustrada de socialismo russo afetou a possibilidade de um regime socialista na Inglaterra, corrompendo a idéia original de socialismo.

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Durante os últimos anos de sua vida, Orwell se dedicou à escrita do que viria a se tornar o seu livro mais conhecido, e um dos livros mais importantes para o contemporâneo cenário literário e político, o romance 1984 (Nineteen Eighty-Four). Sua criação foi longa e interrompida por várias internações hospitalares devido a uma tuberculose, doença essa que viria a causar sua morte em 1850. Tratar-se-á, no capítulo subsequente, de sua última obra com mais atenção.

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3 A FILOSOFIA DA LINGUAGEM PRESENTE EM 1984 Nestse capítulo será parcialmente exposta a trama do romance 1984 (Nineteen EightyFour) e durante essa exposição alguns trechos serão reproduzidos e comentados à luz das teorias apresentadas no capítulo 1. Antes de qualquer coisa é necessário um panorama do cenário em que se passa a história. Situada em um futuro (considerando-se que a história foi escrita em 1948) “antiutópico”, a história narrada em terceira pessoa mostra a trajetória de Winston Smith, um cidadão comum da Inglaterra (chamada no livro de Pista Nº1), parte de um continente chamado Oceania. O mundo está dividido em três superestados, a Oceania (Américas, Grã Bretanha, Australásia e norte da África), a Lestásia (China, Japão e demais paises da Asia) e a Eurásia (toda a Rússia e a parte continental da Europa), cada um sendo governado de modo bem parecido por um regime totalitário, no qual é pregada a adoração de um chefe semidivino, a realidade é constantemente alterada para servir aos propósitos do Estado, e a economia é toda voltada para uma guerra constante e interminável contra os outros superestados. Na Oceania o partido dominante é o IngSoc, nome derivado de Socialismo Inglês, movimento que deu origem à revolução. O Ingsoc é personificado na figura do onipresente Grande Irmão e tal partido se divide em três classes distintas: Partido Interno, Partido Externo e os “proles”. Os “proles”, que constituem a grande maioria da população, não são considerados seres humanos pelas demais classes, são considerados animais que não são membros do partido. O Partido Interno, que compreende uma ínfima parte da população, se constitui de pessoas ambiciosas que estão imediatamente abaixo do Grande Irmão na hierarquia política e abaixo deste grupo se situa o Partido Externo, que compreende os membros medianos do partido. O controle totalitário da Oceania é mantido através de práticas bem definidas, como o controle da opinião pública, através de propaganda política à qual os

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membros do Partido Externo eram expostos 24 horas por dia e constante vigilância de todo e qualquer indivíduo, que podia ser preso e torturado a qualquer momento, pelo mínimo desvio de conduta, afastando-se do comportamento esperado pelo Partido.
Cada cidadão, ou pelo menos cada cidadão suficientemente importante para merecer espionagem, passou a poder ser mantido vinte e quatro horas por dia sob os olhos da polícia e ao alcance da propaganda oficial, fechados todos os outros canais de comunicação. Existia pela primeira vez a possibilidade de fazer impor não apenas completa obediência à vontade do Estado, como também completa uniformidade de opinião em todos os súditos. (ORWELL, 2005, p.198)

Essas duas práticas eram possíveis graças ao avanço tecnológico, que permitiu a criação das “teletelas”, telas acopladas às paredes que transmitiam e captavam imagens e sons simultaneamente. Outro recurso importante para o Partido manter seu poder era o controle total e absoluto dos registros da imprensa, usando isso para alterar constantemente o passado e as notícias, para servir o Partido, conforme fosse necessário em cada devido momento. Dessa forma, é impossível existir algum registro de algo que fosse desfavorável para o Partido e seus princípios. Essa alteração da realidade é chamada de “duplipensar”, uma palavra cunhada na Novilíngua (língua fictícia inventada no romance que serve como língua oficial da Oceania), que significa o ato de um indivíduo negar um fato real e acreditar que tal fato representa exatamente o inverso da realidade, caso isso lhe seja exigido pelo bem do Partido. A Novilíngua, apesar de ser a língua oficial da Oceania, não era ainda a língua usada na comunicação geral, a língua franca era o Inglês, como conhecemos hoje em dia (chamado também, no romance, de Anticlíngua), entretanto muitas palavras da novilíngua já eram usadas rotineiramente, mesmo em discursos feitos em inglês. Tal idioma, ao contrário de todos os demais idiomas existentes hoje, era o único que diminuía a quantidade de vocábulos com o passar do tempo. Isso se explica diante da vontade do Partido de limitar a gama de conceitos disponíveis para seus membros articularem suas idéias, permitindo assim que

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fossem manipulados ainda mais facilmente. O propósito do partido era que esse novo idioma passasse a ser o único idioma falado na Oceania até o ano de 2050, fato esse que permitiria ao Partido concluir que a Revolução tinha alcançado a sua plenitude, excluindo a possibilidade de qualquer ameaça ao poder. É possível afirmar, portanto, que a questão do idioma e, conseqüentemente, o da linguagem não aparece como um mero detalhe na obra de Orwell, criado por este única e exclusivamente com o intuito de dar maior profundidade e maior verossimilhança ao seu superestado fictício, mas sim que representa uma questão importante e recorrente, a qual permite que sejam feitos vários paralelos com teorias linguísticas.

Percebe-se como Orwell faz trocadilhos com as palavras logo nas primeiras páginas do livro, quando o personagem principal, Winston Smith, está subindo as escadas do prédio em que mora, e existe em cada andar um cartaz enorme com o rosto do Grande Irmão e os dizeres “O GRANDE IRMÃO ZELA POR TI” (ORWELL, 2005, p.5), na versão traduzida para o português não é possível perceber esse jogo de palavras, porém, no original em inglês é possível notar que a frase “BIG BROTHER IS WATCHING YOU” (ORWELL, 1990, p.2) carrega uma carga de ambiguidade, podendo significar tanto que o Grande Irmão cuida de seus seguidores, como também, que todos estão sendo constantemente vigiados, idéia essa que é reforçada pela descrição da imagem do Grande Irmão: “Era uma dessas figuras cujos olhos seguem a gente por toda parte” (ORWELL, 2005, p.5). Quando chega em seu apartamento, Winston olha pela janela e de lá pode avistar os quatro ministérios do Partido: O Ministério da Verdade, onde trabalhava, que se ocupa com a alteração e falsificação de dados; O Ministério da Paz, que se ocupa com a guerra; o Ministério da Fartura, que controla a escassez de provisões para os membros do Partido e o Ministério do Amor, responsável pela tortura e prisão.

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O primeiro indício que se tem de que Winston não está satisfeito com a situação atual em que vive é quando ele começa a escrever um diário, onde a princípio escreve apenas fatos que lhe ocorreram no dia anterior, numa torrente de palavras não muito ordenadas, e o narrador afirma que:
[...] ao fazê-lo, uma recordação inteiramente diferente se esclarecera em sua memória, a ponto de quase se sentir capaz de narrá-la. Percebia agora que fora por causa do outro incidente que de súbito resolvera ir para a casa e iniciar o seu diário aquele dia (ORWELL, 2005, p.12)

Essa prática, em sua finalidade, tem semelhanças com a fala egocêntrica explorada por Vigotski, que serve como instrumento de pensamento buscando meios para superar uma dificuldade. Aqui na história vemos que o simples ato de expressão verbal de Winston, pondo-se a escrever mal percebendo o que escrevia, serviu para que ele chegasse ao incidente que, de fato, motivara a sua escrita. O narrador passa a descrever tal incidente, ocorrido durante o programa Dois Minutos de Ódio que faz parte da propaganda política do Partido, e ataca diariamente um suposto traidor e inimigo do povo, Emmanuel Goldstein, juntamente com todas suas idéias e doutrinas. O ataque veiculado no programa é “um ataque tão exagerado e tão perverso que uma criança poderia refutá-lo, e no entanto suficientemente plausível para encher o cidadão de alarme, de receio que outras pessoas menos equilibradas o pudessem aceitar.” (ORWELL, 2005, p.15) Aqui, pode-se perceber o valor social que adquire Emmanuel Goldstein, bem como suas idéias, quando são expostos num programa feito exclusivamente para que os membros do Partido externem seu ódio. O índice de valor de um determinado signo, como vimos anteriormente, é definido de acordo com práticas sociais, e na Oceania, todas as interações sociais são controladas pelo Partido, portanto, conclui-se que todo signo tem seu índice de valor determinado pelo Partido, e nesse trecho acima podemos constatar que o Partido coloca em conhecimento de seus membros as idéias e ensinamentos de Goldstein sempre de forma

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ridicularizada e absurda, de forma que apenas valores negativos sejam associados à sua imagem. O incidente em si, que leva Winston a escrever, consiste na troca de olhares entre ele e um membro do Partido Interno, chamado O’Brien, durante os Dois Minutos de Ódio, nessa troca de olhares, Winston acredita ter sentido alguma ligação entre ele e O’Brien, como se os dois compartilhassem um sentimento de desprezo e ódio pelo Grande Irmão. Outros dois personagens são introduzidos no enredo, uma mulher morena, membro do Partido, que se chama (como Winston vem a descobrir mais tarde) Júlia e trabalha no Departamento de Ficção, e Syme “amigo” de Winston, que trabalha na criação da Décima Primeira Edição do dicionário de Novilíngua. É justamente em uma conversa entre Winston e Syme sobre a nova edição do dicionário que podemos ter uma idéia clara da importância da Novilíngua no enredo criado por Orwell, Syme diz:
Estamos dando à língua sua forma final [...] Estamos destruindo palavras, às dezenas, às centenas, todos os dias. Estamos reduzindo a língua à expressão mais simples. [...] o objetivo da novilíngua é estreitar a gama do pensamento [...] No fim, tornaremos a crimidéia literalmente impossível, porque não haverá palavras para expressá-la. [...] Todo o mecanicismo do pensamento será diferente. Com efeito, não haverá pensamento. (ORWELL, 2005, p.53 e 54)

Durante esse mesmo diálogo, travado no refeitório do Ministério da Verdade, chega à mesa Parsons, o vizinho de Winston, pouco antes da teletela do refeitório começar um grande relatório proveniente do Ministério da Fartura no qual era comunicado o “aumento” da ração semanal de chocolate para vinte gramas. Porém, no dia anterior anunciara-se que a ração semanal de chocolate havia sido reduzida para vinte gramas, e isso, entretanto, passou batido por todos os presentes na sala, e apenas Winston parecia lembrar-se do fato: “Seria possível que engolissem aquilo, vinte e quatro horas depois? Pois engoliam.[...] Parsons engoliu facilmente [...] Syme engoliu. Então era ele o único de posse da lembrança?” (ORWELL, 2005, p.60)

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Contudo, Winston não verbaliza sua percepção, pois de alguma forma ele sabe que sua opinião não tem força contra a opinião da maioria, uma vez que esta está de acordo com a opinião do Partido. Novamente se torna possível estabelecer um paralelo com o conceito de índice de valor. Neste caso, a opinião do protagonista não tem força, pois ele está querendo dar um valor para a ração de chocolate que não é compartilhado socialmente e como Bakhtin (1981) afirma, o arbítrio individual não desempenha papel algum na valorização de signos. Enquanto a teletela continuava despejando informações de “melhoria de vida”, Winston coloca-se a pensar na sua condição de vida, e a indagar-se se tudo fora sempre daquele jeito: “Teria sido sempre asssim? [...] Era fato que não tinha recordação de nada muito diferente. Por que achar tudo isso intolerável, a menos que se tivesse uma espécie de lembrança ancestral de coisas outrora diferentes?” (ORWELL, 2005, p.61) Com isso pode-se entender o porquê da população da Oceania não se revoltar com a queda de qualidade de vida, uma vez que essa, apesar de ser péssima, tem seu índice de valor determinado pelo Partido, que a proclama maior a cada dia que passa. Qualquer pessoa que tenha uma lembrança de outros tempos, que porventura fossem melhores, não terá sua opinião levada em conta, pois é parte de uma ínfima minoria, e também por não ser possível encontrar nenhum registro que comprove tal lembrança, o próprio protagonista está consciente disso e afirma:
Todos os registros foram destruídos ou falsificados[...] A história parou. Nada existe, exceto um presente sem-fim no qual o Partido tem sempre razão. Eu sei, naturalmente, que o passado é falsificado, mas jamais me seria possível prová-lo [...] A única prova está dentro da minha cabeça, e não sei com certeza se outros seres humanos partilham minhas recordações. (ORWELL, 2005, p.150)

No decorrer da narrativa, Winston envolve-se com Júlia, uma garota bem mais nova que ele, com a qual ele acaba tendo uma relação amorosa. Apesar de encontros e práticas sexuais que envolvam prazer serem completamente contra a ideologia do Partido, Winston e Júlia, através de um planos extremamente elaborados conseguem se encontrar de forma

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furtiva, acreditando estar livres da vigilância do Partido. Júlia, antes de Winston, já se encontrara com diversos outros membros do Partido, e assim expressava seu ódio contra o regime, infringindo suas “leis” e permanecendo ilesa. Winston tinha um ódio e uma animosidade mais profunda para com o Ingsoc, ele discordava de seus fundamentos e de suas motivações, enquanto Júlia apenas o odiava a medida que esse interferia com suas vontades próprias e Winston percebia essa diferença entre eles:
[Júlia] Odiava o partido [...] mas não o criticava em geral. Exceto no que tangia à sua vida particular, não lhe interessava a doutrina partidária. [...] Winston indagou de si mesmo, vagamente, quantos outros, como Júlia, devia haver na nova geração – jovens crescidos no mundo da Revolução, não sabendo nada mais, achando o Partido algo inalterável, como o céu. (ORWELL, 2005 p.127)

Tentava, às vezes, sem êxito, fazer com que Júlia entendesse a sua implicância com o Partido e as práticas que exerciam:
[...] lhe falava do Departamento de Registro e das impudentes falsificações que lá executava. Essas coisas não pareciam horrorizá-la. Não sentia o abismo abrindo-se aos seus pés, ao pensar nas mentiras que se transformavam em verdades. [...] Júlia tampouco tinha interesse pelas ramificações da doutrina do Partido. Sempre que ele começava a falar dos princípios do Ingsoc, duplipensar, a mutabilidade do passado e a negação da realidade objetiva [...] ela ficava aborrecida e confusa. (ORWELL, 2005, p.149 e 151)

Aqui fica claro o poder do Partido graças ao seu “controle sobre o passado”, pois se vê que Júlia é incapaz de ter a mesma percepção das práticas exercidas pelo Partido, uma vez que ela não tem nenhuma outra percepção da realidade, Winston por sua vez, é capaz de uma crítica mais profunda porque, mesmo remotamente, possui lembranças de uma realidade diferente, que não esse domínio pleno do Partido com toda sua falsificação e manipulação. Além de não possuir nenhuma lembrança de outra realidade é impossível para Júlia obter conhecimento desta, uma vez que o Partido tem total controle do presente, podendo assim moldar o passado conforme lhe for apropriado.

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Winston e Júlia ponderavam ás vezes a idéia de se engajar ativamente contra o Ingsoc, mas não pretendiam levar isso a cabo. Isso até Winston ser abordado por O’Brien, o sujeito com quem ele acreditava ter uma secreta ligação intelectual, no Ministério da Verdade, enquanto caminhava até seu cubículo. O’Brien inventou uma história que servira de pretexto para passar a Winston seu endereço, e algum tempo depois Winston foi juntamente com Júlia até a casa de O’Brien, quando ele, fingindo ser parte de um grupo organizado contra o Ingsoc, chamado de A Fraternidade, entrevistou e recrutou ambos para tal movimento. Alguns dias depois, Winston receberia um livro, supostamente escrito por Emmanuel Goldstein, que trazia todos os pensamentos que ele próprio, Winston, acreditava já possuir, só que escritos de forma organizada e clara. O livro defraudava todas as práticas do Ingsoc e revelava como cada uma delas servia para que o Partido se mantivesse indefinidamente no poder.
A realidade só exerce a sua pressão [sobre os membros do partido] através das necessidades da vida cotidiana – comer e beber, morar, vestir [...] e coisas semelhantes. [...] Sem contato com o mundo externo [outros superestados] e com o passado, o cidadão da Oceania é como um homem [...] que não tem meios de saber que direção leva para baixo ou para cima. Os governantes desse Estado são absolutos como os faraós e os césares não puderam ser [...] podem torcer a realidade e dar-lhe a forma que lhes aprouver. (ORWELL, 2005, p.191)

O livro de Goldstein ainda afirma que o Estado não possui nenhum receio de que a população venha a se rebelar, “[As massas] nunca se revoltarão apenas por ser oprimidas. Com efeito, se não se lhes permite ter padrões de comparação nem ao menos se darão conta de que são oprimidas”. Aqui se nota claramente como o controle do Partido tem domínio sobre a consciência das pessoas. Bakhtin afirma que a consciência individual tem sua origem numa realidade ideológica. O povo da Oceania conhece apenas a realidade ideológica do Partido, uma vez que esse controla toda a comunicação no presente e todo registro do passado, portanto a consciência dos indivíduos está à mercê do Partido, não podendo ser afetada por elementos alheios a essa realidade.
[...] o membro do Partido, como o proletário, tolera as condições atuais em parte por não possuir padrões de comparação. Deve ser isolado do passado, da mesma forma

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que deve ser isolado do estrangeiro, porque lhe é necessário crer que vive melhor que os ancestrais e que o nível médio de conforto material sobe constantemente. (ORWELL, 2005, p.204)

Sendo essa a ‘realidade’ apresentada pelo Partido nos anúncios do Ministério da Fartura, durante a incessante propaganda política, podemos entender porque os membros do partido acreditam ser verdadeira a notícia de uma melhoria de vida, mesmo vivendo cada dia mais miseravelmente. Tal domínio completo da sociedade e do pensamento do indivíduo só é possível graças ao ato deliberado de se conciliar contradições, por exemplo, O Partido mantém um regime que se sustenta na desigualdade social, porém o faz em nome do socialismo, rejeita e vilifica qualquer laço afetivo familiar entre seus membros, porém apelida seu chefe de o Grande Irmão, apelando para um sentimento de lealdade familiar. Tal prática é tão bem compreendida pelo Partido Interno que se reflete nos próprios nomes utilizados nos Ministérios: Ministério da Paz para cuidar da guerra, Ministério do Amor para torturar e oprimir, Ministério da Fartura para manter o povo na miséria, e Ministério da Verdade para falsificar a realidade. Até mesmo nos pequenos detalhes é possível detectar a ironia pungente dessa dualidade de sentidos, o Gim Vitória, de péssima qualidade, é o produto no qual os membros do partido afogam suas mágoas e tentam amenizar a ‘derrota’ de seus corpos frente a uma qualidade de vida deplorável. Aqui uma relação interessante com a teoria de Bakhtin pode ser estabelecida. Bakhtin afirma que em toda palavra, signo ideológico por excelência,
confrontam-se índices de valor contraditórios. O signo se torna a arena onde se desenvolve a luta de classes. Esta plurivalência do signo ideológico é um traço da maior importância. Na verdade, é este entrecruzamento dos índices de valor que torna o signo vivo e móvel, capaz de evoluir. (BAKHTIN, 1981, p.46, grifo do autor)

A única diferença é que Bakhtin fala de uma luta de classes promovendo essa contradição contida no signo, coisa que não acontece no Ingsoc, onde não existe a luta de classes. Tal contradição é deliberadamente forçada, permitindo assim que o signo assuma o

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valor que for preciso. Bakhtin diz que: “Na realidade, todo signo ideológico tem, como Jano, duas faces. Toda crítica viva pode se tornar elogio, toda verdade viva não pode deixar de parecer para alguns a maior das verdades.”(1981, p.47) conceito esse que pode ser facilmente identificado em três passagens de 1984:
- Em Novilíngua há uma palavra que não sei se conheces. É patofalar – disse Syme – Grasnar como um pato. É uma dessas palavras interessantes que têm [sic] dois sentidos contraditórios. Aplicada a um adversário, é insulto; aplicada a um correligionário, é elogio. (ORWELL, 2005, p.56, grifo do autor) [...] é preciso haver uma incansável flexibilidade de momento a momento, na interpretação dos fatos. Aqui a palavra-chave é negrobranco. Como tantas outras palavras da Novilíngua, esta tem dois sentidos mutuamente contraditórios. Aplicada a um adversário caracteriza o hábito de afirmar impudentemente que o negro é branco, em contradição aos fatos evidentes. Aplicada a um membro do Partido, significa leal disposição de dizer que o preto é branco quando o Partido o exige. (ORWELL, 2005, p.204, grifo do autor) - Como posso deixar de ver o que está diante de meus olhos? Dois e dois são quatro. - Às vezes, Winston. Às vezes são cinco. Às vezes são três. Às vezes são as três coisas ao mesmo tempo. (ORWELL, 2005, p.239)

Winston lê o livro até ter um completo entendimento de como o Partido se mantém no controle absoluto da Oceania, porém para a leitura no momento em que o livro está prestes a explicar por que o partido o fazia, e adormece ao lado de Júlia. Quando acordam, travam um breve diálogo, antes de serem flagrados pela polícia, presos e levados ao Ministério do Amor. No Ministério do Amor, Winston é espancado e torturado, passa longos períodos de fome, sempre em celas brancas iluminadas fortemente por luzes artificiais. Após um período de torturas majoritariamente físicas, Winston passa a ser alvo também de humilhação moral e de tortura intelectual, comandada esta, por O’Brien, que revela ter sido capturado pela Polícia do Pensamento muito tempo atrás, possibilitando a Winston deduzir que todo o tempo O’Brien fingira ser parte do tal grupo conspiratório. O’Brien, durante as sessões de

interrogatório/tortura, adotava uma postura de professor como se quisesse que Winston aprendesse com ele, afirmava não estar lá para punir Winston, e sim para curá-lo de uma doença, de uma loucura. O’Brien reafirma vários conceitos sobre o Partido que já foram

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discutidos aqui nesse trabalho, como, por exemplo, o controle do Ingsoc sobre a consciência de seus indivíduos, como pode ser visto durante um diálogo, quando O’Brien repreende Winston:
Crês que a realidade é algo objetivo, externo, que existe per si. Acreditas também que é evidente a natureza da realidade. Quando te iludes, e pensa enxergar algo, julgas que todo mundo vê a mesma coisa. Mas eu te digo, Winston, a realidade não é externa. A realidadade só existe no espírito, e em nenhuma outra parte. Não na mente do indivíduo, que pode se enganar, e que logo perece. Só na mente do Partido, que é coletivo e imortal. O que quer que o Partido afirme que é verdade, é verdade. É impossível ver a realidade exceto pelos olhos do Partido. (ORWELL, 2005, p.237, grifo do autor)

Aqui, é explícito o paralelo que pode ser traçado entre a fala de O’Brien e os conceitos expostos no capítulo 2, que afirmam que a palavra é uma generalização e a que tal generalização é por sua vez um reflexo da realidade. No romance, toda a realidade é

apreendida pela ótica do partido, uma vez que o Partido controla todas as interações sociais, que determina como a realidade será refletida pela linguagem, que por sua vez, delimita a forma pela qual a realidade pode ser expressa, e assim por diante, num ciclo sem fim. Ciclo esse bem definido por Willian Lutz, em seu ensaio Notes toward a Definition of Doublespeak:
A língua, portanto, reflete nossa percepção da realidade, que, por ora, influencia e modela nossa forma de reagir a outras pessoas, acontecimentos e idéias. A língua é como um molde conceitual usado para organizar nossos pensamentos. Desta forma, a língua se torna o meio pelo qual damos forma à realidade e o meio pelo qual comunicamos nossa percepção de realidade aos outros. A língua pode facilmente distorcer percepções e influenciar comportamentos, sendo, portanto, uma ferramenta ou uma arma, para se realizar o maior dos bens, ou o pior dos males. (LUTZ, 1989, p.16, tradução nossa)

É de fácil apreensão o uso da língua como ferramenta por parte do Partido, ferramenta essa que permitiu o início da Revolução e todas as demais práticas do Partido, fato bem compreendido por Syme, quando afirma que: “A Revolução se completará quando a língua for perfeita. Novilíngua é Ingsoc e Ingsoc é Novilíngua”. (ORWELL, 2005, p.54) Após todos os exemplos dados, e todas as comparações feitas às teorias de Bakhtin e Vigotski, torna-se possível concluir que toda essa questão da linguagem, e de como ela influencia o pensamento da sociedade ocupa um lugar importante na obra 1984, com George

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Orwell explorando-a em suas mais diversas esferas de profundidade, mostrando que uma doutrina consciente da força da linguagem é capaz de dominar a sociedade de uma forma mais completa e mais absoluta do que jamais se viu anteriormente. As considerações finais sobre a consciência de Orwell de todos esses aspectos da linguagem, e o que se pode apreender de tal consciência, serão feitas a seguir.

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CONSIDERAÇÕES FINAIS Este trabalho teve como proposta a análise de questões lingüísticas presentes no romance 1984 escrito por George Orwell, uma das obras mais importantes do gênero antiutópico e mais politicamente relevantes do século XX. Após um estudo sobre as principais teorias lingüísticas voltadas ao pensamento e à linguagem e como se dá a interrelação entre estas, pôde-se perceber, ao longo da análise do romance, exemplos claros de que George Orwell tinha uma visão ampla da força e importância da linguagem nas interações de classe. A forma como o autor expõe esse tema ao longo de seu romance indica que ele se preocupava com a ameaça que um domínio da linguagem representa, caso utilizado de forma abusiva. Portanto apesar de ser primariamente um livro que critica a tirania da Revolução Russa e outros movimentos que manipularam o povo, apresenta essa questão de domínio através da linguagem, responsável esta por moldar e determinar o pensamento social, de uma forma tão fundamental e condizente com as teorias propostas por Bakhtin e Vigotski que torna possível concluir que a obra tem um alcance muito maior que apenas político. Quando se leva em conta a parte relacionada a linguística, temos uma obra atual, por mais que hoje em dia não tenhamos nenhuma superpotência ‘socialista’ nos moldes apresentados pelo Ingsoc. A sociedade aparentemente democrática e neoliberal oferece um terreno tão propício quanto, ou até mesmo mais propício para algumas das práticas utilizadas pelo Ingsoc, uma vez que a prática ideológica do duplipensar e da alteração da realidade, quanto mais sutil, mais eficaz e poderosa é. Assim sendo a atual sociedade, capitalista por excelência, torna o consumo de coisas supérfluas em praticamente uma necessidade para muitas pessoas, também através da propaganda e influência midiática, que atualmente é utilizada para cultuar a subserviência ao lucro e ao consumismo, ideologias essas que são tão

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aceitas pela maioria esmagadora que fazem desnecessária uma vigilância como a do Partido, uma vez que vivemos sobre as rédeas invisíveis do ‘politicamente correto’ e da necessidade de reproduzir e se encaixar dentro dos costumes de classe. Agora que o ‘futuro’ chegou (pelo menos se for usada a perspectiva de George Orwell, que morreu há mais de 50 anos) podemos ver que muito do que o autor profetizou não chegou a acontecer, mas que seu medo de uma corrupção através da linguagem, por conta da dualidade presente em cada signo, é mais do que nunca algo a que também devemos prestar atenção. Um ótimo exemplo de que uma mesma palavra carrega em si a possibilidade de valores completamente opostos, e de que a interação social determina o valor de cada signo pode ser vista se considerarmos o termo “Big Brother” e compararmos suas significações. Originalmente era o personagem do livro, representação do Ingsoc, partido soberano e explorador da sociedade, hoje em dia, a grande maioria das pessoas não faz essa associação quando escuta o termo “Big Brother”, pensa primeiro no reality show veiculado pela maior rede televisiva do país. Fato tão irônico quanto os nomes dos Ministérios na obra de Orwell. Usar um nome cunhado por Orwell em um romance que ele escreveu tentanto alertar o povo da propriedade traiçoeira da língua, como título de um programa de televisão que não visa nenhum tipo de enriquecimento cultural de seus milhões telespectadores e sim um lucro exclusivo da pequena elite produtora não difere tanto de nomear um centro de torturas como Ministério do Amor, ou de chamar um departamento de falsificações de Ministério da Verdade. Por esses e outros motivos que é necessária uma pesquisa sobre a influência linguística em 1984, esse trabalho estudou algumas das muitas relações que podem ser feitas e pesquisadas a partir deste romance de George Orwell, na esperança de que possa servir de ajuda e inspiração para futuros trabalhos que venham a seguir pela mesma linha linguística.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BAKHTIN, Mikhail. Marxismo e Filosofia da Liguagem. 1ª Ed. São Paulo, SP: Hucitec, 1981. FIORIN, José Luiz. Linguagem e Ideologia. 7ª Ed. São Paulo, SP: Ática, 2003. FERREIRA, Virgílio. Aparição. Lisboa, Portugal: Portugália Editora, 1971. ORWELL, George. 1984. 29ª Ed. São Paulo, SP: Companhia Editora Nacional, 2005. ORWELL, George. A Revolução dos Bichos. São Paulo, SP: Companhia Das Letras, 2009. PIAGET, Jean. A Linguagem e o Pensamento da Criança. 7ª Ed. São Paulo, SP: Martins Fontes, 1999. VIGOTSKI, Lev Semenovitch. Pensamento e Linguagem. 4ª Ed. São Paulo, SP: Martins Fontes, 2008.

REFERÊCIAS ELETRÔNICAS LUTZ, William. “Notes toward a Definition of Doublespeak”. Beyond Nineteen EightyFour: Doublespeak in a Post-Orwellian Age. 1989. Disponível em: <http://eric.ed.gov/ERICDocs/data/ericdocs2sql/content_storage_01/0000019b/80/1f/86/a9.pd f>. Acesso em 05 ago. 2009. Encyclopædia Britannica. "George Orwell". Encyclopædia Britannica Online. 2009. Disponível em: <http://www.britannica.com/EBchecked/topic/433643/George-Orwell>. Acesso em 08 set. 2009.

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

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CHAUÍ, Marilena. O Que É Ideologia? 19ª Ed. São Paulo, SP: Brasiliense, 1985. GNERRE, Maurizio. Linguagem, Escrita e Poder. 4ª Ed. São Paulo, SP: Martins Fontes, 1998. FOUCAULT, Michel. A Arquologia do Saber. 4ª Ed. Rio de Janeiro, RJ: Forense Universitária, 1995.

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