Universidade de São Paulo Escola de Comunicações e Artes Departamento de Relações Públicas, Publicidade e Turismo

ATIVIDADE TURÍSTICA EM RESERVAS PARTICULARES DO PATRIMÔNIO NATURAL (RPPN) - ESTUDO DE CASO: POUSADA DAS ARARAS – SERRANÓPOLIS / GO

Vinicius Moraes Raszl

São Paulo 2005

Vinicius Moraes Raszl

ATIVIDADE TURÍSTICA EM RESERVAS PARTICULARES DO PATRIMÔNIO NATURAL (RPPN) - ESTUDO DE CASO: POUSADA DAS ARARAS – SERRANÓPOLIS / GO

Monografia graduação

apresentada em turismo

ao da

curso Escola

de de

Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, como requisito parcial à

obtenção do título de bacharel em turismo. Orientador: Prof. Msc. Reinaldo Miranda de Sá Telles

São Paulo 2005

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BANCA EXAMINADORA

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Dedico este trabalho aos meus pais, que possibilitaram a realização de todos os meus estudos; só posso agradecer por este imenso presente para minha vida: o conhecimento.

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AGRADECIMENTOS

Ao Professor Reinaldo, pela disposição, paciência e disponibilidade no auxílio da conclusão deste trabalho.

Aos meus amigos da Escola de Comunicações e Artes, que me acompanharam na vida acadêmica e propiciaram os anos mais memoráveis da minha vida.

À senhora Ivana Ramos, proprietária da Pousada das Araras, que disponibilizou o apoio necessário para a pesquisa de campo.

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RESUMO

As Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPN) foram regulamentadas pelo governo em 1990 e elevadas à categoria de Unidade de Conservação no ano de 2000, com a entrada em vigor do Sistema Nacional de Unidades de Conservação, que criou uma legislação especial para sua implementação e manutenção. As reservas particulares desenvolveram-se no Brasil de maneira quase espontânea, enquanto o sistema das reservas privadas em outros países ocorre de maneira diversa. Este desenvolvimento atualmente ocorre também em quantidade, pois, nos últimos cinco anos, observou-se um aumento importante de RPPNs no Brasil. Este aumento destaca características muito peculiares no que tange à administração, ao relacionamento com a sociedade, ao meio ambiente e principalmente ao turismo.

Palavras chave: reserva particular; Unidade de Conservação; ecoturismo.

RASZL, Vinicius Moraes. Atividade de Ecoturismo em Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPN). Estudo de Caso: Pousada das Araras – Serranópolis/GO, 2005. Trabalho de Conclusão de Curso – Universidade de São Paulo, 2005.

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ABSTRACT

The Private Reserve from Natural Patrimony (PRNP) was regulated by govern in 1990 and transformed into Unit of Conservation in 2000, with the validity of the National System of Unities of Conservation, that created a special law for its implementation and maintenance. The development of private reserves in Brazil occurred in an almost spontaneous way, while the private reserves system in other countries is very different. Nowadays that development also occurs in quantity since in the last five years there was an important enlarging of the PRPNs in Brazil. The PRPNs enlarging detaches singular features on management, relationship with society, environment and especially with tourism.

Key Words: private reserve; unit of conservation; ecotourism.

RASZL, Vinicius Moraes. Tourism Activity in Private Reserves From Natural Patrimony. Case Study: Pousada das Araras – Serranópolis/GO, 2005. Curse Conclusion Work – Universidade de São Paulo, 2005.

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LISTA DE FIGURAS

Figura 1 - Localização da reserva..............................................................................62 Figura 2 - Manejo para evitar erosão. .......................................................................66 Figura 3 - Manejo para subida em pedra.. ................................................................66 Figura 4 - Vista do mirante no 1.. ...............................................................................66 Figura 5 - Piscina natural .. ........................................................................................67 Figura 6 - Passarela para pinturas.. ..........................................................................69 Figura 7 - Passarela e deque para aulas.. ................................................................69 Figura 8 - Centro de visitantes: área externa.. ..........................................................70 Figura 9 - Centro de visitante: área interna.. .............................................................70 Figura 10 - Piscina de água tratada.. ........................................................................71 Figura 11 - Vista do chalé: externo.. ..........................................................................73 Figura 12 - Vista do chalé: interno.. ...........................................................................73 Figura 13 - Área de camping.. ...................................................................................75 Figura 14 - Gráfico de distribuição etária dos visitantes.. ..........................................76 Figura 15 - Gráfico de distribuição de renda dos visitantes.. ....................................77 Figura 16 – Organograma.. .......................................................................................81

LISTA DE TABELAS

Tabela 1 - Preços de hospedagem em chalés.. ........................................................73 Tabela 2 - Preços de hospedagem em quartos simples.. .........................................74 Tabela 3 - Preços de hospedagem em camping.. .....................................................75

VIII

Sumário

1.

INTRODUÇÃO.................................................................................................14

1.1 1.2 1.3 1.4 1.5

Tema.....................................................................................................14 Problema...............................................................................................14 Hipóteses..............................................................................................14 Justificativa............................................................................................15 Objetivos...............................................................................................16 1.5.1 Objetivo geral...............................................................................16 1.5.2 Objetivos específicos...................................................................16

1.6

Metodologia...........................................................................................17

2.

TURISMO E ECOTURISMO............................................................................18

3.

UNIDADES DE CONSERVAÇÃO...................................................................23 3.1 3.2 3.3 Conservacionismo e preservacionismo.................................................23 Conceito de Unidade de Conservação.................................................25 Histórico de Unidade de Conservação..................................................26 3.3.1 Mundial.........................................................................................26 3.3.2 Brasil............................................................................................28 3.4 Histórico de RPPN................................................................................31 3.4.1 Histórico mundial........................................................................31 3.4.2 Histórico brasileiro......................................................................35 IX

3.5 3.6 3.7 3.8 3.9

Legislação.............................................................................................38 Exigências e burocracias para implantação de uma RPPN..................43 Atividades econômicas permitidas em RPPN e plano de manejo........45 Vantagens e desvantagens para os proprietários de RPPN.................48 Conflitos entre gestão privada e pública...............................................50

3.10 Ecoturismo em RPPN...........................................................................53

4.

ESTUDO DE CASO...................................................................................56

4.1 4.2

Aspectos econômicos do estado de Goiás...........................................56 Caracterização do bioma que integra a região em estudo...................59 4.2.1 Flora e fauna..............................................................................60

4.3

Dados, localização e histórico da criação da RPPN Pousada das

Araras.........................................................................................................................61 4.3.1 Dados...........................................................................................61 4.3.2 Localização..................................................................................62 4.3.3 Histórico da criação......................................................................63 4.4 Recursos turísticos................................................................................64 4.4.1 Trilhas.........................................................................................65 4.4.2 Mirantes......................................................................................66 4.4.3 Piscina natural............................................................................67 4.4.4 Histórico-arqueológico................................................................67 4.5 Infra-estrutura básica............................................................................69 4.5.1 Centro de recepção ao visitante..................................................69 4.5.2 Lanchonete e restaurante............................................................70

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4.5.3 Estacionamento...........................................................................71 4.6 Áreas de lazer e entretenimento...........................................................71 4.6.1 Piscina de água tratada...............................................................71 4.6.2 Áreas de práticas desportivas......................................................72 4.6.3 Churrasqueira...............................................................................72 4.7 Infra-estrutura de hospedagem.............................................................72 4.7.1 Chalés..........................................................................................73 4.7.2 Quartos simples...........................................................................74 4.7.3 Camping.......................................................................................74 4.8 4.9 Público visitante....................................................................................75 Administração........................................................................................78 4.9.1 Marketing e divulgação................................................................79 4.9.2 Organograma...............................................................................80 4.10 Interferência de organizações na RPPN Pousada das Araras.............82 4.10.1 Associação dos proprietários de RPPN de Goiás......................83 4.10.2 Governos municipal e estadual..................................................84 4.10.3 ONGs..........................................................................................85 4.10.4 Operadoras de turismo...............................................................86 4.10.5 IBAMA........................................................................................86 4.11 Vantagens e desvantagens da RPPN, segundo o proprietário.............87 4.11.1 Vantagens..................................................................................87 4.11.2 Desvantagens.............................................................................88 4.12 Plano de manejo...................................................................................89

XI

5. Considerações finais...........................................................................................91

Bibliografia................................................................................................................96

Anexos.....................................................................................................................100 Anexo A Anexo B Total de RPPNs criadas por anos segundo o IBAMA..............100 Mapa de localização das RPPNs no Brasil..............................101

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LISTA DE SIGLAS

FNMA - Fundo Nacional do Meio Ambiente FUNATURA - Fundação Pró-Natureza IBAMA - Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis IBDF - Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal IUCN - União Internacional para a Conservação da Natureza IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional ITR - Imposto Territorial Rural ONG - Organização Não-Governamental ONU - Organização das Nações Unidas OSCIP - Organização Social Civil de Interesse Público RADAM - Radar da Amazônia RPPN - Reserva Particular do Patrimônio Natural SEMA – Secretaria de Meio Ambiente SNUC - Sistema Nacional de Unidades de Conservação WWF - World Wildlife Fund

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1 Introdução

1.1 Tema

O tema escolhido para ser discutido por esta monografia é a atividade turística em Reservas Particulares do Patrimônio Natural - Estudo de Caso: Pousada das Araras – Serranópolis/GO.

1.2 Problema

Como se dá a relação da propriedade privada com uma área de proteção ambiental onde existem limitações para seu uso comercial, sendo o turismo possível fonte de renda e importante meio de contato entre a sociedade e a reserva natural protegida?

1.3 Hipóteses

A maior parte das RPPNs tem a possibilidade de desenvolver a atividade turística.

Tendo em vista as restrições legais de uso das RPPNs, a atividade do turismo se torna o maior benefício que o proprietário pode obter.

O status de reserva é mais um fator de vantagem do que um dificultador em relação à implantação do turismo.

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1.4 Justificativa

As Unidades de Conservação (UC) representam um assunto que já recebe uma considerável importância no meio acadêmico brasileiro e mundial. Existem diversos livros, artigos científicos e trabalhos acadêmicos que tratam deste assunto, porém há uma lacuna nos estudos de Unidades de Conservação, que são reservas de caráter privado. As Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPN) no Brasil têm passado por um aumento considerável, segundo o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (IBAMA). O crescimento dessas unidades tem sido bem expressivo: existem hoje 408 RPPNs, sendo que em 2001 foram oficializadas 53 delas, segundo dados do IBAMA (2005). Com todo esse aumento e tendo em vista que o uso dessas áreas para o ecoturismo é uma possibilidade legal, faz-se necessário levantar os aspectos relativos à utilização, por interesse privado, de áreas ambientalmente protegidas, tais como a relação dos proprietários com a área protegida e sua capacidade de gestão da RPPN em relação aos aspectos ecológicos e turísticos. Também é preciso verificar até que ponto este tipo de iniciativa de proteção ao meio ambiente substitui o poder público no papel de salvaguarda do meio ambiente e, ainda, relacionar a função do ecoturismo como atividade de proteção ambiental. Para tanto, será necessário focalizar o estudo no conhecimento dos aspectos legais e na possibilidade de vislumbrar as Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPN) como empreendimentos de pequeno porte que se relacionam com o ecoturismo no contexto do surgimento deste tipo de unidade de conservação no

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Brasil, na realidade atual do turismo ecológico e no interesse e capacidade dos proprietários de RPPNs para gerir este tipo de empreendimento.

1.5 Objetivos

1.5.1 Objetivo geral

Entender o funcionamento das Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs) e, portanto, a relação entre seu aproveitamento econômico e social para o turismo.

1.5.2 Objetivos específicos

Analisar o funcionamento de uma reserva e traçar paralelos entre administrações privada e pública de Unidades de Conservação.

Identificar o funcionamento do ecoturismo em RPPNs e a maneira como a legislação trata esta atividade.

Buscar as normas e indicações oferecidas pelos órgãos responsáveis pelo turismo no Brasil e no mundo para este tipo de reserva.

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1.6 Metodologia

Visando atingir os objetivos sugeridos para esta pesquisa, realizou-se um levantamento bibliográfico exploratório em publicações nacionais e internacionais, por meio de livros, artigos de revistas científicas especializadas impressas e online na Internet, além de anuários estatísticos. Concluída esta etapa e, tendo assim, um conjunto de informações teóricas sobre o assunto estudado, segue-se para a pesquisa de campo. A pesquisa in loco iniciou-se com a seleção da RPPN, sendo que como critérios para seleção, buscava-se na propriedade a prática de turismo estruturada, já que o intuito desde o início da pesquisa era analisar a prática do turismo e não o potencial turístico nas RPPNs. Outro fator importante para seleção da RPPN era a disponibilidade de tempo e interesse do proprietário para acompanhar as visitas e responder as indagações levantadas. A pesquisa de campo foi feita através de uma visita realizada no dia 17 de junho de 2005. Nesta visita foi feita uma verificação de todos os atrativos e instalações de hospedagem, alimentação e recreação da RPPN, além de catalogação fotográfica. Nesta verificação foram analisados as funções e capacidades para recepção de turistas de cada item. Toda a visita foi acompanhada por um dos guias da Reserva. Foram também colhidos dados que tratavam da gestão da Reserva através de uma entrevista realizada com os proprietários da RPPN.

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2. Turismo e ecoturismo

Conceituar turismo é algo muito complexo, aliás, uma tarefa que um expressivo número de importantes autores procura fazê-lo. A grande quantidade de definições resultantes do trabalho destes autores acaba por revelar a faceta multidisciplinar e a extensão do fenômeno do turismo. Para vários pesquisadores, essa complexidade do fenômeno turístico, com abrangência em diversos campos do conhecimento, dificulta uma definição precisa (BENI, 2001: 36). Em relação a esta dificuldade de definir esse termo, ANDRADE (1992: 35) diz que “o turismo é fenômeno recente como objeto de estudo, embora antigo como fato socioeconômico e político-cultural [...]”. Para alguns autores, no entanto, existem elementos que são comuns nos estudos de turismo, independentemente da definição que se busque, como os que se seguem:

Viagem ou deslocamento: é a questão do movimento do turista, pois, sem o deslocamento do indivíduo, não existe a possibilidade do turismo.

Permanência fora do domicílio: a permanência fora de seu ambiente residencial domiciliar também é parte integrante da idéia de turismo. Para se configurar a atividade turística, é necessário que o indivíduo pernoite fora de sua residência, independente de essa permanência ser feita em hospedagem paga ou não.

Temporalidade: a permanência sem a transferência de residência fixa ou temporária também é preceito básico do turismo.

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Objeto de turismo: este ponto refere-se às funções receptivas e aos serviços em geral, que visam à satisfação do turista. Para BENI (2001: 37), “pode-se conceituar bem turístico como todos os elementos subjetivos e objetivos ao nosso dispor, dotados de probabilidade, passíveis de receber um valor, ou seja, um preço”.

Alguns autores, como Huzinker e Krapf (apud: FUSTER:74), afirmam que: “o turismo é um sistema complexo que engloba o deslocamento desde seu local de residência até o ponto a ser visitado e sua permanência e retorno [...]”. Ainda na temática de sistemas, Beni (2001: 23) busca definir o turismo abordando a teoria geral dos sistemas, em que as atividades turísticas ocorrem sempre mediante um conjunto de relações ambientais interligadas por subsistemas, sendo estes sistemas o ecológico, social, econômico e cultural. Esta ligação dos subsistemas produz uma movimentação direta e indireta de diversos setores socioeconômicos. No que tange aos subsistemas, destaca-se, no caso deste trabalho, o ecológico. Este subsistema abrange, em parte, o subsistema cultural, porque também trata, segundo Beni (2001: 55) “da busca de espaços abertos, dilatados horizontes, belas paisagens, ambiente saudável e tranqüilo, contemplação e meditação, ou dedicar-se a atividades de recreação, entretenimento ou desportivas”, ou seja, em relação ao turismo, o subsistema ecológico tem como ponto de partida a questão da fuga dos grandes centros urbanos. O subsistema ecológico é a base para os outros subsistemas. Isto não significa que o ecológico seja mais importante, mas, na atualidade, diferentemente das décadas anteriores a 1980, as pessoas têm se preocupado mais com a ecologia, pois é por meio da natureza que a espécie humana se mantém viva no

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planeta. Sobre este assunto, Beni (2001: 55) afirma que “a Ecologia é o sustentáculo de todas as manifestações de vida planetária e do Sistur (Sistema de Turismo) que contém a teoria dos subsistemas”. O caráter multifacetário do turismo possibilitou os mais diversos tipos de segmentos turísticos, de acordo com a demanda e as possibilidades de marketing para um determinado momento da história (BENI, 2001). Dentre esses segmentos de turismo, um que merece destaque é o turismo no ambiente natural, também chamado de ecoturismo. O ecoturismo pode ser realizado em diversos tipos de áreas. No Brasil, destacam-se as Unidades de Conservação de administração pública federal, estadual e municipal, além de propriedades particulares, sendo que, incluídas neste último tipo, estão as RPPNs. Entretanto, antes de tratar da prática, deve-se pensar na questão teórica da definição do ecoturismo. Segundo a União Internacional para a Conservação da Natureza, ecoturismo significa:

Viagens e visitação responsável em áreas naturais com baixas alterações ambientais, tendo o interesse de interagir e apreciar a natureza, ao mesmo tempo em que promove conservação, tem baixo impacto da visita, e provêm de maneira benéfica atividades socioeconômicas envolvendo a população local (IUCN, 1998).

O interesse pelo ecoturismo começou a se desenvolver realmente com o aumento das preocupações ambientais no início dos anos 70. O marco para essa busca mais engajada da causa preservacionista se deu com a conferência de Estocolmo em 1972, a Primeira Conferência sobre Meio Ambiente Humano promovida pela Organização das Nações Unidas – ONU (RUSSO, 1999).

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Em 1992, ocorreu no Rio de Janeiro a ECO 92, como resultado subseqüente da conferência de Estocolmo. A partir de então, muitas ONGs começaram a surgir, e algumas organizações internacionais passaram a ter repercussão na mídia mundial, como o Greenpeace e a World Wildlife Fund (WWF), que têm ajudado a ampliar as discussões sobre preservação da natureza. Atualmente a questão de proteção à natureza está em evidência, pois o processo de devastação nunca esteve tão visível para os seres humanos, graças à intervenção da mídia e aos estudos decorrentes dessa destruição. O aquecimento global é o maior exemplo dessa devastação. O ecoturismo tem sido visto como uma chance de contribuição positiva para a preservação do meio ambiente (WEARING; NEIL, 2001:02). Muito se tem levantado a bandeira da busca por um turismo que traga menos impactos à natureza. Assim, como verifica TULIK (1993: 35), aproveitando-se da motivação que se observa nos consumidores de turismo e, portanto, potenciais consumidores do ecoturismo, a propaganda turística se utiliza das atividades mais variadas de recreação e lazer, mesmo que estas tenham somente ligações marginais com o meio ambiente, e a rotulam com o termo ecológico. Observando possíveis distorções na idéia de ecoturismo, Wearing & Neil (2001: 10) determinam quatro fatores como primordiais para a conceituação da atividade de ecoturismo: viagem restrita a áreas protegidas ou relativamente tranqüilas; motivação baseada na natureza; fator de conservação, ou seja, o ambiente deve aparentar ter sido minimamente alterado pelo ser humano; e papel educativo, transformando a viagem de conhecimento do meio ambiente em atitude de preservação da natureza.

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A exploração do turismo em atividades ecológicas ainda deve ser vista com algumas restrições no que se refere à preservação. O pouco planejamento em relação ao meio ambiente ainda faz do ecoturismo um potencial devastador do meio ambiente. A teoria prevê realmente o ecoturismo como atividade de preservação, mas a prática, no geral, faz com que a busca de lucro desrespeite princípios básicos de preservação, transformando áreas de preservação em pontos de turismo massivo com graves conseqüências para o próprio empreendimento de turismo. O ecoturismo requer assim baixo impacto na atividade de visitação. Para WEARING; NEIL (2001: 9), a idéia do ecoturismo é a de que se possa aproveitar o meio ambiente sem causar impactos maiores, como aqueles que, por exemplo, uma atividade extrativista poderia trazer. Mais ainda: espera-se que o ecoturismo possibilite a recuperação de áreas naturais que tenham sido afetadas de alguma maneira por atividades antrópicas. Em circunstâncias ideais, o ecoturismo deve trazer ganhos financeiros para a comunidade local, melhorias de infra-estrutura, e, de uma maneira mais indireta, melhorar as atividades comerciais de municípios eventualmente próximos à área de visitação, sendo que esse benefício deve ser possibilitado por uma política não consumista dos recursos disponíveis para a prática do ecoturismo (STERN et al., 2003: 323). Enfim, há uma forte tendência em praticar o ecoturismo em áreas preservadas, delimitadas em Unidades de Conservação ou não. No caso específico das Unidades de Conservação, objeto deste estudo, estas podem ser configuradas como públicas ou privadas. Seu histórico é bem antigo, mas tem de certo modo se padronizado pelo mundo, evidentemente com as adaptações necessárias ao meio ambiente e também à cultura de preservação de cada país.

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3. Unidades de Conservação

3.1 Conservacionismo e Preservacionismo

As Unidades de Conservação ganharam um grande destaque, principalmente a partir da metade do século XX, quando se começou a discutir de modo mais globalizado, internacionalmente, os conceitos de uso e preservação de áreas naturais primitivas. Mas a história das Unidades de Conservação tem seu início no século XIV, como será visto a seguir. Logo com o surgimento dos primeiros parques nacionais nos Estados Unidos, na década de 1870, iniciou-se uma discussão a respeito de duas correntes de proteção à natureza. Nesta época, os conservacionistas, representados pela figura de Gifford Pinchot, defendiam um uso racional dos bens, acreditando que a transformação de bens não renováveis deveria atender a padrões de eficiência que mantivessem uma linha dentro de limites aceitáveis de aproveitamento para ambos os lados. Pinchot determinou três princípios básicos sobre o conservacionismo: o uso dos recursos naturais; a prevenção do desperdício e o uso dos recursos naturais para benefício da maioria dos cidadãos. Pode-se dizer que os conservacionistas foram os precursores da teoria do desenvolvimento sustentável (DIEGUES, 1996:28). Os preservacionistas tiveram como seu principal representante John Muir, que começou a formular sua teoria em 1857. Diegues (1996: 29) argumenta sobre o preservacionismo descrito por Muir que “a base do respeito pela natureza era seu reconhecimento como parte de uma comunidade criada à qual os humanos também pertenciam”. Para Muir, “não somente os animais, mas as plantas e até as rochas e

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a água eram fagulhas da Alma Divina que permeava a natureza”. Assim, o preservacionismo via a salvaguarda como maneira de proteger os recursos naturais, e assim uma forma de preservação pura da natureza. Estas duas correntes de pensamento o conservacionismo e o

preservacionismo - nortearam, em um primeiro momento, as políticas de proteção à natureza nos Estados Unidos, já que estas discussões ocorreram

concomitantemente à criação dos primeiros parques nacionais desse país, que acabaram por servir de modelo para criação de outros parques pelo mundo (DIEGUES, 1996). Em geral, a elaboração de teorias antagônicas sobre um mesmo tema leva à radicalização da discussão. O radicalismo, por sua vez, freqüentemente perde a razão e ofusca as possibilidades de integração entre os pontos positivos de diferentes teorias sobre um mesmo tema. É interessante então, agregar o conservacionismo e o preservacionismo em um modelo único de uso do ambiente natural protegido, em que ambas as correntes têm coincidentes em relação a temas de preservação: a razão e a inadequação. A flexibilização desses conceitos parece ideal quando se trata da elaboração de modelos administrativos de áreas protegidas que lidam com diferentes culturas e mesmo com diferentes biomas. Esta discussão é importante, já que, no Brasil, de um modo geral, a criação das Unidades de Conservação, bem como sua legislação pertinente, acabaram por colocar os preceitos do conservacionismo e do preservacionismo em ordem de discussão. Tais discussões levaram o Projeto de lei do Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC) a diversas modificações. No Brasil, foram adotados preceitos de ambos os lados com, talvez, uma tendência maior para o conservacionismo. Como exemplo dessa mescla, pode-se citar a questão da

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obrigatoriedade da possibilidade de visitação em parques nacionais, ao mesmo tempo em que todas as populações, inclusive as tradicionais e residentes na área do parque, têm suas terras desapropriadas. A idéia de RPPN aproxima-se muito dos conceitos do conservacionismo, pois se trata de uma área criada para proteger o meio ambiente, e que, ao mesmo tempo, seja utilizado de maneira responsável e até mesmo com fins lucrativos. O mecanismo das RPPNs é então uma maneira de regulamentar o uso de uma área que, de certa forma, poderia ser vista como um incômodo para o proprietário. Um ambiente frágil sob proteção e uso é um exemplo que corrobora com a idéia do conservacionismo.

3.2 Conceito de Unidade de Conservação

Os conceitos de Unidade de Conservação não têm muitas divergências entre os diferentes autores. Inicialmente será observado aqui o conceito da União Internacional para a Conservação da Natureza, IUCN (1998):

Superfície de terra ou mar consagrada à proteção e manutenção da diversidade biológica, assim como dos recursos naturais e dos recursos culturais associados, e manejada por meios jurídicos e outros eficazes.

Já o SNUC (2000) afirma que Unidade de Conservação é:

Espaço territorial e seus recursos ambientais, incluindo as águas jurisdicionais, com características naturais relevantes, legalmente instituído pelo Poder Público, com objetivos de conservação e limites definidos, sob regime especial de administração, ao qual se aplicam garantias adequadas de proteção.

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A primeira definição é de uma ONG que dá apoio à preservação de Unidades de Conservação, inclusive às RPPNs, e a segunda é uma definição contida em um instrumento governamental de proteção à natureza. Como se vê, a grande diferença entre as duas definições é justamente a questão de quem institui a Unidade de Conservação. A definição do SNUC deixa claro que essa atribuição é do Poder Público. Tendo em vista que se trata neste trabalho de um instrumento jurídico, no caso a RPPN, será adotada essa definição, já que aborda de maneira mais específica as relações governo sociedade em projetos de preservação do meio ambiente.

3.3 Histórico de Unidades de Conservação

3.3.1 Mundial

O conceito de reservas da natureza é de longa data. Alguns estudos dizem que civilizações do Oriente, como, por exemplo, os assírios, estabeleceram reservas antes do nascimento de Cristo. Na Europa Medieval, a palavra “parque” designava uma área delimitada onde animais viviam sob a responsabilidade do rei. Os incas já estabeleciam, no antigo Peru, limites físicos que permitiam ou não a caça; a Índia também reservava algumas áreas, colocando-as como protegidas (MORSELLO, 2001). A concepção das atuais Unidades de Conservação, no entanto, deu-se realmente com a criação do primeiro parque nacional nos Estados Unidos, o parque de Yellowstone, promulgado pelo presidente Grant, através de uma lei do Congresso, em 1o de março de 1872. A partir daí, outros países seguiram o exemplo

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norte americano, criando parques nacionais com a conceituação de áreas protegidas, idealizadas na ótica que valoriza a manutenção de áreas naturais consideradas “ilhas” de beleza e importância estética, as quais conduziam o homem à meditação (COSTA, 2002: 10). Os parques nacionais surgiram então como uma forma de preservar áreas de inestimável beleza natural e que pudessem servir ao bem coletivo. Nos Estados Unidos, a concepção de parque nacional surgiu também com uma conotação de enfrentamento dos valores de usufruto da natureza no Velho Mundo, onde patrimônios naturais eram uma exclusividade das elites (MORSELLO, 2001: 23). Na América do Sul, os primeiros parques nacionais surgiram da iniciativa concentrada em algumas pessoas que se dedicavam à preservação da natureza. Na Argentina, destaca-se Francisco Moreno, autêntico pioneiro, sendo que nesse país o primeiro parque nacional foi criado em 1903. Ainda na América do Sul, vale também citar o Equador, que teve o seu primeiro parque em 1934, com a preservação do arquipélago de Galápagos, fonte principal dos estudos de Charles Darwin e que deram origem à teoria da evolução (COSTA, 2002: 13). Como visto, inicialmente os parques nacionais tinham como principal função fornecer estabilidade a um ambiente para que pudesse ser contemplado pelas pessoas. Gradualmente, este conceito de reservas, que preservariam belezas cênicas unicamente, foi evoluindo com o surgimento da ecologia moderna e com o desenvolvimento econômico mais acelerado que a humanidade tem presenciado. Assim, tornou-se crucial, além da preservação de locais de rara beleza cênica, proteger ambientes ecológicos que sofrem com as pressões urbanas e com a abertura de novas fronteiras agrícolas. Esta evolução, de certa forma, leva à questão do preservacionismo e do conservacionismo novamente. Visualizando o histórico da

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utilização das reservas, observa-se que, aos poucos, as áreas protegidas têm se movimentado do conceito de preservação pela intocabilidade da unidade para a preservação com o uso fruto controlado. De alguma forma, pode-se dizer que a utilização caminha do preservacionismo para o conservacionismo. Entretanto, o conceito de preservacionismo, de certa forma, prende o ideal de proteção do meio ambiente, já que o conservacionismo, pela sua maleabilidade ao uso, pode recair em desvirtuamentos de exploração econômica abusiva, mesmo que trate somente da visitação. Enfim, cada vez mais uma fusão desses dois conceitos aparenta ser o caminho mais viável nas políticas de proteção à natureza.

3.3.2 Brasil

O processo de criação de Unidades de Conservação no Brasil não foi diferente de outros países, sendo a principal influência o modelo norte americano de parques naturais. As primeiras iniciativas nesse sentido surgiram por meio do engenheiro André Rebouças, que em 1876, ainda sobre o regime imperial, sugeriu a criação de dois parques nacionais: um para as Sete Quedas, no estado do Paraná, e outro para a Ilha do Bananal, nos rios Tocantins e Araguaia, hoje estado do Tocantins. Em 1891, no território do Acre, uma reserva florestal com cerca de 2,8 milhões de hectares foi delimitada, mas não chegou a ser implantada. O primeiro parque efetivo no Brasil foi criado em âmbito estadual, em São Paulo, o Parque Estadual da Cidade, em 1886 (PÁDUA, 1997:216). O primeiro Parque Nacional Brasileiro foi criado somente em 1937, na região de Itatiaia no estado do Rio de Janeiro. Segundo o Código Florestal de 1934, que definia os conceitos de parques nacionais, florestas nacionais e florestas protetoras,

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o parque de Itatiaia tinha como função, além das suas finalidades de caráter científico, atender às de ordem turística (COSTA, 2002:22). Em seguida ao Parque de Itatiaia, criaram-se os Parques Nacionais de Iguaçu (PR) e Serra dos Órgãos (RJ), ambos em 1939. Entre 1939 e 1959, houve um vácuo em relação ao trato das Unidades de Conservação; nesse espaço de tempo foram criados somente a Floresta Nacional do Araripe-Apodi (CE), em 1946, o Parque Nacional de Paulo Afonso, na Bahia, em 1948 - posteriormente extinto para a construção de uma usina hidrelétrica - e a pequena Reserva Biológica de Serra Negra (PE), em 1950 (PÁDUA, 1997:216). Demorou então praticamente vinte anos para que novos Parques Nacionais a ser implementados. Nas décadas de 1960 e 1970, houve a criação de diversos parques nacionais sem que essa delimitação de áreas protegidas fosse baseada em critérios técnicos. Buscava-se preservar localidades de rara beleza cênica, porém muitas vezes a extensão desses parques era muito reduzida, o que dificultava a proteção da fauna e flora, atendendo somente a interesses políticos. A Amazônia, por exemplo, foi contemplada somente com algumas reservas florestais em 1961, e estas serviam muito mais como uma estratégia política de defesa territorial do país do que como área de preservação. O primeiro Parque Nacional da Amazônia somente surgiu em 1974. A extensão de área preservada ainda era pequena e mal distribuída, somando somente 2.400.000 hectares, ou 0,28% do território nacional. A década de 1970 trouxe a criação quase que aleatória de áreas de preservação. As áreas em geral ocupavam territórios com poucas propriedades privadas, ou que, de alguma forma, atendessem a interesses de governantes locais. Não existiam ainda critérios científicos, mesmo que em teoria, para a criação de parques nacionais e áreas de proteção ambiental.

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Em 1976 foi publicado um documento pelo Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal (IBDF), chamado “Uma Análise de Prioridades em Conservação da Natureza na Amazônia”. Este texto norteou a primeira e a segunda etapas do Plano do Nacional de Unidades de Conservação no Brasil. A partir desse plano, foi proposta uma série de reservas biológicas e parques nacionais, baseada, pela primeira vez no Brasil, em critérios científicos. Foram compiladas informações relativas às regiões fitogeográficas, tais como formações vegetais, refúgios do pleistoceno e regiões de desenvolvimento. Essas informações foram transpostas para cartas com a ajuda do projeto RADAM, Radar da Amazônia, um sistema de monitoramento e vigilância via satélite. A grande crítica a esse processo de seleção é a de que o projeto RADAM só abrangia cerca de 60% da área estudada. Naquele momento houve um grande avanço, depois que a teoria de refúgios foi abandonada e as áreas passaram a ser eleitas por critérios científicos. Das 13 áreas propostas na primeira etapa do plano, nove foram implementadas. A maioria foi em 1979, e o bioma mais preservado passou a ser o amazônico. Estas novas áreas contavam com 8.000.000 hectares. A segunda etapa do Plano Nacional de Unidades de Conservação já não teve tanto fôlego, pois ficou carente de vontade política e, das 18 áreas propostas, somente quatro foram implementadas (PÁDUA, 1997:219;220). Nas décadas de 1980 e 1990, abandonaram-se novamente os critérios técnicos instituídos no Plano Nacional de Unidades de Conservação, até mesmo por terem demonstrado restrições de aplicabilidade em sua metodologia, e tornou-se a tratar a criação das Unidades de Conservação de forma aleatória e casuística. Porém, vale observar que as áreas tornadas parques nacionais nessa época têm muito valor no processo de conservação da natureza no Brasil. A Caatinga, o

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Cerrado e o Pantanal, biomas até então esquecidos, ganharam nessa época suas primeiras áreas de conservação (MORSELLO, 2001:159). No atual SNUC, o Brasil contabiliza 175 Unidades de Conservação da esfera federal, sendo 38 parques nacionais. A política brasileira para a criação de parques nacionais e áreas de proteção ambiental tem sido mais agressiva nos últimos dez anos, mas ainda está longe de atingir o percentual ideal de área protegida recomendado pela ONU, que é de aproximadamente 10% do território. No Brasil temos cerca de 35.574.039 hectares de área preservada, o que representa 4,18% do território nacional. Atualmente, o tipo de Unidade de Conservação que mais cresce são as RPPNs, sendo atualmente 408 Unidades, perfazendo 436.393,27 hectares ou aproximadamente 0,05% do território nacional. Mas as propriedades particulares como unidades de conservação já existem há mais tempo, tanto no Brasil como no mundo (IBAMA, 2005).

3.4 Histórico de RPPN

3.4.1 Histórico mundial

O surgimento da primeira reserva particular no mundo foi a partir de uma atitude totalmente desvinculada de incentivos do poder público. Em 1899, um grupo de pessoas, na Inglaterra, tinha o interesse de preservar um certo conjunto de plantas e para isso formaram o National Trust; contando com contribuições pessoais, adquiriram uma área chamada Wicken Fen, formando assim a primeira reserva da natureza naquele país, conseqüentemente a primeira reserva particular do mundo (MORSELLO, 2001:37).

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Na Europa, de uma maneira geral, existe uma relação muito estreita entre as Unidades de Conservação e a iniciativa privada. A Inglaterra se destaca em relação à fundação de reservas particulares, e as ONGs destacam-se na criação de Unidades de Conservação, não requerendo do governo contrapartidas financeiras para sua manutenção. A maioria das Unidades Particulares de Conservação encontra-se nas mãos de três ONGs: o National Trust, a Royal Society for the Protection of Birds e a Northumberland Wildlife Trust (MORSELLO, 2001:38). Na França, existem as Reservas Particulares Voluntárias, que possuem um tempo limitado de duração de seis anos e podem ser abolidas a qualquer tempo, por pedido do proprietário ou do governo. Alemanha e Áustria, em 1909, adquiriram, através da Associação Verein Naturschutzpark, duas áreas para a criação de Unidades Particulares de Conservação, devido a uma insatisfação com a morosidade do governo na criação de reservas. Suíça e Holanda também têm ações que datam do começo do século XX, e as áreas privadas são responsáveis pela maior parte das Unidades de Conservação destes países. A Suécia é um caso interessante, já que o governo nesse país oferece incentivos financeiros para os proprietários que criarem mecanismos de restrição à utilização econômica de áreas de relevante interesse natural. Existem ainda diversos países como Itália, Espanha, Grécia e países escandinavos, que incentivam de alguma forma a criação de reservas particulares. (MORSELLO, 2001). É importante notar que, na Europa, as principais ações referentes à criação de reservas dizem respeito às ONGs. A degradação já avançada das áreas naturais primitivas também faz com que muitas Unidades sejam criadas por interesses específicos de Organizações que buscam proteger determinadas áreas, como, por exemplo, pontos de parada de aves migratórias. O desgaste natural já avançado tira

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do governo responsabilidades de preservação da natureza e, por conseguinte, a criação massiva de Unidades de Conservação. Os Estados Unidos têm um sistema de parques nacionais públicos bem amplo, mas, ainda assim, as ONGs desempenham um papel fundamental na aquisição e criação de reservas particulares. Vale destacar o trabalho da The Nature Conservancy, que começou a atuar em 1951 e possui atualmente o maior sistema de reservas particulares do mundo, sendo algumas em países da América Latina e África. Essa ONG conta com 3.000.000 hectares, em 1.330 reservas. As universidades americanas também são responsáveis por um expressivo número de reservas que utilizam para pesquisa e ensino (IUCN, 1998:58). O continente africano possui diversas reservas particulares naqueles países que permitem a propriedade particular de terras. Nesse continente existe uma grande tradição de propriedades particulares transformadas em reservas para as práticas de turismo e caça esportiva. Assim, recebe um grande apoio de ONGs européias e americanas como a World Conservation Monitoring, que fez um estudo demonstrando a importância relativa das reservas privadas ante as públicas (IUCN, 1998:62). Na América Latina, a atuação de ONGs estrangeiras também se faz sentir muito forte. A The Nature Conservancy auxiliou ONGs locais no México e Venezuela com treinamentos e ajuda legal para a implantação de reservas particulares. A ONG inglesa Car Survival Trust angariou fundos para a compra de uma área de 10.000 acres, que seria vendida a uma companhia madeireira na Província de Misiones, no nordeste da Argentina (BIODIVERSITAS, 2005). Em Belize, a maioria das reservas particulares tem o intuito de explorar o ecoturismo, e existem algumas ações em menor escala que buscam a proteção de

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espécies animais ameaçadas de extinção. Outro ponto interessante em Belize é o arrendamento de propriedades do governo à iniciativa privada para a exploração do ecoturismo (MORSELLO, 2001:43). Na Costa Rica, também é bem difundida a figura das reservas particulares, e a grande maioria delas é de propriedade de investidores estrangeiros. O turismo é a principal fonte de renda desse país e a maioria dos turistas que chegam ao local vêem motivados por seus atrativos naturais (BIODIVERSITAS, 2005). Resumidamente, pode-se observar que, salvo algumas exceções, a instituição e a manutenção de RPPNs no mundo se configura de duas formas diferentes. Em países desenvolvidos, as responsabilidades recaem sobre ONGs ou instituições educacionais com fins de pesquisa. Esta posição é reflexo de uma sociedade civil mais organizada e consciente em relação ao meio ambiente que, devido a sua condição econômica mais desenvolvida, acaba financiando estas

ONGs, que também conseguem renda própria por meio da pesquisa e do turismo, tendo assim independência política e financeira do governo. Já nos países em desenvolvimento, especialmente os mais pobres, o manuseio e implantação de Reservas Privadas costumam ficar também a cargo de ONGs, porém estas, em sua grande maioria, têm origem em outros países mais desenvolvidos economicamente. O governo federal costuma atuar como incentivador, já que tem interesse nas possíveis divisas econômicas que podem ser obtidas com o turismo nessas áreas, sem necessidade de grandes investimentos. O Brasil apresenta uma heterogeneidade em relação à configuração administrativa de RPPNs: A grande maioria dessas reservas é de propriedade particular. Apesar de as ONGs possuírem somente algumas RPPNs, elas têm um

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papel mais direcionado ao apoio técnico na administração, manutenção e fiscalização destas reservas. Um país que merece destaque na América Latina é a Colômbia, isto porque, em 1993, foi instituída, por pressão da sociedade civil, a figura legal das reservas privadas na legislação colombiana, aproximando-se assim do Brasil em termos de legislação, já que foi também na década de 1990 que o Brasil reconheceu a figura legal das RPPN (BIODIVESITAS, 2005). Como visto, reserva particular no mundo é um conceito bem difundido e que data desde o começo do século XX. Na maioria dos países desenvolvidos, quem incentiva a criação de reservas e as mantém são as ONGs. Estas organizações atuam em todo o mundo incentivando e mesmo comprando áreas para a instituição de reservas particulares. São poucos os países nos quais as reservas estão verdadeiramente sob o jugo de proprietários particulares.

3.4.2 Histórico brasileiro

O primeiro Código Florestal Brasileiro já definia, dentro da categoria de floresta protetora, a possibilidade de posse privada de uma área protegida. A instituição de tal área era de responsabilidade pública exclusiva e, para a área, era determinada a isenção total de impostos. Em contrapartida, a lei dizia que a propriedade estava sujeita a observar as determinações da autoridade competente no que se refere “ao plantio, à extensão, à oportunidade e à intensidade de exploração” (WIEDMANN, 2001:410).

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O novo Código Florestal Brasileiro, de 1965, em seu artigo 6o, da Lei 4.771, diz o seguinte:
O proprietário de floresta não preservada, nos termos desta lei, poderá gravá-la com perpetuidade, desde que verificada a existência de interesse público pela autoridade florestal. O vínculo constará do termo assinado perante a autoridade florestal e será averbado à margem da inscrição do Registro Público.

Na prática, o que se observa é a substituição da denominação floresta protetora para áreas de proteção permanente. A propriedade passaria a ser tratada com uma maior voluntariedade, no que se refere ao manejo; no entanto, sem benefícios para o proprietário, já que, em 1966, a Lei no 5.106 revoga o artigo 38 do Código Florestal, que previa a isenção de impostos (MAURY, 1994). Em 1977, o IBDF institui, através da Portaria no 327-P, os Refúgios Particulares de Animais Nativos, por pressão de proprietários de fazendas do Rio Grande do Sul, que queriam impedir a caça em suas propriedades. Onze anos depois, esse tipo de unidade evoluiu para Reserva Particular da Fauna e Flora (WIEDMANN, 1997:7) . Sobre possíveis tipos de Unidades de Conservação - que também poderiam ser de propriedade particular, tratadas pela legislação vigente até 1999, mesmo que não de forma exclusiva a este tipo de posse, ou seja, sendo também públicas e em caso raro até mesmo de administração mista (JMA, 2005) - determinava-se o seguinte: • Área de Proteção Ambiental (APA): é decretada pelo governo, mas, se a área indicada for de propriedade privada, esta será mantida como tal. É um tipo de Unidade de Proteção Integral e não oferece contrapartidas e incentivos ao proprietário, que fica impossibilitado de alterar o ambiente.

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Área de Relevante Interesse Ecológico (ARIE): a legislação não esclarece muito bem como se dá a relação fundiária deste tipo de Unidade com a propriedade privada; poder-se-ia entender que existia a possibilidade da privatização. É decretada pelo governo e admite-se que possa ser isenta de tributação.

Reserva Ecológica: pode ser decretada pelo governo ou voluntariamente; recebe isenção fiscal.

Reserva Legal: não é uma Unidade de Conservação, mas sim uma área de preservação obrigatória. No caso das propriedades rurais, estas áreas estão previstas no Código Florestal e devem conter no registro de imóvel a quantidade de mata nativa em sua propriedade; assim, fica então proibida a destruição desta vegetação em porcentagem que varia de 20% a 50% da área total da propriedade, de acordo com o tipo de bioma em que a propriedade está localizada.

A Reserva Particular de Proteção da Natureza foi instituída no ano de 1990, pelo Decreto Federal no 98.914, de 31 de janeiro. Esse decreto vem regulamentar o artigo 6o da Lei Florestal, de 1965, que previa, como já citado acima, a possibilidade do uso particular de floresta preservada, desde que ocorresse por um plano de manejo aprovado pelo órgão responsável. O artigo do Decreto de 1990 foi atualizado em 1996 pelo Decreto no 1.922, de 5 de junho (WIEDMANN, 2001:401). Como descrito, as RPPNs são um fato recente no Brasil, já que foram instituídas somente há 15 anos, e passaram a ser consideradas realmente Unidade de Conservação em 2000, através da Lei no 9.985, que dispõe sobre a homologação do SNUC.

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Em relação à proteção do meio ambiente por meio de iniciativas particulares, o Brasil já possui um histórico mais longínquo, mas efetivamente com a implementação do programa de RPPN é que o país passou a verificar um interesse de proprietários rurais. E, segundo Wiedmann:

O engajamento dos proprietários nos esforços de conservação, a manifestação expressa da vontade de proteger os recursos naturais, a existência de áreas naturais significativas em propriedades particulares e o exercício pleno do direito de propriedade constituem os pressupostos que fortalecem o programa. (WIEDMANN 2001: 400)

De fato, as RPPNs têm aumentado muito nos últimos anos, principalmente após 1996, quando, através da Lei no 9.393, o Imposto Territorial Rural (ITR) encareceu e aumentou o interesse dos proprietários pela isenção de tal imposto (IBAMA, 2005). Além disso, com o turismo sendo apregoado pela mídia e pelo governo como atividade econômica em crescimento, existe também um interesse econômico pelo desenvolvimento de tal atividade por muitos proprietários.

3.5 Legislação

A legislação brasileira que trata de Unidades de Conservação teve seu início em 15 de setembro de 1934, com a criação do Código Florestal Brasileiro. Neste código foram definidos os conceitos de Parques Nacionais, Florestas Nacionais e Florestas Protetoras. Em 1937 foi promulgada uma nova constituição, que endossou o Código Florestal de 1934, demonstrando a preocupação com a preservação do meio ambiente, como no artigo 134, que coloca o ambiente natural:

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Sob proteção e cuidados especiais da Nação, dos estados e dos Municípios, os monumentos históricos, artísticos e naturais, assim como as paisagens ou locais particularmente dotados pela natureza (IBAMA, 1992).

Em 1948, o Decreto Legislativo no 3 foi aprovado, corroborando então a Convenção para Proteção da Flora, da Fauna e das Belezas Cênicas dos Países da América Latina. Essa Convenção definiu as novas categorias de Unidades de Conservação, como parque nacional, reserva natural, monumento natural e reserva de região virgem. Na prática, pouco se alterou em relação às categorias já existentes (COSTA, 2002:40). No ano de 1965, através da Lei no 4.771, pôs-se em vigor um novo Código Florestal, indicando um avanço em termos de conceituação de Unidades de Conservação, definindo limites de utilização. As florestas nacionais, estaduais e municipais passam a ser de uso direto, com possibilidade de exploração econômica. Já os parques nacionais, estaduais e municipais e as reservas biológicas passam a ser de uso indireto, ou seja, só podem ser utilizados desde que sejam resguardados os atributos naturais excepcionais e os fins científicos (SOAVINSKI, 1997:323). Em 1967, foi criado o Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal (IBDF), ligado ao Ministério da Agricultura. Este órgão tinha a atribuição de manter as Unidades de Conservação já existentes e definir a criação de novas unidades (MORSELLO, 2001:156). Em 1974, foi criada a Secretaria do Meio Ambiente (SEMA), que seria o segundo órgão a acumular funções de administração de Unidades de Conservação. No caso da SEMA, ficaria sob sua responsabilidade as Unidades de Uso Direto (MORSELLO, 2001:156).

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O IBDF, visando a uma mudança nos conceitos para a implantação de Unidades de Conservação, a fim de que estas pudessem ser definidas por critérios técnicos, publicou, em 1976, um documento chamado “Plano para o Sistema Nacional de Unidades de Conservação”. Este documento foi dividido em duas etapas, o qual norteou a implantação de parques nacionais e reservas biológicas até o ano 1982. Este Plano trazia também as bases com nomenclaturas e conceitos para um futuro Sistema das Unidades de Conservação (PÁDUA, 1997:218). Na década de 1990, houve a criação de algumas poucas Unidades, mas, em 1994, por meio de decreto legislativo, foram instituídas as Reservas Particulares de Proteção à Natureza. A efetivação desta nova Unidade de Conservação ocorreu através do Decreto Federal no 98.914, de 31 de janeiro. Desse modo, pela primeira vez, abriu-se a possibilidade de criação de uma reserva ambiental por interesse único e exclusivamente voluntário. O ato mais importante do governo federal em relação às Unidades de Conservação ocorreu em 1988, através do extinto IBDF, que encomendou para a Fundação Pró-Natureza (FUNATURA), ONG do Distrito Federal, a elaboração de um Plano do Sistema Nacional de Unidades de Conservação, em forma de Projeto de Lei. No ano de 1989, ficou pronto o anteprojeto de Lei, produzido pela FUNATURA já sob a responsabilidade do IBAMA, tendo em vista a extinção do IBDF. O anteprojeto foi encaminhado ao Conselho Nacional do Meio Ambiente, que aprovou o texto com pequenas modificações, sendo enviado, então, para a Secretaria da Casa Civil da Presidência da República, e passou por uma alteração em relação à punição para o crime de dano ambiental à Unidade de Conservação (MERCADANTE, 2001:195).

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Em 1992, teve início a tramitação do referido Projeto de Lei, encaminhado pelo presidente Fernando Collor de Mello ao Congresso. Entre os anos de 1993 e 1994, o deputado Fábio Feldmann apresentou um projeto substitutivo da lei, tornando-a mais pendente ao conservacionismo, pois acrescentava alguns objetivos que tratavam de ampliar os usos econômicos e sociais das unidades

(MERCADANTE, 2001:195). Nesse substitutivo, foi eliminada a categoria reserva biológica e, por meio de um artigo, foram acrescentados princípios orientadores do SNUC. A maioria das discussões sobre as alterações elaboradas para o SNUC ocorre por conta de preservacionistas e conservacionistas, que tentam forçar as alterações de acordo com seus interesses. Em 1995, o deputado Fábio Feldmann deixa o Congresso para assumir a Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo, e, então, torna-se relator desse Projeto de Lei, o deputado Fernando Gabeira. Foram feitas audiências públicas em cinco cidades: Cuiabá, Curitiba, São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador. Tendo em vista o resultado dessas audiências, foi proposta pelo deputado Gabeira a criação de quatro novas categorias, e a maioria delas acabou excluída no texto final aprovado pela Câmara. Também foi elevada à categoria de Unidade de Conservação a RPPN, que até então era somente um mecanismo de incentivo à preservação. A RPPN integrava inicialmente o grupo das Unidades de Proteção Integral; porém, na tramitação pelo Congresso, acabaram por admitir a extração de recursos naturais, exceto de madeira, nessas Unidades, o que deslocou a RPPN para a categoria de uso sustentável. Mais tarde, o presidente Fernando Henrique Cardoso vetou o inciso que tratava da extração em RPPN (WIEDMANN, 2001:420).

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O artigo 21, apresentado a seguir, é o que trata das RPPNs no SNUC:

“Art. 21 – A Reserva Particular do Patrimônio Natural é uma área privada, gravada com perpetuidade, com o objetivo de conservar a diversidade biológica. § 1o O Gravame de que se trata este artigo constará de termo de compromisso assinado perante o órgão ambiental, que verificará a existência de interesse público, e será averbado à margem da inscrição no Registro Público de Imóveis. § 2o Só poderá ser permitida na Reserva Particular do Patrimônio Natural, conforme se dispuser em regulamento: I – a pesquisa científica; II – a visitação com objetivos turísticos, recreativos e educacionais; III – (Vetado) § 3o Os órgãos integrantes do SNUC, sempre que possível e oportuno, prestarão orientação técnica e científica ao proprietário de Reserva Particular do Patrimônio Natural para elaboração de um Plano de Manejo e Gestão da unidade.”

Na tramitação pelo Congresso, várias alterações foram novamente impostas ao SNUC, principalmente por pressão de grupos preservacionistas. As alterações principais tratavam de aumentar as restrições da permanência de populações tradicionais em Unidades de Conservação, a possibilidade de uma unidade ser administrada por Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP) e a mudança do poder de criação de Unidades de Conservação do Poder Executivo para o Poder Legislativo (MERCADANTE, 2001:225).

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Após muitas discussões, o Projeto de Lei acabou aprovado, com alguns vetos presidenciais, como a Lei 9.985/2000, de 19 de julho de 2000, após 11 anos de tramitação. O SNUC modernizou as definições de categorias de Unidades de Conservação e deu melhores instrumentos legais para áreas preservadas. No entanto, as Unidades de Conservação ainda sofrem com a precariedade financeira do IBAMA para fiscalização, a regularização fundiária e a criação de novas Unidades.

3.6 Exigências e burocracias para implantação de uma RPPN

As exigências para implantação das Reservas Particulares do Patrimônio Natural não são tão complexas. Após o requerimento inicial para o IBAMA, ou no caso da opção de uma RPPN estadual, o pedido deve ser encaminhado para a Secretaria do Meio Ambiente ou órgão responsável. Os seguintes documentos são necessários para a implantação da RPPN:

Título de domínio, com matrícula no Cartório de Registros de Imóveis competente.

• • •

Ato de designação de representante, no caso de pessoa jurídica. Quitação do Imposto sobre Propriedade Rural (ITR). Planta de Situação, indicando os limites, os confrontantes, a área a ser reconhecida como RPPN e a localização da propriedade no município ou região.

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A partir daí, caberá ao escritório do IBAMA regional realizar os trâmites sob sua responsabilidade e, ao proprietário, esperar pelo ato de publicação no Diário Oficial, firmando o reconhecimento da área como RPPN.

As responsabilidades do IBAMA no estado são as seguintes: • • Abrir o processo de criação da RPPN. Verificar se a documentação protocolada pelo proprietário e se o termo de compromisso anexo ao Decreto sobre RPPN está completo. • Realizar a vistoria da propriedade e emitir laudo descrevendo a vegetação, hidrologia e os atributos naturais mais destacados, o estado de conservação da área que pleiteia o título de RPPN. Indicar também as potenciais pressões degradadoras do meio ambiente e relacionar as principais atividades econômicas desenvolvidas na propriedade. • Encaminhar o processo para o IBAMA, na sede em Brasília.

Seguem-se então os trâmites, mas agora sob responsabilidade do IBAMA, em âmbito federal, sendo as seguintes atribuições da sede em Brasília:

• •

Emitir parecer, incluindo análise da documentação apresentada. Homologar o reconhecimento, com a assinatura da portaria de reconhecimento da RPPN pelo presidente do IBAMA, e publicar no Diário Oficial.

Retornar o processo para a Superintendência Estadual, para que o proprietário possa fazer a averbação da propriedade.

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Emitir o título de reconhecimento que é enviado ao IBAMA estadual, que, por sua vez, repassa ao proprietário.

É

de

responsabilidade

do

proprietário,

após

a

comunicação

da

superintendência estadual, dirigir-se ao Cartório de Registro de Imóveis e gravar em caráter perpétuo a área da reserva. Desse modo, ficam obrigados os herdeiros e mesmo um possível novo proprietário a se comprometer em manter a área como RPPN para sempre. Sobre a possibilidade de uma área tornar-se RPPN, segundo a legislação, fica entendido que teoricamente qualquer área natural pode ser transformada em RPPN. Isso se dá porque, segundo o Decreto que regulamenta estes trâmites, a área a receber o título de reconhecimento deve possuir características ambientais que justifiquem sua preservação ou recuperação. Assim praticamente qualquer área com algum tipo de vegetação preservada pode ser transformada em RPPN (WWF, 2003). Este fato fica comprovado ao se observar que no Brasil existe uma grande quantidade de RPPNs com tamanho inferior a 100 hectares. A lei também dispõe que propriedades contíguas a áreas de preservação pública têm preferência nos trâmites de reconhecimento, já que podem servir como extensões ou fazer parte de uma zona de amortecimento, como, por exemplo, a área protegida de um parque nacional. Esta preferência, no entanto, não justifica um prazo maior do que os sessenta dias previstos em lei.

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3.7 Atividades econômicas permitidas em RPPNs e plano de manejo

No SNUC está prevista a obrigatoriedade do plano de manejo para qualquer uma das Unidades de Conservação. O planejamento para áreas naturais, segundo Milano (1997:152),“é nome dado ao processo de identificação e ordenamento de fatores e meios, aí incluídos processos e tempo, necessários ao alcance de objetivos previamente definidos”. Ou seja, o plano de manejo não trata somente de um levantamento com fins do meio para determinar seu uso econômico, mas um estudo muito elaborado que envolve diversas áreas a serem pesquisadas, como biologia, geografia, turismo etc. A partir deste estudo, verificam-se primeiro as fragilidades e necessidades do ambiente em questão e depois se definem as atividades mais recomendadas para o ambiente protegido, que, no caso das RPPNs, podem ser as práticas de educação ambiental, pesquisas científicas e limites para a exploração do ecoturismo. O plano de manejo deve ser minucioso ao informar ações que devem ser desenvolvidas, desde construções até intervenções necessárias em árvores e vegetação em geral para construção de trilhas e demais dispositivos que permitam a utilização da propriedade. O plano deve ser apresentado em um prazo máximo de cinco anos após a criação da Unidade de Conservação. O plano entrará em vigor após apreciação e aprovação da superintendência estadual do IBAMA. No artigo 2o, inciso VIII, do SNUC, manejo está especificado como todo e qualquer procedimento que vise assegurar a conservação da diversidade biológica e dos ecossistemas.

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No mesmo artigo, no inciso XVII, plano de manejo está definido como:

Documento técnico mediante o qual, com fundamento nos objetivos gerais de uma unidade de conservação, se estabelece o seu zoneamento e as normas que devem presidir o uso da área e o manejo dos recursos naturais, inclusive a implantação das estruturas físicas necessárias à gestão da unidade.

Até outubro de 2004, não existia uma regulamentação oficial do governo sobre planos de manejo para as RPPNs, por isso mesmo não estavam sendo exigidos pelo IBAMA. A partir do Congresso Brasileiro de Proprietários de RPPN, em Curitiba, definiram-se diretrizes para a implantação de planos de manejo em RPPN. Nestas diretrizes, verificam-se os tipos de profissionais indicados para a realização do plano e definem-se quais os dados geológicos, biológicos, históricos, dentre outros, devem ser abrangidos pelo plano e de que forma devem ser apresentados os levantamentos feitos sobre a RPPN, bem como as alterações e recuperações a serem implementadas pelo plano, seguidas de cronogramas e atividades detalhadas a serem realizadas. A elaboração de planos de manejo esbarra num grande problema: os custos. Entram em cena então as ONGs que atendem proprietários de RPPN fornecendo apoio técnico para a elaboração do plano de manejo. Existem diversas ONGs no Brasil que trabalham como movimentos ambientalistas, e, por sua vez, dispõem de apoio técnico e até financeiro para o auxílio das reservas na elaboração de planos de manejo. É importante mencionar que existem ONGs de apoio exclusivo às RPPNs, valendo destacar a ONG FUNATURA, com grande atuação principalmente nas reservas privadas que preservam o Cerrado.

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Para as possíveis atividades econômicas previstas no plano de manejo, o SNUC esclarece que o permitido, no caso de RPPN, são as seguintes: pesquisa científica e visitação com objetivos turísticos, recreativos e educacionais. Para este estudo, o que mais importará é a visitação turística da Unidade e os desdobramentos provenientes da atividade para o proprietário e para a reserva.

3.8 Vantagens e desvantagens para os proprietários de RPPNs

A primeira vantagem a ser apontada é a que traz benefícios imediatos com a transformação de uma propriedade rural em RPPN: a isenção do Imposto Territorial Rural para a área da reserva. Esta isenção, direito do proprietário, como previsto no SNUC, deve ser requerida após a homologação do título. Uma segunda vantagem é a prioridade que as RPPNs têm na aquisição de empréstimos junto ao Fundo Nacional do Meio Ambiente (FNMA), uma linha de crédito disponibilizada pelo Ministério do Meio Ambiente que tem aplicabilidade em projetos de gestão e implantação da reserva. A propriedade que possuir uma RPPN dentro de sua área, mas que tenha ainda áreas cultivadas, terá prioridade também na análise de concessão do crédito agrícola junto às intuições oficiais de crédito. O sistema de crédito brasileiro, porém, muitas vezes dificulta a obtenção de verbas para os proprietários, devido às elevadas garantias exigidas pelos bancos. O próprio uso da RPPN pode trazer benefícios econômicos para o proprietário, pois, dependendo da disponibilidade de recursos naturais, permite explorar a prática de ecoturismo, atividade muito em voga na sociedade de consumo atual. A área também pode ser utilizada na prática de atividades de educação

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ambiental, atraindo assim muitas excursões escolares de diversos níveis educacionais. Existe ainda a possibilidade de utilização da reserva para pesquisa científica. Esse uso científico da área deve ser comunicado ao IBAMA, porém, na prática, o proprietário tem autonomia para liberar pesquisas na RPPN. Estas pesquisas podem gerar convênios com ONGs e universidades, e, de acordo com a habilidade de negociação do proprietário, podem trazer benefícios em relação às áreas de planejamento e desenvolvimento ambiental e de infra-estrutura da reserva. As ONGs e instituições em geral também são um ponto de apoio importante para o proprietário de RPPN. ONGs e instituições privadas, como indústrias e empresas de serviços, fornecem apoio técnico e financeiro ao desenvolvimento de projetos para a utilização da RPPN em troca da publicidade. Esse apoio se dá no campo de recuperação e manutenção da área, tanto na proteção da fauna como da flora e até mesmo para a gestão da Reserva (WWF, 1999). O SNUC prevê ainda para a propriedade que contém uma RPPN, a impossibilidade de desapropriação para a reforma agrária e para a criação de Unidades de Conservação de administração pública. Para proprietários de regiões com conflitos fundiários, a transformação em RPPN pode ser uma grande vantagem em termos de pressões de movimentos sociais, como os de reforma agrária. Para o governo, no entanto, este benefício previsto em lei pode ser perigoso, já que existe certa facilidade em transformar uma propriedade em RPPN e, com a ausência da possibilidade de desapropriação, processos legítimos de desapropriação podem ser emperrados. As desvantagens, por outro lado, referem-se principalmente aos custos para a manutenção da RPPN, pois a preservação da vegetação por si só gera custos. A

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falta de apoio técnico e econômico por parte de ONGs e do governo pode gerar a impossibilidade de aproveitamento da área. Caso o proprietário não tenha condições de explorar de alguma maneira a propriedade, sua preservação pode se tornar um fardo muito pesado, e, como a RPPN não pode ser desfeita, vender a propriedade pode ser um sério problema para o proprietário. Em relação à fiscalização da propriedade, em geral não existem grandes problemas, pois as agressões ambientais à RPPN, desde que não advindas do proprietário e comunicadas imediatamente ao IBAMA, são de responsabilidade do órgão, tanto na apuração de responsabilidades como na aplicação de penas cabíveis. Afinal, consta do SNUC que as reservas particulares de proteção da natureza também são de responsabilidade do IBAMA.

3.9 Conflitos entre gestão privada e pública

O SNUC permite a administração pública e privada de acordo com cada tipo de Unidade de Conservação. Para cada modalidade de gestão, existem aspectos peculiares que os diferenciam, ou mesmo, criam conflitos de interesse. A administração pública esbarra freqüentemente nas suas deficiências estruturais e financeiras. Em muitos dos parques nacionais brasileiros, existe um vazio estrutural em relação à fiscalização e mesmo à infra-estrutura para a recepção de visitantes. A centralização administrativa governamental pode também interferir em ações que visem à melhoria dessa administração de Unidades de Conservação, como, por exemplo, terceirizações e repasse administrativo para OSCIP como está previsto no SNUC (CUNHA; COELHO, 2003:44).

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Em relação especificamente às RPPNs, por exemplo, o próprio texto do SNUC trata do apoio governamental. No seu artigo 21, que dispões sobre as

RPPNs, parágrafo 3o, são definidas as responsabilidades do governo com as RPPNs a saber:

Os órgãos integrantes do SNUC, sempre que possível e oportuno, prestarão orientação técnica e científica ao proprietário de Reserva Particular do Patrimônio Natural para a elaboração de um Plano de Manejo ou de Proteção e de Gestão da unidade.

O grande problema desse apoio oferecido pelo governo é o fato de que no próprio texto da lei está escrito “sempre que possível e oportuno”. Sabe-se que o IBAMA é um órgão carente de recursos, basta ver a situação da maioria dos parques nacionais, onde faltam funcionários e vários não têm sua situação fundiária regularizada, realidade que contribui para a procura do auxílio às ONGs. Muitas vezes a sociedade civil organizada realiza atividades muito mais eficientes que o próprio governo (SOUZA, 2002:72). De certa forma, o governo, ao admitir as RPPNs como uma Unidade de Conservação, tem como intuito tirar parte da responsabilidade de preservação das suas mãos. Os proprietários de RPPNs, normalmente produtores agrícolas, não têm conhecimento técnico suficiente para transformar a área preservada em local de visitação, ou mesmo para preservação integral. Desse modo, o apoio técnico e financeiro de instituições privadas e do terceiro setor é indispensável, já que o governo não tem disponibilidade para isso. O entorno de Unidades de Conservação públicas também costuma causar problemas, principalmente quanto a pressões econômicas, como expansões de fronteiras agrícolas. Um exemplo de problemas advindos dessa situação são as 51

queimadas, provocadas por fazendeiros para limpar suas propriedades, que atingem áreas preservadas, como no Parque Nacional da Serra da Canastra, localizado no município de São Roque de Minas, em Minas Gerais. Para essas áreas específicas, podemos observar um grande interesse no que tange à implantação de RPPNs. As áreas no entorno das Unidades de Conservação são consideradas áreas de amortecimento e sofrem restrições legais de uso. Os proprietários do entorno dessas áreas poderiam então ser estimulados pelo governo, ou por ONGs, em parceria com o governo, para criarem RPPNs, aumentando assim a área garantida de preservação do parque e possibilitando uma nova oportunidade de negócio para os proprietários rurais da região. É importante, no entanto, saber que nem todas as áreas limítrofes de Unidades de Conservação têm possibilidades de exploração econômica como RPPN, e que, muitas vezes, somente a isenção do Imposto Territorial Rural não significaria uma grande vantagem para o proprietário. Assim, a RPPN não necessariamente coloca-se como uma possível alternativa para casos de pressão ambiental sobre as áreas de proteção. Aqui se levanta também uma discussão sobre as contrapartidas que o governo poderia oferecer para proprietários rurais, já que não é necessária a criação de planos mirabolantes para esses incentivos. Sabe-se, por exemplo, que a maioria dos proprietários rurais busca empréstimos em bancos para comprar sementes e maquinário agrícola; então, poderiam ser oferecidos descontos ou até mesmo subsídios em taxas de juros, bem como uma compensação financeira adequada, como se fossem royalties para estes proprietários agrícolas, como um modo de incentivar a preservação do entorno de parques nacionais. A própria Constituição Brasileira influencia nesses conflitos de propriedades públicas e privadas. Em seu artigo 225, parágrafo 4, diz que:

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A Floresta Amazônica Brasileira, a Mata Atlântica, a Serra do Mar, o Pantanal Mato-grossense e a Zona Costeira são Patrimônios Nacionais e sua utilização far-se-á na forma de lei dentro de condições que assegurem a preservação do meio ambiente, inclusive quanto ao uso dos recursos naturais.

Este dispositivo legal faz que muitas vezes as propriedades rurais com matas nativas tenham empecilhos em sua utilização comercial. Novamente, a RPPN, de acordo com uma possível situação de oportunidade, pode ser uma boa saída para áreas com dificuldades de manejo para agricultura; o mesmo ocorre para reservas legais, que são áreas reservadas de acordo com o bioma em que se encontram e são proibidas de serem utilizadas. A transformação em reserva pode tornar-se uma boa saída. Observa-se então que uma aproximação entre diferentes agentes sociais pode tornar a preservação mais eficiente. No que tange à dualidade público-privado, o SNUC já fornece diversos meios para a transformação de áreas em reservas particulares, e mesmo as ONGs podem representar um papel de união entre sociedade governo e meio ambiente.

3.10 Ecoturismo em RPPN

O ecoturismo em RPPN funciona da mesma forma que em uma Unidade de Conservação pública na questão de planejamento, pois, assim como os parques nacionais, requer um plano de manejo para ser realizado nos limites da reserva. O tipo de atividade praticada em cada uma das RPPNs dependerá muito do tipo de recurso turístico presente na reserva. A análise dos recursos é fundamental na elaboração de projetos de utilização turística. Não adianta o proprietário querer

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implementar trilhas de longo percurso em sua propriedade, se somente será englobada vegetação densa e fechada em solo plano e sem mais atrativos, como cachoeiras, riachos, mirantes em montanhas etc. A única utilidade para esse tipo de trilha seria, talvez, corrida de aventura, mas tal esporte é para um público limitado e que não representaria um fluxo contínuo de visitantes. Evidente que o fato da inexistência de um fluxo constante não impede a implementação de tal trilha; apenas se coloca que muito provavelmente a lucratividade de tal atividade não compensaria os custos de implementação. Para BOO (1996:35) o grande crescimento da atividade de ecoturismo requer planejamentos para a implantação de infra-estrutura, integrando os interesses de turistas e os recursos naturais presentes na área. Para as RPPNs, ainda existe uma possibilidade real para empreendimento planejado. Pode-se abrir mão de transformar parte da propriedade em reserva para que se construam equipamentos de hospedagem de maior porte, como o que foi feito na RPPN Salto Morato (PR). Assim, a hospedagem pode ser um atrativo agregado aos atrativos naturais da RPPN. Essa transformação, no entanto, requer investimento, pois a grande maioria dessas áreas, durante grande parte de sua existência, nunca foi pensada como centro de ecoturismo. A questão da dimensão da RPPN e da quantidade de atrativos é relativa em relação à exploração do ecoturismo. A reserva pode ter somente um grande atrativo, que, se for bem estruturado e complementado com infra-estrutura de alimentação e hospedagem, pode se consolidar como de interesse ante ecoturistas. A importância de atrativos naturais é evidente mesmo para RPPNs de pequeno porte. Esses

atrativos definem uma maior possibilidade de sucesso na exploração do ecoturismo em RPPNs.

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As reservas particulares têm seu lugar no mercado de ecoturismo, principalmente no campo de interesse de preservação. Podem ser áreas com grandes possibilidades de aproveitamento, desde que adaptadas de maneira coerente e planejadas para não agredir o meio ambiente, de maneira a deteriorar irreversivelmente o bem explorável, no caso a natureza. Em suas principais possibilidades de uso, a preservação, as atividades de lazer e turismo e a pesquisa científica devem ser mais bem observadas pelos gestores da área (BARANY et al., 2001:98). As RPPNs nem sempre apresentarão condições para o desenvolvimento do ecoturismo, restando sempre a possibilidade de pelo menos as visitas recreativas ou de educação ambiental. Atualmente o Brasil tem passado por uma fase em que o turismo é apregoado, principalmente por governos federal, estaduais e municipais, como atividade de desenvolvimento incondicional. Assim, para esse planejamento, vale reforçar a importância das parcerias com ONGs e empresas privadas, para que as RPPNs não se tornem grandes decepções e deixem de ser implementadas no ritmo elevado dos últimos anos, fornecendo a grande possibilidade de uma parceria voluntária entre a sociedade e o governo, na busca da preservação ambiental. No item 4, será feita uma análise de uma RPPN que já há algum tempo vem explorando o turismo. Dessa reserva, serão estudados os aspectos da utilização para o ecoturismo e atividades de lazer no meio ambiente, para que se possa entender melhor o funcionamento de uma RPPN e a relação dos proprietários com a gestão do meio ambiente.

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4. Estudo de caso

4.1 Aspectos econômicos do estado de Goiás

A região sudoeste do estado de Goiás é uma das denominadas novas fronteiras agrícolas brasileiras. A região central do Brasil passou por uma forte expansão agrícola, principalmente após a construção de Brasília, o que possibilitou a abertura de novas rodovias. A favor da expansão, também contou o preço da terra, que no começo dos anos 70 era muito baixo. Tal fato incentivou o movimento de pequenos e médios produtores do Sul e Sudeste para o Centro-oeste, tendo em vista que, com o valor da venda de suas propriedades nessas regiões, conseguiam comprar grandes áreas de terras no Centro-oeste, caracterizando a região atualmente como de forte concentração fundiária. A busca por um aumento na produção de grãos, motivada pelo aumento da demanda no mercado internacional, levou à mecanização da produção, o que reduziu a competitividade dos pequenos produtores, sem acesso ao maquinário agrícola, incentivando-os à venda das terras e à procura em recolocar-se no escasso mercado de trabalho urbano, principalmente para os menos qualificados (RIBEIRO et al., 2002). O milho e a soja são os dois tipos de grãos que predominam na cultura agrícola local. O estado de Goiás é o maior produtor brasileiro de soja, e cerca de 40% da produção estadual se concentra no Sudoeste do estado. Outra atividade tradicional na região é a pecuária de corte e leiteira, que se expandiu devido à facilidade de derrubada de matas do Cerrado e conseqüente plantio de gramíneas para o pasto. A criação avícola também se destaca, inclusive com a presença de

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uma grande indústria de produtos derivados do frango no município de Rio Verde (SEPIN, 2005) (GEOGOIÁS, 2005). A região onde se encontra a RPPN Pousada das Araras é então muito rica por causa de produção ligada principalmente à agropecuária, atividade que gera grandes ameaças às matas preservadas do Cerrado, devido à crescente necessidade de expansão dá área de plantio. Esta riqueza está extremamente concentrada nas mãos de latifundiários, fazendo que atividades alternativas, principalmente ligadas ao setor de serviços, possam representar uma forma de distribuição de renda, mesmo que ainda pequena. O setor terciário tem uma maleabilidade muito maior que as indústrias. Para se abrir uma empresa de serviços em geral, é necessário menos infra-estrutura e equipamentos específicos. O turismo encaixa-se no setor terciário, e pode ser destacado como uma atividade que, apesar de requerer conhecimento técnico, pode ser implementada em muitas fases, exigindo investimentos financeiros não muito grandes. Por este motivo, o turismo poderia ser visto como uma alternativa à agropecuária, principalmente no caso de áreas preservadas do Cerrado. O estado de Goiás não possui um grande fluxo de turistas, mas apresenta boas possibilidades para tais empreendimentos. O governo estadual controla o turismo por meio de uma agência de desenvolvimento turístico, a AGETUR, cuja função é a de definir planos plurianuais para investimento em divulgação e marketing, infra-estrutura turística, capacitação, captação de dados de pesquisas para um banco central de informações e investimento no setor privado. Goiás apresenta uma variada rede de atrativos, como: estações termais; atrativos naturais ligados ao Cerrado, destacando-se o Parque Nacional das Emas,

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patrimônio natural da humanidade; atrativos históricos, como a Cidade de Goiás, também patrimônio da humanidade devido aos seus casarões coloniais preservados, e, ainda, um setor de eventos concentrado principalmente na capital, Goiânia, ligado principalmente ao agronegócio (AGETUR, 2005). O governo estadual dividiu os atrativos em roteiros, englobando aspectos semelhantes de atratividade, mas nestes não foram contempladas proximidades regionais. No caso de Serranópolis, o município está no roteiro Caminho do Sol, com atrativos ligados à vegetação preservada do Cerrado, que inclui ainda os municípios de Araguaia, Aragarças, Aruanã, Bandeirante e Luis Alves, além do Parque Nacional das Emas (AGETUR, 2005). Em termos de Unidades de Conservação, especificamente, o estado contém dois parques nacionais: o Parque Nacional das Emas, que é incluído em roteiros turísticos juntamente com a RPPN Pousada das Araras, e o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros. Conta ainda com o Parque Estadual de Terra Ronca, tendo os três uma estrutura de visitação implantada. O Parque da Chapada dos Veadeiros e o de Terra Ronca ficam bem ao norte do estado, bem distantes da Pousada das Araras, objeto de nosso estudo. A rede de RPPNs no estado de Goiás conta com 43 reservas, todas protegendo o Cerrado. Suas áreas somadas chegam a 19029,60 hectares (IBAMA, 2005). Algumas têm desenvolvido programas de visitação com a ajuda de ONGs, que realizam seus planos de manejo. Tais reservas estão congregadas em uma associação estadual que será abordada de forma específica mais adiante. Destaca-se como interesse deste trabalho a RPPN Pousada das Araras, selecionada após diversas consultas a outras reservas, que não se encaixaram no

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estudo por ainda não apresentarem estrutura com capacidade para recepcionar visitantes. A Pousada das Araras apresenta características peculiares em relação a seus atrativos e sistema administrativo, mas também se encaixa em um quadro representativo das RPPNs que desenvolvem a atividade de turismo no Brasil. A reserva atingiu um ponto de destaque devido a seus atrativos e organização. Por exemplo, retomando a questão dos roteiros turísticos desenvolvidos pelo governo de Goiás, verifica-se que o município de Serranópolis está incluso no roteiro Caminho do Sol pela presença dos sítios arqueológicos encontrados na RPPN Pousada das Araras. Esta característica e outras pertinentes ao assunto das reservas particulares foram detalhadas no prosseguimento do trabalho.

4.2 Caracterização do bioma que integra a região de estudo

O Cerrado é um bioma característico da região central do Brasil, encontrado principalmente nos estados de Goiás, Tocantins, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, parte de Minas Gerais, Bahia e Distrito Federal. É caracterizado como um bioma de transição entre a Mata Atlântica e Amazônia. O bioma do Cerrado ocupa aproximadamente dois milhões de quilômetros quadrados ou 25% de todo o território nacional (AZIZ AB`SABER, 2003). Atualmente existe um processo muito acelerado de degradação das áreas preservadas, com cerca de 45% do Cerrado já convertido em pastagens ou lavouras. Neste rápido avanço da fronteira agrícola, vê-se a necessidade da criação da maior quantidade possível de Unidades de Conservação. O Poder Público em geral não consegue manter suas Unidades, investindo pouco em fiscalização e na resolução dos problemas fundiários (COUTINHO, 2000). Desse

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modo, temos então a importância das RPPNs que podem funcionar como um mecanismo mais dinâmico na preservação do Cerrado.

4.2.1 Flora e fauna

O Cerrado apresenta uma diversidade muito complexa de vegetação, gerando subclassificações de acordo com as suas características. As principais

subclassificações fisionômicas são: o cerradão, o cerrado típico, o campo cerrado, o campo sujo de cerrado e o campo limpo de cerrado, que apresentam altura e biomassa vegetal em ordem decrescente. Somente o cerradão tem características de vegetação florestal (IBAMA, 2005). A vegetação típica do Cerrado apresenta árvores de troncos retorcidos, cascas densas e folhas grossas, não tendo mais do que vinte metros de altura. Normalmente essas árvores nascem em meio a arbustos e gramíneas. O Cerrado brasileiro é considerado a savana mais rica em biodiversidade do mundo (COUTINHO, 2005). Na RPPN Pousada das Araras, os tipos de cerrado encontrados são o cerrado típico e o cerradão. Há ainda matas ciliares nas proximidades de nascentes, córregos e do rio Verdinho. Além da área preservada como RPPN, existem, ainda, aproximadamente 250 hectares de vegetação preservada. A fauna do Cerrado é rica e de grande variedade, exceto pelas aves, que ocorrem em pouca quantidade. A presença de diversas espécies pode ser observada na propriedade, durante as visitas, caminhando pela mata. Existe ainda um casal de araras vermelhas, vistas com grande freqüência e que habitam na gruta principal. As principais espécies observadas na propriedade, em sua maioria,

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ameaçadas de extinção, são: tucano, urubu-rei, lobo guará, onça-parda, tamanduábandeira, anta e arara vermelha. Todo este cenário encontrado na RPPN Pousada das Araras é componente propício para a realização da prática do turismo. Claro que não se descarta a necessidade de uma boa estrutura para recepcionar os visitantes com qualidade, porém, é inegável que a riqueza da vegetação da primeira natureza, aliada às intervenções pré-históricas encontradas na propriedade, trouxeram uma

possibilidade da visita calcada no lazer e na educação.

4.3 Dados, localização e histórico da criação da RPPN Pousada das Araras

4.3.1 Dados

- Nome Oficial: Reserva Particular do Patrimônio Natural Pousada das Araras. - Proprietários: Marcos Ramos da Silva e Ivana S. Braga Ramos - Data e número do Ato Legal de criação pelo IBAMA: 1998, Portaria 173/98N.

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4.3.2 Localização

A RPPN Pousada das Araras encontra-se na zona rural do município de Serranópolis, na região Sudoeste do estado de Goiás, na região Centro-oeste do Brasil

Figura 1 - Localização da reserva

Fonte: www.pousadadasararas.com

- Meio de Acesso

O meio de acesso direto à Pousada é o transporte rodoviário. Deve-se tomar a Rodovia GO 184 e, no Km 70, seguir por uma estrada de terra por cerca de 16 km até a entrada da RPPN. Todo o caminho pela estrada de terra é sinalizado.

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- Distâncias Serranópolis: 32 km Jataí: 65 km Goiânia: 389 km Parque Nacional das Emas: 130 km Brasília: 587 km São Paulo: 1115 km

- Área da propriedade e utilização

A fazenda Pousada das Araras possui uma área de 1600 hectares, dos quais 175 são componentes da RPPN, e, desses, cerca de 1/3 é utilizado para a visitação. Existe ainda cerca de 250 hectares de mata preservada, porém ainda sem o gravame de reserva; já o restante da fazenda atende à exploração de pecuária para corte.

4.3.3 Histórico da criação

A propriedade em que se encontra a reserva é de posse da família há quarenta anos. Sempre existiu uma tendência de preservação dos remanescentes de Cerrado na fazenda, e o interesse pela proteção da natureza acabou caminhando para a criação da RPPN há dez anos. Segundo as palavras da proprietária Ivana Ramos:
Este projeto originou-se da necessidade de recuperação e conservação desta área, e de desenvolvimento das atividades de ecoturismo, de educação ambiental e pesquisa da biodiversidade e arqueologia da área.

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Assim temos uma idéia inicial do interesse dos proprietários na preservação e conseqüentemente na exploração da visitação. É importante citar que, atualmente, a única fonte de renda da família que administra a RPPN advém da visitação no local, um caso raríssimo no Brasil. A grande maioria das RPPNs no país foi implementada especialmente nos últimos quatro anos, com a promulgação do SNUC. Percebe-se, no entanto, que a maioria delas ainda não conseguiu implementar estruturas de visitação que atendam ao público de maneira a propiciar ganhos substanciais e contínuos para o proprietário, permitindo, assim, a dedicação exclusiva à RPPN.

4.4 Recursos turísticos

Os recursos turísticos são os elementos naturais ou culturais formadores da paisagem de uma localidade (EMBRATUR, 2005). Estes elementos podem ser utilizados na atividade turística, à medida que sofrem, ou não, intervenções do ser humano. Em caso da utilização do recurso turístico como elemento da prática do turismo, esse se transforma em atrativo. No caso da RPPN Pousada das Araras, a própria vegetação de Cerrado extremamente preservada constitui-se num atrativo, funcionando como uma moldura para os demais recursos presentes na propriedade. Na reserva existem também recursos culturais que se mesclam ao ambiente natural, como as formações rochosas que serviram como abrigos primitivos para populações indígenas e hoje servem também como mirantes. Um último recurso é a piscina natural de águas extremamente límpidas, resultado do acúmulo de água em uma pequena lagoa que é abastecida pelo afloramento direto de água do subsolo.

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Os recursos foram agregados de elementos que permitem o seu uso para a prática do turismo. As pinturas rupestres, destacadamente, acabaram por se caracterizar como um recurso de grande interesse, sendo a base dos atrativos da RPPN. Na seqüência, tem-se uma descrição detalhada dos recursos, bem como as transformações operadas para sua utilização turística.

4.4.1 Trilhas

As trilhas percorrem um trajeto que segue em meio ao Cerrado. Os percursos são planejados de modo a atravessar as grutas e as formações rochosas, onde se encontram as pinturas rupestres. Estas trilhas possuem pouca sinalização interpretativa, com cerca de cinco placas que falam dos animais do Cerrado. Além disso, elas foram manejadas de modo a não sofrerem com a erosão nem com o alargamento. Dentre as atividades de manejo, destacam-se as implementações de degraus feitos com troncos de madeira, conforme mostram as figuras a seguir, proteções rasteiras laterais da trilha, que evitam a erosão do solo com o escorrimento de água da chuva, e também escadas de madeira nas pedras, que levam aos mirantes naturais, construídas de modo a não intervir visualmente no ambiente. A trilha principal, que leva aos sítios arqueológicos, segue de maneira circular de modo que as pessoas que estão entrando na trilha não se encontrem com as que estão saindo.

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Figura 2- Manejo em trilha para evitar erosão

Figura 3- Manejo em trilha para subida em pedra

4.4.2 Mirantes

Existem dois mirantes naturais, localizados na mesma formação rochosa onde está o sítio arqueológico principal. O acesso é simples e sem maiores dificuldades, pois não requer escalada nas rochas. Desses mirantes avista-se toda a área de mata preservada, como mostra a figura 4, e também uma das duas torres de pedra. No mirante no 2, no período da tarde, quando o sol está do lado contrário da rocha, é possível observar um casal de araras vermelhas que habitam o local há muitos anos.

Figura 4 - Vista do mirante no 1

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4.4.3 Piscina Natural

Existe uma piscina natural de cerca de 100 m2, que se forma no local onde uma nascente aflora do solo, tornando a água seja sempre límpida e translúcida. Nesta piscina pode ser observada a olho nu uma grande quantidade de peixes. Está em implementação um sistema a limpeza das plantas aquáticas de uma segunda lagoa, que se forma logo em seguida da piscina natural. Esta medida tem como objetivo o afastamento da piscina da nascente, objetivando preservar melhor a área e oferecer mais espaço e conforto aos visitantes. Atualmente, na borda da piscina natural, existe uma estrutura de concreto para facilitar o acesso, no entanto, devido ao solo pouco firme, esta estrutura está afundando, como demonstrado na figura 5, e requer manutenção urgente.

Figura 5 - Piscina natural

4.4.4 Sítio arqueológico

Na RPPN Pousada das Araras existem três sítios arqueológicos. Atualmente para os visitantes a interação com os sítios é feita por meio da visualização das pinturas rupestres, que constituem marcas de civilizações indígenas que habitaram o 67

local há dez mil anos. Essas pinturas foram descobertas em 1974, pelo arqueólogo Binômio Costa Lima. Escavações na localidade indicaram, através de ossadas, objetos de cerâmica, madeira, pedra e ossos, a existência de três diferentes culturas, não necessariamente consecutivas. A primeira cultura, chamada de Parnaíba, existiu de nove a onze mil anos atrás. Apesar de ser a mais antiga cultura, os utensílios ali encontrados demonstraram que esta foi a mais avançada que ali viveu. Em seguida, temos a cultura Serranópolis, que viveu há cerca de 8000 anos, e por último a mais recente, a cultura Jataí, de cerca de mil anos atrás. Todas essas culturas indígenas eram caçadoras e coletoras. As pinturas rupestres que podem ser observadas atualmente são apenas uma parte de um grande acervo que foi encoberto pela erosão natural da rocha onde estão as inscrições. Estudos geológicos indicam que o solo naquela região fora aproximadamente seis metros mais baixo. Estima-se, pela área escavada, que naquela região viveram cerca de quinhentas gerações com média de idade de 15 a 20 anos (FUNATURA, 1998). O acervo de pinturas da reserva está entre os mais importantes do Brasil e da América do Sul. Para a visitação no sítio principal - uma parede rochosa de aproximadamente vinte metros de comprimento - foi construída uma passarela de madeira com corrimões, com o objetivo de proteger as pinturas do contato direto com os visitantes e ordenar o caminho para visualização destas. No meio da extensão da passarela, existe um deque de madeira onde as pessoas se acomodam para ouvir explicações ou para aplicação de técnicas de educação ambiental, uma solução bem eficiente, pois permite uma boa integração visual com o ambiente.

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Existem dois pontos negativos a serem colocados. O primeiro é que não há placas de interpretação das pinturas nas rochas, mesmo que estas constem do plano de manejo. Elas poderiam ser uma maneira de melhorar a interatividade entre visitantes e o local, e, conseqüentemente, a qualidade da visitação. Outro problema é a permissão de fotografias com flash acionado. Sabe-se que a luz intensa liberada pelo flash potencializa algumas substâncias químicas, como o fósforo, que causam descoloração das pinturas.

Figura 6 - Passarela para pinturas

Figura 7 - Passarela e deque para aulas

4.5 Infra-estrutura de atendimento ao público

4.5.1 Centro de recepção ao visitante

A RPPN Pousada das Araras possui um centro de recepção ao visitante na entrada da reserva, composto por uma sala com cerca de trinta cadeiras, televisão e videocassete. Murais de fotos e amostras de animais mortos, preservados em formol, compõe a sala. Há também um espaço para a venda de souvenir, utilizada também para projetos de educação ambiental desenvolvidos com escolas. Na recepção é cobrada a taxa de visitação da RPPN para aqueles que passarão somente um dia. O valor de R$ 12,00 dá direito à utilização de toda a infra-estrutura 69

de lazer e entretenimento, exceto da trilha que leva às pinturas, que só pode ser feita com os guias da Pousada. Não existe número mínimo de visitantes para entrar na trilha, mas um máximo de vinte pessoas por grupo, com cobrança de R$ 3,00 por pessoa.

Figura 8 - Centro de visitantes (área externa)

Figura 9 - Centro de visitantes (área interna)

4.5.2 Lanchonete e restaurante

Logo após o centro de recepção ao visitante, encontra-se a lanchonete, onde são servidos salgados e porções diversas. Existe certa limitação na produção da lanchonete como no caso de grupos grandes que cheguem sem aviso prévio. Na seqüência da lanchonete, há um restaurante com capacidade para cinqüenta pessoas por vez. As refeições são servidas em sistema self-service, sobre um grande fogão a lenha. Contam com dezesseis pratos quentes e saladas diferentes. Refeições no restaurante somente são servidas com solicitação antecipada, determinando o número de pessoas. O preço por refeição avulsa é de R$ 16,00.

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4.5.3 Estacionamento

Há uma grande área de estacionamento, capaz de comportar 15 carros e até ônibus de excursões.

4.6 Áreas de lazer e entretenimento

4.6.1 Piscina de água tratada

Próxima à recepção fica a piscina de água tratada, construída em vinil, com medidas de 15 por 8 metros. O uso é liberado para todas as pessoas que pagam o preço de entrada na RPPN.

Figura 10 - Piscina de água tratada

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4.6.2 Áreas de práticas desportivas

Existe na RPPN um campo de futebol gramado, de pequenas proporções, ao lado da piscina, e uma quadra de vôlei de areia, construída no caminho para a piscina natural.

4.6.3 Churrasqueira

A churrasqueira encontra-se em um local coberto com mesas e bancos. Ela normalmente é utilizada por campistas que preferem preparar suas próprias refeições, mas o uso dela é irrestrito para os visitantes.

4.7 Infra-estrutura de hospedagem

Existe uma infra-estrutura de hospedagem variada na Pousada das Araras, que, apesar do nome, não se caracteriza realmente como uma pousada. As acomodações são usadas por um público muito diverso, atendendo a grupos escolares, excursões a caminho do Parque Nacional das Emas, casais e famílias. As acomodações têm um bom nível de qualidade, e o fato de a maioria delas somente ser feitas com pensão completa parece mais adequada, pois as possibilidades de cozinhar no local são precárias e a distância do núcleo urbano também prejudica a possibilidade de alimentação fora da RPPN. Com relação a este item, ainda existe a questão de os proprietários necessitarem de um aumento na sua margem de lucro, pois o preço de utilização das estruturas físicas de entretenimento é baixo, se se

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pensar na necessidade de manutenção geral da propriedade. A seguir, serão descritos os tipos de acomodações bem como seus preços.

4.7.1 Chalés

Existem dois chalés, chamados de Sol e Lua, com acomodações melhores e mais caras. São suítes com uma cama de casal e uma cama de solteiro. Os quartos têm ainda ventiladores de teto e frigobar, além de varandas individuais com rede de balanço. Os preços incluem pensão completa, com três refeições diárias, sendo necessário pagar a taxa de entrada na RPPN.
Tabela 1 - Preços de hospedagem em chalés

Tipo de hospedagem Individual Duplo Triplo Crianças 0 a 8 anos 9 a 13 anos

Preço R$ 177,60 R$ 244,20 R$ 321,90 R$ 54,39 R$ 64,38

Figura 11 - Vista do Chalé (externo)

Figura 12 - Vista do Chalé (interno)

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4.7.2 Quartos simples

Os quartos simples possuem somente as camas e ventiladores de teto. São dois quartos, um que acomoda oito pessoas e o outro, sete. Os cômodos possuem cama de casal e beliches. O banheiro é coletivo, sendo utilizado por visitantes da RPPN e campistas. Assim como nos chalés, os preços incluem pensão completa com três refeições diárias, sendo necessário pagar a taxa de entrada na RPPN.
Tabela 2: Preços de hospedagem em quartos simples

Tipo de Hospedagem Individual Duplo Triplo Crianças 0 a 8 anos 9 a 13 anos

Preço R$ 122,10 R$ 183,15 R$ 227,55 R$ 35,52 R$ 45,51

4.7.3 Camping

A área de camping é composta por aproximadamente 1.000 m2, muito bem arborizada, com capacidade para quarenta pessoas. Existe a possibilidade da hospedagem sem refeições e ainda um desconto para grupos que escolham a hospedagem sem alimentação inclusa. Na área há espaço para realização de churrasco.

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Tabela 3: Preços de hospedagem em camping

Pensão completa Hóspedes Preço Adulto Criança 0 a 8 anos 9 a 13 anos Sem refeições Adulto Criança 0 a 8 anos 9 a 13 anos Grupos acima de dez pessoas R$ 38,85 R$ 10,00 R$ 21,00 R$ 25,00 R$ 72,15 R$ 31,10 R$ 35,52

Figura 13: Área de camping

4.8 Público visitante

Não foi aplicado nenhum tipo de questionário para o público visitante, já que este não é o alvo principal do estudo. No entanto, no plano de manejo, constam alguns dados socioeconômicos dos visitantes, que, por serem interessantes, são citados nos gráficos seguintes. É importante colocar que os proprietários não possuem um método eficiente de controle do número de visitantes, a não ser pelo 75

livro de visitas, uma fonte não tão confiável, já que nem todos os visitantes o assinam. Fica como sugestão a instalação de catracas para o controle de entrada ou então o uso de talões de ingressos numerados. Em relação ao número absoluto de visitantes, segundo informações da proprietária, varia mensalmente de 300 a 500 pessoas, sendo que, destes, 40 a 50% hospedam-se na Pousada. Quanto à questão dos dados dispostos nos gráficos, pode-se observar que a distribuição etária ocorre de maneira razoavelmente uniforme. Verifica-se certo destaque para as faixas de 26 a 30 anos e 31 a 40 anos, porém as outras faixas apresentam valores relevantes e uma diferença de aproximadamente apenas 7 a 8 pontos percentuais para as duas de maior destaque. Já no gráfico de distribuição de renda, observa-se uma discrepância um pouco maior entre as faixas de renda, porém, mesmo as que demonstraram menor número de visitantes, apresentam dados que não podem ser ignorados, por apresentarem uma relevância razoável no montante geral. A constatação deste gráfico vem ao encontro do constatado pelos proprietários: o público visitante é bem diversificado e, portanto, existe um segmento de mercado muito variado para a Pousada das Araras. A seguir serão representados os gráficos para uma amostra de aproximadamente cem questionários:

Distribuição Etária
30,00% 25,00%
16 - 20

20,00%
15,00% 10,00% 5,00% 0,00%

21 - 25
26 - 30
31 - 40
41 - 50

1

Figura 14 - Gráfico de distribuição etária dos Visitantes (adaptado de: FUNATURA. Plano de Manejo da RPPN Pousada das Araras. Brasília: Funatura, 1998).

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Distribuição por Renda
25% 20% 15% 10% 5%

2

2a4

5a7

8 a 10

11 a 20

.+ de 20

0% 1

Figura 15 - Gráfico de distribuição da renda dos visitantes por salários mínimo (adaptado de: FUNATURA. Plano de Manejo da RPPN Pousada das Araras. Brasília: Funatura, 1998)

Há um ponto importante no interesse dos visitantes, reflexo de uma tendência mundial pela fuga do ambiente urbano. É o turista chamado de “turista verde”, que tem uma motivação pela busca do meio ambiente, para uma maior vivência com a natureza e, comumente, uma consciência da importância da preservação de áreas naturais, além de aliar a interação ao meio ambiente com atividades de recreação. Esse turista não é necessariamente caracterizado por ser aventureiro, mas também inclui famílias (SWARBROOK & HORNER, 2002:257), que, no caso, freqüentam a Pousada. Em geral, visitam a RPPN em fins de semana para passar o dia,

motivados pelos atrativos de lazer em meio à natureza. Essas famílias, em sua
grande maioria, são originárias de cidade próximas à região. A reserva nesse caso

cumpre uma função de fornecer um acesso fácil a áreas naturais para pessoas que
muitas vezes não têm condição de acessar atrativos mais exclusivos, como são as áreas naturais. Outro tipo de público é o de excursões escolares, para atividades de educação histórico-ambiental complementadas pelos recursos de lazer da RPPN. Algumas excursões chegam a realizar hospedagem na Pousada. Outro turista

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característico são aqueles advindos de Goiânia, São Paulo e Rio de Janeiro, por meio de pacotes das operadoras de turismo de aventura que, costumeiramente, incluem um ou dois pernoites na pousada, em complemento à visita no Parque Nacional das Emas. Estes turistas sim vão em busca de destinos que possam significar uma relação com menos atividades de recreação e mais de envolvimento com a natureza.

4.9 Administração

A administração da Pousada das Araras é de cunho familiar, ou seja, uma empresa de pequeno porte. Conforme destaca Cancellier (2004), as empresas de pequeno porte qualitativamente são classificadas por não terem uma administração especializada, por serem de organização simples, terem baixo investimento em mãode-obra, falta de acesso à capital ou crédito e estreita relação dos proprietários com empregados, fornecedores e clientes. Considerando que as RPPNs brasileiras não superam os 1.000 hectares, quando exploram o turismo, este se demonstra uma atividade bastante adequada, ainda mais porque a área de visitação costuma ser limitada a um espaço menor ainda. Comumente a visitação ocorre em pequena escala, mas, nos casos mais estruturados, como no caso da Pousada das Araras, pode ocorrer em média escala. A administração desse local não é calcada em estratégias de longo prazo, como ocorre em grandes empresas, o que vem novamente ao encontro dos pequenos empreendimentos e, assim, com exceção do que estiver definido no plano de manejo, as estratégias são motivadas por oportunidades de momento, necessidades de transformação econômica e espacial da reserva e em visões do

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tino empreendedor do proprietário. Este tipo de administração, em termos de pequenas propriedades preservadas, é o mais eficiente, já que não demanda custos gerenciais, e ainda conta com conhecimento e fácil controle da área da propriedade. O quadro apresentado encaixa-se com o sistema administrativo da Pousada das Araras. Vale colocar que, atualmente, os proprietários têm como fonte de renda exclusiva para sobrevivência os lucros obtidos com as atividades de visitação da pousada. A área toda da fazenda, incluindo a parte da reserva, é de propriedade oficial do Sr. Manoel Vieira Braga, pai do Sr. Marcos Ramos da Silva. A administração das áreas, bem como os lucros obtidos, são colocados, porém, de maneira diferenciados e independentes: a atividade pecuária da fazenda tem seus lucros direcionados a uma pessoa, e a RPPN Pousada das Araras tem seus lucros destinados a outras pessoas.

4.9.1 Marketing e divulgação

A Pousada não possui nenhuma estratégia ativa definida de marketing. No entanto, existem algumas estratégias passivas, representadas por parcerias propostas pela iniciativa de agentes privados externos. Em relação à divulgação, a única ferramenta utilizada pela RPPN é um site na Internet (http://www.pousadadasararas.com), que apresenta um grave problema, já que existem diversos sites de outras pousadas com nomes similares, tais como <http://www.pousadadasararas.com.br> e <http://www.pousadaararas.com>. Uma pequena alteração, como a inserção da sigla “rppn” no início do endereço do site da RPPN Pousada das Araras, já seria uma boa diferenciação.

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Existem algumas possibilidades de melhoria nas ferramentas de comunicação da Pousada, que serão citadas no item sobre as parcerias, devido a sua estreita relação com o tema.

4.9.2 Organograma

Como dito anteriormente, a Pousada das Araras tem um porte de pequena empresa. Assim sendo, a estrutura de cargos e funções é bem simples e objetiva, com uma hierarquização mínima. A quantidade total de funcionários é nove, sendo dois diretores-proprietários, a secretária, que é nora dos proprietários, e mais seis funcionários contratados. Não há contratação temporária de funcionários em épocas de maior fluxo de turistas. Não existe uma consciência de auxílio direto à comunidade local com o oferecimento de empregos para moradores da região, no caso do município de Serranópolis, mas com a necessidade de dedicação integral e conseqüente residência dos funcionários na reserva, os empregos acabam sendo distribuídos localmente. O organograma da Pousada demonstra a simplicidade em relação à gestão do empreendimento e também a grande proximidade entre os diretores e funcionários, já que se observa uma subordinação direta.

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Diretores

Supervisor

Guias
Figura 16 – Organograma

Secretária

Cozinheiras

Diretores: Os dois diretores são os proprietários da RPPN; a eles cabe a função de organizar parcerias, fazer a compra dos suprimentos necessários para a Pousada, coordenar quantidade de refeições a serem preparadas no restaurante, organizar reservas de hóspedes, e ainda cuidar dos serviços burocráticos, como pagamento de impostos.

Secretária: tem como responsabilidades o agendamento de visitas, contatos com empresas, escolas e turistas para confirmação de reservas, cuidar do serviço de correspondência e auxiliar na recepção de turistas.

Cozinheiras: são três e trabalham de maneira conjunta no preparo de refeições e limpeza, tanto no restaurante como na lanchonete.

Guias: também em número de três, são responsáveis pelos visitantes na trilha que leva até os sítios arqueológicos, sendo esta uma função obrigatória. Ainda são responsáveis pela manutenção da trilha, além de auxiliar nos reparos gerais da Pousada.

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Supervisor: nunca existiu uma pessoa preenchendo este cargo, porém é desejo dos proprietários futuramente ter um funcionário que pudesse cuidar do gerenciamento da RPPN, aliviando o trabalho deles e melhorando ainda mais a qualidade dos serviços da pousada.

Todos os funcionários residem gratuitamente na RPPN e, além do salário, recebem alimentação gratuita. Realmente é inviável a utilização de funcionários que moram na cidade e tenham que se deslocar todos os dias até a pousada, tendo em vista os custos para deslocamento e o tempo perdido no trajeto.

4.10 Interferência de organizações na RPPN Pousada das Araras

As parcerias são muito importantes no processo de desenvolvimento das atividades da RPPN, pois se constituem em possibilidades de melhorias sem ônus ou com pouco investimento por parte da RPPN. O conceito de parcerias é um fato recente na administração empresarial (FISCHER, 2002), mas tem se disseminado entre empresas privadas, do terceiro setor e Poder Público. Por meio das parcerias, é possível operar mudanças em diversos campos, como marketing e divulgação, preservação da propriedade, melhorias na infra-estrutura de visitação e capacitação profissional de proprietários e funcionários. As parcerias e alianças estratégicas requerem uma análise consciente e prática de sua real importância, e, segundo Noleto:
Envolvem a cooperação entre duas ou mais entidades. Representam um meio de instituições manterem suas estratégias individuais, apesar dos recursos limitados em algumas áreas, e fortalecerem-se ao encontrar outras organizações com as quais possam cooperar. (NOLETO 2000 :20)

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Existem diversas possibilidades de se firmar parcerias e alianças estratégicas. Essas possibilidades se desvendam de acordo com a área com necessidade de desenvolvimento. Os agentes dessas parceiras transitam por todos os setores da economia, ou seja, a iniciativa privada, a sociedade civil organizada ou terceiro setor e o Poder Público. A seguir serão descritos agentes que já atuam com a RPPN ou que teriam possibilidade de fazê-lo.

4.10.1 Associação dos proprietários de RPPNs de Goiás

A RPPN Pousada das Araras é afiliada à Associação dos Proprietários de RPPNs do estado de Goiás e do Distrito Federal. A atuação da associação é restrita à promoção de eventos para esclarecimento e auxílio em atividades de capacitação de proprietários e funcionários e métodos para melhorar a eficiência da preservação, além de promover discussões em relação a políticas do governo para tomada de posição da associação junto a deputados. Evidente que estas atividades são importantes, porém seria muito importante criar possibilidades mais práticas de integração e valorização das RPPNs. A associação poderia ser responsável pela captação de recursos de patrocínio ou mesmo de linhas de financiamento governamental para implementação de projetos constantes dos planos de manejo. Poderiam ser contratados técnicos que avaliariam as RPPNs mais carentes de recursos. A associação poderia ser responsável também pela participação em eventos de turismo para a divulgação das RPPNs, além de estruturar um site com roteiros que as integrassem aos atrativos próximos. Claro que toda esta articulação não é tão simples, já que requer grande quantidade de recursos, mas é necessário pelo menos levantar a discussão. 83

4.10.2 Governos municipal e estadual

A atuação dos governos deixa a desejar em relação à obtenção de recursos financeiros, já que a maior parte das linhas de crédito ainda requer exigências burocráticas muito grandes e não possuem taxas de juros interessantes. Em termos de auxílio técnico, muitas vezes os proprietários esperam demais do governo, talvez pela cultura brasileira de intervencionismo estatal nas áreas de proteção ambiental. O governo deixa a desejar no que tange à divulgação e principalmente ao planejamento turístico macro e micro regional. O problema do planejamento acaba por refletir ainda um despreparo do governo no trato com o turismo. Deve-se salientar que o poder público pode se beneficiar com o sucesso das RPPNs como empreendimento turístico. Por exemplo, no caso do município de Serranópolis, existe uma divulgação natural do município, promovida pela Pousada das Araras. Segundo a proprietária, as maiores veiculações jornalísticas sobre o município de Serranópolis aconteceram vinculadas com a RPPN. Evidentemente que a RPPN conta com um atrativo muito grande, no caso, as pinturas rupestres, mas, por outro lado, a visitação a estas pinturas somente acontece porque existe uma organização do turismo no local e principalmente porque a Pousada das Araras as divulga. Vemos então que a RPPN, possuindo um atrativo de real valor e organizando a visitação a este local, pode expandir os benefícios ao município e até mesmo ao estado onde se localiza. No caso de Goiás, a divulgação com outros atrativos próximos, como a lagoa de águas quentes, no município de Itajá, ou o parque Termal de Jataí, ou ainda o Parque Nacional das Emas, enfim, a divulgação conjunta em turismo, deve ser entendida como uma possibilidade maior, e até mesmo a

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propriedade da RPPN poderia ser mais bem explorada em termos de marketing pela própria pousada.

4.10.3 ONGs

O terceiro setor, ou a sociedade civil organizada, como são chamadas as ONGs, representa a maior fonte de parceiras para as RPPNs. Normalmente estas organizações ocupam lacunas deixadas pelo estado (FISCHER, 2002). No caso das RPPNs, a principal atuação das ONGs não se dá necessariamente em uma área de descaso ou incompetência do estado, que é a área de auxílio técnico. A manutenção da área preservada requer algumas providências que por vezes têm um custo muito elevado, como a elaboração do plano de manejo. Além disso, as ONGs têm uma maior facilidade de captar verbas para a implementação de estruturas e programas solicitadas no plano de manejo. A Pousada das Araras já teve um acordo com a ONG FUNATURA, que inclusive foi a responsável pela elaboração do plano de manejo da RPPN. Esta ONG também angariou verbas para a construção do atual centro de recepção aos visitantes. Um fato que até povoou notícias de jornais e fez a parceria esmorecer foi quando a ONG citada realizou, por conta própria, retoques nas pinturas rupestres. Este fato acabou sendo descoberto pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), que aplicou uma pesada multa à Pousada. Atualmente não existe parceria vigente com nenhuma ONG, mas os proprietários se dizem abertos a propostas.

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4.10.4 Operadoras de turismo

A Pousada das Araras faz parceria com algumas operadoras especializadas em turismo de aventura do Rio de Janeiro e de São Paulo. Estas operadoras não organizam excursões de maneira constante para a Pousada, mas levam uma grande quantidade de visitas durante todo o ano. Em geral, os pacotes vendidos pelas operadoras usam a Pousada das Araras como um atrativo intermediário na visita ao Parque Nacional das Emas, ou, no caso de operadoras de Goiânia, a Pousada entra como atrativo principal. A seguir, alguns pacotes oferecidos por operadoras:

Walker Turismo: pacote de três dias duas noites, sendo a Pousada o atrativo principal. Preço: R$ 505,00, quarto duplo. Passeios oferecidos: trilhas para as pinturas rupestres, pôr-do-sol no paredão, banho na piscina natural, saltos I e II do rio Corrente, e caminhada até a pedra do guardião.

Freeway: pacotes de seis dias e sete noites, sendo dois dias na Pousada das Araras e quatro dias no Parque Nacional das Emas. Preço: R$ 1.908,00, quarto duplo. Passeios oferecidos: trilhas e caminhadas na Pousada e no Parque Nacional das Emas.

4.10.5 IBAMA

O contato com o IBAMA acontece de maneira esporádica, não existindo uma atuação constante do órgão governamental em relação à Pousada das Araras. A proprietária disse que sempre que solicitado auxílio em relação à fiscalização, o

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IBAMA atende prontamente, mas reclama que o IBAMA poderia dar um auxílio técnico aos proprietários de RPPNs. Existe aqui um ponto a ser considerado. É evidente que não é solicitado aos proprietários de RPPNs, ao requererem o reconhecimento do IBAMA, que tenham conhecimento técnico em biologia e gestão ambiental, porém é de responsabilidade legal do proprietário a preservação da sua reserva. O fato de as RPPNs terem sido incluídas no SNUC por parte do governo representa, além de um reconhecimento de sua importância, a busca de diminuição da atribuição do poder público em relação à preservação de matas nativas. O IBAMA, no entanto, não pode simplesmente abdicar do auxílio ao proprietário, e para isso pode promover algumas ações simples, como atuar de maneira mais próxima às associações estaduais de proprietários, informar sobre necessidade de cuidados específicos para cada tipo de bioma e até mesmo promover parcerias com o ministério do turismo para a inclusão das RPPNs em programas de ecoturismo e de divulgação da EMBRATUR. O auxílio direto na preservação realmente deve ficar restrito à fiscalização, já que medidas específicas de proteção à reserva deverão estar previstas no plano de manejo, que não é de responsabilidade do IBAMA.

4.11 Vantagens e desvantagens da RPPN, segundo o proprietário

4.11.1 Vantagens

Na visão dos proprietários, as grandes vantagens são em relação à possibilidade de se estar protegendo o meio ambiente, tanto por sua importância

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ecológica como pela ligação sentimental e afetiva que existe com a propriedade. Além disso, segundo a proprietária, o ganho de qualidade de vida é muito grande, já que há uma satisfação enorme em residir numa área protegida, onde a convivência com o meio ambiente é constante. Ainda pode-se dizer que o programa de visitação demonstra um sentimento de hospitalidade dos proprietários. A hospitalidade, segundo Grinover (2002:25), vem ao encontro “da segurança, do conforto psíquico do hóspede por meio de estruturas físicas e culturais”. A hospedagem transcende a questão do pernoite, principalmente em se tratando de uma área natural onde o contato com o hóspede é feito diretamente com o proprietário. O fato de os proprietários terem orgulho em mostrar ao visitante o trabalho de preservação ali realizado não configura a exacerbação de um sentimento ingênuo, mas sim de um referencial para o turista que vai à reserva.

4.11.2 Desvantagens

Realmente o apoio técnico e financeiro é o maior empecilho na administração da propriedade. Em relação ao apoio técnico, a Pousada das Araras ainda está bem servida, já que tem em mãos o plano de manejo, que, porém, acabou congelado pela falta de verba para investimento. Segundo a proprietária, o auxílio financeiro nunca chega de maneira direta às RPPNs, pois a ajuda é sempre repassada via governo municipal ou através de ONGs, que por sua vez não distribuem de maneira adequada os recursos. Mesmo a Pousada tendo uma boa infra-estrutura de visitação já instalada e com um fluxo de turistas fixo, a falta de capital para investimento ainda é um problema.

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4.12 Plano de manejo

A RPPN Pousada das Araras é uma das poucas reservas particulares que possuem um plano de manejo, elaborado em 1998. Este plano, porém, somente foi produzido graças à parceria com a ONG FUNATURA, parceria mais tarde desfeita devido a fatos já explicados anteriormente. Além do levantamento geográfico, ambiental e econômico da propriedade, foram elaborados projetos de

desenvolvimento nas seguintes áreas:

1 Manejo de meio ambiente 2 Pesquisa 3 Manejo de recursos 4 Uso público 5 Recreação 6 Interpretação 7 Educação ambiental 8 Turismo 9 Operações turísticas 10 Manutenção 11 Administração 12 Relações públicas e extensões

Infelizmente, sobre a aplicabilidade do plano de manejo, não há muito que se discutir, pois este não é utilizado na propriedade por falta de verbas para implementação dos projetos citados acima. É claro que algumas das atividades

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sugeridas no plano são realizadas hoje em dia, mas são as atividades de funcionalidade natural da reserva, como guiamento, manutenção de trilhas e operações turísticas. Tendo em vista a não utilização do plano de manejo, parece melhor não estender a discussão, pois seria somente discutir o plano em si e não sua aplicabilidade na Pousada.

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5 Considerações Finais

As Reservas Particulares se mostraram a partir dos anos 90 como uma tendência de crescimento no Sistema Brasileiro de Unidades de Conservação. Essa tendência é comprovada na quantidade de RPPNs que foram criadas na última década, chegando ao número de 408 no ano de 2005. Mesmo com esse grande número, a área preservada em hectares ainda é bem menor que o das reservas públicas, porque as reservas privadas são, em geral, apenas uma pequena parte separada da fazenda, com a função de preservar vestígios de vegetação ainda intocada na propriedade, tendo assim dimensões pouco extensas. Este fato pode ser evidenciado na RPPN Pousada das Araras, onde, além da área da reserva, ainda existe atividade pecuária no restante da propriedade. As Reservas Particulares surgiram no Brasil com um modelo aproximado do atual, através das reservas de caça e pesca. Essas reservas foram implementadas por uma necessidade de preservação do meio ambiente e dos limites de propriedades rurais contra caçadores ilegais. O modelo atual das RPPNs demonstra como fator de efetivação, além da preservação, uma participação muito forte do impulso econômico, calcado na isenção do Imposto Territorial Rural e na possibilidade da exploração do turismo. Os proprietários que decidem criar uma RPPN, em sua grande maioria, não esperam contribuir somente para a preservação da natureza, mas também obter ganhos financeiros com a atitude da criação de uma área protegida. A questão financeira, além de incentivo, faz parte de um ciclo de sustentabilidade da reserva. No entanto, para que não se desvirtue a idéia principal da RPPN, que é a preservação do meio ambiente, fazem-se necessárias ações de conscientização

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ambiental dos proprietários, que deveriam ser, em grande parte, responsabilidade do governo federal; mas como observado no estudo, o governo não demonstra interesse no envolvimento intensivo com as RPPNs, acreditando que a reserva particular é uma maneira de se desvencilhar o máximo possível das

responsabilidades de preservação daquele local. Em geral, quando existe apoio público às RPPNs, este é estadual ou municipal e refere-se à publicidade em mídias governamentais e inclusão da RPPN em eventuais roteiros estaduais de turismo. Mesmo com o pouco apoio despendido às RPPNs, o poder público pode ser considerado indiretamente um incentivador na criação das RPPNs. Isto porque, nos últimos anos, a obsessão da administração pública pelo turismo como uma possibilidade de desenvolvimento com teórico retorno rápido, propagou na mídia uma falsa imagem de potencialidade de turismo em todos recursos turísticos, naturais e culturais principalmente, possíveis e imagináveis. Esta falsa imagem por sua vez gerou uma euforia a respeito do turismo, principalmente nos leigos, que chegou a atingir proprietários rurais e influenciar no surto de criação de RPPNs nos últimos dez anos. Os proprietários de RPPNs que pretendem desenvolver o turismo baseiam-se na idéia de obter uma fonte extra de ganhos paralelos à atividade agrícola. A atividade de turismo, no entanto, requer muita dedicação administrativa do proprietário, dedicação esta, que muitas vezes, não pode ser empreendida sem o prejuízo da administração agrícola da propriedade rural. Necessita-se inclusive de uma estrutura de pequena empresa para gerir uma RPPN com utilização turística. Sobre o interesse dos proprietários rurais, é importante analisar uma das hipóteses propostas no começo do trabalho: “A maior parte das RPPNs tem a

possibilidade de desenvolver a atividade turística”. Durante o estudo, foi verificado

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que esta hipótese é refutável, já que, na verdade, a atividade de turismo está restrita às propriedades que tenham uma diferenciação em termos de atrativos próprios e próximos, e cujo proprietário tenha o tino empresarial para o desenvolvimento do potencial turístico da área. O sucesso da RPPN Pousada das Araras, por exemplo, é reflexo da presença de várias características especiais, como recursos de grande atratividade, proximidade do Parque Nacional das Emas e dedicação integral dos proprietários. Outra hipótese levantada no início do trabalho foi a de que: “Tendo em vista as restrições legais de uso das RPPNs, a atividade do turismo se torna o maior benefício que o proprietário pode obter”. Esta hipótese foi confirmada pelo estudo à medida que as demais atividades permitidas (educação ambiental e pesquisa científica) não se demonstram tão lucrativas, ainda que requeiram menos investimentos em sua implantação. Reforce-se que a atividade de turismo requer planejamento e, principalmente, condições naturais que se demonstrem como fatores de atratividade. A última hipótese colocada no trabalho é a que declara: “O status de reserva é mais um fator de vantagem do que um dificultador em relação à implantação do turismo”. Isso também foi confirmado, pois, principalmente no que tange às relações com atividades de marketing, demonstra-se realmente como um agregado de valor. Em relação ao funcionamento administrativo das RPPNs, observou-se que os proprietários que não tem conhecimento técnico para desenvolver o turismo em geral recorrerem a parcerias estratégicas. Dentre os possíveis parceiros, as ONG’s se destacam, até mesmo pelos vários projetos já desenvolvidos com RPPNs. A parceria com empresas do terceiro setor se caracteriza como fundamental, cobrindo a lacuna do governo federal em relação ao apoio técnico. Este apoio de ONGs

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muitas vezes é a única maneira da RPPN não se tornar apenas uma área não pagadora de impostos, ou pior ainda, um empreendimento deficitário. Em termos de investimentos financeiros ou linhas de crédito, a pesquisa demonstrou que o governo criou algumas linhas para os proprietários de RPPN, porém não com condições muito vantajosas. Assim, quem acaba conseguindo recorrer a estes empréstimos são as ONG’s, que, por sua vez, utilizam a verba em projetos que contemplam múltiplos proprietários de RPPN, com projetos

desenvolvidos de acordo com o que é determinado pelas ONG’s que repassam as verbas. Toda essa dificuldade de acesso a recursos técnicos e financeiros se reflete também na elaboração do plano de manejo, que tem um custo muito elevado. Os planos de manejo devem demorar a se tornar uma realidade em RPPNs, principalmente porque o governo não tem como cobrar sua obrigatoriedade, tendo em vista que a grande maioria dos Parques Nacionais não possui planos de manejo. Esses planos cumprem uma importante função como norteador do possível desenvolvimento do turismo em RPPNs de maneira conciliada com a preservação do meio ambiente. O turismo cumpre então uma função fundamental no casamento do interesse privado de obtenção de ganhos e como uma ferramenta para a verdadeira função das RPPNs, ser uma Unidade de Conservação. As reservas privadas são instrumentos mais eficientes de preservação que as áreas protegidas sob a responsabilidade do poder público, exatamente pelo fato de não estarem presas na burocracia pública. As RPPNs, que têm uma versatilidade muito grande, ainda carecem do auxílio não privado para o seu desenvolvimento, e assim as RPPNs no Brasil somente serão uma unidade de conservação de sucesso quando for possível

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equacionar as necessidades e potencialidades da reserva entre o setor público e privado. Especificamente sobre a RPPN Pousada das Araras, é importante citar que esta reúne características especiais que a favoreceram em muito quanto à aplicabilidade da atividade turística, e mais importante, é um bom exemplo a ser avaliado e seguido por outros proprietários que desejam desenvolver o turismo em suas propriedades, já que demonstra todo um caminho planejado até chegar ao atual status de desenvolvimento da exploração do turismo. Este trabalho, no geral, buscou informações que contribuem para demonstrar a situação atual de desenvolvimento do turismo em RPPNs, bem como as possibilidades e limitações desse modelo de Unidade de Conservação. Devido à escassez de material escrito sobre as Reservas Particulares do Patrimônio Natural, este estudo pretende contribuir para novas pesquisas, esperando que as constatações aqui realizadas dêem margem a novos estudos deste vasto tema.

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ANEXOS
Anexo A: Total de RPPN criadas por ano segundo o IBAMA
Ano: 1990 Ano: 1991 Ano: 1992 Ano: 1993 Ano: 1994 Ano: 1995 Ano: 1996 Ano: 1997 Ano: 1998 Ano: 1999 Ano: 2000 Ano: 2001 Ano: 2002 Ano: 2003 Ano: 2004 Ano: 2005 Total Área (ha) 22.961,04 Área (ha) 3.022,49 Área (ha) 14.992,23 Área (ha) 3.237,19 Área (ha) 32.957,23 Área (ha) 4.412,79 Área (ha) 5.571,67 Área (ha) 147.036,22 Área (ha) 78.316,84 Área (ha) 6.706,49 Área (ha) 24.940,54 Área (ha) 58.633,95 Área (ha) 32.112,22 Área (ha) 1.321,00 Área (ha) 13,00 Área (ha) 92,19 436.327,09 Nº de RPPNs 10 Nº de RPPNs 6 Nº de RPPNs 14 Nº de RPPNs 10 Nº de RPPNs 22 Nº de RPPNs 13 Nº de RPPNs 16 Nº de RPPNs 45 Nº de RPPNs 49 Nº de RPPNs 58 Nº de RPPNs 47 Nº de RPPNs 70 Nº de RPPNs 41 Nº de RPPNs 2 Nº de RPPNs 1 Nº de RPPNs 1 405

INSTITUTO BRASILEIRO DO MEIO AMBIENTE E DOS RECURSOS NATURAIS RENOVÁVEIS DIRETORIA DE ECOSSISTEMAS COORDENAÇÃO GERAL DE ECOSSISTEMAS SCEN, Trecho 2 - Edif. Sede IBAMA - Brasília/DF - CEP: 70.818-900 Telefone: (61) 316-1078 / 316-1756

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Anexo B: Mapa de localização das RPPNs no Brasil

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