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Tribunal de Justiça do Estado de Mato Grosso

PJe - Processo Judicial Eletrônico

01/06/2022

Número: 1039706-55.2021.8.11.0001
Classe: PROCEDIMENTO DO JUIZADO ESPECIAL CÍVEL
Órgão julgador: 2º JUIZADO ESPECIAL CÍVEL DE CUIABÁ
Última distribuição : 06/10/2021
Valor da causa: R$ 41.800,00
Assuntos: Indenização por Dano Material, Indenização por Dano Moral
Segredo de justiça? NÃO
Justiça gratuita? SIM
Pedido de liminar ou antecipação de tutela? SIM
Partes Procurador/Terceiro vinculado
ROSELY CONCEICAO DE ARRUDA FERRI (REQUERENTE) MARCOS GATTASS PESSOA JUNIOR (ADVOGADO(A))
ENOCK CAVALCANTI DA SILVA 38197189749 DIOGO PEIXOTO BOTELHO (ADVOGADO(A))
(REQUERIDO)
Documentos
Id. Data da Documento Tipo
Assinatura
85671 31/05/2022 18:44 Sentença Sentença
718
ESTADO DE MATO GROSSO
PODER JUDICIÁRIO
2º JUIZADO ESPECIAL CÍVEL DE CUIABÁ

SENTENÇA

Autos nº 1039706-55.2021.8.11.0001
Polo Ativo: ROSELY CONCEIÇÃO DE ARRUDA FERRI
Polo Passivo: ENOCK CAVALCANTI DA SILVA

Vistos, etc.
I- RELATÓRIO
Dispensado o relatório, a teor do art. 38 da Lei n° 9.099/95.
II- FUNDAMENTAÇÃO
II.I. PRELIMINARES
Inicialmente, entendo que não há que se falar em
complexidade suficiente que autorize afastar a competência deste Juízo
e não se revelam na espécie nenhumas das situações preliminares e
prejudiciais de mérito da demanda descritas no artigo 337 do Novo
Código de Processo Civil.
II.II. MÉRITO
A inteligência do art. 6º da Lei nº. 9.099/95 nos mostra que:
O Juiz adotará em cada caso a decisão que reputar mais justa e
equânime atendendo os fins sociais da Lei e as exigências do bem
comum. Isso demonstra que o Juízo poderá valer-se da interpretação
teleológica com mais liberdade, como forma de buscar a solução mais
justa para o caso, permitindo uma discricionariedade amparada na Lei.
Assim é pacífico que: “Não há falar em ofensa ao art. 315, §

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2º, do CPP, pois o julgador não está obrigado responder a todas as
questões suscitadas pelas partes, quando já tenha encontrado motivo
suficiente para proferir a decisão.” (STJ, AgRg no REsp 1919330/RS,
Rel. Ministro Ribeiro Dantas, Quinta Turma, julgado em 22/06/2021, DJe
28/06/2021).
Verifico que a matéria de fato já está satisfatoriamente
demonstrada pelas provas carreadas ao bojo dos autos, e para evitar a
prática de atos inúteis ou protelatórios e, conhecendo diretamente do
pedido, passo para o julgamento antecipado do feito nos termos do artigo
355, I, do Novo Código de Processo Civil.
Nesse contexto, sem dúvida, é irrelevante a produção de
prova pericial e testemunhal para deslinde do feito, o que afasta qualquer
alegação futura de cerceamento de defesa.
Trata-se de AÇÃO DE INDENIZAÇÃO POR DANOS
MORAIS em que a parte autora alega, em suma, que o reclamado
publicou matéria pejorativa em 20.4.2020, intitulada de “Roseli Arruda,
cronista da cuiabania, clama pela volta da ditadura. Devemos ter piedade
da velha senhora que perdeu o rumo.”, seguida de comentários de cunho
jocoso sobre a parte autora com o propósito de degradar sua imagem.
Assim, busca a tutela jurisdicional com o propósito de ver o
reclamado condenada ao pagamento de indenização por danos morais.
O Reclamado, por sua vez, apresentou contestação
alegando que, além da parte autora não ter demonstrado efetivo dano
moral suportado, nada houve de ilegal tendo em vista agiu amparada no
direito à livre manifestação da imprensa. Por fim, requer o julgamento
improcedente da presente demanda.
Oportunizada a conciliação, as partes compareceram à
solenidade, contundo optaram em prosseguir com a demanda – id.
75897311.
Pois bem. No caso dos autos, o conflito instalado relaciona-
se à liberdade de imprensa e informação e suposto vilipendio a direitos
fundamentais do envolvido na publicação com potencial lesivo à sua
imagem e honra.
Como é de trivial sabeça, a Constituição Federal tutela tanto
o direito à livre manifestação do pensamento, incluindo o direito de

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prestar informação (art. 5º, IV e art. 220), como também o direito à
proteção à honra, à imagem e à vida privada dos cidadãos (art. 5º, X).
Por seu turno, no campo da livre manifestação do
pensamento, a Carta Magna exprime redobrada atenção pela defesa à
dignidade pessoal, quando concede “o direito de resposta, proporcional
ao agravo, além da indenização por dano material, moral ou à imagem”
(art. 5º, V).
Examinando-se detidamente elementos de convicção
compilados, tem-se que a pretensão deduzida não merece acolhida.
Isto porque, em que pese os argumentos vertidos pela parte
autora, infere-se da matéria intitulado de “Roseli Arruda, cronista da
cuiabania, clama pela volta da ditadura. Devemos ter piedade da velha
senhora que perdeu o rumo.” a inequívoca constatação de que não há
ataque contra a honra e a dignidade pessoal da parte autora, mas tão
somente restrita à narrativa dos fatos, embora em tom mais rigoroso,
porém insuficiente para gerar o dano extrapatrimonial pretendido.
Ora, como se sabe, a liberdade de imprensa é composta por
diversas concepções, como por exemplo: do direito de informar, do
direito de buscar pela informação, do direito de opinar e de criticar, entre
outras. Nessa perspectiva, a crítica jornalística também goza de tutela
constitucional que legitima o seu exercício, sobrepondo-se eventual
melindre que possa dela decorrer, maiormente, em se tratando de crítica
às figuras públicas ou notórias como no caso, ainda que de seu exercício
resulte opinião jornalística extremamente dura e contundente.
Ademais, as postagens compartilhadas em rede social por
cidadãos inconformados com a natureza da matéria jornalística de
interesse da população em geral, motivando opiniões e críticas, nada
mais que o exercício do direito da sociedade de saber e questionar as
personalidades públicas sobre seus atos.
Nessa perspectiva, a e. Turma Recursal Única do Tribunal de
Justiça de Mato Grosso já decidiu que:
RECURSO INOMINADO – RESPONSABILIDADE CIVIL –REPORTAGEM
VEICULADA – ALEGAÇÃO DE VIOLAÇÃO A IMAGEM, HONRA E DIGNIDADE –
ALEGAÇÃO DE UTILIZAÇÃO EQUIVOCADA DE TERMO JURÍDICO –
IMPUTAÇÃO DE PRISÃO AO INVÉS DE CONDUÇÃO– SENTENÇA DE
PARCIAL PROCEDÊNCIA – INSURGÊNCIA DA PARTE PROMOVIDA –
AUSÊNCIA DE EXCESSO – MERA DIVULGAÇÃO DE INFORMAÇÕES – MERA
UTILIZAÇÃO DE TERMINOLOGIA JURÍDICA DIVERSA - AUSÊNCIA DE DANO
MORAL – AUSÊNCIA DE ATO ILÍCITO – DANO MORAL NÃO CONFIGURADO –

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RECURSO PROVIDO. A liberdade de pensamento e a liberdade de expressão
são direitos assegurados pela Constituição Federal, em seu artigo 5º, incisos IV e
IX, contudo, tais direitos devem ser exercidos de forma que não lesionem outros
de igual importância, como os direitos da personalidade de terceiros, no caso, a
imagem e honra subjetiva. A divulgação de informação com caráter informativo,
sem excesso, não configura a obrigação de indenizar, sendo de rigor a
improcedência da pretensão, sobretudo quando os promoventes apenas se
insurgem quanto ao termo jurídico utilizado na matéria. Sentença reformada.
Recurso provido. (TJ-MT - RI: 10002243320178110004 MT, Relator: LUCIA
PERUFFO, Data de Julgamento: 14/12/2018, Turma Recursal Única, Data de
Publicação: 17/12/2018)

Por conseguinte, demonstrado que as provas dos autos não


se apresentam suficientes para comprovar os fatos constitutivos do
direito da parte autora, nos termos art. 373, inciso I, do CPC, indefiro o
pedido de indenização por danos morais.
III – DISPOSITIVO
Ante o exposto, SUGIRO A IMPROCEDÊNCIA TOTAL DO
PEDIDO INICIAL, com resolução do mérito, nos termos do artigo 487,
inciso I, do Código de Processo Civil.
Sem custas e sem honorários neste grau de jurisdição (art.
54 e 55 da Lei nº. 9.099/95).
Intime-se. Cumpra-se.
Submeto a presente decisum à homologação do Juiz de
Direito, nos termos do artigo 40 da Lei 9.099/95.

Thiago Rosseto Sanches


Juiz Leigo

SENTENÇA
Vistos, etc.
Homologo, para que produza seus jurídicos e legais efeitos,
o projeto de sentença elaborado pelo Juiz Leigo, na forma do art. 40 da
Lei nº 9.099/95.
Preclusa a via recursal, nada sendo requerido, arquive-se

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com as baixas necessárias.
Publicada no PJe.
Cuiabá-MT, data registrada no sistema.

JORGE ALEXANDRE MARTINS FERREIRA


Juiz de Direito

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