Um Pássaro em Pânico

Elias José

Era sempre aquele pânico antes da luz do dia se anunciar. Muita gente falava em solidão noturna, outras a sofriam de madrugada. Uma amiga (no tempo em que ela tinha amigos) até lhe dizia que a dela chegava sempre às sextas-feiras. Antes do dia, intervalo entre a madrugada e a manhãzinha, é que ela ia sentindo sufocar-se, uma vontade imensa de ter alguém para ouvir o ronco ou trocar algumas frases sonolentas. Sozinha no mundo e não adiantava fechar os olhos, não dormiria mais. Não adiantava contar as tábuas do forro, tentar reconstituir o hábito antigo. Não havia tábuas, só a laje, o lustre e a lâmpada. Inútil inventar cantos de galos ou pássaros, coisas de manhãs distantes. No passado, ela ouviu sempre estórias de medos ou mitos, mas não chegou a sentir-se envolvida em nenhuma das duas coisas. Talvez um medo, muito forte, fosse preferível ao pânico real, tocável, que estava ali em seu corpo, nas carnes, na alma. Nenhum deus a quem pudesse pedir socorro, nenhum mito ou herói em quem acreditar. Sabia que havia chegado a um tal estado de depuração que os sonhos eram analisados e estava podada qualquer possibilidade de se iludir. Não alimentava mistérios, mas não sabia também arrancar aquele peso por dentro. As interrogações se intrometiam sem ela perceber. Havia um telefone e vários números que poderiam servir de socorro. Não discaria nenhum número, enfrentaria o cotidiano peso de amanhecer solitária num leito de casal. Em outros tempos, inventaria fugas, drogas, bebida, fumo. Agora, conhecia todos os perigos do abismo e não estava mais perdida em nenhum abraço, em sonho nenhum. Era preciso inventar um mundo real, onde só ela coubesse, sem intromissões. Não naufragaria mais, tentando salvar os outros ou salvar-se. As pessoas devem aprender o valor de ser só. Até acreditavam que havia aprendido, mas naquela hora do dia, só ela sabia da dor, das serpentes picando o corpo, das mãos pedindo abrigo como as aspas suspensas no ar. Do banheiro vinha aquele cheiro forte do desinfetante de eucalipto e era vida que a brisa trazia ao quarto. Não seria mais interessante abrir todos os sentidos e buscar companhia na vida e não nas pessoas. O cheiro era nítido, provocante, ia além do olfato. A empregada poderia fazer limpeza no banheiro todas as tardes e, assim, teria o cheiro bom todas as manhãs. Era melhor mudar as coisas de seus lugares, encher o quarto de quadros, capas de discos, colagens, coisas que atingissem mais fundo que a visão. Mas não seriam formas diferentes de cultuar pessoas, mitos, deuses? Na falta da música antiga que os pássaros traziam, num tempo em que havia pássaros e árvores e a casa, poderia ligar o toca-fita. Não, a música pioraria tudo. A música sempre traz fantasmas, com seus vultos estranhos e pouco nítidos. Música não alivia ninguém, música excita, provoca, mexe por dentro, destrói fingindo que está construindo. Um livro, quem sabe um bom livro de poemas? De poemas, nunca! Os poetas nos destroem mais que a música. Todos os versos trazem cargas sintéticas e poderosas de amargura e necessidades de integração. Não queria saber de nada que lembrasse integração. Não sabia por que, mas, naquela hora, estava lembrando-se de quando atendeu à porta e era a moça que havia lido o anúncio e procurava o emprego. A moça mal conseguia articular uma frase, uma grande qualidade, bem dentro das exigências do anúncio: moça que não durma no emprego, alfabetizada, que seja discreta e fale pouco. Com o tempo, começou a querer soltar a língua e houve toda aquela repreensão: nada de conversas, de intimidades, pagava para que não entrassem em sua vida, não queria saber de estórias e problemas, detestava a mania que as domésticas tinham de querer se envolver nas estórias dos patrões e, ao mesmo tempo, fazendo com que eles também se sentissem envolvidos nas vidinhas delas. Agora, o que doía era o silêncio pleno, o apenas: bom-dia, posso servir o almoço?, posso servir o jantar?, até amanhã, às ordens, patroa, sempre às ordens, obrigada. As horas que passava no apartamento, fora do serviço, eram de paz, apenas quebradas pelo ruído da enceradeira, do liquidificador ou barulho que vinha da rua. Era bom sentir-se assim, ter um lugar onde não precisasse conversar tanto como no trabalho. O bom seria nem trabalhar, para não ter que tolerar aquelas conversas estranhas, que provocam náuseas. Triste não ter o direito de não ouvir coisas supérfluas. As palavras deveriam custar dinheiro, ser bastante caras, assim não as gastariam com futilidades. Se cada pessoa procurasse ficar mais dentro dela mesma, sem esperar pelos sorrisos do vizinho, a vida seria mais densa. Era preciso selecionar cada frase, economizar os sorrisos, só dizer um elogio ou fazer um carinho quando houvesse uma necessidade interior muito intensa. Não suportava os sorrisos e falas fáceis das colegas de trabalho.
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Elas conseguiram esgotar a linguagem e vivem dizendo, mostrando, sem conseguir comunicação. E como possuíam rótulos para classificá-la! Era a fera, a orgulhosa, a perfeita, a feita de pedra, a insensível, a fria, a calculista. Por dentro, só ela sabia o peso e o preço de se fazer assim. Seria mais fácil fingir e ser também usada por todos. Ela sabia, por experiência, como era duro não se pertencer, sorrir para todos, satisfazer os chefes, dar presentinhos nos aniversários de todas as colegas, ser sociável até que chegue a um ponto que nem o estômago perceba mais. Era preferível sentir a náusea, reagir. Afinal, não tinha o menor sentido aquele tempo em que suas mãos, quentes e ávidas, percorriam aqueles corpos todos, procurando neles facilidades econômicas ou posições não merecidas. E naquele tempo, tudo mostrava-lhe a verdade, o lado torpe das tranasções. As coisas pesavam e não davam nenhum prazer. O único homem que amou, que tentou fazer dele coisa só dela, foi o que mais a humilhou, o que lhe jogou na cara o que não percebia, tão iludida estava. Sem perguntas, sem respostas, fechou-se, certa que só há compensação quando se cria um mundo só da gente, sem fantasia, sem planos, sabendo de cada atitude, dos outros e da gente. Era interessante aceitar, vez por outra, um galanteio, sair com alguém para um jantar ou boate, sem envolvimentos maiores de pele ou alma. Era bom, pois dava uma certeza de que a beleza ainda existia e, se quisesse, provocaria sede e fome. Não seria água nem comida fácil. Sua carne de fêmea em idade de cios doía, apunhalava fundo. Era preciso usar o corpo sem atingir a essência e aquelas horas de aceitação eram horas de aprendizagem. Ontem, a aprendizagem foi longa e a entrega quase se deu. Agora, com a manhã se anunciando, a solidão doía muito, provocava um desejo estranho no corpo, uma vontade de gritar, pedir socorro. Agora, não queria apenas alguém deitado ao lado, roncando ou ouvindo palavras sonolentas. Queria amanhecer nos braços de um homem, braços fortes, ombros em que ela pudesse arranhar com a fúria acumulada em tantas manhãs de mentiras e vazios. Mordeu nos próprios braços, sentiu na boca um gosto quente de água e sal. Era apenas um corpo quente e inútil, estátua sem vida, uma serpente sem veneno, carregada de ternura. Não adiantava fantasiar um mundo lógico, seria o mesmo engano, uma fuga com infiltrações invisíveis que acabariam por estourar mais doloridamente. Entre aquelas duras horas de insônia e a noite, haveria muito tempo para estudar uma maneira de conceder ao corpo alguma saída para a satisfação. Amanheceu por completo. Levantou-se, o café estava pronto e, sem sentir, chamou a moça para sentarse com ela, fazer companhia. Ela sentiu que não era um pedido, era quase uma ordem e sentouse.Dois minutos depois, olhava surpresa para a moça e teve vontade de mandá-la para o serviço. Mas os olhos, assustados e inutilmente olhando para a cafeteira, fizeram com que ela retomasse o fio dos acontecimentos. Teve ódio de estar cedendo. Mas não podia negar que a empregada, mesmo calada, dava-lhe mais segurança, uma pequena certeza interior de que as coisas não estavam totalmente perdidas. Sem querer, sentiu muita ternura pela moça e, pela primeira vez, tentou examiná-la melhor. Descobriu um rostinho infantil e sofrido, dois olhos inexplicavelmente medrosos, alguém que estava tomando café, mas que deixava claro que preferia estar muito distante dali, dela. Quis puxar assunto, perguntar a idade, saber alguma coisa daquela criatura que vivia naquela mesma casa há quase um ano. O orgulho foi maior. Apressou-se, tomou o copo de leite, não tocou no pão, na manteiga, na geléia, apenas mais uma xícara de café e saiu da mesa, fingindo estar atrás de um fósforo. Mais uma vez, ficou com a empregada a impressão de estar trabalhando com uma biruta. Pela primeira vez, saiu com a patroa a imagem da mocinha e a certeza de que estava lidando com gente e era preciso ter o máximo cuidado para não se queimar outra vez. E o que doía mais é que se via como uma serpente, enquanto a moça parecia um pássaro em pânico, perplexo, assustado.

JOSÉ, ELIAS. Um Pássaro em Pânico. In Um Pássaro em Pânico. São Paulo, Ática, 1977, p. 53-58

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