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Governo do Estado do Rio de Janeiro

Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia e Inovação


Fundação de Apoio à Escola Técnica

INSTITUTO SUPERIOR DE EDUCAÇÃO PROFESSOR ALDO MUYLEART

LICENCIATURA EM PEDAGOGIA

EDUCAÇÃO PRISIONAL: DEBATE SOBRE O PAPEL DO PROFESSOR

Fernanda Mara de Azevedo da Silva Maciel

Campos dos Goytacazes


2021
Governo do Estado do Rio de Janeiro
Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia e Inovação
Fundação de Apoio à Escola Técnica

INSTITUTO SUPERIOR DE EDUCAÇÃO PROFESSOR ALDO MUYLEART

LICENCIATURA EM PEDAGOGIA

EDUCAÇÃO PRISIONAL: DEBATE SOBRE O PAPEL DO PROFESSOR

Fernanda Mara de Azevedo da Silva Maciel

Monografia apresentada ao Instituto


Superior de Educação Professor
Aldo Muylaert como requisito parcial
para a conclusão do curso de
Pedagogia sob a orientação do
professor Rafael Pinheiro Caetano
Damasceno.

Campos dos Goytacazes


2021
AGRADECIMENTOS

Em primeiro lugar, a Deus, pоr permitir que eu tivesse saúde е


determinação para não desanimar durante todo o período do Curso e também
durante a realização deste trabalho.
Aos meus filhos e esposo, que compreenderam a minha ausência
enquanto eu me dedicava às aulas e realização deste trabalho.
Aos professores, pelas correções e ensinamentos que me permitiram
apresentar um melhor desempenho no meu processo de formação profissional
ao longo do curso e em especial ao professor Rafael Damasceno, por ter sido
meu orientador e ter desempenhado tal função com dedicação e paciência.
As minhas colegas de turma, por compartilharem comigo tantos
momentos de descobertas e aprendizado e por todo o companheirismo ao
longo deste percurso.
E por fim, “in memorian” a minha mãe Elenilda, q ue sempre esteve ao
meu lado, pelo amor incondicional e pelo apoio demonstrado ao longo de todo
o período de tempo em que me dediquei ao Curso, infelizmente não estando
entre nós nesse momento de finalização.
RESUMO

O trabalho tem o a finalidade de destacar o papel do educador da Educação de


Jovens e Adultos (EJA) no sistema penitenciário do nosso país. Trata da educação
formal dentro dos presídios e como esta pode contribuir para a vida dos detentos após
seu retorno à sociedade. Dessa forma, buscou-se analisar a forma porPELA qual se
tem feito a educação dentro das cadeias, os métodos que o professor utiliza em seu
dia a dia, algumas dificuldades que o professor e o aluno presidiário enfrentam e a real
função de um educador nesse tipo de realidade, que vai muito além de apenas
transferir conhecimento.METODOLOGIA? BIBLIOGRAFIA? CONCLUSÕES?

Palavras Chave: Educação Prisional; Educação de Jovens e Adultos(EJA);


Ressocialização.

ABSTRACT
The work has the purpose of highlighting the role of the Youth and Adult
Education (EJA) educator in the penitentiary system in our country. It deals with
formal education within prisons and how it can contribute to the lives of inmates
after their return to society. Thus, we sought to analyze the way in which
education has been carried out within the chains, the methods that the teacher
uses in their daily lives, some difficulties that the prison teacher and student
face and the real role of an educator in this kind of reality that goes far beyond
just transferring knowledge.

Keywords: Prison Education; Youth and Adult Education (EJA); Resocialization


SUMÁRIO

INTRODUÇÃO__________________________________________________6
1 EDUCAÇÃO PRISIONAL NO BRASIL______________________________8
1.1 A Educação e sua perspectiva ressocializadora__________________12
1.2 A EJA e sua importância nas penitenciárias do Brasil_____________15
2 O EDUCADOR DA EJA E SEUS DESAFIOS_______________________ 20
2.1 A função do Educador no Cárcere: entre teoria e desafios_________24
CONSIDERAÇÕES FINAIS_______________________________________31
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS________________________________33
6

INTRODUÇÃO
Neste trabalho vamos discutir o papel do educador da EJA em realidade
prisional, ou seja, salas de aula que se encontram dentro das nossas
penitenciárias.

O sistema prisional brasileiro vem passando nos últimos anos, por um


aumento considerável do seu número de internos, segundo dados do Infopen.A
estrutura da prisão como lugar de encarceramento dos delinquentes e punição
de seus crimes tem ganhado notoriedade na sociedade atual, já que a
criminalidade cresce desenfreadamente. E claro, é necessário rever a função
ressocializadora que a cadeia deveria exercer. POR QUE???? QUAL A FONTE
DE SUA INEFICÁCIA????

Na verdade, o que queremos como sociedade é ver aqueles envolvidos


em casos de violência, afastados de todos, pagando por seus erros QUAL A
FONTE. Porém muitos esquecem que após esse acerto de contas com a
justiça, o indivíduo voltará para as ruas e na maioria das vezes, pior do que
quando entrou QUAL A FONTE. Na realidade, a maior preocupação é com o
cárcere, com a reclusão, quando na verdade políticas públicas mais ativas
deveriam serem tomadas para que esse indivíduo a margem da lei, seja acima
de qualquer coisa, verdadeiramente ressocializado.

A prática de ressocialização acontece como uma necessidade de


promover ao apenado as condições de ele se reestruturar a fim de que ao
retorno à sociedade não mais torne a cometer crimes. A ressocialização tem o
objetivo de trazer dignidade, resgatar a auto- estima do detento, trazer
aconselhamento e condições para um amadurecimento pessoal, além de
lançar e efetivar projetos que tragam proveito profissional, entre outras formas
de incentivo e com ela os direitos básicos do preso, vão sendo priorizados.

De acordo com o Sisdepen dados registrados de 2020 a população


carcerária brasileira já era de mais de 668 mil pessoas presas em celas físicas
e mais 139 mil em prisão domiciliar por razão da pandemia do novo
coronavírus. O grau de escolaridade dessa população é extremamente baixo.
Destaca-se que desse percentual total, 165 mil pessoas realizam atividade
educacional nos presídios, sendo 31 mil cursando o ensino fundamental. Neste
7

sentido, grande parte das pessoas privadas de sua liberdade necessita de uma
educação no cárcere, ampla e diferenciada, para que assim adquiram
conhecimentos e práticas que lhes abram caminhos para a reconstrução de
sua cidadania.Uma educação voltada para um currículo que possibilite o
desenvolvimento psicológico dos apenados, bem como os conhecimentos
específicos de ensino. Esse desenvolvimento psicológico estaria voltado para a
capacidade do interno desenvolver sua independência, provendo suas próprias
necessidades. Logo, o educador prisional, deve ser uma das pessoas, que
oferecerá caminhos, condições para que o processo de autodesenvolvimento
em seu educando- interno aconteça. Nessa relação, todos ensinam e
aprendem, já que ambos carregam consigo uma enorme bagagem de vida.

Este trabalho tem como proposta, realizar uma pesquisa na tentativa de


debater sobre o modelo de educador para enfrentar o cotidiano de um presídio,
analisando sua formação, sua metodologia de ensino e sua prática diária. E
qual sua verdadeira importância no processo de ressocialização dos internos e
também dos egressos do sistema penitenciário do país. E ainda verificar que
benefícios a educação, através do educador, pode trazer para o indivíduo
privado se sua liberdade e após sua saída do sistema.

A metodologia utilizada no trabalho compreende uma pesquisa


bibliográfica baseada em produções científicas, como artigos, monografias,
dissertações, livros de algumas áreas de estudo, como a Pedagogia,
Sociologia, que contribuíram no raciocínio para o conhecimento desta temática.
Foram ainda utilizadas as legislações que embasam o direito de acesso à
educação aos privados de liberdade.

No primeiro capítulo do trabalho, falaremos sobre a história da educação


prisional no Brasil, seu papel ressocializador e ainda abordaremos a
modalidade de Educação para Jovens e Adultos e também a sua importância
na realidade prisional.No segundo capítulo abordaremos sobre os desafios
enfrentados pelo educador de Jovens e Adultos.Já no terceiro e último,
falaremos sobre a real função do educador em salas de aulas que se
encontram dentro das penitenciárias no nosso país.Por fim, algumas
considerações finais sobre o que foi possível analisar, porém com muito ainda
8

a se aprender, já que ainda temos muito a conhecer sobre a prática docente,


em especial, quando feita nos espaços de encarceramento.

1 EDUCAÇÃO PRISIONAL NO BRASIL

A prisão é bem mais antiga do que se pensam, sendo criada antes


mesmo que a lei definisse como um local de detenção, de punição. Foucault
(2014, p.223) afirma que “a forma geral de uma aparelhagem para tornar os
indivíduos dóceis e úteis, por meio de um trabalho preciso sobre seu corpo,
criou a instituição-prisão, antes que a lei definisse como a pena por
excelência”.

Segundo Foucault (2014), antes do século XVIII o direito penal era


marcado por penas cruéis e bárbaras, como: o esquartejamento, a fogueira, o
apedrejamento, o enforcamento, a decapitação etc., não havendo até então a
privação de liberdade como forma de pena, mas sim como detenção, garantia
de que o acusado não iria fugir, e ainda para a produção de provas, por meio
de interrogatórios cruéis, da tortura, com usos de chicotes, ferros quentes. O
acusado aguardava o julgamento e a pena subsequente que geralmente
acontecia por execução pública, privado de sua liberdade, em cárcere. Essa
punição em público acontecia como uma cena, um espetáculo aos olhos de
toda a população, para que assim o homem entendesse a certeza de ser
punido e se desviasse de crimes. Apenas no fim do século XVIII, ainda
segundo o autor, que a pena privativa de liberdade passou a fazer parte do
quadro de punições do Direito Penal, com o progressivo banimento das penas
cruéis e desumanas. A pena de prisão então, passa a exercer um papel de
punição, alterada com a humanização das penas. Foucault (2014) relata que a
mudança no meio de punição vem junto com as mudanças políticas da época,
que com a queda do antigo regime e a ascensão da burguesia, a punição deixa
de ser espetáculo público, já que assim havia um incentivo à violência, e é
agora uma punição fechada, que seguem regras rígidas. Portanto muda-se o
meio de se fazer sofrer, deixa de punir o corpo de condenado e passa-se a
punir a alma. Essa mudança, segundo o autor, é um modo de acabar com as
punições imprevisíveis e ineficientes do soberano sobre o condenado. Assim,
começam a surgir os primeiros projetos do que se tornariam as penitenciárias.
9

De acordo com Pereira (2011), no Brasil Império através da Carta Régia de


1769 foi criada a primeira prisão brasileira, chamada de casa de correção,
estabelecida no Rio de Janeiro.Tinha como maior objetivo alinhar a pena ao
trabalho. Já na carta Constitucional de 1824, esse ideal passa a ser legalizado,
separando os réus por tipo de crime, pena e realizando as adaptações
necessárias para que os internos pudessem trabalhar. O autor afirma:

Assim, o Estado brasileiro assumiu o preso na concepção de


sujeito marginal/marginalizado que devia trabalhar de maneira
que fosse útil à sociedade, já que o trabalho era visto como
dignificação da vida humana-expressão maior de alienação do
trabalho (2011,p.42).

A legislação penal do país só foi reformulada com o surgimento do Código


Penal da República, em1935, que também foi logo alterado pelo de 1940 e
tinha um maior objetivo de punir e não tanto reabilitar o condenado. E em 1984
foi criada a lei n°7.209, alterando o Código e redefinindo uma gama de
questões do sistema prisional. Ainda em 1984, o sistema ganhou novos rumos
com a criação da Lei n°7.210, que buscou garantir legalmente alguns direitos
às pessoas privadas de liberdade, e um desses direitos seria a educação:

Art. 10. A assistência ao preso e ao internado é dever do


Estado, objetivando prevenir o crime e orientar o retorno à
convivência em sociedade.
Parágrafo único. A assistência estende-se ao egresso.
Art. 11. A assistência será:
I - material;
II - à saúde;
III - jurídica;
IV - educacional;
V - social;
Art. 17 à 21. Tratam da assistência educacional no sistema
prisional, inclui a instrução escolar e a formação profissional.
Art. 83. O estabelecimento penal, conforme a sua natureza,
deverá contar em suas dependências com áreas e serviços
destinados a dar assistência, educação, trabalho, recreação e
prática esportiva.

E para marcar ainda mais as mudanças, em 1988 foi sancionada a


Constituição Federal, que buscava garantir direitos para todos:

Art. 205: A educação, direito de todos e dever do Estado e da


família, será promovida e incentivada com a colaboração da
sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu
preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o
trabalho.
10

Art. 3º Constituem objetivos fundamentais da República


Federativa do Brasil: IV - promover o bem de todos, sem
preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade quaisquer outras
formas de discriminação.
Juntas, previam-se que a educação seria um direito e não um favor à
essas pessoas privadas de liberdade, e que o maior objetivo seria devolver o
que havia sido perdido com a privação e o cumprir da pena. Segundo Pereira
(2011, p.44) nesse contexto “a educação deve ser para devolver à pessoa
presa a cidadania perdida, a dignidade de voltar a ser visto de “igual para igual”
perante a sociedade. Ainda sobre a educação de pessoas privadas de
liberdade, podemos citar entre a legislação do país a Lei de Diretrizes e Bases
da Educação Nacional, n°3994/1996 que afirma em seus artigos:

Art. 2º A educação, dever da família e do Estado, inspirada


nos princípios de liberdade e nos ideais de solidariedade
humana, tem por finalidade o pleno desenvolvimento do
educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua
qualificação para o trabalho.
Art. 5º O acesso ao ensino fundamental é direito público
subjetivo, podendo qualquer cidadão, grupo de cidadãos,
associação comunitária, organização sindical, entidade de
classe ou outra legalmente constituída, e, ainda, o Ministério
Público, acionar o Poder Público para exigi-lo.
A Recomendação n.º 44/2013 do CNJ dispõe sobre as atividades
educacionais complementares para fins de remissão da pena pelo estudo e
estabelece critérios para a admissão do benefício aos detentos que se dedicam
à leitura. A remissão da pena através do trabalho está prevista na Lei de
execução penal, n°7.210. A cada três dias trabalhados o interno diminui um dia
de sua pena. Tem direito de trabalhar, aqueles que estão em regime fechado
ou semiaberto nas penitenciárias, e aqueles que trabalham tanto interna ou
externamente. Já pelo estudo o condenado que estiver também em regime
fechado ou semiaberto, poderá remir um dia de pena a cada 12 horas de
frequência escolar, sendo atividades realizadas no ensino fundamental, médio,
profissionalizante, superior e até aqueles de requalificação profissional,
independentemente do nível de aproveitamento, com exceção se o apenado
estiver executando a atividade educacional fora do estabelecimento prisional.
Nesses casos, ele precisará comprovar mensalmente através da instituição de
ensino sua frequência e seu rendimento/aproveitamento escolar.
11

No caso da remissão pela leitura, a recomendação é de que o preso


deve dispor de vinte e dois a trinta dias para leitura de uma obra, e ao final do
tempo, necessita apresentar uma resenha a respeito do tema, que será
avaliada por uma comissão organizadora do projeto. Assim, a cada obra lida, o
condenado tem a possibilidade de remir quatro dias de pena, tendo o limite de
doze obras por ano. Vale lembrar que as autoridades penitenciárias estadual e
federal devem elaborar seus projetos visando e incentivando a remissão
através da leitura. E para que os projetos aconteçam as unidades devem dispor
de um acervo de livros. A Unesco defende ainda a possibilidade de remir a
pena de forma ainda mais vantajosa, quando a união da educação com o
trabalho. “[É necessário que] a remissão pela educação seja garantida como
um direito, de forma partidária com a remição concedida ao trabalho e
cumulativa quando envolver a realização paralela das duas atividades”
(UNESCO et al.,2006, p.37). A Lei n°12.245/2010 reforça ainda mais as
questões relacionadas a educação em presídios, uma vez que determina que
sejam construídas salas de aulas nesses locais. E, por meio da Portaria
Conjunta Depen/Corregedoria-Geral da Justiça Federal nº 276/2012, em
consonância com a Lei Federal 12.433 de 2011, foi instituído o Projeto
Remissão Pela Leitura nas Penitenciárias Federais. Por meio do Projeto, os
internos que participarem de atividades de leitura orientada podem obter a
redução do tempo de pena. Ao ler um livro por mês, o custodiado pode ter
reduzido quatro dias de pena, 48 dias no total de um ano, para cada leitura
resenhada adequadamente. À luz dessa iniciativa, alguns estados, como o
Paraná, adotaram programa análogo em suas unidades prisionais. Em estados
onde essa atividade não é regulamentada pelo Poder Executivo, ademais, há
casos de juízes da Vara de Execuções Penais que instituíram a prática em sua
comarca por meio de decisão judicial.

A educação no cárcere trabalha com pessoas marginalizadas, que


buscam uma reconstrução de cidadania, devida. Esse é um tipo de “escola”,
que deve trabalhar com práticas específicas à realidade das penitenciárias. É
mais que educação, é ressocialização, reeducação.

1.1 A Educação E Sua Perspectiva Ressocializadora


12

Ao abordar a educação em contexto social, sabe-se que seu maior


objetivo é, a formação do indivíduo de forma plena, preparando o indivíduo
para cumprir com suas responsabilidades como cidadão e mais tarde com o
trabalho:

Por educação, entendemos todos os processos de formação


humana que se dão formal, informal e não formalmente na
sociedade e sua relação com o trabalho como condição de
humanização; enquanto a pedagogia é uma ciência que se
preocupa com a cientificidade das práticas educativas que se
processam no campo da educação, ela busca investigar essas
práticas em busca de aspectos epistemológicos e
metodológicos e sua relação direta com a sociedade
(PEREIRA,2011, p.45/46).
O aprendizado que acontece na escola tem a finalidade de repassar aos
alunos conhecimentos que foram repassados de geração em geração e formá-
los intelectualmente, isso tudo em conjunto com a família, já que esta é a
primeira instituição de formação do indivíduo. Pereira (2011,p 47) afirma que “é
nesse espaço formal que é transmitido o conhecimento historicamente
adquirido pela humanidade e a criança vai se preparando para assumir
responsabilidades da vida adulta enfrentar o mercado de trabalho”. Porém,
sabemos que na realidade, ainda dispomos de uma educação de baixa
qualidade em nossas escolas públicas, e nos alerta para a grande ligação que
podemos estabelecer com o alto nível de criminalidade, visto que é baixo o
nível de escolaridade(e que geralmente estão inseridos nas camadas sociais
mais pobres) dos presidiários do país, como já relatamos com dados do
Infopen. Cunha relata que:

A prisão hoje é uma instituição de criminalização da pobreza,


uma vez que somente aquele que não possui conhecimento e
recursos materiais para se defender é que acaba penalizado,
muitas vezes com sentenças e julgamentos tardios e medidas
punitivas severas à natureza do delito (2010, p.176).
Logo, o que se entende é que a prisão na verdade é a instituição que
deveria corrigir aqueles que a escola não foi capaz de educar verdadeiramente.
Foucault em sua obra Vigiar e Punir(2014) falava sobre as instituições de
sequestro, como as escolas, fábricas, hospitais e as prisões, onde todas essas
mesmas, dispunham de um modo parecido no tratamento com as pessoas. O
objetivo era docilizar esses corpos usando de mecanismos disciplinares, já que
assim teriam um controle maior sobre os mesmos: “a disciplina fabrica assim
13

corpos submissos e exercitados, corpos ‘dóceis’. A disciplina aumenta as


forças do corpo (em termos econômicos de utilidade) e diminui essas mesmas
forças (em termos políticos de obediência)” (p.135).

A educação prisional vai muito além da finalidade da educação social,


formal, ela é uma educação que busca não só ocupar o tempo ocioso do
interno e reduzir a pena, mas também ofertar ao mesmo, reinserção na
sociedade e ao trabalho de forma digna. Surge como possibilidade de
recuperação de vidas, já que ressalta a produção de um indivíduo apto a ser
resiliente,autônomo, pronto para o retorno à liberdade, sendo capaz de produzir
condições próprias para a sua sobrevivência em seu egresso.

No caso de presos e presas, esta educação é decisiva na


restauração da auto estima e na sua reintegração na
sociedade, por meio de potencialização da capacidade do
indivíduo em superar psicológica e socialmente as
adversidades e converter-se em sujeito de sua própria história
(SARAIVA e LOPES,2011,p.28)
Porém, esse tipo de educação ainda está em fase de desenvolvimento,
caminhando a passos curtos em nosso país. Já conseguimos progredir em
alguns aspectos. As maiores ações de educação prisional desenvolvida ainda
são realizadas pelo governo federal, como já vimos em algumas das leis
sancionadas e relatadas acima. Mas ainda assim precisamos avançar mais.
Saraiva e Lopes afirmam:

Embora a racionalidade contemporânea de pensar a inclusão


já se imponha como forma de vida para nós, o sistema
penitenciário (não só brasileiro) parece ainda estar
engatinhando neste processo.Porém,ao considerarmos as
parcerias internacionais que o governo brasileiro possui para
que possa alavancar o sistema educacional e reabilitador nas
prisões, já percebemos mudanças significativas no modo de
governar a vida dos apenados e dos que trabalham com esses
(2011, p.29).

Muitos dos problemas na educação prisional que já aconteciam ainda no


tempo de sua institucionalização ainda perduram até os nossos dias. Os
dilemas que a educação nesse contexto enfrenta são enormes, que vão de
infraestrutura inadequada até a incredulidade na educação dos agentes de
segurança, sem falar na falta de preparação das pessoas envolvidas nessa
realidade. Para Pereira(2011,p.49), “outras dificuldades existem, desde a
14

desmotivação de presos até a falta de apoio interno dos que administram as


prisões de delegacias, as penitenciárias etc.”

Importante destacar que esse é um tipo de educação que deve lidar com
práticas educativas e pedagógicas diferentes da nossa escola regular,visto que
esse público vive uma realidade de perda de identidade,de autoestima,a
aparição de um sentimento de inferioridade e mais tarde no seu egresso, viverá
a realidade da estigmatização, que é algo muito doloroso para essas pessoas
que cumpriram penas nessas instituições de detenção. O egresso passa a ser
rotulado por seu passado de erros, e discriminado, limitando assim suas
possibilidades,suas oportunidades, estimulando-se assim a reincidir no erro. E
pior, ele passa a omitir sua própria história de vida.

Infelizmente assim como nossa educação regular, a prisional também


ainda não oferece um ensino de alta qualidade, até porque essa educação que
vem acontecendo em nossas penitenciárias brasileiras, dispõe de uma tímida
ação em termos pedagógicos, (que ainda é muito parecida com a que temos na
rede regular) e a maior preocupação é ditar regras para o bom comportamento
do apenado.

Já entendemos que a educação é um enorme fator no processo de


ressocialização do interno, porém não o único, o que também não quer dizer
que não seja o mais importante. Esta,deve estar caminhando com outras
políticas públicas que devem ser ofertadas aos detentos. Pereira defende:

E o Estado como tutor da vida dessas pessoas tem a obrigação


dessa garantia,que vai desde a preservação da integridade
física, passando pela moral até a psíquica,independente do
crime que o preso tenha cometido. A educação não pode ser
vista novamente como redentora da humanidade e
especificamente da pessoa que está presa,pois existem outras
faltas históricas que inclusive impulsionaram que a pessoa
presa esteja nessa condição (2011, p.45).
A educação que deve ser ofertada em instituições de cumprimento de
pena, deve ser voltada para um currículo que possibilite o desenvolvimento
psicológico dos apenados, bem como os conhecimentos específicos de ensino.
Esse desenvolvimento psicológico estaria voltado para a capacidade do interno
desenvolver sua independência, provendo suas próprias necessidades. Essa
educação deve produzir indivíduos que não dependam de programas
15

assistencialistas ou políticas públicas,mas sim seres críticos,prontos para lidar


com a vida fora das instituições de pena,porque esse é o verdadeiro sentido da
inclusão e liberdade para essas pessoas. “A educação é o que garante sua
inclusão. O direito de educar-se é uma forma de regular condutas por meio da
liberdade” (LOPES e SARAIVA,2011, p.29).

Portanto,as atividades educacionais em locais que vivem pessoas


privadas de liberdade,não devem ser vistas como mais uma das atividades
ofertadas a esta demanda,mas sim como uma forma de resgatar a dignidade
humana e a possibilidades de novos caminhos,novas escolhas,quando do seu
egresso. E isso só será possível com a geração de políticas públicas
educacionais que valorizem o sujeito e seja capaz de oferecer uma inserção
social,econômica e política dessas pessoas.

1.2 A EJA e sua importância nas penitenciárias do Brasil


A modalidade de ensino EJA, educação de jovens e adultos, surgiu com
o propósito de ofertar educação àqueles que não puderam por diversos
motivos, completar os seus estudos na idade ideal para cada série escolar e,
ainda diminuir o índice de analfabetismo do país. A história dessa modalidade
acontece num cenário político, social e econômico do nosso país, visto que
está diretamente ligada a relação entre educação e trabalho, além da tamanha
desigualdade social, a exclusão e a concentração de renda.

A instituição da educação jovens e adultos (EJA) tem sido


considerada como instância em que o Brasil procurar saldar
uma dívida social que tem para com o cidadão que não
estudou na idade própria.Destina-se, portanto, aos que se
situam na faixa etária superior à considerada própria, no nível
de conclusão do Ensino fundamental e do Ensino Médio
(BRASIL ,2010, pág. 36).
As Campanhas relacionadas a EJA no país começam a partir de
meados do século XX. Por iniciativas governamentais, no intuito de diminuir a
diferença social no que se refere a escolaridade da população.Como relata
Paiva (1987), a primeira grande campanha de massa para educação de adultos
foi criada em 1947com características centrais como: constituir um instrumento
para a diminuição dos índices de analfabetismo no país,combater o
marginalismo social,ampliar as bases eleitorais,como fundamento
político,dentre outros,sendo erradicada em 1963.
16

Uma conquista muito importante aconteceu no ano de 2000, quando


foram aprovadas as Diretrizes Curriculares Nacionais para a educação de
jovens e adultos, sendo naquele momento discutidas também, diretrizes
curriculares para os níveis de educação básica à superior. Essas diretrizes
estabelecem a base nacional comum responsável por todo desenvolvimento
pedagógico de toda rede de ensino e foram discutidas por inúmeras pessoas
relacionadas a área da educação. No texto da apresentação das Diretrizes, diz:

As Novas Diretrizes Curriculares da Educação Básica, reunidas


nesta publicação, são resultado desse amplo debate e buscam
prover os sistemas educativos em seus vários níveis
(municipal, estadual e federal) de instrumentos para que
crianças, adolescentes, jovens e adultos que ainda não tiveram
a oportunidade, possam se desenvolver plenamente,
recebendo uma formação de qualidade correspondente à sua
idade e nível de aprendizagem, respeitando suas diferentes
condições sociais, culturais, emocionais, físicas e étnicas
(BRASIL,2013, p.4).
As Diretrizes possibilitam caminhos a serem percorridos para uma
educação de qualidade em várias realidades, abordando realidades distintas,
como: a educação regular (do ensino infantil ao Médio/técnico), a educação no
campo,a educação indígena, a Quilombola,para as crianças,adolescentes e
jovens em situações itinerantes, a educação para jovens e adultos em situação
de privação de liberdade nos estabelecimentos penais,dentre outras.

Como a modalidade EJA foi pensada para atender uma clientela


diferenciada,com suas especificidades,esta seria a mais adequada para ser
ofertada em realidades prisionais como diz a UNESCO,a modalidade
preferencial para a educação de presos (UNESCO, 2006), porém existem
inúmeras modalidades como o próprio documento referente as Diretrizes
nacionais alegam,os gestores púbicos devem adotar dispositivos para que
tragam inovações para a Educação.Na seção que trata sobre Diretrizes
Nacionais para a oferta de educação para jovens e adultos em situação de
privação de liberdade nos estabelecimentos penais,relata que se deve atentar
para a administração, articulação e mobilização,a formação e valorização dos
profissionais envolvidos,os aspectos pedagógicos, estratégias e proposta
pedagógica e ainda, o financiamento da educação nas prisões,dentre outros,
estes relacionados aos três eixos. As discussões sobre a educação para
17

Jovens e adultos em espaços com privação de liberdade vieram crescendo a


cada dia, inclusive tomando proporções internacionais, porém ainda vivemos
um tempo introdutório do assunto no país, faltando incentivos ainda não só
financeiros,mas também normativo. O panorama da EJA nas prisões do País
ainda é diverso, amplo,visto que cada estado tem o seu contexto.

Em virtude da ausência de informações oficiais documentadas


sobre a experiência de educação no cárcere brasileiro, não é
possível ainda apresentar dados consolidados de todos os
Estados da Federação. Por isso, diante de alguns estudos
realizados, analisando os contextos das ações de educação
implementadas nos sistemas penitenciários estaduais, pode-se
constatar que é ampla e diversa a realidade das ações
desenvolvidas em cada Estado. (BRASIL,2013, p.325)
As ações educacionais que ocorrem no sistema prisional,geralmente são
realizadas através de parcerias com as secretarias de Educação de cada
estado, e estas acabam ficando responsáveis administrativamente pelo corpo
docente e pela proposta pedagógica das escolas dentro das penitenciárias.E
esta relação entre ambas,varia muito,sendo muitas das vezes muito burocrática
e tensa e envolvem disputas de espaço e política.Quanto a autonomia das
secretarias de educação,ainda é bem pequena:

Os gestores das escolas localizadas nos estabelecimentos


penais, assim como as Secretarias de Educação as quais
estão atreladas, também têm pouca autonomia dentro das
unidades. Dependem quase que exclusivamente do humor dos
gestores das unidades penais para realizar as suas atividades,
comprometendo, muitas vezes, a proposta pedagógica da
escola. Geralmente a relação é bastante tênue, muitas vezes
tensa entre ambos, estando quase sempre limitados ao espaço
da escola. Ultrapassar qualquer limite é estar desrespeitando o
campo de atuação do outro. Constantemente são alvos de
disputa de poder. Caso não possuam uma boa relação com o
gestor da Unidade, as suas atividades se limitam
exclusivamente ao espaço da escola. (MEC, 2013, p.325).

Quanto as ações pedagógicas, estas são realizadas


indiscriminadamente, não sendo na maior parte das vezes considerado as
características e especificidades de cada interno/aluno, sejam suas
experiências, sua vivência, visões e atitudes. Cabe lembrar, que na perspectiva
freireana, que deve ser problematizada a, deve-se considerar como ponto de
partida, o próprio educando, suas necessidades de vida, para a partir daí
18

buscar caminhos de superação. A conversa, o diálogo, deve ser o princípio


orientador de uma prática que deve ter o objetivo de desalienar e construir o
ser humano.

Na concepção de educação problematizadora de Freire, o diálogo está


fundamentado no amor, em acreditar nos seres humanos, na esperança, no
comprometimento com as causas humanas, na humildade, no reconhecimento
da possibilidade de todos sentirem-se e fazerem-se tão sujeito quanto os
outro.Assim Freire (1980, p. 82) afirma:

O diálogo é o encontro entre os homens, mediatizados pelo


mundo, para designá-lo. Se, ao dizer suas palavras, ao chamar
ao mundo, os homens o transformam, o diálogo impõe-se
como o caminho pelo qual os homens encontram seu
significado enquanto homens, o diálogo é, pois, uma
necessidade existencial.
Para Freire, o educando está inserido em um contexto histórico e
social,situado no tempo e no espaço e reconhecido em suas potencialidades.A
perspectiva sociocultural deve ser levada em consideração no processo
educacional, assim como suas necessidades existenciais, habilidades e
possibilidades o aluno/interno.Dentro dessa realidade, não adianta apenas
repetir o modelo que temos na escolar regular (que já muitas das vezes já não
é tão eficaz como deveria ser) nas escolas penitenciárias, já que devemos
levar em consideração todos os elementos referentes a privação da liberdade
desses alunos/internos, visto que estamos lidando com uma realidade de
execução penal, e uma política de reinserção social. A alfabetização de jovens
e adultos é um desafio, não apenas para os governantes e quem está ligado
diretamente a esse tipo de educação, mas para toda a sociedade e claro, para
o próprio aluno. E se essa realidade educacional ainda passa por obstáculos,
ainda mais na realidade penitenciária.

Diferente de outros lugares onde a EJA foi implantada, a prisão necessita


ser pensada como um espaço com potencial pedagógico e isso requer uma
transformação de pensamento daqueles envolvidos no processo de execução
penal, que passa pelo preso, agentes, direção,etc.

A implementação do Projeto Político Pedagógico, o PPP das cadeias,


possibilita que a legislação educacional e a legislação penal se complementem
19

e caminhem unidas, uma vez que favorece a articulação entre políticas de


setores, como educação, trabalho, serviço social, saúde e ainda mobiliza
diferentes profissionais em prol de objetivos comuns, como educadores e
inspetores penitenciários. Possui uma função organizacional para as ações dos
muitos envolvidos, direcionando as condições de ensino, tempo, currículo,
impactando diretamente na rotina prisional e nas condutas disciplinares.

É de suma importância definir o que se quer fazer e onde se quer chegar


com os resultados do PPP das prisões, a finalidade real e objetivos a serem
alcançados, claro, utilizando as ferramentas reais que as penitenciárias podem
ofertar. Paulo Freire apresenta sua concepção de elaboração do projeto político
pedagógico:

Evidentemente, para nós a reformulação do currículo não pode


ser algo feito, elaborado, pensado por uma dúzia de
iluminados cujos resultados finais são encaminhados em
forma de pacotes para serem executados de acordo ainda com
as instruções e guias igualmente elaborados pelos iluminados.
(FREIRE, 2001, p. 24).
É de grande valia lembrar, que a educação, mais do que qualquer área de
conhecimento, precisou aprender a trabalhar com a diferença, com a
diversidade, gerando respostas à quase todos os fantasmas das necessidades
educacionais variadas, seja ela por gênero, opção sexual, deficiências,
estrangeiros, etc. Paulo Freire defendeu o multiculturalismo, afirmando que o
direito de ser diferente em uma sociedade, dita democrática, deve proporcionar
um diálogo crítico entre as muitas culturas, com o objetivo de firmar e expandir
os processos de emancipação.

Assim na carência de modelos únicos, soberanos e culturalmente


impostos, cabe à sociedade em comum acordo com a escola, definir o perfil do
educando a ser formado. E nas escolas penitenciárias não deve ser diferente.
Assim, o PPP das prisões deve ter como base, que tipo de pessoas, o Estado,
a sociedade e a prisão querem formar; quais recursos humanos, financeiros e
físicos devem ser disponibilizados para a escola; e claro, como serão
articulados os processos de ensino/aprendizagem, monitoramento e avaliação
do Projeto Político Pedagógico.
20

É claro que cada estado do nosso país detém sua realidade específica,
seja ela na educação, seja ela no sistema penitenciário, porém dispomos de
documentos referenciais, que podem e devem ajudar na produção dos
respectivos PPPs; são eles: O Plano Estadual de Educação (lembrando que,
nos estados em que ele existe, é pertinente verificar se o mesmo faz alguma
referência à educação em prisões); Plano Diretor do Sistema Penitenciário.
Dentre suas 22 metas, merece uma maior atenção a meta 15 (Educação e
profissionalização), na qual se faz a descrição quanto ao nível de escolaridade
de toda a população prisional no país; Deliberações do Conselho Estadual de
Educação sobre a oferta da Educação em Prisões ou, da mesma forma que,
sobre Educação de Jovens e Adultos e Educação Técnica e Profissional.

Importante lembrar novamente, que no âmbito de um plano Estadual não


existe uma solução única para oferta da educação nas cadeias, entretanto a
elaboração coletiva de alguns documentos, dá a oportunidade de confrontar
receios, medos, preocupações de cada parte. Porque a sociedade e a mídia
não acreditam nos resultados e questionam os gastos que se tem com a
iniciativa, os agentes e dirigentes penitenciários se preocupam com a
segurança e duvidam da disciplina do interno, e por fim, o Estado para
apresentar e responder algo aos demais setores, necessita de resultados, que
ainda não aconteceram dentro desse tempo de ações governamentais.

No meio de todos esses desafios um profissional pode fazer toda


diferença na formação do educando/interno. Na realidade, existem diversos
fatores que influenciam na vitória ou no fracasso escolar, seja ela na escola
regular, ou numa turma de EJA de uma penitenciária.

Este profissional que está na linha de frente da formação desses


indivíduos, não passará apenas a ensinar o que é de papel da escola, mas
também os valores da vida, estes que ainda quando criança, devemos
aprender em casa com os nossos pais ou em nossas igrejas. No próximo
capítulo vamos falar deste profissional, o educador, o professor e seus desafios
na prática cotidiana, numa realidade nada fácil, que são as nossas
penitenciárias. O educador de jovens e adultos que vive a realidade cotidiana
de temor, medo, angústias, dificuldades, mas que dispõe também de muita
21

vontade, pra tentar mudar a educação, o aprendizado ofertado àqueles


privados de sua liberdade.

2 O EDUCADOR DA EJA E SEUS DESAFIOS


Os educadores do nosso país enfrentam diariamente desafios, que vão desde
os menores até os de maior complexidade. Desafios do cotidiano, como: os
baixos salários; a violência; condições precárias, inadequadas ao ensino;
currículos engessados; o fracasso escolar em grande escala; a sociedade dos
meios de comunicação; e tantos outros que indicam a necessidade de se
aprender a balancear entre o coletivo e a individualidade de cada educando
que se propõe a educar, a socializar.Luckesi (2005) fala das dificuldades dos
educadores:

Na história biográfica de cada um de nós, atravessamos muitos


percalços, tais como traumas, abusos, atitudes agressivas
repetidas..., que vão, ao longo do tempo deixando marcas, que
se manifestam como padrões automáticos de conduta, o que
quer dizer que, dadas certas condições, reagimos sempre da
mesma forma, com a intervenção de uma resposta que nem
sempre é aquela que desejávamos;por vezes secas; por vezes
mal-educadas; por vezes regressivas e infantis... São lacunas ou
fixações no nosso passado biográfico que nos marcaram
profundamente e nos acompanham, incrustadas em nosso
inconsciente, e se expressam em nossos atos diários. Essas
experiências manifestam os bloqueios que nos dificultam
seguirmos em uma direção que nos parece adequada(2005,pag.
13).

Para um educador do EJA não é diferente, ainda mais se o dia a dia


desses professores for dentro de uma cadeia brasileira.Porém, ainda que em
meio a tantas dificuldades é necessário pensar qual é o real papel de um
educador, papel insubstituível, que só ele pode exercer.

O educador, por si só, é aquele que oferece mecanismos de


potencializar o processo de auto desenvolvimento do seu aluno, é capaz de
criar um espaço que haja receptividade em relação ao seu educando, dando
condições onde o mesmo se sinta seguro, confiante, sem medos de
julgamentos ou desqualificações, onde ele através do aprendizado diário,
consequentemente se desenvolva não apenas como aluno, mas sim, como ser
social.Para Luckesi (2005) o educador é aquele que acolhe, nutre e confronta o
educando, dando-o caminhos para que construa, e se preciso, restaure o seu
22

caminho na vida, com criatividade e independência.Acolher recebendo seus


alunos da forma como estão, do jeito em que se encontram no processo de
desenvolvimento, que o educador vá até o educando, acolhendo-o para que
assim possa acompanhá-lo por um novo caminho, é receber amorosamente.

Nutrir oferecendo ao educando condições para o aprendizado e


consequentemente, para o desenvolvimento, implicando que os conteúdos
escolares ultrapassem o campo da repetição, mas que consiga formar
habilidades que permitam uma visão cada vez mais adequada e ampla de vida
e claro, um novo modo de agir.

Sustentar criando uma realidade segura, onde o aluno transcorra seu


caminho dentro da proposta que está sendo ofertada para ele. A sala de aula
deve ser um ambiente onde o aluno se sinta sustentado, e o educador que
deve dar vida a esse espaço onde trabalha, seja o físico ou psicológico. Ali,
independente do que ocorrer, o educando precisa ter a certeza que antes de
mais nada ele será acolhido e consequentemente depois, reorientado, diferente
de ser julgado, reprovado, excluído. E por fim, o educador confronta, já que
nem tudo é correto, possível ou adequado. Vivemos em sociedade, por isso
precisamos aprender a arte da convivência, logo se faz necessário que alguém,
nos ensine os limites, nos diga até onde podemos ir, nos apresente os
variados, mas possíveis caminhos da vida. Logo, confrontar não é se colocar
contra, muito menos punir, mas sinalizar as diversas maneiras de viver as
experiências, de se encontrar no espaço, tanto individualmente, quanto
coletivamente. Confrontar é uma maneira de ensinar a viver e a conviver, da
melhor forma com os limites que a vida nos coloca, claro, sem perder o poder
interno e sem invadir o espaço do aluno.

Nesta realidade, com suas conjunturas próprias, o educador é aquele


que dá capacidade de realizar o processo de aprender e desenvolver o aluno
com segurança, no caminho de sua independência e autonomia. Acolher,
nutrir, sustentar e confrontar são quatro características de um ato pedagógico.
Para que a prática educativa alcance a satisfação desejada, cada um desses
atos precisa estar automaticamente ligado um ao outro. Exercitar uma dessas
características do educador, sem praticar o outro, pode trazer complicações, já
que acolher sem nutrir, sustentar e confrontar, pode levar ao espírito de
23

camaradagem, e ainda, confrontar, sem acolher, nutrir e sustentar pode


acarretar ao autoritarismo. Deste modo, são características indissociáveis do
mesmo ato.

Ainda Luckesi (2005,p 10) afirma, que “para realizar esse papel, o
educador necessita de prepara-se, de estar ciente de seus processos e seus
limites, estar ciente de seus desejos, de seus estados de ânimo, de suas
carências e suas possibilidades”. O mais importante é que a educador trabalhe
com amor, e acima de tudo, que tenha amor por si próprio, pois dessa forma
ele poderá acolher, nutrir, sustentar e confrontar a si mesmo na sua busca
incessante de se auto educar, crescer e amadurecer, sendo ético consigo e
com o outro. Um educador, não deve se permitir ser devorado pelos
sentimentos, emoções de seus alunos, mas ter a capacidade de acolhê-los e
buscar junto soluções adequadas para cada situação. Um educador preparado,
tornará produtiva, qualquer situação que o confronte.

Outra questão importante é o papel reflexivo, que o educador deve


dispor. Frente a diversidade encontrada dentro da sala de aula, o educador não
deve ser um executor repetidor de tarefas, com uma preocupação apenas em
conteúdo, mas sim atuar de maneira reflexiva. Alarção (2004, p.41) defende
que “a noção do professor reflexivo baseia- se na consciência da capacidade
de pensamento e reflexão que caracteriza o ser humano como criativo e não
como mero reprodutor de ideias e práticas que lhe são exteriores”.

O educador reflexivo é aquele que pensa sobre seu comportamento em


sala de aula, produzindo conhecimento a partir da sua prática instrutiva,
estando propício à mudanças e trabalhando com zelo e comprometimento com
seus educandos, para o crescimento de suas aprendizagens. Para Ambrosio
(1998) o dever maior do defensor vai muito além de da sua disciplina
específica, pois inclui a formação do cidadão. Assim o educador, em especial
da EJA precisa pensar em como pode contribuir para o crescimento pessoal de
seus alunos. Assim se faz necessário dominar métodos e um sistema que
consigam adentrar a realidade dos alunos e faze-lôs entender que sua busca
por conhecimento ajuda a melhorar suas vidas.
24

Ao analisar as reflexões de Paulo Freire, em suas diversas obras, podemos


enumerar algumas sabedorias e atitudes importantes à ação do educador de
Jovens e adultos: o educador deve apropriar-se como um profissional
liberador:aquele que dispõe de uma postura crítica frente a realidade vivida,
aquele que valoriza, respeita e entrega novos aprendizados aos seus alunos
durante o processo educativo; o educador deve fazer do ato educativo um ato
de conhecimento: aquele que deve buscar resolução para questionamentos,
superando a mera reprodução que algo que não foi verdadeiramente
entendido; aquele que deve se inquietar e lutar pela transformação.O educador
deve ser também aquele que se supera constantemente: aquele que supera o
fazer mecânico, aquele que procura se aprofundar, de acordo com a
problematização trazidas por seus próprios alunos;deve articular o processo
educativo: aquele que domina o processo de educação, que sabe para onde
caminhar e como caminhar com seus educandos, aquele que gera interesse
em seus alunos de aprofundamento em mais e mais conhecimentos.

Cabe lembrar ainda, que a formação contínua do professor- educador, é


indispensável para uma reflexão crítica em relação a sua prática. Freire (1996,
p.39) declara que: “é pensando criticamente a prática de hoje ou de ontem que
se pode melhorar a próxima prática”. Logo, a formação contínua, possibilita
uma base teórica sólida, que junto com a formação profissional, permite uma
prática diária de qualidade ao educador. O professor-educador deve atuar com
uma agente de mudança, incentivando seus educandos na busca constante de
conhecimento. Mas sobre essa formação vamos falar um pouco mais no
próximo capítulo.

2.1 A função do educador no cárcere: entre teoria e desafios


É importante entender, que tudo o que foi relatado até agora deve fazer
parte do cotidiano de um professor-educador em sua sala de aula, seja ela de
uma escola regular, de uma sala de EJA e claro, de uma turma de EJA dentro
de uma penitenciária do nosso país. A possibilidade de ascensão dos
educandos presos para categoria de cidadãos ativos, críticos e reflexivos
precisa ser entendida como consequência da proposta formativa, bem como da
prática dos educadores formadores. Dessa forma é necessário desenvolver um
caminho teórico que refaça a referida situação dos aprendizes encarcerados,
25

fornecendo dessa forma, bases de um olhar alternativo da educação no


sistema prisional. Como escreveu Giroux:

Desejo argumentar que uma forma de repensar e restaurar a


natureza da atividade docente é encarar os professores como
intelectuais transformadores [....] É importante enfatizar que os
professores devem assumir responsabilidade ativa pelo
levantamento de questões sérias acerca do que ensinam,
como devem ensinar, e quais são as metas mais amplas pelas
quais estão lutando (1997, p.161).
Assim sendo, cabe ao professor tomar entendimento do seu potencial
como diligente e profissional ativo, reflexivo, e intelectivo, de forma a
demonstrar aos seus aprendizes que educação na prisão tem como objetivo
não apenas a escolarização, mas entender todos os aspectos envolvidos ao
poder e ao controle do indivíduo e da sociedade, sejam eles sociais, culturais e
econômicos. Assim, caberá ao educador conscientizar o aluno que está
encarcerado, que estar nessa condição, não é opção de vida, mas
circunstância por consequência da marginalização que foi e ainda é imposta
por políticas públicas impróprias e incoerentes da realidade. Dessa maneira, o
educador formador deve se ver como vetor da liberdade ligada à consciência, o
pensamento sobre a vida, sobre a cidadania e ainda, sobre a integridade que
foi esquecida, mas que é possível ser recuperada.

De grande importância também, é a formação específica para os


servidores do sistema prisional, em especial, claro o professor-educador. O
projeto de formação que ora se apresenta alcançará a atitude reflexiva, tanto
na prática instrutiva do educador, quanto na formação do aluno. Segundo Shon
(2000):

Ao professor cabe conceber os problemas e as situações do


local onde se pretende lecionar, determinar características
observáveis, interpor a ordem que tentará impor e as linhas
que serão efetivadas para a superação do paradigma vigente,
para além da educação formal (SHON,2000 apud ANDRIOLA,
p.187,2013).

Na Procura por causar mudanças significativas sobre indivíduos no


sistema carcerário, é preciso ter consciência que elas dependem do
posicionamento teórico tomado hoje. A reflexão deve assim, permear a prática
do educador que atua no sistema prisional, por causa da particularidade
26

educacional, que procura a integração de alunos presos a sociedade. Logo, o


ponto de partida de qualquer atividade no sistema carcerário é a percepção do
formato frente à existência social, pois a educação nunca parte do nada.

O educar nas prisões, deve ser visto como um contrato entre o


educando e o educador, onde o educador deve poder se identificar claramente,
entender e marcar seu espaço, sua especificidade e claro, suas
responsabilidades. De grande importância também, é saber que ele, não faz
parte do quadro de avaliadores, controladores, Policiais Penais, que cercam o
detento no seu dia a dia, não vivenciando assim confrontos diários na
execução de seu papel.

Dessa forma o educador deve encarar esse contrato de forma clara,


entendendo que ele não está ali para executar o seu trabalho de forma mais
rápida, mais barata, sendo mais eficaz do que os autores da educação (família,
escola, atividades esportivas, etc) desse detendo, que durante toda sua vida,
não o faz capaz de educar de forma adequada. Também precisará deixar de
lado o seu papel julgador, visto que o educando/interno já foi aprisionado e
julgado pelo seu crime, logo o ideal é que nem se saiba o real motivo do
aprisionamento. E procurar trabalhar em sinergia, já que cooperará com
atividades e programas educacionais em saúde, resolução de conflitos, etc. E
todo o dia a dia de dentro de sala de aula, palavras, performances, dos alunos,
devem sempre serem conversados dentro do grupo, uma vez que a educação
da EJA em unidades prisionais, acontece devagar e com muito esforço, logo
todo avanço dos educandos, deve ser exaltado por parte do educador. De
Mayer relata que:

De sua parte, o interno vai se inscrever em um processo que


lhe ensinará a debater sem violência; a ouvir o outro sem
interferir a todo momento; a definir um projeto com estes outros
não escolhidos; fixar meios de conseguir isso e gozar um
eventual sucesso, em parceria com todos os outros
protagonistas. Isso levará tempo, haverá desencorajamento,
agressividade. O educador deve saber de tudo isso(DE
MAYER,2013,p 40).

A educação na prisão deverá caminhar como um processo que envolve


inúmeros e diferentes autores e deverá ser em sentido largo, em direção a todo
27

o conjunto pessoal: administração, policiais penais, profissionais de saúde, etc.


Toda atividade por mais boba que pareça ser, seja ela uma refeição, um jogo,
uma atividade de lazer ou cultural, pode ser uma oportunidade de educação
não formal. Trabalhar com todos esses adquiridos é de suma importância. Há
experiências que podem ser compartilhadas e incluídas em atividades em
classe e essa é a razão pelo qual a educação informal é de grande valia na
realidade educacional prisional. Sendo assim o educador, deve buscar essas
experiências de grupo multiculturais, ensinando de forma clara que aprender,
compreender e aceitar as diferenças, será extremamente útil para uma vida
intramuros e claro, extramuros. Sendo assim, para Luckesi(2005):

Isso significa que o educador é um profissional que investe no


processo do educando, ciente de que ele, efetivamente,
necessita de aprender. Isso significa para o educando, muito
mais do que ser aprovado em exames escolares; significa
aprender para tornar-se um cidadão saudável para si mesmo e
na convivência com os outros, capaz de assegura-se de seu
lugar na vida e em suas relações. Esse é o papel, infinitamente
significativa, para o qual nós educadores somos chamados: na
relação educativa, criar e oferecer condições que potencializem
a aprendizagem e o desenvolvimento do educando, para que
se assuma como indivíduo e como cidadão.

Outro ponto muito importante que necessitamos falar, é sobre a


formação desse profissional da educação dentro desse contexto. Essa
formação docente pode ser dividida em duas etapas: a inicial e a continuada.

Na inicial quase nem sempre encontramos currículos que atendam a


relação teoria-prática e que os estágios supervisionados não contribuem de
forma significativa para o início da docência, sendo o profissional no início de
sua carreira, obrigado a se deparar com realidades que nunca presenciou,
vivendo na verdade um “choque de realidade”. Como disseram Gatti e Barreto
(2009, p.152) ”a proporção de horas dedicadas às disciplinas referentes à
formação profissional específica é de 30%, ficando 70% para outros tipos de
matérias.

Se pensarmos na Educação de Jovens e Adultos então, a situação é


ainda mais séria, quando se trata de formação de competências, já que
escassos cursos de pedagogia e outras licenciaturas, propõem em sua matriz
28

curricular disciplinas com o objetivo de aprofundamento e reflexão sobre a EJA,


sendo em quase todos os casos, ofertadas como disciplina optativa ou projetos
especiais.

Concordamos com Vieira(2008) na importância de se considerar a


especificidade e heterogeneidade do público da EJA, seus interesses, seus
objetivos, suas personalidades, suas preocupações, suas necessidades e
anseios em relação à escola, além de suas habilidades e vivências, para assim
produzir um plano pedagógico.

Nessa totalidade de dificuldades, os educadores que nem sempre recebem


uma formação inicial adequada, se deparam com inúmeras preocupações ao
lecionar para o EJA, principalmente quando a escola se encontra num
ambiente repressivo e contraditório às práticas educativas, deixando, muitas
das vezes, de gerar debates sobre o que realmente é importante para esse
público.

Sendo assim, esses educadores nem sempre sabem o que e como


devem ensinar para indivíduo adultos, e ao mesmo tempo, não conhecem a
conjuntura prisional e suas regras, uma vez que a prisão se diferencia por seu
uma instituição impermeável, como diz Goffman(1996). Ou seja, para garantir
um controle e a ordem social, ela dispõe de pouca ou quase nenhuma
disposição em se relacionar, debater e ter contato com referências externas.

O educador que atua no sistema penitenciário, necessita de uma


formação específica em EJA, seja ela inicial e claro, continuada, esta que
contribua na resolução dos obstáculos encontrados na prisão, para realizar o
seu papel docente em prol de uma educação independente, emancipadora,
que se propõe a procurar a elevação das consciências, projetando a inclusão
crítica, do indivíduo na realidade.

No Art 11 das Diretrizes Nacionais, para oferta de educação nas prisões


(BRASIL,2010), os “educadores, gestores e técnicos que atuam nos
estabelecimentos prisionais deverão ter acesso a programas de formação
inicial e continuada que levem em consideração as especificidades da política
de execução penal.”
29

É evidente que as características do espaço prisional, evidenciam a


diversidade do ato pedagógico, sendo assim torna-se indispensável a
formação inicial e continuada dos educadores, no sentido de analisar a prática
docente da EJA em diferentes realidades, e a percepção do espaço em que a
escola está inserida. Por ser um ambiente distinto, a prisão evidencia a
variedade do ato pedagógico, e os cursos de Licenciaturas possuem pequenas
iniciativas na formação de educadores para atuarem em turmas de EJA,
especialmente em relação às escolas nas cadeias.

Nas Diretrizes Nacionais para a oferta de educação para jovens e


adultos em situação de privação de liberdade nos estabelecimentos
penais(2010), podemos entender que em apenas alguns estados , ocorre uma
preparação para o trabalho docente na realidade prisional:

A grande maioria, dependendo do estado, é composta por


profissionais contratados, justificando a rotatividade constante de
profissionais nas escolas, bem como a não consolidação de uma
proposta político-pedagógica. Muitos nem mesmo possuem
experiências com o trabalho docente com jovens e adultos.
Saíram das Universidades para atuar em escolas regulares do
mundo livre, sem nem mesmo terem vivenciado qualquer
iniciativa e/ou experiência com a Pedagogia Social. Poucas são
as universidades que investem em uma matriz curricular que
estimule e possibilite o discente de visualizar alternativas no
campo profissional da educação além dos postos cotidianamente
dispostos no mercado de trabalho.(2010,p.326)

Diante disso, se faz cada vez mais necessário refletir sobre a formação
dos professores, já que na sociedade de hoje, o trabalho do educador é cada
vez mais importante, enquanto intercessores nos processos de construção da
cidadania de seus alunos, superando o fracasso e as diferenças escolares.
Espera-se que os cursos de formação de professores, sejam capazes de
impulsionar

[...]os conhecimentos da teoria da educação e da didática


necessários à compreensão do ensino como realidade social, e
que devolva neles a capacidade de investigar a própria
atividade para, a partir dela, constituírem e transformarem os
seus saberes-fazeres docentes, num processo contínuo de
construção de suas identidades como professores
(PIMENTA,1999, p.18).
30

A individualidade do educador não é um dado imutável, nem externo que


se possa alcançar, mas sim um encadeamento de construção do sujeito
tradicionalmente. Ser educador é uma das identidades de um ser que desfruta
de outras identidades, frente aos papéis que desempenha na sociedade. No
entender de Pimenta(1999) o professor organiza sua tarefa docente, através de
seus” valores, de seu modo de situar-se no mundo, de sua história de vida, de
suas representações, de seus saberes, de suas angústias e anseios, do
sentido que tem eu sua vida o ser professor”(p.19).

Em vista disto, os cursos de formação de professores devem motivar os


saberes de experiência, para assim intermediar o processo de construção de
identidade dos educadores, uma vez que esses saberes são concebidos no dia
a dia docente, em um processo de entendimento sobre a própria ação.

Diferente da racionalidade técnica, o intelectual reflexivo pode ser


entendido em uma, sequência contínua de formação, que começa pela inicial,
nos casos de graduação, e se prolonga ao longo da vida. De outra forma, a
formação docente deve ser também uma auto formação, em que os
educadores reinventem os saberes iniciais, em paralelo com os saberes de
experiências vividas em ambiente escolar. Para Pimenta (1999,p 29) é nessa
troca, “que os professores vão constituindo seus saberes como praticum, ou
seja, aquele que constantemente reflete na e sobre a prática.”

Nessa realidade, o educador que atua em perspectivas diferenciadas,


como as cadeias, e em uma modalidade de ensino ainda bem pouco discutida
como a EJA, deve refletir todos os dias sobre sua prática e sobre todas as
questões sociais que rodeiam seus educandos para que eles se transformem
em criadores de uma outra sociedade e responsáveis do papel político de
educação. Nesta realidade, ambos estão aprendendo e crescendo com suas
experiências. Luckesi fala que:
31

Neste contexto, nem o educando nem o educador são seres


dados prontos. Todos estamos a caminho, em construção.
Todos os dias, o educador está se construindo, como educador,
assim como o educando está se construindo com educando. São
seres em processo. Ambos estão na direção de construírem-se
como seres autônomos e independentes, vivendo na
independência com os todos os outros; daí a necessidade de
uma individuação, que permita a cada um assumir-se como ser
individual, mas em relação com todos os outros, pois que nós
nos expressamos no mundo como seres de relação. Como tal,
necessitamos de possuir nossa individuação que nos sustente
na relação como os outro, sem invadir o outro, mas também sem
permitir a invasão do outro sobre nós mesmos(2005,pag13).

Não se trata de apontar uma educação escolar superdotada para a


realidade prisional, mas também não se deve propor também a mesma
educação, que já excluiu os indivíduos. Pereira (2014,p.4) alega que “é preciso
respeitar as singularidades do espaço e motivar essas pessoas a ponto de ver
na educação uma possibilidade de emancipação, ainda na condição de
encarceradas.” Da mesma forma não estamos colocando de que para ser
professor nas escolas das penitenciárias os educadores precisam ter uma
formação tão diferenciada, uma vez que estamos diante de uma escola pública,
como as outras e educadores da rede pública de ensino e por fim, com os
alunos de EJA, com as particularidades desse tipo de ensino.

Ideal ainda, seria de grande importância, que os educadores recebessem


formação em Direitos humanos, já que possibilitaria uma reflexão maior sobre
os diferentes aspectos que norteiam o ato de educar. Vieira afirma;

No contexto da prisão, em que o respeito à dignidade humana é


frequentemente violado, faz-se importante um educador que
tenha consciência do valor de restabelecer tais direitos àqueles
sujeitos privados de liberdade. Cabe ao docente imbuído do
sentimento e da certeza de que os objetivos da educação no
cárcere precisam ser contemplados e desenvolvidos em um
ambiente onde prevaleça os Direitos Humanos, guiar esse
processo a partir de suas vivências, suas experiências e sua
formação, articulando todos os saberes que dispuser no
enfrentamento dos desafios do cotidiano (2008, p.83)

Ainda nas Diretrizes Nacionais para a oferta de educação para jovens e


adultos em situação de privação de liberdade nos estabelecimentos
32

penais(2010), afirma-se que poucas são as instituições superiores que


investem em uma matriz curricular que se preocupe com o ensino social:

Tais carências comprovam a necessidade imediata da


reformulação de currículos dos cursos de Pedagogia e
licenciaturas, introduzindo temas diversos das ciências sociais e
políticas sociais, bem como da Pedagogia Social e que as
Universidades incentivem e invistam em projetos de extensão e
pesquisas que possibilitem a maior compreensão destes
espaços, inacreditavelmente, ainda tão invisíveis na nossa
sociedade(2010,pag 327)

Outra questão importantíssima de se pensar, é sobre a vontade ou não


desses educadores estarem inseridos nessa realidade. Educadores que estão
em escolas dos presídios em muitas das vezes não fizeram essa escolha,
estão ali, apenas por procedimentos normais do sistema educacional do nosso
país. E escolhas não feitas, mas apenas impostas, podem ser devastadoras
em caso de docentes em condições tão especiais. Vieira relata mais uma vez
que:

Sendo assim, o fato de lidar cotidianamente com uma realidade


nova e complexa, como desenvolver as atividades da profissão
em um meio para o qual não foi preparado e lhe é desconhecido,
trazem a esse já “experiente” professor alguns conflitos, levando-
o a pensar, não em abandonar a carreira, mas aquele espaço
específico de atuação, a repensar a formação do profissional de
ensino, as condições de trabalho a que estão submetidos alguns
professores, entre outros aspectos ligados à docência.

Cabe ao sistema, apontar diferenciações que possam acolher educadores


motivados para a prática em locais diferenciados e não apenas adotar a regra
geral de lotação nas unidades escolares. Paiva (2007,p.52) afirma que “a
prática pedagógica em condições adversas e ameaçadoras pode significar um
desafio para muitos, impelidos a compreender as razões do cárcere e contribuir
com processos de aprendizado para sujeitos privados da liberdade e do saber
sistematizado.”

Vale destacar ainda que responsabilizar a educação, e claro, os


educadores, pela ressocialização dos presos, é exigir mais do que se pode da
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educação, já que a reinserção do preso na sociedade é responsabilidade de


todo o sistema penitenciário, e claro do próprio indivíduo.

Por fim, é de suma importância começar a pensar o papel de cada


educador na elaboração de um projeto pedagógico ideal para pessoas privadas
de liberdade, com a formulação de sujeitos reais, com demandas próprias, e
circunstanciadas na vida e no tempo histórico. Seja nas cadeias ou fora delas,
os educadores das escolas para EJA, necessitam ser sempre diferenciados,
respeitando a diversidades dos acolhidos, suas histórias de vida, informações
que trazem e suas expectativas de reconciliação com o processo de
aprendizagem. Que juntos, podem alcançar uma escola diferenciada, que se
torne espaço da liberdade de aprender e de conhecer.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Entendemos que o trabalho docente em uma escola prisional nos leva a


raciocinar em diversos aspectos que envolvem a prática.

O indivíduo privado de sua liberdade apresenta particularidades que


precisam ser reconhecidas, a fim de que se tornem efetivas as ações voltadas
para esse grupo. Sabemos ainda que a educação não promove por si só, a
regeneração do mesmo e esta certeza terrível não é mais aceitável já que o
aumento na violência nos presídios só faz crescer e a falência da política
carcerária é visível. A educação voltada para a população carcerária deve estar
preocupada e sensível as reais necessidades que esta classe demanda, logo a
ação educativa como caminho de ressocialização deve resgatar a dignidade
humana permitindo a construção de sua autonomia.

Se faz necessário pensar, numa escola que seja capaz de valorizar os


interesses de seus alunos presos, seus conhecimentos prévios, motivando-os a
buscar novos conhecimentos.

Quanto ao educador destas instituições de privação de liberdade,


necessita entender que esta precisa ensinar para que seu educando aprenda a
tornar-se um cidadão saudável para si próprio e para convivência com os
demais, tendo poder de se assegurar de seu lugar na vida e em suas relações
com os outros. O educador necessita investir no processo de seu educando
34

preso e saber fazer parte do reconhecimento desse grupo, da proposta de


estratégias mais eficazes que alcance as necessidades do público, de propor
uma escola mais flexível.

Entendemos, a partir do trabalho, que a escola formal executada no


cárcere, não parece tão eficaz no que se refere ao cumprimento das metas
impostas pela educação prisional: reintegração social do sujeito. Esse indivíduo
e o meio em que as atividades educacionais se desenrolam são imensamente
específicas; se fazendo então necessário uma organização escolar diferente.

O educador prisional precisa conhecer as relações de poder cujo os


alunos estão submetidos e apontar os efeitos da conduta do cárcere sobre
todos os que “habitam” o ambiente prisional já que ninguém sai imune aos
efeitos do encarceramento.

É de grande urgência, repensar uma formação inicial e continuada que


acolha, a partir dos conhecimentos gerados pelos trabalhadores sobre seu
trabalho, as especificações dos espaços diferenciados de prática pedagógica,
como as escolas prisionais, e que, em especial, proporcione mais recursos
para que o educador possa laborar melhor com seu objeto de trabalho,
formulando com maior eficácia a formação com a ação cotidiana.

Interpretamos a educação prisional e a ação docente fundamentais e


indispensáveis para viabilizar aos indivíduos encarcerados almejarem outros
caminhos, porém, reconhecemos que sozinha, a educação não atinge a
reintegração desses sujeitos à sociedade. Não devemos ver a educação de
forma solitária, pois entendemos que ela precisa estar acompanhada ao
trabalho, e ambos correlacionados a uma política de incorporação social, junto
à psicologia, a assistência social, à saúde e outras áreas, atuando de modo
interdisciplinar, para que caminhem juntos na direção da reintegração real do
indivíduo, quando se tornar egresso.

Torcemos para que a educação carcerária e suas escolas atuem de fato


e de direito, já que esperamos uma verdadeira recuperação dos sujeitos em
cárcere. Sendo assim, se faz extremamente importante a intimidade entre as
secretarias de justiça e educação, a fim de fortalecerem um projeto consciente
e propício de realização nas instituições prisionais.
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Por fim, a sociedade necessita encarar os males que ela mesma tem
criado, procurando caminhos de humanização e inclusão social, diminuindo as
desigualdades sociais e econômicas, com a garantia de oportunidades dignas
para todos. Lembrando, que quando não educamos corretamente em nossas
escolas, somos obrigados mais tarde a reeducar em nossas penitenciárias.

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