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relacionamentos

Publicado em NOVA ESCOLA Edição 40, 23 de Setembro | 2016

Capítulo 6 | Reportagens

Os relacionamentos
Dicas, regras e conselhos para interagir de forma
produtiva com superiores, colegas, alunos e pais
NOVA ESCOLA

Educar é também se relacionar

O iniciante costuma sair da universidade com conhecimentos sobre os


conteúdos que vai ensinar e cheio de ideias para melhorar a aprendizagem,
mas falta no seu repertório algo importante. "Não se pode esquecer que
educar inclui lidar com questões de relacionamento, especialmente com os
alunos", ressalta Telma Vinha, da Universidade Estadual de Campinas
(Unicamp) e colunista da revista NOVA ESCOLA. "Quando o educador também
assume como sua essa parte do processo, avança mais na formação crítica
das crianças e dos adolescentes." Para ela, como a maioria dos cursos de
Pedagogia e as licenciaturas não preparam os professores para administrar
os conflitos inerentes ao exercício da profissão, eles precisam cobrir essa
lacuna na própria escola. O melhor caminho é buscar orientação com a
equipe gestora, expondo situações específicas ocorridas em sala de aula e até
sugerindo que elas sejam colocadas na pauta de discussão das reuniões com
todo o corpo docente. A troca de experiências e de opiniões vai dar mais
segurança para decidir como agir em cada caso, assim como a leitura de
textos teóricos sobre o tema.

10 qualidades que o gestor quer ver nos iniciantes


Na rede pública ou na particular, quem quer impressionar bem o diretor
precisa ser...

1 Pontual Afinal, espera-se que o professor dê o exemplo.


2 Assíduo Existe um planejamento com uma sequência de conteúdos a
serem ensinados - e ele precisa ser cumprido.
3 Dedicado A atividade docente exige empenho para preparar as aulas e as
avaliações e discutir as práticas coletivamente.
4 Cordial Sempre e com todos, mesmo em situações de conflito iminente.
5 Curioso Ele não pode parar de se perguntar "Será que posso ensinar de um
jeito mais eficiente?".
6 Confiável Os alunos precisam se sentir seguros para aprender.
7 Dinâmico É esperado que proponha projetos para atingir os objetivos da
escola.
8 Organizado Tem de manter em ordem pastas e portfólios com as
produções dos alunos.
9 Participativo Não basta ir às reuniões de trabalho coletivo, precisa dar
contribuições efetivas.
10 Equilibrado A vida pessoal não deve interferir na profissional. Para tanto,
discrição e bom-senso são essenciais.

Consultoria Amarildo Reino de Lima, diretor escolar.

64,1% é a porcentagem de pais que alimentam a expectativa de que o filho


consiga alcançar uma escolaridade em nível superior.

Fonte Pesquisa Os Pais e a Qualidade da Escola Pública (Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial,
com apoio da FVC, 2008).

Os momentos oficiais de troca


A maior parte dos coordenadores pedagógicos afirma promover reuniões
com a equipe docente da sua escola pelo menos uma vez por semana

Frequência com que faz reuniões

48% Uma ou algumas vezes por semana


34% Uma ou algumas vezes por mês
11% Uma ou algumas vezes por semestre
6% Todo dia
1% Não faz

Fonte Pesquisa O Coordenador Pedagógico e a Formação dos Professores: Intenções, Tensões e


Contradições (FVC, 2010/2011).

Dupla orientação

A situação pode ocorrer no dia a dia de qualquer escola, e o novato tem de


estar preparado para administrá-la: ao pedir ajuda para solucionar um
conflito recebe indicações diferentes de dois membros da equipe de gestão.
"Em relação a uma briga entre alunos, por exemplo, o coordenador
pedagógico pode sugerir observar, mas manter-se a distância, enquanto o
diretor diz para se envolver e resolver. Não adianta o iniciante querer
imprimir sua marca e solucionar tudo apenas do seu jeito. Nessa tomada de
decisão, o que deve prevalecer é a coerência", afirma Telma Vinha, da
Unicamp. Isso significa que, para criar uma estratégia própria capaz de
solucionar qualquer questão do gênero, é preciso se apoiar em informações
concretas, como um regimento interno de conduta e livros de referência. Em
resumo, num caso assim, a questão não é só ver quem manda mais e seguir
suas ordens. "É obedecer, sim, mas amparado por justificativas tiradas de
referências sólidas e compartilhadas pelos educadores da instituição."

Como se aproximar dos colegas


O que funciona e o que evitar para estabelecer uma troca produtiva com os
professores veteranos

Funciona

Conhecer antes a cultura interna da instituição. A forma como as


ideias dos novatos são recebidas por gestores e colegas varia de escola
para escola. Por isso, é essencial descobrir o que pensa e como age a
equipe antes de sugerir. Ou seja, ouvir.
Pensar na forma de apresentar propostas. Especialistas recomendam
que, ao dar uma sugestão pedagógica, o iniciante diga que se inspirou
na prática de um ou mais professores, explique os ajustes que pensou
em fazer e dê exemplos de como a ideia deve funcionar na prática. Isso
mostra interesse no trabalho e no mérito coletivos, e não em conquistas
pessoais.
Pôr em prática. Às vezes, melhor do que falar é fazer, mas sem
desrespeitar as normas ou provocar tumultos. Se o objetivo é abolir a
fila dos alunos no deslocamento entre o pátio e a sala, pode-se fazer
uma tentativa. Basta evitar que eles atrapalhem as demais turmas. Após
o teste, fica mais fácil discutir a experiência com a coordenação
pedagógica.

Evite

Criticar tudo o que é feito. Malhar, todo mundo sabe. Poucos,


contudo, apresentam alternativas boas e embasadas sem buscar
confete. Críticas sem critério e bom-senso criam resistência do outro
lado.
Tentar impor ideias. Quem sugere inovações, em qualquer ambiente,
deve estar disposto a debatê-las e a acatar eventuais sugestões que as
enriqueçam.
Desconsiderar o que já foi tentado. Nenhuma proposta é boa o
suficiente se ignora o trabalho de gente capaz que já se dedica àquela
instituição.
Acreditar que basta ser nova para uma iniciativa ser eficiente.
Quando se cria algo, é preciso estar preparado para lidar com as
dificuldades do percurso e até com a possibilidade de um fracasso. Aí, o
caminho é refletir, ajustar e começar de novo.

Consultoria Telma Vinha, da Unicamp.

A troca é livre e bem-vinda

Não é necessário que o novato espere os momentos de trabalho coletivo


para trocar opiniões sobre práticas docentes com os demais professores da
escola ou para pedir alguma ajuda específica. Aliás, esse tipo de contato não
precisa ocorrer somente com a mediação da coordenação pedagógica - nem
requer consulta prévia. Dois ou três colegas podem se reunir por conta
própria para compartilhar experiências sempre que desejarem.

A cartilha 7 por 7 do professor


Veja as atitudes aprovadas e reprovadas pelos alunos

Isto sim

1 Ouvir o que os alunos têm a dizer.


2 Responder sem humilhações, agressões verbais ou qualquer tipo de
grosseria.
3 Só responder o que sabe e pesquisar sobre o que não sabe.
4 Argumentar em vez de impor.
5 Propor e orientar trabalhos em grupo.
6 Discutir os problemas de sala com a própria turma.
7 Ter interesse pelo dia a dia dos alunos fora da escola.

Isto não

1 Agir de maneira autoritária.


2 Usar de coação e ameaças para conseguir controlar a turma.
3 Humilhar os alunos.
4 Enrolar com conversas que fogem do conteúdo ensinado.
5 Faltar demais: uma vez pode até ser divertido ficar sem aula, mas eles
não querem ser prejudicados.
6 Ser negligente em sala de aula, por exemplo, pedindo uma atividade e
não se lembrando de cobrá-la.
7 Reclamar em sala de aula do salário e das condições de trabalho na
escola.

Regras e elogios devem valer para todos

Os combinados devem ser aplicados sempre de maneira igualitária. Se o


prazo de entrega de uma pesquisa é em determinado dia, o mais estudioso
não pode ganhar prorrogação. E nem pensar em elogiar uns em detrimento
de outros. "Isso pode ser tão perigoso como desqualificar publicamente", diz
Catarina Iavelberg, especialista em Psicologia da Educação e colunista da
revista GESTÃO ESCOLAR. Muito menos são indicadas demonstrações
explícitas de afeto. "Já me perguntaram: 'Devo ou não abraçar a meninada?
Tenho um carinho especial por alguns'. Rebati com outra pergunta: 'Como
acha que se sentem os que não são abraçados?'", conta Catarina.

Quando se deve levantar uma discussão?

Não se pode presenciar algo injusto em relação aos alunos e se calar, por
exemplo, por medo de colocar o emprego em jogo. Agindo assim o professor
se torna conivente com práticas inadequadas. É necessário avaliar a
gravidade da situação, lembrando que o principal objetivo é sempre defender
os estudantes e não julgar o trabalho dos demais docentes. Se um professor
humilha os adolescentes dentro da sala de aula ou nunca deixa as crianças
irem ao banheiro quando pedem, está abusando de seu poder. Vale pensar
na maneira mais adequada de colocar a questão: comentar só com o diretor
ou o coordenador pedagógico ou lançar para discussão numa reunião. Deve-
se evitar ao máximo acusar e o melhor é nem citar nomes. Há meios de fazer
isso. É possível dizer: "Vejo que não existe um consenso quanto a isso na
escola, e cada professor age de um jeito. Será que devemos deixar o aluno ir
ao banheiro sempre que pede, se sabemos que às vezes é uma artimanha
para se afastar da sala de aula?".

32,4 alunos é o tamanho médio no Brasil de uma turma do Ensino Médio. No


Fundamental, o volume é menor: 26,5 alunos.

Fonte Censo Escolar, 2010.

Em ritmo de teste

Quando a turma recebe um docente novo, é comum querer testá-lo. Isso é


mais comum com as crianças maiores e os adolescentes. Eles podem dizer
que o professor de antes explicava de um modo melhor e eles entendiam
tudo. Talvez façam piadinhas ou perguntas diretas sobre sua experiência
profissional. Às vezes, são sutis e não falam nada, só organizam focos de
balbúrdia. O segredo é manter o equilíbrio e nunca entrar no jogo. Vale
avaliar se é possível aproveitar a situação para promover uma conversa
produtiva com a turma sobre suas expectativas de aprendizado na disciplina
ou se é melhor apenas encerrar o caso. De qualquer forma, é recomendável
procurar depois o orientador educacional ou o coordenador pedagógico em
busca de estratégias para lidar com episódios semelhantes. "Pense que os
alunos têm enorme potencial para contribuir com o processo de formação do
iniciante. Por exemplo, observar como a turma reage às propostas fornece
subsídios para refletir sobre suas práticas", diz Maévi Anabel Nono, da Unesp.

O que está por trás da bagunça

Se a classe quase sempre parece meio desinteressada e, pior, a bagunça e o


zum-zum-zum estão cada vez mais generalizados, é provável que o professor
necessite rever seu jeito de ensinar. A indisciplina dos alunos costuma ser
uma reação às práticas e às propostas do professor, segundo alerta a
especialista em Psicologia da Educação Catarina Iavelberg. Vale procurar a
coordenação pedagógica para refletir sobre formas de melhorar, depois de
detectar os pontos críticos: as aulas têm sido só expositivas? Ou estão muito
centradas no livro didático? Qual o sentido que os alunos atribuem às
atividades propostas? Como a mesma classe se comporta com outros
professores? "Pensar em mudanças de estratégias pode alterar positivamente
o comportamento da turma", diz Catarina.

Ser muito novo não é problema

Mesmo que pareça "um adolescente", o iniciante não tende a enfrentar


problemas por ser jovem demais. Pesquisas indicam que a idade e a
aparência não são os fatores mais relevantes na conquista do respeito dos
alunos. Outros são mais decisivos: dominar os conteúdos que ensina, saber
administrar bem o tempo em sala e fazer as aulas renderem, propor
atividades interessantes e ser sempre capaz de ouvir toda a turma. A
juventude pode até ser considerada um ponto positivo, já que às vezes ajuda
a criar um sentimento maior de proximidade, especialmente com os
estudantes do Ensino Médio.

Os obstáculos
A que os professores atribuem as dificuldades em sala de aula

Causas das dificuldades para manter a disciplina

Os alunos não têm limite/são rebeldes e agressivos/faltam com o


respeito 44%
Falta de educação familiar/liberdade por parte da família 19%
Falta de compromisso/interesse/apoio da família 11%
Excesso de alunos em sala de aula/salas superlotadas 9%
Falta de interesse dos alunos/eles são dispersos 6%
Os alunos fazem o que querem em casa 4%

Causas das dificuldades para motivar os alunos


Falta de interesse dos alunos/eles são dispersos 22%
A motivação fora de sala de aula é maior (comunicação, jogos, internet,
esportes, mídia) 20%
Falta de compromisso/interesse/apoio da família 9%
Os alunos desconhecem e não valorizam a importância da escola e do
estudo 9%
Como o aluno tem acesso a todas as modernidades, esgotam-se os
recursos do professor 6%
Os alunos não têm limite/são rebeldes e agressivos/faltam com o
respeito 5%

Fonte Livro O Professor Refém, de Tânia Zagury (Editora Record, 2006).

Aluno com deficiência na sala. E agora?

Com o crescimento acentuado da Educação inclusiva, é possível que o


iniciante tenha em sua sala algum aluno com necessidades educacionais
especiais. O primeiro passo é pesquisar sobre a deficiência em questão. Mas
a equipe gestora costuma tomar a iniciativa de discutir as limitações com o
docente. Se isso não ocorrer, é uma boa ideia procurar orientação com o
diretor e/ou o coordenador pedagógico, assim como discutir com os colegas
que já tiveram a mesma experiência. Em geral, não é preciso fazer um
planejamento específico para esse estudante, mas promover flexibilizações
de tempo, espaço, conteúdo e recurso. O ideal é que o aluno conte com o
atendimento educacional especializado (AEE), realizado por um educador no
contraturno. Esse profissional deve trabalhar em parceria com o responsável
pela turma, planejando as adaptações necessárias nas aulas para que ele
compreenda o conteúdo a ser trabalhado com todos. Exemplo: pode-se
produzir um mapa em relevo para ser usado por um aluno cego ou criar
placas de comunicação (com ícones que mostram ações básicas como beber
água, ir ao banheiro) para os que têm deficiência intelectual. Hoje, aliás, já
existem diversos recursos, inclusive tecnológicos, que favorecem a
aprendizagem dos alunos com deficiência e o professor precisa é se informar
sobre isso.

25% Esse foi o crescimento de 2009 para 2010 do número de alunos com
necessidades educacionais especiais incluídos em classes comuns do ensino
regular e da Educação de Jovens e Adultos (EJA).

14% Foi quanto caiu no mesmo período o número de estudantes em classes


e escolas especiais (formadas somente por alunos com deficiências).

Fonte Censo Escolar, 2010.


O que as famílias valorizam
Pesquisa realizada com pais de alunos da rede pública da cidade de São Paulo
mostrou os atributos do professor valorizados por eles. É importante saber,
mas não buscar seguir todos eles. O excesso de tarefas para casa, assim
como encher o quadro de textos ou dar provas que os alunos não sejam
capazes de resolver não favorecem a aprendizagem. Confira os resultados:

30,8% Explica de forma que todos entendam


20,9% Trata o aluno com respeito
12,6% Passa bastante dever ou trabalho para casa
12,2% Corrige a lição do caderno dos alunos
11,2% Trata os alunos de forma atenciosa
6,7% Não deixa ocorrer bagunça na sala de aula
3,1% Passa bastante matéria no quadro-negro
2,5% Passa provas difíceis

Fonte Pesquisa Os Pais e a Qualidade da Escola Pública (Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial,
com apoio da FVC, 2008).

Recado tem hora (e bom motivo)

Os bilhetes enviados por educadores para as famílias são, em grande parte,


desnecessários, porque abordam assuntos que caberiam à própria escola
resolver, como o fato de uma criança não parar sentada ou de conversar
demais nas aulas. É o que concluiu em seu mestrado pela Unicamp a
pesquisadora Sandra Dedeschi, que analisou 895 mensagens dirigidas a pais
de crianças do 2º, do 5º e do 8º anos do Ensino Fundamental. A maioria
tratava da obediência a regras e da resolução de conflitos. Poucos incluíam
informações sobre a aprendizagem, como era de se esperar numa
comunicação da escola. Às vezes, o pedido para a família tomar providências
era explícito. "É raro a atitude dos pais promover reflexão na criança, que
costuma ficar com um papel pequeno no processo", critica Sandra.

Palavra de especialista

"Existem diferenças entre a estrutura hierárquica de instituições públicas e


particulares. Na rede pública, o aparato administrativo é maior. Acima da
escola, há uma Secretaria de Educação e um sistema de ensino abrangente,
com normas e regras a serem cumpridas. Na particular, os superiores
máximos estão bem próximos, o que proporciona mais autonomia. Em
ambos os casos, no entanto, o iniciante precisa enxergar, com toda a clareza,
os objetivos da escola e os meios que pode utilizar para atingi-los. Então, é
uma iniciativa primordial ler o projeto político-pedagógico (PPP), que registra
o tipo de aluno que aquela instituição se propõe a formar e o que se espera
de cada educador que atua ali. É justamente por isso que eu sempre brinco
que PPP não quer dizer 'pasta para pôr na prateleira'."
Ana Maria Falcão de Aragão, professora da Faculdade de Educação da
Unicamp.

"Infelizmente, os cursos de formação inicial não preparam de fato para o


começo da carreira docente. Os iniciantes têm dificuldade de fazer a relação
entre o que foi aprendido na graduação e a realidade da sala de aula. Pior
que, muitas vezes, esse início é marcado por isolamento. O novato acredita
que as dificuldades são somente dele e se culpa por tê-las e não achar
soluções para elas. A saída é conversar com os mais experientes."
Maévi Anabel Nono, professora da Universidade Estadual Paulista "Júlio de
Mesquita Filho" (Unesp), campus de São José do Rio Preto.

"Para lidar com episódios de indisciplina, é essencial, em primeiro lugar, não


perder a cabeça. E acho importante tomar muito cuidado com frases de
efeito vazias. Não diga coisas como: 'Se continuar assim, você nunca mais
entra na minha aula!' O mais provável é que a promessa nunca seja
cumprida. Ou seja, a não ser em casos extremos, o aluno não vai deixar de
assistir à sua aula nem você vai largar a turma ou seu emprego por causa do
acontecido. O melhor é sempre o diálogo."
Amarildo Reino de Lima, diretor escolar.

"É preciso aceitar desde cedo que haverá um ou outro aluno com o qual o
professor não encontra muitas afinidades, pelo menos num primeiro
momento. O importante é ter cuidado para não deixar cristalizar o que pode
ser só uma tendência. O ideal é buscar conhecer mais esse estudante, para
descobrir pontos de contato, que certamente existem. Manter o
profissionalismo, dedicando-se igualmente para que todos aprendam os
conteúdos curriculares, é uma regra a ser sempre cumprida. Se a falta de
sintonia persistir e o iniciante sentir que isso pode até atrapalhar seu
trabalho, o melhor é conversar separadamente com o aluno, para ver se os
dois conseguem estabelecer uma relação de cordialidade, zerando possíveis
mal-entendidos. O cuidado maior é nunca chamar a atenção do estudante ou
fazer um comentário sobre suas dificuldades no meio da turma toda.
Questões individuais pedem privacidade."
Eliane Bambini Gorgueira Bruno, docente da Universidade de Mogi das
Cruzes (UMC) e formadora de gestores e coordenadores pedagógicos da rede
municipal de São Paulo .

"O fato aconteceu na universidade, mas poderia ter sido no Ensino Médio.
Uma vez, falei para uma aluna: 'Estou incomodada com seu papo na aula. O
que você poderia fazer para que todo mundo possa ouvir todo mundo?' A
reação dela foi dizer que eu estava sendo infantil ao falar daquele jeito. E
perguntou se eu tinha experiência como professora universitária. Respondi,
calmamente, que aprendia um pouco a cada dia, mas que havia estudado
sobre como lidar com as pessoas de um modo que elas pudessem mudar de
atitude sem que eu precisasse dar bronca - e era o que eu tinha feito. A aluna
saiu irritada, empurrando carteiras, e não voltou. Contudo, apareceu na aula
seguinte e não tive mais problemas com ela."
Luciene Tognetta, professora da Faculdade de Educação da Unicamp.

"De um modo geral, quanto mais os pais participarem da vida escolar do


filho, melhor. Mas a instituição e a família têm papéis diferentes na vida da
criança e do adolescente, e uma não pode repassar suas atribuições para a
outra. Por exemplo, não dá para os gestores e professores apenas dizerem:
'Olha, seu filho não está estudando História. Faça alguma coisa!' Equivale aos
pais irem à escola para reclamar: 'Seu aluno não tem comido direito no
jantar! E agora?' A escola tem de explorar todas as possibilidades dentro do
seu espaço antes de chamar a família."
Catarina Iavelberg, especialista em Psicologia da Educação.

Plantão de dúvidas

Como o iniciante deve agir quando discorda de regras e práticas da


escola?
O problema não é discordar, mas como expor essa divergência. Com
frequência, as regras são definidas sem a participação dos professores e
quase ninguém sabe de onde elas vieram ou qual é sua fundamentação. Por
que é proibido usar boné? A maioria não faz ideia. O ponto de partida, então,
é investigar por que aquilo virou uma norma, perguntando a quem está na
escola há mais tempo. Se depois de conhecer as justificativas lógicas, ainda
assim o professor for contra, pode propor que a questão seja discutida em
reuniões com o corpo docente. "O novato tem de desenvolver a habilidade de
dizer o que pensa de forma respeitosa, mas assertiva", resume Ana Maria
Falcão de Aragão, da Unicamp.

Como atender às necessidades de todos com turmas de 30 ou 40 alunos?


É fato que quanto menor a classe a tendência é ser maior a aprendizagem de
todos. Em uma turma grande, o professor encontrará mais dificuldade de
promover o desenvolvimento geral, porque existe uma diversidade muito
grande de histórias e níveis de conhecimento. Por isso, é fundamental, logo
no início, fazer algumas atividades de diagnóstico para conhecer um pouco de
cada um. Com base nas respostas, ele conseguirá traçar um perfil da turma e
ajustar o planejamento de suas aulas. Depois, é preciso adotar estratégias
para atender às necessidades individuais. Um exemplo é promover trabalhos
em grupo na sala, misturando alunos em vários estágios de aprendizado, o
que favorece uma dinâmica colaborativa. É hora, então, de circular e ir
parando em cada rodinha para observar e dar orientações para quem mais
precisa.

Como agir quando os alunos fazem perguntas pessoais?


Essa situação ocorre com frequência, principalmente, quando se ensina nos
anos finais do Ensino Fundamental e no Médio. Os maiores são sempre mais
propensos a fazer perguntas sobre a vida privada do docente, como: "Você é
casado? Tem filhos? Já viajou com eles para o exterior?" Ao passar por isso, o
caminho é avaliar rapidamente o que está por trás das questões. Às vezes,
elas surgem por simples curiosidade, mas há chances de que sejam uma
estratégia para enrolar o professor, ou seja, para gastar o tempo e não deixá-
lo dar aula. Os especialistas alertam que, de qualquer forma, o educador não
está ali para falar de sua vida. Só vale a pena entrar numa seara mais pessoal
quando isso puder enriquecer uma explicação. Por exemplo, contar sobre
uma viagem para abordar algum conteúdo de Geografia. Se a resposta à
questão feita em classe não puder ser direcionada para isso, a recomendação
é sair pela tangente, reconduzindo o foco de todos para o conteúdo tratado.

Como prender a atenção da turma?


É uma unanimidade entre os especialistas: aqui não é tanto uma questão de
relacionamento, e sim pedagógica. É só preparar boas aulas. "Elas não
precisam ser um show, porque entretenimento os alunos encontram na TV,
no cinema, no teatro e na internet. O que devem ser é mobilizadoras", diz
Catarina Iavelberg. Isso significa que devem fazer sentido para as crianças e
os adolescentes e ajudá-los a construir conhecimentos. Para tanto, uma ideia
sempre bem-vinda é pensar, durante o planejamento, em conexões entre o
conteúdo que será ensinado e elementos presentes no universo dos alunos
ou com fatos atuais que despertam o interesse de todos.

Quando se deve chamar os pais para ir à escola?


Eles não devem ser convocados apenas quando houver problemas com os
filhos. Aliás, se a questão for pedagógica, como queda de produção de um
aluno, é função da escola explorar todas as possibilidades antes de pensar
em pedir o auxílio da família. A instituição pode colocá-lo para trabalhar em
dupla com um colega concentrado ou até mudá-lo de classe, entre outras
opções. Somente quando as ações educacionais se esgotarem é que os pais
devem ser chamados. Mas é necessário informar logo à família quando se
tratar de questões que têm origem fora da escola e não dependem dela - ou
só dela - para serem resolvidas, como faltas excessivas ou falhas na higiene.

Você sabia?

A atitude do novato pode facilitar ou atrapalhar sua relação com os


gestores e colegas. É preciso chegar demonstrando disposição para a
atividade docente como um todo - e não apenas para dar suas aulas.
"Não dá para achar que passou em um concurso ou que arranjou um
emprego e a vida está resolvida. Tem de chegar com vontade de somar,
de fazer realmente parte do grupo de educadores da escola", diz
Amarildo Reino de Lima, diretor do CEF 427, de Samambaia, cidade-
satélite de Brasília, ganhador do prêmio Gestor Nota 10, da Fundação
Victor Civita (FVC), em 2009. Por outro lado, ao assumir a postura de
"quero (e vou) fazer e acontecer", deve cuidar para não gerar antipatias.
É normal que o professor tenha mais simpatia por um aluno ou um
grupo em particular dentro de uma turma. Do mesmo modo, pode
sentir uma verdadeira antipatia por uma criança ou um adolescente.
Ciente dessa possibilidade, o iniciante deve ficar atento e, ao identificar
uma predileção ou uma implicância, o primeiro passo é assumir isso -
mas nunca demonstrar em sala de aula. Quando toma consciência do
que está ocorrendo internamente, o professor consegue se monitorar
para nunca tratar os estudantes de forma diferente.
Já que as tentativas dos alunos de desestabilizar o professor não são
raras, preparar fichas com tópicos, que sirvam como um guia para a
condução das aulas, pode ajudar o inexperiente a manter a calma e o
foco. O iniciante também pode solicitar a companhia do diretor ou do
coordenador para garantir uma apresentação oficial quando tiver uma
turma nova.
Quando se atua na Educação Infantil com crianças até 3 anos, é preciso
ter um olhar especial para o que é ou não aceitável. Por exemplo,
devem ser consideradas normais nessa faixa atitudes impulsivas, como
bater, morder, empurrar e cuspir. Mas é claro que o educador terá de
contornar tais comportamentos, ensinando que há outras formas de
expressar insatisfação.

O que aprendi

O valor de manter o foco no outro


"Para ser professor, a pessoa tem de estar disposta a prestar atenção no
outro. Sempre quis seguir essa carreira, e já são 34 anos nela. Nesse tempo
todo, aprendi a ser mais humana. Descobri que quando você se aproxima do
aluno e ouve um pouco da história dele vê sua atitude mudar. Por isso, acho
importante o iniciante se preparar para lidar bem com as diferenças. A
profissão exige que nós sejamos educadores, mas também às vezes
'psicólogos', 'enfermeiros'... O primordial na relação que o docente estabelece
com os alunos é sustentar a possibilidade de eles melhorarem. E quando
você gosta daquilo que faz, transpõe todos os obstáculos."
Terezinha Zarro Santos, gestora do CIEP Brizolão 209 Ataulfo Alves, em
Duque de Caxias, na Grande Rio.

Diálogo é o melhor caminho sempre


"Muitos alunos gostam de ver qual o limite do professor. Comecei na rede
municipal de uma cidade do interior mineiro. No início, havia um garoto do 6º
ano que fazia questão de sair da carteira e se sentar no chão assim que eu
pisava na sala. Pedia que voltasse a seu lugar, mas a resposta era que ali
estava bom. Foi assim por duas ou três aulas. Perdida, não sabia o que fazer.
Resolvi perguntar à orientadora educacional como agir, pois achava que ele
fazia aquilo para me agredir. Ela expôs o histórico familiar complicado do
menino, o que me deu uma nova dimensão do caso. Ele não queria me
afrontar, mas chamar minha atenção. Na aula seguinte, a cena se repetiu.
Não pedi que se levantasse nem o ignorei. Estendi a mão e o chamei para o
pátio. Aí disse: 'Gosto de você e quero que goste de mim. Sei que a vida não
tem sido fácil, mas podemos ser amigos. Quero que se sinta bem nas minhas
aulas e que me ajude a torná-las melhores'. Ao voltarmos, ele se acomodou
na carteira e nunca mais demonstrou indisciplina. Foi decisivo dialogar."
Karla Veloso Pinto, assessora pedagógica da Martins Pereira Consultoria
Pedagógica, em Belo Horizonte, e ganhadora do Prêmio Educador Nota 10, da
FVC.

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