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A Constituição como ordem jurídica e sua função de

estabilidade

» Leonardo Furian

I – CONSIDERAÇÕES INICIAIS

            Discute-se, de há muito, quais seriam as funções


precípuas de uma Constituição. Klaus Stern, constitucionalista
alemão, resumiu-as de forma lapidar em seu manual. No presente
artigo, vamos desenvolver duas importantes funções constitucionais:
Constituição como ordem jurídica e com a função de estabilidade.

            Em sede de conclusão vamos analisar as conclusões do


desenvolvimento com os olhos voltados para a nossa Constituição e a
nossa realidade constitucional, especialmente com relação a
experiência que estamos ainda a vivenciar pós a promulgação da Lei
Fundamental de 1988 e se conseguiu cumprir essas funções em seus
mais de vinte anos.

II – CONSTITUIÇÃO COMO ORDEM JURÍDICA

Do processo em busca da unidade política[1], se faz necessário


o estabelecimento de regras e procedimentos para os fatores reais de
poder[2] não caírem na luta pela preponderância da sociedade de
forma desordeira e inconsequente.

A função de ordem jurídica da Constituição tem como tarefa, a


regulação das funções e dos poderes do Estado e do ordenamento
jurídico estatal para possibilitar a convivência da coletividade dentro
de certos limites e programas estabelecidos pela Lei Fundamental.

Constituição como ordem jurídica está relacionada ao direito


como um todo por possuir a função de ordenar a coletividade. A
acentuação da Lei Fundamental como ordem, está nas concepções
oriundas das revoluções liberais, como forma de sistematizar e
ordenar a coletividade para o desenvolvimento do capitalismo.

Nesse sentido Boaventura de Souza Santos:

A esse respeito, esclarece Boaventura de Souza


Santos: "O Estado constitucional do século XIX é
herdeiro da rica tradição intelectual descrita na
secção anterior (As Teorias do Contrato Social).
Contudo, ao entrar na posse dessa herança, o
Estado minimizou os ideais éticos e as promessas
políticas de modo a ajustar uns e outros às
necessidades regulatórias do capitalismo liberal. A
soberania do povo transformou-se na soberania do
Estado-nação dentro de um sistema inter-estatal; a
vontade gral transformou-se na regra da maioria
(obtidas entre as elites governantes) e na raiso
d'état; o direito separou-se dos princípios éticos
e tornou-se um instrumento dócil da construção
institucional e da regulação do mercado; a boa
ordem transformou-se na ordem tout court".
(grifei)[3]

A Constituição como norma superior e ordenadora de todo o


ordenamento jurídico possui um caráter de determinação e regulação
das demais leis, tanto as que vieram depois de sua promulgação,
como as anteriores, sendo que, nenhuma poderá ser incompatível
com a Lei Fundamental. Da supremacia da Constituição que se
assenta o caráter de coerência do ordenamento jurídico que, em
suma, pretende lhe dar ordem e estabilidade.

            Conforme Klaus Stern "lo determinante debe ser no el


government by men, sino el government by constitution. El poder del
estado sólo se legitima si puede apoyarse en la constitución"[4], sendo
essa a grande conquista do Estado Constitucional.

Não é admissível que o Estado, dentre outros objetivos, para


alcançar ou concretizar o que está inserido na Constituição atue ao bel
prazer do governante, ou do soberano, ou de uma maioria ocasional e
momentânea. É indispensável a disciplina e ordenação do processo
de poder estatal e, em termos mais amplos, de toda a coletividade,
para possibilitar, em suma, a própria convivência humana.

De forma brilhante expõe Konrad Hesse:

“ … não menos carece o Estado, para tornar-se


capaz de atuar em seus poderes, da constituição
desses poderes por meio de organização e, para
poder cumprir suas tarefas, das regulações de
procedimento: colaboração organizada,
procedimentalmente ordenada, torna ordem
jurídica necessária, e, precisamente, não uma
discricional, senão uma ordem determinada, que
garante o resultado da colaboração formadora de
unidade e o cumprimento das tarefas estatais e que
excluí um abuso  das faculdades de poder confiados
ou respeitados por causa daquele cumprimento de
tarefas - em que tal garantia e asseguramento é, não
só uma questão da normalização, mas, sobretudo,
também da atualização da ordem jurídica”[5].

A ordem jurídica é a própria condição de existência da


coletividade, sem a qual, retrocederemos ao autoritarismo ou
anarquismo social, impossibilitando o desenvolvimento da
coletividade.

Retornando a Konrad Hesse:

"Somente quando direito histórico - consciente ou


inconscientemente - passa a conduta humana ele
ganha vida e ele torna-se existente. Essa
atualização carece do apoio e garantia por meio do
Estado: ordem jurídica deve, em amplas partes, ser
formuladas e com obrigatoriedade estabelecida
pelos poderes estatais, ela deve ser concretizada e
sua realização ser assegurada. Estado e direito, por
conseguinte, também nesse aspecto, não estão um
ao lado do outro sem relação; eles, em múltiplas
formas, dependem um do outro e são dependentes
um do outro"[6].

A Constituição como ordem jurídica é uma função que se


confunde com o próprio sentido de existência de uma Constituição,
pois visa, precipuamente, o estabelecimento de uma unidade jurídica
de forma hierarquizada formal e materialmente.

III – ESTABILIDADE DA CONSTITUIÇÃO

Consoante a lição de Hesse, "o efeito estabilizador e


racionalizador da Constituição é reforçado quando a Constituição é
Constituição escrita"[7]. A Constituição escrita e num documento ao
alcance de todos, como uma conquista do constitucionalismo liberal,
[8] é, por certo, um dos grandes efeitos estabilizadores da Lei
Fundamental, contendo normas que estabelecem a forma em que a
própria Constituição poderá ser modificada.

Tomando por base um conceito ideal de Constituição, sua


pretensão recai em que a Lei Fundamental seja duradoura e imutável.
Entretanto, como bem ensina Klaus Stern:

Las constituciones como toda obra humana no


pueden ser eternas. Esto no afecta en absoluto al
hecho de que es un objetivo de todo proceso
constituyente el crear un ordenamiento com
pretensiones fundamentalmente de duración; una
fijación de la decisión tomada tras una reflexión
madura, que debe tener vigencia para un futuro
amplio. A fin de hacer efectivo el principio de
durabilidad, una constitución tiene que poseer una
medida adecuada de elasticidad y flexibilidad, para
poder hacer frente a situaciones de tensión ...
precisión y claridad aseguran más bien la
inviolabilidad y la durabilidad que pueden esperarse
de una obra humana[9].
A estabilidade da Constituição, em certa medida, possui uma
relação com o grau de sua legitimidade e força normativa. A
imutabilidade de uma constituição não significa sua estabilidade,
podendo, tendo em vista as circunstâncias em que está inserida, ser
um indício de estagnação do desenvolvimento da sociedade. A própria
mutação constitucional - obviamente, com ressalvas aos excessos que
descaracterizam a pretensão do Poder Constituinte Originário - pode
transformar-se em fator de estabilidade constitucional acompanhando
o desenvolvimento da realidade, pois, embora a Constituição tenha
"vocação para a continuidade (há um compromisso no âmago de
qualquer constituição), o direito é um corpo em constante movimento,
é algo vivo, é síntese dialética do entrechoque entre as forças
transformadoras e as tendências conservadoras)"[10].

Retornando a Klaus Stern "Una constitución no vive


exclusivamente en un estado de quietud; vive en su época y está
expuesta a las ideas y fuerzas que actuan en ella"[11], portanto, o bom
senso indica um caminho de cautela, quando analisa-se a função de
estabilidade da Constituição, devendo-se levar em conta, sempre a
realidade onde está inserida e a qual pretende regular. Dessa forma, a
realidade política social dos Estados desenvolvidos exige um menor
grau do cumprimento da função de estabilidade da Constituição do
que dos países subdesenvolvidos, onde, por vezes, até mesmo, o
princípio democrático é incipiente ou se quer foi alcançado.

IV – CONCLUSÕES

Em sede de conclusão e sem voltar as considerações feitas no


desenvolvimento do presente trabalho para não se tornar redundante,
cabe retornar a pergunta inicial de que até que ponto a Constituição
de 1988 promoveu e foi eficaz no estabelecimento de uma nova
ordem jurídica e um novo fundamento de validade do ordenamento
jurídico brasileiro e se cumpriu sua função de estabilidade nesses
mais de vinte anos de sua promulgação.

Não temos dúvida em afirmar que a Constituição de 1988


cumpriu tanto a função de ordem jurídica como de estabilidade para
coletividade brasileira. Embora possa se criticar a baixa força
normativa de algumas passagens da Constituição, especialmente os
direitos sociais e o combate as desigualdades sociais e regionais – o
que também não deve ser remetido exclusivamente ao texto
constitucional mas sim a sua realidade e de como se aplicou o
programa de constituiçao –, fato é que foi inaugurado um novo
fundamento de validade do ordenamento jurídico. Todas as normas
infraconstitucionais passam e devem passar pela filtragem da Lei
maior, seja formal seja substancial e valorativa.

A prova de que estabilidade está sendo alcançada é o fato de


que vivemos o maior período democrático da história nacional, ou
seja, a estabilidade constitucional somente pode se dar na e pela
democracia, pois assim se dá legitimidade para a permanência de
uma mesma Constituição.

Assim, é possível afirmar que a Constituição de 1988 tornou-se


a ordem jurídica da coletividade brasileira cumprindo a função de
estabilidade desde a sua promulgação.

V – REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

HESSE, Konrad. Elementos de Direito Constitucional da República


Federal da Alemanha, Tradução de Luís Afonso Heck, Sergio Antonio
Fabris Editor, Porto Alegre, 1998.

FURIAN, Leonardo. Promoção da unidade política como uma


função constitucional. Conteúdo Jurídico, Brasilia-DF: 01 set. 2014.
Disponível em: <http://www.conteudojuridico.com.br/?
artigos&ver=2.49709&seo=1>. Acesso em: 08 set. 2014.

________. Origem e significado histórico da Constituição do


estado liberal. Conteúdo Jurídico, Brasilia-DF: 14 ago. 2014.
Disponível em: <http://www.conteudojuridico.com.br/?
artigos&ver=2.49431&seo=1>. Acesso em: 08 set. 2014.
LASSALLE, Ferdinand. A Essência da Constituição. 4. ed. Rio de
Janeiro: Lumen Juris, 1998.

SANTOS, Boaventura de Souza, A Crítica da Razão Indolente: contra


o desperdício da experiência, 3a ed. Cortez Editora.

STERN, Klaus. Derecho del Estado de la Republica Federal


Alemanha. Centro de Estudios Constitucionales, Madrid, 1987.

STERN, Klaus. Derecho del Estado de la Republica Federal


Alemanha. Centro de Estudios Constitucionales, Madrid, 1987.

VERONESE, Osmar. Constituição: reformar para que(m)?, Livraria do


Advogado, Porto Alegre, 1999.

Notas:

[1] Vide para tanto artigo de minha autoria: FURIAN,


Leonardo. Promoção da unidade política como uma função
constitucional. Conteúdo Jurídico, Brasilia-DF: 01 set. 2014.
Disponível em: <http://www.conteudojuridico.com.br/?
artigos&ver=2.49709&seo=1>. Acesso em: 08 set. 2014.

[2] Para o conceito de fatores reais de poder:  LASSALLE,


Ferdinand. A Essência da Constituição. 4. ed. Rio de Janeiro: Lumen
Juris, 1998.

[3] SANTOS, Boaventura de Souza, A Crítica da Razão Indolente:


contra o desperdício da experiência, 3a ed. Cortez Editora, p. 140.

[4] STERN, Klaus. Derecho del Estado de la Republica Federal


Alemanha. Centro de Estudios Constitucionales, Madrid, 1987, p. 220
e 221.

[5] HESSE, Konrad. Elementos de Direito Constitucional da


República Federal da Alemanha, Tradução de Luís Afonso Heck,
Sergio Antonio Fabris Editor, Porto Alegre, 1998, p. 35.
[6] Idem, p. 36.

[7] HESSE, Konrad. Elementos de Direito Constitucional da


República Federal da Alemanha, Tradução de Luís Afonso Heck,
Sergio Antonio Fabris Editor, Porto Alegre, 1998, p. 43.

[8] A respeito das conquista do constitucionalismo liberal,


especialmente da Constituição em documento escrito, vide:  FURIAN,
Leonardo. Origem e significado histórico da Constituição do estado
liberal. Conteúdo Jurídico, Brasilia-DF: 14 ago. 2014. Disponível em:
<http://www.conteudojuridico.com.br/?artigos&ver=2.49431&seo=1>.
Acesso em: 08 set. 2014.

[9] STERN, Klaus. Derecho del Estado de la Republica Federal


Alemanha. Centro de Estudios Constitucionales, Madrid, 1987, p. 227
e 228.

[10] VERONESE, Osmar. Constituição: reformar para que(m)?,


Livraria do Advogado, Porto Alegre, 1999, p. 27.

[11] STERN, Klaus. Derecho del Estado de la Republica Federal


Alemanha. Centro de Estudios Constitucionales, Madrid, 1987, p. 229.

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