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O GRUPO ADONHIRAMITA DE ESTUDOS

apresenta:

AS LUVAS NO RITO
ADONHIRAMITASergio Emilião
MI - F R+C
OBSERVAÇÕES
• A apresentação foi baseada no Ritual do Grau de Aprendiz Maçom, Rito Adonhiramita, publicado pelo Grande Oriente do Brasil –
GOB, edição 2009
• Os comentários refletem apenas a opinião pessoal do apresentador, e não a posição oficial do Grande Oriente do Brasil nem de
qualquer Potência Simbólica ou Filosófica na qual o Rito Adonhiramita é praticado
• Todas as dúvidas podem e devem ser dirimidas de forma oficial junto à Secretaria Geral de Orientação Ritualística do Grande
Oriente do Brasil, e nos departamentos correspondentes nas demais Potências

AVISO LEGAL
O ingresso na sala virtual desta apresentação implica na tácita concordância com a íntegra do que dispõe a Lei
Geral de Proteção de Dados, Lei Federal n° 13.709, de 14.08.2018
INTRODUÇÃO
“Se desde a meia-noite, quando se encerraram nossos últimos trabalhos, conservastes
vossas mãos limpas, calçai as vossas luvas”!
• Todos nós, maçons Adonhiramitas, estamos familiarizados com essa fala
• Ela marca a preparação para nosso ingresso no Templo, e evidentemente, se refere às
luvas
• Apesar de presentes na Maçonaria moderna, desde seu início formal, nem todos os Ritos
adotam as luvas como parte de sua indumentária
• Alguns restringem seu uso às Sessões Magnas e festividades, outros não as usam em
nenhuma ocasião
• No Rito Adonhiramita é parte integrante de nosso “uniforme”, portanto, é uma peça
obrigatória aos maçons de todos os Graus, e é usada em todas as sessões ritualísticas
• Alguns Ritos mantém seu uso apenas por tradição, mas toda tradição, mais cedo ou mais
tarde, acaba sendo questionada, e não raro, abandonada
• No Rito Adonhiramita as luvas não são apenas uma tradição. Para que seu uso seja
continuado, as luvas ganharam um simbolismo próprio, e como vimos, fazem parte da
ritualística
• Talvez não tenhamos dado às luvas a importância devida, e até negligenciado seu uso.
Talvez isso seja fruto da incompreensão de seu simbolismo, e de instruções pouco
aprofundadas sobre o tema
• Minha intenção nesta apresentação, é abordar, de forma resumida, o uso das luvas nas
diversas culturas através dos tempos, sua chegada à Maçonaria, e examinar seu
simbolismo no Rito Adonhiramita na atualidade, evidentemente, acrescentando minha
interpretação pessoal
ESCOPO

• A Origem das Luvas


• O Uso das Luvas Através dos Tempos
• As Luvas e as Profissões
• As Luvas no Período Operativo da Maçonaria
• As Luvas nas Primeiras Lojas Especulativas
• A Introdução nos Rituais
• O Simbolismo no Rito Adonhiramita
• O Uso Litúrgico
• Conclusão
A ORIGEM DAS LUVAS

• As luvas parecem ser um adereço mais antigo do que geralmente


imaginamos
• Uma pintura rupestre, encontrada numa caverna na localidade de
Cosquer, na França, sugere que luvas eram usadas pelos homens
primitivos no período Paleolítico, com datação de aproximadamente
27.000 a.C.
• São as chamadas “Mãos de Gargas”
• Os estudiosos formularam essa hipótese baseados na técnica de stencil
utilizada
• Especula-se que tenham sido fabricadas com peles ou vísceras de
animais, e fossem utilizadas para proteção contra o frio
• Portanto, tudo leva a crer, que as luvas foram inventadas para
PROTEÇÃO, e permaneceram com essa utilidade por muitos séculos,
aliás, ainda a utilizamos contra o frio em nossos dias
AS LUVAS NO ANTIGO EGITO

• Na tumba do faraó Tutankhamon (1.341-1.323 a.C.), foram encontradas luvas de


linho, algumas decoradas com símbolos de reis anteriores
• Não é provável que um faraó realizasse qualquer tipo de trabalho, portanto,
essas peças destinavam-se à proteção contra o frio, ou como simples adorno
• Essa tese é reforçada pelo fato de alguns desses exemplares não vestirem os
dedos individualmente, ou seja, envolviam toda a mão, a exemplo de um saco
• Apesar disso, muitos autores não descartam a possibilidade destas peças
possuírem alguma função ritualística para os egípcios, já que as práticas
religiosas eram frequentes no cotidiano do antigo Egito
• Fica, no entanto, a indagação, se as luvas eram próprias dos nobres, ou se eram
utilizadas também pelo povo
AS LUVAS NA GRÉCIA ANTIGA

• Na Grécia antiga, as luvas ganharam outra utilidade, também relacionada à


proteção das mãos
• Foram os gregos os primeiros a estabelecer regras para os esportes,
notadamente para a realização da Olimpíada
• Foi assim que a luta com punhos, que já era praticada pelos sumérios em 3.000
a.C., passou a utilizar na Grécia, em 688 a.C., luvas de couro para proteção dos
lutadores, prática que acompanha o boxe até a atualidade
• Homero cita essas luvas na Ilíada
• Tudo indica que nem os gregos nem os romanos utilizavam luvas para outra
finalidade. Ao que parece, foram justamente os povos chamados de bárbaros,
que introduziram as luvas na Europa, no século VI
AS LUVAS NA IDADE MÉDIA
• A Idade Média foi o período no qual as corporações de pedreiros se organizaram,
e também da formação dos reinos europeus e seus exércitos
• As luvas, igualmente com a finalidade de proteção, cobriram as mãos dos
soldados e dos falcoeiros
• As luvas utilizadas nas armaduras eram chamadas de manoplas
• Apesar do uso bélico, as luvas neste período histórico assumem um certo ar de
romantismo por conta das lendas e dos códigos de honra dos cavaleiros
medievais. São associadas também à imagem das damas e donzelas
• Mas as luvas assumiram um papel simbólico nessa época, representando a fé
jurada nas cerimônias de investidura feudais, o que, de certa forma, não deixava
de ser um “valor espiritual”
• No período seguinte, o Renascimento, as luvas deixam um pouco de lado o
sentido de proteção, e assumem o papel de adorno pessoal de bom gosto, sendo
utilizadas tanto por homens quanto por mulheres
• Deixam de ser fabricadas exclusivamente de couro e peles de animais, e passam
a ser feitas de tecidos mais finos e requintados
• As luvas ingressam nas cortes europeias como um símbolo de requinte, bom
gosto e elegância
• Na verdade, as luvas assumem o ar de elitismo
• Por mais incorreto politicamente que possa parecer, esse elitismo sempre fez
parte da Maçonaria moderna, afinal, escolhemos criteriosamente os candidatos na
sociedade. Ser “livre e de bons costumes” é uma distinção, que inspira no
profano a presunção de se tornar um Iniciado
• Mas não podemos deixar de registrar que estas luvas utilizadas pela aristocracia e
nobreza, também serviam para esconder eventuais imperfeições nas mãos, o que
poderia ser objeto de constrangimento e vergonha. Isso vai ser observado pela
Doutrina Adonhiramita
AS LUVAS NO MEIO ECLESIÁSTICO
• A partir do século X, a luva foi inserida na liturgia eclesiástica da Igreja Romana
• São as chamadas luvas episcopais, ou quirotecas, usadas pelos bispos e
cardeais. Estavam, portanto, relacionadas à hierarquia
• A partir de 1984 as luvas episcopais deixam de ser um item obrigatório na
vestimenta litúrgica
• Até 1968, na cerimônia de ordenação episcopal, o sacerdote consagrador
entregava ao novo bispo a mitra, e um par de luvas
• De acordo com os manuais litúrgicos, os bispos usavam essas luvas para
celebrar as missas pontifícias, recebendo-as dos diáconos, um à sua direita, e
outro à sua esquerda
• Ele as retirava após ter recitado a antífona do ofertório, e só as recolocava após
ter lavado as mãos, após a comunhão
• Eram feitas de tecidos coloridos, ou tricotadas, e acompanhavam a cor dos
paramentos litúrgicos
• Jamais eram pretas, pois não eram usadas nas missas da Sexta-Feira Santa, e
nem nas de réquiem
• Por vezes tinham símbolos cristãos bordados, como a cruz, o cordeiro, etc.
• Presume-se que elas representassem a “Mão de Deus”
• Se considerarmos a influência da ritualística católica na liturgia Adonhiramita, é
possível vislumbrar alguma semelhança de propósitos, ou, pelo menos, creio não
ser uma hipótese desprezível
AS LUVAS NO MEIO MILITAR

• É claro que os militares, de todas as Armas, usam as chamadas luvas táticas, que
são empregadas para o manuseio de armas
• Mas o meio militar também utiliza as luvas de maneira cerimonial
• Fazem parte dos trajes de gala, são entregues aos formandos das tropas, são
utilizadas nas guardas de honra, etc.
• Nesse caso são sempre brancas, independentemente da corporação que realiza o
cerimonial
• Esse uso parece remontar às cortes e à nobreza, representando requinte,
elegância, formalidade e respeito
• Não resta dúvida que todos estes conceitos são aplicáveis à Doutrina
Adonhiramita, mas, particularmente, entendo que sua adoção no Rito não se deve
ao cerimonial militar, afinal, ele próprio parece ter se inspirado num simbolismo
externo
• Porém, se observarmos a prática do uso de luvas pelos outros Ritos, veremos
que pode existir alguma relação
AS LUVAS E OS MAÇONS OPERATIVOS
• Os pedreiros medievais não utilizavam EPIs, aliás, nenhum ofício o fazia, mas certamente
se protegiam de alguma maneira, em relação ao trabalho que faziam
• No caso das luvas, é claro que elas não seriam suficientes para protege-los das
marteladas do maço, ou da perfuração do cinzel, mas elas eram usadas em algumas
ocasiões
• Geralmente nos atemos à pedra e aos instrumentos, como símbolos herdados do período
operativo, mas há outros, de igual importância e significado
• Dentre esses está a argamassa, de fundamental importância para a ligação e estabilidade
das pedras nas construções
• Aliás, saber produzir essa argamassa de qualidade, era o que diferenciava os pedreiros,
e particularmente os mestres. Havia duas categorias de aprendizes, que depois se
transformaram nas designações de junior e senior, os que conheciam a liga da
argamassa, e os que não sabiam faze-la, que eram chamados de “pedreiros de pedra
seca”
• Para a produção dessa liga, ou argamassa, era utilizado cal, e as luvas eram utilizadas
para proteger as mãos dos pedreiros da corrosão
• Na Catedral de Chartres, erguida no século XIII, existe um vitral onde são representados
pedreiros usando luvas
• Os Anais Arqueológicos de M. Didrot citam três exemplos do uso de luvas pelos
pedreiros
• Em 1331, durante a construção do Castelo de Villaines, em Dumois, foram comprados
vários pares de luvas
• Em 1383, na construção do Castelo de Dijon, foram adquiridos 30 pares de luvas para
serem utilizados pelos pedreiros
• E em 1346 foram doados 20 pares de luvas para os pedreiros que trabalhavam na cidade
de Amiens
AS LUVAS E AS OLD CHARGES

• Durante a transição do período operativo para o especulativo da


Maçonaria, as luvas adquirem um simbolismo bem próximo ao que
praticamos na atualidade
• Os Estatutos de Schaw, na segunda edição, em 1599, estabelecem que os
companheiros de ofício, ao ingressarem nas Lojas, deviam pagar o valor
de 10 shillings, que correspondia às luvas, ou seja, as luvas eram doadas
por quem ingressava nas Lojas, e não ao contrário, como fazemos hoje
• Isso provavelmente está relacionado ao padrão dos contratos comerciais
de “pagamento de luvas”, que vemos em nossos dias
• Ainda assim, me parece que tal qual os aventais, as luvas representassem
nesse período apenas um item de proteção, sem nenhum simbolismo
filosófico, o que só vai ocorrer mais adiante, quando as Lojas adquiriram
definitivamente o status de especulativas
AS LUVAS NO PERÍODO ESPECULATIVO

• É pouco provável que as luvas fizessem parte dos trajes maçônicos no início
do século XVIII, e tampouco possuíssem alguma função litúrgica, pelo menos
nas ilhas britânicas, ressalvando-se as ocasiões especiais, onde talvez
compusessem os trajes como item cerimonial, com sentido de nobreza
• Parecem ter sido implementadas nos rituais a partir da França
• Mas um tipo especial de luvas, decorrente do encurtamento das mangas dos
trajes, mais alongado, cobrindo desde as mãos até os cotovelos, chamado
gauntlet, originou os Punhos, utilizados pelo Venerável Mestre e Vigilantes
• Na verdade eram as chamadas “luvas de raspa” utilizadas pelos pedreiros
operativos
• Esse tipo de luvas representava a autoridade, que era demonstrada
visualmente, através de um modelo diferente de luvas
• Certamente não estavam relacionadas à proteção, e adquirem um simbolismo
próprio, que nos acompanha até hoje, e talvez o simbolismo das luvas
comuns tenha se originado desses Punhos
• Ressalte-se, porém, que atualmente os Punhos do Venerável Mestre e dos
Vigilantes não são uma peça única, como em sua origem. No Rito
Adonhiramita eles usam tanto os Punhos, que os difere dos demais obreiros,
quanto às luvas, que indicam que são iguais em essência
A INSERÇÃO NOS RITUAIS
• Uma publicação num jornal chamado The Flying Post, em 1723, afirma que
possivelmente na França tenha se originado o costume de oferecer um par de luvas
brancas ao neófito, para que ele as entregasse à mulher por quem tivesse o maior
respeito
• Há de se observar, que a mulher premiada, não necessariamente deveria ser aquela
pela qual o maçom nutrisse sentimento de amor, ou seja, não obrigatoriamente à
sua esposa
• Fica claro que a Maçonaria procurava homenagear a mulher em si, e não
exclusivamente a esposa do neófito
• É claro que a existência de Iniciados solteiros também ensejava essa observação
• Segundo Oswald Wirth, Goethe, que teria sido Iniciado em Weimar, em 1780, teria
homenageado uma certa madame Von Stein, a quem dirigiu uma explicação
bastante significativa, de que apesar de se tratar de uma homenagem ínfima, o
maçom só tinha a oportunidade de faze-lo uma vez em toda sua vida, o que torna a
“escolhida” certamente alguém especial. O Rito Adonhiramita mantém esta mesma
prática
• Neste sentido, julgo no mínimo curiosa essa circunstância
• No momento em que as luvas destinadas à mulher são entregues ao neófito, é
ensinado a ele como a mulher deve proceder para pedir socorro aos maçons,
utilizando aquele par de luvas
• Observem que a mulher, que evidentemente permanecerá na condição de profana,
sabe desde a Iniciação de seu marido, filho, ou admirador, como pedir ajuda aos
maçons, enquanto ele, que é maçom a partir daquele momento, só aprenderá isso
no Grau de Mestre
• Este, me parece um aspecto a ser corrigido em nossos rituais
A COMPILAÇÃO PRECIOSA
• Como tenho afirmado, a Compilação Preciosa da Maçonaria Adonhiramita, obra de
referência do Rito, era um catecismo, e não um ritual como conhecemos hoje
• Não havia informações sobre a ritualística, ou liturgia das sessões
• Porém, algumas respostas, e principalmente notas de rodapé, nos permitem imaginar
como ocorriam determinadas práticas, nos primórdios do Rito Adonhiramita
• Assim, é certo que o Aprendiz recebia dois pares de luvas brancas na sua Iniciação, um
para ele, e outro para sua mulher
• Arguido sobre a razão te ter recebido um par de luvas de mulher, o Aprendiz respondia:
“Para mostrar ao Recipiendário, que se deve estimar e prezar sua mulher, e que não se
pode esquecê-la um só instante sem ser injusto”
• Em nota de rodapé, Saint-Victor critica os ritualistas que abandonaram essa prática, nos
seguintes termos: “Alguns Mestres não dão mais luvas de mulher. Entretanto, essa
atenção, por menor que seja, a estes seres criados para dividir conosco as penas e os
prazeres da sociedade, não fazia senão honrar a Maçonaria; atesto isso para os esposos
sensíveis, mas como todos os homens não pensam da mesma forma, os que não veem
nenhuma falta de delicadeza em não dar estas luvas, podem passar sem as palavras (e
sem a mulher), assim como sobre as perguntas e respostas que verão entre aspas”
• Podemos depreender desses textos, que apesar da prática de entregar luvas para as
mulheres ter sido abandonada em algumas circunstâncias, a redação sugere que os
neófitos permaneceram a recebendo.
• Demonstra também o entendimento de Saint-Victor, de que seria a esposa a destinatária da
homenagem
• E por último, parece consentir o abandono da prática pelo Rito Adonhiramita, quando
sugere que o Mestre da Loja ignore as perguntas e respostas relacionadas no catecismo
AS LUVAS NOS RITUAIS BRASILEIROS

• As luvas já estavam presentes no primeiro ritual Adonhiramita, publicado em


território brasileiro, em 1836, pelo GOB
• Na página 6, elas são citadas como parte dos trajes do Grau de Aprendiz

“As insígnias, proprias do grao de Aprendiz, são, hum avental de pele branca, sem
bordados nem ourellas, o qual deve estar posto com a abeta voltada para cima, e um
par de luvas de pele branca”

• A inserção do calçamento das luvas durante a Procissão, antes de ingressar no


Templo, vai ocorrer em 1969, no ritual do Grau de Aprendiz do Rito Adonhiramita,
publicado pelo GOB
• Nos rituais anteriores, as luvas só são mencionadas na etapa da Iniciação,
quando o neófito recebe os dois pares, havendo, no entanto, a distinção, de que
um dos pares era do modelo usado pelos homens, e o outro, pelas mulheres
• A partir desta edição, a menção às luvas, e à forma de vesti-las para as sessões,
permanece inalterada
O SIMBOLISMO DAS LUVAS
• Ainda que o uso das luvas possa nos remeter ao período operativo da
Maçonaria, como proteção para as mãos, não parece ser esse o sentido
que o Rito Adonhiramita assume na atualidade
• Esse simbolismo será acrescido de conteúdo no Grau de Mestre Maçom, e
nos Graus de Perfeição
• É claro que somos advertidos pelo Mestre de Cerimônias que devemos
calça-las antes do ingresso no Templo, e neste sentido, como parte
integrante dos trajes maçônicos, como traduz o ritual, elas assumem o
papel de uniforme ou farda, ou seja, nenhum maçom Adonhiramita,
Aprendiz ou Mestre Instalado, pode trabalhar em Loja sem elas
• Mas este certamente não é seu principal simbolismo, seja por conta da
advertência do Venerável Mestre, quando nos entrega as luvas em nossa
Iniciação, seja pela admoestação do Mestre de Cerimônias – “(...) se
conservastes vossas mãos limpas...”
• Enxergo, portanto, simbolismos relacionados a:

1. A cor branca
2. A pureza
3. A distinção
4. A IGUALDADE

• Vamos examinar cada um, resumidamente


A COR BRANCA
• Nosso ritual estabelece, de forma taxativa, que as luvas devem ser brancas. Por
quê?
• Sob o ponto de vista místico, poderia dizer que o branco é a soma de todas as 7
cores que compõem o espectro luminoso, é a cor da luz solar
• As superfícies brancas, portanto, são aquelas capazes de refletir todas as demais
cores do espectro luminoso
• Assim, tanto nossas camisas, quanto gravatas e luvas, teriam a capacidade, ou
intenção, de refletir a Verdadeira Luz, simbolicamente
• Mas a fala do Mestre de Cerimônias nos aponta para outra direção, mais exotérica,
por assim dizer, a de demonstrarmos que nossas mãos, simbolicamente
responsáveis por nossos atos, “estão limpas”
• As superfícies brancas são as mais difíceis de serem mantidas limpas. Qualquer
grão de poeira ou nódoa torna-se facilmente identificável. Usar roupas brancas, e
mantê-las livres de sujeiras, é um verdadeiro desafio
• Por isso, o branco é a cor mais presente nas vestes sacerdotais de diversas
correntes religiosas e filosóficas
• O branco assume o arquétipo de PUREZA
• Se nos lembrarmos do Escrutínio Secreto, veremos a expressão “limpo e puro”,
designar um candidato livre de oposições
LIMPOS E PUROS
• Resta saber de que tipo de sujeira ou impureza estamos livres, ao calçar
nossas luvas
• É evidente que a expressão está sendo utilizada em sentido figurado
• A limpeza, a qual o Mestre de Cerimônias se refere, é de nossa alma, e de nossa
consciência
• O maçom aprende a ser maçom dentro do Templo, para praticar a Doutrina fora
dele, na construção da Grande Obra, que é o edifício social
• Não nos tornamos maçons apenas quando vestimos o avental, à exemplo dos
super heróis das histórias em quadrinhos quando vestem suas capas
• Mas para construir o edifício social de forma justa e perfeita, é preciso antes,
que nosso próprio edifício moral possua estrutura sólida
• Devemos, portanto, conservar nossas mão limpas das impurezas do caráter,
livres dos crimes, de qualquer espécie, contra nossos semelhantes, e sem
manchas dos vícios que degradam os seres humanos
• O calçar as luvas para o maçom Adonhiramita não deve ser um ato mecânico,
mas antes, um exame de consciência, pois esse é o maior juiz que teremos
• Calçar as luvas deve ser um ato de orgulho para nós, deve acima de tudo
simbolizar que praticamos o reto agir, o reto pensar, e o reto falar
• Seguir o ritual em Loja é muito fácil, pratica-lo fora do Templo é o verdadeiro
desafio
• Talvez ajudasse se nos lembrássemos diariamente que nossas mãos deverão
estar limpas quando participarmos da próxima sessão
A DISTINÇÃO

• Afirmei anteriormente que a Maçonaria é elitista. Só aceita em suas Colunas


homens de ilibada reputação, livres, e de bons costumes
• Neste raciocínio, os maçons são homens “diferentes”. Isso é uma distinção
• No mesmo diapasão, vemos os nobres e aristocratas das Idades Média e Moderna,
utilizarem luvas como símbolos de uma posição social diferente
• Vemos este mesmo conceito nas luvas episcopais e nas solenidades militares
• Creio que este conceito também estivesse presente nas primeiras Lojas
especulativas
• Na atualidade, pelo menos no que diz respeito ao Rito Adonhiramita, não tenho a
menor dúvida
• As luvas nos conferem uma distinção especial, obtida pela pureza interior que
tratamos anteriormente
• As luvas são um símbolo de respeito
• Mas tal qual nossas mãos, devemos manter as próprias luvas limpas
• É constrangedor para o maçom Adonhiramita calçar luvas sujas, todo o simbolismo
que vimos até aqui se perde por falta de disciplina e desleixo
• O mesmo se aplica a luvas rasgadas e mal conservadas
• As luvas que usamos refletem nossa personalidade
A IGUALDADE

• As luvas são o último item de nossa indumentária a nos tornar


iguais
• Quando as mãos estão calçadas com luvas, somos incapazes de
diferenciar se são as mãos calejadas de um agricultor, ou as de
um cirurgião plástico
• A IGUALDADE visual foi obtida, não há chance para nenhum
constrangimento entre os Irmãos
• Ressalte-se que são inseridos neste contexto todos os maçons da
Oficina, desde o Aprendiz mais novo, até o Venerável Mestre
• Faço aqui uma observação, se esta é a intenção, as luvas devem
ser totalmente brancas, sem a aplicação de qualquer bordado ou
decoração, pois se isso ocorrer, o maçom que está usando este
modelo de luvas será “diferente” dos demais
• Se fomos advertidos para calçar as luvas antes do início dos trabalhos, é porque
elas possuem função litúrgica, mesmo que não nos apercebamos disso
• Na verdade, durante toda a sessão devemos estar calçados com elas
• As exceções são a Cadeia de União, e a Corrente Fraternal, quando devemos dar

O USO LITÚRGICO •
as mãos uns aos outros sem as luvas
NÃO HÁ PREVISÃO NO RITUAL PARA QUE RETIREMOS AS LUVAS DURANTE A
SESSÃO
• As Lojas toleram, que o Secretário retire as luvas para melhor escrever, assim
como o Tesoureiro para contar dinheiro, e Aprendizes para manusear os trabalhos
que estão defendendo
• Entendo que estas concessões devam ser feitas com parcimônia, sob a pena de
eliminarmos a tradição, afinal, todos temos desculpas para retirar as luvas,
mesmo que seja apenas para folhear o ritual
• Alguns Mestres defendem que ao depositar o óbolo no Tronco de Solidariedade,
as mãos devem estar sem luvas
• As justificativas são que o dinheiro é “sujo”, e vamos manchar nossas mãos, e
que sem as luvas “magnetizamos” a importância ali depositada. Respeitosamente
discordo
• Se o dinheiro realmente é sujo, e vai manchar nossas mãos, após retira-las para
fazer a oferta não devemos calça-las de novo
• Se no momento em que colocamos a oferta no Tronco de Solidariedade, o dinheiro
deixa de ser nosso, e estará à disposição de quem dele precisar, não há razão para
magnetiza-lo com nossa personalidade, com nossas energias, a partir daquele
momento ele é da Caridade
• O mesmo entendimento mantenho em relação ao Venerável Mestre retirar as luvas
para “magnetizar” o incenso. Há uma colherzinha na naveta que serve para isso. A
ideia de “magnetizar” o incenso, é uma presunção de superioridade, de estar
energeticamente acima dos demais obreiros, o que nem sempre é verdade. O
Venerável Mestre possui autoridade, e não dons metafísicos
• De toda forma, entendo que o Mestre de Cerimônias jamais retire suas luvas, se é
ele quem nos adverte, deve, sem dúvida, dar o exemplo, ele é a imagem da Oficina
O MODELO DAS LUVAS

• O ritual não estabelece um modelo para as luvas, cita apenas que


devem ser brancas
• Conforme já mencionei, e diante dos simbolismos da luva, entendo
que devam ser lisas, sem qualquer bordado ou decoração
• Existem, atualmente, vários tecidos utilizados na confecção de luvas,
desde o clássico algodão, até tecidos sintéticos de poliéster e lycra
• Não há nenhum delito maçônico em optar por um destes modelos de
luvas, mas entendo que pela tradição e distinção que o adereço
representa, as luvas de algodão sejam as mais recomendadas
PODEMOS TRABALHAR SEM LUVAS?

• Nos termos do ritual NÃO


• As luvas são um item obrigatório da indumentária Adonhiramita
• Irmãos deputados, e ocupantes de cargos no Poder Executivo do GOB estão
isentos, nos termos dos respectivos regulamentos, de usar luvas e chapéus
• Divirjo desse entendimento, as Lojas trabalham conforme o ritual e o Rito, e se o
Rito estabelece que as luvas sejam usadas por todos, não vejo razão para os
ocupantes destes cargos se comportarem de maneira diferente nas suas Lojas,
afinal, foi a Loja que possibilitou que ele fosse alçado ao cargo, e o Rito deve
estar acima dos cargos
• Pode parecer uma postura radical e antipática, não permitir que o maçom
Adonhiramita sem luvas não participe dos trabalhos. Mas se ele passar por essa
situação uma vez, certamente não passará por outra, pois jamais esquecerá as
luvas
• Em última instância, a disciplina é parte integrante da Doutrina, e auxiliar no
aperfeiçoamento de nosso caráter, por isso, dedicar um pequeno intervalo de
tempo para verificar suas alfaias, antes de se dirigir à Loja, me parece desejável
e obrigatório
E OS MAÇONS PRATICANTES DE OUTROS RITOS?

• Entendo que as características de cada Rito devem ser respeitadas, mesmo


em visita a Oficinas que pratiquem Rito diferente do nosso
• Diante disso, penso que o maçom praticante de outro Rito deva estar trajado
conforme seu ritual específico, sem a necessidade de adaptação de trajes, ou
de luvas, mesmo que, eventualmente, desempenhe função ritualística naquela
sessão
• Da mesma forma, defendo que nós, Adonhiramitas, em visita a Lojas de
outros Ritos, estejamos trajados em conformidade com o ritual, ou seja, de
luvas
• Nesse sentido, considerando que os demais Ritos não formam a Procissão, e
não há o comando para calçarmos as luvas, devemos calça-las antes de
ingressar no Templo, após termos nos revestido dos paramentos
PODEMOS EMPRESTAR AS LUVAS?

• SIM, a vedação no ritual se dá apenas para não usa-las durante as


sessões, e não o contrário
• É necessário apenas, e evidente, que tenhamos um par de luvas
sobressalente para qualquer eventualidade
• Esta é uma circunstância mais comum do que podemos imaginar, e
como vimos, decorrente sempre da desatenção com nossos
paramentos
• Não enxergo nenhum óbice metafísico, esotérico, ou místico, que
impeçam um maçom a de emprestar um para de luvas para seu Irmão
• Aliás, nenhum dos simbolismos das luvas está relacionado a princípios
místicos
PODEMOS TROCAR DE LUVAS?

• DEVEMOS! Inclusive no decorrer das sessões, se por


algum acidente nossas luvas forem danificadas
• As luvas sofrem desgaste natural pelo uso, portanto, é
desejável que de tempo em tempo as troquemos por
modelos mais novos
• As luvas não nos conferem poder sobrenatural, e
tampouco carecem de cerimônia de sagração, ou algo
parecido, portanto, podem ser utilizadas imediatamente
após adquiridas
• O que não podemos, na verdade, é trabalhar sem luvas
AS LUVAS DO ADEUS

• A tradição emprega as luvas em outra circunstância, fora dos Tempos, e certamente


indesejável para qualquer um de nós, que é exatamente no funeral de um maçom
• Nesta ocasião, a tradição indica que todos os maçons que puderem estar presentes no
funeral, compareçam usando o traje Adonhiramita, sem chapéu, avental e faixa, ou
seja, de terno, sapatos e meias preto, e gravata corrida branca
• Porém, um par de luvas deve ser levado, e o destino dele será ser lançado sobre o
caixão, antes de descer ao solo
• É como se nossas mãos, simbolicamente, estivessem amparando o Irmão falecido em
sua jornada para o Oriente Eterno
• É uma homenagem de despedida
• Evidentemente, as luvas estarão presentes na cerimônia de Pompa Fúnebre
CONCLUSÃO

• Nem todos os Ritos têm as luvas como traje


• Alguns Ritos restringem seu uso às Sessões Magnas
• No Rito Adonhiramita, são um item obrigatório para maçons de todos os Graus,
e em todas as sessões ritualísticas
• Para nós, não é apenas um adorno tradicional, mas um elemento simbólico
• O Rito Adonhiramita agregou às luvas todos os simbolismos que vimos
• Representam o TRABALHO, a PUREZA, a DISTINÇÃO, e a IGUALDADE
• É um dos itens que distinguem visualmente os maçons Adonhiramitas daqueles
praticantes de outros Ritos
• O uso das luvas jamais deve ser negligenciado entre nós
• Que o Grande Arquiteto do Universo nos auxilie, na tarefa de manter nossas
mãos limpas até nossos próximos trabalhos, para que orgulhosamente,
possamos novamente calçar nossas luvas
O Grupo Adonhiramita de Estudos foi idealizado por
maçons praticantes do Rito. Agrega Irmãos de todos os
Ritos, de todos os Graus e Qualidades, membros de
Potências Simbólicas Regulares, unidos pelo propósito
de fomentar a pesquisa, a troca de conhecimento, e o
debate sobre nossa Doutrina, história, ritualística e
liturgia.
Os temas tratados se referem ao Grau de Aprendiz.

Todos são bem-vindos! Caso haja interesse em participar,


basta solicitar a inclusão no chat.
Agradecemos a todos pela participação, e contamos com a
presença em nossas próximas palestras.

Que o Grande Arquiteto do Universo nos guie e ilumine!

BOA NOITE!

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