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*A voz do Volkswagen*

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Ao cantar do galo, o chiado cadente dos pneus do ˝txova˝ fazem um compasso ritmado do seu
motorista na pista do metal fundido e das baterias em desuso todas as manhãs nas entranhas do
subúrbio.

Dia-a-dia“O reboque” do precioso metal atravessa estradas da cidade enveredando-se nos


labirintos das ruelas de KAMUBUKWANE como se de um forasteiro se tratasse sob comando
de dois indivíduos. Não há relevo capaz de impedir a força humana investida pelos condutores;
ambos ilustram uma compostura física saliente e vigorosa, doravante revelam uma rispidez no
seu tom de voz ao anunciar sua prestação de serviços ambulante. Lado a lado, os distintos
condutores despertam a atenção dos habitantes soltando uma algazarra descompassada “A
mabataria ya ku bola ni tisimbi ha xava halenu”. Um grupo de crianças escorteja a carinha aos
saltos e põe-se a imitar em sinfonia a mensagem anunciada. A marcha dos recolectores do metal
é uniforme, sua voz não cessa, mas sim desvanece nos ouvidos dos habitantes e dos transeuntes
que cruzam o caminho com a ilustre Volkswagen ambulante. Na margem frontal bem no topo do
móvel duplo, uma placa de matrícula estrangeira “GP” (Gauteng Province) encontra-se fixa.
Contudo, o veiculo nunca é mandado parar pela polícia de trânsito para apresentar sua licença de
circulação, tal como acontece com outros meios de transporte; Licença de circulação? Para
alguns soa parvoíce, mas agora questiono qual seria a diferença entre outros meios de transporte
e o móvel em causa? O transporte público é responsável por carregar passageiros, do mesmo
modo fazem-no a motocicleta e outros meios de transporte assim sendo essa viatura é
exclusivamente responsável por carregar baterias, ferros e outros metais pesados, e ainda por
cima com dois motoristas sem carta de condução, será que haveria sombra de dúvidas para uma
intervenção de direitos de trânsito? Embora a carga (metais e outros objectos pesados) seja
desprovida de alma questionar-se-ia a sua proveniência, porem isso não vem ao caso.
Mas voltando ao veículo, nota-se um desgaste notável dos seus pneus de marca da empresa
oriunda da potencia americana de produção de rodas (Goodyear) outrora aparentemente usados
em um veículo de marca “IZUZU KB” tal como ilustram as suas jantes; na parte inferior vem as
escritas com o símbolo “VW” (Volkswagen) com letreiros de tinta colorida de um amarelo
pálido. A carinha exibi uma trajectória débil de suspensão, obviamente pelo peso da carga
desmedida imposta pelos seus condutores que norteiam seus passos sem destino, aliás eles,
diariamente peregrinam com finalidade de regressar às sucatas com metais e outras cargas de
valor estimado como exemplo, o cobre e ferro. Na carga contem ainda objectos recicláveis
(peças de electrodomésticos ainda em bom estado) e noutras ocasiões podendo ainda conter
material de construção para alguns clientes que ao invés de receberem o valor pagam para obter
tais objectos com finalidade de reaproveita-los.

É indubitável a falta de higiene à vista, como revelam seus trajes em farrapos untados de óleo de
motor entre outras resinas sintéticas (substâncias e ou produtos com aspecto resinoso e
propriedades mecânicas). Seus pés suados naturalmente calejados tornam salientes as fissuras
tatuadas nos seus calcanhares. Denota-se um cansaço nos braços ásperos do condutor que
percorrera a jornada matinal até ao meio dia e o parceiro que desempenhara a função de
anunciante passa para o controle do móvel e consequentemente o anterior passa a ser o
anunciante como forma de “recarregar suas baterias”.

O sol vai esgueirando-se no ocaso e o peso da carga sufoca os pneus e o motorista no comando
com o seu parceiro, ofegantes trocam olhares e a jornada chega finalmente ao fim…. “Por hoje é
tudo, amanhã tem mais”

TODOS DIREITOS RESERVADOS AO AUTOR

Lénio Paulo Muhate

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