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MOVIMENTO DOS ECONOMISTAS PELA DEMOCRACIA E CONTRA A

BARBÁRIE

O Brasil está mergulhado em uma crise profunda, com múltiplas dimensões. Na


economia, trata-se de uma estagnação sem precedentes em nossa história, um enorme
retrocesso. Temos um processo inflacionário que impõe pesadas perdas aos mais
pobres. O governo de Jair Bolsonaro implantou um projeto autodestrutivo, que
aprofundou a regressão de nossa estrutura produtiva, privilegiou ainda mais o rentismo
e os grandes interesses financeiros, e nos levou às portas da barbárie, que assumiu a
forma de desmantelamento do arremedo do Estado Nacional Soberano construído a
duras penas. As instituições foram enfraquecidas, os pilares do Estado Democrático de
Direito foram ameaçados.

O presidente, em vários momentos, tentou viabilizar um golpe, buscou intimidar o


Supremo Tribunal Federal (STF), acenou com a possiblidade de questionar os resultados
das eleições em 2022 no intuito de negar aos brasileiros e brasileiras o direito de eleger
seus representantes, ao mesmo tempo em que tenta persistentemente violar a
liberdade de expressão daqueles contrários ao seu projeto. Além de fragilizar a
sociedade brasileira, as atitudes de Jair Bolsonaro geram instabilidade política, tornam
o país um pária na comunidade internacional e afetam negativamente a economia.

O desmonte de economia nacional é notório. Os investimentos públicos foram travados,


reduzidos ao seu menor valor. Políticas públicas voltadas para educação, ciência e
tecnologia, preservação ambiental e de garantia dos direitos humanos foram
abandonadas. Os programas de transferência de renda foram instrumentalizados para
fins eleitorais e fragilizados, e não alcançam toda a população que deles necessita.

A política de valorização do salário mínimo iniciada na segunda metade dos anos 90 , e


ampliada a partir de 2003, não só foi abandonada, como, pela primeira vez em 25 anos,
o Presidente da República irá entregar ao final do seu mandato um salário mínimo
inferior, em termos reais, ao que recebeu no momento da sua posse. No mercado de
trabalho, aumenta o número dos sem carteira, dos trabalhadores autônomos sem
formalização, dos empregados em jornada de trabalho parcial, daqueles com contrato
por tarefa ou empreitada, além dos trabalhadores que têm seu trabalho e sua renda
comandada por aplicativos, que leiloam o trabalho ao menor preço.

A saúde foi fortemente debilitada, em um dos momentos em que mais precisamos do


setor em nossa história. O governo Bolsonaro eximiu-se da responsabilidade de
coordenação das ações e desprezou as indicações da ciência para minorar os efeitos da
pandemia de Covid-19. Como resultado tivemos mais de 10% da mortes mundiais, sendo
que representamos 2,7% da população mundial. Os danos para o futuro do país são
incomensuráveis. A tragédia da escalada do desemprego combinada com a redução da
renda média dos trabalhadores coloca no horizonte o risco de uma pandemia de fome,
ao lado de uma pandemia sanitária ainda não debelada.

A política de Bolsonaro visa desregulamentar as atividades econômicas, dar autonomia


para que as empresas privadas, muitas delas oligopólios, se autorregulem, e se vejam
livres das leis de proteção socioambiental. Visa ainda privatizar as empresas públicas,
enfraquecer o que ainda resta de bancos públicos, vender os ativos do Estado na bacia
das almas, reduzir os direitos dos trabalhadores, privatizar e/ou terceirizar a educação
e a saúde em todas as etapas, condenar o País ao atraso e à subordinação aos interesses
do capital externo.

A frente de expansão do capitalismo dependente brasileiro passa a girar em torno do


agronegócio, em especial o complexo de grãos e carnes, estimulados pela dinâmica
internacional, do extrativismo mineral com tudo que lhe é inerente: devastação
ambiental, inclusive através do uso intensivo de agrotóxicos, social e cultural,
permanentemente sob conflito em torno da ocupação e uso da terra. Uma economia
neocolonial, baseada na produção de mercadorias para o mercado internacional, uma
base produtiva que se reprimariza e se desindustrializa.

Na área externa, a política do governo é de renúncia à soberania nacional, abertura


indiscriminada ao capital estrangeiro e às importações, adesão a padrões de política da
OCDE que não nos servem, e que podem contribuir para destruir o que resta da indústria
nacional, esvaziamento dos acordos regionais como o Mercosul. e comportamento
irresponsável em relação ao papel do país no enfrentamento às mudanças climáticas.

O projeto político de Bolsonaro é de implantação de um sistema político autoritário,


uma ditadura neofascista que pretende se perpetuar armando as polícias e milícias para
concretizar sua aspiração de poder.

Nós, economistas que subscrevemos este manifesto, entendemos que a superação


desse quadro exige uma união em defesa da democracia, dos direitos humanos e da
Constituição de 1988. Um pacto em defesa da civilização e contra a barbárie,
multipartidário, o mais amplo possível, como expresso na frente partidária que lançou
a pré-candidatura Lula/Alckmin.

Defendemos que um novo governo democraticamente eleito tem que se pautar em


reformas que ampliem e garantam direitos sociais, ambientais e trabalhistas, que se
adequem à era digital e estejam em sintonia com princípios democráticos e com o
potencial do novo e real no mundo do trabalho.

Para recuperar o crescimento e colocar o Brasil na trilha de um país mais justo, menos
desigual, ambientalmente sustentável e mais próspero, esperamos do futuro governo:

• Promover uma Reforma Política baseada nos princípios de fortalecimento dos


partidos políticos e aumento da participação popular por meio de plebiscitos,
referendos e conselhos setoriais deliberativos;
• Extinguir o teto de gastos e criar uma nova regra fiscal que compatibilize a
sustentabilidade de médio e longo-prazo da dívida pública, essencial para
administrar a fragilidade financeira do Estado Brasileiro, com o aumento
necessário dos gastos com educação, saúde, assistência social, cultura e políticas
de apoio a negros, povos tradicionais, mulheres, juventude e LGBTQIA+;
• Reativar os conselhos de políticas públicas que foram extintos na gestão
Bolsonaro, e em especial retomar o funcionamento pleno do CONSEA e dos
instrumentos nacionais de combate à fome e à miséria, das políticas de estoques
reguladores e de preços mínimos, e do forte apoio à agricultura familiar;
• Promover uma mudança profunda na política econômica, social e ambiental cujo
caráter ortodoxo, neocolonial, neofacista, aprofunda as tendências à estagnação
econômica e exacerba as múltiplas desigualdades – de renda e riqueza, regional,
de raça/etnia e de gênero no mercado de trabalho;
• Promover rapidamente uma Reforma Tributária Ampla e Estrutural que vise
atender como objetivos: (i) aumentar fortemente a progressividade da carga
tributária por intermédio da taxação de lucros e dividendos distribuídos, revisão
da “pejotização” e aumento dos impostos sobre propriedade e redução da carga
tributária sobre o consumo dos mais pobres; (ii) estabelecer a equidade
horizontal entre os setores de atividade econômica, reduzindo a carga tributária
sobre a indústria de transformação e aumentando a carga tributária sobre o
agronegócio e o setor de serviços;
• Modernizar, reestruturar e democratizar o Estado colocando no centro de sua
agenda os objetivos de garantir a vida, o bem-viver e a sustentabilidade com
visão de longo prazo;
• Desenhar e implementar programas emergenciais de obras públicas em
infraestrutura, e serviços públicos, em articulação com estados e municípios para
geração de trabalho e renda e incentivo às economias locais;
• Construir sólido programa de investimentos em infraestrutura econômica, urbana e
social, com destaque para iniciativas que reduzam desigualdades sociais e regionais;
• Fortalecer o BNDES e os bancos públicos como financiadores de projetos para a
retomada e modernização tecnológica da indústria, nesse momento muito
defasada em nível internacional devido à falta de investimentos. Esse
financiamento deverá estar atrelado a metas concretas de melhoria da
competitividade nos mercados internacionais e a metas de sustentabilidade
social e ambiental, inclusive de redução de emissão de CO2. É preciso que as
autoridades monetárias voltem a ter capacidade de, se necessário, usar suas
taxas para favorecer o investimento e o esforço contracíclico, além de privilegiar
setores e atividades que sejam intensivos em benefícios para toda economia.
Importante também fortalecer o apoio aos pequenos negócios e às médias,
pequenas e micro empresas;
• Fortalecer o serviço público nacional, respeitando e valorizando os direitos das
servidoras e servidores, buscando desfazer privilégios acumulados no último
período, em especial no Judiciário e nas Forças Armadas, e recuperando a
capacidade indutora e de planejamento do Estado Brasileiro;
• Revisitar modelos de implementação de políticas públicas, atualizando-os face
aos desafios e oportunidades associados aos novos padrões técnicos da era do
conhecimento e a avanços do processo de reconstrução do Estado.
• Tomar medidas imediatas de combate à fome e à insegurança alimentar e
nutricional;
• Retomar a política de valorização do salário mínimo;
• Revisar as Reformas Trabalhista e Previdenciária com base na negociação entre
trabalhadores, empresários e governo;
• Dar suporte técnico e financiar a agricultura familiar, o estabelecimento de
estoques reguladores e a comercialização dos produtos visando à redução da
carestia, à garantia da segurança alimentar e à melhoria da renda dos pequenos
produtores rurais;
• Incentivar a economia solidária, o associativismo, o cooperativismo, os arranjos
produtivos locais e projetos de desenvolvimento territorial urbano e rural;
• Garantir o acesso aos direitos humanos, ao trabalho e a uma vida decente.
Combater o racismo, o sexismo e o patriarcado criando medidas afirmativas e
mecanismos institucionais para que pessoas e grupos discriminados possam
superar a pobreza e ter acesso a trabalho e existência dignos;
• Rever a política de paridade de preços internacionais dos combustíveis por
intermédio da retomada da produção nacional de derivados de petróleo,
fortalecendo a Petrobras como uma empresa de energia indutora do
crescimento e desenvolvimento nacional;
• Retomar o controle estatal da Eletrobras e priorizar a expansão de energias
renováveis, mantendo o setor público no controle da matriz energética do país;
• Desenvolver uma política ambiental comprometida com a sociobiodiversidade,
a defesa do meio ambiente e a solução das questões climáticas. Garantir os
direitos dos povos originários definidos constitucionalmente e o
reconhecimento de seus conhecimentos, aderente às medidas de proteção das
riquezas naturais do país. Apresentar plano de transição justa para uma
economia verde, baseado na biotecnologia, indústria 4.0, internet das coisas,
promovendo mudanças no atual padrão de mobilidade urbana, e buscando a
recuperação de áreas degradadas e complexo industrial da saúde;
• Aumentar fortemente o investimento em ciência, tecnologia e inovação mirando
os patamares observados nos países desenvolvidos;
• Garantir um olhar estratégico para o desenvolvimento regional, em especial para
a Amazônia e o Nordeste, com caráter de inclusão e redução das desigualdades,
mas também de integração dentro de um projeto nacional de desenvolvimento,
a partir dos próprios potenciais regionais. Fundamental aqui também retomar as
negociações com Estados e Municípios, no que tange à dívida pública, buscando
tornar mais justa e sustentável a situação financeira dos níveis subnacionais;
• Retomar e fortalecer a integração regional através do Mercosul e a expansão do
processo na América do Sul e no conjunto da América Latina e Caribe;
• Rever a política externa de forma a recuperar o protagonismo do País nos organismos e
fóruns internacionais e na cooperação sul-sul, especialmente com os países da América
Latina, da África, da Ásia, assim como resgatar e fortalecer os laços com os BRICS.

Nós economistas, que subscrevemos o presente manifesto, temos clareza de que o retorno
do nosso país a uma trajetória de progresso civilizatório passa, necessariamente, pela
eleição de um presidente, de governadores e de representantes legislativos governo que
se oponham firmemente ao governo de Jair Bolsonaro.

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