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Personalidade Teoria e Pesquisa Cap 7 e 8

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A:BORD G�S DE TRAÇOS

À ffi�éJNALIDADE:
ALLPOR'f, EYSlEMTCK E CATTELL

O CONCEITO DE TRAÇO Base biológica


O que é um traço? Psicopatologia e mudança comportamental
Idéias básicas compartilhadas pelos Comentários sobre Eysenck
teóricos de traços A ABORDAGEM A NALÍTICO-FATORIAL DE
A TEORIA DE TRAÇOS DE GORDON TRAÇOS DERAYMOND B. CA ITELL (1905-1998)
W. ALLPORT (1897-1967) A visão de Caltell sobre a ciência
Traços, estados e atividades A teoria da personalidade de Cattell
Tipos de traços Tipos de tl'aços
Autonomia funcional Fontes de dados: dados L, dados Q e dados 0T
Pesquisas idiográficas Resumo
Comentários sobre Allport Estabilidade e variabilidade do comportamento
A TEORIA DE 'fRts FATORES DE Comentários sobre Cattell
HANS J. EYSENCK (191&-1997) A TEORIA DE TRAÇOS: ALLPORT,
Mensuração de traços: análise fatorial EYSENCK E CATTELL
Dimensões básicas da personalidade PRINCIPAIS CONCEITOS
Medidas por questionário REVISÃO
Resultados de pesquisas
Personalidade: teoria e prática

FOCO DO CAPÍTULO
Chris acaba de concluir a sua graduação e de diferentes situações, de modo que se poderia dizer
começar em wn novo emprego em uma cidade nova. que alguém que é sensível e bondoso hoje tam­
Ele se sente solitário e quer conhecer pessoas novas. bém será sensível e bondoso daqui a urn mis. Este
Após hesitar um pouco, ele decide colocar um anún­ capítulo fala dos traços, definidos como disposi­
cio nos classificados. Ele fita a folha de papel em ções irtt�as amplas para se comportar de deter­
branco - o que deveria escrever? Que tipo de carac­ minadas formas. Revisaremos tris teorias e pro­
terísticas da personalidade você escolheria escrever gramas de pesquisa que buscam identificar as di­
a seu respeito? Aqui está uma possibilidade: mensões básicas de traços da personalidade. Mui­
"lnconvencional, sensível, divertídn,feliz, bem-humoradn, tos pesquisadores de traços utilizam um procedi­
bondoso, esbelto, graduado, 22 anos, busca qualidades se­ mento estatístico particular, a análisefatorial, para
melhantes em alma-gêmea sensata". Alguém que pos­ determinar os traços básicos que formam a per­
sa ser descrito com essa lista de traços realmente pode sonalidade humana. A abordagem de traços é po•
ser um parceiro desejável! p ular na psicologia americana e está enraizada no
Os traços são aquelas características da per­ senso comum e na compreensão popular da per­
sonalidade que se tornam estdveis com o tempo e em sonalidade.

QUESTÕES ABORDADAS NESTE CAPÍTULO


1. Como podemos caracterizar as maneiras con­ explicar a variabilidade do comporlamento ao
sistentes em que os indh•íduos diferem cm seus longo do tempo e em diferentes situações?
sentimentos, pensamentos e cornportam€ntos?
Quantos traços diferentes são necessários para Nos capítulos anteriores, enfatizamos um repre­
descrever adequadamente essas diferenças de sentante importante de cada perspectiva teórica. Neste
personalidade? capítulo sobre a teoria de traços, consideramos as
2. Até que ponto as diferenças individuais têrn idéias de diversos teóric-os. Nos capítulos anteriores,
uma base genética e herdada? foi fácil apontar uma figura importante para repre­
3. Se os indivíduos podem ser descritos segundo sentar cada escola de pensamento. Isso não é tão fácil
os seus traços característicos, como podemos com a teoria de traços.

O CONCEHO DE TRAÇO
As p12Ssoas adoram falar sobre a personalidade. saciados à abordagem de traços consideram os traços
Passamos horas discutindo as características de indiví­ como as principais unidades da personalidade. Obvia­
duos, com.o a irritabilidade do chefe, a alegria do enca­ mente, a personalidade abrange mais do que os traços,
nador e, até mesmo, a lealdade do nosso cachorro. mas eles podem ser claramente vistos no decorrer da
Quando as pessoas falam da persona.lidade, elas história da psicologia da personalidade.
freqüentemente utilizam os traços. Por exemplo, ao
serem solicitados que escrevàn'l a descri.ti.vos da perso­
nalidade de um amigo, muitos estudates n
produz.em O QUE É UM TRAÇO?
urna lista de traços descritivos da personalidade, tais
como simpático, bondoso, feliz, preguiçoso, irritadiço Falando de maneira ampla, os traço.s da perso­
e tímido (John, 1990). Aparentemente, as pessoas pen­ nalidade referem-se a padrões consistentes na forma
sam que os traços são centrais à personalidade. Da como os indivíduos se comportan'I, c-0mo sentem e
mesma forma, os pesquisadores da personalidade as- pensam. Por exemplo, quando descrevemos um indi-
Lawrence A. Pervin e Oliver P. John

víduo como "bondoso", queremos dizer que esse in­ diferenças entre os membros da família. Em outras pala­
divíduo tende a agir de forma bondosa com o passar vras, a diversidade caracteriza o campo. Assim, além da
do tempo (na semana passada e nesta semana) e em definição apresentada acima, é difícil,� não impossí­
situações diferentes (com um vizinho idoso e com o vel, produzir uma d�ção do conceito de traço que
cão manco). Essa definição ampla implica que os tra­ seja aceita de forma geral: "Os traços são muitas coisas
ços podem ter três funções importantes: Eles podem para muitos teóricos'' (Wiggins, 1997, p. 98). De fato, uma
ser usados para resumir, prever e explicar a conduta recente edição do periódico Psychological Inquiry foi
de uma pessoa. Assim, uma das razões para a popu­ dedicada a uma ampla crítica do conceito de, traço
laridade dos conceitos de traços é que eles proporcio­ (Pervin, 1994), seguida de um debate sobre a sua defini­
nam maneiras eéOnômicas para resumir o modo como ção, status conceitua] e fundamentação empírica. Esse
uma pessoa difere de outra; atribuir o traço "bondo­ debate demonstra a diversidade de visões entre os teóri­
so" para uma pessoa resume uma história de muitos � de traços, assim como a vivacidade do campo nesse
atos de bondade diferentes. Os traços contêm a pro­ momento. Iremos retomar a essas questões no Capítulo
messa de permitirem que façamos previsões sobre o 8, quando consideraremos as vantagens e fraquezas das
comportamento futuro da pessoa; a noiva espera que abordagens de traços de um modo geral. Por enquanto,
o noivo bondoso se tome um marido bondoso. Final­ contudo, iremos considerar dois pressupostos básicos
mente, os traços sugerem que a explicação para o com­ compartilhados pela maioria dos teóricos de traços.
portamento da pessoa será encontrada no indivíduo,
e não na situação; uma pessoa bondosa irá agir de
maneira bondosa, mesmo que não haja nenhuma pres­ IDÉIAS BÁSICAS 1COMPARTILHADAS
são situacional ou recompensa externa para que ela o PELOS TEÓRICOS DE TRAÇOS
faça, sugerindo assim, algum tipo de processo ou me­
canismo interno que produza o comportamento. O pressuposto básico da perspectiva de traços é
Essa caracterização ampla geralmente captura a que as pessoas possuem predisposiçê>es amplas, deno­
maneira romo os traços são conc:(?itualizados na atual minadas traços, para responder de maneiras espccífi·
literatura deste campo. Entretanto, ela também é geral e cas. Em outras palavras, conforme mencionado anteri­
encobre inúmeras questões difíceis em que os teóricos ormente, as pessoas podem ser descritas segundo a
de traços diferem. Em outras palavras, embora os teóri­ probabilidade de se comportarem, sentirem ou pensarem
cos de traços sejam parte de uma família de teóricos que de uma maneira particular - por exemplo, a probabili­
compartilham de determinadas idéias, também existem dade de agir de maneira extrovertida e simpática, ou

Nível do traço: Ativo Assertivo BUSGil sensações

Nível habitual
de resposta

Nível específico
de resposta

Figura 7.1 Diagrama representativo da organização hierárquica da perwnalidade: Extroversão-Introversão (E). (Nota.
A extroversão é um lado da dimensão E-1. O outro lado, 1. não está representado aqui). (Adaptado de Eysenck, 1970 e
Eysenck, 1990).
Personalidade: teoria e p rática

de fie-ar nervoso e preocupado, ou de pensar sobre um mais gerais. Por exemplo, pessoas que preferem se reu­
projeto artístico ou uma idéia. As pessoas que possu­ nir com outras pessoas para ler geralmente também se
em uma forte tendência para se comportarem dessa sentem bem em uma festa alegre, sugerindo que esses
forma podem SêI' dêSéritas como altas nesséS traços, dois hábitos podem ser agrupados sob o traço da socia­
por exemplo, alto nos traços de "extroversão11 ou "ner­ bilidade. Para usar outro exemplo, pessoas que agem
vosismo", ao passo que peSSOâS com uma tendência sem pensar primeiro tunbém tendem a gritãt com os
menor de se comportarem dessa forma seriam descri­ outros, sugerindo que esses dois hábitos podem ser
tas como baixas nesses traços. Embora vários teóricos agrupados dentro do traço da impulsividade. Em um
apresentem diferenças quanto à maneira de determi­ nível superior de organização, diversos traços podem
nar os traços que formam a personalidade humana, ser conectados para formar aquilo que Eysenck cha­
todos eles concordam que os traços são partes funda­ mou de fatores secundários, superiores ou superfatores.
mentais da personalidade humana. A maneira como descobrimos esses traços e determi­
Além disso, os teóricos de traços concordam que namos a organização hierárquica da personalidade será
o comportamento e a personalidade humana podem discutida brevemente. O importante aqui é reconhecer
ser organizados em uma hierarquia. Uma ilustração que a conceitualização da personalidade organiza-se
desse ponto de vista é apresentada no trabalho de em níveis diversos.
Eysenck (Figura 7.1). Eysencksugere que, em seu nível Em suma, as teorias de traços sugerem que as
mais básico, o comportamento pode ser considerado pessoas possuem predisposições amplas para respon­
de acordo com respostas específicas. Contudo, algu­ der de certas maneiras e que a personalidade possui
mas dessas respostas são conectadas e formam hábitos uma organização hierárquica.

A TEORIA DE TRAÇOS DE GORDON W. ALLPORT (1897-1967)


Gordon W. Allport provavelmente será lembra­ do, ele deu início a um pro­
do mais pelas questões que levantou e pelos prinápi­ fWldo pensamento. Eu com­
os que enfatizou do que por uma teoria particular. preendi que ele estava acos­
Durante sua longa e influente carreira, ele enfatizou tumado com defesas neuró­
os aspectos humanos, saudáveis e organizados do ticas e que a minha motiva­
ção manifesta (um tipo de
comportamento. Isso se opõe a outras idéias que
curiosidade e ambição rude
enfatizavam os aspectos animalísticos, neuróticos, da juventude) escaparam à
mecânicos e n�laôonados com a redução da tensão sua percepção. Para o pro-
do comportamento. Nesse sentido, ele foi um crítico gresso terapêutico, ele teria Gordon w. Allport
de certos aspectos da psicanálise e gostava de contar que romper as minhas defe-
a seguinte história: Enquanto viajava pela El.l!I'opa, aos sas, mas acontece que o progresso terapêutico não esta­
22 anos de idade, Allport decidiu que seria interes­ va em questão aqui. Essa experiência me ensinou que a
sante visitar Freud. Quando entrou.no consultório de psicologia profunda, com todos os seus méritos, pode
Freud, foi recebido com silêncio, pois freud esperava ir fundo demais e que os psicólogos deveriam reconhe­
para saber qual era a sua missão. Por não estar prepa­ cei completamente os motivos manifestos antes de mer­
gulhar no inconsciente.
rado para aquele silêncio, Allport decidiu começar
uma conversa.informal com a descrição de um garoto Fonte: Allport, 1967, p. 8.
de quatro anos com fobia à sujeira, que ele teria en­
contrado no trem. Após completar a descrição do me­ Um aspecto particularmente engraçado desse
nino e de sua mãe compulsiva, Freud perguntou: "E episódio é que Allport realmente era uma pessoa que
o garotinho era você?" Allport descreve sua resposta era muito meticulosa, pontual, asseado e organizado
da seguinte maneira: -possuindo muitas das características que Freud as­
sociava à personalidade compulsiva. De fato, talvez
Chocado e sentindo�me culpado, tentei mudar de as­ Freud não estivesse tão errado em sua pergunta quan­
sunto. Apesar do mal-entendido de Freud ser engraça- to Allport sugeriu.
Lawrence A. Pervín e Oliver P. John

As primeiras publicações de Allport, escritas TIPOS DE TRAÇOS


com seu irmão mais velho, Floyd, enfocavam os tra­
ços como aspectos importantes da teoria da perso­ Allport fez uma distinção entre traços cardeais,
nalidade (Allport e Allport, 1921). Allport acredita­ traços centrais e disposições secundárias. Um traço
va que os traços são as unidades básicas da peISona­ cardeal expressa uma disposição que é tã,o penetran­
lidade. Segundo ele, os traços realmente existem e te e marcante na vida de uma pessoa que virtualmen­
são baseados no sistema nervoso, Eles representam te todos os atos sofrem a sua influência. Por exemplo,
disposições generalizadas da personalidade que ex­ falamos da pessoa maquiavélica, devido à represen­
plicam regularidades no funcionamento da pessoa tação de Nicc,olà Machiavelli do regente bem-sucedi­
em situações diferentes e com o passar do tempo. Os do da Renascença; da pessoa :sádica, devido ao Mar­
traços podem ser definidos de acordo com três pro­ quês de Sade; e da personalidade autoritária, que vê
priedades-freqüência, intensidade e variedade dt situa­ quase tudo de maneira estereotipada, preto no bran­
ções. Por exemplo, uma pessoa muito submissa seria co. As pessoas geralmente possuem poucos traços
submissa com freqüência em uma ampla variedade cardeais ou nenhum. Os traços centrais (por exem­
de situações. plo, a honestidade, a bondade, a assertividade) expres­
sam disposições que cobrem uma variedade mais li­
mitada de situações do que ocorre com os traços car­
TRAÇOS, ESTADOS E ATIVIDADES deais. Os traços secundários representam disposições
que são menos conspícuas, generalizadas e consisten­
Em uma análise hoje considerada clássica de tes. Em outras palavras, as pessoas possuem traços
descritores da personalidade, Allport e Odbert (1936) com graus variados de significância e generalidade.
diferenciaram características da personalidade de ou­ É importante reconhecer que Allport não disse que
tras importantes unidades de análise na pesquisa da um traço é expresso em todas as situações, independen­
peISonalidade. Allport e Odbert definiram os traços temente das característi
. cas da situação, De fato, Allport
como "tendências determinantes generalizadas e per­ reconhecia a importância da situação em explicar por
sonalizadas-modos consistentes e estáveis de ajuste que uma pessoo não se comporta da mesma forma o
de um indivíduo ao seu ambiente" (1936, p. 26). As­ tempo todo. Ele escreveu: "os traços são freqüentemente
sim, os traços distingtiem-se de estados e de ativida­ estimulados em uma situação, e não em outra" (Allport,
des que descrevem aqueles aspectos da personalida­ 1937, p. 331). Por exemplo, pode-se esperar que mesmo
de que sã,o temp,orários, breves e causados por cir­ as pessoas mais agressivas múdifiquem o seu comp,or­
cunstâncias externas, Chaplin, John e Goldberg (1988) tamento, se a situação exige um comportamento não­
replicaram as classificações de descritores da perso­ agressivo, e que a pessoo mais introvertida se comporte
nalidade em rrês categorias propostas por Allport e de maneira extrovertida em certas situações. Um traço
Odbert: traços, est.ados, e atividades. A Tabela 7.1 lis­ expressa o que a pessoa geralmente faz em muitas situa­
ta exemplos de cada uma das três categ,orias. Por ções, e não aquilo que será feito em uma situação especí­
exemplo, enquanto uma pessoa púde ser gentil ao lon­ fica. Segundo Allport, os conceitos de traço e de situação
go de sua vida, uma obsessão (um estado interno) nor­ são :neces.sários para compreender o comportamento, e
malmente não dura m uito, e até mesmo a farra mais o reconhecimento da importância da situação é necessá­
alegre chega ao fim. rio para explicar a variabilidade do comportamento,

Tabela 7.1 Exemplos prototípicos de traços, estados e atividades


Traços Estados Atividades
Gentil Apaixonado Farrear
Dominador Satisfeito Fanfarrear
Coníiante Bra\Kl Bisbilhotar
Tímido Revigorado Olhar com malícia
Astuto Excitado Festejar
Personalidade: teoria e prática

AUTONOMIA FUNCIONAL PESQUISAS IDIOGRÁFICAS


Allporl é conhecido por sua ênfase não apenas Finalmente, Allporl é conhecido por sua ênfase
nos traços, mas também no conceito de autonomia na singularidade do indivíduo. Allport enfatizava a
funcional. Esse conceito sugere que embora os moti­ utilidade da pesquisa idiográfica, ou o estudo
vos de um adulto possam ter raízes nos motivos rela­ aprofundado dos indivíduos, com o propósito de apren­
cionados com a redução da tensão da criança, o adul­ der mais a respeito das pessoas de um modo geral Uma
to cresce e se libera deles, tomando-se independente parte dessa pesquisa implica o uso de materiais que
dl'.!sses esforçosiniêiáis para reduz.ir a tensão. Aquilo sejam únicos daquele indivíduo. Por exemplo, Allport
que originalmente começou como um esforço para publicou 172 cartas de uma mulher que proporciona­
reduzir a fome ou a ansiedadl'.! pode se tornar uma vam a base para a caracterização clínica. de sua peiso­
fonte de prazer e motivação por si só. O que começou nalidade, assim como uma análise quantitativa. Outra
como uma atividade projetada para ganhar dinheiro parle da pesquisa idiográfica impliéá utilizar as mes­
pode se tornar um agradável fim em si mesmo. Em­ mas medidas para todas as pessoas, mas comparar os
bora o trabalho árduo e a busca da perfeição possam resultados de um indivíduo em uma escala com os seus
ser motivados originalmente por um desejo de apro­ resultados em outras escalas, ao invés de compará-los
vação dos pais e de outros adultos, ele,s podem se tor­ com os resultados de outras pessoas ern cada escala.
nar fins valorizados por si só - perseguidos indepen­ Por exemplo, pode ser importante saber se wna pessoa
dentemente de serem enfutizados por outras pessoas. valoriza estar com outras pessoas mais ou :menos do
Assim, "aquilo que urna vez era extrínseco e instru­ que adquirir posses, wna comparação interna do mdi­
mental torna-se intrínseco e estimulante. A atividade víduo. Isso pode ser mais importante do que saber se
servia a um impulso ou a alguma necessidade sim­ aquele indivíduo valoriza estar com pessoas mais ou
ples; agora ela serve a si mesma, ou, em um sentido menos do que outra pessoa ou se valoriza adquirir pos­
mais amplo, serve ao autoconceito (o self ideal) da pes-­ ses mais ou menos do que outras pessoas, ambas sen­
soa. A infância não está mais no comando, a. maturi­ do comparações entre pessoas. Esse aspecto da abor­
dade sim" (Allport, 1961, p. 229). dagem idiográfieat leva a uma ênfase no padrão e na

Autonomia funcional: às vezes, uma pessoa pode escolher uma ocupação por uma razão, como a segurança do
emprego, e depois permanecer nele por outros motivos, como o prazer na própria atividade.
Lawrence A. Pervín e Oliver P. John

organização de traços internos da pessoa ao invés de interesses variavam amplamente dentro da psicolo­
uma ênfase em como aquela pessoa se comporta em gia social e da personalidade. Ele levantou muitas
cada traço com relação a outras pessoas. Finalmente, a questões críticas e discutiu o conceito de traço com
ênfasé de Allport na singularidade do indivíduo o le­ tal equilíbrio e sabedoria que ainda hoje pode ser lido
vou a sugerir que existem traços únicos de cada pessoa de forma proveitosa (p.or exemplo, John e Robins,
que não podem ser capturados pela ciência. A ênfase 1993). Assim, por exemplo, Allport (1961) súger12 que
de Allport na abordagem idiográfica à pesquisa foi im­ o comportamento geral!mente expressa a ação de mui­
portante e está readquirindo popularidade (Pervin, tos traços,que disposições conflitantes podem existir
1983). Entretanto,essafuúase em traçosúnirosfoiinter­ dentro da pessoa e que os traços são expressos em
pretada de forma a significar que a dfncia da personali­ parle pela seleção de situações pela pessoa, ao invés de
dade não era algo possível e resultou em consideráveis sua resposta a situações. Embora Allporl enfatizasse o
controv&sias qu12 não ajudaram o c.ampo a progredir. conceito de traço e tentasse esdarocer a sua relação
com a situação, ele conduziu poucas pesquisas para
estabelecer a existência e utilidade de conceitos de tra­
COMENTÁRIOS SOBRE ALLPORT ços específicos. De maneira semelhante, embora acre­
ditasse que muitos traços eram hereditários, ele não
Em 1924, Allport lecionou na primeira discipli­ realiz.ou pesquisas para substanciar essa crença. Para
na sobre a personalidade nos Estados Unidos e, em considerar exemplos desses esforços conceituais e de
1937, publicou Personalíty: a psyclwlogical interpretation, pesquisa, iremos examinar as obras de Hans J. Eysern:k
que, por 25 anos, foi um texto básico no campo. Seus e Raymond B. Cattell.

A TEORIA DE TR�S FATORES DE HANS J. EYSENCK (1916-1997)


Hans J. Eys@nck nasceu na Alemanha, em 1916, quest� que interessavam
e mais tarde fugiu para a Inglaterra para escapar da muito a Eysenck. Eysenck
perseguição nazista. Seu trabalho foi influenciado morreu em 1997, após su­
pelos avanços metodológicos na técnica estatística da pervisionar a republicação
análise fatorial; pélo pensamento de tipologistas corno de três de seus primeiros li­
Jung e Kretschrner; pelas pesquisas sobre a heredita­ vros e logo após concluir o
riedade de Sir Cyril Burt; pelo trabalho experimental seuúltimo livro,Inielligence:
sobre o condicionamento clássico do fisiologista rus­ a newlook(Eysenck, 1998).
so Pavlov; e pela teoria americana da aprendizagem
de Clark HulL Embora seu trabalho inclua uma amos­ Hans J. Eysenck
tra de populações normais e patológicas, sua maior MENSURAÇÃO DE TRAÇOS:
parte foi feita no Instituto de Psiquiatria do Maudsley ANÁLISE FATORIAL
Hospital, na Inglaterra.
Eysenck levava urna vida caracterizada por gran­ Eysenck era rígido em seus padrões para buscas
de energia e produtividade e é um dos psiaólogos mais científic:as e dava grande ênfase à clareza conceituai e
irúluentes e citados do século XX. Ele continuou a pu­ à mensuração. Por essa razão, ele foi consistentemen­
blicar e a palestrar em conferências mesmo após a sua te um dos críticos mais duros da teoria psicanalítica.
aposentadoria. Na década de 1980, ele fundou o perió­ Embora apoiasse a teoria de traços, ele ressaltava a
n
dico PersmUJlity and idividual differences - sendo tam­ necessidade de desenvolver me,didas adeqllladas de
bém seu editor-, um jornal internacional dedicado prin­ traços, a necessidade de desenvolver uma teoria que
cipalmente a pesquisas sobre traços de personalidade, pudesse ser testada e estivesse aberta à prova c-ontrá­
temperamento e bases biológicas da personalidade - ria, e a importância de estabelecer as bases biológicas
Personalidade: teoria e prática

para a existência de cada traço. Eysenck enfatizava a fatorial (sectmdária), Eysenck determina as dimensões
importância de esforços como esses para evitar uma básicas subjacentes aos fatores de traços encontrados
circularidade de explicações sem signifkado, em que na rodada inicial da análise. Essas dimensões repre­
o traç,o é utilizado para explicar cornportarrumtos que sentam fatores secundários ou superfatoiléS. Assim,
servem como base para o conceito de traço em pri­ por exemplo, os traços de sociabilidade, atividade,
meiro lugat. Por exempfo, Jack conversa com outras vivacidade e excitabilidade podem ser agrupados jun­
pessoas porque ele tem um alto nível no traço de soci­ tamente, sob o conceito superior de extroversão (Fi­
abilidade, mas sabemos que ele é alto nesse traço por­ gura 7.1). O termo superfator deixa claro que define
que observamos que ele passa muito tempo conver­ uma dimensão com um lado baixo (introversão) e um
sando com outras pessoas. lado alto (extroversão), de modo que as pessoas po­
A base para a ênfase de Eyscnck na mensuração dem estar localizadas ao longo de vários pontos entre
e no desenvolvimento de uma classificação de traços os dois extremos.
é a técnica estatística da análise fatorial. Em um estu­
do analítico-fatorial, um grande número de itens é
administrado para diversos sujeitos. De que maneira DIMENSÕES BÁSICAS DA PERSONAUDADE
as suas respostas a esses itens estão relacionadas? In­
divíduos que concordam com o item"eu seguidamen­ Em sua pesquisa inicial, Eysenck verificou duas
te vou a festas grandes e barulhentas'' também pos­ dimensões básicas de personalidade, que chamou de
suem uma tendência a concordar com o item"eu gos-­ introversão-extroversão e neuroticismo (emocional­
to de passar o tempo com outras pessoas" e a discor­ mente estável-instável). A relação dessas duas dimen­
dar do item "se eu puder, eu prefuo ficar em casa do sões básicas da personalidade com os quatro princi­
que sair à noite". A análise fatorial é uma técnica esta­ pais tipos de temperamento, distinguidos pelos médi­
tística que consegue identificar grupos, agrupamen­ cos gregos Hipócrates e Galeno e oom uma variedade
tos ou fatores de itens reladonados. Por exemplo, o mais ampla de características da personalidade, é apre­
fator formado por esses três itens é definido por dois sentada na Figura 7.2. A organização hierárquica de ca­
itens de gregarismo em um lado e por um item de racterísticas associadas à extroversão foi apresentada
redusào no outro lado, e assim, sugere que urna di­ na figura 7.1. A dimensão do neuroticismo é definida
mensão relacionada rnrn a sociabilidade é comum a por traços como tenso, mill-iwmorado e baixa auto,.estima.
esses três itens. De acordo com a teoria de traços, exis­ A organização hierárquica de características associadas
tem �truturas naturais na personalidade, e a análise êorn esse fator é apresentada :r'lâ Figura 7.3.
fatorial permite que as detectemos. Se as coisas (variá­ Após a ênfase inicial em apenas duas dimensões,
veis, respostas de testes} covariam, ou seja, se elas Eysencl<. adicionou uma terceira dimensão, que cha­
aparecem e desaparecem óonjuntamente, pode-se in­ mou de psicoticismo. As peS50as altas nessa dimen­
ferir que elas possuem alguma característica comum são tendem a ser solitárias, insensíveis, desinteressa­
por trás delas, que elas pert:encem. ao mesmo aspecto das com relação aos outros e contra os costumes sociais
do funcionamento da personalidade. A análise fatorial aceitos. A organização hierárquica de características
pressupõe que os romportamen.tos que covariãrn no associadas ao fa tor do psiooticismo é apresentada na
indivíduo estão relacionados, A análise fatorial, por­ Figura 7.4. Esses três fatores formam a teoria da per­
tanto, é um dispositivo estatístico para determinar sonalidade de três fatores proposta por Eysenck.
quais comportamentos estão relacionados, mas inde­ Eysencl<. e Long (1986) verificaram que existe consi­
pendentes de ,outros, determinando as unidades ou derável apoio para a existência dessas três dimensões.
elementos naturais da estrutura da personalidade. Elas foram observadas em estudos de culturas dife­
Os fatores de traços tesul'.tantes (por exemplo, rentes, e existem evidências de um componente here­
sociabilidade) podem, então, ser interpretados e no­ ditário cm cada uma delas.
meados considerando a característica que parece co­ Uma melhor apreciação do sistema teórico de
mum aos itens ou comportamentos considerados Eysencl<. pode ser obtida por meio de uma considera­
inter-refacionados. Através de uma outra análise ção mais detalhada de uma dessas três dimensões, a
Lav,rrence A. Pervin e Oliver P. John

INSTÁVEL
Mal-humorado Melindroso
Ansioso Impaciente
Rígido Agressivo
Sóbrio Excitável
Pessrmísta Mutável
Re5e1vado Impulsivo
Anti-social Otimista
Quieto Melancólico Ativo

-INTROVERTIDO--------+-------� EXTROVERTIDO
Passivo Sociável
Fleumático Sangüíneo
Falante
Responsivo
Tranquifo
Confiável Vivaz
Temperamento estável Despreocupado
Líder
ESTÁVEL

Figura 7.2 A relação de duas dimer.sões da personalidade derivada da análise fatorial com quatro tipos gregos de
temperamento. (Eysenck, 7970). Reimpresso sob permissão, Routfedge e Kegan Pauf Ltd, editores.

Figura 7.3 A estrutura hierárquica do neuroticismo (N). (Eysenck, 1990). Reimpresso sob permissão, GuiJford Press.
Personalidade: teoria e prática

Figura 7.4 A estrutura hierárquica do psicoticismo (P). (Eysenck, 7990). Reimpresso sob permissão, Gui/ford Press.

da introversão-extroversão. Segundo Eysenck, o ex­ Medidas por questionário


trovertido típico é sociável, gosta de festas, possui
muitos amigos, necessita de excitação, age sob impul­ Eys.cnck desenvolveu diversos questionários
sos repentinos e é espontâneo. Em comparação com para mensurar as pessoas na dimensão de introversão­
essas cara.cterísticas, a pessoa introvertida tende a ser extroversào - o Maudsley Pmonalily Inventory, o Eywick
quieta, introspectiva, reservada, reflexiva, desconfia­ Personalíty Inventory e, mais recentemente, o Eyserick
da quanto a decisões impulsivas e prefere uma vida PersonaUty Questionnaite. O extrovertido típiêo respon­
ordenada a uma vida cheia de acasos e riscos. derá sim para questões como: as outras pessoas o con-

Introversão-extroversão: Hans Eysenck sugere que uma dimensão básiCõ da personalidade compreende o fato de se as
pessoas tendem a ser antí-sodais, quietas e passivas (introverüdas) ou saciáveis, expansivas e ativas (extrovertidas).
Lawrence A. Pervin e Oliver P. John

sideram muito vivaz? Você seria infeliz se não pudes­ Resultados de pesquisas
se ver muitas pessoas a maioria do tempo? Você
freqüentemente necessita de excitação? Ao contrário Existem outras dift?renças significativas e éom
disso, o introvertido típico responderá sim para estas significado teórico no comportamento associado a re­
questões: Geralmente, você prefere ler do que encon­ sultados variados na dimensão de extroversão­
trar pessoas? Vo� costuma ficar quieto quando está introversão? A extroversão provavelmente seja o tra­
com outras pessoas? Você reflete sobre as coisas antes ço mais estudado d'e todos, em parte porque compor­
de fazer alguma coisa? Outros itens ilustrativos dos tamentos relevantes são relativamente fáceis de ob­
inventários de personalidade Maudsley e Eysencksão servar (Gosling et al., 1998). Uma revisão da dimensão
apresentados na Figura 7.5. Entre eles, estão itens re­ apresenta uma variedade impressionante de resulta­
levantes para o ncuroticismo e uma escala de menti­ dos (Watson e Oark, 19<J7). Por exemplo, os introver­
ras para detectar indivíduos que estão falsificando as tidos são mais sensíveis à dor do que os extrovertidos,
respostas para que pareçam boas, assim corno itens cansam-se com mais facilidade do que os extroverti­
relevantes para a extroversão-introversão. Embora o dos, a excitação interfere em seu desempenho ao pas­
conteúdo e a direção das respostas avaliadas possa so que aumenta o desempenho dos extrovertidos, e
ser óbvia em alguns casos, em outros casos isso não eles tendem a ser mais cuidadosos, mas menos rápi­
ocorre. Além desses questionários, outras medidas dos do que os extrovertidos. As seguintes diferenças
mais objetivas foram criadas. Por exemplo, existem adicionais foram observadas:
indicações de que o "teste do limão" possa ser utili­
zado para distinguir entre introvertidos e extroverti­ 1. Os in.trovertidos apresentam melhores resulta­
dos. Nesse teste, uma quantidade padrão de suco de dos na escola do que os extrovertidos, particu­
limão é colocada na língua do sujeito. Os introvertidos larmente em disciplinas mais avançadas. Além
e extrovertidos diferem na quantidade de saliva pro­ disso, os estudantes que abandonam a faculda­
duzida quando isso é feito. de por urna variedade de razões acadêmicas
tendem a ser extrovertidos, enquanto aqueles
que abandonam por razões psicológicas tendem
a ser introvertidos.
Sim Não 2. Os extrovertidos proferem vocações que envol­
1. Você normalmente toma a inrciativa de
fazer novos amigos?
vam interações com outras pessoas, ao passo
2. As idéias passam por sua cabeça e não o
que os introvertidos tendem a preferir vocações
deixam dormir"' mais solitárias. Os extrovertidos buscam distra­
3. Você tende a ficar em segurldo plano em ção da rotina do emprego, ao passo que os
ocasiões sociaiQ introvertidos apresentam menos necessidade de
4:. Você às vezes ri com urna piada suja? novidade.
5. Você "tende a ser mal-humorado? 3. Os extrovertidos apreciam o humor sexual ex­
6. Você gost a muito de uma boa comida? ____ plícito e agressivo, enquanto que os introver­
7. Quando YOcê fica irritado. você necessita de tidos preferem formas de humor mais intelec­
a.lguérn simpático para conversar a res,peito? __
tuais, como trocadilhos e piadas sutis.
8. Quando era criança, você sempre fazia o
que lhe mandavam imediatamente e sem 4. Os extrovertidos são mais ativos do ponto de
reclamar? vista sexual, no que diz respeito à freqüência e
9. Você norma!mente ma6ltém Nvocê para você parceiros diferentes, do que os introvertidos.
mesmo·. exceto com amigos íntimos? ____ 5. Os extrovertidos são mais sugestionáveis do que
\O. Você freqüentemente decide tarde demais? __ __
os introvertidos.
Nota: Os itens acima seiiam avaliados da seguinte maneira:
Extrcwersão: l sim, 3 não, 6 sim, 9 não; Neuroticismo: Esse último resultado é ilustrado em um estudo
2 sim, 5 sim, 7 sim, 10 sim; fSCTlla dementiras:4 não, 8sim. de uma epidemia de hiperventilação na Inglaterra
(Moss e McEvedy, 1966). Um relato inicial de tontura
F1igura 7.5 Itens ilustrativos para Extroversão, Neuroticismo e desmaios de algumas garotas seguiu-se a um surto
e Escala de Mentiras do Maudsley Personality lnventory e de reclamações semelhantes, em que 85 garotas ne­
Eysenck Personality lnventory. cessitaram ser levadas de ambulância para o hospital
Personalidade: teoria e prática

- "elas estavam caindo como pinos de boliche". Uma extrovertidos escolheram estudar com mais freqüên­
comparação entre as garotas que haviam sido afota­ cia em bibliotecas que proporcionem estímulos exter­
das e as garotas que não haviam demonstrou que, nos do que os introvertidos; (2) os extrovertidos fize­
conforme cs�rado, as garotas afetadas apresentavarrt ram mais intervalos no estudo do que os introvertidos;
níveis mais elevados de neurnticismo e extroversão. (3) os extrovertidos relataram uma preferência por um
Em outras palavras, aqueles indivíduos cujas perso­ nível maior de ruído e por oportunidades mais
nalidades eram mais predispostas à sugestão mostra­ socializáveis enquanto estudavam do que os introver­
ram-se suscetíveis à influência por sugestões de uma tidos (Carnpbell e Hawley, 1982). Os extrovertidos e
epidemia verdadeira. os introvertidos diferem em suas respostas fisiológi­
Finalmente, os resultados de urna investigação cas ao mesmo nível de ruído (introvett:idos apresen­
de hábitos de estudo entre introvertidos e extroverti­ tam munível de resposta maior), e cada um funciona
dos pode ser de particular interesse pãta estudantes m.elhor em s,eu nível de ruído preforido (Geen, 1984).
universitários. A pesquisa examinou se essas diferen­ Uma importante implicaçào dessa pesquisa é que di­
ças de personalidade estariam associadas às preferên­ ferentes projetos ambientais para bibliotecas e unida­
cias diferentes com relação ao local onde estudar e des residenciais podem se adequar melhor às necessi­
como estudar, como seria previsto pela teoria de dades de introvertidos e extrovertidos. Outras carac­
Eysenck. De acordo com a teoria das diferenças indi­ terísticas associadas a estudantes universitários extro­
viduais de Eysenck, foi verificado o seguinte: (1) os vertidos são apresentadas na Tabela 7.2.

Tabela 7.2 Diferenças empíricas €ntre estudantes universitários relacionadas com extroversão-introversão

Em comparação com os introvertidos, os extrovertidos...

Experimentam mais emoções positrJo.s diárias. como alegria. excitação e divertimento


Experimentam mais divertimento quando assistem o mesmo filme cfi\'ertido
Expressam mais emoções positivas e têm maior confiança
Relatam maior felicidade, bem-estar e significado na vida
Interpretam eventos estressantes como desafios
Participam mais em seminários
Fazem mais intervalos no estudo
Estudam em bibliotecas que proporcionem estímulos externos
São menos perturbados por música qu,mdo estud;im
Apresentam menos respostas fisiológicas ao mesmo nível de ruído
Têm um número maior de papéis de liderança
Preferem empregos que envolvam interações com pessoas
Buscam distração âa rotina do emprego e preferem novidades
Possuem um número grande de amigos
Interpretam faces e [in guagem corporal melhor
Relatam menos ansiedade para falar
Vâo a festas com mais frequência
Apreciam humor agressivo e sexual explfcito
1êm mais parceiros amorosos
Passam menos noites de fins-de�emana sozinhos
São mais ativos sexualmente, em freqüência e número de parceiros
Consomem mais álcool
Fumam maís e consideram mais difíál de largar (talvez porque a nicotina seja um estimulante}.
FONTES: Wa:son e Clark. 1997: Gross, 1999.
Lawrence A. Pervin e Oliver P. John

Base biológica funcionamento do sistema nervoso é sugerida como a


base para diferenças individuais nessa dimensão. Nes­
Qual é a fundamentação teórica para essa dimen­ se caso, o principio subjacente é que indivíduos altos
são? Eysenck foi um dos primeiros psicólogos da per­ em neuroticismo respondem rapidamente ao estresse
sonalidade a se interessar pelas bases biológicas dos e apresentam um decréscimo mais lento na resposta ao
traços da personalidade, um tópico tratado em deta­ estresse, uma vez que o perigo tivet desaparecido, do
lhes no Capítulo 9. Ele sugeriu que variaçõ� individu­ que ocone com indivíduos mais estáveis (baixo
ais na dimensão introversão-extroversão refletem dife­ neuroticismo). Embora se saiba menos sobro a base para
renças no funcionam,mto neurofisiológico. Basicamen­ a dimensão do psiooticismo, aqui, tamb6m, uma asso­
te, pessoas introvertidas são mais facilmente estimula­ ciação genética é sugerida, em particular uma associa­
das pelos eventos e aprendem proibições sociais com ção relacionada com a masculinidade. De um modo
mais facilidade do que as extrovertidas. Como resulta­ geral, então, os fatores genéticos desempenham um
do, as pessoas introvertidas são mais contidas e inibi­ papel importante em determinar a personalidade e o
das. Também existem evidências de que os introvertidos oomporta.mento social. De fato, segundo Eysenck, "os
são mais influenciados por punições enquanto apren­ fatores genéticos contribuem com dois terços da
dem, ao passo que os extrovertidos são mais mfluenci­ variância em importantes dimensões da personalida­
ados por recompensas. Eysenck sugeriu que as dife­ de" (1982, p. 28). Pesquisas mais recentes, entretanto,
renças individuais nessa dimensão possuem origens he­ sugerem que dois terços provavelmente seja uma
reditárias e ambientais. D€ fato, diversos estudos de supcrestimativa e que o número é mais próximo de40%
gêmeos idênticos e fratemos sugerem que a hereditarie­ (loehlin, 1992; Plomin, 1994).
dade desempenha um papel importante em explicar
as diferenças entre os indivíduos e seus resultados nessa
dimensão (Loehlin, 1992; Plomin, 1994; Plornin e Caspi, PSICOPATOLOGIA E MUDANÇA
1999). Evidências de que a dimensão de extroversão­ COMPORTAMENTAL
introversão consistentemente aparece em estudos
interculturais, de que as diferenças individuais são es­ A teoria da personalidade de Eysenck está inti­
táveis com o tempo e de que fatores genéticos fazem mamente ligada à sua teoria da psicologia anormal e
uma grande contribuição para essas diferenças indivi­ mudança de comportamento. O tipo de sintomas ou
duais argumentam em favor de uma forte base biol<ó­ dificuldades psicológicas prováveis de serem desen­
gica para as dimensões. De fato, muitos estudos de di­ volvidos estão relacionados com características bási­
versos índices de funcionamento biológico (por exem­ cas da personalidade e com princípios do funciona­
plo, atividade cerebral, taxa cardíaca, nível ihormonal, mento do sistema nervoso. Segundo Eysenc.k, uma
atividade de glândulas sudoríparas) podem ser cita­ pessoa desenvolve sintomas neuróticos por causa da
dos para sustentar essa conclusão (Eysenck, 1990). ação conjunta de um sistema biológico e por causa de
Em suma, a dimensão inmoversão-extroversão experiências que contribuem para o aprendizado de
representa uma importante organização de diferen­ fortes reações emocionais a estímulos que causem
ças individuais no funcionamento comportamental, medo. Assim, a vasta maioria dos pacientes neuróti­
que está enraizada em diferenças herdadas de funcio­ cos tende a ter resultados altos de neuroticismo e bai­
namento biológico. Essas diferenças podem ser des­ xos de extroversão (Eysenck, 1982, p. 25). Em compa­
cobertas através do uso da análise fatorial e de medi­ ração, criminosos e pessoas anti-sociais tendem a ter
das através do uso de questionários e de procedimen­ resultados altos de neuroticismo, extroversão e de
tos de laboratório. psicoticismo. Esses indivíduos apresentam um baixo
Passemos às outras duas dimensões e considere­ aprendizado de normas sociais.
mos brevemente a maneira como a teoria é expandida Apesar do forte componente genético no desen•
para outros cam.pos.Segundo Eysenck, as pessoas com volvimento e manutenção desse tipo de transtornos,
nívcis altos de neuroticismo t€ndem a ser emocional­ Eysenck afirmava que não é necessário ser pessimista
mente instáveis e freqüentemente reclamam de preo­ com relação ao potencial de tratamento: "O fato de
cupações e ansiedade, assim como de dores no oorpo que os fatores genéticos desempenham um grande
(por exemplo, dores de cabeça, problemas estomacais, papel na iniciação e manutenção de transtornos neu­
tonturas). Aqui, também, uma diferença herdada no róticos e também de atividades criminosas é muito
Personalidade: teoria e prática

desagradável para muitas pessoas que acreditam que COMENTÁRIOS SOBRE EYSENCK
esse estado de coisas leva ao niilismo terapêutico. Se
a hereditariedade é tão importante, elas dizem, então, Como condiz a um teórico da abordagem de tra­
claramente, que a modifiéação de quâlqucr tipo de ços, o histórico científico de Eysenck é consistente de
comportamento deve ser impossível. Fssa é uma in­ inúméras maneiras. Entre os asp@ctos positivos d@ seu
terpretação completamente errônea dos fatos. O que histórico, estão os seguintes: (1) Eysenck foi um con­
é geneticamente determinado são predisposições para tribuinte prolífico ern diversas áreas. Além de seu foco
uma pessoa agir e se comportar de uma certa manei­ contínuo nas diferenças individuais e nos princípios
ra, quando colocada cm certas situações" (1982, p. 29). da mudança do comportamento, ele contribuiu para
Da mesma fo rma, 6 possívE?l para uma pessoa evitar o estudo da criminologia, educação, estética, criativi­
certas situações potencialmente traumáticas, desa­ dade, genéliéa, psicopatologia e idrologia política.
prender certas respostas aprendidas ao medo ou Seus testes de personalidade foram traduzidos para
aprender (adquirir) certos códigos de conduta social. muitas línguas estrangeiras e são utilizados em pes­
Assim, apesar de enfatizar a importância de fatores quisas ao redor do mundo. (2) Eysenck enfatizava
genéticos, Eysenck foi um dos principais proponen­ consistentemente o valor de questionários e da pes­
tes da terapia comportamental ou do tratamento sis­ quisa experimental. Referindo-se à discussão de
temático de comportamentos anormais, de acordo Cronbach das duas disciplinas da psicologia científi­
com os princípios da teoria da aprendizagem. ca (Capítulo 2), Eysenck sugere que "sempre olhou
Não iremos estender a discussão de Eysenck so­ essas duas disciplinas de forma alguma como rivais,
bre a terapia comportamental aqui, já que os princípi­ mas como complementares, e de fato, cada uma sen­
os básicos serão abordados no capítu1o que lida com as do essencial para o sucesso da outra" (1982, p. 4). (3)
bases de aprendizagem da personalidade (Capítulo 9). Eysenck conectou suas variáveis de personalidade
Contudo, podemos concluir nossa discussão lembran­ com métodos de mensuração, uma teoria de funcio­
do que Eysenck era um crítico franco e freqüente da namento do sistema nervoso e aprendizagem e uma
teoria e terapia psicanalítica. Em particular, suas críti­ teoria associada de psicopatologia e mudança de com­
cas enfatizavam as seguintes questões: (1) a psicanáli­ portamento. Sua teoria vai além da descrição e pode
se não é uma teoria científica, já que não pode ser nega­ ser testada. (4) Historicamente, Eysenck esteve pre­
da; (2) transtornos neuróticos e psicóticos constituem parado para nadar contra a corrente e defender idéias
dimensões separadas, ao invés de pontos em um contí­ impopulares: "Eu normalmente tenho sido contra o
nuo de regressão; (3) o comportamento anormal repre­ sistema e a favor dos rebeldes. Os leitores que quise­
senta respostas mal-adaptativas aprendidas em vez de rem interpretar isso como alguma tendência oposi­
expressões disfarçadas de conflitrs subjacentes e incons­ cionista herdada, algum ódio freudiano adquirido de
cientes; (4) toda a terapia envolve a aplicação, preten­ substitutos para pais ou alguma outra forma, são bem­
dida ou não, de princípios de aprendizado. Em parti­ vindos. Prefiro pensar que nessas questões, a maioria
cular, a terapia com comportamentos neuróticos envol­ estava errada, e eu estava certo. Porém, é claro que eu
ve desaprender ou extinguir respostas aprendidas pensaria isso; somente o futuro dirá" (1982, p. 298).
(Eysmc.1<, 1979). Segundo EyS€í'lck, a psicanálise geral­ Devido a essas contribuições valiosas, pode-se
mente não é um método eficaz de tratamento e obtém questionar, corno fez um rocente revisor da obra de
sucesso apenas até onde os prindpios da terapia Eysenck, por que Eysenck não foi "universalmente
comportamental são involuntariamente ou acidental­ celebrado por psicólogos de toda parte" (Loehlin,
mente acrescentados pelo terapeuta. 1982, p. 623). Entre as razões para isso, destaca-se a
Mais recentemente, Eysenck (1991) tentou rela­ tendência de Eysenck d@ rej@itar as contribuições de
cionar os traços de personalidade com a probabilida­ outros e exagerar o suporte empírico para o seu pró­
de de desenvolver transtornos, como a doença cardí­ prio ponto de vista {Buss, 1982; Loehlirt, 1982). A mai­
aca e o câncer, e descreveu formas comportamentais oria dos psicólogos familiarizados com a obra de
de terapia que aumentam a longevidade quando es-­ Eysencl< consideram que êla é significativa, mas que
sas doenç,as ocorrem. Esses estudos não são descritos freqüentemente, ele ignora resultados contraditórios
aqui em detalhe porque os resultados permanecem e ignora o poder de resultados positivos. Em relação
controversos e porque eles não se relacioMm de for­ a isso, duas outras afirmações podem ser feitas. Em
ma tão direta com a teoria como seria desejável.
Lawrence A. Pervi.n e Oliver P. John

primeiro lugar, foram propostos modelos alternativos tem que é impossível explicar diferenças individuais
que se encaixam melhor nos dados disponíveis. Nes­ apenas com duas ou três dimensões. Como veremos
se modelo, sugere-se que as diferenças individuais nas na próxima seção, o teórico de traços Cattell sugeriu
dimensoos de impulsividade e ansiedade são críticas que considerássemos um número maior de traços e
(Gray, 1990). Aqui, há uma aceitação dos dados ficássemos no nível dos traços, ao invés de lidar com
enfatizados por Eysenck e da importância de conectar o nível de superfatores da descrição da personalida­
variáveis de personalidade com funções biológicas, de. Finalmente, existem psicólogos que não compar­
mas são enfatizadas diferentes dimensões da perso­ tilham do ponto de vista de traços, questão que ire­
nalidade. Em segundo lugar, muitos psicólogos sen- mos abordar em detalhe no próximo capítulo.

A ABORDAGEM ANALÍTICO-FATORIAL DE TRAÇOS DE


RAYMOND B. CATTELL (1905-1998)

Raymond B. Cattellnasceu em 1905 em Devonshire, Mendcleyev em 1869 levou


na Inglaterra. Ele ronduiu o bacharelado em Química à renovação da atividade
na Universidade de Londres em 1':124. Cattell, então, vol­ ,experimental. Assim como
tou-se para a psicologia e obteve o Ph.D. na mesma uni­ Mendeleyev desenvolveu
versidade em 1929. Antes de ir para os Estados Uni­ uma classificação dos ele­
dos em 1937,.Cattell realizou inúmeros estudos sobre mentos em química, gran­
a pm-sonalidade e adquiriu experiência clinica enquan­ de parte do trabalho de
to dirigia urna clinica de orientação infantil. Ele ocu­ Cattell pode ser considera­
pou importantes posições nas universidades de da como uma tentativa de Raymond B. Cattell
Columbia, Harvard, Clark e Duke. Por 20 anos, foi desenvolver uma classificação de variáveis para a
professor pesquisador de psicologia e diretor do pesquisa experimental da personalidade. Cattell es­
Laboratory of Persona/Uy Assemnent na Univcrsity of perava que a análise fatorial conduzisse a psicologia
Illinois. Durante a sua carreira profissional, ele escre­ à sua própria tabela periódica dos elementos.
veu mais de 200 artigos e 15 livros.
Embora se saiba relativamente pouco das expe­
riências que moldaram a vida e a obra de Cattcll, di­ A VISÃO DE. CATTELL SOBRE A CIÊNCIA
versas influências parecem aparentes. Em primeiro
lugar, o interes.se de Cattell no uso de métodos analí­ Cattell distinguiu três métodos de estudo da
tico-fatoriais na pesquisa da personalidade e sua ten­ personalidade: bivariado, muUivariado e clínico. O
tativa de desenvolver uma teoria hierárquica de or­ experimento bivariado típico, que segue o projeto ex­
ganização da personalidade podem ser relacionados perimental clássico das ciências físicas, contém duas
com suas associações com dois psicólogos britânicos variáveis, uma variável independente - que é mani­
que também influenciaram Eysenck: Spearman e Burt. pulada pelo pesquisador -e uma variável dependen­
Em segundo lugar, as idéias de Cattell sobre a moti­ te - que é medida para observar os efeitos das mani­
vação foram influenciadas por outro psicólogo britâ­ pulações experimentais. Ao contrário do método
nico, WilliamMcDougall. bivariado, o método multivariado estuda as inter-rela­
Seus anos dedicados conjuntamente à pesquisa ções entre muitas variáveis de uma vez. Além disso,
da personalidade e à experiência clínica foram uma no experimento mu1tivariado, o investigador não
terceira influência sobre Cattell. !Esses anos o sensibi­ manipula as variáveis. Ao invés disso, o experimen­
lizaram para os recursos e limitações da pesquisa clí­ tador permite que a vida faça os experimentos e, en­
nica e experimental. Finalmente, a experiência inicial tão, utiliza métodos estatísticos para e-xtrair dimlID­
de Cattell em química iníluenciou grande parte de seu sões significativas e conexões causais. O método da
pensamento posterior em psicologia. Em química, o análise fatorial ilustra o método multivariado. Tanto
desenvolvimento da tabela periódica por Dmitry o método bivariado quanto o método multivariado
Personalidade: teoria e prática

expressam uma preocupação com o rigor científico. do método bivariado. Tanto o clínico quanto o pesqui­
A diferença entre eles é que, no método bivariado, os sador que utiliza o método multivariado estão interes­
experimentadores limitam a sua atenção a poucas va­ sados em eventos globais; ambos estão interessados em
riáveis que possam ser manipuladas de alguma for­ padrões complexos de comportamento, conforme eles
ma, ao passo que nos métodos multivariados, os ocorrem na vida; ambos permitem que a própria vida
experimentadores consideram muitas variáveis, da seja a fonte de :manipulação experimental; e ambos es­
maneira como elas existem em uma situação natural. tão interessados em compreender a personalidade to­
Cattell criticava muito o método bivariado. Mui­ tal, ao invés de processos isolados ou fragmentos de
tas de suas críticas assemelham-se àquelas discutidas conhecimento. A diferença entre o clínico e o pesquisa­
no Capítulo 2, em relação à pesql!.tisa de laboratório. dor multivariado é que, enquanto o primeiro utiliza a
Em primeiro lugar, ele argumentava que a atenção à intuição para avaliar as variáveis e a memória para re­
relação entre duas variáveis representa uma aborda­ gistrar eventos, o último utiliza procedirru:mtos de pes­
gem simplista e fragmentada à personalidade. O com­ quisa sistemáticos e análises estatísticas. Assim, segun­
portamento humano é complexo e expressa as do Cattell, "o clínico possui o ooração no local certo,
interações entre muitas variáveis. Entendendo a rela­ mas talvez possamos dizer que ele permanece um pou­
ção entre duas variáveis, sobra o problema de enten­ co confuso na cabeça" (1959c, p. 45}.
der como elas se relacionam com as outras tantas va­ À luz dessas semelhanças e diferenças, Cattell
riáveis que sã. o importantes para determinar o com­ concluiu que o método clínico é o método multiva­
por tamento. Em segundo lugar, o fato de que os riado, mas sem a sua preocupação com o rigor cientí­
experimentadores que trabalham com o método fico. Em suma,Cattell pensa que o método multivaria­
bivariado tentam manipular a variável independente do combina as qualidades desejáveis dos métodos
significa que eles devem omitir muitas questões que bivariado e clínico (Tabela 7.3}. Para Cattcll, a técnica
são de real importância em psicologia. Como as situ­ estatística mais importante em pesquisa multivariada
ações emocionais mais importantes não podem ser era a análise fatorial, anteriormente descrita na seção
manipuladas, e portanto, não podem ser utilizadas sobre Hans Eysenck. A principal diferença entre os
em experimentos controlados com humanos, o pes­ dois teóricos é que Cattell preferia trabalhar com um
quisador do método bivariado é forçado a lidar com número maior de fatores no ruvel dos traços, que pos­
questões triviais, a buscar respostas no comportamen­ suem uma definição mais limitada, mas tendem a es­
to de ratos ou a buscar respostas na fisiologia. tar correlacionados entre si. Em contraste, Eysenck uti­
Em comparação com o método bivariado, o mé­ lizava a análise de fatores secundários para combi­
todo cl{ni.co tem a vantagem de que os pesquisadores nar traços em. um número menor de superfatores,
podem estudar comportamentos importantes à medi­ que cobrem uma variedade mais ampla de compor­
da que cles ocorrem e também buSéá!t regras para o tamento e tendem a não estar correlacionados. Essa
funcionamento do organismo total. Assim, para finali­ diferença entre Eysenck e Cattell em seu nível prefe­
dades científicas e questões filosóficas, os métodos clí­ rido na hierarquia de traços é facilmente observada
nico e multivariado são próximos en� si e separados na Figura 7.1.

Tabela 7 .3 Descrição de Cattell sobre os métodos de pesquisa bivariado, clínico e multivariado

Bivariado Clínico Multivariado

Rigor científico. Experimentos Intuição Rrgor cientifico, anâlise objetiva e


controlados quantitativa
Atenção a poucas variáveis Consideração de muitas variáveis Coosider.içâo de muitas variáveis
Omissão de fenômenos importantes E-studo de fenômenos importantes E-studo de fenômenos importantes
Simplista, fragmentado Interesse em eventos globais e Interesse em eventos g'.obais e
padrões complexos de -compor­ padrões complexos de compor•
tamento (personalidade total) ta mento (personalidade total)
Lawrence A. Pervin e Oliver P. John

A TEORIA DA PERSONALIDADE DE CATTELL Fontes de dados: dados � dados Q e dados OT


Como descdbrimos traços de origem querubram
Tipos de traços uma variedade de respostas em muitas situações? Onde
O elemento estrutural básie-0 para Cattell é o tra­ encontramos nossos elementos constitutivos? Cattell
ço, que foi anteriormente definido como uma pré-dis­ distinguiu três fontes de dados que são semelhantes à
posição. O conceito de traço pressupõe que o com­ classificação L--0-T-S de fontes de dados discutida no
portamento siga algum padrão e regularidade ao lon­ começo do Capítulo 2: dados da história de vida (da­
go do tempo e em diferentes situações. Entre as mui­ dos L), que incluem dados objetivos de eventos da vida
tas distinções possíveis entre traços, duas são de par­ e avaliações feitas por pares e observadores; dados de
ticular importância. A primeira � aquela entre os tra­ questionários (dados Q), que são baseados em auto­
ços de capaddadt\ traços de temperament,o e os tra­ avaliações; e dados de testes objetivos (dados ITT). Os
ços dinâmicos, e a segunda é aquela entre os traços primeiros, os dados L, relaàonam-se com o comporta­
de superfície e os traços de origem. mento em situações cotidianas reais, como o desempe­
Os traços de capacidade relacionam-se com ha­ nho escolar ou interações com pares. Eles podem ser
bilidades e capacidades que permitem que o indiví­ relatos verdadeiros de comportamentos ou avaliações
duo funcione de forma eficaz. A inteligência é um feitas com base nessas observações. Os segundos, os
exemplo de um traço de capacidade. Os traços de tem­ dados Q, envolvem dados de auto-avaliação ou res­
peramento relacionam-se com a vida emocional da postas a questionários, como os inventários de perso­
pessoa e a qualidade estilística do comportamento. nalidade Maudsley e Eyscnck, discutidos anteriormente
Se o indivíduo tende a operar rapidamente ou lenta­ neste capítulo. Os terceiros, os dadosOT, envolvem pe­
mente, ser geralmente calmo ou emotivo, ou agir após quenassituações oomportamentais em que o sujeitonào
deliberar ou de maneira impulsiva, tudo isso tem a está ciente da relação entre a resposta e a característica
ver com qualidades de temperamento que variam de da personalidade que está sendo medida. Segundo
indivíduo para indivíduo. Os traços dinâmicos rela­ Cattell., se a pesquisa analítico-fatorial multivariada de
cionam-se com a vida motivacional do indivíduo, os fato é capaz de determinar as estruturas básicas da per­
tipos de objetivos que sào importantes para a pessoa. sonalidade, então os mesmos fatores ou traços devem
Considera-se que os traços de capacidade, de tempe­ ser obtidos a partir dos três tipos de dados. Esse é um
ramento e dinâmicos abrangem os principais elemen­ compromisso importante, lógico e desafiador.
tos estáveis da personalidade. Originalmente, Cattell partiu da análise fatorial
A distinção entre traços de superfície e traços de de dados L e encontrou 15 fatores que pareciam ex­
origem r-eladona-se com o nível em que observamos o plicar a maior parte da personalidade. Ele, então, de­
comportamento. Os traços de superfície expressamrom­ terminou se fatores comparáveis poderiam ser en­
portamentos que, em um nfvcl superficial, podem pare­ contrad,os em dados Q. Milhares de itens de questio­
cer conoctados, mas que, de fato, nem Sémprc aumen­ nários foram escritos e administrados para grandes
tam e diminuem (variam) juntos e que não necessa­ números de pessoas normais. Foi realizada uma aná­
riamcmte possuem um.1 causa comum. Um traço de ori­ lise fatorial para determinar quais itens estavam re­
gem, por outro lado, expressa uma as&Xiação entre com­ lacionados. O principal resultado dessa pesquisa é
portamentos que variam em conjunto para formar uma um questionário conhecido como Sixteen Personality
dimensão unitária e independente da personalidade. Factor (16 P.F.) Questionnaire.• Inicialmente, Cattell
Enquanto os traços de sup.n'ficie podem ser descobêrtos criou neologismos, como "surgência", para nomear
através de métodos subjetivos como perguntar às pes­ seus fatores de traços de personalidade, esperando
soas quais características da personalidade elaspensam evitar interpretações eITôneas. Entretanto, os termos
que são conectadas, os procedimentos estatísticos refi­ apresentados na Tabela 7.4 somente capturam os sig­
nados da análise fatorial são necessários para descobrir nificados desses fatores de traços de maneira aproxi­
os traços de origem Esses traços de origem representam mada. Como pode ser visto, eles cobrem uma ampla
os elementos constitutivos da personalidade. variedade de aspectos da personalidade, particular-

• N. de R. Publicado e padronizado no Brasil Cómo questionário de 16 fatores de personalidade - 16 P.F.


Personalidade: teoria e prática

Tabela 7 ,4 Os 16 fatores da personalidade de Cattell, derivados de dados de questionários


Reservado Expansivo
Menos inteligente Mais inteligente
Estável. força do ego Emocionatidade/neuroticismo
Humilde Afirmati1KJ
Sóbrio Alegre
Evazivo Consáencioso
Tímido Ousado
Obstinado Terno
Confiante Desconfiado
Prático Imaginativo
Direto Perspicaz
Plácido Apreensivo
Conservador Experimentador
Dependente do grupo AutMuftciente
Indisciplinado Controlado
Relaxado Tenso

mente em termos de temperamento (por exemplo, dos Le dados Q foram importantes para conduzir o
emocionalidade) e atitudes (por exemplo, conserva­ desenvolvimento de pequenas situações de teste; ou
dor). De um modo geral, os fatores encontrados nos seja, o propósito era desenvolver testes objetivos que
dados Q parecem ser semelhantes àqueles encontra­ mediriam os traços de origem já descobertos. Assim,
dos nos dados L, mas algW1S deles eram mais pecu­ por exemplo, uma tendência a ser assertivo pode ser
liares a cada tipo de dado. Avaliações de dados L e expressa em comportamentos como uma distância
ihms de dados Q ilustrativos para um traço são apre­ exploratória longa em um teste de labirinto com o
sentados na Figura 7.6. dedo, um ritmo rápido no movimento com o braço e
Cattell estava comprometido com o uso de ombro e uma velocidade rápida de comparação de
questionários, em particular questionários derivados cartas. Mais de 500 testes foram construídos para
a partir da análise fatorial, como o 16 P .F. Por outro cobrrr as dimensões de personalidade hipotetizadas.
lado, ele também expressava preocupação com os Esses testes foram administrados em grupos grandes
problemas da distorção motivada e o auto-engano de sujeitos, e a repetida análise fatorial dos dados de
com relação às respostas dadas para questionários. diferentes situações de pesquisa levou à designação
Além disso, ele sentia que o questionário tinha uma de 21 traços de origem a partir de dados OT.
utilidade particularmente questionável com pacien­ Conforme mencionado anteriormente, os traços
tes mentais. Devido aos problemas com os dados Le de origem ou fatores encontrados em dados Le da­
os dados Q e como a própria estratégia original de dos Q poderiam, na maior parte, ser combinados en­
pesquisa exigia investigações com dados OT, os es­ tre si. Como, então, os dados OT correspondem àque•
forços posteriores de Cattell diziam respeito mais à les derivados de dados L e dados Q? Apesar de anos
estrutura da personalidade derivada de dados OT. de esforços de pesquisa, os resultados foram deccpcio­
Os traços de origem, conforme expressos em testes nantes; embora tenha sido verificada uma relaç,ão com
obj,etivos, são a "moeda verdadeira" da pesquisa da todas as três fontes de dados, não foi possívcl realizar
personalidade. Os resultados de pesquisas com da- nenhum mapeamento direto de fatores.
Lawrence A. Pervín e Oliver P. John

TRAÇO DE ORJGEM FORÇA DO EGO VERSUS EMOCIONALIDADE/NEUROTICISMO (DADOS L E DADOS Q}


Avarações de comportamento pelo observador
Força do ego Emocionalidade/neuroticísmo
Maduro \IS. Incapaz de tolerar frustrações
Estável, persistente \IS. 1 nconstante
Emocionalmente calmo \IS. Impulsivamente emotivo
Re;ilista com problemas vs. Evasivo. evita decisões necessárias
Ausênáa de fadiga neurótica \IS. Neuroticamente fadigado (s,em esforço veJdadeiro)
Respostas de questionário•
Você considera difícil aceitar um não como resposta, mesmo quando aquilo q,ue você quer fazer é obviamente impossível?
(a) sim (b) não
Se você tivess.e a sua vida para \liver novamente, você:
(a) desej,m'a que ela fo55e (b) planejaria de forma muito diferente? essencialmente a mesma?
Você frequentemente tem sonhos muito perturbador�?
(a) sim (b) não
Sua disposição, às vezes, faz com que você pare-ça irradonal até para você mesmo?
(a) sim (b) não
Você fica cansado sem ter feito nada que justifique isto?
(a) raramente (b) frequentemente
Você consegue mudar velhos hábitos, sem recaídas, quando decide?
(a) sim {b) não
" resposta em itálico indica força do ego alta.

Figura 7.6, Correwondêncía entre dados de dois diferentes domínios de testes: avaliações de dados L e respostas de dados Q. (Cattell,
1965).

Resumo Nesta seção, descrevemos quatro etapas da Os traços de origem encontrados nos três ti­
pesquisa de Cattell. (1) Cattell procurou definir a es­ pos de observação não completam a formulação de
trutura da personalidade em três áreas de observa­ Cattell da estrutura da personalidade. !Entretanto,
ção, dénominadas de dados L, dados Q e dados OT. os traços apresentados nesta seção descrevem a na­
(2) Ele começou sua pesquisa com os dados L e, atra­ tureza geral da estrutura da personalidade da ma­
v� da análise fatorial de resultados, chegou a 15 tra­ neira formulada por Cattell. Em outras palavr.as,
ços de origem. (3) Guiado em sua pesquisa sobre da­ temos aqui a base para a tabela dos elementos da
dos Q pelos resultados de dados L, Cattell desenvol­ psicologia - seu esquema de classificação. Mas
veu o 16 P.F. Questionnaire, que contém 12 traços que quais são as ev idências para a existência desses tra­
correspondem a traços encontrados na pesquisa com ços? Cattell (1979) citou o seguinte: (1) os resulta­
dados L e quatro traços que parecem peculiares aos dos da análise fatorial de diferentes tipos de da­
métodos de questionário. (4) Utilizando esses resul­ dos; (2) os resultados semelhantes em culturas di­
tados para conduzir a sua pesquisa no de-scnvolvi­ ferentes; (3) os resultados semelhantes em grupos
mcnto de testes objetivos, Cattcll verificou 21 traços de idades diferentes; (4) a utilidade da previsão do
de origem nos dados OT, que parecem ter uma rela­ comportamento no ambiente natural; (5) as evidên­
ção complexa e subordinada com os traços encontra­ ciãs de contribuições genéticas sig nific ãtivãs pata
dos nos outros dados. muitos traços.
Persoruilldade: teoria e prática

APLICAÇÕES ATUAIS
"A COISA CERTA": CARAC'fERÍSTICAS DE EXECUTIVOS BEM-SUCEDIDOS
Algum tempo atrás, Tom Wolfe escreveu um que se tomam chefes executivos e aqueles que não che­
livro sobre a primeira equipe de astronautas ameri­ gam lá freqüentemente é sutil Membros de ambos os
canos. Um grupo formado apenas por homens, que grupos apresentam considerável talento e possuem
sentiam ter a "coisa certa" - a coragem masculina vantagens notáveis, além de algumas fraquezas signi­
necessária para o sucesso como piloto de testes e ficativas. Embora nenhum traço único discrimine en­
com.o astronauta. Outras pessoas tinham as habili­ tre os dois grupos, verificou-se que aqueles que não
dades necessárias, ma s se não tivessem a coisa cer­ alcançam o seu objetivo final possuem as seguintes ca­
ta, eles simp lesmente não teriam sucesso. racterlsticas: eles são insensíveis aos outros, não são
A maioria das ocupações mais difíceis possuem confiáveis, são frios - indiferentes - arrogantes, extre­
o seu próprio tipo de coisa certa - as características ou mamente ambiciosos, mal-hum.orados, explosivos e
traços de personalidade que, além da habilidade, pro­ defensivos. Em contraste, os executivos bem-sucedi­
porcionam o sucesso. Por exemplo, o que é necessário dos são mais caracterii.ados por traços de integridade
para ser um executivo bem-sucedido?De acordo oom e por oompreender os outros.
pesquisas rerentes, a diferença entreexecutivossmiores Na verdade, existe um longo histórico de esfor­
ços para definir as habilidades e qualidades pes.nús
dos líderes. Em um.certo momento, os pesquisadores
começaram a desistir da esperança de encontrar qua­
lidades gerais de liderança. A liderança era conside­
rada inteiramente situacional, sendo que diferentes
qualidades pessoais e habilidades eram exigidas em
diferentes situações. Entretanto, uma recente revisão
da literatura sugere que tocar o dobre fúnebre da abor­
dagem de traços à liderança provavelmente foi pre­
maturo. Certas qualidades gerais, como a coragem, a
constância e a convicção, sobresMem-se. Além disso,
os seguintes traços parecem ser características gerais
de líderes: enérgico, decidido, adaptativo, a�vo,
sociável, realizador e tolerante ao estresse.
Os pesquisadores dos traços, particularmente
aqueles da psicologia organizacional, continuam a
tentar definir aquelas características da personali­
dade que são essenciais para o sucesso em diversos
campos. Uma variedade de testes de personalidade,
incluindo o 16 P.F., são utilizados em muitos aspec­
"A coisa certa": o sucesso em diferentes ocupações exi­ tos importantes da seleção de pessoal.
ge que o indivíduo possua certos traços. Sally Ride foi a
primeira astronauta americana a participar da equipe Fontes: Psychology Today, fevereiro de 1983; Holland,
do ônibus espada/. 1985.
Lawrence A. Pervin e Oliver P. John

Estabilidade e variabilidade do comportamento dois outros conceitos são vitais em tentativas de ex­
plicar a variabilidade no comportamento -estados e
Embora Câttell �tivt?Ss@ inter�do na consis­ papéis. A distinção de Cattell entre estados e traços é
tência do comportamento e na estrutura da persona­ semelhante à de Allport (verTabt2la 7.1). Ele utiliza o
lidade, ele tamb�m se concentrava no processo e na conceito de ,estado para se referir a mudanças emoci­
motivação. Como com os traços anteriores, seus es­ onais e de humor, que são parcialmente determina­
forços para determinar os traços dinâmicos, as fontes das pelo poder provocativo de situações específicas.
rnotivacionais do comportamento, envolveram uma Estados ilustrativos são a ansiedade, a depressão, a
ênfas@ na análise fatorial (Cattéll, 1985). Sua análise fadiga, a excitação e a curiosidade. Enquanto os tra­
das atitudes que as pessoas tomam em situações es­ ços descrevem padrões de ação estáveis e gerais,
pecíficas e os padrões de comportamentos que ocor­ Cattcll enfatizava que a descrição exata de wnindiví­
rem o levou a concluir que a motivação humana con­ duo em um dado momento exige a medição de traços
siste de tendências inatas, denominadas ergs, e moti­ e estados: "Todo o psicólogo praticante-de fato, todo
vos determinados pelo ambiente, denominados sen­ observador iI'lteligente da natureza humana e da his­
timentos. Ergs ilustrativos são a segurança, o sexo e a tória humana -compreende que o estado de uma pes­
auto-asserção. Sentimentos ilustrativos são a religião soa em um dado momento determina o seu compor­
("Eu quero adorar Deus"), a carreira ("Eu quero apren­ tamento tanto quanto os seus traços" (1979, p. 169).
der tknicas exigidas para um emprego") e o auto­ Em outras palavras, o comportamento em uma deter­
sentimento ("Eu jamais quero prejudicar o meu auto­ minada situação não pode ser previsto apenas a par­
rcspcito"). Geralmente, nossas atividades envolvem tir de traços, sem levar em conta se a pessoa está bra­
o esforço para satisfazer muitos motivos, e esforços va, cansada, com medo, e assim por diante.
para satisfazer sentimentos são feitos a serviço dos A segunda influência transiente importante está
ergs ou objetivos biológicos mais básicos. relacionada com o conceito de papel. Segundo Cattell,
Claramente, Cattell não considerava a pessoa certos comportamentos estão mais intimamente liga­
como uma entidade estática ou como se ela se com­ dos a situações ambientais do que a maioria dos fato­
portasse da mecsma forma em todas as situações. A res de personalidade. Assim, costumes e preceitos
maneira como uma pessoa se comporta em um dado morais podem modificar a influência de traços de per­
momento depende dos traços e das variáveis moti.va­ sonalidade de maneira que "todos possam gritar com
cionais relevantes para aquela situação. Além disso, entusiasmo cm um jogo de futebol, com menos entu-

Papel: Cattefl sugere que o comportamento de um a pessoa pode variar de acordo com seu papel em diferentes
situações.
Personalidade: teoria e prá tíca

siasmo em um jantar e de maneira nenhuma na igre­ COMENTÁRIOS SOBRE CAmLL


ja" (1979, p. 250). Além disso, o conceito de papel ex­
pressa o fato de que os mesmos estímulos são perce­ É impossível não se impressionar com o escopo dos
bidos de forma diferente por um indivíduo, de acor­ esforços de Cattell. Suas pesquisas tocaram em quase
do com o seu papel na situação. Por exemplo, um pro­ todas as dimmsões que .apresentamos como relevantes
fossor pode responder de maneira difotente ao com­ para a teoria da personalidade. Cattell foi uma impor­
portamento de uma criança na sala de aula do que tante força no desenvolvimento de novas técnicas
quando não está no papél de professor. rnultivariadas, assim como de técnicas para determinar
Em suma, embora Cattell acreditasse que os fato­ a rontnbuição da genética para a petSõnalidadi?. Para
res da personalidade levártl a um certo grau de estabi­ fazer avançar a pesquisa multivariada, CaHell fundou a
lidade no comportamento em situações diferentes, ele Socitty for Mullimriate Experimental Rt'salrch (SMER) na
também ao@ditava que o humor (estado) da pessoa ê a década de 1960. A maioria dos pesquisadores da perso­
maneira como ela se apresenta em uma dada situação nalidade que trabalham com análise fatorial nos Esta­
(papel) irá influenciar o seu comportamento: "O vigor dos Unidos tomaram-se membros dessa prestigiada so­
com o qual Smith ataca a sua refeição depende não ciedade. Além d.isso, Cattell procurou colocar a sua obra
apenas de sua fome,mas também de seu temperamen­ em uma perspectiva intercultural. Nas palavras de um
to e do fato dele estar jantando com o seu patrão ou admirador: "A teoria de Cattcll é uma realização muito
sozinho em casa" (Nesselroade e Delhees, 1966, p. 58.3). mais impressionante do que normalmente é reconheci­
A teoria de Cattell sugere que o comportamento ex­ da... Parece justo dizer que o modelo original de Cattcll
pressa os traços do indivíduo que operam em uma si­ para o estudo da personalidade resultou em uma estru­
tuação, os ergs e sentimentos associados a atitudes re­ ttrra teórica.extraordinariamente rica, que gtTOu mais pes­
levantes para uma situação e os componentes relacio­ quisas empíricas do que qualquer outra teoria da perso­
nados com o estado e o papel que podem variar de nalidade" (Wiggins, 1984, pp.177, 190).
momento para momento ou de situação para situação. Ao mesmo tempo, muitos psicólogos da perso­
Além de seu interesse na estrutura da personali­ nalidade ignoram o trabalho de Cattell, em parte por­
dade e na dinâmica do funcionamento, Cattell reali­ que questionam a validade dos testes que Cattell utili­
zou pesquisas sobre o desenvolvimento da personali­ zava, sua forte confiança na análise fatorial e sua espe­
dade e da psicopatologia. As primeiras concentram­ culação teórica, que ia muito além dos dados. Além
se principalmente na contribuição relativa de genes e disso, como também ocorria com Eysenck, Catteil
do ambiente para cada traço, as últimas nas diferenças freqüentemente supervalorizava os seus dados. Infe­
de traços entre membros de vários grupos de lizmente, por ser tão comprometido com o seu ponto
pacientes. Em comparação com Eysenck, que se con­ de vista, ele, às vezes, aceitava indevidamente os seus
centrou especificamente na .a plicação da terapia pr6prios esforços e menosprezava os trabalhos de ou­
comportamental ao comportamento anormal, Cattell tras pessoas. Por exemplo, os ganhos das abordagens
não é associado a nenhuma forma particular de clínica e bivariada eram minimizados e os da aborda­
psicoterapia. gem multivariada eram supervalorizados.

A 'TEORIA DE TRAÇOS: ALLPORT, EYSENCK E CATTELL


Na introdução a este capítulo, sugerimos que não amplas. Ao mesmo tempo, existem diferenças impor­
havia um teórico principal de traços e decidimos nos tantes entre eles, na maneira como abordam o estudo
concentrar na pesquisa sobre os tr-aços como uma pers­ dos traços e o lugar da teoria de traços em relação a
pectiva mais geral. O pressuposto básico dessa pers­ outras teorias da personalidade. Uma importante di­
pectiva é que os indivíduos diferem amplamente em ferença nesse sentido diz respeito ao uso da análise
traços de personalidade, ou seja, nas disposições am­ fatorial para determinar o número e a natureza dos
plas para responderem de formas específicas. traços de personalidade. Allport criticava o método,
Allport, Eysenck e Cattell podem ser considera­ enquanto Eysenck e Cattell eram seus grandes pro­
dos teóricos de traços representativos, pois todos eles ponentes. Ao mesmo tempo, enquanto Eysenck
cnfatizam essas diferenças individuais em disposições
Lawrence A. Pervín e Oliver P. John

enfatizava aipen.as três dimensões amplas, Cattell men.te, enquanto Allport e Eysenck criticavam muito
@nfatizava até 20 traços distintos. Allport, é claro, foi a teoria psicarnilitica, Cattell a rejeitava menos.
mais longe do que Cattell, sugerindo que existtem tra­ A questão aqui, então, é que dentro de um ponto
ços peculiares a cada pessoa, abrindo o caminho para de vista comum, permanecem importantes diferenças
a investigação de um número infindável de tr-aços. entre os três teóricos. Apesru: dessas diferenças, a teoria
Além dle qu@stoos relacionadas. com a metodo­ e a pesquisa de traços prumanece sendo uma parte im­
logia e o número de traços, esses três teóricos de tra­ portante do campo dai psicologia por mais de 50 anos.
ços diferem ern sua abordagem ao estudo da motiva­ Como veremos no capftulo seguinte, uma perspocfüra
ção. Enquanto Eysenck não usou o conceito de moti­ de traços mais unificada está emergindo. E, apesar de
vo, Allport e Cattell deixaram espaço em suas teorias ataques periódicos contra os pressupostos fundamen­
para esse conceito e sugeriram que a pesquisa pode­ tais da teoria de traços, ela permanece sendo wna força
ria explorar a relação entro traços e motivos. Final- poderosa no campo da personalidade.

PRINCIPAl'S CONCEITOS
T;aço. Uma disposição para se comportar de l.lmá for­ Extroversão. Na teoria de Eysenck, um lado da di­
ma particular, conforme expressa no comportamento mensão introversão-extroversão da personalidade, ca­
de uma pessoa em uma variedade de situaçõ@S. racterizado por uma disposição a ser sociáv'el, simpá­
Traço éaràeal. O conceito de Allport para uma dispo­ tico, impulsivo e correr riscos.
sição que é tão penetrante e marcante na vida de uma Neuroticismo. Na teoria de Eysenck, uma dimensão
pes.soa que virtual!rnente cada ato pode ser rastreado da personalidade definida pela es.tabilidade e baixa
à sua influência. ansiedade de um lado e pela instabilidade e ansieda­
Traço central. O conceito de Allport para uma dispo­ de alta de outro.
sição para se comportar de maneira particular em uma Psicoticismo. Na teoria de Eysenck., uma dimensão
vari.edade de situações. da personalidade definida por uma tendência a ser
Disposição secundária. O conceito de Allport para �olitário e insensível por um lado e a aceitar costumes
UJma disposição a se comportar de maneira particular sociais e a se interessar por outras pessoas por outro.
que seja relevante para. poucas situações. Método bivariado. A descrição de Cattel!] sobre o mé­
Au.tonomíaftmcional. O oonceito de Allport de que um todo de estudo da personalidade que segue o projeto
motivo pode se tornar independente de sua origem; em experimental clássico de manipular wna variável in­
particular, motivos em adultos podem se tomar m.de­ dependente e observar os efeitos sobre urna variável
pendentes de sua base anterior na redução da tensão. dependente.
Pesquisa idiográfica. Uma abordagem enfatizada por Métodos cl.inicos. A descrição de Cattell sobre o mé­
Allport, em que uma atenç-ão particular é dada ao es­ todo de estudo da personalidade em que existe um
tudo intensivo de indivíduos e à organização de vari­ interesse em padrões complexos de comportamento,
áveis da personalidade em cada pessoa. conforme ocorrem na vida, mas as variáveis não são
Análise fatorial. Um método estatístico para deter­ avaliadas de maneira sistemática.
minar aquelas variáveis ou respostas de testes que au­ Métodos multivariados. A descrição de Cattell sobre
mentam e diminuem em conjunto. Utilizada no de­ o método de estudo da personalidade, favorecido por
senvolvimento de testes de personalidade- e de al6'11- ele, em que existe um estudo das ínter-relações entre
mas teorias de traços (por exemplo, Cattelll, Eysenck). mUJitas variáveis ao mesmo tempo.
Superfator. Um fator superior ou secundário, represen­ Traços de capacidade, de temperamento e dinâmicos.
tando um nível mais elevado de organização de traços Na teoria de traços de Cattell, essas categorias de tra­
do que os fatores iniciais derivados da análise fatorial ços capturam os principais aspectos da personalidade.
Introversão. Na teoria de Eyse:nck., wnlado da dimen­ Traços áe superfície. Na teoria de Cattell, os compor­
são introversão-€xtrove.rsão da personalidade, carac­ tamentos que parecem estar relacionados entre si, mas
terizado por uma disposição a ser quieto, reservado, que de fato não aumentam e não dliminuem juntos.
reflexivo e de evitar riscos.
Personalidade: teoria e prática

Traços de origem.Na teoria de Cattell, comportamen­ Sentimento. O conceito de Cattell para padrões de
tos que variam conjuntam1mte para formar uma di­ comportamento determinados pelo ámbiente, que são
mensão independente da personalidade, que é desco­ expressos em atitudes (isto é, prontidão para agir em
berta átravés do uso de análise fatorial. UI'.tl.a certa direção) e são ligados a ergs subjacentes
Da.dos L Na teoria de Cattell, dados do histórico de (isto é, impulsos bíol6gicos inatos).
vida relacionados com situações da vida cotidiana ou Estado. Alterações emocionais e de humor (por exem­
com avaliações desses comportamento. plo, ansiedade, depressão, fadiga) que Cattell sugeriu
Da.dos Q. Na teoria de Cattell, dados da personalida­ que poderiam influenciar o comportamento de uma�
de obtidos através de questionários, soa em um dado rnomen.to. Sugere-se que a avaliação
Dadcs OT. Na teoria de Cattell, dados de �tes objeti­ de traços e de estados possa prever o comportamento.
vos ou infonnaçues sobre a personalidade obtidos através Papel. Ooomportamento considerado apropriado para
da observação do comportamento em situações simples. o lugar ou status da pessoa na sociedade. Enfatizado
Erg. O conceito de Cattell para impulsos biológioos por Cattell! como uma das inúmeras variáveis que li­
inatos que proporcionam o poder motivador btísico mitam a influência de variáveis da personalidade no
para o comportamento. comportamento em relação a variáveis situadonais.

REVISÃO
1. O conceito de traço representa uma disposição díraria). Contudo, ele também sugere que, atra­
ampla para se comportar de um modo particu­ vés da terapia comportamental, podem ocorrer
lar. Considera-se que os traços estão organiza­ importantes mudanças no funcionamento da
dos em uma hierarquia de respostas espedfica.s personalidade.
a estilos gerais de funcionamento psicol6gico. 5. Cattell distinguiu entre abordagens bivariadas,
2. Allport diferenciou a importância de traços para a multivariadas e clínicas na pesquisa da persona­
personalidade da pesroa rom os cona!ítos de tra­ lidade, fu.vorecendo o estudo multivariado das
ços car<leais, traços centrais e disposições �eáfi.­ inter-relações entre mutasi
variáveis. Cattell tam­
éâS. Allport também é conhecido pclo conccito de bém distinguiu entre traços de capacidade, tem­
autonomia funcional, sugerindo que motivos peramento e dinâmicos, assim como traços de
adultos podem se tomar indepéli.dentes de ráÍZl!S superfície e traços de origem. Os traços de ori­
anteriores, e por sua ênfase na utilidade do estudo gem representam urna associação de comporta­
aprofundadodosindivíduos(pe,,quísaidiográfica). mentos descoberta através do uso de análise
3. Muitos teóricos de traços utilizam a técnica es­ fatorial e são os elementos constitutivos da per­
tatística da análise fatorial para desenvolver sonalidade. Embora seus principais esforços de
urna classificação de traços. A tra vês dessa téc­ pesquisa tenham envolvido o uso de questioná­
nica, um grupo de itens ou respostas (fator) é rios (16 P.F. Questionnnire), ele tentou demonstrar
formado, sendo que os itens de um grupo (fa­ que os mesmos fatores aparecem com o uso de
tor) estão intimamente relacionados entre si e avaliações e testes objetivos. Finalmente, Cattell
distintos daqueles de outro grupo (fator). sugeriu que o comportamento em uma situação
4. Segundo Eysenck, as dimensões básicas da per­ espeófica reflete variáveis motivacionais, como
sonalidade são introversão-extroversão,neuroti­ os ergs e os sentimentos, assim romo influências
cismo e psicoticismo. Foram desenvolvidos mais temporárias, como os estados e os papéis.
questionários para avaliar as pessoas ao longo 6. Teóricos de traços como Allport, iEysenck e Cattell
dessas dimensões de traços. As pesquisas têm­ compartilham de uma ênfase em disposições
se concentrado particularmente na dimensão amplas de réSJ>OSta como sendo centrais à perso­
introversão-extroversão dos traços, a partir da nalidade. Entretanto, suas abordagens diferem de
qual foram verificadas diferenças em nível de muitas maneiras, principalmente com relação ao
atividade 12 preforências de atividad12. Eysenck uso da análise fatorial para descobrir traços e o
sugere que as diferenças individuais em traços número de traços a serem utilizados na descri­
possuem uma base biológica e genética (here- ção da personalidade.
TB0RIA DR TRAÇOS: O MODELO DE
C0 ATéJ. - S - CAÇÕES E
AVALIA,ÃOJ)E ARé)lIDAGENS DE
'DRA(;élS Â �IlRSO ALIDADE

O MODELODE CINCO FATORESDA OCASODEJIM


PERSONAUDADE O 16 P.F. Quest:ionnairt: a teoria analítico-fatorial
Análise de termos da abordagem de traços na de traços
linguagem natural e em questionários Comentários sobre os dados
A hipótese lexical fundamental A estabilidade da personalidade: Jim, 5 e 20 anos
Pesquisa intercultural: as cinco grandes dimensões depois
são universais? Cinco anos depois: auto-avaliação de experiências
As cinco grandes dimensões em questionários de vida e udanças de personalidade
de personalidade Experiblcips de vida
O NEO-PI-R e sua estrutura hierárquica: facetas M� de personalidade
Integração dos fatores de Eysenck e Cattell Vinte anos depois
nas cinco grandes dimensões O modelo de cinco fatores: auto-<.roaliações e avaliação,
O MODELO TEÓRICO PROPOSTO PARA realizadá JJela esposa no NEO-PI
AS CINCO GRANDF.S DIMENSÕES AVALIAÇÃO: A CONTROVÉRSIA
Crescimento e desenvolvimento PESSOA-SITUAÇÃO
Diferenças relacionadas com a idade durante Estabilidade longitudinal
a fase adulta Estabilidade intersitu acional
Resultados iniciais da infância e da adolescência Concl são
Estabilidade e mudança de personalidade
AVAUAÇÃO GERAL DAS ABORDAGENS
Aplicação do modelo
DE TRAÇOS
Interesses voe.acionais
Vant.agens das abordagens
Saúde e longevidade
Esforços de pesquisa ativa
Diagnóstico de transtomos de personalidade
Hipóteses interessantes
Tratamento
Ligações potenciais com a biologia
Resumo e comentários
Limitações das abordagens
UM EXEMPLO DE CASO: UM HOMEM DE Problemas com o método: análise fatorial
69 ANOS DE IDADE Problemas com o conceito de traço
Descrição global da personalidade segundo as O que é omitido ou deixado de fora?
cinco grandes dimensões
PRJNCIPAIS CONCEITOS
Conelatos da personalidade: algumas im.plic.ações
REVISÃO
possíveis
Resultados de tratamentos
Personalidade: teoria e prática

FOCO DO CAPÍTULO
Você tenta uma vaga para pós-graduação e atributos que as pessoas consideram importantes em
Allport, Eysenck e Cattell escrevem cartas de reco­ suas vidas. Certamente, haveria uma considerável
mendação para você. Como seriam as cartas? Certa­ redundância (por exemplo, perfeito e infalível signifi­
mente, elas seriam bastante diferentes. Eysenck dis­ cam quase a mesma coisa), permitindo que reduzís­
cutiria o seu comportamento e as suas realizações semos o tamanho da lista. Se conduzíssemos uma
segundo os seus três superfatores amplos, Cattell análise fatorial de avaliações de personalidade rea­
consideraria mais de vinte traços mais específicos e lizadas de acordo com esses traços, acabaríamos com
Allport talvez.criasse um retrato idiográfico com de­ as principais dimensões de descrições de traços da
talhes mais ricos, incluindo muitas configurações de personalidade. O resultado pode ser um ajuste que
traços totalmente peculiares. Apesar de talvez ha­ talvez não agrade a todos, mas que pelo menos é
ver alguns temas comuns nas cartas, nenhum des­ alcançado através de um conjunto justo de procedi­
ses teóricos jamais abandonaria a posição teórica mentos, e a sua praticabilidade e utilidade irão de­
preferida. Isso nos leva à questão: como podemos terminar se ele será amplamente aceito no campo.
chegar a um acordo com relação aos traços básicos, Neste capítulo, continuaremos a nossa discussão
se não conseguimos sair desse árculo vicioso? da teoria de traços e consideraremos os esforg,s dos
Suponhamos que utilizássemos o seguinte pro­ pesquisadores de traços para chegar a um consenso
cedimento. Solicitamos que mil pessoas escrevam utilizando os procedimentos apresentados anterior­
descrições da personalidade de outras mil pessoas. mente. Iremos nos concentrar no consenso emergente
Então, reunimos todos os adjetivos utilizados para com relação à importância das cinco dimensões básicas
descrever os traços nessas descrições. O resultado de traços e consideraras evidênàasque sustentam esse
seria uma lista de descritores da personalidade que modelo decincofatores,bemcomo asuaaplicaçãopara
não se inclinaria para nenhuma precom:epção teóri­ o indivíduo. O capítulo é concluído com uma avalia­
ca, uma lista que incluísse fielmente todos aqueles ção geral da abordagem de traços à personalidade.

QUESTÕES ABORDADAS NESTE CAPÍTULO


1. É possível que os pesquisadores de traços che­ No último capítulo, consideramos as abordagens
guem a um consenso a respeito de um modelo de traço de Allport, Eysenck e Cattell. Conforme indi­
único de organização dos traços da personali­ cado, esses teóricos compartilham a visão de que os
dade? traços são unidades fundamentais da personalidade,
2. Quantas - e quais - dimensões de traços são representando disposiç,ões amplas para responder de
necessárias para urna descrição básica da per­ determinadas maneiras. Ao mesmo tempo, os três te­
sonalidade? óricos possuem visões substancialrrHmte diferentes
3. Pode um modelo de traços derivado da análise sobre o uso da análise fatorial e sobre o número e a
fatorial ser conectado com os termos que utili­ natureza das dimensões de traços que são neccssãrias
zamos em linguagem cotidiana para falar da para uma descriç-ão adequada da personalidade.
personalidade? Seria de se esperar que esse Como qualquer campo de estudo científico, a
modelo fosse universal para diferentes cultu­ pesquisa sobre traços de personalidade necessita de
ras? Que cle fizesse sentido em termos de nossa um modelo de seu.objeto de estudo que seja comum.
herança evolutiva? Assim, os pesquisadores podem estudar domúúos de
4. Quais são as implicações de diferenças indivi­ traços específicos, ao invés de examinar separadamen­
duais em traços para a escolha da carreira, a saú­ te os milhares de traços particulares que tomam os
de física e o bem-estar psicológico? seres humanos individuais e únicos. Nos últimos 40
5. Os traços são estáveis ou variáveis ao longo do anos, o número de conceitos relacionados com a per­
tempo e em diferentes situações? sonalidade e o número de escalas de questionários
projetados para medi-los têm crescido, sem um final
Lawrence A. Pervín e Oliver P. John

FOXTROT By Bill Amend


E11 devo fazer Nõopoóe
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Hõ? a(tjetivo.s q�e difícil Oh. "perfeito" e
trabalho o:;p�oo5
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impossível.� descrever.lsso voJ te1n?
levar o nolte toda. d1.iplic.odo.
l


Desenho de Bill Amend; © Universal Press Syndicate

em vista. Os pesquisadores, assiim como os avaliado­ za das dimensões básicas dos traços de personali­
res de personalidade confrontam uma variedade dade, e o campo permaneceu fragmentado e desor­
esrupefante de medidas de traços para escolher. Ape­ ganizado. Desde a década de 1980, uma melhora
nas na língua inglesa, existem mais de 5000 palavras gradual na qualidade e sofisticação de métodos, es­
para descrever traços de personalidade. Segundo pecialmente a análise fatorial, levou ao começo de
Cattell, "o problema com a mensuração dos traços é um consrnso. Muitos pesquisadores, especialmen­
que existe um número excessivo deles!" (1965, p. 55). te a geração mais jovem, agora concordam que os
Encontrar uma forma de organizar todos esses traços traços podem ser organizados de forma proveitosa
diferentes em uma estrutura coerente foi a principal de acordo com cinco dimensões bipolares e amplas
preocupação dos pesquisadores de traços durante a (John, 1990; Costa e McCrae, 1992); elas são ampla­
década de 1980 e o começo da década de 1990. mente conhecidas como as "cinco grandes dimen­
Por muitos anos, !houve debates acirrados en­ sões", não porque são tão !,'Tandiosas, mas por cau­
tre os pesquisadores de traços, incluindo Eysenck, sa de sua extraordinária amplitude e seu nível de
Cattell e outros, com relação ao número e à nature- abstração.

O MODELO DE CINCO FATORES DA PERSONALIDADE


A última década testemunhou uma explosão eletrizante básicas da personalidade - isso marca uma virada na
de interesse no problema mais fundamental do campo- a psicologia da pE?rSOnalidade.
busca de uma taxonomia dostra�s da personalidade que
seja cientificamente interessante. De maneira mais impor­ Fonte: McCrae e John, 1992, p. 176.
tante, o principio de um consenso está surgindo a respeito
da estrutura geral dessa representação taxon8mica. Evidências para o modelo de cinco fatores pro­
vêm de três áreas principais: análise fatorial de gran­
Fonte: Goldberg, 1993, p. 26 des conjuntos de termos lingüíslicos relacionados com
Hoje em dia acreditamos que é mais frutífero adotar a os traços, pesquisas interculturais testando a univer­
hipótese de que o modelo da personalidade em cinco sâlidade das dimensões dos traços, e a relação entre
fatores está essencialmente e<meto em sua representa­ questionários de traços e outros questionários e ava­
ção da estrutura dos traços... Se essa hipótese estiver cor­ liações. Neste capítulo, consideramos cada urna des­
reta - se realmente tivermos descoberto as dimensões sas áreas. Além de várias aplicações do modelo.
Personalidade: teoria e prática 213
1

ANÁLISE DiE TERMOS DA ABORDAGEM DE Em 1981, Goldbergrevisou o trabalho de outros pes­


TRAÇOS NA ILINGUAGEM NATURAL E EM quisadores, juntamente com os resultados de sua própria
QUESTIO.NÁRIOS pesquisa. Impres&onado com a consistência dos resulta­
dos, ele sugeriu que "é possível de:funder a idéia de que
Uma abordagem para descobrir as unidades bási­ qualquer modelo para estruhmll' diferenças individuais
cas da personalidade é considerar os termos que utiliz� deverá abranger- em algum nívcl- alguma coisa seme­
mos para descreveras personalidades das pessoas. O pro­ lhante a essas'cinco grandes' dimensões" (p. 159). Assim,
cedimento básico seguido nessa pesquisa é fazer com que comt'lÇOu a designação dos fatores como as cinro grandes
os i ndivíduos avaliem a si mesmos ou outras pessoas, com dimensões.A palavragnmderefere-seà descoberta deque
relação a uma ampla variedade de traços cuidadosamen­ cadà fãtor abran� numfil'áSOS traços mais específicos. As
tearnostrados do dicionário Q'ohn,. Angleitnereüstendorf, cinro grandes dimensões são quase tão amplas e abstratas
1988). As avaliações, então, sofrem uma análise fatorial na hierarquia da pérSóruilidãdc qtlànto os "supérfatores"
para determinar quais traços estão conectados. Por exem­ de E:ysenck. Embora termos
plo, baseando sua pesquisa em trabalhos anteriores de um pouco diferentes tenham
Allport,Cattelleoutros,Norman(l96.3)realizou um estu­ si.do utilizados para os .fatores
do analítico-fatorial de avaliações de amigos e encontrou das cinco grandes dimensões,
cinco fatoresde personalidade básicos.Soluções�­ utiliz.aremos os termos Neuroti­
tes com cinco fatores foram repetidamente encontradas cismo (11.7), Extroversão (E), Aber­
em diversos estudos, conduzidos por muitos pesquisa­ tum (O)"', Amabílídade(A) e Cans­
dores diferentes, em uma ampla variedade de fontes de ciênda (C) (I'abela8.l). Noteque
dados, amostras einstrumentos deavaliaçãoOohn, 1990). as primeiras letras das cinco
Além disso, verificou-se que todos os cinco fatores possu­ grandes dimensões formam a
íamcoo.siderávcl ronfiabilidadeevalidade epermanooam. palavra� CTohn, 1990,
relativamente estáveis através da idade adulta (McCrae e p. 96)-uma forma fácil delem­
Costa, 1990; 1994). brar todas as cinco dimensões.
Lewis R. Goldberg

Tabela 8.1 Os cinco grandes fatores de traços e escalas ilustrativas


características do indivíduo que características do indivíduo que
,apresenta um resultado alto Escalas de traços apresenta um resultado baixo
NEUROTICIS'v10 ('l)
PreoaJpado. nervoso, <,motwo. insegu­ Avalia ajus:amen:o >t?rsus instab!Udadc emocion al. Id entifica Calmo. dcscomraido, nãO<'motÍl'O,
ro. inadequado. hipocondríaco mMdxr.; properws a perturbar;ões � id'éia5 irrea!ist.Js. forte. seguro. auto-s.itisleho
necessidade s ou ânsias excessivas e respostas ma�adaptativas
EXTROVE�SÃO (E)
d
Sociável, alivo, falant<!, afontado para Avalia a quantidade e intensida e de inter,;içces intl!(pessoai6; Reservado, sóbio, contraido, indiferente,
.as pe$0,3S. otimista, d'NCrtido, afC1U050 ní1•cl de a1ivi<!adc; ne::cssidade de estimulação; e cap.1ddade 0t:ientado para ,areias, desin:cres•
de alegrar-se s.ado, quicto
ABERTURA {O)
Curioso, interesses amplos, criativo. ori­ Avalia a a1ividadc proati11a e a apreciação da experiéncia por Convencional. sensa10. interesses
gi"lal. imaginair.o. não-t@diôonal si só; toleránàa e exploração do que não é familiar limitados. nãoonistico. nãc>analítico
. M.M.31LIDADE (A)
Generoso, bondoso. conn<1111e, prestati­ Avalia a qualidade da oricmação imerpessoal do indMduo ao Cínico, rude. descoofiado. não-coopc­
vo. clemente, crédulo, honesto tongo de um continuo da compaixão ao antagonismo em pen­ rado,, vingativo, inescrupuloso,
sarnentos, se ntimentos e, ações irnt.ivel, manipulador
CONSCltNCIA (C)
Orgariiz;ido, ccn�I. trabalha::for, auto Avalia o grau de orga11ização. persistência. e motivaç.io do Sem objelivos. nâcx:ooiiâvel. preguiço­
disàplinado, pontual, emupuloso, as­ indiviâuo no com.;iortamemo dirigido para os objetivos. so, descuidado, negligente, relaxado,
seado, &mbroso, perseverante Compara pessoas con1lãveis e obstinadas com aquelas que fraco, hedonistico
são ap.iticas e descuidadas
fonte: Costa e �/cCrae, 1992. p. 2.

� N. de R. Em inglês Ope,med (O).


•• N. de R. Sigla em inglês que forma a palavra oceano
Lawrence A. Pervín e Oliver P. John

Para ilustrar o significado dos fatores, a Tabela sadores são bastante semelhantes. Por exemplo,
8.1 lista inúmeros adjetivos relacionados com traços Goldberg (1992) sugeriu um inventário de traços
que descrevem indivíduos com resultados altos e bai­ bipolares (por exemplo, silencioso-falante) que os in­
xos em cada fator. O neuroticismo opõe-se à estabili­ divíduos podem utilizar para avaliar sua própria situ­
d!ade emocional com uma variedade ampla de senti­ ação nas cinco grandes dimensões. Uma versão abre­
mentos negativos, induindo a ansiedade, a tristeza, a viada desse inventário vem a seguir. Considere as se­
irritabilidade e a tensão nervosa. A abertura à experi­ guintes instruções ao completar o inventário:
ência descreve a amplitude, a profundidade e a com­
plexidade da vida experimental e mental do indiví­ Tente se d.escrever da forma mais precisa possível Des­
duo. A extrove.rsão e a amabilidade sintetizam traços creva-se como você se vê no momento, não como você
que são interpessoais, ou seja, capturam aquilo que gostaria de ser no futuro. Descreva-se da forma co mo
as pessoas fazem com as outras e para as outras. Fi­ você nonnalmente é, em comparação com outras pesso­
nalmente, a consciência descreve principalmente o as que conhece do mesmo sexo e aproximadamente da
mesma idade. Para cada uma das escalas de traços
comportamento direcionado para tarefas e objetivos
listadas, marque o número que melhor descreve vo cê
e o controle de impulsos ,que é exigido pela sociedade. nesta dimensão.
As definições de fatores apresentadas na Tabela
8.1 baseiam-se no trabalho de Costa e McCrae (1985; Qual foi o seu resultado? Tenha em mente que
1990; 1992). As definições sugeridas por outros pesqui- esse inventário não é um teste formal, mas um valio-

INTROVERSÃO VERSUS EXTROVERSÃO


Muito Moderadamente Nenhum Moderadamente Muito

Silenc ioso 2 3 4 s 6 7 8 9 Falante


Não-assertivo l 3 4 s 6 7 8 9 Assertivo
Não-ousado l 3 4 5 6 7 8 9 Ousado
!\Ião-enérgico 2 3 4 5 6 7 8 9 Enérgico
T ímido 2 3 4 5 6 7 8 9 Desiemido
ANTAGONISMO VERSUS AMABILIDADE
Indelicado 2 3 4 5 6 7 8 9 Bondoso
Não-cooperativo l 3 4 5 6 7 8 9 Cooperativo
Egoísta 2 3 4 5 6 7 8 9 Altruísta
Desconfiado 2 3 4 5 6 7 8 9 Confiante
Mesquinho l 3 4 5 6 7 8 9 Generoso
,ALTA DE DIREÇÃO VERSUS CON SCIÊNCIA
Desorganizado 2 3 4 5 6 7 8 9 Organizado
Irresponsável 2 3 4 s 6 7 8 9 Responsável
Nã o-prático l 3 4 5 6 7 8 9 Prático
Desruidado 2 3 4 5 6 7 8 9 Detalhista
Preguiçoso 2 3 4 5 6 7 8 9 Trabalhador
ESTABILIDADE EMOCIONAL VERSUS NEUROTICISMO
Descomraido 2 3 4 5 6 7 8 9 Tenw
Tranqüilo l 3 4 5 6 7 8 9 Nervoso
Estável 2 3 4 5 6 7 8 9 lnstávecl
Satisierto .2 3 4 5 6 7 8 9 Insatisfeito
Não-emotivo 2 3 4 5 6 7 8 9 EmotillO
FECHAMENTO VERSUS ABERTURA À NOVAS EXPERI ÊNCIAS
Não-imaginativo 2 3 4 5 6 7 8 9 Imaginativo
Não-aíativo 2 3 4 5 6 7 8 9 Criativo
Não-inquisitivo 2 3 4 5 6 7 8 9 Curioso
Nâo-feffexivo 2 3 4 s 6 7 8 9 Reflexivo
Não-so fisticado 2 3 4 5 6 7 8 9 Sofisticado
Muito Moderadamente Nenhum Moderadamente Muito
Personalidade: teoria e prática

so exercício para familiarizá-lo com as cinco grandes Pesquisa inter,cultural: as cinco grandes
dimensões e como elas podem se aplicar a você mes­ dimensões são universais?
mo. Entretanto, se você estiver interessado em seus
resultados gerais nas cinco grandes dimensões, po­ Se existem questões universais com relação a di­
derá somar suas respostas para cada fator. Simples­ ferenças individuais e interações humanas, pode-se es•
mente adicione todos os cinco números que marcou pernr que as mesmas dimensões básicas de traços apa-
para E e divida essa soma por 5. Faça o mesmo para reçam em muitas línguas diferentes. Existem evidências
cada um dos outros fatores. Em qual fator você teve o de que isoo é verdade? A pesquisa inter-cultural a res­
resultado mais elevado? Em qual você teve o mais bai­ peito de traços de personalidade praticamente explo­
xo? Os cinco fatores correspondem ao que você espe­ diu durante a década de 1990, em parte porque os psi­
raria? Ou houve discrepâncias surpreendentes com a cólogos nos Estados Unidos intérCSSaram-se mais pe­
maneira como você se vê em geral? las pesquisas interculturais, em parte porque as cinco
gt.ffides dimensões possuem um grande potencial para
conectar equipes de pesquisa em países diferentes e em
A hipótese lexical fundamental parte porque o advento do correio eletrônico eliminou
As cinco grandes dimensões foram projetadas a maioria dos custos e atrasos em pesquisas entre dois
para capturar aqueles traços de perSonalidade que as países. Grupos de pesquisa do leste europeu, da
pessoas consideram mais importantes em suas vidas. Polônia, Checoslováquia, HW1gria, Rússia, e assim por
Goldberg explicou essa abordagem de acordo com a diante, iniciaram estudos lexicais dos traços de perso­
hipótese lexical (lingüística} fundamental: nalidade, partindo do dicionário de suas próprias lín­
guas. Os dados ainda não estão todos prontos, e exis­
A variedade de difere nças individuais é quase infinita, tem inúmeras questões metodológicas que podem ter
ainda assim, a maioria dessas diferenças é insignificante influenciado alguns dos resultados.
nas interações cotidianas das pessoas com os outros e Um dos maiores problemas envolve as traduções
perman ecem ampl amente ignoradas. Sir Franàs Galton - existem poucas traduções diretas na maioria das lín­
pode ter esta do entre os primeiros cientistas a reconhe­ guas, e mesmo os cognatos (por exemplo, agressivo e
cer explicitamente a hipótese lexical fundamental - o u o agressivo da língua alemã) não necessariamente sig­
seja, que as dife renças individuais mais importantes n as nificam a mesma coisa (em alemão significa hostil, ao
transações humanas serão co dificadas como termos úni­
invés de forte-assertivo). Assim, um termo como ex­
cos em algumas ou em todas as línguas do mundo.
pansivo (um traço de extroversão), quando mal tradu•
Fonte: Goldberg, 1990, p. 1216. zido do japonês para o inglês transforma-se em afetuoso
(um traço de amabilidade), o que pode levar os pes­
Assim, Golbderg sugere que, com o passar do quisa dores a questionarem se eles enconttaram o
tempo, os humanos encontraram algumas diferenças mesmo fator nas duas línguas. Assim, Hofstee e cole­
individuais particularmente importantes em suas gas (1997) identificaram 126 palavras que poderiam
interações e desenvolveram termos para se referir a ser traduzidas de forma razoavelmente direta em es­
elas com facilidade. Esses termos, que estão relacio­ tudos lexicais anteriores para o inglês, alemão e ho­
nados com os traços, comunicam informações sobre landês e utilizaram-nas para comparar o significado
diferenças individuais que são importantes para o dos fatores nas três línguas. Seus resultados apresen­
nosso próprio bem-estar ou o do grupo ou clã. Dessa taram uma congruência considerável nessas três lín­
forma, eles são úteis porque servem o propósito de guas relacionadas, com uma exceção importante: o
previsão e controle - eles nos ajudam a prever aquilo fator da abertura. O alemão e o inglês eram bastante
que os outros irão fazer e assim, controlar os resulta­ semelhantes, mas o fator holandês incluíam não ape­
dos para nossa vida (Chaplin et al., 1988). Eles aju­ nas os traços esperados relacionados com o intelecto
dam a responder questões sobre a maneira como um e a imaginação (por exemplo, inventivo, original, ima­
indivíduo irá se comportar em uma variedade de si­ ginativo), como também enfatizava traços relaciona­
tuações relevantes. dos oom a inconvenáonalidade e a rebeldia. Uma
variação semelhante da abertura foi encontrada em
estudos de traços italianos e húngaros (Caprara e
Perugini, 1994).
Lawrence A. Pervin e Oliver P. John

Uma recente revisão quantitativa (De Raad et al., As cinco grandes dimensões em
1998) comparou diversos estudos europeus, e concluiu questionários de personalidade
que fatores semelhantes às cinco grandes dimensões
foram encontrados na maioria das línguas, porém a Neste ponto, provavelmente já esteja claro para o
evidência é menos convincente no caso do fator da estudante da personalidade que o campo não sofre de
abertura, em diversos aspectos. Somente alguns éStu• uma carência de questionários. Foram desenvolvidos
dos de línguas e culturas nãereuropéias (chinês, japo­ questionários para quase todos os conceitos, associa­
nês, filipino) foram completados, e a abertura, mais dos a quase todas as teorias da personalidade. No Ca­
uma vez, apresenta a replicabilidade mais fraca. pítulo 7, discutimos diversos inventários de Eysenck e
É importante não supervalorizar evidências de o16P.F., de Cattell. Uma variedade de outros questio­
universalidade. McCrae e Costa (1997) adotaram uma nários foi desenvolvida por
posição bastante firme, sugerindo que a estrutura da outros pesquisadores de tra­
personalidade das cinc,o grandes dimensões é um ços, como a versão abrevia­
universal humano. Suas evidências amplas baseiam­ da do inventário bipolar de
se em tradu�ões de seu instrumento das cinco gran­ Goldberg (1992), que mede
_ as cinco grandes dimensões
des drmensoes {o NEO-PI-R), para muitas línguas, e
de fato, os mesmos cinco fatores resultam com gran­ com adjetivos descritos an­
de regularidade. Entretanto, quando os pesquisado­ teriormente neste capítulo.
res incluem termos indígenas, ou seja, termos tirados Além dessas medidas base­
de línguas nativas estudadas, os resultados tornam­ adas em.adjetivos, um ques­
se mais complexos {Saucier e Goldberg, 1996). Em ou­ tionário bastante elaborado,
tras palavras, os resultados podem diferir, dependen­ que tem sido amplamente
do se os termos relaáonados com os traços são "im­ utilizado, também está dis­
postos" sobre os membros de uma cultura, ou se eles ponível para medir as cinco ,__.......;__
são retirados da própria língua daquela cultura. grandes dimensões. Paul T. Costa Jr.
De fato, foi sugerido que podem existir fatores
de personalidade adicionais que sejam peculiares a O NEO-PI-R e .sua estrutura hierárquica: facetas Em
culturas específicas. Um exemplo potencial é o fator três estágios de construção e revisão de testes, Costa e
"tradição chinesa" (Cheung et al., 1996), que parece McCrae (1985; 1989; 1992) desenvolveram um questio­
capturar valores e atitudes considerados importan­ nário, o NEO-Pmrmality Inwntory Reuised ("J\TEO-PI-R),
tes na sociedade chinesa tradicional. Esses fatores es­ para medir os cinco grandes fatores da personalidade.
pecíficos de uma cultura certamente são possíveis, Originalmente, eles haviam se concentrado apenas nos
embora seja necessário mais confirmação e replicação três fatores ào neuroticismo, extroversão e abertura,
antes que aceitemos esses fatores como fatos daí o título :NEO-Personality
empíricos. Por exemplo, é possível que esses fatores lnventory. Subseqüente­
não reflitam traços de personalidade propriamente mente, eles adicionaram os
ditos, mas outras diferenças individuais, como cren­ fatores da amabilidade e da
ças e atitudes (por exemplo, conservador tiersus li­ consciênàa para se adequar
beral). Em suma, existem evidências crescentes (mas ao modelo de cinco fatores.
ainda limitadas) de que pessoas cm diferentes cul­ Além disso, eles diforen­
turas, utilizando línguas bastante diferentes, cons­ áaram cada um dos cinco
troem a personalidade de maneiras que se asseme­ grandes fatores (ou domíni­
lham às cinco grandes dimensões. Como De Raad, os) em seis facetas mais es­
Perugini e colegas (1998) concluem, os resultados pecíficas; facetas são os tra­
mostram que "os contornos gerais do modelo das ços ou componentes mais
cinco grandes dimensões representam a melhor hi­ espêcíficos que formam
pótese de trabalho de uma estrutura de traços cada uma das cinco grandes
onipresente" (p. 214). dimêns�s amplas. Robert R. McCrae
Personalidade: teoria e prática

Tabela 8.2 Cada um dos cinco grandes fatores consiste em seis facetas e é ilustrado por um indivíduo ou personagem
fictício que exemplifica o protótipo do resultado alto naquele fator
Gregarismo
Nível de atividade
Assertividade Bill Clinton
Ext:10versão Busca de excitação Presidente americano 1993-2001
Emoções positivas
Co,dialidade
Honestidade
Confiança
Amabilidade Altruísmo Radar
Modéstia Personagem de M.A.S.H.
Afabilidade
Complacência
Auto-disciplina
Senso de dever
Consciência Competência Spodc
O,dem Personagem de Jornada nas Estrelas
Deliberação
Busca por realizações
Ansiedade
Constrangimento
Neuroticismo Depressão Woody Allen
Vulnerabilidade Diretor de cinema
Impulsividade
Hostilidade
Fantasia
Estética
Abertura a novas Sentimentos Lewis Carrol!
experiências Idéias Autor de "Alice no País das Maravilhas"
Ações
Valores

As seis facetas que definem cada uma das cin­ CLINTON GOSTA DE FESTAS: entre festas, golfe e lei­
co grandes dimensões sã.o listadas na Tabela 8.2, jun­ turas, ele tem pouco tempo para descansar:
tamente com um indivíduo famoso ou personagem Com menos de uma semana de férias em Martha's
fictício que exemplifica o protótipo do resultado alto Vineyard, ele ficou na rua até após as 11 horas todas as
para cada fator. Por exemplo, no NEO-PI-Rde Costa noites, tocou saxofone com uma banda de jazz, conver­
sou brevemente com um office boy e participou de pelo
e McCrae, a extroversão é definida por essas seis menos quatro eventos beneficentes e diversas festas. Isso
facetas: nível de atividade, assertividade, busca de excita­ não inclui suas duas rodadas de golfe e a dúzia de livros
ção, emnções positivas, gregarismn e cordialidade. Essas pesados que ele carregava.
cinco facetas não capturam os traços que descreve­ As férias pre;idenciais podem dizer .mais a respeito da per­
riam o ex-presidente Bill Clinton? Cada faceta é me­ sonalidade e das inclinações de um chefe do executivo do
dida por 8 itens, de maneira que a maior parte do que uma variedade ele discursos políticos. Ronald Reagan
NEO-PI-R recente consiste em um total de 240 itens andava a cavalo, jardinava e fazia pouai caso de listas de
(ou seja, 5 fatores x 6 facetas x 8 it12ns). Por êX'.emplo, leitura. para o verão. George Bush pilotava lanchas poten­
dois itens da escala da faceta da atividade são "mi­ tes. Richard �Ixon caminhava na praia vestindo roupas
nha vida é corrida" e "quando faço algo, eu o faço pretas. Bill Clinton, conhecido por seu apetite por comida,
vigorosamente" (Costa e Mccrae, 1992, p. 70). De fato, conversas, idéias e -bem, deixemos assim - aparentemente
pensa que as férias não deveriam ser desperdiçadas em fri­
a maioria dos observadores concordaria que Clinton volidades, como dormir, e deveriam ser ocupadas com o
vicejava em sua vida corrida na Casa Branca, e ele máximo de atividades sociais, golfe e leituras passível.
certamente fazia as coisas vigorosamente, como o se­
guinte artigo de jornal sugere: Fonte: Charles Babington, San Francisco
Chronide, 25 de agosto de 1999, p. A4.
La,;.vnmce A. Pervin e Oliver P. John

Quando o NEO-PI-R é administrado em contex­ Esses resultados são importantes porque eles fi.
tos clfu..icos e de pesquisa, os sujeitos indicam, para cada nalmente oferecem uma integração dos modelos ana­
item, o nível em que concordam ou discordam, utili­ lítico-fatoriais antigos com as cinco grandes dimen­
zando uma escala de d.as.sificação de cinco pontos. Tlr sões, e assim, entre si. Em particular, verificou-se que
das as escalas resultantes possuem boa confiabilidade os superfatores de Eysenck da Extroversão e Newoti­
e apresimtam validade com diforentes fontes de dados, cismo eram praticamente idênticos às dimensões de
como avaliações realizadas por cônjuges e companhei­ mesmo nome das cinco grandes dimensões, e o
ros. McCrae e Costa (1990) defenderam vigorosamente superfator de Psicoticismo de Eysenck correspondia
o uso de questionários estruturados para avaliar a per­ a uma combinação de baixa Amabilidade e baixa
sonalidade e critiéam os tesms projetivos e as entrevis­ Consciência-pessoas com rúveis elevados de Psicoti­
tas clínicas, que consideram não-sistemáticos e propen­ cismo, como criminosos, são desagradáveis e irres­
sos a tendenciosidades. Há evidências mostrando que ponsáveis (Clark e Watson, 1999; Costa e McCrae,
as escalas do NEO-PI-R também correspondem bem a 1995,; Goldberg e Rosolack, 1994).
outros instrumentos das cinco grandes dimensões, De maneira semelhante, as escalas do 16 P.F.,
como os inventários de adjetivos de Goldberg {19'J2) de Cattell (Tabela 7.4 no capítulo anterior) correspon­
Oohn e Srivastava, 1999; Benet-Martinez e John, 19'J8). dem às cinco grandes dimensões mais amplas de
Entr-etanto, é importante lembrar que também existem maneiras teoricamente coerentes (McCrae e Costa,
algumas diferenças nas facetas. que são enfatizadas em 1990). Por exemplo, suas escatas Expansivo, Asser­
cada instrumento. Por exemplo, Goldberg enfatiza as­ tivo e Ousado correspondem à Extroversão do NEQ.
pectos intelectuais e criativos em suas medidas do quin­ PI-R; Confiante e Afável à Amabilidade; Consciente,
to fator, a Abertura, e assim, prefere chamá-lo de Inte­ Controlado e Sóbrio à (não é de surpreender) Cons­
lecto ou Imaginação; McCrae (19'J6) critica essa visão, ciência; Emotivo, Tenso e Apreensivo ao Neuroti­
como sendo uma definição muito limitada do fator de cismo; e Imaginativo e Experimentador à Abertura.
Abertura (ver Tabela 8.2). Além disso, Costa e McCrae Em referência ao Capítulo 7, figura 7.1, essa análise
localizam a faceta da cordialidade na Extroversão, en­ deixa claro que os três fatores de Eysenck são tão
quanto outros pesquisadores das cinco grandes dimen­ amplos quanto as cinco grandes dimensões e até mais
sões consideram que a cordialidade está mais intima­ amplos para o Psicoticismo, ao passo que as 16 de
mente relacionada com a Amabilidade (John e CatteU estão aproximadamente no mesmo nível hie­
Srivastava, 1999). Assim,ainda existem algumas incon­ rárquico das facetas das cinco grandes dimensões.
sistências entre os diversos pesquisadores, as quais de­ Ou seja, as cinco grandes dimensões nos oferecem
verão ser resolvidas. uma estrutura abrangente, na qual podemos integrar
e entender as construções de traços propostas ante­
riormente por Eysenck e Cattell.
INTEGRAÇÃO DOS FATORES DE EY·SENCK E Além disso, o NEO-PI-R apresenta relações teo­
CAmLL NAS CINCO G'RANDES DIMENSÕES ricamente coerentes com medidas de personalidade
obtidas através de outros meios (por exemplo, a clas­
Supondo-se que o NEO-PI-R seja uma medida sificação Q) e com questionários derivados de orien­
adequada do modelo de personalidade de cinco fato­ tações teóricas bastante diferentes (por exemplo, o
res, até que ponto ele se correlaciona com outras me­ modelo motivacioliâl da personalidade de Murray).
didas estabelecidas por outros investigadores? Costa Esse último ponto é particularmente importante por­
e McCrae aceitaram isso como um desafio para a va­ que proporciona a possibilidade de estabelecer um
lidade do teste, assim como para a utilidade do mo­ elo entre traços e motivos (Pervin, 1999). Com base
delo de cinco fatores, e ofereceram evidências consi­ nesse tipo de estudos, McCrae e Costa argumentam
deráveis, sugerindo que os resultados do NEO-PI-R que os cinco fatores, conforme avaliados pelo NEO­
correlacionam-se da maneira prevista com resultados PI-R, são necessários e suficientes para descrever as
de outros questionários de personalidade. Em parti­ dimensões básicas da personalidade. De fato, eles
cular, isso ocorre com os resultados de outros questi­ vão além disso, sugerindo que "nenhum outro siste­
onários baseados em análise fatorial (ver Capítulo 7), ma é tão completo e, ainda assim, tão parcimonioso"
como os inventários de Eysenck e o 16 P.F., de Cattell (1990, p. 51).
(Costa e McCrae, 1992; 1994b).
Personalidade: teoria e [Práti.ca

Outro aspecto interessante do NEO-PI-R é que panheiros, ou porque os cônjuges conversem bastante
existem formulários disponíveis para auto-avaliação e sobre a personalidade um do outro (ver Kenny, 1994).
avaliação realizada por outras pessoas. Em diversos es­ Dois importantes resultados surgiram dessa pesquisa:
tudos, as auto-avaliações dos sujeitos foram compara­ (1) a partir da distinção entre fontes de dados Se dados
das com as avaliações feitas por seus companheiros e O que firmamos no Capítulo 2, os mesmos cinco fato­
cônjuges. McCrae e Costa (1990) relatam uma corres­ res são encontrados em auto-avaliações e avaliações
pondência substancial entre auto-avaliações e avalia­ conduzidas por um observador, e (2) os observadores
ções fcitas por companheiros e por cônjuges em todos concordam razoavclmente bem entre si, com relação à
os cinco fatores. A concordância entre a auto-avaliação situação dos indivíduos cm cada uma das cinco gran­
e as avaliações do cônjuge é maior do que entre a auto­ des dimensões. Esses resultados proporcionam evidên­
avaliação e as dos companheiros, talvez porque os côn­ cias da utilidade de medidas de auto-avaliação e do
juges geralmente se conheçam melhor do que os com- modelo da personalidade em cinco fatores.

O MODELO TEÓRICO PROPOSTO PARA AS CINCO GRANDES DIMENSÕES


McCrae e Costa (1999) propuseram um modelo ambiente, eles afirmam o seguinte: "A essência de nosso
teórico para explicar as cinco grandes dimensões, que argumento é facilmente formulada: os traços de perso­
chamaram de Teoria de Cinco Fatores (Figura 8.1). Es­ nalidade, como os temperamentos, são disposições
sencialmente, eles consideram as cinco grandes dimen­ endógenas que seguem caminhos intrínsecos de desen­
sões como as �dências básicas que pOS!,"1.lem uma base volvim.mto, os quais são independentes de influências
biológica, o que significa que as diferenças comporta­ ambientais'' (Mc:Crae et al, 2000, p. 173). Citando evi­
mentais ligadas às cinco grandes dimensões são repre­ dências da hereditariedade des&1S tendências básicas, de
sentadas no corpo de acordo com genes, estruturas cere­ sua influência parental limitada e de sua existência em
brais, e assim por diante. E�s tendências básicas - dis­ estudos de outras culturas e espécies, MéCrae e Costa
posições para agir e sentir de determinadas maneiras - sugerem que existe uma maturação intrinseca da perso­
não são influenciadas diretamente pelo ambiente. Ao nalidade. Segundo essa noção, os traços da personalidade
levantar novamente a questão da hereditariedade versus funcionam mais propriamente como expressões da biolo-

Biografia Processos
objetiva d.ni.micos
Reaçõe -s emoaonais,
mudanças de meio
Processo?.
de carreira:
dinàrr.JC05.
Prccessos

Tendências No...,,as culturais,.


e-.'E!f'tos da vx:la:
básicas Adaptações
características
P'roa!sso, . Ferômenos <Xllld10011a-
dinã1ric:o, � culturalmente,
bus<as e abtudes ,
Neurobasmo pe�SGaJS ',
ExtrO\lefSão
Aber.ura
Amabilidade
Consciência Autoconceito
Esquemas de self,
Pr.ocessos
mitos pessoais
d �micos '
\

Figura 8.1 Uma representação do sistema de personaíidade da teoria de cincn fatores. (Componentes fundamentais estão em
retângulos; componentes de interface estão em elipses). (Costa e McCrae, 7999). Reimpresso sob permissão, Guilford Press.
Lawrence A. Pervin e Oliver P. John

gia humana do que como produtos de experiências da Diferenças relacionadas com a idade
vida, e o desdobramento das tendências básicas é pouco durante a fase adulta
ou nada influenciado pelo ambiente. Ao invés disso,�
tendências roc.ercem influência, durante a vida do indiví­ Os níveis gerais das cinco grandes dimensões são
d!uo, sobre o autoconc:eito (Capítulos 5 e 6) e adaptações estáveis ao longo da idade adulta ou existem mudanças
características da pessoa, que incluem atitudes, objotivos gerais associadas à idade? Estudos iniciais, nos Estados
pessoais, crenças de auto-eficácia e outras variáveis que 1:'nidos, su�erem efeitos
. pequenos, ainda que significa­
iremos discutir em. outros capítulos. Tanto as adaptações tivos, assooados à idade. Em particular, os adultos mais
características quanto as influências ambientais externas velhos apresentam resultados significativamente mais
do indivíduo (por exemplo, oportunidades, normas, pri­ baixos no que diz respeito ao neuroticismo, à extrootrSão e
vações) detenninam as escolhas e decisões que o indiví­ à abertura, e mais altos no que diz respeito à amabilidade e
duo fuz. com o passar do tempo, que são rclietidas na à conscíbu:ia do que adolesc:mtes e adultos jovens na fai­
biografia objetiva (semelhantes aos dados do histórico xa dos vinte anos de idade (ou seja, idade universitária)
de vida discutidos nos Capítulos 2 e 7) e também no (Costa e McCrac, 1994). De certa forma, alguns desses
autoconceito sobre a qual o indivíduo constrói uma his­ r�ultados são encorajadores, mostrando qu12 o enve­
tória de vida, mitos pessoais, e assim por diante. lhecimentopossui alguns efeitos desejáveis. E.%es resul­
De um modo geral, esse modelo apresenta um tados fazem sentido quando se rompara estudantes
potencial integrativo considerável, conectando uma secundaristas e universitários com os seus pais (adultos
visão biológica de traços e influências ambientais com mais velhos). Em média, os adolescentes parecem ser
as variáveis de personalidade observáveis que são de mais perturbados com ansiedades e preocupações, com
grande interesse para as outras orientações teóricas aceitação e auteresti.rna (N mais alto), passrun mais tem­
representadas neste livro. Ao mesmo tempo, o mode­ po ao telefone e em atividades sociais com seus amigos
lo deixa mais questões em aberto do que oferece res­ (E mais alto), são mais abertos a todo tipo de experiênci­
postas. Note o número de flechas especificando "pro­ as e experimentações (Ornais alto), mas também fião mais
cessos dinâmicos". A teoria de traços fala pouco a res­ críticos e exigentes com pessoas específicas e com a socie­
peito desses processos; na visão de McCrae e Costa dade em geral (A mais baixo), e menos conscienres e res­
(1999), esses são detalhes para serem pre€nchidos por ponsáveis do que os outros (pais, proft'Ssores, polícia)
outras abordagens teóricas à. personalidade. No mí­ esperariam que fossem (C mais baixo).
nimo, um moo.elo explícito, mesmo que ainda não Não é de surpreender que falemos de "jovens
completamente elaborado, deixa claro dois pontos raivosos", e não de "homens de meia-idade raivosos"
importantes: (1) os traços não representam a totalidade ou de "avôs raivosos". De fato, os anos da adolescên­
da personalidade, e (2) os traços ocupam um lugar cia e o começo da faixa dos vinte anos são a época de
importante em uma teoria completa da personalidade. maior descontentamento, turbulência e revolta. O de­
créscimo em A e C também corresponde aos resulta­
dos da literatura sobre a delinqüência juvenil (relacio­
CRESCIMENTO E DESENVOlVIMENTO nados com baixa A e baixa C e ao Psicoticismo de
De um modo geral, os pesquisadores das cinco Eysenck), que dfuninui notavelmente após a adoles­
grandes dimensões tem concentrado o seu trabalho cência. De maneira mais geral, os achados de mudan­
sobre a personalidade na idade adulta, estudando a es­ ças nas cinco grandes dimensões durante a faixa de
tabilidade e mudança da personalidade durante a ida­ vinte âi\OS foram interpretados como indicando um
de adulta e a idade avançada, mas deixando para os crescimento rumo à maturidade aos trinta anos de
psicólogos do desenvolvimento a questão de como a idade; a adoção de papéis adultos em carreira e pater­
personalidade se desenvolve a partir da infância na nidade produz maior confiança e equilíbrio emocio­
estrutura das cinco grandes dimél\Sões que conhece­ nal, assim como maior socialização e competência.
mos na idade adulta. Embora exista uma certa dife­ Entretanto, esses multados são ambíguos, pois as
ren�a nas visoos dos pesquisadores de traços com re­ diforonças obSl?tvadas podém não refletir mudanças de
lação à estabilidade dos traços durante a infância, a idade, mas diferenças,de grupo, ou seja, diferenças devi­
maioria deles concorda que a estabilidade dos traços do a aspectos de geração associados ao crescimento du­
é bastante alta durante a idade adulta (Caspi e Roberts, rante diferentes períodos de tempo. Em outras palavras,
1999; McCrae e Costa, 1997; Roberts e Del Vecchio, as diferenças podem decorrer de fatores históricos (por
2000).
Personalidade: teoria e prática
1
221

exemplo, crescer durante a De:p:ressão, em oposição a algumas dessas tendências de idade continuariam até
crescer durante a segunda guerra mundial, ou durante após a idade de30 anos, ainda qu@ cm uma taxa reduzi­
os anos tumultuados da década de 1960), ao invés de da. Note que os resultados gerais são bastante surpreen­
fatores relacionados com a idade. Por éXén'lplo, os estu­ dentes: o tMSmo padrao de mudan� de traços da per­
dantes universitários de hoje em dia podem ser menos sonalidade foi observado em diversas culturas diferen­
consdentéS do que a �ra�ão de seus pais quando estéS tes, que difttriam considru-avelrrtcnte mn suas condiçoos
últimos estavam na faculdade. Pesquisas subseqüentes políticas, culturais e econômicas. Esses resultados leva­
n�alizadas por McCrãe, Costa e seus colaboradores ram McCrae e colaboradores a afirmar que a mudança
(McCrae et aL, 2000) abordaram essa limitação, estudan­ nos traços de personalidade não se relaciona intimamente
do difurenç.as de idade em uma ampla variedade de rul­ com as experiências difuronciais que ocorrem durante a
ruras. Para ilustrar, a Figura 8.2 mostra os resultados para extensão da vida do indivíduo; ao invés disso, conforme
Consciência, em cinco culturas diferentes. As médias são mencionado anteriormente, eles propõrol que essas di­
apresentadas para cinco grupos de idade: 14-17; 18-21; ferenças de idade refletem uma maturação intrínseca,
22-29; 30-49; e 50 em diante; quando a Figura 8.2 não assim como outros sistemas de base biológica:
apresenta nenhum valor, não houve sujeitos suficientes
para aqucle grupo de idade espeófica Tendênáas de Existem progressões naturais no desenvolvimento da per­
idade foram geralmente semelhantes para homens e sonalidade, que ocorrem independentemente do contexto
mulheres, e o aumento previsto foi observado em cada cultural e histórico. � como as crianças aprendem a
cultura; as pessoas tomaram-se cada vez mais conscien­ falar, contar e raciocinar em uma ordem e -tempo fixas, os
tes com o aumento de idade. adultos tomam-se mais agradáveis e menos extrovertidas,
como oonseqü&da natural do envelhecimento. Essa noção
De um modo mais geral, McCrae cl aL (2000) con­ de maturação intrínseca é indiretamente sustentada por
seguiram replicar os resultados obtidos anteriormente outras linhas de evidências - hereditariedade, estabilidade,
nos Estados Unidos, embora tenham tido que modificar universalidade inter-cultural - que apontam para a inter­
sua posição, que antes era um tanto firme, de que não pretação de traços como tendências básicas endógenas.
ocorreriam mudanças na personalidade após os30 anos
de idade - os novos dados interculturais sugerem que Fonte: McCrac et al., 2000, p. 182.

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Figura 8.2 Níveis médios de Consciência em cinco culturas. Os T-scores baseiam-se na média e desvio padrão de todos
os respondentes com idade superior a 21 anos em cada cultura. As barras de erro representam o erro padrão das
médias. (McCrae et ai., 2000) Copyright© 2000 American P:sychofogicaf Assodation. Reimpresso sob permissão.
Lawrence A. Pervin e Oliver P. John

APLICAÇÕES ATUAIS
A AMABILIDADE AUMENTA COM A IDADE

Aos trinta e cinco anos de idade, Cage indica pron­


tamente que possui responsabilidades. "Existem pessoas
que dependem de mim", fala Cage. "Naquela época, eu
estava vivendo as minhas fantasias ... Eu queria ser
imprevisível e assustador, e acho que era. Não consigo
me imaginar ficando bravo agora. Faz anos que não dou
um soco em uma parede".

Fonte: Rolling Stone Magazine, 1999.

Nicolas Cage aos 35 anos de idade: não mais um ho­


mem raivoso.

Resultados iniciais da infância e da adolescência contraram fatores isolados de medo e irritabilidade.


Esses resultados sugerem que a expressão da perso­
E com relação aos períodos iniciais de desenvol­ nalidade pode mudar rom o desenvolvimento - du­
vim€Ilto? As pesquisas sobre as conexões entre o tem­ rante a adolcscªncia, dimensões inicialmente separa­
peramento do bebê, a personalidade infantil e as cinco das unem-se para formar as dimensões mais amplas
grandes dimensões na idade adulta mal começaram, e mais inteiramente integradas que conhecemos na
mas existe um grande esforço de pesquisa em anda­ idade adulta. A idéia de que o fator da extroversão é
mento (Halverson, Kohnstamm e Martin, 1994). Pode­ ofuscado por fatores isolados de sociabilidade e ati vi­
se sugerir com segurança que características iniciais do dade é consistente com a visão de que esses dois atri­
temperamento, como a sociabilidade, a atividade e a butos são distintos, surgem pr«ocemente e represen­
emocionalidade (A. H. Buss e Plomin, 1984) desenvol­ tam traços de temperamento que são amplamente he­
vem-se e amadurecem em dimensões que conhecemos reditários (l3uss e Plomin , 1984) (ver Capítulo 9 para
como extroversão e neuroticismo na idade adulta. Con­ uma discussão de temperamento e hereditariedade).
tudo, as ligações exatas e os processos em que esse de­ Assim, os autores sugerem:
senvolvimento ocorre ainda não foram estudados.
Uma intrigante descoberta é que a estrutura da No começo da adolescência, quando a atividade física e
personalidade parece ser mais complexa e menos in­ atlética desempenha um papel central nas relações entre
tegrada na infância do que na idade adulta. Ao invés amigos e contE!m implica ções para o status social, a
do número usual de cinco fatores, sete fatores infantis Extroversão pode se manifestar, em parte, através do
foram encontrados nos Estados Unidos (John, Caspi, contato social e, em parte, através do vigor físico e social.
Robins, Moffitt e Stouthamer-Loeber, 1994), e esse re­ Na idade adulta, quando a maioria dos contextos sociais
sultado foi replicado na Holanda (van Lleshout e tomam-se a arena em que a maior parte dos indivíduos
Haselager, 1994). Essenâalmente, ao invés do fator utilizam para obter status e alleitação social, a Extroversão
pode ser expressa pr.incipalmente através de atividades
amplo de extroversão, os pesquisadores encontraram
socia.is, as.sertividade e gregarismo.
fatores isolados para a sociabilidade e a atividade, e,
ao invés de um fator amplo de neuroticismo, eles en- Fonte: J ohn et al., 1994, p. 174.
Personalidade: teoria e prática

Estabilidade e mudança de personalidade de cmeira, diagnóstico de personalidade e psicopa­


tologia, e decisoes relacionadas com o tratamento psi­
Quão estáveis são os indivíduos com relação a cológico. Os progressos nessas áreas são muito recen­
suas tendências básicas durante o decorrer de sua tes, e ltwará um certo tempo para que Stzjam avalia­
vida? Considerando que os traços de personalidade dos. Entretanto, neste meio tempo, podemos conside­
assemelham-se ao temperamento, eles seguem o ca­ rar algumas das aplicaç5és sugeridas.
minho de desenvolvimento estável determinado biolo­
gicamente que Costa e McCrae sugerem? A ordem de
classificação dos indivíduos nas cinco grandes dimen­ Interesses vocacionais
sões é estável durante a vida, mesmo que os níveis Os psicólogos interessados na área do compor­
médios mudem um pouco? Comentaremos essa ques­ tamento vocacional (de carreira) sugerem que a per­
tão no próximo capítulo, mas podemos dizer aqui que sonalidade está associada aos tipos de carreiras que
n
existem pontos de vista conflitates. Por exemplo, uma as pessoas escolhem e o modo como funcionam nes­
visão sugere que o desenvolvimento da personalida­ sas ocupações (Hogan e Ones, 1997). A idéia é que
de é determinado de forma amplamente biológica e é pessoas com certas características irão seiocionar cer­
contínuo, que "a criança é o pai do homem" (C.aspi, tas ocupações e irão funcionar melhor em determina­
2000, p. 158). Outra visão diz que, embora existam das ocupações do qué em outras.. Por exemplo, se­
evidências da consistência dos traços durante a vida, gundo o modelo de cinco fatores, indivíduos oom um
ela não é tão grande a ponto de garantir a conclusão nível alto de extroversão preferem e são melhores em
de que não ocorrem mudanças (Roberts e Del Vecchio, ocupações sociais e empreendedoras do que indiví­
2000). E uma terceira visão é que, embora a estrutura duos com níveis elevados de introversão. Para usar
e os níveis gerais dos traç,os pennaneçam razoavel­ outro exemplo, as pessoas que apresentam um nível
mente estáveis, existem evidências de alterações em alto de abertura à experiência preferem e são melho­
níveis de traços individuais (Asendorpf e van Allen, res em ocupações artísticas e investigativas (por exem­
1999). De particular importância, aqui, são as evidên­ plo, jornalista, escritor) do que indivíduos com níveis
cias de que as práticas de criação e educação podem baixos nesse traço. Como as ocupações artísticas e
ter um impacto sobre o desenvolvimento da persona­ investigativas requerem curiosidade, criatividade e
lidade durante o começo da idade adulta (Roberts, pensamento independente, elas serão mais adequa­
1997; Suomi, 1999). Nesse momento, os dados pare­ das para indivíduos com níveis elevados no fator de
cem sugerir o seguinte: (1) A personalidade é mais abertura à experiência.
estável durante períodos curtos de tempo do que du­ Embora alguns psicólogos sugiram que o mo­
rante períodos longos. (2) A personalidade � mais es­ delo de cinco fatores seja útil para prever o desempe­
tável na idade adulta do que na infância. (3) Embora nho no emprego (Hogan e Ones, 1997), outros são mais
existam evidências de uma estabilidade geral de tra­ cuidadosos em sua avaliação e sugerem que diversas
ços, existem diferenças individuais na estabilidade du­ características importantes da personalidade que não
rante o desenvolvimento. (4) Embora existam evidên­ estão incluídas no modelo são úteis para realizar tais
cias de uma estabilidade geral de traços, os limites da previsües (Hough e Oswald, 2000; Matthews, 1997).
influência ambiental sobre as mudanças durante a in­
fância e a idade adulta ainda devem ser determinados.
Saúde e longevidade
A idéia de que a personalidade está relacionada
APLICAÇÃO DO MODELO com a saúde data, pelo menos, dos gregos antigos,
que acreditavam que havia um elo entre as doonças e
Conforme já foi indicado, o modelo de cinco fa­ o temperamento. Pesquisas recentes sugerem que
tores é visto por muitos teóricos de traços como a base pode haver algo de verdadeiro nessa crença. Um es­
para uma representação adequada da estrutura da tudo de longo prazo aponta para a importância da
personalidade. Além disso, o NEO-PI é consider-ado consciência para prever quem vive mais tempo
uma medida adequada desses traços. Isso sugere (Friedman et al., 1995a; 1995b). Nesse estudo, uma
muitas aplicações potenciais do modelo e do inventá­ grande amostra de crianças foi acompanhada por 70
rio de personalidade, incluindo as áreas de escolha anos por diversas gerações de pesquisadores que re-
Lawrence A. Pervin e Oliver P. John

gistravam quais participantes morriam e as causas das Widiger, 1994; Widiger, Verheul e van der Brink, 1999).
mortes. Os adultos que eram conscientes quando Em outras palavras, muitas f ormas de psicopatologia
crianças (segundo avaliações dos pais e professores são consideradas como uma quebra em um contínuo
aos 11 anos de idade) viveram significativamente mais com a personalidade normal, ao invés de representar
tempo e tinham 30% a menos de chance de morrer um afastamento do nonna.l. (Widiger, 1993). Por exem­
em um dado momento. plo, a personalidade compulsiva pode ser vista como
Por que os indivíduos conscientes vivem mais alguém que possui ruveis extremamente altos de cons­
tempo? Ou seja, quais são os me<:anismos causais que ciência e neuroticismo, e a personalidade anti-social
levam a essas diferenças em longevidade? Em primei­ ,como alguém que possui ruveis extremamente baixos
ro lugar, os pesquisadores excluíram a possibilidade de amabilidade e consciência. Assim, o padrão de re­
de que variáveis ambientais, como o divórcio dos pais, sultados nos cinco fatores pode ser o mais importante.
explicassem o efeito na consciência. Em segundo, du­
rante as suas vidas, os indivíduos conscientes esta­ Tratamento
vam menos sujeitos a morrer de mortes violentas, ao
passo que os indivíduos menos conscientes corriam Tem havido um crescente interesse em usar as
riscos que levavam a acidentes e brigas. Em terceiro cinco grandes dimensões para escolher e planejar tra­
lugar, as pessoas conscientes tendiam menos a fumar tamentos psicológicos (Harkness e Lilierueld, 1997).
e beber do que os demais. Os pesquisadores sugerem Com um entendimento da personalidade do indiví­
que é provável que a consciência influencie todo um duo, o terapeuta pode estar em uma melhor posição
padrão de comportamentos relevantes para a saúde. para antecipar problemas e planejar o curso do trata­
Assim, além de urna menor probabilidade de fumar e mento (MacKenzie, 1994; Sanderson e Clarkin, 1994).
beber em demasia, eles tendiam mais a fazer o seguin­ ,Outra contribuição potencialmente importante pode
te: realizar exercícios regularmente, alimentar-se de ser a orientação que pode ser fornecida para selecio­
acordo com uma dieta balanceada, fazer exames re­ nar a melho, forma de terapia (Costa e Widiger, 1994;
gularmente, seguir prescrições médicas, e evitar toxi­ Costa e McCrae, 1992; Miller, 1991). O prinápio aqui
nas do ambiente. ,é que assim como indiv(duos com diferentes perso­
Em suma, os efeitos de ser descuidado ou des­ nalidades funcionam pior ou melhor em diferentes
preocupado acumulam-se ao longo da vida do indiví­ vocações, eles também podem se beneficiar mais ou
duo e podem ser bastante prejudiciais no final. De ma­ menos com diferentes formas de tratamento psicoló­
neira mais geral, os efeitos da consciência ilustram o gico. Por exemplo, indivíduos com altos níveis de
fato de que os indivíduos desempenham um impor­ abertura podem tirar mais proveito de tratamentos
tante papel na criação de ambientes saudáveis ou insa­ que encorajem a exploração e a fantasia do que indi­
lubres para si mesmos. Friedman et ai. (1995a) conclu­ víduos com níveis baixos nesse fator. Estes últimos
em que "embora o senso comum afume que uma pes­ podem preferir e se beneficiar mais com formas mais
soa grosscira e auto-indulgente pode prosperar pisan­ diretivas de tratamento, incluindo o uso de medica­
do nos outros, isso não parece ocorrer de fato. Também ,ção. Um clínico, escrevendo sobre isso, diz que
não é comum observarmos o triunfo do indivíduo pre­ freqüentemente ouve pacientes com nível baixo de
guiçoso e mal-acostumado, que abandona os estudos. abertura dizer algo como, "Certas pessoas precisam
Com relação à corrida rumo à morte, as boas novas são deitar em um divã e falar de suas mães. A minha 'te­
que as pessoas boas terminam por último" (p. 76). rapia' é malhar na academia" (Miller, 1991, p. 426).
Em comparação, a pessoa com alto ruvel de abertura
Diagnóstico de transtornos de personalidade pode preforir a exploração de sonhos encontrada na
psicanálise ou a ênfase na auto-realização encontrada
Supõe-sé que o modelo das cinco grandes dimen­ na abordagem humanística-existencial.
sões e o NEO-PI-R medem os estilos emocional, Outra aplicação do modelo de cinco fatores pode
interpessoal e motivacional básicos das pessoas. Inú­ ,estar na área do aconselhamento matrimonial. l..émbre­
meros pesquisadores das cinco grandes dimensões afir­ se que o NEO-Pl possui um formulário em que os pró­
maram recentemente que muitos tipos de comporta­ prios indivíduos se avaliam. e um formulário em que
mentos anormais podem ser considerados versões exa­ ,eles avaliam outra pessoa. O uso des.ses formulários
geradas de traços da personalidade normal (Costa e com indivíduos em processo de aconselhamento ma-
Personalidade: teoria e prática

trimonial pode facilitar o entendimento de cada indiví­ modelo nesse sentido, assim como as do NEO-PI-R
duo, a relação entre as suas personalidades e a maneira como dispositivo de avaliação, permanecem por serem
como cada um percebe o parceiro, a qual é diferente da exploradas. Ao mesmo tempo, alguns pontos merecem
que o parceiro tem de si mesmo. No aconselhamento ser mencionados. Em primeiro lugar, esse trabalho é
matrimonial, parte do problema comumente está no recente e está em andamento, e não está claro até que
fato de que um indivíduo vê a si próprio de maneira iPonto os cinco fatores irão se mostrar úteis para distin­
muito diferente daquela como é percebido pelo parcei­ guir os muitos e diferentes tipos de personalidade que
ro. Freqüentemenfa, os pàrceiros não têm consciência iPodern ser bem-sucedidos na maioria das ocupaçoos
dessas diferenças e ficam confusos com relação às ra­ ou as muitas e diferentes formas de psicopatologia de
zões pelas quais eles têrn diíiculdadéS para se comuni­ interesse para os clínicos. Em segundo lugar, atualmen­
carem. Por exemplo, uma pessoa pode considerar que te, o modelo promete mais como uma maneira de des­
possui um nível elevado ern extroversão e consciência, crever várias formas de psicopatologia do que de ex­
mas o seu parceiro a avalia como tendo níveis baixos iPlicar esses transtornos (Mille:r, 1991). Enquanto outras
nesses fatores. O orientador pode ser capaz de utilizar teorias da personalidade proporcionam explicações
essas informações para dar um retomo aos parceiros iPara muitos transtornos de personalidade (por exem­
sobre as diferenças em suas percepções e ajudá-los a iPIO, a teoria psicanalítica dos estágios do desenvolvi­
lidar de forma mais construtiva com as diferenças. mento e transtornos de personalidade), o modelo de
cinco fatores oferece poucos insigltts nesse sentido. Fi­
R,esumo e comentários nalmente, deve-se lembrar que o modelo não oferece
uma abordagem terapêutica. Em comparação com as
Em suma, os proponentes do modelo de cinco teorias estudadas até aqui, cada uma das quais é asso­
fatores sugerem que da mesma forma que um retrato ciada a um modelo para o tratamento de indivíduos
completo do indivíduo, o modelo provavelmente terá com dificuldades psicológicas, o modelo de cinco fato­
muitas aplicações para as áreas da orientação vocacio­ res mantém-se silencioso com relação à maneira como
nal, diagnóstico e tratamento. As implicações t,otais do as pessoas podem mudar.

UM EXEMPLO DE CASO: UM HOMEM DE 69 ANOS DE IDADE"


Exemplos de caso da teoria de traços não apare­ para tratamento de dores no peito e pressão alta. Ele
cem com freqüência na literatura, apesar da ênfase da era um empresário autônomo, que havia se submetido
abordagem de traços nas diferenças individuais. Com a uma cirurgia de ponte de safena dois anos antes, e
a publicação do NEO-PI-R, temos, agora, descrições de estava com medo de morrer e deixar sua esposa e seu
indivíduos pela perspectiva da teoria de traços. Con­ il.1egócio em um estado vulnerável. Ele afirmou duran­
forme descrito anteriormente neste capítulo, o NEO­ te a entrevista de admissão que tinha um longo históri­
PI-Ré um questionário que consiste em 240 itens, para co de ansiedades, especialmente em situações sociais e
os quais o indivíduo indica o nível de concordância em ambientes desconhecidos, e apresentava inteligência
uma escala de cinco pontos. Podem ser obtidos resul­ bastante a.cima da média.
tados para os cinco fatores básicos. Além disso, escores Na Figura 8.3, são apresentados os resultados do
para seis escalas de facetas mais especificas são forneci­ paciente para os cinco fatores e as escalas de facetas
dos para cada um dos cinco fatores. Essas escalas pro­ iPªra cada fator. Também são apresentados, na Figura
porcionam uma análise mais minuciosa dentro de cada 8.3, os resultados derivados de avaliações do paciente
categoria de traço. realizadas por sua esposa. Ou seja, os resultados de
Este caso envolve um homem de 69 anos de ida­ auto-avaliação (formulário S) e de observador (neste
de ,que chegou em uma clínica médica comportamental caso, a esposa, formulário R) são plotados da mesma

• Partes deste material são reproduzidas sob permissão especial da editora Psychological Assessment Resources, lnc., Odessa,
FL 33556, do NEO-PI-R Professional :Manual, de Paul T. Costa Jr. e Robert R. �1cCrae. Copyright© 1992 by PAR, lnc.
NEO PI R - RevlcSeel NEO l"ersonallty lnYUrllory (NEO F>I-FI)
Pi,ul T. Costa, Jr.1 Ph.O. and Robert A. MeCme, Ph.D.
Malos Form A (Aollngs)

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x-x Formulário S x- - -x formulário R

(Costa e McCrae, 1992, p. 27). Adaptado e reproduzido sob permissão especial da editora
Figura -8.3 Auto-avaliações e av aliações do cônjuge no NEO-�R
6,
Ps hological Assessment Resources, lnc, Odessa, FL 3355 do NEO,P/,R, de Páuf Costa e Robert McCrae. Copyright© 1992 by PAR, lnc. Reprodu ções proibidás
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sem permissão da PAR, lnc.
Personalidade: teoria e prática

fonna e podem ser comparados entre si. De um modo vicas e pessoais a sério e colocam os negócios antes
ge-ral, os resultados de auto-avaliação e do observador do prazer. Eles possuem uma boa auto-disciplina e
(esposa) são bastante consistentes. Ambos o represen­ desenvolvem muitas competências. Os observadore,
tam como um indivíduo introvertido, aberto à expe­ descrevém essas pessoas como éuidádosas, confiáveis,
riência e consciente. As maiores discrepâncias dizem trabalhadoras e perseverantes.
respeito a facetas de Neuroticismo, especialmente N4: A seguir, considere o seu nível de Abertura à ex­
Constrangimento e N6: Vulnerabílidade. Sua esposa clara­ periência. Indivíduos corno ele, que apresentam resul­
mente subestimou a sua situação nessas facetas, e con­ tados muito altos, possuem 1.irti. forte intéresse nas
versas com o casal mostraram que ele relutava em com­ experiências cm si. Eles buscam a novidade e a varie­
partilhar a extensão de suas angústias com a sua espo­ dade e têm uma preferência notável pela complexi­
sa. Uma comunicação mais aberta de seus medos e dade. Eles têm uma consciência elevada de seus pró­
vulnerabilidades tomou-se um dos objetivos do trata­ prios sentimentos e são pércepti vos C?m reconhecer as
mento. emoções nos outros. Eles são muito responsivos à ibe­
leZã na arte e na natureza. Sua atração por idéias no­
Descrição global da personalidade vas e sistemas de valores alternativos os toma especi­
segundo as cinco gr.andes dimensões almente tolerantes aos outros e pode levá-los a adotar
atitudes nào-convencionais. Os seus companheiros
A característica mais evidente da personalidade avaliam essas pessoas como imaginativas, ousadas,
desse indivíduo é a sua situação ém Neuroticismo. lndiví­ independentes e criativas.
duos que apresentam um resultado ao redor desses va­ Essa pessoa apresenta um nível baixo deExtrowsãn.
lores são propensos a experimentarem um nívél eleva­ Esse tipo de pessoa é bastante introvertida, preferindo
do de emoções negativas e episódios freqüentes de per­ fazer a maioria das coisas sozinha ou oom grupos pe­
turbação psicológica.. Eles são mal-humorados, excessi­ quenos de pessoas. Eles evitam festas grandes e baru­
vamente sensíveis e insatisfeitos com muitos aspectos lhentas e nào gostam de conhecer pessoas novas. São
de suas vidas. Eles geralmente possuem baixa auto-esti­ normalmente quietos e não-assertivos em interações de
ma e pedem ter idéias e expectativaspouoo realistas. Eles grupo e raramente experimentam sentimentos positivos
são preocupados, normalmente Séntem-se inséguros fortes, como a alegria ou excitação. Aqueles que conhe­
consigo mesmos e com os seus planos. Os.amigos e vizi­ cem essas pessoas provavelmente as descreveriam como
nhos desses indivíduos caracterizam-nos corno n@tVo­ reservadas, sérias, retraídas e solitárias. O fato de que
sos, constrangidos, tensos, e vulneráveis em compara­ esses indivíduos são introvertidos não necessariamente
ção corn a pe$oa média. significa que eles não possuam habilidades sociais -
Os resultados das facetas de Neuroticismo sugerem muitos introvertidos fnndonam muito bem em situações
que esse indivíduo é ansioso, geralmente apreensivo e sociais, embora prefiram evitá-las. Noté também que a
propenso a preocupações. Ele freqüentemente fica bra­ intmversão não implica em introspecção; esses indiví­
vo com os outros, mas apresenta os penados de infelici­ duos tendem a ser pénsativos e reflexivos apenasse tam­
dade normais que a maioria dos homens experimenta. bém apresentarem um nível alto de Abertura.
O constrangimento ou a timidez ao lidar com estranhos Com relai;ão à Extrowsão, os resultados dás fa�tas
freqüentemente são um problema para ele. Ele relata ser indicam que essa pessoa é média em seu nível de cordi­
bom em controlar seus impulsos e desejos, mas é inca­ alidadé interpessoal, mas rru:arnente aprecia multidões
paz de lidar bem com o estresse. ou festas grandes e ruidosas. Ele tem problemas para se
Essa pessoa possui níveis muito altos de Cons­ afirmar e prefere fie.ar em segundo plano em encontros e
ciência. Os homens que apresentam resultados como discussões em grupos. O respondente possui um nível
esse apresentam vidas muito organizadas, lutam para moderado de energia pesooal e um.nível médio de ativi­
atingir os seus objetivos de maneira planejada e deli­ dade. Excitação, estimulação e vibrações têmpouco apelo
berada. Eles possuem uma necessidade alta de reali­ para ele, mas ele experimenta tanta alegria e felicidade
zação. São asseados, pontuais e bem-organizados e quanto a maioria dos homens.
são confiáveis para cumprir com aquilo com que se Finalmente, esse indivíduo apresenta um resul­
comprometem. Eles levam as obrigações morais, cí- tado dentro da média emAmabílidade. As pessoas com
Lawrence A. Pervín e Oliver P. John

um resultado nessa faixa são tão agradáveis quanto a um nível elevado de Consciêticia, suas realizações podem
média das pessoas. Elas podem ser simpáticas, mas lhe trazer maior satisfação com a vida.
também podem ser firmes. Elas são confiantes, mas Em termos dos processos cognitivos, esse indiví­
não são ingênuas, e estão prontas para competir, as­ duo tende a ser mais complexo e diferenciado em seus
sim como para cooperar com os outros. pensamentos, valores e julgamentos morais do que
outras pessoas com o seu. mesmo nível de inteligên­
Correlatos da personalidade: algumas cia e educação. Como está aberto à experiência, esse
implicações. possíveis indivíduo tende a apresentar um desempenho acima
da média em testes de capacidade de pensamento di­
No enfrentameI\to do estresse da vida cotidiana, vergente� ou seja, ele pode produzir soluções fluen­
esse indivíduo está propenSo a reagir com respostas tes, flexíveis e originais para muitos problemas e ser
ineficazes, como reações hostis para com os outros, considerado criativo em seu trabalho ou holJbíes.
autocensura ou fantasias escapistas. Ele está mais pro­ Finalmente, esse respondente tende a apresentar
penso do que a maioria dos adultos a utilizar-se do níveis elevados das seguintes nece$Sidades e motivos:
hwnor e menos propenso a utilizar a fé ern resposta a realização, estrutura cognitiva, força (persistência), es­
ameaças, perdas e desafios. Além disso, ele está um pou­ quiva de danos (evitar o perigo), ordem, sensibilidade
co menos propenso a utilizar pensamento positivo e (apreciação de experiências sensuais e estéticas), socorro
ação direta para lidar com problemas. (apoio e simpatia) e entendimento (estimulação inte­
Com rolação a queixas somáticas, essa pessoa pode lectual), e níveis baixos das seguintes necessidades:
ser excessivamente seilSível em monitorar e respon­ humilhação, dominação, e impulsividade.
der a problemas físicos e doenças. Em avaliac;ões mé­
dicas, isso pode ser particularmente importante, sem­ Resultados de tratamentos
pre que po$Sível, para buscar con.firll\âção objetiva de
seus relatos de sintomas subjetivos. Como esse paciente apresentava níveis muito
Considerando o seu bem-estar psic.ológico, é impor­ elevados de Abertura à experiência, ele era capaz de
tante notar que o seu humor e a sua satisfação com di­ se beneficiar de técnicas auto-hipnóticas e de imagi­
versos aspectos de sua vida irá variar de acordo com as nação projetadas para aumentar o relaxamento e re­
circunstâncias. Entretanto, a longo prazo, esse indivíduo duzir a pressão sanbrüínea. Como ele apresentava ní­
tende a ser mais sensível aos problemas da vida do que a veis altos de Consciência, ele praticava essas técnicas
suas recompensas, e assim, tende a sentir-se relativamen­ regularmente em casa. Como resultado, ao final da
te infeliz. Corno ele está aberto à experiência e à décima sessão, ele havia reduzido a sua pressão
introspecção, seus humores podem ser mais intensos e sangüínea média substancialmente e pôde encerrar a
variados do que os do homem Iru.Sdio. Por apresentar terapia.

O CASO DE JIM
O 16 P.F. QUESTIONNAIRE: A TEORIA avaliou os escores de seu 16 P.F., mas que desconhe­
ANALÍTICO,FATORIAL DE TRAÇOS cia qualquer outro dado a seu respeito.
Vamos retomar para o caso de Jim e considerar Jim se apresenta como wn jovem bastante esperto e ex­
a maneira corno a sua personalidade é representada pansivo, embora seja inseguro, facilmente irritável e um
por questionários de traços da personalidade. Come­ pouco dependente. Menos assertivo, consciencioso e ou­
çamos com o 16 P.F. Questionnaire, desenvolvido por sado do que pode parecer inicialmente, Jim está confuso
CatteU. A breve descrição da personalidade de Jim e em conflito a respeito de quem ele é e para onde está
apresentada a seguir foi escrita por um psicólogo que indo, tende para a introspecção e é bastante ansioso. Seu
Personalidade: teoria e prática

perfil sugere que ele pode experimentar alterações peri­ tos nos outros e tomar-se hostil para com eles, "mor­
ódicas de humor e pode ter um histórico de queixas dendo" ou "cortando" de forma sarcástica. A segun­
psicossomáticas. Como o 16 P.F. foi adminístrado para da característic-a importante diz respeit,o a queixas
estudantes universitários por todo o país, também po­ psicossomáticas. Jim tem passado muito trabalho por
demos comparar Jim com o estudante universitário mé­ causa de uma úlcera e freqüentemente precisa beber
dio. Comparado com outros estudantes, Jim é mais ex­
pansivo, inteligente e afetado por sentimentos-facilmen­ leite por causa disso. Veja que, embora e,ssa seja uma
te irritáve.1, hipersensível e freqüentemente fica deprimi­ condição séria, que lhe causa problemas considerá­
do e ansioso. veis, Jirn não a mencionou em sua .autobiografia.
A partir dos dados do 16 P.F., podemos discernir
Lernbrc�se que o método analítico-fatorial nos muitas partes importantes da personalidade de Jim.
permite reduz.ir o número de traços específicos ne­ O conceito de traço, expressando uma tendência am­
cessários para descrever a personalidade de Jirn. Qua­ pla a reagir e características relativamente permanen­
tro fatores secundários foram derivados dos 16 fato­ tes do comportamento, parece ser útil na descrição de
res primários de Cattell: Baixa Ansiedade-Alta Ansie­ sua personalidade. Obsernamos com o 16 P.F. que,
dade, Introversão-Extroversão, Emotividade Afável­ embora seja expansivo, Jim é basicamente tímido e
Equihbrio Alerta e Submissão (dependente do grupo, inibido. Mais uma vez, transparecem as característi­
passivo)-Independência. Os resultados de Jim são ex­ cas de ser ansioso, frustrado e conflituoso. Contudo,
tremos em dois desses fatores. Em primeiro lugar, con­ é questionável se 16 dimensões são adequadas para a
forme esperado, Jim apresenta níveis de ansiedade descrição da personalidade, principalmente quando
extremamente altos. Isso sugere que ele está insatis­ elas são reduzidas a quatro dimensões amplas. Tam­
feito com a sua capacidade de lidar com as exigências bém se questiona se um escore no meio da escala sig­
da vida e de realizar o que deseja. O alto nível de an­ nifica que o traço não é importante para entender Jim
siedade também sugere a possibilidade de perturba­ ou se ele simplesmente não apresenta níveis extremos
ções físicas e sintomas corporais. Em segundo, Jim naquela característica. Este último caso parece ser o
apresenta níveis muito baixos de equilíbrio alerta ou, que ocorre. Ainda assim, quando se escreve uma des­
conseqüentemente, ele apresenta níveis elevados de crição de personalidade baseada nos escores do 16 P.F.,
emotividade afável. Isso sugere que, ao invés de poy a ênfase principal tende a ficar nas escalas com resU!l.­
suir uma personalidade empreendedora e decidida, tados extremos.
Jim é perturbado pela emotividade e freqüentemente Talvez mais sério, contudo, seja o fato de que
fica desencorajado e frustrado. Ainda que S€11Sfvel às Cattell não tenha incluído as virtudes do clínico, ape­
sutilezas da vida, essa sensibilidade, às vezes, leva a sar de seus esforços para fazê-lo. Os resultados do 16
preocupações e pensamento exagerado antes que ele P.F. possuem as vantagens e limitações de uma des­
aja. Os outros dois escores de Jim indicam que ele não crição da personalidade na perspectiva da abordagem
é particularmente introvertido ou extrovertido e nem de traços. Os resultados são descritivos, mas não são
excessivamente dependente ou independente. Em re-­ interpretativos ou dinâmicos. Embora Cattell tenha
sumo, suas características marcantes são a ansiedade, tentado lidar com o indivíduo como um todo, os re­
a sensibilidade e a emotividade. sultados do 16 P.f. apenas fornecem um padrão de
resultados - e não um indivíduo completo. Embora a
teoria leve em consideração a interação dinâmica en­
Comentários sobre os dados
tre motivos, os resultados do 16 P.F. parecem não es­
Antes de deixarmos o 16 P.F., deve-se notar que tar relacionados com éSSa parte da teoria. Jim ó des­
duas caraterísticas importantes surgiram com maior crito como ansioso e frustrado, mas ansioso com o que
nitidez nesse teste do que em qualquer um dos outros e frustrado par qual razão? Por que Jim é expansivo e
dispositivos de avaliação. A primeira é a freqüência tímido? Por que ele considera tão difícil ser decidido
das variações de humor de Jim. Ao ler os resultados e empreendedor? A teoria reconhece a importância
do 16 P.F., Jim dedárou que tern variações de humor do conflito no funcionamento do indivíduo, mas os
freqüentes e extremas, variando da felicidade extre­ resultados do 16 P.F. não nos dizem nada a respeito
ma à depressão extrema. Durante esses períodos de da natureza dos conflitos de Jim e da maneira como
depressão, ele tende a descarregar os seus sentimen- ele tenta lidar com eles. Os traços identificados nos
Lawrence A. Pervín e Oliver P. John

fatores parecem ter algum grau de validade, mas eles c.apaddade de tomar aquela decisão frente à oposição
também tendem a ser abstratos e não a representar a dos meus pais foi muito signilicativa para mim; ela afir­
riqueza da personalidade encontrada em dados de mou a minha força e independência como nenhuma
outros instrumentos de avaliação. outra coisa em minha vida.
"Cursar pós-graduação no meio-oeste em psi­
A estabilidade da personalidade: cologia clínica foi éXtremamcnte significativo para
Jim, 5 e 20 anos depois mim. Eu me identifico profissionalmente como um
clínico, o que é bastante central para o meu autocon­
O material apresentado até aqui a respeito de ceito. Eu tenho um sistema de pensamento com bases
Jim foi escrito aproximadamente na época de sua for­ firmes, e que é muito central para a maneira como
matuta na universidade, no final da década de 1960. lido com o meu ambiente. Estou muito contente com
Desde então, passou tempo suficiente para conside­ as dectsõe-s que tomei, mesmo que eu ainda pense na
rar mudanças que tenham ocorrido em sua vida e idéia de voltar para a administração. Mesmo que eu
possam ter ocorrido em sua. personalidade. Isso é par­ faça isso, seria para obter outro diploma; isso não
ticularmente importante em relação à teoria de tra­ mudaria o fato de que a minha identificação princi­
ços, pois, conforme já vimos, sugere-se que exista uma pal é com a psicologia. Também me apaixonei duran­
estabilidade considerável. te o primeiro ano de pós--graduação, pela primeira e
única vez em minha vida. O relacionamento não deu
Cinco anos depois: auto-avaliação de certo, o que foi devastador para mim, e eu ainda não
experiências de vida e mudanças de superei esse fato. Apesar da dor, contudo, foi uma ex­
personalidade periência inspiradora para a minha vida.
"No ano passado, convivi em um ambiente co­
Cinco anos após a graduação, Jim foi contactado munitário, e isso foi um divisor de águas para mim.
para (1) indicar se havia ocorrido experiências de vida Nós trabalhamos bastante conosco e com os outros
significativas para ele desde a graduação e, em caso durante o ano, em nossos grupos formais semanais e
afirmativo, descrever a maneira como elas o afetaram informalmente a todo momento, e essa experiência
e (2) dar uma breve descrição de sua personalidade e freqüentemente era dolorosa, freqüentemente era di­
descrever de que forma havia mudado, se houvesse, vertida, e sempre produzia algum crescimento. Es­
desde a graduação. A seguir, temos a sua resposta. tou convencido de que gostaria de viver em comuni­
dade como meu estilo básico de vida, embora eu ne­
Expe�iências de vida "Após sair da faculdade, fui fa­ cessite de um grupo de pessoas muito especial para
rer pós-graduação cm administração. Consegui entrar fazê-lo e prefira viver sozinho ou com uma ou duas
apenas para um curso de pós-graduação em psicolo­ pessoas do que oom qualquer grupo. Nosso grupo está
gia; ele não era particularmente conceituado, ao passo pensando em se juntar novamente em um esquema
que consegui vaga em várias escolas de administração mais pennan1mte, e talvez eu decida morar com eles
excelentes e, baseado nisso, resolvi entrar para a escola novamente no começo do ano que vem. Acontecendo
de administração. Eu não gostava realmente de admi­ ou não, a experiência do ano passado foi muito signifi­
nistração, embora t:ambém não fosse terrivelmente per­ cativa para mim, e terapêutica em todos os sentidos.
niciosa, mas estava claro para mim que o meu interes­ "Mais para o final do ano passado, come<:ei um
se rcahnentc era no campo da psicologia, e assim, ten­ relacionamento que atualmente se tomou fundamen­
tei uma vaga em algumas escolas durante o ano acadê­ tal para mim. Estou morando com uma mulher, Kathy,
mico, mas não COns@gui Mtra. r. Eu trabalhava em uma que faz mestrado em serviço social. Ela já foi casada
firma de exportação e importação em Nova York du­ duas vezes. É um relacionamcnto sóbrio, com alguns
rante o verão e a detestava o suficiente a ponto de ten­ problemas; basicamente, existem algumas coisas a
tar mais uma vez entrar para um curso de pós-gradua­ respeito dela que não me deixam confortável. Eu não
ção no verão. Fui aooito em dois, e então contC\'OU um me sinto 'apaixonado' neste momento, mas existem
processo de decisão muito difícil. Meus pais queriam muitas coisas ótimas nela, que eu gosto e aprecio, en­
éXplicitamente que éU voltasse para a administração, tão, eu estou ficando na relação par-a ver o que acon­
mas eu decidi tentar o curso de pó&-graduação.. Minha tece e como me sinto se continuar com ela. Eu não
Personalidade: teoria e prática

planejo casar e nem tenho um interesse imediato em atra de orientação analítica para três 'sessões de avalia­
fazê-lo. O relacionamento não tem o sentimento apai­ ção', após as quais ele reoomendou: (1) análise; (2) te­
xonado que o meu outro relacionamento significati­ rapia de grupo; (3) terapia individual de orientação
vo tinha, e éStou, atualmente, tentando entender quan­ analítiéã. Eu não estava pronto para é-Omeçar nem a
to do meu sentimento naquela época era idealização análise nem a terapia em grupo, e não queria continuar
e quanto era real e se os meus sentimentos sóbrios com o que ele considerava uma terceira alternativa,
com relação a Kathy indicam que ela não é a mulher então, eu parei. No segundo ano de pós-graduação, fre­
certa para mim ou se eu preàso aceitar o fato de que qüentei um psiquiatra de orientação analítica por seis
nenhuma mulher será "perfeita" para mim. De qual­ ou oito sessões, mas fiquei muito frustrado com o fato
quer modo, meu relationamento rom Kathy l:an'lbém de ele me dar tão pouco, de modo que quando ele su­
parece- uma experiência maravilhosa, que produz cres­ geriu awnentar a freqüência das sessões de uma para
cimento, e é a experiência de vida mais significativa duas vezes por semana, eu cantelei. Uma questão im­
cm que eu estou envolvido atualmente. portante para mim era se ele era um bom terapeuta: eu
"Aêhoque i::.so constitui as minhas experiências o considerava regular e sentia que queria alguém espe­
de vida significativas desde que saí da faculdade". cial. Isso claramente é uma forn1a de resistência, eu sei,
embora eu ainda sinta que havia algo de real em mi­
Mudanças de personalidade "Basicamente,achoquc nllas impressões a respeito dele. Durante o meu tercei­
não mudei muito desde que deixei a faculdade. Pelo ro ano de p6s-graduação, freqüentei um psiquiatra nàer
fato de estudar psicologia, considero-me um pouco tradicional aproximadamente dez vezes. Ele utilizava
mais autoconsciente hoje em dia, o que considero pro­ uma mistura de técnicas: catártica, gestalt, comporta­
veitoso. Conforme me léntbro da sua interpretação dos mental e geralmente era cordial e afetuoso (bas1antc
testesque realizei naquela época, você me considera­ antianalítico). Ao final de nosso relacionamento, que
va principalmente depressivo. Neste momento, entre­ eu considerava proveitoso na época, nós dois sentía­
tanto, eu me considero principalmente obsessivo. Eu mos que eu já tinha feito terapia suficiente e que preci­
acho que sou pmpenso a entrar em depressão, mas, sava de experiências de vida "terapêuticas": por exem­
fazendo um balanço, me vejo mais feliz hoje em dia - plo, um relacionamento com uma mulher, tempo para
deprimido com menos freqüência. Considero a mi­ me divertir, etc. Desde então, eu tive importantes expe­
nha obsessividade um padrão caraterístico profunda­ riências de vida terapêuticas, das quais a mais signifi­
mente enraizado e tenho pensado há algum tempo cativa foi morar na casa em que morei no ano passado.
em faz.er análise para trabalhá-la (entre outras coisas, Como resultado, sinto menos pressão imediata para
é claro). Embora considere sérias minhas idéias a esse buscar ajuda e penso em fazer anális@ para trabalhar
respeito, ainda não estou muito próximo de fazê-lo. questões características básicas (corno a minha
Isso se deve, pelo menos em parte, ao fato de que eu obsessividade). Em outras palavras, sinto uma dor
espero sair de Michigan no final deste ano acadêmi­ menos aguda hoje em dia.
co, e assim, começar análise neste ponto, obviamente, "Confomi.e disse anteriormente, eu me considero
não faria sentido. Por outro lado, é uma proposta as­ mais semelhante do que diferente da maneira como era
sustadora, que exige um compromisso sério, então, há cinto anos. Acho que sou urna pessoa esperta, éons­
existe uma certa resistência para superar, que é maior ciente, interessante e divertida. Continuo sendo bastante
que a questão geográfica. Entretanto, vejo isso como mal-humorado, e assim, às vezes nenhuma dessas ca­
uma possibilidade definitiva para mim nos próximos racterísticas fica evidente. Meu relacionamento sexual
dois anos. c:om minha namorada acabou com as minhas prooc:u­
"Deixe-me dizer uma palavra com relação à mi­ pações a respeito da minha adequação sexual (especi­
nha história como paciente de psiroterapia. Já fiz vári­ almente com relação à ejaculação precoce).
as tentativas abortadas de me envolver, das quais ape­ "Ainda acho ,que tenho um problema com a 'auto­
nas uma foi moderadamente bem-sucedida. Durante a ridade' - ou seja, sou muito sensível e vulnerável à for­
faculdade, eu fiz algumas sessões, mas pelo que lem­ ma como aqueles que têm autoridade sobre mim melra­
bro, era muito superficial em todos os sentidos. Não fiz tam. Contudo, eu me vejo com inúmeras habilidades
nada no ano da escola de administração. Durante meu profissionais importantes e no ai.mpo em que quero es,­
primeiro ano de pós-graduação, freqüentei um psiqui- tar. Ainda tenho problemas com dinheiro - isto é, me
prroc:upo rom ganhar o que é justo pelo que faço, não
Lawrence A. Pervin e Oliver P. John

gosto do fato de os psiquiatras ganharem mais do que mente sete dias por semana. Eu me sinto aprisionado
eu, sou cuidadoso para não ser 'roubado', etc. Ainda não com isso a maior parte do tempo. Será que consigo
aceitei inteiramente que meu pai tenha dinheiro e o fato abandonar esses rituais e essas auto-indulgências com
de que vou ganhar uma parte dele, mas por outro lado, o nascimento de um filho? Eu devo' 1

não fico terrivelmente preocupado com isso, e parece


mais uma preocupação i:ntelectualizãda com o futuro do O modelo de cinco fatores; auto-avaliações e avalia•
que uma preocupação emocional no presente. Sou ex­ ção feita pela •esposa no NEO-PI O 1\IIEO-PI, corno
tremamente compulsivo, faço as coisas quC? procisam ser medida do rnodélo de cinco íatorC?S da pérsonalidade,
feitas com muita eficiência e experimento considerável não estava disponível na época dos testes originais. Por­
ansiedade quando perco o controle das coisas. A minha tanto, pareceu uma boa idéia faz.er com que Jim realizas­
vida deve estar bastante ordenada para que eu consiga se o teste agora. Além das auto-avaliações, foi possível
relaxar e me divertir. Infelizmente, a compulsividade obter avaliações de Jim através de sua esposa. Isso ofere..
transborda para a minha vida pessoal, de modo que o ce uma interessante opo:rturúdade para examinar o grau
meu quarto deve estar organizado, meus livros adequa­ de éOficordância entre a observação de si próprio e aquela
damente arrumados, etc., ou a ansiedade toma conta de do observador, que os autores do NEO-PI afinnam ser
mim. Mais uma vez, isso pare<:e um padrão profunda­ geralmente alta
mente enraizado, que não seria fácil de superar". Com relação às auto-avaliações, a característica
mais marcante da personalidade de Jirn é a sua baixa
Vinte anos depois amabilidade. O relatório do teste baseado em suas res­
postas indica que as pessoas que apresentam esses va­
Jim, agora com 40 anos de idade, trabalha como lores são antagônicas e tendem a ser bruscas ou até ru­
consultor psicológico em uma cidade de tamanho mé­ des ao lidar com outras pessoas. Além disso, elas pre­
dio na costa oeste americana. Os eventos mais impor­ ferem a competição à cooperação e expressam senti­
tantes dos últimos anos para ele foram o seu casa­ mentos de hostilidade diretamente, com pouca hesita­
mento, o nascimento de um filho e a estabilização de ção. Elas são descritas pelas pessoas como relativamente
sua identidade profissional. inflexíveis, críticas, manipuladoras ou egoístas.
Antes de se casar, ele esteve envolvido em lon­ Duas outras características significativas das res­
gos relacionamentos com duas mulheres. Embora elas postas de Jim foram suas avaliações bastante altas em
fossem muito diferentes, cle era crítico e descontente Extroversão e Neuroticismo. Com relação à primeira,
com as duas. Ele conheceu a sua esposa atual a apro­ o relatório indica que essas pessoas apreciam bastante
ximadamente quatro anos atrás. Ele a descreve corno a companhia de outras pessoas e freqüentemente são
calma e pacífica, com wn bom senso de perspectiva descritas pelos outros como sociáveis, divertidas e fa­
da vida. Embora ela seja um pouco parecida com uma lantes. Os resultados nas subescalas mais específicas
das mulheres anteriores, ele sente que mudou de uma indicam que ele se considera impetuoso e dominador e
forma que toma possível um relacionamento mais du­ preferoscrum lídt'.!r de grupo do que um seguidor. Com
radouro: "Eu tenho uma capacidade maior de aceitar relação ao Neuroticismo, os resultados de Jimsão ca­
os outros e um senso mais claro dos limites entre mim racterísticos de indivíduos propensos a ter um nível alto
e os outros - ela é ela e eu sou eu. E ela me aceita, de emoções negativas e episódios freqüentes de per­
meus defeitos e tudo". turbação psicológica. Segundo o seu relatório interpre­
Jim sente que fez progressos naquilo que chama tat ivo, esses indivíduos tendem a ser mal-humorados,
dc"sair de mim", mas sente que o seu narcisismo con­ excessivaménte sensíveis, insatisfoitôS, preocupados, a
tinua sendo uma questão importante: "Eu sou seleti­ ter auto-estima baixa e a ser descritos pelos seus ami­
vamente perfeccionista comigo mesmo, exigente co­ gos como sendo nervosos, constrangidos e tensos.
migo. Sé eu perco dinheiro, eu me puno.. Quando !'.!ta Com relação aos dois fatores remanescentes, Jim
adolescente, perdi vinte dólares e passei todo o verão apresentou um escore elevado em consciência, indi­
sem lanches. Eu não precisava do dinheiro, minha fa. cando uma alta necessidade de realização e capacida­
rnilia tem bastante. Mas o que eu fiz foi imperdoável. de de trabalhar de maneira organizada rumo aos seus
Isso é ser perfeccionista ou compulsivo? Eu me forço objetivos, e um escore médio em Abertura, indicando
o tempo todo. Eu tenho que ler o jornal detalhada- que valoriza o novo e o familiar aproximadamente
Personalidade: teoria e prática

da mesma fonna. Outros correlatos da personalidade rem uma pessoa com instrumentos ineficazes para o
sugeridos no relatório foram que ele provavelmente enfrcntamento do estresse e extremamente sensível a
use respostas ineficazes no enfrentamento do estresse iProblemas físicos, as avaliações de sua esposa retra­
da vida cotidiana e que ele é excessivamente sensivcl tam um individuo com instrumentos cficaz.es par. a o
a sinais de problemas físicos e doenças. enfrentamento do estresse e uma tendência a dimi­
A imagem de Jim apresentada por suã esposa é nuir queixas físicas e médicas.
semelhante? Em três dos cinco fatores, houve bastan­ Como devemos avaliar esse nível de concordân­
te concordância. Jim e a sua esposa o consideraram cia? De certa forma, isto é como perguntar se um copo
bastante alto em Extroversão, médio em Abertura e está meio cheio ou meio vazio. O nível de concordân­
muito baixo em Amabilidade. Houve uma pe-qmma cia g@rahnéntc alto susténta a sugéStão de que as auto­
diferença em relação à Consciência, sendo que Jim se avaliações tendem a ser precisas. Por outro lado, em
avaliou levemente mais alto do que a sua esposa. A um.a árM, a discordância é dramática. Talvez a espo­
grande diferença de avaliação ocorreu com relação ao sa de Jim geralmente o considere de maneira mais po­
Neuroticismo, onde Jim se considerou muito alto e sitiva, talvez.até mesmo de maneira mais exata, já que
sua esposa, baixo. As sub�alas mais especificas in­ Jim pode vir a ser bastante autocrítico. Outra possibi­
dicaram que Jim se considerava muito mais ansioso, lidade é que, conforme indicado no relatório do
hostil e depressivo do que a sua esposa considerava Rorschach de 20 anos antes, ele esconda algumas des­
que ele seria. Além disso, ele se considerava um pou­ sas emoções negativas atrás de uma fachada de equi­
co mais constrangido e vulnerável do que a sua espo­ líbrio e não compartilhe com a sua esposa as emoções
sa o considerou, embora ambos concordasSêm que ele ITTegativas que na verdade sente. É claro, o que não
está na média ou abaixo da média com relação a esses sabemos é a maneira como essas diferenças de avalia­
traços. Ao passo que as auto-avaliações de Jim suge­ ção influenciam o seu casamento, ou seja, se as dife­
rem um indivíduo que é ansioso e propenso a se pre­ renças de percepção representam áreas de dificulda­
ocupar, as avaliações de sua esposa sugerem um in­ de entre eles ou, ao invés disso, são aceitáveis, e tal­
divíduo que é calmo e geralmente livre de preocupa­ vez até desejáveis, para a sua relação conj.ugal.
ções. Além disso, enquanto as suas respostas suge-

AVALIAÇÃO: A CONTROVÉRSIA PESSOA-SITUAÇÃO


Durante as últimas duas décadas, a teoria de tra­ situacio:nal. O primeiro, o longitudinal, questiona se p�
ços recebeu críticas consideráveis devido à sua ênfase soas que apresentam um nível alto em um dado traço
em propriedades estáveis e duradouras da pessoa. Em em um determinado ponto do tempo também teriam
particular, os críticos da teoria de traços argumentam um nível alto naquele traço em outros momentos. O se­
que o comportamento é muito mais variável de sihta­ gundo, o inter-situacional, questiona se pessoas com um
ção para situação do que sugerem os teóricos de tra­ il'lÍvel elevado naquele traço em algumas situações tam­
ços (Mischcl, 1968; 1990). Além disso, os críticos ale­ bém possuem níveis altos naqucle traço em outras situ­
gam que a teoria de traços não é eficaz. para prever o ag")es. Os teóricos de traços sugerem que ambos são ver­
comportamento (Bandura, 1999; !Pervin, 1994). Ao in­ dadeiros, ou seja, que as pessoas são estáveis no tempo e
vés de uma ênfase em pré-disposições amplas da pes­ em diferentes situações em seus traços de personalidade
soa, muitos desses críticos énfatizam a importância de característicos. É claro que é essa visão, particularmente
situações ou recompensas do ambiente no controle do o aspecto da estabilidade inter-situacional, que é ataca­
comportamento humano.. Assim, por algum tempo, da por proponentes de uma posição mais si.tuacional.
houve um sério debate com relaçio a se regularida­
des de comportamento poderiam ser explicadas por
aspectos da pessoa, como os traços, ou por aspectos ESTABILIDADE LONGITUDINAL
da situação - a controvérsia pessoa-situação.
Ao considerar se as pessoas são estáveis em seus Existem boas evidências da estabilidade longi­
traços de personalidade, podemos considerar dois as­ 'tudinal dos traços,mesmo em longos períodos de tem­
pectos dessa estabilidade: o longitudinal e o inter- iPº (Block, 1981; Caspi, 2000; Conley, 1985). McCrae e
Lawrence A. Pervin e Oliver P. John

Costa (1997) têm sugerido que os traços da personali­ ria encontrar evidências de agressividade em uma
dade mudam pouco ap6s os30anos de idade na mai­ cerimônia relig�osa ou de amabilidade em um jogo
oria das pessoas: "No decorrer de trinta anos, a maio­ de futebol. A posição da abortlagem de traços é de
ria dos adultos irá passar por mudanças radicais em que se espera encontrar evidênêias de consistência em
suas estruturas de vida. Elas podem ter casado, di­ uma variedade de situações em que muitos compor­
vorciado, casado novamente. Elas provavelmente te­ tamentos diferentes expres.sam o mesmo traço.
rão mudado de residência diversas vezes .... E ainda Com r,ela.ção à questão da variedade de situações,
assim, a maioria delas não terá mudado de modo apre­ os psicólogos de traços sugerem que é um erro medir o
ciável cm sua condição com relação a qualquer urna comportamento em uma situação como evidênáa da
das cinco dimensões" (McCrae e Costa, 1990, p. 87). posição daquela pessoa em um dado traço. Uma situa­
Essa conclusão pode parecer surpreendente, devido à ção única pode não ser relevante para o traço em ques­
discussão sobre as "estaÇôes" na vida das pessoas e tão, e é possível que ocorra um erro de mensuração. Por
de períodos como a crise de meia-idade (Caspi e outro 1ado, a amostragem realizada em uma variedade
Roberts, 1997; levinson et ai., 1978). Apesar da possí­ am,pla de situações garante que serão obtidas medidas
vel importância de muitos desses eventos, os autores relevantes e confiáveis (Epstein, 19&3). Uma razão pela
sugerem que os traços básicos da personalidade não qual os psicólogos de traços gostam de utilizar questio­
mudam. Além disso, essa imagem de estabilidade que nários é que eles proporcionam a avaliação do compor­
resulta da auto-avaliação é confirmada por relatos de tamento em uma variedade ampla de situações que pos­
outras pessoas: "As visões de esposos e esposas sobre sam ser impossíveis de medir de outras maneiras.
a personalidade de seus cônjuges confirmam a esta­ Além disso, comportamentos que pareçam dife­
bilidade essencial da personalidade" (McCrae e Cos­ rentes podem, de fato, expna'SSar o mesmo traço. Assim,
ta, 1990, p. 95). Entretanto, conforme mencionado, por exemplo, ser falante, possuir muitos amigos e bus­
existem diferentes pontos de vista, e alguns psicólo­ GlI estímulos furtes refletem o traço da extroversão. Pode­
gos indicam evidências do potencial para mudança se esperar que esse traço seja refletido em diferentes com­
durante a infância e a idade adulta. portamentos em diferentes situações. Se existe espaço
Por que a estabilidade longitudinal de traços da para tais observações e medidas, a consistência é obser­
personalidade pode ser considerável? Em parte, isso vad a (Buss eCraik, 1983; Loevinger e Knoll, 1983).
se deve às contribuições genéticas dos traços. Além Finalmente, pode-se considerar as maneiras pe­
disso, as pessoas selecionam e moldam o seu ambien­ las quais se busca evidências de consistência no funci­
te de maneira a reforçar os seus traços. Um extrover­ onamento da personalidade. As evidências de consis­
tido não espera simplesmente que as situações acon­ tência são melhores quando dados de auto-avaliação e
teçam, ele busca outras pessoas e freqüentemente as observações no ambiente natural são utilizados, ao in­
encoraja pMa que também sejam extrovertidas. Final­ vés de dados de testes realizados ern laboratório (Block,
mente, quando percebidos de uma certa maneira, os 1977). Por que isso deveria ser ver,dade? Uma razão é
outros se comport.-un oom relação à pessoa de uma que as situações de laboratório resltringern as oportu­
forma que perpetua características já existentes. As­ nidades para que as diferenças individuais apareçam
sim, embora a personalidade possa mudar, existem (Monson et al, 1982). A maioria dos estudantes que
forças poderosas que operam para manter a estabili­ foram sujeitos em experimentos de laboratório estarão
dade ao longo do tempo. conscientes de que é dado relativamcntê pouco espaço
para uma variedade ampla de respostas. Isso é consis­
tente com o esforço do cxperimentâdor de ter controle
ESTABILIDADE INTERSITUACIONAL sobre as variáveis e estabelecer relações de causa e efei­
to. Além disso, diferentemente do rnundo real, os tes­
A questão da consistência intersituacional é mais tes de laboratório não proporcionam a oportunidade
complexa do que a da consistência longitudinal. Como para buscar, selecionar e moldar a situação. No mundo
devemos decidir se uma pessoa agiu de maneira con­ real, as pessoas se comporiam de maneira consistente,
sistente em muilas situações diferentes? Não faria sen­
em parte porque elas escolhem e moldam as próprias
tido para uma pessoa se comportM da mesma forma situações que influenciam o seu comportamento (Caspi
em todas as situaÇôes, e nem os teóricos de traços es­ e Bém, 1990; Scarr, 1992).
perariam que isso ocorresse. Dificilmente se espera-
PersoMlidade: teoria e prática

CONCLUSÃO de situações, parere haver maior consistência do que re­


almente existe. Além�, as conclusões tiradas variam
Onde � nos deixa em relação à controvérsia pes­ com o ponto de vista psicológico. Existem evidências de
soa-situação? Podemos chegar a uma conclusão, com consistência intersituacional e de variabilidade intersitua­
base nas evidências que tcrnosneste momento? Um jul­ cional. Até certo ponto, as pessoas são as mesmas, inde­
gamento justo pode sugerir que existam evidências de pendentemente do contexto, e até certo ponto, elas tam­
consistência dos traços, mas isso parece ocorrer mais bém sãodiferentes,dependendodo contexto. Os teóricos
dentro de determinados domínios de situações (por de traços são influenciados pelo primeirocaso e utilizam
exemplo: casa, escola, trabalho, amigos, r�ção) do essas evidências para defender a sua posição, ao passo
que em domínios diferentes de situações. Como as pes­ que os troricos situacionais são influenciados pclo se­
soas tendem a ser observadas em um número limitado gundo caso e utilizam as evidrncias para sustentar a sua.

APLICAÇÕES ATUAIS
C0NSISrtNOAINTERSITUAO0NALEM PONTUALIDADE: CERTAS PESSOAS SÃO
NOTÓRIAS POR SE ATRASAREM?
"Cinco peS&'las chegaram atrasadas para a aula na noite jeitos eram estudantes da universidade de Berkeley
passada. Isso não seria um problema, exceto pelo fato de do programa de mestrado em administração de em­
que a aula para a qual eles estavam atrasados era uma presas, cuja hora de chegada em um programa de
aula sobre como não se atrasar. A aula, chamada 'Atra­ avaliação gerencial foi registrada durante vários dias.
sado, nWlCa mais', é oferecida uma vez por mês em um A Consciência foi medida com a escala de auto-ava­
hotel no centro de São Franásco pelo l.Slrning Annex...
Della, uma motorista de caminhão, disse que se atrasou liação do NEO-PI duas semanas antes do experimen­
para o trabalho a vida toda. Se ela se atrasar mais uma to, permitindo assim que os pesquisadores dividis­
vez, mesmo que seja por um minuto, ela pode perder o sem a amostra de antemão em grupos de Consciên­
emprego. 'Eu preciso de ajuda', dis,<;e ela". cia alta e baixa. As diferenças individuais em atraso
verificadas foram substanciais; a hora de chegada
John Carroll dos sujeitos variou de 30 minutos adiantado (um va­
San Francisco Chronicle lor de -JO) a 46 minutos atrllSlldo {um valor de +46
3 de maio de 1991, p. 10 em atraso).
Havia dois tipos de situações: uma hora fácil
É verdade que existe uma c:onsistênc:ia intersitua­ de chegar para o compromisso (5 da tarde) e uma
àonal comiderável no quanto as pessoas se atrasam? hora difícil de chegar para o compromisso (8 da
Dudycha (1936) foi o primeiro psicólogo a estudar a manhã). Os resultados são apresentados na figura a
pontualidade de maneira empírica. Ele registrou a hora seguir. Conforme explicações situacionais sugeriri­
de chegada de crianças em diversas escolas e ativida­ am, o participante médio estava 2 minutos adianta­
des sociais e encontrou um grau modesto de consis­ do para o compromisso da tarde, mas 6 minutos atra­
tência. Mais recentemente, Mischel e Peake {1982) ava­ sado para o da manhã. Consideremos agora o efeito
liaram várias marufestaÇ{lescomportamentais decons­ do traço: os estudantes com um nível alto de Cons­
ciência, inchrindo diversas medidas da hora de chega­ ciência chegaram consistentemente maiscedo do que
da dos sujeitos. Usando írdices correlacionais, eles con­ os estudantes com níveis baixo de Consciência, em
cluíram que a consistência comportamental em dife­ aproximadamente 5 minutos, e esse efeito vale para
rentes situações era baixa. as duas situações. Os estudantes, de um modo ge­
Ware e John (1995) fizeram uma pergunta le­ ral, eram consistentes em sua pontualidade em dife­
vemente diferente: o fator amplo de Consciência do rentes situações e os seus resultados no traço da cons­
modelo de cinco fatores nos ajuda a prever diferen­ ciência previram o atraso em um grau estatistica­
ças individuais em relação à pontualidade? Os su- mente significativo (ver fi gura).
La.vrence A. Pervin e Oliver P. John

Atraso x Consaênaa
Atrasado 10 �---�-------�--�
8
6

§ 4
i 2
� o
·2

Adiantado

Hora do Compromisso

Qual é o tamanho desse efeito causado pelo tra­ a motorista de caminhão, esteja enfrentando proble­
ço da Consciência? Cinco minutos atrasado em um mas em seu emprego!
dia pode não par�r muito. Mas considere que 50% Esses resultados ilustram o fato de que tanto a
dos estudantes foram classificados como relativa­ situação quanto os traços de personalidade afetam a
mente baixos em Consciência e que eles chegaram maneira como nos comportamos em um dado momen­
atrasados em uma média de 5 minutos para cada um to. Existe alguma � intersituacional no atra­
dos seus compromissos. Isso significa uma hora de so, mas o traço da peisonalidadeda Coosáência é ape­
atraso em 12 compromissos. Em um emprego, isso nas uma das muitas influências que determinam se�
se traduziria para quase meia hora de trabalho per-­ garemos atrasados em uma determinada situação.
dido por semana, duas horas pot mês, e 24 horas
(ou seja, três dias inteiros de trabalho) por ano. As­
sim, o que parece ser um efeito pequeno pode acu­ Fontes: Dudycha, 1936; Mischel e Peake, 1982; W are
mular rapidamente. Não é de surpreender que Della, e John, 1995)

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GEECH reimpresso sob permissão do United Feature Syndicate, lnc.


Personalidade: teoria e prática
'
237

AVALIAÇÃO GERAL DAS ABO RDAGENS DE TRAÇOS


Após termos revisado diversas teorias de traços mente, importantes programas de pesquisa estão in­
e algumas evidências relevantes, chegou a hora de ava­ vestigando a relação entre os traços e o comportamen­
liar a abordagem de traços. Embora existam diferen­ to interpessoal e a psicopatologia (Widiger, 1999;
ças entre os teóricos de traços, eles compartilham uma Widiger e Trull, 1991; Wiggins et al., 1989; Wiggins e
ênfase quanto às diferenças individuais nas disposi­ Pincus, 1989). Há mais de uma década, em respostas
ções amplas do indivíduo para se comportar de de­ a críticas situacionistas, foi sugerido que os traços es­
terminadas formas. Durante as décadas de 1970 e 1980, tavam vivos e passando bem (Epstein, 1977). Se isso
parecia que a abordagem de traços seria enterrada pe­ era verdade naquela época, agora, então, eles estão
las críticas situacionistas e pela revolução cognitiva. vivos e passando ainda melhor.
Atualmente, a pesquisa sobre os traços da personali­
dade está florescendo novamente, tanto que um revi­ Hipóteses interessantes
sor sugere que "após décadas de dúvida e discrimina­
ção, os traços estão por cima novamente" (McAdams, Neste ponto, inúmeras hipóteses interessantes
1992, p. 329). estão surgindo de proponentes do ponto de vista dos
Embora seja verdade que os relatos da morte da traços. Algumas jã foram discutidas neste capítulo.
teoria de traços sejam infundados, as proclamações Por exemplo, hã a hipótese lexical fundamental, a qual
da descoberta da estrutura da personalidade também sugere que importantes diferenças individuais estari­
parecem prematuras. Tentaremos fazer uma avalia­ am codificadas na língua. Outros estudos proporáo­
ção equilibrada das forças e limitações dessa impor­ nararn evidências interculturais em apoio a essa hi­
tante e controversa parte do campo. Iniàaremos con­ pótese, embora os resultados sejam menos claros
siderando três importantes contribuições dos psicó­ quando indivíduos que utilizam línguas não-ociden­
logos de traços: o desenvolvimento de um esforço de tais geram as suas próprias descrições da personali­
pesquisa ativa, de hipóteses interessantes e de liga­ dade (Yang e 13ond, 1990). Em segundo lugar, há a in­
ções potenciais com o campo da biologia. Isso será teressante hipótese de que os ambientes são impor­
seguido por uma consideração de três áreas-proble­ tantes para o desenvolvimento da personalidade, mas
ma: problemas com o método da análise fatorial, pro­ que o ambiente que não é compartilhado por mem­
blemas com o conceito de traço e omissão de impor­ bros da mesma familia é que é crucial (Plomin e
tantes aspectos da personalidade. Daniels, 1987; Plomin et ai., 1990).

Ligações potenciais com a biologia


VANTAGENS DAS ABORDAGENS
Trabalhos teóricos e pesquisas com relaç-ão à ge­
Esforços de pesquisa ativa nética, ao funcionamento fisiológico e à teoria
evolutiva sugerem uma ligação entre a psicologia da
Como grupo, os psicólogos de traços têm sido personalidade e a biologia, que podem representar
bastante ativos na pesquisa. Apesar da controvérsia uma promessa para o futuro (Pickering e Gray, 1999;
pessoa-situação não ter sido resolvida, pelo menos Tellegen, 1991). Conforme serã discutido no próxi­
existem evidências consideráveis da estabilidade do mo capítulo, o campo da biologia teve ganhos enor­
funcionamento da personalidade (Kenrick e Funder, mes na década passada. No mínimo, os conceitos re­
1988). Reconhecendo que o comportamento humano lacionados com a personalidade não podem violar o
é complexo e geralmente determinado por muitos tra­ que se sabe a respeito do funcionamento biológico
ços, foram obtidas muitas evidências da utilidade em humanos. Além disso, entretanto, avanços na bi­
preditiva dos traços(Brody, 1988; Hogan eOnes, 1997; ologia podem guiar alguns dos nossos esforços de
McCrae e John, 1992). Importantes ganhos f oram ob­ pesquisa. O modelo de traços, particularmente, com
tidos na pesquisa sobre as contribuições genéticas para sua ênfase na estrutura da personalidade e em influ­
a personalidade e sobre os aspectos fisiológicos de ências genéticas, aplica-se à integração de descober­
características dos traços (Eysenck, 1990; Plomin et al., tas biológicas em um modelo a br angente da
1990; Clark e Watson, 1999; Zuckerrnan, 1990). Final- personalidade.
Lawrence A. Pervín e Oliver P. }ohn

LIMITAÇÕES DAS ABORDAGENS ços, "a semelhança é mais fraternal do que idêntica"
(Briggs, 1989, p. 248). Em suma, devemos questionar
Essas, então, são algumas das vantagens da abor-­ se a análise fatorial irá real e fundamentalmente pro­
dagem de traços, ganhos realizados e prometidos para porcionar as unidades básicas da personalidade. Ou­
o fututo. E as suas limitações? tros critérios provavelmente deverão ser invocados.

Problemas com o método: análise fatorial Problemas com o conceito de traço


O método da análise fatorial é central para a teo­ O conceito de traço sugere uma disposição para
ria de traços, em particular para o desenvolvimento do responder de maneira semelhante em uma variedade
modelo de cinco fatores. Assim como Cattell sugeria de situaçóes diferentes. Nesse ponto, pode parecer que
que a análise fatorial poderia ser utilizada para se des­ os teóricos de traços concordam com relação àquilo que
cobrir para a personalidade o equivalente da tabela um traço significa e o que ele envolve. Ainda assim,
periódica dos elementos da química, os proponentes conforme foi sugerido há mais de vinte anos, "o que
atuais sugerem que ela resultou na descoberta das di­ deve ser incluído na definição de traço não é auto-evi­
mensões básicas dos traços da personalidade -as cinco dente" (Borgatta, 1968,. p. 510). A existência de um tra­
grandes dimensões (McCrae e John, 1992). Ao mesmo ço é demonstrada por padrões consistentes de compor­
tempo, o método possui críticos. Allport, embora com­ tamento. O comportamento geralmente referido é o
prometido com a teoria de traços, afirmou que os fato­ comportamento explldto expresso nas situações. Ainda
res identificados através desse procedimento "lembra­ assim, ultimamente, o conceito de traço tem sido am­
vam carne de salsicha que não foi aprovada pela ins­ pliado para incluir comportamentos, emações, moti­
peção da saúde" (1958, p. 251). Outros também são vos e atitudes que não são observáveis (AH. Buss, 1989;
igualmente críticos, sugerindo que o método é compa­ McCrae e Costa, 1990; McCrae e John, 1992). De fato, a
rável à ação de colocar as pessoas em uma centrífuga e partir dessa perspectiva, Henry Murray {Capítulo 4) é
esperar que "o básico" saia {Lykken, 1971; Tomkins, considerado um teórico de traços!
1962). De maneira ainda mais crítica, Bandura (1999, p. Os teóricos de traços podem definir o conceito da
165) sugere: "Procurar a estrutura da personalidade maneira que desejarem e incluir nele o que escolherem,
analisando uma quantidade limitada de descritores mas o que é incluído, e o fato de haver concordância
comportamentais essencialmente fica reduzido a um nesse sentido, faz uma grande diferença (Pervin, 1994).
método psicométriro em busca de uma teoria... Isso é Particularmente importante é o fato dé se a distinção
remanescente dos debates do passado sobre o número entre um traço e um motivo é proveitosa (Winter et al.,
correto de instintos ou motivos cardeais". 1998). O pensamento de Murray (1938) é importante
Se a análise fatorial é tão poderosa quanto os seus aqui, pois ele especificamente comparou o conceito de
proponentes sugerem, essencialmente os mesmos fa­ necessidade com o de traço. Segundo Murray, diferente­
tores deveriam ser encontrados em diferentes estu­ mente dos traços, as necessidades podem ser momen­
dos. Embora tenha se afirmado que o modelo de cin­ tâneas ou duradouras e podem estar presentes no or­
co fatores é uma descoberta básica da psicologia da ganismo sem se manifestarem no comportamento. As­
personalidade e que o número de cinco fatores está sim, Murray sugeriu que "conforme a minha visão, a
"certo" (McCrâe e John, 1992), alguns críticos suge­ psicologia de traços está preocupada demais com
rem que menos do que cinco são necessários (Eysenck, recorrências, com a consistência, com aquilo que é ma­
1990; Tellegen, 1991; Zuckerman, 1990) e outros suge­ nifesto claramente (a superfície da personalidade), com
rem que cinco não são suficientes (A.H. Buss, 1988; o que é consciente, ordenado e racional" (1938, p. 715).
Cattell, 1990; Waller, 1999). Além disso, apesar de su­ Essas não são diferenças triviais, e elas chamam a aten­
gestões de um novo consenso com relação às cinco ção para o cepticisrno de Murray com relação à capaci­
grandes dimensões, muitos sugerem que o grau de dade das pessoas de falarem com precisão a seu pró­
correspondência entre os estudos não é o ideal (Block, prio respeito e sua ênfase em uma conceitualização di­
1995). Nas palavras de um defensor da teoria de tra- nâmica da personalidade.
Personalidade: teoria e prática

Outra questão diz respeito ao status explicativo vras de um crítico recente: "O modelo de cinco fato­
do oonceito de traço. Os traços são descrições de regu­ res é essencialmente uma psicologia do estranho- um
laridades comportamentais ou explicações de regulari­ retrato rápido e simples de alguém" (McAdams, 1992,
dades observadas {Briggs, 1989; Wiggins, 1973; Zuroff, p. 333). Os estudantés podem formar a sua própria
1986)? Em sua forma mais simples, podemos questio­ opinião com relação a essa questão, considerando o
nar se os traços são "reais" ou se eles são "ficções con­ caso apresentado neste capítulo e comparando as vá­
venientes, através das quais nós nos comunicamos" rias descrições da personalidade de Jim apresentadas
(Briggs, 1989, p. 251). Lembre-se que Eysenck estava il'\O Capítulo 16.
muito mais interessado nessa questão, sugerindo que, Finalmente, com exceção de Eysenck, a teoria de
sem umâ teoria, havia o perigo de circularidade - o traços é estranhamente insuficiente no sentido de uma
uso do conceito de traço para explicar um comporta­ 'teoria de mudança da personalidade. Uma coisa é
mento que serve de base para o conceito de traço em documentar a estabilidade da personalidade e suge­
primeiro lugar. Em outras palavras, quanto acrescen­ rir razões para essa estabilidade - fatores genéticos
tamos ao nosso entendimento da personalidade, se (temperamento), seleção e formação de situações, res­
descrevemos alguns comportamentos dentro da cate­ postas estereotípicas (autoconfirmadoras) dos outros.
goria da extroversão e depois dizemos que a pessoa Outra coisa é omitir urna explicação da mudança. A
se comportou daquela forma porque ela é extroverti­ explicação de McCrae et al. (2000) de mudanças
da? Veja que, por si só, o modelo de cinco fatores não maturacionais endógenas é modelada em processos
é um modelo explicativo da personalidade (McCrae, biológicos, mas ainda não está bem-especificada.
1994; Pervin, 1994a). Mesmo com uma ênfase na estabilidade, relati­
vamente poucos teóricos de traços consideram que a
O que é omitido ou deixado de fora? maioria dos aspectos da personalidade sejam fixos e
duradouros como a intelig@ncia. E, mesmo que se
O conceito de traço e o modelo de cinco fatores questione a eficácia da psicoterapia, uma forma para
nos proporcionam um modelo abrangente da perso­ explicar as mudanças que, às vezes, ocorrem parece
nalidade? Em parte, essa questão é evocada na dis­ ser um requisito de uma teoria abrangente da perso­
cussão em tomo do que é incluído no conceito de tra­ nalidade (Brody, 1988). Algumas pesquisas sobre es­
ço. Vários teóricos de traços sugeririam (ver Figura sas questões estão finalmente aparecendo; por exem­
8.2 e a discu!.São anterior), contudo, que a personali­ plo, alguns pesquisadores de traços tentaram prever
dade envolve mais do que as ánco grandes dimen­ como experiências de vida particulares produzem mu­
sões-por exemplo, os autoconceitos das pessoas, suas danças sistemáticas em traços da personalidade (Caspi
identidades, seus estilos cognitivos e o inconsciente e Roberts, 1999; Helson e Wink, 1987; Wink e Helson,
(A. H. Buss, 1988; McAdams, 1992). 1992; Roberts, 1995).
Outra questão é se o modelo tem algo a dizer Em suma, a teoria de traços está viva e passa bem,
sobre a organização da personalidade. A pessoa é ape­ mas restam algumas dores. De que maneira o paciente
nas um conjunto de traços ou a maneira como os tra­ irá sobreviver ainda está por ser determinado.
ços são organizados representa uma parte importan­
te da personalidade? É interessante que Allport (1961)
colocava o padrão e a organização no centro da per­
sonalidade. Os teóricos de traços modernos parecem Tabela 8.3 Síntese das vantagens@ limitações da teoria
concordar que "a essência da personalidade é a orga­ de traços
nização da experiência e do comportamento" (MlCrae Vantagens Limitações
e Costa, 1990, p. 118). Ainda assim, a pesquisa a res­
peito dos traços é notavelménte insuficiente nesse sen­ 1. Esforço de pesquisa ativa 1 . O método: análise fatorial
2. Hipótese� interessantes 2. O que um traço abrange?
tido. E, conforme mencionado, para uma teoria das 3. tigações potenciaís 3. O que é omitido ou deixa•
diferenças individua.is, existe uma surproendente es­ com a biologia do de fora?
cassez de estudos sobre o indivíduo. Assim, nas pala-
Lawrence A. Pervin e Oliver P. John

VISÃO GERAL DAS ABORDAGENS DE TRAÇOS

l Estrutura

Traços
Processo
Traços dinâmicos.
Cresdmento e
Desenvolvimento

Contnbuições da hereditarieda­
mobvos associados de e do ambiente para os traços
a traços

PRINCIPAIS CONCEITOS
Modelo de cinco fatores. Urn consenso emergente en­ Facetas. As facetas são os traços (ou componentes) mais
tre os teóricos de traços que sugerem cinco fatores bá­ específicos que formam cada um dos cinco grandes
sicos para a personalidade humana: Neuroticisrno, fatores amplos. Por exemplo, as facetas da Extroversão
Extroversão, Abertura, Amabilidade, Consciência. são Nível de Atividade, Assertividade, Busc.a de Excitaç.io,
As cinco grandes dimensões. Na teoria fatorial de tra­ Emoções Positivas, Gregarismo e Cordialidade.
ços, as cinco categorias de traços principais, incluin­ Maturação intrínseca. O conceito de McCrae e Costa
do fatores relacionados com emotividade, atividade e que expressa a visão de que o desenvolvimento de tra­
sociabilidade. ços da personalidade é determinado pela biologia e é
OCEAN. A sigla dos cinco traços básicos: Abertura, relativamente independente de influências ambientais.
Consciência, Extroversão,Amabilidade eNeuroticismo. Controvérsia pessoa-situação. Uma controvérsia en­
Hipótese lexiéal (lingüística) fundaméntal. A hipóte­ tre psicólogos que enfatizam a importância de variá­
se segundo a qual, com o passar do tempo, as diferen­ veis pessoais (internas) na determinação do compor­
ças individua.is ma.is importantes na interação huma­ tamento e aqueles que enfutizam a importância de in­
na são codificadas em termos simples na língua. fluências situacionais (externas).

REVISÃO
l. Está surgindo um consenso entre os teóricos de fundamentais entre as pessoas foram codifica­
traços em tomo das cinco grandes dimensões ou das na língua.
o modelo de cinco fatores (OCEAN). O apoio 3. O modelo de cinco fatores proposto enfatiza a
para o modelo vem da análise fatorial de termos base biológica de tendências básicas e o desen­
que descrevem os traços na língua, da análise volvimento dessas tendências essencialmente
fatorial de avaliações e dados de questionários independente de influências ambientais (matu­
(por exemplo, o NEO-Pf) e da análise de contri­ ração intrínseca). Existem evidências de estabi­
buições genéticas (hereditárias) para a persona­ lidade da estrutura geral de traços e ruveis, e as
lidade. evidências são mais fortes para a estabilidade
2. A hipótese lexical fundamental sugere que, com durante a idade adulta do que durante a infân­
o passar do tempo, as diferenças individuais cia e a adolescência. De maneira semelhante,
existem evidências de estabilidade nas posições
Personalidade: teoria e prática

Patologia Mudança caso ilustrativo


Resultados extremos (Nenhum modelo formal) Homem de 69 anos de idade
em dimensões de traços
(por exemplo, neuroticismo)

relativas de indivíduos em medidas de traços pessoa-situação. !Existem evidências de estabi­


durante o desenvolviménto, novamenté maior lidade longitudinal na personalidade e de con­
para a idade adulta do que para a infância. Di­ sistência intersituacional onde uma ampla va­
ferenças individuais nessa estabilidade existem, riedade de situações e comportamentos é
e os limites de influências ambientais sobre o amostrada (agregação). Ao mesmo tempo, exis­
desenvolvimento e a mudança da perSonalida­ tem evidências de variabilidade do comporta­
de ainda não foram determinados. mento individual, particularmente onde as si­
4. Proponentes do modelo de cinco fatores su­ tuações são muito diferentes. Permanece a tare­
gerem que ele tem importantes aplicações po­ fa de explicar os padrões de estabilidade e a
tenciais em áreas como a orientação voca­ variabilidade do comportamento.
cional, diagnóstico da personalidade e trata­ 6. Uma avaliação geral da atual teoria de traços
mento psicológico. Foi verificado, contudo, sugere vantagens na pesquisa, a formulação de
que os avanços nessa área são recentes e per­ hipóteses interessantes e o potencial de ligações
manecem por ser avaliados. Além disso, o com a biologia em relação a trabalhos sobre as
modelo não oferece nenhuma recomendação contribuições genéticas para a personalidade e
com relação ao processo de mudança da per­ os desenvolvimentos evolutivos. Ao mesmo
sonalidade. tempo, podem-se levantar algumas questões
5. Os críticos da teoria de traços sugerem que o com relação ao método da análise fatorial, à cla­
comportamento humano é muito variável. Em reza do significado do conceito de traço, à omis­
vez de enfatizar disposições amplas dentro da são dessas áreas importantes do funcionamen­
pessoa, a importância de influências situaàonais to psicológico e do self, e a uma teoria de mu­
deve ser reconhecida. Isso levou à controvérsia dança da personalidade.

Common questions

Com tecnologia de IA

The methodological differences lie mainly in Allport's avoidance of statistical techniques like factor analysis, favoring idiographic methods to explore individual differences, whereas Cattell relied heavily on factor analysis to reduce traits to quantifiable dimensions. Allport emphasized qualitative assessments and intensive individual case studies, in contrast to Cattell's data-driven, quantitative analysis popularized through multivariate techniques. This signifies a philosophical divergence: Allport focused on unique human experiences while Cattell sought generalizable patterns within populations .

The concept of 'functional autonomy', proposed by Allport, indicates that motives in adults can become independent from their original bases—essentially suggesting a degree of self-reinforcement and evolution within personality. This significantly distinguishes Allport's theory from that of Cattell and Eysenck who did not emphasize such self-sustaining developmental processes in motives. Cattell's and Eysenck's models were more focused on stable trait dimensions rather than the evolving motivational landscape that Allport proposed .

Allport, Eysenck, and Cattell differ significantly in their approaches to personality traits. Allport focused on idiographic research, suggesting traits are unique to individuals, and criticized the use of factor analysis employed by Cattell and Eysenck. Cattell emphasized a large number of traits and developed the concept of factor analysis to quantify them, whereas Eysenck proposed a model with just three broad dimensions, namely Neuroticism, Extroversion, and Psychoticism, and supported the biological basis of traits. Each theorist's approach reflects varying emphasis on qualitative versus quantitative analysis, and the degree to which individual motivation is considered within their models .

Eysenck's model was limited by its fewer dimensions, particularly the exclusion of traits such as Openness, which are considered critical in comprehensive assessments like the Five Factor Model. His reliance on three broad traits did not account for subtler variations that models like Costa and McCrae's address through specific facets within each of the five dimensions. Furthermore, Eysenck's model emphasized biological determinism, allowing less room for the individual variability that contemporary models accommodate .

Cattell and Eysenck integrated biological aspects into their theories by emphasizing the genetic and neurological underpinnings of personality traits. Eysenck, in particular, linked his three dimensions to biological factors such as cerebral functioning and proposed that personality traits could be partially heritable. Cattell also considered genetics important but was more inclusive, incorporating environmental influences as well. In contrast, Allport did not focus extensively on biological determinants and instead emphasized the distinctiveness and individual nuances of personality traits without grounding them explicitly in biology .

Eysenck's Neuroticism dimension corresponds directly to the Five Factor Model's Neuroticism, reflecting emotional stability versus instability. His Psychoticism is less directly aligned with any single Five Factor dimension but is thought to correspond to a combination of low Agreeableness and low Conscientiousness, as people high in Psychoticism tend to exhibit behaviors that are antagonistic and disorganized, mirroring those traits within the Five Factor Model's framework .

Costa and McCrae's Five Factor Model integrates earlier trait theories by offering a comprehensive framework that correlates with previous trait dimensions identified by Eysenck and Cattell, such as Extroversion and Neuroticism. The Five Factor Model expands these to encompass five broad dimensions, aligning with Cattell's broader range of traits, albeit in a more structured way. The model represents a synthesis of trait theory into a cohesive framework that can account for diverse aspects of personality examined by these pioneers, thereby unifying various trait categories and underlying motivations as identified by Allport .

Critiques of Cattell's work often focus on the validity of his tests and his reliance on factor analysis. Critics question the robustness of his data and feel that his methods were too speculative and projection-based, thus limiting their reliability. Moreover, his tendency to undervalue non-factorial approaches and overemphasize his own data has also been a point of criticism. As a result, despite his wide-ranging contributions, his methods have often been marginalized in favor of more universally accepted approaches .

The Five Factor Model addressed critiques of earlier trait theories by offering a more coherent and parsimonious structure that integrates diverse trait dimensions into five comprehensive categories. By doing so, it reconciles discrepancies between Allport's emphasis on individual-specific traits and the broader universality posited by Cattell and Eysenck. The Model facilitates a standardization in evaluation while retaining flexibility through specific facets, enabling cross-theory comparison and enhancing the paradigm's predictive validity, thus bridging gaps between descriptive and analytical methodologies .

Allport's emphasis on idiographic research holds significance as it highlights the importance of individual uniqueness in personality studies, countering the trend of overgeneralization seen in nomothetic approaches like those of Cattell and Eysenck. It promotes a deeper understanding of personal narratives, capturing the unparalleled complexities of personality configurations that are often obscured within purely quantitative frameworks. This approach underscores the value of context and narrative in personality assessment .

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