Personalidade Teoria e Pesquisa Cap 7 e 8
Personalidade Teoria e Pesquisa Cap 7 e 8
À ffi�éJNALIDADE:
ALLPOR'f, EYSlEMTCK E CATTELL
FOCO DO CAPÍTULO
Chris acaba de concluir a sua graduação e de diferentes situações, de modo que se poderia dizer
começar em wn novo emprego em uma cidade nova. que alguém que é sensível e bondoso hoje tam
Ele se sente solitário e quer conhecer pessoas novas. bém será sensível e bondoso daqui a urn mis. Este
Após hesitar um pouco, ele decide colocar um anún capítulo fala dos traços, definidos como disposi
cio nos classificados. Ele fita a folha de papel em ções irtt�as amplas para se comportar de deter
branco - o que deveria escrever? Que tipo de carac minadas formas. Revisaremos tris teorias e pro
terísticas da personalidade você escolheria escrever gramas de pesquisa que buscam identificar as di
a seu respeito? Aqui está uma possibilidade: mensões básicas de traços da personalidade. Mui
"lnconvencional, sensível, divertídn,feliz, bem-humoradn, tos pesquisadores de traços utilizam um procedi
bondoso, esbelto, graduado, 22 anos, busca qualidades se mento estatístico particular, a análisefatorial, para
melhantes em alma-gêmea sensata". Alguém que pos determinar os traços básicos que formam a per
sa ser descrito com essa lista de traços realmente pode sonalidade humana. A abordagem de traços é po•
ser um parceiro desejável! p ular na psicologia americana e está enraizada no
Os traços são aquelas características da per senso comum e na compreensão popular da per
sonalidade que se tornam estdveis com o tempo e em sonalidade.
O CONCEHO DE TRAÇO
As p12Ssoas adoram falar sobre a personalidade. saciados à abordagem de traços consideram os traços
Passamos horas discutindo as características de indiví como as principais unidades da personalidade. Obvia
duos, com.o a irritabilidade do chefe, a alegria do enca mente, a personalidade abrange mais do que os traços,
nador e, até mesmo, a lealdade do nosso cachorro. mas eles podem ser claramente vistos no decorrer da
Quando as pessoas falam da persona.lidade, elas história da psicologia da personalidade.
freqüentemente utilizam os traços. Por exemplo, ao
serem solicitados que escrevàn'l a descri.ti.vos da perso
nalidade de um amigo, muitos estudates n
produz.em O QUE É UM TRAÇO?
urna lista de traços descritivos da personalidade, tais
como simpático, bondoso, feliz, preguiçoso, irritadiço Falando de maneira ampla, os traço.s da perso
e tímido (John, 1990). Aparentemente, as pessoas pen nalidade referem-se a padrões consistentes na forma
sam que os traços são centrais à personalidade. Da como os indivíduos se comportan'I, c-0mo sentem e
mesma forma, os pesquisadores da personalidade as- pensam. Por exemplo, quando descrevemos um indi-
Lawrence A. Pervin e Oliver P. John
víduo como "bondoso", queremos dizer que esse in diferenças entre os membros da família. Em outras pala
divíduo tende a agir de forma bondosa com o passar vras, a diversidade caracteriza o campo. Assim, além da
do tempo (na semana passada e nesta semana) e em definição apresentada acima, é difícil,� não impossí
situações diferentes (com um vizinho idoso e com o vel, produzir uma d�ção do conceito de traço que
cão manco). Essa definição ampla implica que os tra seja aceita de forma geral: "Os traços são muitas coisas
ços podem ter três funções importantes: Eles podem para muitos teóricos'' (Wiggins, 1997, p. 98). De fato, uma
ser usados para resumir, prever e explicar a conduta recente edição do periódico Psychological Inquiry foi
de uma pessoa. Assim, uma das razões para a popu dedicada a uma ampla crítica do conceito de, traço
laridade dos conceitos de traços é que eles proporcio (Pervin, 1994), seguida de um debate sobre a sua defini
nam maneiras eéOnômicas para resumir o modo como ção, status conceitua] e fundamentação empírica. Esse
uma pessoa difere de outra; atribuir o traço "bondo debate demonstra a diversidade de visões entre os teóri
so" para uma pessoa resume uma história de muitos � de traços, assim como a vivacidade do campo nesse
atos de bondade diferentes. Os traços contêm a pro momento. Iremos retomar a essas questões no Capítulo
messa de permitirem que façamos previsões sobre o 8, quando consideraremos as vantagens e fraquezas das
comportamento futuro da pessoa; a noiva espera que abordagens de traços de um modo geral. Por enquanto,
o noivo bondoso se tome um marido bondoso. Final contudo, iremos considerar dois pressupostos básicos
mente, os traços sugerem que a explicação para o com compartilhados pela maioria dos teóricos de traços.
portamento da pessoa será encontrada no indivíduo,
e não na situação; uma pessoa bondosa irá agir de
maneira bondosa, mesmo que não haja nenhuma pres IDÉIAS BÁSICAS 1COMPARTILHADAS
são situacional ou recompensa externa para que ela o PELOS TEÓRICOS DE TRAÇOS
faça, sugerindo assim, algum tipo de processo ou me
canismo interno que produza o comportamento. O pressuposto básico da perspectiva de traços é
Essa caracterização ampla geralmente captura a que as pessoas possuem predisposiçê>es amplas, deno
maneira romo os traços são conc:(?itualizados na atual minadas traços, para responder de maneiras espccífi·
literatura deste campo. Entretanto, ela também é geral e cas. Em outras palavras, conforme mencionado anteri
encobre inúmeras questões difíceis em que os teóricos ormente, as pessoas podem ser descritas segundo a
de traços diferem. Em outras palavras, embora os teóri probabilidade de se comportarem, sentirem ou pensarem
cos de traços sejam parte de uma família de teóricos que de uma maneira particular - por exemplo, a probabili
compartilham de determinadas idéias, também existem dade de agir de maneira extrovertida e simpática, ou
Nível habitual
de resposta
Nível específico
de resposta
Figura 7.1 Diagrama representativo da organização hierárquica da perwnalidade: Extroversão-Introversão (E). (Nota.
A extroversão é um lado da dimensão E-1. O outro lado, 1. não está representado aqui). (Adaptado de Eysenck, 1970 e
Eysenck, 1990).
Personalidade: teoria e p rática
de fie-ar nervoso e preocupado, ou de pensar sobre um mais gerais. Por exemplo, pessoas que preferem se reu
projeto artístico ou uma idéia. As pessoas que possu nir com outras pessoas para ler geralmente também se
em uma forte tendência para se comportarem dessa sentem bem em uma festa alegre, sugerindo que esses
forma podem SêI' dêSéritas como altas nesséS traços, dois hábitos podem ser agrupados sob o traço da socia
por exemplo, alto nos traços de "extroversão11 ou "ner bilidade. Para usar outro exemplo, pessoas que agem
vosismo", ao passo que peSSOâS com uma tendência sem pensar primeiro tunbém tendem a gritãt com os
menor de se comportarem dessa forma seriam descri outros, sugerindo que esses dois hábitos podem ser
tas como baixas nesses traços. Embora vários teóricos agrupados dentro do traço da impulsividade. Em um
apresentem diferenças quanto à maneira de determi nível superior de organização, diversos traços podem
nar os traços que formam a personalidade humana, ser conectados para formar aquilo que Eysenck cha
todos eles concordam que os traços são partes funda mou de fatores secundários, superiores ou superfatores.
mentais da personalidade humana. A maneira como descobrimos esses traços e determi
Além disso, os teóricos de traços concordam que namos a organização hierárquica da personalidade será
o comportamento e a personalidade humana podem discutida brevemente. O importante aqui é reconhecer
ser organizados em uma hierarquia. Uma ilustração que a conceitualização da personalidade organiza-se
desse ponto de vista é apresentada no trabalho de em níveis diversos.
Eysenck (Figura 7.1). Eysencksugere que, em seu nível Em suma, as teorias de traços sugerem que as
mais básico, o comportamento pode ser considerado pessoas possuem predisposições amplas para respon
de acordo com respostas específicas. Contudo, algu der de certas maneiras e que a personalidade possui
mas dessas respostas são conectadas e formam hábitos uma organização hierárquica.
Autonomia funcional: às vezes, uma pessoa pode escolher uma ocupação por uma razão, como a segurança do
emprego, e depois permanecer nele por outros motivos, como o prazer na própria atividade.
Lawrence A. Pervín e Oliver P. John
organização de traços internos da pessoa ao invés de interesses variavam amplamente dentro da psicolo
uma ênfase em como aquela pessoa se comporta em gia social e da personalidade. Ele levantou muitas
cada traço com relação a outras pessoas. Finalmente, a questões críticas e discutiu o conceito de traço com
ênfasé de Allport na singularidade do indivíduo o le tal equilíbrio e sabedoria que ainda hoje pode ser lido
vou a sugerir que existem traços únicos de cada pessoa de forma proveitosa (p.or exemplo, John e Robins,
que não podem ser capturados pela ciência. A ênfase 1993). Assim, por exemplo, Allport (1961) súger12 que
de Allport na abordagem idiográfica à pesquisa foi im o comportamento geral!mente expressa a ação de mui
portante e está readquirindo popularidade (Pervin, tos traços,que disposições conflitantes podem existir
1983). Entretanto,essafuúase em traçosúnirosfoiinter dentro da pessoa e que os traços são expressos em
pretada de forma a significar que a dfncia da personali parle pela seleção de situações pela pessoa, ao invés de
dade não era algo possível e resultou em consideráveis sua resposta a situações. Embora Allporl enfatizasse o
controv&sias qu12 não ajudaram o c.ampo a progredir. conceito de traço e tentasse esdarocer a sua relação
com a situação, ele conduziu poucas pesquisas para
estabelecer a existência e utilidade de conceitos de tra
COMENTÁRIOS SOBRE ALLPORT ços específicos. De maneira semelhante, embora acre
ditasse que muitos traços eram hereditários, ele não
Em 1924, Allport lecionou na primeira discipli realiz.ou pesquisas para substanciar essa crença. Para
na sobre a personalidade nos Estados Unidos e, em considerar exemplos desses esforços conceituais e de
1937, publicou Personalíty: a psyclwlogical interpretation, pesquisa, iremos examinar as obras de Hans J. Eysern:k
que, por 25 anos, foi um texto básico no campo. Seus e Raymond B. Cattell.
para a existência de cada traço. Eysenck enfatizava a fatorial (sectmdária), Eysenck determina as dimensões
importância de esforços como esses para evitar uma básicas subjacentes aos fatores de traços encontrados
circularidade de explicações sem signifkado, em que na rodada inicial da análise. Essas dimensões repre
o traç,o é utilizado para explicar cornportarrumtos que sentam fatores secundários ou superfatoiléS. Assim,
servem como base para o conceito de traço em pri por exemplo, os traços de sociabilidade, atividade,
meiro lugat. Por exempfo, Jack conversa com outras vivacidade e excitabilidade podem ser agrupados jun
pessoas porque ele tem um alto nível no traço de soci tamente, sob o conceito superior de extroversão (Fi
abilidade, mas sabemos que ele é alto nesse traço por gura 7.1). O termo superfator deixa claro que define
que observamos que ele passa muito tempo conver uma dimensão com um lado baixo (introversão) e um
sando com outras pessoas. lado alto (extroversão), de modo que as pessoas po
A base para a ênfase de Eyscnck na mensuração dem estar localizadas ao longo de vários pontos entre
e no desenvolvimento de uma classificação de traços os dois extremos.
é a técnica estatística da análise fatorial. Em um estu
do analítico-fatorial, um grande número de itens é
administrado para diversos sujeitos. De que maneira DIMENSÕES BÁSICAS DA PERSONAUDADE
as suas respostas a esses itens estão relacionadas? In
divíduos que concordam com o item"eu seguidamen Em sua pesquisa inicial, Eysenck verificou duas
te vou a festas grandes e barulhentas'' também pos dimensões básicas de personalidade, que chamou de
suem uma tendência a concordar com o item"eu gos- introversão-extroversão e neuroticismo (emocional
to de passar o tempo com outras pessoas" e a discor mente estável-instável). A relação dessas duas dimen
dar do item "se eu puder, eu prefuo ficar em casa do sões básicas da personalidade com os quatro princi
que sair à noite". A análise fatorial é uma técnica esta pais tipos de temperamento, distinguidos pelos médi
tística que consegue identificar grupos, agrupamen cos gregos Hipócrates e Galeno e oom uma variedade
tos ou fatores de itens reladonados. Por exemplo, o mais ampla de características da personalidade, é apre
fator formado por esses três itens é definido por dois sentada na Figura 7.2. A organização hierárquica de ca
itens de gregarismo em um lado e por um item de racterísticas associadas à extroversão foi apresentada
redusào no outro lado, e assim, sugere que urna di na figura 7.1. A dimensão do neuroticismo é definida
mensão relacionada rnrn a sociabilidade é comum a por traços como tenso, mill-iwmorado e baixa auto,.estima.
esses três itens. De acordo com a teoria de traços, exis A organização hierárquica de características associadas
tem �truturas naturais na personalidade, e a análise êorn esse fator é apresentada :r'lâ Figura 7.3.
fatorial permite que as detectemos. Se as coisas (variá Após a ênfase inicial em apenas duas dimensões,
veis, respostas de testes} covariam, ou seja, se elas Eysencl<. adicionou uma terceira dimensão, que cha
aparecem e desaparecem óonjuntamente, pode-se in mou de psicoticismo. As peS50as altas nessa dimen
ferir que elas possuem alguma característica comum são tendem a ser solitárias, insensíveis, desinteressa
por trás delas, que elas pert:encem. ao mesmo aspecto das com relação aos outros e contra os costumes sociais
do funcionamento da personalidade. A análise fatorial aceitos. A organização hierárquica de características
pressupõe que os romportamen.tos que covariãrn no associadas ao fa tor do psiooticismo é apresentada na
indivíduo estão relacionados, A análise fatorial, por Figura 7.4. Esses três fatores formam a teoria da per
tanto, é um dispositivo estatístico para determinar sonalidade de três fatores proposta por Eysenck.
quais comportamentos estão relacionados, mas inde Eysencl<. e Long (1986) verificaram que existe consi
pendentes de ,outros, determinando as unidades ou derável apoio para a existência dessas três dimensões.
elementos naturais da estrutura da personalidade. Elas foram observadas em estudos de culturas dife
Os fatores de traços tesul'.tantes (por exemplo, rentes, e existem evidências de um componente here
sociabilidade) podem, então, ser interpretados e no ditário cm cada uma delas.
meados considerando a característica que parece co Uma melhor apreciação do sistema teórico de
mum aos itens ou comportamentos considerados Eysencl<. pode ser obtida por meio de uma considera
inter-refacionados. Através de uma outra análise ção mais detalhada de uma dessas três dimensões, a
Lav,rrence A. Pervin e Oliver P. John
INSTÁVEL
Mal-humorado Melindroso
Ansioso Impaciente
Rígido Agressivo
Sóbrio Excitável
Pessrmísta Mutável
Re5e1vado Impulsivo
Anti-social Otimista
Quieto Melancólico Ativo
-INTROVERTIDO--------+-------� EXTROVERTIDO
Passivo Sociável
Fleumático Sangüíneo
Falante
Responsivo
Tranquifo
Confiável Vivaz
Temperamento estável Despreocupado
Líder
ESTÁVEL
Figura 7.2 A relação de duas dimer.sões da personalidade derivada da análise fatorial com quatro tipos gregos de
temperamento. (Eysenck, 7970). Reimpresso sob permissão, Routfedge e Kegan Pauf Ltd, editores.
Figura 7.3 A estrutura hierárquica do neuroticismo (N). (Eysenck, 1990). Reimpresso sob permissão, GuiJford Press.
Personalidade: teoria e prática
Figura 7.4 A estrutura hierárquica do psicoticismo (P). (Eysenck, 7990). Reimpresso sob permissão, Gui/ford Press.
Introversão-extroversão: Hans Eysenck sugere que uma dimensão básiCõ da personalidade compreende o fato de se as
pessoas tendem a ser antí-sodais, quietas e passivas (introverüdas) ou saciáveis, expansivas e ativas (extrovertidas).
Lawrence A. Pervin e Oliver P. John
sideram muito vivaz? Você seria infeliz se não pudes Resultados de pesquisas
se ver muitas pessoas a maioria do tempo? Você
freqüentemente necessita de excitação? Ao contrário Existem outras dift?renças significativas e éom
disso, o introvertido típico responderá sim para estas significado teórico no comportamento associado a re
questões: Geralmente, você prefere ler do que encon sultados variados na dimensão de extroversão
trar pessoas? Vo� costuma ficar quieto quando está introversão? A extroversão provavelmente seja o tra
com outras pessoas? Você reflete sobre as coisas antes ço mais estudado d'e todos, em parte porque compor
de fazer alguma coisa? Outros itens ilustrativos dos tamentos relevantes são relativamente fáceis de ob
inventários de personalidade Maudsley e Eysencksão servar (Gosling et al., 1998). Uma revisão da dimensão
apresentados na Figura 7.5. Entre eles, estão itens re apresenta uma variedade impressionante de resulta
levantes para o ncuroticismo e uma escala de menti dos (Watson e Oark, 19<J7). Por exemplo, os introver
ras para detectar indivíduos que estão falsificando as tidos são mais sensíveis à dor do que os extrovertidos,
respostas para que pareçam boas, assim corno itens cansam-se com mais facilidade do que os extroverti
relevantes para a extroversão-introversão. Embora o dos, a excitação interfere em seu desempenho ao pas
conteúdo e a direção das respostas avaliadas possa so que aumenta o desempenho dos extrovertidos, e
ser óbvia em alguns casos, em outros casos isso não eles tendem a ser mais cuidadosos, mas menos rápi
ocorre. Além desses questionários, outras medidas dos do que os extrovertidos. As seguintes diferenças
mais objetivas foram criadas. Por exemplo, existem adicionais foram observadas:
indicações de que o "teste do limão" possa ser utili
zado para distinguir entre introvertidos e extroverti 1. Os in.trovertidos apresentam melhores resulta
dos. Nesse teste, uma quantidade padrão de suco de dos na escola do que os extrovertidos, particu
limão é colocada na língua do sujeito. Os introvertidos larmente em disciplinas mais avançadas. Além
e extrovertidos diferem na quantidade de saliva pro disso, os estudantes que abandonam a faculda
duzida quando isso é feito. de por urna variedade de razões acadêmicas
tendem a ser extrovertidos, enquanto aqueles
que abandonam por razões psicológicas tendem
a ser introvertidos.
Sim Não 2. Os extrovertidos proferem vocações que envol
1. Você normalmente toma a inrciativa de
fazer novos amigos?
vam interações com outras pessoas, ao passo
2. As idéias passam por sua cabeça e não o
que os introvertidos tendem a preferir vocações
deixam dormir"' mais solitárias. Os extrovertidos buscam distra
3. Você tende a ficar em segurldo plano em ção da rotina do emprego, ao passo que os
ocasiões sociaiQ introvertidos apresentam menos necessidade de
4:. Você às vezes ri com urna piada suja? novidade.
5. Você "tende a ser mal-humorado? 3. Os extrovertidos apreciam o humor sexual ex
6. Você gost a muito de uma boa comida? ____ plícito e agressivo, enquanto que os introver
7. Quando YOcê fica irritado. você necessita de tidos preferem formas de humor mais intelec
a.lguérn simpático para conversar a res,peito? __
tuais, como trocadilhos e piadas sutis.
8. Quando era criança, você sempre fazia o
que lhe mandavam imediatamente e sem 4. Os extrovertidos são mais ativos do ponto de
reclamar? vista sexual, no que diz respeito à freqüência e
9. Você norma!mente ma6ltém Nvocê para você parceiros diferentes, do que os introvertidos.
mesmo·. exceto com amigos íntimos? ____ 5. Os extrovertidos são mais sugestionáveis do que
\O. Você freqüentemente decide tarde demais? __ __
os introvertidos.
Nota: Os itens acima seiiam avaliados da seguinte maneira:
Extrcwersão: l sim, 3 não, 6 sim, 9 não; Neuroticismo: Esse último resultado é ilustrado em um estudo
2 sim, 5 sim, 7 sim, 10 sim; fSCTlla dementiras:4 não, 8sim. de uma epidemia de hiperventilação na Inglaterra
(Moss e McEvedy, 1966). Um relato inicial de tontura
F1igura 7.5 Itens ilustrativos para Extroversão, Neuroticismo e desmaios de algumas garotas seguiu-se a um surto
e Escala de Mentiras do Maudsley Personality lnventory e de reclamações semelhantes, em que 85 garotas ne
Eysenck Personality lnventory. cessitaram ser levadas de ambulância para o hospital
Personalidade: teoria e prática
- "elas estavam caindo como pinos de boliche". Uma extrovertidos escolheram estudar com mais freqüên
comparação entre as garotas que haviam sido afota cia em bibliotecas que proporcionem estímulos exter
das e as garotas que não haviam demonstrou que, nos do que os introvertidos; (2) os extrovertidos fize
conforme cs�rado, as garotas afetadas apresentavarrt ram mais intervalos no estudo do que os introvertidos;
níveis mais elevados de neurnticismo e extroversão. (3) os extrovertidos relataram uma preferência por um
Em outras palavras, aqueles indivíduos cujas perso nível maior de ruído e por oportunidades mais
nalidades eram mais predispostas à sugestão mostra socializáveis enquanto estudavam do que os introver
ram-se suscetíveis à influência por sugestões de uma tidos (Carnpbell e Hawley, 1982). Os extrovertidos e
epidemia verdadeira. os introvertidos diferem em suas respostas fisiológi
Finalmente, os resultados de urna investigação cas ao mesmo nível de ruído (introvett:idos apresen
de hábitos de estudo entre introvertidos e extroverti tam munível de resposta maior), e cada um funciona
dos pode ser de particular interesse pãta estudantes m.elhor em s,eu nível de ruído preforido (Geen, 1984).
universitários. A pesquisa examinou se essas diferen Uma importante implicaçào dessa pesquisa é que di
ças de personalidade estariam associadas às preferên ferentes projetos ambientais para bibliotecas e unida
cias diferentes com relação ao local onde estudar e des residenciais podem se adequar melhor às necessi
como estudar, como seria previsto pela teoria de dades de introvertidos e extrovertidos. Outras carac
Eysenck. De acordo com a teoria das diferenças indi terísticas associadas a estudantes universitários extro
viduais de Eysenck, foi verificado o seguinte: (1) os vertidos são apresentadas na Tabela 7.2.
Tabela 7.2 Diferenças empíricas €ntre estudantes universitários relacionadas com extroversão-introversão
desagradável para muitas pessoas que acreditam que COMENTÁRIOS SOBRE EYSENCK
esse estado de coisas leva ao niilismo terapêutico. Se
a hereditariedade é tão importante, elas dizem, então, Como condiz a um teórico da abordagem de tra
claramente, que a modifiéação de quâlqucr tipo de ços, o histórico científico de Eysenck é consistente de
comportamento deve ser impossível. Fssa é uma in inúméras maneiras. Entre os asp@ctos positivos d@ seu
terpretação completamente errônea dos fatos. O que histórico, estão os seguintes: (1) Eysenck foi um con
é geneticamente determinado são predisposições para tribuinte prolífico ern diversas áreas. Além de seu foco
uma pessoa agir e se comportar de uma certa manei contínuo nas diferenças individuais e nos princípios
ra, quando colocada cm certas situações" (1982, p. 29). da mudança do comportamento, ele contribuiu para
Da mesma fo rma, 6 possívE?l para uma pessoa evitar o estudo da criminologia, educação, estética, criativi
certas situações potencialmente traumáticas, desa dade, genéliéa, psicopatologia e idrologia política.
prender certas respostas aprendidas ao medo ou Seus testes de personalidade foram traduzidos para
aprender (adquirir) certos códigos de conduta social. muitas línguas estrangeiras e são utilizados em pes
Assim, apesar de enfatizar a importância de fatores quisas ao redor do mundo. (2) Eysenck enfatizava
genéticos, Eysenck foi um dos principais proponen consistentemente o valor de questionários e da pes
tes da terapia comportamental ou do tratamento sis quisa experimental. Referindo-se à discussão de
temático de comportamentos anormais, de acordo Cronbach das duas disciplinas da psicologia científi
com os princípios da teoria da aprendizagem. ca (Capítulo 2), Eysenck sugere que "sempre olhou
Não iremos estender a discussão de Eysenck so essas duas disciplinas de forma alguma como rivais,
bre a terapia comportamental aqui, já que os princípi mas como complementares, e de fato, cada uma sen
os básicos serão abordados no capítu1o que lida com as do essencial para o sucesso da outra" (1982, p. 4). (3)
bases de aprendizagem da personalidade (Capítulo 9). Eysenck conectou suas variáveis de personalidade
Contudo, podemos concluir nossa discussão lembran com métodos de mensuração, uma teoria de funcio
do que Eysenck era um crítico franco e freqüente da namento do sistema nervoso e aprendizagem e uma
teoria e terapia psicanalítica. Em particular, suas críti teoria associada de psicopatologia e mudança de com
cas enfatizavam as seguintes questões: (1) a psicanáli portamento. Sua teoria vai além da descrição e pode
se não é uma teoria científica, já que não pode ser nega ser testada. (4) Historicamente, Eysenck esteve pre
da; (2) transtornos neuróticos e psicóticos constituem parado para nadar contra a corrente e defender idéias
dimensões separadas, ao invés de pontos em um contí impopulares: "Eu normalmente tenho sido contra o
nuo de regressão; (3) o comportamento anormal repre sistema e a favor dos rebeldes. Os leitores que quise
senta respostas mal-adaptativas aprendidas em vez de rem interpretar isso como alguma tendência oposi
expressões disfarçadas de conflitrs subjacentes e incons cionista herdada, algum ódio freudiano adquirido de
cientes; (4) toda a terapia envolve a aplicação, preten substitutos para pais ou alguma outra forma, são bem
dida ou não, de princípios de aprendizado. Em parti vindos. Prefiro pensar que nessas questões, a maioria
cular, a terapia com comportamentos neuróticos envol estava errada, e eu estava certo. Porém, é claro que eu
ve desaprender ou extinguir respostas aprendidas pensaria isso; somente o futuro dirá" (1982, p. 298).
(Eysmc.1<, 1979). Segundo EyS€í'lck, a psicanálise geral Devido a essas contribuições valiosas, pode-se
mente não é um método eficaz de tratamento e obtém questionar, corno fez um rocente revisor da obra de
sucesso apenas até onde os prindpios da terapia Eysenck, por que Eysenck não foi "universalmente
comportamental são involuntariamente ou acidental celebrado por psicólogos de toda parte" (Loehlin,
mente acrescentados pelo terapeuta. 1982, p. 623). Entre as razões para isso, destaca-se a
Mais recentemente, Eysenck (1991) tentou rela tendência de Eysenck d@ rej@itar as contribuições de
cionar os traços de personalidade com a probabilida outros e exagerar o suporte empírico para o seu pró
de de desenvolver transtornos, como a doença cardí prio ponto de vista {Buss, 1982; Loehlirt, 1982). A mai
aca e o câncer, e descreveu formas comportamentais oria dos psicólogos familiarizados com a obra de
de terapia que aumentam a longevidade quando es- Eysencl< consideram que êla é significativa, mas que
sas doenç,as ocorrem. Esses estudos não são descritos freqüentemente, ele ignora resultados contraditórios
aqui em detalhe porque os resultados permanecem e ignora o poder de resultados positivos. Em relação
controversos e porque eles não se relacioMm de for a isso, duas outras afirmações podem ser feitas. Em
ma tão direta com a teoria como seria desejável.
Lawrence A. Pervi.n e Oliver P. John
primeiro lugar, foram propostos modelos alternativos tem que é impossível explicar diferenças individuais
que se encaixam melhor nos dados disponíveis. Nes apenas com duas ou três dimensões. Como veremos
se modelo, sugere-se que as diferenças individuais nas na próxima seção, o teórico de traços Cattell sugeriu
dimensoos de impulsividade e ansiedade são críticas que considerássemos um número maior de traços e
(Gray, 1990). Aqui, há uma aceitação dos dados ficássemos no nível dos traços, ao invés de lidar com
enfatizados por Eysenck e da importância de conectar o nível de superfatores da descrição da personalida
variáveis de personalidade com funções biológicas, de. Finalmente, existem psicólogos que não compar
mas são enfatizadas diferentes dimensões da perso tilham do ponto de vista de traços, questão que ire
nalidade. Em segundo lugar, muitos psicólogos sen- mos abordar em detalhe no próximo capítulo.
expressam uma preocupação com o rigor científico. do método bivariado. Tanto o clínico quanto o pesqui
A diferença entre eles é que, no método bivariado, os sador que utiliza o método multivariado estão interes
experimentadores limitam a sua atenção a poucas va sados em eventos globais; ambos estão interessados em
riáveis que possam ser manipuladas de alguma for padrões complexos de comportamento, conforme eles
ma, ao passo que nos métodos multivariados, os ocorrem na vida; ambos permitem que a própria vida
experimentadores consideram muitas variáveis, da seja a fonte de :manipulação experimental; e ambos es
maneira como elas existem em uma situação natural. tão interessados em compreender a personalidade to
Cattell criticava muito o método bivariado. Mui tal, ao invés de processos isolados ou fragmentos de
tas de suas críticas assemelham-se àquelas discutidas conhecimento. A diferença entre o clínico e o pesquisa
no Capítulo 2, em relação à pesql!.tisa de laboratório. dor multivariado é que, enquanto o primeiro utiliza a
Em primeiro lugar, ele argumentava que a atenção à intuição para avaliar as variáveis e a memória para re
relação entre duas variáveis representa uma aborda gistrar eventos, o último utiliza procedirru:mtos de pes
gem simplista e fragmentada à personalidade. O com quisa sistemáticos e análises estatísticas. Assim, segun
portamento humano é complexo e expressa as do Cattell, "o clínico possui o ooração no local certo,
interações entre muitas variáveis. Entendendo a rela mas talvez possamos dizer que ele permanece um pou
ção entre duas variáveis, sobra o problema de enten co confuso na cabeça" (1959c, p. 45}.
der como elas se relacionam com as outras tantas va À luz dessas semelhanças e diferenças, Cattell
riáveis que sã. o importantes para determinar o com concluiu que o método clínico é o método multiva
por tamento. Em segundo lugar, o fato de que os riado, mas sem a sua preocupação com o rigor cientí
experimentadores que trabalham com o método fico. Em suma,Cattell pensa que o método multivaria
bivariado tentam manipular a variável independente do combina as qualidades desejáveis dos métodos
significa que eles devem omitir muitas questões que bivariado e clínico (Tabela 7.3}. Para Cattcll, a técnica
são de real importância em psicologia. Como as situ estatística mais importante em pesquisa multivariada
ações emocionais mais importantes não podem ser era a análise fatorial, anteriormente descrita na seção
manipuladas, e portanto, não podem ser utilizadas sobre Hans Eysenck. A principal diferença entre os
em experimentos controlados com humanos, o pes dois teóricos é que Cattell preferia trabalhar com um
quisador do método bivariado é forçado a lidar com número maior de fatores no ruvel dos traços, que pos
questões triviais, a buscar respostas no comportamen suem uma definição mais limitada, mas tendem a es
to de ratos ou a buscar respostas na fisiologia. tar correlacionados entre si. Em contraste, Eysenck uti
Em comparação com o método bivariado, o mé lizava a análise de fatores secundários para combi
todo cl{ni.co tem a vantagem de que os pesquisadores nar traços em. um número menor de superfatores,
podem estudar comportamentos importantes à medi que cobrem uma variedade mais ampla de compor
da que cles ocorrem e também buSéá!t regras para o tamento e tendem a não estar correlacionados. Essa
funcionamento do organismo total. Assim, para finali diferença entre Eysenck e Cattell em seu nível prefe
dades científicas e questões filosóficas, os métodos clí rido na hierarquia de traços é facilmente observada
nico e multivariado são próximos en� si e separados na Figura 7.1.
mente em termos de temperamento (por exemplo, dos Le dados Q foram importantes para conduzir o
emocionalidade) e atitudes (por exemplo, conserva desenvolvimento de pequenas situações de teste; ou
dor). De um modo geral, os fatores encontrados nos seja, o propósito era desenvolver testes objetivos que
dados Q parecem ser semelhantes àqueles encontra mediriam os traços de origem já descobertos. Assim,
dos nos dados L, mas algW1S deles eram mais pecu por exemplo, uma tendência a ser assertivo pode ser
liares a cada tipo de dado. Avaliações de dados L e expressa em comportamentos como uma distância
ihms de dados Q ilustrativos para um traço são apre exploratória longa em um teste de labirinto com o
sentados na Figura 7.6. dedo, um ritmo rápido no movimento com o braço e
Cattell estava comprometido com o uso de ombro e uma velocidade rápida de comparação de
questionários, em particular questionários derivados cartas. Mais de 500 testes foram construídos para
a partir da análise fatorial, como o 16 P .F. Por outro cobrrr as dimensões de personalidade hipotetizadas.
lado, ele também expressava preocupação com os Esses testes foram administrados em grupos grandes
problemas da distorção motivada e o auto-engano de sujeitos, e a repetida análise fatorial dos dados de
com relação às respostas dadas para questionários. diferentes situações de pesquisa levou à designação
Além disso, ele sentia que o questionário tinha uma de 21 traços de origem a partir de dados OT.
utilidade particularmente questionável com pacien Conforme mencionado anteriormente, os traços
tes mentais. Devido aos problemas com os dados Le de origem ou fatores encontrados em dados Le da
os dados Q e como a própria estratégia original de dos Q poderiam, na maior parte, ser combinados en
pesquisa exigia investigações com dados OT, os es tre si. Como, então, os dados OT correspondem àque•
forços posteriores de Cattell diziam respeito mais à les derivados de dados L e dados Q? Apesar de anos
estrutura da personalidade derivada de dados OT. de esforços de pesquisa, os resultados foram deccpcio
Os traços de origem, conforme expressos em testes nantes; embora tenha sido verificada uma relaç,ão com
obj,etivos, são a "moeda verdadeira" da pesquisa da todas as três fontes de dados, não foi possívcl realizar
personalidade. Os resultados de pesquisas com da- nenhum mapeamento direto de fatores.
Lawrence A. Pervín e Oliver P. John
Figura 7.6, Correwondêncía entre dados de dois diferentes domínios de testes: avaliações de dados L e respostas de dados Q. (Cattell,
1965).
Resumo Nesta seção, descrevemos quatro etapas da Os traços de origem encontrados nos três ti
pesquisa de Cattell. (1) Cattell procurou definir a es pos de observação não completam a formulação de
trutura da personalidade em três áreas de observa Cattell da estrutura da personalidade. !Entretanto,
ção, dénominadas de dados L, dados Q e dados OT. os traços apresentados nesta seção descrevem a na
(2) Ele começou sua pesquisa com os dados L e, atra tureza geral da estrutura da personalidade da ma
v� da análise fatorial de resultados, chegou a 15 tra neira formulada por Cattell. Em outras palavr.as,
ços de origem. (3) Guiado em sua pesquisa sobre da temos aqui a base para a tabela dos elementos da
dos Q pelos resultados de dados L, Cattell desenvol psicologia - seu esquema de classificação. Mas
veu o 16 P.F. Questionnaire, que contém 12 traços que quais são as ev idências para a existência desses tra
correspondem a traços encontrados na pesquisa com ços? Cattell (1979) citou o seguinte: (1) os resulta
dados L e quatro traços que parecem peculiares aos dos da análise fatorial de diferentes tipos de da
métodos de questionário. (4) Utilizando esses resul dos; (2) os resultados semelhantes em culturas di
tados para conduzir a sua pesquisa no de-scnvolvi ferentes; (3) os resultados semelhantes em grupos
mcnto de testes objetivos, Cattcll verificou 21 traços de idades diferentes; (4) a utilidade da previsão do
de origem nos dados OT, que parecem ter uma rela comportamento no ambiente natural; (5) as evidên
ção complexa e subordinada com os traços encontra ciãs de contribuições genéticas sig nific ãtivãs pata
dos nos outros dados. muitos traços.
Persoruilldade: teoria e prática
APLICAÇÕES ATUAIS
"A COISA CERTA": CARAC'fERÍSTICAS DE EXECUTIVOS BEM-SUCEDIDOS
Algum tempo atrás, Tom Wolfe escreveu um que se tomam chefes executivos e aqueles que não che
livro sobre a primeira equipe de astronautas ameri gam lá freqüentemente é sutil Membros de ambos os
canos. Um grupo formado apenas por homens, que grupos apresentam considerável talento e possuem
sentiam ter a "coisa certa" - a coragem masculina vantagens notáveis, além de algumas fraquezas signi
necessária para o sucesso como piloto de testes e ficativas. Embora nenhum traço único discrimine en
com.o astronauta. Outras pessoas tinham as habili tre os dois grupos, verificou-se que aqueles que não
dades necessárias, ma s se não tivessem a coisa cer alcançam o seu objetivo final possuem as seguintes ca
ta, eles simp lesmente não teriam sucesso. racterlsticas: eles são insensíveis aos outros, não são
A maioria das ocupações mais difíceis possuem confiáveis, são frios - indiferentes - arrogantes, extre
o seu próprio tipo de coisa certa - as características ou mamente ambiciosos, mal-hum.orados, explosivos e
traços de personalidade que, além da habilidade, pro defensivos. Em contraste, os executivos bem-sucedi
porcionam o sucesso. Por exemplo, o que é necessário dos são mais caracterii.ados por traços de integridade
para ser um executivo bem-sucedido?De acordo oom e por oompreender os outros.
pesquisas rerentes, a diferença entreexecutivossmiores Na verdade, existe um longo histórico de esfor
ços para definir as habilidades e qualidades pes.nús
dos líderes. Em um.certo momento, os pesquisadores
começaram a desistir da esperança de encontrar qua
lidades gerais de liderança. A liderança era conside
rada inteiramente situacional, sendo que diferentes
qualidades pessoais e habilidades eram exigidas em
diferentes situações. Entretanto, uma recente revisão
da literatura sugere que tocar o dobre fúnebre da abor
dagem de traços à liderança provavelmente foi pre
maturo. Certas qualidades gerais, como a coragem, a
constância e a convicção, sobresMem-se. Além disso,
os seguintes traços parecem ser características gerais
de líderes: enérgico, decidido, adaptativo, a�vo,
sociável, realizador e tolerante ao estresse.
Os pesquisadores dos traços, particularmente
aqueles da psicologia organizacional, continuam a
tentar definir aquelas características da personali
dade que são essenciais para o sucesso em diversos
campos. Uma variedade de testes de personalidade,
incluindo o 16 P.F., são utilizados em muitos aspec
"A coisa certa": o sucesso em diferentes ocupações exi tos importantes da seleção de pessoal.
ge que o indivíduo possua certos traços. Sally Ride foi a
primeira astronauta americana a participar da equipe Fontes: Psychology Today, fevereiro de 1983; Holland,
do ônibus espada/. 1985.
Lawrence A. Pervin e Oliver P. John
Estabilidade e variabilidade do comportamento dois outros conceitos são vitais em tentativas de ex
plicar a variabilidade no comportamento -estados e
Embora Câttell �tivt?Ss@ inter�do na consis papéis. A distinção de Cattell entre estados e traços é
tência do comportamento e na estrutura da persona semelhante à de Allport (verTabt2la 7.1). Ele utiliza o
lidade, ele tamb�m se concentrava no processo e na conceito de ,estado para se referir a mudanças emoci
motivação. Como com os traços anteriores, seus es onais e de humor, que são parcialmente determina
forços para determinar os traços dinâmicos, as fontes das pelo poder provocativo de situações específicas.
rnotivacionais do comportamento, envolveram uma Estados ilustrativos são a ansiedade, a depressão, a
ênfas@ na análise fatorial (Cattéll, 1985). Sua análise fadiga, a excitação e a curiosidade. Enquanto os tra
das atitudes que as pessoas tomam em situações es ços descrevem padrões de ação estáveis e gerais,
pecíficas e os padrões de comportamentos que ocor Cattcll enfatizava que a descrição exata de wnindiví
rem o levou a concluir que a motivação humana con duo em um dado momento exige a medição de traços
siste de tendências inatas, denominadas ergs, e moti e estados: "Todo o psicólogo praticante-de fato, todo
vos determinados pelo ambiente, denominados sen observador iI'lteligente da natureza humana e da his
timentos. Ergs ilustrativos são a segurança, o sexo e a tória humana -compreende que o estado de uma pes
auto-asserção. Sentimentos ilustrativos são a religião soa em um dado momento determina o seu compor
("Eu quero adorar Deus"), a carreira ("Eu quero apren tamento tanto quanto os seus traços" (1979, p. 169).
der tknicas exigidas para um emprego") e o auto Em outras palavras, o comportamento em uma deter
sentimento ("Eu jamais quero prejudicar o meu auto minada situação não pode ser previsto apenas a par
rcspcito"). Geralmente, nossas atividades envolvem tir de traços, sem levar em conta se a pessoa está bra
o esforço para satisfazer muitos motivos, e esforços va, cansada, com medo, e assim por diante.
para satisfazer sentimentos são feitos a serviço dos A segunda influência transiente importante está
ergs ou objetivos biológicos mais básicos. relacionada com o conceito de papel. Segundo Cattell,
Claramente, Cattell não considerava a pessoa certos comportamentos estão mais intimamente liga
como uma entidade estática ou como se ela se com dos a situações ambientais do que a maioria dos fato
portasse da mecsma forma em todas as situações. A res de personalidade. Assim, costumes e preceitos
maneira como uma pessoa se comporta em um dado morais podem modificar a influência de traços de per
momento depende dos traços e das variáveis moti.va sonalidade de maneira que "todos possam gritar com
cionais relevantes para aquela situação. Além disso, entusiasmo cm um jogo de futebol, com menos entu-
Papel: Cattefl sugere que o comportamento de um a pessoa pode variar de acordo com seu papel em diferentes
situações.
Personalidade: teoria e prá tíca
enfatizava aipen.as três dimensões amplas, Cattell men.te, enquanto Allport e Eysenck criticavam muito
@nfatizava até 20 traços distintos. Allport, é claro, foi a teoria psicarnilitica, Cattell a rejeitava menos.
mais longe do que Cattell, sugerindo que existtem tra A questão aqui, então, é que dentro de um ponto
ços peculiares a cada pessoa, abrindo o caminho para de vista comum, permanecem importantes diferenças
a investigação de um número infindável de tr-aços. entre os três teóricos. Apesru: dessas diferenças, a teoria
Além dle qu@stoos relacionadas. com a metodo e a pesquisa de traços prumanece sendo uma parte im
logia e o número de traços, esses três teóricos de tra portante do campo dai psicologia por mais de 50 anos.
ços diferem ern sua abordagem ao estudo da motiva Como veremos no capftulo seguinte, uma perspocfüra
ção. Enquanto Eysenck não usou o conceito de moti de traços mais unificada está emergindo. E, apesar de
vo, Allport e Cattell deixaram espaço em suas teorias ataques periódicos contra os pressupostos fundamen
para esse conceito e sugeriram que a pesquisa pode tais da teoria de traços, ela permanece sendo wna força
ria explorar a relação entro traços e motivos. Final- poderosa no campo da personalidade.
PRINCIPAl'S CONCEITOS
T;aço. Uma disposição para se comportar de l.lmá for Extroversão. Na teoria de Eysenck, um lado da di
ma particular, conforme expressa no comportamento mensão introversão-extroversão da personalidade, ca
de uma pessoa em uma variedade de situaçõ@S. racterizado por uma disposição a ser sociáv'el, simpá
Traço éaràeal. O conceito de Allport para uma dispo tico, impulsivo e correr riscos.
sição que é tão penetrante e marcante na vida de uma Neuroticismo. Na teoria de Eysenck, uma dimensão
pes.soa que virtual!rnente cada ato pode ser rastreado da personalidade definida pela es.tabilidade e baixa
à sua influência. ansiedade de um lado e pela instabilidade e ansieda
Traço central. O conceito de Allport para uma dispo de alta de outro.
sição para se comportar de maneira particular em uma Psicoticismo. Na teoria de Eysenck., uma dimensão
vari.edade de situações. da personalidade definida por uma tendência a ser
Disposição secundária. O conceito de Allport para �olitário e insensível por um lado e a aceitar costumes
UJma disposição a se comportar de maneira particular sociais e a se interessar por outras pessoas por outro.
que seja relevante para. poucas situações. Método bivariado. A descrição de Cattel!] sobre o mé
Au.tonomíaftmcional. O oonceito de Allport de que um todo de estudo da personalidade que segue o projeto
motivo pode se tornar independente de sua origem; em experimental clássico de manipular wna variável in
particular, motivos em adultos podem se tomar m.de dependente e observar os efeitos sobre urna variável
pendentes de sua base anterior na redução da tensão. dependente.
Pesquisa idiográfica. Uma abordagem enfatizada por Métodos cl.inicos. A descrição de Cattell sobre o mé
Allport, em que uma atenç-ão particular é dada ao es todo de estudo da personalidade em que existe um
tudo intensivo de indivíduos e à organização de vari interesse em padrões complexos de comportamento,
áveis da personalidade em cada pessoa. conforme ocorrem na vida, mas as variáveis não são
Análise fatorial. Um método estatístico para deter avaliadas de maneira sistemática.
minar aquelas variáveis ou respostas de testes que au Métodos multivariados. A descrição de Cattell sobre
mentam e diminuem em conjunto. Utilizada no de o método de estudo da personalidade, favorecido por
senvolvimento de testes de personalidade- e de al6'11- ele, em que existe um estudo das ínter-relações entre
mas teorias de traços (por exemplo, Cattelll, Eysenck). mUJitas variáveis ao mesmo tempo.
Superfator. Um fator superior ou secundário, represen Traços de capacidade, de temperamento e dinâmicos.
tando um nível mais elevado de organização de traços Na teoria de traços de Cattell, essas categorias de tra
do que os fatores iniciais derivados da análise fatorial ços capturam os principais aspectos da personalidade.
Introversão. Na teoria de Eyse:nck., wnlado da dimen Traços áe superfície. Na teoria de Cattell, os compor
são introversão-€xtrove.rsão da personalidade, carac tamentos que parecem estar relacionados entre si, mas
terizado por uma disposição a ser quieto, reservado, que de fato não aumentam e não dliminuem juntos.
reflexivo e de evitar riscos.
Personalidade: teoria e prática
Traços de origem.Na teoria de Cattell, comportamen Sentimento. O conceito de Cattell para padrões de
tos que variam conjuntam1mte para formar uma di comportamento determinados pelo ámbiente, que são
mensão independente da personalidade, que é desco expressos em atitudes (isto é, prontidão para agir em
berta átravés do uso de análise fatorial. UI'.tl.a certa direção) e são ligados a ergs subjacentes
Da.dos L Na teoria de Cattell, dados do histórico de (isto é, impulsos bíol6gicos inatos).
vida relacionados com situações da vida cotidiana ou Estado. Alterações emocionais e de humor (por exem
com avaliações desses comportamento. plo, ansiedade, depressão, fadiga) que Cattell sugeriu
Da.dos Q. Na teoria de Cattell, dados da personalida que poderiam influenciar o comportamento de uma�
de obtidos através de questionários, soa em um dado rnomen.to. Sugere-se que a avaliação
Dadcs OT. Na teoria de Cattell, dados de �tes objeti de traços e de estados possa prever o comportamento.
vos ou infonnaçues sobre a personalidade obtidos através Papel. Ooomportamento considerado apropriado para
da observação do comportamento em situações simples. o lugar ou status da pessoa na sociedade. Enfatizado
Erg. O conceito de Cattell para impulsos biológioos por Cattell! como uma das inúmeras variáveis que li
inatos que proporcionam o poder motivador btísico mitam a influência de variáveis da personalidade no
para o comportamento. comportamento em relação a variáveis situadonais.
REVISÃO
1. O conceito de traço representa uma disposição díraria). Contudo, ele também sugere que, atra
ampla para se comportar de um modo particu vés da terapia comportamental, podem ocorrer
lar. Considera-se que os traços estão organiza importantes mudanças no funcionamento da
dos em uma hierarquia de respostas espedfica.s personalidade.
a estilos gerais de funcionamento psicol6gico. 5. Cattell distinguiu entre abordagens bivariadas,
2. Allport diferenciou a importância de traços para a multivariadas e clínicas na pesquisa da persona
personalidade da pesroa rom os cona!ítos de tra lidade, fu.vorecendo o estudo multivariado das
ços car<leais, traços centrais e disposições �eáfi. inter-relações entre mutasi
variáveis. Cattell tam
éâS. Allport também é conhecido pclo conccito de bém distinguiu entre traços de capacidade, tem
autonomia funcional, sugerindo que motivos peramento e dinâmicos, assim como traços de
adultos podem se tomar indepéli.dentes de ráÍZl!S superfície e traços de origem. Os traços de ori
anteriores, e por sua ênfase na utilidade do estudo gem representam urna associação de comporta
aprofundadodosindivíduos(pe,,quísaidiográfica). mentos descoberta através do uso de análise
3. Muitos teóricos de traços utilizam a técnica es fatorial e são os elementos constitutivos da per
tatística da análise fatorial para desenvolver sonalidade. Embora seus principais esforços de
urna classificação de traços. A tra vês dessa téc pesquisa tenham envolvido o uso de questioná
nica, um grupo de itens ou respostas (fator) é rios (16 P.F. Questionnnire), ele tentou demonstrar
formado, sendo que os itens de um grupo (fa que os mesmos fatores aparecem com o uso de
tor) estão intimamente relacionados entre si e avaliações e testes objetivos. Finalmente, Cattell
distintos daqueles de outro grupo (fator). sugeriu que o comportamento em uma situação
4. Segundo Eysenck, as dimensões básicas da per espeófica reflete variáveis motivacionais, como
sonalidade são introversão-extroversão,neuroti os ergs e os sentimentos, assim romo influências
cismo e psicoticismo. Foram desenvolvidos mais temporárias, como os estados e os papéis.
questionários para avaliar as pessoas ao longo 6. Teóricos de traços como Allport, iEysenck e Cattell
dessas dimensões de traços. As pesquisas têm compartilham de uma ênfase em disposições
se concentrado particularmente na dimensão amplas de réSJ>OSta como sendo centrais à perso
introversão-extroversão dos traços, a partir da nalidade. Entretanto, suas abordagens diferem de
qual foram verificadas diferenças em nível de muitas maneiras, principalmente com relação ao
atividade 12 preforências de atividad12. Eysenck uso da análise fatorial para descobrir traços e o
sugere que as diferenças individuais em traços número de traços a serem utilizados na descri
possuem uma base biológica e genética (here- ção da personalidade.
TB0RIA DR TRAÇOS: O MODELO DE
C0 ATéJ. - S - CAÇÕES E
AVALIA,ÃOJ)E ARé)lIDAGENS DE
'DRA(;élS Â �IlRSO ALIDADE
FOCO DO CAPÍTULO
Você tenta uma vaga para pós-graduação e atributos que as pessoas consideram importantes em
Allport, Eysenck e Cattell escrevem cartas de reco suas vidas. Certamente, haveria uma considerável
mendação para você. Como seriam as cartas? Certa redundância (por exemplo, perfeito e infalível signifi
mente, elas seriam bastante diferentes. Eysenck dis cam quase a mesma coisa), permitindo que reduzís
cutiria o seu comportamento e as suas realizações semos o tamanho da lista. Se conduzíssemos uma
segundo os seus três superfatores amplos, Cattell análise fatorial de avaliações de personalidade rea
consideraria mais de vinte traços mais específicos e lizadas de acordo com esses traços, acabaríamos com
Allport talvez.criasse um retrato idiográfico com de as principais dimensões de descrições de traços da
talhes mais ricos, incluindo muitas configurações de personalidade. O resultado pode ser um ajuste que
traços totalmente peculiares. Apesar de talvez ha talvez não agrade a todos, mas que pelo menos é
ver alguns temas comuns nas cartas, nenhum des alcançado através de um conjunto justo de procedi
ses teóricos jamais abandonaria a posição teórica mentos, e a sua praticabilidade e utilidade irão de
preferida. Isso nos leva à questão: como podemos terminar se ele será amplamente aceito no campo.
chegar a um acordo com relação aos traços básicos, Neste capítulo, continuaremos a nossa discussão
se não conseguimos sair desse árculo vicioso? da teoria de traços e consideraremos os esforg,s dos
Suponhamos que utilizássemos o seguinte pro pesquisadores de traços para chegar a um consenso
cedimento. Solicitamos que mil pessoas escrevam utilizando os procedimentos apresentados anterior
descrições da personalidade de outras mil pessoas. mente. Iremos nos concentrar no consenso emergente
Então, reunimos todos os adjetivos utilizados para com relação à importância das cinco dimensões básicas
descrever os traços nessas descrições. O resultado de traços e consideraras evidênàasque sustentam esse
seria uma lista de descritores da personalidade que modelo decincofatores,bemcomo asuaaplicaçãopara
não se inclinaria para nenhuma precom:epção teóri o indivíduo. O capítulo é concluído com uma avalia
ca, uma lista que incluísse fielmente todos aqueles ção geral da abordagem de traços à personalidade.
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�
em vista. Os pesquisadores, assiim como os avaliado za das dimensões básicas dos traços de personali
res de personalidade confrontam uma variedade dade, e o campo permaneceu fragmentado e desor
esrupefante de medidas de traços para escolher. Ape ganizado. Desde a década de 1980, uma melhora
nas na língua inglesa, existem mais de 5000 palavras gradual na qualidade e sofisticação de métodos, es
para descrever traços de personalidade. Segundo pecialmente a análise fatorial, levou ao começo de
Cattell, "o problema com a mensuração dos traços é um consrnso. Muitos pesquisadores, especialmen
que existe um número excessivo deles!" (1965, p. 55). te a geração mais jovem, agora concordam que os
Encontrar uma forma de organizar todos esses traços traços podem ser organizados de forma proveitosa
diferentes em uma estrutura coerente foi a principal de acordo com cinco dimensões bipolares e amplas
preocupação dos pesquisadores de traços durante a (John, 1990; Costa e McCrae, 1992); elas são ampla
década de 1980 e o começo da década de 1990. mente conhecidas como as "cinco grandes dimen
Por muitos anos, !houve debates acirrados en sões", não porque são tão !,'Tandiosas, mas por cau
tre os pesquisadores de traços, incluindo Eysenck, sa de sua extraordinária amplitude e seu nível de
Cattell e outros, com relação ao número e à nature- abstração.
Para ilustrar o significado dos fatores, a Tabela sadores são bastante semelhantes. Por exemplo,
8.1 lista inúmeros adjetivos relacionados com traços Goldberg (1992) sugeriu um inventário de traços
que descrevem indivíduos com resultados altos e bai bipolares (por exemplo, silencioso-falante) que os in
xos em cada fator. O neuroticismo opõe-se à estabili divíduos podem utilizar para avaliar sua própria situ
d!ade emocional com uma variedade ampla de senti ação nas cinco grandes dimensões. Uma versão abre
mentos negativos, induindo a ansiedade, a tristeza, a viada desse inventário vem a seguir. Considere as se
irritabilidade e a tensão nervosa. A abertura à experi guintes instruções ao completar o inventário:
ência descreve a amplitude, a profundidade e a com
plexidade da vida experimental e mental do indiví Tente se d.escrever da forma mais precisa possível Des
duo. A extrove.rsão e a amabilidade sintetizam traços creva-se como você se vê no momento, não como você
que são interpessoais, ou seja, capturam aquilo que gostaria de ser no futuro. Descreva-se da forma co mo
as pessoas fazem com as outras e para as outras. Fi você nonnalmente é, em comparação com outras pesso
nalmente, a consciência descreve principalmente o as que conhece do mesmo sexo e aproximadamente da
mesma idade. Para cada uma das escalas de traços
comportamento direcionado para tarefas e objetivos
listadas, marque o número que melhor descreve vo cê
e o controle de impulsos ,que é exigido pela sociedade. nesta dimensão.
As definições de fatores apresentadas na Tabela
8.1 baseiam-se no trabalho de Costa e McCrae (1985; Qual foi o seu resultado? Tenha em mente que
1990; 1992). As definições sugeridas por outros pesqui- esse inventário não é um teste formal, mas um valio-
so exercício para familiarizá-lo com as cinco grandes Pesquisa inter,cultural: as cinco grandes
dimensões e como elas podem se aplicar a você mes dimensões são universais?
mo. Entretanto, se você estiver interessado em seus
resultados gerais nas cinco grandes dimensões, po Se existem questões universais com relação a di
derá somar suas respostas para cada fator. Simples ferenças individuais e interações humanas, pode-se es•
mente adicione todos os cinco números que marcou pernr que as mesmas dimensões básicas de traços apa-
para E e divida essa soma por 5. Faça o mesmo para reçam em muitas línguas diferentes. Existem evidências
cada um dos outros fatores. Em qual fator você teve o de que isoo é verdade? A pesquisa inter-cultural a res
resultado mais elevado? Em qual você teve o mais bai peito de traços de personalidade praticamente explo
xo? Os cinco fatores correspondem ao que você espe diu durante a década de 1990, em parte porque os psi
raria? Ou houve discrepâncias surpreendentes com a cólogos nos Estados Unidos intérCSSaram-se mais pe
maneira como você se vê em geral? las pesquisas interculturais, em parte porque as cinco
gt.ffides dimensões possuem um grande potencial para
conectar equipes de pesquisa em países diferentes e em
A hipótese lexical fundamental parte porque o advento do correio eletrônico eliminou
As cinco grandes dimensões foram projetadas a maioria dos custos e atrasos em pesquisas entre dois
para capturar aqueles traços de perSonalidade que as países. Grupos de pesquisa do leste europeu, da
pessoas consideram mais importantes em suas vidas. Polônia, Checoslováquia, HW1gria, Rússia, e assim por
Goldberg explicou essa abordagem de acordo com a diante, iniciaram estudos lexicais dos traços de perso
hipótese lexical (lingüística} fundamental: nalidade, partindo do dicionário de suas próprias lín
guas. Os dados ainda não estão todos prontos, e exis
A variedade de difere nças individuais é quase infinita, tem inúmeras questões metodológicas que podem ter
ainda assim, a maioria dessas diferenças é insignificante influenciado alguns dos resultados.
nas interações cotidianas das pessoas com os outros e Um dos maiores problemas envolve as traduções
perman ecem ampl amente ignoradas. Sir Franàs Galton - existem poucas traduções diretas na maioria das lín
pode ter esta do entre os primeiros cientistas a reconhe guas, e mesmo os cognatos (por exemplo, agressivo e
cer explicitamente a hipótese lexical fundamental - o u o agressivo da língua alemã) não necessariamente sig
seja, que as dife renças individuais mais importantes n as nificam a mesma coisa (em alemão significa hostil, ao
transações humanas serão co dificadas como termos úni
invés de forte-assertivo). Assim, um termo como ex
cos em algumas ou em todas as línguas do mundo.
pansivo (um traço de extroversão), quando mal tradu•
Fonte: Goldberg, 1990, p. 1216. zido do japonês para o inglês transforma-se em afetuoso
(um traço de amabilidade), o que pode levar os pes
Assim, Golbderg sugere que, com o passar do quisa dores a questionarem se eles enconttaram o
tempo, os humanos encontraram algumas diferenças mesmo fator nas duas línguas. Assim, Hofstee e cole
individuais particularmente importantes em suas gas (1997) identificaram 126 palavras que poderiam
interações e desenvolveram termos para se referir a ser traduzidas de forma razoavelmente direta em es
elas com facilidade. Esses termos, que estão relacio tudos lexicais anteriores para o inglês, alemão e ho
nados com os traços, comunicam informações sobre landês e utilizaram-nas para comparar o significado
diferenças individuais que são importantes para o dos fatores nas três línguas. Seus resultados apresen
nosso próprio bem-estar ou o do grupo ou clã. Dessa taram uma congruência considerável nessas três lín
forma, eles são úteis porque servem o propósito de guas relacionadas, com uma exceção importante: o
previsão e controle - eles nos ajudam a prever aquilo fator da abertura. O alemão e o inglês eram bastante
que os outros irão fazer e assim, controlar os resulta semelhantes, mas o fator holandês incluíam não ape
dos para nossa vida (Chaplin et al., 1988). Eles aju nas os traços esperados relacionados com o intelecto
dam a responder questões sobre a maneira como um e a imaginação (por exemplo, inventivo, original, ima
indivíduo irá se comportar em uma variedade de si ginativo), como também enfatizava traços relaciona
tuações relevantes. dos oom a inconvenáonalidade e a rebeldia. Uma
variação semelhante da abertura foi encontrada em
estudos de traços italianos e húngaros (Caprara e
Perugini, 1994).
Lawrence A. Pervin e Oliver P. John
Uma recente revisão quantitativa (De Raad et al., As cinco grandes dimensões em
1998) comparou diversos estudos europeus, e concluiu questionários de personalidade
que fatores semelhantes às cinco grandes dimensões
foram encontrados na maioria das línguas, porém a Neste ponto, provavelmente já esteja claro para o
evidência é menos convincente no caso do fator da estudante da personalidade que o campo não sofre de
abertura, em diversos aspectos. Somente alguns éStu• uma carência de questionários. Foram desenvolvidos
dos de línguas e culturas nãereuropéias (chinês, japo questionários para quase todos os conceitos, associa
nês, filipino) foram completados, e a abertura, mais dos a quase todas as teorias da personalidade. No Ca
uma vez, apresenta a replicabilidade mais fraca. pítulo 7, discutimos diversos inventários de Eysenck e
É importante não supervalorizar evidências de o16P.F., de Cattell. Uma variedade de outros questio
universalidade. McCrae e Costa (1997) adotaram uma nários foi desenvolvida por
posição bastante firme, sugerindo que a estrutura da outros pesquisadores de tra
personalidade das cinc,o grandes dimensões é um ços, como a versão abrevia
universal humano. Suas evidências amplas baseiam da do inventário bipolar de
se em tradu�ões de seu instrumento das cinco gran Goldberg (1992), que mede
_ as cinco grandes dimensões
des drmensoes {o NEO-PI-R), para muitas línguas, e
de fato, os mesmos cinco fatores resultam com gran com adjetivos descritos an
de regularidade. Entretanto, quando os pesquisado teriormente neste capítulo.
res incluem termos indígenas, ou seja, termos tirados Além dessas medidas base
de línguas nativas estudadas, os resultados tornam adas em.adjetivos, um ques
se mais complexos {Saucier e Goldberg, 1996). Em ou tionário bastante elaborado,
tras palavras, os resultados podem diferir, dependen que tem sido amplamente
do se os termos relaáonados com os traços são "im utilizado, também está dis
postos" sobre os membros de uma cultura, ou se eles ponível para medir as cinco ,__.......;__
são retirados da própria língua daquela cultura. grandes dimensões. Paul T. Costa Jr.
De fato, foi sugerido que podem existir fatores
de personalidade adicionais que sejam peculiares a O NEO-PI-R e .sua estrutura hierárquica: facetas Em
culturas específicas. Um exemplo potencial é o fator três estágios de construção e revisão de testes, Costa e
"tradição chinesa" (Cheung et al., 1996), que parece McCrae (1985; 1989; 1992) desenvolveram um questio
capturar valores e atitudes considerados importan nário, o NEO-Pmrmality Inwntory Reuised ("J\TEO-PI-R),
tes na sociedade chinesa tradicional. Esses fatores es para medir os cinco grandes fatores da personalidade.
pecíficos de uma cultura certamente são possíveis, Originalmente, eles haviam se concentrado apenas nos
embora seja necessário mais confirmação e replicação três fatores ào neuroticismo, extroversão e abertura,
antes que aceitemos esses fatores como fatos daí o título :NEO-Personality
empíricos. Por exemplo, é possível que esses fatores lnventory. Subseqüente
não reflitam traços de personalidade propriamente mente, eles adicionaram os
ditos, mas outras diferenças individuais, como cren fatores da amabilidade e da
ças e atitudes (por exemplo, conservador tiersus li consciênàa para se adequar
beral). Em suma, existem evidências crescentes (mas ao modelo de cinco fatores.
ainda limitadas) de que pessoas cm diferentes cul Além disso, eles diforen
turas, utilizando línguas bastante diferentes, cons áaram cada um dos cinco
troem a personalidade de maneiras que se asseme grandes fatores (ou domíni
lham às cinco grandes dimensões. Como De Raad, os) em seis facetas mais es
Perugini e colegas (1998) concluem, os resultados pecíficas; facetas são os tra
mostram que "os contornos gerais do modelo das ços ou componentes mais
cinco grandes dimensões representam a melhor hi espêcíficos que formam
pótese de trabalho de uma estrutura de traços cada uma das cinco grandes
onipresente" (p. 214). dimêns�s amplas. Robert R. McCrae
Personalidade: teoria e prática
Tabela 8.2 Cada um dos cinco grandes fatores consiste em seis facetas e é ilustrado por um indivíduo ou personagem
fictício que exemplifica o protótipo do resultado alto naquele fator
Gregarismo
Nível de atividade
Assertividade Bill Clinton
Ext:10versão Busca de excitação Presidente americano 1993-2001
Emoções positivas
Co,dialidade
Honestidade
Confiança
Amabilidade Altruísmo Radar
Modéstia Personagem de M.A.S.H.
Afabilidade
Complacência
Auto-disciplina
Senso de dever
Consciência Competência Spodc
O,dem Personagem de Jornada nas Estrelas
Deliberação
Busca por realizações
Ansiedade
Constrangimento
Neuroticismo Depressão Woody Allen
Vulnerabilidade Diretor de cinema
Impulsividade
Hostilidade
Fantasia
Estética
Abertura a novas Sentimentos Lewis Carrol!
experiências Idéias Autor de "Alice no País das Maravilhas"
Ações
Valores
As seis facetas que definem cada uma das cin CLINTON GOSTA DE FESTAS: entre festas, golfe e lei
co grandes dimensões sã.o listadas na Tabela 8.2, jun turas, ele tem pouco tempo para descansar:
tamente com um indivíduo famoso ou personagem Com menos de uma semana de férias em Martha's
fictício que exemplifica o protótipo do resultado alto Vineyard, ele ficou na rua até após as 11 horas todas as
para cada fator. Por exemplo, no NEO-PI-Rde Costa noites, tocou saxofone com uma banda de jazz, conver
sou brevemente com um office boy e participou de pelo
e McCrae, a extroversão é definida por essas seis menos quatro eventos beneficentes e diversas festas. Isso
facetas: nível de atividade, assertividade, busca de excita não inclui suas duas rodadas de golfe e a dúzia de livros
ção, emnções positivas, gregarismn e cordialidade. Essas pesados que ele carregava.
cinco facetas não capturam os traços que descreve As férias pre;idenciais podem dizer .mais a respeito da per
riam o ex-presidente Bill Clinton? Cada faceta é me sonalidade e das inclinações de um chefe do executivo do
dida por 8 itens, de maneira que a maior parte do que uma variedade ele discursos políticos. Ronald Reagan
NEO-PI-R recente consiste em um total de 240 itens andava a cavalo, jardinava e fazia pouai caso de listas de
(ou seja, 5 fatores x 6 facetas x 8 it12ns). Por êX'.emplo, leitura. para o verão. George Bush pilotava lanchas poten
dois itens da escala da faceta da atividade são "mi tes. Richard �Ixon caminhava na praia vestindo roupas
nha vida é corrida" e "quando faço algo, eu o faço pretas. Bill Clinton, conhecido por seu apetite por comida,
vigorosamente" (Costa e Mccrae, 1992, p. 70). De fato, conversas, idéias e -bem, deixemos assim - aparentemente
pensa que as férias não deveriam ser desperdiçadas em fri
a maioria dos observadores concordaria que Clinton volidades, como dormir, e deveriam ser ocupadas com o
vicejava em sua vida corrida na Casa Branca, e ele máximo de atividades sociais, golfe e leituras passível.
certamente fazia as coisas vigorosamente, como o se
guinte artigo de jornal sugere: Fonte: Charles Babington, San Francisco
Chronide, 25 de agosto de 1999, p. A4.
La,;.vnmce A. Pervin e Oliver P. John
Quando o NEO-PI-R é administrado em contex Esses resultados são importantes porque eles fi.
tos clfu..icos e de pesquisa, os sujeitos indicam, para cada nalmente oferecem uma integração dos modelos ana
item, o nível em que concordam ou discordam, utili lítico-fatoriais antigos com as cinco grandes dimen
zando uma escala de d.as.sificação de cinco pontos. Tlr sões, e assim, entre si. Em particular, verificou-se que
das as escalas resultantes possuem boa confiabilidade os superfatores de Eysenck da Extroversão e Newoti
e apresimtam validade com diforentes fontes de dados, cismo eram praticamente idênticos às dimensões de
como avaliações realizadas por cônjuges e companhei mesmo nome das cinco grandes dimensões, e o
ros. McCrae e Costa (1990) defenderam vigorosamente superfator de Psicoticismo de Eysenck correspondia
o uso de questionários estruturados para avaliar a per a uma combinação de baixa Amabilidade e baixa
sonalidade e critiéam os tesms projetivos e as entrevis Consciência-pessoas com rúveis elevados de Psicoti
tas clínicas, que consideram não-sistemáticos e propen cismo, como criminosos, são desagradáveis e irres
sos a tendenciosidades. Há evidências mostrando que ponsáveis (Clark e Watson, 1999; Costa e McCrae,
as escalas do NEO-PI-R também correspondem bem a 1995,; Goldberg e Rosolack, 1994).
outros instrumentos das cinco grandes dimensões, De maneira semelhante, as escalas do 16 P.F.,
como os inventários de adjetivos de Goldberg {19'J2) de Cattell (Tabela 7.4 no capítulo anterior) correspon
Oohn e Srivastava, 1999; Benet-Martinez e John, 19'J8). dem às cinco grandes dimensões mais amplas de
Entr-etanto, é importante lembrar que também existem maneiras teoricamente coerentes (McCrae e Costa,
algumas diferenças nas facetas. que são enfatizadas em 1990). Por exemplo, suas escatas Expansivo, Asser
cada instrumento. Por exemplo, Goldberg enfatiza as tivo e Ousado correspondem à Extroversão do NEQ.
pectos intelectuais e criativos em suas medidas do quin PI-R; Confiante e Afável à Amabilidade; Consciente,
to fator, a Abertura, e assim, prefere chamá-lo de Inte Controlado e Sóbrio à (não é de surpreender) Cons
lecto ou Imaginação; McCrae (19'J6) critica essa visão, ciência; Emotivo, Tenso e Apreensivo ao Neuroti
como sendo uma definição muito limitada do fator de cismo; e Imaginativo e Experimentador à Abertura.
Abertura (ver Tabela 8.2). Além disso, Costa e McCrae Em referência ao Capítulo 7, figura 7.1, essa análise
localizam a faceta da cordialidade na Extroversão, en deixa claro que os três fatores de Eysenck são tão
quanto outros pesquisadores das cinco grandes dimen amplos quanto as cinco grandes dimensões e até mais
sões consideram que a cordialidade está mais intima amplos para o Psicoticismo, ao passo que as 16 de
mente relacionada com a Amabilidade (John e CatteU estão aproximadamente no mesmo nível hie
Srivastava, 1999). Assim,ainda existem algumas incon rárquico das facetas das cinco grandes dimensões.
sistências entre os diversos pesquisadores, as quais de Ou seja, as cinco grandes dimensões nos oferecem
verão ser resolvidas. uma estrutura abrangente, na qual podemos integrar
e entender as construções de traços propostas ante
riormente por Eysenck e Cattell.
INTEGRAÇÃO DOS FATORES DE EY·SENCK E Além disso, o NEO-PI-R apresenta relações teo
CAmLL NAS CINCO G'RANDES DIMENSÕES ricamente coerentes com medidas de personalidade
obtidas através de outros meios (por exemplo, a clas
Supondo-se que o NEO-PI-R seja uma medida sificação Q) e com questionários derivados de orien
adequada do modelo de personalidade de cinco fato tações teóricas bastante diferentes (por exemplo, o
res, até que ponto ele se correlaciona com outras me modelo motivacioliâl da personalidade de Murray).
didas estabelecidas por outros investigadores? Costa Esse último ponto é particularmente importante por
e McCrae aceitaram isso como um desafio para a va que proporciona a possibilidade de estabelecer um
lidade do teste, assim como para a utilidade do mo elo entre traços e motivos (Pervin, 1999). Com base
delo de cinco fatores, e ofereceram evidências consi nesse tipo de estudos, McCrae e Costa argumentam
deráveis, sugerindo que os resultados do NEO-PI-R que os cinco fatores, conforme avaliados pelo NEO
correlacionam-se da maneira prevista com resultados PI-R, são necessários e suficientes para descrever as
de outros questionários de personalidade. Em parti dimensões básicas da personalidade. De fato, eles
cular, isso ocorre com os resultados de outros questi vão além disso, sugerindo que "nenhum outro siste
onários baseados em análise fatorial (ver Capítulo 7), ma é tão completo e, ainda assim, tão parcimonioso"
como os inventários de Eysenck e o 16 P.F., de Cattell (1990, p. 51).
(Costa e McCrae, 1992; 1994b).
Personalidade: teoria e [Práti.ca
Outro aspecto interessante do NEO-PI-R é que panheiros, ou porque os cônjuges conversem bastante
existem formulários disponíveis para auto-avaliação e sobre a personalidade um do outro (ver Kenny, 1994).
avaliação realizada por outras pessoas. Em diversos es Dois importantes resultados surgiram dessa pesquisa:
tudos, as auto-avaliações dos sujeitos foram compara (1) a partir da distinção entre fontes de dados Se dados
das com as avaliações feitas por seus companheiros e O que firmamos no Capítulo 2, os mesmos cinco fato
cônjuges. McCrae e Costa (1990) relatam uma corres res são encontrados em auto-avaliações e avaliações
pondência substancial entre auto-avaliações e avalia conduzidas por um observador, e (2) os observadores
ções fcitas por companheiros e por cônjuges em todos concordam razoavclmente bem entre si, com relação à
os cinco fatores. A concordância entre a auto-avaliação situação dos indivíduos cm cada uma das cinco gran
e as avaliações do cônjuge é maior do que entre a auto des dimensões. Esses resultados proporcionam evidên
avaliação e as dos companheiros, talvez porque os côn cias da utilidade de medidas de auto-avaliação e do
juges geralmente se conheçam melhor do que os com- modelo da personalidade em cinco fatores.
Biografia Processos
objetiva d.ni.micos
Reaçõe -s emoaonais,
mudanças de meio
Processo?.
de carreira:
dinàrr.JC05.
Prccessos
Figura 8.1 Uma representação do sistema de personaíidade da teoria de cincn fatores. (Componentes fundamentais estão em
retângulos; componentes de interface estão em elipses). (Costa e McCrae, 7999). Reimpresso sob permissão, Guilford Press.
Lawrence A. Pervin e Oliver P. John
gia humana do que como produtos de experiências da Diferenças relacionadas com a idade
vida, e o desdobramento das tendências básicas é pouco durante a fase adulta
ou nada influenciado pelo ambiente. Ao invés disso,�
tendências roc.ercem influência, durante a vida do indiví Os níveis gerais das cinco grandes dimensões são
d!uo, sobre o autoconc:eito (Capítulos 5 e 6) e adaptações estáveis ao longo da idade adulta ou existem mudanças
características da pessoa, que incluem atitudes, objotivos gerais associadas à idade? Estudos iniciais, nos Estados
pessoais, crenças de auto-eficácia e outras variáveis que 1:'nidos, su�erem efeitos
. pequenos, ainda que significa
iremos discutir em. outros capítulos. Tanto as adaptações tivos, assooados à idade. Em particular, os adultos mais
características quanto as influências ambientais externas velhos apresentam resultados significativamente mais
do indivíduo (por exemplo, oportunidades, normas, pri baixos no que diz respeito ao neuroticismo, à extrootrSão e
vações) detenninam as escolhas e decisões que o indiví à abertura, e mais altos no que diz respeito à amabilidade e
duo fuz. com o passar do tempo, que são rclietidas na à conscíbu:ia do que adolesc:mtes e adultos jovens na fai
biografia objetiva (semelhantes aos dados do histórico xa dos vinte anos de idade (ou seja, idade universitária)
de vida discutidos nos Capítulos 2 e 7) e também no (Costa e McCrac, 1994). De certa forma, alguns desses
autoconceito sobre a qual o indivíduo constrói uma his r�ultados são encorajadores, mostrando qu12 o enve
tória de vida, mitos pessoais, e assim por diante. lhecimentopossui alguns efeitos desejáveis. E.%es resul
De um modo geral, esse modelo apresenta um tados fazem sentido quando se rompara estudantes
potencial integrativo considerável, conectando uma secundaristas e universitários com os seus pais (adultos
visão biológica de traços e influências ambientais com mais velhos). Em média, os adolescentes parecem ser
as variáveis de personalidade observáveis que são de mais perturbados com ansiedades e preocupações, com
grande interesse para as outras orientações teóricas aceitação e auteresti.rna (N mais alto), passrun mais tem
representadas neste livro. Ao mesmo tempo, o mode po ao telefone e em atividades sociais com seus amigos
lo deixa mais questões em aberto do que oferece res (E mais alto), são mais abertos a todo tipo de experiênci
postas. Note o número de flechas especificando "pro as e experimentações (Ornais alto), mas também fião mais
cessos dinâmicos". A teoria de traços fala pouco a res críticos e exigentes com pessoas específicas e com a socie
peito desses processos; na visão de McCrae e Costa dade em geral (A mais baixo), e menos conscienres e res
(1999), esses são detalhes para serem pre€nchidos por ponsáveis do que os outros (pais, proft'Ssores, polícia)
outras abordagens teóricas à. personalidade. No mí esperariam que fossem (C mais baixo).
nimo, um moo.elo explícito, mesmo que ainda não Não é de surpreender que falemos de "jovens
completamente elaborado, deixa claro dois pontos raivosos", e não de "homens de meia-idade raivosos"
importantes: (1) os traços não representam a totalidade ou de "avôs raivosos". De fato, os anos da adolescên
da personalidade, e (2) os traços ocupam um lugar cia e o começo da faixa dos vinte anos são a época de
importante em uma teoria completa da personalidade. maior descontentamento, turbulência e revolta. O de
créscimo em A e C também corresponde aos resulta
dos da literatura sobre a delinqüência juvenil (relacio
CRESCIMENTO E DESENVOlVIMENTO nados com baixa A e baixa C e ao Psicoticismo de
De um modo geral, os pesquisadores das cinco Eysenck), que dfuninui notavelmente após a adoles
grandes dimensões tem concentrado o seu trabalho cência. De maneira mais geral, os achados de mudan
sobre a personalidade na idade adulta, estudando a es ças nas cinco grandes dimensões durante a faixa de
tabilidade e mudança da personalidade durante a ida vinte âi\OS foram interpretados como indicando um
de adulta e a idade avançada, mas deixando para os crescimento rumo à maturidade aos trinta anos de
psicólogos do desenvolvimento a questão de como a idade; a adoção de papéis adultos em carreira e pater
personalidade se desenvolve a partir da infância na nidade produz maior confiança e equilíbrio emocio
estrutura das cinco grandes dimél\Sões que conhece nal, assim como maior socialização e competência.
mos na idade adulta. Embora exista uma certa dife Entretanto, esses multados são ambíguos, pois as
ren�a nas visoos dos pesquisadores de traços com re diforonças obSl?tvadas podém não refletir mudanças de
lação à estabilidade dos traços durante a infância, a idade, mas diferenças,de grupo, ou seja, diferenças devi
maioria deles concorda que a estabilidade dos traços do a aspectos de geração associados ao crescimento du
é bastante alta durante a idade adulta (Caspi e Roberts, rante diferentes períodos de tempo. Em outras palavras,
1999; McCrae e Costa, 1997; Roberts e Del Vecchio, as diferenças podem decorrer de fatores históricos (por
2000).
Personalidade: teoria e prática
1
221
exemplo, crescer durante a De:p:ressão, em oposição a algumas dessas tendências de idade continuariam até
crescer durante a segunda guerra mundial, ou durante após a idade de30 anos, ainda qu@ cm uma taxa reduzi
os anos tumultuados da década de 1960), ao invés de da. Note que os resultados gerais são bastante surpreen
fatores relacionados com a idade. Por éXén'lplo, os estu dentes: o tMSmo padrao de mudan� de traços da per
dantes universitários de hoje em dia podem ser menos sonalidade foi observado em diversas culturas diferen
consdentéS do que a �ra�ão de seus pais quando estéS tes, que difttriam considru-avelrrtcnte mn suas condiçoos
últimos estavam na faculdade. Pesquisas subseqüentes políticas, culturais e econômicas. Esses resultados leva
n�alizadas por McCrãe, Costa e seus colaboradores ram McCrae e colaboradores a afirmar que a mudança
(McCrae et aL, 2000) abordaram essa limitação, estudan nos traços de personalidade não se relaciona intimamente
do difurenç.as de idade em uma ampla variedade de rul com as experiências difuronciais que ocorrem durante a
ruras. Para ilustrar, a Figura 8.2 mostra os resultados para extensão da vida do indivíduo; ao invés disso, conforme
Consciência, em cinco culturas diferentes. As médias são mencionado anteriormente, eles propõrol que essas di
apresentadas para cinco grupos de idade: 14-17; 18-21; ferenças de idade refletem uma maturação intrínseca,
22-29; 30-49; e 50 em diante; quando a Figura 8.2 não assim como outros sistemas de base biológica:
apresenta nenhum valor, não houve sujeitos suficientes
para aqucle grupo de idade espeófica Tendênáas de Existem progressões naturais no desenvolvimento da per
idade foram geralmente semelhantes para homens e sonalidade, que ocorrem independentemente do contexto
mulheres, e o aumento previsto foi observado em cada cultural e histórico. � como as crianças aprendem a
cultura; as pessoas tomaram-se cada vez mais conscien falar, contar e raciocinar em uma ordem e -tempo fixas, os
tes com o aumento de idade. adultos tomam-se mais agradáveis e menos extrovertidas,
como oonseqü&da natural do envelhecimento. Essa noção
De um modo mais geral, McCrae cl aL (2000) con de maturação intrínseca é indiretamente sustentada por
seguiram replicar os resultados obtidos anteriormente outras linhas de evidências - hereditariedade, estabilidade,
nos Estados Unidos, embora tenham tido que modificar universalidade inter-cultural - que apontam para a inter
sua posição, que antes era um tanto firme, de que não pretação de traços como tendências básicas endógenas.
ocorreriam mudanças na personalidade após os30 anos
de idade - os novos dados interculturais sugerem que Fonte: McCrac et al., 2000, p. 182.
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Figura 8.2 Níveis médios de Consciência em cinco culturas. Os T-scores baseiam-se na média e desvio padrão de todos
os respondentes com idade superior a 21 anos em cada cultura. As barras de erro representam o erro padrão das
médias. (McCrae et ai., 2000) Copyright© 2000 American P:sychofogicaf Assodation. Reimpresso sob permissão.
Lawrence A. Pervin e Oliver P. John
APLICAÇÕES ATUAIS
A AMABILIDADE AUMENTA COM A IDADE
gistravam quais participantes morriam e as causas das Widiger, 1994; Widiger, Verheul e van der Brink, 1999).
mortes. Os adultos que eram conscientes quando Em outras palavras, muitas f ormas de psicopatologia
crianças (segundo avaliações dos pais e professores são consideradas como uma quebra em um contínuo
aos 11 anos de idade) viveram significativamente mais com a personalidade normal, ao invés de representar
tempo e tinham 30% a menos de chance de morrer um afastamento do nonna.l. (Widiger, 1993). Por exem
em um dado momento. plo, a personalidade compulsiva pode ser vista como
Por que os indivíduos conscientes vivem mais alguém que possui ruveis extremamente altos de cons
tempo? Ou seja, quais são os me<:anismos causais que ciência e neuroticismo, e a personalidade anti-social
levam a essas diferenças em longevidade? Em primei ,como alguém que possui ruveis extremamente baixos
ro lugar, os pesquisadores excluíram a possibilidade de amabilidade e consciência. Assim, o padrão de re
de que variáveis ambientais, como o divórcio dos pais, sultados nos cinco fatores pode ser o mais importante.
explicassem o efeito na consciência. Em segundo, du
rante as suas vidas, os indivíduos conscientes esta Tratamento
vam menos sujeitos a morrer de mortes violentas, ao
passo que os indivíduos menos conscientes corriam Tem havido um crescente interesse em usar as
riscos que levavam a acidentes e brigas. Em terceiro cinco grandes dimensões para escolher e planejar tra
lugar, as pessoas conscientes tendiam menos a fumar tamentos psicológicos (Harkness e Lilierueld, 1997).
e beber do que os demais. Os pesquisadores sugerem Com um entendimento da personalidade do indiví
que é provável que a consciência influencie todo um duo, o terapeuta pode estar em uma melhor posição
padrão de comportamentos relevantes para a saúde. para antecipar problemas e planejar o curso do trata
Assim, além de urna menor probabilidade de fumar e mento (MacKenzie, 1994; Sanderson e Clarkin, 1994).
beber em demasia, eles tendiam mais a fazer o seguin ,Outra contribuição potencialmente importante pode
te: realizar exercícios regularmente, alimentar-se de ser a orientação que pode ser fornecida para selecio
acordo com uma dieta balanceada, fazer exames re nar a melho, forma de terapia (Costa e Widiger, 1994;
gularmente, seguir prescrições médicas, e evitar toxi Costa e McCrae, 1992; Miller, 1991). O prinápio aqui
nas do ambiente. ,é que assim como indiv(duos com diferentes perso
Em suma, os efeitos de ser descuidado ou des nalidades funcionam pior ou melhor em diferentes
preocupado acumulam-se ao longo da vida do indiví vocações, eles também podem se beneficiar mais ou
duo e podem ser bastante prejudiciais no final. De ma menos com diferentes formas de tratamento psicoló
neira mais geral, os efeitos da consciência ilustram o gico. Por exemplo, indivíduos com altos níveis de
fato de que os indivíduos desempenham um impor abertura podem tirar mais proveito de tratamentos
tante papel na criação de ambientes saudáveis ou insa que encorajem a exploração e a fantasia do que indi
lubres para si mesmos. Friedman et ai. (1995a) conclu víduos com níveis baixos nesse fator. Estes últimos
em que "embora o senso comum afume que uma pes podem preferir e se beneficiar mais com formas mais
soa grosscira e auto-indulgente pode prosperar pisan diretivas de tratamento, incluindo o uso de medica
do nos outros, isso não parece ocorrer de fato. Também ,ção. Um clínico, escrevendo sobre isso, diz que
não é comum observarmos o triunfo do indivíduo pre freqüentemente ouve pacientes com nível baixo de
guiçoso e mal-acostumado, que abandona os estudos. abertura dizer algo como, "Certas pessoas precisam
Com relação à corrida rumo à morte, as boas novas são deitar em um divã e falar de suas mães. A minha 'te
que as pessoas boas terminam por último" (p. 76). rapia' é malhar na academia" (Miller, 1991, p. 426).
Em comparação, a pessoa com alto ruvel de abertura
Diagnóstico de transtornos de personalidade pode preforir a exploração de sonhos encontrada na
psicanálise ou a ênfase na auto-realização encontrada
Supõe-sé que o modelo das cinco grandes dimen na abordagem humanística-existencial.
sões e o NEO-PI-R medem os estilos emocional, Outra aplicação do modelo de cinco fatores pode
interpessoal e motivacional básicos das pessoas. Inú ,estar na área do aconselhamento matrimonial. l..émbre
meros pesquisadores das cinco grandes dimensões afir se que o NEO-Pl possui um formulário em que os pró
maram recentemente que muitos tipos de comporta prios indivíduos se avaliam. e um formulário em que
mentos anormais podem ser considerados versões exa ,eles avaliam outra pessoa. O uso des.ses formulários
geradas de traços da personalidade normal (Costa e com indivíduos em processo de aconselhamento ma-
Personalidade: teoria e prática
trimonial pode facilitar o entendimento de cada indiví modelo nesse sentido, assim como as do NEO-PI-R
duo, a relação entre as suas personalidades e a maneira como dispositivo de avaliação, permanecem por serem
como cada um percebe o parceiro, a qual é diferente da exploradas. Ao mesmo tempo, alguns pontos merecem
que o parceiro tem de si mesmo. No aconselhamento ser mencionados. Em primeiro lugar, esse trabalho é
matrimonial, parte do problema comumente está no recente e está em andamento, e não está claro até que
fato de que um indivíduo vê a si próprio de maneira iPonto os cinco fatores irão se mostrar úteis para distin
muito diferente daquela como é percebido pelo parcei guir os muitos e diferentes tipos de personalidade que
ro. Freqüentemenfa, os pàrceiros não têm consciência iPodern ser bem-sucedidos na maioria das ocupaçoos
dessas diferenças e ficam confusos com relação às ra ou as muitas e diferentes formas de psicopatologia de
zões pelas quais eles têrn diíiculdadéS para se comuni interesse para os clínicos. Em segundo lugar, atualmen
carem. Por exemplo, uma pessoa pode considerar que te, o modelo promete mais como uma maneira de des
possui um nível elevado ern extroversão e consciência, crever várias formas de psicopatologia do que de ex
mas o seu parceiro a avalia como tendo níveis baixos iPlicar esses transtornos (Mille:r, 1991). Enquanto outras
nesses fatores. O orientador pode ser capaz de utilizar teorias da personalidade proporcionam explicações
essas informações para dar um retomo aos parceiros iPara muitos transtornos de personalidade (por exem
sobre as diferenças em suas percepções e ajudá-los a iPIO, a teoria psicanalítica dos estágios do desenvolvi
lidar de forma mais construtiva com as diferenças. mento e transtornos de personalidade), o modelo de
cinco fatores oferece poucos insigltts nesse sentido. Fi
R,esumo e comentários nalmente, deve-se lembrar que o modelo não oferece
uma abordagem terapêutica. Em comparação com as
Em suma, os proponentes do modelo de cinco teorias estudadas até aqui, cada uma das quais é asso
fatores sugerem que da mesma forma que um retrato ciada a um modelo para o tratamento de indivíduos
completo do indivíduo, o modelo provavelmente terá com dificuldades psicológicas, o modelo de cinco fato
muitas aplicações para as áreas da orientação vocacio res mantém-se silencioso com relação à maneira como
nal, diagnóstico e tratamento. As implicações t,otais do as pessoas podem mudar.
• Partes deste material são reproduzidas sob permissão especial da editora Psychological Assessment Resources, lnc., Odessa,
FL 33556, do NEO-PI-R Professional :Manual, de Paul T. Costa Jr. e Robert R. �1cCrae. Copyright© 1992 by PAR, lnc.
NEO PI R - RevlcSeel NEO l"ersonallty lnYUrllory (NEO F>I-FI)
Pi,ul T. Costa, Jr.1 Ph.O. and Robert A. MeCme, Ph.D.
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(Costa e McCrae, 1992, p. 27). Adaptado e reproduzido sob permissão especial da editora
Figura -8.3 Auto-avaliações e av aliações do cônjuge no NEO-�R
6,
Ps hological Assessment Resources, lnc, Odessa, FL 3355 do NEO,P/,R, de Páuf Costa e Robert McCrae. Copyright© 1992 by PAR, lnc. Reprodu ções proibidás
}'C
sem permissão da PAR, lnc.
Personalidade: teoria e prática
fonna e podem ser comparados entre si. De um modo vicas e pessoais a sério e colocam os negócios antes
ge-ral, os resultados de auto-avaliação e do observador do prazer. Eles possuem uma boa auto-disciplina e
(esposa) são bastante consistentes. Ambos o represen desenvolvem muitas competências. Os observadore,
tam como um indivíduo introvertido, aberto à expe descrevém essas pessoas como éuidádosas, confiáveis,
riência e consciente. As maiores discrepâncias dizem trabalhadoras e perseverantes.
respeito a facetas de Neuroticismo, especialmente N4: A seguir, considere o seu nível de Abertura à ex
Constrangimento e N6: Vulnerabílidade. Sua esposa clara periência. Indivíduos corno ele, que apresentam resul
mente subestimou a sua situação nessas facetas, e con tados muito altos, possuem 1.irti. forte intéresse nas
versas com o casal mostraram que ele relutava em com experiências cm si. Eles buscam a novidade e a varie
partilhar a extensão de suas angústias com a sua espo dade e têm uma preferência notável pela complexi
sa. Uma comunicação mais aberta de seus medos e dade. Eles têm uma consciência elevada de seus pró
vulnerabilidades tomou-se um dos objetivos do trata prios sentimentos e são pércepti vos C?m reconhecer as
mento. emoções nos outros. Eles são muito responsivos à ibe
leZã na arte e na natureza. Sua atração por idéias no
Descrição global da personalidade vas e sistemas de valores alternativos os toma especi
segundo as cinco gr.andes dimensões almente tolerantes aos outros e pode levá-los a adotar
atitudes nào-convencionais. Os seus companheiros
A característica mais evidente da personalidade avaliam essas pessoas como imaginativas, ousadas,
desse indivíduo é a sua situação ém Neuroticismo. lndiví independentes e criativas.
duos que apresentam um resultado ao redor desses va Essa pessoa apresenta um nível baixo deExtrowsãn.
lores são propensos a experimentarem um nívél eleva Esse tipo de pessoa é bastante introvertida, preferindo
do de emoções negativas e episódios freqüentes de per fazer a maioria das coisas sozinha ou oom grupos pe
turbação psicológica.. Eles são mal-humorados, excessi quenos de pessoas. Eles evitam festas grandes e baru
vamente sensíveis e insatisfeitos com muitos aspectos lhentas e nào gostam de conhecer pessoas novas. São
de suas vidas. Eles geralmente possuem baixa auto-esti normalmente quietos e não-assertivos em interações de
ma e pedem ter idéias e expectativaspouoo realistas. Eles grupo e raramente experimentam sentimentos positivos
são preocupados, normalmente Séntem-se inséguros fortes, como a alegria ou excitação. Aqueles que conhe
consigo mesmos e com os seus planos. Os.amigos e vizi cem essas pessoas provavelmente as descreveriam como
nhos desses indivíduos caracterizam-nos corno n@tVo reservadas, sérias, retraídas e solitárias. O fato de que
sos, constrangidos, tensos, e vulneráveis em compara esses indivíduos são introvertidos não necessariamente
ção corn a pe$oa média. significa que eles não possuam habilidades sociais -
Os resultados das facetas de Neuroticismo sugerem muitos introvertidos fnndonam muito bem em situações
que esse indivíduo é ansioso, geralmente apreensivo e sociais, embora prefiram evitá-las. Noté também que a
propenso a preocupações. Ele freqüentemente fica bra intmversão não implica em introspecção; esses indiví
vo com os outros, mas apresenta os penados de infelici duos tendem a ser pénsativos e reflexivos apenasse tam
dade normais que a maioria dos homens experimenta. bém apresentarem um nível alto de Abertura.
O constrangimento ou a timidez ao lidar com estranhos Com relai;ão à Extrowsão, os resultados dás fa�tas
freqüentemente são um problema para ele. Ele relata ser indicam que essa pessoa é média em seu nível de cordi
bom em controlar seus impulsos e desejos, mas é inca alidadé interpessoal, mas rru:arnente aprecia multidões
paz de lidar bem com o estresse. ou festas grandes e ruidosas. Ele tem problemas para se
Essa pessoa possui níveis muito altos de Cons afirmar e prefere fie.ar em segundo plano em encontros e
ciência. Os homens que apresentam resultados como discussões em grupos. O respondente possui um nível
esse apresentam vidas muito organizadas, lutam para moderado de energia pesooal e um.nível médio de ativi
atingir os seus objetivos de maneira planejada e deli dade. Excitação, estimulação e vibrações têmpouco apelo
berada. Eles possuem uma necessidade alta de reali para ele, mas ele experimenta tanta alegria e felicidade
zação. São asseados, pontuais e bem-organizados e quanto a maioria dos homens.
são confiáveis para cumprir com aquilo com que se Finalmente, esse indivíduo apresenta um resul
comprometem. Eles levam as obrigações morais, cí- tado dentro da média emAmabílidade. As pessoas com
Lawrence A. Pervín e Oliver P. John
um resultado nessa faixa são tão agradáveis quanto a um nível elevado de Consciêticia, suas realizações podem
média das pessoas. Elas podem ser simpáticas, mas lhe trazer maior satisfação com a vida.
também podem ser firmes. Elas são confiantes, mas Em termos dos processos cognitivos, esse indiví
não são ingênuas, e estão prontas para competir, as duo tende a ser mais complexo e diferenciado em seus
sim como para cooperar com os outros. pensamentos, valores e julgamentos morais do que
outras pessoas com o seu. mesmo nível de inteligên
Correlatos da personalidade: algumas cia e educação. Como está aberto à experiência, esse
implicações. possíveis indivíduo tende a apresentar um desempenho acima
da média em testes de capacidade de pensamento di
No enfrentameI\to do estresse da vida cotidiana, vergente� ou seja, ele pode produzir soluções fluen
esse indivíduo está propenSo a reagir com respostas tes, flexíveis e originais para muitos problemas e ser
ineficazes, como reações hostis para com os outros, considerado criativo em seu trabalho ou holJbíes.
autocensura ou fantasias escapistas. Ele está mais pro Finalmente, esse respondente tende a apresentar
penso do que a maioria dos adultos a utilizar-se do níveis elevados das seguintes nece$Sidades e motivos:
hwnor e menos propenso a utilizar a fé ern resposta a realização, estrutura cognitiva, força (persistência), es
ameaças, perdas e desafios. Além disso, ele está um pou quiva de danos (evitar o perigo), ordem, sensibilidade
co menos propenso a utilizar pensamento positivo e (apreciação de experiências sensuais e estéticas), socorro
ação direta para lidar com problemas. (apoio e simpatia) e entendimento (estimulação inte
Com rolação a queixas somáticas, essa pessoa pode lectual), e níveis baixos das seguintes necessidades:
ser excessivamente seilSível em monitorar e respon humilhação, dominação, e impulsividade.
der a problemas físicos e doenças. Em avaliac;ões mé
dicas, isso pode ser particularmente importante, sem Resultados de tratamentos
pre que po$Sível, para buscar con.firll\âção objetiva de
seus relatos de sintomas subjetivos. Como esse paciente apresentava níveis muito
Considerando o seu bem-estar psic.ológico, é impor elevados de Abertura à experiência, ele era capaz de
tante notar que o seu humor e a sua satisfação com di se beneficiar de técnicas auto-hipnóticas e de imagi
versos aspectos de sua vida irá variar de acordo com as nação projetadas para aumentar o relaxamento e re
circunstâncias. Entretanto, a longo prazo, esse indivíduo duzir a pressão sanbrüínea. Como ele apresentava ní
tende a ser mais sensível aos problemas da vida do que a veis altos de Consciência, ele praticava essas técnicas
suas recompensas, e assim, tende a sentir-se relativamen regularmente em casa. Como resultado, ao final da
te infeliz. Corno ele está aberto à experiência e à décima sessão, ele havia reduzido a sua pressão
introspecção, seus humores podem ser mais intensos e sangüínea média substancialmente e pôde encerrar a
variados do que os do homem Iru.Sdio. Por apresentar terapia.
O CASO DE JIM
O 16 P.F. QUESTIONNAIRE: A TEORIA avaliou os escores de seu 16 P.F., mas que desconhe
ANALÍTICO,FATORIAL DE TRAÇOS cia qualquer outro dado a seu respeito.
Vamos retomar para o caso de Jim e considerar Jim se apresenta como wn jovem bastante esperto e ex
a maneira corno a sua personalidade é representada pansivo, embora seja inseguro, facilmente irritável e um
por questionários de traços da personalidade. Come pouco dependente. Menos assertivo, consciencioso e ou
çamos com o 16 P.F. Questionnaire, desenvolvido por sado do que pode parecer inicialmente, Jim está confuso
CatteU. A breve descrição da personalidade de Jim e em conflito a respeito de quem ele é e para onde está
apresentada a seguir foi escrita por um psicólogo que indo, tende para a introspecção e é bastante ansioso. Seu
Personalidade: teoria e prática
perfil sugere que ele pode experimentar alterações peri tos nos outros e tomar-se hostil para com eles, "mor
ódicas de humor e pode ter um histórico de queixas dendo" ou "cortando" de forma sarcástica. A segun
psicossomáticas. Como o 16 P.F. foi adminístrado para da característic-a importante diz respeit,o a queixas
estudantes universitários por todo o país, também po psicossomáticas. Jim tem passado muito trabalho por
demos comparar Jim com o estudante universitário mé causa de uma úlcera e freqüentemente precisa beber
dio. Comparado com outros estudantes, Jim é mais ex
pansivo, inteligente e afetado por sentimentos-facilmen leite por causa disso. Veja que, embora e,ssa seja uma
te irritáve.1, hipersensível e freqüentemente fica deprimi condição séria, que lhe causa problemas considerá
do e ansioso. veis, Jirn não a mencionou em sua .autobiografia.
A partir dos dados do 16 P.F., podemos discernir
Lernbrc�se que o método analítico-fatorial nos muitas partes importantes da personalidade de Jim.
permite reduz.ir o número de traços específicos ne O conceito de traço, expressando uma tendência am
cessários para descrever a personalidade de Jirn. Qua pla a reagir e características relativamente permanen
tro fatores secundários foram derivados dos 16 fato tes do comportamento, parece ser útil na descrição de
res primários de Cattell: Baixa Ansiedade-Alta Ansie sua personalidade. Obsernamos com o 16 P.F. que,
dade, Introversão-Extroversão, Emotividade Afável embora seja expansivo, Jim é basicamente tímido e
Equihbrio Alerta e Submissão (dependente do grupo, inibido. Mais uma vez, transparecem as característi
passivo)-Independência. Os resultados de Jim são ex cas de ser ansioso, frustrado e conflituoso. Contudo,
tremos em dois desses fatores. Em primeiro lugar, con é questionável se 16 dimensões são adequadas para a
forme esperado, Jim apresenta níveis de ansiedade descrição da personalidade, principalmente quando
extremamente altos. Isso sugere que ele está insatis elas são reduzidas a quatro dimensões amplas. Tam
feito com a sua capacidade de lidar com as exigências bém se questiona se um escore no meio da escala sig
da vida e de realizar o que deseja. O alto nível de an nifica que o traço não é importante para entender Jim
siedade também sugere a possibilidade de perturba ou se ele simplesmente não apresenta níveis extremos
ções físicas e sintomas corporais. Em segundo, Jim naquela característica. Este último caso parece ser o
apresenta níveis muito baixos de equilíbrio alerta ou, que ocorre. Ainda assim, quando se escreve uma des
conseqüentemente, ele apresenta níveis elevados de crição de personalidade baseada nos escores do 16 P.F.,
emotividade afável. Isso sugere que, ao invés de poy a ênfase principal tende a ficar nas escalas com resU!l.
suir uma personalidade empreendedora e decidida, tados extremos.
Jim é perturbado pela emotividade e freqüentemente Talvez mais sério, contudo, seja o fato de que
fica desencorajado e frustrado. Ainda que S€11Sfvel às Cattell não tenha incluído as virtudes do clínico, ape
sutilezas da vida, essa sensibilidade, às vezes, leva a sar de seus esforços para fazê-lo. Os resultados do 16
preocupações e pensamento exagerado antes que ele P.F. possuem as vantagens e limitações de uma des
aja. Os outros dois escores de Jim indicam que ele não crição da personalidade na perspectiva da abordagem
é particularmente introvertido ou extrovertido e nem de traços. Os resultados são descritivos, mas não são
excessivamente dependente ou independente. Em re- interpretativos ou dinâmicos. Embora Cattell tenha
sumo, suas características marcantes são a ansiedade, tentado lidar com o indivíduo como um todo, os re
a sensibilidade e a emotividade. sultados do 16 P.f. apenas fornecem um padrão de
resultados - e não um indivíduo completo. Embora a
teoria leve em consideração a interação dinâmica en
Comentários sobre os dados
tre motivos, os resultados do 16 P.F. parecem não es
Antes de deixarmos o 16 P.F., deve-se notar que tar relacionados com éSSa parte da teoria. Jim ó des
duas caraterísticas importantes surgiram com maior crito como ansioso e frustrado, mas ansioso com o que
nitidez nesse teste do que em qualquer um dos outros e frustrado par qual razão? Por que Jim é expansivo e
dispositivos de avaliação. A primeira é a freqüência tímido? Por que ele considera tão difícil ser decidido
das variações de humor de Jim. Ao ler os resultados e empreendedor? A teoria reconhece a importância
do 16 P.F., Jim dedárou que tern variações de humor do conflito no funcionamento do indivíduo, mas os
freqüentes e extremas, variando da felicidade extre resultados do 16 P.F. não nos dizem nada a respeito
ma à depressão extrema. Durante esses períodos de da natureza dos conflitos de Jim e da maneira como
depressão, ele tende a descarregar os seus sentimen- ele tenta lidar com eles. Os traços identificados nos
Lawrence A. Pervín e Oliver P. John
fatores parecem ter algum grau de validade, mas eles c.apaddade de tomar aquela decisão frente à oposição
também tendem a ser abstratos e não a representar a dos meus pais foi muito signilicativa para mim; ela afir
riqueza da personalidade encontrada em dados de mou a minha força e independência como nenhuma
outros instrumentos de avaliação. outra coisa em minha vida.
"Cursar pós-graduação no meio-oeste em psi
A estabilidade da personalidade: cologia clínica foi éXtremamcnte significativo para
Jim, 5 e 20 anos depois mim. Eu me identifico profissionalmente como um
clínico, o que é bastante central para o meu autocon
O material apresentado até aqui a respeito de ceito. Eu tenho um sistema de pensamento com bases
Jim foi escrito aproximadamente na época de sua for firmes, e que é muito central para a maneira como
matuta na universidade, no final da década de 1960. lido com o meu ambiente. Estou muito contente com
Desde então, passou tempo suficiente para conside as dectsõe-s que tomei, mesmo que eu ainda pense na
rar mudanças que tenham ocorrido em sua vida e idéia de voltar para a administração. Mesmo que eu
possam ter ocorrido em sua. personalidade. Isso é par faça isso, seria para obter outro diploma; isso não
ticularmente importante em relação à teoria de tra mudaria o fato de que a minha identificação princi
ços, pois, conforme já vimos, sugere-se que exista uma pal é com a psicologia. Também me apaixonei duran
estabilidade considerável. te o primeiro ano de pós--graduação, pela primeira e
única vez em minha vida. O relacionamento não deu
Cinco anos depois: auto-avaliação de certo, o que foi devastador para mim, e eu ainda não
experiências de vida e mudanças de superei esse fato. Apesar da dor, contudo, foi uma ex
personalidade periência inspiradora para a minha vida.
"No ano passado, convivi em um ambiente co
Cinco anos após a graduação, Jim foi contactado munitário, e isso foi um divisor de águas para mim.
para (1) indicar se havia ocorrido experiências de vida Nós trabalhamos bastante conosco e com os outros
significativas para ele desde a graduação e, em caso durante o ano, em nossos grupos formais semanais e
afirmativo, descrever a maneira como elas o afetaram informalmente a todo momento, e essa experiência
e (2) dar uma breve descrição de sua personalidade e freqüentemente era dolorosa, freqüentemente era di
descrever de que forma havia mudado, se houvesse, vertida, e sempre produzia algum crescimento. Es
desde a graduação. A seguir, temos a sua resposta. tou convencido de que gostaria de viver em comuni
dade como meu estilo básico de vida, embora eu ne
Expe�iências de vida "Após sair da faculdade, fui fa cessite de um grupo de pessoas muito especial para
rer pós-graduação cm administração. Consegui entrar fazê-lo e prefira viver sozinho ou com uma ou duas
apenas para um curso de pós-graduação em psicolo pessoas do que oom qualquer grupo. Nosso grupo está
gia; ele não era particularmente conceituado, ao passo pensando em se juntar novamente em um esquema
que consegui vaga em várias escolas de administração mais pennan1mte, e talvez eu decida morar com eles
excelentes e, baseado nisso, resolvi entrar para a escola novamente no começo do ano que vem. Acontecendo
de administração. Eu não gostava realmente de admi ou não, a experiência do ano passado foi muito signifi
nistração, embora t:ambém não fosse terrivelmente per cativa para mim, e terapêutica em todos os sentidos.
niciosa, mas estava claro para mim que o meu interes "Mais para o final do ano passado, come<:ei um
se rcahnentc era no campo da psicologia, e assim, ten relacionamento que atualmente se tomou fundamen
tei uma vaga em algumas escolas durante o ano acadê tal para mim. Estou morando com uma mulher, Kathy,
mico, mas não COns@gui Mtra. r. Eu trabalhava em uma que faz mestrado em serviço social. Ela já foi casada
firma de exportação e importação em Nova York du duas vezes. É um relacionamcnto sóbrio, com alguns
rante o verão e a detestava o suficiente a ponto de ten problemas; basicamente, existem algumas coisas a
tar mais uma vez entrar para um curso de pós-gradua respeito dela que não me deixam confortável. Eu não
ção no verão. Fui aooito em dois, e então contC\'OU um me sinto 'apaixonado' neste momento, mas existem
processo de decisão muito difícil. Meus pais queriam muitas coisas ótimas nela, que eu gosto e aprecio, en
éXplicitamente que éU voltasse para a administração, tão, eu estou ficando na relação par-a ver o que acon
mas eu decidi tentar o curso de pó&-graduação.. Minha tece e como me sinto se continuar com ela. Eu não
Personalidade: teoria e prática
planejo casar e nem tenho um interesse imediato em atra de orientação analítica para três 'sessões de avalia
fazê-lo. O relacionamento não tem o sentimento apai ção', após as quais ele reoomendou: (1) análise; (2) te
xonado que o meu outro relacionamento significati rapia de grupo; (3) terapia individual de orientação
vo tinha, e éStou, atualmente, tentando entender quan analítiéã. Eu não estava pronto para é-Omeçar nem a
to do meu sentimento naquela época era idealização análise nem a terapia em grupo, e não queria continuar
e quanto era real e se os meus sentimentos sóbrios com o que ele considerava uma terceira alternativa,
com relação a Kathy indicam que ela não é a mulher então, eu parei. No segundo ano de pós-graduação, fre
certa para mim ou se eu preàso aceitar o fato de que qüentei um psiquiatra de orientação analítica por seis
nenhuma mulher será "perfeita" para mim. De qual ou oito sessões, mas fiquei muito frustrado com o fato
quer modo, meu relationamento rom Kathy l:an'lbém de ele me dar tão pouco, de modo que quando ele su
parece- uma experiência maravilhosa, que produz cres geriu awnentar a freqüência das sessões de uma para
cimento, e é a experiência de vida mais significativa duas vezes por semana, eu cantelei. Uma questão im
cm que eu estou envolvido atualmente. portante para mim era se ele era um bom terapeuta: eu
"Aêhoque i::.so constitui as minhas experiências o considerava regular e sentia que queria alguém espe
de vida significativas desde que saí da faculdade". cial. Isso claramente é uma forn1a de resistência, eu sei,
embora eu ainda sinta que havia algo de real em mi
Mudanças de personalidade "Basicamente,achoquc nllas impressões a respeito dele. Durante o meu tercei
não mudei muito desde que deixei a faculdade. Pelo ro ano de p6s-graduação, freqüentei um psiquiatra nàer
fato de estudar psicologia, considero-me um pouco tradicional aproximadamente dez vezes. Ele utilizava
mais autoconsciente hoje em dia, o que considero pro uma mistura de técnicas: catártica, gestalt, comporta
veitoso. Conforme me léntbro da sua interpretação dos mental e geralmente era cordial e afetuoso (bas1antc
testesque realizei naquela época, você me considera antianalítico). Ao final de nosso relacionamento, que
va principalmente depressivo. Neste momento, entre eu considerava proveitoso na época, nós dois sentía
tanto, eu me considero principalmente obsessivo. Eu mos que eu já tinha feito terapia suficiente e que preci
acho que sou pmpenso a entrar em depressão, mas, sava de experiências de vida "terapêuticas": por exem
fazendo um balanço, me vejo mais feliz hoje em dia - plo, um relacionamento com uma mulher, tempo para
deprimido com menos freqüência. Considero a mi me divertir, etc. Desde então, eu tive importantes expe
nha obsessividade um padrão caraterístico profunda riências de vida terapêuticas, das quais a mais signifi
mente enraizado e tenho pensado há algum tempo cativa foi morar na casa em que morei no ano passado.
em faz.er análise para trabalhá-la (entre outras coisas, Como resultado, sinto menos pressão imediata para
é claro). Embora considere sérias minhas idéias a esse buscar ajuda e penso em fazer anális@ para trabalhar
respeito, ainda não estou muito próximo de fazê-lo. questões características básicas (corno a minha
Isso se deve, pelo menos em parte, ao fato de que eu obsessividade). Em outras palavras, sinto uma dor
espero sair de Michigan no final deste ano acadêmi menos aguda hoje em dia.
co, e assim, começar análise neste ponto, obviamente, "Confomi.e disse anteriormente, eu me considero
não faria sentido. Por outro lado, é uma proposta as mais semelhante do que diferente da maneira como era
sustadora, que exige um compromisso sério, então, há cinto anos. Acho que sou urna pessoa esperta, éons
existe uma certa resistência para superar, que é maior ciente, interessante e divertida. Continuo sendo bastante
que a questão geográfica. Entretanto, vejo isso como mal-humorado, e assim, às vezes nenhuma dessas ca
uma possibilidade definitiva para mim nos próximos racterísticas fica evidente. Meu relacionamento sexual
dois anos. c:om minha namorada acabou com as minhas prooc:u
"Deixe-me dizer uma palavra com relação à mi pações a respeito da minha adequação sexual (especi
nha história como paciente de psiroterapia. Já fiz vári almente com relação à ejaculação precoce).
as tentativas abortadas de me envolver, das quais ape "Ainda acho ,que tenho um problema com a 'auto
nas uma foi moderadamente bem-sucedida. Durante a ridade' - ou seja, sou muito sensível e vulnerável à for
faculdade, eu fiz algumas sessões, mas pelo que lem ma como aqueles que têm autoridade sobre mim melra
bro, era muito superficial em todos os sentidos. Não fiz tam. Contudo, eu me vejo com inúmeras habilidades
nada no ano da escola de administração. Durante meu profissionais importantes e no ai.mpo em que quero es,
primeiro ano de pós-graduação, freqüentei um psiqui- tar. Ainda tenho problemas com dinheiro - isto é, me
prroc:upo rom ganhar o que é justo pelo que faço, não
Lawrence A. Pervin e Oliver P. John
gosto do fato de os psiquiatras ganharem mais do que mente sete dias por semana. Eu me sinto aprisionado
eu, sou cuidadoso para não ser 'roubado', etc. Ainda não com isso a maior parte do tempo. Será que consigo
aceitei inteiramente que meu pai tenha dinheiro e o fato abandonar esses rituais e essas auto-indulgências com
de que vou ganhar uma parte dele, mas por outro lado, o nascimento de um filho? Eu devo' 1
•
da mesma fonna. Outros correlatos da personalidade rem uma pessoa com instrumentos ineficazes para o
sugeridos no relatório foram que ele provavelmente enfrcntamento do estresse e extremamente sensível a
use respostas ineficazes no enfrentamento do estresse iProblemas físicos, as avaliações de sua esposa retra
da vida cotidiana e que ele é excessivamente sensivcl tam um individuo com instrumentos cficaz.es par. a o
a sinais de problemas físicos e doenças. enfrentamento do estresse e uma tendência a dimi
A imagem de Jim apresentada por suã esposa é nuir queixas físicas e médicas.
semelhante? Em três dos cinco fatores, houve bastan Como devemos avaliar esse nível de concordân
te concordância. Jim e a sua esposa o consideraram cia? De certa forma, isto é como perguntar se um copo
bastante alto em Extroversão, médio em Abertura e está meio cheio ou meio vazio. O nível de concordân
muito baixo em Amabilidade. Houve uma pe-qmma cia g@rahnéntc alto susténta a sugéStão de que as auto
diferença em relação à Consciência, sendo que Jim se avaliações tendem a ser precisas. Por outro lado, em
avaliou levemente mais alto do que a sua esposa. A um.a árM, a discordância é dramática. Talvez a espo
grande diferença de avaliação ocorreu com relação ao sa de Jim geralmente o considere de maneira mais po
Neuroticismo, onde Jim se considerou muito alto e sitiva, talvez.até mesmo de maneira mais exata, já que
sua esposa, baixo. As sub�alas mais especificas in Jim pode vir a ser bastante autocrítico. Outra possibi
dicaram que Jim se considerava muito mais ansioso, lidade é que, conforme indicado no relatório do
hostil e depressivo do que a sua esposa considerava Rorschach de 20 anos antes, ele esconda algumas des
que ele seria. Além disso, ele se considerava um pou sas emoções negativas atrás de uma fachada de equi
co mais constrangido e vulnerável do que a sua espo líbrio e não compartilhe com a sua esposa as emoções
sa o considerou, embora ambos concordasSêm que ele ITTegativas que na verdade sente. É claro, o que não
está na média ou abaixo da média com relação a esses sabemos é a maneira como essas diferenças de avalia
traços. Ao passo que as auto-avaliações de Jim suge ção influenciam o seu casamento, ou seja, se as dife
rem um indivíduo que é ansioso e propenso a se pre renças de percepção representam áreas de dificulda
ocupar, as avaliações de sua esposa sugerem um in de entre eles ou, ao invés disso, são aceitáveis, e tal
divíduo que é calmo e geralmente livre de preocupa vez até desejáveis, para a sua relação conj.ugal.
ções. Além disso, enquanto as suas respostas suge-
Costa (1997) têm sugerido que os traços da personali ria encontrar evidências de agressividade em uma
dade mudam pouco ap6s os30anos de idade na mai cerimônia relig�osa ou de amabilidade em um jogo
oria das pessoas: "No decorrer de trinta anos, a maio de futebol. A posição da abortlagem de traços é de
ria dos adultos irá passar por mudanças radicais em que se espera encontrar evidênêias de consistência em
suas estruturas de vida. Elas podem ter casado, di uma variedade de situações em que muitos compor
vorciado, casado novamente. Elas provavelmente te tamentos diferentes expres.sam o mesmo traço.
rão mudado de residência diversas vezes .... E ainda Com r,ela.ção à questão da variedade de situações,
assim, a maioria delas não terá mudado de modo apre os psicólogos de traços sugerem que é um erro medir o
ciável cm sua condição com relação a qualquer urna comportamento em uma situação como evidênáa da
das cinco dimensões" (McCrae e Costa, 1990, p. 87). posição daquela pessoa em um dado traço. Uma situa
Essa conclusão pode parecer surpreendente, devido à ção única pode não ser relevante para o traço em ques
discussão sobre as "estaÇôes" na vida das pessoas e tão, e é possível que ocorra um erro de mensuração. Por
de períodos como a crise de meia-idade (Caspi e outro 1ado, a amostragem realizada em uma variedade
Roberts, 1997; levinson et ai., 1978). Apesar da possí am,pla de situações garante que serão obtidas medidas
vel importância de muitos desses eventos, os autores relevantes e confiáveis (Epstein, 19&3). Uma razão pela
sugerem que os traços básicos da personalidade não qual os psicólogos de traços gostam de utilizar questio
mudam. Além disso, essa imagem de estabilidade que nários é que eles proporcionam a avaliação do compor
resulta da auto-avaliação é confirmada por relatos de tamento em uma variedade ampla de situações que pos
outras pessoas: "As visões de esposos e esposas sobre sam ser impossíveis de medir de outras maneiras.
a personalidade de seus cônjuges confirmam a esta Além disso, comportamentos que pareçam dife
bilidade essencial da personalidade" (McCrae e Cos rentes podem, de fato, expna'SSar o mesmo traço. Assim,
ta, 1990, p. 95). Entretanto, conforme mencionado, por exemplo, ser falante, possuir muitos amigos e bus
existem diferentes pontos de vista, e alguns psicólo GlI estímulos furtes refletem o traço da extroversão. Pode
gos indicam evidências do potencial para mudança se esperar que esse traço seja refletido em diferentes com
durante a infância e a idade adulta. portamentos em diferentes situações. Se existe espaço
Por que a estabilidade longitudinal de traços da para tais observações e medidas, a consistência é obser
personalidade pode ser considerável? Em parte, isso vad a (Buss eCraik, 1983; Loevinger e Knoll, 1983).
se deve às contribuições genéticas dos traços. Além Finalmente, pode-se considerar as maneiras pe
disso, as pessoas selecionam e moldam o seu ambien las quais se busca evidências de consistência no funci
te de maneira a reforçar os seus traços. Um extrover onamento da personalidade. As evidências de consis
tido não espera simplesmente que as situações acon tência são melhores quando dados de auto-avaliação e
teçam, ele busca outras pessoas e freqüentemente as observações no ambiente natural são utilizados, ao in
encoraja pMa que também sejam extrovertidas. Final vés de dados de testes realizados ern laboratório (Block,
mente, quando percebidos de uma certa maneira, os 1977). Por que isso deveria ser ver,dade? Uma razão é
outros se comport.-un oom relação à pessoa de uma que as situações de laboratório resltringern as oportu
forma que perpetua características já existentes. As nidades para que as diferenças individuais apareçam
sim, embora a personalidade possa mudar, existem (Monson et al, 1982). A maioria dos estudantes que
forças poderosas que operam para manter a estabili foram sujeitos em experimentos de laboratório estarão
dade ao longo do tempo. conscientes de que é dado relativamcntê pouco espaço
para uma variedade ampla de respostas. Isso é consis
tente com o esforço do cxperimentâdor de ter controle
ESTABILIDADE INTERSITUACIONAL sobre as variáveis e estabelecer relações de causa e efei
to. Além disso, diferentemente do rnundo real, os tes
A questão da consistência intersituacional é mais tes de laboratório não proporcionam a oportunidade
complexa do que a da consistência longitudinal. Como para buscar, selecionar e moldar a situação. No mundo
devemos decidir se uma pessoa agiu de maneira con real, as pessoas se comporiam de maneira consistente,
sistente em muilas situações diferentes? Não faria sen
em parte porque elas escolhem e moldam as próprias
tido para uma pessoa se comportM da mesma forma situações que influenciam o seu comportamento (Caspi
em todas as situaÇôes, e nem os teóricos de traços es e Bém, 1990; Scarr, 1992).
perariam que isso ocorresse. Dificilmente se espera-
PersoMlidade: teoria e prática
APLICAÇÕES ATUAIS
C0NSISrtNOAINTERSITUAO0NALEM PONTUALIDADE: CERTAS PESSOAS SÃO
NOTÓRIAS POR SE ATRASAREM?
"Cinco peS&'las chegaram atrasadas para a aula na noite jeitos eram estudantes da universidade de Berkeley
passada. Isso não seria um problema, exceto pelo fato de do programa de mestrado em administração de em
que a aula para a qual eles estavam atrasados era uma presas, cuja hora de chegada em um programa de
aula sobre como não se atrasar. A aula, chamada 'Atra avaliação gerencial foi registrada durante vários dias.
sado, nWlCa mais', é oferecida uma vez por mês em um A Consciência foi medida com a escala de auto-ava
hotel no centro de São Franásco pelo l.Slrning Annex...
Della, uma motorista de caminhão, disse que se atrasou liação do NEO-PI duas semanas antes do experimen
para o trabalho a vida toda. Se ela se atrasar mais uma to, permitindo assim que os pesquisadores dividis
vez, mesmo que seja por um minuto, ela pode perder o sem a amostra de antemão em grupos de Consciên
emprego. 'Eu preciso de ajuda', dis,<;e ela". cia alta e baixa. As diferenças individuais em atraso
verificadas foram substanciais; a hora de chegada
John Carroll dos sujeitos variou de 30 minutos adiantado (um va
San Francisco Chronicle lor de -JO) a 46 minutos atrllSlldo {um valor de +46
3 de maio de 1991, p. 10 em atraso).
Havia dois tipos de situações: uma hora fácil
É verdade que existe uma c:onsistênc:ia intersitua de chegar para o compromisso (5 da tarde) e uma
àonal comiderável no quanto as pessoas se atrasam? hora difícil de chegar para o compromisso (8 da
Dudycha (1936) foi o primeiro psicólogo a estudar a manhã). Os resultados são apresentados na figura a
pontualidade de maneira empírica. Ele registrou a hora seguir. Conforme explicações situacionais sugeriri
de chegada de crianças em diversas escolas e ativida am, o participante médio estava 2 minutos adianta
des sociais e encontrou um grau modesto de consis do para o compromisso da tarde, mas 6 minutos atra
tência. Mais recentemente, Mischel e Peake {1982) ava sado para o da manhã. Consideremos agora o efeito
liaram várias marufestaÇ{lescomportamentais decons do traço: os estudantes com um nível alto de Cons
ciência, inchrindo diversas medidas da hora de chega ciência chegaram consistentemente maiscedo do que
da dos sujeitos. Usando írdices correlacionais, eles con os estudantes com níveis baixo de Consciência, em
cluíram que a consistência comportamental em dife aproximadamente 5 minutos, e esse efeito vale para
rentes situações era baixa. as duas situações. Os estudantes, de um modo ge
Ware e John (1995) fizeram uma pergunta le ral, eram consistentes em sua pontualidade em dife
vemente diferente: o fator amplo de Consciência do rentes situações e os seus resultados no traço da cons
modelo de cinco fatores nos ajuda a prever diferen ciência previram o atraso em um grau estatistica
ças individuais em relação à pontualidade? Os su- mente significativo (ver fi gura).
La.vrence A. Pervin e Oliver P. John
Atraso x Consaênaa
Atrasado 10 �---�-------�--�
8
6
§ 4
i 2
� o
·2
Adiantado
Hora do Compromisso
Qual é o tamanho desse efeito causado pelo tra a motorista de caminhão, esteja enfrentando proble
ço da Consciência? Cinco minutos atrasado em um mas em seu emprego!
dia pode não par�r muito. Mas considere que 50% Esses resultados ilustram o fato de que tanto a
dos estudantes foram classificados como relativa situação quanto os traços de personalidade afetam a
mente baixos em Consciência e que eles chegaram maneira como nos comportamos em um dado momen
atrasados em uma média de 5 minutos para cada um to. Existe alguma � intersituacional no atra
dos seus compromissos. Isso significa uma hora de so, mas o traço da peisonalidadeda Coosáência é ape
atraso em 12 compromissos. Em um emprego, isso nas uma das muitas influências que determinam se�
se traduziria para quase meia hora de trabalho per- garemos atrasados em uma determinada situação.
dido por semana, duas horas pot mês, e 24 horas
(ou seja, três dias inteiros de trabalho) por ano. As
sim, o que parece ser um efeito pequeno pode acu Fontes: Dudycha, 1936; Mischel e Peake, 1982; W are
mular rapidamente. Não é de surpreender que Della, e John, 1995)
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LIMITAÇÕES DAS ABORDAGENS ços, "a semelhança é mais fraternal do que idêntica"
(Briggs, 1989, p. 248). Em suma, devemos questionar
Essas, então, são algumas das vantagens da abor- se a análise fatorial irá real e fundamentalmente pro
dagem de traços, ganhos realizados e prometidos para porcionar as unidades básicas da personalidade. Ou
o fututo. E as suas limitações? tros critérios provavelmente deverão ser invocados.
Outra questão diz respeito ao status explicativo vras de um crítico recente: "O modelo de cinco fato
do oonceito de traço. Os traços são descrições de regu res é essencialmente uma psicologia do estranho- um
laridades comportamentais ou explicações de regulari retrato rápido e simples de alguém" (McAdams, 1992,
dades observadas {Briggs, 1989; Wiggins, 1973; Zuroff, p. 333). Os estudantés podem formar a sua própria
1986)? Em sua forma mais simples, podemos questio opinião com relação a essa questão, considerando o
nar se os traços são "reais" ou se eles são "ficções con caso apresentado neste capítulo e comparando as vá
venientes, através das quais nós nos comunicamos" rias descrições da personalidade de Jim apresentadas
(Briggs, 1989, p. 251). Lembre-se que Eysenck estava il'\O Capítulo 16.
muito mais interessado nessa questão, sugerindo que, Finalmente, com exceção de Eysenck, a teoria de
sem umâ teoria, havia o perigo de circularidade - o traços é estranhamente insuficiente no sentido de uma
uso do conceito de traço para explicar um comporta 'teoria de mudança da personalidade. Uma coisa é
mento que serve de base para o conceito de traço em documentar a estabilidade da personalidade e suge
primeiro lugar. Em outras palavras, quanto acrescen rir razões para essa estabilidade - fatores genéticos
tamos ao nosso entendimento da personalidade, se (temperamento), seleção e formação de situações, res
descrevemos alguns comportamentos dentro da cate postas estereotípicas (autoconfirmadoras) dos outros.
goria da extroversão e depois dizemos que a pessoa Outra coisa é omitir urna explicação da mudança. A
se comportou daquela forma porque ela é extroverti explicação de McCrae et al. (2000) de mudanças
da? Veja que, por si só, o modelo de cinco fatores não maturacionais endógenas é modelada em processos
é um modelo explicativo da personalidade (McCrae, biológicos, mas ainda não está bem-especificada.
1994; Pervin, 1994a). Mesmo com uma ênfase na estabilidade, relati
vamente poucos teóricos de traços consideram que a
O que é omitido ou deixado de fora? maioria dos aspectos da personalidade sejam fixos e
duradouros como a intelig@ncia. E, mesmo que se
O conceito de traço e o modelo de cinco fatores questione a eficácia da psicoterapia, uma forma para
nos proporcionam um modelo abrangente da perso explicar as mudanças que, às vezes, ocorrem parece
nalidade? Em parte, essa questão é evocada na dis ser um requisito de uma teoria abrangente da perso
cussão em tomo do que é incluído no conceito de tra nalidade (Brody, 1988). Algumas pesquisas sobre es
ço. Vários teóricos de traços sugeririam (ver Figura sas questões estão finalmente aparecendo; por exem
8.2 e a discu!.São anterior), contudo, que a personali plo, alguns pesquisadores de traços tentaram prever
dade envolve mais do que as ánco grandes dimen como experiências de vida particulares produzem mu
sões-por exemplo, os autoconceitos das pessoas, suas danças sistemáticas em traços da personalidade (Caspi
identidades, seus estilos cognitivos e o inconsciente e Roberts, 1999; Helson e Wink, 1987; Wink e Helson,
(A. H. Buss, 1988; McAdams, 1992). 1992; Roberts, 1995).
Outra questão é se o modelo tem algo a dizer Em suma, a teoria de traços está viva e passa bem,
sobre a organização da personalidade. A pessoa é ape mas restam algumas dores. De que maneira o paciente
nas um conjunto de traços ou a maneira como os tra irá sobreviver ainda está por ser determinado.
ços são organizados representa uma parte importan
te da personalidade? É interessante que Allport (1961)
colocava o padrão e a organização no centro da per
sonalidade. Os teóricos de traços modernos parecem Tabela 8.3 Síntese das vantagens@ limitações da teoria
concordar que "a essência da personalidade é a orga de traços
nização da experiência e do comportamento" (MlCrae Vantagens Limitações
e Costa, 1990, p. 118). Ainda assim, a pesquisa a res
peito dos traços é notavelménte insuficiente nesse sen 1. Esforço de pesquisa ativa 1 . O método: análise fatorial
2. Hipótese� interessantes 2. O que um traço abrange?
tido. E, conforme mencionado, para uma teoria das 3. tigações potenciaís 3. O que é omitido ou deixa•
diferenças individua.is, existe uma surproendente es com a biologia do de fora?
cassez de estudos sobre o indivíduo. Assim, nas pala-
Lawrence A. Pervin e Oliver P. John
l Estrutura
Traços
Processo
Traços dinâmicos.
Cresdmento e
Desenvolvimento
Contnbuições da hereditarieda
mobvos associados de e do ambiente para os traços
a traços
PRINCIPAIS CONCEITOS
Modelo de cinco fatores. Urn consenso emergente en Facetas. As facetas são os traços (ou componentes) mais
tre os teóricos de traços que sugerem cinco fatores bá específicos que formam cada um dos cinco grandes
sicos para a personalidade humana: Neuroticisrno, fatores amplos. Por exemplo, as facetas da Extroversão
Extroversão, Abertura, Amabilidade, Consciência. são Nível de Atividade, Assertividade, Busc.a de Excitaç.io,
As cinco grandes dimensões. Na teoria fatorial de tra Emoções Positivas, Gregarismo e Cordialidade.
ços, as cinco categorias de traços principais, incluin Maturação intrínseca. O conceito de McCrae e Costa
do fatores relacionados com emotividade, atividade e que expressa a visão de que o desenvolvimento de tra
sociabilidade. ços da personalidade é determinado pela biologia e é
OCEAN. A sigla dos cinco traços básicos: Abertura, relativamente independente de influências ambientais.
Consciência, Extroversão,Amabilidade eNeuroticismo. Controvérsia pessoa-situação. Uma controvérsia en
Hipótese lexiéal (lingüística) fundaméntal. A hipóte tre psicólogos que enfatizam a importância de variá
se segundo a qual, com o passar do tempo, as diferen veis pessoais (internas) na determinação do compor
ças individua.is ma.is importantes na interação huma tamento e aqueles que enfutizam a importância de in
na são codificadas em termos simples na língua. fluências situacionais (externas).
REVISÃO
l. Está surgindo um consenso entre os teóricos de fundamentais entre as pessoas foram codifica
traços em tomo das cinco grandes dimensões ou das na língua.
o modelo de cinco fatores (OCEAN). O apoio 3. O modelo de cinco fatores proposto enfatiza a
para o modelo vem da análise fatorial de termos base biológica de tendências básicas e o desen
que descrevem os traços na língua, da análise volvimento dessas tendências essencialmente
fatorial de avaliações e dados de questionários independente de influências ambientais (matu
(por exemplo, o NEO-Pf) e da análise de contri ração intrínseca). Existem evidências de estabi
buições genéticas (hereditárias) para a persona lidade da estrutura geral de traços e ruveis, e as
lidade. evidências são mais fortes para a estabilidade
2. A hipótese lexical fundamental sugere que, com durante a idade adulta do que durante a infân
o passar do tempo, as diferenças individuais cia e a adolescência. De maneira semelhante,
existem evidências de estabilidade nas posições
Personalidade: teoria e prática
The methodological differences lie mainly in Allport's avoidance of statistical techniques like factor analysis, favoring idiographic methods to explore individual differences, whereas Cattell relied heavily on factor analysis to reduce traits to quantifiable dimensions. Allport emphasized qualitative assessments and intensive individual case studies, in contrast to Cattell's data-driven, quantitative analysis popularized through multivariate techniques. This signifies a philosophical divergence: Allport focused on unique human experiences while Cattell sought generalizable patterns within populations .
The concept of 'functional autonomy', proposed by Allport, indicates that motives in adults can become independent from their original bases—essentially suggesting a degree of self-reinforcement and evolution within personality. This significantly distinguishes Allport's theory from that of Cattell and Eysenck who did not emphasize such self-sustaining developmental processes in motives. Cattell's and Eysenck's models were more focused on stable trait dimensions rather than the evolving motivational landscape that Allport proposed .
Allport, Eysenck, and Cattell differ significantly in their approaches to personality traits. Allport focused on idiographic research, suggesting traits are unique to individuals, and criticized the use of factor analysis employed by Cattell and Eysenck. Cattell emphasized a large number of traits and developed the concept of factor analysis to quantify them, whereas Eysenck proposed a model with just three broad dimensions, namely Neuroticism, Extroversion, and Psychoticism, and supported the biological basis of traits. Each theorist's approach reflects varying emphasis on qualitative versus quantitative analysis, and the degree to which individual motivation is considered within their models .
Eysenck's model was limited by its fewer dimensions, particularly the exclusion of traits such as Openness, which are considered critical in comprehensive assessments like the Five Factor Model. His reliance on three broad traits did not account for subtler variations that models like Costa and McCrae's address through specific facets within each of the five dimensions. Furthermore, Eysenck's model emphasized biological determinism, allowing less room for the individual variability that contemporary models accommodate .
Cattell and Eysenck integrated biological aspects into their theories by emphasizing the genetic and neurological underpinnings of personality traits. Eysenck, in particular, linked his three dimensions to biological factors such as cerebral functioning and proposed that personality traits could be partially heritable. Cattell also considered genetics important but was more inclusive, incorporating environmental influences as well. In contrast, Allport did not focus extensively on biological determinants and instead emphasized the distinctiveness and individual nuances of personality traits without grounding them explicitly in biology .
Eysenck's Neuroticism dimension corresponds directly to the Five Factor Model's Neuroticism, reflecting emotional stability versus instability. His Psychoticism is less directly aligned with any single Five Factor dimension but is thought to correspond to a combination of low Agreeableness and low Conscientiousness, as people high in Psychoticism tend to exhibit behaviors that are antagonistic and disorganized, mirroring those traits within the Five Factor Model's framework .
Costa and McCrae's Five Factor Model integrates earlier trait theories by offering a comprehensive framework that correlates with previous trait dimensions identified by Eysenck and Cattell, such as Extroversion and Neuroticism. The Five Factor Model expands these to encompass five broad dimensions, aligning with Cattell's broader range of traits, albeit in a more structured way. The model represents a synthesis of trait theory into a cohesive framework that can account for diverse aspects of personality examined by these pioneers, thereby unifying various trait categories and underlying motivations as identified by Allport .
Critiques of Cattell's work often focus on the validity of his tests and his reliance on factor analysis. Critics question the robustness of his data and feel that his methods were too speculative and projection-based, thus limiting their reliability. Moreover, his tendency to undervalue non-factorial approaches and overemphasize his own data has also been a point of criticism. As a result, despite his wide-ranging contributions, his methods have often been marginalized in favor of more universally accepted approaches .
The Five Factor Model addressed critiques of earlier trait theories by offering a more coherent and parsimonious structure that integrates diverse trait dimensions into five comprehensive categories. By doing so, it reconciles discrepancies between Allport's emphasis on individual-specific traits and the broader universality posited by Cattell and Eysenck. The Model facilitates a standardization in evaluation while retaining flexibility through specific facets, enabling cross-theory comparison and enhancing the paradigm's predictive validity, thus bridging gaps between descriptive and analytical methodologies .
Allport's emphasis on idiographic research holds significance as it highlights the importance of individual uniqueness in personality studies, countering the trend of overgeneralization seen in nomothetic approaches like those of Cattell and Eysenck. It promotes a deeper understanding of personal narratives, capturing the unparalleled complexities of personality configurations that are often obscured within purely quantitative frameworks. This approach underscores the value of context and narrative in personality assessment .