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Cartas: um instrumento desvelador que faz a diferença no processo

educacional

Carla Netto
Carla Spagnolo
José Florentino
Lisandra Amaral
Silvana Zancan
1
Leda Lisia Franciosi Portal

RESUMO - O presente artigo tem como intuito discutir Cartas como um instrumento de pesquisa, a partir
do projeto intitulado “Inteligência Espiritual: ampliação da consciência na prática docente em ambientes
educativos formais de comunidades ribeirinhas”, desenvolvido em duas escolas do Pará. No âmbito desse
projeto foram analisadas 21 cartas escritas pelos alunos do ensino fundamental sobre os professores que
fazem a diferença em sala de aula. Assim, o objetivo deste artigo é refletir sobre as possibilidades das
cartas como um instrumento de pesquisa e no que elas desvelam. A partir da análise das cartas escritas
pelos alunos das escolas do Pará, duas categorias emergiram sobre os professores que fazem a diferença em
sala de aula: características pessoais e estratégias didáticas. Essas características apontadas pelos alunos nos
levaram a refletir sobre o perfil e o papel do professor na sala de aula. Numa tentativa de síntese provisória,
as cartas como instrumento de pesquisa podem revelar muito mais do que a visão dos alunos a respeito de
seus professores. Podemos observar que as cartas são instrumentos reveladores que anunciam a verdade
expressando os sentimentos, os sonhos e opiniões de uma forma muito espontânea. Esse instrumento
representa uma atitude pessoal e autêntica, favorecendo situações de autoconstrução do sujeito pesquisado.
Palavras-chave: Cartas. Instrumento de Pesquisa. Prática pedagógica. Desenvolvimento pessoal e espiritual.
Afetividade.

Letters: A survey instrument unveiled who makes a difference in the


education process

ABSTRACT - This article is intended to discuss letters as a research tool from the project entitled
"Spiritual Intelligence: increased awareness in teaching in formal learning environments of coastal
communities", developed into two schools of Pará As part of this project were analyzed 21 letters written
by elementary students about teachers who make a difference in the classroom. The objective of this paper
is to discuss the possibilities of the cards as a research tool and what they reveal. From the analysis of
letters written by school children from Pará, two categories emerged about teachers who make a difference
in the classroom: personal characteristics and teaching strategies. These characteristics pointed out by the
students led us to ponder the role of the teacher and the classroom. In an attempt to synthesize provisional
letters as a research tool can reveal much more than students' views about their teachers. We can see that
the letters are instruments revealing the truth advertising expressing feelings, dreams and opinions in a
very spontaneous. This instrument represents a personal attitude and authentic self-favoring situations the
research subject.
Keywords: Letters. Research Tool. Pedagogical practice. Personal and spiritual development. Affectivity.

1
Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul.

Revista Educação por Escrito – PUCRS, v.3, n.1, jul. 2012. 14


Introdução desenvolvido em duas escolas do Pará, foram
analisadas 21 cartas entregues a alunos do ensino
Certa vez um professor disse que para um fundamental.
sujeito tornar-se realmente um professor, ele A partir da análise das cartas, duas
precisava carregar dois sentimentos: paixão e categorias emergiram sobre os professores que
compaixão. Paixão, porque o pleno exercício da fazem a diferença em sala de aula: características
profissão, embora exija muitos sacrifícios pessoais e estratégias didáticas. Essas
pessoais, enche o espírito de alegria. E características apontadas pelos alunos nos levam
compaixão, no sentido mais humanista que essa a refletir sobre o perfil e o papel do professor na
palavra possa adquirir, porque imbuído dela o sala de aula.
professor jamais deixará de perceber um aluno na Estamos vivendo num tempo de grande
sua essência, como um ser único. ausência de valores e de referências sociais e
Dessa forma, para tornar-se professor, é espirituais, assim como, uma imensa falta de
preciso muito mais que o domínio do conteúdo e ética. A escola deve ser um espaço que leve em
competência metodológica. São necessárias conta todas as dimensões do ser humano, não
doses significativas de afeto e sensibilidade para apenas o saber (conteúdo) o saber fazer (técnica),
perceber o outro em sua totalidade. Alves (2002, mas também o saber ser e o saber conviver.
p. 01) aponta que:
2. Cartas: um instrumento de pesquisa
Toda experiência de aprendizagem se inicia com
uma experiência afetiva. É a fome que põe em
desvelador de um professor que faz a
funcionamento o aparelho pensador. Fome é diferença
afeto. O pensamento nasce do afeto, nasce da
fome. Não confundir afeto com beijinhos e
carinhos. Afeto, do latim "affetare", quer dizer "ir
atrás". É o movimento da alma na busca do objeto O ofício de escrever cartas apresenta
de sua fome. É o Eros platônico, a fome que faz a
alma voar em busca do fruto sonhado. diferentes funções em nossa sociedade, uma carta
pode ter caráter privado, onde confissões podem
Para Serra (2011), uma prática pedagógica ser reveladas somente para quem se destina ou
que considera relações afetivas está diretamente também pode apresentar caráter público como
ligada à atenção dada aos alunos. Tendo em vista cartas autobiográficas que não possuem
a sala de aula como um espaço no qual é possível destinatário definido.
o desenvolvimento do ser humano em todas as O ato de escrever uma carta permite ao
suas dimensões. escritor tomar distância para uma reflexão,
O objetivo deste estudo é de refletir sobre retomar uma frase antes de lançá-la ao
as possibilidades das cartas como um destinatário, reler o texto para melhor
instrumento de pesquisa e no que elas desvelam. compreender seu significado e normalmente
No âmbito do projeto de pesquisa intitulado expressar muita emoção e sentimentos que ficam
“Inteligência Espiritual: ampliação da registrados por tempo indeterminado.
consciência na prática docente em ambientes
educativos formais de comunidades ribeirinhas”,

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Além disso, a troca de cartas possibilita A escrita é uma maneira de expressão
um diálogo mediado pela escrita permitindo através de símbolos. Através do ato de escrever é
levantar questões, esperar respostas, prolongar a possível desenvolver distintas competências e
compreensão de uma noção de um texto, até o habilidades, além de possuir grande
mais profundo de si mesmo (BRANDÃO, 2005) representatividade como um meio de comunicar-
A escrita de cartas apresenta um caráter se, inevitavelmente na era digital e virtual o qual
dialógico virtual contemplando diversas formas vivemos atualmente.
de expressão entre os correspondentes. Ao Para Jolibert (2006), escrever é produzir
escrever uma carta, o sujeito imprime suas textos de acordo com necessidades e projetos:
emoções e ao socializar sua escrita torna esse cartas, cartazes, receitas, notícias, histórias,
registro interacional de situações interpessoais e poemas, etc. A autora apresenta a utilidade de
acontecimentos que são produzidos e trocados escrever um texto: “[...] um texto comunica
entre diferentes atores sociais. alguma coisa, narra alguma coisa, explica,
A leitura de uma carta pelo outro informa, incentiva, entretém, etc.” (JOLIBERT,
possibilita uma troca de interpretações 2006, p.192).
permitindo o confronto das significações de Além de argumentar sobre o poder o
valores. Tal confronto de ideias pode ampliar, prazer da produção de um texto, na medida em
modelar, ressignificar as próprias representações que, através da escrita, é possível expressar
valendo-se do diálogo com o outro. (LINS e sentimentos, sonhos e opiniões. “Escrever é uma
SILVA, 2004). atitude totalmente pessoal, um processo
Para Chartier (1991), uma carta não complexo que articula os aspectos
envolve apenas uma produção textual individual, eminentemente pessoais, que são a representação,
mas sim um processo que segue um ritual ao a memória, a afetividade, o imaginário [...]”
passar de mão em mão, ao ser colocado no (JOLIBERT, 1994, p. 44).
correio, ao ser lida e corrigida sob o olhar do Dentre os diferentes tipos de textos
outro e mesmo assim sempre preserva sua existentes, incluem-se as cartas, que são o objeto
característica de refúgio privilegiado do de estudos que originou o assunto e estudo deste
sentimento, da intimidade, da verdade do eu. artigo. As cartas podem ser bem diversas, pois
Uma das principais características de uma pode apresentar-se de forma manuscrita,
carta está no fato de ser espontaneamente digitadas, ou pode ser pessoais ou institucionais,
pensada, anunciando a verdade de uma afetivas ou informativas, além de ser para
experiência do autor. Além disso, a troca de convidar ou solicitar.
palavras escritas que a correspondência permite Jolibert (1994) diz que o texto deve ser
são certamente os meios para pensar por si entendido como todo escrito autêntico, integral,
mesmo sob o crivo do pensamento do outro que responde a uma determinada situação efetiva,
(CHARTIER, 1991). serve para comunicar, ou seja, expressar,
informar, contar, descrever, explicar, argumentar

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e fazer entrar em jogo a função poética da trabalhada no processo de aprendizagem.
linguagem. Conteúdo que pode ser compreendido como
Em seu relato de experiência, Moraes relevante, quando além de incentivar e motivar a
(2006) destaca a utilização de cartas como produção textual, pode auxiliar no estímulo do
recurso de coleta de informações para estudar a desenvolvimento da inteligência emocional.
história de leituras de professores de Parintins-
AM. A autora justifica a escolha das cartas como 3 O Fazer Pedagógico: o papel do professor no
processo de ensino e aprendizagem
instrumento metodológico pelo desejo de realizar
uma pesquisa voltada para o contexto amazônico,
mas a distância era um impedimento, pois Ao falarmos do fazer pedagógico, de
cursava seu Doutorado em São Paulo. De fato a metodologia, é imprescindível definirmos qual a
utilização do recurso das cartas pode ultrapassar concepção que se tem desse termo. Metodologia
fronteiras e encurtar caminhos expandindo as é um caminho, um „modo de fazer‟, que se utiliza
áreas de exploração para realização de coletas de de métodos, estratégias, recursos, técnicas, etc.,
dados. conduzindo a resultados, sejam eles positivos ou
Cunha (2008) também faz uso das cartas negativos.
como instrumento de pesquisa e a partir da A questão metodológica está diretamente
análise de trechos dessas cartas, procura dar relacionada aos referenciais epistemológicos
ênfase às narrativas que tratam do cotidiano adotados pelo professor, ou seja, as suas crenças,
escolar de professoras onde estão seus conceitos, seus pressupostos, aquilo que ele
descritas/representadas as situações vivenciadas acredita. Daí a necessidade de um constante
no dia-a-dia da sala de aula destacando os questionamento em relação a esses referenciais,
significados atribuídos a seu papel de professoras buscando sempre uma coerência entre os
primárias. Para o autor, o uso das cartas contribui objetivos sociais e os objetivos de ensino.
pelo seu caráter espontâneo, levando a uma É de extrema importância num contexto
leitura muito rica em detalhes que favorece uma educacional o professor ter bem presente que o
análise detalhada do cotidiano dessas seu papel é o de propiciar ao aluno situações de
professoras. autoconstrução. E isso significa que o é
As cartas exercem essa função autêntica responsável pelo seu aprendizado, que o
quando seus escritos contam e expressam professor é mediador dessa autoconstrução e
sentimentos e anseios. São utilizadas como meio referência para o aluno.
de comunicação desde a antiguidade. Para Portanto, sendo referência, além dos
Gastaud (2009), carta é um objeto escrito para conteúdos específicos e através da metodologia,
comunicar algo a alguém. Quando alguém o professor ensina a sua noção de mundo, os seus
escreve uma carta, o que mobiliza é a intenção e referenciais, suas crenças, seus valores, seus
“o projeto de dizer”. Na escola, alguns livros conceitos, seus ideais, seus pressupostos, ou seja,
didáticos abordam carta como conteúdo a ser o seu Eu.

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Esses princípios estão presentes no fazer aula. Processos esses que se assentam sobre o
pedagógico e são expressos através da inacabado, sobre a imaturidade do próprio
metodologia usada, das ações e atitudes do educando (COLOM, 2004). É um processo
professor dentro da sala de aula. Querendo ou progressivo que tem por objetivo fazer com que
não, a escolha da metodologia a ser usada não é “os alunos dialoguem com os conhecimentos,
neutra. Ela tem uma intencionalidade, mesmo reestruturando-se e retendo [cognitivamente] o
que inconsciente, e está baseada nos referenciais que é significativo” (SANTOS, 2008, p. 81,
do professor, naquilo que ele acredita. Por isso, é [grifo nosso]), sendo uma construção pessoal,
importante que o professor pense, reflita e reflexiva e contextual.
questione a sua prática e a sua visão de mundo. A metodologia adotada por um professor
No processo de ensino e aprendizagem é deve sempre levar a uma prática pedagógica
preciso que seja levado em conta o interesse, a emancipatória, ou seja, uma ação que propicie ao
necessidade, a motivação e os conhecimentos aluno situações de autoconstrução, que o faça
prévios dos alunos. A aprendizagem está ligada pensar, refletir, questionar e que seja
ao ponto de partida do aluno. Cada um carrega comprometida com todas as dimensões do saber.
uma bagagem de conhecimentos prévios e é Nesse sentido, é importante que o professor adote
preciso que o professor propicie conexão desses uma proposta pedagógica relacional, onde o
conhecimentos com os conteúdos novos para que processo de construção do conhecimento se dá na
haja significado no que está sendo aprendido. relação entre professor-aluno e aluno-aluno.
O papel de professor é o de Como sabemos, o papel do professor
instrumentalizar/potencializar o aluno, ajudando- mudou, se antes ele era visto como um
o a desenvolver as suas capacidades, sempre transmissor de conhecimentos, agora são
respeitando a sua história, seu contexto, a sua necessárias muitas outras habilidades, tais como,
cultura e suas experiências de vida (FREIRE, “a capacidade de estimular o interesse por
1996), favorecendo espaço para a afetividade, a aprender [...] o cuidado com o desenvolvimento
emoção, a alegria e a interação entre o coletivo afetivo e moral, a atenção à diversidade dos
da escola, fazendo emergir sentidos a partir das alunos, a gestão da aula e o trabalho em equipe”
inter-relações que surgem entre o mundo em que (MARCHESI, 2006, p. 112), sem as quais fica
vivemos, o conhecimento que produzimos, o difícil conseguir com que os alunos progridam na
professor e o aluno (COSTA, 2003). aquisição de um saber.
É necessário, portanto, ao tratar da prática Para esse autor, a educação deve tratar de
pedagógica, que o professor escolha uma manter, de forma coordenada e coesa, três
proposta que contemple a complexidade dessas grandes objetivos que são essenciais para uma
práticas e de suas finalidades, as quais poderão educação de/do futuro, são eles:
incorporar subjetividades, singularidades – isto é, a) despertar o desejo de saber dos alunos –
as interações – com as quais são vivenciados os isto é, ampliar os conhecimentos desse aluno;
processos de ensino-aprendizagem na sala de

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b) cuidar da sensibilidade e da vida afetiva Nesse sentido, Mosquera e Stobäus (2009,
dos alunos – em muitos casos a preocupação dos p.51), dizem que, “a afetividade, expressa pelos
professores com o equilíbrio afetivo dos alunos sentimentos, reflete as relações das pessoas, e é
só acontece quando percebem que está essencial para a atividade vital no mundo
perturbando sua dedicação ao estudo. Entretanto, circundante”. A afetividade influencia no
compartilhamos da ideia de Marchesi de que a comportamento dos alunos, motivando-os para
educação afetiva é uma condição essencial, uma realizarem as atividades com mais prazer, alegria
vez que é parte integrante da felicidade humana e entusiasmo, consequentemente refletindo
e, por isso, é preciso estar incluída no projeto diretamente no desenvolvimento cognitivo,
educacional das escolas e na ação pedagógica de propiciando dessa forma, a construção do
todos os professores, sem exceção; conhecimento. Através do afeto é que
c) facilitar o compromisso moral com seus demonstramos nossos sentimentos e isso é o
alunos – esse objetivo centra-se na educação reflexo das relações humanas. Sendo assim o
moral, que deve ser formulada e vivida nas afeto, o carinho e o sentimento devem andar
relações com o outro e deve se consolidar com os juntos em uma sala de aula, partindo da relação
princípios que melhor regulam o comportamento entre alunos e professores, como também no
humano. A educação moral se apoia no afeto, nas contexto geral da escola.
relações socioafetivas e na própria reflexão. No ambiente escolar, alunos e professores
Nesse sentido, uma das formas de se precisam estar em sintonia afetiva, para que os
alcançar esses objetivos é pensarmos em uma educandos se tornem sujeitos do seu processo de
prática educativa orientada por um viés aprendizagem, isto é, sejam alunos mais
inclusivo, que vise à promoção de atividades criativos, participativos e inovadores. Ressalta-se
formativas e sociais. que a prática pedagógica quando exercida com
Portanto, é extremamente urgente o amor e afeto propicia a coerência entre a teoria e
professor rever o seu papel na Educação, a prática. Diante disso, torna o conteúdo
repensando não só a forma como os alunos envolvente, oportunizando aos alunos
aprendem, mas também o que eles aprendem na construírem suas aprendizagens de forma
escola. É necessário que o professor tenha significativa. Chalita (2001, p.256) diz que:
consciência de que a sua maneira de ser, suas
crenças e intenções, se revelam no que é [...] não é possível dar uma aula sem trocar afeto.
Uma das qualidades mais importantes e inerentes
ensinado aos alunos. do ser humano é a capacidade de amar. É,
portanto, a partir dessa capacidade de amar que se
A afetividade entre professor e aluno pode estabelecem relações de reciprocidade, afeto e de
influenciar de forma positiva no processo de respeito mútuo entre professores e alunos.

ensino e aprendizagem, propiciando


Sinaliza-se que, a sala de aula é um espaço
aprendizagens significativas e melhoras no
social de trocas de conhecimentos, contudo, de
rendimento escolar.
relações afetivas que emergem para tornar aquele

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ambiente um espaço de aprendizagem motivador criativa desperta no educando relações de carinho
e criativo. e de idealização. O aluno lança um olhar sob o
professor, como um sujeito transformador, que
4 Características Pessoais e Estratégias através de seus ensinamentos conseguirá trilhar o
Didáticas: práticas significativas em sala de caminho e construir sua identidade. Nesse
aula
sentido, o professor compartilha mais do que
Ao analisarmos as cartas escritas pelos conhecimentos, compartilha ideias e também o
alunos de uma escola pública do Pará, foi coração (GADOTTI, 2007).
possível observar que algumas características dos Nesta sociedade contemporânea marcada
professores foram expostas como sendo as mais por avanços tecnológicos, como também pela
significativas na relação de ensino e violência e marginalidade, é preciso educar para
aprendizagem. Dessa forma chegamos a algumas o entendimento. Na teia de aprendizados, Gadotti
unidades de análise, tais como: boa, legal, alegre, (2007, p.127) diz que “educar é também
admiro, importante, atenciosa, muito educada, desequilibrar, duvidar, suspeitar, lutar, tomar
paciente, ensinou muitas coisas, faz os alunos partido, posicionar-se”. Dentro dessa prática
fazerem os trabalhos, gosto muito da sua matéria, reflexiva o professor instiga o aluno a pensar
fez eu subir na vida, me ajudado a entender. autonomamente e se torna um espelho para o seu
A partir da análise dos dados, verificamos desenvolvimento integral.
que as características pessoais e as estratégias Ao pensarmos sobre as características de
didáticas adotadas pelo professor em sala de aula um professor, não podemos esquecer que ele é
são extremamente significativos para a em primeiro lugar um ser humano, com suas
aprendizagem dos alunos, o que será abordado a habilidades e competências profissionais, mas
seguir como categorias que emergiram da fala com suas ideias, necessidades pessoais e
dos alunos. limitações. Como pessoa, o professor tem uma
história. “Como pessoa todo o indivíduo procura
4.1 Características pessoais achar um significado na vida e nas coisas da vida
[...]” (MOSQUERA, 1976, p. 90). Segundo o
Educar é sempre impregnar de sentido autor, é relevante a valorização da intimidade do
todos os atos de nossa vida cotidiana. Entre os professor e sua própria pessoa como tal, a qual se
saberes e fazeres docentes é despertado relações constitui através de vínculos que o professor
afetivas entre alunos/professores/escola, em vista estabelece com outras pessoas.
de proporcionar a construção do conhecimento, Assim, a relação que o professor constrói
em um contexto marcado de motivação e de boas com seu aluno tende a desvelar uma prática
práticas de convivência. pedagógica afetiva, que se define no dia-a-dia da
A prática pedagógica do professor sala de aula, sendo que a afetividade surge e vai
construída de relações de boa convivência e de se afirmando a partir dessa interação. É através
uma profissionalidade ética, de qualidade e dos sentimentos que o professor consegue a

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admiração, o carinho, o afeto e a cooperação dos aceitação e a empatia do professor para com os
alunos. A prática pedagógica afetiva é um ato de outros decorrem do desenvolvimento contínuo do
amor, que transcende para os processos de ensino professor como pessoa e profissional. “Os bons
e aprendizagem, além da sala de aula. professores são capazes de identificar-se com as
O despertar da alegria, da admiração, da outras pessoas e sentir com elas” (MOSQUERA,
aprendizagem dos alunos são processos de 1976, p.119).
desconstrução que caminham para novas É de extrema importância que o professor
construções para os saberes da escola e para os fundamente sua prática na busca do bem-estar
saberes da vida. Nesse sentido, os ensinamentos através do autoconhecimento, autoaceitação,
do professor ultrapassa o espaço escolar, autocompreensão, autonomia e de outros
marcando de forma singular o desenvolvimento aspectos citados por Seligman (2011), como:
do aluno, e de se certa forma colabora para as emoção positiva, engajamento, relacionamentos
definições futuras quanto a sua postura na positivos, sentido e realização. Estas
sociedade, como também iluminando os características e conceitos direcionam seus
caminhos da profissionalização. objetivos para a eficácia do ser professor, como
A prática pedagógica estabelecida no viés pessoa e profissional que fará diferença no
da afetividade prevê maneiras de trabalhar o desenvolvimento do seu aluno.
conhecimento, privilegiando a competência
dialógica e reflexiva dos alunos, e ao mesmo 4.2 Estratégias didáticas
tempo, busca estratégias que tenham como
O dia em que entrei na aula de Física foi mortal.
pressuposto levar os alunos a tomar decisões. Um homem escuro e baixo, de voz aguda e
ciciante, conhecido como senhor Manzi, estava
Pressupõe-se assim, que as interações que
frente À turma com um apertado terno azul
ocorrem no contexto escolar também são segurando uma pequena bola de madeira.
Colocou a bola numa canaleta inclinada e a
marcadas pela afetividade em todos os seus deixou rolar até embaixo. A seguir, começou a
dizer: suponhamos que a é igual a aceleração e
aspectos, desde que sejam espontâneas e que t é igual a tempo. E de repente se pôs a
rabiscar letras e números e signos sem distinção
verdadeiras. Pode-se dizer, também, que a
por todo o quadro-negro, e minha mente deixou
afetividade se constitui como um fator de muita de funcionar (SILVIA PATH).

importância nas relações que se estabelecem


Uma ideia comum entre todas as teorias de
entre os alunos e os professores (TASSONI,
aprendizagem é que aprender implica mudar os
2001).
conhecimentos anteriores. O professor contribui
A afetividade do professor com o aluno
e participa para a aprendizagem dos alunos
revela a relação existente entre aluno e professor.
quando os auxilia a reestruturarem seus
As relações positivas contribuem para o processo
conhecimentos, auxiliando-os na assimilação.
de ensino e aprendizagem por ambas as partes. A
Não podemos dizer que há boas ou más
educação fundamenta-se no sentido do professor
práticas didáticas, mas sim condições adequadas
compreender, ajudar e orientar as pessoas. Já
ou inadequadas para atingir os fins estabelecidos.
dizia Mosquera (1976), que o envolvimento, a

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O professor precisa organizar sua prática de Uma situação que um indivíduo ou um grupo
quer ou necessita resolver e para a qual não
forma criativa e que busque uma motivação por dispõe de um caminho rápido e direto que o leve
à solução. Essa definição diz que uma situação
parte do aluno. que só pode ser concebida como um problema na
medida em que existe um reconhecimento dela
com o um problema por parte do aluno e na
A organização das atividades de aprendizagem medida em que este não dispõe de procedimentos
deve estar subordinada ao tipo de aprendizagem do tipo automático que lhe permitam solucioná-la
que se pretende alcançar, e este por sua vez deve de forma mais ou menos imediata.
responder às demandas ou necessidades de
aprendizagem que se propõem ao aluno. Não há
recursos didáticos bons ou maus, mas adequados
ou inadequados aos fins perseguidos e aos Um ponto que deve ser considerado para o
processos de aprendizagem mediante os quais
podem se obter esses fins (POZO, 2002, p. 66) planejamento das aulas e para a escolha das
estratégias didáticas a serem utilizadas é que cada
Nesse sentido, é preciso que os
aluno estabelece mecanismos diferentes para a
professores, não apenas disponham de recursos
aprendizagem, ou seja, cada aluno aprende de
adequados, mas que reflitam sobre suas práticas e
uma forma. Assim, muitas vezes o que é
adotem atitudes estratégicas em relação ao seu
percebido como problema para um, pode não ser
trabalho para que os alunos possam aprender a
problema para outro aluno, “ou porque ele carece
partir desses elementos.
de interesse pela situação ou porque possui os
mecanismos para resolver quase sem
Não haverá aprendizes estratégicos sem mestres
estratégicos. Se os mestres não concebem seu investimento de recursos cognitivos, que dizer,
trabalho de ensinar ou instruir como uma tarefa
complexa e aberta, como um problema, diante do porque pode transformar a situação num simples
qual é preciso adotar estratégias diversas exercício” (POZO, 2002, p. 253).
conforme as metas concretas, se ensinar é uma
tarefa monótona (“cada professorzinho tem seu Nesse sentido, uma mesma atividade pode
livrinho”) em vez de uma tarefa diversificada e
divertida, dificilmente os aprendizes abandonarão ser percebida como um problema ou como um
a rotina da aprendizagem monótona (POZO,
2002, p. 244). exercício. No caso dos fóruns de discussão, para
alguns alunos a atividade de escrever para um
Nem todas as situações de aprendizagem grande grupo pode ser percebido como um
ativam com a mesma eficácia os processos problema, pois o aluno terá que usar diversos
necessários para a construção do conhecimento. recursos cognitivos, enquanto que para outros
Dessa forma, é necessário que o professor alunos essa atividade pode ser apenas um
planeje suas aulas utilizando diferentes exercício.
estratégias didáticas e proponha tarefas de A forma como o professor propõe um
aprendizagem com problemas, onde os alunos problema, guia sua solução e o avalia pode
necessitem buscar soluções e não apenas auxiliar a evitar que o mesmo seja mecanizado
exercícios nos quais se trate apenas de repetir em exercício por parte do aluno. Conforme
respostas. Segundo Lester (1983, apud POZO, aponta Pozo (2002, p. 256), “para que haja
2002, p. 253), um problema é: verdadeiros problemas, que obriguem o aluno a
tomar decisões, planejar e recorrer a sua

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bagagem de conceitos e procedimentos Considerações finais
adquiridos é preciso que as tarefas sejam abertas,
diferentes uma das outras, ou seja, Contudo, podemos considerar que as
imprevisíveis”. cartas são instrumentos reveladores que
No entanto, um ponto que é importante anunciam a verdade expressando os sentimentos,
salientar é que nem todas as tarefas de os sonhos, e opiniões dos alunos em relação aos
aprendizagem necessitam propor um problema professores a quem as cartas são destinadas. Este
para o aprendiz. Os exercícios também se fazem instrumento representa uma atitude pessoal e
necessários. Quando o professor organiza sua autêntica favorecendo as situações de
prática dando um equilíbrio entre estratégias autoconstrução do aluno, além de atuar como um
didáticas que são exercícios e problemas, isso registro interacional de situações interpessoais
auxilia o aluno não só a consolidar suas revelando a visão do aluno a respeito daquele
habilidades, como também a conhecer seus professor.
limites, diferenciando as condições conhecidas e Dentre as categorias observadas, nas
já praticadas das novas e desconhecidas. cartas analisadas, a afetividade está muito
No processo de construção do presente, o que significa que este professor adota
conhecimento, o aluno é responsável pelo seu uma proposta pedagógica relacional, percebendo
aprendizado e o professor é um mediador. Dessa o aluno na sua essência como um ser único. Esta
forma, o tempo, o ritmo, os caminhos, as postura do professor é fundamental para
elaborações, enfim, as escolhas, em determinados contribuir com a aprendizagem, uma vez que
momentos, são únicas e individuais. Assim, cada toda a experiência de aprendizagem tem início
um pode e deve assumir a sua própria construção com a afetividade e as relações afetivas no
do conhecimento, sendo autor dos seus espaço escolar iniciam com a atenção destinada
processos, porque é assim que se dá o processo aos alunos.
educativo. Além da afetividade, as características
A aprendizagem não deve ser uma pessoais também foram apontadas, o que indica
atividade mecânica. Alunos e professores que o professor precisa rever seu papel no
precisam adquirir ferramentas bem diversas para processo educativo, ele não é apenas um
enfrentarem atividades variadas nos dias de hoje. profissional, mas sim uma pessoa que tem em
Não foram apenas os processos de ensinar que suas mãos a capacidade de estimular o interesse
mudaram, mas também os de aprender. Os por aprender cuidando também do
recursos didáticos devem se basear num desenvolvimento afetivo e moral. Como a
equilíbrio entre o que se aprende, como se educação moral e afetiva é dada na relação com o
aprende e em que se aprende. outro, as características pessoais do professor são
fundamentais para que este processo tenha bons
resultados.

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Outro indicador observado na análise das pedagógico são expressos através da
cartas foi a metodologia adotada pelo professor, metodologia, esta deve ser dinâmica e
que significa o quanto o fazer pedagógico está seguidamente repensada.
diretamente relacionado à condução dos Em suma, as cartas como instrumento de
resultados. Por ter intencionalidade, a pesquisa podem revelar muito mais do que a
metodologia deve ser constantemente visão dos alunos a respeito de seus professores.
questionada pelo próprio professor, ou seja, a Este instrumento vai além, proporciona mais do
reflexão sobre a prática deve ser um exercício que indicadores para pesquisa, favorecendo
constante e a leitura das cartas favorece esta momentos de reflexão tanto de quem elabora a
reflexão, pois o professor pode se enxergar sob o escrita como de quem faz a leitura provocando a
olhar do aluno. Mesmo que o professor seja a análise sob diferentes olhares e perspectivas – de
referência para o aluno, ele precisa saber como quem escreve, a quem se destina e do próprio
estes referenciais estão sendo interpretados, uma pesquisador.
vez que os princípios presentes no fazer

Referências GADOTTI, M. A escola e o professor: Paulo


Freire e a paixão de ensinar. São Paulo:
Publisher, 2007.
BRANDÃO, A. C. P. Leitura e produção de
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Artigo submetido em abril de 2012


Aceito em julho de 2012

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