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Vs.

Marcus Vinicius Corrêa Carvalho 1

A experiência artística instaura processos provocadores e deflagra exercícios desafiadores, como Felipe de Ávila e Rafael Perpétuo nos permitem lembrar ao confrontar uma atmosfera contemporânea com elementos fundacionais do cultivo humano no ocidente.

Ávila e Perpétuo envolvem-nos nesta atmosfera contemporânea. Seus recursos, suportes e procedimentos fazem eco, por exemplo, da arte povera em suas experimentações com material vário para empobrecer padrões artísticos convencionados a fim de enriquecer as relações possíveis com a arte e com o público. Esses recursos, suportes e procedimentos repercutem também o sentido da arte de postproduction, respondendo, em certa medida, à proliferação informacional caótica de uma cultura de intenção global ao pretender erradicar as distinções fixadas entre produção e consumo, entre cópia e criação, ou, entre readymade e trabalho original.

Em contraponto, e ao mesmo tempo, Perpétuo e Ávila reverberam uma potência primeva. Seus temas e interesses nos remetem àquele ato que os gregos antigos nomeavam poiein, fazer, fabricar, construir, não importando se aquele que o faz, o faz, fabrica e constrói com palavras, tintas, argila ou pedras. Edificações, esculturas, pinturas e poemas são todos poiesis, ou poesis, são constructos, são fabricos, são feitos, são poéticas. Realizam-se quando a voz do rapsodo rompe o calado do ar e costura seus versos, compostos, por vezes, por dialetos diferentes. Ocorrem quando o pincel rasga a tinta e a imprime no suporte, quando o formão fere a matéria deformando-a, ou, quando uma pedra é imposta à outra, estruturando algo. Todos esses atos constituem o propriamente humano em seu fazer. Eles metaforizam aquilo que nomeamos cultura, como efetivação do saber fazer que nos define enquanto pessoas.

O fazer, o fabricar, o construir dá-se sempre em contextos dialógicos, carreando o dual em seus contrários. Ele exige aquele e/ou aquilo que não seja mais o “nós mesmos”, incitando interações. Fazer impõe o deslocamento, a variação e a mudança, traduz-se em duração, estando o feito fadado à corrupção. A contínua deformação daquilo que se conformou forma, por reformas, as formas que se transformam. O fazer constrói ao destituir, de seu lugar e de seu tempo, aquilo que era forma e aquele que se forma.

1 Doutor em História Social da Cultura (Cecult/Unicamp) e professor da FaE/UEMG, desenvolve pesquisas sobre as interfaces entre educação e estética.

Perpétuo e Ávila nos dão a ponderar que, se o tempo destrói tudo, as razões humanas, em seu cultivo moderno, acirram seu contraditório em sistemas não- racionais de conflitos e de explorações da natureza, dos homens e das mulheres. Lógicas ordenadoras e progressistas implicam explorações desordenadas e um contínuo estado de reforma daquilo que se considera inconcluso e precário: há vidas, sociedades, continentes, todo um mundo, por reformar.

Felipe de Ávila em seu “Degrau” apresenta o fluxo contínuo da água, refletida em um jogo de espelhos, simulacro das representações do tempo e da vida que fluem em continuum, criando e destruindo. Em seu “Aquário de espera”, o material é entulho de demolição e de reforma de uma casa velha e de sua dona idosa, ambas inacabadas. Suas “Constelações” remetem à exploração, racionalmente concebida, de grandes corporações petrolíferas que têm suas imagens mercadológicas corroídas. Com “Contingente Park”, Ávila apresenta a geopolítica das incertezas em que todo um continente é instituído através de fragmentos pavimentados pela lógica exploratória de potências que pretendem reduzi-lo à localidade periférica. Em “Parede de Flores”, desenhos de flores são impingidos a uma parede de tijolos, que é fotografada, sendo a imagem final aplicada em chapa galvanizada. Tijolos de barro, asfalto, metal e água instruem um jogo entre o simples e o denso, entre o bruto e o sutil, no qual a galvanoplastia simboliza aquela pretensão exploratória capitalista e moderna em material não corrosivo e de baixo custo, mas que, não reciclável e descartável, se presta apenas a um único uso.

Rafael Perpétuo produz no chão, talvez, para ancorar suas idéias orientadas pelas noções de dúvida e de incerteza. Perpétuo concebe sua arte, em face do efêmero, sobre as bases das controvérsias e dos dualismos. Ele nos propõe uma ambiência caótica eivada de dualidades e de paradoxos. Seu ambiente contém ferramentas que ele fabrica com polímeros frágeis que ao ferir a matéria em construção não podem deixar de se destruir. Ferramentas incorporadas como equipamentos transparentes, contrapondo qualquer intenção de fabricar um locus amoenus ao modo renascentista: elas são instrumentos da perspectiva do desleixo e do contra. Sua região explora contrastes, contradições, contrariedades. Um de seus vídeos subjuga o olhar sobre o prazer, matizando-o pelas sonoridades do horrendo, o outro, expõe contraditos dos muitos ditos sobre o que seja o contra. Seus desenhos nos remetem aos paradoxos do fazer como destruir, com objetos que todos nós podemos portar, como um canivete suíço, com máquinas que recusamos a abandonar, como motosserras, com abandonos que insistimos em perpetrar com nossas armas, ferramentas de destruição, por excelência. Perpétuo insiste: o formal, o regular e o retilíneo não fala de nós, ambientados na barbárie.

A experiência artística instaura processos provocadores e deflagra exercícios desafiadores, então, Ávila e Perpétuo evocam um sujeito capaz de fruição estética

como renúncia ao gozo da indiferença com o outro e consigo próprio. Renúncia, tão necessária quão dolorosa, da acomodação no olhar rotinizado para o que nos rodeia. Eles apostam na constituição de um ponto de vista em que a contemplação não signifique corrosão interna, pelo ácido da auto-repressão, do sujeito estético que para fruir deve permanecer inerte, imóvel e imobilizado. Perpétuo e Ávila não ofertam ou prometem qualquer redenção, ao contrário, eles propiciam uma oportunidade de especulação sobre as próprias configurações do que seja o estético.

A estética faz uso do potencial humano para estruturar e trabalhar o meio ao qual estamos expostos e, hoje, embora ainda seja um traço da obra de arte, o estético estendeu sua atividade a vários domínios da vida. Não é, portanto, o produto final específico da modelagem que está em jogo, mas a própria atividade que continuamente dá formato a algo. Esses formatos não devem ser considerados nem definitivos nem finais, mas, antes, possibilidades que se derramam em cascata a partir do entrincheiramento contemporâneo do estético.

Depois da queda das ideologias sistemáticas como capacidade organizativa da mente no fim do século passado, tornou-se muito mais palpável a finalidade aberta como horizonte de nosso mundo. Essa experiência é intensificada pela massa crescente de informação sem estrutura que nos inunda. Em contradição com os sistemas ideológicos ortodoxos, a operação modeladora do estético aparece como uma resposta mais produtiva a esse desafio contemporâneo. A atividade de forjar nos permite estruturar o material de nosso mundo, elaborando-o como uma finalidade aberta e mantendo-o aberto para que possa se desintegrar, tornando-se, assim, material para novas formações. Desse modo procede a forja do mundo, processo no qual o estético se oferece como cascata ilimitada, que banha a pluralidade como marca distintiva da alteridade.

Rafael Perpétuo e Felipe de Ávila interferem com os ruídos de seu Vs., nesse contexto, nos convidando a lembrar da questão ética que nos forma e nos engloba: o que estamos fazendo de nós e de nosso mundo?