Sistema Bimetálico X Padrão Ouro (1870 – 1913

)
Frederico Matias Bacic Introdução: Este trabalho ambiciona descrever e comparar as principais características do sistema bimetálico e do padrão-ouro (1870-1914). Para isso, contamos com pelo menos duas interpretações. Por fim, discutirei qual sistema é mais estável. Para um melhor entendimento, divimos o trabalho em três partes. A primeira tem por objetivo apresentar as características mais importantes do bimetalismo e suas dificuldades em se manter como o padrão do sistema monetário. Já na segunda parte destacamos as características do Padrão Ouro e seus mecanismos de ajuste. Por fim, comparamos as teorias, anteriormente expostas por Eichengreen com as conclusões de Triffin a respeito do padrão-ouro. Veremos que Eichengreen ira dizer que o padrão ouro era estável. No entanto, Trifin argumentava que este sistema somente alcançava a estabilidade em nações já desenvolvidas (centro) e não nos países em desenvolvimento (periferia). Isso contradiz a tese de Eichengreen, na qual afirma que a estabilidade era alcançada através do mecanismo de ajuste automático de Humme. Eichengreen também defendia que a taxa de redesconto controlava o fluxo de ouro, ou seja, através da taxa de redesconto o Banco da Inglaterra controlava a estabilidade do sistema. A conclusão final que chegaremos é que o padrão-ouro era instável, mas a Inglaterra mantinha a sensação de estabilidade devido a sua importância no cenário mundial. Com a mudança no cenário e a queda da hegemonia inglesa o sistema acaba se ruindo, consequência direta do início da Primeira Guerra Mundial. O padrão mundial durou de 1870 a 1914, contudo sua estabilidade foi uma mera sensação.

Sistema Bimetálico Segundo Eichengreen, no início do século XIX, somente a Grã-Bretanha havia adotado plenamente o padrão ouro. Os países que haviam adotado os padrões

Desse modo. o bimetalismo foi mantido por 2/3 do século XIX devida a externalidades em rede. Entretanto. a operação do sistema bimetálico francês reduziria o suprimento de prata disponível para o resto do mundo e aumentaria os estoques de ouro. mantendo a circulação de ambos na França. no qual o dinheiro ruim (no exemplo. simplificava o comércio. a circulação simultânea de moedas de ouro e de prata não era ameaçada por pequenos desvios entre as proporções de mercado e de cunhagem. era necessário que a diferença entre as proporções de mercado e de cunhagem fosse superior a esse custo para que a arbitragem fosse lucrativa. geraria incentivos à arbitragem. Portanto. uma vez que havia vantagens na manutenção dos arranjos monetários internacionais adotados por outros países. o autor afirma que não era fácil manter a circulação simultânea de moedas de ouro e de prata. permitia não apenas recuperar o investimento como também obter uma quantia adicional de prata (ou ouro). ser possível cunhar moedas em um ou outro metal a uma taxa de câmbio fixa operava no sentido de dar sustentação à circulação simultânea tanto do ouro como da prata. Dessa forma. a prata seria importada para a França para ser cunhada e o ouro seria exportado. de outro. como a França. Entretanto. o que por sua vez levaria o sistema a instabilidade. pois os governos cobravam uma comissão nominal (brassage) para cunhar moedas a partir de lingotes de ouro. Eichengreen afirma que com a disseminação da Revolução Industrial. Ou seja. A parcela de moedas de prata em circulação na França cresceria. a arbitragem levava tempo para ser concluída. minimizava a confusão provocada pela circulação interna de moedas cunhadas em países vizinhos e facilitava as transações correntes. os especuladores importariam prata e exportariam ouro até que todas as moedas de ouro no país tivessem sido exportadas. além de que havia custos de transporte e de seguros. uma vez que se ocorresse uma alta no preço internacional do ouro em relação à prata (ou vice-versa). de um lado. Dando margem ao equilíbrio. que teve como conseqüência a industrialização da Inglaterra e transformou-a . Ademais. Ou seja. o padrão ouro e. O fato de em alguns países. Se a oferta mundial de prata crescesse e seu preço relativo caísse. Visto que. Entretanto. Ao absorver prata e liberar ouro. um padrão monetário comum facilitava a tomada de empréstimos no exterior. o padrão prata. Esse movimento é descrito pela Lei de Gresham.bimetálicos faziam o papel de ligação entre os blocos de nações que praticavam. prata) expulsa o dinheiro bom (ouro).

e com a rivalidade internacional que culminou com a Guerra Franco – Prussiana. A manipulação do crédito e conseqüentemente das saídas de ouro eram feitas a partir da taxa de redesconto (juros cobrados junto aos bancos mediante o adiantamento do dinheiro por parte do banco central). cuja atuação se dava no sentido de acelerar o processo de ajuste obtendo o equilíbrio sem que haja saída de ouro. dessa forma. uma vantagem competitiva que aumentaria as exportações desses produtos. Entre os países que passam a adotar o padrão ouro estão a França. estas representavam apenas 38% das reservas de ouro. a Alemanha e os EUA. Primeiro Período do Padrão Ouro (1870 – 1913) Segundo Eichengreen. por sua influência nos grandes centros comerciais e financeiros. que segundo o modelo deveriam existir. no qual pressupunha a prioridade dos governos em conservar a conversibilidade da moeda em ouro (a partir de taxas de câmbio fixas). sofrendo perda de ouro. Por volta de 1870. diminuiria a quantidade de moeda em circulação. foram os responsáveis pelos abalos crescentes de tensões no sistema bimetálico. o modelo era o seguinte: um país com déficit comercial. no qual sua existência passou a ser comprometida. a Inglaterra encabeçava a lista dos principais países. e “obrigava” a adoção do padrão-ouro. o modelo mais simples que ilustra o mecanismo do Padrão Ouro é o modelo de fluxo de moedas metálicas de David Humme. É nesse aspecto que se dá a influência dos bancos centrais. devido ao grande fluxo de ouro e libra. Adotando a premissa que só havia a circulação de moedas de ouro num ambiente no qual o papel dos bancos centrais era nulo. Em conseqüência geraria a queda dos preços dos produtos domésticos e. a adoção do Padrão Ouro pela Inglaterra e depois pela Alemanha em 1871 gerou uma reação em cadeia por parte das outras nações que tinham o interesse em manter relações comerciais e financeiras com estes países. Assim como no sistema bimetálico. o governo tinha um compromisso de manter a paridade da moeda estável. o efeito conhecido como externalidades em rede foi o responsável pela disseminação de um padrão baseado em taxas de câmbio fixas. mas na realidade não existiam.na grande potência econômica mundial e de onde provinham os financiamentos. Desse modo. Logo o equilíbrio comercial seria atingido. Desse modo. . Vale ressaltar que esse modelo apresentava duas falhas: não levava em consideração os fluxos de capitais internacionais e as remessas internacionais de ouro.

maior seria a taxa de juros de capitais que visavam remunerações no curto prazo. tendo como finalidade preservar a harmonização das políticas a qual era essencial. A Inglaterra tem um papel de destaque no funcionamento desse sistema. O Banco da Inglaterra era o banco central mais influente na época. havia uma valorização automática da taxa de câmbio. assim como a Índia e a África do Sul. Eichengreen afirma que a França. esse é outro ponto de grande importância no funcionamento do Padrão Ouro: a importância se dá no sentido de que o fluxo de capitais se dava de forma estabilizadora. Além disso. o fluxo de dinheiro em direção aos EUA deveria ser compensado . Segundo o autor. O sistema financeiro francês possuía uma liquidez maior que o sistema inglês.A taxa de redesconto tinha influência direta nas taxas de juros. Era a maior economia credora do mundo e a libra era a moeda chave para as transações internacionais. forneciam estabilidade ao Padrão Ouro. os EUA podem ser considerados como os grandes desestabilizadores do sistema. pois determinava e conduzia a taxa de redesconto que os demais bancos centrais deveriam seguir. seu sistema bancário era completamente descentralizado e pouco organizado – inexistência de um Banco Central – sendo assim. denominada de jóia da coroa britânica. Ademais. permitindo ao segundo adquirir empréstimos junto ao primeiro. Esses empréstimos faziam com que o ouro fluísse da França para a Inglaterra e isso foi possível graças aos Rothschild (intermediários entre a prata e o ouro. por sua vez. Os EUA passaram por um período de grande expansão no fim do século XIX. eram os “protetores” da taxa de desconto). Outro papel importante desempenhado pelo Banco da Inglaterra era sua posição de emprestador de última instância. uma vez que todo ouro encontrado em suas minas eram comercializados na Inglaterra. uma vez que facilitaram as exportações de matérias – primas e alimentos para os ingleses. os países deveriam agir conforme as “regras do jogo”. Uma vez que. Desse modo. Já a África do Sul contribuiu para dar estabilidade ao sistema. possuía déficit com a Grã – Bretanha e superávit com o resto do mundo. entretanto isso não era um problema. assim quanto maior a taxa de redesconto. Em contraposição a estes países. e tornaram-se os maiores exportadores agrícolas e produtores industriais do mundo. A Índia. em outras palavras. pois o sistema gozava de grande credibilidade garantindo que no longo prazo todas as regras seriam respeitadas. o dinheiro provindo das exportações ficava dissipado pelo sistema e retido dentro do país.

pois havia um influxo de capitais nas épocas de prosperidade e saída de capitais nas épocas difíceis. Portanto. esse déficit se não neutralizado pela economia nacional. Triffin observa através de dados que há um paralelismo na variação entre as importações e exportações e dos preços dos países deficitários e superavitários. O autor argumenta também que o mercado de descontos de Londres financiava as exportações dos países menos desenvolvidos. e também de como aconteceu o sucesso da manutenção da conversibilidade da moeda (estabilização do câmbio). que causava estabilidade nos países centrais e instabilidade nos países periféricos. eram instáveis. Desse modo. gerando problemas para as contas inglesas. a qual era “emprestador em última instância”. Desta forma. Triffin. a aparição de um déficit comercial acontece quando há mais importações e menos exportações do país deficitário para o superavitário. Os livres movimentos de capitais também ajudaram a balançar o equilíbrio. o que levava ao ajuste no Balanço de Pagamentos. o paralelismo entre as variáveis preço. . Triffin. Desse modo. haverá um ajustamento no Balanço de Pagamentos no país deficitário. Para Triffin. e não uma divergência. Mas os países que possuíam déficit e se financiavam com a conta capital. por sua vez. ao criticar o mecanismo de Humme. Partindo de um equilíbrio no Balanço de Pagamentos. este mecanismo automático funcionava somente nos países mais desenvolvidos (centro) e não nos países em desenvolvimento (periferia). uma vez que será compensado pela transferência de capital do país superavitário. o autor reinterpreta este mecanismo através da mudança na configuração cíclica dos movimentos de capitais. Para provar seus argumentos. tem – se um mecanismo automático. podendo assim haver déficits em conta corrente que não necessariamente iriam se ajustar automaticamente.pela Inglaterra. o qual se dá pelo ajuste deflacionário. leva a uma redução dos preços e salários do país deficitário e um aumento dos mesmos no país superavitário. Entretanto. importação e exportação entre os países não é válida para todos eles. tem como principal critica o mecanismo de ajuste automático de Humme (equilíbrio no Balanço de Pagamentos). argumenta que outros fatos mais complexos devem ser levados em consideração para explicar o ajuste do Balanço de Pagamentos e que isso não acontece automaticamente. através do aumento da conta capital.

mas também pela perda de ouro internamente causada pela transferência para os bancos comerciais. já que o câmbio era fixo. estas mudanças contribuíram para a manutenção de taxas altas e expansão monetária. a evolução lenta do sistema monetária internacional aos requisitos de crescimento econômico foi brutalmente interrompida pela Primeira Guerra Mundial. A estabilidade do câmbio decorrente dos aumentos de papel – moeda nesta época pode ser explicada pela harmonização das taxas nacionais de expansão monetária e creditícia. “Muitas vezes credita-se o Padrão Ouro como tendo conciliado em grau sem precedentes a estabilidade de preços com uma alta taxa de crescimento econômica no decorrer do século XIX”. fora o fato de existirem mecanismos de ajustamento do sistema. pois a emissão de papel – moeda era feita internamente. uma vez que só era estável nos países centrais e não nos países periféricos. Mas Triffin argumenta que este paralelismo entre preço e descoberta de ouro era falho. depois das considerações acima expostas. portanto. uma vez que não abre margem alguma para a arbitragem. Portanto. os bancos precisavam ter altas reservas de ouro para mantê-la e poderem ser negociadas com o exterior. e pela flexibilidade e rápida adaptação das instituições bancárias e monetárias. contando ainda para isso (manutenção da taxa de câmbio). Porém.este último e o que apresenta mais estabilidade. com a colaboração dos bancos centrais em manter essa paridade. o ajuste se dava ex ante e não ex post. pois os déficits ou superávits grandes eram compensados pela conta capital e havia também a política monetária e de crédito dos bancos centrais que preservava a taxa de câmbio fixa do Padrão Ouro. os preços não eram estáveis. como: a taxa . que entre o bimetalismo e o padrão-ouro . Considerações finais Concluo. para Triffin. Já em relação à conversibilidade.O processo de ajustamento não tinha como objetivo o equilíbrio do Balanço de Pagamentos. por não dar conta completa dos fatores complexos do crescimento econômico. Segundo Cassel. Em suma. o Padrão Ouro era um desestabilizador do sistema monetário internacional. De início. os preços seguiam a descoberta de novas minas de ouro e. A expansão de crédito pelo Banco Central foi limitada devido aos déficits e perda de ouro para o exterior.

como observamos em Triffin. . esta conclusão. O padrão mundial durou de 1870 a 1914. contudo sua estabilidade foi uma mera sensação. o Padrão Ouro era um desestabilizador do sistema monetário internacional. era limitada as nações já desenvolvidas (centro) e não aos países em desenvolvimento (periferia). ou seja. A conclusão final que chegamo é que o padrão-ouro era instável. uma vez que só era estável nos países centrais e não nos países periféricos. Com a mudança no cenário e a queda da hegemonia inglesa o sistema acaba se ruindo. consequência direta do início da Primeira Guerra Mundial. mas a Inglaterra mantinha a sensação de estabilidade devido a sua importância no cenário mundial. Entretanto.de redesconto e o mecanismo de ajuste automático de Humme.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful