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MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL

Procuradoria da República no Distrito Federal


Operação Greenfield

EXCELENTÍSSIMO SENHOR JUIZ FEDERAL DA __ª VARA FEDERAL DA SEÇÃO

Assinado com certificado digital por ANSELMO HENRIQUE CORDEIRO LOPES, em 20/06/2022 16:38. Para verificar a autenticidade acesse
JUDICIÁRIA DO DISTRITO FEDERAL

Índice
1. OBJETIVOS DA DEMANDA...............................................................................................2
2. COMPETÊNCIA DESSE JUÍZO E LEGITIMIDADE ATIVA DO MPF..............................7
3. SÍNTESE DOS FATOS APURADOS....................................................................................8
3.1. Notas introdutórias sobre a Operação Greenfield............................................................8

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3.2. FIP CEVIX.....................................................................................................................13
3.3. FIP RG ESTALEIROS...................................................................................................21
3.4. FIP SONDAS.................................................................................................................29
3.5. FIP OAS EMPREENDIMENTOS.................................................................................49
3.6. SALAS DO EDIFÍCIO OAB.........................................................................................61
3.7. FIP BRASIL PETRÓLEO 1...........................................................................................65
3.8. FIP OPERAÇÕES INDUSTRIAIS................................................................................74
3.9. FIP GLOBAL EQUITY.................................................................................................81
3.10. FIP MULTINER...........................................................................................................89
4. RESPONSABILIDADE CIVIL DA CEF EM RELAÇÃO AOS ATOS DE GESTÃO
TEMERÁRIA/FRAUDULENTA PRATICADOS EM DESFAVOR DA FUNCEF..............108
5. PEDIDO DE ANTECIPAÇÃO DE TUTELA....................................................................114
6. AUDIÊNCIA DE CONCILIAÇÃO....................................................................................116
7. PEDIDOS E REQUERIMENTOS......................................................................................116

O MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL, por seu membro signatário, no uso


de suas atribuições legais e institucionais, com amparo nos arts. 127, caput, e 129, inc. III, da
Constituição Federal; arts. 6º, VII, “d”, Lei Complementar 75/93 e arts. 1º, IV, e 5º, I, da Lei
7.347/85 vem ajuizar AÇÃO CIVIL PÚBLICA COM PEDIDO DE TUTELA
ANTECIPADA em face de

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CAIXA ECONÔMICA FEDERAL (CEF), instituição financeira sob a

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forma de empresa pública federal, inscrita no CNPJ sob o nº
00.360.305/0001-04, com sede no Setor Bancário Sul, Quadra 4, lotes 3 e 4,
CEP 70092-900, Brasília/DF;

com base nos fatos apurados no âmbito da Operação Greenfield que já foram
alvo de denúncia nas ações penais nº 1020180-73.2019.4.01.3400 (FIP CEVIX), 1019222-
24.2018.4.01.3400 (RG ESTALEIROS), 1003326-67.2020.4.01.3400 e 1003120-

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53.2020.4.01.3400 (FIP SONDAS), 1058284-03.2020.4.01.3400 (FIP OAS
EMPREENDIMENTOS), 1023258-12.2018.4.01.3400 (SALAS ED. OAB), 1034846-
45.2020.4.01.3400 (FIP BRASIL PETRÓLEO 1), 1029333-96.2020.4.01.3400 (FIP
OPERAÇÕES INDUSTRIAIS), 1029168-83.2019.4.01.3400 (FIP GLOBAL EQUITY), e
1030054-82.2019.4.01.3400 (FIP MULTINER), e pelas razões de fato e de direito a seguir
expostas.

1. OBJETIVOS DA DEMANDA

A presente ação civil pública tem por objetivo obter a condenação da ré


CAIXA ECONÔMICA FEDERAL (CEF) à obrigação de ressarcir os prejuízos causados à
Fundação dos Economiários Federais (FUNCEF) e, principalmente, a seus participantes e
beneficiários, em razão da conduta de diretores que representavam os interesses políticos da
CEF (patrocinadora do referido fundo de pensão), que possibilitaram, por razões as mais
diversas, que a gestão da Diretoria Executiva dessa fundação fosse realizada não para
maximizar os resultados financeiros que garantiriam a tranquilidade no cumprimento dos
planos de benefício, mas sim para outros fins não legitimados pela ordem jurídica, o que
terminou por resultar no “rombo” das contas da mencionada entidade fechada de previdência
complementar.

Com efeito, ao longo das investigações em curso no bojo da Operação

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Greenfield, foram identificados vários fatos criminosos praticados em desfavor da FUNCEF

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que são causas determinantes (entre outras) do rombo (déficit acumulado) atual deste fundo
de pensão, o qual alcançou, no final de 2016, o total de R$ 18.000.000.000,00 (dezoito
bilhões de reais).
Os crimes identificados na supracitada operação envolveram, em regra,
investimentos temerários ou mesmo fraudulentos praticados por gestores da FUNCEF, os
quais já foram alvo de denúncia em várias ações penais.

No bojo da mencionada Operação Greenfield, chegaram a ser denunciados

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tanto diretores representantes da patrocinadora (Caixa Econômica Federal) quanto dos
participantes (além, é claro, de empresários beneficiados e outros agentes em casos não-
relacionados à FUNCEF). De fato, antes das instruções dos processos criminais, no momento
da formulação das denúncias, levou-se em consideração quem votou pela aprovação dos
investimentos ruinosos, sendo que os diretores representantes dos participantes também
apareceram registrando seus votos favoráveis aos investimentos atacados. Assim, ainda que
tais diretores não fossem diretamente responsáveis pelas áreas de investimento da FUNCEF
(mais sim por áreas de benefícios, assuntos administrativos e controladoria), foram eles
(representantes dos participantes) denunciados porque, como membros da Diretoria
Executiva, também agiram (votaram) em prol das aprovações.
Abra-se aqui um parênteses para explicar como – grosso modo – funcionava a
FUNCEF quando dos fatos denunciados no bojo da Operação Greenfield. A Diretoria
Executiva, que era responsável pela aprovação de grandes investimentos, era composta por
seis membros: três diretores representantes da patrocinadora (CEF) e três diretores
representantes dos participantes. Os representantes da patrocinadora eram diretores que
atuavam diretamente com as matérias de investimento, quais sejam, o diretor-presidente, o
diretor de investimento e o diretor de participações. Já os diretores representantes dos
participantes cuidavam de outras matérias, como “administração” (administração predial,
compras, locações, contratos etc.), benefícios (da previdência complementar) e controladoria.
Estes últimos somente participavam das decisões de investimento quando das reuniões da
Diretoria Executiva, quando então os diretores da patrocinadora (no mais das vezes, o diretor

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de investimentos; em alguns casos, também o diretor de participações) levavam ao colegiado

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da Diretoria Executiva as propostas de milionários ou bilionários investimentos.

Registre-se um detalhe importante: se houvesse empate na votação (por


exemplo, se os diretores dos participantes não concordassem com a proposta de investimento
apoiada pelos diretores da patrocinadora), o diretor-presidente (logo, representante da
patrocinadora) tinha o “voto de minerva”, podendo decidir o assunto em votação. Portanto,
por esse motivo e, principalmente, pelo fato de que eram os diretores da patrocinadora que
atuavam diariamente com as matérias relativas aos investimentos da fundação, pode-se

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afirmar que o protagonismo no processo de investimento era todo da patrocinadora (de seus
representantes). Em razão desse protagonismo, percebe-se que os diretores representantes dos
participantes se faziam presentes nas reuniões da Diretoria Executiva de forma bastante
discreta, claramente confiando na produção e apresentação das propostas levadas pelos
diretores que representavam a patrocinadora, aprovando tais propostas sem um escrutínio
profundo.

O protagonismo da Caixa Econômica Federal na gestão dos recursos


bilionários da FUNCEF é confirmado pelo fato de que, em vários dos investimentos
investigados pela Operação Greenfield (como, por exemplo, o mais ruinoso de todos, o do FIP
Sondas, veículo de investimento na empresa “Sete Brasil”), a gestão e/ou administração do
fundo de investimento que recebia o recurso do referido fundo de pensão era reservada à
própria Caixa Econômica Federal (que ganhava consideráveis taxas de administração por
isso), em claro conflito de interesses entre esse banco público e seus participantes (em favor
de quem a FUNCEF deveria ser gerida).

Outrossim, a Caixa Econômica Federal, como demonstraram outras operações


da Força-Tarefa Greenfield (operações Sépsis e Cui Bono, por exemplo), era um banco
altamente politizado, sendo que os diretores indicados pelo citado banco federal à FUNCEF
eram pessoas com vínculos políticos com os grupos político-partidários que habitavam o
Poder Executivo Federal. Exemplo disso foi o fato de que o ex-presidente da FUNCEF
Guilherme Narciso Lacerda, após sair da presidência desse fundo de pensão em 2010,
candidatou-se ao cargo de deputado federal pelo Partido dos Trabalhadores no Espírito Santo.
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Como terminou não se elegendo, Lacerda foi agraciado com outro cargo de diretor no

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BNDES, já em 2011. Era, portanto, pessoa de confiança da citada agremiação política.

Por outro lado, ao longo das instruções dos processos criminais, percebeu-se
que os diretores dos participantes eram profissionais sem expertise na área de finanças
corporativas, que não atuavam com a área de investimento no dia a dia, e terminaram
“acompanhando” os votos dos diretores da patrocinadora mais por ausência de conhecimento
real do objeto dos investimentos do que por simples e pura má-fé. Quer nos parecer, vendo
retrospectivamente os resultados da Operação Greenfield, que, no caso da FUNCEF, os

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diretores dos participantes agiram com culpa, mas sem dolo, ou ao menos sem prova evidente
de dolo. Corrobora essa percepção aqui registrada o fato de que tais diretores dos participantes
(denunciados em diversos processos criminais da Greenfield) não enriqueceram e
permaneceram com patrimônios modestos, mesmo que suas condutas culposas tenham
favorecido outros agentes que foram beneficiados pelos investimentos aprovados pela
Diretoria Executiva.

Registre-se, igualmente, que, ao constar nas instruções dos processos criminais


essa dúvida concreta sobre o dolo (má-fé) dos diretores dos participantes (mesmo sendo a
culpa manifesta, de toda forma), a FT Greenfield, após os anos iniciais de trabalho, em novas
denúncias que foram sendo apresentadas à Justiça Federal ao longo do tempo, deixou de
denunciar os diretores representantes dos participantes da FUNCEF, pedindo ao juízo, em
cota, o arquivamento parcial em relação a eles, justamente pela dúvida razoável quanto ao
dolo de tais diretores dos participantes.

Atualmente, a perda de recursos com os investimentos ruinosos protagonizados


pela CEF contra a FUNCEF constitui grave problema econômico-financeiro desta última,
para seus participantes e beneficiários e, especialmente, para os aposentados que são
participantes vinculados aos planos de benefícios mais antigos, os quais são atingidos em
grande proporção pelos planos de equacionamento dos déficit acumulados.

Dessa forma, em vez de usufruir integralmente do valor dos rendimentos


após longos anos de contribuição, tais aposentados, em sua velhice, têm parte

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considerável de seus rendimentos comprometida em razão da necessidade de cobrir o

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rombo da FUNCEF.

Em síntese, conforme será demonstrado, a FUNCEF, com pleno conhecimento


e liderança da CEF, foi gerida de forma fraudulenta e temerária, tendo sido feitos
investimentos equivocados que contrariaram princípios básicos da gestão das entidades
fechadas de previdência complementar (EFPC), ocasionando prejuízos milionários para os
planos de previdência geridos pela entidade, e afetando, por conseguinte, milhares de
beneficiários.

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Importa destacar que no âmbito da Operação Greenfield já foram ajuizadas
diversas ações penais que tiveram por objeto os atos de gestão temerária e/ou fraudulenta
praticada em desfavor da FUNCEF, como as seguintes: 1020180-73.2019.4.01.3400 (FIP
CEVIX), 1019222-24.2018.4.01.3400 (RG ESTALEIROS), 1005186-74.2018.4.01.3400 (FIP
ENSEADA), 1003326-67.2020.4.01.3400 e 1003120-53.2020.4.01.3400 (FIP SONDAS),
1058284-03.2020.4.01.3400 (FIP OAS EMPREENDIMENTOS), 1023258-
12.2018.4.01.3400 (SALAS ED. OAB), 1034846-45.2020.4.01.3400 (FIP BRASIL
PETRÓLEO 1), 1029333-96.2020.4.01.3400 (FIP OPERAÇÕES INDUSTRIAIS), 1029168-
83.2019.4.01.3400 (FIP GLOBAL EQUITY), 1033351-97.2019.4.01.3400 (FIP
FLORESTAL) e 1030054-82.2019.4.01.3400 (FIP MULTINER).

Entre os mencionados processos, porém, para os efeitos ressarcitórios desta


ação civil pública, serão excluídos os casos em que já houve reparação integral dos danos em
favor da FUNCEF (casos do FIP Florestal e do FIP Enseada). De fato, ao longo de seu
funcionamento, a Força-Tarefa Greenfield buscou a reparação de danos por parte dos agentes
econômicos (empresários) favorecidos com cada investimento temerário ou fraudulento.
Assim, somente agora se busca a presente reparação para os prejuízos que ainda não foram
objeto de reparação por acordos devidamente já firmados com o MPF e homologados pela
Justiça Federal.

Assim, as tutelas pleiteadas contra a CEF na presente ocasião buscam o


ressarcimento do prejuízo causado à FUNCEF pelos crimes já denunciados no âmbito da

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Operação Greenfield e que ainda não foram reparados à FUNCEF, requerendo-se desde já que

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esses valores sejam utilizados exclusivamente para abater as contribuições extraordinárias que
estão sendo cobradas pela FUNCEF de seus beneficiários, principais vítimas dos delitos
praticados, principalmente as parcelas de equacionamento com vencimento mais próximo.

Antes, porém, de descrever os fatos relacionados às ações penais e passar à


demonstração da responsabilidade da ré, é necessário apontar a competência desse Exmo.
Juízo Federal para processar e julgar o presente feito, assim como a legitimidade de atuação
do MPF.

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2. COMPETÊNCIA DESSE JUÍZO E LEGITIMIDADE ATIVA DO MPF

Pretende-se, como visto, a condenação da CEF na reparação dos danos


materiais causados à FUNCEF pelos delitos praticados pelos dirigentes indicados pela
patrocinadora, referentes aos casos que já foram alvo de denúncia no âmbito da Operação
Greenfield. A indicação da CEF, empresa pública federal, para figurar no polo passivo da
presente demanda atrai a incidência do art. 109, inciso I, da Constituição Federal 1, que aponta
a competência da Justiça Federal para processar e julgar o feito.

Quanto à legitimidade do MPF em figurar no polo ativo deste processo,


salienta-se que o Ministério Público é instituição permanente, essencial à função jurisdicional
do Estado, incumbindo-lhe a defesa da ordem jurídica, do regime democrático e dos interesses
sociais e individuais indisponíveis (art. 127, caput, da Constituição).

No art. 129, inciso III, da Constituição, estão previstas as suas funções


institucionais, dentre as quais “promover o inquérito civil e a ação civil pública, para a
proteção do patrimônio público e social, do meio ambiente e de outros interesses difusos e
coletivos”.

1  Art. 109. Aos juízes federais compete processar e julgar:


I - as causas em que a União, entidade autárquica ou empresa pública federal forem interessadas na condição de
autoras, rés, assistentes ou oponentes, exceto as de falência, as de acidentes de trabalho e as sujeitas à Justiça
Eleitoral e à Justiça do Trabalho;
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Por sua vez, a Lei Complementar nº 75/93 estabelece:

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Art. 6º. Compete ao Ministério Público da União:
(...) VII – promover o inquérito civil e a ação civil pública para:
(...)
d) outros interesses individuais indisponíveis, homogêneos, sociais, difusos e
coletivos;

Desse modo, a legislação pátria, ao passo que atribui ao Ministério Público o


poder-dever de proteger os direitos e interesses difusos e coletivos da sociedade brasileira,

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proporciona aos seus integrantes o acesso ao mecanismo processual criado para tal finalidade,
ou seja, a ação civil pública.
A referida ação está prevista na Lei n.º 7.347/85 (principal lei), com expressa
previsão da legitimidade do Ministério Público para sua promoção no artigo 5.º, I, e destina-
da, conforme o artigo 1.º, a tutelar o meio ambiente, o consumidor, os bens e direitos de valor
artístico, estético, histórico, turístico e paisagístico, a ordem econômica e a economia popular,
a ordem urbanística e qualquer outro interesse difuso ou coletivo.
Logo, considerando que os direitos/interesses que se pretende tutelar por meio
desta ação têm caráter coletivo (ressarcimento do prejuízo causado, principalmente, aos bene-
ficiários da FUNCEF), afigura-se inconteste a legitimidade do presente órgão ministerial em
compor o polo ativo da presente demanda.

3. SÍNTESE DOS FATOS APURADOS

A fim de esclarecer o modo como as escolhas da patrocinadora (CEF) foram


diretamente responsáveis pelos enormes prejuízos causados à FUNCEF, será apresentado a
seguir um breve resumo dos fatos apurados nas ações penais em curso no âmbito da Operação
Greenfield.

3.1. Notas introdutórias sobre a Operação Greenfield


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A Operação Greenfield, deflagrada em 5 de setembro de 2016, tem por escopo
apurar investimentos realizados de forma fraudulenta ou temerária pelas principais entidades
fechadas de previdência complementar (EFPC – ou fundos de pensão) do país. Dentre essas
entidades, destaca-se a FUNCEF (Fundação dos Economiários Federais). Os fatos criminosos
praticados contra a FUNCEF são causa determinante (entre outras) do rombo acumulado atual
desse Fundo de Pensão, rombo esse (déficit acumulado) que alcançou, no final de 2016, o
total de R$ 18.000.000.000,00 (dezoito bilhões de reais).

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Os fatos criminosos que até o momento já foram denunciados na Operação
Greenfield ocorreram entre os anos de 2008 e 2016.

Dos 10 (dez) casos que justificaram a deflagração da Operação Greenfield (ca-


sos FIP Cevix, FIP Multiner, Salas Ed. OAB, FIP Sondas, FIP OAS Empreendimentos, FIP
Enseada, FIP RG Estaleiros, FIP Florestal, INVEPAR e FIP Global Equity), 8 (oito) são relati-
vos a investimentos realizados (de forma temerária ou fraudulenta) pelas EFPC em empresas
por meio de Fundos de Investimento em Participações (FIPs). Em geral, o FIP é instrumento
utilizado pelo investidor institucional (o fundo de pensão) para adquirir, indiretamente, parti-
cipação acionária em empresas (em alguns casos, também debêntures simples ou conversí-
veis, como no FIP Enseada). Dessa forma, em vez do Fundo de Pensão comprar diretamente
as ações da empresa-alvo, ele adquire cotas do FIP, sendo o FIP (como pessoa jurídica) consi-
derado acionista da empresa (ou debenturista).

Além dos 10 primeiros casos investigados, os quais, à exceção do caso INVE-


PAR, já motivaram a denúncia dos diretores da FUNCEF por gestão temerária e/ou fraudulen-
ta (art. 4º, caput e parágrafo único, da Lei nº 7.492/1986) e outros crimes relacionados, as in-
vestigações implementadas trouxeram elementos que levaram a novas denúncias dos diretores
da FUNCEF também com relação aos investimentos realizados no FIP Brasil Petróleo 1 e no
FIP Operações Industriais.

Nos FIPs que são apurados na Operação Greenfield, a temeridade dos investi-
mentos resta claramente demonstrada (inclusive por autos de infração da Superintendência

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Nacional de Previdência Complementar – PREVIC – ou por constatações de relatórios de au-

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ditoria interna ou externa, laudos da Polícia Federal, do MPF e Relatório Final da CPI dos
Fundos de Pensão) pela realização de investimentos açodados, efetivados por resoluções das
diretorias executivas dos fundos de pensão que não respeitaram a necessidade de estudos mais
aprofundados sobre os riscos e retornos possíveis dos investimentos, sem a observância de
normativos inafastáveis do Conselho Monetário Nacional (CMN) e da Comissão de Valores
Mobiliários (CVM) relativamente a investimentos feitos pelas EFPC, bem como os princípios
de segurança, de rentabilidade, de boa governança, dentre outros.

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Em alguns casos, também se observou a adoção de resoluções de diretoria com
base em informações falsas, repassadas dolosamente por algum dos gerentes e diretores de
EFPC investigados na presente Operação Greenfield. Ademais, alguns investimentos foram
precedidos por negociações ilícitas que envolveram o pagamento de propinas, conforme será
descrito ao longo desta petição.

Os crimes praticados dolosamente (em coautoria) contra os fundos de pensão


(aqui, em especial, a FUNCEF) contaram, via de regra, com a participação dolosa (dolo direto
ou eventual) de diversos núcleos criminosos, ou seja, de grupos de pessoas que desempenha-
vam funções distintas necessárias para a consecução da finalidade criminosa de lesar os cofres
dos fundos de pensão e favorecer econômico-financeiramente alguns grupos econômicos e
holdings, ou ao menos de correrem o risco para que tal resultado ocorresse.

Em oito dos dez casos apurados inicialmente na Operação Greenfield, o modus


operandi encontrado é praticamente idêntico. Primeiramente (primeira etapa da via crimino-
sa), decide-se aplicar recursos dos fundos de pensão em empresas com problemas financeiros,
ou cujos riscos de empreendimentos são altos e desproporcionais às expectativas de lucro ,
sendo desaconselháveis os investimentos desde o ponto de vista econômico-financeiro; trata-
se, portanto, de investimentos que não seriam realizados por agentes de mercado sem vínculos
com a atividade criminosa.

Nessa fase, via de regra, são realizadas reuniões e acertados acordos entre o
grupo econômico (do núcleo criminoso empresarial) e diretores presidentes, de participação
ou de investimentos dos Fundos de Pensão, em conjunto – em alguns casos – com autoridades
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políticas que tenham clara ascendência sobre os diretores dos fundos de pensão.

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Num segundo momento, após a decisão prévia de investimento dos fundos de
pensão em empresas do núcleo empresarial, promove-se a formalização do investimento. Nos
mencionados oito casos, em vez de se realizar a aquisição direta de ações e debêntures das
empresas-alvo, é constituído um Fundo de Investimento em Participação. Na grande maioria
dos casos em que o FIP é criado para adquirir participação acionária na empresa- alvo, o pró-
prio FIP torna-se proprietário da empresa; trata-se aqui do chamado “FIP proprietário”. As-
sim, é constituído o FIP, sendo adquiridas cotas inicialmente pelo grupo empresarial, por

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meio do aporte de ativos já pertencentes a este. Após, o valor dessas cotas é reavaliado em ra-
zão de avaliações econômico-financeiras desses ativos - as chamadas valuations. São essas
valuations que permitem o acréscimo de valor das cotas detidas pelo grupo econômico, a fim
de justificar um aporte maior de capital pelo fundo de pensão investidor.

Num terceiro momento da via criminosa, é contratada empresa (cooptada, mui-


tas vezes) para realizar a mencionada valuation de ativos; eis onde atua o núcleo de empresas
avaliadoras. Essas avaliações econômico-financeiras (valuations) são irreais e tecnicamente
irregulares e têm por escopo superestimar o valor dos ativos da empresa, aumentando, de for-
ma artificial, a quantia total que o próprio fundo de pensão precisa pagar para adquirir a parti-
cipação acionária indireta na empresa. A essa ilicitude, cometida em praticamente todos os ca-
sos investigados, denominamos “sobreprecificação”, que é realizada com escopo semelhante
aos conhecidos “superfaturamentos” de obras públicas, em que o valor de uma obra (ou ativo,
no caso da sobreprecificação) é superestimado a fim de justificar um pagamento maior por
parte do Poder Público (ou por parte da EFPC investidora, neste caso).
Nessa valuation, é calculado o valor de cada ativo por meio do cálculo de fluxo
de caixa futuro descontado a valor presente. Esse método, que não é incorreto per se, acaba
sendo manipulado fraudulentamente a fim de: (i) superestimar o fluxo de caixa futuro, por
meio da superestimação de receitas futuras e subestimação de despesas futuras; (ii) escolher
taxa de desconto desproporcional ao risco dos empreendimentos, aos rendimentos de merca-
do livres de risco e ao lucro esperado da atividade; (iii) conferir valor econômico a empreen-
dimentos que só existem como projeto, meramente “no papel” (os chamados “greenfields”).
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Operação Greenfield

Por meio dessa avaliação criminosa – na maioria das vezes, feita de forma camuflada – rea-

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liza-se uma sobreprecificação dos ativos do grupo econômico, que passam a contar com uma
posição em cotas do FIP irreal e desproporcional ao valor real de seus ativos aportados.

Por meio desse esquema, a EFPC paga pelas cotas do FIP mais do que elas de
fato valem, sofrendo, assim, um prejuízo “de partida”, independente do próprio sucesso que
venha a empresa ter no futuro. Nesses mesmos casos, a EFPC investidora, ao reconhecer um
valor irreal da empresa que é alvo do investimento, também acaba prejudicada por não dimen-

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sionar corretamente o potencial de ganho no investimento e os riscos envolvidos no negócio,
terminando por se envolver em empreendimento que não se justifica desde o ponto de vista
econômico, na lógica de custo-benefício.

Num quarto momento do modus operandi constatado, passam a atuar pessoas


ligadas ao núcleo de dirigentes dos Fundos de Pensão. Em especial, são realizados pareceres
por pessoas ligadas às Gerências de Participação, Gerências de Investimentos, Diretorias de
Participação e Diretorias de Investimentos (ou órgãos assemelhados) dos fundos de pensão
vitimados, a fim de levar às Diretorias Executivas das EFPC as propostas de resoluções que
permitirão seus respectivos aportes de capital no FIP.

Nesse momento, os diretores dos fundos de pensão investigados, mesmo sem


os pareceres de governança, jurídicos e/ou de riscos haverem sido adequadamente disponibi-
lizados, decidem em favor dos aportes de capital (em novos FIPs, ou em FIPs existentes, ou
ainda em reestruturações de FIPs existentes). É nesse momento, com os consequentes apor-
tes de capital indevidos nos FIPs, que se consuma a etapa principal da empreitada crimi-
nosa.

Dos integrantes de núcleos criminosos investigados, os autores do crime prin-


cipal que se investigou, no caso (o crime de gestão fraudulenta ou temerária de instituição fi-
nanceira equiparada, previsto no art. 4° da Lei n. 7.492/86) são sempre os diretores (ou pesso-
as com poder de gestão, especialmente os relacionados às atividades de investimento) do fun-
do de pensão; são estes que podem produzir - por ação própria - o ato de investimento fraudu-
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lento ou temerário. Os integrantes dos demais núcleos respondem, em cada caso, na condição

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de participantes do crime.

Os crimes centrais imputados nas ações penais decorrentes da referida


operação são de gestão temerária/fraudulenta de gestão financeira equiparada (art. 4º caput e
parágrafo único, da Lei nº 7.492/86), bem como outros relacionados, que geraram prejuízos
bilionários aos fundos de pensão investidores, dentre os quais a FUNCEF, e,
consequentemente, a seus beneficiários, que têm sofridos descontos mensais para suprir o

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déficit da Fundação.
Todavia, nos casos já denunciados no bojo da Operação Greenfield, foi
possível verificar que, embora todos os diretores denunciados tenham concorrido para a
prática dos delitos, em regra os principais diretores responsáveis pela condução do
investimento até sua realização no âmbito da FUNCEF, por vezes tendo recebido vantagem
indevida para tanto, foram pessoas que haviam chegado ao cargo que ocupavam por indicação
da patrocinadora da Fundação, a CEF, e cuja escolha fora motivada por razões políticas, já
tendo em vista a instrumentalização da FUNCEF em favor de grupos políticos dominantes.
Tal situação é ilustrada pelo fato de que todos os investimentos que originaram
denúncias no âmbito da Operação Greenfield foram conduzidos, dentro da FUNCEF, por
membros de diretorias cuja indicação era prerrogativa da CEF: Diretor-Presidente, Diretor de
Participações Societárias e Imobiliárias (DIPAR) e Diretor de Investimentos (DIRIN).
A fim de aclarar este protagonismo, bem como esclarecer brevemente as
irregularidades que marcaram investimentos da FUNCEF que foram alvo de denúncia na
Operação Greenfield, fatos denunciados na seara criminal serão resumidos nos tópicos
seguintes.

3.2. FIP CEVIX

No bojo da ação penal nº 1020180-73.2019.4.01.3400, foram denunciados


diversos dirigentes da FUNCEF, bem como empresários e particulares, em razão de delitos

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praticados no âmbito do investimento da FUNCEF no FIP CEVIX.

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Acerca das condutas denunciadas, oportuna se faz a transcrição do seguinte
trecho da denúncia:

A partir da referida investigação, foram obtidas provas de que, por meio dos fa-
tos que passaremos a narrar e com as circunstâncias que serão aqui detalhadas, entre
setembro de 2009 e agosto de 2010, nesta capital federal, os acusados DEMÓSTHE-
NES MARQUES (na condição de Diretor de Investimentos da FUNCEF), GUI-
LHERME NARCISO DE LACERDA (na condição de Diretor-Presidente da FUN-
CEF), LUIZ PHILIPPE PERES TORELLY (na condição de Diretor de Participa-
ções Societárias e Imobiliárias da FUNCEF), ANTÔNIO BRÁULIO DE CARVA-

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LHO (na condição de Diretor de Planejamento e Controladoria da FUNCEF), GE-
RALDO APARECIDO DA SILVA (na condição de Diretor de Benefícios, em exercí-
cio, da FUNCEF) e SÉRGIO FRANCISCO DA SILVA (na condição de Diretor de
Administração da FUNCEF), com a participação dos empresários GERSON DE
MELLO ALMADA (ex-vice-Presidente da ENGEVIX), CRISTIANO KOK (sócio
da ENGEVIX/DESENVIX), JOSÉ ANTUNES SOBRINHO (sócio da ENGEVIX/
DESENVIX), bem como de ROBERTO CARLOS MADOGLIO (ex-Superinten-
dente Nacional de Fundos de Investimentos Especiais da Caixa, vinculado à Vice-Pre-
sidência de Gestão de Ativos de Terceiros da Caixa Econômica Federal), geriram de
forma fraudulenta a Fundação dos Economiários Federais (FUNCEF) - Fundo de Pen-
são dos funcionários da Caixa Econômica Federal (CEF) - para permitir a aprova-
ção do primeiro aporte de capital da FUNCEF, bem como realizar efetivamente
tal aporte, no montante de R$ 260.670.000,00, em favor da Cevix Energias Renová-
veis S/A, por meio do Fundo de Investimentos em Participações Cevix (FIP CE-
VIX), em parceria com a Desenvix Energias Renováveis S/A (empresa controlada pela
Engevix S/A e que hoje pertence a Statkraft Energias Renováveis S/A), sem a obser-
vância dos deveres de diligência (ausência de pareceres das áreas técnicas da FUN -
CEF conforme previa a Circular Normativa IF 010 02 do Fundo de Pensão) e por
meio da utilização de documentos fraudulentos elaborados pela UPSIDE FINANÇAS
CORPORATIVAS LTDA que avaliaram, de forma superestimada, no valor de R$
782.001.000,00, os empreendimentos aportados pela parceira Desenvix no FIP CEVIX
(beneficiando os sócios/controladores da holding Jackson), em flagrante prejuízo para
a FUNCEF, que acabou por despender recursos incompatíveis com o valor econômico
dos ativos cuja participação acionária adquiriu.
O valor do prejuízo acumulado com essa operação criminosa, até 13 de ju-
lho de 2015, considerando as metas atuariais da FUNCEF, é, segundo laudo peri-
cial da Polícia Federal (laudo pericial n° 317/2017-SETEC/SR/PF/ES), de, no
mínimo, R$ 402.000.000,00 (quatrocentos e dois milhões de reais).
Outrossim, ainda na primeira fase de aportes de capital no FIP CEVIX, DE-
MÓSTHENES MARQUES (na condição de Diretor de Investimentos da FUNCEF),
GUILHERME NARCISO DE LACERDA (na condição de Diretor-Presidente da
FUNCEF), LUIZ PHILIPPE PERES TORELLY (na condição de Diretor de Partici-
pações Societárias e Imobiliárias da FUNCEF), ANTÔNIO BRÁULIO DE CARVA-
LHO (na condição de Diretor de Planejamento e Controladoria da FUNCEF), GE-
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RALDO APARECIDO DA SILVA (na condição de Diretor de Benefícios, em exercí-

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cio, da FUNCEF) e SÉRGIO FRANCISCO DA SILVA (na condição de Diretor de
Administração da FUNCEF), com a participação de ROBERTO CARLOS MADO-
GLIO (ex-Superintendente Nacional de Fundos de Investimentos Especiais da Caixa,
vinculado à Vice-Presidência de Gestão de Ativos de Terceiros da Caixa Econômica
Federal), desviaram, em proveito de GERSON DE MELLO ALMADA (ex-vice-
Presidente da ENGEVIX), CRISTIANO KOK (sócio da ENGEVIX/DESENVIX) e
JOSÉ ANTUNES SOBRINHO (sócio da ENGEVIX/DESENVIX) os valores a mai-
or (no total de R$ 63.209.000,00 - valor histórico do pagamento a maior feito pela
FUNCEF no FIP CEVIX) que foram indevidamente investidos no Fundo de Investi-
mentos em Participações Cevix (FIP Cevix) pela FUNCEF, em flagrante benefício
aos referidos sócios da empresa Desenvix Energias Renováveis S/A (empresa contro-
lada pela Engevix S/A e que hoje pertence a Statkraft Energias Renováveis S/A).

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Igualmente, os mesmos acusados DEMÓSTHENES MARQUES (na condição
de Diretor de Investimentos da FUNCEF), GUILHERME NARCISO DE LACER-
DA (na condição de Diretor-Presidente da FUNCEF), LUIZ PHILIPPE PERES TO-
RELLY (na condição de Diretor de Participações Societárias e Imobiliárias da FUN-
CEF), ANTÔNIO BRÁULIO DE CARVALHO (na condição de Diretor de Planeja-
mento e Controladoria da FUNCEF), GERALDO APARECIDO DA SILVA (na con-
dição de Diretor de Benefícios, em exercício, da FUNCEF) e SÉRGIO FRANCISCO
DA SILVA (na condição de Diretor de Administração da FUNCEF), em consórcio
com ROBERTO CARLOS MADOGLIO (ex- Superintendente Nacional de Fundos
de Investimentos Especiais da Caixa, vinculado à Vice- Presidência de Gestão de Ati-
vos de Terceiros da Caixa Econômica Federal), promoveram a negociação de cotas
de fundo de investimento (FIP CEVIX) sem lastro econômico, por meio a subscri-
ção pela FUNCEF de cotas, no valor de R$ 260.670.000,00, emitidas pela Assembleia
Geral do FIP CEVIX sem que, repita-se, houvesse lastro e/ou garantia suficientes
para um futuro resgate.
(...)
Outrossim, no período 26 de outubro de 2009 a 3 de novembro de 2010, por
quatro vezes, a pretexto de influir no processo de liberação dos aportes realizados
pela FUNCEF no FIP CEVIX e no FIP RG Estaleiros, os acusados MILTON PAS-
COWITCH e JOÃO VACCARI NETO solicitaram e receberam de GERSON DE
MELLO ALMADA, CRISTIANO KOK e JOSÉ ANTUNES SOBRINHO a quan-
tia acumulada de R$ 5.953.500,00 (líquido de R$ 5.587.359,75, após os impostos), a
fim de garantir a conclusão dos aportes realizados pela FUNCEF nos FIP CEVIX, FIP
Desenvix e FIP RG Estaleiros (o investimento da FUNCEF nesse último FIP ainda
será objeto de futura ação penal por parte deste órgão acusador), recursos que deveri -
am ser destinados ao Partido dos Trabalhadores. Tais pagamentos foram realizados de
forma dissimulada, a fim de ocultar a natureza ilícita dos recursos pagos.
Finalmente, em setembro de 2010, já ciente dos apontamentos da área de risco e
das pendências apontadas pela área jurídica, por meio de voto elaborado por LUIZ
PHILIPPE PERES TORELLY (na condição de Diretor de Participações Societá-
rias e Imobiliárias da FUNCEF), os diretores da FUNCEF - mais uma vez descum-
prindo os deveres de diligência ordinários impostos aos gestores de entidades
equiparadas a instituições financeiras - e CARLOS ALBERTO CASER (que era
anteriormente Diretor de Benefícios e então assumiu a Presidência da Diretoria Execu-
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tiva da FUNCEF), DEMÓSTHENES MARQUES (na condição de Diretor de Inves-

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timentos), ANTÔNIO BRÁULIO DE CARVALHO (na condição de Diretor de Pla-
nejamento e Controladoria) e JOSÉ CARLOS ALONSO GONÇALVES (na condi-
ção de Diretor de Benefícios), aprovaram, de forma temerária, a participação da
FUNCEF no processo de reestruturação societária da Desenvix e o aporte de mais
R$ 80.000.000,00 no Caixa FIP Desenvix, sem nenhuma exigência ou ressalva para
que fossem atendidas as exigências da área jurídica ou mitigados os riscos apontados.

Nesse contexto, as condutas cuja prática foi denunciada no bojo da ação penal
nº 1020180-73.2019.4.01.3400 foram gestão fraudulenta e gestão temerária (art. 4º, caput e

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parágrafo único, da Lei nº 7.492/1986), desvio de valores em proveito próprio e/ou alheio (art.
5º da Lei nº 7.492/1986), negociação de títulos ou valores mobiliários sem lastro (art. 7º,
inciso III, da Lei nº7.492/1986), tráfico de influência (art. 332 do Código Penal) e lavagem de
capitais (art. 1º da Lei nº 9.613/98).
Os principais elementos que embasaram a denúncia foram produzidos pela
PREVIC (responsável pelo Auto de Infração nº 2/2016-01), pela Receita Federal, pela
FUNCEF e também pela Polícia Federal (laudo pericial nº 317/2017-SETEC/SR/PF/ES).
Em suma, a denúncia relata que em 2008 a FUNCEF iniciou as tratativas para
constituir, com a empresa DESENVIX S/A (controlada pelo grupo ENGEVIX – holding
JACKSON EMPREENDIMENTOS S.A.), uma nova empresa no ramo elétrico, denominada
CEVIX Energias Renováveis S.A, que receberia os investimentos da FUNCEF e da
DESENVIX por meio do FIP CEVIX.
Conforme relatado na denúncia, DEMÓSTHENES MARQUES já conhecia
anteriormente JOSÉ ANTUNES SOBRINHO, sócio da ENGEVIX/DESENVIX, em razão de
tratativas negociais anteriores, e foi quem sugeriu a parceria da FUNCEF com o grupo
ENGEVIX.
Para garantir os aportes da FUNCEF no FIP CEVIX, no FIP DESENVIX e no
FIP RG Estaleiros (que foi objeto de outra ação penal, de nº 1019222-24.2018.4.01.3400), no
período de 26 de outubro de 2009 a 3 de novembro de 2010, MILTON PASCOWITCH e
JOÃO VACCARI NETO, por quatro vezes, solicitaram e receberam de GERSON DE
MELLO ALMADA, CRISTIANO KOK e JOSÉ ANTUNES SOBRINHO a quantia

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acumulada de R$ 5.953.500,00 (líquido de R$ 5.587.359,75, após os impostos), via

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pagamentos simulados da ENGEVIX ENGENHARIA S/A à JAMP ENGENHEIROS
ASSOCIADOS S/C, recursos que deveriam ser destinados ao Partido dos Trabalhadores, a
pretexto de influir na aprovação dos investimentos e liberação dos aportes pela FUNCEF. Por
esta razão, MILTON PASCOWITCH e JOÃO VACCARI NETO foram denunciados pela
prática do art. 332 do Código Penal (tráfico de influência) e, juntamente com GERSON DE
MELLO ALMADA, CRISTIANO KOK e JOSÉ ANTUNES SOBRINHO, foram
denunciados também pela prática de lavagem de capitais (art. 1º da Lei nº 9.613/1998).

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Antes da realização dos aportes pela FUNCEF, foi contratada, em dezembro de
2009, a UPSIDE FINANÇAS CORPORATIVAS LTDA (cujo sócio-diretor era Humberto
Bezerril Gargiulo), para avaliar os ativos que seriam aportados pela DESENVIX no FIP
CEVIX, e a partir daí contabilizar o valor que seria aportado pela FUNCEF, tendo em vista
que a ideia original, para constituir o capital do FIP, era que a DESENVIX aportaria R$
600.000.000,00, na forma de ativos, valor que deveria corresponder a 75% do que se
pretendia aportar; e a FUNCEF aportaria R$ 200.000.000,00, que corresponderia aos outros
25% do patrimônio do FIP.
A empresa UPSIDE avaliou 13 empreendimentos da DESENVIX, sendo 5
classificados como brownfield (empreendimentos já construídos e operando) e 8 classificados
como greenfield (empreendimentos ainda em construção ou apenas projetos, ou seja, que não
estavam em fase operacional). Conforme narrou a denúncia, os relatórios de avaliação da
UPSIDE foram confeccionados de modo a supervalorizar os mencionados empreendimentos,
que a DESENVIX aportaria no FIP CEVIX, de modo a beneficiar os sócios/controladores da
DESENVIX, GERSON DE MELLO ALMADA, CRISTIANO KOK e JOSÉ ANTUNES
SOBRINHO.
A denúncia relata que a supervalorização ocorreu, em linhas gerais, porque a
Upside, ao precificar os ativos avaliados, considerou taxas de desconto irreais e tecnicamente
indevidas, conforme demonstrou o Laudo Pericial nº 317/2017-SETEC/SR/PF/ES, o PA
GEAUD 001/15, da FUNCEF, e o Auto de Infração nº 02/16-01, da PREVIC).
Conforme ressaltado na denúncia (cópia anexa), a FUNCEF aceitou como

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preço justo dos ativos da DESENVIX o valor de R$ 782.001.000,00, consideravelmente

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superior ao valor inicialmente previsto, em acordo, entre a FUNCEF e a DESENVIX.
Ademais caso fossem realizados os ajustes indicados pelos relatórios periciais colhidos ao
longo das investigações, a precificação total dos ativos seria de R$ 592.374.000,00, ou seja,
um preço final menor em R$ 189.627.000,00 do que foi acolhido pela FUNCEF, de modo que
o valor aplicado pela FUNCEF no FIP CEVIX deveria ter sido R$ 63.209.000,00, menor do
que foi efetivamente aplicado.
Com efeito, a escolha da taxa de desconto indevida foi o fator essencial para

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sobreprecificação final dos ativos aportados pela DESENVIX na CEVIX, pois foi aplicada a
taxa de desconto de 6,42%, que era inferior ao próprio rendimento livre de risco do momento
(NTN-B, a qual, sem risco, remunerava o capital próprio em IPCA + 7,13%), o que significa
dizer que quando a FUNCEF decidiu por aceitar essa taxa de desconto, terminava por decidir
que o investimento na DESENVIX seria menos arriscado do que a aplicação de recursos em
títulos públicos federais, um verdadeiro absurdo do ponto de vista técnico.
Salienta-se que a avaliação também não considerou inúmeros riscos reais dos
empreendimentos, conforme exaustivamente detalhado na denúncia. Ao subestimar os riscos
dos empreendimentos, o laudo da empresa UPSIDE facilitou a superestimação dos ativos ava-
liados e justificou um aporte de recursos pela FUNCEF bastante acima do que seria razoável
sob as bases econômicas, jurídicas e financeiras do momento. Além disso, a sobrevalorização
dos ativos e o subdimensionamento dos riscos terminou por esconder a baixa atratividade do
investimento, o qual deveria, sob uma lógica exclusivamente econômica, ser rechaçado pela
FUNCEF, inclusive porque estavam à sua disposição, naquele momento, títulos federais de
renda fixa que remuneravam o capital próprio em IPCA mais 7,13% a.a., sem nenhum risco, o
que superava a meta atuarial da EFPC.

Apesar de estar ciente disso, Fábio Maimoni Gonçalves, da FUNCEF, elabo-


rou o PA CODEN 003/09, de 3 de setembro de 2009, favorável ao investimento a ser realiza-
do pela FUNCEF. Todavia, conforme foi identificado ao longo das investigações, as conclu-
sões de seu parecer foram determinadas pela ordem de seu superior hierárquico DEMÓSTHE-
NES MARQUES, visando fundamentar as condições preestabelecidas que seriam registradas
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no VO DIRIN 025/09, elaborado por DEMÓSTHENES MARQUES.

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Em seguida, o Diretor de Investimentos DEMÓSTHENES MARQUES, res-
ponsável por conduzir todo o processo relacionado ao primeiro aporte de capital no FIP CE-
VIX e levá-lo à Diretoria da FUNCEF, elaborou o Voto DIRIN 25/2009 recomendando a
aprovação da participação da FUNCEF no FIP CEVIX, com o valor de até R$
260.670.000,00, limitado a 25% do patrimônio do Fundo.

Assim, em 15 de setembro de 2009, por meio da Resolução/Ata 220/948, e

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com base no voto de DEMÓSTHENES, a Diretoria Executiva da FUNCEF, formada por
GUILHERME LACERDA, DEMÓSTHENES MARQUES, LUIZ PHILIPPE PERES TO-
RELLY, ANTÔNIO BRÁULIO DE CARVALHO, GERALDO APARECIDO DA SILVA e
SÉRGIO FRANCISCO DA SILVA, aprovou a participação da FUNCEF no FIP CEVIX, me-
diante a aquisição de 25% do patrimônio total do FIP. Este ato caracterizou gestão fraudulen-
ta, conforme já detalhado na denúncia (cópia anexa), uma vez que a Diretoria Executiva da
FUNCEF ratificou os artifícios engenhados no relatório da UPSIDE, que sobreprecificaram os
ativos da DESENVIX, e permitiram a realização de um negócio extremamente desvantajoso
para a FUNCEF.

Ademais, como resultado da avaliação superfaturada dos ativos, o valor das


cotas do FIP CEVIX aumentou de R$ 1,00 (um real) para R$ 4,52 (quatro reais e cinquenta e
dois centavos), e por este valor foram emitidas 57.666.314 novas cotas, de modo que tal emis-
são foi feita sem lastro e garantia suficientes, representando grande prejuízo para a FUNCEF,
pois os proprietários da CEVIX haviam investido o equivalente a cerca de R$ 173.000.000,00
(em valores contábeis) em ativos da empresa por uma participação de 75% das cotas do FIP,
enquanto a FUNCEF, que aportou após o aumento do valor das cotas, investiu R$
260.670.000,00 para adquirir apenas 57.666.314 cotas, que equivaliam a uma participação de
25% do FIP. Por esta razão, a denúncia também imputou aos investigados a prática do delito
do art. 7º, inciso III, da Lei nº 7.429/86.

Outrossim, a denúncia apontou a prática de gestão temerária (art. 4º, parágrafo

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único, da Lei nº 7.492/1986) por DEMÓSTHENES MARQUES, GUILHERME LACERDA,

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LUIZ PHILIPPE TORELLY, ANTÔNIO BRÁULIO DE CARVALHO,GERALDO
APARECIDO DA SILVA e SÉRGIO FRANCISCO DA SILVA no contexto da aprovação do
investimento no FIP CEVIX, em razão da ausência de realização de due diligence antes da
aprovação do investimento, bem como por violação de normas internas da FUNCEF (circular
normativa IF 010 02) que regulavam o processo de investimento, notadamente com relação à
ausência de pareceres necessários de outros setores da Fundação previamente à decisão de
investimento, bem como por terem sido ignorados pareceres produzidos por setores internos

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da Fundação que apresentavam óbices ao investimento.
Como resultado das supracitadas irregularidades, a FUNCEF pagou o valor
mínimo de R$ 63.209.000,00 (valores históricos) a mais pelos ativos adquiridos do que era
seu real valor, gerando assim o enriquecimento indevido da holding Jackson (grupo
ENGEVIX/DESENVIX), de modo que a denúncia imputou a DEMÓSTHENES MARQUES,
GUILHERME LACERDA, LUIZ PHILIPPE TORELLY, ANTÔNIO BRÁULIO DE
CARVALHO, GERALDO APARECIDO DA SILVA e SÉRGIO FRANCISCO DA SILVA,
com a participação de ROBERTO CARLOS MADOGLIO, GERSON DE MELLO
ALMADA, CRISTIANO KOK e JOSÉ ANTUNES SOBRINHO, a prática do delito previsto
no art. 5º da Lei nº 7.492/1986 (desvio de valores em proveito próprio ou alheio),
considerando que os valores superfaturados indevidamente investidos no FIP CEVIX
beneficiaram indevidamente os sócios da empresa DESENVIX, GERSON DE MELLO
ALMADA, CRISTIANO KOK e JOSÉ ANTUNES SOBRINHO.
A denúncia também apontou nova prática de gestão temerária da FUNCEF,
pelos gestores CARLOS ALBERTO CASER, DEMÓSTHENES MARQUES, LUIZ
PHILIPPE TORELLY, ANTÔNIO BRÁULIO DE CARVALHO e JOSÉ CARLOS ALONSO
GONÇALVES, por ocasião da aprovação de um novo aporte da FUNCEF, no valor de R$
80.000.000,00, no CAIXA FIP DESENVIX, em 28 de setembro de 2010, por meio da Ata de
Reunião Ordinária da Diretoria Executiva nº 997, durante o processo de reestruturação
societária da empresa DESENVIX, novamente sem observar os deveres de due diligence e as
disposições da Circular Normativa IF 010 02, da FUNCEF, e mesmo os deveres gerais de

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diligência exigíveis de todo dirigente de boa-fé.

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O valor do prejuízo acumulado com o investimento realizado no FIP CEVIX
que resultou dos delitos ora narrados alcançou, até 13 de julho de 2015, considerando as
metas atuariais da FUNCEF, o valor mínimo de R$ 402.000.000,00 (quatrocentos e dois
milhões de reais), segundo laudo pericial da Polícia Federal (laudo pericial nº 317/2017 –
SETEC/SR/PF/ES).
Da análise dos fatos relatados, verifica-se que, não obstante todos os diretores
da FUNCEF que foram denunciados tenham efetivamente concorrido para a prática dos

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delitos, DEMÓSTHENES MARQUES, Diretor de Investimentos, foi quem conduziu todo o
processo relacionado ao primeiro aporte de capital no FIP CEVIX, e o levou à Diretoria
Executiva por meio do voto VO DIRIN 025/09. Ademais, seu voto foi baseado no PA
CODEN 003/09, elaborado por Fábio Maimoni, o qual, entretanto, relatou que as conclusões
de seu parecer foram determinadas por ordem de DEMÓSTHENES MARQUES, seu superior
hierárquico, o qual, conforme narrado na denúncia, já conhecia anteriormente JOSÉ
ANTUNES SOBRINHO, sócio da ENGEVIX/DESENVIX.
Desse modo, conquanto os demais diretores tenham concorrido diretamente
para prejuízos causados à FUNCEF ao acolher os posicionamentos de DEMÓSTHENES
MARQUES em seus votos favoráveis ao investimento, verifica-se que o mencionado diretor
teve, neste investimento, uma posição de protagonismo.
Ressalta-se que todas as ilicitudes apontadas já foram amplamente detalhadas
na denúncia que inaugurou a ação penal nº 1020180-73.2019.4.01.3400, cuja cópia segue
anexa a esta petição.

3.3. FIP RG ESTALEIROS

Na ação penal nº 1019222-24.2018.4.01.3400, foram denunciados diversos


dirigentes da FUNCEF, bem como empresários e particulares, em razão de delitos praticados
no âmbito do investimento da FUNCEF no FIP RG ESTALEIROS.
Acerca das condutas denunciadas, oportuna se faz a transcrição do seguinte
trecho da denúncia:
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A partir da referida investigação, foram obtidas provas de que, por meio dos
fatos que passaremos a narrar e com as circunstâncias que serão aqui detalhadas, entre
dezembro de 2009 e agosto de 2012, nesta capital federal, os acusados CARLOS
ALBERTO CASER (na condição de Diretor-Presidente da FUNCEF),
DEMÓSTHENES MARQUES (na condição de Diretor de Investimentos da
FUNCEF), LUIZ PHILIPPE PERES TORELLY (na condição de Diretor de
Participações Societárias e Imobiliárias da FUNCEF), JOSÉ CARLOS ALONSO
GONÇALVES (na condição de Diretor de Benefícios da FUNCEF) e JOSÉ LINO
FONTANA (na condição de Diretor de Planejamento e Controladoria, em exercício),
com a participação dos empresários GERSON DE MELLO ALMADA (ex-vice-
Presidente da ENGEVIX), CRISTIANO KOK (sócio da ENGEVIX/DESENVIX),
JOSÉ ANTUNES SOBRINHO (sócio da ENGEVIX/DESENVIX) e WALTER

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TORRE JÚNIOR (WTORRE ENGENHARIA E CONSTRUÇÃO S.A.), geriram de
forma fraudulenta a Fundação dos Economiários Federais (FUNCEF) - Fundo de
Pensão dos funcionários da Caixa Econômica Federal (CEF) - para permitir a
aprovação do aporte de capital da FUNCEF, bem como realizar efetivamente tal
aporte, no montante de R$ 141.100.000,00 (cento e quarenta e um milhões e cem
mil reais), em favor dos empreendimentos Estaleiro Rio Grande I (ERG I) e do
Estaleiro Rio Grande II (ERG Rio Grande II), por meio do Fundo de Investimentos
em Participações RG Estaleiros, em parceria com a ECOVIX - Engevix Construções
Oceânicas (empresa controlada pela Engevix S/A), sem a observância dos deveres de
diligência (ausência de observância de pareceres das áreas técnicas da FUNCEF
conforme previa a Circular Normativa IF 010 02 do Fundo de Pensão) e por meio
da utilização de documentos fraudulentos elaborados pela RIO BRAVO PROJECT
FINANCE ASSESSORIA EMPRESARIAL LTDA. que avaliaram, de forma
superestimada, no valor de R$ 448.500.000,00, os empreendimentos Estaleiro Rio
Grande I (ERG I) e Estaleiro Rio Grande II (ERG Rio Grande II), adquiridos da
empresa Wtorre Engenharia e Construção S.A (beneficiando, portanto, os sócios da
Wtorre e da ECOVIX), em flagrante prejuízo para a FUNCEF, que acabou por
despender recursos incompatíveis com o valor econômico dos ativos cuja participação
acionária adquiriu.
Outrossim, os denunciados CARLOS ALBERTO CASER (na condição de Di-
retor-Presidente da FUNCEF), DEMÓSTHENES MARQUES (na condição de Dire-
tor de Investimentos da FUNCEF), LUIZ PHILIPPE PERES TORELLY (na condi-
ção de Diretor de Participações Societárias e Imobiliárias da FUNCEF), JOSÉ CAR-
LOS ALONSO GONÇALVES (na condição de Diretor de Benefícios da FUNCEF) e
JOSÉ LINO FONTANA (na condição de Diretor de Planejamento e Controladoria,
em exercício), com a participação de VITOR HUGO DOS SANTOS PINTO (ex-
Gerente Nacional de Fundos de Habitação da Caixa Econômica Federal), desviaram,
em proveito de WALTER TORRES JÚNIOR (WTORRE ENGENHARIA E
CONSTRUÇÃO S.A.), GERSON DE MELLO ALMADA (ex- vice-Presidente da
ENGEVIX), CRISTIANO KOK (sócio da ENGEVIX/DESENVIX) e JOSÉ ANTU-
NES SOBRINHO (sócio da ENGEVIX/DESENVIX) os valores a maior (no total de
R$ 132.875.000,00 - valor histórico do pagamento a maior feito pela FUNCEF no FIP
RG Estaleiros) que foram indevidamente investidos no Fundo de Investimentos em
Participações RG Estaleiros pela FUNCEF, em flagrante benefício aos referidos só-
cios das empresas ECOVIX e WTORRE.
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Igualmente, os mesmos acusados CARLOS ALBERTO CASER (na condição

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de Diretor-Presidente da FUNCEF), DEMÓSTHENES MARQUES (na condição de
Diretor de Investimentos da FUNCEF), LUIZ PHILIPPE PERES TORELLY (na
condição de Diretor de Participações Societárias e Imobiliárias da FUNCEF), JOSÉ
CARLOS ALONSO GONÇALVES (na condição de Diretor de Benefícios da FUN-
CEF) e JOSÉ LINO FONTANA (na condição de Diretor de Planejamento e Contro-
ladoria, em exercício), em consórcio com VITOR HUGO DOS SANTOS PINTO
(ex-Gerente Nacional de Fundos de Habitação da Caixa Econômica Federal), promo-
veram a negociação de cotas de fundo de investimento (FIP RG Estaleiros) sem
lastro econômico, por meio da subscrição pela FUNCEF de cotas, no valor de R$
141.100.000,00 (cento e quarenta e um milhões e cem mil reais), emitidas pela As-
sembleia Geral do FIP RG Estaleiros sem que, repita-se, houvesse lastro e/ou garan-
tia suficientes para um futuro resgate.

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Nesse contexto, as condutas cuja prática foi denunciada no bojo da ação penal
nº 1019222-24.2018.4.01.3400) foram gestão fraudulenta e gestão temerária (art. 4º, caput e
parágrafo único, da Lei nº 7.492/1986), desvio de valores em proveito próprio e/ou alheio (art.
5º da Lei nº 7.492/1986) e negociação de títulos ou valores mobiliários sem lastro (art. 7º,
inciso III, da Lei nº7.492/1986).
Em suma, a denúncia relata que o FIP RG Estaleiros fora criado para investir
na empresa RG Estaleiros S.A., que por sua vez fora criada para adquirir, da empresa
WTORRE ENGENHARIA E CONSTRUÇÃO S.A, o controle acionário dos
empreendimentos denominados Estaleiro Rio Grande 1 (ERG 1) e Estaleiro Rio Grande 2
(ERG 2), que anteriormente eram denominados WTORRE ERG. EMPREENDIMENTOS
NAVAIS E PORTUÁRIOS S.A. e WTORRE ÓLEO E GÁS CONSTRUÇÕES NAVAIS S.A.,
respectivamente.
O grupo WTORRE vendeu estaleiros para a empresa ENGEVIX, que atraiu a
FUNCEF em 2010 para ser sua sócia, por meio do FIP RG Estaleiros. Assim, o FIP RG
Estaleiros tinha como cotistas a empresa ECOVIX (ENGEVIX CONSTRUÇÕES
OCEÂNICAS S/A), com 75% de participação, e a FUNCEF, com 25% de participação.
Para garantir os aportes da FUNCEF no FIP RG Estaleiros, bem como no FIP
DESENVIX e no FIP CEVIX (que foi objeto de outra ação penal, de nº 1020180-
73.2019.4.01.3400), no período de 26 de outubro de 2009 a 3 de novembro de 2010, MILTON
PASCOWITCH e JOÃO VACCARI NETO, por quatro vezes, solicitaram e receberam de
GERSON DE MELLO ALMADA, CRISTIANO KOK e JOSÉ ANTUNES SOBRINHO a
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quantia acumulada de R$ 5.953.500,00 (líquido de R$ 5.587.359,75, após os impostos), via

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pagamentos simulados da ENGEVIX ENGENHARIA S/A à JAMP ENGENHEIROS
ASSOCIADOS S/C, recursos que deveriam ser destinados ao Partido dos Trabalhadores, a
pretexto de influir na aprovação dos investimentos e liberação dos aportes pela FUNCEF. Por
esta razão, MILTON PASCOWITCH e JOÃO VACCARI NETO foram denunciados, no bojo
da ação penal nº 1020180-73.2019.4.01.3400, pela prática do art. 332 do Código Penal
(tráfico de influência) e, acompanhado de GERSON DE MELLO ALMADA, CRISTIANO
KOK e JOSÉ ANTUNES SOBRINHO, foram denunciados também, naquela ação penal, pela

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prática de lavagem de capitais (art. 1º da Lei nº 9.613/1998).
No início do investimento no FIP RG Estaleiros, a FUNCEF e a ECOVIX
contrataram em conjunto, pelo valor total de R$ 360.157,57, a empresa RIO BRAVO
PROJECT FINANCE ASSESSORIA EMPRESARIAL LTDA para fazer a avaliação
econômica dos empreendimentos ERG 1 e ERG 2. O processo de seleção da empresa
avaliadora foi conduzido pela Coordenação de Desenvolvimento de Negócios (CODEN),
vinculada à Diretoria de Investimentos (DIRIN), da FUNCEF.
No entanto, conforme foi ressaltado na denúncia, o relatório elaborado pela
RIO BRAVO PROJECT foi irregularmente confeccionado de modo a supervalorizar os
empreendimentos que seriam adquiridos pela FUNCEF e pela ECOVIX, beneficiando
WALTER TORRE JÚNIOR, sócio da WTORRE, bem como os sócios/controladores da
ECOVIX, GERSON ALMADA, CRISTIANO KOK e JOSÉ ANTUNES SOBRINHO, já que
como resultado do sobrepreço a FUNCEF teve que despender mais dinheiro para constituição
do FIP RG Estaleiros.
A denúncia relata que a supervalorização ocorreu, em linhas gerais, porque a
RIO BRAVO PROJECT, ao precificar os ativos avaliados, considerou as mesmas taxas de
desconto para ambos os projetos, ERG 1 e ERG 2, sendo que os empreendimentos estavam
em fases completamente distintas de desenvolvimento, uma vez que o ERG1 estava para
entrar em operação e o ERG2 possuía apenas o terreno e sequer tinha as licenças necessárias à
entrada em operação. Assim, a denúncia apontou que foram desconsiderados os riscos que
envolviam cada empreendimento a ser investido.

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Ademais, a RIO BRAVO PROJECT apresentou cinco cenários distintos para

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precificação do ERG1 e ERG2, sendo que alguns atribuíam inclusive valores negativos aos
estaleiros, mas o cenário escolhido para ser considerado foi o que era mais desfavorável para
as compradoras, denominado Engevix B, no qual o ERG1 foi precificado em R$ 262,1
milhões e o ERG2 em R$ 186,4 milhões de reais. Dentre as premissas utilizadas, a denúncia
chama a atenção para a escolha de projeções de receitas e despesas dos estaleiros com base
em empresas globais de construção naval que estavam entre as maiores do mundo, o que não
se aplicaria na situação avaliada, considerando que nem a FUNCEF nem a ENGEVIX

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possuíam experiência prévia na área de estaleiros.
Outrossim, o cálculo do valor da empresa equiparou o risco de um
investimento no Brasil ao risco de um investimento nos Estados Unidos, desconsiderando as
particularidades do mercado nacional e o impacto disto nos riscos do investimento. Nesse
sentido, a denúncia ressalta que, segundo relatório elaborado pela Força Tarefa da Caixa
Econômica Federal, caso considerados todos os ajustes necessários, o valor total de avaliação
indicado pela RIO BRAVO PROJECT, de R$ 448,5 milhões, seria reduzido para R$ 32,9
milhões.
As fragilidades identificadas no relatório elaborado pela RIO BRAVO
PROJECT já foram amplamente detalhadas na denúncia que inaugurou a ação penal nº
1019222-24.2018.4.01.3400, cuja cópia segue anexa, na qual restou esclarecido também que
as premissas utilizadas pela RIO BRAVO PROJECT haviam sido fornecidas pela ENGEVIX.
Salienta-se que, em depoimento prestado por WALTER TORRE JÚNIOR à
Polícia Federal e mencionado na denúncia, o denunciado afirmou que a WTORRE
inicialmente precificara os estaleiros em R$ 280 milhões, e que estava aceitando levar um
pouco de prejuízo, pois era um negócio sem futuro. Tal situação ressalta ainda mais a
fragilidade da avaliação elaborada pela RIO BRAVO PROJECT, que avaliou os
empreendimentos em R$ 448,5 milhões.
De posse da avaliação, a FUNCEF deu continuidade a seu processo interno de
análise do investimento, que foi conduzido pela CODEN, cujo coordenador era Fábio
Maimoni Gonçalves. Por meio do PA CODEN 004/10, de 31/05/2010, foi apresentado à

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DIRIN o negócio de compra dos estaleiros, que não mencionou o possível impacto dos riscos

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do investimento.
Outrossim, a denúncia ressalta que não foi analisado o possível conflito de
interesses com relação à RIO BRAVO PROJECT, tendo em vista que ela pertencia ao grupo
Rio Bravo, que era investidor majoritário no estaleiro ERG1 por meio do Fundo de
Investimento Imobiliário Rio Bravo Logística.
Assim, desconsiderando os riscos do negócio, e inclusive recomendações
apontadas por Grupo Técnico de Investimentos reunido pela FUNCEF para analisar a

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proposta de investimento, DEMÓSTHENES MARQUES, Diretor de Investimentos, elaborou
o VOTO DIRIN 21/10, de 2 de junho de 2010, apresentando e recomendando à Diretoria
Executiva a proposta de investimento nos estaleiros ERG1 e ERG2.
Inicialmente, a proposta era de que a FUNCEF desembolsasse R$ 102,5
milhões, equivalente a 25% da aquisição da totalidade de ações do RG Estaleiros detidas pelo
grupo WTORRE, cabendo o valor restante (75% do investimento) à ENGEVIX. Entretanto,
por meio do Voto DIRIN 30/10, de 11 de agosto de 2010, DEMÓSTHENES MARQUES,
acolhendo os termos do CI CODEN 69/10, sugeriu a alteração do valor do investimento, de
R$ 448,5 milhões (referente ao valor da avaliação da RIO BRAVO PROJECT) para R$ 564,4
milhões, de modo que caberia à FUNCEF desembolsar R$ 141 milhões, em função das obras
para a construção do ERG2. Todavia, não houve novos pareceres de áreas técnicas sobre a
nova configuração do negócio, e não foram detalhados os planos de construção do ERG2,
embora o novo valor considerado fosse muito além do indicado na avaliação elaborada pela
RIO BRAVO PROJECT.
Assim, o contrato de compra dos estaleiros foi assinado pela FUNCEF e as
empresas envolvidas em 02/06/2010 (mesmo dia em que fora elaborado o VOTO DIRIN nº
21, de 02/06/2010, sem que houvesse ainda a aprovação da Diretoria Executiva.
Apenas posteriormente, por meio da Ata 992, e 17/08/2010, com base no Voto
DIRIN 30/10, a Diretoria Executiva da FUNCEF, formada por CARLOS CASER,
DEMÓSTHENES MARQUES, LUIZ PHILIPPE TORELLY, JOSÉ CARLOS GONÇALVES,
JOSÉ LINO FONTANA e Renata Marotta, aprovou o investimento de R$ 141 milhões nos

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estaleiros ERG1 e ERG2 por meio da aquisição de cotas do FIP RG Estaleiros.

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Esta aprovação da Diretoria Executiva, no entanto, representou ato de gestão
fraudulenta, na medida que foram ratificados os artifícios engenhados no relatório de
consultoria da RIO BRAVO, validando a sobreprecificação dos empreendimentos avaliados.
Além disso, a denúncia imputou aos membros da Diretoria Executiva da
FUNCEF também a prática de gestão temerária, pois além da fraude na supervalorização dos
estaleiros, o processo de aprovação ocorreu sem a observância dos deveres de due diligence
pelos gestores da FUNCEF, uma vez que não foram observadas normas internas da Fundação

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acerca do processo decisório (circular normativa IF 010 02), dentre outras razões por não ter
sido seguido o procedimento previsto no regulamento, uma vez que o processo foi conduzido
pela CODEN, vinculada à DIRIN, quando deveria ter sido conduzido pela DIAT, e por não
terem sido realizadas, anteriormente à aprovação, avaliações jurídicas, e por terem sido
desconsiderados pareceres de risco elaborados por áreas técnicas.
A consolidação do empreendimento criminoso referente à aprovação do aporte
de capital da FUNCEF no FIP RG Estaleiros deu-se com as efetivas integralizações de capital,
até agosto de 2012.
Ademais, houve a emissão, aprovada pela Assembleia Geral de Cotistas do FIP
RG Estaleiros, de cotas do FIP sem lastro suficiente para recebimento do capital aportado,
considerando que o valor das cotas apresentava sobrepreço. Assim, restou caracterizado o
delito do art. 7º, inciso III, da Lei nº 7.492/86 (emissão de cotas sem lastro). Tal delito, que
causou prejuízo à FUNCEF, foi praticado por seus diretores e pelas pessoas responsáveis da
Assembléia Geral de Cotistas, ou seja, CARLOS CASER, DEMÓSTHENES MARQUES,
LUIZ PHILIPPE PERES TORELLY, JOSÉ CARLOS ALONSO GONÇALVES e JOSÉ
LINO FONTANA, com a participação de VITOR HUGO DOS SANTOS PINTO.
Ainda, o investimento a maior da FUNCEF beneficiou indevidamente a
holding Jackson (grupo ENGEVIX) e o grupo WTORRE no valor mínimo de R$
132.875.000,00 (valor histórico do pagamento a maior da FUNCEF), de modo que os
investigados CARLOS CASER, DEMÓSTHENES MARQUES, LUIZ PHILIPPE PERES
TORELLY, JOSÉ CARLOS ALONSO GONÇALVES e JOSÉ LINO FONTANA, com a

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participação de VITOR HUGO DOS SANTOS PINTO e dos empresários WALTER TORRE

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JÚNIOR, GERSON DE MELLO ALMADA, CRISTIANO KIK E JOSÉ ANTUNES
SOBRINHO, foram denunciados pela prática de desvio de valores de instituição financeira
equiparada em proveito ou alheio (art. 5º, parte final, da Lei nº 7.492/86.
Da análise dos fatos relatados, verifica-se que, não obstante todos os diretores
da FUNCEF que foram denunciados tenham efetivamente concorrido para a prática dos
delitos, DEMÓSTHENES MARQUES, Diretor de Investimentos, foi quem conduziu todo o
processo relacionado ao primeiro aporte de capital no FIP RG ESTALEIROS.

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Com efeito, foi a Coordenação de Desenvolvimento de Negócios (CODEN),
setor subordinado à Diretoria de Investimentos, cujo diretor era DEMÓSTHENES
MARQUES, quem realizou o processo de seleção da RIO BRAVO, formalizando à DIRIN a
referida contratação. DEMÓSTHENES MARQUES, por meio do VOTO DIRIN 001/2010, de
02/02/2010, recomendou à Diretoria Executiva a contratação da RIO BRAVO, que foi
aprovada na Resolução/Ata nº 020/966, de forma retroativa, pois os trabalhos da empresa já
haviam começado anteriormente, em 22/12/2009.
Depois, DEMÓSTHENES MARQUES recomendou o investimento à Diretoria
Executiva por meio do VOTO DIRIN 021/10, apesar de todas as irregularidades.
Posteriormente, DEMÓSTHENES MARQUES, por meio do Voto DIRIN
30/10, de 11 de agosto de 2010, sugeriu a majoração do valor do investimento a ser realizado
pela FUNCEF, sem novos pareceres das áreas técnicas, como já relatado.
Outrossim, ressalta-se que DEMÓSTHENES MARQUES era quem exercia o
papel de Administrador Estatutário Tecnicamente Qualificado (AETQ) no período de julho de
2008 a 10 de abril de 2012, portanto, durante o período do investimento no FIP RG Estaleiros.
Como AETQ, ele era responsável pela aplicação dos recursos da FUNCEF, sendo que os
demais membros da Diretoria Executiva respondem solidariamente com o AETQ pelos danos
causados à FUNCEF para os quais concorreram.
Desse modo, embora os demais diretores tenham concorrido diretamente para
prejuízos causados pela FUNCEF ao acolher os posicionamentos de DEMÓSTHENES
MARQUES em seus votos favoráveis ao investimento, verifica-se que o mencionado diretor

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teve, neste investimento, uma posição de protagonismo.

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Ressalta-se que todas as ilicitudes apontadas já foram amplamente detalhadas
na denúncia que inaugurou a ação penal nº 1019222-24.2018.4.01.3400, cuja cópia segue
anexa a esta petição.

3.4. FIP SONDAS

Na ação penal nº 1000713-74.2020.4.01.3400, foram denunciados diversos

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dirigentes dos fundos de pensão FUNCEF, PETROS, PREVI e VALIA pela prática de gestão
temerária referente ao investimento realizado por estes fundos de pensão no FIP SONDAS.
Posteriormente, houve o desmembramento da mencionada ação penal, originando os autos
1003326-67.2020.4.01.3400 e 1003120-53.2020.4.01.3400, referentes aos gestores da
FUNCEF; os autos 1000713-74.2020.4.01.3400, 1003113-61.2020.4.01.3400 e 1003349-
13.2020.4.01.3400, referentes aos gestores da PETROS; os autos 1003310-
16.2020.4.01.3400, referente aos gestores da PREVI; e os autos 1003317-08.2020.4.01.3400,
referentes aos gestores da VALIA.
Todavia, a presente petição focará apenas nos fatos ocorridos no âmbito do
investimento realizado pela FUNCEF, que é objeto das ações penais 1003326-
67.2020.4.01.3400 e 1003120-53.2020.4.01.3400.
Nas mencionadas ações penais, o Ministério Público Federal denunciou
CARLOS ALBERTO CASER (Diretor-Presidente), DEMÓSTHENES MARQUES (Diretor
de Investimentos), CARLOS AUGUSTO BORGES (Diretor de Participações Societárias e
Imobiliárias), MAURICIO MARCELLINI PEREIRA (Diretor de Investimentos), ANTÔNIO
BRÁULIO DE CARVALHO (Diretor de Planejamento e Controladoria), ESTEVES PEDRO
COLNAGO JÚNIOR (membro do Conselho Deliberativo), FABIANA CRISTINA
MENEGUÊLE MATHEUS (membro do Conselho Deliberativo), JOSÉ MIGUEL CORREIA
(membro do Conselho Deliberativo), OLÍVIO GOMES VIEIRA (membro do Conselho
Deliberativo) e RAPHAEL REZENDE NETO (membro do Conselho Deliberativo) pela
prática de gestão temerária da FUNCEF (art. 4º, parágrafo único, da Lei nº 7492/86), no
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âmbito da aquisição de cotas do FIP SONDAS, em flagrante prejuízo à Fundação.

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Os fatos que envolveram investimento da FUNCEF no FIP SONDAS serão
descritos brevemente em seguida.
O FIP SONDAS foi criado para investir na empresa SETE BRASIL
PARTICIPAÇÕES S/A. A história da SETE BRASIL se inicia com a descoberta do “pré-sal”
em 2006 quando se verificou que não havia unidades de perfuração (sondas) em quantidade
suficiente no mundo para atender a demanda de exploração do “pré-sal”.
No entanto, a PETROBRAS estava endividada e era conveniente aportar

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recursos de capital próprio e assumir o risco de construir essas sondas no Brasil. Assim,
optou-se por constituir uma nova companhia a qual seria proprietária de sondas, que seriam
construídas e fretadas à PETROBRAS, por meio de contratos de afretamento de 10 anos de
prazo. Conforme descrito na denúncia, o Relatório Final da CPI dos Fundos de Pensão
ressalta que já era dada como certa a participação dos Fundos de Pensão no financiamento
deste projeto, assumindo os riscos envolvidos. Assim, o projeto Sondas era principalmente um
interesse da PETROBRAS, para que outras instituições, no caso os fundos de pensão
(primeiramente a PETROS e, com o apoio dela, os demais), assumissem os riscos envolvidos
em seu lugar.
A denúncia detalhou os interesses políticos que foram os reais motivadores dos
investimentos dos fundos de pensão no FIP SONDAS. Nesse sentido, oportuna se faz a
transcrição do seguinte trecho da denúncia:

A concepção a Sete Brasil orientou-se por interesse estratégico do Governo


Federal, que viu como oportuna a execução do projeto Sondas com “viés nacional”,
arrimado em recursos que deveriam ser aportados pelos fundos de pensão. Nesse
sentido, vejamos o que consta do relatório Final do inquérito policial nº 231/2016,
produzido pela autoridade policial (fls. 1537 do IPL):

Ocorre que, para alavancar o projeto era necessário adentrar no mercado de


sondas, sendo que cerca de 60% das sondas afretadas pertenciam às 10 maiores
empresas do Setor, todas estrangeiras. Além disso, para que o projeto tivesse o viés
nacional, era importante que, além da tecnologia para produção de Sondas ser
produzida no Brasil, era imperativo que o capital fosse nacional. Nesse contexto, os
Fundos de Pensão apareceram com holofotes, visto que, representam a maior
poupança nacional, com patrimônio administrado estimado de R$ 830 bilhões em
ativos, o equivalente a cerca de 12,8% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro.
No cenário apresentado e diante da proximidade das eleições presidenciais,
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que poderia implicar uma alternância de poder para outro partido, os Fundos de

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Pensão investiram em um negócio específico, grandioso e arriscado, no qual não
possuíam qualquer expertise.
A injeção de recursos dos Fundos era imperativa, diante da pressão do
governo, como afirmou Antônio Palocci em uma das muitas oportunidades que se
manifestou sobre o tema, como colaborador, após sua prisão. Segundo o ex-ministro
Antônio Palocci, houve uma reunião na qual, pela primeira vez, Lula teria tratado
abertamente da ideia de transformar projetos de exploração do pré-sal em dinheiro
para campanhas do PT. O suposto encontro teria acontecido em meados de 2010, na
biblioteca do Palácio da Alvorada, residência oficial da Presidência da República em
Brasília, e contado com as presenças do então presidente da Petrobras, José Sergio
Gabrielli, da então ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, além de Lula e Palocci.

Como bem enfatizado pela autoridade policial (e restou inclusive

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demonstrado no âmbito da Operação Lava Jato), a concepção da Sete Brasil
explica-se não somente por uma decisão negocial de vertente nacionalista, mas
também – e quiçá principalmente – pelo desejo de expandir uma rede de corrupção
que, desta vez, não vitimaria a Petrobras, mas sim entidades (fundos de pensão, em
maior medida) que investiriam seus recursos nessa nova companhia.
Nesse sentido, segundo o ex-diretor de participações da Sete Brasil e
colaborador da Justiça Eduardo costa Vaz Musa, a referida empresa foi constituída
a fim de fazer prosperar um esquema propinas que já estaria pré-definido por Pedro
Barusco (pela Petrobras) e João Vaccari Neto (pelo Partido dos Trabalhadores). Por
meio desse esquema, diversos estaleiros pagariam propinas aos dirigentes da
empresa e do Partido dos Trabalhadores (PT) em razão de contratos da Sete Brasil
(“casa dois”), da mesma forma como já pagavam pelos contratos da Petrobras
(“casa 1). Vejamos trechos do depoimento prestado por Eduardo Costa Vaz Musa
perante a Força-Tarefa da Lava Jato no Paraná em 24 de agosto de 2015:

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Por sua vez e no mesmo sentido, o colaborador da Justiça Pedro José
Barusco Fillho, em seu depoimento prestado em 20 de novembro de 2014,
vinculado a acordo de colaboração premiada, afirmou o seguinte:

QUE foram assinados 28 (vinte e oito) contratos de operação das sondas


entre a PETROBRAS e a SETEBRASIL, e esta firmou 28 (vinte e oito) contratos de
construção de sondas de perfuração com os estaleiros, sendo 7 (sete) com o
ESTALEIRO ATLÂNTICO SUL, 6 (seis) com o KEPELL FELS, 6 (seis) com o
ESTALEIRO JURONG, 6 (seis) com o ESTALEIRO ENSEADA DO
PARAGUAÇÚ e 3 (três) com o ESTALEIRO RIO GRANDE; QUE com o
ESTALEIRO JURONG foi firmado ainda mais um contrato para atender a entrega
da primeira sonda à PETROBRÁS; QUE esclarece que as negociações perduraram
por longo período e houve atrasos na construção da primeira sonda vinculada a
contrato com o ESTALEIRO ATLÂNTICO SUL, sendo que surgiu a oportunidade
da SETEBRASIL adquirir uma sonda que já estava em construção em Cingapura a
fim de atender ao primeiro contrato com a PETROBRÁS, o que efetivamente foi
feito; (…) QUE havia uma combinação de pagamento de 1% de propina para os
contratos firmados entre a SETEBRASIL e cada um dos ESTALEIROS, mas esse
percentual foi reduzido em alguns casos para 0,9% por conta da competitividade do

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processo licitatório e a exigência da PETROBRÁS de que os preços estivessem em

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conformidade com os do mercado internacional, sendo que as sondas com melhor
preço eram do mercado asiático; (…) QUE essa combinação envolveu o tesoureiro
do Partido dos Trabalhadores, JOÃO VACCARI NETO, o declarante e os agentes de
cada um dos ESTALEIROS, e estabeleceu que sobre o valor de cada contrato
firmado entre a SETEBRASIL e os ESTALEIROS, deveria ser distribuído o
percentual de 1%, posteriormente reduzido para 0,9%; QUE a divisão se dava da
seguinte forma: 2/3 para JOÃO VACCARI; e 1/3 para a “Casa 1” e “Casa 2”; QUE a
“Casa 1” referia-se à pagamentos de propina no âmbito da PETROBRÁS,
especificamente para o Diretor de Serviços RENATO DUQUE e ROBERTO
GONÇALVES, o qual substituiu o declarante na Gerência Executiva da Área de
Engenharia; QUE a “Casa 2” referia-se ao pagamento de propinas no âmbito da
SETEBRASIL, especificamente para o declarante, JOÃO CARLOS DE
MEDEIROS FERRAZ, Presidente da empresa, e, posteriormente, também houve a

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inclusão de EDUARDO MUSA, Diretor de Participações da empresa; QUE como
eram muitas pessoas envolvidas e muitos estaleiros, para organizar o pagamento das
propinas, foi estabelecido que as propinas destinadas a atender aos 2/3 de JOÃO
VACCARI teriam sua origem nos contratos firmados entre a SETEBRASIL e o
ESTALEIRO ATLÂNTICO SUL, o ESTALEIRO ENSEADA DO PARAGUASU, o
ESTALEIRO RIO GRANDE e parte do ESTALEIRO KEPEL FELS; QUE para
atender ao pagamento de propina referente ao 1/3 da “Casa 1 e “Casa 2” os recursos
teriam sua origem nos contratos firmados entre a SETEBRASIL e outra parte do
ESTALEIRO KEPELL FELS e ESTALEIRO JURONG; QUE afirma que cada
ESTALEIRO tinha um representante ou operador que operacionalizava o pagamento
das propinas; (…)

Para que avançasse o desejo criminoso de constituir nova companhia na qual


pudessem ser praticados os mesmos desvios e delitos verificados na Petrobras, era
necessário garantir investidores certos que aceitassem aplicar recursos bilionários,
em pouco tempo, sem maiores cuidados e diligência,, sem muita cautela e sem
preocupação real com o cumprimento dos deveres fiduciários esperados dos
gestores de capitais de terceiros. Tais investidores (vítimas preferenciais), no caso,
são os maiores fundos de pensão do Brasil.
Ocorre que, em situação normal de mercado, mesmo os fundos de pensão
não assumiriam tamanhos riscos (ao menos em situações que não envolvessem
propinas para os próprios diretores) em valores tão vultosos de investimento, sem
se cercarem de cuidados mínimos para a proteção do capital. Portanto, para que o
intuito criminoso fosse alcançado, seria necessário o controle político das diretorias
das EFPC. Esse controle, efetivamente, no caso presente, existia.
A influência do Partido dos Trabalhadores nos fundos de pensão e a decisão
política de impulsioná-los a investir – de modo temerário – na Sete Brasil foram
assim descritas pelo colaborador da Justiça Antonio Palocci Filho:

QUE o ex-presidente Lula já interferia nos fundos desde a década de


1990, elegeu um representante na Previ; QUE o presidente foi procurador por
Emilio Odebrecht para atuar no investimento na BRASKEM; QUE ele pede para
interferir e chama o oitivado; QUE SÉRGIO ROSA foi a primeira pessoa que ele
soube que atuou por motivo político; QUE no inicio do governo Lula o governo
ocupou os fundos; QUE como ministro atuou para nomear SÉRGIO ROSA na Previ,
WAGNER PINHEIRO na Petros e GUILHERME LACERDA na FUNCEF; QUE
eram de relacionamento de Gushiken, seu e Dirceu; QUE o quarto fundo importante
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era o POSTALIS, controlado pelo PMDB; QUE a partir da primeira vez que o

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PMDB controlou o ministério das comunicações, pelo então Ministro Eunício
Oliveira foi responsável por lotear a POSTALIS; QUE o ministério ligado ao fundo
indicava o presidente dos fundos conforme a pasta; QUE no início a motivação não
era obter vantagens indevidas; QUE os gestores não foram chamados para isso;
QUE havia duas questões fundamentais que os presidentes atuaram fora da
legalidade, atuando por determinações políticas desrespeitando critérios dos fundos;
QUE o presidente Lula expedia determinações para colocar recursos em
empreendimentos de interesse do governo; QUE nem sempre o problema era
vantagem indevida, mas apenas para atender vantagem política; QUE em alguns
casos os gestores se envolviam em negócios para vantagens; QUE sabia que Wagner
Pinheiro recebia vantagens pessoais; QUE Guilherme Lacerda tinha atuação mais
ampla em receber ilícitos; QUE em 2004 começaram a pedir vantagens ilícitas; QUE
os tesoureiros que atuaram foram Delúbio, Vaccari e Paulo Ferreira, esse último em

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período curto; QUE numa determinada rodada de leilão da ANP, a Petrobrás pede a
suspensão e fala da descoberta do pré-sal; QUE o pré-sal colocou todos os âmbitos
do governo em torno dessas riqueza; QUE no governo Lula o pré-sal foi enxergado
como um passaporte para o futuro, que foi um “bilhete premiado” no final do
governo; QUE o clima era de delírio político; QUE isso dá ao ex-presidente um
momento de atuação raro, descuidando da parte jurídica; QUE ele passa a atuar
diretamente no pedido de vantagens indevidas; QUE em outros casos de atuação
direta do ex-presidente Lula, como dos caças, com atuação do presidente francês,
receberam vantagens indevidas Lula e o PT, ou no caso de Belo Monte; QUE antes
do FIP Sondas, o presidente convoca reunião com Gabriele, o oitivado e Dilma,
comunicando que o FIP deve garantir o “nosso futuro”, ou seja, futuro do PT; QUE
essa reunião ocorreu entre o fim de 2009 e começo de 2010 na biblioteca no Palácio
do Alvorada, à noite; QUE foi uma reunião curta e que os demais presentes ficaram
perplexos com a conduta do presidente Lula; QUE ele disse explicitamente que
queria que a Sondas pagasse a candidatura de Dilma; QUE no governo Dilma a
influência sobre os fundos continuou; QUE os gestores dos fundos procuravam
expondo preocupação sobre a necessidade de avaliar devidamente os projetos; QUE
as reuniões foram registadas na agenda do Palácio do Planalto; QUE Sérgio Rosa
resistia mais, QUE Guilherme Lacerda resistia quase nada; QUE Wagner Pinheiro
resistia parcialmente; QUE normalmente havia uma pessoa chamada Clara Levin
Ant era assessora e acompanhava as reuniões, fazendo registros bastante completos
dessas reuniões; QUE ela tinha um iPad com teclado anotando os eventos das
reuniões e os encaminhamentos; QUE alertado sobre os perigos, o presidente não
via irregularidade e afirmava que ele que era o presidente; QUE os presidentes dos
fundos eram cobrados a investir sem analisar; QUE a primeira reunião com os
gestores dos fundos o oitivado não estava presente, mas que eles procuram o
oitivado para expressar preocupações; QUE os presidentes dos fundos relataram que
realizaram reuniões com o presidente Lula no primeiro semestre de 2010; QUE
Sérgio Rosa, depois substituído por Ricardo Flores, Wagner Pinheiro (até 2010),
procuraram o oitivado; QUE Ricardo Flores aceitava propina; QUE anteriormente
constou em depoimento à polícia ele ganhou um apartamento em Recife e outro em
Miami; QUE esclarece que tem conhecimento que ganhou o apartamento de Recife
e ouviu falar que ganhou o apartamento em Miami; QUE a pessoa que fez a compra
para ele, André Gustavo, da empresa Arcos Marketing e Comunicações, que recebeu
dinheiro e fez a compra para o Ricardo flores; que O DE Miami foi comentário de
mercado, que não pode dar segurança; QUE a empresa OAS pagou ele por outro
empreendimento na Previ; QUE era costumeiro receber vantagens pelo Ricardo
Flores, mas que não sabe sobre o caso FIP Sondas; QUE Wagner Pinheiro recebeu

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vantagens pelo através do Gushiken; QUE acredita que Joesley Batista fez

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pagamentos a ele por outros casos; QUE Guilherme Lacerda pedia vantagens para
empresas ligadas ao FIP Sondas e outras; QUE recebeu por dentro, em doação
oficial, e por fora; QUE Sérgio Rosa abriu uma consultoria e recebeu recursos de
diversas empresas do pré-sal, mas não sabe dizer se tem relação com isso; QUE eles
sabiam que no empreendimento haveria ilícito; QUE os gestores do fundo sabiam
dos fatos de corrupção narrados na Lava-Jato; QUE precisavam atender o partido
para se manter nos cargos que lhes rendiam vantagens em diversos
empreendimentos; QUE no segundo aporte João Ferraz procura o oitivado para que
se viabilize novos investimentos; QUE pede para que faça pressão nos fundos para
esse novo aporte; QUE João Ferraz só tinha acesso ao Petros; QUE o oitivado já
estava fora do governo e o encaminhou a Guido Mantega; QUE acredita que esse
encontro foi proveitoso para ele; QUE João Ferraz encontra o já ex-presidente Lula;
QUE o próprio presidente Lula afirmou que João Ferraz o procurou; QUE quando

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João Ferraz foi pego pelas propinas, o ex-presidente Lula pede para assumir a
responsabilidade por levar o Ferraz em 2014; QUE o oitivado não levou o Ferraz;
QUE João Ferraz o procurou em 2012 ou 2013; QUE soube que Petros e Funcef
voltaram a investir; QUE acha que Previ não entrou novamente no investimento;
QUE a Previ não quis investir desde o começo; QUE isso foi relatado por João
Ferraz; QUE Dan Conrado, presidente da Previ, resistiu; QUE a presidente Dilma se
encontrou com os presidentes dos fundos para forçar o investimento; QUE os
presidentes dos fundos relataram essa reunião; QUE normalmente as reuniões com a
presidente Dilma era bastante povoada com diversas pessoas do governo; QUE os
ex-presidentes Lula e Dilma não era muito cuidadosos; QUE apesar de tudo, os ex-
presidentes Lula e Dilma tinha ciência de que os investimentos dependiam de uma
análise técnica; QUE os ex-presidentes Lula e Dilma não se comoviam; QUE o
investimento era grandioso, buscava-se construir 40 sondas e que no mundo
existiam o total de 100 sondas; QUE havia vários problemas: falta de estudo-
técnico, o projeto era mirabolante, havia motivação política e necessidade de
arrecadar propinas; QUE os contratos da Sete gerariam 25 bilhões que poderiam ser
foco para propinas para o partido; QUE o montante representaria o financiamento de
4 ou 5 campanhas para presidente; QUE o dinheiro dos fundos é muito importante
para complementar outras formas de financiamento; QUE quando a Previ ou o
BNDES resolviam investir em algo, os outros costumavam ir atrás; QUE Petrobras
abre licitação para estruturar a Sete, que foi ganho pelo Santander por preço
simbólico; QUE foi o Santander propôs o FIP para a CEF gerenciar; QUE há fatos
estranhos na estruturação pela equipe; QUE uma pessoa do Santander, Luis Reis, um
tempo depois juntamente com outros diretores formara a Lakeshore Partners,
comprando ações da Sete; QUE essa empresa foi contratada pela Sete Brasil para
estruturação em valores de R$ 40 mi; QUE o dinheiro não cobrado na estruturação
pelo Santander foi cobrado pela Lakeshore; QUE não sabe se houve envolvimento
do Santander com essa manobra; QUE João Ferraz tentou aproximar o oitivado de
Luis Reis demonstrando claramente que os dois tinham uma elação especial, fora da
agenda normal da empresa, ou seja, interesses fora da Sete; QUE lhe aparentou que
o interesse era fora de uma relação comercial normal; (...)

No mesmo sentido, o colaborador da Justiça Roberto Carlos Madoglio (então


Superintendente de Fundos Especiais da Caixa Econômica Federal) também
esclareceu que o investimento na Sete Brasil (e, portanto, no FIP Sondas) era uma
decisão de Governo. Vejamos o trecho de seu depoimento:

QUE para citar como exemplo, em conversa com BOLIVAR TARRAGO este
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comentou “não vamos ter como ficar fora dessa”; QUE além dessa questão formal,

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outro ponto contestado era que o FI-FGTS seria, na configuração apresentada, o
agente que mais colocaria no projeto e não teria Governança proporcional à sua
participação financeira; QUE também havia sérias dúvidas quanto a estrutura de
garantias fornecidas pela Petrobras que era quem iria alugar as Sondas; QUE o
DEPOENTE levou todas essas preocupações, como de costume, para ANDRE DE
SOUZA, JOAQUIM LIMA e PAULO FURTADO mas a determinação era de fazer,
pois era um prometo de governo e todos os Fundos de Pensão entrariam; (…)

Com o apoio do Governo Federal e do Partido dos Trabalhadores, a decisão


de investimento dos fundos de pensão na Sete Brasil (com exceção de um
“contratempo” na segunda subscrição de quotas da PREVI, como veremos depois)
fluiu bem e puderam ser concretizados os aportes no FIP Sondas. A seguir, veremos
como foram os desdobramentos dos investimentos e suas fases.

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Este é o contexto no qual se inserem os investimentos realizados pelos Fundos
de Pensão, dentre os quais a FUNCEF, no FIP SONDAS.
Assim, verifica-se que, além dos interesses políticos existentes que foram os
reais motivadores do investimento, a maior interessada no negócio era a PETROBRAS,
patrocinadora da PETROS. No entanto, também a Caixa Econômica Federal (CEF),
patrocinadora da FUNCEF, possuía interesse no investimento, tendo em vista que fora
escolhida para gestora e administradora do FIP SONDAS, e fora contratada com uma taxa de
administração vantajosa. Foram exatamente estes dois fundos de pensão, PETROS e
FUNCEF, os maiores investidores do FIP em seu início, tendo cada um investido R$
350.000.000,00 (trezentos e cinquenta milhões de reais) para adquirir, cada um, uma
participação no patrimônio do FIP de 19,209%.
Os investimentos dos fundos de pensão no FIP, visando obter, por meio dele,
participação acionária na SETE BRASIL, iniciaram-se entre 2010 e 2011, e seriam realizados
em duas etapas, que foram divididas em “Primeiro Sistema” e “Segundo Sistema”.
No primeiro momento de investimentos, denominado “Primeiro Sistema”, os
recursos seriam destinados à construção de sete sondas pela SETE BRASIL, a qual foi
contratada pela PETROBRAS em junho de 2011. O objetivo inicialmente previsto no Plano
de Diretrizes Estratégicas da SETE BRASIL era a construção de 28 sondas, mas divididas em
quatro lotes de 7 sondas cada, que seriam contratadas pela Petrobras de forma progressiva. O
“Primeiro Sistema” refere-se ao primeiro lote.
Entretanto, a PETROBRAS alterou o cronograma em junho de 2011, e abriu
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processo licitatório para as 21 sondas restantes de uma única vez. Deste processo participaram

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apenas duas empresas: SETE BRASIL e a empresa grega Ocean Rig, sendo que a Ocean Rig
venceu a licitação referente a cinco das sondas, e a SETE BRASIL venceu com relação às
outras 16. Entretanto, a SETE BRASIL apresentou recurso e em fevereiro de 2012 a
PETROBRAS ampliou o objeto do certame para contemplar as pretensões de ambas as
empresas, ampliando o número de sondas para 26 (vinte e seis), sendo que a SETE BRASIL
construiria 21 e a Ocean Rig construiria as outras 5.
Assim, a SETE BRASIL comprometeu-se a construir o total de 28 sondas (as 7

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iniciais mais as 21 da segunda etapa da contratação) até o ano de 2017. Entretanto tratava-se,
desde o começo, de um projeto que apresentava diversas dificuldades, visíveis desde o início,
para ser realizado no prazo proposto, considerando que a empresa SETE BRASIL era uma
empresa greenfield sem qualquer experiência prévia na construção de sondas. Dessa forma, a
contratação de 7 sondas já era extremamente arriscada, e construir rapidamente 28 sondas,
algo ainda mais absurdo, considerando a inexperiência e inoperância prévia da empresa.
De fato, quando da contratação do lote de 21 sondas (“Segundo Sistema”) já
havia dúvidas sobre a capacidade de construir tempestivamente as 7 primeiras sondas. Com
efeito, no começo de 2012 o cronograma de construção destas sondas já estava atrasado, e
esta situação foi ainda mais agravada pelo fato de que a SAMSUNG, sócia estratégica (a qual
possuía a expertise tecnológica necessária) do Estaleiro Atlântico Sul (EAS), no qual as
sondas seriam construídas, abandonara o projeto e vendera sua participação no citado
estaleiro, sem que sequer tivesse iniciado a construção da primeira sonda.
Ademais, o capital investido na empresa teria que ser rapidamente aumentado
para que fosse possível construir desde logo um número maior de sondas, aumentando
consideravelmente os riscos para os investidores.
Nesse contexto, em 27 de outubro de 2011 a SETE BRASIL comunicou à CEF,
administradora do FIP Sondas, que caso fosse a vencedora da licitação referente às demais 21
sondas, seria necessário novo aumento de capital no valor aproximado de mais de R$ 3
bilhões. Assim, a empresa solicitou que os cotistas se manifestassem, em 30 dias, se tinham
interesse em subscrever as novas ações do capital social da companhia e as novas quotas a

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serem emitidas pelo fundo.

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Entretanto, antes mesmo de receber a resposta oficial dos cotistas do FIP
Sondas, a Sete Brasil já começou a assumir compromissos contando com o futuro aumento de
capital, notadamente a negociação de condições junto à PETROBRAS, com a conclusão
dessas negociações assegurando a contratação do Segundo Sistema e a celebração de
contratos junto aos estaleiros, entre março e abril de 2012, para a construção das sondas.
A SETE BRASIL venceu o processo licitatório para construção das sondas em
9 de fevereiro de 2012, passando a aumentar seu capital social em 29 de fevereiro e 12 de

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abril de 2012. Entretanto, a aprovação do investimento pela PETROS e pela FUNCEF
ocorreram apenas nos dias 4 e 16 de maio de 2012, respectivamente.
À época da segunda fase de investimentos no FIP Sondas, a SETE BRASIL
considerava necessário o aporte de capital de R$ 5,1 bilhões para a construção das sondas,
valor muito superior aos R$ 3 bilhões informados à CEF em 27/10/2011. No mês seguinte,
entretanto, sua demanda aumentara para R$ 5,7 bilhões.
Acerca dos riscos do projeto, o depoimento de Luiz Fontoura de Oliveira Reis
Filho, que participou do início do projeto pela empresa Lakeshore Financial, sócia do FIP
Sondas, cujo trecho foi transcrito na denúncia, apontou o seguinte:

QUE causou surpresa o apetite de alguns Fundos de Pensão no segundo


aporte de capital; QUE o Projeto era inovador, mas apresentava alguns riscos e
ineditismos; QUE o principal risco era justamente o fato da Sete Brasil ser um
projeto "greenfield', não operacional no momento do investimento; QUE eram
constatáveis ainda os riscos de liquidez (decorrente da natureza "private equity" da
operação) e de financiabilidade; QUE a indústria naval do Brasil é incipiente; QUE
a construção de sondas é complexa; QUE o projeto apresentava riscos conhecidos
importantes, isso a expectativa era que as fundações contribuíssem entre R$ 500
milhões a R$ 800 milhões; QUE causou estranheza o aumento para R$ bilhão;
QUE alguns fundos adotaram, na opinião do declarante, uma postura de
investidores de private equity e não de investidores mais conservadores cuja
missão é a de gerar renda para aposentadorias; (...)
(...)
QUE tudo isso foi apoiado pela Petrobras, a maior empresa da América Lati -
na; Que, porém, a total dependência econômica, comercial e estratégica da Sete
Brasil (decorrente do monopsônio) para com a Petrobras, que ainda era acionista da
própria Sete Brasil (diretamente e via FIP Sondas), também era importante fator de
risco que deveria ter sido identificado e sopesado pelas fundações e outros investi-
dores; QUE, por isso, conclui o depoente (por raciocínio lógico, sem evidências
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práticas) que o investimento dever ter decorrido "de ordem de cima"; QUE no se-

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gundo aumento de capital, não houve espaço para todos os investidores interessa-
dos no projeto; QUE entende ser importante salientar que a PREVI nunca demons-
trou pelo investimento o mesmo interesse dos demais investidores; QUE a PREVI
demorou bastante para se engajar em conversas de estruturação, modelagem e go-
vernança; QUE a PREVI considerava a operação bastante complexa, e já era acio-
nista de referência da Petrobras; (...)

Entretanto, os gestores dos fundos de pensão, dentre os quais os diretores da


FUNCEF, desconsideraram os riscos envolvidos, colocando em perigo concreto o patrimônio
de seus participantes.

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Ademais, ressalta-se que boa parte dos aportes realizados pela FUNCEF, bem
como outros fundos de pensão, ocorreram quando era bastante evidente que a empresa SETE
BRASIL não se sustentava financeiramente.
Outrossim, verifica-se que houve uma antecipação do cronograma de
investimentos no FIP Sondas, o que agravou os riscos do projeto Sondas. De fato,
inicialmente o Plano de Negócios previa que os aportes seriam realizados de forma
“parcelada”, e seria realizada em um período de oito anos, compreendido entre junho de 2011
e junho de 2019. No entanto, devido às dificuldades do projeto, para que a SETE BRASIL
conseguisse continuar em atividade (sem falir), foi exigida a antecipação dos aportes pelos
cotistas do FIP Sondas. Assim, a necessidade de operacionalização das 29 sondas pela SETE
BRASIL fez com que os acionistas tivessem que aportar quase a totalidade dos valores em
três anos e meio, até meados de 2015.
A denúncia relata que sequer a deflagração e o avanço da Operação Lava Jato
sobre a PETROBRAS e a SETE BRASIL, que culminou na prisão de alguns dos diretores da
empresa, freou os aportes da PETROS e da FUNCEF. Pelo contrário, foram acelerados, e nos
dois meses imediatos à prisão dos ex-diretores da Sete Brasil foi aportado 30,4% do montante
comprometido, no valor de 1 bilhão e 386 milhões de reais, que deveria ser executado até
2019, sem que antes houvesse qualquer reavaliação do novo cenário e seus riscos.
Além disso, mesmo antes da Operação Lava Jato as demonstrações financeiras
da SETE BRASIL demonstravam, ainda no ano de 2013 (um ano após a subscrição de cotas
relativas ao “Segundo Sistema”), a inviabilidade financeira da empresa. O relatório da

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PREVIC referente ao Auto de Infração nº 36/2018, citado na denúncia, menciona que a

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própria SETE BRASIL, em 2014, diante dos enormes desequilíbrios entre passivos e ativos
circulantes, reconhecera que havia uma “incerteza material que pode suscitar dúvidas
significativas sobre a continuidade operacional da Companhia”. Dois anos depois, em
15/06/2016, foi deferido pedido de recuperação judicial apresentado pela SETE BRASIL.
Por todo o exposto, a denúncia conclui que os fundos de pensão, de forma
absolutamente temerária, influenciados pela PETROBRAS e pelo Governo Federal, aceitaram
aportar recursos bilionários na Sete Brasil de forma absolutamente temerária.

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Acerca da gestão temerária da FUNCEF, a denúncia afirma o seguinte:

A partir da investigação realizada por diversas instituições, foram obtidas


provas de que, por meio dos fatos que passaremos a narrar e com as circunstâncias
que serão aqui detalhadas, especialmente entre 2011 e 2012 (mas com
consumação via aportes que foram realizados até setembro de 2016), os acusados
CARLOS ALBERTO CASER (na condição de Diretor-Presidente),
DEMÓSTHENES MARQUES (na condição de Diretor de Investimentos),
CARLOS AUGUSTO BORGES (na condição de Diretor de Participações
Societárias e Imobiliárias) MAURICIO MARCELLINI PEREIRA (na condição
de Diretor de Investimentos), ANTÔNIO BRÁULIO DE CARVALHO (na
condição de Diretor de Planejamento e Controladoria), ESTEVES PEDRO
COLNAGO JÚNIOR (na condição de membro do Conselho Deliberativo),
FABIANA CRISTINA MENEGUÊLE MATHEUS (na condição de membro do
Conselho Deliberativo), JOSÉ MIGUEL CORREIA (na condição de membro do
Conselho Deliberativo), OLÍVIO GOMES VIEIRA (na condição de membro do
Conselho Deliberativo) e RAPHAEL REZENDE NETO (na condição de membro
do Conselho Deliberativo) geriram de forma temerária a Fundação dos
Economiários Federais (FUNCEF) - fundo de pensão dos funcionários da Caixa
Econômica Federal (CEF) - para permitir a aquisição de cotas do FIP Sondas,
em flagrante prejuízo à FUNCEF. Os denunciados incorreram, assim, na prática do
crime de gestão temerária, tipificado no art. 4°, parágrafo único, da Lei n°
7.492/86.

A denúncia aponta que o processo de investimento da FUNCEF no FIP


SONDAS iniciou-se formalmente em abril de 2011 e o voto que conduziu a proposta de
investimento foi o Voto DIRIN 019/11, de 19 de abril de 2011, subscrito por
DEMÓSTHENES MARQUES, então Diretor de Investimentos da Fundação. Tal voto fora
baseado no parecer PEA GEANI 007/11, da Gerência de Investimentos. Todavia, conforme
apontado pela PREVIC, o mencionado parecer, em descumprimento às normas internas da

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FUNCEF, deixou de examinar com profundidade diversos riscos palpáveis do projeto.

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Entretanto, após receber o Voto DIRIN 019/11, a Diretoria Executiva da
FUNCEF, em 26/04/2011, determinou, antes de aprovar o investimento, que a DIRIN
apresentasse pareceres das áreas jurídicas, de conformidade e risco e de participações
societárias, deixando a questão para ser decidida posteriormente.
Posteriormente, DEMÓSTHENES MARQUES firmou a Nota NDE/DIRIN
015/11, por meio da qual complementava seu Voto DIRIN 019/11 com os pareceres
solicitados pela Diretoria Executiva.

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Assim, em 13 de maio de 2011 a Diretoria Executiva da FUNCEF (Ata nº
1024), formada pelos denunciados CARLOS CASER, DEMÓSTHENES MARQUES,
CARLOS BORGES e ANTÔNIO BRÁULIO, além de Renata Marotta e José Carlos Alonso
Gonçalves, aprovou de forma temerária o investimento de R$ 350.000.000,00 no FIP
SONDAS, que correspondia a 19,4% das cotas de participação do fundo.
Salienta-se que CARLOS CASER e CARLOS BORGES foram indicados para
serem conselheiros titulares da Sete Brasil, e DEMÓSTHENES MARQUES foi indicado para
ser conselheiro substituto. Como conselheiros, recebiam remuneração, beneficiando-se assim
pessoalmente do investimento temerário que aprovaram, enquanto permaneceram nestas
funções.
Acerca da temeridade desta primeira decisão de investimento, a denúncia relata
o seguinte:

É importante ressaltar que o voto aprovado pela Diretoria Executiva da


FUNCEF era bastante frágil, deixando de abordar os aspectos centrais que deveri-
am pautar a decisão de investimento. Nesse sentido, vejamos o que consta no Lau-
do n° 768/2018 - SETEC/SR/PF/DF (fls. 725/726 do IPL n° 231/2016):

30. Ou seja, apesar da leitura do material (o PA COANI 007/11 FUN-


CEF) dispor sobre o prazo, o. preço e o retomo do investimento, contestou-se a au -
sência de •números específicos consistentes (detalhamento de quanto custa uma son-
da no exterior, com sua capacidade, custos de manutenção, tamanho, cálculos de
CAPM, estimativa de fluxo de caixa, etc). O detalhamento deveria conter informa-
ções especificas sobre o know-how dos construtores das sondas; tempo estimado de
construção; detalhes de custos de mão de obra, impostos; matéria prima; quantidade
de aço; tamanho dos navios sondas com especificações da quantidade de extração;
comprimento; quantidade de tripulantes.
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31. Assim, pode-se concluir no cotejo entre o relatório emitido pela

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FUNCEF: "RA GEAUD 056/2016 #30, DE 15/02/2017" e o relatado nos parágrafos
25 e 26 deste Laudo, que as constatações do PA COANI 007/11 FUNCEF são "con-
tas de chegada" ou seja, não possuía um detalhamento específico para justificar o in-
vestimento. Esse entendimento é corroborado pelo AUTO DE INFRAÇÃO N°
4/2018/PREVIC (Superintendência Nacional de Previdência do Ministério da Fazen-
da) Referência n°: 44011.001157/2018- 36, vide figura 12.

Um dos pareceres juntados ao voto aprovado pela Diretoria Executiva (qual


seja, o Parecer PA GECOR 003/11) era expresso ao alertar à Diretoria que o suces-
so do projeto dependeria da aprovação de financiamento pelo BNDES, e que esse
financiamento ainda se encontrava em negociação e que estava sujeito a mudanças
nas condições sinalizadas para o crédito, o que poderia impactar na rentabilidade

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estimada para a investimento. Tal informação foi apenas copiada do parecer PA
GEANI 007/11, não trazendo nenhuma resolução ou mitigação ao risco já apontado
por essa gerência de investimentos. O mencionado risco, porém, conforme já se ex-
plorou bastante nesta denúncia, era evidente e terminou por se concretizar na se-
quência do investimento. Contudo, os ex-gestores da FUNCEF, ao aprovar o inves-
timento no FIP Sondas, descartaram tal risco, sem se dar o devido valor e atenção.
Além do risco relacionado à aprovação do financiamento sênior do projeto, a
Diretoria Executiva da FUNCEF, ao aprovar o Voto DIRIN 019/11 do acusado DE-
MÓSTHENES MARQUES, também deixou de examinar com profundidade - e le-
var em consideração - os mesmos riscos olvidados ou mal examinados pela PE-
TROS, quais sejam:

1. Deficiência referente à não-observância do dever de avaliar o potencial con-


flito de interesses: todas as informações presentes no processo decisório da
FUNCEF foram originadas da contraparte que buscava lhe vender o produto,
ou seja, de quem detinha interesses potencialmente opostos aos da fundação;
2. Deficiência referente à não observância do princípio da rentabilidade: quanto
à avaliação da atratividade econômica da operação, não há consistência técni-
ca em se avaliar a rentabilidade prometida se não se conhecem, não se avali -
am e não se quantificam os respectivos impactos e os riscos envolvidos;
3. Deficiência quanto à abordagem do direito de preferência referente ao segun-
do sistema de 21 sondas: mesmo sem qualquer vínculo com a licitação origi-
nal, os ofertantes do FIP Sondas informaram que fosse admissível do ponto
de vista legal que a Petrobras pudesse distribuir preferências para suas futuras
contratações;
4. Deficiência quanto à ausência de apuração do valor justo (valuation) da Sete
Brasil Participações S/A: processo decisório da FUNCEF foi construído sem
apresentar qual seria o valor justo (“fair value”) da Sete Brasil Participações
S/A;
5. Deficiência quanto à não avaliação dos riscos relacionados ao estaleiro ven-
cedor da licitação para construção do primeiro sistema: segundo a configura-
ção proposta, a FUNCEF deveria entregar recursos das aposentadorias de
seus participantes para um estaleiro que ela não conhecia e não sabia como
operava, para que ele construísse equipamentos que jamais haviam sido cons-
truídos no Brasil;
6. Deficiências quanto à avaliação dos riscos inerentes à aplicação da política de
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conteúdo local mínimo: tanto a compreensão e alcance das especificações re-

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quisitadas pelo estaleiro quanto a capacidade dos fornecedores de atender às
necessidades que a escala de produção exigiria são fatores que não receberam
qualquer destaque no processo decisório da FUNCEF;
7. Deficiência quanto à avaliação do real alcance da estrutura de seguros e ga-
rantias: a estrutura proposta de garantias e de seguro, embora expresse que há
uma proteção contra atrasos, não evidencia a proporção do impacto que esta-
ria de fato cobrindo, já que o custo para a Sete Brasil deveria ser proporcional
ao risco inerente ao objeto segurado;
8. Deficiências quanto à não avaliação dos riscos o FIP ser responsabilizado por
passivos da Sete Brasil: não obstante o volume de contratações projetado e a
intrincada rede de relações de fornecedores que se estabeleceria, o processo
decisório da FUNCEF em momento algum identificou ou se propôs a avaliar
os riscos de eventualmente ter que enfrentar reflexos de eventual judicializa-

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ção que viesse a imputar à Sete Brasil a responsabilidade por passivos traba-
lhistas, previdenciários, ambientais ou de qualquer outra espécie;
9. Deficiência quanto à não avaliação dos riscos relacionados à estrutura tributá-
ria da Sete Brasil: nenhuma avaliação real sobre os prováveis impactos tribu-
tários sobre os resultados da Sete Brasil foi efetivamente realizada pelos inte-
grantes do processo decisório;
10. Deficiência quanto à não avaliação dos demais riscos jurídicos relacionados à
estrutura contratual da Sete Brasil: o parecer jurídico externo contratado, da
lavra do escritório Tauil & Chequer, apesar de ter tido trechos transcritos no
Parecer PA GEJUR 067/11, apontou uma série de riscos e fragilidades que
não foram profundamente examinados pelos ex-dirigentes da FUNCEF - tais
como a menor responsabilidade da Petrobras e a previsão de solidariedade
entre estas empresas nos contratos de afretamento e prestação de serviços, o
que poderia constituir sério obstáculo à contratação do prestador de serviço
(operador), além de expor a SPE aos riscos operacionais inerentes ao contrato
de prestação de serviço e ao risco de crédito da empresa prestadora de servi-
ço.

Ainda que alguns dos riscos acima tenham sido mencionados no PA GEANI
007/11, foram eles meramente listados (como bem alerta o relatório do auto de in-
fração ° 6/2018 da PREVIC), sem qualquer análise perfunctória, a qual poderia
conduzir inclusive à rejeição integral do investimento no FIP Sondas - e na Sete
Brasil.
Diversas das deficiências e irregularidades descritas acima foram captadas
pelos auditores da PREVIC no relatório do auto de infração n° 6/2018, que apontou
as seguintes irregularidades estão presentes na análise da proposta de investimento
no FIP Sondas:

1. Inobservância aos princípios da segurança e transparência do investimento e


descumprimento do dever de diligência, ao aprovar o investimento no FIP
Sondas em desobediência ao processo interno da FUNCEF com descumpri-
mento de seus normativos internos;
2. Inobservância ao princípio da segurança, rentabilidade e transparência, bem
como o dever de diligência, ao realizar investimento no FIP Sondas com defi-
ciências no processo de análise;
3. Avaliação insuficiente ou inexistente dos riscos nas subscrições relacionadas
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ao FIP Sondas;

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4. Falha de monitoramento do investimento ao deixar de observar normativos
internos da FUNCEF e aprovar antecipação dos aportes deixando de observar
os princípios do conservadorismo e prudência;
5. Falha ao deixar de avaliar os potenciais conflitos de interesse dos seus presta-
dores de serviços.

Outrossim, o relatório do auto de infração n° 6/2018 da PREVIC aponta que


a FUNCEF (ao aprovar o investimento com apoio no Voto DIRIN 019/11 e no PA
GEANI 007/11) violou o dever de diversificação de investimento (incorrendo no
risco de concentração) ao aportar o vultoso valor no FIP sondas, valor esse que se-
ria todo destinado a uma “start up” (que quiçá mal poderia ser considerada uma
“private equity”). Vejamos o que asseverou a PREVIC:

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230. Outro risco não mencionado pela GEANI seria o risco de concen-
tração. Apesar de utilizar o instrumento do Fundo de Investimento em Participações
- FIP.
231. O FIP que por sua natureza tem como risco o investimento em em-
presas em estágio inicial de operação, venture capital, bem como o próprio risco de
participar de forma representativa do capital social do empreendimento, private
equity. Entretanto, ao mesmo tempo, o instrumento tem como premissa a diversifica-
ção para mitigação. Ou seja, mesmo investindo em venture capital ou private equity,
o investidor do FIP, via de regra, teria que diversificar sua carteira para enfrentar
possíveis resultados negativos de algumas de suas empresas.
232. No caso em questão, o FIP tinha como ativo final apenas Sondas a
serem utilizadas e remuneradas através da Petrobras, ou seja, em última análise, o
investimento da FUNCEF era na Petrobras. Desta forma, o risco de concentração de-
veria ter sido levado em consideração na análise da GEANI.
233. Vale mencionar, também, que o segundo pilar listado pela GEANI
em pouco baseia o investimento, afinal o tamanho da empresa a ser criada não defi -
ne o interesse do investidor. Este que de seu lado busca apenas o melhor rendimento
possível com os menores riscos aceitáveis.
234. Cabe ainda ressaltar a afirmação feita pela GEANI no item 4.36.2
do parecer quando a Gerência de alguma forma reconhece o risco de estar investindo
em um FIP cujo único ativo é uma Start Up Company, entretanto declara a relação
risco/retorno atrativa. A justificativa apresentada para essa atratividade seria, segun-
do a GEANI, as duas principais premissas do negócio, quais sejam: “o valor de
construção das Sondas e o prazo e preço da taxa de afretamento”.

A respeito do risco de atraso na construção das sondas, afetando o cumpri-


mento, pela Sete Brasil, das obrigações contraídas para com a Petrobras, o PA GE-
ANI 007/11 reconhecia que existia um risco de a Petrobras poder cancelar o contra-
to de afretamento em caso de um atraso superior a 24 meses. Porém, como bem
apontou o relatório do auto de infração n° 6/2018 da PREVIC, o mencionado pare-
cer “subestima a probabilidade de ocorrência do referido risco, concentrando a
sensibilização de cenário apenas no período em que o instrumento mitigatório por
eles descrito teria alguma eficácia, ou seja, atrasos de até 12 meses”.2 De fato,
conforme já examinado em diversos momentos nesta denúncia, a falta de expertise
da Sete Brasil (que era uma “start up”, como afirmou a PREVIC) era notória e po-
2 Cf. Relatório do auto de infração n° 6/2018 da PREVIC, p. 40.
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deria, com alta probabilidade, implicar em atraso muito superior a dois anos.

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A temeridade do investimento realizado pela FUNCEF no FIP Sondas tam-
bém é atestada pela conclusão final a que chegou a Força-Tarefa constituída pela
Caixa Econômica Federal para apurar ilícitos de sua patrocinada; vejamos:

255. A partir do estudo relatado acima, esta Força Tarefa CPI dos Fundos
de Pensão e Operação Greenfield, instituída pela PRESI no âmbito da CAIXA, con-
cluiu que há indícios de irregularidades na atuação de diferentes agentes, ao longo
do processo de investimento no FIP SONDAS, que podem ter contribuído para pre-
juízo dos Planos de Benefício geridos pela FUNCEF.
256. No âmbito do processo decisório, verificou-se possível inobservân-
cia de disposições normativas da FUNCEF vigentes na época, necessárias à confor-
midade e segurança do investimento, seja pela restrição do escopo das análises ju-

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rídica, de risco e conformidade realizadas, seja pela ausência de realização de dili-
gências legais.
257. Já na primeira subscrição de R$ 350 milhões no FIP SONDAS, so-
bre os quais não foram identificadas críticas de outros agentes, aparenta a ausência
da análise completa do risco do investimento, auditoria jurídica e demais diligências
legais, a fim de se aferir a real situação da empresa investida, aliada a um também
aparente açodamento na efetivação do investimento.
(...)
259. No exercício do direito de preferência na segunda emissão de cotas
do FIP SONDAS e sua respectiva subscrição também não foram identificadas as
análises de risco, incluindo a hipótese de não obtenção do financiamento “máster”
junto ao BNDES, jurídico e governança. Igualmente, não foram identificadas dili-
gências legais que pudessem certificar a real situação da empresa investida e, assim,
minorar os riscos, o que, além de representar desatendimento às Normas Internas an-
tes citadas, representa possível inobservância aos preceitos colocados pela Resolu-
ção CMN 3.792/09 e falta da adequada cautela pelo gestor quanto à decisão pelo in-
vestimento.
(...)
261. Noutro aspecto, não foi possível identificar as reais razões para a
decisão da Diretoria Executiva em manter a participação da FUNCEF no FIP SON-
DAS em 19,209%, com a subscrição de R$ 1.042.619.872,26, uma vez que, para
manutenção da governança, conforme posto na Resolução/Ata 076/1069, seriam ne-
cessários R$ 737,5 milhões, a fim de se manter participação acima de 15% e assim
manter a possibilidade de, sozinha, vetar matérias que exigissem aprovação por quó-
rum mínimo de 85%.
262. Embora a decisão pelo valor maior pudesse o ser em razão do méri-
to do investimento, não foi identificado o respectivo registro na ata da reunião que o
aprovou, nem foram localizados nos documentos elementos que confirmem “as con-
dições mais satisfatórias da taxa de retorno do investimento, comparada a aprovação
original” para o maior aporte, o que pode depor contra a adequada condução pela
operação, mormente considerando que a proposição inicial era de investimento sig-
nificativamente menor, de R$ 127,2 milhões, respeitando o limite de 1% dos RGPB.
263. No acompanhamento dos investimentos, não foram identificadas
Orientações de Voto para todas as reuniões do Comitê de Investimento do FIP e do
Conselho de Administração da Companhia. Também não foram identificados relató-
rios das reuniões, o que desatende à exigência contida em norma interna da FUN-
CEF, pode representar falha na gestão do investimento e ter dado margem para a
evolução dos prejuízos, diante de uma ausência de análise técnica da situação da
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Companhia e a adoção de medidas precaucionais.

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264. Há indicativos, portanto, de falhas no processo decisório e no pro-
cesso de gestão e acompanhamento do investimento, que podem ter contribuído para
o montante, ainda que em parte, dos valores provisionados em prejuízo.

É importante ainda registrar que os acusados responsáveis pela análise de in-


vestimentos da FUNCEF (especial a Diretoria de Investimentos) tinham a obriga-
ção de examinar criticamente todos os aspectos relacionados a risco e plausibilida-
de das expectativas de rentabilidade das propostas de investimento não somente em
razão dos artigos 4° e 9° da então Resolução n° 3.792/2009 do CMN, mas também
de norma interna da própria FUNCEF, qual seja, a IF 0 10 02. Contudo, tal como
aconteceu no caso da PETROS, os agentes denunciados da FUNCEF também não
levaram em consideração os conflitos de agenda e de interesses, os riscos de cons-

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trução e de financiamento, a falta de expertise da companhia-alvo, os riscos tributá-
rios e contratuais e demais riscos já mencionados, tomando a decisão de investi-
mentos sem maiores precauções, com base na própria opinião dos ofertantes da
“oportunidade de investimento”, violando deveres fiduciários e de diligência a que
estavam obrigados, gerindo, dessa forma, de modo temerário a FUNCEF.

Após aprovar o primeiro aporte de forma temerária, visando inicialmente a


construção do empreendimento denominado “Primeiro Sistema”, um ano depois, em 2012, os
gestores da FUNCEF praticaram novo ato temerário na aprovação, em 27 de março de 2012
(Ata nº 1066), de um novo aporte da FUNCEF no FIP SONDAS, no valor de R$
1.042.000.000,00, mesmo com pareceres parcialmente contrários de sua Gerência de
Participações e da Diretoria de Participações (DIPAR), por meio da subscrição de novas cotas
do FIP.
Pouco tempo depois, em 19 de abril de 2012, a GEPAR emitiu o parecer PA
GEPAR 012/2012, no qual não fazia nenhuma avaliação sobre os fatos que prejudicavam o
investimento, mas ressaltou a necessidade de se observar o limite prudencial de 1% dos
Recursos Garantidores dos Planos de Benefícios (RGPB) na definição de aportes, o que
representaria um novo aporte limitado ao valor de R$ 127.200.000,00. (cento e vinte sete
milhões e duzentos mil reais).
O mencionado parecer foi acolhido por CARLOS BORGES, Diretor de
Participações (DIPAR), que o endossou e apresentou os argumentos nele constantes à
Diretoria Executiva por meio do Voto VO DIPAR 032/2012.
Apesar da supracitada ressalva, a denúncia salienta que o parecer não realizou
as análises de riscos necessárias antes de recomendar uma nova subscrição de cotas. Com
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efeito, à época diversos entraves à realização do empreendimento já haviam surgido e eram

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conhecidos, tais como os atrasos na construção das sondas no Estaleiro Atlântico Sul e os
entraves no financiamento do BNDES, dentre outros problemas.
No entanto, de forma ainda mais temerária, em 24 de abril de 2012 a Diretoria
Executiva da FUNCEF, então formada pelos denunciados CARLOS CASER, CARLOS
BORGES, MAURÍCIO MARCELLINI e ANTÔNIO BRÁULIO, além de José Carlos Alonso
Gonçalves e Rafael Pires de Sousa, ao apreciar a proposta constante no voto VO DIPAR
032/12, de CARLOS BORGES, aprovou, sem maior aprofundamento técnico, um novo

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investimento da FUNCEF no valor máximo de R$ 1.042.000.000,00 (um bilhão e quarenta e
dois milhões de reais), valor muito superior ao inicialmente proposto pela DIPAR, com a
justificativa de que se pretendia manter a participação da FUNCEF no FIP SONDAS de
19,21%.
Posteriormente, em 16 de maio de 2012, o Conselho Deliberativo da FUNCEF,
presidido por CARLOS ALBERTO CASER e composto também por ESTEVES PEDRO
COLNAGO JÚNIOR, FABIANA CRISTINA MENEGUÊLE MATHEUS, JOSÉ MIGUEL
CORREIA, OLÍVIO GOMES VIEIRA e RAPHAEL REZENDE NETO, seguiu o
entendimento da Diretoria Executiva e decidiu pela aprovação do exercício, pela FUNCEF, do
direito de preferência na aquisição de novas cotas do FIP SONDAS, referentes à segunda
emissão (Ata nº 377), sem embasamento técnico e sem analisar o mérito do investimento,
deixando para um momento posterior uma apresentação sobre o fundo, embora naquele
momento estivessem aprovando, desde logo, um investimento de mais de um bilhão de reais
nele, em um ato evidentemente temerário. A mencionada apresentação seria realizada apenas
quatro meses depois, em 26 de setembro de 2012, e mesmo assim de forma bastante
superficial.
Assim, o investimento da FUNCEF no FIP SONDAS foi aumentado para R$
1.392.000.000,00 no total (em valor contábil).
Ao proceder com temeridade, sem analisar os riscos dos investimentos, os
denunciados violaram as normas do art. 9º da Resolução CMN nº 3.792/2009 e o art. 12 da
Resolução CGPC nº 13/2014, e praticaram o delito descrito no art. 4º, parágrafo único, da Lei

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nº 7.492/1986. O mencionado delito foi praticado desde a primeira subscrição de cotas (por

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meio da qual a FUNCEF aportou R$ 350.000.000,00 (trezentos e cinquenta milhões de reais)
e foi novamente praticado com a aquisição de cotas da segunda emissão (referente ao
“Segundo Sistema”), em que a FUNCEF aportou mais R$ 1.042.000.000,00 no FIP
SONDAS, de forma absolutamente temerária.
Como resultado dos diversos problemas relacionados ao empreendimento, que,
como se demonstrou, eram visíveis desde seu início e haviam se tornado ainda mais aparentes
à época da aprovação da segunda subscrição de cotas, a SETE BRASIL, que já apresentava

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enorme desequilíbrio financeiro, apresentou pedido de recuperação judicial, sendo deferido
em 15/06/2016. Em 2015, em razão das diversas dívidas, a SETE BRASIL possuía um
passivo a descoberto (Patrimônio Líquido Negativo) de R$ 22,7 bilhões.
Diante da perda de valor da SETE BRASIL, único ativo do FIP SONDAS, a
FUNCEF perdeu a totalidade do valor aportado, ou seja, R$ 1.378.046.846,00 (um bilhão,
trezentos e setenta e oito milhões, quarenta e seis mil e oitocentos e quarenta e seis reais), em
valores históricos, atualizados para R$ 2.394.667.914,66 até 31/10/2019, gerando a maior
perda que a FUNCEF sofreu num só investimento dentre todos os casos investigados na
Operação Greenfield.
Da análise dos fatos relatados, verifica-se que, não obstante todos os diretores
da FUNCEF que foram denunciados tenham efetivamente concorrido para a prática dos
delitos, DEMÓSTHENES MARQUES, Diretor de Investimentos, e CARLOS BORGES,
Diretor de Participações Societárias e Imobiliárias, tiveram um papel de destaque na condução
do processo de investimento no âmbito da FUNCEF.
Foi DEMÓSTHENES MARQUES quem primeiro levou o investimento inicial
de R$ 350.000.000,00 à Diretoria da FUNCEF, por meio do Voto DIRIN 019/11. Ademais, a
denúncia ressalta que DEMÓSTHENES MARQUES também exercia à época a função de
AETQ (Administrador Estatutário Tecnicamente Qualificado), sendo responsável pela
“gestão, alocação, supervisão, controle de risco e acompanhamento dos recursos garantidores”
dos planos administrados.
Já por ocasião da segunda subscrição, foi a DIPAR, cujo diretor era CARLOS

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BORGES, quem recomendou à Diretoria Executiva a realização de nova subscrição de cotas

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pela FUNCEF, apresentando um cenário ficticiamente otimista para o novo investimento e
sem as necessárias análises de riscos. Salienta-se que a Diretoria de Participações era o setor
responsável por acompanhar de perto o investimento já realizado na SETE BRASIL por meio
do FIP SONDAS.
Assim, embora os demais diretores tenham concorrido diretamente para
prejuízos causados pela FUNCEF ao acolher os posicionamentos de DEMÓSTHENES
MARQUES e CARLOS BORGES em seus votos favoráveis ao investimento, nas condições

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já relatadas, verifica-se que os dois diretores mencionados tiveram, neste investimento, uma
posição de protagonismo.
Ressalta-se que todas as ilicitudes apontadas já foram amplamente detalhadas
na denúncia que inaugurou as ações penais nº 1003326-67.2020.4.01.3400 e 1003120-
53.2020.4.01.3400, cuja cópia segue anexa a esta petição.

3.5. FIP OAS EMPREENDIMENTOS

No bojo da ação penal nº 1058284-03.2020.4.01.3400, foram denunciados


diversos dirigentes da FUNCEF, bem como alguns empresários, em razão de delitos
praticados no âmbito do investimento da FUNCEF no FIP OAS EMPREENDIMENTOS.
Acerca das condutas denunciadas, oportuna se faz a transcrição do seguinte
trecho da denúncia:

Os ora denunciados Humberto Pires Grault Vianna de Lima, Antônio


Braulio de Carvalho, Carlos Alberto Caser, Carlos Augusto Borges e Pieter
Jacobus Marie Freriks são os responsáveis por atos configuradores da gestão
fraudulenta, em razão de o órgão fiscalizador, bem como a própria FUNCEF, ha-
ver apurado infringência, por parte da referida entidade, a diversos dispositivos da
Lei Complementar 109/20011, legislação esta que vigora no âmbito do regime de
previdência complementar (RE CTA FIP OAS EMPREENDIMENTOS/004/2017),
com o uso de premissas destoantes da realidade para a realização do investimento e
com evidente desprezo à Entidade Fechada de Previdência Complementar.
Ademais, houve a prática de corrupção passiva e lavagem de dinheiro
pelo ex-diretor da FUNCEF Carlos Augusto Borges, que solicitou e recebeu, em
razão da função, vantagem indevida, bem como converteu em ativos lícitos os va-
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lores provenientes da infração penal, com o fim de ocultar ou dissimular a sua ori-

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gem, sendo peça fundamental para a aprovação do investimento.
Também, o colaborador José Adelmário Pinheiro Filho, ex-presidente da
OAS, praticou corrupção ativa e lavagem de dinheiro, já que foi o responsável
por oferecer vantagem ilícita ao ex-diretor Carlos Augusto Borges, a fim de que
este viabilizasse o investimento no FIP OAS Empreendimentos. Além disto, José
Adelmário Pinheiro Filho buscou ocultar ou dissimular a natureza da “propina”,
por meio da conversão destes valores em ativos lícitos.

Nesse contexto, as condutas cuja prática foi denunciada no bojo da ação penal
nº 1058284-03.2020.4.01.3400 foram gestão fraudulenta (art. 4º, caput, da Lei nº 7.492/1986),

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corrupção ativa e passiva (arts. 333 e 317 do Código Penal) e lavagem de dinheiro (art. 1º da
Lei nº 9.613/98).
Os principais elementos que embasaram a denúncia foram produzidos pela
PREVIC (RF nº 01/2016/CFDF/PREVIC), pela FUNCEF (RE CTA 004/2017), pela CVM
(Relatório de Análise/CVM/SIN/GIA/Nº 02/16), Caixa Econômica Federal (Relatório da
Força Tarefa CPI Fundos de Pensão), bem como pelo próprio MPF (Parecer Técnico nº
581/2019 SPPEA).
Os fatos denunciados serão descritos brevemente em seguida.
O FIP OAS Empreendimentos surgiu a partir da reestruturação do FIP Caixa
Zurique. A partir do novo regulamento alterado pela Caixa Econômica Federal, na qualidade
de administradora e gestora do Fundo por meio de sua Vice-Presidência de Ativos de
Terceiros (VITER), em 25 de junho de 2013 o FIP passou a ter como alvo a empresa OAS
Empreendimentos, passando a denominar-se Fundo de Investimento em Participações OAS
Empreendimentos (FIP OAS Empreendimentos).
A OAS Empreendimentos faz parte do Grupo OAS S.A., sociedade anônima de
capital fechado cujo objeto social é a “exploração de atividade de engenharia civil e da
indústria de construção civil, compra e venda de imóveis, e incorporação imobiliária, dentre
outros”.
A FUNCEF ingressou no investimento em 31 de janeiro de 2014, após
aprovação de sua Diretoria Executiva.
Antes disso, em 30 de julho de 2013, a Diretoria Executiva da FUNCEF

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aprovou, por deliberação de seus diretores (Ata nº 1127), a contratação da empresa Deloitte

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Touche Tohmatsu para prestação de serviços de assessoria financeira e jurídica (due
diligence). A ata em questão foi aprovada por deliberação dos diretores CARLOS CASER
(Diretor-Presidente), ANTÔNIO BRÁULIO (Diretor de Planejamento e Controladoria),
HUMBERTO GRAULT (Diretor de Participações Societárias e Imobiliárias em exercício),
JOSÉ CARLOS ALONSO GONÇALVES (Diretor de Benefícios), Maurício Marcellini
(Diretor de Investimentos) e Renata Marotta (Diretora de Administração), ausente o Diretor
de Participações Societárias e Imobiliárias CARLOS AUGUSTO BORGES.

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A empresa Deloitte precificou os ativos da empresa OAS Empreendimentos em
mais de um bilhão de reais, mais que o quádruplo do valor do patrimônio líquido da empresa,
que era de R$ 237.900.000,00 (duzentos e trinta e sete milhões e novecentos mil reais) em
dezembro de 2013.
Em 14 de novembro de 2013 foi elaborado o VOTO DIPAR 034/13,
submetendo à apreciação da Diretoria Executiva a proposta de investimento da FUNCEF no
FIP OAS Empreendimentos. O mencionado voto foi submetido à aprovação da Diretoria
Executiva, tendo sido aprovado em 31 de janeiro de 2014, conforme a Resolução/Ata nº
191/1141.
Em 14 de fevereiro de 2014 ocorreu a integralização de 42.236 novas cotas do
fundo, no montante de R$ 200 milhões de reais, referentes à sua segunda emissão de cotas,
todas estas subscritas e integralizadas pela FUNCEF.
O contrato previa que a FUNCEF deveria realizar outra integralização de mais
de R$ 200 milhões de reais em janeiro de 2015, o que foi obstado pelo VOTO DIPEC
006/2015, por deliberação da Diretoria Executiva, em face da situação de inadimplência das
empresas do Grupo OAS.
Em 1º de abril de 2015, a 1ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São
Paulo/SP deferiu pedido formulado pela companhia OAS S.A. e outras empresas relacionadas.
Em 7 de abril de 2015, foi apresentado o Parecer GEJUR 052/15, da FUNCEF,
acerca das implicações jurídicas em razão do pedido de recuperação judicial formulado pelas
empresas pertencentes ao Grupo OAS. A conclusão foi de que os reflexos para a FUNCEF

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poderão ser mais diretos, uma vez que a participação no FIP OAS Empreendimentos pode vir

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a ser demandada perante terceiros, no caso de eventuais obras interrompidas (riscos de
incorporação), em decorrência da desconsideração da personalidade jurídica da empresa.
Em 18 de dezembro de 2015, foi elaborada pela empresa Deloitte uma nova
avaliação econômico-financeira das operações consolidadas da OAS empreendimentos S.A., a
pedido do FIP OAS Empreendimentos, visando fornecer subsídios para contabilização do
valor de mercado das cotas da OAS. O resultado, considerando o cenário de recuperação
judicial da empresa, foi de que a OAS não apresenta valor econômico, uma vez que todo o

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caixa gerado das operações seria destinado ao pagamento de credores.
Diante deste quadro, o prejuízo à FUNCEF com relação ao investimento no
FIP OAS Empreendimentos foi de R$ 200.000.000,00 (duzentos milhões de reais), prejuízo
nominal à época do investimento, isto é, 14/02/2014.
O prejuízo da FUNCEF pode tornar-se ainda maior considerando que a referida
EFPC poderá ser obrigada judicialmente a aportar os outros R$ 200 milhões de reais,
demanda que corre perante a Câmara Arbitral de São Paulo.
Ademais, o Parecer GEJUR 052/15, de 2 de abril de 2015, analisando as
implicações jurídicas em razão do pedido de recuperação judicial das empresas pertencentes
ao Grupo OAS, concluiu que a FUNCEF pode apresentar reflexos diretos em razão de sua
participação no FIP OAS poder vir a ser demandada perante terceiros, no caso de eventuais
obras interrompidas (riscos de incorporação), em decorrência da desconsideração da
personalidade jurídica da empresa.
Ao longo das investigações, foram identificadas tratativas ilícitas que
precederam a entrada da FUNCEF no FIP OAS Empreendimentos. Com efeito, o colaborador
Léo Pinheiro, no Termo de Depoimento nº 83 de sua colaboração premiada, afirmou que
entrou em contato com Carlos Borges, que então era o diretor responsável pela Diretoria de
Participações da FUNCEF, para viabilizar o investimento, tendo pagado aproximadamente R$
3 milhões de reais em vantagens indevidas ao referido diretor, utilizando-se de estratégias
para camuflar a origem dos valores. Conforme ressaltado pelo colaborador, Carlos Borges era
peça fundamental para aprovação do investimento, pois o parecer que o recomendaria e o voto

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para sua aprovação estavam vinculados à diretoria que ele comandava (DIPAR).

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Acerca das supracitadas tratativas ilícitas entre Léo Pinheiro e Carlos Borges,
oportuna se faz a transcrição do seguinte trecho da denúncia correspondente:

“ Com relação ao FIP OAS Empreendimentos, o ex-presidente da OAS


relatou que, com a realização do investimento, haveria uma ‘injeção de capital na
OAS”.
Nos termos do Termo de Colaboração nº 83, o ex-presidente da OAS
afirmou que, no final de 2012, ele e o ex-vice-presidente da OAS Investimentos, S.
Antonio Carlos Mata Pires, procuraram o então diretor da FUNCEF Carlos Borges

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para lhe oferecer uma oportunidade de investimento da OAS Empreendimentos por
meio de um FIP.
Para a concretização do investimento, houve tratativas entre o ex-presidente
da OAS, Sr. Leo Pinheiro, e os ex-diretores da FUNCEF Carlos Alberto Caser e
Carlos Augusto Borges.
Houve um grande número de contatos entre o ex-presidente da OAS e o ex-
diretor Carlos Borges, que tinha o comando da operação, bem como influência
muito grande sobre o ex-diretor Carlos Alberto Caser.
Houve grande número de contatos entre o ex-presidente da OAS e o ex-
diretor Carlos Borges, que tinha o comando da operação, bem como influência
muito grande sobre o ex-diretor Carlos Alberto Caser.
Numa destas ocasiões, o então diretor Carlos Borges afirmou para o Sr. Leo
Pinheiro que ‘era necessário peso político e apoio do PT para conseguir’ realizar o
investimento (Termo de Colaboração nº 82).
A fim de aprovar o investimento da FUNCEF na OAS Empreendimentos, foi
contratado o escritório em que trabalhava a filha do ex-diretor Carlos Borges, o
que foi autorizado pelo Sr. Leo Pinheiro.
Ademais, houve o financiamento do filme ‘Male do Bale’ pela OAS, via Lei
Rouanet, em virtude de solicitação do ex-diretor Carlos Borges.
Acrescente-se que foram solicitados ‘pagamentos’ pelo ex-diretor Carlos
Borges, que seriam destinados a campanhas políticas (Flávio Dino, Wellington
Dias e sua esposa).
(...)
Em síntese, houve o pagamento de valores indevidos ao ex-diretor Carlos
Borges, a fim de que este auxiliasse na realização do investimento da FUNCEF no
FIP OAS Empreendimentos. O pagamento dos valores indevidos (‘propina’) foi
estimado em torno de R$ 3.000.000,00 (três milhões de reais), que tiveram as
seguintes finalidades: 1) apoio para a campanha do governador do Maranhão
Flavio Dino, 2) apoio para campanha do senador Wellington Dias e sua esposa, 3)
aluguel de apartamento para Carlos Borges passar o reveillon, que foi realizado por
meio de Valdemar Garreta, 4) contratação do escritório de advocacia da filha de
Carlos Borges para auxiliar na aprovação do investimento da FUNCEF na OAS
Empreendimentos; 5) financiamento, a pedido de Carlos Borges, do filme ‘Male do
Bale’.
Destaque-se, por fim, que, conforme Termo de Colaboração nº 82, o ex-
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diretor Carlos Borges foi ‘peça fundamental’ para a aprovação de tal

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investimento, pois o parecer recomendado o investimento e o voto para a sua
aprovação estavam vinculados à Diretoria comandada por Carlos Borges.

IV.10. Análise das mensagens trocadas entre o ex-presidente da OAS, Sr.


Leo Pinheiro, e os ex-diretores da FUNCEF.

Nos termos do Relatório de Análise de Polícia Judiciária nº 01/2015


(Operação Lava Jato 7), foram identificadas conversas entre o ex-diretor da
FUNCEF ‘CB’, referência a Carlos Augusto Borges, e o sr. Leo Pinheiro.
Vejamos:

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Conforme colaboração do Sr. Leo Pinheiro, este mantinha conversas com


‘CB’, o ex-diretor Carlos Borges. A referência a ‘machão’ era para o ex-diretor da
FUNCEF Carlos Alberto Caser.

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Nota-se que foram realizados diversos encontros entre o Sr. Leo Pinheiro e o

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ex-diretor da FUNCEF Carlos Borges.

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Ainda, quanto às referidas mensagens constantes do Relatório da Polícia


Federal, o Sr. Leo Pinheiro asseverou (Termo de Declaração do dia 24 de abril de
2020, em que foi ouvido o Sr. Leo Pinheiro pela Força Tarefa Greenfield):

‘05/11/2014 – respondeu que Borges queria ficar na Funcef, mas nunca pediu
para um político esse tipo de favor.f
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Sobre a sigla CB, confirmou ser o Carlos Borges.

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22/12/2013 – confirmou que deve ser o pagamento do apartamento que
alugou para Carlos Borges, que foi via Garreta.
Disse que o problema da Caixa como patrocinadora, o Borges (papel dele não
era só de aceitação, era um papel bem ativo).
06/2014 – procurou o Vaccari para falar que estava sendo procurado para dar
apoio no Maranhão.
01/2013 – disse que é algum dinheiro.
03/2013 – ‘Machão’ disse que é o Caser.
04/2013 – Mensagem do Gustavo Rocha, respondeu que Gustavo Rocha era
presidente da Invepar, veio para a OAS para começar a estudar. Tinha muito
problema entre Gustavo e Carlos Borges. Disse que Borges não tinha uma relação
muito boa com Gustavo.
05/2013 – APT deve ser algo relacionado aos fundos da INVEPAR.

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Pediu o e-mail de Carlos Borges para se comunicar com ele.
02/2014 – Carlos Borges queria tratar sobre campanha.
07/2014 – deve ser coisa da Invepar, inclusive chegou entrevistar outras
pessoas para o lugar do Gustavo Rocha.
29/10/2014 – houve um problema GG era o Geovanne, era problema na
Invepar.’

Em suma, as conversas extraídas dos aparelhos telefônicos de José


Aldemário Pinheiro Filho confirmam a narrativa apresentada nos Termos de
Colaboração por ele firmados.

As supracitadas tratativas ilícitas evidenciam que o investimento da FUNCEF


no FIP OAS Empreendimentos foi definido com base em interesses escusos de terceiros,
desconsiderando o que seria mais benéfico à referida Fundação. Em decorrência disto, o
processo de investimento da FUNCEF no FIP OAS Empreendimentos foi marcado por
diversas irregularidades, que serão descritas adiante.
Conforme relatado na denúncia, o Relatório de Fiscalização nº 01/2016/CFDF/
PREVIC, que analisou o supracitado empreendimento, apontou as seguintes irregularidades:

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Acerca da irregularidade descrita no item “d”, referente à avaliação
econômico-financeira da empresa OAS Empreendimentos S.A. realizada pela Deloitte, o
Relatório da CTA da FUNCEF informou que apenas duas empresas: Modal Assessoria
Financeira Ltda e Deloitte Touche Tohmatsu, haviam apresentado proposta técnica para
elaboração da avaliação econômica financeira. Assim, a CTA ressaltou que o número de
apenas duas propostas fragilizou o processo de escolha da empresa avaliadora.
Acerca da irregularidade descrita no item “d”, referente à avaliação
econômico-financeira da empresa OAS Empreendimentos S.A. realizada pela Deloitte, o
Relatório da CTA da FUNCEF informou que apenas duas empresas: Modal Assessoria
Financeira Ltda e Deloitte Touche Tohmatsu, haviam apresentado proposta técnica para

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elaboração da avaliação econômica financeira. Assim, a CTA ressaltou que o número de

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apenas duas propostas fragilizou o processo de escolha da empresa avaliadora.
Com relação à avaliação econômico-financeira da empresa OAS
Empreendimentos realizada pela Deloitte, que serviu de base para todas as análises das áreas
técnicas da FUNCEF, o Relatório de Fiscalização nº 01/2016/CFDF/PREVIC indicou diversas
fragilidades, dentre as quais o fato de que as premissas utilizadas para avaliação dos
empreendimentos imobiliários foram fornecidas pela própria OAS Empreendimentos,
empresa controlada pela OAS S/A (a “vendedora” do negócio), sem que houvesse uma

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avaliação crítica interna da FUNCEF, situação que também foi ressaltada no RE CTA
004/2017, da FUNCEF.
Ademais, para definição do valor da empresa, além dos imóveis já
incorporados a Deloitte considerou imóveis denominados “viabilidades” e “megaprojetos”, os
quais ainda não se encontravam na fase de projeto e que eram suscetíveis aos riscos próprios
de uma incorporação imobiliária, além de ter considerado também projetos denominados
“genéricos” para os quais não havia qualquer garantia de execução.
Também a CVM, a Força Tarefa da Caixa e o setor técnico do MPF apontaram
diversas fragilidades na avaliação realizada pela DELOITTE, que resultaram na
superavaliação dos ativos com repercussão direta no valor da companhia OAS
Empreendimentos e, consequentemente, no valor a ser aportado pela FUNCEF.
A CVM concluiu: “com base nas observações do Relatório da CVM, esta
Comissão conclui que a FUNCEF não teve a diligência, cautela, zelo na condução do
investimento ao aceitar a avaliação econômico-financeira nos moldes acima relatados, tendo
inclusive participado de reuniões, desconfigurando a independência que deveria prevalecer
em um processo de avaliação econômico-financeira para precificação da companhia,
contribuindo para o prejuízo ocasionado pelo investimento no FIP OAS Empreendimentos”.
Com relação às demais irregularidades identificadas no âmbito do investimento
no FIP OAS Empreendimentos, a denúncia indicou as seguintes, conforme o Relatório da
CTA da FUNCEF e o Relatório de Fiscalização da PREVIC:

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a) O VOTO DIPAR 034 foi elaborado em 14 de novembro de 2013, antes da elabora-

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ção dos pareceres de risco PA GECOR 196/13 e de conformidade PA GECOR
197/13, anterior à análise do grupo Técnico de Investimento consubstanciada na
Ata de Reunião n. 100, instrumentos técnicos aptos a avaliar os riscos do investi-
mento e apontar as falhas existentes, violando normas internas da FUNCEF.
b) Os supracitados pareceres PA GECOR 196/13 e 197/13 foram apresentados apenas
na Reunião da Diretoria executiva de 20 de novembro de 2013, que aprovaria o in-
vestimento, de modo que não haveria tempo para realizar uma análise satisfatória.
c) Foram ignoradas as ressalvas ao investimento apresentadas ela Gerência Jurídica
da FUNCEF.
d) Não houve a devida segregação de funções entre as áreas técnicas da FUNCEF na
condução do investimento para sua aprovação, pois Humberto Grault assinou o PA
COANI 007/13 na condição de Gerente da GEPAR e assinou o VOTO DIPAR 034

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na condição de Diretor de Participações Societárias e Imobiliárias em exercício, em
substituição a Carlos Borges, Diretor da DIPAR.
e) O FIP OAS Empreendimentos foi contratado sem que houvesse previsão na políti-
ca de investimentos para 2013.

Apesar das supracitadas fragilidades, a Diretoria Executiva da FUNCEF,


composta por CARLOS CASER (então Diretor-Presidente), HUMBERTO GRAULT (então
Gerente de Participações e Diretor de Participações Substituto), MAURÍCIO MARCELLINI
(então Diretor de Investimentos), ANTONIO BRÁULIO DE CARVALHO (então Diretor de
Planejamento e Controladoria), JOSÉ CARLOS ALONSO GONÇALVES (então Diretor de
Benefícios) e RENATA MAROTTA (então Diretora de Administração) 3 deliberaram, na
Reunião de 20 de novembro de 2013 (Ata 1141), pela aprovação do FIP OAS
Empreendimentos, apresentado pelo VOTO DIPAR 034/2013, de 14 de novembro de 2013,
do qual constavam, em anexo, apenas o Regulamento do Fundo, o Acordo de Cotista e
Acordo de Investimentos.
No bojo do RE CTA 004/2017 foi realizada a transcrição da gravação reunião
referente à Ata 1141, na qual restou evidenciado que, apesar de ressalvas importantes
3 Apesar de terem participado da reunião que aprovou a decisão de investimento, Jose Carlos Alonso
Gonçalves e Renata Marotta não foram denunciados com relação ao investimento no FIP OAS
Empreendimentos em razão de dúvida razoável sobre o dolo de suas condutas, considerando que os referidos
diretores não atuavam ordinariamente com atividades de prospecção, gestão e acompanhamento de
investimentos.
Maurício Marcellini Pereira também não foi denunciado nesta ocasião em função de seu posicionamento
divergente, demostrando certa preocupação com o investimento. Nos termos do RE CTA p. 54/102, “a
preocupação manifestada pelo ex-Diretor Marcellini ao ex-presidente Caser quanto ao desembolso dos
recursos não previstos no pipeline e os impactos advindos com a saída dos recursos da renda variável,
alocação para os próximos anos, e os apontamentos feitos pela GECOR e GT, de forma a viabilizar a NDE.
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apresentadas por alguns dos diretores com relação ao investimento, notadamente referentes ao

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desconhecimento da taxa de retorno do negócio, à falta de tempo para realização de uma
leitura minuciosa dos pareceres do GECOR4 e aos riscos jurídicos existentes, o então Diretor
Presidente Carlos Caser considerou aprovado o investimento, sem que houvesse objeção por
parte dos demais diretores.
Desse modo, foi aprovado o investimento no FIP OAS Empreendimentos. Conforme
já descrito anteriormente, em 14 de fevereiro de 2014 ocorreu a integralização de 42.236
novas cotas do fundo, no montante de R$ 200 milhões de reais, referentes à sua segunda

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emissão de cotas, todas estas subscritas e integralizadas pela FUNCEF.
Posteriormente (2015), diante do cenário de recuperação judicial da empresa OAS
Empreendimentos, foi realizada uma nova avaliação da empresa pela DELOITTE, cujo
resultado foi de que a OAS não apresentava valor econômico, uma vez que todo o caixa
gerado pelas operações seria destinado ao pagamento de credores.
Nesse contexto, a consequência dos atos de gestão fraudulenta praticados pelos
diretores da FUNCEF foi a perda total do valor investido, um prejuízo de, no mínimo, R$
200.000.000,00 (duzentos milhões de reais), prejuízo nominal à época do investimento, isto é,
14/02/2014.
Da análise dos fatos relatados, verifica-se que, não obstante todos os diretores
da FUNCEF que foram denunciados tenham efetivamente concorrido para a prática dos
delitos, CARLOS BORGES, Diretor de Participações Societárias e Imobiliárias, e
HUMBERTO GRAULT, na condição de Gerente da GEPAR (subordinada à DIPAR) e
também como Diretor de Participações Societárias e Imobiliárias em exercício, em
substituição a CARLOS BORGES, tiveram um papel de destaque na condução do processo de
investimento no âmbito da FUNCEF.
Conforme esclarecido na denúncia, CARLOS BORGES, na condição de
Diretor de Participações Societárias e Imobiliárias da FUNCEF, recebeu propinas em troca de
viabilizar a aprovação do investimento no âmbito da FUNCEF. E HUMBERTO GRAULT,
por sua vez, foi quem conduziu diretamente o investimento, apresentando-o à Diretoria
4 Os pareceres PA GECOR 196/13 e 197/13, da área de risco corporativo e de conformidade, ambos datados
de 19 de novembro de 2013, foram apresentados apenas no momento da Reunião da Diretoria Executiva, no
dia 20 de novembro de 2013, conforme registro na própria Ata da Diretoria Executiva n. 1141.
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Executiva da FUNCEF por meio do VOTO 034/13 e realizando a sustentação oral e defesa do

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investimento na reunião da Diretoria que o aprovou.
Assim, embora os demais diretores tenham concorrido diretamente para
prejuízos causados pela FUNCEF ao acolher o posicionamento da DIPAR no contexto
relatado, verifica-se que os dois gestores mencionados tiveram, neste investimento, uma
posição de protagonismo.
Ressalta-se que todas as ilicitudes apontadas já foram amplamente detalhadas
na denúncia que inaugurou a ação penal nº 1058284-03.2020.4.01.3400, cuja cópia segue

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anexa a esta petição.

3.6. SALAS DO EDIFÍCIO OAB

No bojo da ação penal nº 1023258-12.2018.4.01.3400, o Ministério Público


Federal ofereceu denúncia em face de CARLOS AUGUSTO BORGES e dos particulares
JÚLIO NEVES DE CARVALHO e ROSANA AIRES PEREIRA pela prática de gestão
fraudulenta da FUNCEF (art. 4º, caput, da Lei nº 7.492/86), tendo em vista que CARLOS
BORGES, na condição de Diretor de Participações Societárias e Imobiliárias da FUNCEF,
com a participação dos empresários JÚLIO NEVES e ROSANA AIRES, sócios-proprietários
da empresa NEVES & AIRES CONSULTORIA, ASSESSORIA E SERVIÇOS
TERCEIRIZADOS LTDA., geriram de forma fraudulenta a FUNCEF para permitir a
alienação de um grupo de 8 (oito) salas e 2 (duas) vagas de garagem no Edifício da OAB/DF,
os quais eram de propriedade da FUNCEF, à empresa NEVES & AIRES CONSULTORIA,
ASSESSORIA E SERVIÇOS TERCEIRIZADOS LTDA., no valor de R$ 1.520.000,00 (um
milhão, quinhentos e vinte mil reais), negócio esse corroborado por laudo de avaliação
elaborado pela empresa Beta Place Engenharia de Avaliações Ltda., com valor médio de
subfaturamento avaliado em R$ 636.000,00 (seiscentos e trinta e seis mil reais).
Outrossim, CARLOS AUGUSTO BORGES foi denunciado pelo desvio de
valores (art. 5º da Lei nº 7.492/1986), em proveito de JÚLIO NEVES e ROSANA AIRES,
sócios-proprietários da empresa NEVES & AIRES CONSULTORIA, ASSESSORIA E
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SERVIÇOS TERCEIRIZADOS LTDA., o valor de R$ 636.000,00 (seiscentos e trinta e seis

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mil reais), consistente no valor médio do subfaturamento do imóvel por ocasião da alienação,
em flagrante prejuízo aos cofres da FUNCEF e em benefício aos sócios da empresa
compradora.
Os fatos que envolveram a prática de gestão fraudulenta no âmbito da venda
das salas do Edifício OAB serão descritos resumidamente a seguir.
Por meio das Resoluções/Ata nº 084/1162, de 28 de maio de 2014 e 034/402,
de 03 de julho de 2014, a Diretoria Executiva e o Conselho Deliberativo da FUNCEF

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aprovaram o Plano de Alienação de Investimentos Imobiliários da referida EFPC em
consonância com o VO DIPAR 024/14, de 25 de maio de 2014, confeccionado por CARLOS
AUGUSTO BORGES. No referido Plano de Alienação, foram inseridas as salas 301 a 308 do
Edifício OAB em Brasília/DF, junto com duas vagas de garagem, localizadas no Setor de
Autarquias Sul.
Autorizada pelo supracitado Plano de Alienação, a FUNCEF alienou as salas e
vagas de garagem para a empresa NEVES & AIRES CONSULTORIA, ASSESSORIA E
SERVIÇOS TERCEIRIZADOS LTDA (NEVES & AIRES CONSULTORIA). Tal alienação
foi levada a efeito por CARLOS BORGES, então Diretor de Participações Societárias e
Imobiliárias da FUNCEF, no dia 16 de janeiro de 2015, data em que foi subscrita promessa de
compra e venda que tinha por objetivo a alienação dos citados imóveis. Subscreveram o
referido instrumento, como representantes da empresa adquirente, os réus JÚLIO NEVES e
ROSANA AIRES, sócios-proprietários da citada pessoa jurídica.
Salienta-se que JÚLIO NEVES era ex-funcionário da FUNCEF, havendo
mantido estreito vínculo com o grupo dominante da referida Fundação. De fato, entre junho
de 2003 e janeiro de 2006, JÚLIO NEVES foi Gerente de Empreendimentos Imobiliários para
Alienação de Renda (GEARE) da FUNCEF, de modo que era responsável pelos contratos da
área imobiliária da Fundação.
O valor estabelecido para a supracitada alienação foi R$ 1.520.000,00 (um
milhão, quinhentos e vinte mil reais). Tal valor foi estabelecido tendo por base laudo de
avaliação de imóveis produzido pela empresa BETA PLACE ENGENHARIA DE

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AVALIAÇÕES LTDA (BETA), produzido em 21/06/2014, o qual determinara para os imóveis

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o valor de R$ 1.560.000,00.
A promessa de compra e venda dos imóveis foi subscrita apenas pelo Diretor
de Participações da FUNCEF, CARLOS BORGES, e pelos sócios da empresa adquirente,
ignorando a determinação constante na Portaria nº 027/2014 da Presidência da FUNCEF, de
10/06/2014, que determinava que os contratos assinados pelo diretor da DIPAR fossem
assinados também pelo diretor da DIBEN (que então era Délvio Joaquim Lopes de Brito). Na
mesma data da assinatura da promessa de compra e venda, conforme previa o referido

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instrumento, houve a imissão na posse do bem pela empresa adquirente e o início do
pagamento das parcelas referentes a seu valor. Ressalta-se que o contrato de compra e venda
em si, objeto da promessa, nunca foi formalizado.
Ao tomar conhecimento do valor da alienação por meio do CI GEIMO
139/2015, de 16/03/2015 (meses após a assinatura da promessa de compra e venda), o diretor
da DIBEN apresentou desconfianças quanto o valor determinado e solicitou a elaboração de
um novo laudo de avaliações, considerando o lapso temporal transcorrido entre a data de
elaboração do laudo da empresa BETA, que embasou a alienação, e assinatura da promessa de
compra e venda. De fato, a alienação dos imóveis foi realizada às pressas. O Plano de
Alienação de Imóveis da FUNCEF dispunha que os laudos de avaliação produzidos tinham
uma validade de 180 dias. A promessa de compra e venda foi celebrada 179 dias após a
elaboração do laudo pela empresa BETA, e era o último dia útil desse prazo (sexta-feira),
sendo que na mesma ocasião houve a imissão na posse e o início do pagamento das parcelas,
sem assinatura do diretor Délvio e sem que houvesse sido celebrado o contrato de compra e
venda que era objeto da citada promessa.
Em razão da desconfiança apresentada pelo diretor da DIBEN, foi contratada a
empresa QUANTO SOLUÇÕES EM ENGENHARIA (QUANTO) para realizar uma nova
avaliação dos imóveis. A referida empresa apresentou, em 20 de maio de 2015, outro laudo,
indicando para os imóveis o valor de R$ 1.575.000,00, sendo o valor mínimo de R$
1.457.000,00 e o valor máximo de R$ 1.704.000,00.
Tendo em vista a variação os valores nos autos apresentados, e persistindo a

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hesitação da DIBEN, a própria DIBEN tomou a iniciativa de, após o laudo da QUANTO,

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contratar os serviços de consultoria da engenheira civil Valéria Martins Salgado, não com a
finalidade de avaliar novamente os imóveis, mas sim para analisar a qualidade técnica do
laudo produzido pela empresa QUANTO. Com efeito, Valéria Martins é uma das maiores
especialistas em avaliação de imóveis no país, tendo trabalhado na avaliação de imóveis para
a CAIXA por 18 anos, onde também foi instrutora por 10 anos. Também ministra cursos por
todo o Brasil, atua como perita judicial e participou da elaboração de normas técnicas sobre o
assunto.

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Ao avaliar o laudo da empresa QUANTO, em 25/06/2015, Valéria Martins
apontou diversas inconsistências, que foram apresentadas pela DIBEN no NDE DIBEN
027/15. Ao corrigir as inconsistências verificadas, mantendo os mesmos cálculos utilizados
pela empresa, Valéria Martins Salgado indicou o valor de R$ 2.013.000,00 (dois milhões e
treze mil reais), uma variação positiva de 27,81% com relação ao laudo original, valor muito
superior ao preço pelo qual as salas haviam sido alienadas.
Em razão da supracitada divergência de valores, o diretor da DIBEN solicitou o
cancelamento do negócio jurídico celebrado irregularmente (uma vez que celebrado sem sua
assinatura) com a empresa NEVES & AIRES CONSULTORIA. Entretanto, o cancelamento
não foi realizado, a empresa continuou a quitar as parcelas junto à FUNCEF e a negociação
foi levada adiante mesmo após o Diretor da DIBEN, Délvio Brito, ter se recusado
expressamente a aprovar a alienação dos imóveis em razão exatamente da subvalorização
identificada no valor da venda.
Salienta-se que ao longo das investigações foi elaborado o Laudo Técnico nº
33/2016/SEAP/PGR, indicando que os bens imóveis alienados com prejuízo pela FUNCEF
tinham valor de mercado entre R$ 1.973.100,00 e R$ 2.346.000,00, podendo ser utilizado
como valor médio a cifra de R$ 2.156.000,00.
Também a Força Tarefa CPI dos Fundos de Pensão e Operação Greenfield,
instituída pela PRESI no âmbito da CAIXA, por intermédio da CI GEHPA 002/2017, de
17/08/2017, elaborou laudo de avaliação das salas concluindo que o valor adequado seria de
R$ 1.989.000,00 (um milhão e novecentos e oitenta e nove mil reais). Tal valor está entre os

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valores encontrados pelo setor técnico do MPF, e também é consideravelmente superior ao

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valor pelo qual as salas foram efetivamente alienadas.
Em razão disso, CARLOS BORGES, JÚLIO NEVES e ROSANA AIRES
foram alvo de denúncia, no bojo da ação penal nº 1023258-12.2018.4.01.3400, pela prática de
gestão fraudulenta da FUNCEF (Art. 4º, caput, da Lei nº 7.492/86), bem como de desvio de
instituição financeira (Art. 5º da Lei nº 7.492/1986), uma vez que a alienação dos imóveis
subvalorizados beneficiou ilicitamente os sócios da empresa adquirente, em prejuízo da
FUNCEF. O prejuízo à FUNCEF, conforme indicado na denúncia, foi de R$ 636.000,00

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(seiscentos e trinta e seis mil reais), valor que corresponde ao subfaturamento identificado.
Da análise dos fatos relatados, verifica-se que CARLOS BORGES foi o único
diretor responsável, neste caso, por autorizar a alienação subfaturada das salas comerciais, em
desacordo com as normas da FUNCEF, em favor de JÚLIO NEVES e ROSANA AIRES, os
quais respondem a ação penal na condição de partícipes dos delitos por ele praticados.
Ressalta-se que todas as ilicitudes apontadas já foram amplamente detalhadas
na denúncia que inaugurou a ação penal nº 1023258-12.2018.4.01.3400, cuja cópia segue
anexa a esta petição.

3.7. FIP BRASIL PETRÓLEO 1

No bojo da ação penal nº 1034846-45.2020.4.01.3400, os diretores da


FUNCEF CARLOS ALBERTO CASER (Diretor-Presidente), DEMÓSTHENES MARQUES
(Diretor de Investimentos), CARLOS AUGUSTO BORGES (Diretor de Participações
Societárias e Imobiliárias), ANTÔNIO BRÁULIO DE CARVALHO (Diretor de Planejamento
e Controladoria) e HUMBERTO PIRES GRAULT VIANNA DE LIMA (Gerente da Gerência
de Participações Societárias) foram denunciados pela prática de gestão temerária da
FUNCEF(art. 4º, parágrafo único, da lei nº 7.492/1986), entre 2011 e 2016, com relação aos
investimentos realizados pela referida Fundação no FIP Brasil Petróleo 1.
Também foram denunciados outros diretores de fundos de pensão em razão do
investimento realizado por estes fundos no mencionado FIP, mas o presente relato terá por
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foco apenas os delitos relacionados à FUNCEF.

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Os atos ilícitos relacionados ao investimento da FUNCEF no FIP BRASIL
PETRÓLEO 1 serão descritos resumidamente a seguir.
O FIP Brasil Petróleo 1 (FIP BP 1) foi constituído junto à CVM em 03 de
janeiro de 2012, tendo por objetivo direcionar investimentos a companhias brasileiras
pertencentes à cadeia produtiva de suprimentos de bens e serviços para a indústria de petróleo
e gás. Seu administrador era a BNY Mellon Serviços Financeiros Distribuidora de Títulos e
Valores Mobiliários S.A, tendo sido substituída em 2013 pela Caixa Econômica Federal.

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Sua gestão era exercida conjuntamente pelas empresas Mare Investimentos
Ltda e Mantiq Investimentos Ltda, tendo o Banco Bradesco S.A. como custodiante.
Os investimentos do FIP Brasil Petróleo 1 foram direcionados principalmente
para três empresas: DEEPFLEX,INC, DOCK BRASIL ENGENHARIA E SERVIÇOS S.A. e
POSEIDON PARTICIPAÇÕES S.A.
Os quotistas do FIP Brasil Petróleo 1 eram, em sua maioria, Fundos de Pensão,
dentre os quais a FUNCEF, que investiu R$ 100.000.000,00 (cem milhões de reais) e detinha
17,08% das quotas.
O processo de investimento da FUNCEF no FIP Brasil Petróleo 1 iniciou-se
com o PA GEANI nº 011/11, de 13 de setembro de 2011. O voto que conduziu a proposta de
investimentos foi o Voto DIRIN 037/11, de 30 de setembro daquele ano, elaborado por
DEMÓSTHENES MARQUES, então Diretor de Investimentos da FUNCEF.
Entretanto, conforme ressaltado na denúncia, o Parecer PA GEANE 011/11,
que apresentava o investimento no FIP Brasil Petróleo 1, continha diversas fragilidades, pois
deixava de trazer dados, análises e estratégias a serem adotadas que indicassem a viabilidade
do investimento, do retorno esperado e a adequação entre o risco e o retorno da operação.
Não houve, dentro do processo de análise do investimento no FIP Brasil
Petróleo 1 pela FUNCEF, o devido aprofundamento ou detalhamento das ações e estudos que
deveriam ter sido desenvolvidos com relação às companhias-alvo, acompanhados da
demonstração do retorno projetado, em compatibilidade com os riscos a serem enfrentados
dentro dos projetos apresentados pelos gestores do FIP.

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Apesar da superficialidade de análise, sem um estudo aprofundado que

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demonstrasse a viabilidade do retorno projetado, o parecer recomendou o investimento de R$
100 milhões pela FUNCEF no FIP Petróleo e Gás, antigo nome do FIP Brasil Petróleo 1.
Ademais, a denúncia ressalta que a FUNCEF liderou a escolha de gestores que
não tinham a experiência necessária para gerir o FIP. Foram escolhidos o BANCO
SANTANDER e a empresa MARE INVESTIMENTOS para iniciarem uma gestão em
coparticipação. Todavia, a empresa MARE INVESTIMENTOS não tinha qualquer
experiência no setor e tampouco possuía qualquer recurso sob gestão. Quando ao

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SANTANDER, ainda que tivesse outros FIPs sob sua gestão, não teve avaliado seu trabalho
de gestão dos demais FIPs, e tampouco se verificou se estes FIPs pertenciam a um setor de
atuação semelhante ao FIP Brasil Petróleo 1. Outrossim, o procedimento de due diligence foi
realizado apenas junto ao gestor SANTANDER, e não na MARE INVESTIMENTOS.
Assim, a FUNCEF violou os critérios estabelecidos por suas normas internas
(IF 010 02) para escolha dos gestores, e feriu os princípios de segurança e rentabilidade
impostos pelo art. 4º da Resolução CMN nº 3.792/09.
Acerca dos riscos envolvidos no investimento a denúncia ressalta que os
pareceres nos quais a decisão da FUNCEF se baseou (PA GEANI 011/11 e PA GECOR
065/11) apenas apresentavam descrições breves e superficiais dos riscos, sem os analisar
efetivamente e indicar qual a probabilidade de sua ocorrência e seus impactos.
De fato, mesmo o PA GECOR, que fora elaborado especificamente para tratar
dos riscos, apresentou diversas fragilidades, pois não analisou os riscos de investimento, de
liquidez e o risco legal, e não mencionou os riscos de mercado e operacional, cuja análise é
obrigatória conforme as normas internas da FUNCEF (DEX 017 01).
Apesar das fragilidades do parecer PA GEANI 011/11, este foi levado à
Diretoria Executiva por meio do Voto DIRIN 037/11, elaborado por DEMÓSTHENES
MARQUES, então Diretor de Investimentos da FUNCEF. Assim, os membros da Diretoria
Executiva CARLOS CASER (Diretor-Presidente), DEMÓSTHENES MARQUES (Diretor de
Investimentos), CARLOS BORGES (Diretor de Participações Societárias e Imobiliárias),
ANTÔNIO BRÁULIO (Diretor de Planejamento e Controladoria responsável pela área que

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realiza análise de risco), além de Rafael Pires de Souza (Diretor substituto de Administração)

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e José Carlos Alonso Gonçalves (Diretor de Benefícios) aprovaram (Ata nº 1044) de forma
temerária o investimento no FIP Brasil Petróleo 1, no valor de até R$ 100.000.000,00 (cem
milhões de reais), dos quais R$ 52.138.070,74 chegaram a ser efetivamente aportados.
A denúncia relata também que além do ato temerário praticado pelos gestores
com relação à decisão de investimento no FIP Brasil Petróleo 1, também foram praticados
outros atos temerários na aprovação dos investimentos que posteriormente foram realizados
pelo FIP Brasil Petróleo 1 nas empresas BRASIL PETRÓLEO PARTICIPAÇÕES S.A.

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(PROJETO DEEPFLEX), DOCK BRASIL ENGENHARIA E SERVIÇOS S.A. e
POSEIDON PARTICIPAÇÕES S.A.
Acerca do primeiro empreendimento, ressalta-se que empresa DEEPFLEX era
uma nova entrante no mercado de fornecimento de linhas flexíveis, ou seja, dutos empregados
no sistema submarino de coleta e escoamento do petróleo e gás natural, que conduzem os
fluidos produzidos pelo poço para as unidades de produção.
O Comitê de Investimento da FUNCEF aprovou o investimento na empresa
americana DEEPFLEX,INC, acolhendo o voto VO GEPAR 187/12, de 07/08/2012. Tal
orientação de voto foi decidida especialmente pelos denunciados HUMBERTO GRAULT,
então Gerente de Participações Mobiliárias, e CARLOS BORGES, então Diretor de
Participações.
No entanto, conforme ressaltado na denúncia, a decisão de investimento
baseou-se apenas em um documento fornecido pelos gestores do FIP quando foi apresentada a
proposta de investimento na companhia DEEPFLEX INC, não tendo sido produzido pela
FUNCEF qualquer documento ou estudo interno destinado a avaliar a proposta de
investimento e validar suas premissas.
Com efeito, os gestores do FIP haviam indicado um valor de US$ 71 milhões
para a companhia DEEPFLEX, INC, sem apresentar estudos que embasassem este resultado,
e a FUNCEF tampouco realizou qualquer análise própria a respeito, limitando-se a aceitar a
informação fornecida pelos gestores.
Os diretores da FUNCEF listaram alguns riscos relacionados ao projeto, mas os

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abordaram de maneira superficial e em dessintonia com as exigências normativas da

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Fundação. Deixaram de classificar a probabilidade de sua ocorrência ou os possíveis
impactos, deixando de mencionar riscos importantes, como risco de mercado, operacional e
legal.
Ao limitar-se a emitir voto favorável apenas com base nos dados apresentados
pelo gestor, sem analisá-los, e sem a necessária análise aprofundada dos riscos envolvidos, os
gestores da FUNCEF agiram de forma temerária e violaram os princípios da segurança e
rentabilidade previstos no art. 4º da Resolução nº 3.792/2009 do Conselho Monetário

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Nacional.
Ademais, foi realizada uma manobra ilícita para permitir o investimento de
forma vedada pelo regulamento do FIP e pela Resolução CVM 391/2003, vigente à época.
Neste ponto salienta-se que o FIP Brasil Petróleo 1 fora criado para investir em empresas
brasileiras e sediadas no Brasil. Todavia, o projeto DEEPFLEX consistia na compra da
companhia americana DEEPFLEX, INC, sediada nos Estados Unidos, por meio de uma
entidade legal a ser criada no Brasil para a qual a matriz da empresa americana seria
transferida.
Assim, foi criada a empresa DEEPFLEX DO BRASIL INDÚSTRIA DE
DUTOS FLEXÍVEIS E PARTICIPAÇÕES LTDA. E, para que os FIPs Brasil Petróleo 1 e 2
(este último não foi objeto de denúncia) adquirissem participação na DEEPFLEX do
BRASIL, foi criada a empresa BRASIL PETRÓLEO PARTICIPAÇÕES S.A., na qual os FIPs
investiriam. Esta empresa, por sua vez, é quem adquiriria participação na DEEPFLEX DO
BRASIL.
Esta forma de investimento indireta foi pensada para burlar a proibição de
investimento em empresas estrangeiras. Com efeito, não obstante o FIP Brasil Petróleo 1
tenha investido diretamente apenas na empresa brasileira BRASIL PETRÓLEO
PARTICIPAÇÕES S.A., era claro desde o início a intenção de direcionar os valores para o
exterior.
Com efeito, a proposta de investimento nomeava a empresa americana
DEEPFLEX, INC como “companhia-alvo”. Salienta-se que por ocasião da aprovação do

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investimento, em 17/08/2012, a BRASIL PETRÓLEO PARTICIPAÇÕES ainda nem existia,

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tendo sido aberta apenas quatro meses depois, em 05/12/2012, para compor o aporte conjunto
dos FIPs Brasil Petróleo 1 e 2. A empresa DEEPFLEX DO BRASIL, por sua vez, também foi
aberta apenas meses após a aprovação do investimento, em 07/01/2013. Assim, estas
empresas foram criadas apenas como veículos financeiros para conferirem ao investimento
em empresa estrangeira uma roupagem de licitude e permitirem a transferência dos valores
aportados para a companhia americana.
De fato, o FIP aportou o montante de R$ 100.000.000,00 (cem milhões de

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dólares) na empresa holding BRASIL PETRÓLEO PARTICIPAÇÕES, e posteriormente este
valor foi transferido à DEEPFLEX DO BRASIL. Em seguida, deste montante, US$
71.000.000,00 (setenta e um milhões de dólares) foram transferidos para a empresa
DEEPFLEX, INC, sediada nos Estados Unidos.
Posteriormente, houve o default da companhia DEEPFLEX, INC com a perda
integral de todo o investimento feito pelo FIP e por seus cotistas, dentre os quais a FUNCEF.
Quanto ao investimento realizado pelo FIP Brasil Petróleo 1 na empresa
DOCK BRASIL ENGENHARIA, segunda empresa investida do FIP, a FUNCEF manteve o
procedimento de não realizar as necessárias análises internas próprias, limitando-se a aceitar
as análises feitas pelos gestores, em especial quanto à análise da empresa, informada pelos
gestores como sendo no montante de R$ 50,2 milhões.
O investimento na empresa DOCK BRASIL foi aprovado internamente na
FUNCEF por meio do voto OV GEPAR 157/13, de 11/07/2013, e foi aprovado pelo Comitê
de Investimento do FIP no dia seguinte, em 12/07/2013. A orientação de voto foi decidida
especialmente pelos denunciados HUMBERTO GRAULT e CARLOS BORGES.
Conforme demonstrado na denúncia, o voto da FUNCEF limitou-se,
novamente, de forma temerária, a aceitar as informações e materiais enviados pelo gestor do
FIP Brasil Petróleo 1, sem sequer questionar estas informações e sem validar as premissas
utilizadas pelos gestores.
Ademais, novamente os diretores da FUNCEF não fizeram uma análise
aprofundada sobre os riscos envolvidos no empreendimento, limitando-se a descrevê-los em

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sua análise, sem classificá-los quanto à probabilidade de incidência e aos impactos que

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poderiam causar, deixando de atender os requisitos constantes dos normativos da Resolução
CMN nº3.792/09.
Quanto ao terceiro investimento realizado pelo FIP Brasil Petróleo 1, referente
ao Projeto POSEIDON, novamente se verificaram irregularidades semelhantes às das outras
ocasiões. Neste empreendimento, a FUNCEF, por meio da orientação OV GEPAR 345/14, de
05/09/2014, emitiu voto favorável ao investimento do FIP no projeto POSEIDON (aprovado
pela Ata da 6ª Reunião do Comitê de Investimentos de 09/09/2014) sem realizar as

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necessárias análises internas, meramente ratificando os dados fornecidos pelos gestores do
fundo. Tal orientação de voto foi decidida especialmente pelos denunciados HUMBERTO
GRAULT (Gerente de Participações Mobiliárias) e CARLOS BORGES (Diretor de
Participações).
A POSEIDON PARTICIPAÇÕES S.A. era uma companhia entrante no
mercado de apoio marítimo, uma offshore a ser criada a partir da aquisição de 5 embarcações
em operação com contrato junto à PETROBRAS.
A proposta de investimento previa a subscrição, pelos FIPs Brasil Petróleo 1 e
2, de ações emitidas pela empresa no valor de R$ 200 milhões. Além disso, a empresa
assumiria um empréstimo de US$ 75 milhões de dólares.
A maior parte dos recursos da empresa POSEIDON destinou-se à aquisição das
embarcações, cujo afretamento seria sua principal fonte de receita.
Assim, essa proposta, para a qual os gestores do FIP apresentavam projeções
positivas, foi apresentada à FUNCEF. Todavia, verificou-se, por parte dos diretores da
FUNCEF, a prática de irregularidades semelhantes aos outros investimentos do FIP Brasil
Petróleo 1.
Conforme detalhado na denúncia, não foram identificados estudos internos que
tenham sido realizados pela FUNCEF para validar as premissas que estabeleciam para o
investimento o retorno esperado de IPCA +22,9%. A Fundação limitou-se a realizar uma
análise crítica dos cenários apresentados na proposta de investimento com seus respectivos
retornos, mas não demonstrou que efetivamente que o faturamento indicado poderia ser

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alcançado. Nesse ponto, a FUNCEF limitou-se, novamente, a aceitar as informações

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fornecidas pelos gestores do FIP.
Acerca da análise de riscos, os diretores da FUNCEF novamente deixaram de
analisar todos os riscos definidos na Resolução CMN nº 3.792/2009, limitando-se a listar
alguns deles, mas sem classificá-los segundo sua probabilidade de ocorrência e calcular qual
seria seu impacto, descumprindo assim as exigências do art. 12 da Resolução CGPC nº
13/2004.
Outrossim, verificou-se que a decisão de investimento da FUNCEF no projeto

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POSEIDON ocorreu antes que ela pudesse dispor de uma avaliação real sobre as embarcações
adquiridas pela empresa POSEIDON.
Por todo o exposto, verificou-se novamente a prática de gestão temerária da
FUNCEF no âmbito da aprovação do investimento realizado pelo FIP Brasil Petróleo 1 no
projeto POSEIDON.
Assim, os diretores da FUNCEF geriram temerariamente a Fundação tanto por
ocasião de seu ingresso no FIP Brasil Petróleo 1 como na aprovação dos investimentos
posteriormente realizados pelo FIP.
Em razão dos supracitados atos temerários, a FUNCEF perdeu quase a
totalidade do investimento realizado no FIP Brasil Petróleo 1. Com efeito, em razão do
descumprimento das normas internas e diretrizes dos órgãos regulamentadores e
fiscalizadores, a FUNCEF perdeu 100% do valor investido na empresa DEEPFLEX, INC,
58% do valor investido na empresa DOCK BRASIL e 75% do valor investido na empresa
POSEIDON, que foram os principais investimentos realizados por meio do FIP Brasil
Petróleo 1.
Conforme ressaltado na denúncia, as perdas sofridas pela FUNCEF, entre
08/02/2012 e 09/01/2018 (atualizadas até 31/07/2018) foram no montante aproximado de R$
93.000.000,00 (noventa e três milhões de reais), que, em valores atualizados até 30 de abril de
2020, chega a R$ 102.422.000,00 (cento e dois milhões, quatrocentos e vinte e dois mil reais).
Da análise dos fatos relatados, verifica-se que, não obstante todos os diretores
da FUNCEF que foram denunciados tenham efetivamente concorrido para a prática dos

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delitos, os membros da Diretoria de Investimentos e da Diretoria de Participações societárias

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e Imobiliárias tiveram um papel de destaque na condução do processo de investimento no
âmbito da FUNCEF.
Com efeito, foi DEMÓSTHENES MARQUES, Diretor de Investimentos da
FUNCEF, quem recomendou a aprovação do investimento no FIP BRASIL PETRÓLEO 1 à
Diretoria Executiva da FUNCEF por meio do Voto DIRIN 037/11, de 30/09/2011.
Ademais, a denúncia ressalta a responsabilidade dos membros da Diretoria de
Participações com relação aos investimentos realizados, nos seguintes termos:

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De acordo com a Matriz de Atribuições de Áreas (MAA) da FUNCEF, vi-
gente em 2012, quando foram realizados os primeiros aportes, era de responsabili-
dade da Diretoria de Participações Societárias e Imobiliárias (DIPAR), a detecção
de deficiências no acompanhamento e no monitoramento do investimento no FIP
Brasil Petróleo 1. Logo, a responsabilidade recaía sobre o então Gerente de Partici-
pações Mobiliárias HUMBERTO GRAULT e sobre o Diretor de Participações
CARLOS BORGES.
Competia à DIPAR, outrossim, aprimorar as análises de acompanhamento
dos investimentos realizados, além de toda atuação relacionada à avaliação e
proposição de investimentos imobiliários, nas suas diferentes modalidades.
O então Diretor da DIPAR era CARLOS AUGUSTO BORGES, no período
de 11/05/2011 a 09/09/2016, e atuava no âmbito da Matriz de Atribuições de Áreas.
Nesta qualidade, possuía “o dever de aprimorar as análises de acompanhamento
dos investimentos realizados e as avaliações e proposições dos investimentos reali-
zados pela FUNCEF”.
Na qualidade de diretor, CALORS BORGES contentou-se, ao que tudo in-
dica, com as avaliações e análises produzidas pelos gestores do FIP BP1, assumin -
do o risco de que poderiam incidir em equívocos ou irregularidades, como, de fato,
incidiram.
HUMBERTO PIRES GRAULT VIANNA DE LIMA, Gerente de Participa-
ções Societárias (GEPAR), dentro da Diretoria de Participações Societárias e Imo-
biliárias - DIPAR (de 26.6.2011 a 13.9.2016) - tendo a atribuição de gerenciar as
participações societárias do FIP BP 1 - foi responsável pela emissão de votos favo-
ráveis aos investimentos nas três empresas alvo: DEEPFLEX, INC. (Orientação de
Voto GEPAR 187/12), DOCK (OV 157/13) e POSEIDON (Orientação de Voto GE-
PAR 345/14), sendo que, no caso da POSEIDON, HUMBERTO votou duas vezes,
como diretor e como gerente e diretor.
Com tais contornos, a FUNCEF, por meio de seus dirigentes, geriu, de for-
ma temerária, os recursos que lhe foram confiados e investidos no FIP BP1, assim
como infringiu os princípio de segurança e rentabilidade, por força da Resolução
CMN n. 3,792/09.

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Assim, embora todos os diretores denunciados tenham concorrido diretamente

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para prejuízos causados pela FUNCEF ao acolher os posicionamentos da DIRIN e da DIPAR
no contexto relatado, verifica-se que os gestores responsáveis por estas áreas
(DEMÓSTHENES MARQUES, CARLOS BORGES e HUMBERTO GRAULT) tiveram,
neste investimento, uma posição de protagonismo.
Ressalta-se que todas as ilicitudes apontadas já foram amplamente detalhadas
na denúncia que inaugurou a ação penal nº 1034846-45.2020.4.01.3400, cuja cópia segue
anexa a esta petição.

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3.8. FIP OPERAÇÕES INDUSTRIAIS

No bojo da ação penal nº 1029333-96.2020.4.01.3400, foram denunciados


diversos diretores da FUNCEF pela prática de gestão fraudulenta (art. 4º, caput, da lei nº
7.492/1986) referente ao investimento realizado pela mencionada Fundação no FIP Operações
Industriais.
Acerca das imputações realizadas, oportuna se faz a transcrição do seguinte
trecho da denúncia:

A partir da referida investigação, foram obtidas provas de que, por meio dos
fatos que passaremos a narrar e com as circunstâncias que serão aqui detalhadas,
entre setembro de 2012 e maio de 2014, nesta capital federal, os denunciados
MAURÍCIO MARCELLINI PEREIRA (na condição de Diretor de
Investimentos da FUNCEF), CARLOS AUGUSTO BORGES (na condição de
Diretor-Presidente da FUNCEF), CARLOS ALBERTO CASER (na condição de
Diretor-Presidente da FUNCEF), com a participação dos empresários
FERNANDO LUIZ AYRES DA CUNHA SANTOS-REIS (Presidente da
Odebrecht Ambiental) e SAMUEL AUGUSTO DE OLIVEIRA FILHO (Sócio
da empresa VOGA e responsável pela valuation da empresa Odebrecht Utilities),
geriram de forma fraudulenta a Fundação dos Economiários Federais
(FUNCEF) - Fundo de Pensão dos funcionários da Caixa Econômica Federal
(CEF) - para permitir a aprovação de aporte de capital da FUNCEF, bem
como realizar efetivamente tal aporte, no montante de R$ 300.000.000,00
(trezentos milhões de reais), em favor da empresa Odebrecht Utilities S.A, por
meio do Fundo de Investimentos em Participações (FIP) Operações Industriais,
sem a observância dos deveres de diligência, com violação de normas internas
sobre o processo decisório de investimento, da Resolução CMN n° 3.792/098 e da
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Resolução CGPC n° 13/20049, e por meio da utilização de documentos elaborados

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pela Voga Empreendimentos e Participações Ltda. (VOGA), que avaliaram, de
forma superestimada, no valor de R$ 1,44 bilhão, os ativos da Odebrecht Utilities
(beneficiando os sócios/controladores da companhia avaliada), em flagrante
prejuízo para a FUNCEF, que acabou por despender recursos incompatíveis com o
valor econômico dos ativos cuja participação acionária adquiriu.
Outrossim, os denunciados MAURÍCIO MARCELLINI PEREIRA (na
condição de Diretor de Investimentos da FUNCEF), CARLOS AUGUSTO BOR-
GES (na condição de Diretor-Presidente da FUNCEF), CARLOS ALBERTO
CASER (na condição de Diretor-Presidente da FUNCEF), com a participação dos
empresários FERNANDO LUIZ AYRES DA CUNHA SANTOS-REIS (Presi-
dente da Odebrecht Ambiental) e SAMUEL AUGUSTO DE OLIVEIRA FILHO
(Sócio da empresa VOGA e responsável pela valuation da empresa Odebrecht Uti-

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lities), desviaram, em proveito do Grupo Odebrecht, representado por FER-
NANDO LUIZ AYRES DA CUNHA SANTOS-REIS, ao menos R$
47.916.666,67 (valor histórico do valor mínimo do pagamento a maior feito pela
FUNCEF no FIP Operações Industriais, conforme será demonstrado adiante em de-
talhes) que foram indevidamente investidos no Fundo de Investimentos em Parti-
cipações Operações Industriais pela FUNCEF, em flagrante benefício aos referi-
dos sócios da empresa Odebrecht Utilities.

A apuração dos delitos denunciados contou com a participação ativa da


PREVIC (auto de infração nº 0030/16-39), da FUNCEF (RA GEAUD 048/16 e relatório da
CTA 017/2016), da Força-Tarefa da Caixa Econômica Federal, da Secretaria de Pesquisa,
Perícia e Análise (SPPEA) do MPF e pelo setor técnico da Polícia Federal (Laudo nº
1113/2019-SETEC/SR/PF/DF).
Os atos ilícitos relacionados ao investimento da FUNCEF no FIP Operações
Industriais serão descritos resumidamente a seguir.
O FIP Operações Industriais foi criado para investir na empresa Odebrecht
Utilities S.A, constituída em 06/11/2012 pela sociedade entre a Odebrecht Ambiental e a
Odebrecht Engenharia Ambiental S.A. A empresa tinha por objetivo investir e operar projetos
ambientais e prestar serviços com foco em “operações industriais” (terceirização de centrais
de utilidades e fornecimento de água industrial).
A oportunidade de investimento no FIP Operações Industriais foi levada ao
conhecimento da FUNCEF pela Caixa Econômica Federal, que à época era acionista da
Odebrecht Ambiental S.A via FI-FGTS. Com efeito, a Odebrecht Utilities S.A. resultou da
separação do segmento de operações industriais da Odebrecht Ambiental, com a transferência
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dos projetos em curso pertencentes a esta.

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Salienta-se, entretanto, conforme narrado na denúncia, que o investimento do
FI-FGTS na Odebrecht Ambiental (à época denominada Foz do Brasil) fora realizado no
âmbito de um esquema criminoso em operação na Caixa Econômica Federal e no FGTS, que
envolveu negociações ilícitas entre André Luiz de Sousa, membro suplente do Comitê de
Investimentos do FI-FGTS, e os executivos da Foz do Brasil NEWTON DE LIMA
AZEVEDO JÚNIOR e FERNANDO LUIZ AYRES DA CUNHA, com pagamento de
propinas a André Luiz e a Roberto Madoglio, que então trabalhava na Gerência Nacional de

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Fundos Especiais (GEFES) e na Vice-Presidência de Ativos de Terceiros (VITER) da CEF,
visando obter o investimento do FI-FGTS.
O supracitado esquema criminoso que resultou no investimento do FI-FGTS na
Odebrecht Ambiental (então Foz do Brasil) já foi alvo de denúncia no bojo da ação penal nº
1016001-33.2018.4.01.3400.
Pois bem. A CEF/FI-FGTS levou à FUNCEF o conhecimento sobre a proposta
de investimento no FIP Operações Industriais.
Para avaliar os ativos da empresa Foz do Brasil (posteriormente denominada
Odebrecht Utilities S.A.), a Diretoria Executiva da FUNCEF aprovou (Ata nº 179/1093) a
contratação da empresa VOGA EMPREENDIMENTOS E PARTICIPAÇÕES LTDA pelo
valor de R$ 380.000,00 (trezentos e oitenta mil reais), visando avaliar os seguintes ativos e
projetos: Aquapolo, Cetrel, COMPERJ, Klabin, UTA, UVE, TKCSA e VSB.
Como resultado, a VOGA apresentou a avaliação econômico-financeira da
empresa Odebrecht Utilities S.A em fevereiro de 2013, atribuindo à empresa o valor de R$
1,440 bilhão. Este relatório serviu de base para todas as análises realizadas pelas áreas
técnicas da FUNCEF.
Todavia, conforme ressaltado na denúncia, o relatório elaborado pela VOGA,
de responsabilidade do sócio-administrador SAMUEL AUGUSTO DE OLIVEIRA FILHO,
apresentou diversas fragilidades, e foi irregularmente confeccionado para supervalorizar os
empreendimentos que integravam o portfólio da empresa Odebrecht Utilities, beneficiando
indevidamente o Grupo Odebrecht e fazendo com que a FUNCEF gastasse mais dinheiro do

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que seria devido para adquirir participação no FIP Operações Industriais.

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Acerca das mencionadas fragilidades, a denúncia, com base nos pareceres
técnicos produzidos ao longo das investigações, aponta principalmente o seguinte:

1) Todos os dados que embasaram o estudo foram fornecidos pela própria Odebrecht
e não houve qualquer verificação independente das informações fornecidas.
2) O prêmio de risco de mercado5 no valor de 3,35%, usado pela VOGA no cálculo
do cenário escolhido, estava bem menor do que deveria, em desconformidade com

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parâmetros usados por entidades de renome mundial, conforme ressaltado no PA
GECOR 159/13. Isso causou uma elevação indevida do valor da Odebrecht Utiliti-
es.
3) Foi utilizada uma taxa livre de risco desatualizada.
4) Acerca do fator Beta (medida da volatilidade ou risco sistemático de um título, se-
tor ou carteira em comparação com o mercado), houve fragilidade no uso do mes-
mo Beta para todos os projetos avaliados, o que não é adequado para refletir os
riscos setoriais de cada projeto específico. Ademais, foram identificadas inconsis-
tências na forma como foi feita a alavancagem do fator Beta, resultando em au-
mento indevido do valor da companhia avaliada.
5) Sobre os riscos relacionados ao empreendimento, os relatórios técnicos relataram
a simplificação e falta de detalhamento dos riscos apontados, bem como a descon-
sideração de alguns dos riscos existentes.
6) Irregularidade na forma como foi considerado o índice de inflação no longo prazo.

Ressalta-se que as supracitadas inconsistências são amplamente detalhadas na


denúncia que inaugurou a ação penal nº 1029333-96.2020.4.01.3400, cuja cópia segue anexa,
com referência aos laudos técnicos que instruíram a supracitada ação penal. Conforme se
concluiu na denúncia, os laudos produzidos evidenciam que o relatório da VOGA utilizou-se
de parâmetros que resultaram na indevida superestimação dos ativos avaliados, o que
justificou um aporte de recurso pela FUNCEF acima do que seria razoável sob as bases

5 O prêmio de risco de mercado corresponde à diferença entre o retorno médio do mercado e a taxa livre de
risco, e impacta diretamente na taxa de desconto, que por sua vez, é fator determinante da precificação.
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econômicas, jurídicas e financeiras do momento, ocasionando à Fundação um prejuízo

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mínimo de R$ 47.916.666,67 (sem atualização).
De posse do estudo elaborado pela VOGA, que precificou a Odebrecht Utilities
em R$ 1,440 bilhão, a FUNCEF deu continuidade ao processo de investimento.
Por meio do PA GEANI 015/13, de 11 de junho de 2013, foi apresentada às
demais áreas da FUNCEF a oportunidade de investimento no FIP Operações Industriais. O
investimento previa uma Taxa Interna de Retorno de 11,5%, pouco atrativa para a FUNCEF,
conforme mencionado no próprio PA GEANI. No entanto, a taxa seria compensada por

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“possíveis upsides” a serem capturadas pela companhia investida.
Posteriormente, foi elaborado o PA GECOR 159/13 acerca dos riscos do
negócio. Todavia, conforme apontado pela PREVIC, a análise deste parecer foi insuficiente
quanto aos riscos específicos de cada um dos projetos considerados no negócio. Com efeito,
os projetos Aquapolo, VSB, CETREL e UTA possuíam graves riscos operacionais e
financeiros que não foram devidamente avaliados.
Em seguida, MAURÍCIO MARCELLINI, Diretor de Investimentos, baseando-
se no estudo de avaliação da empresa VOGA e nas considerações realizadas pelo PA GEANI
032/13 (que desconsiderou outros seis cenários apresentados pela VOGA e com relação ao
qual a PREVIC apontou diversas irregularidades), recomendou o investimento no FIP
Operações Industriais, no valor de R$ 300 milhões limitado a 25% do capital comprometido
do fundo, à Diretoria Executiva da FUNCEF, por meio do VOTO DIRIN 051/13, de
03/10/2013.
Salienta-se que o VOTO DIRIN 051/13 teria se baseado, dentre outras coisas,
no documento CI GEANI 254/13, que respondeu os apontamentos das demais áreas técnicas
da FUNCEF. Entretanto, o referido documento é datado do dia seguinte (04/10/2013) ao da
subscrição do voto que supostamente teria se baseado nele.
Ademais, salienta-se que apenas após o VOTO DIRIN 051/13 foi realizada
reunião do Grupo Técnico de Investimentos da FUNCEF, originando a ATA 95. Nesta
reunião, houve manifestação negativa quanto à relação risco x retorno do investimento.
Todavia, este documento também foi elaborado após o VOTO DIRIN 051/13. Assim, verifica-

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se que as recomendações do Grupo Técnico de Investimentos foram sumariamente ignoradas

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pela DIRIN e pela Diretoria Executiva da FUNCEF, que já tinham decidido anteriormente
pela aprovação do investimento independente das conclusões destes setores técnicos da
Fundação.
Desse modo, em 08/10/2013, com base no VOTO DIRIN 051/13, de
MAURÍCIO MARCELLINI, a Diretoria Executiva da FUNCEF, baseando-se nas premissas
fornecidas pelo estudo da VOGA, aprovou o investimento de até R$ 300 milhões no FIP
Operações Industriais, limitado a 25% do capital comprometido no Fundo (Resolução/Ata nº

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172/1136). Estavam presentes na Reunião e votaram favoravelmente ao investimento os
diretores CARLOS CASER (Diretor-Presidente), CARLOS BORGES (Diretor de
Participações Societárias e Imobiliárias) e MAURÍCIO MARCELLINI (Diretor de
Investimentos).
A denúncia ressalta que na reunião da Diretoria Executiva os diretores
ANTÔNIO BRÁULIO (Diretor de Planejamento e Controladoria) e JOSÉ CARLOS
ALONSO GONÇALVES (Diretor de Benefícios) votaram contrariamente à proposta,
discordando dos parâmetros estabelecidos, em especial quanto à taxa de prêmio de risco
utilizada, a não atualização da taxa livre de risco e a desconsideração dos demais cenários
propostos pela VOGA que eram mais favoráveis aos interesses da FUNCEF. Todavia, tal
situação foi ignorada pelos demais diretores.
Assim, os diretores da FUNCEF que votaram favoravelmente ao investimento
praticaram verdadeiro ato de gestão fraudulenta, pois validaram a sobreprecificação dos
empreendimentos avaliados, encobrindo a verdade dos fatos para permitir a realização de um
investimento extremamente desvantajoso para a FUNCEF.
Além disso, conforme ressaltado na denúncia, a recomendação do investimento
por MAURÍCIO MARCELLINI e sua aprovação pelos diretores CARLOS CASER e
CARLOS BORGES ocorreu sem a observância dos deveres de due diligence, tendo em vista
que houve afronta às normas internas que tratavam do processo decisório de investimento
(DEX 028 01 – Gestão de Investimentos e Regime de Alçadas Mobiliários). Com efeito, a
aprovação da Diretoria Executiva ocorreu num contexto de identificação e avaliação

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insuficiente dos riscos, com desconsideração dos riscos apontados pelas áreas técnicas na

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análise prévia do investimento e falta de abordagem dos riscos de crédito, de mercado, de
liquidez, operacional, legal e sistêmico.
Conforme a norma IF 010 02, de 25/07/2007, cabia à área de investimentos e
participações da FUNCEF avaliar a proposta de investimentos, baseada em pareceres
técnicos. Contudo, na aprovação do primeiro aporte no FIP Operações industriais não houve
efetivamente análise de riscos das áreas técnicas responsáveis da FUNCEF, em
descumprimento à referida norma interna, como já detalhado na denúncia.

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Outrossim, diante da desconsideração dos riscos do empreendimento, restou
caracterizada pela DIRIN a inobservância dos princípios de rentabilidade e segurança do
investimento e do descumprimento do dever de diligência na elaboração do Voto DIRIN
051/13.
A denúncia ressalta também que não houve due diligence previamente à
realização do investimento, tendo em vista que a empresa Ernst&Young, contratada para
elaborar os estudos necessários (estudo financeiro, fiscal, trabalhista e previdenciário),
entregou o resultado de seus trabalhos apenas em novembro de 2013, sendo que o
investimento já fora aprovado em 08/10/2013.
Ao agir com temeridade, sem observar os riscos evidentes dos investimentos,
os denunciados violaram os artigos 4º e 9º da Resolução CMN nº 3.792/2009 e o artigo 12 da
Resolução CGPC nº 13/2004.
Ademais, ao aprovar de forma fraudulenta o investimento da FUNCEF no FIP
Operações Industriais com base na valuation superfaturada da VOGA e sem as necessárias
análises técnicas adicionais pela Fundação, os diretores CARLOS CASER, CARLOS
BORGES e MAURÍCIO MARCELLINI, com a participação de SAMUEL AUGUSTO DE
OLIVEIRA FILHO (sócio da VOGA), desviaram, em proveito de FERNANDO LUIZ
AYRES DA CUNHA SANTOS-REIS, o valor mínimo de R$ 47.916.666,67 (sem
atualização).
Da análise dos fatos relatados, verifica-se que, não obstante todos os diretores
da FUNCEF que foram denunciados tenham efetivamente concorrido para a prática dos

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delitos, MAURÍCIO MARCELLINI, Diretor de Investimentos, foi quem conduziu todo o

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investimento no âmbito da FUNCEF até a decisão da Diretoria Executiva.
Com efeito, MAURÍCIO MARCELLINI recomendou o investimento à
Diretoria Executiva por meio do VOTO 051/13. Ademais, conforme ressaltado na denúncia,
embora o referido voto teria se baseado no parecer CI GEANI 254/13, verificou-se que este
documento na verdade foi elaborado posteriormente ao voto. Além disso, o voto de
MAURÍCIO MARCELLINI também foi elaborado anteriormente à reunião do Grupo Técnico
da FUNCEF e à finalização dos trabalhos de due diligence contratados da empresa

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Ernst&Young.
Assim, embora todos os diretores denunciados tenham concorrido diretamente
para prejuízos causados pela FUNCEF ao acolher o posicionamento de MAURÍCIO
MARCELLINI no contexto relatado, verifica-se que este gestor teve, neste investimento, uma
posição de protagonismo.
Ressalta-se que todas as ilicitudes apontadas já foram amplamente detalhadas
na denúncia que inaugurou a ação penal nº 1029333-96.2020.4.01.3400, cuja cópia segue
anexa a esta petição.

3.9. FIP GLOBAL EQUITY

Na ação penal nº 1001842-51.2019.4.01.3400 foram denunciados diversos


dirigentes dos fundos de pensão FUNCEF, PETROS e PREVI pela prática de gestão temerária
(art. 4º parágrafo único, da Lei nº 7.492/86) destes fundos no âmbito do investimento
realizado por eles no FIP GLOBAL EQUITY PROPERTIES. Ademais, foram denunciados
diversos gestores do FIP GLOBAL EQUITY pela prática de gestão fraudulenta (art. 4º, caput,
da Lei nº 7.492/86) do FIP, bem como dos delitos previstos nos artigos 5º (desvio de valores)
e 6º (induzir sócio/investidor em erro) da Lei nº 7.492/86.
Posteriormente, houve o desmembramento da supracitada ação penal, sendo
que nela continuaram sendo objeto os delitos praticados no âmbito da gestão do FIP Global

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Equity, e foram criados, adicionalmente, os autos de números 1029168-83.2019.4.01.3400,

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referente aos gestores da FUNCEF; 1029181-82.2019.4.01.3400, referente aos gestores da
PETROS; e nº 1029185-22.2019.4.01.3400, referente aos gestores da PREVI.
Todavia, a presente petição focará apenas nos fatos ocorridos no âmbito do
investimento realizado pela FUNCEF, que é objeto da ação penal 1029168-
83.2019.4.01.3400.
Nas mencionadas ações penais, o Ministério Público Federal denunciou
GUILHERME NARCISO DE LACERDA (Diretor-Presidente da FUNCEF), JORGE LUIZ

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DE SOUZA ARRAES (Diretor de Participações Societárias e Imobiliárias),
DEMÓSTHENES MARQUES (Diretor de Investimentos), CARLOS ALBERTO CASER
(Diretor-Presidente e Diretor de Benefícios), ANTÔNIO BRÁULIO DE CARVALHO
(Diretor de Planejamento e Controladoria), SÉRGIO FRANCISCO DA SILVA (Diretor de
Administração e Tecnologia da Informação), HUMBERTO PIRES GRAULT VIANNA DE
LIMA (Diretor de Participações Societárias e Imobiliárias), MAURÍCIO MARCELLINI
PEREIRA (Diretor de Investimentos), JOSÉ CARLOS ALONSO GONÇALVES (Diretor de
Benefícios), RENATA MAROTTA (Diretora de Administração), CARLOS AUGUSTO
BORGES (Diretor de Participações Societárias e Imobiliárias) e LUIZ PHILIPPE PERES
TORELLY (Diretor de Participações Societárias e Imobiliárias) pela prática de gestão
temerária da FUNCEF (art. 4º, parágrafo único, da Lei nº 7492/86), no âmbito do
investimento realizado no FIP GLOBAL EQUITY PROPERTIES em flagrante prejuízo à
Fundação.
Os fatos que envolveram investimento da FUNCEF no FIP GLOBAL EQUITY
serão descritos brevemente em seguida.
O FIP GLOBAL EQUITY PROPERTIES (“FIP GEP”) foi constituído em 2008
com o objetivo de investir em empreendimentos imobiliários por meio de Sociedades de
Propósito Específico (SPEs), com o desenvolvimento de incorporações e construções
imobiliárias residenciais e/ou comerciais, preferencialmente de porte médio.
Inicialmente o Fundo era administrado pela Citibank Distribuidora de Títulos e
Valores Mobiliários S.A., mas em 2014 passou a ser administrado pelo Santander Securities

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Services Brasil DTVM S.A. em 2014.

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Ao ser constituído o FIP GLOBAL EQUITY tinha como gestora a empresa
GLOBAL EQUITY ADMINISTRADORA DE RECURSOS S.A. (“GLOBAL”), cujos
acionistas eram os denunciados MARCO ANTÔNIO DE FREITAS PINHEIRO e PATRÍCIA
ARAÚJO BRANCO.
Os cotistas do FIP GEP eram diversos fundos de pensão, dentre os quais a
FUNCEF, e a empresa GEP Realizações Imobiliárias Ltda, que fora criada com composição
societária semelhante à da empresa GLOBAL e com o objetivo de prestar serviços

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exclusivamente para as SPEs investidas pelo FIP GEP.
Conforme relatado na denúncia, o contexto dos investimentos dos fundos de
pensão no FIP Global Equity envolveu, além da prática de gestão temerária destes fundos de
pensão por seus dirigentes, a prática de gestão fraudulenta do próprio FIP pelo sócio da
gestora GLOBAL e pessoas vinculadas à referida empresa.
Com efeito, a denúncia relata que por diversas formas ocorreu o transferência
de vultuosa quantia do FIP GEP em favor de empresas vinculadas a MARCO ANTONIO DE
FREITAS PINHEIRO, FREDERICO SILVA DANTAS, ONITO BARNABÉ JÚNIOR e
PATRÍCIA ARAÚJO BRANCO, pessoas vinculadas à própria empresa gestora do FIP.
Conforme foi apurado na denúncia, R$ 358.416.148,00 foram destinados pelo
FIP a diversas SPEs que tinham por acionistas MARCO ANTONIO, FREDERICO DANTAS,
ONITO BARNABÉ JÚNIOR e PATRÍCIA ARAÚJO.
Ademais, houve a contratação pelo FIP das empresas GEP Imobiliária e Global
Equity Properties Projetos LTDA para prestação de serviços de gestão imobiliária e financeira
de SPEs, sendo que as mencionadas empresas têm em seu quadro societário MARCO
ANTÔNIO, ONITO BARNABÉ JÚNIOR e FREDERICO DANTAS. Salienta-se que os
serviços eram pagos independentemente de serem efetivamente prestados, conforme
esclarecido na denúncia. O valor pago pelo FIP GEP em favor destas empresas totalizou de
cerca de R$ 149.559.000,00 entre os anos de 2010 a 2014, valor este que representou cerca de
35% do valor total do capital comprometido por todos os cotistas do FIP, de R$
429.000.000,00.

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Ainda, a denúncia relata que, na condição de diretor executivo da gestora

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GLOBAL, MARCO ANTÔNIO geriu fraudulentamente o FIP GEP, em comunhão de
desígnios com FREDERICO DANTAS, também na contratação da empresa ATLANTES
ESTRUTURAÇÃO DE PROJETOS LTDA, pertencente a FREDERICO DANTAS (ex-sócio
do grupo Global), pela prestação de serviços de prospecção de negócios (finder’s fee).
Além disso, a denúncia também relata que MARCO ANTÔNIO, diretor
executivo da gestora GLOBAL, por quatro vezes falsificou laudos de avaliação de imóveis
produzidos pelas empresas Colliers International e Cushman & Wakefield, apresentando aos

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cotistas do FIP GEP como resultado da avaliação valores muito superiores aos efetivamente
apontados pelas empresas para os empreendimentos avaliados, de modo a induzir em erro os
cotistas do FIP GEP.
Nesse ponto, salienta-se que a empresa Colliers International, questionada pela
CVM a respeito da veracidade dos laudos apresentados aos cotistas do FIP GEP pela gestora
GLOBAL, informou que os documentos não correspondiam aos originais produzidos pela
empresa, mas que foram utilizados excertos dos laudos originais com adulteração dos valores.
Por todo o exposto, foram denunciados pela prática de gestão fraudulenta do
FIP GEP MARCO ANTÔNIO DE FREITAS PINHEIRO (na condição de diretor executivo da
gestora GLOBAL EQUITY), em comunhão de desígnios e em benefício de FREDERICO
DANTAS, ONITO BARNABÉ JÚNIOR e PATRÍCIA ARAÚJO BRANCO. Os atos por eles
praticados prejudicaram o FIP Global Equity e seus investidores, os fundos de pensão.
Além disso, MARCO ANTÔNIO DE FREITAS, por sua conduta ardilosa
referente à falsificação dos laudos de avaliação de alguns dos imóveis, visando induzir em
erro os cotistas do FIP GEP, foi denunciado também pela prática do crime tipificado no art. 6º
da Lei nº7.492/1986.
Todavia, ao longo das investigações verificou-se que houve também a prática
de gestão temerária pelos diretores dos fundos de pensão PETROS, FUNCEF e PREVI em
desfavor dos referidos fundos, no âmbito do investimento realizado no FIP GEP. Tal situação
foi o que facilitou que os atos fraudulentos perpetrados pelos sócios da gestora GLOBAL
lograssem êxito.

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Nesse contexto, serão descritos brevemente a seguir os atos de gestão

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fraudulenta praticados no âmbito da FUNCEF por seus diretores, com relação ao investimento
no FIP GEP.
A denúncia resume as imputações feitas aos diretores da FUNCEF da seguinte
forma:

A partir da referida investigação, foram obtidas provas de que, por meio dos
fatos que passaremos a narrar e com as circunstâncias que serão aqui detalhadas,
entre 2008 até 2014, os acusados GUILHERME NARCISO DE LACERDA (na

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condição de Diretor-Presidente), JORGE LUIZ DE SOUZA ARRAES (na
condição de Diretor de Participações Societárias e Imobiliárias),
DEMÓSTHENES MARQUES (na condição de Diretor de Investimentos),
CARLOS ALBERTO CASER (na condição de Diretor de Benefícios),
ANTONIO BRAULIO DE CARVALHO (na condição de Diretor de
Planejamento e Controladoria), SÉRGIO FRANCISCO DA SILVA (na condição
de Diretor de Administração e Tecnologia da Informação), HUMBERTO PIRES
GRAULT VIANNA DE LIMA (na condição de Diretor de Participações
Societárias e Imobiliárias), MAURICIO MARCELLINI PEREIRA (na condição
de Diretor de Investimentos), JOSÉ CARLOS ALONSO GONÇALVES (na
condição de Diretor de Benefícios) RENATA MAROTTA (na condição de
Diretora de Administração), CARLOS AUGUSTO BORGES (na condição de
Diretor de Participações Societárias e Imobiliárias) e LUIZ PHILIPPE PERES
TORELLY (na condição de Diretor de Participações Societárias e Imobiliárias)
geriram de forma temerária a Fundação dos Economiários Federais (FUNCEF) -
Fundo de Pensão dos funcionários da Caixa Econômica Federal (CEF) - para
permitir a aprovação do aporte de capital da FUNCEF, bem como realizar
efetivamente tal aporte, no montante de R$ 100.000.000,00 (cem milhões de
reais), em favor do Fundo de Investimento em Participações Global Equity
Properties (FIP Global Equity, FIPGEP ou FIP), em flagrante prejuízo para a
FUNCEF, que acabou por despender recursos incompatíveis com o valor
econômico dos ativos cuja participação acionária adquiriu. Os denunciados
incorreram, assim, na prática do crime de gestão temerária, tipificado no art. 4°,
parágrafo único, da Lei n° 7492/86.

As tratativas para obter o investimento da FUNCEF no FIP GEP iniciaram-se a


partir do contato da empresa GLOBAL em 2007.
Foram formulados diversos pareceres visando avaliar o supracitado
investimento: CI GECOR 327/07; PA GEJUR 018/08, de 28/01/2008; e PA GEPAR/COANI
001/08, de 28/01/2008. Todavia, todos estes pareceres se omitiram na análise dos riscos
decorrentes da operação e limitaram-se a analisar a possibilidade do enquadramento do
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investimento na forma legal. Sequer o parecer da Gerência de Controles e Riscos

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Corporativos (GECOR), cuja função primordial é analisar os riscos dos investimentos,
cumpriu este papel.
Apesar disso, por meio do VO DIPAR 009/08, de 29/01/2008, o Diretor de
Participações Societárias e Imobiliárias JORGE LUIZ DE SOUZA ARRAES recomendou o
investimento à Diretoria Executiva da FUNCEF.
Posteriormente, por meio da RESOLUÇÃO/ATA 039/875, de 26/02/2008, a
Diretoria Executiva da FUNCEF, formada por GUILHERME LACERDA (Diretor-

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Presidente), DEMÓSTHENES MARQUES (Diretor de Investimentos), CARLOS CASER
(Diretor de Benefícios), ANTÔNIO BRÁULIO (Diretor de Planejamento e Controladoria),
SÉRGIO FRANCISCO DA SILVA (Diretor de Administração e Tecnologia da Informação) e
JORGE LUIZ DE SOUZA ARRAES (Diretor de Participações Societárias e Imobiliárias)
aprovou a aquisição de 20% das cotas do FIP GEP, equivalente a R$ 100.000.000,00 (cem
milhões de reais), apesar da ausência de documentos que analisassem os riscos do
investimento a ser realizado no FIP.
Todavia, JORGE ARRAES e CARLOS CASER, representando a FUNCEF,
firmaram um Compromisso de Investimento que comprometia a Fundação no montante de R$
100.000.000,00, mas no limite legal de 25%, superior ao autorizado pela Diretoria Executiva,
que estabelecera anteriormente o limite de aquisição de 20% das cotas.
No entanto, apesar da previsão inicial do FIP de capitalização em R$
500.000.000,00 (quinhentos milhões de reais), não foram emitidas cotas que totalizassem este
valor em seu lançamento, em novembro de 2008. Foram feitas duas emissões de cotas
posteriores, em abril de 2010 e em 30 de novembro de 2011, nas quais a FUNCEF
continuamente subscreveu novas cotas, até atingir seu limite absoluto de R$ 100.000.000,00
autorizado pela Diretoria Executiva, após esta última emissão de cotas. Todavia, a FUNCEF,
por decisão principalmente de JORGE ARRAES, CARLOS CASER e HUMBERTO
GRAULT – que representaram a FUNCEF nos atos que definiram junto aos demais cotistas
do FIP como seriam realizados os aportes da Fundação – manteve seu percentual de
participação no FIP superior ao que fora aprovado pela Diretoria Executiva.

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Salienta-se que a Gerência Jurídica, em 02/05/2012, por meio do PA GEJUR

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060/2012, esclareceu que a FUNCEF não estava obrigada a realizar novos aportes no FIP e
tinha a possibilidade de solicitar os valores excedentes ao limite aprovado pela Diretoria
Executiva, uma vez que sua vinculação era de subscrever apenas na primeira emissão de cotas
e no limite de 20% das ações. Entretanto, poucos dias depois, a Diretoria Executiva, por meio
da RESOLUÇÃO/ATA nº 079/1070, de 08/05/2012, retificou a participação da FUNCEF para
até 25%, ignorando o parecer da Gerência Jurídica e sem ter realizado novas análises técnicas
e de conveniência, e ainda sem qualquer avaliação de riscos.

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A denúncia relata também a falta de diligência dos diretores da FUNCEF com
relação à escolha da empresa gestora do FIP GEP. Nesse sentido, cita o seguinte trecho do
Auto de Infração produzido pela PREVIC referente ao investimento:

A Global Equity derivou do grupo Global, porém não se verificou uma análise
aprofundada de qual a experiência desse grupo na atuação específica no setor imobi -
liário, qual o histórico de sucesso específico em investimentos imobiliários ou mesmo
a realização de uma due diligence em relação à gestora e às pessoas que as compu -
nham, como seria de se esperar pelos princípios da transparência, prudência e segu-
rança do investimento. [...]
No presente caso, seja por não ter realizado uma avaliação prévia detalhada da
gestora, seja por não ter acompanhado devidamente todas as aplicações de recursos
efetuadas em SPE no âmbito do FIP, deixaram os dirigentes da FUNCEF de respeitar
os princípios da prudência e da segurança do investimento e descumpriram com o seu
dever de diligência.

Além do desrespeito aos princípios da prudência, transparência e segurança na


escolha de um gestor sem a realização de due diligence e sem avaliar sua experiência prévia
no setor imobiliário, a PREVIC apontou irregularidades na conduta dos diretores da FUNCEF
também com relação ao acompanhamento dos investimentos do FIP GEP. De fato, ao solicitar
documentos à FUNCEF que demonstrassem suas “análises, orientações de voto e documentos
relacionados que embasaram os votos da entidade no âmbito do comitê de investimentos do
FIP em questão”, não foram identificadas análises internas da FUNCEF de nenhum dos inves-
timentos em SPEs, nem orientações de voto para nenhuma das SPEs no período de 2008 a
2014.
Nesse ponto, a denúncia ressalta a responsabilidade dos representantes da
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FUNCEF no Comitê de Investimento do FIP, JORGE ARRAES (na condição de DIPAR no

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período de 06/07/2009 a 10/05/2011) e CARLOS BORGES (na condição de DIPAR no perío-
do de 11/05/2011 a 10/08/2015), destacando que tal conduta foi contrária ao objetivo da FUN-
CEF com o investimento no FIP GEP, principalmente tendo em vista que um dos motivos da
decisão de investimento era exatamente o fato de que a FUNCEF teria governança no Fundo
por meio de sua participação no Comitê de Investimento.
A denúncia relata também, a fim de indicar a falta de acompanhamento do in-
vestimento pelos diretores da FUNCEF, que houve uma mudança na metodologia de avalia-

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ção proposta pelos ativos do Fundo com relação ao qual os gestores da FUNCEF não realiza-
ram qualquer análise, apesar do fato de que o novo critério de avaliação, que fora modificado
para valor econômico, baseado em resultados futuros, ao invés de equivalência patrimonial,
implicasse grandes riscos para o Fundo. Nesse sentido, a denúncia transcreve o seguinte tre-
cho da análise realizada pela PREVIC:

Quanto à alteração no valor econômico, necessário seria o acompanhamento do


estudo de precificação realizado e o questionamento do porquê da alteração da forma
de contabilização dos ativos do FIP viabilizada através da alteração do seu regulamen-
to. Já quanto aos problemas de caixa, um acompanhamento e monitoramento constan-
tes do investimento permitiriam à FUNCEF não ser surpreendida quanto ao fato rela-
tado pela gestora.

Assim, não havia um acompanhamento por parte da FUNCEF com relação à


situação de seus investimentos e à forma como seus recursos eram aplicados pela gestora do
FIP.
Como resultado, conforme apontado na denúncia, em 2016, de acordo com a
PREVIC, o prejuízo total decorrente da operação era de R$ 140.000.000,00 (cento e quarenta
milhões de reais) em valores atualizados, chegando a totalizar um prejuízo de 100%, podendo
chegar a um prejuízo superior a 100% (100% do capital investido + 23,30% de participação
da FUNCEF no FIP GEP sobre a perda projetada de R$ 180 milhões).
Da análise dos fatos relatados, verifica-se que, não obstante todos os diretores
da FUNCEF que foram denunciados tenham efetivamente concorrido para a prática dos
delitos, os membros da Diretoria de Participações durante o período do investimento tiveram
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um papel de destaque na condução do processo de investimento no âmbito da FUNCEF.

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Com efeito, JORGE ARRAES foi quem levou o investimento à Diretoria
Executiva por meio do VO DIPAR 009/08, de 29/01/2008, apesar da ausência das necessárias
análises de riscos. Após a aprovação da Diretoria Executiva JORGE ARRAES, Diretor de
Participações e CARLOS CASER, Diretor de Benefícios, representando a FUNCEF,
firmaram Compromisso de Investimento num FIP num limite superior ao que fora autorizado
pela Diretoria Executiva.
Ademais, acerca dos investimentos realizados pelo FIP posteriormente, eram os

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Diretores da DIPAR, JORGE ARRAES e posteriormente CARLOS BORGES, que
representavam a FUNCEF no Comitê de Investimentos do FIP e deveriam portanto ter
acompanhados os realizados pelo FIP mais de perto.
Assim, embora todos os diretores denunciados tenham concorrido diretamente
para prejuízos causados pela FUNCEF ao acolher o posicionamento dos membros da DIPAR,
considerando o contexto relatado, verifica-se que os gestores da DIPAR tiveram, neste
investimento, uma posição de protagonismo.
Ressalta-se que todas as ilicitudes apontadas já foram amplamente detalhadas
na denúncia que inaugurou a ação penal nº 1029168-83.2019.4.01.3400, cuja cópia segue ane-
xa a esta petição.

3.10. FIP MULTINER

No bojo da ação penal nº 1030054-82.2019.4.01.3400 foram denunciados


diversos dirigentes da FUNCEF, bem como empresários e particulares, em razão de delitos
praticados no âmbito do investimento da FUNCEF no FIP MULTINER.
A denúncia que inaugurou a supracitada ação penal resume da seguinte forma
as condutas denunciadas com relação ao investimento da FUNCEF no FIP MULTINER:

A partir da referida investigação, foram obtidas provas de que entre agosto e


novembro de 2009, nesta capital federal, os acusados GUILHERME NARCISO
DE LACERDA (na condição de Diretor-Presidente da FUNCEF), LUIZ PHILIP-
PE PERES TORELLY (na condição de Diretor de Participações Societárias e
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Imobiliárias da FUNCEF), CARLOS ALBERTO CASER (na condição de Dire-

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tor de Benefícios da FUNCEF) e CARLOS ALBERTO ROSA (Gerente da Ge-
rência de Participações Mobiliárias - GEPAR/FUNCEF), com a participação do
empresário JOSÉ AUGUSTO FERREIRA DOS SANTOS (sócio/controlador da
Multiner S/A à época dos fatos), HUMBERTO PIRES GRAULT VIANNA DE
LIMA (ex- Presidente e Diretor da Vitória Asset, gestora do FIP Multiner em 2009)
e DIEGO DE MAGALHÃES OZORIO (sócio da CG Quatro Consultoria e res-
ponsável pela valuation da Multiner S.A.), geriram de forma fraudulenta a Funda-
ção dos Economiários Federais (FUNCEF) - Fundo de Pensão dos funcionários da
Caixa Econômica Federal (CEF) - para permitir a aprovação do primeiro apor-
te de capital da FUNCEF, bem como realizar efetivamente tal aporte, no mon-
tante de R$ 102.300.000,00 (centro e dois milhões, e trezentos mil reais), em favor
da MULTINER S/A, por meio do Fundo de Investimentos em Participações

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Multiner (FIP Multiner), sem a observância dos deveres de diligência e por meio
da utilização de documentos fraudulentos elaborados pela CG4 Consultoria Em-
presarial Ltda. (ou “CG QUATRO”), com subsídio dos executivos da Multiner S/
A, que avaliaram, de forma superestimada, no valor de R$ 2,196 bilhões, os ativos
da companhia (beneficiando os sócios/controladores da MULTINER S/A), em fla-
grante prejuízo para a FUNCEF, que acabou por despender recursos incompatíveis
com o valor econômico dos ativos cuja participação acionária adquiriu.
Outrossim, ainda na primeira fase de aportes de capital no FIP MULTI-
NER, GUILHERME NARCISO DE LACERDA (na condição de Diretor-Presi-
dente da FUNCEF), LUIZ PHILIPPE PERES TORELLY (na condição de Dire-
tor de Participações Societárias e Imobiliárias da FUNCEF), CARLOS ALBER-
TO CASER (na condição de Diretor de Benefícios da FUNCEF) e CARLOS AL-
BERTO ROSA (Gerente da Gerência de Participações Mobiliárias - GEPAR/FUN-
CEF), com a participação de HUMBERTO PIRES GRAULT VIANNA DE
LIMA (ex-Presidente e Diretor da Vitória Asset, gestora do FIP Multiner em 2009),
DIEGO DE MAGALHÃES OZORIO (sócio da CG Quatro Consultoria e res-
ponsável pela valuation da Multiner S.A.), JOSÉ AUGUSTO FERREIRA DOS
SANTOS (sócio/controlador da Multiner S/A) desviaram, em proveito deste,
os valores que foram indevidamente investidos no Fundo de Investimentos em
Participações Multiner (FIP MULTINER) pela FUNCEF, em flagrante benefício
aos referidos sócios da empresa Multiner S/A.
A respeito dos crimes acima mencionados, cometidos no bojo da primeira
fase de aportes de capital da FUNCEF no FIP Multiner, a consumação ocorreu
com os efetivos aportes pelos quais a referida EFPC integralizou suas cotas no fun-
do, ocorridos nas seguintes datas:

(i) 20 de outubro de 2009, no montante de R$ 18,2 milhões; e


(ii) 19 de novembro de 2009, no montante de R$ 84,1 milhões.

Com as duas aplicações, coube à FUNCEF a participação no FIP Multiner de


20,30%.
Por sua vez, em março de 2012, já cientes da crítica situação da Multiner
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S.A. e dos prejuízos advindos do investimento no FIP Multiner, CARLOS AU-

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GUSTO BORGES (Diretor de Participações Societárias e Imobiliárias da FUN-
CEF), CARLOS ALBERTO CASER (Diretor de Benefícios à época dos primei-
ros aportes realizados em 2009, e Diretor-Presidente em 2012) e HUMBERTO PI-
RES GRAULT VIANNA DE LIMA (agora como Gerente da Gerência de Partici-
pações Mobiliárias - GEPAR/FUNCEF), com a participação de JOSÉ AUGUSTO
FERREIRA DOS SANTOS (Controlador da Multiner S.A.), RONALDO MAR-
CELIO BOLOGNESI (controlador do Grupo Bolognesi) e PAULO CESAR
RUTZEN (Diretor do grupo Bolognesi — Bolognesi Energia S.A.), aprovaram,
de forma fraudulenta, a participação da FUNCEF no processo de reorganiza-
ção societária e reestruturação financeira da Multiner S.A., com mais outro
aporte no fundo, agora de R$ 84.630.552,07.
Nessa etapa, os aportes da FUNCEF no FIP Multiner ocorreram nas seguin-

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tes datas e com os seguintes valores (que totalizaram R$ 84.630.552,07):

(i) 11 de abril de 2012: aporte de R$ 21,609 milhões;


(ii) 25 de maio de 2012: aporte de R$ 18,906 milhões;
(iii) 18 de julho de 2012: aporte de R$ 22,630 milhões; e
(iv) 20 de agosto de 2012: aporte de R$ 21,484 milhões.

Outrossim, RONALDO MARCELIO BOLOGNESI e PAULO CESAR


RUTZEN, representantes do Grupo Bolognesi, a pretexto de cumprir a obrigação
contida no aditivo ao contrato de reorganização, fizeram aporte bumerangue no dia
14/07/2014, retirando nessa mesma data o valor de R$ 55.000.000,00 depositado
em favor da Multiner S.A, em manifesto prejuízo ao FIP, desviando, em proveito
próprio e alheio, os valores aportados.

A apuração dos fatos denunciados contou com a participação ativa da PREVIC


(responsável pelo Relatório de Fiscalização RF nº 005/2014/CFDF/PREVIC e pelo Auto de
Infração nº 033/2016), da própria FUNCEF (responsável pelo Relatório de Auditoria RA
GEAUD 003/16 e pela CTA 003/2017), da Força-Tarefa da Caixa Econômica Federal e da
Secretaria de Perícia, Pesquisa e Análise (SPPEA) do MPF (responsável pelo parecer técnico
nº 1863/2018).
As ilicitudes relacionadas ao investimento da FUNCEF no FIP MULTINER
serão descritas brevemente em seguida.
O Fundo de Investimento em Participações Multiner (FIP MULTINER) foi
constituído em 09 de dezembro de 2008, com o objetivo de investir na empresa MULTINER
S.A.
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Por sua vez, a MULTINER S.A. é uma empresa de capital aberto e foi

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constituída em 21 de maio de 2007. Originalmente, possuía como razão social a denominação
“2010 Geração de Energia e Participações S.A.”. A empresa tem por escopo o investimento
em empreendimentos e sociedades do ramo de energia elétrica. Em 2009, suas atividades
eram voltadas à construção, montagem e operação de sua única usina termelétrica em
operação, a UTE Cristiano Rocha, em Manaus (AM), de propriedade da empresa Rio
Amazonas Energia S.A.
A emissão de cotas do FIP MULTINER foi de 412 quotas com preço inicial de

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R$ 1.000.000,00 (um milhão de reais) cada uma, totalizando um montante de até R$
412.000.000,00 (quatrocentos e doze milhões de reais).
O FIP é administrado pela PLANNER CORRETORA DE VALORES S.A., e
era gerido inicialmente pela empresa VITÓRIA ASSET MANAGEMENT S.A. Entretanto, a
partir de 03/11/11, a gestão passou a ser realizada também pela PLANNER, que passou então
a acumular tanto a gestão como a administração do FIP até janeiro de 2016, quando a gestão
passou para a empresa VINCI CAPITAL GESTORA DE RECURSOS LTDA, substituída em
09/09/2018 pela POLO CAPITAL MANAGEMENT LTDA.
A proposta de investimento no FIP MULTINER foi apresentada à FUNCEF
por HUMBERTO GRAULT, que então era sócio da empresa VITÓRIA ASSET
MANAGEMENT S.A., gestora do FIP MULTINER. Assim, a VITÓRIA ASSET apresentou à
FUNCEF uma valuation que realizou da empresa MULTINER, indicando que o valor da
empresa era de R$ 2.346 bilhões.
Antes da aprovação do investimento, a FUNCEF contratou outra empresa,
denominada CG4 CONSULTORIA EMPRESARIAL LTDA (“CG4”), cujos sócios eram
PRISCILA MARÇAL COSTA e DIEGO DE MAGALHÃES OZÓRIO, para realizar a
avaliação econômica e financeira da empresa MULTINER S.A.
Acerca da escolha da CG4, a denúncia relata que outras instituições haviam
apresentado proposta para prestação do serviço de valuation. De fato, os bancos UBS
PACTUAL e BANCO FATOR, já conhecidos do mercado, haviam apresentado proposta,
pelos valores de R$ 750 mil e R$ 645 mil respectivamente. Entretanto, o então Gerente de

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Participações CARLOS ROSA ignorou estas propostas e determinou a contratação da CG4,

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empresa recém-criada e desconhecida no mercado.
O Relatório de Auditoria elaborado pela FUNCEF em 11/03/2016 apontou as
seguintes irregularidades referentes à contratação da CG4:

a) incompatibilidade entre o ramo de atividade da CG4 Consultoria Em-


presarial - registrada no sítio eletrônico da Secretaria da Receita Federal como
“Design de Interiores”17 - e a atividade de consultoria e auditoria esperada para a
realização da valuation;
b) a CG4 Consultoria foi criada em 4.5.2009, apenas dois meses antes

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de iniciado o processo de cotação pela FUNCEF para escolha da empresa de con-
sultoria;
c) ausência de convite formal à CG4 Consultoria Empresarial para parti-
cipar do processo (a auditoria da FUNCEF localizou, no dossiê do processo de co-
tação, apenas convites para as empresas UBS Pactual, Banco Fator e Singular
Partners no primeiro momento e, mais tarde, solicitação de cotação ao Grupo de
Estudos do Setor Elétrico da UFRJ - GESEL);
d) valor irrisório da proposta comercial18 encaminhada pela CG4, qual
seja, R$ 15.000,00 (quinze mil reais) 19, enquanto outras duas empresas convidadas,
UBS Pactual e Banco Fator, encaminharam propostas nos valores de R$
645.000,00 e R$ 750.000,00, respectivamente;
e) não observância das exigências relativas à especificação técnica, so -
bretudo quanto à ausência de atestados ou certificados de Capacidade Técnica e
dos currículos dos profissionais que atuariam nos trabalhos de valuation.

A Força Tarefa da Caixa também apontou diversas irregularidades no processo


de contratação da empresa CG4, dentre as quais o fato de a proposta da empresa ter sido apre-
sentada 20 dias após o fim do prazo estabelecido no Processo de Cotação de Preços, e o fato
de não ter havido a celebração de contrato escrito com a CG4. De fato, o laudo de avaliação
foi executado e pago com base apenas na proposta apresentada pela empresa, sem celebração
em contrato formal.
Como resultado das diversas irregularidades que marcaram a contratação da
CG4, a Força Tarefa da CEF concluiu que “o resultado disso foi a emissão de um laudo por
uma empresa sem expertise no mercado ou capacidade técnica atestada.” Este fato, como
demonstrado na denúncia, resultou em um laudo de avaliação desprovido de confiabilidade,
cujo conteúdo reflete o ardil que culminou com a sobreprecificação da MULTINER S.A.

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O Laudo de Avaliação MULTINER S.A. é datado de 31/08/2009, e o Laudo de

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Avaliação Multiner S.A. – Estudo Complementar de Cenários é datado de 24/09/2009. Ambos
foram apresentados por DIEGO OZÓRIO, sócio da CG4. Os laudos avaliaram 29 empreendi-
mentos da empresa MULTINER S.A.
Foram identificadas no laudo diversas fragilidades que ocasionaram a sobre-
precificação da empresa MULTINER. Em síntese, a denúncia apontou principalmente o se-
guinte:

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a. Foram desconsiderados os riscos reais do investimento e foram usadas
premissas inverídicas na avaliação, adotando taxas de desconto tecni-
camente indevidas, superavaliando, portanto, os empreendimentos
avaliados.
b. O laudo baseou-se apenas em informações fornecidas pela própria
MULTINER.
c. Inclusão na avaliação dos ativos da MULTINER de um empreendi-
mento no qual a empresa já tinha alienado sua participação (UTE Per-
nambuco III, ao qual foi atribuído o valor de R$ 206,2 milhões).
d. Não foi analisado o grau de endividamento da empresa MULTINER.
e. Foi atribuído valor econômico a projetos sem PPA, ou seja, que existi-
am apenas “no papel” e portanto não têm valor econômico relevante,
como se fossem usinas prestes a entrar em operação. Com efeito, foi
atribuído aos 20 projetos sem PPA o valor de R$ 970,7 milhões.
f. Verificando que não era justificável o valor atribuído aos projetos sem
PPA, a CG4 apresentou uma complementação à valuation, denomina-
da “Estudo Complementar de Cenários” desconsiderando aqueles
projetos, mas manipulando, sem justificativa plausível, a taxa de des-
conto para elevar o valor dos demais projetos avaliados, de modo que
o valor final da companhia, ainda que fossem excluídos os projetos
sem PPA, permanecesse no mesmo patamar, visando atender os inte-
resses dos denunciados.
g. Adoção de taxas de desconto iguais para empreendimentos diferentes,
desconsiderando os riscos específicos de cada uma das usinas elétri-
cas.
h. Falta de consideração de uma taxa de risco adicional no cálculo do
CAPM, o que era mais prudente considerando que mais de 95% das
receitas da MULTINER viriam de projetos pré-operacionais. Caso isto
fosse considerado, conforme informado pela Força Tarefa da CEF, o
valor econômico final da MULTINER ficaria em torno de R$ 831,6
milhões, em contraposição aos R$ 2.196 bilhões apontados pela CG4.
i. Minimização dos riscos existentes, sugerindo, sem maiores explica-
ções, que a experiência dos dirigentes da empresa MULTINER seria
um fator de mitigação dos riscos.
j. Inclusão no portfólio da MULTINER da UTE Cristiano Rocha (única
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usina funcional), localizada em Manaus/AM, que à época da avalia-

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ção estava em vias de ser adquirida pela MULTINER, mas ainda não
integrava seu portfólio, sem considerar possíveis riscos decorrentes de
eventual impossibilidade na concretização da aquisição.
k. Inconsistência na forma como foi definida a evolução dos lucros líqui-
dos das usinas.

Todas as supracitadas fragilidades, com a descrição dos laudos técnicos que as


corroboram, já foram amplamente detalhadas na denúncia que inaugurou a ação penal nº
1030054-82.2019.4.01.3400, cuja cópia segue anexa.

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Ademais, salienta-se que, conforme informações fornecidas pelo Relatório Fo-
rense de Análise de Fornecedores elaborado a pedido da MULTINER ao longo das investiga-
ções e pelos documentos obtidos na quebra de sigilo fiscal/bancário dos autos 35352-
72.2016.4.01.3400, foi verificado que, além de ter recebido da FUNCEF, em 22/09/2009, o
valor devido pelos serviços de avaliação, que haviam sido propostos em R$ 15 mil, verificou-
se que também a empresa MULTINER, sem razão aparente, pagou à CG4 a quantia de R$
188.868,00 no período de janeiro de 2008 a dezembro de 2014 (abarcando o período da elabo-
ração dos laudos de avaliação), e R$ 262.428,00 de janeiro de 2015 a dezembro de 2016, sen-
do que não foram localizados documentos que comprovem a prestação de serviços em favor
da empresa.
Além disso, consta nos laudos de avaliação que teriam sido elaborados por DI-
EGO OZORIO, dono da CG4, e pelo engenheiro GILSON DE AZEVEDO. Tal fato foi con-
firmado por DIEGO OZORIO ao ser ouvido perante a CTA da FUNCEF. Todavia, ao ser ou-
vido pelo MPF, GILSON negou veementemente ter elaborado os laudos da CG4, e afirmou
que sequer conhecia DIEGO OZÓRIO, além de nunca ter recebido valores dele e de sua em-
presa. Afirmou que apenas realizou uma avaliação anteriormente, a pedido de seu amigo JOR-
GE AMILCAR BOUERI, para obtenção de financiamento junto ao Banco BVA para a cons-
trução de uma usina. Ressalta-se que JORGE AMILCAR BOUERI era controlador da MUL-
TINER S.A. junto com JOSÉ AUGUSTO FERREIRA DOS SANTOS.
Tais situações reforçam mais ainda a existência de conluio entre DIEGO OZÓ-
RIO, dono da CG4, e os controladores da MULTINER, JOSÉ AUGUSTO DOS SANTOS e
JORGE AMILCAR BOUERI DA ROCHA.
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Desse modo, após todas as irregularidades, que contribuíram para elevar o va-

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lor da avaliação da empresa MULTINER, em benefício de seus sócios, a CG4 precificou a
empresa em R$ 2.196 bilhões. Tal valor, embora superfaturado, ainda era menor que o que
fora indicado pela gestora do FIP, VITÓRIA ASSET, representada por HUMBERTO
GRAULT, para a empresa. Com efeito, a gestora, ao oferecer à FUNCEF a proposta de inves-
timento no FIP MULTINER, indicara para a empresa investida (MULTINER) o valor de R$
2.346 bilhões.
Ressalta-se que a FUNCEF não realizou nenhum estudo próprio de avaliação

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da MULTINER, dependendo exclusivamente da avaliação feita pela CG4.
De posse do relatório da CG4, a FUNCEF prosseguiu com o processo de análi-
se do investimento, o qual, no entanto, também foi marcado por diversas fragilidades.
Mesmo ciente de todas as ilicitudes nos laudos fraudulentos da CG4, a Direto-
ria Executiva da FUNCEF aprovou o investimento de até R$ 103 milhões no FIP MULTI-
NER, que representava 25% do patrimônio do Fundo.
ANTÔNIO AFONSO DE OLIVEIRA NETO e CARLOS ALBERTO ROSA,
ambos da GEPAR, subscreveram o parecer PA GEPAR 009/09, de 28 de setembro de 2009,
favorável ao investimento. O mencionado parecer adotou integralmente as premissas e análi-
ses contidas nos laudos da CG4, com todas as suas irregularidades. Nele, os riscos do investi-
mento também foram mencionados de forma simplória, sem analisá-los detalhadamente e re-
plicando as informações do Laudo da CG4 para concluir que todos os fatores de risco poderi-
am ser adequadamente mitigados pela experiência dos executivos da MULTINER.
Depois, o então Diretor de Participações Societárias e Imobiliárias, LUIZ PHI-
LIPPE PERES TORELLY, elaborou o Voto nº 072/09 para submeter à deliberação da Direto-
ria Executiva a sugestão de investimento da FUNCEF no FIP Multiner, no percentual de 25%,
com compromisso de investimento de até R$ 103 milhões.
Destaca-se que a data de elaboração do supracitado voto é anterior à data do
parecer jurídico elaborado sobre o investimento, de modo que os riscos apontados no referido
parecer foram desconsiderados.
A denúncia relata também que não houve a realização de due diligence prévia à

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aprovação do investimento no FIP MULTINER, contrariamente ao que exigiam as normas in-

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ternas da FUNCEF (Circular Normativa IF 010 02). Ademais, não houve parecer de risco e
tampouco houve parecer prévio da Diretoria de Investimento.
Nesse contexto, a denúncia conclui que os denunciados agiram com afronta às
disposições contidas na Resolução nº 3.792 do CMN, pela inobservância dos princípios de se-
gurança, rentabilidade, solvência, liquidez e pela falta de diligência, em razão da deficiência
quanto à avaliação, ao controle e ao monitoramento dos riscos do negócio, e também pela au-
sência de avaliação acerca da capacidade técnica e potenciais conflitos de interesse quanto ao

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acolhimento da valuation realizada pela CG4, cujas premissas foram inteiramente fornecidas
pela empresa MULTINER.
Registre-se também que JOSÉ AUGUSTO DOS SANTOS era sócio e Diretor
da VITÓRIA ASSET, gestora do FIP MULTINER, a qual por meio de seu representante
HUMBERTO GRAULT apresentou à FUNCEF a proposta de investimento no FIP. Além dis-
so, JOSÉ AUGUSTO DOS SANTOS era controlador da CIA 44 DE NEGÓCIOS, companhia
que possuía uma participação de 35% na empresa MULTINER e era ligada ao Banco BVA, do
qual a MULTINER possuía debêntures e CDBs. Ademais, salienta-se que JOSÉ AUGUSTO
DOS SANTOS também era controlador do Banco BVA, que fora o criador do FIP MULTI-
NER. Assim, havia um entrelaçamento entre a gestora do FIP e um dos acionistas da empresa
investida pelo FIP, o que criava forte risco de conflitos de interesses.
O conflito de interesses e a má-fé restaram confirmados quando, em 2011, após
a aquisição das quotas do FIP Multiner pelos Fundos de Pensão, a MULTINER S.A. perdoou
dívida da BVA EMPREENDIMENTOS, no valor de R$ 16.517.805,00.
A denúncia relata também que ao longo das investigações conduzidas no bojo
da Operação Greenfield, foram colhidas declarações de colaboradores que apontam para pos-
síveis negociações ilícitas que teriam precedido o investimento da FUNCEF no FIP MULTI-
NER. Sobre esse ponto, importa transcrever o seguinte trecho da denúncia:

Para melhor compreensão de tudo o que foi narrado, cabe aqui mencionar o
que foi dito pela testemunha RICARDO SIQUEIRA RODRIGUES, ouvido pelo
Ministério Público Federal no âmbito no PIC n° 1.16.000.000999/2016-47123, que,
inclusive, trouxe à tona a existência de pagamento de vantagens ilícitas para agen -
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tes políticos e diretores dos Fundos de Pensão em razão do investimento no FIP

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Multiner. A referida testemunha descreveu o papel fundamental do acusado JOSÉ
AUGUSTO FERREIRA no esquema de aprovação fraudulenta pelos Fundos de
Pensão no FIP Multiner, bem como no pagamento das propinas acordadas, inclusi-
ve com a utilização da estrutura do Banco BVA. Relatou que JOSÉ AUGUSTO
era conhecido por sua proximidade com a classe política e por cumprir com o paga-
mento das vantagens indevidas prometidas. Descreveu, também, a participação do
acusado HUMBERTO GRAULT na aprovação dos investimentos, afirmando que
possuía ele plena consciência da existência de pagamentos indevidos nos fundos da
Vitoria Asset, empresa que era por ele dirigida e que geria o FIP Multiner. Esclare -
ceu, também, que a empresa CG QUATRO, do acusado DIEGO DE MAGA-
LHÃES OZÓRIO, contratada pela FUNCEF para realizar a valuation, era total-
mente desconhecida no mercado e que o valor pago pelo serviço era muito inferior

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ao comumente cobrado. De acordo com a testemunha, as premissas da valuation
eram infladas porque a maior parte das ações da Multiner S.A. decorria de conver-
são de dívida e que se o valor não fosse alto os acionistas antigos seriam diluídos,
fazendo com que o acusado JOSÉ AUGUSTO FERREIRA e o Banco BVA per-
dessem o controle da empresa, o que eles não queriam.
Vale destacar, também, o termo de declaração n° 13 da colaboração premia-
da celebrada com ROBERTO MADOGLIO124. De acordo com o colaborador, hou-
ve um pedido para que o FI-FGTS investisse na empresa Multiner, sendo realizadas
diversas reuniões com o acusado JOSÉ AUGUSTO FERREIRA DOS SANTOS
para tratar do assunto. Relatou, também, que esteve por várias ocasiões com o acu-
sado GUILHERME NARCISO DE LACERDA, então Presidente da FUNCEF,
que pediu diretamente ao colaborador que tentasse viabilizar um investimento do
FI-FGTS na empresa. Aqui chama a atenção a participação do acusado GUI-
LHERME LACERDA, que, mesmo exercendo a função de Presidente da FUN-
CEF, representava interesses do acusado JOSÉ AUGUSTO junto ao FI-FGTS.
Apesar da insistência dos acusados, o investimento acabou não ocorrendo porque
não havia mínima expectativa de resultado dada a situação em que se encontrava
a empresa Multiner. Transcrevemos:

“QUE certa feita ANDRE DE SOUZA pediu que nossa equipe analisasse a possibi-
lidade de o FI-FGTS investir na empresa Multiner; QUE esta empresa era gerida
por um Fundo de Investimento que tinha vários Fundos de Pensão como cotistas e
cuja gestão era feita pela Vitória Asset, empresa ligada ao extinto BVA; QUE foram
várias reuniões com o AUGUSTO do Banco BVA, com membros da Multiner e em
várias ocasiões GUILHERME LACERDA, presidente da FUNCEF pediu direta-
mente ao DEPOENTE para que tentasse viabilizar um investimento do FI-FGTS na
empresa; QUE o investimento não ocorreu pois não havia mínima perspectiva de
resultado dada a situação em que se encontrava a empresa;”

Apesar de todas as irregularidades que marcaram o processo de avaliação, pela


FUNCEF, da possibilidade de investimento no FIP MULTINER, a Diretoria Executiva da

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Fundação aprovou o investimento por meio da Resolução/Ata nº 242/951, de 13 de outubro de

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2009.
Por estas razões, GUILHERME LACERDA, LUIZ PHILIPPE TORELLY,
CARLO SCASER, CARLOS ROSA, JOSÉ AUGUSTO FERREIRA DOS SANTOS, HUM-
BERTO GRAULT e DIEGO OZÓRIO, em concurso e unidade de desígnios, foram denuncia-
dos pela prática de gestão fraudulenta da FUNCEF (art. 4º, caput, da Lei nº 7.492/86). Ade-
mais, foram denunciados também pela prática do delito do art. 5º da Lei nº 7.492/86 (desvio
de valores em proveito próprio e/ou alheio), tendo em vista que os atos de gestão fraudulenta

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narrados levaram a FUNCEF a investir mais do que seria devido para obter a participação de
20,30% do patrimônio do fundo, beneficiando indevidamente os sócios da empresa MULTI-
NER S.A.
Em seguida, a denúncia relata que foram praticados delitos também por ocasião
do primeiro processo de reorganização societária e reestruturação financeira da empresa
MULTINER, em 2012. Este processo previa a troca do controle acionário da empresa, passan-
do do então Grupo Controlador (as empresas JABR Participações S.A., Companhia 44 de Ne-
gócios S.A. e Companhia de Investimentos Resultado) para a Brasilterm Energia S.A. (Brasil-
term-Bolognesi).
Em 2012, a MULTINER apresentava uma grave deterioração econômico-finan-
ceira, que já era facilmente percebida desde 2011. Foi realizada uma avaliação econômico-
financeira da empresa pela DELOITTE TOUCHE TOHMATSU, com data base de 30 de se-
tembro de 2010, a qual apontou para a MULTINER um valor de R$ 199,4 milhões. Tal situa-
ção evidencia que, após o ingresso da FUNCEF, a companhia sofrera uma desvalorização de
90% em relação à avaliação elaborada inicialmente pela CG4.
À época da reestruturação da MULTINER, já havia conhecimento acerca dos
atrasos no cronograma da empresa para execução dos projetos, e havia ciência de que algumas
das principais razões que levaram aos atrasos eram a gestão não profissionalizada da empresa
e as falhas no processo de obtenção de licença ambiental, além de pagamentos aos fornecedo-
res de equipamentos mesmo sem obtenção da licença para instalação da usina e baixa capitali-
zação da empresa pelo Grupo Controlador, além de alto nível de alavancagem dos projetos. O

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total do endividamento da empresa era mais de R$ 2 bilhões.

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Todavia, a Diretoria Executiva da FUNCEF aprovou em Reunião Extraordiná-
ria, em 06/03/2012 (Resolução/Ata nº 048/1063), a reestruturação da empresa, com a realiza-
ção de novo aporte no FIP MULTINER no montante de até R$ 84,7 milhões. Foram favorá-
veis ao novo investimento os denunciados CARLOS CASER (então Diretor-Presidente) e
CARLOS BORGES (Diretor de Participações). Ficou registrada, nesta ocasião, a abstenção
do então Diretor de Investimentos DEMÓSTHENES MARQUES.
Conforme a denúncia, a decisão da Diretoria Executiva baseou-se no Voto DI-

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PAR nº 023/2012, de 01/03/2012, elaborado por CARLOS BORGES, e no parecer PA GE-
PAR 008/12, de 01/03/2012, elaborado por EVALDO DE REZENDE FILHO, Coordenador
Substituto Eventual do COAFI, e HUMBERTO GRAULT, Gerente da GEPAR. Estavam à
disposição da Diretoria Executiva, ainda, o Parecer GEJUR 034/12, de 02/03/2012, e o docu-
mento NDE DIPAR 013/12, de 06/03/2012, também assinado por HUMBERTO GRAULT,
desta vez na condição de Diretor de Participações Societárias e Imobiliárias em Exercício.
No entanto, salienta-se que não foram levadas em consideração, nessa reestru-
turação, as considerações das Gerência Jurídica da FUNCEF, tendo em vista que o parecer da
gerência jurídica (PA GEJUR 034/12), embora tenha sido anexado ao Voto DIPAR nº 23/2012
e ao PA GEPAR 008/12, na verdade foi elaborado em data posterior a estes documentos.
Em síntese, o supracitado parecer jurídico apontou os riscos do negócio e suge-
riu a possibilidade de efetuar uma auditoria interna, para apurar eventuais condutas de admi-
nistrações anteriores e mitigar novos riscos econômicos e jurídicos. Ademais, o parecer apon-
tou os inúmeros riscos jurídicos relacionados à proposta de reestruturação da MULTINER S/
A, e sugeriu a não aprovação do negócio. Entretanto, isto foi totalmente desconsiderado pela
Diretoria Executiva da FUNCEF.
Ademais, a denúncia ressalta que a aprovação do novo investimento pela FUN-
CEF no FIP ocorreu em meio ao descumprimento de normas internas e dispositivos legais e
sem o cumprimento dos deveres próprios de due diligence que deveriam ter sido observados
pelos diretores da FUNCEF.
Nesse sentido, salienta-se que não houve parecer de análise de risco por parte

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da Gerência de Controles e Riscos Corporativos (GECOR), e tampouco a aprovação foi pre-

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cedida dos necessários pareceres de risco e de conformidade, exigidos pela norma IF 010.
A denúncia narra que apesar da ausência do parecer da GECOR, da análise por-
menorizada e discussão das considerações do parecer jurídico pela DIPAR e da ausência de
auditorias fiscal, contábil e legal para a aprovação do investimento, a Diretoria Executiva
aprovou a reestruturação financeira e societária da MULTINER S/A e do FIP MULTINER
avalizando condições que representavam verdadeiro desequilíbrio na negociação com a Bo-
lognesi, representada na oportunidade pelos acusados RONALDO MARCELIO BOLOGNE-

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SI e PAULO CESAR RUTZEN.
Com efeito, no processo de reestruturação da MULTINER a CPFL Energia,
grupo com mais de 100 anos de experiência no setor elétrico, mostrou interesse em negociar a
aquisição da Companhia. Entretanto, os diretores de fundos de pensão e representantes do FIP
optaram por celebrar o contrato com o grupo Bolognesi, com cláusulas extremamente benéfi-
cas a essa companhia.
Para viabilizar a reestruturação, com o ingresso da Brasilterm-Bolognesi para
assumir o controle acionário da MULTINER S/A, houve uma negociação com a Bolognesi
com base em novas valuations da empresa elaboradas pela Deloitte e pela Bolognesi. A valu-
ation da Deloitte teve como data-base 30/09/2010, e foi levada em consideração no processo
decisório que aprovou a reestruturação da empresa, embora a decisão final tenha se dado ape-
nas em 06/03/2012, mais de um ano e meio depois.
A avaliação da Deloitte atribuiu à MULTINER o valor de R$ 199,4 milhões e,
em um cenário mais pessimista, por meio de uma análise de sensibilidade obteve o valor de
R$ 139,8 milhões. A avaliação avaliada pela Bolognesi, por outro lado, atribuiu à MULTI-
NER o valor de R$ 693,0 milhões negativos. Entretanto, diante de tal diferença, a Diretoria
Executiva não exigiu nova avaliação para dirimir dúvidas com relação à conveniência da ope-
ração. Optaram, ao invés disso, por combinar um modelo de negócio em que seriam feitos
ajustes de forma a se chegar ao valor apurado pela Bolognese.
Acerca das supracitadas avaliações, a denúncia transcreve o seguinte trecho das
conclusões da Força Tarefa da CEF:

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“115. Em JUN 2011 foi concluído pela Deloitte, a pedido do FIP, ava-
liação econômico-financeira da Multiner, onde a referida consultoria apurou
o valor da empresa em R$ 199,4 milhões. A Deloitte fez ainda uma análise
de sensibilidade, estressando a premissa de eventual necessidade de aumen-
to do investimento nos projetos - capex, chegando em uma avaliação no ce-
nário mais pessimista no valor de R$ 139,8 milhões.
116. Em que pese não ter sido identificado nenhum vício aparente
na técnica empregada pela Deloitte na elaboração do Laudo, tudo indica que
o valor final apurado foi superestimado, já que inviabilizou a primeira tenta-
tiva de negociação para capitalização da Multiner (junto à CPFL) e mos-
trou-se R$ 823,8 milhões superior ao valor encontrado pela Bolognese. É

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possível que as informações prestadas pela própria Multiner à Deloitte te-
nham levado à adoção de premissas otimistas demais - o que, contudo, não
foi possível se identificar objetivamente da análise dos documentos encami-
nhados.
Cabe registrar, neste ponto, que para o início das negociações com a Bolog-
nese, tomou-se como base o preço mais pessimista estabelecido no relatório
da Deloitte, de R$ 139,8 milhões, valor esse decidido em reunião de cotistas
do FIP, representando um valor de R$ 80,95 por ação ordinária. A Bologne-
se, a seu turno, mediante a realização de due diligence na Multiner, apurou
o preço de R$ 693,00 milhões negativos. Diante da divergência de valo-
res, ficou acertado um modelo de negócio em que seriam feitos ajustes
de forma a se chegar ao valor apurado pela Bolognesi. Diante da enor-
me diferença de valores, caberia ao FIP contratar nova consultoria
para a revisão do preço da Multiner fixado pela Deloitte ou, mesmo,
contratar uma due diligence, e não apenas negociar formas indiretas de
se atingir, com a operação, o valor apontado pela Bolognese. Isso o que
se extrai do gráfico abaixo, constante do PA GEPAR n° 008/12: [...] 118.
Além das questões ligadas ao valor apurado da empresa Multiner, a negoci-
ação mostrou forte desequilíbrio, com vantagens patentes ao Grupo Bo-
lognese. A despeito de ser compreensível o poder de negociação de um gru-
po investidor nesse caso, dois pontos principais merecem ser objetivamente
apontados:

(i) o aporte de R$ 260 milhões em dinheiro que seria feito pela


Bolognese ficou condicionado à liberação das licenças das usinas e foi fe-
chado considerando um valor, por ação, inferior em R$ 2,45 ao preço esta-
belecido para os aportes dos fundos cotistas (R$ 78,50 vs R$80,95), sem
que conste, nos documentos analisados, o racional para essa diferença;
(ii) há uma diferença de R$ 244 milhões, em desfavor do FIP, en-
tre o valor atribuído aos projetos da Basilterm-Bolognese integralizados na
Multiner por ocasião da reestruturação (R$ 337 milhões) e o valor apontado
em Laudo da Baker Tilly, contratada pelo FIP apenas 6 meses depois (R$93
milhões);
(iii) ao final do processo de reestruturação, a Bolognese passaria a
ter 69,74% do capital votante, além de uma participação de 6,56% no FIP,

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tendo dessa forma o controle quase total da companhia. O FIP, a seu turno, a

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despeito do alto valor aportado na Multiner, passaria a ter somente 6,50%
no capital votante da empresa. A FUNCEF, com tudo acontecendo con-
forme previsto, passaria a ter 18,61% do FIP, o que representaria uma
participação total na Multiner de 10,62%.”

Além de terem sido negociadas condições extremamente benéficas ao Grupo


Bolognesi, a denúncia aponta que foi identificada, ao longo das investigações a transferência
injustificada de vultuosas quantias da empresa MULTINER em benefício de pessoas ligadas

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ao Grupo Bolognesi. Nesse sentido, oportuna se faz a transcrição do seguinte trecho da de-
núncia:

Ainda conforme o relatório RE CTA 003/2017, de 14.7.2017, o grupo Bolog-


nesi se comprometeu a aportar R$ 260 milhões em dinheiro na Multiner, condicio-
nado à emissão da licença de instalação de algumas usinas, bem como R$
55.000.000,00, em dinheiro, por meio de subscrição de novas ações emitidas pela
companhia (Multiner). Muito embora tenha feito esse último aporte de 55 milhões
de reais, o Grupo Bolognesi contraiu em seguida mútuo junto à Multiner no mon-
tante de R$ 59.217.000,00, não constando informações sobre a devolução desse va-
lor.
A respeito desses fatos, de acordo com o relatório da Protiviti (pág. 190 a
193), em 14/07/2014, foram realizados 3 aportes de capital pelo Grupo Bolognesi
no valor total de R$ 55.000.000,00 em cumprimento à obrigação decorrente do pri-
meiro aditivo ao contrato de reorganização da Multiner S.A.. Porém, na mesma
data, o mesmo valor foi emprestado para o Grupo Bolognesi (...)
Neste ponto, chama a atenção diversos outros fatos apontados no relatório da
Pro- tiviti. Contudo, para melhor compreensão do relatório é preciso compreender
a origem da empresa Mesa S.A.
Após a reorganização da Multiner S.A. em 2012, surgiram diversos impasses
com o Grupo Bolognesi, razão pela qual foi celebrado, em 14 de julho de 2014, o
primeiro aditivo ao contrato, onde ficaram estabelecidas 22 ações complexas. Den-
tre essas ações, consta o aporte em dinheiro de R$ 55.000.000,00 pela Bolognesi
em favor da Multiner S.A., objeto do aporte bumerangue já mencionado acima,
bem como a criação de uma companhia espelho, denominada Mesa Participações
S.A.. Essa empresa contaria com a participação do FIP Multiner com uma ação or-
dinária. Além disso o Grupo Bolognesi deveria incorporar nessa nova companhia a
totalidade das ações da Termelétrica Pernambuco III S.A., titular do direito de ex-
ploração da UTE Pernambuco III, e da Central Energia Palmeiras S.A. - CEPASA,
titular do direito de exploração da UTE Palmeiras de Goiás, convertendo-as em
suas subsidiárias integrais, o que de fato foi feito (relatório FGV fls. 83).
Aqui vale lembrar que, pelo contrato de reorganização de 2012 o Grupo Bo-
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lognesi tinha como obrigação inicial incorporar ao patrimônio da Multiner S.A. a

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totalidade das ações da Termelétrica Pernambuco III e Central Energética Palmei-
ras, o que não ocorreu. Como alternativa, foi então firmado o aditivo acima menci -
onado, por meio do qual o Grupo Bolognesi passou as mencionadas usinas para a
Mesa Participações S.A..
Compreendido o surgimento da Mesa Participações S.A., passamos a abor-
dar os trechos mais relevantes do relatório da Protiviti:

a) entre 2013 e 2017, a Bolognesi tomou da Multiner S.A. R$


409.949.924,50 em mútuos e pagou somente R$ 242.423.175,62. Considerando ju-
ros, estaria em aberto R$ 294.461.937,78, (...)

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b) Pagamento da Multiner S.A. para Arcadia Consultoria de Negócios,
de Camille Loyo Faria e Silverio Guedes, no valor de R$ 526.708,22. Vale lembrar
que Camille Loyo Fraia foi sócia e diretora do Grupo Multiner (...)

c) Pagamento da Multiner S.A. para BRD Assessoria e Participações


Ltda., dos acusados Ronaldo Bolognesi e Paulo Cesar Rutzen, no valor de R$
202.600,75 (...)

d) Pagamentos suspeitos da Central Energética Palmeiras, controlada


da Mesa S.A., no montante de R$ 430.874,44 em favor de Geldwert Consultoria e
Participações EIRELI ME e Serrano Leite Engenharia Ltda - ME. Além de não ter
sido encontradas notas fiscais correspondentes, a primeira empresa tem como acio-
nista o Sr. MARCOS RAFAEL RUTZEN, irmão acusado PAULO CESAR RUZ-
TEN. Já a empresa Serrano Leite Engenharia e Consultoria tem como acionista o Sr.
ALEXANDRE SANTOS DE MOURA LEITE, que foi diretor da Multiner S.A. (...)

e) Pagamentos suspeitos de R$ 341.000,00 da Central Energética Pal-


meiras, controlada da Mesa S.A., para Rutzen & Menke Advocacia. O escritório tem
como sócio o Sr. MARCOS RAFAEL RUTZEN, irmão do acusado PAULO CE-
SAR RUTZEN, e não foram encontradas notas fiscais referentes ao suposto serviço
prestado (...)

f) Pagamento da Central Energética Palmeiras e Termelétrica Pernam-


buco III, controladas da Mesa S.A., para Autodromo Energia S.A., controlada do
grupo Bolognesi Energia S.A., no total de R$ 53.495.765,74, sem nota fiscal ou a
formalização de contrato (...)

O relatório da auditoria forense da BDO também constatou transações finan-


ceiras suspeitas, na mesma linha do relatório da Protiviti. Trazemos os fatos mais
relevantes:

a) A BDO constatou o pagamento de R$ 2.469.356,00 em favor da Ar-


cadia Consultoria de Negócios Ltda., que tinha como sócia Camille Loyo Faria, que
foi diretora executiva da Multiner S.A. (...)
b) Pagamentos em favor do acusado PAULO CESAR RUTZEN, no
valor de R$ 221.057,00. Desse total, R$ 47.000,00 não foram identificados docu-
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mentos de suporte (...)

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Por sua vez, o relatório de auditora da KROLL constatou que até setembro
de 2017 a Bolognesi devia para a Multiner S.A. R$ 312.989.997,00. Também apu-
rou a Usina Pernambuco III realizou transferências para empresas coligadas no pe-
ríodo de 2012 a 2016, e que a Bolognesi foi a maior favorecida, recebendo R$
582,7 milhões em mútuos (...)

Assim, a denúncia conclui que os fatos acima narrados demonstram claramente


que a reorganização da empresa MULTINER, com a transferência de controle para o Grupo
Bolognesi, tinha por finalidade sangrar mais ainda os cofres da empresa, e não recuperá-la, o

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que é ainda mais ressaltado ao analisar a atual situação crítica da empresa.

Ademais, verifica-se que sequer houve avaliação dos ativos que deveriam ser
aportados à MULTINER pelo Grupo Bolognesi, como parte da negociação referente à reestru-
turação.

Ainda, a PREVIC apontou inconsistências no plano de recuperação da compa-


nhia, o qual contava com receitas de usinas que haviam perdido a outorga, que tinham contra-
tos de PPA negociados, o que evidencia uma falha da avaliação realizada pela diretoria da
FUNCEF.

Mesmo diante dos inúmeros problemas, a proposta de reestruturação societária


e financeira da MULTINER foi aprovada pela Diretoria Executiva da FUNCEF, conforme a
Ata nº 1063, de 06/03/2012.

Assim, a denúncia conclui que houve a prática de gestão fraudulenta da FUN-


CEF por seus diretores CARLOS CASER (Diretor-Presidente), CARLOS BORGES (Diretor
de Participações), HUMBERTO GRAULT (Gerente da GEPAR, e Diretor de Participações em
exercício), em concurso com JOSÉ AUGUSTO FERREIRA DOS SANTOS (antigo controla-
dor da MULTINER S.A), RONALDO MARCELIO BOLOGNESI e PAULO CESAR RUT-
ZEN (representantes do Grupo Bolognesi), que culminaram com o aporte de mais R$ 84,7 mi-
lhões pela FUNCEF no FIP MULTINER.

Ademais, RONALDO MARCELIO BOLOGNESI e PAULO CESAR RUT-


ZEN, representantes do Grupo Bolognesi, também foram denunciados pela prática do delito
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previsto no art. 171 do Código Penal (estelionato), em razão do artifício utilizado para desviar

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do montante de R$ 55 milhões da empresa MULTINER por meio de empréstimo tomado da
empresa, na mesma data em que o Grupo Bolognesi aportara nela aquele mesmo valor (“apor-
te bumerangue”).

Como resultado de todas as condutas ilícitas praticadas, os investimentos reali-


zados pela FUNCEF no FIP MULTINER resultaram em perda total, tendo em vista que um
novo laudo de avaliação, elaborado para a data-base de 31/12/2017 por um especialista inde-
pendente, apontou que as ações da MULTINER adquiridas pelo FIP apresentam valor justo

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menor do que zero. Assim, a FUNCEF perdeu 100% do valor investido no FIP MULTINER.

Atualizado pela taxa Selic para 31/07/2019, o prejuízo da FUNCEF com o in-
vestimento no FIP MULTINER soma R$ 424.943.877,87.

Da análise dos fatos relatados, verifica-se que, não obstante todos os diretores
da FUNCEF que foram denunciados tenham efetivamente concorrido para a prática dos
delitos, os membros da Diretoria de Participações Societárias e Imobiliárias tiveram um papel
de destaque na condução do processo de investimento no âmbito da FUNCEF.
Sobre este ponto, importa transcrever o seguinte trecho do trabalho de auditoria
realizado na FUNCEF (RA GEAUD 003/16 #30):

“A partir de OUT 09 o processo de prospecção e seleção de investi-


mentos estruturados e de participação societária passou a ser conduzido pela
Diretoria de Investimentos - DIRIN, sendo normatizado, em DEZ 14 pela
MEG 041 01.
Porém, até SET 09 esse processo era conduzido pela própria Diretoria de
Participações Societárias e Imobiliárias - DIPAR, quando a Presidência -
PRESI propôs a redefinição das atribuições das duas diretorias, de forma
que o controle e análises e propostas de investimento fossem desenvolvidos
exclusivamente pela DIRIN, ficando a cargo da DIPAR as análises comple-
mentares e a gestão e acompanhamento técnico do ativo, conforme VO
PRESI 021/09.
A Diretoria Executiva aprovou o referido Voto em 06 OUT 09 (Ata
n.° 950), conforme abaixo:
[...]
A partir de então, as propostas e projetos para realização de investimentos
estruturados e de participação societária ingressam via DIRIN/CODEN para
análise preliminar, e só depois do visto e assinatura dos documentos consti-
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tutivos o ativo é transferido formalmente à DIPAR/GEPAR, que será res-

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ponsável pela gestão.
O processo de prospecção e seleção do FIP Multiner ocorreu antes da
redefinição das atribuições da DIPAR e da DIRIN. Sendo assim, todo o
processo foi conduzido pela DIPAR, o que vai de encontro ao princípio
de segregação de função, já que todas as fases do processo ficaram con-
centradas em uma única Diretoria.”

Acerca das condutas de pessoas vinculadas à DIPAR, destaca-se o fato de que


CARLOS ROSA, Gerente da GEPAR, foi responsável pela escolha da CG4 para elaborar o
laudo de avaliação da empresa MULTINER. Ademais, ele subscreveu, junto com ANTONIO

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AFONSO DE OLIVEIRA NETO, analista da FUNCEF, o parecer PA GEPAR 009/09, de
29/09/2009, favorável ao investimento, adotando integralmente as premissas e análises
contidas no laudo da CG4, com todas as suas irregularidades.
Posteriormente, no contexto do processo de reestruturação da MULTINER, a
Diretoria Executiva baseou-se no Voto DIPAR nº 023/2012, de 01/03/2012, elaborado por
CARLOS BORGES, e no parecer PA GEPAR 008/12, de 01/03/2012, elaborado por
EVALDO DE REZENDE FILHO, Coordenador Substituto Eventual do COAFI, e
HUMBERTO GRAULT, Gerente da GEPAR. E conforme já relatado, embora estes dois
documentos tenham mencionado como anexo o PA GEJUR 034/12, descobriu-se que este
parecer foi elaborado posteriormente aos documentos mencionados, de modo que a denúncia
ressalta que a anexação do parecer da GEJUR foi um artifício ardiloso visando conseguir a
aprovação do investimento, embora os argumentos da GEJUR tenham sido desconsiderados.
Assim, embora todos os diretores denunciados tenham concorrido diretamente
para prejuízos causados pela FUNCEF ao acolher o posicionamento da Diretoria de
Participações, considerando o contexto relatado, verifica-se que os membros da citada
diretoria tiveram, neste investimento, uma posição de protagonismo.
Ressalta-se que todas as ilicitudes apontadas já foram amplamente detalhadas
na denúncia que inaugurou a ação penal nº 1030054-82.2019.4.01.3400, cuja cópia segue
anexa a esta petição.

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4. RESPONSABILIDADE CIVIL DA CEF EM RELAÇÃO AOS ATOS DE GESTÃO

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TEMERÁRIA/FRAUDULENTA PRATICADOS EM DESFAVOR DA FUNCEF

A análise dos fatos relatados revela que nos casos já denunciados na Operação
Greenfield, em regra os investimentos ruinosos foram conduzidos pela Diretoria de
Investimentos, pela Diretoria de Participações Societárias e Imobiliárias, e/ou pelo Diretor-
Presidente. Salienta-se que estas são exatamente as áreas cujos gestores são indicados pela

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patrocinadora (CEF). Sobre este ponto, importa transcrever o seguinte trecho do Estatuto da
FUNCEF acerca da composição da Diretoria Executiva, suas áreas de atuação e a forma como
se dá a escolha dos diretores:

SEÇÃO 1
DA COMPOSIÇÃO DA DIRETORIA EXECUTIVA E ÁREAS DE ATUAÇÃO
Art. 47. A Diretoria Executiva será composta por seis membros, nomeados pelo
Conselho Deliberativo, observado o disposto no artigo 48 deste Estatuto, sendo:
I – um Diretor-Presidente;
II – um Diretor de Planejamento e Controladoria;
III – um Diretor de Investimentos;
IV – um Diretor de Participações Societárias e Imobiliárias;
V – um Diretor de Administração;
VI – um Diretor de Benefícios.
§1.º Sem prejuízo das atribuições fixadas nos artigos 49 a 51 deste Estatuto, cada
diretoria terá as seguintes áreas de atuação, observado o disposto no parágrafo
segundo deste artigo:
a) à Presidência incumbe o exercício das competências estabelecidas no artigo
50 deste Estatuto, abrangendo a representação da FUNCEF, a coordenação geral da
Diretoria, o relacionamento institucional com órgãos de administração,
fiscalização, controle e assessoramento, a coordenação do planejamento
estratégico, a assessoria jurídica e a comunicação institucional;
b) à Diretoria de Administração compete a gestão da estrutura administrativa;
c) à Diretoria de Benefícios incumbe a gestão dos Planos de Benefícios;
d) a Diretoria de Planejamento e Controladoria é responsável pela atividade de
planejamento e controle;

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e) a Diretoria de Investimentos responde pela gestão do Programa de

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Investimentos;
f) à Diretoria de Participações Societárias e Imobiliárias compete a gestão dos
ativos objetos de investimentos que compõem ou venham compor participações
societárias relevantes, e a carteira imobiliária.
§2º - O Conselho Deliberativo, mediante proposta apresentada pela Diretoria
Executiva, poderá reestruturar as atribuições de cada Diretoria, remanejando
funções ou criando outras.
Art. 48. Os membros da Diretoria Executivas serão nomeados pelo Conselho
Deliberativo, de acordo com o seguinte critério:
I – para os cargos de Diretor-Presidente, Diretor de Investimentos e Diretor

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de Participações Societárias e Imobiliárias, o Conselho Deliberativo
nomeará pessoas que sejam indicadas pela Patrocinadora CAIXA;
II – para os cargos de Diretor de Administração, Diretor de Benefícios e Diretor
de Planejamento e Controladoria, o Conselho Deliberativo nomeará os
candidatos escolhidos por meio do processo eleitoral disposto no artigo 55 deste
Estatuto.

Acerca do processo de seleção de investimentos no âmbito da FUNCEF,


oportuna se faz a transcrição do seguinte trecho do RA GEAUD 003/16 #30, que tratou dos
fatos investigados no FIP MULTINER:

“A partir de OUT 09 o processo de prospecção e seleção de investi-


mentos estruturados e de participação societária passou a ser conduzido pela
Diretoria de Investimentos - DIRIN, sendo normatizado, em DEZ 14 pela
MEG 041 01.
Porém, até SET 09 esse processo era conduzido pela própria Diretoria de
Participações Societárias e Imobiliárias - DIPAR, quando a Presidência -
PRESI propôs a redefinição das atribuições das duas diretorias, de forma
que o controle e análises e propostas de investimento fossem desenvolvidos
exclusivamente pela DIRIN, ficando a cargo da DIPAR as análises comple-
mentares e a gestão e acompanhamento técnico do ativo, conforme VO
PRESI 021/09.
A Diretoria Executiva aprovou o referido Voto em 06 OUT 09 (Ata
n.° 950), conforme abaixo:
[...]
A partir de então, as propostas e projetos para realização de investimentos
estruturados e de participação societária ingressam via DIRIN/CODEN para
análise preliminar, e só depois do visto e assinatura dos documentos consti-
tutivos o ativo é transferido formalmente à DIPAR/GEPAR, que será res-
ponsável pela gestão.

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Assim, verifica-se que a condução do processo de seleção de investimentos,

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antes de outubro de 2009, era realizada pela Diretoria de Participações Societárias e
Imobiliárias. E após esta data, passou a depender primeiramente da análise preliminar da
Diretoria de Investimentos. Salienta-se que são duas áreas cuja direção é definida por escolha
da CEF.
Nos casos já denunciados no bojo da Operação Greenfield foi possível verificar
que, em regra, os diretores que foram responsáveis pela condução do investimento até sua
realização no âmbito da FUNCEF foram aqueles que haviam sido indicados pela

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patrocinadora da Fundação, a CAIXA ECONÔMICA FEDERAL. Com efeito, conforme foi
apurado, as indicações da patrocinadora buscavam atender o interesse de grupos políticos, e
levavam em conta finalidades estranhas aos interesses dos beneficiários da FUNCEF.
É revelador, nesse sentido, o seguinte trecho da colaboração de ANTONIO
PALOCCI FILHO, que, não obstante refira-se aos fatos que envolveram o FIP SONDAS,
ilustram as influências políticas que permeavam diversas decisões de investimento realizadas
pelos Fundos de Pensão, dentre os quais a FUNCEF:

QUE o ex-presidente Lula já interferia nos fundos desde a década de 1990,


elegeu um representante na Previ; QUE o presidente foi procurador por Emilio
Odebrecht para atuar no investimento na BRASKEM; QUE ele pede para interferir e
chama o oitivado; QUE SÉRGIO ROSA foi a primeira pessoa que ele soube que atuou
por motivo político; QUE no início do governo Lula o governo ocupou os fundos;
QUE como ministro atuou para nomear SÉRGIO ROSA na Previ, WAGNER
PINHEIRO na Petros e GUILHERME LACERDA na FUNCEF; QUE eram de
relacionamento de Gushiken, seu e Dirceu; QUE o quarto fundo importante era o
POSTALIS, controlado pelo PMDB; QUE a partir da primeira vez que o PMDB
controlou o ministério das comunicações, pelo então Ministro Eunício Oliveira foi
responsável por lotear a POSTALIS; QUE o ministério ligado ao fundo indicava o
presidente dos fundos conforme a pasta; QUE no início a motivação não era obter
vantagens indevidas; QUE os gestores não foram chamados para isso; QUE havia duas
questões fundamentais que os presidentes atuaram fora da legalidade, atuando por
determinações políticas desrespeitando critérios dos fundos; QUE o presidente
Lula expedia determinações para colocar recursos em empreendimentos de
interesse do governo; QUE nem sempre o problema era vantagem indevida, mas
apenas para atender vantagem política; QUE em alguns casos os gestores se
envolviam em negócios para vantagens; QUE sabia que Wagner Pinheiro recebia
vantagens pessoais; QUE Guilherme Lacerda tinha atuação mais ampla em
receber ilícitos; QUE em 2004 começaram a pedir vantagens ilícitas; QUE os
tesoureiros que atuaram foram Delúbio, Vaccari e Paulo Ferreira, esse último em
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período curto; QUE numa determinada rodada de leilão da ANP, a Petrobrás pede

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suspensão e fala da descoberta do pré-sal; QUE o pré-sal colocou todos os âmbitos do
governo em torno dessas riquezas; QUE no governo Lula o pré-sal foi enxergado
como um passaporte para o futuro, que foi um “bilhete premiado” no final do governo;
QUE o clima era de delírio político; QUE isso dá ao ex-presidente um momento de
atuação raro, descuidando da parte jurídica; QUE ele passa a atuar diretamente no
pedido de vantagens indevidas; QUE em outros casos de atuação direta do ex-
presidente Lula, como dos caças, com atuação do presidente francês, receberam
vantagens indevidas Lula e o PT, ou no caso de Belo Monte; QUE antes do FIP
Sondas, o presidente convoca reunião com Gabriele, o oitivado e Dilma, comunicando
que o FIP deve garantir o “nosso futuro”, ou seja, futuro do PT; QUE essa reunião
ocorreu entre o fim de 2009 e começo de 2010 na biblioteca no Palácio do Alvorada, à
noite; QUE foi uma reunião curta e que os demais presentes ficaram perplexos com a

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conduta do presidente Lula; QUE ele disse explicitamente que queria que a Sondas
pagasse a candidatura de Dilma; QUE no governo Dilma a influência sobre os
fundos continuou; QUE os gestores dos fundos procuravam expondo
preocupação sobre a necessidade de avaliar devidamente os projetos; QUE as
reuniões foram registadas na agenda do Palácio do Planalto; QUE Sérgio Rosa resistia
mais, QUE Guilherme Lacerda resistia quase nada; QUE Wagner Pinheiro resistia
parcialmente; QUE normalmente havia uma pessoa chamada Clara Levin Ant era
assessora e acompanhava as reuniões, fazendo registros bastante completos dessas
reuniões; QUE ela tinha um iPad com teclado anotando os eventos das reuniões e os
encaminhamentos; QUE alertado sobre os perigos, o presidente não via irregularidade
e afirmava que ele que era o presidente; QUE os presidentes dos fundos eram
cobrados a investir sem analisar; QUE a primeira reunião com os gestores dos
fundos o oitivado não estava presente, mas que eles procuram o oitivado para
expressar preocupações; QUE os presidentes dos fundos relataram que realizaram
reuniões com o presidente Lula no primeiro semestre de 2010; QUE Sérgio Rosa,
depois substituído por Ricardo Flores, Wagner Pinheiro (até 2010), procuraram o
oitivado; QUE Ricardo Flores aceitava propina; QUE anteriormente constou em
depoimento à polícia ele ganhou um apartamento em Recife e outro em Miami; QUE
esclarece que tem conhecimento que ganhou o apartamento de Recife e ouviu falar
que ganhou o apartamento em Miami; QUE a pessoa que fez a compra para ele, André
Gustavo, da empresa Arcos Marketing e Comunicações, que recebeu dinheiro e fez a
compra para o Ricardo Flores; QUE o de Miami foi comentário de mercado, que não
pode dar segurança; QUE a empresa OAS pagou ele por outro empreendimento na
Previ; QUE era costumeiro receber vantagens pelo Ricardo Flores, mas que não sabe
sobre o caso FIP Sondas; QUE Wagner Pinheiro recebeu vantagens pelo através do
Gushiken; QUE acredita que Joesley Batista fez pagamentos a ele por outros casos;
QUE Guilherme Lacerda pedia vantagens para empresas ligadas ao FIP Sondas e
outras; QUE recebeu por dentro, em doação oficial, e por fora; QUE Sérgio Rosa abriu
uma consultoria e recebeu recursos de diversas empresas do pré-sal, mas não sabe
dizer se tem relação com isso; QUE eles sabiam que no empreendimento haveria
ilícito; QUE os gestores do fundo sabiam dos fatos de corrupção narrados na Lava-
Jato; QUE precisavam atender o partido para se manter nos cargos que lhes
rendiam vantagens em diversos empreendimentos; QUE no segundo aporte João
Ferraz procura o oitivado para que se viabilize novos investimentos; QUE pede para
que faça pressão nos fundos para esse novo aporte; QUE João Ferraz só tinha acesso
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ao Petros; QUE o oitivado já estava fora do governo e o encaminhou a Guido

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Mantega; QUE acredita que esse encontro foi proveitoso para ele; QUE João Ferraz
encontra o já ex-presidente Lula; QUE o próprio presidente Lula afirmou que João
Ferraz o procurou; QUE quando João Ferraz foi pego pelas propinas, o ex-presidente
Lula pede para assumir a responsabilidade por levar o Ferraz em 2014; QUE o
oitivado não levou o Ferraz; QUE João Ferraz o procurou em 2012 ou 2013; QUE
soube que Petros e Funcef voltaram a investir; QUE acha que Previ não entrou
novamente no investimento; QUE a Previ não quis investir desde o começo; QUE isso
foi relatado por João Ferraz; QUE Dan Conrado, presidente da Previ, resistiu; QUE a
presidente Dilma se encontrou com os presidentes dos fundos para forçar o
investimento; QUE os presidentes dos fundos relataram essa reunião; QUE
normalmente as reuniões com a presidente Dilma era bastante povoada com diversas
pessoas do governo; QUE os ex-presidentes Lula e Dilma não eram muito cuidadosos;

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QUE apesar de tudo, os ex-presidentes Lula e Dilma tinha ciência de que os
investimentos dependiam de uma análise técnica; QUE os ex-presidentes Lula e Dilma
sabiam que o investimento envolvia riscos e que foram ignorados; QUE os fundos de
pensão são de titularidade dos trabalhadores; QUE os ex-presidentes Lula e Dilma não
se comoviam; QUE o investimento era grandioso, buscava-se construir 40 sondas e
que no mundo existiam o total de 100 sondas; QUE havia vários problemas: falta de
estudo-técnico, o projeto era mirabolante, havia motivação política e necessidade de
arrecadar propinas; QUE os contratos da Sete gerariam 25 bilhões que poderiam ser
foco para propinas para o partido; QUE o montante representaria o financiamento de 4
ou 5 campanhas para presidente; QUE o dinheiro dos fundos é muito importante para
complementar outras formas de financiamento; QUE quando a Previ ou o BNDES
resolviam investir em algo, os outros costumavam ir atrás; QUE Petrobras abre
licitação para estruturar a Sete, que foi ganho pelo Santander por preço simbólico;
QUE foi o Santander propôs o FIP para a CEF gerenciar; QUE há fatos estranhos na
estruturação pela equipe; QUE uma pessoa do Santander, Luis Reis, um tempo depois
juntamente com outros diretores formara a Lakeshore Partners, comprando ações da
Sete; QUE essa empresa foi contratada pela Sete Brasil para estruturação em valores
de R$ 40 mi; QUE o dinheiro não cobrado na estruturação pelo Santander foi cobrado
pela Lakeshore; QUE não sabe se houve envolvimento do Santander com essa
manobra; QUE João Ferraz tentou aproximar o oitivado de Luis Reis demonstrando
claramente que os dois tinham uma relação especial, fora da agenda normal da
empresa, ou seja, interesses fora da Sete; QUE lhe aparentou que o interesse era fora
de uma relação comercial normal; (...)

Assim, em razão de influências políticas, foram escolhidas pela CEF pessoas


para exercer cargos-chave na FUNCEF, visando a permitir a instrumentalização deste Fundo
de Pensão na escolha de investimentos que atendiam a interesses de grupos políticos
dominantes, e que teriam sido rechaçados caso tivessem sido escolhidos diretores realmente
diligentes e preocupados com o patrimônio da Fundação. Verifica-se que os enormes prejuízos
sofridos pela FUNCEF nos casos apurados na Operação Greenfield resultaram diretamente

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das escolhas da patrocinadora. Nesse contexto, a situação relatada demonstra culpa in

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eligendo da patrocinadora referente à má escolha dos gestores, de modo que deve responder
com seu próprio patrimônio pelo prejuízo que deram causa à FUNCEF.
Nesse sentido, ressalta-se que o relato dos acontecimentos que originaram
denúncias na Operação Greenfield, resumidos ao longo desta petição, não deixam dúvidas de
que houve, por parte da CEF, má seleção dos dirigentes (bem como influência indevida sobre
estes) que comandaram o fundo por longos anos e promoveram os investimentos temerários e
fraudulentos que causaram imensos prejuízos à FUNCEF e seus beneficiários.

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As denúncias cujo teor foi resumido ao longo da presente petição
apresentaram, para cada investimento, os seguintes prejuízos causados à FUNCEF:

CASO PREJUÍZO APURADO


FIP CEVIX R$ 402.000.000,00 (quatrocentos e dois milhões
de reais) - calculado no laudo pericial nº
317/2017, com base na data 13/07/2015.
FIP RG ESTALEIROS R$ 132.875.000,00 (cento e trinta e dois milhões,
oitocentos e setenta e cinco mil reais) – valor
nominal.
FIP SONDAS R$ 2.394.667.914,66 (dois bilhões, trezentos e
noventa e quatro milhões, seiscentos e sessenta e
sete mil, novecentos e catorze reais e sessenta e
seis centavos) – valor atualizado até 31/10/2019.
FIP OAS EMPREENDIMENTOS R$ 200.000.000,00 (duzentos milhões de reais) –
valor nominal.
SALAS ED. OAB R$ 636.000,00 (seiscentos e trinta e seis mil reais)
– valor nominal.
FIP BRASIL PETRÓLEO 1 R$ 102.422.000,00 (cento e dois milhões,
quatrocentos e vinte dois mil reais) – valor
atualizado até 30/04/2020.
FIP OPERAÇÕES INDUSTRIAIS R$ 47.916.666,67 (quarenta e sete milhões,
novecentos e dezesseis mil, seiscentos e sessenta
e seis reais e sessenta e sete centavos) – valor
nominal.
FIP GLOBAL EQUITY R$ 140.000.000,00 (cento e quarenta milhões de
reais) – valor calculado pela PREVIC referente ao
ano de 2016.

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FIP MULTINER R$ 424.943.877,87 (quatrocentos e vinte quatro

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milhões, novecentos e quarenta e três mil,
oitocentos e setenta e sete reais e oitenta e sete
centavos) – valor atualizado pela taxa Selic para
31/07/2019.

Por todo o exposto, resta clara a responsabilidade da CEF em relação aos danos
causados à FUNCEF, por ação ou por omissão, de modo que deve ser condenada a reparar
integralmente os graves danos causados aos participantes e beneficiários da Fundação pelas
condutas denunciadas no bojo da Operação Greenfield.

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5. PEDIDO DE ANTECIPAÇÃO DE TUTELA

Por tudo o que foi exposto, é possível perceber que a gravidade da situação
ora narrada demanda providências jurisdicionais imediatas, notadamente porque os prejuízos
causados por conta da má escolha de dirigentes (e influência indevida sobre estes) indicados
pela instituição financeira continuam acarretando prejuízos a todos os participantes e
beneficiários da FUNCEF e, em especial, aos aposentados, cujas aposentadorias vêm
sofrendo, mês a mês, descontos para cobrir os enormes rombos da FUNCEF.

O art. 12 da Lei da Ação Civil Pública (Lei 7.347/85) prevê a possibilidade


de concessão de mandado liminar, nos casos de risco de dano irreparável aos direitos
tutelados. Referido dispositivo tem natureza tanto cautelar, protetivo da eficácia da jurisdição,
quanto de antecipação da tutela.

Por sua vez, o art. 300 do CPC alberga também a tutela antecipada,
descrevendo que “a tutela de urgência será concedida quando houver elementos que
evidenciem a probabilidade do direito e o perigo de dano ou o risco ao resultado útil do
processo”.

Há pressupostos básicos que legitimam a tutela antecipatória que,


indissociados da reversibilidade do provimento, traduzem-se na verossimilhança da alegação
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(fumus boni iuris) e fundado receio de dano irreparável ou de difícil reparação (periculum in

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mora).

Os fatos descritos nesta exordial, bem como os demais documentos a que se


refere a presente demanda, evidenciam a verossimilhança dos fundamentos fáticos e jurídicos
apresentados (fumus boni iuris) e o fundado receio de dano irreparável ou de difícil reparação
decorre do fato de que os participantes da FUNCEF (em especial os aposentados, parcela mais
vulnerável e que mais necessitam e dependem da complementação desses recursos) vêm
arcando, de forma sucessiva, com o equacionamento do déficit bilionário da EFPC, cuja

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responsabilidade se atribui, nessa peça, essencialmente aos gestores pela instituição financeira
escolhidos. Muitas dessas vítimas dos delitos, em razão da avançada idade, terminarão por
falecer sem poder ver a reparação dos danos sofridos pela má gestão da FUNCEF, sofrendo,
antes disso, com os incessantes descontos sobre suas aposentadorias.

Tal situação demonstra a gravidade necessária para o deferimento de tutela


antecipada, especialmente em razão de a parcela mais vulnerável dos participantes, que
contribuíram historicamente para o crescimento da atual instituição financeira, estarem
compelidos a ressarcir prejuízos ocorridos na FUNCEF, enquanto o mesmo banco público,
responsável pela má escolha dos dirigentes da patrocinadora na FUNCEF, vem registrando
lucros líquidos crescentes. De fato, segundo informações prestadas pela própria CEF, esse
banco público auferiu, no ano de 2021, o lucro líquido de R$ 17.300.000.000,00 (dezessete
bilhões, trezentos milhões de reais), o que, por si só, já seria suficiente para cobrir as parcelas
de equacionamento cobradas dos aposentados e participantes da FUNCEF que são vítimas dos
crimes apontados nesta ação.6

Desse modo, o MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL requer que seja


antecipada a tutela do feito, para compelir a requerida (Caixa Econômica Federal) a
custear, além da parcela devida pela instituição financeira nos já aprovados planos de
equacionamento, também as contribuições extraordinárias de equacionamento a serem

6 Cf. “Caixa tem lucro líquido de R$ 17,3 bilhões em 2021”, disponível em: <https://agenciabrasil.ebc.com.-
br/economia/noticia/2022-02/caixa-tem-lucro-liquido-de-r-173-bilhoes-em-2021>. Data de acesso:
19.6.2022.
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cobradas dos participantes da FUNCEF, até o limite dos valores englobados pela

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presente ação civil pública.

6. AUDIÊNCIA DE CONCILIAÇÃO

O presente órgão ministerial informa, desde já, que está disposto a realizar
audiência de conciliação com a requerida, com a participação da FUNCEF e demais entidades

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que venham a integrar o polo ativo da demanda, nos termos dos artigos 319, VII, e 334 do
Código de Processo Civil.

7. PEDIDOS E REQUERIMENTOS

Por estas razões, diante dos fundamentos de fato e de direito ora apresentados,
o MPF requer:
(a) A condenação da Caixa Econômica Federal (CEF – na qualidade de
patrocinadora da FUNCEF) ao ressarcimento das perdas sofridas pela
FUNCEF pelos delitos denunciados no bojo da Operação Greenfield descritos
nesta ação, devendo os valores devidos pela CEF à FUNCEF serem destinados
ao abatimento das contribuições extraordinárias que estão sendo cobradas pela
FUNCEF de seus participantes/beneficiários/aposentados, principais vítimas
dos delitos praticados aqui descritos;
(b) Em sede de antecipação de tutela, seja compelida a requerida Caixa
Econômica Federal a custear as todas contribuições extraordinárias atualmente
cobradas dos participantes da FUNCEF, até o limite dos valores alcançados
pela presente ação civil pública;
(c) A designação de audiência de conciliação, com a presença do autor,
da demandada CEF, da FUNCEF e de demais entidades que venham a integrar
o polo ativo da demanda;
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(d) A citação da ré, na pessoa de seu representante legal, no endereço

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indicado preambularmente, para contestar os termos da presente ação civil
pública, prosseguindo-se nos ulteriores de direito até a sentença final que
acolher os pedidos formulados;
(e) A intimação da FUNCEF (Fundação dos Economiários Federais) e da
ANBERR (Associação Nacional dos Beneficiários Reg e Replan), que são
assistentes de acusação do MPF nos processos criminais da Operação
Greenfield, para que manifestem interesse em ingresso no polo ativo do

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processo civil a ser inaugurado a partir da presente exordial, podendo, se for o
caso, aditar a ação, a fim de fazer incluir entre as causas de pedir outros fatos
ilícitos e criminosos não descritos na presente petição, aumentando, assim, o
escopo de ressarcimento aqui veiculado.

Este Órgão Ministerial protesta provar o alegado por meio das cópias das
denúncias que inauguraram as ações penais de número 1020180-73.2019.4.01.3400 (FIP
CEVIX), 1019222-24.2018.4.01.3400 (RG ESTALEIROS), 1003326-67.2020.4.01.3400 e
1003120-53.2020.4.01.3400 (FIP SONDAS), 1058284-03.2020.4.01.3400 (FIP OAS
EMPREENDIMENTOS), 1023258-12.2018.4.01.3400 (SALAS ED. OAB), 1034846-
45.2020.4.01.3400 (FIP BRASIL PETRÓLEO 1), 1029333-96.2020.4.01.3400 (FIP
OPERAÇÕES INDUSTRIAIS), 1029168-83.2019.4.01.3400 (FIP GLOBAL EQUITY) e
1030054-82.2019.4.01.3400 (FIP MULTINER), bem como por todas as provas produzidas
nesses processos criminais, cujo compartilhamento será oportunamente requerido ao juízo
criminal. Ademais, protesta provar o alegado por todos os meios de prova em Direito
admitidos, bem como pela produção de novas provas periciais e testemunhais.
Para fins de transparência, registre-se que os prejuízos criminosos descritos na
presente ação, se atualizados até a presente data pela SELIC, alcançam, grosso modo, cifra em
torno de R$ 5.000.000.000,00 (cinco bilhões de reais), relembrando-se que não estão
incluídos na presente ação os casos em já houve acordos de reparação do MPF em favor da
FUNCEF. Porém, considerando que novos casos (investimentos ilícitos) podem vir a ser

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inseridos na demanda por obra de aditamento da ação por parte da FUNCEF, da ANBERR e

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de outros representantes das vítimas, bem como considerando o tempo normal de duração do
processo civil, deve o valor acima mencionado ser calculado de forma precisa no momento da
eventual sentença condenatória, com a colaboração dos atores atuantes no processo.
Por conta do quanto acima resta justificado, atribui-se à presente causa o valor
de R$ 5.000.000.000,00 (cinco bilhões de reais).
Eis os termos em que pede deferimento.

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Brasília, data da assinatura eletrônica.

ANSELMO HENRIQUE CORDEIRO LOPES


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