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TODOS

ENVOLVIDOS
NA MISSÃO
A L E J A N D R O BUL L ÓN

TODOS
ENVOLVIDOS
NA MISSÃO
um c h a m a d o p a r a s e r v i r

Tradução
Delmar Freire

Casa Publicadora Brasileira


Tatuí, SP
Título original em espanhol:
T o d o MiEMBRO INVOLUCRADO

Copyright © da edição em espanhol: Review and Herald, Silver Spring, EUA.


Direitos internacionais reservados.

Direitos de tradução e publicação em


língua portuguesa reservados à
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1a edição: 21 ,4 9 mil
2017

Coordenação Editorial: Diogo Cavalcanti


Editoração: Rubens S. Lessa e Guilherme Silva
Revisão: Jessica Manfrim e Luciana Gruber
Projeto Gráfico: Mark Bond
Capa: Mark Bond
Imagem da Capa: iStockPhoto.com

IMPRESSO NO BRASIL / Printed in Brazil

Os textos bíblicos citados neste livro foram extraídos da versão Almeida Revista e Atualizada, 2a edição,
salvo outra indicação.

Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução total ou parcial, por


^ 7
EDITORA AFILIADA
qualquer meio, sem prévia autorização escrita do autor e da Editora.

Tipologia: Minion Pro 10/14 — 16664/37121


| SUMÁRIO |

Prefácio................................................................................................................................. 5

Prefácio à Edição em Língua Portuguesa....................................................................... 7

Introdução............................................................................................................................9

1. Todos Envolvidos na M issão................................................................................. 11

2. Uma Necessidade Espiritual.................................................................................23

3. O Discipulado......................................................................................................... 30

4 . Como se Forma um Discípulo - Parte I ............................................................40

5 . Como se Forma um Discípulo - Parte II .......................................................... 52

6 . O Valor de uma Igreja Receptiva......................................................................... 61

7 O Discípulo e a B íb lia........................................................................................... 68

8 . O Discípulo e a Oração...........................................................................................76

9. A Espera e a M issão................................................................................................83

10 . Discipulando Líderes Espirituais ...................................................................90

11. O Preço do Discipulado...................................................................................... 98

12 . O Discípulo e a Colheita Final 106


4 |
I 5

| PREFÁCIO |
Nossa obra evangelizadora e missionária em favor dos outros é incremen­
tada à medida que nos aproximamos da segunda vinda de Cristo. O evange-
lismo integral pode adotar muitas formas, mas normalmente culmina com
algum tipo de pequeno grupo ou reunião pública em que a Bíblia se torna o
foco central, de maneira que as pessoas possam ser impressionadas com a ver­
dade eterna. O Espírito Santo pode trabalhar de maneiras maravilhosas quando
a Palavra de Deus é apresentada de modo claro, conciso e atraente. A oportuna
e poderosa história da salvação é profunda e abençoada pelo Céu. A revela­
ção da verdade bíblica requer uma ocupação cada vez maior do nosso tempo,
o que devemos fazer de todas as maneiras possíveis. Onde seja possível reali­
zar reuniões públicas, essas devem ser feitas com a utilização de todos os recur­
sos disponíveis. Onde os pequenos grupos tenham melhor condição para tocar
o coração de uma pessoa, que eles sejam mantidos. Exaltemos Cristo, Sua jus­
tiça e Seu serviço no santuário. Sejamos fiéis a Deus, à Sua Palavra e ao Espírito
de Profecia. Participemos ativamente no programa Todos Envolvidos na Missão.
O segredo de Todos Envolvidos na Missão inclui visitas à casa das pes­
soas, estudos bíblicos nos lares, programas intensos de oração, divulgação dos
ministérios de vida saudável, distribuição de literatura adventista, participa­
ção dos jovens, serviços comunitários, atividades da Adra, cânticos de louvor
ao Senhor, evangelismo pessoal, evangelismo público e muitas outras formas
de evangelização. Essas atividades envolvem todos os que estão dispostos, pois
o Senhor pediu a todos que participassem da proclamação do evangelho e da
mensagem dos três anjos, como vemos em Mateus 28:19 e 20: “Ide, portanto,
fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e
do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho orde­
nado. E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século"
Que privilégio é fazer algo por Jesus! Você não precisa ser um pastor para
falar aos outros sobre o grande plano da redenção. A cada membro da igreja
se requer que anuncie a mensagem final de Deus para o mundo - a mensagem
de que Jesus virá em breve. Isso pode ser feito de maneira pessoal ou pública!
Todos Envolvidos na Missão inclui homens, mulheres, jovens e crianças na
proclamação da verdade de Deus. Os membros da igreja se unirão aos pas­
tores e líderes. Ellen White disse: “A obra de Deus na Terra jamais poderá ser
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terminada a não ser que os homens e as mulheres que constituem a igreja con­
corram ao trabalho e unam seus esforços aos dos pastores e oficiais da igreja”
(Testemunhos Para a Igreja, v. 9, p. 116). Todos Envolvidos na Missão significa
fazer algo por Jesus, falar por Ele, não importa se você é voluntário, pastor,
homem, mulher, jovem ou criança
Que Deus abençoe de todas as maneiras possíveis essa abordagem evan­
gelizadora ao mundo, graças ao poder do Espírito Santo. Breve Jesus voltará!

Ted N. C. Wilson
Presidente da Associação Geral dos Adventistas do Sétimo Dia
I 7

| PREFÁCIO À EDIÇÃO EM LÍNGUA PORTUGUESA |


Durante a Idade Média, propagou-se o ensino de que deveria haver uma
separação entre os leigos e o clero. O clero (classe religiosa), possuía um sta­
tus mais elevado que o dos leigos (povo comum). Desse conceito, resultou a
ideia de que os membros eram meros espectadores, porém os clérigos possu­
íam plena autoridade e deveriam realizar toda a atividade da igreja.
A Bíblia, porém, apresenta um ensino diferente, chamado de “sacerdócio uni­
versal de todos os crentes”. O apóstolo Pedro esclareceu isso quando escreveu em
sua primeira carta aos cristãos da Ásia Menor: “Mas vós sois a geração eleita, o
sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido, para que anuncieis as virtudes
Daquele que vos chamou das trevas para a Sua maravilhosa luz” (1Pe 2:9).
No plano de Deus, cada um foi chamado não apenas para crer, mas para
participar. Desde que Cristo constituiu a igreja, o sacerdócio deixou de perten­
cer apenas a uma classe especial. Todos os que aceitam a Cristo são feitos sacer­
dotes da nova aliança. Isso quer dizer que cada discípulo de Jesus recebe tanto
um ministério quanto uma missão, com a finalidade de colocar suas capacida­
des na obra do Senhor para servir ao semelhante e salvá-lo.
Ellen G. White, em seus escritos, também confirmou esse conceito divino
quando escreveu: “Longamente tem Deus esperado que o espírito de serviço se
apodere de toda a igreja, de maneira que cada um trabalhe para Ele segundo
sua habilidade. Quando os membros da igreja de Deus fizerem a obra que lhes
é indicada nos necessitados campos nacionais e estrangeiros, em cumprimento
da comissão evangélica, todo o mundo será logo advertido, e o Senhor Jesus
retornará à Terra com poder e grande glória” (Atos dos Apóstolos, p. 111).
O objetivo deste livro é impulsionar cada leitor ao serviço ativo na obra do
Senhor. Todos podem participar como verdadeiros discípulos na expansão
do reino de Deus. Todos podem usar seus dons espirituais e testemunhar inten­
cionalmente para alguém que está próximo. Todos podem orar mais pela salva­
ção de um amigo, vizinho ou parente. Todos podem fazer mais e sair da zona
de conforto. Todos podem estar envolvidos na missão.
Não perca tempo. Leia este livro e aceite o chamado para servir! Maranata!

Pr. Erton Köhler


Presidente da Divisão Sul-Americana
Igreja Adventista do Sétimo Dia
8 |
I 9

I INTRODUÇÃO I
Para mim, é um privilégio apresentar o livro Todos Envolvidos na Missão,
pois creio que ele fornece princípios e aplicações práticas para alcançar as pes­
soas e ajudá-las a se converter em discípulos de Jesus. Também creio que você
tem em suas mãos um livro que vai inspirá-lo a falar para os outros, de maneira
simples, sobre seu melhor amigo, Jesus.
A proclamação do evangelho a todo o mundo foi a prioridade de Jesus,
desde o começo de Seu ministério até o final. Desde Seu batismo, e até Sua
ascensão ao Céu, a preocupação de Jesus foi dupla: primeiramente, buscar e sal­
var os perdidos e, em segundo lugar, ensinar aos outros como buscar e salvar os
perdidos. Sua meta principal foi evangelizar e ensinar às pessoas como fazê-lo
(Lc 19:10). É disso que trata este livro.
A Associação Geral dos Adventistas do Sétimo Dia lançou uma inicia­
tiva visionária denominada Todos Envolvidos na Missão. Isso significa todos
fazendo algo por Cristo. Cada membro, cada pastor, cada professor, cada admi­
nistrador - todos envolvidos na missão da igreja. Este livro é um dos muitos
recursos que estão sendo produzidos pela Associação Geral para motivar a par­
ticipação de cada membro da igreja.
A grande comissão que Jesus deu aos discípulos é simples, clara e poderosa.
A ordem é: “Fazei discípulos" Esse é um chamado para cada membro da igreja
fazer algo e para estar envolvido na missão de salvar o mundo.
Já no começo de Seu ministério, Jesus disse aos discípulos: “Vinde após
Mim, e Eu vos farei pescadores de homens (Mt 4:19). No fim de Seu ministério
terrenal, Ele disse: “Toda a autoridade Me foi dada no Céu e na Terra. Ide, por­
tanto, fazei discípulos de todas as nações" (Mt 28:18, 19).
Jesus disse a eles: “Ide, [...] fazei discípulos" Essa era a missão deles. O que
aconteceria com os discípulos que assim fizessem? Deviam fazer outros discí­
pulos; e esses discípulos, outros discípulos, e assim sucessivamente até que o
evangelho chegasse a cada nação da Terra.
O que Jesus estava fazendo aqui era criar um organismo de perpetuidade
própria que continuaria se reproduzindo. A intenção de Jesus era que um discí­
pulo fizesse outro discípulo. Ele estava estabelecendo o princípio da multiplica­
ção no qual um discípulo gerava e desenvolvia outros discípulos, os quais, por
sua vez, fariam o mesmo. Está comprovado - e este livro o demonstra - que não
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existe melhor maneira de fazer isso do que ajudar as pessoas a se envolver na


missão da igreja por meio dos pequenos grupos.
O pastor Alejandro Bullón tem sido um instrumento de Deus para levar
milhares de pessoas aos pés de Jesus, usando alguns dos princípios bíblicos
simples, mas poderosos. Esses princípios são compartilhados neste livro.
Minha oração é que este valioso recurso encontre não somente um lugar em
sua estante de livros, mas também um lugar especial em seu coração, enquanto
você busca seguir o mandado do Mestre: fazer discípulos se envolvendo na
missão

Ramon J. Canals, D. Min.


Diretor de Escola Sabatina e Ministério Pessoal
Associação Geral dos Adventistas do Sétimo Dia
| 11

C A P I T L LO 1

TODOS ENVOLVIDOS NA MISSÃO


N aquele dia, os discí pulos estavam p reocupados em cuidar
de seu Mestre . Queriam que Ele Se alimentasse para resistir à dura jornada
que estava diante deles. Jesus, entretanto, respondeu de uma maneira estra­
nha: “A Minha comida consiste em fazer a vontade Daquele que Me enviou e
realizar a Sua obra. Não dizeis vós que ainda há quatro meses até à ceifa? Eu,
porém, vos digo: erguei os olhos e vede os campos, pois já branquejam para a
ceifa” (Jo 4:34, 35).
Há dois pensamentos que merecem ser destacados na resposta de Jesus .
O primeiro é a importância de realizar a obra do Pai, não de qualquer
maneira, mas fazendo a Sua vontade . O segundo pensamento é que os cam­
pos já estão brancos para a ceifa. Não há mais tempo para esperar! O mundo
já está maduro . As pessoas sofrem e buscam desesperadamente a solução
para seus problemas numa infinidade de saídas aparentes, mas só se frustram
e perdem a esperança. O pecado tem causado muitos males. Já está na hora
de Jesus voltar!
No entanto, a obra de proclamar as boas-novas da salvação em Jesus deve
ser terminada. Todos Envolvidos na Missão é a maneira de Deus preparar Seu
povo e o mundo para a segunda vinda de Jesus
Ao ver a dor de um mundo despedaçado, não podemos ficar de braços cru­
zados . É tempo de colher! Mas não pode haver colheita onde não se semeou
nem se cultivou As campanhas de evangelismo que realizamos são projetos
maravilhosos de colheita Mas como vamos colher se não semearmos? Por
outro lado, o trabalho da semeadura deve ser realizado “conforme a vontade do
Pai”, e não de qualquer maneira. O propósito deste livro é mostrar a maneira
pela qual Deus deseja terminar Sua obra
12 | Todos E n v ol vi do s na Missão

ENVOLVIMENTO DE TODOS
Não existe experiência mais dolorosa do que a de enganar a si mesmo.
Alguém pensar que chegou a Moscou quando, em realidade, chegou a São
Paulo, por exemplo. E, apesar de todas as explicações e advertências, ainda
resiste em avaliar o caminho percorrido. Não existe pior cego do que aquele
que não quer ver. O pior surdo é o que não deseja ouvir.
Paradoxal como possa parecer, corremos o risco de cair no mesmo terreno
ao tratarmos de cumprir a missão. É fácil chegar à conclusão de que estamos
no caminho certo porque cada ano batizamos milhares de novos crentes e por­
que as estatísticas aumentam. Mas, se estudarmos o propósito que Jesus tinha
em mente ao nos confiar a missão, talvez descubramos a triste realidade de
que estamos fazendo o que humanamente cremos ser o melhor, e não o que o
Mestre ensinou
No Sermão do Monte, Jesus advertiu: “Nem todo o que Me diz: Senhor,
Senhor! entrará no reino dos Céus, mas aquele que faz a vontade de Meu Pai,
que está nos Céus. Muitos, naquele dia, hão de dizer-Me: Senhor, Senhor!
Porventura, não temos nós profetizado em Teu nome, e em Teu nome não
expelimos demônios, e em Teu nome não fizemos muitos milagres? Então, lhes
direi explicitamente: nunca vos conheci . Apartai-vos de Mim, os que praticais
a iniquidade” (Mt 7:21-23).
Essa é a triste descrição da realidade de pessoas sinceras que fizeram o que
consideravam ser correto e, no entanto, se perderão no dia final por uma sim­
ples razão: não fizeram a vontade do Pai .

NÃO É SÓ PREGAR O EVANGELHO


Não é suficiente fazer É necessário saber por que fazemos o que fazemos
A esta altura, convém pensar sobre algumas questões: Qual é a missão que Jesus
nos confiou? Estamos fazendo a vontade do Pai? Em que consiste Sua vontade
ao nos entregarmos à missão?
Precisamos entender que Deus não nos deu a missão porque precisa de
nossa ajuda. Ele é Deus e, como tal, não conhece impossíveis . Se Ele quisesse,
o mundo seria evangelizado em um segundo. Poderia abrir hoje mesmo o mar
de dificuldades para que toda nação, tribo, língua e povo conhecesse a mensa­
gem de salvação num instante, assim como abriu o Mar Vermelho para que o
povo de Israel passasse.
T odos E n v ol vi do s na Missão I 13

Certa ocasião, Ele disse a Zorobabel: “Não por força nem por poder, mas
pelo Meu Espírito, diz o Senhor dos Exércitos” (Zc 4:6). Engana-se quem
crê que Deus precisa do ser humano para pregar o evangelho. O Espírito
de Profecia é categórico ao afirmar que “Deus poderia haver realizado Seu
desígnio de salvar pecadores sem o nosso auxílio” (O D esejado de Todas as
Nações, p. 142).
Caso se tratasse somente de pregar o evangelho, Deus poderia fazê-lo sem
nossa ajuda. Mas Ele nos deu a missão porque nós, os crentes, precisamos pre­
gar o evangelho a fim de crescermos na vida cristã. “O único meio de cres­
cer em graça é achar-se interessado em fazer exatamente a obra que Cristo nos
ordenou fazer” (Serviço Cristão, p. 101).

COM OS ANJOS
Por outro lado, a pregação do evangelho poderia ser realizada mediante
o ministério dos anjos O autor da epístola aos hebreus pergunta a respeito
dos anjos: “Não são todos eles espíritos ministradores, enviados para serviço
a favor dos que hão de herdar a salvação?” (Hb 1:14). Os anjos estão sem ­
pre dispostos a servir. Eles poderiam pregar o evangelho com uma veloci­
dade vertiginosa
Se fosse para encontrar o método mais fácil e rápido de evangelizar o
mundo, Deus chamaria os anjos. Ellen G. White declara: “Deus poderia ter
proclamado Sua verdade por meio de anjos sem pecado, mas esse não é Seu
plano” (Atos dos Apóstolos, p. 330).
Esse conceito é enfatizado repetidas vezes . “O anjo enviado a Filipe poderia
ter ele próprio feito a obra pelo etíope, mas essa não é a maneira de Deus agir
É Seu plano que os homens trabalhem por seus semelhantes” (ibid. , p. 109).
São significativas as expressões: “Mas esse não é o Seu plano” e “mas não
é essa a maneira de Deus agir” Deus tem um plano específico para a pregação
do evangelho, e nesse plano os anjos não são os agentes da pregação. A igreja
deve cumprir a missão envolvendo cada crente, pois o ser humano precisa fazer
parte dela É uma questão de sobrevivência espiritual
“Deus poderia haver realizado Seu desígnio de salvar pecadores sem
o nosso auxílio; mas a fim de desenvolvermos caráter semelhante ao de
Cristo, é-nos preciso partilhar de Sua obra” (O D esejado de Todas as Nações,
p. 142).
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Qualquer método que deixe o crente sentado, observando os outros cum­


prindo a missão, não é coerente com o plano divino.

COM ANIMAIS OU COM PEDRAS


Na realidade, não são somente os anjos que poderiam pregar o evangelho.
Certa ocasião, Deus tinha uma mensagem para Balaão. Não havia nenhum
evangelista perto dele, nenhum pastor ou obreiro bíblico. Havia só uma jumen­
ta. O texto bíblico relata: “Então, o Senhor fez falar a jumenta” (Nm 22:28).
Deus poderia usar hoje os animais para pregar o evangelho? Poderia, se assim
o quisesse. E não somente os animais, como também as coisas inanimadas.
Quando Jesus esteve na Terra, Ele afirmou: “Se eles se calarem, as próprias pe­
dras clamarão” (Lc 19:40).
No entanto, o plano divino para a evangelização é outro. Nós, seres huma­
nos, não podemos esquecer o plano divino e criar nossos próprios planos,
crendo que, dessa maneira, estamos ajudando a Deus. Fazendo assim, corre­
mos o risco de chegar ao dia final e descobrir que, embora tenhamos feito mui­
tas coisas boas - e com a melhor das intenções - não fizemos a vontade do Pai.

UMA ILUSTRAÇÃO
Imaginemos que eu seja o dono de uma fábrica de bicicletas e deseje tes­
tar a resistência do meu último modelo. Reúno, então, um grupo de funcio­
nários e dou a eles a missão de levar a bicicleta de Porto Alegre a Brasília, por
terra. Digo a eles que anotem todos os detalhes: a resistência dos freios, dos
pedais, dos pneus, etc. Despeço-me do grupo e digo que estarei esperando por
eles em Brasília.
Assim que eu me retiro, os empregados se reúnem e começam a formar
comissões para estudar a maneira mais rápida, econômica e fácil de levar a bici­
cleta até Brasília. Passam horas e horas analisando qual seria o melhor método
de cumprir a missão. Teses são escritas e livros a respeito do assunto são publica­
dos. Finalmente, chegam à conclusão de que é melhor levar a bicicleta de avião,
porque é a maneira mais rápida. Eles ainda encontraram uma passagem aérea
em promoção.
Ao nos encontrarmos em Brasília, ali estão eles, felizes. Acreditam ter feito
um excelente trabalho e esperam que eu os reconheça como fiéis emprega­
dos. Porém, ao pedir o relatório com os detalhes de resistência da bicicleta,
T odos E n v ol vi do s na Missão I 15

um olha para o outro, e eles percebem, com tristeza, que não cumpriram
a missão. Sentem-se frustrados. Gastaram muitas horas de estudo e análises.
Trabalharam muito para conseguir os recursos. Fizeram o que consideravam
ser o melhor, mas, infelizmente, não cumpriram a missão. Não porque não qui­
seram, mas porque não a entenderam.

PLANO DIVINO
Qual é, então, o plano divino com relação à missão? Leiamos mais uma vez
a declaração inspirada: “Deus poderia ter proclamado Sua verdade por meio de
anjos sem pecado, mas esse não é Seu plano” (Atos dos Apóstolos, p. 330).
É evidente que Deus tem um plano para o cumprimento de Sua missão. Ele
seria injusto se nos desse somente a missão, mas não nos ensinasse a maneira
de cumpri-la. Não se trata de inventar o método de fazer o que Ele já nos ensi­
nou a fazer. E Ele nos ensinou o seguinte: “Ao descer sobre vós o Espírito Santo,
[...] sereis Minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e
Samaria e até aos confins da Terra” (At 1:8).
Ser testemunha é atributo de seres humanos. Nem os animais nem as coi­
sas podem dar testemunho. Uma testemunha é uma pessoa que relata o que
viu ou viveu. João disse: “O que era desde o princípio, o que temos ouvido, o
que temos visto com os nossos próprios olhos, o que contemplamos, e as nos­
sas mãos apalparam, com respeito ao Verbo da vida (e a vida se manifestou, e
nós a temos visto, e dela damos testemunho, e vo-la anunciamos, a vida eterna,
a qual estava com o Pai e nos foi manifestada)” (1Jo 1:1, 2).
Portanto, quando Jesus deu a missão a Seus discípulos, instantes antes de
subir ao Céu, Ele estava lhes recordando algo que já havia ensinado a eles, antes
de Sua crucifixão: “E será pregado este evangelho do reino por todo o mundo,
para testemunho a todas as nações. Então, virá o fim” (Mt 24:14).
A expressão-chave é “para testemunho”. É um assunto de cada crente. Um
testemunho pessoal. Não corporativo. E Ele lhes fez lembrar isso depois da res­
surreição, antes de subir ao Pai.
A escritora Ellen G. White disse o seguinte a esse respeito: “Cristo estava a
apenas alguns passos do trono celestial quando deu Sua comissão aos discípulos.
Abrangendo como missionários a todos os que cressem em Seu nome, disse Ele:
‘Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda a criatura’ (Mc 16:15). O poder
de Deus os havia de acompanhar” (Serviço Cristão, p. 9).
16 | Todos E n v ol vi do s na Missão

Note a expressão: “Abrangendo como missionários a todos os que cressem


em Seu nome .” Na mente de Cristo, a missão não consistia somente em pregar
o evangelho, mas fazê-lo “abrangendo como missionários a todos os que cres­
sem em Seu nome”.

RESPONSABILIDADE DE CADA CRENTE


Voltemos agora à citação já mencionada: “O anjo enviado a Filipe pode­
ria ter ele próprio feito a obra pelo etíope, mas essa não é a maneira de Deus
agir. É Seu plano que os homens trabalhem por seus semelhantes” (Atos dos
Apóstolos, p. 109).
Um dos primeiros conceitos que o Senhor nos ensinou com relação ao
cumprimento da missão é “que os homens trabalhem por seus semelhantes”
Não existe cumprimento fiel à missão sem a participação do ser humano . Essa
participação pode ser coletiva, mas é muito mais individual

Durante Seu ministério, Jesus tinha conservado constantemente perante


os discípulos o fato de que eles deviam ser um com Ele em Sua obra para
recuperar o mundo da escravidão do pecado. Quando Ele enviou os Doze,
e depois os Setenta, para proclamarem o reino de Deus, estava-lhes ensi­
nando o dever de repartir com outros o que lhes dera a conhecer Em toda a
Sua obra Ele os estivera preparando para o trabalho em favor das pessoas, o
qual deveria ser expandido à medida que seu número aumentasse, até final­
mente alcançar os confins da Terra. A última lição que deu a Seus segui­
dores foi que lhes tinham sido confiadas as boas-novas de salvação para o
mundo (ibid. , p. 32).

Três pensamentos se destacam nessa declaração O primeiro é que “em toda


a Sua obra Ele os estivera preparando para um trabalho em favor das pessoas”
O segundo é que essa obra se expandiria “à medida que seu número aumen­
tasse”, e o terceiro é que essa obra “finalmente [alcançaria] os confins da Terra”
Analisemos esses três pensamentos

OBRA INDIVIDUAL
Do ponto de vista bíblico, a missão que Deus confiou à Sua igreja não é
apenas uma missão corporativa, mas uma missão que inclui a participação de
T odos E n v ol vi do s na Missão I 17

todos e de cada crente. Jesus nunca imaginou Sua igreja cumprindo a missão
com a participação de apenas uns poucos membros . Qualquer plano evange­
lizador que deixe o crente na condição de um simples espectador “não é Seu
plano”. “Essa não é a maneira de Deus agir.” O Mestre ensinou com clareza:
“É como um homem que, ausentando-se do país, deixa a sua casa, dá autori­
dade aos seus servos, a cada um a sua obrigação, e ao porteiro ordena que vigie”
(Mc 13:34).
O conceito é simples: o Senhor deixa “a cada um a sua obrigação” Tal obra
não pode ser realizada por procuração ou representação. Não existe a menor
possibilidade de que eu possa pagar alguém para que realize a obra que me foi
confiada.

A cada um foi distribuída sua obra, e ninguém pode substituir a outro.


Cada um tem uma missão de admirável importância, a qual ele não pode
negligenciar ou passar por alto, uma vez que seu cumprimento envolve o
bem de alguma alma, e a negligência da mesma, a ruína de uma criatura
por quem Cristo morreu (Review and Herald, 12 de dezembro de 1893).

Esse é um conceito precioso . Geralmente, escrevemos muitos livros e pre­


gamos inúmeros sermões a esse respeito. Mas, na hora de entrar em ação, nos
esquecemos dos ensinamentos do Mestre. Preferimos levantar os olhos em
busca de métodos mais fáceis, econômicos e produtivos . E nunca estamos satis­
feitos com nada Corremos de um lado para o outro em busca do “método da
moda” e deixamos de lado os conselhos divinos, como o seguinte:

A todos quantos se tornam participantes de Sua graça, o Senhor indica


uma obra em benefício de outros . Cumpre-nos estar, individualmente,
em nosso posto, dizendo: ‘Eis-me aqui, envia-me a mim’ (Is 6:8). Sobre
o m inistro da Palavra, a enferm eira missionária, o médico cristão, o
cristão individualmente, seja ele comerciante ou fazendeiro, profis­
sional ou m ecânico - sobre todos repousa a responsabilidade. É nossa
obra revelar aos homens o evangelho de sua salvação . Toda empresa em
que nos empenhemos deve ser um meio para esse fim (A Ciência do
Bom Viver, p. 148)
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Observe as expressões “a todos quantos”, “cumpre-nos”, “sobre todos”. Esse


conceito não é apresentado apenas uma vez ou em apenas uma ocasião . O Espírito
de Profecia repete várias vezes o mesmo conceito . A missão não é apenas corpo­
rativa, mas individual.
“Deus espera serviço pessoal da parte de todo aquele a quem confiou o
conhecimento da verdade para este tempo . Nem todos podem ir como missio­
nários para terras estrangeiras, mas todos podem, na própria pátria, ser missio­
nários na família e entre os vizinhos” (Serviço Cristão, p. 9).
Ninguém pode se omitir, ou crer que, por colaborar financeiramente, outra
pessoa pode cumprir a missão que a ele foi designada . “A cada cristão é desig­
nada uma obra definida” (Southern Watchman, 2 de agosto de 1904).

CRESCIMENTO MAIS RÁPIDO DA IGREJA


O resultado de cumprir a missão com a participação individual de cada
crente, tal como Jesus nos ensinou, seria que a Obra se expandiria “à medida
que seu número aumentasse”. As palavras-chave aqui são dois verbos: expandir
e crescer. Ambos denotam expansão, multiplicação e números. Ellen G. White
não temia mencionar números como um índice de crescimento. Ela dizia: “Se
cada adventista do sétimo dia houvesse feito o trabalho que lhe foi confiado, o
número de crentes seria hoje muito maior do que é” (Testemunhos Seletos, v. 3,
p. 293).
Ela observa, porém, que os números são o resultado de seguir o conselho
divino e de envolver cada membro no cumprimento da missão . “Se cada adven-
tista do sétimo dia houvesse feito o trabalho que lhe foi confiado ”
Os números não podem ser a motivação para o cumprimento da mis­
são, mas simplesmente o resultado de algo maravilhoso que ocorre na vida
de cada crente . Os números, porém, não são alheios aos ensinamentos bíbli­
cos . A Bíblia está cheia de números desde o Antigo Testamento, quando Israel
deixou o Egito: “Assim, partiram os filhos de Israel de Ramessés para Sucote,
cerca de seiscentos mil a pé, somente de homens, sem contar mulheres e
crianças” (Êx 12:37). Os números são citados na experiência do Pentecostes:
“Então, os que lhe aceitaram a palavra foram batizados, havendo um acrés­
cimo naquele dia de quase três mil pessoas” (At 2:41). Eles também estão pre­
sentes na realidade celestial: “Olhei, e eis o Cordeiro em pé sobre o monte Sião,
e com ele cento e quarenta e quatro mil, tendo na fronte escrito o Seu nome e
T odos E n v ol vi do s na Missão I 19

o nome de Seu Pai” (Ap 14:1), “Depois destas coisas, vi, e eis grande multidão
que ninguém podia enumerar, de todas as nações, tribos, povos e línguas, em
pé diante do trono e diante do Cordeiro, vestidos de vestiduras brancas, com
palmas nas mãos” (Ap 7:9).
Sim, os números são necessários, não como fonte de inspiração ou m oti­
vação, mas como avaliadores . Podem não ser os melhores indicadores,
mas ninguém descobriu ainda indicadores melhores do que eles . Se você
me diz que está perdendo peso, a pergunta lógica será: Quantos quilos? Se
você afirma que está crescendo, terá que responder à indagação: Quantos
centímetros?
O Espírito de Profecia diz: “Os crentes de Tessalônica eram verdadeiros
missionários . [. . . ] Por intermédio das verdades apresentadas, corações foram
ganhos e salvos acrescentados ao número dos crentes” (Atos dos Apóstolos,
p . 256).
Como sabemos que os tessalonicenses eram verdadeiros missionários?
Porque novas pessoas eram acrescentadas ao número de crentes Seria incoe­
rente afirmar que eles eram verdadeiros missionários sem que o número de
crentes aumentasse
No início da nossa história, Ellen G. White declarou: “Os adventistas do
sétimo dia estão fazendo progressos, duplicando seu número, estabelecendo
missões e desfraldando o estandarte da verdade nos lugares escuros da Terra;
todavia a obra está avançando muito mais demoradamente do que Deus o
quereria” (Serviço Cristão, p. 97).
Como se sabia que os adventistas estavam progredindo? Pelo fato de que
duplicavam seu número . Contudo, os números jamais podem ser usados como
fonte de inspiração ou para se fazer pressão. Eles não devem ser usados para
fazer comparações de um com outro ou para “provar” quem é melhor Quando
seguimos a maneira pela qual Jesus trabalhava, o que importa não são os núme­
ros, mas o fato de sabermos que estamos preparando um povo para o encon­
tro com Jesus

A MISSÃO SERÁ CONCLUÍDA


Este será o segundo resultado de seguir o método divino de evangeliza­
ção, no qual a participação de cada crente é indispensável: “Finalmente alcan­
çar os confins da Terra.” A escritora já mencionada tinha claro esse conceito .
20 | Todos E n v ol vi do s na Missão

Ela afirmou isso no fim do século 19 . Mais tarde, repetiu o conceito ao dizer:
“Se cada um de nós fosse um missionário vivo, a mensagem para este tempo
seria rapidamente proclamada em todos os países, a cada povo, nação e língua”
(Testemunhos Para a Igreja, v. 6, p. 438).
Note que o segredo para o término da obra, segundo ela, é “se cada adven-
tista”, “se cada um de nós”
Tempos atrás, alguém me perguntou que planos a igreja tem para terminar a
missão, pois, segundo ele, estamos “vagando pelo deserto como Israel”. Essa pes­
soa acredita que deveríamos aproveitar as redes sociais e a tecnologia, e eu
também creio nisso. Devemos aproveitar todos os meios que já existem e que
existirão, mas jamais podemos esquecer a ação individual de cada crente bus­
cando pessoas e as levando a Jesus . O testemunho pessoal tem uma velocidade
vertiginosa, muito mais extraordinária do que se pode imaginar
“Aquele que se torna um filho de Deus deve, daí em diante, considerar-se
como um elo na cadeia descida para salvar o mundo, um com Cristo em Seu
plano de misericórdia, indo com Ele a buscar e salvar o perdido” (A Ciência do
Bom Viver, p. 105).
Esse conceito de corrente (cadeia) é extraordinário Na mente de Cristo,
cada um deve buscar outro; depois, estes devem fazer a mesma coisa, o que
significa que a multiplicação dos membros se daria em progressão geomé­
trica, em vez de aritmética. Se tomássemos apenas 2 milhões dos 20 milhões
de crentes que somos no mundo e desafiássemos cada um a trazer uma pes­
soa para Cristo, e que cada novo crente fizesse o mesmo, em apenas 12 anos
teríamos alcançado os mais de 7 bilhões de habitantes do planeta. Erramos
quando menosprezamos a possibilidade, o potencial e a eficácia do testemu­
nho pessoal. Não temos a mínima ideia do que significa a multiplicação celu­
lar ou a energia atômica.
“Igrejas devem ser organizadas e planos formulados para o trabalho que
se realizará pelos membros das recém-organizadas igrejas Esta obra missio­
nária do evangelho precisa manter-se atingindo e anexando novos territórios,
ampliando as porções cultivadas da vinha. O círculo deve ser estendido até que
rodeie o mundo” (Evangelismo, p. 19).
Note que, se cada membro da igreja estivesse envolvido na missão, e se em
cada igreja se elaborassem planos para que cada crente se envolvesse, o círculo
teria se estendido até rodear o mundo
T odos E n v ol vi do s na Missão I 21

TENDÊNCIA DE SUBSTITUIR O INDIVIDUAL PELO CORPORATIVO


Creio que os líderes da igreja vivem constantemente preocupados com o
cumprimento da missão. Nas reuniões ministeriais se ouvem expressões como
estas: “A Associação A batizou tanto”, ou “A União B alcançou tantos novos
membros neste ano” E os membros, animados, exclamam “amém!”
Certa vez, um líder me disse: “Acredito que estamos bem, pois ao iniciar
o quinquênio, batizávamos 900 pessoas por ano, e no último ano, chegamos a
alcançar quase 5 mil.” Em seguida, ele perguntou: “Isso não significa que esta­
mos cumprindo a missão?” Do ponto de vista humano, talvez sim. Com toda
certeza, um campo como aquele vai aparecer nas estatísticas como um dos
melhores campos
O que teria feito aquele campo para crescer dessa maneira? “Investimos em
evangelismo”, foi a resposta
Com toda certeza, um líder que tem a visão de investir em evangelismo tem
a visão correta do porquê e para que a igreja existe . Só que o investimento feito
por aquele campo foi contratar uma equipe enorme de obreiros bíblicos. Eram
aproximadamente 300 obreiros. Cada um tinha levado uma média de 12 pes­
soas ao batismo Daí o resultado surpreendente
A pergunta, porém, é a seguinte: Estamos cumprindo, dessa forma, a mis­
são que Jesus nos deixou? Ellen G. White tem uma resposta precisa para essa
pergunta:

Há, por toda parte, a tendência de substituir o esforço individual pela obra
de organizações . A sabedoria humana tende à consolidação, à centraliza­
ção, à edificação de grandes igrejas e instituições . Muitos deixam às insti­
tuições e organizações a obra da beneficência; eximem-se do contato com
o mundo, e seu coração torna-se frio. Ficam absorvidos consigo mesmos
e insensíveis à impressão. Extingue-se-lhes no coração o amor para com
Deus e o homem . Cristo confia a Seus seguidores uma obra individual -
uma obra que não pode ser feita por procuração. O serviço aos pobres e
enfermos, o anunciar o evangelho aos perdidos não deve ser deixado a
comissões ou caridade organizada. Responsabilidade individual, individual
esforço e sacrifício pessoal são exigências evangélicas (A Ciência do Bom
Viver, p. 147).
22 | Todos E n v ol vi do s na Missão

Segundo essa declaração, um corpo de obreiros bíblicos não pode substi­


tuir o trabalho individual de cada crente. O fundamento de Todos Envolvidos
na Missão é que cada um faça algo .
Naquele mesmo campo, conheci pelo menos três pessoas que doam vastos
recursos financeiros para pagar os obreiros bíblicos, mas não se envolvem pes­
soalmente na missão de buscar almas para Cristo . Não há dúvida de que o que
fazem é extraordinário . São pessoas que amam a Deus e Sua igreja, pois onde
está seu tesouro aí estará seu coração . Mas, na mente divina, a responsabilidade
individual é uma exigência evangélica
Surge, então, a pergunta lógica: “Por que a missão deve ser individual?”

MINHA VIDA NA MISSÃO


Todos Envolvidos na Missão fala sobre o compromisso pessoal
Trata-se de encontrar uma necessidade na comunidade e supri-la. Estas
são algumas ideias práticas para você se envolver pessoalmente:
1. Prepare uma refeição para seu vizinho ou seu colega de trabalho
que ficou doente
2 . Dê de comer a uma pessoa que não tenha lar.
3. Doe roupas nas mesmas condições em que você gostaria que lhe
doassem
I 23

CAPÍTULO 2

UMA NECESSIDADE ESPIRITUAL


P or que a B í bli a e o E spí ri to de P r of ec i a e nf at i z am t a n t o
a participação de todos os crentes? Isso é vital para entendermos a missão a
partir da perspectiva divina. A razão não é que Deus precise de nós para ter­
minar Sua obra . Somos nós que precisamos participar da missão a fim de cres­
cer espiritualmente e nos preparar para o encontro com Jesus Cristo, quando
Ele retornar. Paulo escreveu aos efésios: “Portanto, tomai toda a armadura de
Deus, para que possais resistir no dia mau e, depois de terdes vencido tudo,
permanecer inabaláveis” (E f 6:13).

DOIS GRUPOS
Quando Cristo voltar, só haverá dois grupos. Os redimidos erguerão as
mãos para o céu e exclamarão: “Eis que este é o nosso Deus, em quem esperá­
vamos, e Ele nos salvará; este é o Senhor , a quem aguardávamos; na Sua salva­
ção exultaremos e nos alegraremos” (Is 25:9).
Em contraste com esse momento de júbilo, João descreve de forma dramá­
tica a experiência do segundo grupo:

Vi quando o Cordeiro abriu o sexto selo, e sobreveio grande terremoto.


O sol se tornou negro como saco de crina, a lua toda, como sangue, as
estrelas do céu caíram pela terra, como a figueira, quando abalada por
vento forte, deixa cair os seus figos verdes, e o céu recolheu-se como um
pergaminho quando se enrola. Então, todos os montes e ilhas foram movi­
dos do seu lugar Os reis da terra, os grandes, os comandantes, os ricos, os
poderosos e todo escravo e todo livre se esconderam nas cavernas e nos
penhascos dos montes e disseram aos montes e aos rochedos: Caí sobre
nós e escondei-nos da face Daquele que Se assenta no trono e da ira do
24 | Todos E n v ol vi do s na Missão

Cordeiro, porque chegou o grande Dia da ira deles; e quem é que pode
suster-se? (Ap 6:12-17).

SONHO DIVINO
O sonho divino é que todos façam parte do primeiro grupo . Deus não
deseja que ninguém se perca: “Não tenho prazer na morte de ninguém”
(Ez 18:32), diz o Senhor. Jesus deseja encontrar Seu povo preparado para
se encontrar com Ele . Por esse motivo, deixou tudo no Céu e veio morrer
na Terra . Paulo afirma que “Cristo amou a igreja e a Si mesmo Se entre­
gou por ela, para que a santificasse, tendo-a purificado por meio da lava­
gem de água pela palavra, para a apresentar a Si mesmo igreja gloriosa,
sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, porém santa e sem defeito”
(E f 5:25-27).
O sonho divino é que, quando Jesus voltar, Ele encontre essa igreja
“gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante”. Na Bíblia, encon­
tramos descrito muitas vezes o sonho de Deus . Im agine-O fechando os
olhos e perguntando a Si mesmo: “Quem é esta que aparece como a alva do
dia, formosa como a lua, pura como o sol, formidável como um exército
com bandeiras?” (Ct 6:10). Essa é a igreja que reflete Seu caráter.
O sonho divino! Um povo preparado, uma igreja gloriosa e sem mácula,
formosa como a lua, pura como o sol, refletindo o Seu caráter; seres humanos
capazes de escutar a doce voz do Pai dizendo: “Dispõe-te, resplandece, por­
que vem a tua luz, e a glória do Senhor nasce sobre ti . Porque eis que as tre­
vas cobrem a Terra, e a escuridão, os povos; mas sobre ti aparece resplendente
o Senhor , e a Sua glória se vê sobre ti . As nações se encaminham para a tua
luz, e os reis, para o resplendor que te nasceu” (Is 60:1-3).
O ideal de Deus para Sua igreja é uma igreja gloriosa, sem ruga e sem
mancha, como uma noiva vestida de branco esperando pelo noivo Uma
igreja autêntica, sem formalismos, que não viva apenas preocupada com a
aparência, “não servindo à vista, como para agradar a homens, mas como
servos de Cristo, fazendo, de coração, a vontade de Deus; servindo de boa
vontade, como ao Senhor e não como a homens” (E f 6:6, 7)
Na realidade, a que se refere Paulo ao m encionar uma igreja gloriosa?
Evidentemente, ela é gloriosa porque reflete a glória de Deus. E o que
é a glória de Deus? O Espírito de Profecia responde a essa pergunta da
U ma N e c e s s i d a d e E s p i r i t u a l I 25

seguinte maneira: “Orai com Moisés: ‘Rogo-Te que me mostres a Tua gló­
ria’ (Êx 33:18)” (Testemunhos Para Ministros, p. 499).
O pecado desfigurou o caráter de Deus no ser humano . Hoje somos apenas
uma caricatura de Deus, mas o Senhor espera que Sua igreja volte a refletir Seu
caráter. Jesus veio a este mundo a fim de restaurar a glória perdida e reprodu­
zir no ser humano o caráter do Pai . Deixou tudo no Céu e veio a este mundo de
miséria e dor para pagar o preço de nossa restauração . Por isso: “Cristo aguarda
com fremente desejo a manifestação de Si mesmo em Sua igreja. Quando o
caráter de Cristo se reproduzir perfeitamente em Seu povo, então virá para
reclamá-los como Seus” (Exaltai-O, p. 275).
À luz dessa declaração, o Senhor Jesus espera pacientemente que a igreja
reflita Seu caráter para, então, voltar à Terra e levá-la consigo .
No entanto, antes do aparecimento glorioso de Jesus, o dia mau virá e,
segundo Paulo, muitos não resistirão aos vendavais desse dia Por isso, ele aconse­
lha: “Tomai toda a armadura de Deus” (Ef 6:13). Depois, a partir do versículo 14,
ele descreve a “armadura divina”: “Estai, pois, firmes, cingindo-vos com a ver­
dade e vestindo-vos da couraça da justiça . Calçai os pés com a preparação do
evangelho da paz; embraçando sempre o escudo da fé, com o qual podereis
apagar todos os dardos inflamados do Maligno. Tomai também o capacete da
salvação e a espada do Espírito, que é a palavra de Deus; com toda oração e
súplica, orando em todo tempo no Espírito e para isto vigiando com toda per­
severança e súplica por todos os santos.”
São sete os instrumentos que fazem parte da armadura de Deus . Considera­
remos apenas três deles, nos quais se requer a participação do crente: o estudo
da Bíblia, a oração e a disposição para pregar o evangelho da paz .

INSTRUMENTOS PARA O CRESCIMENTO ESPIRITUAL


Deixaremos os dois primeiros instrumentos para serem considerados em
capítulos posteriores . Vamos nos concentrar no terceiro: a missão de buscar
outras pessoas e levá-las a Jesus . Entenderemos, assim, a razão da ênfase divina
na missão individual do crente
O sonho divino não consiste apenas em que o evangelho seja pregado a
toda nação, tribo, língua e povo, mas que os redimidos façam parte da igreja
gloriosa que reflete Seu caráter e está pronta para o encontro com Jesus . A mis­
são é apenas um dos instrumentos para edificar essa igreja
26 | Todos E n v ol vi do s na Missão

“Deus poderia haver realizado Seu desígnio de salvar pecadores sem o


nosso auxílio; mas a fim de desenvolvermos caráter semelhante ao de Cristo,
é-nos preciso partilhar de Sua obra” (O Desejado de Todas as Nações, p. 142).
É preciso ressaltar a importância deste conceito: “a fim de desenvolvermos
caráter semelhante ao de Cristo”. O crente precisa participar da missão porque
o testemunho faz parte de uma vida cristã saudável. Ellen G. White declara:
“Unicamente os semelhantes se podem apreciar. É à medida que nos entrega­
mos a Deus para o serviço da humanidade, que Ele Se entrega a nós” (O Maior
Discurso de Cristo, p. 81).
Não existe outra maneira de fazê-lo. Limitar a vida cristã à oração e ao
estudo da Bíblia sem participar da missão é uma experiência enganosa e vazia.
Não passa de misticismo barato . Falando sobre o perigo de transformar a vida
cristã numa experiência mística, o Espírito de Profecia ensina: “Este período
não deve ser despendido em abstrata devoção. Esperar, vigiar e o atento traba­
lho devem ser combinados” (Serviço Cristão, p. 85).

EXEMPLO DA IGREJA PRIMITIVA


A igreja primitiva entendeu corretamente a missão e enfatizou a partici­
pação individual de cada crente Para os primeiros cristãos, a missão não era
um trabalho só para os líderes, mas de todos e de cada um Cada cristão vivia
empenhado em levar alguém para Cristo por amor a Jesus, e em crescer na
experiência cristã Eles sabiam que não existe crescimento sem testemunho
O testemunho pessoal não depende de ter ou não um dom Deus distribuiu
dons aos Seus filhos “para a edificação do corpo de Cristo” (Ef 4:11, 12). Mas
o testemunho pessoal não é um dom É uma necessidade espiritual tal como a
oração ou o estudo diário da Bíblia
Esse conceito estava bem claro na igreja primitiva “Naquele dia, levantou-
se grande perseguição contra a igreja em Jerusalém; e todos, exceto os após­
tolos, foram dispersos pelas regiões da Judeia e Samaria. Entrementes, os que
foram dispersos iam por toda parte pregando a palavra” (At 8:1, 4). Observe o
que afirma esse relato: “todos, exceto os apóstolos, foram dispersos”; e depois é
dito que “os que foram dispersos iam por toda parte pregando a palavra”
Não eram somente os apóstolos que anunciavam o evangelho, mas os que
foram dispersos. Quem eram eles? Todos os crentes. Do ponto de vista divino,
a missão de levar pessoas a Cristo é tarefa de cada cristão. Assim diz o Espírito
U ma N e c e s s i d a d e E s p i r i t u a l I 27

de Profecia: “O humilde e consagrado crente sobre quem o Senhor da vinha


colocou a responsabilidade pelas pessoas deve receber encorajamento daque­
les a quem o Senhor delegou maiores responsabilidades” (Atos dos Apóstolos,
p. 110).
Quem é o “humilde e consagrado crente”? É o membro da igreja! O Senhor
depositou a preocupação pelas almas sobre o crente . Por quê? Porque este pre­
cisa crescer espiritualmente. Por fim, ele fará parte da igreja gloriosa que Jesus
vem buscar. E não crescerá se não participar da missão .
“O único meio de crescer em graça é achar-se interessado em fazer exatamen­
te a obra que Cristo nos ordenou fazer” (Serviço Cristão, p. 101).
Se eu, como ministro, deixo a igreja de lado ao cumprir a missão, demons­
tro não ter entendido “a vontade do Senhor” Se na minha ansiedade para alcan­
çar metas e alvos utilizo qualquer método que deixe o crente simplesmente
como observador, estou condenando minhas ovelhas à perdição, e, um dia,
Deus vai cobrar o sangue delas de minhas mãos .
Pode ser que eu tenha sido sincero no que fazia, mas não fiz o que o Senhor
ensinou. Esqueci-me de preparar a igreja gloriosa, santa, pura e sem mancha.

TRABALHO DOS PASTORES


“O humilde e consagrado crente”, diz o texto, deve ser incentivado por aque­
les “a quem o Senhor delegou maiores responsabilidades”. Quem são essas pes­
soas? Os pastores O trabalho do ministro não é, em primeiro lugar, levar Cristo
às pessoas No plano divino, esse trabalho deve ser cumprido por cada crente
“Ao trabalhar em lugares onde já se encontram alguns na fé, o ministro deve
não tanto buscar, a princípio, converter os incrédulos, como exercitar os mem­
bros da igreja para prestarem cooperação proveitosa. Trabalhe com eles indivi­
dualmente, tentando despertá-los para buscarem eles próprios experiência mais
profunda, e trabalharem por outros” (Obreiros Evangélicos, p. 196).
O pastor jamais deve realizar o trabalho que pertence à igreja. Sua missão é
outra “Pregar é uma pequena parte da obra a ser feita pela salvação de almas
O Espírito de Deus convence os pecadores da verdade, e depõe-nos nos braços
da igreja Os pastores podem fazer sua parte, mas nunca poderão efetuar a obra
que deve ser feita pela igreja” (Testemunhos Seletos, v 1, p. 455).
Essa mensagem é dirigida aos pastores, e se refere à pregação feita do púlpito.
Menciona a pregação como “uma pequena parte da obra a ser feita pela salvação
28 | Todos E n v ol vi do s na Missão

de almas”. Mas é Deus quem realiza o trabalho. Como? Pondo as pessoas nos bra­
ços da igreja. E conclui: “Os pastores [...] nunca poderão efetuar a obra que deve ser
feita pela igreja.” Não é necessário explicar que, quando a igreja é mencionada, não
se está falando da igreja como instituição, mas de cada um e de todos os crentes.
O trabalho do ministro é preparar, educar, ensinar, conscientizar, organizar,
inspirar e equipar os crentes para que cumpram seu dever. Isso é o que eles pre­
cisam fazer Esse é o meio criado por Deus para reproduzir neles o caráter de
Jesus Cristo e fazer com que reflitam Sua glória. Se o cristão não se envolve na
missão, está condenado à morte espiritual - como um bebê que não se mexe,
em pouco tempo se atrofia e morre

EXEMPLO DOS TESSALONICENSES


A respeito dos tessalonicenses Paulo escreveu: “Porque de vós repercutiu a
palavra do Senhor não só na Macedônia e Acaia, mas também por toda parte
se divulgou a vossa fé para com Deus, a tal ponto de não termos necessidade de
acrescentar coisa alguma” (1Ts 1:8).
É impressionante a consciência missionária dos tessalonicenses . Paulo tinha
levado a Palavra de Deus para eles, ensinando que, a fim de crescer na experiên­
cia cristã, deviam levar pessoas a Cristo E os tessalonicenses levaram isso tão
a sério que Paulo disse: “Não precisamos acrescentar coisa alguma, pois vocês
estão cumprindo a missão .” Não é maravilhoso? Sem dúvida, Paulo era um exce­
lente pastor Ele ensinava a igreja a testemunhar, e a igreja era excelente, pois
assumia sua responsabilidade missionária
O Espírito de Profecia reafirma esse conceito:

O apóstolo [Paulo] sentia-se responsável em grande medida pelo bem-estar espi­


ritual dos que se convertiam por seu trabalho. Seu desejo era que crescessem no
conhecimento do único verdadeiro Deus, e de Jesus Cristo, a quem Ele enviou. Não
raro, em seu ministério, reunia-se com pequenos grupos de homens e mulheres
que amavam a Jesus, inclinando-se com eles em oração, pedindo a Deus para lhes
ensinar como se manter em íntima comunhão com Ele Muitas vezes, tomava
conselho com eles sobre os melhores métodos de dar a outros a luz da verdade
do evangelho Muitas vezes, quando separado daqueles por quem assim havia
trabalhado, suplicava a Deus para que os guardasse do mal, e os ajudasse a se
manterem como missionários ativos e fervorosos (Atos dos Apóstolos, p. 262).
U ma N e c e s s i d a d e E s p i r i t u a l | 29

Observe que Paulo tinha consciência de que a única maneira dos novos
crentes permanecerem fiéis era compartilhando sua fé . Note o que ele fazia:
primeiramente, “sentia-se responsável em grande medida pelo bem-estar espi­
ritual dos que se convertiam por seu trabalho”. Em segundo lugar, desejava “que
crescessem no conhecimento do único verdadeiro Deus”.
Essas duas preocupações tinham que ver com a preparação da gloriosa
igreja de Jesus, e levavam Paulo a se prostrar em oração com eles para pedir
a Deus que os ensinasse como manter uma relação vital com Ele. E como se
mantinha essa relação vital? Primeiro, “tomava conselho com eles sobre os
melhores métodos de dar a outros a luz da verdade do evangelho”. E, segundo,
“quando separado daqueles por quem assim havia trabalhado, suplicava a
Deus para que os guardasse do mal, e os ajudasse a se manterem como missio­
nários ativos e fervorosos”. Paulo sabia que um cristão que não ora, não estuda
a Bíblia e não leva pessoas a Cristo não cresce, e caminha perigosamente rumo
à destruição .

FORTALECIMENTO DA FÉ
Na mente divina, a missão não é apenas um instrumento de crescimento
do crente, como também de fortalecimento espiritual. Ellen G. White declara:
“Deve fazer-se na igreja uma obra bem organizada, para que seus membros sai­
bam como comunicar a luz a outros e assim fortalecer a própria fé e aumentar
o seu conhecimento. Ao repartirem o que de Deus receberam, firmar-se-ão na
fé . A igreja que trabalha é igreja viva” (Serviço Cristão, p. 73).
Observe a relação entre “comunicar a luz a outros” e o fortalecimento da
própria fé Uma igreja que trabalha será sempre uma igreja viva
Não é esse o sonho divino?

MINHA VIDA NA MISSÃO


Todos Envolvidos na Missão significa compartilhar as boas-novas da sal­
vação em Jesus. Estas são algumas ideias para você se envolver pessoalmente:
1. Entregue um estudo bíblico para alguém .
2 . Apresente-se como voluntário para um seminário sobre saúde .
3. Organize consultas médicas gratuitas para a comunidade .
30 |

CAPÍTULO 3

O DISCIPULADO
NÃO PODEMOS FALAR DE DISCIPULADO SEM FALAR DE JESUS.
Ele fez discípulos e nos deu a ordem de fazer o mesmo . Antes de realizar mila­
gres e pregar, Jesus fez discípulos. No primeiro dia de Seu ministério, Ele cha­
mou João, André e Pedro. No dia seguinte, Felipe e Natanael. No terceiro dia,
nas bodas de Caná, Jesus estava presente com Seus discípulos .
Jesus começou Seu ministério formando discípulos. Não buscou somente
crentes ou membros da igreja. Buscou seguidores que deixaram tudo e se com­
prometeram com Ele .

O QUE É SER DISCÍPULO


Ser discípulo não é o mesmo que ser crente . O crente crê, assiste aos cultos,
canta, devolve o dízimo e nada mais . O discípulo, além de crer, segue a Jesus, se
compromete com Ele e forma novos discípulos
Nos tempos de Jesus, o Mestre e Seus discípulos viviam juntos . A formação
do discípulo não consistia apenas em apresentar uma série de estudos bíbli­
cos a um grupo de alunos. Requeria a convivência diária do Mestre com Seus
discípulos, andando, trabalhando, comendo - definitivamente, vivendo juntos .

“No ensino de Seus discípulos, o Salvador seguiu o sistema de educação


estabelecido no princípio Os primeiros doze escolhidos, juntamente com
alguns poucos que, ao terem suas necessidades atendidas, tinham de vez
em quando contato com eles, formavam a família de Jesus Estavam com
Ele em casa, à mesa, em particular e no campo . Acompanhavam o Mestre
em Suas viagens, participavam de Suas provações e dificuldades e, tanto
quanto lhes era possível, participavam de Seu trabalho. Às vezes, Ele os
ensinava enquanto se assentavam juntos na encosta das montanhas; outras,
O OlSCIFULADO I 31

junto ao mar ou de dentro do barco do pescador; e ainda outras vezes,


enquanto andavam pelo caminho . Sempre que Ele falava à multidão, os dis­
cípulos formavam a roda mais achegada. Espremiam-se ao lado Dele, para
que nada perdessem de Suas instruções. Eram ouvintes atentos, ávidos de
compreender as verdades que deviam ensinar em todas as terras e épocas”
(Educação, p. 84, 85).

DISCÍPULOS E DISCÍPULOS LÍDERES


O Novo Testamento, no entanto, ao falar dos discípulos, se refere a duas clas­
ses de seguidores: a dos discípulos e a dos discípulos líderes. Jesus, por exem­
plo, escolheu 12 discípulos, a quem formou para estabelecer Sua igreja. Era um
grupo seleto de pessoas a quem instruiu e formou pessoalmente . Foram neces­
sários três anos para fazê-lo . Mas, quando o Mestre morreu, eles estavam pron­
tos para cumprir a missão de estabelecer Sua igreja
Entretanto, o termo discípulo se refere também a todos os seguidores de
Jesus em geral, não unicamente aos discípulos líderes De maneira que o termo
“discípulo” se aplica aos alunos de um mestre, numa relação instrutor/aprendiz -
como fez Jesus com os Doze - ou aos que aceitam o evangelho e seguem a Jesus .
Nos tempos de Cristo, além dos Doze, havia outros seguidores de Jesus, entre os
quais, por exemplo, estavam os discípulos que se encontraram com Jesus depois
da ressurreição, no caminho para Emaús, e o grupo de mulheres seguidoras .

SEGUINDO O CORDEIRO
O apóstolo João descreve a cena dos remidos no Céu: “São eles os segui­
dores do Cordeiro por onde quer que vá São os que foram redimidos dentre
os homens, primícias para Deus e para o Cordeiro” (Ap 14:4). De acordo com
esse versículo, os remidos têm como principal característica ser seguidores do
Cordeiro São discípulos do Cordeiro Mas como poderão seguir o Cordeiro no
Céu se não aprenderam a segui-Lo na Terra?
Neste livro, usaremos a palavra discípulo para nos referir à pessoa que aceita
a Jesus e se dispõe a segui-Lo até o fim, formando outros discípulos no caminho .
Não é fácil formar um discípulo A maioria dos crentes se limita a ser uma espé­
cie de membro de algum clube religioso que se reúne aos sábados a fim de desfru­
tar de um bom programa espiritual e nada mais . No entanto, não é uma questão
de falta de vontade Creio que isso se deve à incompreensão da ordem divina
32 | Todos E n v o l v id o s na Missão

A ORDEM DIVINA
A ordem que o Mestre nos deu não se limita a pregar o evangelho e a bati­
zar, mas principalmente a fazer discípulos. “Ide, portanto, fazei discípulos de
todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo;
ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado . E eis que estou
convosco todos os dias até à consumação do século” (Mt 28:19, 20).
A maioria dos eruditos considera que o verbo imperativo desse texto é
o verbo “fazer”. Os demais verbos do texto giram em torno da ordem divina
- “fazer discípulos”. Ir, batizar e ensinar indicariam a maneira de cumprir a
ordem de “fazer discípulos”
Não se faz um discípulo numa campanha de evangelismo, tampouco com a
simples exposição de estudos bíblicos. Também não se faz discípulos em uma
semana ou um mês . Isso requer tempo e convivência. O discípulo é um ser em
permanente crescimento, e o crescimento não é um evento, e sim um processo

SELO DO MESTRE
Uma das principais características do discípulo é portar o selo do seu
Mestre, o discipulador. Jesus disse: “Basta ao discípulo ser como o seu mestre,
e ao servo, como o seu senhor” (Mt 10:25). No Novo Testamento, encontramos
260 vezes a palavra discípulo. Em muitas delas está expressa a ideia do discí­
pulo como seguidor e imitador do seu mestre
Quando Jesus chamou Seus discípulos, o fez para que fossem como Ele.
O verdadeiro discípulo é igual a seu mestre e faz o que seu mestre faz Paulo
chegou a ser um discípulo de Cristo e, depois, escreveu aos coríntios: “Sede
meus imitadores, como também eu sou de Cristo” (1Co 11:1). Aos filipenses,
ele afirmou: “Irmãos, sede imitadores meus [. . .] segundo o modelo que tendes
em nós” (Fp 3:17).
Para que Paulo se atrevesse a fazer tal declaração, ele tinha uma convicção:
“Já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim” (Gl 2:20). Como Paulo
chegou a ter essa experiência? Por meio do companheirismo diário com Jesus.
Não era um companheirismo corpóreo como os primeiros Doze tiveram, mas
o mesmo companheirismo diário que podemos cultivar com Jesus, embora não
O vejamos com os olhos físicos . “E todos nós, com o rosto desvendado, contem­
plando, como por espelho, a glória do Senhor, somos transformados, de glória
em glória, na Sua própria imagem, como pelo Senhor, o Espírito” (2Co 3:18)
O DisciFÜLADo | 33

O discípulo vive uma experiência diária de transformação, experiência


que não se limita à emoção, uma vez que é prática. Envolve o estudo diário da
Bíblia, a oração constante e o testemunho. Testemunhar é formar outro discí­
pulo. Quando essa experiência de comunhão diária com Cristo chega a ser uma
realidade, ocorre o que diz o Espírito de Profecia:

Ao nos sujeitarmos a Cristo nosso coração se une ao Seu, nossa vontade


imerge em Sua vontade, nossa mentalidade torna-se uma com a Dele,
nossos pensamentos serão levados cativos a Ele; vivemos Sua vida (Mente,
Caráter e Personalidade, v. 1, p. 186). Quando o próprio eu é submerso em
Cristo, o verdadeiro amor brota espontaneamente. Não é uma emoção
ou impulso, mas sim a decisão de uma vontade santificada (ibid., p. 206).

Só então o sonho divino de ver Sua igreja iluminando o mundo com a gló­
ria do Senhor será uma realidade, pois:

O mundo precisa de evidências de cristianismo sincero. Professo cris­


tianismo pode-se ver por toda a parte; mas quando o poder de Deus for
visto em nossas igrejas, os membros farão as obras de Cristo. Os traços de
caráter naturais e hereditários serão transformados. A habitação de Seu
Espírito os habilitar a revelar a semelhança de Cristo, e o êxito de seu tra­
balho será proporcional à pureza de sua piedade (Testemunhos Para Mi­
nistros, p. 416).

ESTAR COM CRISTO


Por essa razão, quando Jesus chamou Seus primeiros discípulos, Ele
“designou doze para estarem com Ele e para os enviar a pregar” (Mc 3:14).
Note os dois desafios do discípulo: primeiro, estar com o seu Mestre; depois,
pregar. Primeiro, ser; depois, fazer. Ao estar com o Mestre, o caráter de Jesus
seria reproduzido no discípulo, e as pessoas veriam a glória e o caráter de
Jesus na vida de Seus discípulos. Então, o cumprimento da missão não con­
sistiria na simples exposição de um corpo doutrinário, mas na revelação do
caráter de Jesus ao mundo.
“A última mensagem de graça a ser dada ao mundo é uma revelação
do caráter do amor divino. Os filhos de Deus devem manifestar Sua glória.
34 | Todos E n v o l v id o s na Missão

Revelarão em sua vida e caráter o que a graça de Deus por eles tem feito”
(Parábolas de Jesus, p. 415, 416).
Essa é a verdadeira missão.
“Temos de sair e proclamar a bondade de Deus, tornando evidente Seu ver­
dadeiro caráter perante as pessoas. Devemos refletir Sua glória. Fizemos isto no
passado? Temos revelado o caráter de nosso Senhor por preceito e exemplo?”
(Fé e Obras , p. 61).
Naturalmente, “revelar o caráter de Jesus” não é expor uma simples teoria.
As pessoas precisam ver Jesus na vida de Seus discípulos. Eles são o sal da terra.
O sal não faz nada para dar sabor aos alimentos. Ele simplesmente é sal. Os dis­
cípulos são a luz do mundo. A luz não precisa fazer nada para iluminar; é só
ser luz. Ellen G. White escreveu: “Temos o dever de refletir o caráter de Jesus.
Deveríamos deixar que a maravilhosa imagem de Jesus aparecesse por todas
as partes, seja na igreja, seja em nossos lares ou em alguma reunião social com
nossos vizinhos” (Signs o f the Times, 18 de agosto de 1887).

COMO SE FORMARAM OS PRIMEIROS LÍDERES


A pergunta que devemos responder a esta altura é a seguinte: Como se
forma um seguidor de Cristo? Como se fazem discípulos? Vejamos as instru­
ções de Jesus: “Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os
em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas
as coisas que vos tenho ordenado. E eis que estou convosco todos os dias até à
consumação do século” (Mt 28:19, 20).
Esse texto apresenta três ações indispensáveis na formação de um discí­
pulo: buscar, batizar e ensinar. Tudo isso demanda tempo. Não se busca em um
minuto. Buscar requer paciência. Tampouco se ensina em um dia. O ensino é
um processo. Tem início, mas não fim. Um discípulo nunca termina de se for­
mar. Vive em permanente desenvolvimento. Paulo dizia que ele mesmo não
pretendia ter alcançado a meta final.
Quando formou Seus primeiros discípulos, Jesus nos ensinou algo que
não devemos esquecer. Os novos discípulos, depois de se encontrarem com
o Mestre, saíram a “buscar”. Cada um partiu em busca de outra pessoa para
levá-la a Jesus. Observe a dinâmica do testemunho apresentada por João: “No
dia seguinte, estava João outra vez na companhia de dois dos seus discípulos e,
vendo Jesus passar, disse: Eis o Cordeiro de Deus!” (Jo 1:35, 36).
O Ol SCI FULADO | 35

NÃO EXISTE DISCIPULADO CRISTÃO SEM CRISTO


Note que João Batista exaltou a Jesus . Não existe discipulado cristão sem
Cristo . Jesus disse: “E Eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a Mim
mesmo” (Jo 12:32). Se você deseja formar um discípulo, a primeira coisa que
precisa é fazer com que aquela pessoa se apaixone por Jesus . E qual foi o
resultado da atitude de João? “Os dois discípulos, ouvindo-o dizer isto, segui­
ram Jesus” (Jo 1:37).
“Segui-Lo” será sempre o resultado de exaltar ao Senhor. Quando Jesus
é exaltado diante dos homens, ninguém resiste . No Mestre da Galileia, há
uma atração maravilhosa, a qual derrete os corações . Ninguém discute nem
argumenta. As pessoas simplesmente caem a Seus pés e O aceitam como seu
Salvador. Foi isso que os discípulos de João fizeram: eles O seguiram e ficaram
com Jesus. Eles nasceram no Reino de Deus . Descobriram o amor de sua vida
e não puderam permanecer calados . Precisaram compartilhar o que descobri­
ram fazendo outros discípulos
Por quê? A razão é simples: “Todo verdadeiro discípulo nasce no reino de
Deus como missionário. Aquele que bebe da água viva faz-se fonte de vida.
O depositário torna-se doador. A graça de Cristo no coração é uma vertente
no deserto, fluindo para refrigério de todos, e tornando os que estão quase a
perecer, ansiosos de beber da água da vida” (O Desejado de Todas as Nações,
p. 195).
Missionário é aquele que cumpre a missão Esse é o “verdadeiro discípulo”
Ele não pode permanecer em silêncio Precisa compartilhar Jesus
O texto bíblico continua relatando que “era André, o irmão de Simão
Pedro, um dos dois que tinham ouvido o testemunho de João e seguido Jesus
Ele achou primeiro o seu próprio irmão, Simão, a quem disse: Achamos o
Messias (que quer dizer C risto)” (Jo 1:40, 41). André primeiro achou Pedro.
O verbo-chave é “achar”. Não se pode achar o que não se está procurando .
André procurou Pedro A maravilha do seu descobrimento foi tão grande
que André não pôde permanecer calado . Ele saiu à procura de outro para
transformá-lo em discípulo de Jesus A quem poderia procurar? André
procurou Pedro Este, além de ser seu irmão, era seu colega de trabalho
Ambos eram pescadores Está provado que o testemunho de um conhecido
é mais efetivo que o de um desconhecido Esse era o plano do discipulado
na mente de Cristo
36 | Todos E n v o l v id o s na MissÃo

CUMPRIR A MISSÃO NÃO É FAZER PROSELITISMO


Cumprir a missão não é tentar fazer as pessoas saírem de suas igrejas e
virem para a nossa. Não é levar as pessoas a mudarem de religião, mas de vida.
Estar na igreja é o resultado natural da mudança de vida. As pessoas que esta­
vam com a vida e o lar destruídos, que não sabiam o que fazer nem aonde ir,
que passavam noites inteiras sem dormir por causa do vazio interior e, um dia,
se encontram com Jesus não podem permanecer em silêncio. Elas saem e con­
tam o que aconteceu com elas . É um impulso nascido do amor, uma motivação
que brota de uma nova perspectiva da vida
O relato bíblico nos ensina a forma com que Deus queria evangelizar o
mundo . Se tivéssemos seguido o exemplo bíblico, o mundo já estaria evangeli­
zado, toda tribo, língua e povo já conheceria o plano de salvação, e Jesus já teria
voltado Não estaríamos mais peregrinando por este mundo de dor e morte
“Caso houvesse sido executado o propósito divino de transmitir ao mundo a
mensagem da misericórdia, Cristo já teria vindo à Terra e os santos teriam recebido
as boas-vindas na cidade de Deus” (Testemunhos Seletos, v 3, p. 72).

LEVANDO PESSOAS A JESUS


A missão do cristão é levar discípulos em potencial a Jesus O Senhor da sal­
vação toca o coração e converte as pessoas. Mas tem de haver um André que,
consciente de sua missão, procure um Pedro e o leve a Jesus.
“Em Sua sabedoria, o Senhor põe os que estão à procura da verdade em
contato com seus semelhantes que a conhecem É plano do Céu que os que re­
ceberam a luz a comuniquem aos que se acham em trevas” (Atos dos Apósto­
los, p. 134).
O texto bíblico segue relatando o que aconteceu quando André conduziu
Pedro a Jesus: “E o levou a Jesus . Olhando Jesus para ele, disse: Tu és Simão, o filho
de João; tu serás chamado Cefas (que quer dizer Pedro)” (Jo 1:42). Em uma só
frase, o Senhor descreveu o passado, o presente e o futuro de Pedro Eu conheço
suas raízes, Ele disse: “Tu és filho de João.” Mas também conheço seu presente:
“Tu és Simão .” Entretanto, o que realmente importa é o que chegará a ser, transfor­
mado por Minha graça: “Tu serás chamado Cefas (que quer dizer Pedro) ”
Aquele encontro com Jesus mudou a vida de Pedro O irmão de André
saiu dali com o coração explodindo de felicidade, com uma nova visão da
vida e desejoso de contar a outros o que Jesus tinha feito em sua vida. E o que
O Ol SCI FULADO I 37

ele fez? Procurou uma pessoa estranha a fim de contar-lhe sobre seu maravi­
lhoso encontro com Jesus? Não. As pessoas estranhas dificilmente estão inte­
ressadas no que ocorre na vida de desconhecidos . Cada um está ocupado com
seus próprios problemas.
Pedro não procurou um estranho . O texto não diz isso explicitamente, mas o
contexto, sim . “No dia imediato, resolveu Jesus partir para a Galileia e encontrou
a Filipe, a quem disse: Segue-Me. Ora, Filipe era de Betsaida, cidade de André
e de Pedro” (Jo 1:43). Essa última frase explica tudo. “Filipe era de Betsaida,
cidade de André e de Pedro.” O que João quis dizer?
Betsaida era uma região pequena Nos arredores estava Cafarnaum, que
também era uma cidade pequena Nas cidades pequenas, todos se conhecem
Pedro e Filipe eram vizinhos E o que fazem as pessoas que aceitam Jesus como
seu Salvador?
“No círculo familiar, no lar do vizinho, à cabeceira do doente, de maneira
tranquila podeis ler as Escrituras e falar acerca de Jesus e da verdade” (Testemu­
nhos Seletos, v 3, p. 62).
Então, Pedro procurou seu vizinho Filipe e falou para ele sobre sua grande
descoberta. O resultado foi a conversão de Filipe, com quem também acon­
teceu o que acontece com toda pessoa que se converte . “O primeiro impulso
do coração regenerado é levar outros também ao Salvador” (O Grande Con­
flito, p.7 0 ).
Note o que Filipe fez para testemunhar: “Filipe encontrou a Natanael e disse-
lhe: Achamos Aquele de quem Moisés escreveu na lei, e a quem se referiram os
profetas: Jesus, o Nazareno, filho de José” (Jo 1:45).
“Filipe sabia que seu amigo estava examinando as profecias, e enquanto
Natanael orava sob uma figueira, descobriu-lhe o retiro Muitas vezes haviam
orado juntos nesse isolado lugar, ocultos pela folhagem” (O Desejado de Todas
as Nações, p 140)
Repare nas expressões “amigo” e “orado juntos”. Isso é fundamental. É aqui
que encontramos o conceito do discipulado: a amizade; um amigo que conta
para o outro o que Jesus fez em sua vida
Foi assim que começou a ser divulgado o evangelho e a se formar a igreja
cristã Se quisermos terminar a missão, precisamos também ensinar a cada
crente como buscar um parente, um conhecido, um colega de trabalho ou um
amigo, e fazer dessa pessoa um discípulo
38 | Todos E n v o l v id o s na Missão

O Espírito de Profecia afirma:

Com a vocação de João, André e Simão, Filipe e Natanael, começou o funda­


mento da igreja cristã. João dirigiu dois de seus discípulos a Cristo. Então, um
deles, André, achou a seu irmão e chamou-o para o Salvador. Foi logo chamado
Filipe, e este foi em busca de Natanael. Esses exemplos nos devem ensinar a
importância do esforço pessoal, de fazer apelos diretos a nossos parentes, ami­
gos e vizinhos. [. ..] Na própria família, na vizinhança, na cidade em que resi­
dimos, há trabalho para fazermos como missionários de Cristo (ibid. , p. 141) .

Em 1886, Ellen G . White disse: “É muito difícil conseguir alguma influência


sobre o povo. A única maneira que achamos bem-sucedida é a de dar estudos
bíblicos, começando-se assim o interesse com uma, duas ou três pessoas; então
estas visitam outras e buscam interessá-las, e assim o trabalho caminha lenta­
mente como se deu em Lausanne” (Evangelismo, p. 410).
A expressão “estas [pessoas] visitam outras e buscam interessá-las” é mais
que interessante . Ellen G . White também seguiu a dinâmica do testemunho ins­
tituída por Jesus: um cristão que procura outra pessoa e a leva a Jesus . Muitas
vezes, ela enfatizou essa maneira de cumprir a missão:

Muitos há que necessitam do serviço de amoráveis corações cristãos.


Têm-se imergido na ruína muitos que poderiam ter sido salvos, houvessem
seus vizinhos, homens e mulheres comuns, se esforçado em benefício deles
Muitos há à espera de que alguém se lhes dirija pessoalmente . Na própria
família, na vizinhança, na cidade em que residimos, há trabalho para fazer­
mos como missionários de Cristo (O Desejado de Todas as Nações, p. 141).

FORMAÇÃO DE DISCÍPULOS
A ideia central do discipulado cristão é a relação próxima de cada crente
com a pessoa a quem deseja fazer um discípulo Numa campanha evangelística,
é possível conseguir novos crentes, mas não novos discípulos Nosso desafio é
preparar discípulos para se encontrarem com Jesus Os discípulos fazem parte
da igreja gloriosa que Jesus vem buscar Formar um discípulo requer um tra­
balho de pessoa para pessoa Cada cristão forma outro cristão, ensinando não
apenas conceitos doutrinários, mas um estilo de vida
O Dl SCI PULADO | 39

DISCÍPULOS DISCIPULADORES
Falemos agora da necessidade de discípulos formadores de discípulos.
Mateus relatou o seguinte: “Vendo Ele as multidões, compadeceu-se delas, por­
que estavam aflitas e exaustas como ovelhas que não têm pastor. E, então, Se
dirigiu a Seus discípulos: A seara, na verdade, é grande, mas os trabalhadores
são poucos. Rogai, pois, ao Senhor da seara que mande trabalhadores para a
Sua seara” (Mt 9:36-38).
Essas palavras de Jesus são interessantes . Existe muita necessidade espiri­
tual no mundo - gente que nasce e morre sem nunca ter ouvido as boas-novas
do evangelho. Atualmente, há cerca de 20 milhões de adventistas em todo o
mundo Mas, se apenas dois milhões se transformassem em discípulos forma­
dores de discípulos, em pouco tempo os sete bilhões de habitantes do planeta
estariam evangelizados . O problema é que a maioria da igreja se limita a ser
somente crente . Não são discípulos que formam discípulos . São meros especta­
dores de um programa sabático . Julgam e avaliam o programa, aprovando-o ou
desaprovando-o. Contribuem com seus dízimos e ofertas, mas, infelizmente,
não estão comprometidos com a missão .
O problema não é de hoje. Já nos tempos de Cristo, Ele dizia que a seara era
grande e os trabalhadores, poucos . Temos muitos membros, mas poucos discí­
pulos. Você não acha que chegou a hora de mudar o rumo das coisas?

MINHA VIDA NA MISSÃO


Todos Envolvidos na Missão implica mostrar Cristo como nosso melhor
Amigo para nossos amigos Estas são algumas ideias para você se envol­
ver pessoalmente:
1. Organize um almoço de Escola Sabatina em sua casa.
2 Convide vizinhos e amigos para comer em sua casa
3. Organize um pequeno grupo para causar impacto em sua comunidade.
40 |

CAP 4

COMO SE FORMA UM DISCÍPULO


PARTE I
O DISCÍPULO NÃO NASCE FEITO . ELE SE FORMA. E A FORMAÇÃO
de um discípulo não é missão impossível . Tampouco é um mistério . É simples,
se prestarmos atenção aos ensinamentos divinos . O Senhor não somente nos
confiou a missão de fazer discípulos, como também nos ensinou a maneira
de fazê-lo .
As dificuldades aparecem quando nos esquecemos das instruções divi­
nas e tratamos de criar nossos métodos humanos e “revolucionários” para
batizar todo mundo, crendo que “fazer discípulos” é aumentar o número de
membros
“A comissão divina não necessita de nenhuma reforma. A maneira de Cristo
pregar a verdade não pode ser aperfeiçoada” (Conselhos Para a Igreja, p. 315).

O QUE O MESTRE ENSINOU?


Voltemos ao tempo de Jesus. Depois da crucifixão, os discípulos estavam
escondidos, com medo de cumprir a missão. Perguntavam-se como poderiam
fazer discípulos em todas as nações, se estes estavam sendo perseguidos. Foi
quando Jesus Se apresentou diante deles
João relatou: “Ao cair da tarde daquele dia, o primeiro da semana, trancadas
as portas da casa onde estavam os discípulos com medo dos judeus, veio Jesus,
pôs-Se no meio e disse-lhes: Paz seja convosco! E, dizendo isto, lhes mostrou as
mãos e o lado Alegraram-se, portanto, os discípulos ao verem o Senhor Disse-
lhes, pois, Jesus outra vez: Paz seja convosco! Assim como o Pai Me enviou, Eu
também vos envio” (Jo 20:19-21).
C o m o se F o r m a um D i s c í p u l o - Pa r t e I l 41

COMO O PAI ME ENVIOU


Essa última declaração contém o segredo para a formação de novos dis­
cípulos: “Assim como o Pai Me enviou, Eu também vos envio.” Como o Pai
enviou a Jesus Cristo? João explicou: “E o Verbo Se fez carne e habitou entre
nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a Sua glória, glória como do Unigénito
do Pai” (Jo 1:14). O Verbo que Se fez carne é Jesus . “No princípio era o Verbo,
e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus” (Jo 1:1). Entretanto, para que
os seres humanos pudessem ver a glória do Pai, foi necessário que o Verbo Se
fizesse carne
Ellen G. White confirmou esse conceito: “Cristo tomou sobre Si a huma­
nidade, a fim de chegar à humanidade. A divindade necessitava da humani­
dade; pois era necessário tanto o divino como o humano para trazer salvação
ao mundo A divindade necessitava da humanidade, a fim de que esta propor­
cionasse meio de comunicação entre Deus e o homem” (O Desejado de Todas
as Nações, p. 296).
Precisamos pensar repetidas vezes na maneira pela qual Jesus cumpriu a
missão . “Cristo tomou sobre Si a humanidade, a fim de chegar à humanidade .”
Por qué? Desprovida de humanidade, a palavra fica só no mundo das ideias
É preciso que as ideias maravilhosas do evangelho deixem de ser simplesmente
palavras e se transformem em vida. Assim como o Filho - a Palavra - Se fez
carne em Jesus, também a palavra/mensagem precisa se fazer carne e realidade
na vida dos discípulos de Jesus

HABITOU ENTRE OS PECADORES


Jesus cumpriu a missão ao vir a este mundo para habitar entre os seres
humanos caídos Ele não pregou Seu evangelho a partir do Céu, mas veio a este
mundo sem medo de Se contaminar com o pecado Desceu das alturas imacula­
das, viveu neste mundo mau, mas não pecou E nos disse que, assim como o Pai
O havia enviado, Ele também nos envia
Ele nos enviou ao mundo, mas nos advertiu de que Seu reino não é deste
mundo: “Não ameis o mundo nem as coisas que há no mundo” (1Jo 2:15). No
entanto, nos pediu que fôssemos ao mundo e fizéssemos discípulos em todas as
nações, tribos, línguas e povos.
Como entender essa aparente contradição? O próprio Mestre explicou em
Sua oração intercessória: “Não peço que os tires do mundo, e sim que os guardes
42 | Todos E n v o l v id o s na Missão

do mal” (Jo 17:15). Nossa missão deve ser cumprida neste mundo assim como
Jesus a cumpriu . Ele Se fez carne e habitou entre os homens . Não Se isolou . Não
foi um ermitão que viveu nas montanhas .
Ele buscou os montes para orar a sós, mas voltou imediatamente ao vale,
onde as pessoas se encontravam . Era ali que estava Sua missão . Não há maneira
de cumprir a missão se ficarmos fechados na igreja. É preciso sair e buscar os
perdidos onde eles estão; e eles estão no mundo de pecado.

Cristo nos deu um exemplo disto . Quando convidado a comer com


publicanos e pecadores, não Se recusava; pois de nenhum outro modo,
senão misturando-Se com eles, poderia chegar a essa classe . Mas, em
toda ocasião [. . . ] puxava temas de conversação que lhes apresentavam
ao espírito os interesses eternos . E Ele nos ordena: “Assim resplandeça a
vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras, e glo­
rifiquem o vosso Pai, que está nos Céus” (Obreiros Evangélicos, p . 394).

Buscar os pecadores “onde eles se encontram” faz parte da missão . É preciso


se relacionar com eles na vida cotidiana para que eles possam ver em nós a gló­
ria de Deus e se sintam atraídos a Jesus.
“A associação com os descrentes não nos causará dano se nos relacionar­
mos com eles no intuito de uni-los a Deus, e formos suficientemente fortes
para evitar sua influência” (Conselhos Para a Igreja, p. 320).

CONSCIENTIZE-SE DA SUA MISSÃO PESSOAL


Antes de sair ao mundo para buscar novos discípulos, cada membro da
igreja, cada crente deve se transformar em um discípulo formador de discípu­
los A missão que Cristo nos confiou é pessoal
“Os homens são instrumentos nas mãos de Deus, por Ele empregados para
cumprirem Seus propósitos de graça e misericórdia Cada um tem a sua parte
a desempenhar; a cada qual é concedida uma porção de luz, adaptada às neces­
sidades de seu tempo, e suficiente para o habilitar a efetuar a obra que Deus lhe
deu a fazer” (O Grande Conflito, p. 343).
A instrução divina é clara: “Cada um tem a sua parte a desempenhar”;
“a cada qual é concedida uma porção de luz”. As expressões “cada um” e “cada
qual” retratam a ideia divina de que não deve haver um crente sequer que se
C o m o se F o r m a um D i s c í p u l o - Pa r t e I l 43

limite a ser um mero crente, e sim assumir sua missão pessoal de conduzir pes­
soas a Jesus.

CONHEÇA AS PESSOAS
Se a missão que Jesus nos confiou deve ser realizada entre os seres huma­
nos, precisamos conhecer o homem e a mulher de nossos dias . Como pensam?
O que os motiva a tomar decisões? Quais são suas preocupações? Se não puder­
mos responder a essas perguntas, como nos aproximaremos deles?
“Tratar com mentes humanas é a mais delicada obra que possa ser feita”
(Mente, Caráter e Personalidade, v 1, p. 190).
Para isso, é necessário conhecer a cultura das pessoas: caminhar pelas ruas,
usar os meios de transporte, entrar nos mercados, conversar com elas, ver o que
elas veem e ouvir o que elas ouvem. Mas isso não basta. É necessário também
amar as pessoas e sentir compaixão por elas

AME AS PESSOAS
“Deus é amor”, afirmou João . O amor é a essência do próprio ser. Não
existe amor sem Deus, nem Deus sem amor. Para nós, são dois conceitos
separados Para João, é um só O amor é a motivação de todas as ações divi­
nas, desde a criação até a redenção . “De longe Se me deixou ver o Senhor ,
dizendo: Com amor eterno Eu te amei; por isso, com benignidade te atraí”
(Jr 31:3). Foi por amor que Deus estabeleceu Sua igreja . “Cristo amou a igreja
e a Si mesmo Se entregou por ela, para que a santificasse, tendo-a purifi­
cado por meio da lavagem de água pela palavra, para a apresentar a Si mesmo
igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, porém santa e
sem defeito” (E f 5:25-27).
Se Deus é amor, qual é a igreja de Deus na Terra? Evidentemente, é aquela
formada por Seus discípulos Mas qualquer ser humano poderia dizer que é
discípulo de Jesus Como o mundo saberá quem são Seus verdadeiros discípu­
los? O próprio Jesus respondeu: “Nisto conhecerão todos que sois Meus discí­
pulos: se tiverdes amor uns aos outros” (Jo 13:35).
A igreja de Deus é a igreja do amor. O amor é sua principal característica.
Por amor a Deus, siga Suas instruções e conselhos; e por amor aos seres huma­
nos, vá ao mundo do desamor a fim de levar as pessoas para Jesus
44 | Todos E n v o l v id o s na MissÃo

MISSÃO DE AMOR
Existe um mundo que sofre fora do círculo do amor. Gente que vive
num ambiente de violência, injustiça, mentira, abuso e exploração . As pes­
soas desejam desesperadamente ser felizes, mas se tornam cada vez mais
infelizes e desesperadas. Vagam por aí, sedentas de alma, à procura do pra­
zer, enganando-se a si mesmas e caminhando dolorosamente para a morte .
No entanto, Deus as ama. Ele declarou: “Acaso, tenho Eu prazer na morte
do perverso? [. . . ] Não desejo Eu, antes, que ele se converta dos seus cam i­
nhos e viva?” (Ez 18:23). O que Deus faz para resgatar essas pessoas da morte
e trazê-las para o círculo do amor? Ele envia os agentes do amor - Seus discí­
pulos - , aqueles que, um dia, foram encontrados por Jesus e transformados
pelo amor. Eles devem entrar no círculo do desamor com o instrumento do
amor e resgatar essas pessoas, levando-as para a igreja do amor. Essa é a m is­
são . “Vão ao mundo do desamor e tragam Meus filhos para a igreja do amor.”
“Quando Cristo disse aos discípulos: ‘Ide’ em Meu nome ajuntar na igreja
todos quantos crerem, deixou claro perante eles a necessidade de manterem
a simplicidade . Quanto menor fosse a ostentação e exibicionismo, maior
seria sua influência para o bem Os discípulos deviam falar com a mesma
simplicidade com que Cristo havia falado Deviam imprimir no coração
dos ouvintes as mesmas lições que [Cristo] lhes havia ensinado” (Atos dos
Apóstolos, p. 28).
No entanto, o que fazemos? Saímos levando uma doutrina seca, despro­
vida de amor, crendo que a missão é convencer as pessoas de que estão erra­
das “Esta é a verdade”, dizemos a elas, e muitas vezes somos cruéis em nome
da verdade . Ferimos sentimentos . Não respeitamos as convicções alheias.
Parecemos um trator que arrasa tudo o que encontra à sua frente. Mas encon­
tramos pedras enormes, dificuldades, obstáculos intransponíveis, e desanima­
mos, crendo que no tempo em que vivemos é muito difícil cumprir a missão .
A esse respeito, Ellen G . White aconselhou:

Quando trabalhais em um lugar onde as almas estão apenas começando


a remover dos olhos as escamas, [. . . ] sede muito cuidadosos para não
apresentardes a verdade de modo que desperte preconceito, e feche a
porta do coração para a verdade Concordai com o povo em todos os
pontos em que podeis coerentemente assim fazer Vejam eles que amais
C o m o se F o r m a um D i s c í p u l o - Pa r t e I l 45

sua alma, e quereis, tanto quanto possível, estar em harmonia com eles
(Evangelismo, p. 140, 141).

Se desejamos cumprir a missão de amor que Jesus nos confiou, devemos


seguir as instruções inspiradas: “Oh, se eu pudesse inspirar a todos quanto à
necessidade de trabalhar com o espírito de Jesus, pois foi-me mostrado que, na
Europa, algumas almas se afastaram da verdade por falta de tato e habilidade
quando a apresentaram” (Citação feita por D. A. Delafield em Ellen G. White
in Europe, p. 69).

BUSQUE CINCO PESSOAS


Não é possível formar novos discípulos sem saber quem você deseja
levar a Jesus . Nenhum trabalho feito sem intencionalidade obtém resulta­
dos A melhor maneira de chegar a lugar nenhum é não saber aonde se vai
Portanto, escolha entre os seus vizinhos, familiares, colegas de trabalho ou
de estudo, cinco pessoas a quem você se proponha levar Jesus Não é preciso
que sejam seus amigos, a princípio. Mas são pessoas com as quais é mais fácil
se relacionar. Aproxime-se delas com o propósito de transformá-las em dis­
cípulos de Cristo
Por que devem ser cinco? Porque, à medida que o tempo passa, uma ou
mais desanimarão, ou simplesmente não mostrarão o menor interesse, ainda
que você faça o possível para conquistá-las Se começar só com uma e essa
desanimar, você ficará frustrado. Por isso, escolha cinco. À medida que elas se
tornarem discípulos de Jesus, você as substitui por outras cinco . Mas você deve
manter sempre um sementeiro de discípulos em perspectiva.

ORE, ORE E ORE


A conversão é obra do Espírito Santo Portanto, ore, ore e ore Não canse
de orar, ainda que você ache que não há progresso O Espírito de Deus está
trabalhando de maneira invisível e, em um momento inesperado, você terá
uma surpresa
Conheci uma senhora que trabalhou pela conversão do esposo durante
30 anos . Aquele homem parecia ter um coração de pedra. Ela fazia tudo o
que podia para alcançar o coração dele com o evangelho, mas nada parecia
dar resultado
46 | Todos E n v o l v id o s na Missão

Um dia, ela se aproximou de mim com um sorriso exuberante e me disse:


- Pastor, meu esposo finalmente se converteu.
- Mas como aconteceu esse milagre? - eu perguntei
Sua resposta foi simples:
- Durante 30 anos eu falei de Jesus para meu esposo, e nada acontecia. Mas,
no último ano, comecei a falar de meu esposo para Jesus, e ele se converteu .
Não adiantará nada sair correndo em busca de pessoas se você não com e­
çar a orar. Ore todos os dias pelas pessoas que deseja levar a Jesus . A oração
intercessória, além de ajudar a pessoa pela qual você está orando, faz bem
a você
As circunstâncias adversas pelas quais Jó passava mudaram quando ele
começou a orar por seus amigos. “Mudou o Senhor a sorte de Jó, quando este
orava pelos seus amigos; e o Senhor deu-lhe o dobro de tudo o que antes pos­
suíra” (Jó 42:10).

O Senhor retirou a aflição de Jó quando ele orou não só por si mesmo, mas
também pelos que se opunham a ele. Quando desejou ferventemente que as
pessoas que haviam pecado contra ele fossem ajudadas, [então] ele mesmo
recebeu ajuda Oremos não só por nós mesmos, mas também pelos que
fizeram mal e continuam nos prejudicando Ore e ore, sobretudo mental­
mente. Não dê descanso ao Senhor, pois os Seus ouvidos estão abertos para
ouvir as orações sinceras, insistentes, quando a alma se humilha diante Dele
(Ellen G . White, La Oración, p. 291).

CASO PRÁTICO
A viúva de Jacinto Riquelme morava com o filho numa casa com telhado
de amianto A vizinhança comentava que seu esposo tinha sido assassinado
por inimigos do narcotráfico Rosário, porém, a viúva jovem e bonita, não se
importava com esses comentários Sua única certeza era que seu esposo havia
morrido, e ela tinha que lutar para educar seu filho de cinco anos
Depois de muita procura, conseguiu trabalho como costureira na fábrica
de calças do senhor Gilberto Assim chamavam os empregados ao quarentão de
prematuros cabelos grisalhos, solteiro, que morava com a mãe numa casa loca­
lizada em um dos bairros nobres da cidade Diziam as más línguas que Gilberto
estava louco para formar uma família, mas que a mãe não deixava
C o m o se F o r m a um D i s c í p u l o - Pa r t e I l 47

- Por que meu menino tem que ser cuidado por outra mulher, se a mãe dele
ainda está viva? - dizia dona Ramona para suas amigas, ao se reunirem sema­
nalmente na paróquia para planejar as obras de beneficência social.
Dona Ramona era uma beata típica que vivia em função das obras de cari­
dade de sua igreja. Não entendia nada da Bíblia - jamais a havia lido - mas
a levava de um lado para o outro, aparentando ser uma profunda conhece­
dora dos mistérios divinos . Obesa, de cabelos longos, brancos, cuidadosamente
amarrados num coque, a senhora tinha herdado do esposo a fábrica de calças,
agora administrada por seu único filho. Era uma mulher de convicções pro­
fundas, dominadora, dona da verdade, autoritária. Ai daquele que se atrevesse
a atravessar seu caminho!
Quando soube que o seu “menino” andava de asas arriadas pela viúva, dei­
xou reluzir sua natureza de leoa defensora do seu filhote .
- Saia do meu caminho! Deixe meu filho em paz! - gritou para a jovem
viúva, à porta da fábrica, certa tarde, na frente das outras operárias .
Entretanto, ela não conhecia Rosário Por trás daquela figura frágil se
escondia uma moça teimosa e corajosa. Tão teimosa, que tinha se casado com
seu primeiro esposo contra a vontade dos seus pais; e tão corajosa, que estava
disposta a remover qualquer pedra do seu caminho, mesmo que essa pedra se
chamasse Ramona
O charmoso solteirão, filho da dona Ramona, não era de se jogar fora.
Ninguém podia dizer que era feio, mas um homem que, aos 40 anos, não era
capaz de ser independente da mãe não poderia ser um esposo ideal, muito
menos se possui o terrível defeito da avareza
Vestia roupas humildes, compradas pela mãe . O único par de sapatos,
marrons, já tinha mais de quatro anos de uso Ele não escondia sua mesqui­
nhez: contava cada centavo, e ficava doente cada fim de mês ao pagar o salá­
rio dos seus empregados . Fora isso, Gilberto era uma boa pessoa e, por causa
de seu dinheiro, um pretendente que qualquer mulher desejaria; aliás, qual­
quer mulher decidida como Rosário, pois era preciso ter garra para enfrentar a
temida sogra. Mas Rosário era Rosário, uma mulher que, além de corajosa, se
considerava protegida pela Virgem do Rosário, em cuja homenagem lhe fora
dado seu nome
A princípio, o pretendido romance entre o patrão e a funcionária não
passava de mera fofoca Talvez porque Gilberto fosse um solteiro cobiçado;
48 | Todos E n v o l v id o s na Missão

e Rosário, uma viúva jovem e bonita. Mas, com o tempo, as fofocas foram se
transformando em realidade. Um dia, Gilberto se declarou.
- Você e eu poderíamos formar uma família feliz, e eu ajudaria você a criar
o pequeno Jacinto.
- Mas, senhor Gilberto, com todo respeito, o senhor não sai da barra da saia
de sua mãe . Quem tem que escolher uma esposa para o senhor é ela.
- Sei disso . Também sei que ela não gosta de você . Melhor dizendo, ela não
gosta de ninguém, e eu preciso formar uma família. Gosto de você .
A partir daquele dia, a chama da cobiça se acendeu no coração de Rosário,
e ela começou a conquistar deliberadamente o coração do pobre Gilberto, até o
ponto de levar o quarentão a adoecer de amor. Ele já não comia, e passou dois
dias seguidos na cama, sem vontade de se levantar
Dona Ramona, preocupada com a situação do filho, procurou um médico,
o sacerdote da paróquia e até a curandeira da cidade . Ao saber dos lábios do seu
“menino” que o mal dele era amor, exclamou:
- Só se for por cima do meu cadáver!
Aquela foi a sentença de um amor que ainda não havia nascido - não no
coração de Rosário, pelo menos . Ela só estava interessada no dinheiro do pre­
tendente e sonhava com a vida confortável que poderia proporcionar ao seu
filho . Por isso, um dia, de tanta insistência de Gilberto, ela apresentou a ele uma
possível solução
- Se você realmente me ama, Gilberto, podemos fugir para os Estados
Unidos
- Mas como?
- Venda a fábrica, e vamos para um lugar onde sua mãe nunca nos encontre .
Assim aconteceu num dia, e no outro, e em mais outro, até que, finalmente,
Gilberto sucumbiu às insinuações de Rosário e fez o que jamais havia ima­
ginado: vendeu a fábrica, largou a saia da mãe e foi embora com Rosário e o
pequeno Jacinto para os Estados Unidos
Três anos se passaram, os quais para Rosário pareceram décadas Gilberto
se saiu bem pior que a encomenda. Seus defeitos se multiplicaram e, apesar de
toda a coragem e teimosia de Rosário, ela começou a murchar como um giras­
sol ao cair da tarde Ela não falava inglês e dependia do esposo para tudo Ele
aproveitava a situação para controlar por completo a vida da infeliz mulher
Ah, se arrependimento matasse! Mas, que fazer? Encontrava-se longe de sua
C o m o se F o r m a um D i s c í p u l o - Pa r t e I | 49

terra, quase na fronteira com o Canadá, sem recursos e, para piorar as coisas,
nasceu um bebê.
Nessas circunstâncias, a tristonha mexicana conheceu Margarita, uma enfer­
meira salvadorenha. Margarita lhe falou de Jesus, deu-lhe sermões gravados e
a levou à igreja, onde, depois de estudar a Bíblia, se transformou numa discí­
pula de Jesus.
Entretanto, a vida, que já era um inferno ao lado de Gilberto, ficou ainda
pior, pois o marido começou a maltratá-la fisicamente e a proibi-la de ir à igreja.
Para piorar tudo, em uma manhã fria de janeiro, dona Ramona apareceu na
porta e armou um escândalo, ameaçando chamar a polícia para que os levasse,
presos, de volta para o México, por a terem roubado.
Aquilo foi terrível. Rosário teve que se submeter às chantagens da sogra, e
se perguntava por que Deus permitia que tudo aquilo acontecesse, logo agora
que havia conhecido a Jesus.
- Justamente por isso - disse-lhe o pastor. - Se isso tivesse acontecido antes
de você conhecer a Jesus, de onde tiraria forças para resistir?
- E agora, o que faço? O senhor não faz ideia de quão terrível é essa mulher.
- Filha, eu acredito que seu primeiro campo missionário é a sua casa, e as
primeiras pessoas pelas quais você precisa trabalhar são o seu esposo e sua sogra.
- Meu esposo avarento e minha sogra irritante?
- Sim, mas o primeiro passo é amá-los.
- E como faço para arrancar do meu coração esse ressentimento?
- Ore a Deus e estude Sua Palavra todos os dias. Esse é o segredo da vida
cristã vitoriosa. Além de orar, conquiste-os para Jesus.
- O senhor não os conhece, pastor. Eles não querem saber nada do evan­
gelho, e agora se juntaram contra mim. Vivo quase numa prisão. Já pensei em
fugir e voltar para minha terra, mas não tenho dinheiro e, para completar,
tenho mais um filho. Como vou deixá-lo sem o pai?
De uma perspectiva humana, qualquer um poderia pensar que Rosário
tinha se metido na cova dos chacais e que dali nunca sairia. Qualquer um,
menos Rosário: depois da conversa que teve com o pastor, ela começou a orar
como nunca. Sua primeira petição foi que Deus lhe desse um novo coração.
Todos os dias, enquanto o esposo e a sogra ainda dormiam, ela pas­
sava seu tempo lendo a Palavra de Deus e orando. Isso continuou semana
após semana, mês após mês, até que o milagre começou a acontecer.
50 | Todos E n v o l v id o s na Missão

Primeiro com ela, pois começou a enxergar na sogra e no marido virtu­


des que não via antes. Passou a servi-los com humildade, não respondia no
mesmo tom, não pronunciava palavras duras nem se mostrava mal-humo­
rada, como antes de conhecer a Jesus.
Um dia, o esposo, intrigado, perguntou:
- Você está doente?
- Por quê?
- Você anda meio calada ultimamente, e você não é assim.
- Como assim?
- Você está mudada.
- O evangelho muda a pessoa. Estou feliz.
Gilberto ficou preocupado e foi falar com a mãe.
- Já notou a mudança na vida de Rosário?
- Eu não quis dizer nada, mas desde que cheguei notei que Rosário não é a
mesma. O que você fez com ela?
- Não fiz nada, e é isso que me preocupa.
- Cuidado, meu filho. Essa louca pode estar traindo você. Tem certeza de
que esse menino é seu filho? Esses protestantes são terríveis. Cuidado!
Todos os dias era a mesma ladainha.
A imaginação de Gilberto começou a criar amantes para a pobre esposa.
Começou a tratá-la ainda pior, e quanto pior ele a tratava, com mais cari­
nho e doçura ela respondia. Preparava-lhe os pratos de que ele mais gostava e
preocupava-se com detalhes que sabia que ele apreciava.
E fazia a mesma coisa com a sogra. No dia do aniversário de dona Ramona,
Rosário se levantou bem cedo e preparou um bolo delicioso. Quando a sogra
entrou na sala de jantar, recebeu a surpresa, emocionada. Rosário aproveitou o
momento de sensibilidade da homenageada e perguntou:
- Posso fazer uma oração pela senhora?
Com os olhos brilhando de emoção, ela aceitou. Rosário orou:
- Querido Pai, Te agradeço pela vida da dona Ramona. Ela é uma maravi­
lhosa filha Tua. Agradeço porque ela trouxe ao mundo o meu esposo. Tu tens
cuidado dela por toda sua vida e agora estás dando a ela mais um ano de vida.
Ao terminar a oração, a sogra correu para o quarto. Rosário pensou que ela
ficara aborrecida, mas logo ela saiu vestindo uma roupa branca e disse:
- Esta ocasião merece um vestido especial.
C o m o se F o r m a um D i s c í p u l o - Pa r t e I l 51

Naquele dia, as coisas começaram a mudar. Dona Ramona se mostrava


menos queixosa e mais compreensiva. Pelo menos já não tornava a vida tão
difícil para Rosário, como antes .
Certa ocasião, a sogra derrubou, sem querer, uma imagem da Virgem de
Guadalupe que havia trazido do México. Quando viu os cacos espalhados pelo
chão, ela entrou em uma crise de choro e histeria. Enquanto a sogra se desespe­
rava, Rosário recolheu os pedaços de gesso . Em seguida, colocou os braços ao
redor dos ombros de Dona Ramona e lhe disse:
- Não tenha medo, Deus conhece sua fé e grande devoção. Ele continuará
ao seu lado por toda a vida .
A atitude da nora derreteu definitivamente o duro coração de dona Ramona.
Mais calma, ela foi a procura de Rosário, que estava na garagem arrumando
umas caixas quando a sogra entrou
- Filha, me perdoe por tudo o que fiz para você .
- O que foi?
- Você está diferente . Já não é a moça malcriada que conheci .
- Não, minha sogra. Essa Rosário morreu. Hoje eu sou uma nova criatura,
transformada por Jesus
- De que você está falando?
- A Bíblia diz que, se estamos em Cristo, somos novas criaturas .
- Onde está escrito isso?
E foi assim que dona Ramona e Gilberto começaram a estudar a Bíblia, a
ouvir sermões gravados e a frequentar a igreja.
Hoje, todos formam um lar feliz.

MINHA VIDA NA MISSÃO


Todos Envolvidos na Missão significa ir ao lugar em que as pessoas estão e se
misturar com elas Estas são algumas ideias para você se envolver pessoalmente:
1. Escolha cinco pessoas que você quer que conheçam a Jesus.
2. A conversão é obra do Espírito Santo . Portanto, ore, ore e ore . Não se
canse de orar
3 . Frequente o local em que as pessoas se reúnem. Aprenda a amar as
pessoas e a sentir compaixão por elas
52 |

C A P Í T U LO 5

COMO SE FORMA UM DISCÍPULO


PARTE II
A HISTÓRIA QUE VOCÊ LEU, NO CAPÍTULO ANTERIOR, MOS­
tra, de maneira prática, o poder da oração e a força de uma vida transformada e
cheia de amor como instrumentos na formação de novos discípulos . Ninguém
resiste à atração do amor. O mundo não perece por falta de religião, mas de
amor. A primeira evidência de que Jesus realizou uma mudança na experiên­
cia do novo discípulo não é o quanto ele conhece de doutrina, mas o quanto ele
é capaz de amar

Se não formos homens e mulheres melhores, se não formos mais bondo­


sos de coração, mais misericordiosos, mais corteses, mais possuídos de ter­
nura e amor; se não manifestarmos aos outros o amor que trouxe Jesus ao
mundo, em Sua missão de misericórdia, não seremos então testemunhas
aos homens, do poder de Jesus Cristo (Para Conhecê-Lo, p. 306).

No entanto, o amor é só o primeiro passo. Se você deseja ter sucesso na for­


mação de novos discípulos, é preciso continuar a procurá-los

COMPANHEIRO DE ORAÇÃO
Na Bíblia, está registrada a seguinte promessa de Jesus: “Em verdade tam­
bém vos digo que, se dois dentre vós, sobre a terra, concordarem a respeito de
qualquer coisa que, porventura, pedirem, ser-lhes-á concedida por Meu Pai,
que está nos Céus” (Mt 18:19).
C o m o s e F o r m a u m D i s c í p u l o - P a r t e II | 53

A expressão “em verdade também vos digo” demonstra que esse é um


assunto que custa aos seres humanos entender. Por isso Jesus tem que
enfatizá-lo . Mas a promessa é concreta e certa . Ela não falha. Deus responde
à oração de dois de Seus filhos quando eles entram em acordo para pedir
qualquer coisa. Portanto, procure um companheiro de oração e, juntos, orem
por seus respectivos amigos . Deus responderá lá do Céu, e eles se tornarão
novos discípulos .
O Senhor Jesus ensinou Seus discípulos a trabalhar dessa forma. Ninguém
cumpre a missão sozinho

Chamando os doze para junto de Si, Jesus ordenou-lhes que fossem dois a
dois pelas cidades e aldeias Nenhum foi mandado sozinho, mas irmão em
companhia de irmão, amigo ao lado de amigo. Assim se poderiam auxiliar
e animar mutuamente, aconselhando-se entre si, e orando um com o outro,
a força de um suprindo a fraqueza do outro. Da mesma maneira enviou
Ele posteriormente os setenta. Era o desígnio do Salvador que os mensa­
geiros do evangelho assim se associassem. Teria muito mais êxito a obra
evangélica em nossos dias, fosse esse exemplo mais estritamente seguido
(O Desejado de Todas as Nações, p. 350).

NINGUÉM DESEJA MUDAR DE RELIGIÃO


Outra coisa que devemos levar em consideração ao buscar pessoas para
fazer delas discípulos de Cristo é que ninguém, com raríssimas exceções, quer
mudar de religião Não comece sua aproximação falando de temas religiosos
com as pessoas . Lembre-se do conselho popular: “Se quiser ser meu amigo, não
me fale do seu time de futebol, nem do seu partido político, nem de sua reli­
gião, pois nesses três terrenos cada um tem sua própria equipe .”
Ao se aproximar das pessoas, converse com elas sobre aquilo que lhes
interessa, não sobre o que é importante e verdadeiro para você As pessoas
que não conhecem o evangelho não estão interessadas em saber nada sobre
o sábado, sobre a Lei ou a besta do Apocalipse Tampouco desejam deixar de
tomar café ou de comer carne de porco Elas têm seu estilo de vida e se inco­
modam quando alguém quer invadir sua vida privada - ainda mais se for
uma pessoa desconhecida Portanto, se quiser fazer novos discípulos, siga o
exemplo do Mestre
54 | Todos E n v o l v id o s na Missão

Jesus via em cada ser humano alguém a quem devia ser feito o chamado
para Seu reino. Aproximava-Se do coração do povo. Misturava-Se com eles
como alguém que lhes desejava o bem-estar. Procurava-os nas ruas públi­
cas, nas casas particulares, nos barcos, na sinagoga, às margens do lago e
nas festas nupciais. Ia-lhes ao encontro em suas ocupações diárias, e mani­
festava interesse em seus negócios seculares. Levava Suas instruções às
famílias, pondo-as assim, no próprio lar, sob a influência de Sua divina pre­
sença. A poderosa simpatia pessoal que Dele emanava conquistava o cora­
ção (ibid . , p. 151).

Observe que Jesus Se aproximava das pessoas com o propósito de conduzi-


las para o Seu reino, mas conversava com elas sobre “negócios seculares”.

PESCADORES
Jesus disse a Seus primeiros discípulos: “Vinde após Mim, e Eu vos farei
pescadores de homens” (Mt 4:19). Como é que se pesca? É preciso ter paciên­
cia. É necessário ficar ali por bastante tempo esperando que o peixe morda
o anzol. E que isca você usa? Geralmente, minhocas, larvas, camarão ou coi­
sas parecidas Você jamais colocaria no anzol um pedaço de chocolate, ainda
que você, pessoalmente, goste de chocolate. Tampouco colocaria um pedaço
de alface ou de tomate, embora sejam muito saudáveis . Você não faria nada
disso, por uma razão básica: o peixe não gosta de chocolate, nem de alface,
nem de tomate Ele gosta é de minhoca, por mais asquerosa que ela possa
parecer para você .
Na bendita obra de buscar pessoas e fazer delas discípulos de Jesus, você
precisa se aproximar delas falando das coisas que interessam a elas: espor­
tes, automóveis, comida, dinheiro, etc. O primeiro passo é fazer amizade
com as pessoas

FAÇA AMIZADE
Em primeiro lugar, as pessoas precisam ser atraídas a você, a quem podem
ver, para depois serem atraídas a Jesus, a quem não podem ver Você vai fracas­
sar na tentativa de levar pessoas a Cristo se desejar doutrinar as pessoas antes
de ter conquistado a amizade delas As pessoas não seguem um desconhecido
Elas seguem seus amigos
C o m o s e F o r m a u m D i s c í p u l o - P a r t e II | 55

Você quer ter sucesso ao conduzir uma pessoa a Jesus? Lembre-se do


princípio de que as pessoas só seguem seus amigos . Quem leva um jovem
às drogas? Os amigos. Qualquer jovem que com eça a usar drogas sabe
que cairá num abismo de destruição sem saída . Mas o poder da amizade
é tão grande que aceita seguir seus amigos, apesar do risco . Por que uma
pessoa recusaria o convite de ir à igreja, se tiver sido antes conquistada
pela amizade?
Construir uma amizade, no entanto, leva tempo . Ninguém se torna
amigo de alguém em uma semana ou um mês . A amizade é uma planta que
requer tempo para ser cultivada, mas é o único método que Jesus nos deu
para cumprir a missão Aproveite toda e qualquer oportunidade para culti­
var amizade com as pessoas

Quando convidado para um banquete, Cristo aceitava o convite para,


enquanto estivesse sentado à mesa, semear no coração dos presentes
a semente da verdade . Sabia Ele que a semente assim semeada brota­
ria e produziria frutos . Sabia que alguns dos que estavam sentados à
mesa com Ele atenderiam depois ao Seu convite: “Segue-Me Temos
o privilégio de estudar o método de ensino de Cristo, ao ir Ele de uma
para outra localidade, semeando por toda parte as sementes da verdade
(Evangelismo, p. 58).

SIGA O MÉTODO DE JESUS


A melhor maneira de fazer amizade com alguém para, então, transformá-lo
em discípulo de Jesus é seguir o método que o próprio Mestre ensinou
“Se quereis aproximar-vos do povo de maneira aceitável, humilhai vosso
coração diante de Deus e aprendei Seus métodos . Muito nos instruiremos para
nosso trabalho, mediante o estudo dos métodos de trabalho de Cristo, bem
como a maneira de Ele Se aproximar do povo” (Evangelismo, p. 53).
Por que se humilhar? Porque o ser humano natural não se submete facil­
mente aos ensinamentos divinos. Mas Ellen G. White disse: “Humilhai vosso
coração diante de Deus e aprendei Seus métodos ”
De quais métodos se está falando aqui? Ela mesma respondeu: “Uni­
camente os métodos de Cristo trarão verdadeiro êxito no aproximar-se do
povo O Salvador misturava-Se com os homens como uma pessoa que lhes
56 | Todos E n v o l v id o s na Missão

desejava o bem. Manifestava simpatia por eles, ministrava-lhes às necessida­


des e granjeava-lhes a confiança. Ordenava então: ‘Segue-Me’” (A Ciência do
Bom Viver, p. 143).

FAÇA O BEM ÀS PESSOAS


O que Jesus fazia em primeiro lugar? “Misturava-Se com os homens como
uma pessoa que lhes desejava o bem .” Faça a mesma coisa . Aproxime-se das
pessoas com a clara intenção de lhes fazer o bem . Não tenha pressa. Se na vida
física são necessários nove meses para que um bebê nasça, na vida espiritual
também leva tempo para que uma pessoa nasça no reino de Deus. Portanto,
invista tempo para fazer amizade com a pessoa, sem dar a impressão de que
quer “convertê-la” ou que deseja que ela mude de religião. Descubra aquilo de
que ela gosta e converse com ela sobre isso

A comissão divina não necessita de nenhuma reforma. A maneira de


Cristo pregar a verdade não pode ser aperfeiçoada. O Salvador deu lições
práticas aos discípulos, ensinando-os a trabalharem de tal maneira que
as pessoas se sentissem felizes na verdade . Ele simpatizava com os abati­
dos, os sobrecarregados, os oprimidos. Alimentava os famintos e curava
os enfermos . Andava constantemente fazendo o bem . Por meio do bem
que realizou, por Suas palavras amoráveis e atos de bondade, interpretou
Ele o evangelho para os homens (Conselhos Para a Igreja, p. 315).

SEJA SIMPÁTICO
A simpatia atrai Se Cristo vive em você, e você reflete o caráter Dele, sua
vida será como um ímã que atrai as pessoas . Um cumprimento, um gesto de
cortesia ou amabilidade, um elogio, uma palavra de apreço são detalhes que
transmitem simpatia e conquistam vizinhos, parentes e colegas de trabalho
ou estudo
“Se nos humilhássemos perante Deus e fôssemos bondosos e corteses, com­
passivos e piedosos, haveria uma centena de conversões à verdade onde agora
há apenas uma” (Ellen G. White, Testemunhos Para a Igreja, v. 9, p. 189).
A seguir, apresentamos algumas ideias de como se aproximar de alguém
para lhe fazer o bem:
C o m o s e F o r m a u m D i s c í p u l o - P a r t e II l 57

1. Ajudar a tirar as compras do carro .


2 . Levar um prato de comida quando preparar algo especial.
3. Oferecer-se para cuidar da casa quando a pessoa viajar.
4 . Oferecer-se para cortar a grama .
5 . Oferecer carona.
6 . Convidar para que vá à sua casa.
7. Oferecer-se para recolher a correspondência quando a pessoa viajar.
8 . Descobrir a data de aniversário e levar um presente .
9 . Consertar algo na casa, se você tem experiência para isso .
10 . Oferecer-se para lavar o carro.

ATENDA AS PESSOAS
Todos os seres humanos, não importa a raça, posição social, nacionalidade,
religião ou filosofia, enfrentam dificuldades em algum momento. Podem ser
problemas familiares, econômicos, sociais, profissionais, físicos ou simples­
mente existenciais Todos, sem exceção, em algum momento se sentem solitá­
rios, tristes, pesarosos e incapazes de encontrar saída para seu problema. Nessa
hora, a tendência humana é buscar ajuda e abrir o coração . Geralmente o fazem
com um amigo . Essa é a oportunidade de falar de Jesus para eles . É verdade que
a maioria das pessoas não deseja mudar nem de religião, nem de igreja. Mas
também é verdade que, na hora da dificuldade, todos procuram um amigo E os
discípulos de Cristo estarão presentes para mostrar Cristo como a única e ver­
dadeira solução para os dramas humanos
Observe o que diz o Espírito de Profecia:

A obra de Cristo em favor do homem não está terminada. Prossegue


ainda hoje . De maneira semelhante, Seus embaixadores devem pregar o
evangelho e revelar Seu compassivo amor em favor das almas perdidas e
a perecer. Por meio de abnegado interesse por aqueles que necessitam de
auxílio, devem eles dar uma demonstração prática da verdade do evange­
lho. Esta obra compreende muito mais do que pregar sermões . A evange­
lização do mundo é a obra que Deus confiou aos que saem em Seu nome .
Eles devem ser colaboradores de Cristo, revelando aos que perecem o
Seu terno e compassivo amor (Conselhos Para a Igreja, p . 315).
58 | Todos E n v o l v id o s na Missão

Duas vezes se repete nesse texto a manifestação do amor de Deus aos perdi­
dos . “Devem os Seus embaixadores pregar o evangelho e revelar Seu compassivo
amor”, e, falando de Seus seguidores, o texto diz que “eles devem ser colabora­
dores de Cristo, revelando aos que perecem o Seu terno e compassivo amor”.
Quando o ser humano atravessa momentos difíceis, ele é capaz de fazer
qualquer coisa para encontrar uma saída. Quem poderia imaginar, por exem­
plo, que o orgulhoso capitão sírio Naamã seria capaz de atravessar o deserto à
procura do profeta e de submergir sete vezes no Jordão, ao qual considerava um
rio inferior a qualquer outro? Entretanto, é assim que reage o ser humano na
hora da necessidade . E Deus deseja que Seus discípulos sejam os instrumentos
de Seu amor para ajudar as pessoas.

CONQUISTE A CONFIANÇA
Aqui voltamos ao fator tempo . Não se ganha a confiança de uma pessoa em
pouco tempo. A confiança é resultado de tempo e de convivência. Aprenda a
ouvir. Todos precisam ser ouvidos. Preste atenção no que as pessoas desejam
falar. Não demonstre impaciência, ainda que o que elas dizem pareça irrele­
vante para você . O amigo leal ri das suas piadas, ainda que não sejam boas, e se
compadece de seus problemas, ainda que não sejam graves Se você não deseja
ouvir as pessoas, como pretende que elas o escutem?

EMPRESTE MATERIAIS
Em algum momento, as pessoas com as quais você está trabalhando vão
mostrar interesse nas coisas espirituais. É sempre assim. Com a convivência,
elas percebem que há algo diferente em você Talvez não tenham consciência
disso, mas elas veem o caráter de Jesus Cristo refletido em sua vida. É a glória
de Deus manifestada em sua maneira de viver
Ao perceber o interesse do seu amigo em assuntos espirituais, chegou a
hora de lhe apresentar os ensinamentos bíblicos Esse é o momento dos estudos
bíblicos . Se você souber apresentá-los, vá em frente . Mas o que acontece se não
souber? Nem todos os discípulos chegarão a ser instrutores bíblicos especiali­
zados O ensino é um dom que Deus não concedeu a todos os crentes
Paulo afirmou: “Porque assim como num só corpo temos muitos mem­
bros, mas nem todos os membros têm a mesma função, assim também nós,
conquanto muitos, somos um só corpo em Cristo e membros uns dos outros,
C o m o s e F o r m a u m D i s c í p u l o - P a r t e II | 59

tendo, porém, diferentes dons segundo a graça que nos foi dada: se profecia,
seja segundo a proporção da fé; se ministério, dediquemo-nos ao ministério; ou
o que ensina esmere-se no fazê-lo” (Rm 12:4-7). E se você não recebeu o dom
de ensinar e se sente incapaz de dar estudos bíblicos?
Não se preocupe. Hoje existem muitos recursos. Há estudos bíblicos em CD,
DVD e outros recursos eletrônicos. Procure essas ferramentas e empreste para
seu amigo, ou sente-se com ele para vê-los na televisão ou no computador. Che­
gou também o momento de lhe oferecer outros materiais de leitura que o ajudem
a entender a mensagem de salvação e a começar a crescer na experiência cristã

ENSINE A FAZER DISCÍPULOS


O processo de discipulado não termina com o batismo . Se você seguiu todos
os passos expostos pelo método de Cristo, conseguindo levar uma pessoa a
Jesus, e agora acredita que sua missão acabou pelo fato de aquela pessoa ter
sido batizada, está enganado Nesse caso, você fez um novo membro da igreja,
não um discípulo
Você, como o discípulo de Cristo que está formando esse novo discípulo,
terá que se certificar de que o novo discípulo está orando constantemente, de
que está estudando a Bíblia todos os dias e de que também está formando um
novo discípulo. Faz parte de seu trabalho discipulador verificar se o seu amigo
já tem a Lição da Escola Sabatina e a Meditação Diária.
Ao mesmo tempo, você precisa ensinar ao novo crente que um discípulo
é aquele que consegue seguir a Jesus e formar outro discípulo . Ellen White
aconselhou: “Os cristãos cujo zelo, fervor e amor crescem constantemente
não apostatam nunca São aqueles que não se acham empenhados nessa obra
desinteressada os que se acham numa condição enferma e chegam a esgotar-
se com lutas, dúvidas, murmurações, pecados e arrependimentos, até per­
derem toda a consciência do que seja a verdadeira religião” (Serviço Cristão,
p. 107).

CONSEQUÊNCIAS DESAGRADÁVEIS
O novo crente que se transforma em um novo discípulo “não apostata
nunca”. Ele se preocupa com o crescimento em Cristo e com a busca de outras
pessoas para fazer delas novos discípulos. Não tem tempo para o desânimo,
nem para o desalento “São aqueles que não se acham empenhados nessa obra
60 | Todos E n v o l v id o s na Missão

desinteressada os que se acham numa condição enferma e chegam a esgotar-se


com lutas, dúvidas, murmurações, pecados e arrependimentos, até perderem
toda a consciência do que seja a verdadeira religião ”
Essa é a razão pela qual nossa missão é formar discípulos de Cristo . Não
podemos nos dar ao luxo de ter na igreja simples crentes ou membros . Se nos
descuidarmos com o trabalho de formar discípulos, correremos o risco de
encher a igreja com pessoas problemáticas, que entorpecerão o cumprimento
da missão
“Muitos há que professam o nome de Cristo, e cujo coração não está empe­
nhado em Seu serviço . Colocaram-se simplesmente numa profissão de piedade
e por esse mesmo ato aumentaram o tamanho de sua condenação, e se torna­
ram mais enganosos e mais bem-sucedidos agentes de Satanás, para a ruína de
almas” (ibid. , p. 95).
Lembre-se de que um discípulo não para de crescer. O crescimento é a evi­
dência de um cristianismo saudável. Portanto, você, seu novo discípulo e os
discípulos das pessoas que você discipulou continuarão a crescer por toda a
eternidade . “Os que forem sábios, pois, resplandecerão como o fulgor do fir­
mamento; e os que a muitos conduzirem à justiça, como as estrelas, sempre e
eternamente” (Dn 12:3).

MINHA VIDA NA MISSÃO


Todos Envolvidos na Missão também significa fazer discípulos. Estas são
algumas ideias para você se envolver pessoalmente:
1 Encontre um companheiro de oração e orem juntos por seus amigos
2 . Aproveite todas as oportunidades para cultivar amizades com outras
pessoas
3 Converse com as pessoas sobre aquilo que elas querem, não sobre o
que você quer
| 61

CAP 6

O VALOR DE UMA IGREJA RECEPTIVA


E ra o ano de 1979 . A música de di scoteca estava na m o d a .
Eram os tempos da “brilhantina”. Os homens usavam calças jeans aperta­
das e o cabelo arrumado com gel, enquanto as mulheres usavam meias cur­
tas e coloridas
Certa noite do mês de setembro, um jovem penteado à John Travolta pas­
sava em frente a uma de nossas igrejas . O rapaz cheirava a maconha e exibia em
seus fortes braços inúmeras tatuagens. Ao se aproximar da porta da igreja, viu
três jovens recepcionistas, bonitas e com um sorriso no rosto.
O “lobo mau” começou a salivar ao ver aquelas ovelhinhas do rebanho do
Senhor. Aproximou-se com a intenção de flertar com elas, mas antes que dis­
sesse uma palavra, uma delas se aproximou dele e disse:
- Olá! Bem-vindo à casa de Deus. Esta é sua família. Nós amamos você.
Entre, por favor
O jovem percebeu que o estavam levando para dentro da igreja e reagiu:
- Não, não Eu estava só de passagem
- Venha para dentro! Fazia tempo que esperávamos por você. Entre! Você é
importante para Deus e para nós
As moças não lhe deram tempo para pensar. Quando caiu em si, o jovem já
estava sentado, ouvindo a pregação do pastor
Quase 40 anos se passaram desde que aconteceu esse engraçado incidente.
Hoje esse jovem é um pastor da igreja adventista .
A pergunta que devemos fazer é: O que teria acontecido se, em vez daque­
las moças simpáticas e elegantes, houvesse à porta daquela igreja pessoas tal­
vez bem-intencionadas, mas sem a simpatia e o amor necessários para receber
alguém que, pela primeira vez, entra na igreja?
62 | Todos E n v o l v id o s na Missão

O esforço pessoal dos membros para levar pessoas a Jesus e transformá-las


em novos discípulos fracassará se a igreja não for receptiva, cativante e atraente .
Esse trabalho começa à porta da igreja. As recepcionistas devem ser as pessoas
mais simpáticas da igreja, vestidas de maneira alegre, mas discreta . Elas são o
rosto da igreja

MUDE A CARA DE SUA IGREJA


Não é o templo nem a simpatia dos crentes que deve atrair as pessoas à
igreja; somente Jesus. Mas é inevitável que a primeira impressão conte muito
para a pessoa que vai à igreja pela primeira vez. Ela ainda está vivendo o iní­
cio de sua experiência com Cristo e ainda é influenciada pelas coisas que vê -
ou que não vê .
Na casa de Deus devem se destacar a limpeza, a simplicidade e a serie­
dade Não é necessário que haja luxo, mas ninguém deveria perceber descuido
e negligência. Assentos confortáveis, lâmpadas que funcionam, uma decoração
de bom gosto e um equipamento de som que permita que se escute com clareza
são detalhes importantes que as pessoas notam logo que entram . Há igrejas que
se preocupam com tudo, menos com o sistema de som Esquecem que as pes­
soas vão à igreja para ouvir a Palavra de Deus . Se não ouvem bem, não voltarão .
E não é suficiente se preocupar somente com o aspecto interior. Deve haver
também uma preocupação com o exterior O templo deve atrair por seu aspecto
físico . As paredes devem estar sempre bem pintadas, os jardins, em ordem . Que
haja um letreiro identificando a igreja. Quando o templo tem um exterior bem
apresentável, é possível que algumas pessoas entrem por simples curiosidade
O templo deve dar a impressão de que é um lugar em que Deus Se reúne com
os seres humanos e caminha com eles, partilhando seus sonhos e esperanças

AMAR E SORRIR
No mundo de fora da igreja, ninguém se preocupa com ninguém. Milhões
de pessoas se cruzam nas ruas, e até no mesmo prédio, sem se cumprimentarem
Na igreja deveria ser diferente Cada membro deve aprender a cumprimentar
as pessoas, mesmo sem conhecê-las. Basta ver uma pessoa desconhecida para
que, com amabilidade, sorria para ela ou se aproxime para oferecer ajuda
As pessoas devem sair impactadas da igreja pela cortesia e amabilidade
de seus membros, de maneira que se sintam motivadas a voltar O Espírito de
O Valor de uma Igreja R eceptiva | 63

Profecia diz: “A última mensagem de graça a ser dada ao mundo é uma reve­
lação do caráter do amor divino . Os filhos de Deus devem manifestar Sua gló­
ria . Revelarão em sua vida e caráter o que a graça de Deus por eles tem feito”
(Parábolas de Jesus, p. 415, 416).
Nossa mensagem para o mundo, no tempo em que vivemos, não é apenas
um conglomerado de conceitos teóricos, mas a revelação do caráter de amor de
Deus, reproduzido na vida dos crentes .
A igreja deve ter consciência de sua responsabilidade missionária. As pes­
soas que vêm pela primeira vez precisam ver a “revelação do caráter do amor
divino” na vida de cada crente . E isso será simples e natural quando cada crente
orar constantemente, estudar a Bíblia todos os dias e buscar outra pessoa para
fazer dela um discípulo de Jesus. Lembre-se do seguinte: “Cristo aguarda com
fremente desejo a manifestação de Si mesmo em Sua igreja. Quando o caráter
de Cristo se reproduzir perfeitamente em Seu povo, então virá para reclamá-los
como Seus” (Exaltai-O, p. 275).

PACIÊNCIA COM OS RECÉM-CONVERTIDOS


A vida do novo discípulo é um longo caminho de crescimento. “Mas a
vereda dos justos é como a luz da aurora, que vai brilhando mais e mais até ser
dia perfeito” (Pv 4:18). Aceite as pessoas como são e não como você gostaria
que fossem Ame-as e mostre esse amor
Ellen G. White aconselhou: “Se quereis aproximar-vos do povo de maneira
aceitável, humilhai vosso coração diante de Deus e aprendei Seus métodos Muito
nos instruiremos para nosso trabalho, mediante o estudo dos métodos de trabalho
de Cristo, bem como a maneira de Ele Se aproximar do povo” (Evangelismo, p. 53) .
Como Jesus trataria as pessoas que fossem hoje pela primeira vez à igreja?
Como Ele tratou a pecadora que ungiu Seus pés com perfume de nardo?
Enquanto alguns líderes religiosos a criticavam, Jesus aceitava a expressão de
gratidão daquela mulher

Todavia, entre nós se tem feito notar uma falta de simpatia e amor, pro­
fundo e sincero, em prol dos que são tentados e erram Muitos têm revelado
grande frieza e negligência pecaminosa [. .. ]. A pessoa recém-convertida
sustenta muitas vezes lutas tremendas com hábitos arraigados ou com algu­
mas formas especiais de tentação e, sendo vencida por alguma paixão ou
64 | Todos E n v ol vi do s na Missão

tendência dominante, incorre naturalmente na culpa de imprudência ou


real injustiça. Em tais circunstâncias, é necessário que os irmãos desenvol­
vam energia, tato e sabedoria a fim de lhe ser restituída a saúde espiritual
(Conselhos Para a Igreja, p. 259).

Certa vez visitei uma igreja em que um dos líderes ficava à porta “inspe­
cionando” a roupa das pessoas . Ele usava óculos de lentes bem grossas e pare­
cia um fiscal do bom comportamento. Talvez não percebesse, mas sua atitude
“espantava” muitas pessoas sinceras que vinham pela primeira vez, com as
quais os discípulos da igreja estavam trabalhando
Não creio que esse irmão exibia essa “hostilidade” por ser mau . Certamente
ele acreditava que estava zelando pelas normas da igreja. Mas, se Ellen White
estivesse viva, diria para ele:

Ainda não é tarde demais para reparar as negligências do passado . Cumpre


haver um reavivamento do primeiro amor e do primeiro zelo . Busquem os
que têm repelido, e por sua confissão atem as feridas que lhes causaram.
Aproximem-se do grande Coração que arde em amor compassivo, dei­
xando que as torrentes da compaixão divina se lhes infiltrem no coração e
daí se derramem sobre seus semelhantes Tomem por exemplo a terna sim­
patia e compaixão manifestadas na vida de Jesus, guiando-se por elas no
trato com seus semelhantes e principalmente com seus irmãos em Cristo
(ibid. , p. 260).

Em todos os tempos tem havido irmãos zelosos que, em vez de tornar a


igreja um cativante favo de mel, a transformam num lugar que projeta a ima­
gem de um clube de gente de cabeça fechada. Impressiona o que disse Ellen
White: “[Deixem] que as torrentes da compaixão divina se lhes infiltrem no
coração .” Retornamos aqui ao assunto da convivência diária com Jesus, que se
resume no estudo diário da Bíblia, na oração constante e na busca de uma pes­
soa para levá-la a Jesus Essa é a única maneira pela qual a corrente da compai­
xão divina poderá se infiltrar em nosso coração .
Nunca é tarde para repensar nossas atitudes Ninguém perde ao se entregar
a Jesus, passando a ver as coisas a partir do prisma divino, e não da perspectiva
dos nossos costumes e tradições.
O Valor de uma Igreja R eceptiva | 65

O conselho inspirado sempre foi: “Temos de sair e proclamar a bondade


de Deus, tornando evidente Seu verdadeiro caráter perante as pessoas” (Fé e
Obras, p. 61).
No entanto, já em seus dias, Ellen White perguntava: “Fizemos isto no pas­
sado? Temos revelado o caráter de nosso Senhor por preceito e exemplo?”
(ibid. ). Creio que hoje deveríamos fazer a mesma pergunta e pedir a Deus que
nos ajude a seguir Seus ensinamentos
Certa vez, alguém me perguntou se deveríamos permitir que os costumes
do mundo entrassem livremente na igreja . Minha resposta foi “não”. Deus
tem princípios eternos que transcendem os tempos, as culturas e as gera­
ções. Esses princípios estão refletidos na santa lei de Deus . No entanto, acre­
dito que aquilo que é considerado costume saudável numa cultura deveria
ser ensinado com o amor com que Cristo ensinava as lições do Seu reino.
O amor é a base da experiência cristã. Um discipulado desprovido de amor
não é discipulado
Muitos anos atrás, eu tinha em minha igreja uma jovem que cortava o
cabelo exageradamente curto. Olhando-a de costas, dava a impressão de que
fosse um rapaz Os anciãos implicavam com ela e tentavam convencê-la a dei­
xar o cabelo crescer, mas ninguém conseguia convencê-la Tiraram-lhe o cargo
de diretora da Escola Sabatina e também o de pianista da igreja Nenhuma
medida disciplinar resolvia o problema Ela dizia que gostava do cabelo curto
e não admitia discussões
Anos depois, eu a encontrei em um congresso, e a primeira coisa que repa­
rei foi o lindo cabelo comprido que exibia
- Você não dizia que não gostava do cabelo comprido? - perguntei, recor­
dando os maus momentos que me fizera passar
Ela sorriu e respondeu:
- É, pastor, na verdade eu não gostava, mas estou noiva de um rapaz a quem
amo muito Ele adora cabelo comprido E quer saber? Eu mesma já passei a gos­
tar também
O assunto estava resolvido. A solução tinha sido o amor. Ah, se a igreja
naquela ocasião tivesse levado aquela moça a se apaixonar por Cristo, em vez
de lhe tirar os cargos! Tivesse agido assim, talvez tivesse conseguido o que não
se conseguiu daquela maneira
66 | Todos E n v ol vi do s na MissÃo

NÃO CHAME NINGUÉM DE “ VISITA”


Se alguém o convida para jantar e, ao você chegar à casa do anfitrião, ele diz
que você é uma visita, estará dizendo que você não é parte da família, que era
para vir só essa vez e que não deve se acostumar a vir sempre . Essa é a mensa­
gem que se transmite às pessoas quando as chamamos de “visitas”.
As pessoas que vão à igrej a pela primeira vez fazem parte da família; não as faça
sentir como se fossem estranhas. Sem receio, chame-as de “irmãs” ou “irmãos”
Diga-lhes que são parte da família e que faz muito tempo que as esperava. Numa
pesquisa que fizemos na América do Sul, anos atrás, perguntamos às pessoas que
haviam ido pela primeira vez à igreja a coisa de que elas menos tinham gostado
A maioria delas respondeu que não foi agradável ser chamadas de “visitas”

REUNIÕES DE CONFRATERNIZAÇÃO
Muitas igrejas têm o bonito costume de organizar almoços de confraterni­
zação . Cada família leva seus alimentos para compartilhar com as demais famí­
lias As pessoas que vão pela primeira vez são convidadas a ficar na igreja e
participar do almoço.
Os irmãos devem estar conscientes de que, nesses momentos, os novos cren­
tes precisam sentir o amor da igreja. O objetivo não é se sentar para comer ao
lado dos amigos de todos os sábados, mas procurar as pessoas novas e sentar-
se com elas, fazendo com que se sintam parte da família Nessa convivência, o
novo converso é integrado quase sem perceber
Certo dia, um homem, cuja vida estava destruída, entrou na igreja Ele
havia sido infiel à esposa, e ela estava disposta a pôr um ponto final no casa­
mento O homem não sabia o que fazer e, no momento de desespero, aceitou o
convite de ir à igreja No fim do culto, ele foi convidado a ficar para o almoço
Como havia pedido à igreja que orasse por seu problema, um irmão que havia
passado por um problema parecido antes de aceitar a Jesus, assentou-se à mesa,
ao lado desse homem, e, de maneira natural, contou para ele sua própria histó­
ria, enquanto almoçavam. Disse-lhe que Deus tinha feito por ele o que ele não
podia fazer por si mesmo e que, agora, com sua esposa e os filhos, tinha uma
família feliz
Esse testemunho poderoso, tirado da própria vida e relatado durante o
almoço, confirmou no homem o desejo de continuar estudando a Bíblia, e hoje
ele é um discípulo formador de discípulos
O Valor de uma Igreja R eceptiva | 67

CARÁTER DA IGREJA
Fazer novos discípulos é algo simples, quando cada discípulo está cons­
ciente de sua missão, segue os métodos de Cristo e sai em busca de pessoas
para conduzi-las ao Mestre . Por outro lado, a igreja é a igreja de Deus quando
demonstra amor, misericórdia, disposição para curar as feridas das pessoas.

O verdadeiro caráter da igreja não se mede pela elevada profissão que ela faz,
nem pelos nomes que se encontram em seu registro, mas pelo que ela está
em realidade fazendo pelo Mestre, pelo número de seus obreiros perseveran­
tes e fiéis O interesse pessoal e os esforços individuais atentos conseguirão
mais para a causa de Cristo do que pode ser efetuado por sermões ou dou­
trinas (Serviço Cristão, p. 12).

Essa citação é categórica . Menciona o “interesse pessoal e os esforços indivi­


duais” de cada membro . O membro que se envolve nessa bendita missão deixa
de ser um simples crente e se transforma em um discípulo formador de novos
discípulos.

MINHA VIDA NA MISSÃO


Todos Envolvidos na Missão significa também o cumprimento da Gran­
de Comissão (Mt 28:19, 20). Estas são algumas ideias para você se envol­
ver pessoalmente:
1. Aceite as pessoas como são e não como você gostaria que fossem.
2. Compartilhe o seu testemunho com seus amigos . Conte a eles como
encontrou a Jesus e o que Ele significa para sua vida.
3. Sorria e mostre entusiasmo por sua fé no Senhor, enquanto a compartilha.
68 |

CAPÍTULO 7

O DISCÍPULO E A BÍBLIA
ÜM DISCÍPULO SEGUE O MESTRE E FAZ O QUE ELE ENSINA.
Jesus é o mestre, e uma de Suas primeiras lições é a da importância da Bíblia
na vida do discípulo . Certo dia, Ele disse: “Examinais as Escrituras, porque jul­
gais ter nelas a vida eterna, e são elas mesmas que testificam de Mim” (Jo 5:39).
É examinando as Escrituras que o discípulo encontra a vida eterna . O verbo
examinar significa estudar com dedicação. Não é simplesmente uma leitura.
É uma leitura meditativa, reflexiva, paciente . Requer tempo . Não pode ser feita
em dez minutos. O Mestre nos ensinou a importância do estudo de Sua pala­
vra por meio de Seu exemplo O discipulado não é uma questão de teoria, mas
de vida prática.

Jesus estudou as Escrituras na infância, na juventude e na fase adulta


Quando criança, Sua mãe Lhe ensinava diariamente lições tiradas dos per­
gaminhos dos profetas . Muitas vezes, em Sua juventude, Ele ficava sozinho
de madrugada e ao entardecer, ao lado da montanha ou entre as árvores da
floresta, passando um período silencioso em oração e estudo da Palavra
de Deus . Durante Seu ministério, a grande familiaridade com as Escrituras
testifica de Sua dedicação no estudo delas E, visto que Ele adquiriu conhe­
cimento da mesma forma que nós, Seu maravilhoso poder, não somente
mental, mas também espiritual, é um testemunho do valor da Bíblia como
meio de educação (Educação, p. 185).

No deserto da tentação, Jesus ensinou que não é possível viver uma vida
vitoriosa sem o conhecimento da Bíblia . A maneira pela qual usou as Escrituras
foi extraordinária O inimigo veio a Ele com a Bíblia aberta, mas usando-a
fora do seu contexto, distorcida, tentando levar Jesus a desconfiar da Palavra
O D is c íp u l o e a B íblia | 69

de Deus . Qualquer pessoa que não conhecesse bem as Escrituras seria vítima
fácil de suas artimanhas . Não era o caso de Jesus . E o Mestre derrotou o inimigo
com a própria Escritura.

A Palavra de Deus era a segurança de Cristo quanto à divindade de Sua


missão. Viera viver como homem entre os homens, e era a Palavra que
declarava Sua ligação com o Céu. Era o desígnio de Satanás fazê-Lo duvi­
dar dessa Palavra. Se a confiança de Cristo em Deus fosse abalada, Satanás
sabia que lhe caberia a vitória no conflito . Poderia derrotar Jesus . Esperava
que, sob o império do acabrunhamento e de extrema fome, Cristo perdesse
a fé em Seu Pai, e operasse um milagre em Seu benefício. Houvesse Ele
feito isso, e ter-se-ia frustrado o plano da salvação (O Desejado de Todas as
Nações, p. 119).

A garantia da firmeza espiritual dos discípulos de Cristo, hoje, também se


fundamenta na Palavra de Deus .

O familiarizar-nos com as Escrituras aguça as faculdades de discerni­


mento e fortalece a alma contra os ataques de Satanás A Bíblia é a espada
do Espírito, que nunca deixará de vencer o adversário . É o único guia ver­
dadeiro em todos os assuntos de fé e prática . O motivo por que Satanás tem
tão grande domínio sobre a mente e o coração dos homens é não haverem
eles tornado a Palavra de Deus o homem de seu conselho, e todos os seus
caminhos não foram provados pela verdadeira prova. A Bíblia nos mostrará
a direção que devemos seguir para tornar-nos herdeiros da glória (Mente,
Caráter e Personalidade, v 1, p. 89, 90).

CONHECIMENTO DA PALAVRA
Um discípulo precisa conhecer bem a Palavra de Deus e nela confiar a fim
de formar outros discípulos Não se trata de um simples conhecimento teórico
Se possuo um diploma de doutor e passo a maior parte do meu tempo estu­
dando os mistérios divinos e escrevendo sobre eles, mas não vivo as verdades
bíblicas, nem formo outro discípulo para Cristo, não sou um discípulo Posso
ser um erudito, mas não um discípulo . Discípulo é aquele que conhece a Bíblia
para aplicá-la à própria vida e para discipular outra pessoa
70 | Todos E n v ol vi do s na Missão

Por meio do estudo diário da Bíblia, desenvolvemos companheirismo com


Jesus. O resultado é a transformação do discípulo à semelhança de seu Mestre .
Paulo declara: “E todos nós, com o rosto desvendado, contemplando, como por
espelho, a glória do Senhor, somos transformados, de glória em glória, na Sua
própria imagem, como pelo Senhor, o Espírito” (2Co 3:18).
Contemplar a glória do Senhor não é uma experiência mística. Não é um
ato de meditação transcendental. É uma experiência prática de encontro com
Cristo por meio de Sua Palavra

As grandes forças incentivadoras da vida são a fé, a esperança e o amor;


é para isso que um estudo da Bíblia bem orientado apela. A beleza das
Escrituras, de suas imagens e de sua linguagem, é apenas, por assim dizer,
a moldura de seu verdadeiro tesouro - a beleza da santidade . No relato que
apresenta de homens que andaram com Deus, podemos sentir os lampe­
jos de Sua glória. Naquele que é “totalmente desejável” (Ct 5:16) contem­
plamos o Ser de quem toda a beleza na Terra e no Céu é apenas um pálido
reflexo. Ele disse: “Eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a Mim
mesmo” (Jo 12:32). Quando o estudante da Bíblia contempla o Redentor,
nele se desperta o misterioso poder da fé, da adoração e do amor. O olhar
se fixa na visão de Cristo, e o que assim contempla cresce na semelhança
Daquele a quem adora (Educação, p. 192).

Não existe um discípulo que cresça e seja transformado à semelhança de


seu Mestre sem o estudo diário da Palavra de Deus

PROPÓSITO DAS ESCRITURAS


O propósito das Escrituras é nos levar a Jesus Toda a Bíblia aponta para Jesus
O próprio Mestre o demonstrou quando, depois de usar a Bíblia no deserto,

[foi] para Nazaré, onde fora criado, entrou, num sábado, na sinagoga,
segundo o Seu costume, e levantou-Se para ler. Então, Lhe deram o livro do
profeta Isaías, e, abrindo o livro, achou o lugar onde estava escrito: O Espírito
do Senhor está sobre Mim, pelo que Me ungiu para evangelizar os pobres;
enviou-Me para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos
cegos, para pôr em liberdade os oprimidos, e apregoar o ano aceitável do
O D is c íp u l o e a B íblia I 71

Senhor. Tendo fechado o livro, devolveu-o ao assistente e sentou-Se; e todos


na sinagoga tinham os olhos fitos Nele. Então, passou Jesus a dizer-lhes:
Hoje, se cumpriu a Escritura que acabais de ouvir (Lc 4:16-21).

Você percebe que Jesus sabia que as Escrituras apontavam para Ele?
Por isso, Ele disse que devemos examinar as Escrituras para termos a vida
eterna. A vida eterna é o resultado de conhecê-Lo . “E a vida eterna é esta:
que Te conheçam a Ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem
enviaste” (Jo 17:3).

Foi dessa maneira que os primeiros discípulos alcançaram a semelhança


com o amado Salvador. Quando ouviram as palavras de Jesus, esses dis­
cípulos sentiram a necessidade que tinham Dele . Eles O buscaram,
O encontraram e O seguiram. Estavam com Jesus em casa, à mesa, nos
aposentos mais reservados e no campo Estavam com Ele como alunos e
seu professor, recebendo diariamente de Seus lábios lições da santa ver­
dade. Olhavam para Ele como servos para seu senhor, para saber o que
tinham a fazer Esses discípulos eram homens sujeitos “aos mesmos senti­
mentos” que temos (Tg 5:17). Como nós, também tinham que lutar con­
tra o pecado Precisavam da mesma graça para viver uma vida santificada
(Caminho a Cristo, p. 72, 73).

A experiência dos discípulos nos tempos de Cristo pode ser também a


nossa, hoje

DIFICULDADES NO CAMINHO
O alimento do cristão é a Palavra de Deus . O discípulo que tenta seguir a
Jesus sem meditar na Bíblia todos os dias está condenado à morte espiritual
Assim como uma pessoa precisa se alimentar fisicamente todos os dias para
se manter saudável, ela também precisa se alimentar espiritualmente Paulo
disse: “Portanto, tomai toda a armadura de Deus, para que possais resistir no
dia mau e, depois de terdes vencido tudo, permanecer inabaláveis” (Ef 6:13).
O estudo diário da Bíblia faz parte da armadura divina . Mas o problema é
que a natureza pecaminosa não gosta do companheirismo com Deus. Prefere
fazer qualquer coisa menos permanecer aos pés de Cristo Mas um discípulo
72 | Todos E n v ol vi do s na Missão

jamais chegará ao fim de sua jornada, a menos que aprenda a se alimentar espi­
ritualmente . E, se o faz, não será porque é fácil, mas porque decidiu fazê-lo de
maneira voluntária.

RESPEITO PELAS ESCRITURAS


Outro assunto que devemos mencionar é o respeito que Jesus tinha pelas
Escrituras . Observe o que Ele mesmo disse: “Não penseis que vim revogar a Lei
ou os Profetas; não vim para revogar, vim para cumprir. Porque em verdade
vos digo: até que o céu e a terra passem, nem um i ou um til jamais passará da
Lei, até que tudo se cumpra. Aquele, pois, que violar um destes mandamentos,
posto que dos menores, e assim ensinar aos homens, será considerado mínimo
no reino dos Céus; aquele, porém, que os observar e ensinar, esse será conside­
rado grande no reino dos Céus” (Mt 5:17-19).
Nesses versículos, Jesus faz referência à Lei e aos Profetas. Assim se cha­
mava a Bíblia do Antigo Testamento. Jesus disse: “Não vim para revogar, vim
para cumprir ”
Enquanto esteve na Terra, Jesus continuava tendo a natureza divina, sendo
um com o Pai e com o Espírito Santo. Se alguém tinha autoridade para mudar
algo do que estava escrito, era Ele Mas não fez isso O tempo todo Ele respei­
tou as Escrituras
Quando alguém perguntava algo, Ele não respondia com Suas próprias
palavras, mas usava as declarações bíblicas para responder. Podia ter dado Suas
próprias respostas, mas não o fez Citava as Escrituras para mostrar o valor e a
autoridade delas . Nos quatro evangelhos, vemos que Jesus citou as Escrituras
mais de 400 vezes. Portanto, um discípulo verdadeiro precisa respeitar as
Escrituras. Precisa também respeitar o contexto e não citar a Bíblia fora dele,
como Satanás fez no deserto
O discípulo faz o que seu mestre ensina, e se Jesus respeitou as Escrituras, o
verdadeiro discípulo também o fará

EXPOSIÇÃO DA PALAVRA
Jesus não usou as Escrituras somente em Sua vida diária e em Seu diálogo
com as pessoas, mas também na pregação No Sermão do Monte, por exem­
plo, Ele repetiu muitas vezes a seguinte expressão: “Ouvistes o que foi dito [. . .]
Eu, porém, vos digo ” Jesus dirigia a mente de Seus ouvintes para as Escrituras
O D is c íp u l o e a B íblia I 73

“Ouvistes o que foi dito " Ele não mudava nada, mas dava um novo significado
ao que fora escrito: “Eu, porém, vos digo"
O legalismo tinha feito com que os princípios eternos se tornassem apenas
regulamentos sem vida. As pessoas viviam preocupadas apenas com a aparên­
cia das coisas . Condenavam o adultério, por exemplo. Ai da pessoa que fosse
encontrada em adultério! Esta era apedrejada em praça pública até morrer.
Mas ninguém se preocupava com os princípios da fidelidade e da pureza. Todo
mundo se cuidava para não ser visto, mas ninguém vigiava o coração nem a
mente . E ambos estavam cheios de imundície e imoralidade .
Os próprios fariseus que olhavam para a mulher adúltera a fim de condená-
la, ao mesmo tempo a olhavam com olhos libidinosos e cobiçosos Até que che­
gou Jesus. Ele não veio para mudar o que estava escrito. “Ouvistes o que foi
dito”, repetiu muitas vezes, “Eu, porém, vos digo”, ou seja, eu dou um novo sig­
nificado ao que já foi escrito - um significado de vida que a letra havia perdido .
Jesus veio ao mundo para conquistar o coração das pessoas e criar nova
vida. Os judeus viam os Mandamentos como proibições ou obrigações . O man­
damento “Não matarás” era entendido da seguinte forma: “Se você matar, vai
morrer" Mas Jesus ensinava: “Se você me ama, então não vai matar" Era o
mesmo, mas diferente O amor fazia a diferença

DISCÍPULOS PREGADORES
Aqui encontramos também uma advertência para os discípulos pregado­
res Nossa missão é pregar por meio da Bíblia No entanto, é preciso lhe dar
vida, significado e relevância. Essa é a missão do pregador. Por que um livro tão
antigo teria importância para as pessoas que vivem hoje? É por isso que deve­
mos começar com as Escrituras, mas sem ficar falando do passado, da história,
da geografia ou da arqueologia daqueles tempos Em vez disso, tiremos lições
de vida para os dramas e problemas que o ser humano de nossos dias enfrenta
Essa é a missão dos discípulos de hoje

FORMANDO DISCÍPULOS COM A PALAVRA


Jesus não usava as Escrituras somente na pregação pública Ele as usava tam­
bém no ministério pessoal, quando falava com uma ou duas pessoas . Assim o fez
repetidas vezes Sua autoridade não residia somente em Seu carisma pessoal, mas
no fato de que usava a Palavra de Deus como base de qualquer coisa que dizia
74 | Todos E n v ol vi do s na Missão

Um dos exemplos mais expressivos talvez seja Seu encontro com dois discí­
pulos no caminho para Emaús, depois de Sua ressurreição . Os discípulos volta­
vam tristes de Jerusalém. Acreditavam que Jesus havia morrido e que todas as
esperanças depositadas no Messias tinham ido por água abaixo . Então Jesus apa­
receu e disse a eles: “Ó néscios e tardos de coração para crer tudo o que os profe­
tas disseram! Porventura, não convinha que o Cristo padecesse e entrasse na Sua
glória? E, começando por Moisés, discorrendo por todos os Profetas, expunha-
lhes o que a Seu respeito constava em todas as Escrituras” (Lc 24:25-27).
Jesus os levou às Escrituras, mostrando que não havia motivo para deses­
pero . Disse a eles que, o que parecia derrota, em realidade era o começo da vitó­
ria E, mais tarde, eles disseram: “Porventura, não nos ardia o coração, quando
Ele, pelo caminho, nos falava, quando nos expunha as Escrituras?” (v 32).

LIÇÃO APRENDIDA
Os discípulos também aprenderam a usar as Escrituras como base de
seus ensinamentos O verdadeiro discípulo usa as Escrituras para apoiar suas
declarações. Observe o exemplo de Pedro quando chegou o momento de subs­
tituir Judas
Jesus havia partido, e eles agora estavam diante de um problema Como o resol­
veriam? “Naqueles dias, levantou-se Pedro no meio dos irmãos (ora, compunha-
se a assembleia de umas cento e vinte pessoas) e disse: Irmãos, convinha que se
cumprisse a Escritura que o Espírito Santo proferiu anteriormente por boca de
Davi, acerca de Judas, que foi o guia daqueles que prenderam Jesus, porque ele
era contado entre nós e teve parte neste ministério” (At 1:15-17).
No entanto, não era somente Pedro . Todos os apóstolos usavam as Escrituras
com equilíbrio e sabedoria. Há 350 referências do Antigo Testamento nos escri­
tos dos apóstolos Eles respeitaram e usaram as Escrituras Com essa atitude,
nos ensinaram que um verdadeiro discípulo é aquele que conhece a Bíblia, a
estuda diariamente, a aplica em sua experiência pessoal, a utiliza na pregação e
nos momentos em que é necessário tomar decisões
A Palavra de Deus tem poder extraordinário . Quando não existia nada, pelo
poder da Palavra foram criados os céus e a Terra. “Pois Ele falou, e tudo se fez;
Ele ordenou, e tudo passou a existir” (Sl 33:9). Quando Jesus esteve na Terra,
pelo poder de Sua palavra também fez paralíticos andarem, ressuscitou mor­
tos e curou leprosos . Hoje, temos conosco a Palavra escrita. Com ela, podemos
O D is c íp u l o e a B íblia I 75

fazer maravilhas na vida dos seres humanos . É por isso que Paulo aconselhou:
“Procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se
envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade . Evita, igualmente, os fala­
tórios inúteis e profanos, pois os que deles usam passarão a impiedade ainda
maior” (2Tm 2:15, 16).
Você gostaria de ser o discípulo aprovado de hoje?

MINHA VIDA NA MISSÃO


Todos Envolvidos na Missão se compara a um mendigo que diz a outro
mendigo onde pode encontrar pão Estas são algumas ideias para que você
possa se envolver pessoalmente:
1. Invista tempo na leitura da Palavra de Deus. Medite na Palavra e
aprenda o que for possível da fonte da verdade
2. Ensine a Palavra aos amigos. Apresente um seminário bíblico ou
organize uma reunião de evangelização.
3 . Faça um pão e o ofereça a um vizinho.
76 |

CAPÍTULO 8
\ - /

O DISCÍPULO E A ORAÇÃO
Ser di scí pulo de J esus si gnifica s e g u i -L o e andar com E le .
Não é uma experiência mística ou romântica; ela é real e prática. É estudar a
Bíblia todos os dias, formar outro discípulo e conversar com Jesus Cristo por
meio da oração .
A oração é para a vida espiritual o que a respiração é para a vida física.
A esse respeito, Ellen White disse:

A oração diária é tão necessária ao crescimento na graça, e mesmo à pró­


pria vida espiritual, como é o alimento ao bem-estar físico . Devemos nos
acostumar a elevar muitas vezes os pensamentos a Deus em oração. Se
o espírito se desvia, devemos fazê-lo voltar; pelo esforço perseverante,
o hábito se tornará enfim fácil. Não podemos, sem perigo, separar-nos,
por um momento que seja, de Cristo . Podemos ter Sua presença a cada
passo, mas isso tão somente observando as condições que Ele mesmo
estabeleceu (Mensagens aos Jovens, p. 115).

O Senhor Jesus ensinou que não existe vida cristã sem oração . Como dis­
cípulos, precisamos aprender a orar muito mais do que oramos costumei­
ramente O drama que enfrentamos é que, com nossa natureza egoísta, até
nossas orações estão manchadas de egoísmo. A maior parte do tempo, ora­
mos pedindo que Deus resolva nossos problemas, que nos cure, que nos
ajude, que cuide de nós
Não acho que isso seja inadequado, mas quando a oração se limita a
pedir, pedir e pedir, algo não vai bem na experiência cristã O verdadeiro
discípulo deve orar muito, mas não apenas por si mesmo . Um exemplo
é Daniel
O D is c íp u l o E A ORAÇÃO I 77

EXEMPLO DE DANIEL
No capítulo 9 do livro de Daniel, encontramos uma oração intercessória.
Se você ler toda a oração, vai ver que em nenhum momento Daniel pede por
si mesmo . Sua oração é em favor do povo de Israel. “Agora, pois, ó Deus nosso,
ouve a oração do Teu servo e as suas súplicas e sobre o Teu santuário assolado
faze resplandecer o rosto, por amor do Senhor. Inclina, ó Deus meu, os ouvidos
e ouve; abre os olhos e olha para a nossa desolação e para a cidade que é cha­
mada pelo Teu nome, porque não lançamos as nossas súplicas perante a Tua
face fiados em nossas justiças, mas em Tuas muitas misericórdias” (Dn 9:17, 18).
Quando Daniel fez essa oração, o povo de Judá vivia dominado pelo impé­
rio medo-persa. A cidade de Jerusalém estava em ruínas. O templo, que sim­
bolizava a presença de Deus, se encontrava parcialmente destruído, e Daniel
orava por seu povo e pela restauração da cidade
Sem dúvida, como qualquer ser humano, o profeta enfrentava dificuldades
pessoais, mas sua preocupação pela cidade e pelos israelitas era muito maior do
que seus próprios problemas

EXEMPLO DE JÓ
O patriarca também enfrentava dificuldades terríveis. Ele tinha perdido
tudo, estava na miséria, doente e sem saber o que fazer. Você acha que, nes­
sas circunstâncias, seria errado orar para que Deus o ajudasse? Claro que não,
e não há dúvida de que Jó pediu muitas vezes que Deus o ajudasse a sair des­
sas dificuldades. Mas, aparentemente, não aconteceu nada. Foi então que ele
mudou o foco da sua oração, passando a interceder por seus amigos . Observe
o resultado: “Mudou o Senhor a sorte de Jó, quando este orava pelos seus ami­
gos; e o Senhor deu-lhe o dobro de tudo o que antes possuíra” (Jó 42:10).
Note a expressão “mudou o Senhor a sorte de Jó”. Ou seja, Deus atendeu a
oração do patriarca em favor dos seus amigos, mas também o atendeu Esse é o
valor da oração intercessória

Esforcemo-nos para andar na luz como Cristo está na luz O Senhor mudou
a sorte de Jó quando ele orou, não só por si mesmo, mas pelos que a ele se
opunham . Quando sentiu o fervoroso desejo de que as pessoas que peca­
ram contra ele fossem ajudadas, ele próprio recebeu ajuda. Oremos, não
por nós mesmos, mas por aqueles que nos magoaram e que continuam
78 | Todos E n v ol vi do s na Missão

a nos magoar. Orem, orem, especialmente em pensamento . Não deem


descanso ao Senhor; pois Seus ouvidos estão abertos para ouvir as ora­
ções sinceras e persistentes feitas quando a alma se humilha diante Dele
(Comentário Bíblico Adventista do Sétimo Dia, v. 3, p . 1293).

O verdadeiro discípulo deve ser um homem ou uma mulher de oração . Ele


pode pedir em favor próprio, mas deve também orar em favor de outros, espe­
cialmente em favor das pessoas que deseja levar aos pés de Jesus.
“Se tentarmos ganhar outros para Cristo, manifestando em nossas orações
preocupação por eles, nosso coração palpitará pela influência vivificadora da
graça de Deus; nossos próprios afetos arderão com mais divino fervor; toda a
nossa vida cristã será mais e mais uma realidade, mais sincera e mais devota”
(Parábolas de Jesus, p. 354).

INTERCESSORES DE ORAÇÃO
Jesus sabia que os discípulos, por melhor que fosse sua intenção, esta­
riam condenados ao fracasso se enfrentassem sozinhos o caminho da vida
cristã. Por isso, Ele orou por nós: “Simão, Simão, eis que Satanás vos recla­
mou para vos peneirar como trigo! Eu, porém, roguei por ti, para que a tua
fé não desfaleça; tu, pois, quando te converteres, fortalece os teus irmãos”
(Lc 22:31, 32).
Há dois pensamentos nesse texto. Jesus sentiu compaixão por Pedro e
pelos outros discípulos, e orou por eles Ele disse a Pedro: “tu, pois, quando
te converteres, fortalece os teus irmãos” Pedro, o discípulo, deveria fortalecer
seus irmãos - os demais discípulos . Deveria se preocupar com a vida espiritual
de seus irmãos e ser um intercessor de oração em favor deles
A oração intercessória ajuda o discípulo que a pratica a crescer espiri­
tualmente Se você não estiver ocupado em discipular outra pessoa, logi­
camente também não estará preocupado em orar por ela. Mas, ao começar
a orar por alguém, você se esquece dos próprios problemas, ficando com
a impressão de que passou pouco tempo com Deus, quando, na verdade,
empregou muito tempo nisso sem que o sentisse, pois esteve preocupado em
clamar pela outra pessoa
O D is c íp u l o E A ORAÇÃO I 79

NÃO SINTO VONTADE DE ORAR


O problema da maioria de nós é que sabemos que precisamos orar, mas
não sentimos vontade de fazê-lo. Por quê? Por causa da nossa natureza peca­
minosa. Apesar de sermos convertidos e de seguirmos a Jesus, continuamos
sendo pecadores, e a natureza pecaminosa não gosta do companheirismo com
Deus. Portanto, se vamos orar, não será porque temos vontade de fazê-lo; ora­
mos apesar de não sentirmos vontade .
O Mestre nos ensinou essa lição. Por ser Deus, Ele poderia viver uma vida
vitoriosa sem a ajuda do Pai, mas não o fez. Jesus não veio ao mundo só para
nos ensinar que devemos vencer a tentação, mas também para nos ensinar
como vencê-la. A coluna vertebral desse “como” é a oração. Por isso, Ele Se
levantava bem cedo, ou Se afastava das multidões, tarde da noite, e Se retirava
para um lugar solitário para conversar com o Pai
Às vezes, Ele passava a noite inteira em oração, mas na manhã seguinte,
voltava do monte da oração cheio de poder. O poder que Jesus usou para ven­
cer a tentação e para realizar as obras prodigiosas que fez foi resultado de Sua
vida de oração. Ele não usou Seu poder divino. Quando veio à Terra, fez um
acordo com o Pai: não usaria Seu poder divino sem o consentimento Daquele
que O enviara

Se aqueles que dão os solenes avisos de advertência para este tempo com­
preendessem sua responsabilidade para com Deus, veriam a necessidade
de fervorosa oração Quando as cidades se aquietavam no sono da meia-
noite, quando todos os homens tinham ido para a própria casa, Cristo, nosso
Exemplo, dirigia-Se ao Monte das Oliveiras, e ali, entre as árvores proteto­
ras, passava a noite inteira em oração Aquele que estava, Ele mesmo, sem
mancha de pecado - um reservatório de bênção; cuja voz fora ouvida na
quarta vigília da noite pelos atemorizados discípulos no mar tempestuoso,
em bênção celestial; e cuja palavra podia chamar os mortos para fora de suas
sepulturas - era O que fazia súplicas com fortes clamores e lágrimas. Ele
orava, não por Si mesmo, mas por aqueles a quem viera salvar Ao tornar-
Se um suplicante, buscando da mão de Seu Pai suprimentos novos de força,
e saindo refrigerado e revigorado como substituto do homem, Ele Se iden­
tifica com a humanidade sofredora, e lhe dá um exemplo da necessidade de
oração (Testemunhos Para a Igreja, v. 4, p. 528).
80 | Todos E n v ol vi do s na Missão

A serva do Senhor disse que orar é abrir o coração a Deus como a um amigo .
O verdadeiro discípulo, portanto, conversa com Jesus como se estivesse conver­
sando com um amigo. Sobre o que conversam os amigos? Sobre tudo . A oração
não tem como propósito informar a Deus sobre nossas necessidades . Ele sabe o
que precisamos antes de pedirmos . O propósito da oração é manter comunhão
com o Pai e receber Seu poder para viver uma vida de vitórias .

Na oração particular, a mente fica livre das influências do ambiente, livre da


agitação. De uma maneira calma, embora fervorosa, você poderá buscar a
Deus . A influência que vem Daquele que vê em segredo será suave e cons­
tante . Seu ouvido está aberto para ouvir a prece que vem do coração . Pela fé
simples e serena, a mente entra em comunhão com Deus, e reúne os raios
da luz divina para lhe dar forças e sustentá-lo no conflito contra Satanás.
Deus é nossa fortaleza (Caminho a Cristo, p. 97).

Tempos atrás, um homem me disse que não tinha força de vontade para
orar. Existe muita gente como esse senhor, que não ora porque pensa que não
tem força de vontade. Mas essas mesmas pessoas se levantam às 4 horas da
manhã para ir trabalhar. Isso quer dizer que têm, de fato, força de vontade, só
que a orientam para as coisas desta vida, não para as que realmente têm valor
“Quanto menos nos sentirmos dispostos a comungar com Jesus, tanto mais
devemos orar. Procedendo assim romperemos o laço de Satanás, desaparece­
rão as nuvens tenebrosas, e perceberemos a doce presença de Jesus” (Exaltai-O,
p. 373).

PEDIR TUDO A DEUS?


Certa vez, Jesus disse: “Pedi, e dar-se-vos-á; buscai e achareis; batei, e abrir-
se-vos-á. Pois todo o que pede recebe; o que busca encontra; e, a quem bate,
abrir-se-lhe-á Ou qual dentre vós é o homem que, se porventura o filho lhe
pedir pão, lhe dará pedra? Ou, se lhe pedir um peixe, lhe dará uma cobra? Ora, se
vós, que sois maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos, quanto mais vosso
Pai, que está nos Céus, dará boas coisas aos que Lhe pedirem?” (Mt 7:7-11).
Esses versículos confundem muita gente Aqui Jesus promete que dará a
Seus filhos tudo o que eles Lhe pedirem Em outra ocasião, Ele disse algo muito
mais contundente: “Em verdade também vos digo que, se dois dentre vós, sobre
O D is c íp u l o E A ORAÇÃO I 81

a terra, concordarem a respeito de qualquer coisa que, porventura, pedirem,


ser-lhes-á concedida por Meu Pai, que está nos Céus” (Mt 18:19).
Por que, então, Deus não responde todas as orações? Talvez devêssemos
perguntar de outra maneira: Qual é o propósito da oração? É cultivar o com­
panheirismo com Deus. É por meio da oração que nosso egoísmo se perde na
abnegação divina, nossas paixões humanas caem como folhas secas, e floresce
em nós o caráter de Jesus Cristo.
Andar de mãos dadas com Jesus, fazer Dele o centro de nossa experiência
diária, viver cada dia com Jesus - essas e outras expressões romantizadas se tra­
duzem numa atitude prática chamada oração O resultado disso é que apren­
demos a contemplar a vida de uma maneira diferente, percebendo que existem
coisas mais importantes do que apenas comida e vestuário. Isso não significa
que devamos mistificar a vida a ponto de pensar que não precisamos mais tra­
balhar nem comer. Deus Se preocupa com as coisas materiais de que precisa­
mos, mas deseja nos levar a uma experiência de fé. Porém, cuidado! A fé não é
presunção . A fé é confiança em Deus, ainda que as coisas não saiam como mui­
tas vezes desejamos .

Os que põem toda a armadura de Deus e devotam algum tempo cada dia
à meditação, oração e estudo das Escrituras estarão em ligação com o Céu
e terão uma influência salvadora, transformadora sobre os que os cercam
Pensamentos elevados, nobres aspirações, claras percepções da verdade e
dever para com Deus serão seus. Ansiarão por pureza, luz, amor, por todas
as graças do novo nascimento Suas orações sinceras irão além do véu Essa
classe possuirá santa ousadia em ir à presença do Infinito Sentirão que a luz
e as glórias celestiais lhes pertencem e se tornarão refinados, elevados e eno­
brecidos por sua íntima familiaridade com Deus . Tal é o privilégio do verda­
deiro cristão (Testemunhos Para a Igreja, v 5, p. 112, 113).

DISCÍPULOS DE ORAÇÃO
Se você estudar a vida da igreja e dos apóstolos no 1o e 2o séculos, verá que
eles aprenderam por meio da comunhão com o Mestre Claro que eles oravam
por suas necessidades materiais e espirituais, mas você vai se deparar com inú­
meras ocasiões em que eles oraram em favor de outros, inclusive dos gover­
nantes A vida da igreja primitiva foi uma vida de permanente oração em favor
82 | Todos E n v ol vi do s na Missão

de outras pessoas . E qual foi o resultado? A igreja cresceu de maneira assom­


brosa, os poderes do mal foram abalados, a fidelidade à igreja era tal que os pri­
meiros cristãos não tinham medo de morrer nos coliseus e, apesar de todas as
dificuldades, continuavam cumprindo a missão .
Precisamos aprender com o mestre Jesus . Somos Seus discípulos, e um ver­
dadeiro discípulo vive como o Mestre viveu . Precisamos cuidar para não pen­
sar que, uma vez que as estatísticas são aparentemente positivas, estamos bem
espiritualmente

À medida que aumenta a atividade, e os homens são bem-sucedidos em


realizar alguma obra para Deus, há risco de confiar em planos e métodos
humanos. Vem a tendência de orar menos e ter menos fé. Como os discí­
pulos, arriscamo-nos a perder de vista nossa dependência de Deus e fazer
de nossa atividade um salvador. Necessitamos olhar continuamente a Jesus,
compreendendo que é Seu poder que realiza a obra Conquanto devamos
trabalhar ativamente pela salvação dos perdidos, cumpre-nos também
consagrar tempo à meditação, à oração e ao estudo da Palavra de Deus.
Unicamente o trabalho realizado com muita oração e santificado pelos
méritos de Cristo demonstrar-se-á afinal haver sido eficaz (O Desejado de
Todas as Nações, p. 362).

MINHA VIDA NA MISSÃO


Todos Envolvidos na Missão significa oração intercessória. Estas são al­
gumas ideias para você se envolver pessoalmente:
1. Comece o seu dia com oração. Memorize uma promessa da Bíblia.
2 . Ore por cinco pessoas que você quer ver no Céu.
3. Peça a Deus que o ajude a encontrar uma necessidade na comunidade
e a satisfazer essa necessidade .
| 83

C A P Í T U LO 9

A ESPERA E A MISSÃO
E sperar a l g u é m de b r a ç o s c r u z a d o s é u m a e x p e r i ê n ­
cia muito desagradável. A ansiedade se mistura com a expectativa; a dúvida,
com a incerteza. O cansaço lentamente consome a esperança, e o futuro se
mostra incerto e sem perspectivas
Os discípulos de Cristo não podem esperar seu Mestre olhando para o céu
e contando os dias para o reencontro sem correrem o risco de se extraviar nos
labirintos da especulação .

O SENHOR NÃO RETARDA SUA PROMESSA


O povo adventista é fruto da esperança Os pioneiros esperavam com ansie­
dade por Jesus . Acreditavam que o Salvador Se manifestaria em seus dias.
Pregavam o evento dos séculos com paixão e dedicação . No entanto, já se pas­
saram quase dois séculos e Jesus não voltou
A esperança, porém, não é um patrimônio apenas dos nossos pionei­
ros Os discípulos, na igreja primitiva, também alimentavam sua fé com a
esperança de ver Jesus em glória. Eles criam que Jesus voltaria em seus dias .
E mais: a “bendita esperança” tem movido e inspirado a fé dos crentes de
todos os tempos
Enoque, em seu tempo, revelou esta verdade profética: “Quanto a estes
foi que também profetizou Enoque, o sétimo depois de Adão, dizendo: Eis
que veio o Senhor entre Suas santas miríades, para exercer juízo contra todos
e para fazer convictos todos os ímpios, acerca de todas as obras ímpias que
impiamente praticaram e acerca de todas as palavras insolentes que ímpios
pecadores proferiram contra Ele” (Jd 14, 15). Enoque era um discípulo fiel e
verdadeiro Os discípulos esperam a volta de seu Mestre, mas não o fazem de
braços cruzados
84 | Todos E n v ol vi do s na Missão

Enoque continuou a se tornar mais piedoso enquanto se comunicava com


Deus . Sua face era radiante com a santa luz que permanecia em sua fisiono­
mia enquanto instruía aqueles que vinham para ouvir suas sábias palavras.
Sua aparência digna e celestial infundia às pessoas reverência. O Senhor
amava a Enoque porque ele firmemente O seguia, aborrecendo a iniqui­
dade, e fervorosamente buscava conhecimento celestial, para fazer Sua von­
tade com perfeição . Ele anelava se unir ainda mais estreitamente com Deus,
a quem temia, reverenciava e adorava. Deus não permitiu a Enoque mor­
rer como outros homens, mas enviou Seus anjos para levá-lo ao Céu sem
ver a morte. Na presença de justos e ímpios Enoque foi removido deles.
Aqueles que o amavam pensaram que Deus pudesse tê-lo deixado em algum
de seus lugares de retiro, porém, depois de procurarem diligentemente por
ele, e sendo incapazes de achá-lo, disseram que não se acharia mais, porque
Deus o tomara (História da Redenção, p. 59).

Enoque foi transladado por Deus sem conhecer a morte, mas a promessa da
vinda de Cristo continua vigente . Por que Jesus ainda não veio, apesar da expec­
tativa de Seu povo e do anúncio iminente dos escritores bíblicos? Talvez a res­
posta esteja no elemento surpresa que acompanha Sua vinda Deus deseja que
Seu povo esteja preparado em todo momento, e não que se prepare somente
porque o dia está chegando

ELEMENTO SURPRESA
Se estudarmos o que os escritores bíblicos disseram a respeito da volta de
Jesus, perceberemos que eles anunciaram o Dia do Senhor como um evento
súbito e inesperado. Jesus disse: “Portanto, vigiai, porque não sabeis em que
dia vem o vosso Senhor” (Mt 24:42). “Acautelai-vos por vós mesmos, para
que nunca vos suceda que o vosso coração fique sobrecarregado com as con­
sequências da orgia, da embriaguez e das preocupações deste mundo, e para
que aquele dia não venha sobre vós repentinamente, como um laço Pois há de
sobrevir a todos os que vivem sobre a face de toda a Terra. Vigiai, pois, a todo
tempo, orando, para que possais escapar de todas estas coisas que têm de suce­
der e estar em pé na presença do Filho do Homem” (Lc 21:34-36).
A ênfase de Jesus não foi sobre o dia ou a hora, mas sobre a preparação de
Seus discípulos para o grande dia O apóstolo Paulo escreveu a mesma coisa:
A E s p e r a e a Missão | 85

“Pois vós mesmos estais inteirados com precisão de que o Dia do Senhor vem
como ladrão de noite” (1Ts 5:2).

PERSPECTIVA DO TEMPO
É Pedro quem explica melhor a razão da aparente demora e a maneira cor­
reta de viver a fim de não sermos dominados pelo vazio da expectativa pela
simples expectativa. Ele escreveu: “Tendo em conta, antes de tudo, que, nos
últimos dias, virão escarnecedores com os seus escárnios, andando segundo as
próprias paixões e dizendo: Onde está a promessa da Sua vinda? Porque, desde
que os pais dormiram, todas as coisas permanecem como desde o princípio da
criação. Há, todavia, uma coisa, amados, que não deveis esquecer: que, para o
Senhor, um dia é como mil anos, e mil anos, como um dia” (2Pe 3:3, 4, 8).
Para o ser humano, que na melhor das hipóteses vive cem anos, a vinda de
Cristo pode parecer muito demorada. Mas o que significa esse tempo para a
eternidade de Deus? “Para o Senhor, um dia é como mil anos, e mil anos, como
um dia”. Essa declaração não foi feita originalmente por Pedro para explicar as
profecias de tempo, mas para explicar a aparente demora de Jesus, diante da qual
os zombadores perguntam: “O que houve com a promessa de Sua vinda?” (NVI)
Pedro explica as perspectivas de tempo de Deus e do homem . Ele afirma que
aquilo que, para o ser humano parece demora, em realidade não é. E, depois,
acrescenta: “Não retarda o Senhor a Sua promessa, como alguns a julgam
demorada; pelo contrário, Ele é longânimo para convosco, não querendo que
nenhum pereça, senão que todos cheguem ao arrependimento” (2Pe 3:9).

MANEIRA CORRETA DE ESPERAR


Qual é a melhor maneira de esperar por Jesus? Há um ditado que diz: “Aquele
que espera se desespera.” A melhor maneira de esperar não é ficar olhando cons­
tantemente para o relógio, nem tentando descobrir o dia ou a hora Jesus mesmo
disse isso diante da preocupação dos discípulos em saber quando essas coisas
iam acontecer: “Então, os que estavam reunidos Lhe perguntaram: Senhor, será
este o tempo em que restaures o reino a Israel? Respondeu-lhes: Não vos com­
pete conhecer tempos ou épocas que o Pai reservou pela Sua exclusiva autori­
dade; mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis Minhas
testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria e até aos con­
fins da Terra” (At 1:6-8).
86 | Todos E n v ol vi do s na Missão

Nessa declaração, o Mestre ensina que a melhor maneira de esperar por Ele
é sendo Suas testemunhas e cumprindo a missão . Vou ilustrar isso da seguinte
maneira: Suponhamos que eu peça que você me espere amanhã na praça da
cidade. Não digo a hora. Simplesmente aviso que posso aparecer a qualquer
momento . Despeço-me e vou embora .
Você chega à praça bem cedo, senta-se num banco e começa a olhar para
todos os lados . Uma hora se passa, e a expectativa aumenta. Você continua
observando com ansiedade, mas eu não apareço . Três horas depois, você conti­
nua ali, cansado, olhando constantemente para o relógio, esperando com ansie­
dade que eu apareça. O tempo parece não passar. Os minutos se transformam
em horas, e você sente fome e sede, mas eu não apareço.
Já passa das 6 horas da tarde. Você já está ali desde as 6 horas da manhã,
esperando por mim. Doze horas de espera é muito tempo. Seu pescoço já está
dolorido de tanto você olhar de um lado para outro. Finalmente, você chega
à conclusão de que eu não virei, e vai embora. Um minuto depois de você se
retirar, eu apareço, mas, infelizmente, você já foi embora. Esperou em vão.
Desesperou-se e frustrou-se . Sua esperança se evaporou. Você perdeu seu dia
esperando de braços cruzados, e nada aconteceu

ESPERARETRABALHAR
Pensemos agora em outro quadro. Eu digo para você me esperar ama­
nhã numa praça da cidade, mas lhe dou uma missão, a qual deve cumprir
enquanto eu não chego. Há dez caixas enormes cheias de bombons que deve­
rão ser embrulhados . Ali estão os bombons e os papéis . Às seis da manhã, você
começa a trabalhar com entusiasmo e dedicação . A partir de uma perspectiva
humana, é impossível terminar o trabalho . O que você não sabe, porém, é que
não lhe dei a missão por eu não poder fazer esse trabalho de outra maneira,
mas porque você precisa estar ocupado a fim de que a espera não seja tediosa
e desesperadora
Você chega às 6 horas da manhã e se concentra no cumprimento da missão
Não sente o tempo passar Em vez de ficar olhando para o relógio, observa que
falta muito para concluir o trabalho que encomendei . Você não para. Continua.
De repente, para sua surpresa, eu coloco minha mão sobre o seu ombro Você
me olha assustado São 6 horas da tarde
- Já chegou?
A E s p e r a e a Missão I 87

- Sim, cheguei .
- Eu nem senti o tempo passar.
- Claro que não . Você estava mais preocupado em cumprir a missão do que
em ficar olhando para o relógio .

SE ELE DEMORAR, ESPERE


O conselho de Pedro é: “Visto que todas essas coisas hão de ser assim desfeitas,
deveis ser tais como os que vivem em santo procedimento e piedade, esperando e
apressando a vinda do Dia de Deus, por causa do qual os céus, incendiados, serão
desfeitos, e os elementos abrasados se derreterão” (2Pe 3:11, 12). Mais adiante,
ele diz: “Por essa razão, pois, amados, esperando estas coisas, empenhai-vos por
serdes achados por Ele em paz, sem mácula e irrepreensíveis” (2Pe 2:14).
Observe a expressão “esperando estas coisas”. É uma referência à vinda
de Cristo Como viver essa vida santa, sem mácula e irrepreensível, enquanto
esperamos por Jesus? Evidentemente, quem espera é a igreja gloriosa e sem
mancha da qual Paulo fala. Essa é a igreja que reflete o caráter de Jesus . Como
podemos preparar essa igreja para o encontro com Jesus?
No capítulo 6 da Epístola de Paulo aos Efésios, o apóstolo apresenta os ins­
trumentos que Deus deixou para edificar a igreja:

Portanto, tomai toda a armadura de Deus, para que possais resistir no dia
mau e, depois de terdes vencido tudo, permanecer inabaláveis . Estai, pois,
firmes, cingindo-vos com a verdade e vestindo-vos da couraça da justiça.
Calçai os pés com a preparação do evangelho da paz; embraçando sempre
o escudo da fé, com o qual podereis apagar todos os dardos inflamados do
Maligno . Tomai também o capacete da salvação e a espada do Espírito, que
é a palavra de Deus; com toda oração e súplica, orando em todo tempo no
Espírito e para isto vigiando com toda perseverança e súplica por todos os
santos (v 13-18).

A igreja que faz uso dessas armas poderá “[resistir] no dia mau e, depois de
[ter] vencido tudo”, estará firme, refletindo a glória de Deus - uma igreja a toda
prova. Essa é a afirmação do apóstolo. E os instrumentos para alcançar essa
experiência são a verdade, a justiça, a preparação do evangelho da paz, a fé, a
salvação, a Palavra de Deus e a oração
88 | Todos E n v ol vi do s na Missão

Permita-me, no entanto, dividir esses instrumentos em dois grupos . No pri­


meiro, vou colocar a verdade, a justiça, a fé e a salvação. Os quatro são ins­
trumentos divinos colocados nas mãos dos seres humanos. A participação
humana, contudo, é apenas a de aceitar ou recusar.
Os últimos três - a oração, o estudo diário da Bíblia e a preparação do evan­
gelho da paz - também são instrumentos divinos, mas só funcionam se o ser
humano os puser em prática. Sua participação no uso desses instrumentos é
muito mais ativa . Explico melhor: você e eu não podemos fazer nada para modi­
ficar a verdade, a justiça, a fé e a salvação, a não ser aceitar ou recusar. Esses
instrumentos sempre estarão disponíveis, acima de nossas intenções humanas .
Mas, com relação à preparação do evangelho, o estudo diário da Bíblia e a ora­
ção, nossa participação é indispensável Somos nós que temos que orar e estu­
dar a Bíblia todos os dias . Deus não vai fazer isso em nosso lugar.
Todos nós sabemos em que consistem a oração e o estudo da Bíblia. Mas o
que é a “preparação do evangelho da paz?” Isaías explica: “Que formosos são
sobre os montes os pés do que anuncia as boas-novas, que faz ouvir a paz, que
anuncia coisas boas, que faz ouvir a salvação, que diz a Sião: O teu Deus reina!”
(Is 52:7). A preparação do evangelho da paz é levar pessoas a Cristo e fazer
novos discípulos A isso podemos chamar de testemunho - um instrumento
indispensável no processo do crescimento espiritual E crescimento espiritual
tem como objetivo final nos levar a refletir o caráter de Jesus Cristo .
Muitos cristãos conseguem orar, bem como estudar a Bíblia todos os dias .
A dificuldade que a maioria encontra é a de levar pessoas aos pés de Jesus.
Indivíduos sinceros e bem-intencionados, por mais que se esforcem, veem com
frequência suas intenções frustradas e, depois de algumas iniciativas fracas­
sadas, chegam à conclusão de que “não têm dom para isso” Porém, a partir
de uma perspectiva divina, orar, estudar a Bíblia e levar pessoas a Jesus não
são dons, mas instrumentos-chave de crescimento cristão. O uso desses instru­
mentos determinará o crescimento na graça de Deus
Para que esses instrumentos tenham sentido, devem funcionar juntos.
É como a dinamite. A dinamite tem três elementos: a pólvora, o detonador e
o pavio Isolados um do outro, a dinamite não existe Juntos, porém, têm um
poder destrutivo terrível O mesmo acontece na vida espiritual, mas com efeito
positivo A oração e o estudo da Bíblia, quando separados do testemunho, não
têm muito valor Podem, inclusive, levar ao fanatismo ou ao misticismo Isso é
A E s p e r a e a Missão | 89

o que afirma o Espírito de Profecia: “Este período não deve ser despendido em
abstrata devoção. Esperar, vigiar e o atento trabalho devem ser combinados”
(Serviço Cristão, p. 85).
A que chama a serva do Senhor de “abstrata devoção”? Ao estudo da Bíblia
e à oração, quando separados do trabalho de buscar pessoas para Jesus. Mas se
você incluir o testemunho como parte da sua vida devocional, entrará numa
dimensão extraordinária de crescimento, que o levará a refletir a glória de Deus.

BEM-AVENTURADO
Falando de Sua segunda vinda, Jesus disse em certa ocasião: “Bem-aventurado
aquele servo a quem seu senhor, quando vier, achar fazendo assim” (Mt 24:46).
Assim, o quê? Cumprindo a missão. Comprometido em sair e buscar os pecado­
res a fim de transformá-los em discípulos de Jesus.

Esse é o trabalho no qual também devemos estar envolvidos. Em vez de


viver na expectativa de um período especial de fervor, cumpre-nos aprovei­
tar sabiamente as oportunidades presentes, fazendo o que precisa ser feito
para salvação das pessoas. Em vez de desgastar as forças da mente em espe­
culações quanto aos tempos ou às estações que o Senhor estabeleceu pelo
Seu próprio poder, e reteve dos homens, devemos submeter-nos ao con­
trole do Espírito Santo, cumprir os deveres presentes, dar o pão da vida, não
adulterado pelas opiniões humanas, às pessoas que estão perecendo pela
verdade (Review and Herald, 22 de março de 1892).

MINHA VIDA NA MISSÃO


Todos Envolvidos na Missão significa imitar Jesus. Estas são algumas
ideias para você se envolver pessoalmente:
1. Pregue numa campanha de evangelismo na vizinhança ou em outro
lugar.
2. Convide alguém para aceitar a Jesus como Salvador pessoal.
3. Reparta suas roupas com os necessitados.
90 |

DISCIPULANDO LÍDERES
ESPIRITUAIS
NÃO EXISTE IGREJA ORGANIZADA SEM LÍDERES. ÂNTES DE
estabelecer Sua igreja, Jesus formou discípulos líderes. E Jesus é nosso exemplo.
Ele trabalhou com 12 homens que foram capazes de sacudir o mundo. E como
os formou? O relato bíblico responde: “Naqueles dias, retirou-Se para o monte,
a fim de orar, e passou a noite orando a Deus . E, quando amanheceu, chamou a
Si os Seus discípulos e escolheu doze dentre eles, aos quais deu também o nome
de apóstolos” (Lc 6:12, 13).

ANTES DE FORMAR LÍDERES


Fico impressionado com a declaração de Lucas: “Naqueles dias, retirou-Se
para o monte, a fim de orar, e passou a noite orando a Deus.” Não foi uma
simples prece antes de começar uma comissão de nomeação . Tampouco foram
duas ou três orações curtas pedindo ao Pai que desse sabedoria à comissão.
“Passou a noite orando”, afirma Lucas .
Por que tanta oração? É que, no dia seguinte, Ele escolheria os 12 homens
que prepararia para dar continuidade ao trabalho que viera estabelecer. Aqueles
homens se encarregariam de preparar o povo de Deus para o reino dos Céus.
Era necessário que fossem escolhidos com sabedoria.
Jesus ensinou a mais importante lição sobre a ciência de formar líderes for­
madores de discípulos Não se trata simplesmente de formar homens e mulhe­
res teóricos, ou técnicos, mas espirituais O primeiro passo é pedir sabedoria
a Deus por meio da oração. O trabalho de formar líderes formadores de dis­
cípulos é divino Os seres humanos, sem a atuação direta de Deus, erram com
DisciPüiANDo L íderes Espirituais I 91

frequência . Mesmo sendo sinceros, correm o risco de se deixar levar apenas por
critérios humanos .

NÃO É SÓ APARÊNCIA
Deus deu o seguinte conselho a Samuel por ocasião da eleição de um rei para
Israel: “Não atentes para a sua aparência, nem para a sua altura, porque o rejei­
tei; porque o Senhor não vê como vê o homem. O homem vê o exterior, porém o
Senhor , o coração” (1Sm 16:7).
Como podem os seres humanos ver como Deus vê? Somente por meio da ora­
ção. Por isso, antes de escolher Seus discípulos, Jesus passou uma noite inteira orando.
Refiro-me aqui à escolha de discípulos líderes, e não de discípulos apenas.
Todos nós somos chamados a ser discípulos de Cristo, no sentido de proclamar as
boas-novas do evangelho e formar outros discípulos. Somente alguns são chama­
dos para ser líderes

O SER HUMANO COMPLETO


O homem e a mulher possuem faculdades físicas, mentais e espirituais.
O Espírito de Profecia diz que a verdadeira educação é o desenvolvimento har­
mônico dessas três faculdades . Com frequência, cometemos o erro de enfatizar
apenas um desses aspectos na formação de um líder. Existem os que enfatizam a
preparação intelectual e teórica. Outros enfatizam a experiência. E ainda existem
os que destacam somente o aspecto espiritual . Quando fazemos isso, desintegra­
mos o ser humano, perdemos o equilíbrio e damos lugar a líderes deformados
A expressão “líderes deformados” não é pejorativa. Não significa que sejam
más pessoas. Significa que têm uma visão incorreta das coisas, das pessoas e
da vida em geral. A preparação intelectual é necessária. A informação sobre as
diferentes áreas da vida não pode ser deixada de lado Mas a informação não
transforma. O poder transformador vem do Espírito Santo. Ele toma a infor­
mação teórica e a aplica às diferentes circunstâncias da vida, tornando-a rele­
vante e significativa. Se desejarmos formar líderes espirituais, precisamos levar
as pessoas a ter uma experiência espiritual profunda, sem descuidar da infor­
mação teórica, nem da capacitação, nem da experiência

A primeira grande lição em toda educação é conhecer e compreender a


vontade de Deus . Devemos introduzir na vida diária o esforço de adquirir
92 | Todos E n v ol vi do s na Missão

esse conhecimento. Aprender a Ciência através da interpretação humana


apenas é falsa educação; aprender de Deus e de Cristo, porém, é aprender a
Ciência do Céu . A confusão em matéria educativa sobreveio devido a não
haverem sido exaltados a sabedoria e o conhecimento de Deus (Conselhos
aos Pais, Professores e Estudantes, p. 447).

A PRATICIDADE DE JESUS
Jesus foi nosso exemplo na arte de formar líderes espirituais. No capí­
tulo 6 do evangelho de Lucas, encontramos ensinamentos que não se limitam
somente ao aspecto teórico da preparação de um líder. Ali, Jesus apresenta um
evangelho prático. Os ensinamentos de Jesus sempre estiveram permeados de
realidade prática . Ele não foi um filósofo que apresentava teorias maravilhosas
sobre a vida . Ele dava à vida respostas extraídas da própria vida.
Estudando Seus ensinamentos, é difícil dizer em que ponto terminam Suas
palavras e começam Seus atos, ou terminam Seus atos e começam Suas pala­
vras . Seus atos eram palavras, e Suas palavras eram atos .
No início de seu relato, Lucas disse: “Muitos houve que empreenderam uma
narração coordenada dos fatos que entre nós se realizaram” (Lc 1:1).
Note que o que aconteceu entre eles foram “fatos”. Lucas não foi um filósofo
que especulou sobre uma teoria, mas um historiador que escreveu sobre as teo­
rias transformadas em fatos Depois, ele continuou: “Conforme nos transmiti­
ram os que desde o princípio foram deles testemunhas oculares e ministros da
palavra” (Lc 1:2).
Somente as “testemunhas oculares” podem ser ministros dessa palavra, pois
são os observadores de um fato . O evangelho começa com uma palavra. Uma
palavra que é o próprio Deus A palavra, porém, não é só palavra, mas vida
E se fez carne
Se o evangelho tivesse ficado na simples palavra, não passaria de mera teo­
ria Suas respostas para os dramas da vida seriam só respostas teóricas Mas, ao
se fazer carne, as respostas do evangelho para os dramas da vida se tornam rea­
lidades práticas. Jesus não só disse “amem seus inimigos”, como também amou
e morreu pelos que O torturavam. Ele não só disse “perdoem os que ofendem
vocês”, como também, na cruz, perdoou os que O crucificavam . Ele não só pro­
nunciou um discurso maravilhoso sobre a maternidade, como também nas­
ceu de uma mulher, e com esse ato consagrou a maternidade Não só filosofou
DisciPüiANDo L íderes Espirituais | 93

sobre a fome das nações, como também multiplicou pães e peixes para saciar a
fome da multidão .
Seu ministério foi uma extraordinária combinação de teoria e prática, ensinando-
nos que essa é a maneira correta de formar líderes. Na vida de um líder cristão,
a teoria e a prática devem se tornar realidade viva. Por isso, Lucas disse: “Escrevi
o primeiro livro, ó Teófilo, relatando todas as coisas que Jesus começou a fazer e
a ensinar até ao dia em que, depois de haver dado mandamentos por intermédio
do Espírito Santo aos apóstolos que escolhera, foi elevado às alturas” (At 1:1, 2).
Fazer e ensinar. Prática e teoria. Esse é a maneira correta de formar líderes .

NÃO SÓ TEORIA
Corremos perigo quando nos preocupamos somente com a formação teó­
rica do líder. Por alguma razão, Jesus não buscou Seus primeiros discípulos no
Sinédrio, mas no campo e à beira do mar A teoria é necessária, não podemos
menosprezá-la, mas a teoria por si só enche o coração de suficiência própria.
Ou, na melhor das hipóteses, forma líderes que se perdem no mar profundo
das ideias, alheios aos dramas da vida real. “Porque assim diz o Alto, o Sublime,
que habita a eternidade, o qual tem o nome de Santo: Habito no alto e santo
lugar, mas habito também com o contrito e abatido de espírito, para vivificar o
espírito dos abatidos e vivificar o coração dos contritos” (Is 57:15).
Encontrar pessoas contritas e de espírito abatido talvez seja a grande neces­
sidade na formação de líderes O verdadeiro líder precisa admitir que nada
sabe . É a única maneira de aprender. Não existe liderança saudável sem apren­
dizagem, mas o que é possível ensinar à pessoa que pensa que sabe? Humildade .
Essa é a virtude-chave na vida de um líder. Paulo disse: “Nada façais por par­
tidarismo ou vanglória, mas por humildade, considerando cada um os outros
superiores a si mesmo” (Fp 2:3).
Não se pode preparar um verdadeiro discípulo líder sem antes levá-lo
a Jesus. Só por meio do companheirismo diário com Cristo é que o caráter de
Jesus pode ser reproduzido no ser humano O próprio líder não percebe que é
humilde, mas as pessoas que se relacionam com ele notam que sua vida reflete
o caráter do Mestre .

Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus,


pois Ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser
94 | Todos E n v ol vi do s na Missão

igual a Deus; antes, a Si mesmo Se esvaziou, assumindo a forma de servo,


tornando-Se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana,
a Si mesmo Se humilhou, tornando-Se obediente até à morte e morte de
cruz . Pelo que também Deus O exaltou sobremaneira e Lhe deu o nome que
está acima de todo nome (Fp 2:5-9).

Você percebe como é a trajetória de um líder espiritual? Ele se humilha, e


Deus o exalta. Ele não luta para aparecer. Desaparece no mar do serviço e, ape­
sar disso, a própria vida se encarrega de registrar seu nome na história. Deus
procura homens e mulheres dispostos a ser usados por Seu Espírito . Mulheres
e homens que tenham consciência de sua insuficiência e se coloquem nas mãos
do Mestre para ser usados por Ele

OS LÍDERES QUE JESUS FORMOU


Precisamos voltar aos escritos de Lucas, o historiador Desta vez, leremos o
que ele escreveu no livro de Atos: “Escrevi o primeiro livro, ó Teófilo, relatando
todas as coisas que Jesus começou a fazer e a ensinar até ao dia em que, depois
de haver dado mandamentos por intermédio do Espírito Santo aos apóstolos
que escolhera, foi elevado às alturas A estes também, depois de ter padecido,
Se apresentou vivo, com muitas provas incontestáveis, aparecendo-lhes durante
quarenta dias e falando das coisas concernentes ao reino de Deus E, comendo
com eles, determinou-lhes que não se ausentassem de Jerusalém, mas que espe­
rassem a promessa do Pai, a qual, disse ele, de Mim ouvistes” (At 1:1-4).
Como Jesus formou esses discípulos líderes? Lucas disse: “[Relatei] todas
as coisas que Jesus começou a fazer e a ensinar ” Observe a sequência que Jesus
seguia ao discipular líderes . Primeiro fazia; depois, ensinava . Na sala de aulas,
os discípulos confirmavam o que tinham visto e feito com Jesus na prática
Teríamos algo a aprender com tudo isso?
Em segundo lugar, Jesus falava do reino de Deus para eles . Qual é a natureza
do reino de Deus? Como alguém pode liderar o reino de Deus na Terra, se não
conhece sua natureza? O reino de Deus é espiritual e, por essa razão, há uma
necessidade de líderes espirituais que sejam capacitados, que conheçam a teo­
ria, mas que, antes de tudo, sejam espirituais Depois, Lucas registra as palavras
de Jesus, as quais admoestam Seus discípulos a não sair para o cumprimento da
missão sem ter a certeza de que receberam o Espírito Santo E isso é óbvio, pois
DisciPüiANDo L íderes Espirituais | 95

se esses líderes vão cumprir uma missão espiritual, eles precisam ser homens e
mulheres espirituais. Precisam receber o Espírito.

MISSÃO DE TODOS OS CRENTES


Os líderes formadores de discípulos devem entender que a missão foi enco­
mendada por Deus a todos os crentes, sem exceção. A missão é o instrumento
divino para o crescimento do cristão. A missão é de cada crente. Cada crente
precisa crescer. “Os que ocupam lugar de líderes na igreja de Deus devem sen­
tir que a missão do Salvador é dada a todos os que crerem em Seu nome” (Atos
dos Apóstolos, p. 110).
Essa declaração é dramática. São os discípulos/líderes que são chamados a
entender que, para fomentar o crescimento da igreja, não é suficiente contratar
um grupo de obreiros bíblicos e evangelistas profissionais, batizar muitas pes­
soas e aumentar o número de membros.
As campanhas evangelísticas, o trabalho dos obreiros bíblicos e o batismo
de pessoas têm o seu lugar - e esse último é maravilhoso quando é o resul­
tado do trabalho individual de cada cristão. Mas, se essas atividades fomen­
tam o crescimento das estatísticas e deixam os crentes de braços cruzados, é
o pior que pode acontecer para a igreja. Os líderes devem entender que “sal­
var pessoas deve ser a obra vitalícia de todo aquele que professa seguir a Cristo .
Somos devedores ao mundo pela graça que nos foi dada por Deus, pela luz que
brilhou sobre nós, e pela beleza e poder que descobrimos na verdade” (Serviço
Cristão, p. 10).

TRABALHO DESCUIDADO
O Espírito de Profecia enfatiza repetidas vezes que “salvar pessoas deve ser
a obra vitalícia de todo aquele que professa seguir a Cristo”. Todos, não alguns .
Não uns poucos, mas todos.
O mundo já estaria evangelizado se tivéssemos seguido o plano-mestre de
Jesus Cristo e tivéssemos nos preocupado em convencer cada membro da igreja
a procurar seus amigos, parentes e vizinhos a fim de transformá-los em discí­
pulos Mas, lamentavelmente, o plano divino passou a ser “um método a mais”
em meio a tantos planos. E isso não ocorre somente em nossos dias . No fim do
século 19, Ellen White afirmava: “Todo pecador que Cristo salvou é chamado
a atuar em Seu nome pela salvação dos perdidos . Essa obra fora negligenciada
96 | Todos E n v ol vi do s na Missão

em Israel. Não é também hoje negligenciada pelos que professam ser seguido­
res de Cristo?” (Parábolas de Jesus, p. 191).
Pense no verbo “negligenciar”. Não significa recusar, mas considerar que o
assunto não tem muita importância, que é algo óbvio . É supor que tudo vai bem,
enquanto, ao mesmo tempo, andamos preocupados em descobrir outra maneira
“revolucionária” de cumprir a missão - algum método que demande pouco
tempo, pouco dinheiro e pouco esforço, e que ainda multiplique o número de
membros com extrema rapidez .

ASSUNTO MUITO IMPORTANTE


Esse é um assunto mais importante do que parece à primeira vista. Com
frequência, fico trêmulo ao me deparar com conceitos inspirados que estão
bem diante dos nossos olhos, como este: “Os que ocupam lugar de líderes na
igreja de Deus devem sentir que a missão do Salvador é dada a todos os que cre­
rem em Seu nome” (Atos dos Apóstolos, p. 110).
Sabe o que Deus diz? Ele diz que, antes de escolher alguém para um cargo
de direção dentro da igreja, qualquer que seja o nível, devemos perguntar se
essa pessoa compreendeu que “a missão do Salvador é dada a todos os que cre­
rem no Seu nome”. O que importa não são os talentos administrativos, nem os
títulos, nem as estatísticas positivas que acompanham sua trajetória, mas o fato
de ter entendido ou não o plano de Deus para Sua igreja
O Espírito de Profecia diz isso mais de uma vez e de várias maneiras:

“E folgarei em Jerusalém, e exultarei no Meu povo”, declara Deus por meio do


Seu servo Isaías (Is 65:19). Essas palavras se mostrarão verdadeiras quando
os que estão capacitados a permanecer em posições de responsabilidades per­
mitirem que a luz resplandeça. [.. .] Os métodos de trabalhar de Cristo devem
tornar-se seus métodos, e eles devem aprender a pôr em prática os ensina­
mentos de Sua Palavra (Conselhos sobre Saúde, p. 338).

Embora essas palavras originalmente tenham sido escritas numa referên­


cia à obra médica, o chamado da serva de Deus é dramático Ela diz que, se sou
capaz de ocupar uma posição de responsabilidade, não somente devo deixar
brilhar minha luz, como também, por ser um líder, tenho a obrigação de seguir
os métodos de Cristo e de praticar os ensinamentos de Sua palavra
Di sci Püi ANDo L í deres E s pi ri tuai s I 97

“Os anciãos e os que têm cargos de responsabilidade na igreja devem conce­


der mais reflexão aos seus planos para dirigir a obra . Devem arranjar as coisas
de maneira que todos os membros da igreja tenham uma parte a desempenhar,
para que ninguém leve uma vida sem objetivo” (Serviço Cristão, p. 62).
A igreja jamais chegará além do lugar ao qual eu, como discípulo/líder, con­
sigo chegar. É meu dever me apropriar do sonho divino, fazê-lo meu, fechar
os olhos e imaginar o Senhor Jesus Cristo voltando nas nuvens dos céus para
encontrar Sua igreja gloriosa, sem mancha, sem rugas ou coisa parecida.
Que tipo de líderes estamos formando?

MINHA VIDA NA MISSÃO


Todos Envolvidos na Missão consiste em exercer uma busca ativa a fim
de alcançar os perdidos. Estas são algumas ideias para você se envolver
pessoalmente:
1. Esta não é uma tarefa independente; trata-se de uma conexão de pontos.
2. Planej e um calendário anual e dê a cada pessoa uma tarefa para realizar.
3 . Ore pelo derramamento do Espírito Santo.
98 |

C A P I T U L O 11

O PREÇO DO DISCIPULADO
N unca f oi f á c i l s e g u i r a Je s u s . Camin hamos na c o n ­
tramão da vida. O que o inimigo mais busca é destruir os seguidores de Jesus.
Apesar das maravilhosas promessas bíblicas, precisamos estar conscientes de
que o povo de Deus segue em sua peregrinação rumo a seu glorioso destino.
Nosso lar não é neste mundo. Estamos no mundo, mas não somos do mundo.
Os negócios do nosso Pai não são terrenais .
Para Jesus, essa ideia estava clara desde que Ele era um menino de apenas
12 anos. Um dia, Ele perguntou aos pais: “Por que é que Me procuráveis? Não
sabeis que Me convém tratar dos negócios de Meu Pai?” (Lc 2:49, ARC).

NÃO ÉFÁCIL SEGUIR A JESUS


Os negócios do Pai nem sempre são os negócios desta vida A maneira de
pensar do Pai, com toda certeza, não é a maneira de pensar deste mundo . Deus
vê as coisas de um modo diferente de como nós as vemos . Por isso, disse:

Não penseis que vim trazer paz à terra; não vim trazer paz, mas espada.
Pois vim causar divisão entre o homem e seu pai; entre a filha e sua mãe e
entre a nora e sua sogra Assim, os inimigos do homem serão os da sua pró­
pria casa. Quem ama seu pai ou sua mãe mais do que a Mim não é digno de
Mim; quem ama seu filho ou sua filha mais do que a Mim não é digno
de Mim; e quem não toma a sua cruz e vem após Mim não é digno de Mim
(Mt 10:34-38).

Essas palavras de Jesus têm sido mal interpretadas por muita gente ao longo
da história. Existem, inclusive, pessoas que pensam que o cristianismo pro­
move a destruição da família e das boas relações humanas. Mas não é assim.
O P reço do D iscifülado | 99

Ao Jesus pronunciar essas palavras, Ele simplesmente estava descrevendo a


realidade de muitos discípulos, os quais são incompreendidos pela própria
família e por seus melhores amigos . Pessoas que dizem “eu amo você” somente
enquanto você se encaixa no jeito com que elas veem as coisas, mas que se vol­
tam contra você ao descobrirem que você estuda a Palavra de Deus e deseja
andar nos caminhos do Senhor.
Lembro-me de uma mãe que chorava noite e dia tendo o desejo de que a
filha abandonasse o mundo das drogas e da promiscuidade em que se encon­
trava submersa por vários anos . Um dia, a moça conheceu a Jesus e, pelo poder
do evangelho, abandonou a vida de pecado e voltou para casa. No princípio,
a mãe se alegrou muito com a chegada da filha, mas, quando descobriu que a
filha havia sido batizada na igreja, disse a ela: “Eu preferia vê-la como uma dro­
gada e prostituta a vê-la como protestante .”
Jesus descreveu esse triste quadro ao dizer: “Não penseis que vim trazer paz
à terra; não vim trazer paz, mas espada. Pois vim causar divisão entre o homem
e seu pai; entre a filha e sua mãe e entre a nora e sua sogra.”
Não é fácil seguir a Jesus, por causa da intolerância do ser humano natural.
Muitas vezes, as circunstâncias levam o novo discípulo a decidir quem colo­
car em primeiro lugar - se Cristo ou as pessoas mais queridas . Não existe uma
maneira de seguir a Jesus agradando a todos

NÃOÉAPENAS SOFRIMENTO
Nem tudo, porém, é sofrimento Enquanto caminha por este mundo, o dis­
cípulo tem uma vida salpicada de lágrimas e dor Mas, em meio à dor, Jesus traz
alívio ao coração
Há um incidente na vida de Cristo que nos ensina uma lição referente a esse
assunto:

Desde esse tempo, começou Jesus Cristo a mostrar a Seus discípulos que
Lhe era necessário seguir para Jerusalém e sofrer muitas coisas dos anciãos,
dos principais sacerdotes e dos escribas, ser morto e ressuscitado no terceiro
dia. E Pedro, chamando-O à parte, começou a reprová-Lo, dizendo: Tem
compaixão de Ti, Senhor; isso de modo algum Te acontecerá. Mas Jesus,
voltando-Se, disse a Pedro: Arreda, Satanás! Tu és para Mim pedra de tro­
peço, porque não cogitas das coisas de Deus, e sim das dos homens. Então,
100 | Todos E n v ol vi do s na Missão

disse Jesus a Seus discípulos: Se alguém quer vir após Mim, a si mesmo se
negue, tome a sua cruz e siga-Me . Porquanto, quem quiser salvar a sua vida
perdê-la-á; e quem perder a vida por Minha causa achá-la-á (Mt 16:21-25).

Coloquei o texto completo para que você tenha uma ideia clara do que Jesus
disse . Em primeiro lugar, Ele falava da própria missão . Ele não veio ao mundo
para viver, mas para morrer. Desde que passou a ter consciência das coisas, sabia
que Se encaminhava para a morte . Era a única maneira de salvar o ser humano .
Pedro, aparentemente, não entendia isso, e o Mestre repreendeu sua inca­
pacidade de compreender as coisas divinas Depois, dirigindo-Se aos discípu­
los, disse a eles que era necessário que cada um tomasse sua cruz e O seguisse .
Alguns crentes pensam que a vida cristã é sinônimo de sofrimento, pois a
recompensa está no Céu. Em parte, isso é verdade . Nossa verdadeira recom­
pensa está no Céu, mas isso não é motivo para crer que a vida cristã seja de
sofrimento neste mundo. “É um erro pensar que Deus tem prazer no sofri­
mento dos Seus filhos . Todo o Céu está interessado na felicidade do ser
humano . Nosso Pai celestial não impede que qualquer de Suas criaturas expe­
rimente momentos de alegria” (Caminho a Cristo, p. 46).
Jesus não sofreu? Claro que sim. Ele veio para tomar nossa morte e nos
dar Sua vida; tomar nossos pecados sobre Si e nos dar Sua justiça. Veio a este
mundo para tomar nossas dores, aflições e enfermidades, e nos dar vida abun­
dante . Que vida abundante é uma vida cheia de sofrimento?
O sofrimento existe . Faz parte desta vida . Vivemos em um mundo que não
ama nem a Deus, nem os que seguem a Jesus Não faltarão, portanto, dificulda­
des, perseguições e pressões. Com frequência teremos que escolher entre ficar
com as pessoas ou com Jesus Mas pensar que a vida cristã consiste só em sofri­
mento é ir além do que a Palavra de Deus ensina A vida cristã é paz, alegria e
regozijo em Cristo
Entretanto, é preciso saber que aceitar a Jesus tem um preço, e que é preciso
estar disposto a pagá-lo . Quem cobra esse preço não é Jesus . A salvação é pela
graça Quem o cobra é o inimigo de Jesus

LUTAS DO DISCÍPULO
As batalhas que o discípulo enfrenta não são apenas exteriores, da parte
dos que não creem em Cristo Na maioria das vezes são batalhas interiores
O P reço do D iscifülado | 101

“A luta contra o eu é a maior de todas as batalhas. A renúncia ao eu, sujeitando


tudo à vontade de Deus, requer uma luta, mas a pessoa deve se submeter a
Deus antes de ser renovada em santidade” (Caminho a Cristo, p. 43).
Em que consiste a luta contra o eu? O que significa “se submeter a Deus”?
Muitos perguntam: A vida cristã requer esforço? Claro que sim. Paulo disse:
“Não sabeis vós que os que correm no estádio, todos, na verdade, correm, mas
um só leva o prêmio? Correi de tal maneira que o alcanceis. Todo atleta em
tudo se domina; aqueles, para alcançar uma coroa corruptível; nós, porém, a
incorruptível. Assim corro também eu, não sem meta; assim luto, não como
desferindo golpes no ar. Mas esmurro o meu corpo e o reduzo à escravidão,
para que, tendo pregado a outros, não venha eu mesmo a ser desqualificado”
(1Co 9:24-27).
O apóstolo fala de luta Mas, se você estudar atentamente os escritos de
Paulo, verá que ele fala de dois tipos de luta: a luta da fé e a luta contra o pecado
(1Tm 6:12; Hb 12:4). A luta do discípulo é a luta da fé . A luta para ir a Jesus e
Nele se esconder. A luta para estudar a Bíblia todos os dias, orar diariamente
e conduzir pessoas a Cristo. Essa é a luta para manter comunhão com Cristo.
Isso é “se submeter a Deus”. Não é fácil, pois carregamos a natureza pecami­
nosa, a qual não gosta do companheirismo com Jesus
Paulo explicou isso melhor ao afirmar: “Assim corro também eu, não sem
meta; assim luto, não como desferindo golpes no ar” (1Co 9:26). O apóstolo
sabia por que lutava Há uma luta que somente Jesus pode vencer Não se atreva
a entrar nessa luta, pois você vai fracassar. É como desferir golpes no ar.
No entanto, há outra luta que só você pode sustentar Jesus não pode
obrigá-lo a estudar a Bíblia, orar ou testemunhar. Você tem que fazer tudo
isso . Essa luta está em suas mãos . Depende da sua vontade, da sua decisão . Se
você insiste em manter comunhão constante com Cristo, o caráter de Jesus
será reproduzido em sua vida. A vontade Dele passará a ser a sua vontade .
Sua vontade pecaminosa se transformará numa vontade santificada, e então
o inimigo estará derrotado O discipulado, portanto, requer luta e exercício
da vontade
“Por meio do correto exercício da vontade, uma transformação com­
pleta pode ocorrer em sua vida. Entregando a vontade a Cristo, você se une
com o poder que está acima de todos os outros. Obterá força do alto para
102 | Todos E n v ol vi do s na Missão

permanecer firme e, pela constante entrega a Deus, será capacitado para viver
a nova vida, a vida da fé” (Caminho a Cristo, p. 47).

MAL-ENTENDIDO
Existe muita confusão com relação ao assunto da vitória em Cristo e o uso
da força de vontade . Quem é que vence: Jesus ou você? Seria Jesus, e você só
ficaria com a vitória? Ou é você com a ajuda de Jesus? Qual é a participação
humana? Ter fé é ficar de braços cruzados esperando que Jesus controle sua
vida? Onde fica a participação humana? Qual é o papel da força de vontade?
O apóstolo Paulo explicou essa questão de maneira simples. Quando você
vai a Jesus e convive com Ele, Jesus passa a fazer parte de sua vida Ele habita em
você mediante Seu Espírito . “Acaso, não sabeis que o vosso corpo é santuário do
Espírito Santo, que está em vós, o qual tendes da parte de Deus, e que não sois
de vós mesmos?” (1Co 6:19).
O Espírito está no discípulo O que acontece então? O Espírito Santo o
obriga a fazer as coisas corretas, ainda que você não queira? Não! Você não se
transforma numa máquina ou robô, obrigado a fazer algo contra sua vontade .
O que acontece é algo maravilhoso. Quando você permite que Jesus faça parte
de sua vida, e o Espírito Santo habita em seu coração, ambos passam a ser como
uma só pessoa. As vontades se unem. “Estou crucificado com Cristo; logo, já
não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que, agora, tenho
na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e a Si mesmo Se entre­
gou por mim” (Gl 2:19, 20).
“Já não sou eu quem vive”, disse Paulo. E aonde você vai se, agora, Cristo
vive em você? “E esse viver que, agora, tenho na carne”, continuou o após­
tolo . Mas espere um pouco . Ele não acabou de dizer que já não vive? Como,
então, acrescenta “e esse viver que, agora, tenho”? Afinal de contas, Paulo vive
ou não vive?
Essa é a maravilhosa realidade do discípulo . Quando você vive uma vida de
comunhão diária com Jesus, a vontade Dele e a sua se unem São duas vontades
em uma Os desejos Dele passam a ser também os seus desejos Então, quando
chega o momento da luta, quem é que decide: Ele ou você? É Ele, mas é você .
Quem é que derrota o inimigo? É você, mas é Ele .
Sua comunhão com Jesus é tão profunda, e sua convivência com Ele, tão
íntima, que as duas vontades se transformam em uma só A vida que agora
O P reço do D iscifülado | 103

você vive, a vive na fé do Filho de Deus. Isso confirma o Espírito de Profecia


ao dizer: “Ao nos sujeitarmos a Cristo, nosso coração se une ao Seu, nossa von­
tade imerge em Sua vontade, nossa mentalidade torna-se uma com a Dele, nos­
sos pensamentos serão levados cativos a Ele” (Ellen G. White, Mente, Caráter e
Personalidade, v 1, p. 186).
“Quando o próprio eu é submerso em Cristo, o verdadeiro amor brota
espontaneamente. Não é uma emoção ou impulso, mas sim a decisão de uma
vontade santificada” (ibid. , p. 206).
Percebe? A força que derrota o inimigo não é uma força pessoal, sua, nem
um trabalho exclusivo de Jesus . Não é um pouco você, um pouco Ele. É um só
esforço, uma só atitude, uma só decisão. Jesus e você unidos em uma só von­
tade, chamada “vontade santificada”
Tudo o que o ser humano precisa fazer é ir a Jesus e permanecer Nele . Jesus
é a vida, a salvação e a justiça. Ao lado da Justiça, o pecado não pode existir. As
duas coisas não andam juntas
“Foi dessa maneira que os primeiros discípulos alcançaram a semelhança
com o amado Salvador. [. .. ] Estavam com Jesus em casa, à mesa, nos aposen­
tos mais reservados e no campo. Estavam com Ele como alunos e seu profes­
sor [. .. ]. Olhavam para Ele como servos para seu senhor” (Caminho a Cristo,
p. 72, 73).
Seguir a Jesus! Não é isso que o discípulo faz? É preciso conviver com Ele
mediante a oração, o estudo diário de Sua Palavra e o testemunho . Então Cristo
habitará em nós .
“Quando Cristo habita no coração, a pessoa se sente tão repleta de Seu
amor e da alegria da comunhão com Ele que se torna cada vez mais ape­
gada a Ele. Ao contemplá-Lo, o próprio eu é esquecido” (Caminho a Cristo,
p •44).

CUSTOS
Vale a pena seguir a Jesus? Aparentemente, essa pergunta não faz sentido .
Seguimos a Jesus por amor, não por cálculos humanos ou para obter benefícios
da parte de Deus . Mas nossa natureza humana nos leva sempre a buscar o que
nos convém. A pergunta de Pedro é uma prova de sua humanidade: “E disse
Pedro: Eis que nós deixamos nossa casa e Te seguimos . Respondeu-lhes Jesus:
Em verdade vos digo que ninguém há que tenha deixado casa, ou mulher, ou
104 | Todos E n v ol vi do s na Missão

irmãos, ou pais, ou filhos, por causa do reino de Deus, que não receba, no pre­
sente, muitas vezes mais e, no mundo por vir, a vida eterna” (Lc 18:28-30).
Explicarei isso com uma ilustração . Quando eu era criança, meus pais esta­
vam planejando tirar férias em nossa terra natal. Poucos dias antes, comecei
a sentir dores em um dente. Nesse tempo, não se tratava um dente que doía.
Simplesmente o extraíam . Meu pai me disse:
- Vamos arrancar esse dente de uma vez para que você viaje de férias sem
problemas
Eu não queria. Fingi que o problema estava resolvido, que tudo estava bem,
e disse a ele:
- A dor já passou e não me incomoda mais .
A verdade era outra: o dente continuava doendo, mas eu tinha medo de ir
ao dentista
Saímos de férias, e o “bendito” dente piorou. Meus irmãos desfrutavam de
todas as atividades enquanto eu sofria. Não havia um dentista no local, e pas­
sei as piores férias da minha vida Ao ver meu sofrimento, meu pai me disse:
- Você poderia ter sofrido um dia e aproveitado todas as férias . Mas você
preferiu sofrer todas as férias .
É mais ou menos isso que Jesus disse a Pedro . Esta vida é curta e, como vive­
mos em um mundo de dor, pode haver sofrimento para o cristão. Mas a vida
eterna sem dor espera por você Agora, se preferir, você pode desfrutar dos pra­
zeres da carne na Terra, mas esta vida é passageira e logo chegará ao fim .

REALIDADES
Tempos atrás, um jovem me disse: “Pastor, eu prefiro a realidade deste
mundo que vejo à esperança de um Céu que não vejo .” Sempre houve pessoas
que pensam dessa maneira Mas, por outro lado, também sempre houve pes­
soas que, deixando tudo, seguiram a Jesus . Na epístola aos Hebreus, encontra­
mos a descrição dessas pessoas:

E que mais direi? Certamente, me faltará o tempo necessário para referir


o que há a respeito de Gideão, de Baraque, de Sansão, de Jefté, de Davi, de
Samuel e dos profetas, os quais, por meio da fé, subjugaram reinos, pratica­
ram a justiça, obtiveram promessas, fecharam a boca de leões, extinguiram
a violência do fogo, escaparam ao fio da espada, da fraqueza tiraram força,
O P reço do D iscifülado | 105

fizeram-se poderosos em guerra, puseram em fuga exércitos de estrangei­


ros. Mulheres receberam, pela ressurreição, os seus mortos. Alguns foram
torturados, não aceitando seu resgate, para obterem superior ressurreição;
outros, por sua vez, passaram pela prova de escárnios e açoites, sim, até
de algemas e prisões . Foram apedrejados, provados, serrados pelo meio,
mortos a fio de espada; andaram peregrinos, vestidos de peles de ovelhas e
de cabras, necessitados, afligidos, maltratados (homens dos quais o mundo
não era digno), errantes pelos desertos, pelos montes, pelas covas, pelos
antros da terra Ora, todos estes que obtiveram bom testemunho por sua fé
não obtiveram, contudo, a concretização da promessa (Hb 11:32-39).

Todos esses homens e mulheres morreram sem ver a recompensa. Mas a


coroa deles está guardada, à espera deles . Foram fiéis no pouco, e o Senhor os
colocará no muito

Portanto, também nós, visto que temos a rodear-nos tão grande nuvem de
testemunhas, desembaraçando-nos de todo peso e do pecado que tenaz­
mente nos assedia, corramos, com perseverança, a carreira que nos está pro­
posta, olhando firmemente para o Autor e Consumador da fé, Jesus, o qual,
em troca da alegria que Lhe estava proposta, suportou a cruz, não fazendo
caso da ignomínia, e está assentado à destra do trono de Deus (Hb 12:1, 2).

“Corramos!” A carreira e a luta ainda não terminaram. Eu venho correndo já


faz bastante tempo. E continuo correndo. Talvez a morte me surpreenda em alguma
esquina da vida, mas continuo correndo na certeza de que a coroa me espera
E você?

MINHA VIDA NA MISSÃO


Todos Envolvidos na Missão significa sermos amáveis em todas as nossas
ações Estas são algumas ideias para você se envolver pessoalmente:
1. Desenvolva o hábito de encontrar a necessidade de sua comunidade.
2 Leve flores a uma casa de repouso ou a um abrigo
3. Ganhe uma pessoa para Jesus hoje.
106 |

C 2

O DISCÍPULO E A
COLHEITA FINAL
JOANA É UMA FIEL SERVA DE ÜEUS, COMPROMETIDA COM A
missão. Ela conheceu o evangelho por meio do trabalho abnegado de Júlia,
uma colega de trabalho, que teve muita paciência com ela. A princípio, Joana
não queria conversar com Júlia sobre assuntos relacionados à religião . Ela era
fiel membro de outra denominação, e havia prometido a sua mãe, em seu leito
de morte, que jamais iria trair a fé de seus pais .
No entanto, Júlia se aproximou de Joana seguindo o método de Cristo . Não
falou de religião com ela, nem deu a impressão de que desejava levá-la para sua
igreja. Simplesmente, desenvolveu uma belíssima amizade com ela, mostrou-
lhe simpatia, ajudou-a em tudo o que Joana precisava. Pouco a pouco, foi con­
quistando sua confiança
Um dia, Júlia se surpreendeu com a pergunta de Joana:
- Por que você é assim?
- Assim como?
- Assim bondosa, simples, abnegada .. . Enfim, uma amiga em quem se pode
confiar
- Não sei, Joana. Simplesmente sou assim.
- Mas existe algo especial em você . Você é membro de alguma igreja, não é?
- Eu diria que, mais que isso, sou uma seguidora de Jesus.
- O que quer dizer com isso?
- Que sigo a Jesus e procuro fazer o que encontro em Sua Palavra. E, claro,
também frequento a Igreja Adventista do Sétimo Dia.
- Que nome estranho . Nunca tinha ouvido falar sobre essa igreja .
O D iscípulo E a C olheita F inal | 107

E foi assim que elas começaram a estudar a Bíblia juntas . Os preconceitos de


Joana desapareceram, e hoje ela é uma fiel discípula de Jesus que se esforça para
fazer e formar novos discípulos .
No entanto, ela tem estado um pouco triste nos últimos dias. Há duas pes­
soas pelas quais está trabalhando a fim de levá-las a Jesus e, aparentemente, não
está havendo resultados
- Acho que vou desistir, pois essas pessoas têm o coração muito duro
- queixou-se .
O que Joana não sabe é que a colheita final está para acontecer, e a Palavra
de Deus jamais volta vazia .

PROFECIA IMPORTANTE
No capítulo 14 do livro de Apocalipse, encontramos registradas as três
mensagens angélicas, que simbolizam o remanescente que Deus levantou em
1844, com a finalidade de pregar a última mensagem ao mundo . Essa men­
sagem deve ser proclamada a “toda tribo, língua e povo”. É uma mensagem
de caráter mundial, que tem como centro o evangelho eterno, marcada pelo
juízo investigativo e a adoração ao único e verdadeiro Deus, criador dos céus
e da Terra.
Essa obra deve ser feita com rapidez Não há tempo a perder O caráter da
mensagem é urgente . Por isso é que o primeiro anjo “voa” no meio do céu.
Homens e mulheres do povo remanescente saem por todo o mundo para pro­
clamar essa mensagem . Lançam a semente . Eles a espalham por todos os cantos
do mundo, pessoalmente, por meio do rádio, da televisão, da página impressa
e das redes sociais . É uma espantosa obra de semeadura.
A seguir, no mesmo capítulo 14, encontramos o seguinte:

Olhei, e eis uma nuvem branca, e sentado sobre a nuvem um semelhante a


Filho de homem, tendo na cabeça uma coroa de ouro e na mão uma foice
afiada Outro anjo saiu do santuário, gritando em grande voz para aquele
que se achava sentado sobre a nuvem: Toma a Tua foice e ceifa, pois che­
gou a hora de ceifar, visto que a seara da terra já amadureceu! E Aquele que
estava sentado sobre a nuvem passou a Sua foice sobre a terra, e a terra foi
ceifada (Ap 14:14-16).
108 | Todos E n v ol vi do s na MissÃo

COLHEITA
Essa é uma profecia/promessa. Chegará o dia em que o próprio Senhor
Jesus Cristo entrará em ação para colher o que a igreja semeou . Nesse dia, Joana
verá que aquilo que para ela parecia perda de tempo era apenas o tempo que
Deus precisava para fazer amadurecer a semente no coração dos seres huma­
nos . A serva de Deus disse:

A boa semente pode por algum tempo jazer despercebida num coração frio,
egoísta e mundano, sem dar demonstração de haver-se enraizado; porém
mais tarde, tocando o Espírito de Deus esse coração, a semente oculta brota,
e, finalmente, produz frutos para a glória de Deus Não sabemos durante
toda a vida qual prosperará, se esta ou aquela. Isso não é de nossa alçada.
Façamos nosso trabalho e deixemos os resultados com Deus . “Pela manhã,
semeia a tua semente e, à tarde, não retires a tua mão” (Ec 11:6). O grande
concerto de Deus declara: “Enquanto durar a Terra, não deixará de haver
sementeira e sega” (Gn 8:22). Confiante nesta promessa o lavrador ara e
semeia. Com não menos confiança devemos labutar na sementeira espiri­
tual, confiantes em Sua declaração: “Assim será a palavra que sair da Minha
boca; ela não voltará para Mim vazia; antes, fará o que Me apraz e prosperará
naquilo para que a enviei” (Is 55:11). “Aquele que leva a preciosa semente,
andando e chorando, voltará sem dúvida, com alegria, trazendo consigo os
seus molhos” (Sl 126:6) (Parábolas de Jesus, p. 65).

Minha mãe orou e trabalhou pela conversão do meu pai por 34 longos
anos . Do ponto de vista humano, parecia que ele nunca aceitaria a Jesus como
seu Salvador. Ele não era mau do ponto de vista moral. Era um cidadão cor­
reto, um bom esposo e pai exemplar. Mas, espiritualmente, se encontrava
morto e não mostrava interesse pelas coisas do Espírito. Um dia, porém, nos
surpreendeu quando confessou que havia se rendido a Jesus e que desejava
ser batizado
O sábado estava quase terminando quando tive a alegria de entrar no tan­
que batismal para sepultar nas águas o meu pai Naquele dia, no meio das pes­
soas ali reunidas, havia uma mulher com os olhos banhados em lágrimas Ela
havia orado por aquele homem por mais de três décadas e, finalmente, podia
ver o trabalho de Deus se tornar realidade
O D iscípulo E a C olheita F inal | 109

Sim, a conversão é obra divina. Nós devemos apenas semear e cultivar, e


deixar nas mãos de Deus o resto do trabalho .

A parábola da semente revela que Deus opera na natureza. A semente encerra


um princípio germinativo, princípio que Deus mesmo implantou; porém, aban­
donada a si própria a semente não teria a faculdade de germinar. O homem
tem sua parte em favorecer o crescimento do grão. Precisa preparar e adu­
bar o solo, e lançar a semente . Precisa lavrar o campo. Mas há um ponto, além
do qual nada pode fazer. Nenhuma força ou sabedoria humana pode extrair
da semente a planta viva Ainda que o homem empregue seus esforços até ao
limite extremo, precisará, entretanto, depender Daquele que ligou o semear
e o colher pelos maravilhosos elos de Sua própria Onipotência (ibid. , p. 63).

NÃO HÂ COLHEITA SEM SEMEADURA


Já chegou o tempo da colheita final. O mundo no qual vivemos está caindo
aos pedaços. Há crise de credibilidade nas nações. Existe um medo universal
que se apodera do coração humano . O próprio planeta geme como em dores de
parto. A temperatura global aumenta, a natureza se desequilibra. Terremotos,
furacões e outros fenômenos naturais semeiam o pânico por todas as par­
tes. Chegou a hora de nos preparar para a colheita final. Mas não pode haver
colheita onde não se semeou nem se cultivou
Essa é a missão de cada discípulo: sair e buscar pessoas para Cristo. Dizer a elas
que Deus as ama e que não há mais tempo a perder. Ir ao lugar em que elas estão,
com o instrumento do amor, e levá-las para o reino do amor. “Bem-aventurado
aquele servo a quem seu senhor, quando vier, achar fazendo assim” (Mt 24:46).

MINHA VIDA NA MISSÃO


Todos Envolvidos na Missão consiste em se tornar discípulo ativo de
Jesus Estas são algumas ideias para você se envolver pessoalmente:
1. Convide outros membros da igreja a se envolverem.
2 Organize um pequeno grupo para visitar a comunidade e orar por ela
3 Peça o derramamento do Espírito Santo todos os dias
MKT CPB |Fotolia
N ã o h á m a io r p rio rid a d e .
Q u e su a o r a ç ã o seja: " R e n o v a - m e ! "

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A REVOLUÇÃO
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a vida é feita de
começos e recomeços

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TALENTO 1
MEU SUA VIDA PODE GANHAR
UM NOVO SENTIDO

MINISTÉRIO
FERNANDO BEIER

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NA MISSÃO
É TEMPO DE O POVO DE Ü E U S [...]
trabalhar. O mundo é o nosso campo de ação, e devemos
esforçar-nos para dar ao mundo a última mensagem de mi­
sericórdia. - Ellen G. White

Todos Envolvidos na Missão segue o desafio de Cristo a todo crente: "Ide por todo
o mundo." Mais do que um chamado ao serviço, esta obra apresenta maneiras
simples e práticas para cada membro da igreja participar do trabalho de Deus,
seja em outro país ou do outro lado da rua.

Este livro traz um desafio que envolve homens, mulheres, jovens e crianças,
todos chamados a se comprometer com a proclamação da verdade de Deus. Os
membros da igreja devem se unir aos pastores e líderes. É isso que significa Todos
Envolvidos na Missão -c a d a um fazendo alguma coisa por J e s u s -s e ja você um
voluntário, pastor, homem, mulher, jovem ou criança. Que Deus abençoe de todas
as maneiras possíveis o esforço evangelístico em favor do mundo, mediante o
poder do Espírito Santo. Jesus voltará em breve!

Ted N. C. Wilson, presidente da Associação Geral dos Adventistas do Sétimo Dia

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