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EXCELENTÍSSIMO SENHOR DOUTOR JUIZ DE DIREITO DA 4ª VARA

CRIMINAL DA COMARCA DE CAMPO VERDE- MT

PROCESSO Nº XXXXXX

CARLINO, devidamente qualificado nos autos do


processo em epígrafe, vem, por seu advogado infra-assinado (doc. anexo), muito
respeitosamente à presença de Vossa Excelência, com fundamento nos artigos 396 do
Código de Processo Penal, apresentar RESPOSTA À ACUSAÇÃO, pelos motivos a
seguir aduzidos:

I- DOS FATOS

Segundo consta da denúncia, o Acusado teria invadido a


casa do senhor Joãozinho da Silva, no dia 28/01/2009, por volta das 14h00m, localizada
no município de Chapada de Guimarães, zona rural.

Ocorre que o vizinho do senhor Joãozinho da Silva, notou


uma movimentação na casa de seu vizinho, e resolveu avisá-lo por meio de uma ligação
telefônica, retornando-o rapidamente para sua residência, para verificar o que estaria de
fato acontecendo.

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Aduz que ao chegar em sua residência se surpreendeu com
a porta da sala com a fechadura destruída e cadeado arrombado, e por conta própria
resolveu adentrar em sua casa, e se depara com o Acusado carregando sua televisão de
55 polegadas.

O Acusado assustado com a situação, resolveu abrir fuga,


levando consigo a televisão de 55 polegadas e algumas joias que havia pegado no guarda-
roupa do casal, no mesmo momento o senhor Joãozinho da Silva aciona a Polícia Militar,
e os informa do ocorrido em sua residência.

Deste modo, o Acusado foi preso em flagrante de delito


pela guarnição da Polícia Militar na porteira da chácara do senhor Joãozinho da Silva, em
posse de todos os objetos furtados, conduzindo-o a Delegacia de Chapada dos Guimarães,
para ocorrência ser lavrada, e o Inquérito Policial nº XXXXXX, e posteriormente
encaminhado para a Promotoria de Justiça na cidade de Chapada dos Guimarães.

II- DO DIREITO

DAS PRELIMINARES

DA EXCEÇÃO DE INCOMPETÊNCIA TERRITOIAL

Pois bem Excelência, nos termos do inciso II, do Art. 95,


do Código do Processo Penal, vem o Acusado alegar a Incompetência de Juízo, pois a
presente demanda foi proposta em foro incompetente em razão ao local. É consabido que
a razão de competência é prevista claramente no Art. 70, do mesmo Diploma Legislativo.

Partindo deste prisma, é notório afirmar que a regra para


determinar a competência será o local em que se consumar a infração, ou, no caso de
tentativa, pelo local que foi praticado o último ato da execução, como bem delineado na
jurisprudência:

“CONFLITO NEGATIVO DE COMPETÊNCIA.


inquérito policial instaurado para apuração dos delitos
de receptação e adulteração de sinal identificador de

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veículo automotor. competência do local em que se
consumou a infração. inteligência do art. 70 do código
de processo penal. veículo apreendido que, ao que tudo
indica, se encontra regular, mas com placas furtadas.
fatos posteriores à aquisição do automóvel.
competência do juízo da comarca de Francisco Beltrão
(suscitado). conflito procedente. (TJPR - 2ª C.Criminal
- 0016351-11.2019.8.16.0083- Dois Vizinhos - Rel.:
DESEMBARGADORA PRISCILLA PLACHA SÁ - J.
04.05.2021)

(TJ-PR - CJ: 00163511120198160083- Dois Vizinhos


0016351-11.2019.8.16.0083 Relator Priscilla Placha Sá,
Data de Julgamento 04/05/2021, 2ª Câmara Criminal,
Data da Publicação 05/05/2021) (g.n)

Neste sentido, é evidente que no caso em tela, a presente


demanda foi proposta em foro incompetente, além disso fere uma garantia constitucional
do Acusado, como veremos a seguir.

Urge a necessidade de falarmos sobre o Princípio Juízo


Natural, é consagrado em nossa Carta Magna, e impõe uma garantia de limitação dos
poderes do Estado, que não pode instituir juízo ou tribunal de exceção para julgar
determinadas matérias nem criar juízo ou tribunal para processar e julgar um caso
específico.

A Constituição Federal de 1988 determina em seu Art.


5º que “todos são iguais perante a lei, e acrescenta no inciso "XXXVII – não haverá
juízo ou tribunal de exceção"; e no inciso "LIII – ninguém será processado nem
sentenciado senão pela autoridade competente".

Entende ainda que o Acusado deverá opor a presente


exceção de incompetência de juízo, em razão do acima exposto, requerendo seja ela,
conforme disposto no Art. 111, do Código de Processo Penal.

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DA EXCEÇÃO POR ILEGITIMIDADE DA PARTE

Com fundamento do Art. 95, inciso IV e 564, inciso II,


ambos do Codex Processo Penal, em razão de motivos, fatos e direitos que iremos expor:

O acusado foi imputado pela prática delito previsto no Art.


155, §4º, I, do Código Penal, observa-se que a pena máxima abstrata culminada é de 08
(oito) anos de detenção, e o inciso III, Art. 109, do mesmo Codex Legal, reza que o prazo
prescricional são de 12 (doze) anos, porém o Acusado tem o benefício da redução da
metade do prazo prescricional, deste modo o crime praticado pelo Acusado está prescrito.

Ademais, conforme ilustra Cezar Roberto Bitencourt, em


seu livro, Tratado de Direito Penal Vol.1 - Parte Geral:

(...)A prescrição da pretensão punitiva só poderá


ocorrer antes de a sentença penal transitar em julgado
e tem como consequência a eliminação de todos os
efeitos do crime: é como se este nunca tivesse existido.

O lapso prescricional começa a correr a partir da data


da consumação do crime ou do dia em que cessou a
atividade criminosa (art. 111), apresentando, contudo,
causas que o suspendem (art. 116) ou o interrompem
(art. 117).” ( Bitencourt, Cezar Roberto Parte geral /
Cezar Roberto Bitencourt. – Coleção Tratado de direito
penal volume 1 - 26. ed. – São Paulo : Saraiva Educação,
2020, p. 2.170)

A presente ação nasceu com a ausência de um pressuposto


de existência, sendo o Acusado parte ilegítima na ação, é impossível haver a existência
de uma “relação” processual, com a inexistência de uma das partes, pois estando o crime
prescrito, é como se ele nunca tivesse existido como disse o autor acima.

No tocante ao tema, o entendimento Jurisprudencial é no


sentido de que:

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“PROCESSO PENAL. EXCEÇÃO DE
ILEGITIMIDADE. Decisão que acolhe exceção de
ilegitimidade do réu depois de recebida a denúncia.
Mesmo discutível a natureza do ato, se o Juiz o expede
como tal, dele o recurso cabível é o previsto no CPP-41,
art-581, inc-3.Correição conhecida como recurso em
sentido estrito, baixando os autos em diligência para
processamento. Voto vencido que conhecia da
correição.
(TRF-4 - COR: 6516 RS 97.04.06516-7, Relator:
GILSON LANGARO DIPP, Data de Julgamento:
08/04/1997, PRIMEIRA TURMA, Data de Publicação:
DJ 21/05/1997 PÁGINA: 36011)

Percebe-se, Excelência, que se trata de hipótese, de


ilegitimidade passiva, deste modo, é imperioso destacar que a nulidade ocorre também
nos casos de ilegitimidade parte.

Neste diapasão, considerando-se a ilegitimidade (ad


causam) passiva, verifica-se na hipótese a existência de causa de nulidade absoluta do
processo em relação à excipiente, ante a impossibilidade de figurar no polo passivo da
demanda, pois o crime está prescrito
Assim, pelos argumentos exarados acima, requer-se que
seja acolhida a presente preliminar Incompetência de Juízo e que V. Exa. remeta os autos
ao juiz competente, nos moldes do Art. 567, do Código de Processo Penal

DA PRESCRIÇÃO DA PRETENSÃO PUNITIVA

De acordo o caso em tela, a denúncia oferecida em face de


Carlino, como incursos no Art. 155, §4º, I, do Código Penal , pela prática do crime de
furto qualificado, cuja pena é de reclusão de 02 (dois) a 08 (oito) anos, fato consumado
no dia 28/01/2009.

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Deste modo, se observarmos o lapso temporal entre a data
do crime (28/01/2009) e da sua denúncia (04/06/2021), transcorreu um prazo de 12 (doze)
anos, 4 (quatro) meses, e 07 (sete) dias, sendo inquestionável a sua prescrição.

Partindo deste prisma, de acordo o inciso III, do Art.109, do


mesmo Codex, existe a prescrição “se o máximo da pena é superior a quatro anos e não
excede a oito”, neste caso a prescrição ocorreria após 12 (doze) anos da consumação do
crime, mas, como o acusado tinha apenas 20 (vinte) anos na época dos fatos, ele possui o
benefício legal para redução pela metade do prazo prescricional da pretensão punitiva que
no caso em tela é de 06 (seis) anos.

Conforme ilustra Aury Lopes Júnior, em seu livro, Direito


Processual Penal:

“(...)A questão também deve ser tratada à luz do direito


de ser julgado em um prazo razoável. Não só o poder de
acusar está condicionado no tempo, senão também que
o réu tem o direito de ver seu caso julgado. A situação
de incerteza prolonga a pena-processo por um período
absurdamente dilatado (como será o da prescrição pela
pena em abstrato nesses crimes), deixando o réu à
disposição do Estado, em uma situação de eterna
angústia e grave estigmatização social e jurídica.
Retornando à lógica inquisitorial, a extinção da
punibilidade tampouco resolve o grave problema
criado, não só porque constitui uma absurda (de)mora
jurisdicional, mas também porque não o absolve
plenamente. Significa apenas que o “réu foi
suficientemente torturado e nada se conseguiu provar
contra ele”, no mais puro estilo do Directorium
Inquisitorum” (Lopes Junior, Aury Direito processual
penal / Aury Lopes Junior. – 17. ed. – São Paulo :
Saraiva Educação, 2020, p.1271)

É insustentável a tese alegada pelo órgão ministerial, onde


o atraso da oferta da denúncia se deu pela intensa demanda processual suportada pelo

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Ministério Público na época do fato, é consabido que o processo deve ser célere e ter um
prazo razoável para sua duração para que haja justiça dentro de uma sociedade.

Ao considerarmos o lapso temporal entre a consumação do


ato e o recebimento da denúncia, configura-se a Prescrição da Pretensão Punitiva Estatal,
pois se passaram mais de 12 (doze) anos, não restam dúvidas que está prescrita a
pretensão de punibilidade.

No tocante ao tema, o entendimento Jurisprudencial é no


sentido de que:

“EMENTA: APELAÇÃO CRIMINAL - FURTO -


PRELIMINAR - PRESCRIÇÃO DA PRETENSÃO
PUNITIVA NA MODALIDADE INTERCORRENTE
- OCORRÊNCIA. DECLARADA, DE OFÍCIO,
EXTINTA A PUNIBILIDADE DO APELANTE, EM
VIRTUDE DA OCORRÊNCIA DA PRESCRIÇÃO
DA PRETENSÃO PUNITIVA NA MODALIDADE
SUPERVENIENTE. Decorrido o lapso prescricional
entre a publicação da Sentença Penal Condenatória de
Primeiro (1º) Grau e o presente julgamento neste
Egrégio Tribunal de Justiça, deve ser declarada extinta
a punibilidade do agente, em razão de restar
configurada a prescrição da pretensão punitiva do
Estado na modalidade intercorrente ou procedente.
(TJ-MG - APR 101181140012337001 Canapólis,
Relator: Rubens Gabriel Soares, Data do Julgamento:
23/03/2021, Câmaras Criminais / 6ª CÂMARA
CRIMINAL, Data de Publicação: 14/04/2021)” (g.n)

Neste contexto, teremos como termo final o dia


28/01/2015, verificando-se, assim, a ocorrência da prescrição da pretensão punitiva
estatal.

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Assim, pelos argumentos exarados acima, requer-se que
seja acolhida a presente preliminar a prescrição da pretensão de punibilidade e que V.
Exa. se digne a Absolvição Sumária do Acusado, nos moldes do inciso IV, do Art. 397,
do Código de Processo Penal.

Entretanto, caso não seja esse Vosso entendimento, também


no mérito a ação não merece prosperar, vejamos:

III – DO MÉRITO

Conforme consta dos autos inclusos, o órgão ministerial,


ofereceu denúncia em face de Carlino, como incursos no Art. 155, §4º, I, do Código Penal.

1. DA AUSÊNCIA DE JUSTA CAUSA

A presente ação não se logrou demonstrar, sequer


remotamente, a existência de elementos mínimos aptos a legitimar o início de uma ação
penal, pois já se encontrava extinta a punibilidade do agente.

A Justa Causa trata de uma condição de natureza penal que


possa justificar o imenso custo do processo, por outro lado temos o princípio da
proporcionalidade, que norteia a proibição de excesso de intervenção, e pode ser visto
como a base constitucional da justa causa. No momento que juiz decide se recebe ou
rejeita a denúncia, é necessário a observância da proporcionalidade entre os elementos
que justificam a intervenção penal e processual, de um lado, e o custo do processo penal.

Ademais, conforme ilustra Aury Lopes Júnior, em seu


livro, Direito Processual Penal:

“(...)Falta de justa causa: é um conceito já abrangido


pelo inciso anterior, pois se trata de uma condição da
ação, cuja falta acarreta a rejeição (recurso cabível,
RSE, art. 581, I). → Rejeição parcial: é ainda
minoritária a corrente doutrinária que admite a

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rejeição parcial da denúncia ou queixa, aplicando o art.
383 no momento do recebimento. Seria para situações
excepcionais, buscando ser corrigida a acusação abusiva
desde o início, evitando um desenvolvimento
procedimental defeituoso”( Lopes Junior, Aury Direito
processual penal / Aury Lopes Junior. – 17. ed. – São
Paulo : Saraiva Educação, 2020. p.1355) (g,n)

Tratando-se de denúncia manifestamente sem justa causa, a


referida deveria ter sido rejeitada, devido a Extinção da Punibilidade pela Prescrição
Conforme já exposto Carlino está sendo acusado como incurso no crime de Furto
Qualificado, onde ele confessou sua autoria, fato ocorrido no dia 28/01/2009, tendo como
termo final o dia 28/01/2015, estando extinta a punibilidade do Acusado.

No tocante ao tema, o entendimento Jurisprudencial é no


sentido de que:

“HABEAS CORPUS. AMEAÇA CONTRA EX-


NAMORADA. PRETENSÃO DE TRANCAMENTO
DO PROCESSO. ALEGAÇÃO DE AUSÊNCIA DE
JUSTA CAUSA PARA A AÇÃO PENAL
DEMONSTRADA. PROMESSA DE CAUSAR MAL
INJUSTO E GRAVE NÃO IDENTIFICADA.
TRANCAMENTO DA AÇÃO PENAL. ORDEM
CONCEDIDA. 1. O trancamento da ação penal
constitui medida excepcional e somente pode ser
procedido quando restar inequívoca a existência de
causa extintiva da punibilidade, a atipicidade da
conduta, ou, ainda, quando for patente a ausência de
prova da materialidade ou de indícios de autoria. 2. O
delito de ameaça exige a vontade do agente de causar
mal injusto e grave a outrem, a qual não pode ser
verificado pelo conteúdo da mensagem enviada pelo
paciente à sua ex-namorada, devendo o processo ser

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trancado por ausência de justa causa decorrente da
atipicidade da conduta. 3. Habeas corpus conhecido.
Ordem concedida.”

(TJ-DF 07212720820218070000 DF 0721272-


08.2021.8.07.0000, Relator: DEMETRIUS GOMES
CAVALCANTI, Data de Julgamento: 05/08/2021, 3ª
Turma Criminal, Data de Publicação: Publicado no
DJE : 17/08/2021 . Pág.: Sem Página Cadastrada.) (g.n)

Diante o exposto, a denúncia deveria ter sido


imediatamente rejeitada pela ausência de justa causa, por se tratar de uma das condições
da ação.

IV - DOS PEDIDOS

Por todo exposto, requer a Vossa Excelência o seguinte:

a) A declaração da incompetência deste juízo em razão


da incompetência territorial, com fulcro no art. 70 do Código de Processo Penal.
b) Subsidiariamente requer a extinção da presente ação
em razão do reconhecimento da prescrição em abstrato da ação penal.

Por fim, não sendo esse o entendimento de Vossa


Excelência, postula -se:

c) Requer a notificação das testemunhas do rol abaixo para


virem depor em juízo, em dia e hora a serem designados, sob as cominações legais.

d) O Acusado pretende provar o alegado por todos os meios em


direito admitidos em especial pelo Boletim de Ocorrência, lavrado no dia da consumação do
fato, depoimento pessoal do Acusado, prova documental, prova pericial, oitiva das testemunhas
e o que mais se fizer necessário.

Nestes Termos

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Pede Deferimento

Campo Verde/MT, 21 de outubro de 2021.

Advogada

OAB

Rol de testemunhas:

1) Joãozinho da Silva, qualificação.


2) Esposa de Joãozinho da Silva, qualificação.
3) Vizinho de Joãozinho da Silva, qualificação.
4) Guarnição da Polícia Militar que atendeu a ocorrência, qualificação.
5) Nome, qualificação.

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