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José de Seabra da Silva e a sua Família:

Iconografia e Mobilidade Social


no Antigo Regime
Miguel Gorjão­‑Henriques*

Introdução
Objecto deste trabalho é a figura de José de Seabra da Silva, perso‑
nagem maior e algo controversa da política portuguesa nos reinados de
Dom José I e de Dona Maria I. O leitor perdoará certamente, espero, a
ousadia da intromissão de um jurista e académico, para mais especialista
em questões pós­‑históricas ou quase­‑históricas da integração europeia
(dependendo dos sucessos futuros da periclitante União Europeia) e do
direito da concorrência nestas áreas, mas é um tributo que a leitura há
longos anos dos trabalhos do Prof. Doutor Nuno Espinosa Gomes da
Silva me fez querer prestar e que, muito recentemente, mais se acentuou
depois de ler o notabilíssimo artigo sobre a primeira invasão francesa e,
de modo particular, o papel de Ricardo Raimundo Nogueira no tempo de
Junot, onde a figura de José de Seabra da Silva, por quem desde sempre
nutro uma suspeita e algo incompreensível afeição, se insinua amiúde
e com um destaque que filtra as “médicas” (por ausência de formação
jurídica) afirmações de Luz Soriano1. Além disso, olhando já para o

*  Assistente da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Sócio fundador


da Sérvulo & Associados – Sociedade de Advogados, RL e Advogado Especialista em
Direito Europeu e da Concorrência.
1
  O prof. Doutor Nuno Espinosa Gomes da Silva já se tinha ocupado noutras ocasiões
de Ricardo Raimundo Nogueira, como por exemplo em «Um pequeno manuscrito de
Ricardo Raimundo Nogueira, contendo considerações a favor e contra a Constituição,
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objecto deste trabalho, a figura incontornável de José de Seabra da Silva,


impõe­‑se realçar que não tive oportunidade de desenvolver várias das
questões e tratar múltiplas variáveis da personalidade e acção política
deste notável português do século xviii e início do século xix, que teve
a capacidade de sobreviver aos céus e infernos deste mundo em que
transitoriamente estamos, durante o reinado de Dom José I (ou, diriam
alguns com certa ironia, de Dom Sebastião2… José de Carvalho e Melo),
para regressar, após a descida da secretaria de Estado e do estatuto de

prometida por D. João VI, em 1823», Direito e Justiça, Tomo 3, Vol. 13 (1999),
pp. 15­‑37; sobre o período de Junot debruçou­‑se em «Reflexões sobre a génese do chamado
Projecto de Constituição de 1808, a outorgar por Napoleão a Portugal», Direito e Justiça,
Vol. 18, n.º 2, 2004, pp. 39­‑186; «Apostila às “reflexões sobre a génese do chamado
‘projecto’ de constituição de 1808, a outorgar, por Napoleão, a Portugal», Estudos em
homenagem ao Professor Doutor Marcello Caetano: no centenário do seu nascimento,
2006, II, pp. 405­‑440; sobre Ricardo Raimundo Nogueira se debruçou em 1999, e de
forma monográfica, o prof. Pedro Caridade de Freitas na sua dissertação de mestrado
(Um testemunho na transição para o século xix: Ricardo Raimundo Nogueira, Almedina,
Coimbra, 2005), com exaustivas indicações bibliográficas. Ricardo Raimundo Nogueira
(Porto, 1746­‑ Lisboa, 1827) foi figura maior da sociedade política desde o pombalismo até
ao liberalismo pré­‑guerra civil. Licenciado em Coimbra, foi lente da Universidade com a
reforma pombalina, Bibliotecário da Universidade, Reitor do Colégio dos Nobres (2 de
Junho de 1802) e Governador do Reino no tempo das invasões francesas, Conselheiro
de Estado, etc, tendo morrido, aparentemente, a 7 de Maio de 1827. Uma súmula bio‑
gráfica pode encontrar­‑se na internet em http://www.uc.pt/bguc/DocumentosDiversos/
RicRaimundoNogueira. As suas “prelecções de direito pátrio” estão também disponíveis
na Biblioteca Nacional Digital, em http://purl.pt/842.
2
  Conta­‑se que um fidalgo terá ido para a prisão por ter comentado, em dia de
nevoeiro, em resposta a questão sobre se estaria à procura de D. Sebastião no nevoeiro
em frente, que D. Sebastião já tinha chegado… No entanto, parece­‑nos que Dom José
não era uma personalidade despida de inteligência, mas de voluntas de intervenção
directa. Com efeito, basta atentar na descrição que dele faz o Cardeal Mendóça, que
foi seu contemporâneo: «Era El Rey de estatura mais que ordinaria, Corpo groço sem
disporporção, branco do Rosto, Olhos grandes, dentes alguma couza sahidos; muito
agradavel no particular, Magestozo no publico; Vestia com mais Riqueza que gosto;
No comer não era parco; no trato magnífico; nas funçoens, e jornadas grandioso; Na
conversação modesto, e erudito; e em tudo prudente, e Sabio. (….) Nesta Certeza, tendo
El Rey huma clara comprehenção de todos os Negocios; hum delicado discernimento,
huma Rectidão inflexível, hum juízo prudencial, huma // Liberalidade de Soberano; huma
conversação erudita, huma piedade grande, não uzava della, nem das outras excellentes
qualidades, com que a Natureza o dotou; porque entregue a Sebastiam Jozé, o deixava
obrar como entendia, persuadido de que dispunha tudo com justiça, e com Segurança
da sua Pessoa e Estado…» – D. Filipe Folque de Mendóça, O Cardeal­‑Patriarca de
Lisboa Dom José de Mendóça – o homem e o seu tempo (1725­‑1808), Universidade
Lusíada Editora, dissertação de Mestrado, 2010, pp. 443­‑444.
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braço direito do Marquês de Pombal aos infernos das prisões angolanas,


às alturas mundanas da secretaria de Estado da rainha Dona Maria I, num
exemplo claro da suavidade da Viradeira por esta Rainha introduzida,
passando pelos seus últimos anos de vida, em que passou sem mácula
visível, ao contrário do que sucedeu com outros membros da sua Família,
pelo período do “Rei Junot”, acabando os seus dias em 1812, já com
o Reino restituído à sua soberania3, mas então já em progressiva tutela
estrangeira da qual, na verdade, nunca se libertou completamente até
hoje (exceptuando porventura algum período no chamado Estado Novo).
Este trabalho é também, por isso e antes do mais, um trabalho de
cariz histórico-sociológico com uma componente genealógica funda‑
mental, necessária para demonstrar um exemplo de mobilidade social
no contexto da sociedade portuguesa do Antigo Regime, pelo que, de
forma significativa, foge bastante aos cânones tradicionais dos Estudos
em Homenagem aos mais ilustres lentes da universidade portuguesa, mas
que, na minha opinião, se justifica plenamente pela circunstância de o
Senhor Professor Doutor Nuno Espinosa Gomes da Silva ter dedicado
muito do seu labor à análise crítica e profunda sobre o período em causa,
de que retemos com extrema gratificação a leitura recente de um profundo
e interessantíssimo ensaio sobre o tempo de Junot e o papel de Ricardo
Raimundo Nogueira, onde José de Seabra da Silva é também referido.

A Família de José de Seabra da Silva


Duas breves notas servem para explicar qual era a Família de José
de Seabra da Silva e o estatuto social e político da mesma na sociedade
em que o mesmo viveu. A meu ver, estas notas justificam­‑se quer pela
falta de informação que hoje existe sobre estas matérias, quer porque a
Família de José de Seabra é particularmente portadora de uma inequívoca

3
  Recorde­‑se que a primeira invasão francesa terminaria na sequência das batalhas da
Roliça e do Vimeiro e que entre Setembro e Outubro de 1808 Junot já se tinha retirado,
terminando a sua curta mas dolorosa invasão – sobre o assunto a bibliografia é imensa,
mas citamos o menos conhecido estudo de João Pedro Tormenta/Pedro Fiéis, A Primeira
Invasão Francesa – as batalhas da Roliça e do Vimeiro, Nova Galáxia, Caldas da
Rainha, 2005, pág. 91. A segunda invasão, dirigida por Soult, também não teve sucesso
e, finalmente, na sequência da Batalha do Bussaco (27 de Setembro de 1810), onde aliás
morreu um dos filhos de José de Seabra da Silva, Massena foi definitivamente derrotado
e saiu do País (uma descrição contemporânea das invasões consta das memórias do 1.º
Duque de Palmela, recentemente publicadas – Memórias do Duque de Palmela, trans‑
crição, prefácio e edição de Maria de Fátima Bonifácio, D. Quixote, 2011, pp. 103­‑135).
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dinâmica intergeracional de progressiva ascensão social ao longo das


diversas categorias ou estratos da sociedade portuguesa do Antigo Regime
(período que para este efeito compreende pelo menos o período histórico
que termina com o advento do “liberalismo”) e a instauração entre nós
do regime constitucional (1834­‑1910) da 5.ª dinastia, de Saxe­‑Coburgo
Gotha de Bragança, que só por preconceito político já incompreensível
não é considerada como tal na História que na Escola se ensina aos
nossos filhos e nos foi ensinada4.
Primeiro, no Antigo Regime e mesmo na sociedade política do
liberalismo monárquico (1834­‑1910), o conceito jurídico­‑sociológico
de Família corresponde em grande medida à ideia de pertença a uma
mesma linhagem varonil legítima, não só porque uma pessoa não pode
ter tantas famílias quanto o número de ascendentes que tem (o que
faria de cada pessoa membro de todas essas Famílias, do mais diverso
estatuto social, político e económico) mas sobretudo porque a pertença
a uma Família era relevante para a determinação do estatuto social e
político de uma determinada pessoa, e daí decorriam diversas conse‑
quências jurídicas, sociais e, porventura, até económicas. O conceito de
Família, para efeitos jurídico­‑nobiliárquicos, confundia­‑se então com
o de varonia legítima5. Na expressão de Nuno Gonçalo Monteiro, «a

  Com efeito, não é este o momento azado para tratar deste assunto, mas sempre se
4

dirá que (i) o estabelecimento no trono de Dona Maria II foi fruto, quer se queira quer
não, de uma ruptura constitucional, pois não há continuidade entre as regras de sucessão
ao trono e a Carta Constitucional; (ii) a subida ao trono de Dona Maria II, ainda que – e
isso pode cobrar enorme relevo jurídico – se considerasse que teve o assentimento inicial
do seu tio o Infante Dom Miguel (futuro Rei Dom Miguel I), implicou a alteração, pela
primeira vez, da varonia dos Reis portugueses, que passou a ser “Saxe­‑Coburgo”; (iii)
tratou­‑se de uma dinastia fruto de uma Guerra Civil, em que a Rainha Dona Maria I
ganhou fruto do apoio também da “quádrupla aliança”.
5
  Para uma Família que não obteve títulos hereditários ou bens da Coroa transmis‑
síveis com dispensa na Lei Mental, a noção de Família confunde­‑se com a de varonia
legítima, à maneira romana mas não com esse fundamento nem nos mesmos termos: «a
verdadeira família romana era composta pelos agnati, pessoas descendentes do mesmo
tronco masculino, estavam directamente sujeitas aos amplos direitos que a lei conferia ao
paterfamilias» (Marquês do Funchal, «Títulos nobiliarchicos», Trabalhos da Academia
de Sciencias de Lisboa, pág. 109). António Manuel Hespanha falaria, mais tarde, numa
«concepção alargada da família, fundada em princípios generativos e linhagísticos – e
a que era sensível, sobretudo, o grupo nobiliárquico» (História de Portugal – O Antigo
Regime, José Mattoso (dir)/António Manuel Hespanha (Coord.), IV Volume, Editorial
Estampa, 1998, pág. 246). Assim, é «neste sentido mais habitual de família [que] era o
de linhagem» (idem, pág. 251) que as diferenciações de estatuto jurídico essencialmente
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pertença a uma linhagem decorria da varonia, ou seja, da ascendência


por linha masculina»6. Só não era assim, porventura, para as Famílias
que beneficiassem das raras distinções nobiliárquicas hereditárias (ditas
de juro e herdade), factor aliás relevante quando se analise a Família de
José de Seabra da Silva (na sua descendência). Assim, embora tivesse
este (como qualquer pessoa) 2 pais, 4 avós, 8 bisavós, 16 trisavós e
32 quartos avós, e por aí em diante (porventura todos provindos de
troncos diferentes, como então se escrevia), a sua Família era a Família
Seabra, com origem na zona de Viseu e identificada desde o princípio
do século xvii nas freguesias de Fail e Lobão7, hoje muito próximas
da cidade de Viseu, e o seu estatuto social e político era aquele que a
sua linhagem foi construindo (ou não).
Segundo para notar, em termos que adiante desenvolveremos, que a
história da Família de José de Seabra da Silva é também uma história
demonstrativa da forma como, na sociedade portuguesa pré­‑constitucional
ou do Antigo Regime se processava a ascensão na pirâmide social. Assim,
José de Seabra da Silva era bisneto, por linha varonil e legítima, de
Domingos de Seabra, tronco mais afastado desta linhagem, pois só se
poderá chegar à sua ascendência com outro tipo de fontes, designadamente
notariais, visto ter recuado até ao primeiro livro de registos paroquiais do
Fail e de Lobão, no Concelho de Viseu. Segundo os dados publicados
por seu neto António Coutinho Pereira de Seabra e Sousa em 18688, terá
sido proprietário e, com grande probabilidade, lavrador, e casou com

se produziam. Claro que há outros conceitos de Família, quase todos distantes dos nos‑
sos modernos conceitos de Família (idem, pp. 251­‑252), pois, na linguagem comum se
utilizava até com «contornos muito vastos, nela se incluindo agnados e cognados, mas
ainda criados, escravos e, até, os bens» (idem, pág. 250).
6
  «Embora com restrições» continua este reputado Autor, mas os casos que dá
reconduzem­‑se, a final, numa ainda maior exigência, com a necessidade de prova de
nobreza estendida «aos quatro costados» – Nuno Gonçalo Monteiro, «Casa, casamento e
nome: Fragmentos sobre relações familiares e indivíduos», in História da Vida Privada
em Portugal – A Idade Moderna, José Mattoso (Dir.)/Nuno Gonçalo Monteiro (Coord.),
Temas & Debates/Círculo de Leitores, 2011, pág. 136.
7
  Nas Memórias Paroquiais de 1758, o vigário de Lobão, chamado Luís de Seabra,
dá nota de ser filho da terra Lucas de Seabra da Silva, pai de José de Seabra da Silva.
8
  Resposta ao Senhor Simão José da Luz Soriano acerca de José de Seabra da Silva,
Lisboa, Imprensa Nacional, 1868, pág. 70.
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Maria Antunes da Silva9, que não era de Fail, mas de “orlacham”10, e


filha de Silvestre Antunes da Silva, também proprietário em Lobão, como
escrevia o Conde de Castro e Solla11, ou seja, porventura um pequeno
ou médio lavrador, vivendo de pelo menos algumas fazendas próprias
e, talvez, do arrendamento de terras de outrem. Foram estes pais, pelo
menos, de Gregório de Seabra da Silva12.
Este Gregório da Silva13, como também aparece nomeado, foi baptizado
na freguesia de Fail, em Viseu, a 19 de Março de 166514. Dizia­‑se ter sido
Capitão­‑mor dos Privilegiados de Lobão, Santa Ovaya, e instituidor do
morgado de Lobão em 26 de Setembro de 1722, a partir de «bens que
possuíam no Fail e em Villa Chã, que se diziam vinculados por seu avô
paterno; mas como no seu testamento feito em 1598 não fallasse em tal
vinculação, fez­‑se novo vinculo n’aquella data, e que ainda foi reformado
a» 16 de Janeiro de 172515. Na habilitação de sua neta, António da Silva
Vieira diz que foi «Capitão da ordenança de uma das companhias do
Conselho de Besteiros, que vivia de suas fazendas nobremente e que tam‑
bém conhecera Manuel Ribeiro e sua mulher Pais da sobredita Antónia
Ribeira». Os demais testemunhos corroboram esta versão. Casou Gregório

  É referido, o que não parece de comprovar, que teria casado a 20 de Março de


9

1652 com D. Maria Correia de Loureiro, herdeira (António Coutinho Pereira de Seabra
e Souza, Resposta ao Senhor Simão José da Luz Soriano acerca de José de Seabra da
Silva, Lisboa, Imprensa Nacional, 1868, pág. 79.
10
  Segundo testemunha na habilitação de sua bisneta D. Bernarda Antónia de Moraes
Seabra. É de notar, aqui, que todas as testemunhas que naquele processo a dizem ter
conhecido lhe chamam Maria Antunes.
11
  Cerâmica Brazonada, Of. Graf. «Museu Comercial», Lisboa, II vols., 1928, Vol.
I, pág. 85.
12
  Assim é sempre chamado no processo de habilitação junto do Santo Ofício de
sua neta D. Bernarda Antónia de Moraes Seabra, com vista à aprovação do seu próximo
matrimónio com Luís Ozorio Beltrão, o que veio a suceder.
13
  Assim aparece no assento de baptismo de seu filho Lucas de Seabra da Silva.
14
  Foi seu padrinho «Manuel Siabra», que creio, pela consulta dos paroquiais, ser
irmão de Domingos Seabra (foi madrinha Antónia …, mas não decifrei ainda o seu
apelido, julgo que “Mendes”). Trata­‑se do primeiro livro de paroquiais desta freguesia,
pelo que julgamos ser improvável, por esta via, prosseguir na averiguação da ascendência
Seabra desta família.
15
  Testamento de sua nora, D. Josefa Teresa, de 11.5.1750 – e António Coutinho
Pereira de Seabra e Souza, Resposta ao Senhor Simão José da Luz Soriano acerca de
José de Seabra da Silva, cit., pág. 77.
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Seabra em Lobão, a 29 de Novembro de 169316, com Antónia Ribeira


Pinto, nascida em Várzea de Cavalos (S. João de Lobão), herdeira do
vínculo de Lobão, por ser filha única de Manuel Ribeiro, juiz ordinário
do concelho de Besteiros, e de sua mulher (casaram, porventura, em
15 de Novembro de 1658) Isabel João (Joana17) Pinto da Veiga, herdeira
do vínculo de Lobão; e era neta paterna de Tomé Figueira e de Antónia
Ribeiro, que terão casado em 4 de Janeiro de 1636. Na habilitação
do Santo Ofício de sua neta diz­‑se que Gregório de Seabra da Silva e
D. Antónia (aqui sintomaticamente já com o “Dona” que os paroquiais
contemporâneos não lhe davam) «viveram sempre dos rendimentos de
suas fazendas, com estimação e crédito sendo das principais famílias
daquelas freguesias»18. Eram moradores em Várzea de Cavalos, à data
de nascimento de seu filho.
Não sei se Gregório e Antónia tiveram muitos ou poucos filhos.
Documentado está, certamente, que deles descende o primeiro grande
vulto desta Família, o Doutor Lucas de Seabra da Silva, que foi lente
em Coimbra e juiz dos nossos tribunais superiores. Nasceu Lucas de
Seabra (nome aliás que na família se repetiu mais tarde, sendo o nome
de seu neto paterno que teve altas funções antes e na época das invasões
francesas) no lugar da Várzea, na freguesia de S. Julião de Lobão, onde
foi baptizado (Besteiros, comarca de Viseu, actual concelho de Tondela),
a 18 de Outubro de 169419 e morreu em Lisboa, não sabemos nem que
paróquia nem podendo por isso ter a data por certa, a 12 de Dezembro de
1756, há quem diga que por desgosto resultante de processo que adiante
melhor tentaremos contar.

16
  Arquivo Distrital de Viseu, Registos paroquiais de Lobão, Liv. 1 (?), fl. 226 v.
O assento está transcrito no processo do Santo Ofício de sua neta, nos seguintes termos:
«Em os vinte e seis dias do mês de Novembro de mis seiscentos e noventa e três se
receberam em minha presença Gregório da Silva, filho que ficou de Domingos Seabra
e sua mulher Maria Antunes do lugar do Fail deste Bispado com Antónia Ribeira, filha
de Manuel Ribeiro e de Isabel João do lugar de Várzea desta freguesia. Foram teste‑
munhas Manuel Fernandes de Carvalho seu filho, Manuel de Oliveira do lugar de Vila
(…) e António Pinto e seu irmão Fernando do lugar da Várzea de Cavalões e muitas
mais testemunhas (…).»
17
  Conde de Castro e Solla, Cerâmica Brazonada, vol. I, pág. 40.
18
  TT, Habilitações para o Santo Ofício – proc. de Luís Ozorio Beltrão, Maço 16,
dil. 345, diligências relativas a sua noiva D. Bernarda Antónia de Moraes Seabra, fl 4.
19
  O assento de baptismo, que se reproduz, não diz quando nasceu, mas é corrente
ter tal acontecido a 6 de Outubro de 1694.
82 Miguel Gorjão­‑Henriques

Assento de baptismo de Lucas de Seabra da Silva (1694)

Cremos que Lucas de Seabra da Silva terá sido o filho varão primo‑
génito ou pelo menos, o que logrou perpetuar a sua descendência, pois
todas as fontes disponíveis e o património que seus filhos e netos pos‑
suíram demonstram que terá sido herdeiro dos bens vinculados por seus
Pais. Cavaleiro professo na Ordem de Cristo (Alvará de 6 de Junho de
1730), «foi o primeiro desta família que teve o fôro» de Fidalgo Cavaleiro
(Alvará régio de 30 de Abril de 174520). Esta circunstância não é de
todo de desprezar, no contexto da sociedade política do Antigo Regime
pois, como escrevia o Dr. Luís da Silva Pereira Oliveira na conhecida
Obra Privilégios da nobreza e fidalguia de Portugal, “as pessoas con‑
decoradas com estes Foros constituem a principal Nobreza depois dos
títulos”21, e, como recordou recentemente a Mestra Maria Inês Versos,
só aos filhados na “primeira classe” da nobreza (com um dos chamados
“foros grandes”), «subdividida numa hierarquia que se iniciava com o

  TT, Registo geral das mercês de D. João V, Liv. 35, fl. 396.
20

  Privilégios da nobreza e fidalguia de Portugal, offerecidos ao Excellentissimo


21

Senhor Marquez de Abrantes, D. Pedro de Lencastre Silveira Castello Branco Vasconcellos


Valente Barreto de Menezes Sá e Almeida pelo seu Author Luiz da Silva Pereira Oliveira
Cavaleiro Professo na Ordem de Christo Corregedor da Comarca de Miranda do Douro,
natural de Fontellas e Socio da Real Academia das Sciencias de Lisboa¸1806, pág. 231,
que se pode consultar em. http://books.google.com/books?id=1_dHAAAAMAAJ
&pg=PA44&dq=privil%C3%A9gios+da+nobreza&hl=pt­‑PT.
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foro de moço fidalgo, seguindo­‑se fidalgo escudeiro e fidalgo cavaleiro,


se reconhecia verdadeiramente o estatuto de fidalgo»22.
Instituiu o Morgado de Vilela, no campo de Coimbra (testamento
de 8 de Fevereiro de 175623), 2.º senhor dos morgados de Lobão e Fail.
A sua carreira jurídica foi muito relevante.

Matrícula e assinaturas de Lucas de Seabra da Silva na U.C.24

22
  E daí que as provas da Ordem de Malta, a partir do séc. xvii e até ao século xix,
exigissem prova por documento autêntico dos “foros grandes” dos 4 avós, como ensina
Maria Inês Versos, Os Cavaleiros da Ordem de S. João de Malta em Portugal de Finais
do Antigo Regime ao Liberalismo, Dissertação de Mestrado em Sociologia e Economia
Históricas, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa,
2003, policopiado, pp. 221­‑223, 232­‑239 e 253, seguindo aqui também o mesmo Luís da
Silva Pereira Oliveira, Privilégios da nobreza e fidalguia de Portugal, cit., pp. 221­‑222,
onde dizia: que «deu ele [o Rei Dom Sebastião] Regimento ao Mordomo­‑mor, datado
de três de Janeiro de 1572, e nele ordenou que os Cavaleiros Fidalgos fossem em diante
nomeados Fidalgos Cavaleiros, e que os Escudeiros Fidalgos passassem à denominação
de Fidalgos Escudeiros; e não havendo nisto mais diferença que a de antepor o vocábulo
Fidalgo ao de Cavaleiro, ou de Escudeiro, há contudo hoje uma notável distinção e
desigualdade entre uns e outros, e vem a ser: que o Fidalgo Escudeiro, ou Cavaleiro, é
verdadeiro Fidalgo, e o Escudeiro, ou Cavaleiro Fidalgo não o é e// e fica diferindo tanto
um do outro, como o ouro do dourado» (itálico do próprio Autor, que cita “palavras de
Moraes de Execut. Liv. 44.c.8. n. 68. V. Ferreir. Supr. pag. 39”). Sobre os foros e suas
particularidades, v. Nuno Gonçalo Pereira Borrego, «Mordomia­‑Mor da Casa Real», in
Mordomia­‑Mor da Casa Real – Foros e ofícios – 1755/1910, Tomo I, Tribuna da História,
2007, pp. 19­‑69, em especial pp. 56­‑63; ou, na mesma Obra, a notável «Apresentação» de
D. Luís da Costa de Sousa de Macedo (Mesquitela), pp. 13­‑16, que chamava a atenção de
que, «[n]uma sociedade estratificada em que a nobreza de cada um se media pelo lugar
que tinha na Casa Real, [tanto a detenção de um foro como, até] o acrescentamento do
foro era matéria melindrosa e altamente apetecível, como bem sublinha Ferreira de Vera
ao afirmar “que entre os mais aventajados he grande ventaje na honra ter mais real de
foro” e acrescenta: “He tanto assim, que Fernão de Magalhães… por se lhe não querer
acrescentar hum tostão mais em sua moradia… se agravou de tal maneira que se passou
para o Imperador Carlos V…” “com os resultados históricos conhecidos…”» (pág. 15).
23
  O que não conseguimos ainda confirmar nem consultar, apesar de referido em
vária documentação secundária.
24
  AUC, Livro de Matrículas – 1702 – 1704, IV­‑1ªD­‑1­‑3­‑38 – fl. 229.
84 Miguel Gorjão­‑Henriques

Licenciou­‑se Lucas Seabra da Silva em Leis na Universidade de


Coimbra, onde foi depois Doutor em Leis, Lente de leis e Lente de
Prima («de todas as cadeiras da faculdade de leis»25) da Universidade
de Coimbra, como depois se escreveu. Habilitou­‑se para os lugares
de letras em 172926, o que logrou, tendo sido no mesmo ano nomeado
Desembargador da Relação do Porto (Carta de 3 de Dezembro de 172927)
e, também nesse ano, Desembargador Honorário da mesma Relação
(Provisão de 30 de Dezembro de 172928). Em 1730, com a mercê do
hábito de cavaleiro professo, teve mercê de tença de 12$000 réis com
hábito de Cristo (Carta de 6 de Julho de 1730)29 e de tença de 8000 réis
(Carta de 11 de Julho de 1730)30.

Gazeta de Lisboa, n.º 19, de 13 de Maio de 1734, pág. 216

Desembargador Honorário da Casa da Suplicação com Exercício em


férias (Carta de 7 de Junho de 1734)31, teve também mercê de um lugar
de Conservador da Nação Inglesa na cidade de Coimbra (Alvará de
2 de Setembro de 173432) e de Juiz do Fisco de Coimbra (Alvará de
8 de Outubro de 173433).

25
  Testamento do próprio, escrito em 8.2.1756 – António Coutinho Pereira de Seabra
e Souza, Resposta ao Senhor Simão José da Luz Soriano acerca de José de Seabra
da Silva, Lisboa, Imprensa Nacional, 1868, pág. 74. Sobre o assunto, vide também o
trabalho de José Manuel Subtil.
26
  Lucas de Seabra da Silva, Leitura de Bacharéis – Habilitações, 1729, Maço 18,
n.º 7; 1729, Maço 2, n.º 21.
27
  TT, Registo geral das mercês de D. João V, Liv. 21, fl. 59.
28
  TT, Registo geral das mercês de D. João V, Liv. 21, fl. 59.
29
  TT, Registo geral das mercês de D. João V, Liv. 21, fl. 59.
30
  TT, Registo geral das mercês de D. João V, Liv. 21, fl. 59v.
31
  TT, Registo geral das mercês de D. João V, Liv. 21, fl. 59v.
32
  TT, Registo geral das mercês de D. João V, Liv. 21, fl. 59v.
33
  TT, Registo geral das mercês de D. João V, Liv. 26, fl. 105.
José de Seabra da Silva e a sua Família:
Iconografia e Mobilidade Social no Antigo Regime 85

Notícias referentes a Lucas de Seabra da Silva na Gazeta de Lisboa: de 26 de Dezembro


de 1726, n.º 52, pág. 416 (esq.) e de 3 de Abril de 1738, n.º 14, pág. 167 (dir.)

Uns anos depois, teve mercê do lugar de Desembargador Honorário


dos Agravos da Casa da Suplicação (16 de Abril de 173834). Provedor
do Hospital Real, em Coimbra (1741) e responsável pela instalação do
Hospital da Convalescença, gerido pela Misericórdia35. Teve o Título do
Conselho (2 de Janeiro de 174536), como Conselheiro da Fazenda (4 de
Fevereiro de 174537), tendo sido nomeado Lente de Prima na Universidade
de Coimbra (5 de Maio de 1748)38, de que foi Jubilado, na Cadeira de
Prima e Leis, a 14 de Dezembro de 1752. Antes, nos anos de 1749/1750
e 1750/1751, foi Provedor da Misericórdia de Coimbra39. Foi depois
nomeado Desembargador do Paço (3 de Junho de 175340). Foi ainda
Deputado da Bula da Cruzada, em data que não pudemos determinar,
além de outros cargos e funções que, porventura, poderá ter exercido.
O Desembargador Lucas de Seabra da Silva veio a ser parte da
pequena história quando, em 1756 e já no reinado de Dom José I, terá
sido encarregado por El­‑Rei de «proceder a um inquérito sobre a vida

34
  TT, Registo geral das mercês de D. João V, Liv. 26, fl. 105.
35
  Maria Antónia Lopes, A governança da Misericórdia de Coimbra em finais de
Antigo Regime, s.d., pp. 10­‑11.
36
  TT, Registo geral das mercês de D. João V, Liv. 35, fl. 396.
37
  TT, Registo geral das mercês de D. João V, Liv. 26, fl. 105v.
38
  No mesmo ano publicou Allegação de direito a favor de D. José de Mascarenhas,
marquez de Gouveia, opponente da sucessão da caza e estado d’Aveiro.
39
  Maria Antónia Lopes, A governança da Misericórdia de Coimbra em finais de
Antigo Regime, s.d., pp. 10­‑11.
40
  TT, Registo geral das mercês de D. José, Liv. 5, fl. 61.
86 Miguel Gorjão­‑Henriques

e costumes de Francisco Xavier de Mendonça, irmão do Marquês de


Pombal»41, em particular sobre o seu «comportamento» (Jacome Ratton42).
Já para o prof. Nuno Gonçalo Monteiro, quando vários fidalgos intenta‑
ram depor Sebastião José de Carvalho e Melo. Seja qual for o motivo, será
interessante seguir, neste ponto, a visão expressa na recente biografia do Rei
D. José43, que segue de perto umas Memórias citadas por Jardim de Vilhena
e que este (Vilhena) atribuía, erradamente, ao Principal Mendonça, irmão
de Pombal44, quando o Autor está nos antípodas políticos, pois é o Principal
Mendóça, como hoje se escreve, que foi, com D. Maria I, Cardeal Patriarca

41
  João Jardim de Vilhena, José de Seabra da Silva – A sua Política e o seu Destêrro,
Coimbra, Imprensa da Universidade, 1933, pp. 8­‑9. Este texto tem o interesse, no mínimo,
inerente à circunstância de não ser referido pelo prof. Nuno Gonçalo Monteiro na sua
notável biografia de D. José (D. José, Temas & Debates, 2008).
42
  Jacome Ratton, Recordações de Jacome Ratton sobre ocorrências do seu tempo
em Portugal de Maio de 1747 a Setembro de 1810, 4.ª edição, Fenda, 2007, pág. 160.
Obra cuja primeira edição foi publicada em Londres, em 1813, e a 2.ª em Coimbra,
em 1920, por iniciativa do prof. Teixeira de Carvalho, na Imprensa da Universidade –
Alfredo Duarte Rodrigues reproduz o prefácio dessa primeira reedição, além de outras
considerações interessantes, em O Marquês de Pombal e os seus Biógrafos – Razão de
ser de uma revisão à sua história, Lisboa, 1947, pp. 49­‑53 (volume que possuo e havia
sido oferecido pelo Autor ao ilustre olisipógrafo Gustavo de Matos Sequeira).
43
  Nuno Gonçalo Monteiro, no seu D. José, Temas & Debates, 2008, pág. 111.
44
  «Capítulo 67.º: – “A vaidade de Martinho Velho da Rocha Oldemberg só achava
igualdade em Manuel António de Carvalho e Francisco Xavier Teixeira, este inimigo
descoberto de Sebastião José, este o que fez a petição de revista a seu primo Gonçalo
Cristóvão em que saindo dos limites do direito atacou a sua ascendência com termos
pouco praticados. Aqueles ofendidos de não ter El­‑Rei eleito a José Galvão de Lacerda
(então enviado a Paris) Secretário d’Estado em que fundavam as suas esperanças. Tinham
eles o favor de Diogo de Mendonça, Secretário d’Estado, sempre desunido e oposto a
Sebastião José. Além deste favor, tinham o favor dos jesuítas a quem este tinha cortado o
comércio do Pará com a liberdade dos Índios e com o Governo do seu irmão Francisco
Xavier de Mendonça: intentaram pois formalizar uns capítulos contra Sebastião José e
entregarem­‑nos nas mãos d’El­‑Rei que vendo­‑os e persuadido que sobre eles devia tomar
as informações necessárias, encarregou estas ao Desembargador Lucas Seabra da Silva,
recomendando­‑lhe vocalmente o segredo e a averiguação. O informante usou tão mal
da recomendação de El­‑Rei, que buscou a Sebastião José para dizer­‑lhe se achavam na
sua mão os capítulos que lhe apresentava e que visse ele o que queria que informasse.
Sebastião José revestido da honra com que sempre serviu e da autoridade de Ministro
d’Estado lhe estranhou severamente o mal que executava as recomendações de El­‑Rey
a quem logo deu parte pedindo uma exacta e rigorosa averiguação. Passados poucos
dias morreu Lucas de Seabra, assentando­‑se que por desgosto do referido sucesso” –
apud J. Jardim de Vilhena, José de Seabra da Silva, cit., pág. 10 (D. Filipe Folque de
Mendóça, op. Cit., pp. 397­‑398).
José de Seabra da Silva e a sua Família:
Iconografia e Mobilidade Social no Antigo Regime 87

de Lisboa: «Em curso estava, desde o início do ano de 1756, pelo menos,
uma conspiração contra Carvalho, da qual se não conhecem senão alguns
contornos, mas que parece ter tido como desenlace final o afastamento de
Diogo de Mendonça Corte Real. A iniciativa terá partido de Martinho Velho
Oldemberg45, filho do homem da companhia da Ásia, e, entre outros, do
advogado Francisco Xavier Teixeira de Mendonça, que há pouco intentara
uma acção de revista num processo judicial em nome de um primo seu
contra Sebastião José. Foi aquele advogado o autor em Fevereiro de 1756
de um notável repositório contra o ministro de D. José, ao qual adiante se
regressará. Parece que os conspiradores tinham apostado inicialmente em
José Galvão de Lacerda46. De acordo com os relatos mais plausíveis, “com
ocasião do Terramoto sempre memorável passou Martinho Velho para a
cerca dos padres Barbadinhos Italianos, no sítio de Santa Apolónia, onde
fez grandes barracas, e nelas Conventículos, em que além dos […] refe‑
ridos eram mais assistentes [dois religiosos] daquele reformado convento,
que aproveitando­‑se da calamidade daquele tempo, iam repetidas vezes às
barracas das Pessoas Reais, que acreditavam as suas fingidas virtudes por
verdadeiras. Tinham também o favor do Secretário de Estado Diogo de
Mendonça, sempre desunido e oposto a Sebastião José. […] intentaram pois
formalizar os capítulos contra Sebastião José, e entregarem­‑nos nas mãos de
El­‑Rei que, vendo­‑os, e persuadido justamente que sobre eles devia tomar as
informações necessárias; encarregou estas ao Desembargador Lucas Seabra
da Silva, recomendando­‑lhe localmente o segredo, e averiguação”. Entretanto,
“os capitulantes […] escreveram de Roma a António Freire de Andrade
Encerrabodes, Enviado na Corte de Roma, e a José Galvão de Lacerda na
de Paris; e já supondo­‑se Ministros, e validos, principiaram a tratar Negócios
da Corte, que não eram encarregados, nem jamais se encarregaram pessoas
das suas qualidades”, ao mesmo tempo que os Jesuítas dirigiam outros
capítulos ao Conselho Ultramarino contra o irmão de Carvalho governador
no Maranhão. O que precipitou as coisas parece ter sido o facto de Lucas
de Seabra, pai de José Seabra da Silva, provavelmente atemorizado, ter
mostrado os “capítulos” a Carvalho, o qual, “revestido da autoridade de
Ministro de Estado e da honra com que sempre serviu, lhe estranhou seve‑

45
  Sua Mãe, Dona Francisca Antónia da Rocha, mulher de Feliciano Velho Oldenberg,
morreu em Lisboa, na freguesia da Madalena, a 7 de Dezembro de 1740 (Livro 1 de
Óbitos, reformado, fls.15­‑15v.).
46
  Cuja ascendência estudámos a propósito de outra investigação em publicação na
revista Armas & Troféus.
88 Miguel Gorjão­‑Henriques

ramente o mal que executava as recomendações de El­‑Rei, a quem logo


deu parte, pedindo uma exacta e rigorosa averiguação”, tendo pouco depois
morrido “por desgosto do referido” Lucas Seabra»47. Esta versão diverge da
do Cardeal Mendoça e daqueloutra dada por Jacome Ratton, mas coincide
quer na atitude de Lucas de Seabra de dar conta do encargo a Sebastião
José, quer das demais consequências. Jacome Ratton, que conta o episódio
por testemunho de ouvir dizer, «de pessoa fidedigna»48, diz que «veio o dito
Desembargador comunicar ao Conde [impropriamente, pois que ainda não
era Conde…] a ordem que tinha recebido d’El rei e pedir­‑lhe as suas instru‑
ções. Esta inconfidência irritou sobremaneira [Sebastião José], estranhando
e repreendendo asperamente o dito Desembargador, mostrando­‑lhe a falta
de lealdade e obediência ao seu Soberano; pois que lhe vinha comunicar
uma coisa que só ele e Sua Majestade deviam saber»49. Seja como for, e
tal como na descrição dada pelo prof. Nuno Gonçalo Monteiro, também
Ratton nos diz que «[e]sta repreensão produziu tal efeito no dito Lucas de
Seabra da Silva que, chegando a casa, se meteu na cama e morreu de paixão
em pouco tempo»50, assim se demonstrando que não se morre apenas por
desgosto de amor, mas também por desgosto de serviço…
O Doutor Lucas de Seabra da Silva, então já professor em Coimbra,
habilitado para os lugares de letras51 e provido como Desembargador da
Relação do Porto, como acima se deu conta, logrou já casar com uma
importante morgada da região de Coimbra, mais concretamente na freguesia
de Vilela, a 25 de Novembro de 1731, de seu nome Dona Josefa­‑Tereza
de Moraes Ferraz (Freire52), que terá nascido em Torre de Vilela, no con‑

47
  Nuno Gonçalo Monteiro: D. José – na sombra de Pombal, Temas & Debates,
2008, pág. 111.
48
  Jacome Ratton, Recordações de Jacome Ratton sobre ocorrências do seu tempo
em Portugal de Maio de 1747 a Setembro de 1810, cit., pág. 159.
49
  Grafia actualizada – v. Jacome Ratton, Recordações de Jacome Ratton sobre ocor‑
rências do seu tempo em Portugal de Maio de 1747 a Setembro de 1810, op. cit., pág. 160.
50
  Grafia actualizada – v. Jacome Ratton, Recordações de Jacome Ratton sobre ocor‑
rências do seu tempo em Portugal de Maio de 1747 a Setembro de 1810, op. cit., pág. 160.
51
  Como nota António Manuel Hespanha, «Os poderes, os modelos e os instrumentos
de controlo – Os modelos normativos. Os paradigmas literários», in História da Vida
Privada em Portugal – A Idade Moderna, cit., pág. 60: «O regime de admissão nas
carreiras letradas (…) mostra que a distinção baseada nas letras, favorecida naturalmente
pelos próprios letrados, recebe uma ratificação cada vez mais nítida por parte da Coroa».
52
  António Coutinho Pereira de Seabra e Souza, Resposta ao Senhor Simão José
da Luz Soriano acerca de José de Seabra da Silva, Lisboa, Imprensa Nacional, 1868,
pág. 15. O assento de matrimónio de seu neto não inclui referência a este apelido “Freire”.
José de Seabra da Silva e a sua Família:
Iconografia e Mobilidade Social no Antigo Regime 89

celho de Coimbra, a 23 de Fevereiro de 1707, aonde foi baptizada a 3 de


Março de 170753 e que morreu em Coimbra, em freguesia a determinar,
a 5 de Junho de 1750, tendo feito testamento a 11 de Maio de 1750. Era
esta já a 6.ª administradora do morgadio de Figueiró dos Vinhos instituído
por Francisco de Moraes, em 18 de Maio de 162354, por sucessão de sua
mãe, D. Bernarda Teresa de Moraes Ferraz, que terá nascido em Eiras, a
20 de Agosto de 1668 e fôra 5.ª administradora do morgado de Figueiró
dos Vinhos, e de seu marido o Dr. Manuel Velho da Costa Marmeleiro
(Manuel Velho Marmeleiro da Costa), que morreu em 1733. Sobre estes se
pronunciaram as testemunhas nas inquirições feitas aquando da habilitação
para matrimónio de D. Bernarda de Seabra (infra) com Luís Ozorio Beltrão,
onde o informante António de Figueiredo e Abreu concluiu, paradigmati‑
camente, que «a sobredita habilitanda por seu Pay e avós paternos é in­‑/
teira e legítima Cristã­‑Velha e limpo sangue e geração/ sem que em tempo
algum houvesse a mínima fama ou/ rumor em contrário».

Esq: Assento de matrimónio do Doutor Lucas de Seabra da Silva com D. Josefa


Teresa de Moraes Ferraz. Dir.: Assento de baptismo de D. Josefa

53
  Arquivo da Universidade de Coimbra (AUC), Registos Paroquiais de Torre de
Vilela, Livro Mistos 1614­‑1751, fl. 62v.
54
  António Coutinho Pereira de Seabra e Souza, Resposta ao Senhor Simão José da
Luz Soriano acerca de José de Seabra da Silva, cit., pág. 77.
90 Miguel Gorjão­‑Henriques

Do matrimónio do Doutor Lucas de Seabra da Silva com D. Josefa


Teresa de Moraes Ferraz terão nascido os seguintes onze filhos, cinco
rapazes e seis raparigas:
1. José de Seabra da Silva, que segue
2. Luiz de Moraes de Seabra (da Silva). Nasceu a 3 de Outubro de
1733, tendo sido baptizado em Torre de Vilela, no concelho de Coimbra,
a 20 de Outubro de 1733. Moço­‑Fidalgo com mil réis de moradia e
um alqueire de cevada por dia «que se costuma dar aos filhos dos
Desembargadores do Paço», e Fidalgo Cavaleiro por sucessão de seu
Pai (Alvará de 20 de Setembro de 1753)55, depois acrescentado o foro de
Moço­‑Fidalgo a Fidalgo Escudeiro com mais 600 réis de moradia e logo
também acrescentado a Fidalgo Cavaleiro com mais 400 réis de moradia,
perfazendo o total de 2000 réis de moradia e um alqueire de cevada por
dia (Alvará de 2 de Outubro de 1754)56. Provedor dos Órfãos e Capelas
por três anos (Carta de 3 de Setembro de 175357). Desembargador da
Relação da Casa do Porto (Carta de 18 de Maio de 175858) e Cavaleiro
professo da Ordem de Cristo (22 de Setembro de 1759)59. Smn.

Gabinete Histórico, Tomo XVII, pág. 120, referindo, porventura, por erro, um irmão
de nome Francisco, mas que cremos seja Lucas de Seabra

55
  TT, Registo geral das mercês de D. José I, Liv. 6, fl. 434.
56
  TT, Registo geral das mercês de D. José I, Liv. 6, fl. 434­‑434v.
57
  TT, Registo geral das mercês de D. José I, Liv. 6, fl. 434.
58
  TT, Registo geral das mercês de D. José I, Liv. 6, fl. 434.
59
  NB: Habilitações nas Ordens Militares – Séculos XVII a XIX – Ordem de Cristo L­‑Z,
Tomo III, Guarda­‑Mor, 2010, pág. 21: «Luís de Morais Seabra e Silva, Desembargador
da Relação do Porto (irmão de José de Seabra da Silva, Desembargador, COX), filhos de
Lucas de Seabra da Silva, Desembargador, COX, e de s.m. D. Josefa Teresa de Morais
Ferraz. Em 22.09.1759 (m. 3, n.º 2).»
José de Seabra da Silva e a sua Família:
Iconografia e Mobilidade Social no Antigo Regime 91

3. D. Bernarda Antónia de Moraes Seabra. Foi baptizada em Torre


de Vilela, no concelho de Coimbra, a 8 de Novembro de 1734 e
terá morrido em 1751. Habilitou­‑se no Santo Ofício (174860) para

60
  No processo de seu irmão aparece o seguinte traslado: «E outrossim certifico que
na margem do dito/Livro à frente do Registo da dita Provisão está/uma cota do teor
seguinte = por Carta do Se­‑//Secretário do Conselho geral de cinco de Outu­‑/bro de
mil setecentos e quarenta e oito consta/ serem aprovadas as diligências de D. Bernarda/
/Antónia de Morais Seabra, futura mulher des­‑/te Familiar Luis Ozorio Beltrão, hoje 10
de Ou­‑/tubro de 1748 = Joseph Baptista. O que tudo/ consta do livro que me reporto (…)
26 de Agosto de 1752/ anos/ João Correa Xavier». Consultámos directamente o processo
de D. Bernarda Antónia de Moraes Seabra, anexo ao processo de seu noivo. As habilita‑
ções relativas à sua varonia foram feitas em Lobão e Fail. Em Lobão, testemunharam o
Pd. António Fernandes, Cura da Freguesia, o Pd. Manuel Mendes, o Pd. Pedro Lopes e
o Pd. Silvestre de Figueiredo. No lugar de Fail, testemunharam o Pd. Luíz Paz Ferreira,
o Pd. Cura (Jacinto) José de Bastos, Sebastião Ferreira, Manuel Mendes, João Fernandes,
o velho, e Manuel Coelho. Em Eiras e Vilela, testemunharam Manuel de Almeida, o
Capitão João de Campos, FSO, Maria Marques, Maria Lopes e Luísa Marques. Em
Coimbra testemunharam o Pd. Luís de Oliveira, ecónomo na Igreja de Santa Justa, José
Álvares, contínuo da Universidade, João da Costa, relojoeiro e sineiro da Universidade,
o Licenciado Francisco Ramos, Notário do Santo Ofício. Em Vilela, a ordem é Manuel
de Oliveira, Maria Rodrigues, mulher de Manuel de Oliveira, João Marques, natural de
Marmeleira do Botão, freguesia de Souselas, Manuel Ribeiro Marques, lavrador, Manuel
Marques, lavrador, Simão Roiz, lavrador, Isabel Francisca, mulher de Simão Roiz, Isabel
Francisca, viúva de Manuel Lopes, lavrador, Francisco Lopes, lavrador, António Simões,
lavrador, Joana Simões, mulher de Manuel Ribeiro Marques, e Maria Pereira, viúva de
Manuel Simões. Em Eiras, a ordem é Francisco Marques, capitão da ordenança da dita
vila de Eiras, natural e morador em Eiras, Manuel Marques Rocha, que vive de suas
fazendas e daí natural e morador, Salvador Marques, Bernarda Teresa, viúva de José
Peyxoto Soares, Manuel Marques Carasco, tenente reformado de Infantaria, que vive de
suas fazendas, João Pereira, que vive da sua fazenda, …., Manuel de Bastos Mesquita,
que vive de suas fazendas, Ana Cardoza, viúva de Manuel Fernandes Bruxeyro (?),
trabalhador da enxada, Marta Leite, viúva de João…, José de Macedo Varela, Escrivão
das (…) de Aveyro, natural da quinta do …., com cinquenta e um anos, o Pd. Manuel
Marques da Costa, presbítero do Hábito de São Pedro, e Manuel Gomes de Almeida,
que vive de sua fazenda. Em Lobão testemunharam António da Silva Vieira, Cavaleiro
professo da Ordem de Cristo, que era amigo desde rapaz do pai da habilitanda, Manuel
Gonçalves, que vive de suas fazendas (afirma ter conhecido os avós, sendo que Gregório
de Siabra da Silva fora capitão da ordenança, vivia de suas fazendas nobremente e fora
juiz almoxarife e que também conhecera a Manuel Ribeiro e a sua mulher Isabel João,
pais da sobredita Antónia Ribeira), Domingos Fernandes Rocha, Presbítero do Hábito de
S. Pedro (também diz a mesma coisa, designadamente quanto a conhecer os pais da avó
Antónia Ribeira e a Gregório ser Capitão da ordenança e viver «à lei da nobreza»), o Pd.
Silvestre de Figueiredo, presbítero do hábito de S. Pedro, Manuel Henriques, presbítero
do Hábito de S. Pedro, o Pd. Pedro Lopes, também do mesmo hábito, Manuel Fernandes
Cabarnais, o velho, lavrador, Manuel Mendes, Presbítero do Habito de S. Pedro, Bruno
92 Miguel Gorjão­‑Henriques

casar61, como sucedeu em Coimbra (S. Pedro), a 29 de Setembro de


174862 com o Doutor Luís Osório Beltrão63 de Lacueva e Sousa, Senhor
da Casa e Solar de Sobral, 3.º Administrador do morgado dos casais
de Pena Verde e Moreira, que em certidão constante do processo de
habilitação para FSO de seu cunhado José de Seabra da Silva aparece
referido constar «da fl. 213 v. do Livro 12 das Criações dos Ministros
e Oficiais do Santo Ofício (…) copiada uma Provisão do Ex.mo Senhor
Cardeal da Cunha Inquisidor Geral passada em Lisboa aos/três dias
do mês de Março de mil setecentos e/trinta anos pela qual consta crear
o dito Luis Ozorio Beltrão Juiz de Fora de Nisa, solteiro, filho de José
Ozorio Beltrão, Familiar do Santo/ Ofício, natural do lugar de Sobral
Pichorro (?) ter­‑/mo da vila de Algodres e Bispado de Viseu, de cu­‑/jo
cargo tomou juramento aos vinte e sete dias do/mês de Janeiro de mil
setecentos e trinta e um/anos (…)» – Coimbra, 26.8.175264. Dona Bernarda
faleceu cedo pois, em 21 de Julho de 1752, já o seu marido e viúvo, Luís
Ozorio Beltrão, então Provedor da Comarca de Coimbra, apresentava ao

Fernandes, que vive de sua fazenda, de 75 anos «pouco mais ou menos», o Rev. Pd.
António Fernandes, cura na paroquial de S. Julião de Lobão, de 63 anos (conheceu ainda
Maria Antunes, mãe de Gregório de Seabra; diz ter sido coadjutor de seu tio Manuel de
Seabra da Silva em cuja residência assistiam), o Licenciado Manuel Henriques, natural
do lugar do casal, de 51 anos, o Pd. João Roiz, de 52 anos, o Pd. Paulo de Almeida
Andrade, de 65 anos (que diz ter conhecido o bisavô Domingos de Siabra e sua mulher
Maria Antunes), João Fernandes, que vive de suas fazendas, de 83 anos, pouco mais ou
menos (diz também ter conhecido Domingos de Seabra, ele natural daí, e sua mulher
Maria Antunes, ela natural de “orlacham” (?), Manuel Francisco, de 51 anos, almocreve,
José Cardozo, que vive de suas fazendas, com 51 anos, Manuel Mendes, de 54 anos,
viúvo que vive de suas fazendas, José Mendes, lavrador de 53 anos, João de Almeida, de
55 anos, Dionísio Ferreira, que vivia de suas fazendas e tinha 75 anos (diz ter conhecido
Domingos de Siabra), Isabel Fernandes, viúva de António de Figueiredo e com 75 anos,
Domingas Ferreira, terceira mulher de Manuel de Figueiredo, de 65 anos (diz também
ter conhecido Domingos de Seabra) e Natália Mendes, de 65 anos e viúva
61
  Assim aparece na habilitação para F.S.O. de seu irmão José de Seabra da Silva.
O seu processo, bastante volumoso, está junto ao de seu noivo Luís Ozorio Beltrão (TT,
Habilitações para Familiar do Santo Ofício, Maço 16, Dil. 345).
62
  AUC, Registos Paroquiais de Coimbra, S. Pedro, Liv. C, de 1707 a 1772, fl.
101v.­‑102. Eis o modo como o pároco se refere aos Pais da nubente: «filha legítima do
Desembargador Lucas de Seabra da Silva cavaleiro da Ordem de Cristo, fidalgo da
Casa de Sua Magestade e do seu Conselho e Conselheiro da Real Fazenda e Lente de
Prima de Leis na Universidade e de sua mulher D. Josefa Teresa de Moraes Ferraz».
63
  Aparece apenas como Luís Osório Beltrão no assento de matrimónio.
64
  Certidão passada por João Correa Xavier, Notário do Santo Ofício da Inquisição
de Coimbra.
José de Seabra da Silva e a sua Família:
Iconografia e Mobilidade Social no Antigo Regime 93

Santo Ofício o pedido de realização das provanças de sua futura noiva


e segunda mulher, D. Joana Quezada Barreto65, viúva de Joseph Barreto
Perdigão de Vilas Boas66, natural de Viana. Smn.
4. Joaquim de Seabra da Silva. Fontes credíveis referem­‑no, mas não
encontrámos qualquer registo oficial comprovativo. Smn.
5. Lucas de Seabra da Silva. Baptizado em Coimbra, na freguesia de
São Pedro, a 13 de Maio de 1737. Smn.

6. D. Maria de Seabra da Silva. Terá nascido em 1738 e morrido em


1754, no Mosteiro do Lorvão, com opinião de pessoa mui virtuosa. Smn.
7. D. Teresa Micaela de Seabra da Silva, que morreu de tenra idade67.
8. D. Josefa de Seabra da Silva. Foi baptizada em Torre de Vilela, a
7 de Outubro de 1741 e terá morrido de tenra idade, como se escrevia
no assento.
9. Lucas de Seabra da Silva. Foi baptizado em Torre de Vilela, a
15 de Outubro de 1742 e morreu entre 1807 e 181168. Já não temos a
certeza de ser ele ou o seu irmão, que foi baptizado em Coimbra, em 1737

65
  Filha de Martim Quezado Jácome Villas Boas e de D. Maria Ferreira Villas Boas,
neta paterna de Marca Quezado Jácome de Villas Boas e de sua mulher D. Maria Correa
Felgueira; neta materna de António Ferreira Villas Boas e de sua mulher D. Catarina da
Rocha Barreto, todos da vila de Viana.
66
  Natural de vila de Goes.
67
  Parece ser a que foi madrinha, por procuração, em Coimbra (Vilela), a 5.10.1749.
68
  Tínhamos indicação de que teria morrido em 1807. Contudo, José Manuel Louzada
Lopes Subtil, O Desembargo do Paço (1750­‑1833), Vol. II, Universidade Nova de Lisboa,
Lisboa, 1994, pp. 86, documenta­‑o em 1811.
94 Miguel Gorjão­‑Henriques

mas deduzimos que seu irmão terá morrido novo, como normalmente
sucede quando há irmãos homónimos sucessivos.

Começou por ser Guarda­‑Marinha mas depois seguiu os estudos jurídi‑


cos e a magistratura69. Cavaleiro Professo da Ordem de Cristo (24 de Abril
de 1779), onde é identificado como Desembargador dos Agravos da Casa
da Suplicação e Moço­‑Fidalgo da Casa Real70. Recebeu Beca, servindo no
lugar de Provedor dos Órgãos e Capelas (1771), Desembargador da Casa
da Suplicação (29 de Agosto de 1771), Ajudante do Procurador da Coroa
(31 de Outubro de 1771), Carta de Privilégio de Desembargador (13 de
Julho de 1785), Conselheiro do Conselho Ultramarino (20 de Dezembro
de 1790), Chanceler da Casa da Suplicação (19 de Fevereiro de 1799),
Desembargador do Paço (20 de Fevereiro de 1799), do Conselho da
Corte e do Conselho da Fazenda e, cremos, Intendente Geral da Polícia
da Corte e Reino (Mafra, 9 de Março de 1807)71. Casou com sua sobrinha
D. Josefa Emanuela de Almeida Beltrão72, filha de sua irmã D. Francisca.

69
  Sobre a sua carreira jurídica, José Manuel Louzada Lopes Subtil, O Desembargo
do Paço (1750­‑1833), Vol. II, Universidade Nova de Lisboa, Lisboa, 1994, pp. 86.
70
  Nuno Gonçalo Pereira Borrego, Habilitações nas Ordens Militares – Séculos XVII a
XIX – Ordem de Cristo, Guarda­‑Mor, 2008, Tomo III, pág. 44, referindo o Maço 12, n.º 1.
71
  TT, Registo geral das mercês de D. João VI, Liv. 9, fls. 90v.
72
  D. Manoela Beltrão, segundo Felgueiras Gayo (Manuel José da Costa), Nobiliário
das Famílias de Portugal, tomo XII, pág. 213.
José de Seabra da Silva e a sua Família:
Iconografia e Mobilidade Social no Antigo Regime 95

Fez testamento em 17 de Abril de 1763, «vinculando todos os seus bens


ao dito morgado [Lobão?], de que era administrador seu irmão José de
Seabra». C.g. até pelo menos ao século xx73.
10. D. Josefa Teresa de Seabra da Silva. Terá nascido em 1744 e
morrido em 1807, na casa de seu irmão primogénito. Smn.
11. D. Francisca Luísa de Seabra da Silva. Foi baptizada em Torre de
Vilela, a 3 de Novembro de 1745. Casou, não sabemos ainda onde nem
quando, com Miguel António de Almeida Pacheco Beltrão, FCR, senhor
do morgado de Cassurrães, capitão de cavalos em Moura, Mestre de campo
em Castelo Branco, superintendente da coudelaria de Linhares, etc. C.g.74

José de Seabra da Silva: traços biográficos

Imagem pouco conhecida na iconografia de José de Seabra da Silva75,


propriedade de seus descendentes

73
  Foram pais, entre outro, de Manuel de Almeida Beltrão de Seabra Osório, que
casou com D. Edwiges do Carmo A. e Silva. Deste matrimónio nasceu Lucas de Almeida
Beltrão de Seabra, n. 21.1.1827 e f. 24.1.1907, Sr. da Casa de Cassurrães, etc, que casou
com (Luís Moreira de Sá e Costa, S.J., Descendência dos 1.os Marqueses de Pombal,
Tip. Costa Carregal, Porto, 1937, pág. 161) D. Maria Francisca Pais de Sande e Castro
(filha de Manuel Paes de Sande e Castro, Moço­‑Fidalgo da Casa Real, Governador e
Capitão General de S. Paulo, Senhor do Morgado do Cabo, e de sua mulher D. Leonor
Maria Correia de Sá (Asseca)). A descendência deste casal, até à década de 30 do
séc. xx, pode encontrar­‑se no mesmo Pd. Luís Moreira de Sá e Costa, pp. 161­‑165.
74
  Conde de Castro e Solla, Cerâmica Brazonada, Vol. I, pág. 85.
75
  Quadro a óleo (séc. xviii) – Colecção particular.
96 Miguel Gorjão­‑Henriques

José de Seabra da Silva76 nasceu em S. Martinho da Torre de Vilela,


em Coimbra, a 1 de Novembro de 1732, onde foi baptizado em 17 de
Novembro de 173277).

Assento de baptismo de José de Seabra da Silva (1732)

  Sobre a sua vida, em termos laudatórios, Manuel Francisco da Silva e Veiga, Elogio
76

do Ilustríssimo e Excellentissimo Senhor José de Seabra da Silva, do Conselho de Sua


Magestade Fidelíssima, seu Ministro, e Secretário de Estado, Lisboa, Regia Officina
Typográfica, 1772, e Augusto Soares d’Azevedo Barbosa de Pinho Leal, Portugal Antigo e
Moderno – Dicionário geographico, Estatistico, Chorographico, Heraldico, Archeologico,
Historico, Biographico e Etymologico de todas as cidades, villas e freguezias de Portugal e
de Grande Número de Aldeias – Se estas são notaveis, por serem patria d’homens célebres,
por batalhas ou outros factos importantes que n’ellas tiverem logar, por serem sollares
de familias nobres, ou por monumentos de qualquer natureza, alli existentes – Noticia de
muitas cidades e outras povoações da Lusitânia de que apenas restam vestígios ou sômente
a tradição, Lisboa, Liv. Editora de Mattos Moreira & Companhia, 1873, pp. 609­‑613.
Sobre a sua carreira jurídica, José Manuel Louzada Lopes Subtil, O Desembargo do Paço
(1750­‑1833), Vol. II, Universidade Nova de Lisboa, Lisboa, 1994, pp. 60.
77
  Foram padrinhos Frei Miguel de Távora, eremita de St.º Agostinho, lente de teo‑
logia da UC (Doutorado em Teologia a 17.5.1711 – AUC, Actos e Graus, fl. 19), filho
dos segundos marqueses de Távora, e sua tia­‑avó D. Maria de Moraes, tocou por ela seu
cunhado Dr. Manuel Velho Marmeleiro, avô do baptizado. Contudo, Em sentido diverso,
quanto à identidade do padrinho, José Lacerda Nápoles, «Família Correia Baharem de
Seabra de Lacerda e suas alianças», Beira Alta, 1996, pp. 474. Frei Miguel de Távora
«he conductario com privilégios de Lente por provisão de 24. de 8bro de 1712, de que/
/tomou posse em 14. de Novr.o do dito anno, e igualado à Cadeira/ grande de Escritura
por provisão de 29. de Janr.º de 1726. He/ irmão de Henrique Vicente de Távora (…)»
– Francisco Leytão Ferreira, Alphabeto dos Lentes da Insigne Universidade de Coimbra
desde 1537 em diante, por Ordem da Universidade de Coimbra, 1937, pág. 51.
José de Seabra da Silva e a sua Família:
Iconografia e Mobilidade Social no Antigo Regime 97

Nascendo no termo de Coimbra, onde brilhou na Faculdade e iniciou


uma carreira notabilíssima, veio a morrer em Lisboa (S. Sebastião da
Pedreira), a 12 de Março de 1813, na sua Quinta de S. Sebastião da
Pedreira, «com todos os sacramentos» e «sem testamento», como diz
o seu assento de óbito. Disse o Marquês de Resende, no seu elogio
fúnebre, que «morreu, tão placidamente como quem pega no sono» e
que «no dia seguinte foi o seu corpo levado entre lágrimas à Igreja de
S. Sebastião da Pedreira, onde a sua bela alma dera tantas mostras da
sua piedade esclarecida».

Assento de óbito de José de Seabra da Silva

Teve José de Seabra da Silva muitas e variadas mercês e galardões.


Um dos primeiros que lhe descobrimos, embora com um destino incerto,
foi a mercê régia do Hábito de Cristo, para professar como Cavaleiro
na Ordem de Cristo, a qual contudo, foi, em 1750, objecto de estranho
parecer negativo, não baseado na falta de qualquer qualidade de sangue
(da «pureza») mas na falta de idade («o impedimento de menoridade»),
em termos que nos parecem esdrúxulos, sobretudo quando confrontados,
no seu rigor, com o liberal parecer exarados noutros processos muito
nossos conhecidos, como o de Bernardo Coutinho Pereira, no século
anterior78, no qual se dispensavam sem problemas 4 anos e meio de

78
  Nestoutro caso estava em causa o avô paterno da mulher de José de Seabra da
Silva, e publica­‑se apenas para que o leitor comprove as flutuações de cariz pessoal
existentes na prática decisória das nossas instituições, em todos os tempos. Bernardo
Coutinho Pereira foi Cavaleiro da Ordem de Cristo, sendo bastante interessantes as
suas “provanças”. O Rei concedeu­‑lhe a mercê, mas ordenou que fizesse as provanças.
Obteve mercês de 12$000 e de 48$000 réis de tença, a cada ano, em vida com o Hábito
de Cristo (Cartas de padrão de 21.10.1681). Consultada a Mesa da Consciência e Ordens,
foi por esta dito que «na sua pessoa concorre a qualidade e limpeza necessária» mas
98 Miguel Gorjão­‑Henriques

impedimento de menoridade: «Senhor, [à margem, no topo da folha].


Está bem. Lisboa, 26 de Junho de 1750] Foi V. Mag.de servido fazer
mercê do Há­‑/bito da Ordem de Cristo a Joseph/ de Seabra e Sylva, e de
suas provanças/constou ter a qualidade e lim­‑/peza necessária. Porém,
que é /menor de dezoutto anos, por ter somente dezassete e meyo/ de
idade, e por este impedimentos /julgou não estar capaz de entrar/ na
ordem, de que se dá conta a /V. Mag.de como Governador e perpétuo
ad­‑/ministrador dela na forma /que dispõem os Definitórios Lisboa/dez
de Junho de mil setecentos/ e cinquenta. P. Lc. Marquês de Valenças,
José Ferreira de Horta, Philippe de (…),/Joseph Simões Barboza de
Azambuja/ Manuel da Costa Mimoso/Joseph Rebello /do Vadre/ ….
Negrão/Manuel Ferreira de Lima.»79 Não sabemos por isso se chegou
a professar como Cavaleiro na Ordem de Cristo logo em 1750 pois,
embora se indique que fez as provanças e a habilitação de acordo com
os definitórios80, nada mais consta dos registos que consultámos. Do
processo de seu irmão Lucas consta, no entanto, que, em 1759, José de
Seabra da Silva já era Cavaleiro da Ordem de Cristo, de que veio a ser
Grã­‑Cruz, décadas depois. Em 1752, obteve carta de Familiar do Santo
Ofício (FSO – 2 de Setembro de 1752)81, sendo que, segundo testemunho
do Padre Manuel Frazão Pires, à data «se trata lim­‑/pa e abastadamente

foi afirmado o impedimento da idade, visto que tinha dez anos e era, por isso, menor de
dezoito anos, como era requerido (Lisboa, 14.7.1682). Em Agosto de 1682, Bernardo
Coutinho Pereira requereu a dispensa do impedimento, «alegando ser já de treze anos
de idade, como constava da certidão do seu baptismo que oferecia». Fez­‑se consulta ao
Tribunal, que assim respondeu: «Pareceu que V. A. deve ser servido dispensar/ com o
Supp.e por ser pessoa de qualidade/filho de Manuel Coutinho Pereira, Mestre/ de Campo
dos Auxiliares da Comarca de Coim­‑/bra,; constar por certidão do seu Baptismo/ que
já fez treze anos completos (…) entrado/nos quatorze com que são muito poucos/ os que
lhe faltam para os dezoito que se requerem/ E ter exemplos a Seu favor. Lisboa, 26/ de
Agosto de 1682. Montr.o (…)/ Luis Vieira da Sylva/Martim (…) Paim/ Cristóvão Alz.
Coelho» – vide Torre do Tombo, Registo Geral de Mercês de D. Pedro II, Liv. 1(1), fl.
61v. e 66; e TT, Chancelaria da Ordem de Cristo, Liv. 73, fl. 116v. (sublinhados nossos).
79
  O processo nada mais contém, nem sequer as provanças.
80
  TT, Habilitações para a Ordem de Cristo, Maço 99, n.º 35, de 10.6.1750 – v.
Nuno Gonçalo Pereira Borrego, Habilitações nas Ordens Militares – Séculos XVII a
XIX – Ordem de Cristo G­‑J, Tomo II, Guarda­‑Mor, 2008, pág. 419.
81
  TT, Habilitações para Familiar do Santo Ofício (FSO), Maço 66, n.º 1014 (MF
1793/A). A habilitação anterior é de José de Horta e Figueiredo Moniz, de Setúbal. Foram
testemunhas, no processo de José de Seabra da Silva, em Coimbra, o Padre Manuel
Pires Frazão, Bacharel formado em Cânones (diz que o conhece de “mínimo pelo ver/ e
ser seu vizinho”), o Beneficiado Frutuoso dos Santos e Silva, o Padre Luís de Oliveira,
José de Seabra da Silva e a sua Família:
Iconografia e Mobilidade Social no Antigo Regime 99

com tratamento/ muito distinto, e que sem embargo,/de que ao presente


não tem ocupação/alguma, contudo como tem feito nes­‑/ta Universidade
actos grandes enten­‑/de e ouve dizer o seu intento é des­‑/pachar­‑se para
ser Ministro, e outrossim/disse que como o dito habilitando é filho/ familiar
nam saber os bens que terá de/ seu mas que o Pai tem grandes rendas82
não só//não só em bens patrimoniais mas por/mais empregos que tem».
Teve o foro de Moço­‑Fidalgo com mil réis de moradia e um alqueire de
cevada por dia «que se costuma dar aos filhos dos Desembargadores
do Paço», tendo depois a mercê de Fidalgo Cavaleiro por sucessão de
seu Pai (Alvará de 20 de Setembro de 1753)83, depois de acrescentado o
foro de Moço­‑Fidalgo a Fidalgo Escudeiro com mais 600 réis de moradia
e logo também acrescentado a Fidalgo Cavaleiro com mais 400 réis de
moradia, perfazendo o total de 2000 réis de moradia e um alqueire de
cevada por dia (Alvará de 2 de Janeiro de 1754)84.
Como escreveu João Jardim de Vilhena, insuspeito de qualquer pro‑
selitismo face a José de Seabra da Silva, «[i]ncontestavelmente, José de
Seabra era um dos homens mais inteligentes do seu tempo»85. Eis algumas
notas mais sobre a carreira86 de José de Seabra da Silva:
a) Bacharel em Leis pela UC, depois de se ter matriculado na facul‑
dade de leis em 1 de Outubro de 1744, ainda com onze anos87(!!);

sacerdote do hábito de S. Pedro, o Padre Caetano da Cruz Correa, natural de Penacova.


Habilitação aprovada a 5 de Setembro de 1752 por Simão José Silveira Lobo.
82
  Outra testemunha dirá “rendas grossas”.
83
  TT, Registo geral das mercês de D. José I, Liv. 6, fl. 434.
84
  TT, Registo geral das mercês de D. José I, Liv. 6, fl. 434­‑434v.
85
  João Jardim de Vilhena, José de Seabra da Silva, cit., pág. 11.
86
  Sobre a sua vida, v. Marquês de Resende, Elogio histórico de José de Seabra da
Silva antigo ministro dos negócios do Reino e sócio da academia real das Ciências de
Lisboa pronunciado na sessão pública da mesma academia em 10 de Março de 1861,
Lisboa, Tipografia da Academia Real de Ciências de Lisboa, 1861; João Jardim de
Vilhena, José de Seabra da Silva – a sua política e o seu desterro, cit., 1933; Manuel
Francisco da Silva e Veiga, Elogio do Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor José de
Seabra da Silva, do conselho de Sua Magestade Fidelíssima, sem Ministro e Secretário
de Estado, Lisboa, Régia Oficina Tipográfica, 1772. A Rainha D. Maria passou­‑lhe
carta de Privilégios de Dezembargador a 26 de Novembro de 1792. Sobre a sua carreira
jurídica, seguimos também José Manuel Louzada Lopes Subtil, O Desembargo do Paço
(1750­‑1833), Vol. II, Universidade Nova de Lisboa, Lisboa, 1994, pp. 59.
87
  E não doze, como escrevia João Jardim de Vilhena, José de Seabra da Silva,
cit., pág. 11.
100 Miguel Gorjão­‑Henriques

b) Doutor em Leis a 24 de Abril de 1751 com dezanove anos (!),


tendo realizado o o exame vago com «o maior e raro esplendor»,
em 1 de Março de 1752)88, a que assistiu pessoalmente o Marquês
de Pombal, como acima se escreveu;
c) Desembargador Extravagante da Relação do Porto (Carta de
29 de Maio de 1754), tendo em consideração a «especial capaci‑
dade literária que (…) mostrou ter no exame vago», tendo obtido
na mesma mercê o lugar de Desembargador Extravagante da Casa
da Suplicação (Carta de 29 de Maio de 1754)89;

Gravura de José da Silva90

d) Chanceler da Casa da Suplicação (11 de Novembro de 1756);


e) Procurador Fiscal da Companhia do Grão­‑Pará e Maranhão (Alvará
de 20 de Abril de 175791);
f) Fiscal da Junta do Comércio (Carta de 3 de Julho de 175892);
g) Executor da Fazenda da Rainha D. Maria Ana Vitória (carta de
10 de Maio de 1760);

  TT, Leitura de Bacharéis, letra L, maço 2, n.º 22. Habilitado a 2.6.1751. Ou será,
88

Maço 2, n.º 31, ano de 1769 (não tive oportunidade de voltar a verificar).
89
  TT, Registo geral das mercês de D. José I, Liv. 6, fl. 435v.
90
  Santa Barbara, António Joaquim de, ca 1838­‑1864 – Jozé de Seabra da Silva
[Visual gráfico / S. tª Bárbara lith.. – (S.l. : s.n., 1861). – 1 gravura: litografia, p&b. –
Tít. constituído por ass. fac.. – Dim. da comp. sem letra: 14,5x13 cm. – Soares, E. – Dic.
icon., n.º 2917 B].
91
  TT, Registo geral das mercês de D. José, Liv. 6, fl. 435v.
92
  TT, Registo Geral de Mercês de D. José, Liv. 12, fl. 515.
José de Seabra da Silva e a sua Família:
Iconografia e Mobilidade Social no Antigo Regime 101

h) P  rocurador da Fazenda no Conselho da Fazenda (Repartição do


Ultramar) (3 de Julho de 176093);
i) Procurador da Coroa (24 de Abril de 176594);
j) Guarda­‑Mor do Arquivo da Torre do Tombo (29 de Abril de 1766
e 3 de Setembro de 1768), cargo no exercício do qual redescobriu
a carta de Pêro Vaz de Caminha a Dom Manuel I, que se achava
perdida95;
l) Desembargador do Paço (25 de Janeiro de 1770).

À esq.: mais um exemplo para a iconografia oficial de José de Seabra da Silva (minia‑
tura sobre marfim 32mm x 21 mm); À dir.: Capa da Dedução Chronologica e Analytica

93
  Gabinete Histórico: XV: 87.
94
  Como dá nota José Subtil [«Capítulo IX – Os desembargadores em Portugal
(1640­‑1820)», in Optima Pars – Elites Ibero­‑Americanas no Antigo Regime, Nuno G. F.
Monteiro/Pedro Cardim/Mafalda Soares da Cunha (Orgs.), ICS, 2005, pág. 264], os
procuradores da Coroa «tratavam dos negócios da Coroa por terem o mandato e a pro‑
curação do monarca», sendo «[d]e assinalar, por exemplo, que os últimos procuradores
da Coroa do Antigo Regime foram personalidades de grande relevância, como Paulo
José Correia, Bartolomeu José Nunes Cardoso Geraldes de Andrade, José de Seabra da
Silva, João Pereira Ramos de Azevedo Coutinho e João António Salter de Mendonça».
Embora não o tenhamos conseguido consultar, o Autor refere ainda em nota que «[e]sta
importância pode ser testemunhada, por exemplo, no papel desempenhado por José de
Seabra da Silva» (cf. José Subtil, «O político mais notável do século xviii», Revista da
Escola Superior de Educação de Viana do Castelo, n.º 4, 2002, pp. 285­‑298).
95
  Terá isso acontecido em 1773, segundo informação constante de http://www.
portalsaofrancisco.com.br/alfa/pero­‑vaz­‑de­‑caminha/pero­‑vaz­‑de­‑caminha.php, acedida
a 18 de Novembro de 2011.
102 Miguel Gorjão­‑Henriques

O ano de 1771 marca o fim da primeira fase da sua carreira, sobre a


qual escrevia o insuspeito Jardim de Vilhena96: «Em todos os Tribunais por
onde passou, promoveu muitos assentos e leis, glosando sentenças com
grande crédito da sua literatura. Defendeu na Casa da Suplicação e no
Desembargo do Paço os direitos e regalias da Coroa, como já as havia
defendido na Dedução Cronológica [que Jardim de Vilhena, portanto,
atribui plenamente a José de Seabra]. No Desembargo tinha ele grandes
discussões com o mais versado em leis que nesse tempo pontificava,
Manuel Gomes de Carvalho, e era Seabra quem o levava de vencida e
como aquele era sempre contra a Coroa, foi por ordem régia exilado para
a sua quinta de Loures! Como Guarda­‑mor da Torre do Tombo, reduziu
a método fácil a investigação para se achar qualquer documento e nas
sessões da Junta das Confirmações gerais era tal a sua memória que
em um instante dizia o texto e a data das mais antigas doações régias.»
Ainda sem podermos fornecer datas concretas, sabe­‑se ainda que foi
Executor da Bula da Cruzada e Sócio honorário da Academia Real das
Ciências de Lisboa. No seu tempo de ministro pombalino, é impossível
não o ligar à autoria da obra que forneceu a justificação doutrinária para
a expulsão dos Jesuítas do Reino, a chamada Dedução Chronologica e
Analytica, apesar de, no seu elogio histórico na Academia das Ciências
(1861)97, o Marquês de Resende ter assegurado que José de Seabra da
Silva disse não haver na Dedução Cronológica «uma única palavra sua»,
isto apesar do livro ter sido publicado sob o seu nome98.

  Op. cit., pág. 11.


96

  Marquês de Resende [António Telles da Silva Caminha e Menezes], Elogio


97

Historico de José de Seabra da Silva Pronunciado na Sessão Pública da Academia


Real das Sciencias de Lisboa em 10 de Março de 1861, Lisboa, Tip. Academia Real das
Sciencias de Lisboa, 1861.
98
  Alfredo Duarte Rodrigues dá também conta da nota bibliográfica de Teófilo Braga
na sua História da Universidade, que pelo interesse a este propósito reproduzimos: «No
prefácio das Cartas de Luiz António Verney e António Pereira de Figueiredo aos Padres
da Congregação do Oratório de Goa, publicadas por J. H. da Cunha Rivara, em 1857,
na Imprensa Nacional de Goa, diz ele: “que o padre Pereira declara positivamente na
Carta 3.ª ser o marquez de Pombal o auctor da Deducção chronologica e analytica”,
acrescentando: “É verdade que a tradição sempre atribuiu ao marquês esta obra, sem
embargo de trazer à sua frente o nome de José de Seabra. Mas a tradição pode interpretar­
‑se como significando dera o plano da obra e vigiara a sua execução. É verdade que
no Diário (inédito) do bispo de Beja, ao depois arcebispo de Évora, D. frei Manuel do
Cenáculo, havíamos lido: – Dia tantos do tal – N’este dia me deu o senhor marquez a
sua Deducção chronologica – Todavia este modo de dizer do bispo de Beja podia admitir
aquela primeira interpretação. Faltava­‑nos pois um testemunho directo e positivo, que
José de Seabra da Silva e a sua Família:
Iconografia e Mobilidade Social no Antigo Regime 103

Painel de Columbano Bordalo Pinheiro na Sala dos Passos Perdidos, na Assembleia


da República, representando o Conde de Castelo Melhor (privado de Dom Afonso
VI), D. Luís da Cunha, o Marquês de Pombal e José de Seabra da Silva99

José de Seabra da Silva atingiu um primeiro cume na sua existência


política com a ligação ao Governo do Marquês de Pombal. O que o fez
chegar aí é controvertido. Alguns escrevem, como parece ter sido o caso
de Jacome Ratton, ter sido o «remorso» do Marquês, que «triste com o
sucedido» [vide o que antes se contou sobre o inquérito de 1756, envol‑
vendo o Pai de José de Seabra da Silva] e talvez «repêso do seu gesto
desabrido» [a censura “áspera” ao Desembargador Lucas de Seabra da

excluísse totalmente a José de Seabra, e conferisse ao marquês toda a glória ou todo


o ódio que daquela memorável publicação tem resultado. Este testemunho directo e
positivo achamo­‑lo agora na presente colecção» (itálicos do Autor – grafia actualizada –
O Marquês de Pombal e os seus Biógrafos – Razão de ser de uma revisão à sua história,
cit., pág. 197, em nota).
99
  Reprodução de http://www.parlamento.pt/VisitaVirtual/Paginas/PPerdidosPainel
Columbano3.aspx. É de notar que o 1.º Visconde da Bahia, filho primogénito de José de
Seabra, veio a casar com uma descendente do Conde de Castelo Melhor e do Marquês
de Pombal, pelo que este quadro representa 3 dos antepassados dos seus descendentes.
104 Miguel Gorjão­‑Henriques

Silva e subsequente morte deste], resolveu chamar para si «o filho do


finado e protegendo­‑o com tantas e tão sucessivas provas de bondade
fez com que o Rei o nomeasse Ministro e Secretário de Estado ajunto à
sua pessoa!»100. Não é esta, contudo, a versão que o próprio Marquês de
Pombal contou no interrogatório que lhe foi movido após a sua depo‑
sição, no qual, no quesito 15.º, afirmou expressamente, que «desde que
o ouviu fazer o exame vago ou de jure aperto lhe conheceu o distinto
engenho que lhe deu motivo para ficar observando os seus passos em
estudos e seu procedimento, que havendo correspondido aos seus desejos
o sucesso das suas indagações o foi chegando a si101 e admitindo­‑o dentro
dos gabinetes em que minutava os papéis de menos segrêdo no serviço
real, que passou a fazê­‑lo seu ajudante de Estado e seu amanuense,
e pelo que pertencia à probidade, meditou criar nêle um ajudante de
secretaria de estado, que o aliviasse em vida e lhe sucedesse por morte,
que assim o representou muitas vezes ao Senhor D. José e com tanto
gôsto que chegou a dizer ao Eminentíssimo Cardial da Cunha que tinha
um segundo filho em José de Seabra da Silva»102. Esta mesma influên‑
cia do Marquês de Pombal é coonestada por Jácome Ratton que diz, de
modo expresso, que «achava­‑se José de Seabra da Silva nos empregos
de Procurador da Coroa e Guarda­‑mor da Torre do Tombo quando o

100
  João Jardim de Vilhena, José de Seabra da Silva, cit., pág. 9; e Jacome Ratton,
Recordações de Jacome Ratton sobre ocorrências do seu tempo em Portugal de Maio
de 1747 a Setembro de 1810, op. cit., pág. 160. É de comum evidência notar que João
Jardim de Vilhena não mostra especial simpatia por José de Seabra da Silva, ao longo
da sua Obra. Sem querer influenciar o leitor, limitemo­‑nos a dizer que Jardim de Vilhena
trata 15 anos como se fossem dois dias (vai no mesmo parágrafo do acontecimento de
1756 até à nomeação como Secretário de Estado), dá a entender que José de Seabra da
Silva esteve sempre junto do Marquês, quando é certo que, sendo jurista notável, exerceu
diversas funções durante todo este período; diz que seu o neto o defendeu «como pode
e soube», expressão esclarecedora.
101
  Dá conta Luz Soriano de que, logo na sequência do Terramoto de 1 de Novembro
de 1755, Seabra da Silva foi chamado a preparar as arrecadações para recolher os man‑
timentos que Sebastião José mandou vir de vários pontos do País (Simão José da Luz
Soriano, História do Reinado de El­‑Rei D. José e da Administração do Marquez de
Pombal, Tomo I, Lisboa, Typ. Universal, 1867, pág. 255). Também mais tarde, diz que
foi também José de Seabra um dos “ministros a quem se deu a commissão da prisão dos
reos” da tentativa de regicídio, em 1758 (idem, cit., pp. 329­‑330).
102
  Nas Memórias de que João Jardim de Vilhena publicou excertos em 1933 (pág.
8), atribuindo­‑as ao Principal Mendonça, o irmão do Marquês, o que é erro, pois as
Memórias eram as do futuro Cardeal Patriarca de Lisboa, como hoje sabemos, com a
sua publicação por D. Filipe Folque de Mendóça.
José de Seabra da Silva e a sua Família:
Iconografia e Mobilidade Social no Antigo Regime 105

Marquês de Pombal o pediu a El Rei para seu ajudante na Secretaria de


Estado dos Negócios do Reino. Já a este tempo lhe tinha feito a mercê
da Casa e Quinta, situada entre muros junto a S. Sebastião da Pedreira;
e se achava casado com D. Ana Felícia, herdeira muito ilustre e rica da
casa dos Coutinhos de Coimbra, e tudo por influência do Marquês»103.
Em conclusão, estas versões, de Sebastião José de Carvalho e Melo e
de Jácome Ratton são, aliás, confirmadas pela circunstância de o próprio
José de Seabra da Silva se ter matrimoniado em Oeiras, a 8 de Junho de
1764, no próprio Palácio do Marquês de Pombal, alguns anos antes da
sua subida ao ministério, na presença de Paulo de Carvalho e Mendonça,
irmão do Marquês, e e tendo como testemunhas outro irmão do Marquês e
Secretário de Estado (Francisco Xavier), o Reitor reformador da Universidade
de Coimbra (Gaspar de Saldanha de Albuquerque) e o Desembargador
responsável pelo julgamento dos regicidas (Pedro Gonçalves Cordeiro
Pereira104). Notável conjunto de personagens, há que admitir!

Cópia do assento de matrimónio de José de Seabra da Silva e Dona Ana Felícia


Coutinho Pereira de Sousa, na Ermida do Palácio do Marquês de Pombal, em Oeiras,
com a presença de impressionantes personagens, como a letra tremida do procurador
da noiva parece testemunhar!

103
  Grafia actualizada – v. Jacome Ratton, Recordações de Jacome Ratton sobre ocor‑
rências do seu tempo em Portugal de Maio de 1747 a Setembro de 1810, op. cit., pág. 246.
104
  Membro do Tribunal da Inconfidência, foi também Chanceler­‑mor do Reino.
106 Miguel Gorjão­‑Henriques

Só praticamente sete anos mais tarde é que ascendeu a adjunto do


Marquês de Pombal, cargo que ocupou durante cerca de dois anos e
meio, desde 6 de Junho de 1771105, «cujas funções exercitava como se
tivesse sido proprietário do lugar e não ajudante»106 até ao aziago dia de
17 de Janeiro de 1774107. Durante esse tempo, cresceu o seu prestígio e
influência ao ponto de sobre ele se escrever, nas citadas Memórias, que
«pela afabilidade com que falava às partes, concorriam para sua casa,
achando­‑se a do Marquês muitas vezes deserta. Sua mulher exercitava o
mesmo acolhimento, tem em pouco tempo grande séquito de Senhoras
e de Ministros, motivo porque entrando o Marquês, no ciúme de que
Seabra era mais bem visto de todos, principiou a não o atender. Sucedeu
a prolongada moléstia do Marquês e passar a Oeiras a convalescer, e
onde repetindo­‑lhe, esteve alguns meses. Nestes concorreram todos os
pretendentes a Seabra e alguns se despacharam de que o Marquês não
gostou. Tomou Seabra suas medidas para ficar substituindo o Marquês,
supondo [que] não melhoraria; e não sucedendo assim e vindo para Lisboa
conheceu por factos e mexericos as ideias de Seabra»108.

105
  O Cardeal Dom José de Mendóça refere ter sido a 6 de Junho de 1770, no capítulo
12.º das suas memórias (D. Filipe Folque de Mendóça, op. cit., pp. 226­‑230).
106
  Jacome Ratton, op. cit., pág. 246.
107
  Substituiu­‑o no cargo Ayres de Sá e Mello, nomeado por Decreto de 15 de
Fevereiro de 1775, que continuou a servir na Secretaria de Estado no reinado de Dona
Maria I, até morrer (D. Filipe Folque de Mendóça, op. cit., pág. 226).
108
  Apud Jardim de Vilhena, cit., pág. 12.
José de Seabra da Silva e a sua Família:
Iconografia e Mobilidade Social no Antigo Regime 107

Foi neste período que José de Seabra da Silva foi membro da Junta de
Providência Literária que adoptou o Compendio Historico para a reforma
da Universidade de Coimbra, com a consequente expulsão dos jesuítas, de
que eram presidentes o Cardeal da Cunha e o próprio Sebastião José de
Carvalho e Melo, sendo também membros o Bispo de Beja, José Ricalde
Pereira de Castro, Francisco António Marques Giraldes de Andrade,
João Pereira Ramos de Azevedo Coutinho, Francisco de Lemos de Faria
Pereira Coutinho, Reitor da Universidade (e mais tarde Bispo­‑Conde,
de Coimbra e Arganil, respectivamente), e Manuel Pereira da Sylva109.
Tenha sido ou não marcado por uma forte veia anti­‑jesuítica, o certo é
que José de Seabra da Silva, como extensão de Pombal ou mesmo com
ambições próprias já algo antagónicas face ao Marquês110, participou na

109
  D. Filipe Folque de Mendóça, op. cit., pág. 337. O Compendio Histórico foi recen‑
temente republicado – Marquês de Pombal – Junta de Providência Literária, Compêndio
Histórico da Universidade de Coimbra, Manuel Ferreira Patrício (Apresentação)/José
Esteves Pereira (Pósfácio)/José Eduardo Franco/Sara Marques Pereira (Introdução e
Coordenação), Campo das Letras, 2008. Sobre a reforma do ensino jurídico universitá‑
rio, com ampla análise e profundas indicações bibliográficas, Rui Manuel de Figueiredo
Marcos, A Legislação Pombalina – alguns aspectos fundamentais, Almedina, Coimbra,
2008, pp. 160­‑169.
110
  Alfredo Duarte Rodrigues reproduz Teófilo Braga, que diz que, nos apontamentos
secretos do Bispo de Beja, aquando das sessões da Junta da Providência Literária, se
lia já em 1771 «“Seabra é a alma deste negócio que faz as trancinhas com eles e com
o Regedor para conduzir o Marquês, que vai de boa fé, no que um deles propõe, e os
outros fazem­‑se de novas e confirma, e assim vão levando o Marquês, como querem
e vão zombando e rindo com muita pena minha”. O sério bispo não considerava esta
duplicidade ou ingratidão digna de um secretário de estado e acrescenta, confrontando
o comportamento de Seabra com o não menos pérfido Cardeal da Cunha: “… basta­‑lhe
a zombaria com que sempre tem tratado o Marquês, o que é certo, indubitável e fora de
toda a dúvida, como tem feito com mais reserva o Cardal da Cunha, ainda que nos factos
se tenha sempre unido ao Marquês…”. Como a doença de Pombal se prolongara, os seus
inimigos, atenta a sua longa idade, esperavam que se não restabelecessem e voltavam­‑se
para adulação do novo astro; José de Seabra da Silva, para criar partido, fazia acreditar
que o marquês estava dementado; o decreto de 13 de Abril de 1773, reintegrando o
desembargador Francisco Raimundo de Morais Pereira, processado por efeito de uma
sindicância ordenada pelo vice­‑rei da Índia o marquês de Távora, só porque este nome
de Távora servira para despertar em Pombal os seus sangrentos rancores, revela quanto
José de Seabra da Silva se atrevia a abusar da confiança do seu protector. O marquês de
Pombal deveria ter, mais cedo ou mais tarde, conhecimento das sobrancerias de Seabra,
e esperou o momento para lhe vibrar o golpe de ruína» (Teófilo Braga, História da
Universidade, apud O Marquês de Pombal e os seus Biógrafos – Razão de ser de uma
revisão à sua história, cit., pp. 225­‑227, em nota). Por nós, não concordamos com esta
visão, não só porque Seabra ainda esteve três anos ao serviço do Marquês e do Rei; não
108 Miguel Gorjão­‑Henriques

concepção e, indiscutivelmente, na concretização e execução jurídica da


fundamentação anti­jesuítica ou, vista de outro prisma, da consolidação de
um Estado regalista emancipado da influência de forças externas, ainda
que religiosas, tomando a Sociedade de Jesus como principal objecto dessa
desafeição jurídica e política. Assim, além de lhe ser imputada a autoria
da Dedução Chronologica e Analitica, também lhe são imputáveis, sem
que a tal se possa subtrair, a participação na reconstrução do edifício
académico universitário e a luta contra diversas formas de afirmação da
independência das ideias religiosas face à tutela ideológica do Estado
que serviu. Mas essa análise, certamente útil e importante, excede os
objectivos do presente trabalho.

Livro atribuído a José de Seabra da Silva, sobre o sigilismo

Seja como for, a 17 de Janeiro de 1774 «caíu sobre ele a mais


horrível e extraordinária calamidade», sem que ainda hoje se saibam
verdadeiramente as razões, porquanto José de Seabra da Silva não foi
objecto de processo, não foi ouvido, não foi formulada acusação, nem
objecto de julgamento ou de sentença condenatória! Ganha por isso

só porque os rancores aos Távoras não eram certamente tão grandes (recorde­‑se que o
próprio Marquês promoveria o matrimónio de filhos seus com Távoras); mas também
porque os testemunhos do Marquês e de José de Seabra discordam, além de que uma
neta do Marquês, bem poucos anos depois, casaria com um neto de José de Seabra.
José de Seabra da Silva e a sua Família:
Iconografia e Mobilidade Social no Antigo Regime 109

relevo como razão a existência de motivos inconfessáveis para e pelo


poder régio, designadamente a apontada intriga urdida pelo Cardeal
da Cunha111 (seria esse o entendimento do próprio, bem como aquele
expressado pelo Marquês de Pombal, em interrogatório posterior112) ou
a oposição de Seabra da Silva – ou a inconfidência em relação a ela que
terá cometido com a Rainha – relativa à alegada intenção de Pombal
(e de D. José?) em afastar a Princesa D. Maria da sucessão do trono, que
passaria para seu filho D. José. A nosso ver, têm por isso menos peso
alegadas falhas graves no comportamento de José de Seabra da Silva,
enquanto Ministro113, que, embora pudessem – e foram­‑no, certamente –
ser postas a circular interna e internacionalmente, sempre poderiam ser
objecto de processo, julgamento e condenação e que, de qualquer forma,
e isto para nós é decisivo, nunca foram comprovadas em processo,
111
  António Coutinho Pereira de Seabra e Souza, Resposta ao Senhor Simão José
da Luz Soriano acerca de José de Seabra da Silva, Lisboa, Imprensa Nacional, 1868,
pp. 24­‑25.
112
  Sobre o tema, monograficamente, o texto de seu neto António Coutinho Pereira
de Seabra e Souza, Replica á Refutação do senhor Simão José da Luz Soriano ácerca
de José de Seabra da Silva, Lisboa, Imprensa Nacional, 1871.
113
  João Jardim de Vilhena, José de Seabra da Silva – a sua política e o seu des‑
terro, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1933, pp. 14­‑19, que cita umas Memórias
do Marquês de Pombal contendo extractos dos seus escritos e da sua correspondência
diplomática inédita, escrita por John Smith, secretário do Marechal Marquês de Saldanha
(também ele neto de Pombal, sublinhe­‑se), e publicada em Lisboa em 1872 (mas que
não vimos), dizia que Walpole, ministro britânico em Lisboa, comunicava assim para
Londres a queda de Seabra da Silva: «Seabra tinha a seu cargo a expedição e jurisdição
dos negócios eclesiásticos e, segundo se diz, parece que em 2 anos e 4 meses que foi
Ministro d’Estado passou sem conhecimento de Sua Magestade 2922 licenças para orde‑
nação de igual número de padres…tendo recebido por cada um, 10 moedas». Trata­‑se, no
entanto, do “diz que disse”, de boatos que até hoje não foram confirmados. Já o embai‑
xador francês, Marquês de Chermon, em 11 de Junho de 1771, escrevia: «Transgrediu
a lei que não permitia aos Bispos a confirmação de eclesiásticos sem beneplácito régio
e desobedeceu a el­‑rei dando uma ordem para fazer entrar num convento um morgado,
fazendo suceder no vínculo um colateral» (Jardim de Vilhena, cit., pág. 17). Trata­‑se
contudo de alegações nunca comprovadas, sempre existentes em relação a quem ocupa
cargos públicos! É certo que este Autor também cita o Chevalier Dezoteux de Comartim,
que em Administration de Sebastien Joseph de Carvalho e Melo, Comte de Oeiras, mar‑
quis de Pombal, em 4 vol., Amsterdam, 1787 (Tomo IV, pág. 33), referia a já também
mencionada questão da sucessão de D. José. Jardim de Vilhena, admirador de Pombal
apesar da “terrível série de arbitrariedades que empana a altiva figura do Marquês” (pág.
22), acaba no entanto por concluir, numa demonstração da sua desafeição pela Família,
que a causa última seriam as inconfidências de Seabra da Silva, «uma tara de família
que não soube vencer» (pág. 19).
110 Miguel Gorjão­‑Henriques

devendo por isso ser irremediavelmente afastadas, até demonstração em


contrário (mesmo que historiográfica…). Não tendo por isso nós qualquer
certeza, limitemo­‑nos portanto à descrição dos factos ocorridos nesse
período, necessariamente simplificados. Em 17 de Janeiro de 1774, ao
despedir­‑se da Família Real, que partia numa galeota para Salvaterra,
pediu ordens a D. José, que, em vez de lhe ordenar que o acompanhasse,
lhe disse «vá recebê­‑las do Marquês de Pombal». Este comunicou­‑lhe
que estava demitido e desterrado, tendo aparentemente dito que «com o
mais profundo pesar executo as terminantes e positivas ordens de El­‑Rei
meu Amo e Senhor». Ratton dirá que o Marquês o recebeu tratando­‑o
por “Excelência” para logo depois o tratar por “Vossa Mercê dizendo­
‑lhe (…) [que] como o Snr. Doutor Jose de Seabra da Silva foi traidor
a El Rei, Manda o Mesmo Senhor que Vossa Mercê em 24 horas saia
de Lisboa e se retire para a sua Quinta do Canal (…) aonde esperará
novas ordens”114. De qualquer forma, o próprio Seabra da Silva terá
ilibado o Marquês da autoria da sua desgraça, em nota confidencial
ao Conde de Rio Maior, Pai de sua nora («o Marquês de Pombal não
foi o autor da minha desgraça, foi o executor por infelicidade sua e
minha»), e indicando mesmo, como escreve Jardim de Vilhena, «que
na ocasião do embarque, o Rei chamou Seabra por duas vezes e lhe
apertou as mãos, muito comovido, parecendo que tinha alguma coisa
que o mortificava»115. Contudo, estas ideias são, como bem nota Jardim
de Vilhena, absolutamente contrárias ao teor da carta que transcreve116,
em que Pombal, quatro dias depois da demissão de Seabra da Silva
(portanto, de 21 de Janeiro de 1774), escreve ao seu filho, o Conde de
Oeiras: «Filho do meu coração. A certeza da feliz viagem com que Suas
Magestades chegaram a essa vila me trouxe toda a consolação de que
necessitava o amargo dissabor com que depois do trabalho de muitos
anos que perdia na ideia de que formaria em José de Seabra um Ministro,
que bem servisse e ajudasse o Nosso Augustissimo e Amabilíssimo Amo
e Senhor Clementíssimo; me achei diante dos meus olhos com o mais
vil, mais ingrato, mais pérfido e mais infame Homem, entre os destas
péssimas qualidades que se lêem nas histórias, para escândalo e aviso
dos leitores. Acho­‑me, porém, muito tranquilizado com a reflexão, de

  Jacome Ratton, Recordações de Jacome Ratton sobre ocorrências do seu tempo


114

em Portugal de Maio de 1747 a Setembro de 1810, op. cit., pág. 247.


115
  A citação e o sublinhado são de Jardim de Vilhena, op. cit., pp. 12­‑13.
116
  Op. cit, pág. 14.
José de Seabra da Silva e a sua Família:
Iconografia e Mobilidade Social no Antigo Regime 111

que o conhecimento de um tal monstro vai bem o pesar que me custou,


porque se tardasse mais tempo em se descobrir, faria neste Reino danos
irreparáveis. Estimo que tenhas passado tão bem como vi da tua carta;
e que toda a nossa família ausente goze da mesma felicidade, que Deus
Nosso Senhor nos continua a conceder. Ao Conde de São Payo, e que
é (ilegível) podes segurá­‑lo assim; confiando­‑lhe o horrendo caso, que
acima refiro; e dizendo­‑lhe que pode sossegar­‑se; porque eu me acho
já inteiramente desafogado e satisfeito de ver o serviço e alta reputação
de Sua Magestade livre de tal fera. (…)» Resta apenas dizer que, no
Interrogatório, já transcrito, Pombal reafirma as suas anteriores esperanças
em Seabra da Silva, mas deixa um eloquente silêncio sobre os motivos
da sua queda e o juízo que sobre este faz. Seja como for, importa notar
que, em 1804, o filho primogénito de Seabra da Silva casa com a neta
do Marquês de Pombal, unindo para sempre ambas as Famílias, e que,
como pode constatar­‑se da leitura da carta que, a cerca de um mês do
matrimónio, foi escrita pelo Conde de Rio Maior, genro de Pombal, a
Dona Ana Felícia Coutinho, mulher de José de Seabra da Silva, com
grande empenho por parte do Conde de Rio Maior.
Voltando aos factos, é de interesse conhecer o teor da ordem que em
17 de Janeiro de 1774 inicia o que terá sido o período pessoalmente mais
duro da vida de José de Seabra da Silva, conquanto não o único período
crítico da sua vida política (em 1799 enfrentaria o próprio príncipe Dom
João, futuro Dom João VI, e isso custar­‑lhe­‑ia um exílio… interno):
«Cumpre ao meu Real serviço que haja como hei por escuso de todos
os empregos que n’elle ocupou o doutor José de Seabra da Silva, e lhe
ordeno que no termo de quarenta e oito horas haja de sahir da cidade
de Lisboa e seu termo, e no de quinze dias peremptorios se apresente
no Valle de Bésteiros para d’elle não sahir até segunda ordem minha. O
Marquez de Pombal, do meu conselho d’Estado e secretario e ministro
dos negocios do Reino, o tenha assim entendido e faça executar (…).
Palácio de Nossa Senhora da Ajuda em 17 de Janeiro de 1774.»117
Ao fim de três meses, nova ordem, escrita pelo punho do Marquês,
datada de 26 de Abril, manda prendê­‑lo, entrando no Castelo de S. João
do Porto (ou S. João da Foz) a 4 de Maio. A 4 de Outubro, sem nada,
é metido num navio com destino ao Rio de Janeiro, de onde é levado

  Há aqui uma inconsistência na descrição de Ratton, que diz que foi desterrado para
117

a Quinta do Canal, o que mostra a confusão que fez face ao desterro a que D. João VI,
então príncipe regente, submeteria mais tarde o mesmo José de Seabra da Silva, em 1799.
112 Miguel Gorjão­‑Henriques

para Luanda (Angola), onde chega a 1 de Março de 1775. Foi depois


para o Presídio de Pedras Negras (ou Pungo Andongo), «o desterro mais
cruel, mais brutal, que n’essa ephoca se podia dar»118. Dirá o futuro
Cardeal Patriarca de Lisboa que «os trabalhos que este infeliz Ministro
experimentou [na prisão e desterro], não cabe o expelica­‑los (sic) no
abreviado desta narração: Viveo por especial milagre da Omnipotencia
até chegar a Redençaõ de o mandar recolher a Rainha Nossa Senhora»119.
Tradicionalmente, diz­‑se que regressou ao Reino e foi reabilitado após
a morte de D. José, mas parece que tal sucedeu a quatro meses da morte
do Rei D. José (a qual ocorreu a 22 de Fevereiro de 1777), sendo ainda
Ministro o Marquês de Pombal, quando, já doente D. José, a Rainha
D. Maria Victória assumiu a regência do Reino (15 de Dezembro de
1776), tendo a ordem sido dada ainda antes desta assunção da regên‑
cia. O decreto que ordena que o Governador de Angola D. António de
Lancastre providenciasse o regresso ao Reino de José de Seabra da Silva
dizia que aquele devia tratar Seabra da Silva «com todas as honras que
merece um ministro do seu carácter e estimação, fazendo­‑o conduzir ao
Reino com todas as comodidades e despesas que for preciso para o seu
transporte, por tudo ser do meu real agrado»120.
Ainda no Brasil, escreveu ao secretário de Estado Martinho de Mello
e Castro, com data de 6 de Fevereiro de 1778, uma carta que o Cardeal
Patriarca Dom José de Mendóça reproduz nas suas Memórias e na qual
dá conta do seu estado de espírito perante o que lhe sucedeu:
«Illmo. E Exmo. Senhor
Devendo eu a V. Exca. a expedição das benigníssimas Ordens de Sua
Magestade, que Deos Guarde, que me pozerão na liberdade de sahir de Affrica;
e de passar ao Reino: me persuado, que tambem a tinha para significar a V.
Exca. a minha sincera, e fiel gratidão, pella parte que V. Exca. teve neste bene‑
ficio; o maior que eu podia receber na minha situação; Segurando a V. Exca.
que nesta encerro os limites da minha liberdade; sem me adiantar a escrever
a minha mulher, nem a meu Irmão, que sei há poucos dias, que ainda vivem./
No principio de Outubro chegou ao Prezidio das Pedras a minha redempção;
prepareime como melhor pude, para chegar nos fins de Novembro a Loanda,
donde parti a 20 de Dezembro, depois de pagar o devido tributo da carneirada,

  Conde de Castro e Solla, Cerâmica Brazonada, vol I, pág. 38.


118

  D. Filipe Folque de Mendóça, op. cit., pp. 228-229.


119

120
  Apud Aníbal de Mattos, «Venturas e desventuras de um grande senhor – José
de Seabra da Silva – Senhor da Quinta do Canal – Protegido do Marquês de Pombal»,
O Figueirense, 2.10.1998, pág. 2.
José de Seabra da Silva e a sua Família:
Iconografia e Mobilidade Social no Antigo Regime 113

com que esta Cidade hospeda aos mais robustos; e aportei a esta Bahia, com
quarenta dias de Viagem.
A necessidade de roborar hum pouco as forsas, e de me prover de quazi todo
o preciso para me transportar com menor// incommodidade, me fará demorar
aqui mais dias, do que desejo; ainda considerando a ventagem de salvar o
Inverno nas costas de Portugal.
Tendo que ahi chegar, há V. exca. de sabello; e dezejara eu, que V. Exca.
quisesse mandar­‑me insinnuar a bordo; o modo, o tempo, e lugar de desembar‑
que; porque a experiencia me tem ensinnado; muito á minha custa, que tinha
abelidade para errar todoss os passos, que governo pella minha má cabeça.
Depois de desembarcar a onde, quando, e para o lugar, que V. Exca. me há
de ordenar; continuarei a minha peregrinação como deve, até o lugar a onde
ella teve principio.
Permita­‑me V. Exca. que lhe confesse entre tanto; que a debilidade da
minha filosofia, pella dureza do meu coração, e por falta da christandade, que
a devia vigorar: me até agora a conformidade, que eu devia ter, para me ser
menos sensivel a desgraça, de ser Reprezentado ao meu Soberano, e meu Bem
feito, como o mais infame, e mais abominável ingrato; e como tal despedido
ignominiosamente do Real Serviço, separado da minha triste familia; encerrado
em huma prizão; della tirado, para ser transportado ao Ryo// de Janeiro; dali
a Loanda; e de Loanda ao Prezidio das Pedras: Levado para o suplemento da
falta quazi total de tudo; as severas ordens, de que só via a execução, na parte
que se derigia a ser tido por morto na Europa, e empestado na Affrica, e tudo
sem Sentença, nem Processo; por que não tive audiencia, a menos para me
dizer a culpa. Se todos os meus sucessos fossem restrictos a ser despedido do
Serviço, e mandado retirar para a minha caza: nada diria, porque me havia
parecer extraordinário, que hum Monarcha necessitasse de mandar fazer huma
demanda, para despedir do eu Serviço hum creado, que se lhe reprezentasse ou
não, ou inutil, ou desagradável: Mas as demonstraçoens contra mim, passarão
muito adiante; com o fatal esquecimento de me dar audiencia, quem quer que
se empenhou em me fazer tão famozo delinquente na Real Prezença.
Releve V. Exca. este desafogo, na substancia, e no modo; porque até me falta
há quatro Annos o uzo de falar, e de escrever; mas não falta o dezejo efficaz
de me justificar, sem saber de que; para viver o tempo que me resta, satisfeito,
descançado//com antigo conhecimento, confirmado por custozas experiencias, e
serias reflexoens, de não prestar para outra couza, e menos para as em que fui
metido violentamente, e contra a minha vocação nos tempos passados.
E ultimamente Exmo. Sr. Cheguei até aqui; e ainda vacillo, se será atrevi‑
mento, rogar a V. Exca., que por mim (que não posso ter esta felicidade) queira
beijar a Mão a Sua Magestade, pella Piedade, e Clemencia, que comigo uzou,
permitindo­‑me que eu veja ainda ao menos, a minha Patria, e familia. Se isto
poder ser, eu o confiro do antigo favor, que devo a V. Exca.; e se não poder
ser, eu que V. Exca. mesmo, há de desculpar nesta occazião a hum Affricano
rude e groceiro, que não quer certamente retribuir offenças, e atrevimentos por
benefícios.».
114 Miguel Gorjão­‑Henriques

Chegando a Lisboa, onde foi alegadamente recebido de forma entusiás‑


tica, a seguirmos Pinho Leal e Dom José de Mendóça, assumiu uma vida
pacata, junto da Família de quem tinha estado ausente, sem prejuízo para
as diligências que veio a tomar no sentido da sua reabilitação formal, o
que foi objecto de Decreto da Rainha D. Maria I, datado de 21 de Outubro
de 1778. Parece feliz a descrição que dá este último prelado:
«Da Cidade da Bahia escreveo ao Secretario de Estado Martinho de Mello,
(…); e chegando a esta Corte// a (…) foi esperado de todos com o maior
alvoroço, principalmente do Conde da Calheta, que tendo­‑lhe prevenido hum
quarto para sua acomodação, e de sua mulher, os hospedou, e acompanhou
com aquelle affecto poucas vezes praticado. Passou depois para a sua Quinta
de São Sebastião da Pedreira [então nos subúrbios de Lisboa…]; e concorreo
outra vez toda a Corte a vizita­‑lo: os particulares não vinhão muito satisfeitos,
por que não erão recebidos com atenção; e havendo muita murmuração, e pouca
esperança, de que tornasse a tornar no Ministerio; logo a caza se vio deserta:
Conservou­‑se na Corte até alcançar da Rainha Nossa Senhora as Mercez, que
dos Decretos adiante copiados constão; com ellas se recolheo á sua Quinta do
Canal a honde a prezente vive.»121

José de Seabra da Silva não ficou reduzido a uma vida privada,


sendo chamado, durante o reinado efectivo de D. Maria, e igualmente
durante a regência do Príncipe D. João (D. João VI), a uma importante
actuação política.

  D. Filipe Folque de Mendóça, op. cit., pág. 228.


121
José de Seabra da Silva e a sua Família:
Iconografia e Mobilidade Social no Antigo Regime 115

Pormenor de peças de dois dos três serviços de companhia­‑das­‑índias encomendados


por José de Seabra da Silva122

Após o seu regresso, a Rainha D. Maria concedeu­‑lhe a Comenda


de S. Miguel de Oliveira de Azeméis na Ordem de Cristo (carta de
15 de Maio de 1779), «recebendo pelo Erário Régio, enquanto a comenda
não tivesse rendimento, a quantia de dois contos e quatrocentos mil réis
por ano», soma muito significativa.

Em 1784 foi nomeado Presidente da junta ordinária de revisão e


censura do novo código penal (12 de Janeiro de 1784), em substituição
de Dom Tomás Xavier de Lima Teles da Silva, Visconde de Vila Nova
de Cerveira (1727­‑1800, que seria elevado a Marquês de Ponte de Lima,
com a curiosidade de o alvará de mercê do Título de Marquês de Ponte
de Lima e do ofício que o comunicou, ambos de 17 de Dezembro de

122
  Eis a descrição que do primeiro brasão faz o excelente livro de Nuno de Castro,
A Porcelana Chinesa e os Brasões do Império, Civilização, Porto, 1987, pág. 168:
«Armas: Seabra. Escudo oval: de vermelho, cadeia de oiro, em pala, tendo no chefe
S de Azul, acompanhada de dois leões afrontados de oiro. Coronel de onze pérolas.
Palmas cruzadas e atilhadas.»
116 Miguel Gorjão­‑Henriques

1790, terem sido assinados pelo próprio José de Seabra da Silva123).


Entretanto, encontrámos o rasto de José de Seabra da Silva e sua mulher
como padrinhos em S. Sebastião da Pedreira, em 15 de Agosto de 1787124.

Assinatura de José de Seabra da Silva, então Secretário de Estado dos Negócios


do Reino (1793)

Foi só em 1788, no entanto, e «poucos dias depois do falecimento do


Bispo de Tessalónica»125 que Seabra da Silva voltou ao ministério, nas
funções de «Ministro e»126 Secretário de Estado dos Negócios do Reino127,
lugar que ocupou de 15 de Dezembro de 1788 a 15 de Julho de 1799.
Durante esse período teve outras mercês, como a Carta do Conselho,
com 4286$000 réis de moradia por mês (Carta de 10 de Julho de 1792)128
a Grã­‑Cruz da Ordem de Cristo (6 de Junho de 1796), de que tivera
mercê do hábito em 1750, como vimos129, e mais uma comenda na mesma
Ordem, no caso a da Torre Deita, no bispado de Viseu (21 de Junho de
1796), bem como a nomeação como Conselheiro de Estado (3 de Julho
de 1796). Testemunho da sua integridade, neste período da sua vida, é
aquele contado pela investigadora Maria Antónia Lopes, referindo­‑se
ao tempo em que José de Seabra servia como Secretário de Estado da

  TT, Viscondes de Vila Nova de Cerveira, cx. 32, n.º 27.


123

  De Mariana, filha de Manuel de Sá e Vasconcelos e de D. Luísa Maria Joaquina,


124

mas representados por procuradores, pelo que não deveriam estar à época em Lisboa,
respectivamente Francisco de Macedo Pereira Forjás (sic) e Roque de Macedo Pereira
Forjás (sic), parentes de D. Ana Felícia.
125
  Jacome Ratton, Recordações de Jacome Ratton sobre ocorrências do seu tempo em
Portugal de Maio de 1747 a Setembro de 1810, op. cit., pág. 247. Na mesma altura entrou
também para secretário de Estado Luís Pinto de Sousa, depois Visconde de Balsemão,
este para o lugar de Ayres de Mello e Sá, que havia falecido (idem, cit., pág. 261).
126
  Jacome Ratton, Recordações de Jacome Ratton sobre ocorrências do seu tempo
em Portugal de Maio de 1747 a Setembro de 1810, op. cit., pág. 247.
127
  V. António Manuel Hespanha, História de Portugal – o Antigo Regime, cit., pp.
159­‑161, com a referência aos gabinetes de Secretários de Estado entre 1736 e 1808.
128
  TT, Registo geral das Mercês de D. Maria I, Liv. 23, fl. 120.
129
  Embora sem termos esclarecido a questão da dispensa do impedimento da meno‑
ridade, por seis meses (!).
José de Seabra da Silva e a sua Família:
Iconografia e Mobilidade Social no Antigo Regime 117

Rainha Dona Maria I: «Terá ocasião, por esses anos, de intervir no fun‑
cionamento interno da Misericórdia de Coimbra nomeando o provedor
e o escrivão da Misericórdia, ordenando que daí em diante as Mesas
fossem trienais e que os mesários eleitos não careciam de pertencer á
irmandade (Carta de aviso de 5 de Agosto de 1793). Mas nem por isso
obteve tratamento privilegiado quando, em Dezembro de 1795 e com a
sua autorização, a esposa, que era devedora da Santa Casa por ser herdeira
de seu pai, requereu rebate dos juros. Embora o provedor e o escrivão
fossem os indivíduos que José de Seabra havia nomeado, a Mesa e Junta
de Definitório da Misericórdia indeferiram o pedido tão importante para
os interesses financeiros de José de Seabra da Silva.»130

Está documentado ter sido José de Seabra um conhecido protector de Elmano,


que lhe retribuiu em versos

Enquanto Secretário de Estado dos Negócios do Reino, ministério


que abrangia a justiça, os assuntos eclesiásticos e as obras públicas, rea‑
lizou uma obra notável131 mas, curiosamente, e apesar de tudo o que se

130
  Maria Antónia Lopes, A governança da Misericórdia de Coimbra em finais
de Antigo Regime, s.d., pp. 10­‑11, indicando como fonte Arquivo da Misericórdia de
Coimbra, Acordãos 5º, fls. 70­‑71.
131
  A sua biografia, incluindo a sua actuação como Ministro, pode ser encontrada em
http://www.arqnet.pt/dicionario/seabrasilvaj.html, onde Manuel de Amaral transcreve a
entrada que foi publicada no Portugal – Dicionário Histórico, Corográfico, Heráldico,
Biográfico, Bibliográfico, Numismático e Artístico, Volume VI, págs. 775­‑777.
118 Miguel Gorjão­‑Henriques

escreve e descreve no presente artigo, Simão José da Luz Soriano imputa­


‑lhe a segunda vaga de destruição do que restava das “prerrogativas da
nobreza”132/133. Assim, embora extravase do âmbito deste trabalho e mereça
132
  História da Guerra Civil e do Estabelecimento do Governo Parlamentar em Portugal
comprehendendo a historia diplomatica, militar e política d’este reino desde 1777 até 1834,
Primeira épocha, Tomo II, Imprensa Nacional, Lisboa, 1867, pp. 294­‑295, que refere as
notáveis obras públicas promovidas pelo ministério de José de Seabra. Há que reconhecer
que Luz Soriano dá algum mérito a outras medidas, designadamente o reforço dos correios
e sua anexação ao Estado (nacionalização, dir­‑se­‑ia), entre outras medidas, como a estrada
do Porto para a Foz ou do Porto para o Alto Douro, bem como a estrada para Sacavém ao
longo do Rio Tejo. Mas tudo isto é matéria para outros e próximos estudos.
133
  No culminar de um processo de centralização régia que, a seu ver, se tinha iniciado
com, pelo menos, o Rei Dom Duarte I: «Finalmente ficará completo o quadro das causas
que produziram a mina e total decadencia do estado da nobreza, se ás já mencionadas
se acrescentar a união que D. João III. o Piedoso, fez á coroa in perpetuum, para si e
seus successores, dos mestrados das ordens militares por bulia do papa Julio III em l5ol,
medida com que os nobres acabaram de ficar dependentes do rei para delle obterem as já
ditas commendas e honras annexas que tiveram de mendigar junto d’elle, como se acaba
de dizer. Muito debeis foram os reinados de D. João III e de D. Sebastião, e todavia
estes dois monarchas contavam já os nobres entre os seus mais doceis e mais humildes
servidores. E o que não seria depois que toda a flor da nobreza, que nasceu com a casa
de Aviz, se perdeu na mal concebida e peior jornada de Africa? D’este modo se vê que
D. João I foi o que deu a sentença contra os grandes senhores; D. Duarte notificou­‑a;
D. Affonso V preparou os meios da sua execução, a qual foi depois consummada por
D. João II e por D. Manuel; e por conseguinte a nobreza não pode resistir a tantos e
tão fortes ataques, acabando desde então de facto ou ficando desde então alterada. (…).
O marquez de Pombal, que de similhante classe se reputa ou pode reputar tirado para o
logar de primeiro ministro e valido de el­‑rei D. José, acabou de arruinar a consideração
dos nobres, já fazendo esmagar em vida sobre a ignominia de um patibulo o coração de
alguns dos mais illustres membros da primeira nobreza do paiz, com que humilhou a todos,
e já extinguindo muitos vinculos por insignificantes, permittindo só a instituição dos mui
rendosos. Todavia foi por elle abolida a lei de Filippe II, encorporada nas ordenações
do reino, que prohibia a união de dois ou mais morgados em um só descendente, o que
nada embaraçou a progressiva decadencia de uma classe, que pela opinião do seculo ia
rapidamente marchando á sua total aniquilação, concorrendo tambem bastante para este
fim a nova organisação e regulamento do exercito, que se democratisou, a lei das confir‑
mações e a abolição da hereditariedade dos officios e outras similhantes medidas. Desde
então tudo cedeu e ficou á inteira discrição da realeza, e se algum ou alguns ousaram
resistir, bispos, ordens religiosas, curia romana, grandes e plebeus, todos absolutamente
sofreram, mediante o emprego de doceis e submissos magistrados, condescendentes sempre
para tudo quanto os passados governos lhes ordenavam’, a pena condigna a trama. /(…)
Atrás do marquez de Pombal veiu o reinado de D. Maria I, no qual o seu ministro José
de Seabra da Silva acabou de destruir o quasi nada que ainda restava das prerogativas
da nobreza; por lei de 19 de julho de 1790 uniformisou elle o systema militar e o finan‑
ceiro, sem exceptuar o judicial, entrando por este meio todas as terras dos donatarios no
José de Seabra da Silva e a sua Família:
Iconografia e Mobilidade Social no Antigo Regime 119

uma abordagem específica e monográfica, foi grande o apoio que deu


à cultura e às ciências, tendo empreendido importantes obras públicas,
como a abertura de canais no Mondego e em outros rios (Sado, Guadiana,
barra do Porto, etc.), além do início da estrada Lisboa­‑Porto, entre outras
determinações a que se refere um pouco mais detidamente o Marquês
de Resende, no elogio fúnebre que em 1864 pronunciaria na Academia
Real das Ciências. Jácome Ratton dá bem conta da sua Obra, ao referir
que José de Seabra foi, de alguma forma, um percursor do fontismo, pois
«durante o segundo Ministério de José de Seabra, se fez a nova estrada de
Lisboa até Coimbra passando por Leiria». É certo que Ratton, como mais
tarde Luz Soriano, criticaram a «sumptuosidade desnecessária134, somas
com as quais se poderia ter construído até à cidade do Porto; e então
haveria viandantes em grande número; visto as muitas relações que há
entre Porto e Lisboa». Também no seu ministério «houve um projecto de

plano geral da administração do reino, recebendo­‑se ali magistrados iguaes em nome e


auctoridade aos das outras terras. Por aquella lei apenas aos donatarios de maior vulto
ficou a regalia de nomearem os corregedores e juizes de fora para os seus senhorios, ao
passo que outros só tiveram a faculdade de os propor, ficando assim todos elles sem mais
ingerencia alguma na administração da justiça. Por este modo foi a classe media, pela
revolução da intelligencia e pelo seu credito e riqueza, approximando­‑se successivamente
da classe nobre, e esta approximando­‑se tambem d’aquella, pela gradual e progressiva
perda que foi tendo nas suas prerogativas e riquezas. Uma das causas que tambem muito
concorreu para a desconsideração da classe nobre foi a profusão, que se foi vendo dos
differentes titulos, desde a elevação da casa de Bragança ao throno, e particularmente
durante o reinado de D. João VI, que os prodigalisou muito mais do que os seus ante‑
passados tinham feito, o que tambem praticou com as insignias das differentes ordens
militares, concedidas a quem muito bem lhe pareceu, sem que a maior parte dos agra‑
ciados tivessem recommendação alguma para taes mercês em qualquer carreira publica.
Ultimamente a restauração do governo constitucional em 1834 arruinou ainda mais o que
ainda faltava para desmoronar as recordações historicas da antiga nobreza.» (sublinhado
nosso) – Simão José da Luz Soriano, Historia da Guerra Civil e do Estabelecimento do
Governo Parlamentar, compreehendendo a historia militar, diplomatica e política desde
1777 até 1834, Primeira Epocha, Tomo I, Lisboa, Imprensa Nacional, 1866, pp. 141­‑143.
134
  Ratton escreveu mesmo: «Também não posso deixar de notar aqui a desnecessária
sumptuosidade dos marcos das léguas: tratou­‑se de marcar as léguas, coisa absolutamente
necessária; mas em lugar de se marcarem com um marco de pedra, que enterrado dois ou três
palmos do chão, sobressaísse três ou quatro, e com um letreiro que indicasse simplesmente o
n.º de léguas e o lugar donde partisse a estrada, e para onde se dirigia, ou esse letreiro fosse
pintado a óleo, ou gravado na pedra fizeram­‑se uns magníficos obeliscos, que só a despesa
de um dava para se marcarem todas as estradas (…)» (grafia actualizada) – Jacome Ratton,
Recordações de Jacome Ratton sobre ocorrências do seu tempo em Portugal de Maio de
1747 a Setembro de 1810, op. cit., pág. 249. Mudam os tempos mas nem tudo muda….
120 Miguel Gorjão­‑Henriques

se fazer uma nova estrada de Lisboa a Sacavém»135, fez­‑se «a utilíssima


estrada da cidade do Porto para a Foz do Douro, debaixo da direcção do
Engenheiro francês Reinaldo Oudinot»136, e «a estrada do Alto Douro»137.
Embora seja citado um seu discurso no ministério a defender a assunção
da regência pelo Príncipe Dom João, face à doença da Rainha sua Mãe,
Dona Maria I, o certo é que a solução primeiramente adoptada foi a de
colocar Dom João a administrar os negócios do Reino, administrando o
Reino sempre em nome de sua Mãe (10 de Fevereiro de 1792) e, depois,
quando a questão da regência se colocou, José de Seabra ter­‑se­‑á oposto
a essa assunção da regência sem convocação prévia das Cortes o que,
num País que não conhecia Cortes há mais de 100 anos e que acabara de
assistir aos estados gerais em França (i. e., à Revolução Francesa ainda em
curso138), acabou por determinar, a 15 de Julho de 1799, a sua demissão
e o desterro interno para a sua Quinta do Canal, junto à Figueira da Foz,
com proibição de voltar à Corte, onde nunca mais assumiu qualquer cargo
público. Como descreve José Norton139, «José Seabra da Silva foi afastado
e já não assistiu ao beija­‑mão que o príncipe concedeu para cimentar a
sua regência. Por uma vez o príncipe usava o seu poder sem hesitações
nem delongas, apeando um secretário sem esperar a sua morte. Teria sido
uma vitória do “partido aristocrático”, um primeiro passo para reduzir os
secretários à sua antiga subalternidade? (…)»140.

135
  Jacome Ratton, Recordações de Jacome Ratton sobre ocorrências do seu tempo
em Portugal de Maio de 1747 a Setembro de 1810, op. cit., pág. 249.
136
  Jacome Ratton, Recordações de Jacome Ratton sobre ocorrências do seu tempo
em Portugal de Maio de 1747 a Setembro de 1810, op. cit., pág. 252.
137
  Jacome Ratton, Recordações de Jacome Ratton sobre ocorrências do seu tempo
em Portugal de Maio de 1747 a Setembro de 1810, op. cit., pág. 253.
138
  São explicações dadas por Simão José da Luz Soriano na obra aqui citada e que
me parecem particularmente plausíveis (op. cit., pp. 446­‑447).
139
  Marquês de Alorna, Memórias Políticas – apresentação de José Norton, cit., pág. 34.
140
  E continua dizendo: «Não deixa de ser curioso que Alorna, em privado, se tenha
congratulado com a saída de Seabra da Silva. Escreveu nessa altura a sua irmã Leonor:
‘Finalmente fez­‑se o que devia ser há muito tempo.’ Nessa altura, quando muita gente
se movimentou para colocar no governo em substituição de Seabra quem mais lhe
interessava, também pela cabeça da irmã de Pedro deve ter passado a ideia de o ver
secretário de Estado, tirando partido da sua intimidade com Carlota Joaquina. Contudo
Alorna dissuadiu­‑a, negando quaisquer ambições políticas: ‘Tenho calculado que para
arranjar os meus filhos (garantir o futuro da sua Casa) basta­‑me ir andando na marcha
em que estou… parece­‑me isto mais seguro do que meter­‑me em danças altas’» (citando
Ângelo Pereira, D. João VI – Príncipe e Rei, 4 vols., Lisboa, Vol. 1, 1953­‑958, pp. 62­‑63
– Marquês de Alorna, Memórias Políticas – apresentação de José Norton, cit., pág. 35).
José de Seabra da Silva e a sua Família:
Iconografia e Mobilidade Social no Antigo Regime 121

Despacho da demissão de José de Seabra da Silva por considerar que a assunção


da regência pelo príncipe D. João carecia de convocação de Cortes141

Durante esse período, e após súplica a D. João feita por sua mulher, foi auto‑
rizado a ficar na quinta de S. João da Ribeira, estando nas Caldas em 1802142,
o que se manteve até 30 de Março de 1804, pelo que não assistiu ao
matrimónio de seu filho o Visconde da Bahia com a filha do 1.º Conde
de Rio Maior (e neta do próprio Marquês de Pombal, então já falecido).

141
  História da Guerra Civil e do Estabelecimento do Governo Parlamentar em
Portugal comprehendendo a historia diplomatica, militar e política d’este reino desde
1777 até 1834, Primeira épocha, Tomo II, Imprensa Nacional, Lisboa, 1867, pp. 294­‑295.
142
  Em 10 de Novembro de 1802, foi denunciado à Inquisição por Fr. Aleixo do
Coração de Jesus, por alegadamente ter dito que não acreditava “na Religião de Malta [a
Ordem de Malta], por ser contra o Evangelho” – TT, Tribunal do Santo Ofício, Inquisição
de Lisboa, proc. 16677. O processo, de pouquíssimas páginas, não terá tido qualquer
seguimento. Eis o excerto relevante da queixa:
122 Miguel Gorjão­‑Henriques

Junot, ao invadir Portugal, sabendo que estava «no desagrado da Corte»,


tê­‑lo­‑à convidado para Ministro do Interior, «a que se recusou, como bom
português» (Pinho Leal), tendo mesmo sido um dos promotores da «socie‑
dade restauradora», em 5 de Fevereiro de 1808. Por um lado, parece­‑nos
que as afirmações de Simão José da Luz Soriano (op. cit., pp. 333­‑335)
são puramente insultuosas143, pois que não têm qualquer testemunho ou
documento que o comprove e, ao invés, pretendem levar o leitor a con‑
cluir que é explicável por qualquer comparticipação ou apoio ao governo
de Junot a circunstância de um homem afastado do governo pelo prín‑
cipe regente (há 8 anos, então) e já com mais de 75 anos não ter sido
escolhido pelos Governadores do Reino para altas funções após a saída
do invasor. Mas por outro lado, há que reconhecer alguns elementos
de difícil interpretação. Assim, por um lado, Pinho Leal acentua que
tanto Seabra da Silva como os seus filhos sustentaram vultuosamente a
resistência aos franceses, dizendo mesmo que os seus dois únicos filhos
varões «assentaram praça no exército português, combatendo sempre,
e com distinção, em defesa da sua pátria, e como seu pai, em razão da
sua provecta idade e padecimentos, não podia fazer parte do exército
libertador, ofereceu ao Estado, enquanto durasse a guerra com os fran‑
ceses, os rendimentos das comendas da casa da Bahia (3:000$000 réis
anuais) e ele os seus filhos deram ao exército real muito fardamentos e,
por várias vezes, cavalos para a cavalaria, e muares para a artilharia
(só de uma vez lhe deram 30 e tantos), além de outros valiosos dona‑
tivos. Seu filho António, já senhor de vários prazos, forneceu, à sua
custa, e abundantemente, a nau Martim de Freitas. Depois marchou
para Trás­‑os­‑Montes a unir­‑se às tropas leais do benemérito General
Silveira [depois 1.º Conde de Amarante (…)]». Contudo, por outro lado,
não podem ser desprezados testemunhos que permitem pôr em causa um
claro apoio – designadamente por seu filho secundogénito – à causa anti­‑
­francesa, mormente em literatura de cariz maçónico (v., a história da
maçonaria do mação prof. A. H. de Oliveira Marques) ou anti­maçónico
(Paul Siebert, D. Miguel e o seu Tempo, 1986), onde se expressa um
posicionamento favorável deste aos franceses. Na mesma linha, o senhor
prof. Nuno Espinosa Gomes da Silva publicou dois importantes estudos
que procuram demonstrar que José de Seabra da Silva seria o grande

  Sobre a polémica entre o neto de José de Seabra da Silva e Luz Soriano, vide
143

Alfredo Duarte Rodrigues, O Marquês de Pombal e os seus Biógrafos – Razão de ser


de uma revisão à sua história, cit., pp. 225­‑228.
José de Seabra da Silva e a sua Família:
Iconografia e Mobilidade Social no Antigo Regime 123

conselheiro, mas sempre na penumbra, de Junot, aquando dos aconteci‑


mentos ocorridos em Portugal após a primeira invasão francesa. Contudo,
é finalmente de notar que A. H. de Oliveira Marques, ao fazer a sua
monumental história dos pedreiros livres, não refere José de Seabra da
Silva como membro de tais associações ou de qualquer das suas lojas.
Julgamos, no entanto, atendendo ao que os elementos futuros demons‑
traram, que, mesmo a ter existido uma afiliação maçónica “francesa”,
designadamente de seu filho secundogénito (aliás, morto pelos franceses
na Batalha do Bussaco), rapidamente a Família se orientou para a causa
nacional, como o demonstram as mercês que Dom João VI, ainda regente,
concedeu no Brasil ao Visconde da Bahia, a elevação a Conde da Bahia
pelo Rei Dom Miguel I, no tardio 1833 e, sobretudo, a circunstância de
o 1.º Visconde da Bahia e Conde da Bahia ter dado a sua própria vida
pela causa da legitimidade, em Santarém. Ademais, diga­‑se apenas que,
após o triunfo da dinastia brasileiro­‑austríaca dos Saxe­‑Coburgo Gotha
de Bragança, a Família se manteve integralmente fiel a Dom Miguel e
aos seus herdeiros, nada pedindo ou obtendo do Estado monárquico ou
mesmo da República.

Sendo varão primogénito, José de Seabra da Silva sucedeu nos bens


vinculados de seus Pais e, ao longo de toda a sua vida foi construindo
um significativo património,
124 Miguel Gorjão­‑Henriques

Lista do património herdado ou adquirido por José de Seabra e das mercês régias que
também produziam rendimento, publicada por seu neto em resposta a acusações de
Luz Soriano, que não inclui os bens vinculados ou não de D. Ana Felícia, sua mulher
– como então dizia o Povo, “não há fidalguia sem comedoria”!

sobretudo a partir da decida de 1760 e após o seu matrimónio com a rica


fidalga D. Ana Felícia. Entre as muitas propriedades e vínculos (morgados e
capelas) que herdou por seus Pais (morgados de Lobão e Fail, entre outros)
ou que administrava por sua Mulher (como o extenso morgado dos Hortas, de
Setúbal, o morgado de Soutelo, o de S. João da Pesqueira, o dos Coutinhos,
de Coimbra, ou o morgado da redízima da Bahia, com direito a 400$000 réis
de juro anual), foi adquirindo, e de que não se fez ainda qualquer levanta‑
mento exaustivo, sempre se dirá que foi, por mercê régia, senhor da quinta
de quinta e palácio do Duque de Aveiro, em Lisboa, em S. Sebastião da
Pedreira144, e da Quinta do Canal (sita no Campo de Coimbra), que vagara

  Sigamos Gustavo de Matos Sequeira: «Passada a quinta e terras do Poceiro (que


144

foram mais tarde do Principal Deão Azevedo. (…), e mais tarde de um tal Carlos Joaquim,
vindo finalmente para às mãos do Seabra) avultava à esquerda, o palácio, com seus belos
jardins e magnífica quinta, que fora do Duque de Aveiro. Extinta a casa ducal, depois da
misteriosa tentativa de [1758], passou a propriedade para um tal António Vaz Coimbra
e depois (em 1767) para José de Seabra da Silva (…)/. José de Seabra parece ter tido
a ideia de formar à roda do seu grandioso palácio um dos mais extensos domínios de
José de Seabra da Silva e a sua Família:
Iconografia e Mobilidade Social no Antigo Regime 125

com a proscrição dos jesuítas (Carta de 20 de Maio de 1769145), e de mais


quatro «geiras de terra no Campo de Bollão, que forão da extincta casa de
Aveiro, para se unirem de jure e herdade às mais fazendas que já possuía
na cidade de Coimbra, como consta dos decretos e portarias de 21 e 22 de
Março de 1769 e de 10 de Junho de 1791»146. Era ainda proprietário da Quinta
de St.ª Eufémia (perto de Montemor­‑o­‑Velho, adquirida em 1 de Março de
1782, por 3000$00 réis). Comprou, autorizado por Decreto régio de 1 de
Abril de 1796, «um casal composto de vários foros no sítio de Campolide
pelo preço de dois contos e trezentos mil réis»147. Obteve nomeação de «juiz
privativo com jurisdição ordinária para a medição, demarcação e tombo
das propriedades de que é senhor e possuidor no sítio de S. Sebastião da
Pedreira e do Casal de Campolide contíguo, que ultimamente comprou,
precedendo as necessárias licenças e solenidades jurídicas, às Religiosas do
Mosteiro de S. Dinis de Odivelas» (Decreto régio de 13 de Julho de 1796)148.
José de Seabra da Silva de Morais149, como é nomeado no seu assento
de matrimónio, casou, como referimos acima, em Oeiras, na Ermida de

que havia memória às abas de Lisboa, o qual, sob o nome de Terras do Seabra, chegou
quase intacto aos nossos dias. Em 1770 vê­‑mo­‑lo adquirir uma propriedade constituída
por bens de capela, a qual era administrada pelos religiosos do convento da Estrela e
que pegava com a quinta do Noviciado; em 1786 compra a quinta da Rabequinha e, ao
começar o século xix, ei­‑lo já de posse da propriedade dos jesuítas e da quinta e casas
de Carlos Joaquim (antiga quinta do Poceiro) que tinham sido dos herdeiros do Principal
Azevedo (…). /José de Seabra tinha todas estas propriedades por sua conta e habitava
no palácio Aveiro. Apenas no segundo semestre de 1779 vejo alugar a velha moradia
ducal ao marquês de Niza que, por sinal, pagava de renda 250$000 réis. Em 1805 José
de Seabra habitava­‑a e com ele quatro criados, quatro parelhas e quatro cavalos de sela».
Em 1832, o visconde seu filho residia na quinta de Entremuros. (…) «Meado o século
XIX, o vasto domínio dos Seabras desmembrou­‑se, vindo entretanto a maior parte dele
parar às mãos do falecido capitalista José Maria Eugénio de Almeida» (G. de Matos
Sequeira, Depois do Terramoto – Subsídios para História dos Bairros Ocidentais de
Lisboa, Volume IV, Academia das Ciências de Lisboa, 1967, p. 503­‑505).
145
  TT, Registo geral das mercês de D. José, Liv. 22, fl. 422.
146
  Conde de Castro e Solla, Cerâmica Brazonada, vol.: I, pág. 37.
147
  TT, Registo geral das mercês de D. Maria I, Liv. 18, fl. 243. O casal havia sido
herdado pelo Mosteiro de S. Dinis de Odivelas, cabeça da herança de D. Catarina de
Figueiredo.
148
  TT, Registo geral das mercês de D. Maria I, Liv. 18, fl. 307. Nesse mesmo ano, a
16 de Maio, encontramo­‑lo a testemunhar, em Lisboa, em Santa Isabel, juntamente com
o Duque de Cadaval, o matrimónio de Dom Pedro Norberto de Sousa da Silva Padilha
e Seixas com Dona Ana José Maria de Santo António e Silva.
149
  TT, Registos Paroquiais de Oeiras – Nª Senhora da Purificação, Liv. 3 (1760­‑1803),
fl. 81v., que aqui reproduzimos. Aparece no assento com o nome que aqui lhe damos.
126 Miguel Gorjão­‑Henriques

Nossa Senhora das Mercês, no Palácio dos Marqueses de Pombal, a


8 de Junho de 1764 com Dona Ana Felícia Coutinho Pereira de Souza150
Tavares Cerveira e Horta151, naquele ambiente certamente impressivo

Curiosamente, o assento de matrimónio, por razão que desconhecemos, foi mais tarde
(1791) transcrito nos Livro 8­‑C de Lisboa (St.ª Isabel), a fls. 6 e 6v., com o seguinte teor,
que reproduzimos com o maior rigor possível, excepto alguma actualização ortográfica,
que o leitor perceberá: «Francisco de Sales Pároco nesta freguesia/de Nossa Senhora da
Purificação da vila de Oeiras/certifico que aos oito dias do Mês de Junho de mil/setecentos
sessenta e quatro na Ermida de Nossa/Senhora das Mercês desta vila em/ presença do
Ex.mo e R.mo Senhor Paulo de Carvalho/e Mendonça do Conselho de Sua Magestade e do
ge­‑/ral do Santo Ofício Vedor da Fazenda da Rainha /nossa Senhora e Presidente do seu
Conselho comis­‑/sário geral Apostólico da Bula da Santa Cruza­‑/da e D. Prior da Insigne
e Real Colegiada de Gui­‑/marães, pelas cinco horas da tarde se casaram por/palavras de
presente José de Seabra da Silva de/Morais, filho de Lucas de Seabra da Silva, e de sua
/mulher Dona Josefa Teresa de Morais Ferraz na­‑/tural do lugar de Vilela, e baptizado
na fregue­‑/sia de São Martinho da Torre, Bispado de Coimbra,/e morador na freguesia
de Santa Isabel da cidade/ de Lisboa, Com Dona Ana Felícia Coutinho/Pereira de Sousa,
filha de Nicolao Pereira Cou­‑/tinho de Sousa e Menezes, e de sua mulher Do­‑/na Francisca
Maria de Sousa e Castro, na­‑/tural e baptizada na freguesia da Sé da cidade/ de Coimbra,
donde é moradora; e a dita contra­‑/ente constituiu seu procurador e deu especial/comissão
para efeito de celebrar este ma­‑/trimónio com o sobredito Contraente, a seu tio/Bernardo
Coutinho Pereira. Ambos os con­‑/traentes foram dispensados nos banhos e­‑/ mais papéis
de estilo pelo Ex.mo e R.mo Se­‑/nhor Cardial Patriarca de Lisboa, que jun­‑/tamente lhes
concedeu licença e especial/ comissão ao dito Ex.mo e R.mo Senhor Paulo//Paulo de Carvalho
e Mendonça para os re­‑/ceber na sobredita Ermida do seu Palácio/ desta vila celebrou
também este casa­‑/mento em minha presença e das testemunhas/abaixo assinadas e em
tudo se guar­‑/dou o Sagrado Concílio Tridentino, e constitui­‑/ções deste Patriarcado, e
Decreto de Sua/ Eminência de cinco deste presente mês. Foram/ testemunhas presento o
Il.mo e Ex.mo Senhor/ Francisco Xavier de Mendonça Furtado do/Conselho de Sua Mag.
de
e seu Ministro, e Secre­‑/tário de Estado e o Il.mo e R.mo Senhor Gaspar /de Saldanha
de Albuquerque Reitor Reforma­‑/dor da Universidade de Coimbra, e Pedro Gon­‑/çalves
Cordeiro Pereira, Desembargador do Paço/ e Juiz da Inconfidência de que fiz este termo
que /todos assinamos die ut supra. Paulo de Carvalho/e Mendonça, como procurador da
contraente Ber­‑/nardo Coutinho Pereira = Francisco Xavier de /Mendonça Furtado=
Gaspar de Saldanha de Al­‑/buquerque Pedro Gonçalves Cordeiro Pereira/o Pároco
Francisco de Sales = E não se continha/mais no dito assento, que vai lavrado no livro/6
dos casamentos a fls. 81 v. ao qual me reporto Oei­‑/ras 8 de Junho de 1764 = O Par.co
Francisco de Sales./É o que continha uma certidão que me /foi apresentada em o primeiro
dia do mês de De­‑/zembro de mil setecentos e noventa e um an­‑/nos, juntamente com um
despacho do Ex.mo e R.mo/ Senhor Cardial Patriarca com data de vinte e dois/ de Novembro
deste presente ano, em que man­‑/da abrir este assento cujo despacho fica neste/Cartório
Lisboa, o 1.º de Dezembro de 1791./ O Prior Francisco José Marques de Payva.»
150
  Assim aparece nomeada no seu próprio assento de matrimónio.
151
  Assim aparece nomeada no assento de matrimónio de seu filho Manuel.
José de Seabra da Silva e a sua Família:
Iconografia e Mobilidade Social no Antigo Regime 127

acima descrito, e representada por seu tio Bernardo Coutinho Pereira.


Senhora de uma vasta Casa e fortuna, a mulher de José de Seabra da
Silva era provinda de uma Família muito distinta e poderosa da fidalguia
da província, descendente do 1.º Capitão donatário da Bahia­‑de­‑todos­
‑os­‑Santos (Carta de 5 de Abril de 1534 e Apostilha de 26 de Agosto de
1534)152, o infortunado Francisco Pereira Coutinho, que criou a primeira
povoação no Brasil e morreu comido pelos índios.

Excerto inicial da Carta de Visconde da Bahia para o filho de José de Seabra da Silva e
de D. Ana Felícia, invocando expressamente a vida e carreira pública de Francisco Pereira
Coutinho, 1.º Donatário da Capitania da Bahia de Todos os Santos e fundador da «primeira
Povoação da América, a que deu o nome de Vila ou cidade de Pereira» e que «naufragou
voltando da Capitania dos Ilhéus para a Bahia, e foi morto e comido pelos Gentios»

152
  TT, Chancelaria de D. João III, Liv. 7, fls. 110v­‑112v. e fls. 146v.­‑147v. – o
texto da doação e do foral da Capitania da Bahia de Todos os Santos foi transcrita e
publicada por Maria José Mexia Bigotte Chorão, Doações e Forais das Capitanias do
Brasil 1534­‑1536, Torre do Tombo (?), 1999, pp. 43­‑57.
128 Miguel Gorjão­‑Henriques

Dona Ana Felícia Coutinho Pereira de Sousa, havia sido baptizada


em Coimbra (Sé Nova), a 14 de Agosto de 1745153 e morreu em Lisboa
(S. Sebastião da Pedreira), a 26 de Março de 1807, causando profundíssimo
desgosto a José de Seabra. Era ela filha de Nicolau Coutinho Pereira de Sousa
Menezes da Horta Amado e Cerveira154 – que nasceu em Soutelo do Douro,
a 27 de Abril de 1720, sendo Fidalgo Cavaleiro da Casa Real e Senhor da
Casa dos Coutinhos de Coimbra e do morgado de Soutelo (Trancoso), além
de 10.º senhor do morgado e do juro real da Redízima da Bahia­‑de­‑todos­
‑os­‑Santos155, e Moço Fidalgo com exercício no Paço – e de sua mulher
D. Francisca Maria de Távora e Sousa (Dona Francisca Maria de Sousa
e Castro156), esta que dizem nascida em Lisboa, na freguesia dos Anjos157,
onde terá sido baptizada158, e morreu em Coimbra (Sé Nova), a 26 de

Assento de óbito da Mãe de D. Ana Felícia e sogra de José de Seabra, Dona Francisca
Maria de Sousa e Távora, em Coimbra (Sé Nova), a 26 de Outubro de 1748 (1746­
‑1774, fl. 11v. – página anterior) seguida da notícia da sua morte, tal como foi dada
pela Gazeta de Lisboa, n.º 45, de 5 de Novembro de 1748

  Foi padrinho José Felix da Cunha, da cidade de Lisboa.


153

  No assento de seu neto, aparece nomeado como «Nicolau Pereira Coutinho de


154

Sousa e Menezes, baptizado na vila de Soutelo, Bispado de Lamego».


155
  Compensação resultante de um importante litígio entre a Coroa e o filho de Francisco
Pereira Coutinho, que a Coroa retirou o carácter hereditário da capitania mas deu em
compensação o direito à percepção de um juro fixo anual sobre a “redízima” da capitania.
156
  Com este nome aparece nomeada no assento de matrimónio de seu filho José
de Seabra da Silva.
157
  Assim consta expressamente do assento de baptismo de seu neto o 1.º Visconde
da Bahia.
158
  Dizem que a 3 de Outubro de 1714 – não encontrei o respectivo assento nos
índices de livros paroquiais dos Anjos.
José de Seabra da Silva e a sua Família:
Iconografia e Mobilidade Social no Antigo Regime 129

Outubro de 1748159. Para demonstração, do estatuto social da Mãe de Dona


Ana Felícia, basta reproduzir ao leitor o seu assento de óbito e, sobretudo,
a notícia que sobre o mesmo evento foi publicada na Gazeta de Lisboa.
Dona Francisca terá sido herdeira de parte da herança de sua Mãe
D. Leonor Maria de Brito e Castro – que havia sido dotada em «mais
de duzentos mil cruzados» ­– e era também filha160 do Doutor Alexandre
de Sousa Freire.

Assento de matrimónio de Alexandre de Sousa Freire e de D. Leonor Maria de Castro


(dir.); índice da habilitação para FSO do Pai de D. Leonor (esq.)

Este Alexandre de Sousa Freire foi baptizado em Lisboa (Igreja das Chagas,
na paróquia da Encarnação), a 22 de Fevereiro de 1671, tendo por padrinho o

159
  Memória Genealógica e Biográfica dos tres Tenentes Generais Leites da Casa
de S. Thomé d’Alfama, Lisboa, 1838, Vol. I, pág. 64, citando a Gazeta de Lisboa, de
5 de Novembro de 1748.
160
  Matrimoniaram­‑se os pais de D. Francisca em Lisboa, na freguesia das Mercês,
a 1 de Novembro de 1699, tendo D. Leonor nascido no Brasil, na Bahia, mais concre‑
tamente na freguesia de N.ª Sr.ª da Ajuda, e sendo filha herdeira de André de Brito de
Castro, FSO (1690), Fidalgo Cavaleiro da Casa Real, Provedor da Alfândega da Bahia,
Senhor de muitos engenhos e terras, e de sua mulher D. Francisca Maria Leite.
130 Miguel Gorjão­‑Henriques

Marquês de Fronteira, Dom João Mascarenhas, e D. Helena de Távora (R.P.


Lisboa, liv. B-8, fl. 139v.) e habilitou­‑se para a Ordem de Cristo, juntamente
com seu irmão Manuel de Sousa de Távora, sendo feita consulta sobre as suas
provanças a 27 de Abril de 1686161. Moço­‑Fidalgo (11 de Março de 1715);
foi Cavaleiro Professo da Ordem de Cristo, Colegial de S. Paulo (entrou em
28 de Janeiro de 1697) e «muy dado à poesia» Membro nobre da Mesa da
Misericórdia de Lisboa, em 1721, conforme a relação publicada na Gazeta de
Lisboa. Mestre em Artes e Doutor em Teologia, Alexandre de Souza Freire,
cuja gravura se pode encontrar no livro Memórias dos Tenentes­‑Generais
Leytes162, largou a vida académica pela vida militar. Foi depois Mestre de
Campo de um Terço na Bahia, Governador e Capitão­‑General do Maranhão
(nomeado em Março de 1727, tomou posse em 1 de Junho de 1728, ocupando
ainda o cargo, pelo menos, a 22 de Junho de 1730). A resolução de D. João
V foi tomada a 29 de Março de 1727, em consulta do Conselho Ultramarino.
Em 20 de Março de 1728 fez Alexandre de Souza Freire preito e homena‑
gem ao Rei, tendo jurado a 14 de Maio de 1728. Foi ainda do Conselho de
El­‑Rei e, como vimos, foi, pelo seu matrimónio, Provedor proprietário da
Alfândega da Bahia, «que houve em dote de casamento com muitos outros
herdamentos»163; morreu na sua Quinta da Charneca, no termo de Lisboa,
31 de Outubro de 1740164. Diga­‑se ainda que este era filho de Bernardino
de Távora e Sousa Tavares – Bernardino de Távora Tavares165 ou, no seu
assento de matrimónio, Bernardino de Távora de Sousa Freire Tavares,
que foi comissário da Cavalaria na Província do Alentejo, Senhor de Mira,
Comendador de S. Tiago de Alfaiates na Ordem de Cristo, para a qual se
habilitou166, Tenente­‑General de Cavalaria Governador e Capitão­‑General
de Mazagão e do Reino de Angola, onde morreu167, e que teve diversas
mercês régias monetárias, que podem ser consultadas na Chancelaria de

  Nuno Gonçalo Pereira Borrego, Habilitações nas Ordens Militares – Séculos


161

XVII a XIX – Ordem de Cristo L­‑Z, Tomo III, Guarda­‑Mor, 2010, pág. 230 – Maço 46,
n.º 39 “Manuel”.
162
  Memória Genealógica e Biográfica dos tres Tenentes Generais Leites da Casa de
S. Thomé d’Alfama, Lisboa, 1838, Vol. I, pág. 47, citando a Gazeta de Lisboa, de 10 de
Novembro de 1740, n.º 45; Arquivo Distrital de Lisboa, Charneca, Liv. O-2, fl. 109.
163
  Memória Genealógica e Biográfica dos tres Tenentes Generais Leites da Casa de
S. Thomé d’Alfama, cit., pág. 47.
164
  Memória Genealógica e Biográfica dos tres Tenentes Generais Leites da Casa de S.
Thomé d’Alfama, cit., pág. 47.
165
  Assim identificado no assento de matrimónio de seu filho Alexandre de Sousa Freire.
166
  TT, Habilitações para a Ordem de Cristo, Maço 1, dil. 3.
167
  Códices de Dom Flamínio de Souza, BGUC, Rolo 1, fl. 54­‑v.
José de Seabra da Silva e a sua Família:
Iconografia e Mobilidade Social no Antigo Regime 131

Dom Afonso VI – e de sua mulher e sobrinha Dona Maria Josefa Madalena


de Sousa Freire168 (ou, como também aparece, D. Maria Madalena Josefa
de Sousa169), os quais casaram em Alenquer, na freguesia da Ventosa, a
3 de Junho de 1668, dispensados no primeiro e segundo grau de consangui‑
nidade170. D. Maria Madalena Josefa de Sousa era a única filha legítima e
por isso herdeira de outro Alexandre de Sousa Freire, comendador de Cristo,
meio­‑irmão de seu marido, Governador de Beja, Governador de Mazagão e
Governador do Brasil, etc., e de sua mulher e prima D. Joana de Távora e
Lima. Quanto à ascendência paterna, a mesma será objecto de outro estudo,
a carecer de ser ainda completado, e que nos desviaria ainda mais da figura
de José de Seabra da Silva.
Retornando assim a José de Seabra da Silva, diga­‑se que este, por
força do matrimónio com D. Ana Felícia, passou a ser senhor de toda a
Casa dos Coutinhos de Coimbra e do Morgado do Soutelo, em Trancoso,
11.º senhor do Morgado de Juro da Redízima da Bahia, etc., e foram pais
tardios de dois filhos rapazes171: (1) Manuel Maria da Piedade Coutinho
Pereira de Seabra e Souza Tavares Horta Amado Cerveira e Távora;
e (2) António Coutinho de Sousa Seabra. O segundo filho nasceu e
foi baptizado em Lisboa, na freguesia de São Sebastião da Pedreira, a
12 de Abril de 1787172, tendo sido «[t]omado no foro de Moço­‑Fidalgo

168
  Assim identificada no seu próprio assento de matrimónio.
169
  Assim identificada no assento de matrimónio de seu filho Alexandre de Sousa Freire.
170
  Foram testemunhas do matrimónio José Furtado de Mendonça e Sebastião da
Costa Côrte­‑Real (MF 2154­‑1).
171
  Teve ainda, fora do matrimónio, uma filha de seu nome D. Delfina Victorina de
Seabra, mas não temos por certo ser filha legítima de José de Seabra da Silva e de Dona
Ana Felícia, pois não encontrámos o respectivo assento de baptismo e no de casamento
diz­‑se apenas que era “irmã do “Excelentíssimo Visconde da Bahia”. Não sabemos quando
nasceu, sendo certo que era viva em 1861, indicando as fontes que vivia em Tomar.
Casou em Lisboa (S. Sebastião da Pedreira), a 16 de Maio de 1811, no oratório da casa
de seu irmão, onde aliás vivia, com José Mouzinho de Sousa Juzarte da Silveira, natural
e baptizado na freguesia de Nossa Senhora da Flora da Rosa (Crato), e filho de Gaspar
Mousinho de Sousa Gumide da Silveira, e de D. Francisca Doroteia Gomes de Brito,
Administrador de um vínculo (Flor da Rosa, Crato). Do matrimónio foram testemunhas
o Conde de Rio Maior, cunhado do Visconde da Bahia, e o Tesoureiro da Igreja de
S. Sebastião da Pedreira, o Padre Domingos Manuel de Castro Araújo. Smn.
172
  Foi baptizado, no oratório da casa de seu Pai com licença do Cardeal Patriarca
eleito, por Fr. Manuel Peixoto Portugal e foram seus padrinhos “o Ex.mo Arcebispo de
Tessalónica, Confessor de Sua Magestade e Inquisidor Geral, por seu Procurador o Ex.mo
Manuel da Cunha de Menezes, e por Madrinha tocou com uma prenda de Nossa Senhora
da Luz, o Ex.mo Visconde de Anadia”. Assinou o assento o Prior José Bernardo do Amaral.
132 Miguel Gorjão­‑Henriques

da Casa Real com mil réis de moradia por mês e um alqueire de


cevada por dia paga segundo ordenança e é foro e moradia que pelo
dito seu Pai lhe pertence» (Alvará de 12 de Maio de 1790)173. Como
tal aparece, aliás, referido no Diccionario Aristocrático do Visconde
de Sanches de Baêna, tendo sido Cavaleiro da Ordem de Malta (antes
de 1804) e morrido à frente da sua companhia, o Regimento n.º 8 na
Batalha do Bussaco, de 27 de Setembro de 1810. José de Seabra ainda
o tinha tentado mudar da infantaria para a cavalaria, conforme consta de
carta autógrafa que a 8 de Março do mesmo ano havia então dirigiu ao
Visconde de Juromenha, para que apresentasse o assunto ao Marechal
[Beresford] mas sem sucesso.
Premonitoriamente, por certo, pois, pouco depois, seu filho António
morreria na Batalha do Bussaco, morto pelos franceses. Era o seguinte
o teor da participação da sua morte, pelo tenente­‑coronel Douglas,

  TT, Mordomia mor da Casa Real, Liv. 4, fl. 148.


173
José de Seabra da Silva e a sua Família:
Iconografia e Mobilidade Social no Antigo Regime 133

Excertos da carta de José de Seabra da Silva a António de Lemos Pereira de Lacerda,


que viria a ser o 1.º Visconde de Juromenha, procurando, sem sucesso, convencer
o Marechal Beresford a transferir o seu filho António da infantaria para a cavalaria,
durante a guerra contra os franceses em 1810

comandante do 8.º Regimento português174, a seu Pai: «Il sera de quelque


satisfaction à la famille de mr. de Seabra da Silva de savoir que mr.
Antonio Coutinho de Seabra est mort dans l’exécution de son devoir à
la tête de sa compagnie. L’ action était vive, et beaucoup de braves gens
sont allés à Dieu – A son excelence mr. de Seabra da Silva = Douglas,
lieutenant coronel du regiment d’ infantarie nº 8.»175

174
  O tenente­‑coronel Douglas foi ferido nas operações – Adrião Pereira Forjaz de
Sampaio, Memorias do Bussaco seguidas de uma viagem á Serra da Louzan, 3.ª edição,
Porto e Coimbra em Casa da Viuva Moré – Editora, 1864, pág. 162, acessível em http://
books.google.pt/books?id=LXsYAAAAYAAJ&dq=douglas%20%20Portugal%20
Bussaco&hl=pt­‑PT&pg=PR3#v=onepage&q&f=false.
175
  António Coutinho Pereira de Seabra e Souza, Breve Traços Biographicos
do Ultimo Senhor da Casa da Bahia, Lisboa, Tip. Mattos Moreira, 1889, pág. 77.
134 Miguel Gorjão­‑Henriques

A ascensão social da Família de José de Seabra da Silva nas duas gerações seguintes:
titulatura de juro e herdade e enlaces matrimoniais com Famílias da nobreza antiga

Por último, olhemos para o percurso da Família na etapa seguinte, atra‑


vés do filho primogénito de José de Seabra da Silva. É preciso notar que,
com ele, a Família de José de Seabra da Silva deu outro salto qualitativo
importante. Como vimos, a Família Seabra começou por ser uma Família de
pequenos lavradores e proprietários para, por sucessivos acrescentamentos
patrimoniais e académicos, ir subindo paulatina mas com firmeza a escada
social. Assim, com o Desembargador e Doutor Lucas de Seabra da Silva,
esta gente passou à nobreza civil e, por vias das letras176, uma das princi‑
pais vias nobilitantes ainda, a integrar a classe da nobreza hereditária do

  Como recorda o prof. António Manuel Hespanha, in «Os poderes, os modelos e os


176

instrumentos de controlo – Os modelos normativos. Os paradigmas literários», in História


da Vida Privada em Portugal – A Idade Moderna, cit., pág. 67, «no plano das distinções
sociais, a ciência produz a nobreza. Ao tratar das fontes, a nobreza política, um dos mais
interessantes (embora dos menos utilizados hoje) tratadistas portugueses desta época, João
de Carvalho, enumera, naturalmente a ciência (ao lado da milícia, do ofício e do privilégio).
Trata­‑se da ciência em geral. Mas logo uma das primeiras citações localiza mais as coisas
– “meritum scientiae Juris civilis ipso jure redit peritum nobilissium”. Assim, a ciência do
direito nobilitava os juristas, sem mais e ao mais alto grau, tornando­‑os credores de todas
as honras por parte dos príncipes (…). Nobreza escalonada, decerto. No primeiro grau, os
doutores aprovados na universidade, para o que se encontrava disposição expressa no direito
português e castelhano. Acima destes, ainda, os lentes há mais de vinte anos, decorados,
mas apenas pelo direito comum, com a dignidade condal (…). Depois, os licenciados, que
gozavam, pelo menos, de alguns dos privilégios da nobreza (privilegia favorabilia, mas
não dos odiosa, i.e., de que podiam resulta ofensa de direitos de outrem) (…). Já quanto
aos bacharéis em geral, duvidava­‑se da sua nobreza (…); mas se fossem advogados, esta
dúvida desaparecia, pois exerciam um ofício nobre (…) que enquanto tal conferia nobreza».
Nobreza política ou nobreza civil, entenda­‑se, i.e. não hereditária. «Do mesmo modo, os
advogados não letrados, “rábulas”, vulgarmente chamados “procuradores do número”
(…), não gozariam de qualquer nobreza, nem o seu ofício se deveria considerar nobre,
antes vil e ínfimo. De entre os advogados, a maior honra ia para os da corte e do fisco;
mas todos eles gozavam de privilégios da nobreza, semelhantes aos dos doutores» (idem,
in «Os poderes, os modelos e os instrumentos de controlo – Os modelos normativos. Os
paradigmas literários», cit., pág. 67).
José de Seabra da Silva e a sua Família:
Iconografia e Mobilidade Social no Antigo Regime 135

Reino. Tratava­‑se, no entanto, de uma Família olhada pela velha nobreza


palaciana e de Corte, que se gloriava de recuar até ao Africano (Dom
Afonso V, 1439­‑1481), com profundo desprezo, como dá nota assertiva
o Marquês de Alorna e se pode ler num texto recentemente publicado177.

Iconografia do filho primogénito de José de Seabra da Silva, Manuel Maria


Coutinho Pereira de Seabra e Sousa, apresentado como 1.º Visconde da
Bahia, de juro e herdade (dir.), e como Conde da Bahia (esq.), Ajudante às
Ordens do Rei D. Miguel I, durante a guerra civil178

O filho primogénito de José de Seabra, baptizado como Manuel mas


que usava o nome de Manuel Maria da Piedade Coutinho Pereira de
Seabra e Souza Tavares Horta Amado Cerveira e Távora (ou Manuel
Maria Coutinho Pereira de Seabra e Sousa179), nasceu e foi baptizado
em Lisboa (S. Sebastião da Pedreira), a 26 de Outubro de 1785180, tendo
morrido em Santarém, a 24 de Outubro de 1833, julgamos que em ope‑
rações militares ao serviço do Rei Dom Miguel I.

177
  Marquês de Alorna, Memórias Políticas – apresentação de José Norton, Tribuna
da História, 2008, pp. 89­‑93.
178
  Quadros ilustrativos do 1.º Visconde e Conde da Bahia – Colecção particular.
179
  Assim aparece no seu assento de matrimónio.
180
  TT, Registos Paroquiais de S. Sebastião da Pedreira, Baptismos, Liv., fl. 295­
‑295v. Foi baptizado «na Ermida das Casas do Excelentíssimo José de Seabra da Silva,
sita no destrito desta freguesia de S. Sebastião da Pedreira, Frei Manuel Peixoto, com
licença do Eminentísimo Senhor Cardeal Patriarca, baptizou (…)». Foi padrinho o
Marquês de Castelo Melhor tendo tocado o Avô Nicolau e por madrinha «invocaram a
Virgem Nossa Senhora da Piedade».
136 Miguel Gorjão­‑Henriques

Excerto do assento de baptismo do 1.º Visconde da Bahia

«Tomado no foro de Moço­‑Fidalgo da Casa Real com mil réis de


moradia por mês e um alqueire de cevada pró dia paga segundo orde‑
nança e é foro e moradia que pelo dito seu Pai lhe pertence» (Alvará de
12 de Maio de 1790)181. Foi o 1.º Visconde da Bahia (de juro e herdade,
com duas vidas fora da Lei Mental – Decreto da Rainha D. Maria I de
16 de Junho de 1796182), obtendo depois o aposentamento correspondente
ao título (Carta de 5 de Julho de 1796)183 foi mais tarde feito 1.º Conde
da Bahia pelo Rei D. Miguel I, no mesmo mês em que morreu (Decreto
do Rei D. Miguel I, 2 de Outubro de 1833)184.
Cavaleiro da Ordem de Cristo, de que teve o Hábito (Carta de profissão,
de 23 de Junho de 1796)185. Comendador de N.ª Sr.ª da Conceição de Vila

  TT, Mordomia mor da Casa Real, Liv. 4, fl. 148.


181

182
  TT, Registo geral das mercês de D. Maria I, Liv. 18, fl. 276v­‑277v.; TT,
Chancelaria de D. Maria I, Liv. 42, fl. 77v.­‑79.
183
  TT, Registo Geral de Mercês de D. Maria I, Liv. 18, fl. 282.
184
  Em www.geneall.pt é indicada a data de 3 de Setembro de 1833. Ainda não
encontrámos o decreto e a carta respectiva. São as seguintes as armas dos Condes da
Bahia: «Escudo cortado, tendo o campo superior novamente cortado: 1.º, de Coutinhos,
e 2.º partido – 1, de Pereiras, e II, de Hortas; e o inferior partido, sendo a 1.ª partição
(correspondente ao 3.º quartel dum esquartelado) cortada – 1, de Seabras, e II, de
Sousas (do Prado), e a 2.ª (correspondente ao 4.º quartel) cortada – 1, de Amados e
II, de Cerveiras. Elmo aberto, gradeado, posto de perfila e encimado por uma coroa
de Conde. Timbre: dos Coutinhos. Suportes: dois leões» – Ruy Dique Travassos Valdez,
Subsídios para a Heráldica Tumular Moderna Olisiponense, 2.ª ed., Porto, 1994 (1.ª ed.: 1950),
vol. II, pág. 74.
185
  TT, Registo Geral de Mercês de D. Maria I, Liv. 28, fl. 58.
José de Seabra da Silva e a sua Família:
Iconografia e Mobilidade Social no Antigo Regime 137

Viçosa (Carta de 12 de Dezembro de 1825)186. Comendador de St.ª Maria de


Torre Deita da Ordem de Cristo no Bispado de Viseu, em duas vidas, «além
de outras [razões], em memória do seu Avô primeiro donatário [da Capitania
da Bahia­‑de­‑Todos­‑os Santos] a quem representa» (Alvará de 21 de Junho
de 1796187, na sequência de Despacho régio de 13 de Maio de 1796)188, e
de duas vidas na Comenda de São Miguel de Oliveira de Azeméis (Alvará
de 21 de Junho de 1796)189. Participou nas Cortes de 1828 que aclamaram
Dom Miguel I no Braço da Nobreza, nos termos da relação que se junta:

Gazeta de Lisboa: Relação dos representantes pelos Braços do Clero e da Nobreza nas
Cortes de 1828 que aclamaram Dom Miguel I, incluindo, entre outros, o Visconde da
Bahia (por si e como procurador de vários titulares)

186
  TT, Registo Geral de Mercês de D. João VI, Liv. 21, fl.87. Segundo a Gazeta de
Lisboa, n.º 180, de 1 de Agosto de 1818, foi feito Comendador da Ordem de Nossa Senhora
da Conceição por Despacho régio de 13 de Maio de 1818, dia de aniversário do Rei Dom
João VI, juntamente com, entre outros, o Marquês de Torres Novas, o Marquês de Valada,
o Conde dos Arcos, o Conde de Parati ou o Ministro Plenipotenciário José Correia da Serra.
187
  TT, Registo Geral de Mercês de D. Maria I, Liv. 28, fl. 99v.
188
  TT, Registo geral das mercês de D. Maria I, Liv. 18, fl. 277v.
189
  Que seu Pai já tinha em duas vidas. Mas o Alvará determina uma vida mais,
cumprindo o Visconde da Bahia a primeira vida – TT, Registo Geral de Mercês de
D. Maria I, Liv.18, fl. 277v.
138 Miguel Gorjão­‑Henriques

12.º Senhor do Morgado da Redízima da Bahia, 20.º morgado de


S. João da Ribeira (Santarém), 4.º morgado de Lobão e de Fail, 8.º mor‑
gado de Figueiró dos Vinhos, 9.º senhor do morgado dos Coutinhos de
Coimbra e senhor do morgado dos Hortas, em Setúbal.

Relatório do Conde de S. Lourenço, Comandante em Chefe do Exército em


Operações, publicado na Gazeta de Lisboa de 13 de Abril de 1833, referindo o
Visconde da Bahia pai, Ajudante às Ordens do Rei, e o Visconde da Bahia filho,
Cadete do 1.º Regimento de Cavalaria de Lisboa

Capitão de Cavalaria do Exército, condecorado com a medalha


das 3 campanhas da Guerra Peninsular, foi Oficial do Exército do Rei
D. Miguel e seu Ajudante de Ordens, etc. Sucedeu na opulenta Casa de
seus Pais e na Administração da Casa de sua mulher. Esteve no Rio de
Janeiro em 1818190. Deve dizer­‑se que, no decreto de criação do viscon‑
dado da Bahia, D. Maria II expressamente o fundamentava, igualmente,
nos «serviços e trabalhos de (…) José de Seabra da Silva, ministro e
secretário de estado dos negócios do reino».
Como já vimos, a Casa Bahia tinha bons rendimentos e vários vín‑
culos191. Quanto aos rendimentos, podemos dizer que, no ano de 1829,
os rendimentos previsíveis, só em rendas, eram superiores a 10:049$820

  Aí chegou a 20.4.1818, no navio Canoa, estando com a Corte, tendo escrito a sua
190

mulher a 24 do mesmo mês, carta cuja cópia possuímos. Na mesma altura, com ele esta‑
vam o Conde de Rio Maior, os Condes da Ponte e Família, e os Viscondes de Santarém.
191
  Quanto a estes, vide em anexo, no fim do presente título, a cópia do esquema
que, ainda no séc. xix, foi publicado por António Coutinho Pereira de Seabra e Sousa.
José de Seabra da Silva e a sua Família:
Iconografia e Mobilidade Social no Antigo Regime 139

Outro excerto da Carta de Visconde da Bahia, onde a Rainha se refere aos serviços
de José de Seabra da Silva e à “representação” pelo seu filho do 1.º Capitão Donatário
da Bahia de Todos os Santos

réis, sendo que os rendimentos mais significativos provinham de Coimbra


(4000$000 réis). Em 1830 e 1831, a Casa estava sob administração,
porventura devido à situação de guerra e ao serviço que o Visconde da
Bahia prestava, que o impedia de estar à frente da Administração da sua
Casa. Disso são exemplos dois anúncios publicados na Gazeta de Lisboa
de 1830 (páginas 710 e 1108).

Gazeta de Lisboa, de 27 de Julho de 1830 e de 18 de Novembro de 1830, página 1108


140 Miguel Gorjão­‑Henriques

A elevação à grandeza, com a concessão do título de Conde da Bahia,


marca mais um passo na ascensão, tanto mais significativo quanto era
também sinal de uma proximidade e cumplicidade com a causa legitimista
que seria vivida até à morte. Com efeito, o Conde da Bahia deu a sua
vida pela causa do Rei Dom Miguel I, sendo a sua acção ainda louvada
no Relatório de operações que o General Galvão Mexia apresentou a
31 de Outubro de 1833, como foi publicado, pelos liberais, em termos
que aqui se recordam:

Excertos da Ordem do Dia do Exército legitimista, de 26 de Outubro de 1833,


publicada na Chronica Constitucional de Lisboa, n.º 115, de 6 de Dezembro de 1833,
pp. 641­‑643, referindo o Conde da Bahia
José de Seabra da Silva e a sua Família:
Iconografia e Mobilidade Social no Antigo Regime 141

Assento de matrimónio do 1.º Visconde da Bahia com D. Ana Isabel de Saldanha


de Oliveira (Rio Maior, dos Morgados de Oliveira) (1803)

Como se verá, ao subir à titulatura, e logo de juro e herdade, a Família


de José de Seabra deu outro salto para o nível mais elevado, em termos
formais, da nobreza hereditária portuguesa. Mas, culminando o processo, José
de Seabra da Silva logrou que seu filho transpusesse o último reduto social
(ainda antes da subida formal à grandeza, em termos jurídico­‑nobiliárquicos,
o que apenas sucederia em 1833), ao ligar­‑se matrimonialmente a uma das
mais antigas e notáveis Famílias portuguesas, os “Saldanha de Oliveira e
Sousa”, Família ilustre na varonia Saldanha por actos notáveis na guerra
desde o famoso António de Saldanha, o da Aguada192, no início do século xvi,

192
  António de Saldanha, o da Aguada, foi Comendador de Casével na Ordem de Cristo,
Capitão de Sofala (1505), passou à Índia por cinco vezes (a partir de 1503). Capitão­‑mor
das naus de carreira (1521 e General da Armada que D. João III enviou em auxílio do
Imperador Carlos V, contra Tunes, ocupada pelo corsário Barbaroxa: por, no dizer do
142 Miguel Gorjão­‑Henriques

mas que sucedia em vários dos mais importantes e rendosos vínculos portu‑
gueses, como o morgadio de Oliveira, cujo poder económico e antiguidade
era tão notável que basta dizer que, quando Dom João II mandou o seu
filho natural o Senhor Dom Jorge para a Corte, para ser educado junto a
seu irmão o Príncipe Dom João, após a morte da Princesa D. Joana (Santa
Joana, Princesa), «forão ao Paço, em que ElRey então estava naquella
Cidade, e erão as casas de João Mendes de Oliveira, Morgado de Oliveira»,

Excertos da carta enviada pelo 1.º Conde de Rio Maior a D. Ana Felícia Coutinho,
mulher de José de Seabra da Silva, relativamente ao ajuste do matrimónio de sua
filha D. Ana Isabel com o 1.º Visconde da Bahia, numa altura em que José de Seabra
estava desterrado pelo Rei e proibido de vir a Lisboa

cronista de D. João III (Andrada), a sua «nobreza, esforço & pratica & e experiencia nas
cousas da guerra, pollos muytos seruiços que fez a ElRey &e a este Reyno nas partes
da India, se podia seguramente fiar a honra & e credito deste reyno num negocio taõ
pubrico & de tanta importancia». Morreu com 78 anos, em 1553. Dele dizia um poeta:
««Antonio invicto, que rasgando os mares,/«Só com o seu nome espanta/«Arabes, Persas,
Rumes, Malabares…/«Oh quantas vezes, trovejando horrendo,/«Neptuno ao vello, de
temor cortado,/«No fundo se escondeo no mar salgado!». Casou três vezes, a última das
quais com Joana de Mendonça, filha legítima de Aires de Sousa, de varonia real, e de
sua mulher D. Violante de Mendonça, descendendo deste casal esta Família.
José de Seabra da Silva e a sua Família:
Iconografia e Mobilidade Social no Antigo Regime 143

como nos diz Dom António Caetano de Souza, na sua monumental História
Genealógica da Casa Real Portuguesa193.
Assim, numa altura em que José de Seabra da Silva estava desterrado
da Corte por se ter oposto à assunção da regência pelo Príncipe Dom
João sem recurso às Cortes Gerais, o seu filho casou, na freguesia de São
José, em Lisboa, a 8 de Setembro de 1803194, com D. Ana Isabel Zeferina
Antónia Domingas Vicência de Saldanha de Oliveira195 e Daun, que havia
nascido em Lisboa a 26 de Agosto de 1783 e sido baptizada na freguesia de
S. José a 3 de Setembro de 1783196 (morreu em 24 de Março de 1853)197,
filha de João Vicente de Saldanha de Oliveira e Sousa Juzarte Figueira,
16.º Morgado de Oliveira e depois 1.º Conde de Rio Maior – que nasceu a
22 de Maio de 1746, tendo sido baptizado em Lisboa, na paróquia da Encarnação,
a 29 de Maio do mesmo ano198 e morreu a 26 de Janeiro de 1804, com
57 anos; Moço­‑Fidalgo com Exercício no Paço, logo acrescentado a Fidalgo
Escudeiro (Alvarás de 18.4.1771199 e de 27.4.1771); 1.º Conde de Rio Maior,
por ocasião do baptismo do Rei Dom Miguel (Decreto de 19 de Novembro
de 1802, publicitado na Gazeta de Lisboa de 30 de Novembro, e Carta de
8 de Janeiro de 1803200); 16.º senhor do Morgado de Oliveira e do Val de

193
  De igual modo, também não foi por acaso que o Marquês de Pombal quis casar
uma das suas três filhas com o morgado de Oliveira – assim o conta nas suas Memórias
o Cardeal Patriarca Dom José de Mendoça: «Seguiu­‑se o cazamento da terceira filha,
com o Morgado de Oliveira. Fidalgo illustrissimo, que se achava despachado, por ter
seu Pay falecido sem Mercê dos bens de Coroa e ordens, que logo obteve com impor‑
tantes cahidos, e muitas vantagens para a sua Caza, com a Chavee da Camara do Infante
D. Pedro (…)» (in D. Filipe Folque de Mendóça, op. cit., pág. 215).
194
  Foram testemunhas «o Ex.mo António Coutinho Seabra Sousa, Cavalheiro rece‑
bido na Sagrada Religião de Malta, e o Ex.m Lucas de Seabra da Silva, do Conselho
de S.A.R. o Príncipe Regente Nosso Senhor, Seu Desembargador do Paço e Chanceler
da Casa da Suplicação». O seu Pai estava então proscrito na Quinta do Canal e não
assistiu ao matrimónio (TT, Registos Paroquiais de Lisboa, S. José, Liv. 13­‑C, fl. 174v.).
195
  Assim aparece nomeada no seu assento de matrimónio.
196
  Os nomes próprios constam todos do assento de baptismo – TT, Livro de Baptismos
de S. José, fl. 6.
197
  Encontra­‑se no jazigo dos Condes da Bahia, no Cemitério dos Prazeres – Ruy
Dique Travassos Valdez, Subsídios para a Heráldica Tumular Moderna Olisiponense, 2.ª ed.,
Porto, 1994 (1.ª ed.: 1950), vol. II, pág. 74.
198
  Foram padrinhos cremos que seu Avô D. Luís José de Portugal e D. Maria Inês
de Saldanha, por seu procurador o Conde de Castelo Melhor, D. José de Vasconcelos.
199
  TT, Registo Geral de Mercês de D. José I, Liv. 24, f. 318.
200
  Luís Moreira de Sá e Costa, S.J., Descendência dos 1.os Marqueses de Pombal, cit., pág. 191.
144 Miguel Gorjão­‑Henriques

Sobrados201 e Senhor do morgado de Barcarena, da Quinta da Azinhaga,


«do Conselho de Estado, Grã­‑Cruz da Ordem de Cristo, Gentil­‑Homem
da Câmara de S.A.R. o Príncipe Regente Nosso Senhor e Inspector Geral
do Terreiro de Lisboa»202; Cavaleiro professo na Ordem de Cristo, de que
teve carta de hábito e alvarás de Cavaleiro e de profissão a 2 de Junho
de 1769203; sucessor de seu Pai e Avós nas Comendas de Santa Maria da
Torre, da Prelazia de Tomar, por nova mercê régia, por se ter extinguido «a
última vida que tinha a sua Casa na Comenda de Santa Maria da Torre, na
Prelazia de Tomar da Ordem de Cristo» (mercê de 4 de Junho de 1769204;
teve depois carta régia de 2.10.1770205; passando exactamente o mesmo
com as Comendas de S. Martinho de Santarém (carta de 4 de Junho de
1769206; Carta de 2.10.1770207) e de Santa Maria de África (4 de Junho de
1769; carta de 2 de Outubro de 1770208), todas da Ordem de Cristo; tença
de 100$000 réis num dos almoxarifados do Reino e uma vida mais (?) na
dita tença (Portaria de 3.7.1788 e Carta de Padrão de 31.7.1788209); teve
depois 500$000 réis de tença com uma vida mais na dita tença (Portaria
de 25.2.1790210); o mesmo ano, em Novembro, teve mercê da Comenda de
S. Salvador de Fornelos no Arcebispado de Braga (Alvarás de 13.11.1790211
e de 12.3.1791), obtendo ainda mercê de uma vida nas três comendas
de que teve mercê (Alvará de 13.11.1790212); em 1793, teve o título de
Conselho (Carta de 11.1.1793213); em 1795, obteve mercê da Comenda de
S. Salvador de Maiorca na Ordem de Cristo, no Bispado de Coimbra, em

201
  Uma listagem dos foros que pertencem aos morgados de Oliveira e Vale de Sobrados
em 1811 consta do Arquivo da Casa Rio Maior, na Torre do Tombo (Maço 47: doc. 10).
202
  Assim aparece nomeado no assento de matrimónio de sua filha D. Maria Ana Isabel.
203
  TT, Chancelaria da Ordem de Cristo, Liv. 292, fls. 215­‑216v.
204
  TT, Chancelaria da Ordem de Cristo, Liv. 292, fl. 239­‑240v., invocando João de
Saldanha Oliveira e Sousa em favor de nova mercê «as grandes ruínas que o terramoto
do primeiro de Novembro de 1755 causou na sua Casa e dos encargos que nela ficaram
não poderia conservar a sua Casa com a conveniente decência». A comenda havia vagado
por morte de seu Pai, que era nela comendador.
205
  TT, Registo Geral de Mercês de D. José I, Liv. 22, f. 386.
206
  TT, Chancelaria da Ordem de Cristo, Liv. 292, fl. 240v.­‑241.
207
  TT, Registo Geral de Mercês de D. José I, Liv. 22, f. 384.
208
  TT, Chancelaria da Ordem de Cristo, Liv. 292, fl. 241­‑242.
209
  TT, Registo Geral de Mercês de D. Maria I, Liv. 23, f. 339.
210
  TT, Registo Geral de Mercês de D. Maria I, Liv. 23, f. 341v.
211
  TT, Registo Geral de Mercês de D. Maria I, Liv. 23, f. 342.
212
  TT, Registo Geral de Mercês de D. Maria I, Liv. 23, f. 342.
213
  TT, Registo Geral de Mercês de D. Maria I, Liv. 22, f. 111v.
José de Seabra da Silva e a sua Família:
Iconografia e Mobilidade Social no Antigo Regime 145

substituição da de S. Salvador de Fornelos (Alvará de 21.4.1795214 e Cartas


de 2.3.1796 e de 11.4.1796215); Grã­‑Cruz da Ordem de Cristo, Deputado
da Junta Provisória do Erário Régio e Inspector­‑Geral do Terreiro Público
(após o falecimento do anterior titular, o Conde de Valadares, a 17.11.1792)
– e de sua mulher, com quem se matrimoniou em Lisboa, na freguesia da
Ajuda, a 10 de Setembro de 1769216, D. Maria Amália de Carvalho e Daun,
n. Lisboa (Ajuda), a 15.8.1756 e f. 16.9.1812, filha legítima de Sebastião
José de Carvalho e Melo, 1.º Conde de Oeiras e 1.º Marquês de Pombal,
etc. e de sua segunda mulher D. Leonor Ernestina Eva Volfanga Josefa von
und zu Daun auf Sassenheim und Callaborn217, Condessa de Daun. 218 Os 1.os
Viscondes da Bahia foram pais de onze filhos, cinco rapazes e seis raparigas.

Assinatura de João de Saldanha e Oliveira e Sousa, morgado de Oliveira, no assento


de matrimónio de D. Diogo de Mendonça Côrte­‑Real com D. Maria Bernardina
de Sousa Tavares (1796)

Notícia do matrimónio na Gazeta de Lisboa, n.º 37, de 17 de Setembro de 1803

214
  TT, Registo Geral de Mercês de D. Maria I, Liv. 27, f. 346v.
215
  TT, Registo Geral de Mercês de D. Maria I, Liv. 19, f. 358.
216
  Foram testemunhas o Conde da Ponte e D. José de Portugal.
217
  Marquês de São Paio, O Tenente­‑General 1.º Marquês de São Payo (1762­‑1841),
Academia Portuguesa de História, Lisboa, 1958, pág. 11­‑12 (informação que agradecemos
ao Dr. Miguel Nuno de Saldanha Melo e Alvim).
218
  Luís Moreira de Sá e Costa, op. cit., pp. 191, 240, 169, 353, 372, 389, 422, 5,
224, 192 e 171 e 193.
146 Miguel Gorjão­‑Henriques

Conclusões sobre a evolução do estatuto social da Família de José


de Seabra da Silva
A evolução social da Família Seabra é paradigmática da forma e
vias tradicionais da ascensão social na sociedade portuguesa do Antigo
Regime. Começando por ser uma família do povo (geração de Domingos
de Seabra), passa na geração seguinte a viver “à lei da Nobreza”, situa‑
ção que significava antes do mais uma emulação do modo de vida das
classes ou grupos sociais superiores, mas que não significava qualquer
reconhecimento jurídico de uma ascensão social mas, quando muito, o
reconhecimento fáctico de uma ascensão económica e, se social, apenas
em regra no contexto local (geração de Gregório da Silva). Na terceira
geração, dá­‑se o primeiro salto qualitativo. Ao formar­‑se em Coimbra,
seguir os lugares de letras e ingressar na magistratura, Lucas de Seabra
da Silva passa a integrar a nobreza civil ou, de modo muito claro, o
“estado do meio” de que se falava219, mas acederia ele próprio ao nível
seguinte da nobreza política do Estado, o da nobreza hereditária ou natural,
através, em particular, da sua incorporação como fidalgo do livro, como
depreciativamente chamavam alguns (livros estes – livros de matrículas
de moradores da casa real, ou mordomia­‑mor – nos quais, contudo, todos
faziam, até ao liberalismo, questão em estar). É certo que as categorias,
apesar de alguma fluidez, conheciam aqui uma separação conceitual

  Sobre o ponto, Nuno Gonçalo Monteiro, «Poder Senhorial, Estatuto Nobiliárquico


219

e Aristocracia», História de Portugal – O Antigo Regime, cit., pp. 298­‑299, que fala
no «conceito de “nobreza civil ou política” (por oposição a nobreza natural), já perfei‑
tamente incorporado na literatura jurídica, e não só, do século xvii./A adopção deste
conceito não deixou de deparar com resistências, desde logo no plano dos princípios. (…)
A prazo, porém, aquele conceito acabará paulatinamente por se impor na prática de muitas
instituições, contribuindo não apenas para a distinção entre nobreza e fidalguia (mais
restrita), mas ainda para a efectiva “banalização” das fronteiras da nobreza portuguesa,
tornadas das mais difusas da Europa.» Como mais recentemente sintetizava Francisco de
Vasconcelos: «Quanto a Portugal, podemos configurar o universo (mais ou menos) nobi-
liárquico antes do Liberalismo como bastante vasto e abrangendo dois círculos, o primeiro
dos quais englobava todos os que tinham alguns privilégios da nobreza ou eram nobres
a título pessoal, como os “privilegiados” da nobreza civil ou da “simples nobreza”, por
vezes também chamada “estado do meio”, e da qual faziam para os oficiais do exército,
doutores, advogados, desembargadores, professores régios, negociantes matriculados na
Junta do Comércio, cavaleiros e escudeiros./Todos estes, e ainda os que “viviam à lei
da nobreza” constituíam aquilo a que em Espanha se chamava a “nobreza de posse de
estado” e em França a nobreza pessoal, que assentava nos cargos ou modo de vida e só
durava enquanto eles se mantivessem» (Francisco de Vasconcelos, A nobreza do Século
XIX em Portugal, cit., pp. 26­‑27).
José de Seabra da Silva e a sua Família:
Iconografia e Mobilidade Social no Antigo Regime 147

clara, mesmo dentro da geralmente chamada “nobreza”, separação esta


entre a nobreza civil (conceito jurídico extinto com o sistema constitu‑
cional) e a nobreza hereditária (conceito que o sistema constitucional,
no século xix, veio a manter com o conteúdo puramente honorífico220 e
que a República extinguiu).
Assim, de um lado estava a chamada nobreza civil, que era uma nobreza
essencialmente meritocrática e baseada – e portanto, no limite do meu
tempo, sem exaustividade – na detenção de qualificações académicas (os
letrados e a conhecida nobreza de toga), no desempenho de determinadas
funções régias ou até junto das instituições políticas (por exemplo, certos
ofícios camarários, como vereadores, almotaçés, etc., alguns até hereditá‑
rios221), religiosas (a presença nas mesas das misericórdias como “membros
nobres” ou como “membros honrados”), militares ou até na obtenção de
determinadas honrarias (como os Hábitos das Ordens religiosas de cariz
militar, como as Ordens de Cristo, Aviz e Sant’iago). Esta nobreza tinha
uma significativa ascendência social e fáctica na sociedade e um grande
prestígio pessoal e político (basta recordar que, nos períodos em que se
realizaram cortes gerais em Portugal – o que não foi o caso da época em
que viveu José de Seabra da Silva e, de todo, a época sobre a qual aqui
se escreve – os Conselheiros de Estado efectivos e os Desembargadores
integravam o braço da nobreza). Integravam esta categoria, por definição,
os Bacharéis, os Lentes da Universidade portuguesa e os altos comandos
militares (Dona Maria I veio mesmo a estabelecer que a mera promoção
ao posto de General dava direito a requerer um foro grande da Casa Real
e assim ingressar na nobreza hereditária, bastando requerê­‑lo… mas era
necessário que se requeresse).
Mas do outro lado estava a nobreza hereditária, a qual, por seu turno,
se distinguia em três grandes níveis, do ponto de vista legal222, que os
220
  O conhecido e notável livrinho de Philippe du Puy de Clinchamps chama à nobreza
do século xix a “nobreza decorativa” (La noblesse, Col. Que Sais­‑Je?, Puf, Paris, 1959,
pág. 73), por contraposição à “vraie noblesse” du Ancién Regime (cit., pág. 7).
221
  Sobre estes cargos e a mobilidade social inerente, v. Nuno Gonçalo Monteiro,
«Elites locais e mobilidade social em Portugal nos finais do Antigo Regime», in
Análise Social, Vol. XXXIII (141), 1997, 2.º, pp. 335­‑368; António Manuel Hespanha,
A Mobilidade Social na Sociedade do Antigo Regime, 2006 (disponível em http://www.
scielo.br/pdf/tem/v11n21/v11n21a09.pdf).
222
  Já a concluir este trabalho topámos com o recentíssimo artigo do prof. António
Manuel Hespanha, A Nobreza dos Tratados Jurídicos dos Seculos XVI a XVIII, que
pode ser consultado em https://sites.google.com/site/antoniomanuelhespanha/home/
textos­‑selecionados.
148 Miguel Gorjão­‑Henriques

Autores depois classificam de forma diversa e com mui diverso aparato


e categorias, tentando navegar na indeterminação formal da legislação
avulsa ou sistemática que foi sendo produzida desde pelo menos o século
xvi, com o novo regimento dado em 3 de Janeiro de 1572 pelo Rei Dom
Sebastião. No seu topo estavam os titulares223 (onde ascendeu o filho de
José de Seabra) e, creio, também os alcaides­‑mores e os senhores de ter‑
ras com jurisdição. Deve dizer­‑se que, embora as Alcaidarias mores e os
Senhorios de terras com jurisdição fossem em geral hereditários (ainda que
sujeitos, porventura a confirmação régia), já os títulos distinguiam­‑se entre
títulos em vida (onde se integravam quase todos ou, pelo menos, mais de
90%224) e a categoria excepcional dos títulos de juro e herdade, que contou
sempre pouquíssimos exemplos nos 767 anos (1143­‑1910) da monarquia
portuguesa (sendo que um deles foi justamente o concedido ao filho de
José de Seabra da Silva). Num segundo nível estavam os Fidalgos, que
na sua classificação mais simples se dividiam pelos seus “Foros”225 entre
(i) Moços­‑Fidalgos (o grau menor mas o mais apetecido, pois podiam ter
“exercício no Paço”, junto ao Rei, com os benefícios porventura daí ineren‑
tes – como vimos, era o foro que se dava aos filhos dos Desembargadores,
que José de Seabra teve) (ii) os Fidalgos Escudeiros226 e, no topo deste
segundo nível (iii) os Fidalgos Cavaleiros (o chamado “foro grande”,
que a Família Seabra da Silva teve, na pessoa do Desembargador Lucas
de Seabra da Silva, pai de José de Seabra, e que se transmitia aos filhos
e netos paternos por via legítima sem necessidade de qualquer consulta
ao Rei, por mero requerimento junto do Mordomo­‑Mor, instruído com

223
  Com a seguinte hierarquia: Duques, Marqueses, Condes (títulos com grandeza
em si mesmos), Viscondes e Barões. Por sua vez, os títulos eram juridicamente distintos.
A regra era a de que os títulos eram concedidos em vida do agraciado, voltando para a
Coroa com a morte deste (podendo o Rei depois concedê­‑lo, ou não, a quem quisesse,
da mesma Família ou de qualquer outra). Excepcionalmente, o Rei concedia títulos
hereditários, transmissíveis por morte para o varão primogénito (e assim sucessivamente)
nos termos da Lei Mental. Caso não fosse possível esta, o título retornaria também para
a Coroa, salvo dispensa régia, o que podia suceder por concessão na própria carta do
título, normalmente por uma ou duas vidas. Mas tinha que estar formalmente prevista.
224
  Francisco de Vasconcelos, A nobreza do século xix em Portugal, diss. Mestrado,
Centro de Estudos de Genealogia, Heráldica e História da Família da Universidade
Moderna do Porto, 2003, pág. 18.
225
  Vide Nuno Gonçalo Pereira Borrego, Mordomia­‑mor da Casa Real – Foros e
Ofícios 1755/1910, Tomo I, pp. 56­‑63.
226
  Em que eram em regra acrescentados os Moços­‑Fidalgos, aos 14 anos – Nuno Gonçalo
Pereira Borrego, Mordomia­‑mor da Casa Real – Foros e Ofícios 1755/1910, Tomo I, pág. 58.
José de Seabra da Silva e a sua Família:
Iconografia e Mobilidade Social no Antigo Regime 149

a documentação comprovativa)227. No contexto da sociedade política do


Antigo Regime, como escrevia o Dr. Luís da Silva Pereira Oliveira, na
conhecida Obra Privilégios da nobreza e fidalguia de Portugal, “as pessoas
condecoradas com estes Foros constituem a principal Nobreza depois dos
títulos”228, e, como recordou recentemente a Mestra Maria Inês Versos,
só aos filhados na “primeira classe” da nobreza (com um dos chamados
“foros grandes”), «subdividida numa hierarquia que se iniciava com o
foro de moço fidalgo, seguindo­‑se fidalgo escudeiro e fidalgo cavaleiro,
se reconhecia verdadeiramente o estatuto de fidalgo»229.

227
  Entre os fidalgos, havia ainda distinções em função da moradia que tinham, ordi‑
nária (a de Fidalgo Cavaleiro era de 1600 réis por mês e um alqueire de cevada por dia,
mas podia ir a 7250 réis, no caso de Fidalgos de grande qualidade, como eram o Duque
Mordomo­‑Mor ou os Marqueses de Ferreira, entre outros; a de Moço­‑Fidalgo era de 1000
réis e a de Fidalgo Escudeiro era de 1250 réis) ou acrescentada (Nuno Gonçalo Pereira
Borrego, Mordomia­‑mor da Casa Real, cit., pp. 60­‑62), e, claro, da sua antiguidade. Não
se diga que a moradia era coisa despicienda, conquanto a partir de meados do século xvi
deixasse de ser cobrada, a não ser pelos fidalgos que prestassem serviço na Corte. Assim,
Ferreira de Vera (apud D. Luís da Costa de Sousa de Macedo, «Apresentação», em Nuno
Gonçalo Pereira Borrego, Mordomia­‑mor da Casa Real – Foros e Ofícios 1755/1910,
Tomo I, pág. 15, afirmava que «entre os mais aventajados he grande ventaje na honra
ter mais real de foro», acrescentando que “He tanto assim, que Fernão de Magalhães…
por se lhe não querer acrescentar hum tostão mais em sua moradia… se agravou de tal
maneira que se passou para o Imperador Carlos V»…
228
  Privilégios da nobreza e fidalguia de Portugal, offerecidos ao Excellentissimo
Senhor Marquez de Abrantes, D. Pedro de Lencastre Silveira Castello Branco Vasconcellos
Valente Barreto de Menezes Sá e Almeida pelo seu Author Luiz da Silva Pereira Oliveira
Cavaleiro Professo na Ordem de Christo Corregedor da Comarca de Miranda do Douro,
natural de Fontellas e Socio da Real Academia das Sciencias de Lisboa¸1806, pág. 231,
que se pode consultar em. http://books.google.com/books?id=1_dHAAAAMAAJ&pg=
PA44&dq=privil%C3%A9gios+da+nobreza&hl=pt­‑PT.
229
  E daí que as provas da Ordem de Malta, a partir do séc. XVII e até ao século
xix, exigissem prova por documento autêntico dos “foros grandes” dos 4 avós, como
também dá conta a mesma Maria Inês Versos, Os Cavaleiros da Ordem de S. João de
Malta em Portugal de Finais do Antigo Regime ao Liberalismo, Dissertação de Mestrado
em Sociologia e Economia Históricas, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da
Universidade Nova de Lisboa, 2003, policopiado, pp. 221­‑223, 232­‑239 e 253, seguindo
aqui também o mesmo Luís da Silva Pereira Oliveira, Privilégios da nobreza e fidalguia
de Portugal, cit., pp. 221­‑222, onde dizia: que «deu ele [o Rei Dom Sebastião] Regimento
ao Mordomo Mor, datado de três de Janeiro de 1572, e nele ordenou que os Cavaleiros
Fidalgos fossem em diante nomeados Fidalgos Cavaleiros, e que os Escudeiros Fidalgos
passassem à denominação de Fidalgos Escudeiros; e não havendo nisto mais diferença que
a de antepor o vocábulo Fidalgo ao de Cavaleiro, ou de Escudeiro, há contudo hoje uma
notável distinção e desigualdade entre uns e outros, e vem a ser: que o Fidalgo Escudeiro,
150 Miguel Gorjão­‑Henriques

E, finalmente, num terceiro nível, que consoante as perspectivas estava


dentro ou fora da categoria dos “Fidalgos” mas integrava incontestavelmente
a nobreza hereditária230, estavam, por ordem crescente, os (i) Escudeiros231,
(ii) os Cavaleiros d’El­‑Rey e os Cavaleiros confirmados232, os (iii) Moços

ou Cavaleiro, é verdadeiro Fidalgo, e o Escudeiro, ou Cavaleiro Fidalgo não o é e// e


fica diferindo tanto um do outro, como o ouro do dourado» (itálico do próprio Autor,
que cita “palavras de Moraes de Execut. Liv. 44.c.8. n. 68. V. Ferreir. Supr. pag. 39”).
230
  O regime constitucional (Constituição de 1822, Carta Constitucional de 1826,
Constituição de 1838 e Carta, novamente) extinguiu a nobreza civil e manteve a nobreza
hereditária apenas como categoria honorífica, extinguindo­‑se todos os seus privilégios
jurídicos. A Constituição de 1911 veio, pois, extinguir apenas uma categoria a que já
não correspondia qualquer direito subjectivo ou pretensão jurídica.
231
  A categoria dos Escudeiros integra na nossa opinião a nobreza hereditária, mas
começou a perder peso a partir do séc. xv, principalmente a partir de D. Afonso V, que,
no dizer de Pascoal de Melo, «quis que se chamassem nobres principalmente aqueles que
ele mesmo inscreveu num livro de nobres especiais, os quais se chamam propriamente
fidalgos», em categorias que D. João III e D. Sebastião desenvolveram e reformaram. No
entanto, é certo que o estatuto de “Escudeiro da Casa” era um inequívoco signo de pertença
à nobreza hereditária. A perda de peso, porventura, levou a que alguns Autores já puses‑
sem em dúvida a sua pertença à nobreza, nos séculos de xvi e xvii (assim, Armando de
Castro, A estrutura Dominial Portuguesas dos séculos xvi a xix (1834), Lisboa, Caminho,
1992, pág. 26, apud Maria Margarida de Sá Nogueira Lalanda, A sociedade micaelense no
século xvii (Estruturas e comportamentos), FCG, 2002, pág. 275, nota 190). Na época de
José de Seabra da Silva, de qualquer forma, este foro tinha caído praticamente em desuso.
232
  Tal como o Escudeiro, também o estatuto de Cavaleiro se enquadrava na nobreza
hereditária, na época a que nos referimos. As Ordenações, no seu Livro Segundo (Título
XXXVIII), impunham que o gozo dos privilégios de Cavaleiros dependia do preenchimento
cumulativo de vários requisitos: (i) o ter sido feito Cavaleiro pelo Rei ou por um dos Capitães
do Rei em África (os governadores das praças militares africanas; também na Índia, mas com
algumas especificidades) e possuir o respectivo alvará «de como os fizeram Cavaleiros por seus
merecimentos e posto que tenham cavalos e armas»; (ii) No caso de ter sido feito Cavaleiro
por um Capitão de África, ser titular de «Carta de Confirmação Nossa [entenda­‑se, régia],
assinada por Nós e asselado do Nosso Selo Pendente»; (iii) o requerimento de confirmação
pelo Rei devia ser acompanhado de «certidão assinada por cada um dos Capitães do Lugar
d’África onde foram feitos cavaleiros, de como serviram com cavalos e armas, e com elas
estiveram continuadamente servindo seis meses ao menos, a qual certidão seja feita pelo
Escrivão dos Contos do Lugar onde estiver, e assinada pelo Capitão como dito é». Mas
além disto, a Confirmação pelo Rei dos «privilégios e qualidades dos Cavaleiros» impunha
ainda que os requerentes se fizessem ainda acompanhar dos dados anteriores em forma de
«Instrumento público dado por Autoridade de Justiça, convem a saber, do Corregedor da
Comarca onde viverem ou de onde forem naturais, de cujos filhos são e das qualidades
das pessoas de seu Pai e Mãe e deles mesmos cujos criados são, se criação de algumas
pessoas tiverem; porque pelas certidões de todo o aqui conteúdo certificado os Mandaremos
despachar como Nos bem Parecer, nem esta prova, se consigo logo a não trouxerem, não
lha havemos de mandar receber em outra parte». Em suma, a confirmação régia dependia
José de Seabra da Silva e a sua Família:
Iconografia e Mobilidade Social no Antigo Regime 151

da Câmara, os (iv) Escudeiros­‑Fidalgos e (v) os Cavaleiros­‑Fidalgos. Fora


desta hierarquia mas também integrando a nobreza hereditária estavam
também os titulares (ou sucessores por varonia legítima) de uma Carta de
Brasão d’Armas (de que há vários tipos, mas de que aqui não tratamos).
O que conferia à nobreza um leque muito variado de posições no concerto
social e na posição relativa de cada um dentro dos estratos superiores da
sociedade. À qualificação dos membros deste nível era só aparentemente
equívoca, pelo menos quanto ao estatuto de fidalguia, pois que quanto à
sua integração na nobreza hereditária julgamos não haver dúvidas sérias.
Claro que, ao contrário do preconceito que depois se instalou e como
o percurso da Família Seabra demonstra, as diversas classes ou grupos
sociais eram relativamente abertos233, isto é, uma pessoa podia aceder
de um estrato social a outro mais elevado234. É certo que, em geral, essa
ascensão social se fazia degrau a degrau, como escreveu o prof. António
Manuel Hespanha, mas também há casos excepcionais de subidas abruptas
(historicamente, há centenas de casos, mas um dos que nos parece mais
ilustrativo é o do Doutor João das Aregas ou João das Regras, em retri‑
buição dos seus serviços no estabelecimento da dinastia dita de Aviz).
Mas se se podia por todas estas vias – e mais algumas, pois não pretendo
nem posso ser aqui exaustivo – entrar na nobreza também da mesma
se poderia sair. Como se escreveu em todos os tempos e fez notar, para
França Du Puy de Clinchamps, da nobreza tanto se podia entrar como
sair235. A saída poderia ser determinada por diversas razões, como a prática

sempre da soberania do Rei, que, podia concedê­‑la ou não, de acordo com o Seu critério,
no qual entravam igualmente considerações sociais e não apenas militares e económicas.
233
  Faz parte da essência da dinâmica social necessária a todas as sociedades – assim,
P. Du Puy de Clinchamps escreverá, em 1959 (La noblesse, cit., pág. 11), que «Jamais,
et par sa nature même, l’ordre de la noblesse ne será fermé».
234
  E não eram exclusivos, embora o fossem tendencialmente – uma importante
excepção foi a de Henrique Dias, homem negro e valente, a quem Dom João IV concedeu
em 1653 o foro de Fidalgo Cavaleiro, porque no Brasil «obrou feitos de preclaro varão
nos postos de Sargento­‑mor e de Mestre de Campo de um Regimento de pretos, que fez
importantes proezas, e de qual se não sabia nada para além dos seus merecimentos» – Nuno
Gonçalo Pereira Borrego, Mordomia­‑mor da Casa Real – Foros e Ofícios 1755/1910,
Tomo I, pág. 59. Também aqui Portugal se antecipou em muito à companhia de negros
da Guerra da Secessão dos Estados Unidos, que o cinema recentemente transformou em
ícone, com as participações notáveis de Morgan Freeman e Denzel Washington.
235
  O mesmo Du Puy de Clinchamps diria, na obra citada, que «au cours de ces longs
services et de cette longue opposition, la noblesse, nous l’avons dit, recrutera constam‑
ment de nouvelles familles pour remplacer les races mortes et celles redescendues dans
l’obscurité du petit peuple».
152 Miguel Gorjão­‑Henriques

de certos crimes infamantes ou contra a pessoa do Rei, mas também pela


incapacidade de viver “à lei da Nobreza”236, expressa exemplarmente na
derrogação resultante da assunção de ofícios mecânicos237.

Excerto da lista de mortos e cativos de membros da nobreza imemorial, e não só,


na Batalha de Alcácer Quibir, republicada em nome de José de Seabra da Silva na
Deducção Chronológica e Analítica, de 1768: exactamente na passagem da página 25
para a página 26 é referido o Morgado de Oliveira, com cuja filha casou o filho pri‑
mogénito, já feito Visconde da Bahia e de juro e herdade, os Saldanhas e os Almeidas

  Du Puy de Clinchamps caracterizava esta realidade, mas no sentido inverso, do


236

seguinte modo: «La montée d’une famille vers la noblessee était une longue marche.
Partie de l’obscurité, une race peu à peu a gagné ce q nous appelons aujourd’hui de la
‘surface’. Elle n’est pas encore noble devant la loi mais elle déjà dans les faits, puisque
son mode de vie est identique à celui des autres familles de son bailliage, de sa province.
Selon le parleur du temps, on dit d’elle qu’elle ‘vit noblement’» (op cit., pág. 34).
237
  Parafraseando o notável artigo do prof. Hespanha (A mobilidade social no Antigo
Regime, pág. 137), «Também por obras se podia perder a nobreza. Os fundamentos da
perda da nobreza eram o reflexo, em negativo, dos fundamentos da sua aquisição. Assim,
a nobreza perdia­‑se por fatos que infirmassem a presunção de virtude, que produzissem
a infâmia (como a prática do crime de lesa­‑majestade) ou que prejudicassem a reputação
pública (como o exercício do comércio sórdido ou de profissão vil).»
José de Seabra da Silva e a sua Família:
Iconografia e Mobilidade Social no Antigo Regime 153

No caso da Família Seabra da Silva, depois da descrita subida paulatina


em três gerações, primeiro dentro da classe popular ascendendo à vida
“à lei da nobreza” (duas primeiras gerações), passando à nobreza civil e
logo aí à nobreza hereditária com o foro de Fidalgo Cavaleiro (terceira
geração, do Desembargador Lucas de Seabra da Silva), para o serviço
régio directo (como ajudante do Marquês de Pombal e mesmo como
Secretário de Estado – quarta geração, José de Seabra da Silva) e daí para
a titulação (com o filho de José de Seabra, Visconde e Conde da Bahia),
inclusivamente de juro e herdade (Visconde da Bahia), o certo é que
a política de alianças matrimoniais desta Família, que em cada geração
conseguiu acrescentar peso histórico à sua linhagem, levou a que esta
Família superasse ainda um último obstáculo, ao ligar­‑se matrimonialmente
à velha nobreza quinhentista e seiscentista, em resposta à acrimónia que
antes esta tinha mostrado face aos novos nobres e à crescente transição de
poderes na administração régia, com a ultrapassagem das antigas Famílias
de nobreza dita imemorial238 pelos togados de nova nobreza239, como nos
explica Nuno Gonçalo Monteiro240 e dão conta notavelmente as palavras

238
  Já no tempo de Dom Manuel I, Rui de Melo, o Punho, dizia ao Rei que «Dos
Escudeiros como aquele pode Sua Alteza fazer duques; mas de fidalgos como eu só
Deus os pode fazer»; igualmente, respondia um criado do Rei a D. Estêvão da Gama,
governador da Índia e filho de Vasco da Gama, que lhe chamava escudeiro: “Senhor,
dos escudeiros se fazem os condes” [Vasco da Gama recebeu o título de Conde da
Vidigueira] – Autor Anónimo, Ditos portugueses dignos de memória (História íntima
do século xvi comentada por José Hermano Saraiva), Publicações Europa­‑América,
2.ª Edição, s.d., pág. 227 e 257.
239
  Muitos autores salientam isto, aliás verificando a tendência desde períodos mais
recuados – Pedro Cardim, «Política e identidades corporativas no Portugal de Filipe I»,
Estudos em Homenagem a João Francisco Marques, pág. 292 (disponível em http://ler.
letras.up.pt/uploads/ficheiros/2837.pdf).
240
  «Poder Senhorial, Estatuto Nobiliárquico e Aristocracia», in História de Portugal
– O Antigo Regime, José Mattoso (Dir.), cit., pág. 332: «O notório exclusivismo social
da nobreza da corte parece, assim, ter constituído uma condição para que se pudesse
preservar como a componente mais estável da elite de poder da monarquia. O período
pombalino, se não modificou drasticamente a composição do grupo, apesar das numerosas
perturbações que introduziu, constituiu uma etapa fundamental na modificação da estrutura
e do funcionamento da administração central (…). Representou ainda uma manifestação
violenta da supremacia da realeza, nunca completamente esquecida. Apesar da aparente
inversão de tendência do início da “Viradeira”, a verdade é que os representantes das
velhas casas foram sendo remetidos cada vez mais para funções decorativas [como aliás
também os reis, diga­‑se]. O reforço das secretarias de Estado tendeu a esvaziar os pólos
tradicionais de decisão. Aliás, ao longo da segunda metade de Setecentos foram mais
numerosos os ministros que se tornaram Grandes do que os Grandes feitos ministros.»
154 Miguel Gorjão­‑Henriques

duríssimas que D. Pedro de Almeida Portugal, Marquês de Alorna deixa


aos Secretários de Estado e às novas elites nas suas Memórias Políticas241,
pequeno mas interessantíssimo livro que José Norton nos ofereceu – «há
cinquenta anos que se trabalha em desautorizar esta Classe [Nobreza], e
não porque os Agentes se persuadam que ela é má, mas porque desejam
subir para ela de repente sem que dê nos olhos o contraste da antiguidade
de serviços com a modernice das operações Químico­‑políticas que fazem
de repente»242 – e na ligação que faz da Nobreza ao serviço contínuo e à
dependência face ao Rei – os mesmos factores que para Soriano já eram
sintomas da sua decadência… – desde tempos imemoriais:
«A Nobreza de Portugal algum dia alcançava­‑se passo a passo, e cada
grau de elevação recaía sobre facto marcado com o cunho da utilidade
do Estado; e para não deixar adormecer sobre os loiros, houve a cautela
de conservar os Nobres sempre na dependência e necessidade de servir
(…). E como havia grande economia na concessão de Honras, ainda
que estava aberta a estrada para chegar a todas, não bastava uma vida a
correr, e eram precisas muitas Gerações antes que uma Família chegasse
às maiores distinções./À vista disto a Nobreza antiga, isto é, a que vem
desde o Rei D. Afonso V, ou mais de trás, representa uma grande massa
de serviços feitos a Portugal. Por consequência uma fidelidade absoluta
aos interesses de Portugal deve achar­‑se infalivelmente nos representantes
destas Famílias.»243
Este fenómeno de progressiva assimilação da Família de José de
Seabra da Silva na elite muito restrita das Famílias portuguesas em tempo
de monarquia ainda mais se acentuou com a geração seguinte, pois a
filha primogénita dos 1.os Viscondes da Bahia (tendo­‑se extinguido toda
a descendência dos filhos varões e tendo presente que o título era de
juro e herdade e com dispensas na Lei Mental, aliás entretanto também
revogada por duas vezes, em 1832 e 1848) casou com um membro da
Família Almeida e Silva, um ramo secundogénito da Casa dos primitivos
Condes de Avintes que então eram Condes de Oliveira dos Arcos, e de
quem descende hoje, e é seu Chefe, um vulto incontornável da cultura
portuguesa, o escultor prof. Doutor D. João Charters de Almeida e Silva,
241
  Marquês de Alorna, Memórias Políticas – apresentação de José Norton, Tribuna
da História, 2008, pp. 89­‑93.
242
  Marquês de Alorna, Memórias Políticas – apresentação de José Norton, cit.,
pp. 109­‑110.
243
  Marquês de Alorna, Memórias Políticas – apresentação de José Norton, cit.,
pág. 109.
José de Seabra da Silva e a sua Família:
Iconografia e Mobilidade Social no Antigo Regime 155

da Família do Prior do Crato D. João Fernandes de Almeida, privado


do Rei D. João II, e irmão, entre outros, de Dom Francisco de Almeida,
1.º Vice­‑Rei da Índia, ou do Bispo de Coimbra Dom Jorge de Almeida
e Silva.
Em suma, na descrição da sociedade portuguesa, julgamos exemplar
o caminho percorrido pela família de José de Seabra da Silva à luz dos
paradigmas de ascensão social estabelecidos na sociedade portuguesa do
Antigo Regime. A abertura social aqui existente – ainda que tímida ou
até ridícula, se olhada no prisma dos conceitos sociais hoje vigentes – era
no entanto muito glosada pelos mais diversos autores. Assim, se numa
lógica de exaltação da nova nobreza de toga, Jerónimo da Cunha (século
xviii244) chamava a atenção para a circunstância de ser “mais importante
ser princípio de nobreza do que fim dela”, mais recentemente, Jacinto
d’Albuquerque de Andrade Bettencourt dizia que, se pode dizer que a
palavra Fidalgo, (…) diz­‑se de todo aquele que conta de remotas eras
os seus antepassados e cuja genealogia faz parte integrante da história
do paiz. O Fidalgo não tem culpa de o ser: é­‑o, porque o destino assim
o quis, e se ele não deslustrar a memória dos seus ascendentes», mas
o mesmo Autor muito justamente recorda­‑nos que é sumamente mais
importante saber, em relação a cada pessoa, «de que obras são Pais» do
que «de que Pais são filhos». E permitam­‑nos ainda acrescentar a tão
longínqua como verdadeira advertência de Aristóteles, na sua Retórica:
«a nobreza é uma dignidade transmitida pelos antepassados. Também
comporta uma certa tendência para o desprezo, mesmo em relação àqueles
que são semelhantes aos seus antepassados, porque a distância torna as
mesmas coisas mais veneráveis do que a proximidade, e presta­‑se mais
à gabarolice. Por “nobre” entendo aquele cujas virtudes são inerentes a
uma estirpe; por “de nobre” carácter entende aquele que não perde as
suas qualidades naturais».

  Arte de bachareis, ou prefeito juiz : na qual se descrevem os requesitos, e virtudes


244

necessárias a hum ministro / author Jeronymo da Cunha. – Lisboa: na Officina de João


Bautista Lerzo, 1743. – [22], 210 p.; 28 cm, disponível na Biblioteca Nacional digital
em http://purl.pt/22273/2.

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