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Organizador: Aldo Torquato

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Baixa-Verde
Raízes da nossa história
Autores:
Aldo Torquato - Câmara Cascudo - João Maria Furtado - Paulo Alexandre - Paulo Pereira

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Coleção Baixaverdense - Vol. I 5

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Câmara Municipal de João Câmara 100

95 A serviço da Cidadania 95

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Mesa Diretora - Biênio 2009/2010


Presidente: Aldo Torquato
Vice-Presidente: Mestre Raimundo
Aldo Torquato - PPS Secretário: Pedro França
Presidente da Câmara

Antonio Marcos - PMDB Ana França - PMDB Luíz de Berré - DEM Gilberto Honorato - PTB
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Rosiane Soares - DEM José Ribamar - PSC Mestre Raimundo - PP Pedro França - PR
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Acesse: www.cmjoaocamara.rn.gov.br
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Organizador: Aldo Torquato

Baixa-Verde
Raízes da nossa história
Autores:
Aldo Torquato - Câmara Cascudo - João Maria Furtado - Paulo Alexandre - Paulo Pereira

Câmara Municipal de João Câmara


A serviço da Cidadania

Baixa-Verde | Raízes da nossa história | 5


6 | Baixa-Verde | Raízes da nossa história
ÍNDICE
Palavra do Presidente ............................................................................... 09
Introdução ................................................................................................. 11
Lei municipal 272/08 que oficializou a data da fundação da cidade ........13
Nota da Rede Ferroviária comunicando a 1ª viagem do trem para Baixa-
Verde ......................................................................................................... 15
Biografia de ALDO TORQUATO .................................................................. 17
Os primórdios de Baixa-Verde (I) ..............................................................19
Os primórdios de Baixa-Verde (Final) ....................................................... 21
Os Mendonças do Amarelão: Origens, Costumes e Tradições (I) ............. 23
Os Mendonças do Amarelão: Origens, Costumes e Tradições (Final) ....... 25
Antônio Proença: O Fundador de Baixa-Verde .........................................29
Melcíades de Souza: Testemunha Ocular da História ............................... 33
João Câmara, o Homem ............................................................................ 37
Baixa-Verde ou João Câmara?................................................................... 43
Breve História da Escola Capitão José da Penha ....................................... 47
Pequena História do Baixa-Verde Futebol Clube (I) .................................. 51
Pequena História do Baixa-Verde Futebol Clube (II) ................................. 53
Pequena História do Baixa-Verde Futebol Clube (Final) ........................... 55
A Intentona Comunista em Baixa-Verde ................................................... 59
Biografia de CÂMARA CASCUDO ............................................................... 61
Uma Vida Começa ..................................................................................... 63
Plantando a Firma ..................................................................................... 71
Andante com Moto ...................................................................................77
O Rio Cresce .............................................................................................. 83
Biografia de JOÃO MARIA FURTADO ......................................................... 85
Não me Contaram: Presenciei .................................................................. 87
Primeiras Impressões na Infância ............................................................. 91
Em Assunção ............................................................................................. 95

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Baixa-Verde ...............................................................................................103
O Mato Grande .........................................................................................105
Ainda um Pouco de Baixa-Verde ...............................................................111
Biografia de PAULO ALEXANDRE DA SILVA ................................................113
Formação Inicial do Aglomerado de Matas ..............................................115
Primeira Fase de desenvolvimento de “Matas” ........................................117
Segunda Fase de Desenvolvimento de “Matas” .......................................119
Matas é Transformada em Baixa-Verde ....................................................129
Outra Versão da Crendice Popular ............................................................133
Primeiras Famílias .....................................................................................135
O Cotidiano da Vila de Baixa-Verde ..........................................................139
Estrutura para Elevação à Sede de Município ...........................................141
Emancipação Política da Vila de Baixa-Verde............................................143
Biografia de PAULO PEREIRA DOS SANTOS ...............................................149
Assunção e Baixa-Verde ............................................................................151
O Topônimo Antigo ...................................................................................153
A Seca e a Capela ......................................................................................155
Impulso dado ao Crescimento da Vila .......................................................157
Os Câmaras de Assunção e de Cauaçu ......................................................159
Emancipação do Município, seu Prefeito, Vigário e Juiz ...........................161
A Revolução de 1935 em Baixa-Verde ......................................................163
Um Preâmbulo sobre o Homem ...............................................................165
Sua Terra Natal ..........................................................................................169
Seu Ambiente de Infância ..........................................................................171
Seu Primeiro e Segundo Emprego ............................................................173
Como João Câmara Encontrou Baixa-Verde de Dr. Proença .....................175
O Verdadeiro Fundador de Baixa-Verde ....................................................177

8 | Baixa-Verde | Raízes da nossa história


Palavra do Presidente
Caros amigos e amigas,

Com a criação pela Câmara


Municipal, através de Resolução
aprovada pela unanimidade dos
vereadores, da “Coleção Baixaverdense”,
pretende-se publicar, pelo menos
uma vez por ano, uma obra literária
que resgate a história do nosso povo
nos seus mais variados aspectos
políticos, econômicos, sociais e
culturais.
Este livro, BAIXA-VERDE –
RAÍZES DA NOSSA HISTÓRIA,
primeiro volume da “Coleção
Baixaverdense”, é resultado de
muito esforço e determinação.
Pensei-o, para possibilitar que os
fundamentos da história da nossa
terra, pudessem chegar ao
conhecimento da grande maioria
dos nossos munícipes, o que até
agora está restrito apenas a uns
poucos mais diligentes e
interessados.
Conhecer e preservar as
nossas origens é manter a nossa
identidade. Quem assim não o faz,
perde-se na imensidão do tempo.
Inexorável tempo.
Espero que este livro,
contendo extratos de obras
publicadas por diversos autores
sobre o nosso município, possa

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contribuir para fazer chegar aos cidadãos e cidadãs da nossa cidade e dos
lugares mais distantes - fazendas, sítios, povoados – o conhecimento das
personagens e fatos que propiciaram a construção da nossa terra, nos seus
primórdios.
Tenho pautado a minha atuação, como vereador e Presidente da
Câmara Municipal, pelo estrito cumprimento do dever e do respeito ao
mandato que recebi. As dificuldades que tenho enfrentado servem apenas
para testar a minha capacidade de superá-las. Creio que estou me saindo
razoavelmente bem.

Façam bom uso deste livro e guardem-no com cuidado, como se


guarda uma relíquia, a fim de que outras gerações possam dele fazer uso.

João Câmara, 02 de junho de 2009 (Dia municipal da Cultura).

Aldo Torquato
Presidente da Câmara Municipal

10 | Baixa-Verde | Raízes da nossa história


INTRODUÇÃO
Apesar de existir um razoável acervo de obras literárias sobre a nossa
história, constata-se que, nos limites do município, poucas são as pessoas
que dispõem de um exemplar sequer dessas obras.
As razões para tal constatação estão, muito provavelmente, nos
seguintes fatos:
a) as publicações desses livros são em pequeno número – quase sempre algo
em torno de 500 exemplares;
b) os lançamentos ocorrem quase sempre em Natal, capital do estado;
c) o hábito da leitura não está disseminado entre a nossa população;
d) poucos são os que, entre nós, se dispõem em investir na compra de um
livro.
O resultado é que, quando surge no plano real a necessidade de
utilização do conhecimento dos fatos históricos – por exemplo, por ocasião
de um concurso público, há uma verdadeira correria em busca de informações.
Foi para suprir tal carência, que este livro – BAIXA-VERDE – RAÍZES DA
SUA HISTÓRIA, foi pensado. Nele o leitor encontrará textos compilados das
seguintes obras, selecionadas por ordem alfabética dos autores:
- BAIXA-VERDE: Fatos, Causos e Coisas – Autor: ALDO TORQUATO – 1ª edição
2004 – Editora Sebo Vermelho;
- HISTÓRIA DE UM HOMEM (João Severiano da Câmara) – Autor: CÂMARA
CASCUDO - 1ª edição - 1954 – Editora do Departamento de Imprensa do
Estado;
- VERTENTES (Memórias) – Autor: JOÃO MARIA FURTADO – 1ª edição 1976
– Gráfica Olímpica Editora Ltda;
- BAIXA-VERDE: Ontem, Hoje e Amanhã – Autor: PAULO ALEXANDRE DA
SILVA – 1ª edição 2002 – Editora da EMATER-RN;
- BAIXA-VERDE: Retalhos da sua História – Autor: PAULO PEREIRA DOS
SANTOS – 1ª edição 1990 – Editora CLIMA;
- UM HOMEM ADMIRÁVEL – 1ª edição 1997 – Autor: PAULO PEREIRA DOS
SANTOS – Editora do Departamento Estadual de Imprensa – DEI-RN;
- PÁGINAS DO TEMPO – 1ª edição 2005 – Autor: PAULO PEREIRA DOS
SANTOS – Editora do Departamento Estadual de Imprensa – DEI-RN.
Faz-se necessário esclarecer que, dessas obras, foram extraídos os
capítulos que tratam das raízes da nossa história – daí, o título deste livro –

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desde a formação dos primeiros povoados – por volta dos meados do século
XXIX - até o episódio da Intentona Comunista de 1935.
Acresça-se que, nesta obra, estão incluídos dois documentos
importantes: a Lei Municipal que instituiu o 12 de outubro de 1910, como o
dia da fundação de Baixa-Verde e oficializou o nome do engenheiro Antônio
Proença como o seu fundador; e uma Nota da rede ferroviária, publicada no
jornal A República, dando conta da primeira viagem de trem.
Os demais fatos históricos, mais recentes, não incluídos nesta obra,
serão objeto de lançamentos futuros, dentro dos objetivos da “Coleção
Baixaverdense”.
Esta edição do livro BAIXA-VERDE – RAÍZES DA NOSSA HISTÓRIA,
organizada pelo Presidente da Câmara Municipal, ex-prefeito e vereador Aldo
Torquato, constará de 2.000 exemplares, que serão distribuídos gratuitamente
entre a população.
Espera-se que, assim, mais esta lacuna da vida cultural da nossa terra
esteja preenchida.
Que a “Coleção Baixaverdense” tenha vida longa!

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LEI Nº 272/08/GAP

Institui a data da fundação da cidade e


dá outras providências

A PREFEITURA MUNICIPAL DE JOÃO CÂMARA, no uso das suas


atribuições legais, FAZ SABER que a Câmara aprovou e sanciona a seguinte
LEI:

Art. 1º - É instituído o dia 12 de outubro como a data comemorativa


da Fundação da cidade de João Câmara.

Art. 2º - Em um ponto equidistante entre a Capela de Nossa Senhora


de Fátima e a Estação Ferroviária, será construído pelo poder municipal, um
marco, denominado Marco da Fundação, em cuja placa deverá estar escrito:
HOMENAGEM AOS PIONEIROS - NESTE LOCAL, NO DIA 12 DE OUTUBRO DE
1910, FOI INAUGURADA A REDE FERROVIÁRIA, MARCO INICIAL DA FUNDAÇÃO
DA CIDADE.

Art. 3º - Esta lei entra em vigor na data da sua publicação, revogadas


as disposições em contrário.

PALÁCIO TORREÃO
Gabinete da Prefeitura, em João Câmara, 22 de setembro de 2008.

MARIA GORETE LEITE


PREFEITA MUNICIPAL

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Nota Publicada no Jornal “A República”, de 15/10/1910, informando sobre a pri-
meira viagem do trem, a ser realizada na segunda-feira (17/10/1910). Este docu-
mento constitui-se em uma verdadeira certidão de nascimento de Baixa-Verde.
Foto: Aldo Torquato

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BIOGRAFIA ALDO TORQUATO
Aldo Torquato nasceu no dia 03 de fevereiro de 1951, em Baixa-Verde,
na rua Capitão José da Penha, antigamente conhecida como rua do Motor. É
o segundo filho do casal Abdon Torquato da Silva e Tereza Gomes da Silva.
Casado com Rosângela Lúcia da Câmara Torquato, é pai de três filhos: Pedro
Severo, Nirvana e Mariana.
Fez o curso primário no Grupo Escolar Cap. José da Penha e o ginasial
no Colégio João XXIII, ambos em João Câmara. Deslocando-se para Natal no
ano de 1966, cursou o Clássico na Escola Estadual Padre Miguelinho e prestou
vestibular para o curso de direito da UFRN no ano de 1969. Formou-se
bacharel em Ciências Jurídicas em 1973. Desde então, exerce a advocacia,
com um breve intervalo durante o período em que ocupou a Prefeitura
Municipal da sua terra.
Com pendores para o magistério, foi professor de diversos colégios
em Natal e Diretor das Escolas Estaduais Cap. José da Penha e Francisco
Bittencourt, em João Câmara, além de professor do Colégio João XXIII.

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Elegeu-se vereador pela primeira vez aos 19 anos de idade, no ano
de 1970, com mandato de dois anos. Foi reeleito em 1972. Eleito o primeiro
prefeito filho da terra em 15 de novembro de 1976, exerceu o mandato de
31 de janeiro de 1977 a 31 de janeiro de 1983. Retornou à Câmara nas eleições
de 1992. Atualmente, exerce o seu quarto mandato de vereador e é o
Presidente da Câmara Municipal, cargo que nunca antes havia exercido.
No campo profissional, atuou como Procurador Jurídico de diversos
municípios do Rio Grande do Norte, tendo atuação destacada por ocasião da
elaboração de suas Leis Orgânicas. Foi, também, Procurador da URBANA e
Assessor da Superintendência da Legião Brasileira de Assistência - LBA, em
Natal. É, atualmente, Coordenador Jurídico do Instituto de Gestão das Águas
do Rio Grande do Norte – IGARN. Tem escritório na capital do estado, onde
exerce a advocacia no campo do direito municipal, trabalhista e de família.
Em junho de 2004, lançou o livro BAIXA-VERDE – FATOS, CAUSOS E
COISAS, cuja 1ª edição encontra-se esgotada. A 2ª edição, revista e ampliada,
está em fase final de conclusão e será lançada brevemente.
Da sua obra, BAIXA-VERDE – FATOS, CAUSOS E COISAS, foram extraídos
os capítulos que adiante reproduzimos.

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OS PRIMÓRDIOS DE BAIXA-VERDE (I)
Valho-me das luzes dos historiadores Luís da Câmara Cascudo (História
de um Homem), Paulo Pereira dos Santos (Baixa-Verde: retalhos de sua
história) e Paulo Alexandre da Silva (Baixa-Verde - Ontem, Hoje e Amanhã),
do memorialista conterrâneo e desembargador João Maria Furtado
(Vertentes) e dos relatos que me foram trazidos pelos meus antepassados,
para fazer chegar aos ilustres leitores deste Jornal de Hoje como surgiu o
aglomerado humano que deu origem à cidade de Baixa-Verde, hoje João
Câmara.
Situada a 75 quilômetros de Natal, em plena região do Mato Grande, a
cidade de João Câmara, hoje com população aproximada de 21 mil habitantes,
era no início do século passado um local onde só havia mata e bichos. O
povoado mais próximo, Assunção, distava três quilômetros ao norte. Na
direção oeste, a uns dez quilômetros, ficava a comunidade do Amarelão dos
Mendonças, composta por descendentes de índios tupis e negros. O resto,
numa área de várias léguas, era só mata virgem, com raras fazendas de gado
e plantações de algodão, a quilômetros umas das outras.
Em Assunção havia uma rua e um comércio florescente, realizando-
se feira-livre aos sábados, Ali moravam Alfredo Edeltrudes de Souza, Ismael
Maurício da Silveira. Joaquim Câmara e João Batista Furtado que exploravam
o comércio e a agricultura. Joaquim Câmara possuía uma “bolandeira” que
descaroçava algodão e remetia para os centros mais desenvolvidos. Tudo fazia
crer que, em poucos anos, aquela comunidade seria um núcleo populacional
respeitável ou, quem sabe, uma nova cidade.
O destino de Assunção tomou novo rumo quando a rede ferroviária
que adentrava ao sertão, partindo de Natal, desconsiderando a importância
social e econômica do núcleo populacional existente, resolveu passar seus
trilhos a uma distância de três quilômetros ao sul, num lugar conhecido apenas
como Matas. Ninguém sabe ao certo o porquê de tal decisão.
Os trilhos chegaram a Matas em 12 de outubro de 1910 e a estação
foi instalada provisoriamente em um vagão de trem. À frente do
empreendimento o engenheiro Antônio Proença, que, apreciando o local,
resolveu ali estabelecer-se. Tratou de construir casa e plantar algodão, fixando-
se na terra em caráter permanente. A estrada de ferro, que estava sendo
construída pela firma Proença & Gouveia, num regime de arrendamento por

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sessenta anos, seguiu seu curso na direção de Lajes, mas Antônio Proença,
um dos sócios do empreendimento, ficou administrando os serviços a partir
do local que havia escolhido como ponto de apoio.
Aos poucos o lugar foi sendo povoado. Cossacos, pequenos
comerciantes e agricultores foram se instalando nas imediações da estação
ferroviária. Uma nova povoação estava surgindo. Antônio Proença foi o grande
incentivador da formação urbanística da cidade que estava surgindo: traçou as
linhas das primeiras ruas, construiu a capela de Nossa Senhora Mãe dos Homens,
cavou cacimbas e ergueu as primeiras casas.
O desenvolvimento do lugar chamou a atenção de quantos
procuravam oportunidades de ganhos. Assunção foi aos poucos se esvaziando.
Seus maiores comerciantes foram abandonando o lugar e se deslocando para
a nova povoação ou para outras localidades. João Batista Furtado (pai de
João Maria Furtado, avô de Roberto Furtado) e Ismael Maurício da Silveira
estabeleceram-se logo no novo povoado. Joaquim Câmara deixou também
Assunção, mas preferiu ir para Cauassu, uma pequena comunidade situada a
doze quilômetros a oeste, que não possuía mais que três ou quatro casas,
onde só tinha a alternativa de explorar a agropecuária. Comércio ali era
impossível, pois não havia gente para comprar. Alfredo Edeltrudes, também
em busca de melhores dias, arrendou um engenho em Ceará-Mirim e depois
comprou uma propriedade chamada Quintas, em Natal, que veio a tornar-se
bairro com o mesmo nome e para lá mudou-se.
Já como Prefeito, encontrei Assunção, sessenta anos depois, como
uma povoação fantasma, onde só havia, salvo umas poucas casas simples,
alicerces de construções antigas e um velho cemitério abandonado, com as
grossas paredes de pedras em ruínas, coberto de mato.

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OS PRIMÓRDIOS DE BAIXA-VERDE (FINAL)
Um dos filhos de Joaquim Câmara, Câmara Filho, sentindo a
impossibilidade de fazer vida em Cauassu, preferiu partir para o centro-oeste
do país, fixando-se em Goiânia, onde chegou a ser secretário de estado. Logo
depois, seguindo os passos do irmão, para lá se deslocaram Rebouças e Jaime
Câmara, que foi Prefeito de Goiânia e deputado federal pelo estado de Goiás.
Os irmãos Câmara construíram em Goiás um invejável complexo de
comunicação, formado por emissoras de rádio, televisão, jornais e gráficas
que se estenderam por todo o estado, inclusive à parte norte, atualmente
estado do Tocantins, chegando ao Distrito Federal.. Dentre os veículos de
maior envergadura, destacam-se os jornais O Popular, de Goiânia, e o Jornal
de Brasília, além da TV Anhanguera, afiliada à rede globo.
Enquanto isso, de outras regiões do estado, pessoas ávidas por
melhores oportunidades de ganhos deslocavam-se para Baixa-Verde. Atraiam-
nas a localização estratégica do lugar, porta de entrada da região denominada
de Mato Grande, com milhares de hectares de terras devolutas, porém de
boa qualidade, próprias para o plantio de qualquer lavoura, mormente o
algodão, chamado de “ouro branco”, tal o seu valor e importância no contexto
econômico da época. Sendo terras devolutas, e por isso mesmo tidas como
sem dono, qualquer pessoa poderia demarcar a sua área, cercar quantos
hectares achasse que poderia cuidar. O horizonte era o limite. Foi para esse
novo eldorado que foram homens como Fernando Gomes Pedrosa e João
Severiano da Câmara.
Fernando Pedrosa (pai do ex-governador Sílvio Pedrosa), instalou-se
na região logo após a chegada dos trilhos da rede ferroviária, plantando
algodão num lugar denominado “ barriguda” (que tinha de fato uma grande
árvore com esse nome à margem da estrada, criminosamente derrubada há
uns vinte anos por ocasião do asfaltamento da estrada João Câmara/Caiçara
do Norte).
João Severiano da Câmara chegou em 06 de junho de 1914, tendo ao
seu lado o irmão Jerônimo, conhecido como Loló. Alexandre, outro irmão,
veio depois. Os três, depois de anos a fio explorando a agricultura e o comércio,
fundaram a firma João Câmara e Irmãos. Câmara Cascudo nos dá conta da
existência de dois pequenos comerciantes: José Antunes de França, cuja
vendinha ficava perto da Igrejinha e Luiz Cordeiro, conhecido como “Luiz Rei
de França”, que negociava na esquina da futura pracinha.

Baixa-Verde | Raízes da nossa história | 21


No dizer de Câmara Cascudo, “a Estrada de Ferro ocupava duas
grandes turmas de trabalhadores, uma na Melancia e outra batendo o malho
nas pedreiras do Torreão. Pagos, vinham derramar o saldo em Baixa-Verde,
bebendo até a náusea, comprando tudo e brigando por cousa nenhuma. Não
havia policiamento, nem defesa. A povoação não tinha ruas, apenas os
alinhamentos riscados pela mão grossa do Dr. Proença”.
Como já tive a oportunidade de mencionar anteriormente, os
habitantes de Assunção chamavam o lugar onde a estrada de ferro se instalara
simplesmente de Matas, porém os novos habitantes preferiram denominá-lo
de Baixa-Verde, por situar-se em uma região de baixo relevo e solo arenoso,
coberto por uma gramínea sempre verde, mesmo nas épocas de secas mais
intensas. Coube ao Dr. Antônio Proença oficializar o nome Baixa-Verde
apondo-o na fachada da Estação Ferroviária que construíra. Na chamada
“graminha”, até os vinte e cinco anos, joguei “peladas” inesquecíveis.
Com o passar dos anos, ironicamente, Assunção passou a ser chamada
pelos habitantes da nova povoação de “Baixa-Verde Velha”, denominação que
não se consolidou, mas que persistiu no falar cotidiano até uns trinta anos atrás.
Pouco depois da chegada da estrada de ferro, chegaram a Baixa-Verde,
entre os anos de 1915 e 1920, meu avô, Pedro Torquato, vindo da região
conhecida como beira-do-rio e Antônio Justino de Souza, entre tantos outros
desbravadores. Foi também por aquele tempo que nasceu no lugar um menino
a quem os pais deram o nome de Gumercindo Saraiva, que se fez músico,
comerciante e folclorista, há alguns anos falecido em Natal, onde ainda
moram sua esposa e seus filhos. Gumercindo foi amigo de infância de meu
pai, Abdon Torquato.
Devemos a esta saga de homens acostumados ao trabalho duro, que
se iniciava com os primeiros raios de sol e só terminava ao escurecer,
arrancando mato com a força dos seus braços, esfolando as mãos, queimando
a pele, dormindo muitas vezes no meio do roçado em cabanas improvisadas
cobertas de capim e galhos de árvores, a construção dos alicerces daquela
que seria a capital da região do mato grande, elevada à condição de cidade,
sede do município do mesmo nome, pela Lei nº 697, de 29 de outubro de
1928, promulgada pelo então governador Juvenal Lamartine de Faria. Seu
território foi constituído inicialmente por partes de terras desmembradas dos
municípios de Taipu, Touros e Lages, e estendia-se até os mares do norte,
açambarcando os povoados de Parazinho, Pedra Grande, São Bento do Norte,
Caiçara e Galinhos.

22 | Baixa-Verde | Raízes da nossa história


OS MENDONÇAS DO AMARELÃO:
ORIGENS, COSTUMES E TRADIÇÕES (I)
Ninguém sabe ao certo quando os Mendonças chegaram ao local que
hoje habitam, nem mesmo a origem do nome do lugar. É voz corrente entre
os poucos historiadores que escreveram algo sobre os Mendonças que a
povoação formou-se, provavelmente, nos meados do século XIX, quando o
Brasil ainda vivia o início do governo imperial, portanto bem antes da cidade
de Baixa-Verde ser fundada, o que só veio a acontecer em 1928.
Câmara Cascudo, em História de um homem, primeira edição (1954),
livro que escreveu sobre João Severiano da Câmara, faz referência aos
Mendonças, de quem diz que “moravam há mais de um século em regime
tribal, mestiços de tupis fugidos dos aldeamentos que se tornaram vilas”. Em
sendo assim, esta terá sido, muito provavelmente, a primeira povoação em
toda aquela região circunvizinha, bem antes mesmo que Cauassu e Assunção.
A professora Jussara Galhardo Aguirres Guerra, em magnífica dissertação
apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade
Federal de Pernambuco, intitulada Mendonça do Amarelão: Os Caminhos e
Descaminhos da Identidade Indígena no Rio Grande do Norte (Recife – 2007),
após quase sete anos de pesquisas (2000 a 2007) conclui que os Mendonças
são descendentes dos índios Tapuias, que habitavam a região de Araruna e
Bananeiras no brejo paraibano, deslocando-se em levas durante o período que
vai de 1830 a 1870, buscando refúgio depois de terem sido perseguidos por
grandes proprietários que “compraram” as terras ao governo, as chamadas
sesmarias. Em decorrência, diz a pesquisadora, “muitos dos nativos evadiam-
se para outros lugares mais seguros, formando aglomerados ou quilombolas
porque perderam suas terras. Outros iam sendo aprisionados como escravos
para servirem na lavoura das terras recém adquiridas”.
Quanto ao topônimo, muitos atribuem que a sua denominação surgiu
em função de uma epidemia de malária, conhecida também como maleita
ou impaludismo. A doença teria assolado os habitantes da localidade, matando
dezenas deles e deixando a população circunstancialmente com a pele
amarelada. Como eram centenas os habitantes do lugar atacados pela doença,
figurativamente as pessoas passaram a dizer que o lugar havia se transformado
num verdadeiro amarelão. Gumercindo Saraiva, escritor conterrâneo, em
trabalho realizado por minha encomenda como prefeito municipal, por
ocasião do cinqüentenário de fundação do município, chegou à conclusão,

Baixa-Verde | Raízes da nossa história | 23


extraída de relatos que obteve ainda quando criança, que o nome do lugar
derivaria da cor naturalmente amarelada dos seus habitantes.
No que diz respeito às atividades laborativas dos Mendonças, sabe-se
que, inicialmente, viviam quase que exclusivamente da caça e de pequenas
lavouras de subsistência, tais como: feijão, milho e mandioca. Posteriormente,
quando as grandes fazendas começaram a se instalar no Mato Grande, foram
contratados em grupos de até cem homens para fazer os desmatamentos.
Quando chegavam ao local de trabalho, trazidos pelos caminhões do patrão,
tratavam de armar seus puçás no armazém da fazenda, uns por cima dos
outros. Depois, partiam para o campo, armados de chibancas, foices e
machados, que conduziam sobre os ombros, e facas peixeiras na cintura.
Milhares de hectares de terra foram desmatados por aqueles homens,
mirrados, alimentados apenas com café preto, peixe avoador, rapadura e
farinha seca, formando um verdadeiro exército de esquálidos, que, no entanto,
tirando forças não se sabe donde, arrancavam pela raiz troncos erados,
cortavam cardeiros, facheiros e cipós, matavam cobras venenosas, formavam
grandes coivaras e depois tocavam fogo em tudo. Não se conhece um só
grande proprietário de terra na região que não tenha se utilizado da sua mão-
de-obra eficiente e barata, contratada pelo sistema de “empeleitada”. Os
Mendonças nunca gostaram de trabalhar na chamada “diária”.
Foi através desse trabalho que os Mendonças passaram a se relacionar
pessoalmente com homens como Antônio Câmara (Sêo Tonho) – por quem
nutriam profundo respeito e admiração, trabalhando na fazenda Cavaco,
situada no município de Touros, João Severiano da Câmara (em todas as
suas vinte e tantas propriedades), seus irmãos Xandu e Loló, José Severiano,
Antônio Justino, Pedro Torquato, Orlando Alves da Rocha, os irmãos Severo
Victor e Felipe (Nô) Victor e muitos outros.
Além do desmatamento das terras ainda virgens, os Mendonças faziam
o plantio e a colheita de diversas culturas, principalmente do algodão em seu
período áureo. Com o rareamento dos trabalhos de desmatamento e a extinção
do algodão pela praga do bicudo, na década de oitenta, os Mendonças passaram
a viver quase que exclusivamente das suas pequenas lavouras de subsistência e
da venda de castanhas de caju, que comercializam em Natal, nas repartições
públicas e praias (é comum se encontrar um Mendonça vendendo castanha no
Centro Administrativo e em Ponta Negra). Alguns, mais ousados, vão até o Recife.
Durante os períodos em que abundam arribaçãs pela região, muitos
deles se dedicam à caça dessas aves, que matam aos milhares e vendem nas
cidades da região. Esta forma de sobrevivência tem lhes trazido inúmeros
problemas, alguns chegando a ser presos, após entreveros com a polícia.

24 | Baixa-Verde | Raízes da nossa história


OS MENDONÇAS DO AMARELÃO:
ORIGENS, COSTUMES E TRADIÇÕES (FINAL)
Até a década de setenta, era altíssimo o grau de analfabetismo entre
os habitantes do Amarelão. Raros eram os que possuíam registro de
nascimento, título eleitoral e carteira de identidade. Embora tivessem, como
ainda têm, como característica o casamento entre primos, poucos procuravam
o cartório ou a igreja para selar a união. Viviam “amigados”, unidos apenas
pelo desejo de permanecer juntos e constituir uma prole. Sem planejamento
familiar, por falta de conhecimento e acesso às técnicas anticonceptivas, e
diante da ausência de políticas públicas, quase todas as mulheres, ainda
bastante jovens, tinham mais de dez filhos. Algumas chegavam aos vinte.
Muitas dessas crianças morriam no primeiro ano de vida, elevando a
percentuais africanos os índices de mortalidade infantil.
Atualmente, a realidade é bem diferente. Embora mantenham algumas
das suas tradições, como o casamento endogâmico, por exemplo, aderiram a
hábitos modernos. Possuem televisor, geladeira e liquidificador, graças à
chegada da energia elétrica, e têm acesso ao conhecimento, mesmo que de
forma superficial, proporcionado pela construção de uma escola e fixação no
lugar de um grupo de freiras gaúchas, que faz um elogiável trabalho de
conscientização para o exercício da cidadania. Tal iniciativa, despertou o
interesse pelas ações comunitárias, permitindo o surgimento de atividades
artesanais, que oportunizaram trabalho e renda para a população, mesmo
que de forma incipiente. A venda de castanha de caju, assada e descascada,
é, atualmente, a principal atividade econômica dos Mendonças do Amarelão.
Pesquisa recente demonstrou que o desemprego não é sequer citado como
uma das preocupações entre os Mendonças.
Da maior importância é ressaltar que no Amarelão foram identificadas e
devidamente fotografadas pela professora Jussara Galhardo, inúmeras inscrições
rupestres, as únicas do nosso município, que certamente datam de milhares
de anos, comprovando a existência de seres humanos na região em tempos
imemoriais. Em contato com moradores da comunidade tomei conhecimento
que as mencionadas inscrições são conhecidas pelos locais como mãos de
sangue, o que se explica pelo fato de serem vermelhas as inscrições e duas
delas terem o formato de uma mãos abertas impregnadas na rocha granítica.

Baixa-Verde | Raízes da nossa história | 25


Embora todos sejam chamados de Mendonças, na verdade poucos são
assim registrados. As famílias mais numerosas atendem pelos nomes de
Eleodório, Tinga, Barbosa, Nascimento, Justino, Caetano, Biano, Genézio e
Batista, mas mantém os sinais fisionômicos e lingüísticos inconfundíveis que
as caracterizam: são morenos (quase pretos), de estatura mediana para baixa
e senhores de um falar próprio, meio aciganado, quase um dialeto. É
impossível não reconhecer um Mendonça logo ao primeiro contato.
Um fato chamou-me a atenção há poucos anos atrás. Por ocasião do
falecimento de um compadre, de nome João Felipe, residente do lugar e
Mendonça da gema, pude observar durante o cortejo fúnebre, que muitos
dos acompanhantes portavam cachaça e dela se serviam em goles sorvidos
na própria boca da garrafa. Estavam bebendo o morto, ritual que, para eles,
significa despedida e apreço pelo falecido.
Os Mendonças têm o sangue quente. Quando se envolvem em uma
confusão brigam em grupo e só param quando o pior acontece. Em política,
são extremamente passionais. Quando vão com a cara do candidato entregam-
se de corpo e alma à campanha, participam dos comícios na própria
comunidade e na cidade, para onde fazem questão de ir, desde que um
caminhão vá buscá-los. Envolvidos, são capazes de receber dinheiro de um
candidato adversário, mas não traem o preferido por nada deste mundo.
Um episódio, digno de registro, marcou o meu relacionamento com os
Mendonças do Amarelão. O fato ocorreu na minha primeira campanha para
prefeito, em 1976. Eu havia sido advogado de alguns deles e, portanto, já
mantinha um certo entrosamento com a comunidade. Chegado o dia do
comício, dirigi-me ao local pela estrada que liga João Câmara a Pedra Preta.
Quando estava há três quilômetros do destino, dei com uma fogueira no meio
da estrada. Parei, porque não havia como prosseguir. De imediato, fui
abordado por mais de uma centena de Mendonças, que, aos gritos,
visivelmente “quentes”, com galhos verdes e bandeiras nas mãos, arrastaram-
me para fora do fusca. que me conduzia. e foram logo avisando: nói vai levá
o sinhô nas costa até o cumiço. E assim o fizeram, mesmo sob pequena e
inútil reação da minha parte. Sem carro de som, sem zabumba, sem foguetões,
somente ao sabor dos gritos e palavras de ordem - é doto Ardo ô num é?
perguntava um. Éééé, respondiam os outros, percorremos os três quilômetros
que nos separavam do palanque. A poeira fina do terreno ariscado cobria
quase toda a visão que se pudesse ter, apesar da noite escura, da estrada
carroçável, que vez por outra se fechava mais ainda, parecendo uma simples

26 | Baixa-Verde | Raízes da nossa história


vereda. E eu no meio daquela multidão, girando feito um pião, do ombro de
um para o ombro de outro, feliz pela manifestação que recebera, mas, ao
mesmo tempo, rezando para que tudo terminasse logo e em paz. Chegando
ao destino, fui quase que catapultado para cima do caminhão-palanque. Tal
como me prometeram, não pus os pés no chão em nenhum momento durante
todo o percurso.
Esse entrelaçamento e cumplicidade, permitiu que, na minha
administração, que durou seis anos e enfrentou quatro secas terríveis, não
ocorresse uma única invasão ao comércio local, que fosse patrocinada pelos
Mendonças. Em 1982, quando o governo do estado negou-se a aumentar o
número de vagas no programa de emergência, não só liberei-os, como
patrocinei as condições para que marchassem sobre a capital, conduzindo
uma faixa onde estava escrito: não queremos invadir, queremos trabalhar.
Em Natal, o cortejo partiu da nova catedral, ainda em construção, passando
por todo o Grande Ponto, na contramão, em direção ao Palácio Potengi, sede
do governo estadual. No dia seguinte, com o movimento nas manchetes dos
jornais, mais de mil novas vagas foram liberadas para os emergenciados de
Baixa-Verde, encerrando as tensões.
Assim são, descritos em toscas palavras, os Mendonças do Amarelão.

Baixa-Verde | Raízes da nossa história | 27


28 | Baixa-Verde | Raízes da nossa história
ANTÔNIO PROENÇA,
O FUNDADOR DE BAIXA-VERDE
Não existe hoje qualquer dúvida sobre quem foi o verdadeiro fundador de
Baixa-Verde. Durante muitos e muitos anos, atribuiu-se o privilégio ao ex-sena-
dor e empresário João Severiano da Câmara. De fato, João Câmara foi durante
anos a figura mais proeminente do município e dizer que teria sido o fundador
da cidade era até mesmo motivo de orgulho para os seus habitantes. O próprio
nome da cidade, João Câmara, impelia as pessoas a pensarem ter sido aquela
figura o seu fundador inconteste.
Hoje, passado o calor da influência do poderia político e econômico exer-
cido pelo eminente cidadão, todos os analistas concluem, sem qualquer receio,
que o verdadeiro fundador da cidade foi o engenheiro Antônio Proença. A pro-
pósito, trago à luz o depoimento do comerciante Melcíades de Souza, ele mes-
mo um dos primeiros habitantes do lugar, nascido aqui no ano de 1913, “quan-
do havia apenas quarenta ou cinqüenta casas”, como costuma dizer.
Pois bem. Assim relata o velho Melcíades, do alto dos seus noventa e
cinco anos, em depoimento gravado por mim em sua residência na rua João
Furtado, na manhã do domingo, 17 de fevereiro do corrente ano de 2008:
“engana-se quem pensa que João Câmara foi o fundador de Baixa-Verde.
Quando João Câmara chegou nesta terra, no ano de 1914, já existiam
cinqüenta ou sessenta casas. O verdadeiro fundador de Baixa-Verde foi
Antônio Proença, que chegou aqui em 1909, e construiu quatro casas, sendo
uma delas para ele mesmo morar com a sua esposa, Dona Malvina”.
Mais adiante, continua Melcíades de Souza no seu esclarecedor
depoimento: “João Câmara quando chegou aqui era um rapazote de
dezenove anos de idade e botou um comércio pequeno com apenas duas
portas, somente depois de alguns anos é que foi crescendo, até que fez
fortuna. Vários outros comerciantes chegaram antes dele, como João
Furtado, pai do doutor João Maria e Alfredo Edeltrudes. Dr. Proença era
um homem gordo, alvo, com uns 45 anos de idade, gente muito boa, que
eu tive a oportunidade de conhecer. Além de ser engenheiro, Dr. Proença
era também agricultor, possuindo dois roçados: um aqui na margem do
açude grande, onde plantava algodão, milho, feijão e mandioca e outro lá
pras bandas do Lajeado, onde inclusive tinha uma caieira”.

Baixa-Verde | Raízes da nossa história | 29


O relato do velho Melcíades de Souza corresponde exatamente ao
que diz o conterrâneo Paulo Pereira dos Santos, em sua obra Um Homem
Admirável”, na qual traça o perfil do senador João Severiano da Câmara. Diz
Paulo Pereira: quando João Câmara chegou a Baixa-Verde, de frente à Estação
Ferroviária existia o barracão de Alfredo Edeltrudes, vendendo aos cossacos
víveres e outras mercadorias de consumo. Havia a bodega de José Antunes
de França e na esquina outra de Luiz Carneiro. Como ainda continuasse a
construção da Estrada de Ferro, estendendo-se para Lages, Dr. Antônio Proença
permanecia residindo em Baixa-Verde. Segundo algumas pessoas idosas da
sua época, ele era um homem gordo, de andar lento e boa pessoa. Gostava
de criar cavalos de sela e vacas de alta linhagem genética. Plantava algodão
e outras culturas de subsistência. Promovia grandes festas na sua casa,
reunindo os mais importante moradores da vila. Mais dois engenheiros,
também contratantes da Estrada de Ferro, residiam no povoado, Otávio Pena,
baixinho, olhos brilhantes sob a armação de um pincenê espelhante, filho do
Presidente da República, Afonso Pena, que havia inaugurado a Estrada de
Ferro. E outro engenheiro, Eduardo Parisot, de estatura alta, magro e cortês.
Morava também em Baixa-Verde, o técnico Fernando Gomes Pedroza, que
dirigia o Campo Experimental de Algodão no Riacho Seco”.
Caso ainda paire alguma dúvida sobre a identidade do verdadeiro
fundador de Baixa-Verde, eis o relato insuspeito do grande historiador e
folclorista Câmara Cascudo, em sua obra História de um homem (João
Severiano da Câmara – página 31, edição de 1954 – Departamento de
Imprensa Estadual): em 12 de outubro de 1910 inaugurava-se Baixa-verde.
Uma locomotiva deixou um vagão com o aparelho telegráfico e servia de
estação. Ao redor os ranchos surgiram da terra, a 83.952 metros de Natal.
Nem havia no local nome certo. Diziam “Matas”. Eram capoeirões baixos,
moitas na várzea verde e tranquila. O nome passou ao ponto terminal da
Estrada dos Proenças, quando Antônio Proença veio, alto, gordo, lento,
imenso, residir na casa que construiu, confortável e abrigadora. Chamou-se
então Baixa-Verde. Era esse Antônio Proença o denominador comum da
estrada. Representava o trabalho. Discutiram muito no choque de interesses
em que ele próprio seria o maior. Devemos-lhe Baixa-Verde no plano real.
Escolheu o local, riscou as ruas, ergueu as casas, cavou cacimbas, construiu
a capela dedicada a Nossa Senhora Mãe dos Homens. Lembro-me da sua
figura imponente, da amplidão do vulto nédio, o traje de branco, o chapéu
do Chile, os bigodes negros, o toutiço de zebu, a fala grossa, o gesto sereno,

30 | Baixa-Verde | Raízes da nossa história


a simplicidade completa, a bondade útil, oportuna inesgotável.Tinha o hábito
do conforto, da mesa farta, variada, aberta, fácil, da conversa gostosa, da
pilhéria de sal grosso, os costume do banho diário, as roupas asseadas, o
tratamento fidalgo. Incapaz de uma grosseria, cordato, amável, ia
desarmando a todos com uma grandeza tranqüila de paciência, tenacidade
e disciplina. Era o Dr. Proença de Baixa-Verde, plantando também algodão,
criando gado de raça, vacas de lei estrangeiras, que assombravam pela
quantidade do líquido esguichando cada manhã e cada tarde. E cavalos
robusto, com selas inglesas. E armas reluzentes, disparando sem parar para
as breves caçadas senhoriais. Deixou uma lembrança viva e há muita gente
que ainda o enxerga, vagaroso, imenso, cumprimentador, inventando Baixa-
Verde e organizando bailes intermináveis. Para essa Baixa-Verde recém
nascida, de vida indecisa, Vanvão deliberara fixar destino, vida esforço e
futuro”.
Resta, então apenas uma indagação a esclarecer: por qual razão An-
tônio Proença caiu no quase completo esquecimento, sendo apenas o nome
de uma rua na cidade que fundou?
A resposta quem nos dá, mais uma vez, é o velho Melcíades de Souza:
“quando os serviços de construção da estrada de ferro pararam lá pras ban-
das de Angicos e São Rafael, o Dr. Proença continuou em Baixa-Verde plan-
tando algodão na beira do açude grande, feijão, milho, mandioca e também
na fazenda que depois se chamou de Marajó, e montou uma caieira no
Lageado. Somente por volta de 1925 pra 1926 foi que o Dr. Proença, meio
adoentado, resolveu ir embora, vendeu tudo e foi pra outras regiões com a
sua empresa. Acho que voltou pra Minas Gerais donde provinha. Dr. Proença
não tinha filhos com dona Malvina.” Razão pela qual, digo eu, não deixou
herdeiros, que pudessem continuar a sua obra, nem elucidar com mais clare-
za a vida do verdadeiro fundador da nossa cidade.
Espero que esses relatos incontestes, desapaixonados e lúcidos, que
se encaixam formando um todo irrefutável, contribuam para se colocar a his-
tória da fundação da nossa cidade no seu leito natural, sem falsas afirmações,
que não condizem com a realidade histórica. João Câmara foi o maior empre-
sário, político de renome, a figura de maior destaque no contexto estadual,
mas o fundador de Baixa-Verde foi o Dr. Antônio Proença, inclusive oficiali-
zando-lhe o nome, pois precisava apor no prédio da estação ferroviária, que
construíra, o nome do lugar e ali apôs: Baixa-Verde.

Baixa-Verde | Raízes da nossa história | 31


32 | Baixa-Verde | Raízes da nossa história
MELCÍADES DE SOUZA,
TESTEMUNHA OCULAR DA HISTÓRIA
Melcíades de Souza é um dos seis filhos do casal Vicente de Souza da
Silva e Ana Maria da Conceição. Seus pais vieram de Pernambuco no ano de
1909, trazidos por um português chamado Manoel Ferreira, para trabalhar
na construção da estrada de
ferro. Em Baixa-Verde,
Melcíades casou com dona
Inês de França Souza, em 22
de janeiro de 1939, portan-
to, há 69 anos, nascendo da
união doze filhos. Destes,
três morreram aos primeiros
anos de vida, Melcíades, Leo-
nardo e Agnelo. Os demais,
estão todos vivos: Francisco
Rubens, quase septuagenário,
Maria Onete, Carlos, Lúcia,
Conceição, José Ribamar,
José Humberto, Maria Elza e
Maria Gorete.

Comerciante por natureza, Melcíades iniciou sua atividade na década


de quarenta, como ambulante, fazendo feiras, e estabeleceu-se pela primeira
vez no Mercado Público, graças a um “local” que lhe foi dado pelo então Pre-
feito Francisco Bittencourt no ano de 1946. Foi, também, vereador exercen-
do com dignidade o cargo que lhe foi confiado pelo povo baixa-verdense.,

Para minha enorme satisfação, trago a público o depoimento deste


valoroso cidadão, pioneiro entre os pioneiros, um dos mais antigos habitan-
tes do nosso município, cujo depoimento, gravado, colhi no dia 17 de feverei-
ro de 2008, em sua residência, com a presença do seu filho Francisco Rubens
de Souza, popularmente conhecido como Chiquinho de Melcíades.
Trata-se de um testemunho de alto valor histórico, dado por quem

Baixa-Verde | Raízes da nossa história | 33


viveu os fatos ocorridos em nosso município, desde os primeiros anos da sua
fundação. Observe-se que Melcíades de Souza nasceu no ano de 1913, ape-
nas 03 anos após a fundação do município. Daí o valor imensurável do seu
depoimento.

Ei-lo, na íntegra:

Nasci em Baixa-Verde, quando era uma mata só, em 28 de agosto de


1913. O povo morava um quilômetro distante um do outro, comendo preá e
bode. A casa onde nasci ficava ali onde tem hoje a igrejinha São Francisco. Vi
Antônio Proença com meus olhos, homem médio, gordo, com uns quarenta e
cinco anos de idade, casado com Dona Malvina. Junto com o Dr. Proença
trabalhavam mais três engenheiros: Dr. Alcides, Dr. Heronildes e Dr. Arcoverde.
Proença chegou em Baixa-Verde no ano de 1909, quando a construção da
estrada ainda estava em andamento.Palhares era o seu secretário. Pompeu,
concunhado de Dr. Proença, era casado com dona Lelé, irmã de dona Malvina.
Dr. Proença não tinha filhos com dona Malvina, mas o cunhado dele, Pompeu,
tinha filhos com dona Lelé.
De 14 pra 15 a verba da estrada acabou e Dr. Proença ficou cuidando
só da agricultura na beira do açude grande - algodão, milho, feijão e mandioca
– e no lugar onde depois foi a fazenda Marajó, e no Lajeado, onde tinha uma
caieira.
A Igrejinha foi feita em 1915, por dona Malvina. Quem construiu foi
um português de nome Manoel de Ares. Antônio Proença mandou derrubar
toda a mata que havia nesse quarteirão entre o grupo José da Penha e a
Praça Baixa-Verde, que ainda não existiam, e deu a madeira para as pessoas
fazerem casas. Passou o trator com o arado limpando tudo. Depois que ele
fez isso, começaram a surgir as casas.
Proença construiu várias casas para os empregados da rede ferroviária
e perfurou dois poços tubulares, que deram água salgada. Ele era um homem
progressista. Doutor Proença foi embora de 25 pra 26, estava se sentindo
doente.
Engana-se quem pensa que João Câmara foi o fundador de Baixa-
Verde. Quando João Câmara chegou nesta terra, no ano de 1914, já existiam
cinqüenta ou sessenta casas. O verdadeiro fundador de Baixa-Verde foi Antônio
Proença, que chegou aqui em 1909, e construiu quatro casas, sendo uma
delas para ele mesmo morar com a sua esposa, Dona Malvina. Seu Vanvão

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foi o homem de maior progresso. Antônio Proença fez também a planta da
cidade.
Muitas pessoas vieram pra cá. Veio Pedro Torquato, seu avô, que
matava boi, João Inácio, cunhado dele, Fortunato Guedes, casado com dona
Alice,de Ceará-Mirim. Pedro botou uma bodega na praça. Loló Clementino,
de Ceará-Mirim; Joaquim de Lima e Genésio de Oliveira, também de Ceará-
Mirim, que botou uma padaria; Antônio Gomes, que depois casou com Marília
França, veio de São Paulo do Juremal; Cícero Gomes, Pedro Baião, filho de
Sêo Baião, avô de Orlando Alves.
Havia três máquinas de descaroçar algodão: uma de João Câmara ali
na esquina da rua do Cemitério, onde depois ele construiu em 1934 a usina;
outra, de Pedro Torquato na rua José da Penha, perto do Grupo e outra de
Joaquim Câmara, ali onde foi o cinema, tudo isso por volta de 1925.
A primeira feira foi em 1921, mas o mercado só foi construído em 1923.
Joaquim Alves era o pai de Orlando e genro de Sêo Baião. Sêo Baião era avô
de Orlando Alves.
A primeira bodega de João Câmara ficava ali onde hoje é a loja de Roldão. Do
outro lado ficava uma padaria e uma bodega de um cidadão de Lages chamado
Antônio Pedro. Em 1918 Antônio Pedro adoeceu e foi embora pra Lages e
vendeu a bodega e a padaria a João Câmara.
Luiz Carneiro tinha uma loja na esquina, onde hoje é José de Souza, e
quando adoeceu João Câmara comprou, juntou com os pontos que havia
comprado a Antônio Pedro e fez uma grande loja que dobrava a esquina.
Assisti a inauguração do José da Penha. Eu tinha ido vender uns cajus
por ordem do meu pai e quando cheguei na rua vi o comentário de que o
governador ia inaugurar o grupo. Eu pensava que governador era gente do
outro mundo. Aí deixei os cajus na casa de um padrinho e fui assistir a festa.
Eu tenho cinco irmãos: João ainda é vivo mora no Rio de Janeiro,
Eronildes e José de Souza moram aqui.Eu tinha duas irmãs, Judite, casada
com João de Absalão e a outra era Maria, casada com Manoel Crispim.
Os primeiros jogadores de futebol foram: Jaime Câmara, Abdon
Torquato, Barnabé Justino, Orlando Alves, Euclides de Jacó, João Modesto,
João Fininho, Severino Benfica, José Martins Benevides, Eles jogavam na
capoeira onde hoje é a praça da Igreja. O primeiro time foi o Baixa-Verde,
depois veio o Serra Verde e o Barroso. O Barroso tinha um campo num terreno
que depois passou a ser de Joaquim de Lima. Vicente, pai de João Câmara,

Baixa-Verde | Raízes da nossa história | 35


morava bem ao lado do campo, sozinho com um menino que lhe fazia
companhia. Todo dias os filhos mandavam a comida dele.
A primeira vaquejada foi na rua da assunção, começando ali onde
hoje é minha mercearia, perto da praça, descendo na direção da estação. Tudo
ali era um arisco só. Não havia calçamento. O primeiro calçamento quem fez foi
Bittencourt na década de quarenta.
Outras vaquejadas aconteceram também na rua Nova, onde morreu Arnaud
Flôr.
Os primeiros médicos daqui foram o Dr. José Rodrigues e o Dr.
Raimundo Baracho Peni. Depois é que veio o Dr. Paiva. Teve também Ariamiro
de Almeida, que foi prefeito e o Dr. Letício, pai de Vanildo Queiroz, que eram
donos de farmácia e também passavam remédio para a população. O Doutor
José Gouveia também atendeu a muita gente.
Baixa-Verde que eu conheci era muito diferente da Baixa-Verde de
hoje

36 | Baixa-Verde | Raízes da nossa história


João Câmara, o Homem.
João Severiano da Câmara nasceu na localidade de Boa Vista,
município de Taipu, em 8 de março de 1895 , sendo filho de Vicente Rodrigues
da Câmara e Maria Rodrigues da Câmara. A pequena Boa Vista, no dizer de
Câmara Cascudo, foi confundida com outra localidade que lhe ficava próxima,
Passagem Funda, daí constar oficialmente o nome desta última como o lugar
onde João Câmara nasceu. Seu pai, Vicente Rodrigues da Câmara era filho de
João Severiano da Câmara e Tereza Rodrigues da Silveira. Portanto, ao filho,
que foi o segundo da sua prole, foi dado o nome do avô paterno.
O destino de João Câmara parecia estar irremediavelmente ligado a
Baixa-Verde. Tanto é que, ainda menino, por diversas vezes esteve em
Cauassu, hoje distrito de João Câmara, passando dias de férias na casa de
uma tia (irmã de seu pai), dona Joaquina Possidônio da Câmara, apelidada
de dona Quininha, casada com Felipe Cândido Monteiro, cujos descendentes
(família Monteiro) ainda hoje residem naquela pequena comunidade
interiorana.
Ainda moço, aos 18 anos de idade, já apelidado de Vanvão, trabalhou
no I.F.O.C.S (Inspetoria Federal de Obras Contra as Secas), órgão que antecedeu
o DNOCS, e como tal tinha a missão precípua de construir barragens para
amainar o secular problema da escassez de chuva no nordeste brasileiro,
missão que até os dias de hoje, já em pleno século vinte e um, se arrasta a
passos de tartaruga.
Não satisfeito com o emprego, que pouco lhe rendia, a não ser um
mísero salário, suficiente apenas para cobrir os custos de manutenção, João
Câmara retornou à casa paterna no início do ano de 1914.
Estabelecida a discussão sobre o que estaria reservado ao jovem ávido
por melhores dias, veio à baila a possibilidade do mesmo instalar-se num
lugar chamado Baixa-Verde, situado a vinte e sete quilômetros da sede do
município de Taipu, onde desde 1910 os trilhos da rede ferroviária já haviam
chegado. Corria de boca em boca que o lugar prosperava com uma rapidez
impressionante, visto situar-se estrategicamente na porta de entrada de uma
vasta região ainda inexplorada, mas de grande potencial agrícola.
Em 6 de junho de 1914 João Câmara chegou a Baixa-Verde,
acompanhado do seu irmão, Jerônimo, conhecido com Loló. Inicialmente,
estabelece-se com uma pequena casa de comércio, depois fundou plantações

Baixa-Verde | Raízes da nossa história | 37


de algodão, trouxe outro irmão de nome Alexandre (Xandu), para ajudar nos
serviços, e com ele fundou a firma João Câmara e Irmãos, que pouco tempo
depois seria uma das maiores do estado, destacando-se no beneficiamento
de algodão produzido nos milhares de hectares de terras próprias ou
adquiridos de terceiros.
Em 1928 João Câmara tornou-se o primeiro prefeito do recém criado
município de Baixa-Verde, que se tornara autônomo, em grande parte, graças
ao seu empenho, tomando posse às 13 horas do dia 1° de janeiro de 1929, no
salão principal do grupo escolar Capitão José da Penha. Antes, porém, havia
sido Intendente em Taipu, empossado em 1° de fevereiro de 1926. Com o
advento da Revolução de 1930, João Câmara foi demitido, sendo nomeado
para o seu lugar o cidadão Ariamiro de Almeida. Usando da força política dos
amigos, foi novamente nomeado Prefeito em 06 de dezembro de 1930,
exercendo o cargo até 28 de novembro de 1932.
Depois de prefeito de Baixa-Verde, João Câmara exerceu o mandato
de deputado estadual por duas vezes, ambas na década de trinta e, finalmente,
senador da república por ocasião da redemocratização ocorrida após a
segunda guerra mundial e a derrubada da ditadura de Getúlio Vargas, em
1945. Inusitado é o fato de que não há registro de sua posse no Senado Federal,
sendo certo que não compareceu a nenhuma sessão por todo o tempo em
que teve o mandato. Foi um dos fundadores do Partido Social Democrático,
o legendário PSD, chegando a exercer a sua presidência regional. A morte
alcançou-o às seis horas e trinta minutos do dia 12 de dezembro de 1948,
quando já havia sido escolhido governador, por consenso das maiores
lideranças políticas do estado.
Constitui, porém, ledo engano imaginar-se que o consenso em torno
do político, João Câmara, refletia a mesma opinião sobre o homem. Poucas
pessoas, no seu tempo, despertaram tantas paixões dos admiradores e tantos
ódios dos que lhe eram adversários.
Político de sucesso e empresário vitorioso, João Câmara foi alvo de
admiração e respeito dos seus amigos e correligionários, e de ódios dos seus
inimigos e adversários. Ninguém com ele conviveu ou foi seu contemporâneo,
sem filiar-se a uma destas duas correntes. Há registros de ambos os casos,
conforme depoimentos insuspeitos de alguns historiadores potiguares.
Na primeira vertente, ou seja, dos seus admiradores, estão historiadores
do porte de um Paulo Pereira dos Santos, ilustre conterrâneo, que o descreve
em sua obra Um Homem Admirável como “um paladino do trabalho e da

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honestidade, exemplo e modelo de dignidade humana”, embora registre,
como competente historiador, as opiniões dos que lhe faziam restrições.
Para Luís da Câmara Cascudo, que fora seu colega na assembléia
legislativa, João Câmara “era uma das maiores fortunas pessoais do Rio Grande
do Norte”... “falava fluentemente e agradavelmente. Era um conversador
esplêndido, companheiro magnífico, acolhedor, simples, compreensivo”,
opinião comungada e externada pela grande maioria dos políticos e
empresários da época, por ocasião do seu falecimento em inúmeros
depoimentos publicados na imprensa local.
A segunda corrente, ou seja, aquela formada pelos seus adversários e
inimigos, devotava-lhe verdadeiro ódio. Dentre estes, destacava-se o Dr. João
Maria Furtado, que o acusara de mandar prendê-lo arbitrária e injustamente
por ocasião da Intentona Comunista de 1935.
Segundo relata em suas memórias (Vertentes) o Dr. João Maria, à época
juiz de direito da comarca de Baixa-Verde, quando eclodiu o movimento
comunista, encontrava-se ele veraneando com sua família na praia de Cajueiro,
município de Touros, quando chegou um caminhão, dirigido por um motorista
de confiança de João Câmara, com soldados do exército, que o levaram preso
com seu cunhado e demais familiares com destino a Baixa-Verde. Em ali
chegando, foi apresentado a João Câmara, que se encontrava “ em frente à
prefeitura, fardado de capitão do exército, comandando, do local, a repressão”.
Adversários e inimigos de João Câmara punham também em dúvida a
lisura de sua fortuna, chegando muitos a afirmar que a sua riqueza havia sido
adquirida, em grande parte, de forma desonesta. De acordo com esta versão,
agricultores que haviam sido beneficiados por ele com financiamentos ao
longo do ano, para pagar com a safra de algodão, como era de costume, não
tendo como saldar seus débitos em tempos difíceis, como nas grandes secas,
eram instados a pagar tudo em vinte e quatro horas, e como não tinham
como levantar as importâncias em tão curto espaço de tempo, suas terras
eram tomadas pelo valor da conta, muito embora o valor do patrimônio
superasse em muito o débito.
Num tempo em que campeavam as historias de sacipererê, mula-sem-
cabeça, caiporas, fogo-do-batatão, e almas penadas, corria à boca pequena
entre as pessoas de menor instrução, que João Câmara havia feito um pacto
com o demônio, a quem entregara a alma em troca da iluminação para adquirir
riqueza. Pura imaginação.

Baixa-Verde | Raízes da nossa história | 39


No entanto, o depoimento mais contundente, entre tantos, sobre a
personalidade do ex-senador, foi dado ao extinto jornal Dois Pontos, na
década de oitenta, por um dos seus filhos. Numa longa entrevista, Wilson
Câmara relata que estava na cidade de Maceió, estudando, quando poucos
dias antes do final do mês acabou o dinheiro de sua mesada. Necessitado,
disse Wilson, telegrafou para o pai pedindo um reforço financeiro. Dias
depois recebeu um outro telegrama com a resposta, onde João Câmara
dizia secamente: não mando. Aflito, Wilson, deixou passar mais alguns dias
e como não tivesse chegado nenhuma ajuda, telegrafou novamente, desta
vez carregando na súplica: pai, não sei nem como vou voltar para Natal. O
que faço? Passados alguns dias, veio a resposta fulminante: venha a pé.
Continuando com sua catilinária contra o próprio pai, Wilson Câmara
demonstra na entrevista concedida ao semanário Dois Pontos, que João
Câmara era temido não só pelos eleitores e empregados da sua fazenda e
empresa, que a ele se referiam simplesmente como o homem, mas que esse
temor passava pelos próprios irmãos, seus sócios minoritários, que, diante
da sua simples presença, ficavam de tal forma nervosos, que tinham
dificuldade de executar as mais simples tarefas. Quando João Câmara chegava,
diz Wilson, perguntava logo pelo seu irmão Loló, gerente financeiro, e com
ele dirigia-se ao escritório onde estavam os livros com os registros da
movimentação. A esta altura, temendo que o irmão encontrasse alguma coisa
que não estivesse ao seu gosto, Loló começava a tremer, o que poderia ser
visto a olho nu por ocasião do simples manuseio dos livros e do passar das
páginas. João Câmara então perguntava: que é isso, homem, você está
tremendo! Está me escondendo alguma coisa? A intervenção provocava um
descontrole emocional maior ainda no pobre homem, ao ponto de quase
levá-lo ao pânico.
Para se prevenir de eventuais surpresas desagradáveis, os irmãos Xandu e
Loló combinaram com o motorista particular de João Câmara, Luís Pinto, que,
quando estivesse conduzindo o patrão, ao chegar nas proximidades da loja ou da
usina, deveria dar três buzinadas de aviso. Era a senha salvadora e necessária,
em tempo ainda para que todos se prevenissem, arrumassem as gavetas,
assumissem postura condizentes com o ambiente de trabalho. Lamentavelmente
o combinado não durou muito tempo, porque, esperto, o homem desconfiou e
perguntou ao motorista: ô Luis Pinto me diga por que toda vez que a gente se
aproxima do escritório você dá três buzinadas? O motorista deu como resposta
uma desculpa esfarrapada e nunca mais repetiu o gesto.

40 | Baixa-Verde | Raízes da nossa história


Por não ter que se submeter a tais constrangimentos, o irmão Antonio
Severiano (Tonho) não pretendeu fazer parte dos negócios de João Câmara,
preferindo fundar propriedades rurais nos grotões do mato grande, limites
do município de Parazinho e Touros, município do qual chegou a ser prefeito.
O apego excessivo aos negócios, quase uma obsessão, levou João
Câmara a não tomar posse no cargo de senador da república, para o qual fora
eleito em 19 de janeiro de 1947, -com mandato de apenas quatro anos -,
ficando a representação federal do Rio Grade do Norte desfalcada ate o final
de 1948, quando João Câmara faleceu, assumindo a vaga o suplente
Kerginaldo Cavalcante de Albuquerque.
De nada valeu a luta insana por bens materiais. Poucos anos depois da
sua morte, dizem que por despreparo dos seus sucessores, o imenso
patrimônio da firma João Câmara & Irmãos foi adjudicado ao Banco do Brasil
em pagamentos de débitos contraídos e não pagos.
Conta o monsenhor Luis Lucena, vigário de Baixa-Verde desde os idos
de 1958, que, por ocasião do sepultamento de João Câmara, quando o féretro
se aproximava do cemitério do Alecrim, já subindo a ladeira do Baldo, João
Urbano de Araújo, comerciante em Baixa-Verde e extremamente ligado à
Igreja Católica, devoto de Nossa Senhora de Fátima, perguntou preocupado
ao monsenhor Vicente Freitas, então pároco daquela freguesia: e agora,
monsenhor Freitas, o que será de Baixa-Verde? Ao que o monsenhor
respondeu: João, Baixa-Verde nasceu hoje, porque infeliz é a terra em que só
um homem manda!
João Câmara era casado com dona Maria Rodrigues da Câmara, uma
santa senhora, que lhe deu vinte filhos (segundo informa o escritor Câmara
Cascudo), dos quais apenas cinco sobreviveram (Edson, Wilson, Elza, Teresinha
e Joãozinho). Esta senhora tida e havida por todos que a conheceram, inclusive
pelos mais ferrenhos adversários do seu marido, como uma alma generosa,
humilde, afável, conheceu os píncaros da gloria e as profundezas do
ostracismo e da pobreza. Depois de ter sido esposa de um dos homens mais
ricos do estado, prefeito, deputado e senador da república, residindo em uma
mansão no bairro do Tirol, à avenida Hermes da Fonseca, em frente a Escola
Domestica de Natal, cercada de empregados e amigos, viveu seus últimos
dias na humilde rua Meira e Sá, bairro Vermelho, em Natal, morando em
uma casinha simples, de poucos cômodos e sobrevivendo graças a uma pensão
especial que lhe foi concedida pelo governo do estado.

Baixa-Verde | Raízes da nossa história | 41


42 | Baixa-Verde | Raízes da nossa história
BAIXA-VERDE OU JOÃO CÂMARA?
Conhecida inicialmente como Matas - pois ali de fato não existia
população alguma, a região onde surgiu a atual cidade de João Câmara,
tornou-se cidade em 29 de outubro de 1928, com o nome de Baixa-Verde,
topônimo que lhe foi dado pelos primeiros habitantes do lugar, à frente o Dr.
Antônio Proença, engenheiro e proprietário da empresa encarregada da
construção da estrada de ferro. O nome Baixa-Verde tornou-se grandemente
conhecido por todos os recantos do estado do Rio Grande do Norte e assim
permaneceu sem contestações, até que em 19 de novembro de 1953, foi
aprovada pela Assembléia Legislativa a mudança para João Câmara (Lei nº
899), obviamente em homenagem ao político e empresário que falecera cinco
anos atrás. A mudança ocorreu sem que houvesse qualquer consulta à
população, o que era muito comum à época, visto que ainda vivíamos os
tempos dos coronéis e seus currais.
Ao contrário do que ocorreu em outras cidades, como Bento Fernandes,
por exemplo, que se chamava Barreto e a mudança foi aceita pela população
sem maiores resistências, o novo nome jamais alcançou, no seio da população,
a receptividade desejada pelos seus idealizadores. Ainda hoje, passados quase
cinqüenta anos, a população teima em dar o nome de Baixa-Verde a muitos
dos seus empreendimentos. Assim é que o açougue, a cigarreira, o clube
social, a emissora de rádio, a praça central, um dos supermercados, a indústria
de plásticos, e diversas outras iniciativas, de caráter privado, mantém vivo o
nome consagrado pela população nos tempos originais. Uma forma de
resistência de todo louvável, na medida em que se sabe que o poder público
nada faz para preservar a memória da cidade, como é de sua obrigação e
dever para com a história.
Embora o assunto sempre estivesse em pauta nas conversas informais,
durante todos esses anos houve uma única tentativa mais organizada de fazer
a cidade retornar ao nome, o que aconteceu na ocasião da elaboração da lei
orgânica do município, logo após a promulgação da Constituição Federal de
1988. Aproveitando os ventos trazidos pela redemocratização do pais, e
conseqüente fim da ditadura, um grupo de baixaverdenses, bastante
expressivo, tomou a iniciativa de propor a reintrodução do nome Baixa-Verde.
Desse grupo, além da minha pessoa, faziam parte o monsenhor Luis Lucena,
pároco; a professora Francisca Alves Rodrigues, coordenadora local do Sinte;

Baixa-Verde | Raízes da nossa história | 43


pastores da igreja evangélica; líderes sindicais e diversas outras pessoas,
representantes dos mais significativos segmentos da sociedade local. Nossa
luta centrava-se na imperiosa necessidade de fazer prevalecer o topônimo
nascido espontaneamente da sabedoria popular, belo, sonoro e imune a
críticas, sem estabelecer nenhum paralelo com a vida pessoal, política ou
empresarial do homem homenageado.
Ressalte-se que a imprensa natalense, como um todo, deu apoio à
iniciativa, com seguidas manifestações favoráveis de expressivos articulistas,
cronistas, editorialistas, redatores e repórteres da melhor qualidade.
O movimento ganhou tal vulto que, ainda hoje, principalmente na
capital, muitas pessoas perguntam qual é o nome da atual cidade, Baixa-Verde
ou João Câmara? Alguns chegam a se confundir ao ponto de referirem-se à
cidade como “Baixa-Verde, antiga João Câmara”.
Convém registrar, por dever de justiça, que o único político em atividade
pertencente a família Câmara, o deputado Antônio Câmara, à época deputado
federal, em entrevista ao jornalista Cassiano Arruda na TV universitária,
manifestou-se favoravelmente ao retorno da cidade ao seu nome original,
com a ressalva que “por questões familiares” não faria campanha nesse
sentido. O próprio deputado instalou um emissora de radio na cidade, a quem
deu o nome de Rádio Baixa-Verde.
Oportuno lembrar que pesquisa realizada no final da década de
noventa, na qual foram ouvidas mais de trezentas pessoas sobre qual nome
preferiam para o município, mostrou que mais de 47% da população optaram
por Baixa-Verde; adeptos do nome João Câmara foram apenas 24% e o
restante mostrava-se indiferente.
Mesmo com todas estas circunstancias favoráveis, o retorno da cidade
ao nome original encontrou um obstáculo intransponível, justamente no lugar
onde menos se esperava, qual seja, na Câmara Municipal. Naquela casa
legislativa, um grupo de vereadores, sem qualquer compromisso com a
posteridade e com os valores maiores da sociedade, entendeu de ser contra
a iniciativa mediante o pífio argumento de que “alguns membros da família
Câmara poderiam não gostar” e, assim, com muita luta e persistência o que
se conseguiu foi que o assunto fosse inserido nas disposições transitórias da
lei orgânica local, em forma de um artigo que transferia a responsabilidade
da decisão para o povo, através de um plebiscito. Tal plebiscito nunca foi
convocado, permanecendo o dispositivo legal como simples morta na carta
municipal.

44 | Baixa-Verde | Raízes da nossa história


O fato é que Baixa-Verde permanece João Câmara, à espera de um
dia,quem sabe não muito distante, em que homens de fibra tomem para si
os exemplos de cidades como Parnamirim (Eduardo Gomes), Campo Grande
(Augusto Severo), Serra Caiada (Presidente Juscelino), Boa Saúde (Januário
Cicco), e tantas outras, que tiveram a coragem de enfrentar as forças
reacionárias fazendo retornar os antigos nomes, e façam prevalecer o
verdadeiro sentido do que se convencionou chamar cidadania.

Baixa-Verde | Raízes da nossa história | 45


46 | Baixa-Verde | Raízes da nossa história
BREVE HISTÓRIA DA ESCOLA
CAPITÃO JOSÉ DA PENHA
A Escola Estadual Capitão José da Penha é a mais antiga instituição de
ensino de Baixa-Verde. Sua trajetória começa como simples escola rudimentar,
dirigida pela professora Maria Henriques Maia, logo elevada à condição de
Grupo Escolar pelo Decreto nº 350, de 15 de outubro de 1927, devido à
necessidade crescente de atendimento às dezenas de jovens que acorriam à
procura dos seus préstimos. A jacente Baixa-Verde, vivendo o esplendor dos
primeiros anos, fervilhava de gente chegando em busca do eldorado potiguar.
Surgiu daí a necessidade de construção de um prédio moderno e amplo, para
os padrões da época, que pudesse abrigar em seu seio toda aquela gama de
jovens ansiosos por ter acesso ao conhecimento. Assim é que as autoridades
da época reivindicaram e conseguiram junto ao presidente do estado, Dr.
José Augusto Bezerra de Medeiros a construção do prédio onde ainda hoje
funciona, com algumas modificações, a tradicional escola. Não parece ser
verdadeira a versão, segundo a qual, o prédio teria sido construído em
mutirão, com a participação da comunidade local. A placa de inauguração,
ainda hoje chantada no frontispício do prédio, dá conta que o mesmo foi
construído pelo governo do estado, o que nos parece retirar qualquer dúvida
a respeito do assunto. A inauguração deu-se a 26 de dezembro de 1927,
pelas dezesseis horas e contou com a presença de dezenas de autoridades e
populares. A ata de fundação registra a presença, dentre outras, das seguintes
pessoas: Dr. José Augusto Bezerra de Medeiros, João Câmara, João Gomes da
Costa, Paulo Viveiros, José Gomes da Costa, Alexandre Rodrigues da Câmara,
Miguel Monteiro, Pedro Gomes Baião, Elisa Henriques Bittencourt, Francisco
Teixeira Sobrinho, Joaquim Soares de Miranda, João Ignácio Filho, Barnabé
Justino de Souza, José Martins de Sá Benevides, Joaquim de Castro e Silva,
Severino Benfica, Sinval Lima e Fausto Lima, Francisco de Assis Bittencourt,
Antônio Justino de Souza, Áurea Varela de França e Genésio de Oliveira.
Ao longo de sua trajetória de quase oitenta e um anos, dezenas de pessoas
passaram pela sua direção, com destaque para o professor Sebastião Diniz
Henriques, o primeiro diretor, seguido pelas professoras Adélia Soares Teixeira,
Adélia Brandão, Maria Guimarães e Leonor Maciel do Amaral. Nos últimos
cinqüenta anos, assumiram a direção do estabelecimento as pessoas de Salete

Baixa-Verde | Raízes da nossa história | 47


Ferreira, Sônia Varela, Joana D‘arc Rocha da Câmara, Gino Miranda Santos,
Aldo Torquato da Silva e Dilma Leonardo. A atual diretora é a professora Marta
Geruza, eleita pelo voto direto dos professores, alunos e pais de alunos.
Quanto aos alunos, revolvendo os arquivos da velha instituição,
encontramos os nomes de Dagmar Varela e Antônio Simplício (Tota), ainda
no tempo da Escola Rudimentar (1926/1927) e, a partir da inauguração até o
ano de 1942, registramos as presenças dos irmãos Wilson, Wanda e Engrácia
Varela, Geralda Ataliba, Joaquim Câmara, Palmira Bezerra, Durval Justino de
Souza, Geraldo Teixeira (Torquato) e Manoel Teixeira (Torquato), José
Bittencourt, Francisco Freire de Melo, Floriano de Sá Benevides, Terezinha
Ferreira, Ivone Teixeira (Torquato), os irmãos Guaraci, Iramar e Itamar do Lago
Moura, João França, Severo Alves da Câmara, João Batista Ataliba, Maria da
Paz Bittencourt, Maria Djanira Benfica (Liquinha), Terezinha Câmara. Sônia
Varela e Maria Antonieta Bittencourt.
De minha parte, estudei no José da Penha nos anos de 1958 a 1961,
onde fiz o primário. Minha primeira professora foi Pretinha. Depois, vieram
Elma Gouveia e Raimundinha. Dos meus contemporâneos, lembro apenas de
alguns: Esteferson Vieira Lopes (Gôda), Francisquinho Doutor, Jacyra Celestino,
hoje casada com João Batista Ataliba, e Virgínia, filha de Miguel França, que
dividia a carteira comigo na segunda série.
Cumpre registrar que, a partir do ano de 1943, funcionou
provisoriamente no mesmo prédio, a Escola Darcy Vargas, mantida pela Legião
Brasileira de Assistência – LBA, entidade assistencialista, criada e dirigida pela
esposa do presidente da república, Getúlio Vargas. Ao que nos é dado
conhecer, poucos anos durou a Escola Darcy Vargas, certamente perdendo-
se no tempo com a derrocada da ditadura e a volta à democracia ao final da
segunda guerra mundial (1945).
Durante o período que vai de setembro de 1959 a 1961, o prédio da
Escola Capitão José da Penha abrigou a Escola Comercial, atual Colégio João
XXIII e durante os anos de 1976 e 1977 funcionou também como escola de 2º
grau, depois transferida para a Escola Estadual Antônio Gomes.
Quanto às instalações físicas, da inauguração até os anos setenta,
aproximadamente, o José da Penha funcionou com apenas três salas de aula,
sendo uma delas de tamanho normal, e as outras duas em um grande salão,
subdividido ao meio por um tapume de madeira, removível, com mais ou
menos dois metros de altura. Tudo que um professor dizia o outro escutava
na sala ao lado. Os banheiros ficavam ao fundo do terreno, com mais de

48 | Baixa-Verde | Raízes da nossa história


vinte metros de distância, que a garotada precisava percorrer correndo em
dias de chuva quando tinha que ir fazer as suas “necessidades”. O detalhe é
que o aluno que fosse ao sanitário levava uma pedra em seu poder e, caso
outro aluno desejasse também utilizar o mesmo equipamento, teria que
esperar que aquele voltasse e lhe passasse a pedra. Por ocasião da encenação
de peças teatrais, filmes, festas e solenidades, o tapume era retirado e o grande
salão abrigava centenas de pessoas. Foi nesse grande salão que aconteceu a
solenidade de instalação do município de Baixa-Verde, com a posse dos
intendentes e do Prefeito João Câmara, em 1º de janeiro de 1929.
Atualmente, a Escola conta com dez salas de aula, além da diretoria,
secretaria e área de apoio, desenvolvendo suas atividades dirigidas para o
ensino fundamental e educação de jovens e adultos – EJA.
O nome da escola é uma homenagem ao Capitão José da Penha Alves
de Souza, nascido em Angicos, no ano de 1875 e falecido no Ceará, no dia 22
de fevereiro de 1914. Segundo registra a história, José da Penha foi assassinado
por um jagunço que obedecia às ordens do Padre Cícero Romão Batista, na
famosa guerra contra as forças do governador Franco Rabelo.
Na opinião de Aluízio Alves, José da Penha foi o primeiro potiguar a
empreender uma campanha eleitoral de cunho popular, desafiando as
oligarquias da época, em defesa de um candidato a presidente do estado,
que não contava com o apoio das forças tradicionais. Fez comícios, falou
diretamente ao povo. Foi derrotado. Mas deixou o seu nome gravado na
história política do estado, e angariou o merecido respeito dos norte-rio-
grandenses.

Baixa-Verde | Raízes da nossa história | 49


50 | Baixa-Verde | Raízes da nossa história
PEQUENA HISTÓRIA DO BAIXA-VERDE
FUTEBOL CLUBE (I)
Antes mesmo de Baixa-Verde haver sido elevada à condição de cidade,
cidadãos com espírito associativista reuniram-se e constituíram uma
associação, com o fim de organizar e dinamizar as atividades esportivas e
sociais no ainda povoado de Baixa-Verde, pertencente ao município de Taipu.
Segundo consta da ata de fundação, lavrada no dia 25 de março de
1928, sete meses, portanto, antes da emancipação do município, a reunião
preparatória aconteceu na residência do senhor Francisco Teixeira Sobrinho,
pelas 14 horas e contou com as presenças das seguintes pessoas, que passaram
à condição de fundadores da associação: Jerônimo Severiano da Câmara,
Francisco de Assis Bittencourt, Alberto Fernandes, Bento Tenório da Silva,
Joaquim Soares de Miranda, Severino Augusto Taipu Benfica, Francisco Teixeira
Sobrinho, Euclides Rodrigues da Costa, Manoel Nazareno Bittencourt, José
Teixeira, Hermenegildo Bezerra da Silva, Orestes Martins, Orlando Alves da
Rocha, Raul Varella, João Manoel Fernandes, Pedro Nicácio da Cunha, Pedro
Gomes Baião, João Freire, Octacílio Carvalho, Jaime Câmara, Manoel Rodrigues
da Chagas, Arthur Ferreira da Soledade, Orlando Nicácio da Cunha, Waldemar
Baião, José Martins de Sá e Benevides, Sinval Poty de Oliveira, Severo Alves
da Rocha e Antônio Trigueiro, que assumiu a presidência dos trabalhos,
convidando para secretário adhoc o senhor Raul Varella.
Na mesma reunião foi eleita a primeira diretoria, sem mandato
definido, assim constituída: Presidente, Jerônimo Severino da Câmara; Vice-
Presidente, Francisco de Assis Bittencourt; 1º Secretário, Euclides Rodrigues
da Costa; 2º Secretário, Joaquim Soares de Miranda; Orador, Manoel
Rodrigues das Chagas; Tesoureiro, Bento Tenório da Silva e Diretor de Esportes,
Antônio Trigueiro.
Chama a atenção que, nessa primeira reunião, não foi discutido o
nome da associação, o que somente aconteceu no dia seguinte, quando os
associados reunidos no mesmo local, tido como sede provisória, aprovaram,
por unanimidade, o nome Baixa-Verde Futebol Club, sendo escolhidas as cores
encarnada e preta, para representar o clube recém fundado.
Terminados os trabalhos de constituição do novo sodalício, a diretoria
passou então a ampliar o quadro social, convidando pessoas de destaque na

Baixa-Verde | Raízes da nossa história | 51


comunidade, as quais, apesar de conhecidas e bem conceituadas, só poderiam
ser aceitas se apresentadas por sócios da entidade, que seriam seus “fiadores”.
A primeira reunião para aprovação dos nomes dos aspirantes ao quadro social,
na condição de contribuintes, aconteceu no dia 22 de abril do mesmo ano e
foram apresentados pelo sócio Euclides Rodrigues da Costa os seguintes
nomes: Octávio Praxedes do Amaral, João Maria Furtado, José Augusto de
Moura, Braz Gomes da Silva, Amaro Batista de Oliveira, José Maria dos Santos,
Sóter Fernandes, Abelardo Moreira, Pedro Gomes da Costa, Alexandre
Rodrigues da Câmara, Antônio Pereira Dias, Adaucto Teixeira e Sebastião Maia.
Sendo grande a aceitação da nova associação, diversas outras pessoas
procuraram a diretoria com o objetivo de associar-se, sendo aprovada na
reunião do dia 27 de maio do ano seguinte, uma proposta do sócio Joaquim
Soares de Miranda, com os seguintes nomes: Oscar Samuel Jones Nelson,
Odilon Cabral de Macedo, José Alves Ribeiro, João Fabrício Alves, Antônio
Gomes da Costa e para sócio benemérito o coronel João Gomes da Costa,
que outro não era senão o grande líder político de então do município de
Taipu, sogro de João Severino da Câmara.
Na mesma oportunidade, foram lidos dois ofícios de congratulações
pela fundação da nova entidade, sendo o primeiro do ABC Futebol Clube,
de Natal e o segundo, do 13 Futebol Clube, da cidade de Pedro Velho. O
primeiro “desafio” foi proposto pelo Serra Verde Futebol Clube, da localidade
de mesmo nome, sendo aceito por unanimidade e marcado o “embate
futebolístico” para o dia 10 de junho, “em nosso gramado”.

52 | Baixa-Verde | Raízes da nossa história


PEQUENA HISTÓRIA DO BAIXA-VERDE
FUTEBOL CLUBE (lI)
De acordo com os estatutos sociais, o mandato da diretoria do Baixa-
Verde durava apenas um ano, o que era pouco para se realizar um bom trabalho,
mas tinha de positivo o fato de que os seus membros eram constantemente
submetidos à avaliação de suas gestões. Outrossim, vale lembrar, também, que
a monotonia da vida naqueles tempos, fazia com que um ano equivalesse a
dois ou mais, se comparados aos tempos agitados de hoje.
A primeira diretoria, à frente a pessoa de Jerônimo Câmara,
demonstrando avanço em relação ao seu tempo, com menos de quatro meses
de mandato, tratou de eleger uma diretoria feminina (08.07.1928), que ficou
assim constituída: presidenta, Dorothéa Câmara; vice, Ester Furtado; 1ª
secretária, Lylia de Carvalho; 2a secretária, Maria de Lourdes Alves; oradora,
Igná Ribeiro Dantas; vice, Ovídia Miranda, e tesoureira, Helena Bezerra da Silva.
Uma das atividades da diretoria feminina era recepcionar as delegações
visitantes, como ocorreu quando o América Futebol Clube, de Natal, esteve
na cidade, constituindo-se no primeiro clube da capital a enfrentar o Baixa-
Verde. À frente da delegação, o Dr. José Gomes da Costa, presidente do clube
vermelho, e a recepção ocorreu no Grupo Escolar Capitão José da Penha,
especialmente cedido para o evento, em razão de não haver outro salão
disponível. O ato, digno de registro, aconteceu no dia 12 de agosto de 1928,
em sessão solene. A primeira realizada pelo clube recém fundado.
O Departamento Esportivo Feminino somente foi criado em 12 de
setembro de 1948 e a sua diretoria ficou assim constituída: Presidenta, Dilze
Sabino Pinho; Vice, Dagmar Varela; 1ª Secretária, Engrácia de França Varela;
2a Secretária, Arimar Queiroz; Oradora, Dilza Fernandes da Mota e Tesoureira,
Izabel Silva.
Durante os primeiros quinze anos de existência, o Baixa-Verde Futebol
Clube foi administrado quase que exclusivamente por Jerônimo Câmara (Loló) e
Francisco Bittencourt, que se revezavam no comando da entidade, ora como
presidente, ora como vice.
Alguns fatos curiosos chamam a atenção e estão devidamente
registrados no livro de atas. O primeiro deles, é a presença, no dia da
inauguração da sede própria, que coincidiu com a posse da segunda diretoria

Baixa-Verde | Raízes da nossa história | 53


eleita, em 21 de abril de 1929, dos futuros desafetos, João Câmara e João
Maria Furtado, que “fizeram brilhantes discursos”. O tom de harmonia
existente no ambiente, por ocasião daquele momento festivo, em nada fazia
supor o clima de animosidade que se instalaria poucos anos após, culminando
com a prisão do segundo, por ordem do primeiro.
Como parte das comemorações daquele dia, tido como memorável
pelos associados de então, foram realizadas as seguintes provas esportivas,
que, pela singeleza, merecem menção: corrida rasa, vencida por Sissi (Severino
Benfica); corrida da agulha, também vencida por Sissi; corrida do saco, vencida
por Miranda; corrido do ovo, vencida por Raul; salto em altura, vencido por
Luiz Tavares e corrida de três pernas, vencida por Sissi e João Maria. Os prêmios
foram, respectivamente: um vidro de loção, uma gravata, um par de meia,
uma caixa de sabonete e um vidro de extrato. Encerrando as atividades, foi
realizado um jogo de gordos contra magros, que terminou empatado em três
tentos.
Há, ainda, que se registrar, no campo das curiosidades, a criação, pelo
próprio Baixa-Verde, de um time de futebol denominado São Cristóvão Futebol
Clube, com a finalidade de “se bater constantemente com as nossas cores”, como
consta do livro de atas.
Na reunião realizada no dia 09 de outubro de 1940, Francisco
Bittencourt apresentou aos sócios uma “moderníssima” eletrola de 11
válvulas, que ali se encontrava para ser apreciada, e caso recebesse a
aprovação seria comprada, como de fato o foi, à firma Carlos Lamas, de Natal,
pelo preço de sete contos e quinhentos réis.
A primeira mulher a compor a diretoria principal do Baixa-Verde F.C.,
eleita em 25.11.1946, foi Engrácia de França Varela, a nossa querida professora
Gracinha, que anos após acumulou às suas atividades do magistério, a função
de secretária do colégio João XXIII. Dona Gracinha, atualmente reside em
Natal e, ao lado da sua irmã, Sônia Varela - ambas filhas do também professor
Cícero Varela, ajudaram a formar o caráter e o saber de várias gerações da
nossa terra.

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PEQUENA HISTÓRIA DO BAIXA-VERDE
FUTEBOL CLUBE (FINAL)
Dentre as dezenas de pessoas admitidas no quadro social do Baixa-
Verde Futebol Clube, durante os seus primeiros vinte anos de vida, além das
já referidas anteriormente, ressalto os nomes e as datas de admissão de
Genésio de Oliveira, Vicente Rebouças da Câmara, Bianor Aranha, Cornélio
Câmara (04.07.1928); Fausto Lima (24.09.1928); Antônio Severiano da Câmara
(08.10.1928); José Severiano da Câmara (27.02.1929); Abdon Teixeira da Silva
(meu pai) (17.03.1929); Wilson Câmara (06.05.1929); João Urbano
(20.01.1929); Edson Câmara (15.08.1929); Letício Queiroz e Cícero Varela (01-
09-1931); José Olímpio (27.12.1933); Francisco Ataliba de Paula e Costa Leitão
(03.12.1936); José Augusto de Moura (06.01.1938); Lindalvo Teixeira
(04.06.1939); Wilson Varela (09.10.1940); Arnaud Flor e José Porpino
(16.02.1941); João Rabelo Torres, João Boa, Raimundo Boa e Miguel França
(12.04.1941); Geraldo Torquato, Edgard Miranda, Bartolomeu Varela, Aillaud
Ataliba, Francisco Zabulon e Dr. Dagmar Sabino Pinho (22.02.1945); Antônio
Simplício Fernandes (Tota), Ivanaldo Lopes e Manoel Anacleto de Lima
(27.11.1946) e Manoel Bilro (26.04.1947).
Revolvendo as páginas do livro de atas do Baixa-Verde, encontrei
preciosas informações, tais como a que dá conta de que no dia 09 de outubro
de 1929, o sócio Jayme Câmara pediu exoneração do cargo de Diretor
Técnico, “em virtude de ter que se ausentar para o sul do país”. No mesmo
livro, consta também o registro de que em 24 de janeiro de 1937, o seu
irmão, Vicente Rebouças da Câmara, também pediu licença “por ter que se
ausentar do estado”. Como se sabe, ambos foram para Goiás, onde ao lado
do outro irmão, Câmara Filho, que antes já havia partido, fundaram um
importante império de comunicação.
O Baixa-Verde Futebol Clube, impulsionado pelo prestígio que a cidade
ocupava no cenário político-econômico do estado, bem cedo atingiu o apogeu,
chegando a disputar o campeonato estadual no ano de 1933. A equipe e os
torcedores viajavam de trem para Natal e, logo após as partidas, retornavam.
Embora outros clubes de futebol tenham sido criados nas décadas seguintes
- o Barroso Futebol Clube, por exemplo -, o B.V.F.C. permaneceu como a
principal equipe da cidade. Isso, até o final da década de cinqüenta, quando

Baixa-Verde | Raízes da nossa história | 55


foi fundado por Chia e Manoel Anacleto o Boca Juniors Futebol Clube. A partir
de então, o BVFC passou a desenvolver apenas atividades sócio-festivas.
Ninguém pense que era fácil freqüentar o Baixa-Verde. Somente os
sócios e os seus convidados tinham acesso às festas, razão pela qual era tido
como um clube de elite. As moças da sociedade, que compareciam aos jogos
e soltavam gritinhos nervosos de incentivo aos atletas, à noite só conheciam
os do seu meio social. Os demais, vindos das classes sociais menos abastadas,
quase sempre negros, buscavam os cabarés da cidade, para comemorar as
vitórias ou chorar as derrotas junto com as raparigas.
Com o passar do tempo, a camisa do Baixa-Verde, antes “encarnada” e
preta, passou a ser azul e branca, destacando-se um losango desenhado na
altura do peito, com as letras BVFC ao centro.
Por vários anos, o Baixa-Verde funcionou no prédio que faz esquina
com as ruas Padre João Maria e Cícero Varela, em frente ao atual Banco do
Brasil. Grandes e inesquecíveis festas foram realizadas naquele local. Um
detalhe digno de registro é que, quando alguma autoridade adentrava ao
salão, a banda parava de tocar e anunciava-se a sua presença. Após os
aplausos, a festa recomeçava. Durante esse período, dois episódios ficaram
marcados em sua história: o primeiro, envolvendo Chico da Bomba, quando
ainda era um simples motorista, que foi convidado a retirar-se do recinto, em
virtude de “não ser sócio”. Anos depois, já prefeito do município, Chico da
Bomba recusou-se sistematicamente a freqüentar o clube, ou mesmo
participar de reuniões de quaisquer natureza, que se realizassem no recinto,
magoado que ficara com o acontecido; o segundo episódio foi protagonizado
por Toinho Câmara, que foi atingido, em plena calçada, por uma bala de
revólver 38, disparada por um soldado de polícia. O fato aconteceu no último
dia de carnaval do ano 1963, quando Toinho Câmara, recém casado, brincava
com a sua esposa, Marly, e alguns amigos, nos salões do clube. Naquele
momento, veio a notícia de que lá fora, alguém estava brigando com Vicente,
seu irmão. Ao chegar ao local, Toinho escutou um disparo e somente segundos
após percebeu que estava ferido. Socorrido por Pedro Ribeiro - que em Baixa-
Verde era conhecido como Pedro “do Correio”, foi removido para Natal, onde
recebeu os devidos cuidados. O médico que lhe atendeu, porém, preferiu
não retirar o projétil, que ainda hoje se encontra alojado em sua virilha
esquerda.
Foi, ainda, no Baixa-Verde que se realizaram as grandes convenções do
MDB, na década de setenta, graças ao apoio de Manoel Avelino, tio afim de

56 | Baixa-Verde | Raízes da nossa história


Antônio Câmara. Manoel Avelino presidiu o Baixa-Verde por vários anos,
exercendo o cargo com extrema dedicação, perdendo sono, dando tudo de si
para engrandecer o clube que amava. No ano de 1972, vendo em mim pessoa
em quem podia confiar, transmitiu-me a presidência, permanecendo, porém,
como diretor social por mais alguns anos.
Em 1979, já como Prefeito do município, e ainda exercendo a
presidência do clube, construí uma nova sede, numa área de mais de cinco
mil metros quadrados, às margens da BR-406, e adaptei os estatutos sociais
à nova realidade, ampliando o quadro social, no que resultou uma ligeira
mudança no nome do clube, que passou a chamar-se Associação Cultural e
Desportiva Baixa-Verde -ACDB. Os novos salões da ACDB serviram para
aniversários, convenções partidárias, palestras, seminários, solenidades de
formatura, e grandes festas, destacando-se Renato e seus Blues Caps, Ogírio
Cava1canti, Eliane e as Bandas Montagem, Terríveis e Feras, entre muitas
outras.
Depois de ser presidido na década de oitenta, com zelo e dedicação,
pelo comerciante Raimundo Miranda, o Baixa-Verde entrou num período de
decadência, em parte pela ausência de interesse dos associados, mas também
pela falta de apoio do poder público local, que numa cidade do interior, mesmo
não se envolvendo diretamente em promoções que digam respeito a uma
entidade de natureza privada, deve ter a função de indutor e incentivador de
suas atividades. Lamentavelmente, a ACDB, hoje, é apenas uma sombra do
que foi em um passado não muito distante. Um grande patrimônio em estado
de semi-abandono.

Baixa-Verde | Raízes da nossa história | 57


58 | Baixa-Verde | Raízes da nossa história
A INTENTONA COMUNISTA EM BAIXA-VERDE
O movimento comunista de 1935 foi deflagrado em Natal no dia 23 de
novembro, sábado, surpreendendo o então governador Rafael Fernandes,
que se encontrava participando de uma solenidade no Teatro Carlos Gomes,
hoje Alberto Maranhão.
Depois de se instalarem em Natal, os revoltosos adentraram ao interior
do estado em várias colunas. Uma delas, comandada por Benilde Dantas,
dirigiu-se para Baixa-Verde, chegando à cidade na manhã do domingo, 24 de
novembro. Desde as primeiras horas da madrugada que as forças locais,
composta por aproximadamente vinte civis, armados com rifles papo-amarelo,
cedidos pela firma João Câmara e por populares, e alguns militares do
destacamento local, estes com fuzis, estavam esperando os comunistas,
atocaidos nas proximidades do Moinho Velho, atualmente rua 29 de outubro,
entrada da cidade no sentido de quem vem de Natal. O aviso havia sido dado
pelo chefe da estação ferroviária, Joaquim Miranda, que recebera a
informação pelo telégrafo, e fora providencial, pois permitira a organização
da reação. No entanto, as forças locais logo perceberam que não dispunham
de homens e armas em condições de enfrentar os comunistas. Houve um
breve tiroteio, mas uma rajada de metralhadora encerrou o combate. Os
destemidos cidadãos de Baixa-Verde, tendo à frente o jovem Severino Benfica
(Cici), em flagrante inferioridade, se dispersaram.
Os comunistas entraram na cidade pela praça da matriz, que à época
era apenas um largo onde existia o campo de jogos do Baixa-Verde Futebol
Clube. Dali seguiram pela rua Padre João Maria, até alcançar a praça do
mercado. Eram aproximadamente oitenta homens, armados de fuzis e uma
metralhadora, transportados em três caminhões. Chegando à praça do
mercado, a metralhadora foi instalada em frente à loja da firma de João
Câmara, que teve as portas destruídas por seguidas rajadas. Os revoltosos
trataram de prender o delegado de polícia e os soldados, tendo o cuidado,
evidentemente, de desarmá-los. O padre recebeu a recomendação de não
deixar sua residência. O Prefeito Odilon Cabral de Macedo não foi encontrado,
pois afastara-se da cidade às pressas temendo ser preso.
Depois que as portas da loja de João Câmara foram destruídas, os
comunistas exortaram a população a levar tudo o que nela havia. Foi um
correcorre sem fim. Aproximadamente duzentas pessoas, homens, mulheres

Baixa-Verde | Raízes da nossa história | 59


e crianças se apoderaram de tudo que podiam: tecidos, gêneros alimentícios,
ferramentas agrícolas e utensílios domésticos. Em minutos, a horda humana
deixou o estabelecimento comercial totalmente vazio. A loja de Pedro Baião
também foi saqueada.
Àquela altura dos acontecimentos as pessoas ligadas a João Câmara já
haviam deixado a cidade. O prefeito Odilon Cabral de Macedo e Alexandre
Câmara (Xandu), fugiram em cavalos selados para a fazenda de Zezinho do
Cravo, situada a aproximadamente doze quilômetros da cidade, fazendo no
percurso uma ligeira parada na fazenda Santa Rosa, de Pedro Torquato. Loló
Câmara, Costa Leitão e José Olímpio refugiaram-se na fazenda Boágua, de
propriedade de Apolônio Bilro.
Durante quase quatro dias, de 24 a 27 de novembro, os comunistas
governaram Baixa-Verde, tendo à frente um praça do 21BC de nome Manuel
Alberto da Silva Filho, que se apresentava sob o falso nome de Tenente Lins.
Uma das primeiras providências tomadas pelo Tenente Lins foi mandar buscar
o juiz local, Dr. João Maria Furtado, que se encontrava veraneando com a família
na praia de Cajueiro, município de Touros. O Dr. João Maria compareceu à
presença do chefe dos revoltosos acompanhado do promotor da comarca, Dr.
José Siqueira de Medeiros, na manhã do dia 25 de novembro, uma segunda-
feira, e após ser advertido de que não deveria tomar atitudes contrárias ao
movimento, foi liberado, retornando a Cajueiro na noite do mesmo dia.
Na tarde do dia 27 de novembro, pelas quatro horas, meu pai, Abdon
Torquato, retornava da cidade, para onde tinha ido fazer compras a pedido
de Dona Mariquinha, esposa de Xandu, quando deu de cara com o inesperado:
João Câmara ia a pé, fardado de capitão do exército, armado de fuzil, à frente
de mais de cento e cinqüenta soldados, esperando surpreender os
comunistas. O trem que os transportara havia ficado a uns dois quilômetros
de distância. Depois de um breve diálogo onde João Câmara perguntou pelos
irmãos e pelo prefeito e recebeu as devidas informações, o grupo seguiu na
direção da cidade. Antes, porém, João Câmara perguntou pelos comunistas,
tendo meu pai respondido que os mesmos haviam destruído a sua loja, mas
já tinham partido, pois haviam tomado conhecimento que o movimento não
prosperara. João Câmara entrou na cidade sem disparar um só tiro.
No dia seguinte, quinta-feira, 28 de novembro, o prefeito Odilon Cabral
de Macedo reassumiu suas funções. O movimento comunista chegara ao fim.
Tudo parecia voltar à normalidade, não fossem as perseguições políticas que
se seguiram, como veremos em outra oportunidade.

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BIOGRAFIA CÂMARA CASCUDO
Luis da Câmara Cascudo
nasceu em Natal, no dia 30 de
dezembro de 1898, filho do
coronel Francisco Justino de
Oliveira Cascudo e Anna da
Câmara Cascudo.

Em 1915 começou a
trabalhar como repórter no
jornal do pai, A Imprensa.

Nos anos 20 estudou


medicina em Salvador e do Rio
de Janeiro.

Em 1928 formou-se em
Direito pela Faculdade de
Direito do Recife.

No ano de 1929 casou-se


com Dona Dhália Freire, com
quem teve dois filhos:
Fernando e Ana Maria.

Faleceu em Natal no dia


30 de julho de 1986.

Sua obra literária é


vastíssima, sendo considerado
o maior folclorista brasileiro.

Câmara Cascudo é autor de mais de 150 livros, entre eles: Dicionário


do Folclore Brasileiro, História do Rio Grande do Norte, História da
Alimentação no Brasil, Nomes da Terra, O Tempo e Eu, História dos Gestos,

Baixa-Verde | Raízes da nossa história | 61


História da Assembléia Legislativa do Rio Grande do Norte são alguns dos
títulos mais conhecidos.

Em 1954 publicou pelo Departamento de Imprensa do Estado a obra


HISTÓRIA DE UM HOMEM – João Severiano da Câmara, de cujo livro foram
pinçados os capítulos que seguem:

62 | Baixa-Verde | Raízes da nossa história


UMA VIDA COMEÇA...
É pelo homem que o tempo caminha. — ARNDT.

Passagem Funda fica a três quilômetros de Taipú. É um arrabalde mas


com fisionomia própria. Entre o ondulado que se prenuncia no recorte das
colinas disfarçadas pelas plantações ns homens trabalham sempre. O
topônimo é explicado pelos olhos comuns.
Vicente Rodrigues da Câmara era um Camara típico, vivo, palestrador,
espirituoso, inquieto, enamorado da politica. local, perguntador incansável
das novidades, lendo jornais e acompanhando as manobras das eleições.
Naturalmente participou dos movimentos partidários em Taipú, tendo
correligionários, chefes, simpatias, devotamentos, discussões.
O filho pertenceu a uma classe tranquila, impenetrável, arredia. Os
irmãos iam nascendo. Antônio (Tônho), Alexandre (Xandú), Jerônimo (Loló),
parecidos fisicamente, com um temperamento loquaz, ajudando o pai nas
tarefas pequenas do sitio. João nascera de espirito reservado, tendo horas de
cismas, sonhando planos que ninguém podia adivinhar.
Não vamos dizer que dispensou os jogos da sua idade. Brincou-os
todos. Era um menino robusto e magro, flexível, pondo os olhos perguntadores
na face dos visitantes. Frequentou a casa da tia Quininha, em Cauassú, dona
Joaquina Possidonia da Câmara, irmã de Vicente, casada com Felipe Cândido
Monteiro. Viera de Natal um professor para espalhar lições. Era o mestre
Joaquim Azevedo Ferreira Nobre. Com ele João Severiano da Camará estudou
a cartilha e a taboada. Aprendeu patacas e as multiplicações, nove fora. E
copiou os dísticos. O amor de Deus é o princípio de sabedoria, Paulina
mastigou pimentas.
Chegou o Quinto Livro de Leitura de Folisberto de Carvalho. A mãe
ensinou-lhe orações, Padre Nosso, Ave Maria, Salve Rainha e o Creio em Deus
Padre. E a pôr o polegar na testa para principiar o Em nome do Padre. . .
Joaquim Guedes da Fonseca, no Maracajá, foi seu ultimo mestre.
Depressa também sentiu-se sua ascencão de mando sobre os irmãos,
os primos, a molecagem cordial dos arredores. Mandava, dirigia, comandava,
sugeria naturalmente, com a expontaneidade do exercício legal de uma missão
lógica. Tornou-se, aos doze anos, um rapazinho espigado, de ombros largos,
sério, sem risadas, sem cotucar os camaradas na missa, sem assobiar, sem

Baixa-Verde | Raízes da nossa história | 63


cantar quando tomava banho de cuia. Tinha a estatura normal brasileira, um
metro e sessenta e cinco.
Com quinze anos era preciso encaminhá-lo. Ninguém adimite a força
inerte no sertão e no agreste, nas praias e nos bairros pobres. Só certos ricos
conhecem o segredo da ociosidade remunerada e fácil.
Deliberou Vicente mandar o filho para Pitombeira, para a casa do
cunhado João Gomes da Costa.
Pitombeira era propriedade rural com trabalhadores de vários
misteres, moradas, capela, ranchos salpicando as encostas e uma loja, quasi
armazém, vendendo quanto precisasse o habitante da região. A estrada de
ferro passava encostado e fora conseguida uma “parada” no quilômetro 52,
Pitombeira, inaugurada a 15 de novembro de 1907. Pêlos trilhos, Taipú, ficava
a três quilômetros adiante.
João Gomes da Costa era padrinho de crisma de João Severiano da
Camara. Acolheu-o como filho. Pagava-o regiamente: 50$000 mensais.
O apelido familiar de João Severiano da Camara agora passará a
popularizar-se na boca dos trabalhadores rurais e os cassacos da estrada de
ferro. Será Vanvão. É a escola de aprendizagem prática, o primeiro curso real
na variedade do conhecimento humano. Pitombeira é a Universidade para
Vanvão, Quando a deixou estava doutor formado.
João Gomes da Costa comprara Pitombeira por dois contos de réis
no velho bom tempo. Nascera em Gameleira. Era homem maior de quarenta
anos, moreno, baixo, risonho, com olhos faiscantes de energia e bondade.
Ensinou ao afilhado as tabelas de preço, descontos, regra de três e a ciência
das medidas, covado, varas e os raros metros, as capacidades, cuia, litro,
salamim, quarta...
Era uma casa grande de família patriarcal. Casára duas vezes, com
duas irmãs. Erguia a mão abençoando doze filhos. Casára com dona
Bernardina Rodrigues Santiago, irmã da mãe de Vanvão, e .enviuvando,
convolára núpcias com dona Ana Rodrigues irmã de sua primeira mulher,
viúva de Sérgio Guedes da Fonseca, com um filhinho que se formaria em
medicina, Sérgio Guedes, o último médico de João Câmara.
O espírito retraído de Vanvão aí teve seu exercício de sublimação.
João Gomes da Costa era atirado, alegre, progressista, amigo das novidades
mecânicas. Instalou um locomovel em 1905. Conseguira que a estrada de
ferro passasse por sua casa e erguera uma “parada” para embarque e descarga
de produtos. Comprara um zonofone atroador com os discos da Casa Edison.

64 | Baixa-Verde | Raízes da nossa história


Os filhos gostavam de música. Violão, violino, flauta, sanfona sonorizavam os
domingos. E a dança dominava. Os filhos de Vicente sempre que podiam
fugiam de Passagem Funda e vinham valsar ou figurar nas quadrilhas de
Pitombeira, terra amável.
Ao anoitecer, atendendo aos últimos fregueses, Vanvão ouvia o
vozeirão do zonofone bradando: — Casa Branca da Serra, cantado pelo
Mário, para a Casa Edison, Rua do Ouvidor, 105, Rio de Janeiro! E as mãos
lentamente embrulhavam o sabão ou cortavam o naco de fumo para o
comprador também atento ouvindo a doce modinha sonorosa...
O caráter se apura no contacto popular. É um mocinho pobre que
não se deixa banalizar. Trata aos trabalhadores por “senhor”, na contracão
popular de “sêu”. Sêu Chico, sêu Joaquim, sêu Florencio.
Um desses, tardinha, na hora de matar o bicho pela ultima vez,
comanda, “Vanvão, dê cá ai dois vinténs de cana!..”
O pequeno vendeiro olha firme, olhos nos olhos, e recusa a intimidade.
“Trata-me como eu o trato. Chamo-o por “Sêu”. Faça a mesma cousa. . .” E
fica olhando. O freguês tem uma surpresa, um sorrizinho rápido mas concorda
– Sêu Vanvão, dois vintens de cana!”
Sêu Vanvão, impassível, serviu.
Não era nada de orgulho nem marra de impossível distância entre o
menino grande e o pequeno jornaleiro Vanvão viveria no meio deles,
comunicativo em ordens diretas, sabendo-lhes a vida, a necessidade,
ajudando-os. A marca destinava-se apenas ao reconhecimento oficial e,
peremptório dos dois quadros de trabalho, o delineamento da figura que
mandará pelo esforço e não renuncia, na madrugada da tarefa iniciada, o
título de respeito a que tem direito. Essa intimação é um passe d’armas que
o autoriza a pôr o elmo na cabeça. Sente agora que chefiará homens e com
eles viverá, dando-lhes direcão e norte.
É um tempo de juventude em que o trabalho diário não entristece.
Os primos são amigos e os irmãos que crescem estão próximos e as visitas
são semanais. Há mais ainda os olhos de veludo negro da prima Maria, três
anos mais moça, alumiando caminho efazendo o coração mais palpitante.
Amor que nasce como de uma lenta e continua evaporação da companhia
diária, saturando os dois com a doçura irresistível, com os feitiços invisíveis e
envolvedores.
Maria é a filha mais velha do padrinho João Gomes da Costa, filha do
primeiro matrimonio. Por ela sente-se que Vanvão vai deixar Pitombeira e

Baixa-Verde | Raízes da nossa história | 65


correr mundo, lutando para a conquista dos bens pessoais ambientadores.
Sente-se, que não quer resignar-se a ficar trabalhando, subindo lentamente
Melhor será enfrentar o grande mundo que se desdobra depois das colinas
de Pitombeira, além da vilã de Taipu para dentro do sertão, chamando-o as
vozes tentadoras da ambição. Maria esperará, com seus olhos negros, a
cabeleira de asa de graúna, as mãos de seda, o sorrido claro.
Aí apareceu o cunhado Bemfica.
Benedito Virgílio Bemfica casara com a irmã mais velha de Vanvão,
Liquinha, dona Maria Rodrigues da Camará. Era moço robusto, de olhos duma
cor transparente, infixos, sorrindo sempre num sorriso que mostrava os dentes
alvos. Estava disposto à Batalha. Trabalhava na Inspetoria Federal de Obras
contra as Secas.
A I.F.O.C.S. abria estradas e fundava açudes. Tem tantos detratores
quantos ignorantes dos benefícios que espalhou. Rasgou as primeiras rodovias
do sertão para o litoral, matando distancias, popularizando o automóvel,
atirando milhares de homens a uma vida movimentada, semeando dinheiro.
Naturalmente podia ter feito muito mais. Mais açudes, mais
barragens, mais represas. Podia ter inaugurado irrigação. Podia ter obrigado
as chuvas a um regimen cronométrico. Podia ter feito milagres. O milagre
maior foi não desaparecer na fome burocrática e na loucura desvairada dos
planos que, mês por mês, iam nascendo e cada um engulia o outro. Açude
aqui. Erguia-se a parede. Não está certo. Aqui é que é. Estradas, obras d’arte
rompendo as pedras, pontes no granito, centos de quilóômetros encurtados,
empurrando o passado para a morte, modificando costumes, trazendo jornais,
gramofones, remédios, vícios, o chapéu de cortiça, o engenheiro que nunca
vira a Politécnica e era importante como uma procissão, o fiscal onipotente,
os primeiros cinemas, vieram daí. Não falo do preço dessas conquistas. Preço
às vezes moral. Há muito romance contando a história, com percentagem de
verdade.
Lá se foi Vanvão com o cunhado Bemfica trabalhar na Inspetoria das
Secas. Era um mundo que fervilhava de vida promíscua, impetuosa, fecunda,
transbordante. Todos os trabalhos determinavam a demora de massas
humanas consideráveis, cavadores, britadores, carregadores de areia,
condutores de animais, maquinistas, apontadores, fiscais, o pessoal do
escritório, os viajantes, portadores de dinheiro, engenheiros, secretários,
curiosos, vagabundos, parasitas. Cada açude ou cabeça de estrada marcava
um acampamento, centos de ranchos de palha, casebres de taipa, cobertos

66 | Baixa-Verde | Raízes da nossa história


de folhas de zinco ou de telhas em goiva, as casinhas brancas do escritório, a
casa do residente. Furavam poços para água. Tinha doutor para tratar. As
mulheres acompanhavam seus homens, de feição legitima, provisória ou
incidental. E mais uma malta feminina multicor e faminta de todos os ganhos,
saldos exilados das travessas dos Sete Pecados, dos becos da Perdição, da
Rua do Mundo, das vilas e povoados sertanejos. Estava tudo junto, confundido,
disputando melhor e maior ganho. As feiras eram indispensáveis. Inevitáveis
os negócios de mil por um, vendas, intercâmbios misteriosos, trocas,
barraquinhas de jcgo, cachaça e todos os instrumentos musicais, soando em
glória nos domingos e tardes de meio serviço.
Bailes de pegar o sol com a mão, dançando e bebendo, baile de cota,
em que cada dançador paga sua entrada, e bailes de venda, em que o ganho
era da cachaça e bolos empoeirados consumidos durante o pagode. Aí estavam
sérios e folgazões, honestos e larápios, sinhá Florinda, mulher casada e séria
como um ventilador parado, e Chica do Brejo para quem não nascera a
vergonha deste mundo
Bemfica trabalhava e Vanvão aceitou a sugestão de ganhar dinheiro
onde o dinheiro era fácil como folha seca em tarde de ventania.
Vanvão não se mete nesse mundo pitoresco e sugestivo de vida solta
e borbulhante. Vai para o Açú, trabalhando no escritório, fazendo por sua
conta pequeninos fornecimentos aos barracões que se multiplicam, sorvendo
os níqueis dos jornaleiros. Também é bom dizer que o dinheiro para eles não
servia e não serve senão para o gasto imediato. Para beber, jogar, dançar,
amar. É o indígena sem o amanhã, sem o celeiro, sem guardar, fazendo o
cauim durante dois meses e bebendo-o todo numa festa de duas semanas
seguidas, canto, dança, amor. Basta reler os cronistas do Brasil colonial.
Dinheiro em papel é para voar ao vento e moeda é redonda para
correr. Esta frase fotografa a impressão da economia privada popular ainda
popularíssima. Quando o recurso (sinônimo sertanejo de dinheiro) é muito,
então muda-se a bebida para mais cara. Dê-me aí uma lapada do tal Quinado!
Vigie aí uma chamada boa do velho Macieira de cinco estrelas! Cachaça?
Bebo lá cachaça, isto é pra moleque besta...
Os barracões venderam muita coisa aparentemente inútil, mas
servindo de semente para germinação futura.
Vanvão trabalhou ano e meio ou dois anos, viajando, de sede em
sede dos acampamentos, entregando cargas ou contando stocks existentes.
Sua geografia limitara-se, anos e anos, a uma parte do Taipú. Agora

Baixa-Verde | Raízes da nossa história | 67


sabia centos de estradas, dezenas de vilas, cidades, povoados, fazendas.
Convivera e ouvira milhares de homens, seus interesses, dificuldades, desejos.
Vira de perto o mercado consumidor, verificando quais os produtos de mais
fácil absorção vendável. Observara o processo do transporte, encarecendo
ou barateando pela frequência. Ligou-o às estradas, à distancia, ïoi uma época
de notas topográficas, tabelando as léguas, fazendo mentalmente as medidas
itinerárias. Mais tarde poria em ação todos esses elementos. Seria o maior
construtor de, estradas largas para dois comboios ontem e para dois
caminhões hoje. A estrada seria feita antes do transporte e não fundada pelas
cascos dos animais nos comboios lentos de algodão, desafiando-se nos
espinhos laterais.
Se Pitombeira foi a aula de finanças o estágio na I.F.O.C.S. serviu-lhe
de short course em matéria de economia rural, mercado interno,
compensações na produção. O serviço de apoio da Inspetoria sugeríu-lhe a
vantagem de uma rede de agentes fiéis, espalhados como uma teia, vibratil e
convergente como ela. No meio ou no vértice diretor, ele, naturalmente ele.
Quando, terminado o dia, deitava-se para dormir, fumava cigarros
seguidos, pensando. Os últimos meses de 1913 foram pessimistas. Os
trabalhos de açudes diminuíam ou iam parando, com as verbas engalhadas
no Rio de Janeiro ou evaporadas em aplicações que escapavam ao seu
raciocínio.
O Rio Grande do Norte estava todo interessado por uma sucessão
governamental. O governador Alberto Maranhão ia findar o seu sextenio. e o
substituto não saiu tranquilamente. Apareceu um agitador, um capitão do
Exército, José da Penha Alves de Sousa, o primeiro norte rio grandense, era
de Angicos, que interessou chefes e eleitores num assunto que pertencia aos
políticos da capital e meia dúzia de coronéis eleitorais. JOSÉ da Penha iniciou
uma novidade, os “meetings” políticos, usados no principio da República.
Estalava no ar o foguetão anunciador. O povo se aglomerara numa praça. O
orador falava, alto, gesticulando, atacando o governo, dizendo coisas sonoras,
acusando, prometendo. Essa chama foi levada ao interior. As fogueiras
arderam por toda a parte. Alberto Maranhão apresentou um candidato
prestigioso, secretario do Senado, antigo governador, o senador Ferreira
Chaves, José da Penha teve a infantilidade de indicar um filho do presidente
da República, marechal Hermes da Fonseca, para candidatar-se. Ninguém
conhecia o candidato. Hermes da Fonseca não poude ajudar ou não quiz
animar o filho, também oficial do Exército. Para equilibrar o jogo havia um

68 | Baixa-Verde | Raízes da nossa história


político que não existe mais na memória e que era onipotente, Pinheiro
Machado, general honorário do Exército, vice presidente do Senado, uma
espécie de Warwick, fazedor de Reis. A propaganda entusiasmou centenas
de jovens. Quando José da Penha, vencido, deixou o Estado, sabia ter vencido
realmente. Outro elemento sacudira ele no sangue moco do povo. Nunca
mais a oposição desapareceu e se intimidou.
Os deputados e senadores ficavam absorvidos pela disputa que
significava mudança radical para eles. Não creio, muito respeitosamente, que
houvesse um interesse 100% para as verbas da Inspetoria. Devia ser uma
percentagem menor. Vanvão está decidido a terminar com aquela vida de
nómade. Errante por errante, melhor será sê-lo por sua conta exclusiva. A
venda direta, a responsabilidade direta, a produção direta são as fontes. O
resto ganha porque está de permeio, aquecendo-se na passagem das brazas
ou por estar perto da lareira crepitante. Nos dois primeiros meses de 1914
volta para casa, sem emprego certo e com duzentos mil réis de ganho em
quasi dois anos de luta.
Fora nivelador nas turmas que faziam o levantamento hidrográfico
dos futuros açudes públicos. Aprendera, fazendo, quanto era possível. A
agricultura apenas mantivera o pai no trabalho diário, incapaz de reservas
porque não havia possibilidade de estender-se a faina. Certo era outra direção.
A direção que já pensara decidia-se, firmemente, na sua vontade.

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PLANTANDO A FIRMA
Vanvão volta a Passagem Funda onde o pai reside. Vem com toda sua
vida traçada como numa carta geográfica o itinerário de marcha definitiva.
Com dezenove anos não haverá surpresa para ele na vida escolhida friamente.
Pesou as possibilidades examinando-as como se elege um papel para outros.
Não iria para as cidades concorrer nem rivalizar. As lojas da capital, iluminadas
a luz elétrica, os armazéns da rua Chile em Natal, os escritórios com telefone,
as ruas com bondes elétricos, não o seduziram. Nem o ingresso nas repartições
públicas, para escrever em grandes livros em cima de mesas polidas, olhando
o relógio vagaroso. Seu desejo é a conquista local numa criação de mercado,
instalando, determinando fontes de produção, incluindo na geografia
económica do Estado as zonas que viviam devagar semi-incultas, inexploradas
e desertas.
Foi a Pitombeira ver o padrinho João Gomes da Costa e rever a prima
Maria. Sabia que o pai não o podia ajudar. Enfrentava o campo com poucas
enxadas, os irmãos trabalhando, Loló com saúde precária. Os recursos iam
nascer de outros horizontes procurados por sua própria mão. Havia em
qualquer parte, um filão adormecido e de ouro, espetando sua energia para
despertar e multiplicar-se.
O lugar estava nos seus olhos, na memoria, no coração e na vontade.
Era onde iam correndo os trilhos da Estrada de Ferro dos Proenças
atravessando região vaga de várzea ladeando serra enorme, de raros
moradores e cultivo menor. Chamavam-na “As Matas”, expressão abrangedora
da solidão e da força vegetativa. A serra, subindo em ondulado ameno dizia-
se “Serra Verde” ou “Mato Grande” e ainda, desoladamente, o “Matão”.
O núcleo povoado era Assunção e a cultura algodoeira abria os
primeiros capuchos num esforço imenso. Um plantador quase solitário de
Assunção, Alfredo Edeltrudes de Sousa, descaroçara os três primeiros fardos
em Pureza, em Touros, com algodão colhido no Mato Grande em 1898.
Em Assunção bebia-se agua de cacimba. Os moradores estavam
dispersos numa extensão de quilômetros. A terra era forte mas ninguém a
tentava acordar para viver. A Estrada de Ferro dos Proencas ia começar outra
história, uma história humana na região desconhecida e verde.
O velho sonho de uma estrada de ferro de penetração, partindo do
litoral para alcançar as regiões secas do sertão, articulando-se com outras

Baixa-Verde | Raízes da nossa história | 71


ferrovias, estabelecendo uma rede, iniciara-se em 1904, arrastando-se para
dar de comer aos flagelados. Era plano de 1870. Partia o trem da “Coroa”, deante
de Natal. Em 13 de junho de 1906 o presidente eleito da República, Afonso
Pena, inaugurou o primeiro trecho, Natal a Ceará-Mirim, 33.811 metros.
Pequenino, espigado, de frack apertado, chapéu duro, Afonso Pena almoçou
no Ceará Mirim, subiu os 30 metros da torre da matriz para ver o lindo vale, a
terra linda

... de chaminés a fumegar, na infinda


maré montante dos canaviais!

Como cantaria Augusto Meira. Assistiu a uma vaqueijada. Eloy de


Sousa apresentou-o aos vaqueiros. Apertou-lhes as mãos. “Tenho alegria em
governar um povo desses”, declarou.
Os trilhos vinham vindo. Itapassaróca, em novembro do mesmo 1906.
Taipú no aniversário da proclamação da República no ano seguinte.
A estrada passou então ao regimen do arrendamento para construção.
O sr. Luís Soares de Gouveia venceu a concorrência. Em novembro de 1908
transferiu-se o contrato para a firma Proença & Gouveia, arrendatário por sessenta
anos em contrato federal, novembro de 1909, de Natal a Taipu e deste ao Caicó.
Em 12 de outubro de 1910 inaugurava-se Baixa Verde. Uma
locomotiva deixou um vagão com o aparelho telegráfico e servia de estação.
Ao redor os ranchos surgiram da terra, a 83.952 metros de Natal.
Nem havia, no local, nome certo. Diziam “Matas”. Eram capoeirões
baixos, moitas na várzea verde e tranquila. Um povoado perto é que tinha a
fama de ser “a Baixa Verde”. O nome passou ao ponto terminal da Estrada
dos Proenças quando Antônio Proença veio, alto, gordo, lento, imenso, residir
na casa que construiu, confortável e abrigadora. Chamou-se então “Baixa-
Verde Velha” ao outro local que se esvaziava. Depois apareceu outra
denominação que ficou, Assunção...
Era esse dr. António Proença o denominador popular da Estrada.
Representava todo trabalho. Discutiram-no muito no choque de interesses
em que ele próprio seria o maior. Devemos-lhe Baixa Verde no plano real.
Escolheu o local, riscou as ruas, ergueu as casas, cavou as cacimbas, construiu
a Capela dedicada a Nossa Senhora Mãe dos Homens. Lembro-me de sua
estatura imponente, da amplidão do vulto nédio, o traje de branco, o chapéu
do chile, os bigodes negros, o toutiço de zebú, a fala grossa, o gesto sereno,

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a, simplicidade completa, a bondade útil, oportuna, inexgotavel. Tinha o hábito
do conforto, da mesa farta, variada, aberta, fácil, da conversa gostosa, da
pilhéria de sal grosso, os costumes do banho diário, as roupas asseiadas, o
tratamento fidalgo. Na cidade do Natal teve inimigos e espalhadores de
estórias desagradáveis. Incapaz de uma grosseria, cordato , amável, ia
desarmando a todos com uma grandeza tranquila de paciência, tenacidade e
displicência. Era o dr. Proença de Baixa Verde, plantando também o algodão,
criando gado de raça, vacas de leite estrangeiras que assombravam pela
quantidade do liquido esguinchando cada manhã e cada tarde. E cavalos
robustos, com selas inglesas. E armas reluzentes, disparando sem parar, para
as breves caçadas senhoriais. Deixou uma lembrança viva e há muita gente
que ainda o enxerga, vagaroso, imenso, cumprimentador, inventando Baixa
Verde e organizando bailes intermináveis.
Para essa Baixa Verde recém nascida, de vida indecisa, Vanvão
deliberara fixar destino, vida, esforço e futuro.
A Estrada de Ferro trouxera os trabalhadores, os cassacos suados e
cantadores de emboladas. Uma multidão suja e policolor apareceu e agrupou-
se ao redor das primeiras residências de tijolo ou de taipa pintada a cal. A fita
dupla dos trilhos brilhantes subira para o sertão mas Baixa Verde era mercado
para as familias e os moradores derramados na Serra Verde desciam para as
compras. Os barracões estavam abrindo as portas e oferecendo todas as
tentações. Para esse mundo o instinto irresistível seduziu o impassível
temperamento fleugmático de Vanvão.
Em Pitombeira, de tarde, falou ao padrinho João Gomes da Costa,
expondo a vontade de vir negociar em Baixa Verde, nas Matas, na Baixa Verde
de Proença, à margem da Estrada de Ferro, fervilhante de cassacos.
João Gomes ouviu-o, pensou, puxou o bigode, meio surpreso.
— Vanvão, por que você escolheu logo aquele fim de mundo? É fogo
de palha. Passando, a Estrada, passa o negocio. Não tem agua e será difícil
viver na terra perto do dr. Proença. Ele tem recursos. Quais são os seus?
Vanvão podia dizer que os recursos eram ele mesmo, sua força de
vontade, o entusiasmo. Contentou-se em dizer que seu capital era a coragem.
O padrinho coçou a cabeça e prometeu-lhe duzentos mil réis.
Com essa riqueza em perspectiva, Vanvão procurou Ué, o tio padrinho
de batismo, com quem sua mãe o achava parecido no gênio e nos jeitos. Ué
olhou-o, ouvindo em silêncio e meteu-se para dentro da casa. A conversa era
no alpendre, na vila do Taipú. Voltou com quatro notas de cinquenta mil réis.

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Uma fortuna, meu Deus, uma fortuna!
Nova ida a Pitombeira. João Gomes ouve o plano inteiro e com sua
experiência sugere a mercadoria a ser comprada. Os anos na venda de
Pitombeira e na Inspetoria deram a Vanvão conhecimento infalível dos gostos
dos consumidores e dos objetos mais vendáveis.
Faltava o vendedor, o supridor de todas as coisas. João Gomes propôs:
Vamos ao compadre Boa, no Ceará Mirim...
O compadre Boa era Boaventura Dias Sá,1 negociante tiadicional em
Ceará Mirim, com a maior casa de estivas, fornecedora de dezenas de lojas e
vendas ao longo da Estrada de Ferro. Boaventura era duas vezes compadre
de João Gomes da Costa, amigo certo e provado.
João Gomes e Vanvão foram de trem, Taipú a Ceará-Mirim. Apura-se a data
desta primeira transação direta: 5 de maio de 1914. Compadre Boa recebeu-
os bem e ouviu a exposição do amigo velho. Levantando as sobrancelhas
espessas, compadre Boa votou contra o projeto de Vanvão.
— Baixa Verde é fogo de palha. Quando a Estrada passar, acabou-se
tudo. O dr. Proenca volta para Natal ou vai morar no ponto do trabalho. Terra
sem agua, seu José Gomes, terra sem agua e com o povo espalhado pela
serra, não pode prosperar. Será para mascatear, indo de casa em casa, mas
ponto fixo não creio que sirva. Sei que é zona de algodão e do bom. Mas o
algodão não vai para a Estação por causa dos caminhos péssimos. Deve escoar-
se para Touros e mesmo Taipú. Não vejo vantagem.
Ajeitou-se na cadeira de molas, e concluiu: - Mas você manda,
compadre Zé Gomes, você manda. O que o João Severiano quizer, levará desta
casa. Pode ir dar as ordens...
Vanvão não estava explicando suas razões. Limitava-se a ouvir. Era
ideia fixa e seu raciocínio recusava à retórica qualquer auxilio defensivo.
Bastava sua convicção pessoal, completa, profunda e definitiva. Os outros
convencer-se-iam depois, deante da evidencia.
Vanvão mergulhou no armazém para fazer o sortimento variado e
tumultuoso, desde ponta de linha até biscoito facão, uns compridos e duros
como barras de ferro. Voltou ao escritório. Comprara 714$160. Primeira
compra direta, velocidade inicial para estabelecer-se, personalizar-se, viver.

1
O coronel Boaventura Dias du Sá faleceu no Ceará Mirim a 17 de novembro de 1942. Devo ao seu filho, o Industrial
Waldemar Dias de Sá, não somente informações sobre essa fase da vida de João Camará como a própria consulta nos
livros comerciais da firma paterna onde as transações foram registadas.

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O padrinho garantia-o. Coçou o bolso, dizendo querer deixar algum dinheiro
por conta do débito. Deu 300$00. Mais da metade do capital disponível.
Tudo isto sem muita pergunta, sem insistir na conversa, examinando
peca por peça os objetos comprados.
Abriu-se uma conta corrente para êle. Compadre Boa sorria, animado
nas confianças e pessimista nos resultados.
O empregado veio pedir o último esclarecimento.
— Manda-se para Pitombeira? Para seu Zé Gomes?
Vanvao respondeu claro, incisivamente, pela primeira vez, citando
nome e a direção que se tornariam famosos em todos os recantos do Rio
Grande do Norte e prestigiosos no ambiente comercial do Brasil. Os dois
nomes, reunidos pela primeira vez, pareciam nascer juntos para uma vida
comum.
— Não senhor! Não mande para Pitombeira. Mande para João Camara,
Baixa Verde...
Esses dois nomes não se separariam mais.

Pela lei n.° 899, de 19 de novembro do 1953, o município e cidade de


Baixa Verde tiveram o nome de “João Câmara”.

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ANDANTE COM MOTO
Este mundo pertence à energia. — TOCQUEVILLE.

João Camara chegou a Baixa Verde a 6 de junho de 1914. As compras


do Ceará Mirim vieram com ele. Dos irmãos, acompanhando-o, trouxera
Jeronimo, Loló, de menos saúde.
Tonho e Xandú seriam os indicados pela animação vital, pela alegria,
pelo ímpeto nas tarefas diárias, campeões de machado, enxada e pá,
infatigáveis, pilhéricos, fugindo para dançar em Gameleira, em Pitombeira,
rodando nas valsas, pulando nas polcas, saudando nas quadrilhas, largando a
mão da dama ao amanhecer, para empunhar o cabo da enxada e recomeçar
a limpa ou o plantio. Loló era doente. O irmão escolheu-o num auxilio
imediato. Baixa Verde, 144 metros acima do nível do mar, fria e seca, com a
doçura das noites maravilhosas, inalteravelmente agradáveis, é um clima
delicioso. Loló vinha para um trabalho sedentário e sem fim. Seria o guardião
das posses, o vigia, primeiro suplente nas lutas, o substituto na lide de todas
as horas.
João Camara instalou sua venda num alto, aplainado pela incipiente
feira. Três portinhas estreitas davam entrada para a sala, atravessada, em sua
extensão, pelo balcão corrido sem portinhola. A divisão única era um
quartinho exíguo, com duas redes, transferíveis para a própria venda. No
quartinho seria um reforço-de-espaço. A cozinha seria lá fora ou no próprio
quartinho.
Vão abrindo, Loló e ele, os caixotes, desfazendo os embrulhos e
engradados das compras. Arrumam as duas prateleiras vazias e pobres.
Entra o primeiro freguês. É o negro João Miguel. Não vem para
comprar. Vem para ver. Os dois irmãos estão ocupados, indo e vindo. João
Miguel olha, remira, curva-se para um embrulho em cima do balcão. É um
pacote de facões, biscoutos duros, sêcos, levemente adocicados. João Miguel
escolhe, tira um dos facões.
— Vou comprar uma coisa para dar sorte a esta casa, disse o negro
risonho. Põe o biscouto nos dentes brilhantes. E paga vinte réis.
Esse primeiro vintém anuncia os futuros milhões de cruzeiros naquela
tarde de sol e de neblina.
Baixa Verde tinha nascido mesmo. Tinha cheiro de mato virgem e na

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feira “arrojada” dos domingos apareciam produtos locais de caça silvestre,
couro de onça, carne de veado, porco do mato, tatus pebas, verdadeiros e
bóias, mel de abelha. Viviam ainda caçadores profissionais, vivendo da boca
das espingardas lazarinas legitimas de Braga, chumbo miúdo, pólvora fina e
buchas de raspas de marmeleiro.
Deante da estação, que era provisória substituindo o primitivo vagão
parado, estava o barracão de Alfredo Edeltrudes, para vender aos cassacos o
que quizessem e pudessem. Perto da capelinha que o dr. Proenca fizera
construir à Mãe dos Homens, ficava a vendinha de José Antunes de Franga e
na esquina da futura pracinha, negociava Luis Cordeiro, verdadeiramente
batizado por Luís Rei de França. Era o comércio...
A Estrada ocupava duas grandes turmas de trabalhadores, uma na
Melancias e outra batendo o malho nas pedreiras do Torreão. Pagos, vinham
derramar o saldo em Baixa Verde, bebendo até a náusea, comprando tudo e
brigando por cousa nenhuma. Não havia policiamento nem defesa. A
povoação não tinha ruas e apenas os alinhamentos riscados pela mão grossa
do dr. Proenca. Nem luz. Quando escurecia os cassacos soltavam o grito,
cantando, bebendo, comendo, amando, lutando, morrendo. Ninguém saia
de casa à noite sem encontrar os grupos oscilantes e faladores, agredindo-se,
desafiando-se para duelos a ponta de faca, até à morte. Vezes as vozes
lampejavam pedindo socorro ou prometendo vingança. Ou cantavam, com
dengue e requebro, as modinhas de amor. Com o clarão da alvorada o mundo
fantástico desaparecia por encanto. Nem gritos, nem blasfémias, nem pragas,
nem cadáveres, nem sangue, nem rumor. Os cassacos tinham dormido alguns
momentos e estavam cavando nas Melancias ou britando pedra no Torreão.
Ao entardecer a vida fervilhava novamente. Surgiam os grupos,
comprando a ceia, o almoço e jantar, bebendo, contando valentias, sacudindo
a saliva, entre os dentes, para longe, com orgulho.
Vezes os encontros ruidosos, faca na mão, pistola engatilhada, tinham
lugar na própria venda, entrando de roldão ou deparando o inimigo e
ajustando contas imediatas. Que luta para afastar os duelistas vaidosos da
coragem inútil! Que milagres de retórica e amabilidade para que o balcão
não se molhas-se com o sangue daqueles espadachins.
Pelos trilhos, dez quilómetros além, estendia-se o Amarelão onde os
Mendonças moravam ha mais de século em regimen tribal, mestiços de tupis
fugidos dos aldeiamentos que se tornaram vilas. Tinham um chefe. Residiam
em centos de choupanas semeadas pela encosta. Eram frugais, desconfiados,

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silenciosos, devotos do chefe, com economia agrária coletiva, trabalhando
aos grupos, endogamicos, ciumentos da terra e vivendo dela e para ela,
exclusivamente. Caçadores miraculosos, possuiam o segredo das aves e dos
animais isolados. Sabiam onde dormiam, comiam e viviam os folegos vivos
que iam buscar nos tiros infalíveis ou com os aparelhos variados de arapucas
e esperas. Não conviviam com os outros moradores circunvizinhos. Estavam
sempre na aldeia que para eles era a maloca ancestral, com o fogo do
moacaretá ardendo e aquecendo os velhos companheiros nas horas amáveis
da confabulação e exame dos interesses familiares. Vinham trabalhar juntos
em grupos não inferiores a uma vintena. Calados, tristes, resignados, suavam
sem cantar emboladas e desafios como os cassacos. À menor desconfiança,
na constatação da mais ligeira ofensa, mesmo intuitiva, o pretenso agredido
limitava-se a balançar, desaprovativamente, a cabeça redonda. E abandonava
o trabalho. Todos os outros Mendonças o acompanhavam, imediatamente,
numa fidelidade de sombras. Assim eram os Mendonças do Amarelâo.
Conheci na minha meninice alguns. Um sobrinho e delegado
plenipotenciário do tuixaua do Amarelão procurou meu pai, em Natal, para
que impedisse o esbulho de suas terras, possuídas em usocapião centenário.
Meu pai interessou-se e um advogado defendeu os Mendonças, garantindo-
lhes a terra tão sua. Durante algum tempo encheram nossa casa de presentes
que pareciam saídos dos livros de José de Alencar, mel de abelhas, banha de
cascavel, couros de bichos vistosos, macaquinhos, tatus, cotias, mocós,
rescendentes, almecegas, raízes medicinais, sementes brilhantes como jóias,
todas as curiosidades do Bric-a-Brac selvagem. Esses Mendonças foram
grandes fornecedores da alimentação indígena de Baixa Verde, trazendo
encomendas de veados, macacos e caitetús com a naturalidade de quem
carrega uma galinha, satisfazendo as vendas nas portas e na feira deante da
“loja” de João Camara.
Assim foram os primeiros meses, vendendo à vista, níquel a níquel,
gastando o menos possível. No quartinho dormiam os dois, em redes. Loló
era o cozinheiro, com a ciência dos cardápios relâmpagos. Tudo assado, peixe
e carne. Cozinhado apareciam ovos, às vezes. De São Bento do Norte, praia
das pescarias do voador desciam os garajáus dos “milheiros” nos meses de
safra. Era pitéu habitual. E o conduto indispensável era a farinha de mandioca.
Não tinham vivido de outra forma os indígenas donos da terra e os sertanistas
que empurraram o meridiano de Tordesilhas para oeste.
À noite João Camara fazia e refazia contas, somava planos, discutindo

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com ele a viabilidade dos programas nas semanas futuras. Loló ouvia e
executava. A venda ia marchando, devagar e sempre, vendendo, comprando,
revendendo. Os pagamentos para Boaventura Dias de Sá iam pingando, certos,
garantindo o crédito.
As viagens nos trens para Taipú e Ceará-Mirim iam no fazendo
conhecer gente que se estabelecera ao longo da ferrovia. E havia oportunidade
para pequeninos negócios insignificantes mas iniciadores de urna confiança
mais sólida. A lojinha em cima da colina de Baixa Verde era uma credencial
para a iniciação na “classe”. É preciso saber- se onde trabalha o colega que
fala em compras e vendas para que não o tomem por mascateador e cigano.
O comércio é sinônimo de fixação, de residência, de demora. As velhas casas
comerciais eram “estabelecimentos”. Começar a negociar, abrindo a casa.
dizia-se “estabelecer-se”. João Camara está estabelecido em Baixa Verde. Há
um endereço invariável e por ele a vida começa, certa e normal.
Ao anoitecer, comido o peixe assado pelo Loló, engulido o café, João
Camara revia o que fizera durante o dia. E sentava-se às vezes num tamborete
de pau, fora da porta, olhando sem ver. Estava tecendo, no tempo, suas teias,
sonhos, planejando a marcha ininterrupta que nem a morte havia de deter.
O pai vinha vê-lo e conversar, preso à Passagem Funda e à pequena
plantação que o exgotava. Numa dessas visitas deu a notícia triste da moléstia
da mulher. Dona Maria ia-se extinguindo e com ela a luz tépida que aquecera
e clareara marido e filhos.
João Camara começou a queimar as economias para salvar a mãe. O
dinheiro, poupado como sangue vivo, escorria sem cessar, mobilizando os
recursos para prolongar a vida de dona Maria. Não havia comentário entre os
irmãos. Apenas era um dever natural e supremo. Gastar-se-á até o último tostão.
Dona Maria morreu em Passagem Funda a 16 de janeiro de 1915.
João Camara ficou com os olhos fixos, a face contraída num ritus de amargura,
sem falar, sem procurar frases de consolo. Esperou alguns meses para refazer-
se e aproximar-se do antigo nível as economias atiradas em socorro da mãe.
Voltou em abril para ouvir João Gomes sobre uma sua ideia de
negócios. Queriam incluir fazendas na loja do alto em Baixa Verde. João Gomes
explicou que a venda de tecidos era perigosa, empatando capital, dependendo
de colocação vagarosa sem que o fornecedor esperasse pela vontade do
comprador ocasional. Chegava prazo de pagamento com as peças de fazenda
dormindo nas prateleiras. Em qualquer caso estava pronto para levar o
afilhado ao compadre Boa no Ceará-Mirim e responsabilizar-se pelo crédito.

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Nova conversa no escritório de Boaventura Dias de Sá. Novamente
compadre Boa levantou as sobrancelhas o aconselhou prudência e
oportunidade Os meses de inverno não eram os melhores para tecidos O
povo comprava de preferencia as ferramentas do trabalho, alimentos e
sementes. Na época da colheita, com os primeiros saldos, vinha o desejo
da roupa nova para o novenário da Padroeira, a Noite de Festa em
dezembro, os bailes de quota e rifa, os alegres furdunços domingueiros
pêlos arredores. Agosto seria um bom mês para comprar tecidos. Vendê-
los-ia com prazer.
João Camara voltou, convencido. Partiu novamente. Desta vez para
Pitombeira. Ia combinar o negócio mais importante de toda sua vida. Marcar
a data do casamento com a prima Maria.
Em Baixa Verde alugou casinha e arranjou-a para o lar. A mobilidade
de antigo funcionário da Inspetoria de Secas continuava. Não estava quieto,
firme, dois a três dias. Viajava, correndo para vários pontos, estudando,
propondo transações, ensaiando o vocabulário, exercitando as asas.
Dispôs tudo para o casamento. Os padrinhos seriam Pedro Guedes
de Paiva Fonseca, amigo do pai e um dos elementos políticos de Taipú, e
Boaventura Dias de Sá, o compadre Boa que tanto o ajudava.
Casou na vila de Taipú, na casa de Luís Miranda alugada pelo padrinho
José Gomes, agora sogro.

Aos deis e oito de junho de mil novecentos e quinze,


na Matriz de Taipú, feitas as três proclamações,
assisti ao consentimento matrimonial de meus
paroquianos João Severiano da Camará e Maria
Rodrigues da Costa, ele filho legitimo de Vicente
Severiano da Camará e Maria Rodrigues da Camará,
já falecida, solteiro, e com vinte anos de idade, ela
filha legitima de João Gomes da Costa e Bernardina
Rodrigues da Costa, também já falecida, solteira e
com dezessete anos de idade, em presença das
testemunhas Boaventura Dias de Sá e Pedro Guedes
de Paiva Fonseca, do que mandei fazer este termo
que assino, (a) Vigário Pé. Celso Cicco.

O baile durou a noite inteira, ato o sol aparecer.

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Levou a prima Maria, dona Maria Rodrigues da Camará, para a casinha
em Baixa Verde. Retomou seu lugar no balcão.
Uma grande fase de sua vida completara-se. O seu problema de amor
resolvera-se. Por esse lado nenhuma mágua haveria de surgir. Maria dar-lhe-
ia o lar sereno, a obediência incomparável, a palavra carinhosa de
compreensão e animo, a confiança inabalável, a resignação cristã e fá-lo-ia
pai de vinte filhos..
Na safra João Camara voltou ao Ceará Mirim para comprar as fazendas
do seu amigo Boaventura. Vi a data dessa compra inicial num rumo novo: 9
de setembro de 1915. Comprou 2.870§350 de tecidos.
Levou a riqueza para Baixa Verde e Loló arrumou as peças
artisticamente, fazendo sobressair combinações e cores das ramagens
atraentes. Foi o primeiro negócio de vulto, arriscando crédito. As fazendas
foram vendidas rapidamente. 1915, o Quinze trágico, de seca para o sertão e
descida de retirantes, passava como todas as cousas...

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O RIO CRESCE
Negócios formam o homem. - SMILES

A Estrada de Ferro continuava estirando os trilhos para as Lages,


fazenda que seria cidade. Os contratantes residiam em Baixa-Verde, Antônio
Proença, gordo, lento, generoso, amando delirantemente a vida, doido pelos
cavalos de sela, pelas vacas bonitas, iniciando a cultura de algodão um pouco
além do método antigo, à lei da natureza, ao Deus dará.

Residiam também engenheiros, Octávio Pena, pequenino, os olhos


faiscantes detrás de um pinenez espelhante, filho do Presidente da República
que inaugurara a Estrada, Eduardo Parisot, comprido, alto, seco, Cortez, ambos
deixariam amigos eternos por onde passaram.

Também estava morando em Baixa-Verde Fernando Gomes Pedroza,


seu Fernando, dirigindo um campo experimental de algodão no Riacho Seco,
funcionário do Ministério da Agricultura, ganhando a incrível quantia fabulosa
de seiscentos mil réis mensais, raramente recebidos. Casára em São Paulo e
trouxera a mulher, uma Toledo Piza, para aquela aldeia que ia esperneando
para viver.

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84 | Baixa-Verde | Raízes da nossa história
BIOGRAFIA JOÃO MARIA FURTADO
João Maria Furtado,
filho de João Batista Furtado
e Dorotéia Justino de Oliveira,
nasceu no dia 09 de julho de
1903, em Assunção, quando
esta comunidade ainda
pertencia ao município de
Taipu.
Ainda muito moço,
casou-se com Jacyra Brandão
Furtado, nascida em Salvador/
Bahia, em 04/09/1912, com
quem conviveu na mais
perfeita harmonia durante 60
anos ininterruptos. Da união
nasceram três filhos: Roberto,
Dora e Harilda.
João Maria Furtado
tornou-se o primeiro filho de
Baixa-Verde a formar-se em
direito, sendo logo designado
juiz distrital da vila, por ocasião da instalação do novo município em 1º de
janeiro de 1929. Com a criação da comarca, foi o primeiro juiz titular, havendo
sido removido da comarca de Assu, para assumir, em 19 de junho de 1935,
as funções de magistrado em sua terra natal.
Por ocasião da Intentona Comunista de novembro de 1935, na qual
foi envolvido, gratuitamente, por ser desafeto de João Severiano da Câmara,
que o acusou de colaborar com os revoltosos, foi preso e processado, sendo
transferido para uma cadeia em Natal, onde ficou por 55 dias, solto graças a
uma ordem de Habeas Corpus.
Receando ser preso novamente, fugiu para o Ceará, e de lá para Catolé
do Rocha, na Paraíba. Em Catolé do Rocha, ficou como protegido na fazenda
Olho Dágua, de propriedade da família Maia. Por esse tempo, fez amizades
com Sérgio Maia e João Agripino, que depois veio a ser governador da Paraíba,

Baixa-Verde | Raízes da nossa história | 85


deputado federal, senador e ministro do Tribunal de Contas da União.
Visitando Campina Grande, onde morava um seu cunhado, veio ao seu
encontro a sua esposa, Jacyra, depois de meses de abrupta e sofrida
separação. Ainda na cidade de Campina Grande, tomou conhecimento, através
de um telegrama do deputado Café Filho, que o Tribunal de Segurança
Nacional, por decisão unânime, o excluíra da denúncia.
Reassumiu suas funções de juiz de direito em Baixa-Verde no dia 04
de maio de 1937, uma sexta-feira, após pouco mais de um ano e cinco meses
de afastamento, ficando na comarca até abril de 1946, quando foi removido
para a 5ª vara da capital.
Em 10 de fevereiro de 1954 tomou posse como desembargador no
Tribunal de Justiça do Estado, havendo ascendido à presidência daquela corte
em 10 de dezembro de 1958. Foi, também, Juiz do Tribunal Regional Eleitoral.
João Maria Furtado foi o ícone das letras jurídicas dentre os filhos de
Baixa-Verde, porém as suas posições contestatórias e desafiadoras em relação
ao Senador João Câmara, lhe valeram o mais completo ostracismo na terra
que lhe serviu de berço. Somente na administração do então prefeito Aldo
Torquato (1977/1983) veio o resgate tão merecido: foi construída uma escola
em Assunção, criado e instalado o Fórum Municipal, aos quais foi dado o
nome de “Desembargador João Maria Furtado”.
João Maria Furtado faleceu em Natal, no dia 04 de fevereiro de 1996,
aos 93 anos de idade, sete anos após o passamento da sua amantíssima esposa,
Jacyra (16/02/1989).
Do seu livro de memórias, “Vertentes”, publicado no ano de 1976, extraímos
os capítulos que adiante reproduzimos.

86 | Baixa-Verde | Raízes da nossa história


NÃO ME CONTARAM: PRESENCIEI
Nunca tive quem me explicasse esse desvio de rota dos trilhos da
Estrada de Ferro Central do Rio Grande do Norte. Montada uma parada de
trem em Matas, logo começaram a afluir para estabelecerem-se ao seu redor
muitos habitantes de Assunção e, um a um, seus principais comerciantes
foram-se passando para o povoado nascente, ligado à capital por estrada de
ferro, facilitado o transporte de pessoas e mercadorias. Ali, construíram-se,
prestes, muitas edificações para moradia e comércio. Uma das principais era
a do Dr. Antônio Proença um dos sócios da firma proprietária da estrada de
ferro. Também se ergueu ao seu lado direito uma capelinha que, por
prolongados anos, antes da edificação da grande matriz, obra do vigário padre
Vicente de Freitas, na década de 50, serviu por cerca de 40 anos como igreja
da povoação até passar à cidade em 1935, já como sede de comarca, nela se
celebrando todas as cerimônias e ofícios religiosos.
Aquele Dr. Antônio Proença era um tipo especial de homem. Alto,
muito gordo e forte, expandia vida, alegria e saúde. Em sua morada, em
edificação já desaparecida, ao lado direito da estação, olhando na direção do
nascente, realizavam-se festas suntuosas e comumente se reuniam os
melhores ou mais destacados moradores da nascente Baixa-Verde e arredores
para memoráveis mesas de “poker”.
Valdemar de Sá, um dos maiores azes desse jogo, já praticamente
desaparecido, estando a invernar em Jardim de Angicos, era um dos
frequentadores, nos fins de semana, dessas rodadas de baralho que se
prolongavam por noites e dias seguidos.
Nesse tempo a companhia construtora e proprietária da estrada de
ferro o era também da “Data do Torreão” - meia légua de largura por uma de
comprimento - com limite no cimo do monte Torreão, em sua largura,
descendo em direção a Natal, indo terminar numa das janelas do prédio da
estação e em seu comprimento na direção nortepoente indo até o local
denominado “Moinho”, na Serra Verde. Tais as dimensões das picadas então
abertas para delimitar essa data de terra: não sei porém se o foram por
demarcação judicial ou por simples iniciativa da companhia proprietária.
Essa “demarcação” foi atingir, cerca de três quilômetros adiante, um

Baixa-Verde | Raízes da nossa história | 87


sitio de criação e agricultura nosso, denominado “São João”. A linha
delimitadora penetrou em cercados ali construídos e passou precisamente
sobre a parede de um dos dois açudes com que o sitio era beneficiado.
Com seu temperamento acomodatício e desprendido meu pai não teve
nenhuma reação ao esbulho. Minha mãe, porém, sem que ninguém
antecipadamente o soubesse, colocou-se pessoalmente, à frente de dez homens
armados e impediu, desse modo, pela força de sua presença armada, a
continuação dos serviços demarcatórios.
Dias depois chegava à Assunção uma força da Polícia Estadual que
invadiu algumas habitações à procura de armas, sem as encontrar, no entanto.
Nossa casa, inexplicavelmente, foi respeitada. Muito pequeno, recordo,
porém, do grande número de soldados, em uniformes bastante vistosos e
para mim simplesmente deslumbrantes, andando pela única rua do povoado.
Mas a questão, dada a atitude tomada por minha mãe foi à Justiça. O
velho, conhecido e inteligente advogado rábula, João Pegado Cortês, foi nosso
defensor. Afinal houve um acordo, havendo sido pela poderosa companhia,
dona da estrada de ferro, reconhecido nosso direito à gleba “São João”. Daí
porque, quando da venda feita de todo o patrimônio dessa companhia à União
Federal, inclusive a data do Torreão, ficou constando da respectiva escritura,
com translado existente e registrado em livros do Serviço do Patrimônio da
União neste Estado, as ressalvas de duas partes dentro da data do Torreão: o
sitio “São João”, de João Batista Furtado e uma faixa de terra onde está situada
a cidade de Baixa-Verde como patrimônio municipal.
Os que, dirigentes do município de Baixa-Verde, de agora em diante,
se interessarem em saber o verdadeiro patrimônio que, assim, lhe foi doado
para edificação de sua sede, poderão encontrar os elementos necessários
naquela repartição federal. Inclusive a escritura está acompanhada da planta
da área doada e da área reservada do sitio “São João”, as duas situadas dentro
da data do Torreão, não foram transferidas, nessa compra da companhia que
levou os trilhos da estrada até Baixa-Verde.
Quando, no início do século XX, meu pai veio se estabelecer em
Assunção, os trilhos da Estrada de Ferro Central do Rio Grande do Norte ainda
sequer haviam atingido Ceará-Mirim. Morava-se, pois, em Assunção, nos
confins do mundo: em caso de doença, o tratamento era feito ali mesmo,
pela homeopatia, de que minha mãe possuía um compêndio, além de um

88 | Baixa-Verde | Raízes da nossa história


stock de seus principais produtos para as necessidades e com os quais muitos
doentes foram socorridos e até curados.
Não sei se somente era a fé: mas muitas pessoas tiveram a saúde
restabelecida com a medicina de minha mãe, sua fama de homeopata se
estendia por larga zona de influência e a ninguém, pobre ou rico, ela jamais
negou sua assistência devotada.
Nada obstante essa falta de qualquer assistência médico-higiênica
sobreviveram com plena saúde nove filhos, sendo oito mulheres, das quais,
quatro se dedicaram à vida religiosa e estão ainda agora (1970) todos vivos e
vieram gozando pela vida afora uma rara plenitude de higidez.

Baixa-Verde | Raízes da nossa história | 89


90 | Baixa-Verde | Raízes da nossa história
PRIMEIRAS IMPRESSÕES NA INFÂNCIA
Dentre as mais distantes impressões que se me gravaram,
indelevelmente, na memória como quadros da infância, me aparece ainda
agora, tantos anos passados e tantas rudes vicissitudes esvadecidas diante
de mim, nítida, como a viram meus ingênuos olhos infantis, a paisagem de
écloga virgiliana que, dentro da paz serena da manhã nascente, apresentava
a várzea que, protegida de cercas, se estendia em frente à nossa vasta casa
de morada em “São João”: orlada de incontáveis cajueiros, altivamente
erguidos, em cujas frondes virentes, incidia em palpitações doiradas a
cintilação fulva da luz matinal. E longe, dentro da luminosidade estática da
manhã, o vulto esguio de meu pai, que, em breves intervalos, se fazia ver,
armado de espingarda, passando de uma árvore a outra, para em breve
retornar, carregado com o resultado da sua caçada, em geral grande
quantidade de periquitos, sacrificados quando se alimentavam de cajú.
Essa nossa casa em “São João”, construída num alto, mas já num
suave declive para a várzea, era enorme para o seu tempo: levantada toda
em taipa com madeira de lei, tirada ainda no Torreão, compunha-se de seis
quartos, três salas e alpendre. Aos fundos, depois da cerca do quintal, também
plantado com cajueiros, ficava a “casa de farinha” e na frente, lateralmente,
o curral em que, no inverno, se abrigavam até cem vacas de bezerro. Também
passou a se me imprimir na memória a cena repetida em muitas noites em
que, após o jantar, meu pai ouvia ler os jornais que não sei como chegavam
até nós ou outras noites em que ele ia e eu o acompanhava até o quintal e
debruçados na cerca, para os lados do sertão, ficávamos a contemplar, no
horizonte escuro, em intervalos, o rebrilho dos relâmpagos prenuncia dores
ou não de inverno.
Certo ano completamente seco e no qual para beber a água era
apanhada muito longe, no rio Ceará-Mirim e as roupas eram lavadas em Pureza
(nesse tempo conhecida como Pau Ferro), para além da “casa de farinha” de
“São João” se estendia u’a mata completamente inexplorada cobrindo um
terreno formando uma baixada que carreava sua inclinação para a vertente
que vai dar no grande açude da estrada de ferro. Surpreendentemente,
alguém, procurando água, cavou o solo nessa baixa e menos de metro a água

Baixa-Verde | Raízes da nossa história | 91


surgiu. Toda a mata foi abaixo, cavando-se inúmeras cacimbas, as quais, no
restante período da seca, abasteceram toda a população do povoado e por
muitos quilômetros em redor.
Com a chegada do inverno, o local foi abandonado pelos cavadores
dessas cacimbas, exceto meu pai que, por se tratar de terreno muito próximo
de nossa morada em “São João”, o cercou todo, fazendo ali uma grande
plantação de mandioca. Ao ser esta, dois anos depois, transformada em
farinha, foi tal a quantidade que se tornou necessário construir um paiol de
madeira e esteiras de palha, tomando quase toda a grande sala de entrada
daquela nossa morada. Era uma espécie sui generis de silo, indo até quase o
teto da sala, tanto que depois de quase cheio, o acesso a ele e à farinha,
assim conservada a salvo do mofo, era feito por cima da parede, por meio de
uma escada colocada no quarto vizinho. Subir a esse silo e sentar na farinha
foi um dos grandes atrativos nesse tempo para mim.
Outro acontecimento marcou então minha infância em “São João” -
além da lembrança do temor à vaca “Calçadinha”, que com suas impetuosas
correrias contra qualquer pessoa que ousasse sair ao pátio, frente ao curral
quando ela ali se encontrava - foi o falecimento de minha irmã Maria Madalena
aos 18 anos de idade e ocorrido a 27 de abril de 1910. Nasceu a 20-10-1892.
Adoecendo, não lhe trouxeram qualquer melhora, nem os remédios
caseiros, a alimentação apropriada e os cuidados de que foi devotadamente
cercada e nem os receitados por médicos, mais de uma vez, em Natal. Seu
óbito se verificou numa noite passada toda em vigília angustiada e expectante.
Com sete anos de idade, apenas, mesmo assim, não esqueci jamais o
cenário dos acontecimentos com a exteriorização do sofrimento dos meus
nas lágrimas que vi choradas, inclusive por meus país. Ficou para sempre
nítido o quadro no fundo da memória: sob uma ofuscante claridade matinal
a saída do caixão, num desfile, numa procissão longa e silenciosa, descendo
para atravessar a várzea em frente e subir adiante, serpenteando pelo caminho
que se perdia numa curva distante sob o esplendor radioso do sol a rebrilhar
nas areias da estrada. Era a derradeira caminhada para ° campo santo de
Assunção, recanto de paz ‘e meditação onde, ainda hoje, um modesto túmulo
marca a morada eterna daquela que apenas alvorecia para a vida. Estive há
anos não distantes ao pé desse jazigo de um ente querido e inesquecido,

92 | Baixa-Verde | Raízes da nossa história


numa peregrinação de devotamento e saudade. Orei, em silêncio, ante a lousa
que com seu nome assinala o efêmero d’e uma existência que hoje é apenas
uma recordação perdida de tantas que me ficaram do tempo que se escoou
sem retorno e sem lenitivo. 1

1
Ainda em relação à minha irmã Maria Madalena de tão passageira existência não é demais que se assinale
um acontecimento desses que a ciência não explica: há uns dois anos antes de seu passamento, a qualquer hora do dia
ou da noite aos seus olhos apareciam visões sob varia-das formas, principalmente as de um rosto de bigode ou uma
figura humana vestida à moda dos mortos antigos com o corpo sem vida amortalhado. Tais aparições se su-cederam
por meses e se iam amiudando, principalmente, à noite, quando se faziam visíveis também até a algumas de minhas
outras irmãs, dormindo no mesmo quarto e às vezes até numa única rede, amedrontadas como se en-contravam todas.
Nesse ambiente que se ia fazendo cada vez mais angustiante, ela, na sua profunda religiosidade, suplicou, fervorosamente,
a Nossa Senhora, sua maior de-voção, que lhe indicasse, em sonho, o caminho para afas-tar tais aparições. E sonhou
que era a alma de seu avô paterno que pedia lhe mandasse celebrar uma missa. E atendida a súplica jamais como por
encanto se repetiram as antigas aparições.
Os fatos são absolutamente reais, lembrados até hoje por todos os que foram presentes a eles - seis das
minhas sete irmãs mais idosas do que eu. Fica a assinalação sem comentários.

Baixa-Verde | Raízes da nossa história | 93


94 | Baixa-Verde | Raízes da nossa história
EM ASSUNÇÃO
Assunção hoje é apenas o resquício de um passado de certa monta e
importância. Sobrevive apenas em algumas espaçadas construções, marcando
sua antiga rua principal, em cujo centro, com algumas boas casas de comércio
(João Batista Furtado, Alfredo Edeltrudes de Sonsa (3-6-1822 a 12-2-1950), Ismael
Mauricio da Silveira, Joaquim Câmara realizava-se aos sábados, sob uma larga
construção coberta de palha, uma grande feira, interessando muitas léguas em
torno. Hoje, numa extremidade daquela antiga rua principal, está uma capelinha,
menos espaçosa que a anterior, posta abaixo e na outra extremidade aquele
cemitério, cujas grossas paredes de pedras são conservadas pelo zelo anônimo
do povo na sua religiosidade desinteressada e pura. A nova capelinha foi mandada
levantar por meu cunhado Domingos Romano, em 1926, repostas nela as três
imagens existentes na anterior, entre elas uma Nossa Senhora da Assunção,
padroeira local.
Ao ter melhor conhecimento das coisas, estávamos residindo nessa
Assunção de caras recordações, numa casa recém-construída por meu pai
com frente de tijolo para a rua, cinco janelas de frente, porta de entrada de
lado, fechado o amplo quintal - pela sua amplitude melhor dizê-lo um roçado
- por um alto e bonito portão de madeira. E como em todos os locais em que
fixamos residência, minha mãe transformou esse roçado, nos arredores da
casa, num alegre pomar com fruteiras as mais diversas. Mais além, no inverno,
esse “quintal” era um grande campo plantado de muito milho e feijão, pois
seu solo era fertilíssimo.
Assunção era então florescente aglomerado humano com bastante
comércio. Havia até uma “bolandeira” para descaroçamento de algodão do
velho Joaquim Câmara, genitor do agrônomo Câmara Filho. Este emigrando
muito antes de 1930 para Goiás, ali se radicou, chegando a ser secretário de
Estado quando os Caiados foram apeados do poder naquele movimento que
derrubou a Velha República.
Câmara Filho faleceu há poucos anos, mas em Goiás permanecem
dois irmãos que também, muitos anos depois, para lá se transferiram e
dirigem hoje jornais e uma estação de rádio. Um deles, Dr. Jaime Câmara,
exerceu até 1969 o mandato de deputado federal, quando teve seus direitos
políticos cassados, não por corrupção ou subversão, mas certamente, pelo

Baixa-Verde | Raízes da nossa história | 95


motivo de ser opositor da antiga oligarquia dos Caiados que assumiram
novamente o controle desse Estado, depois de março de 1964. Nasceram
ainda em Assunção, filhos de Alfredo Edeltrudes de Sousa: Dr. José Cavalcante
de Sousa, diplomado em agronomia e que depois de exercer altos cargos no
Estado doe Minas Gerais, inclusive a Secretaria de Agricultura e ali continua
residindo, agora é aposentado; Dr. Izaias Cavalcante de Sousa (6-1-1900 a 30-
6-1965), também agrônomo, que foi funcionário de categoria do Ministério
da Agricultura, e já falecido e o bacharel João Maria Cavalcante de Sousa (6-
8-1906 a 21-1-1963), também já falecido em Brasília, onde exercia altas
funções correlatas com sua habilitação profissional.
A decadência de Assunção teve seu início em 1910, quando, por falta
de uma única construção, a Estrada de Ferro Central do Rio Grande do Norte,
inaugurou uma parada de trem, num trecho distante três quilômetros ao sul
desse povoado, utilizando um vagão. Em plena mata, tanto que os habitantes
de Assunção passaram a denominá-la MATAS e é o local em que está hoje
situada a cidade de Baixa Verde, sede do município que se criou a 29 de
outubro de 1928 e que foi transformada em cidade, sede de comarca em 11
de junho de 1935. Somente a 19 de novembro de 1953, foi ao município
dado o nome de João Câmara, com vigência a partir de 1º de janeiro dê 1954.
Em redor daquela parada “MATAS” foram se erguendo construções e
através dela, naturalmente, começaram a se escoar para o mercado da capital os
produtos da terra, ao mesmo tempo que, ali desembarcavam as mercadorias de
consumo, vindas de fora. Em breve foi inaugurada uma feira no domingo e se
construíram as primeiras casas destinadas ao comércio, esvaziando-se, assim, aos
poucos a feira de Assunção, no sábado, chegando, por fim a desaparecer
completamente. Era até então o entreposto forçado de todo o comércio da zona,
inclusive o que se fazia com as praias do Norte do Estado, entre elas, em primeiro
plano, São Bento do Norte e Caiçara. Era também estação de convalescência no
inverno para enfermos de certas doenças, principalmente tuberculose. A maioria
de proprietários de engenhos em Ceará-Mirim e que possuíam terras para os lados
de Jardim de Angicos, Pedra Preta e proximidades de Lajes, faziam também de
Assunção na época do inverno passagem forçada para chegarem àqueles seus
domínios.
Quando da rebelião chamada da Ilha das Cobras, no Rio, foram
expulsos da Marinha os marujos nela implicados e grande leva destes veio
1
Operários construtores de estrada de ferro

96 | Baixa-Verde | Raízes da nossa história


trabalhar como “cossacos”2 na construção da Estrada de Ferro Central do Rio
Grande do Norte. Os respectivos serviços – abertura de picadas, cortes de
terra, aterros e assentamento de trilhos – já passavam da parada de Matas e
chegavam às proximidades de Lajes. Começaram, então, assaltos à mão
armada e misteriosos assassínios de viajantes, tornando-se verdadeira
temeridade atravessar essas paragens vizinhas da Estrada. Foram encontrados
cadáveres insepultos, atribuindo-se àqueles estranhos à terra a autoria desses
crimes.
Essa foi uma época de reais sobressaltos para os moradores de
Assunção. Delegado de Polícia civil, sem um único soldado à sua disposição,
meu pai teve de afrontar essa maré de desordens, não somente com a sua
moral como recrutando, como ‘era costume fazer no interior, civis abnegados
e dispostos para tais emergências.
Muita criança ainda, tive que assistir um dos episódios mais marcantes
dessa onda de turbulências; num fim da feira, em pé sobre um tamborete, à
porta do estabelecimento de comércio de meu pai, assisti desenrolar-se ao
longe, no começo da rua, uma luta de longa duração travada entre quatro
daqueles ex-marinheiros, pretos, altos e fortes, de um lado e do outro, numa
imensa nuvem de poeira, dois homens auxiliados por muitas mulheres e
meninos, armados até de pedras.
Os Mendonças constituem ainda hoje um aglomerado de famílias
aparentadas entre si, quase uma tribo de índios pelo baixo nível de
desenvolvimento. Eles se localizaram desde tempos imemoriais, num local
distante duas léguas de Baixa Verde, por sinal denominado Amarelão dos
Mendonças. Viviam antes quase exclusivamente de caça, quando esta ainda era
abundante nos arredores. Hoje vendem sua força de trabalho como assalariados
nas propriedades circundantes. Dizia-se dos mais antigos deles que, caçando,
intrometendo uma vara num buraco de tatu ou formiga e depois de cheirá-la
sabiam se no seu interior se encontrava uma cobra ou uma caça e sua espécie.
Os Mendonças constituem uma modalidade de sociedade fechada, pois ainda
hoje se casam entre si e permanecem quase isolados naquele seu aglomerado
social.
Aqueles ex-marinheiros, educados na escola da valentia, haviam, no
sábado anterior, fechado o comércio de Taipú, com as desordens ali praticadas
e propalaram que, no sábado seguinte, iriam deixar, da mesma forma, “aberto’
o comércio de Assunção. E chegaram, realmente, no inicio da tarde, já no
declínio da feira e, imotivadamente, atingiu um deles com uma facada num

Baixa-Verde | Raízes da nossa história | 97


braço um rapaz dos Mendonças. Do incidente nasceu uma grande luta entre
dois Mendonças homens - os demais já haviam regressado ao Amarelão onde
moram, auxiliados por grande número de mulheres e crianças retardatárias,
armadas até de pedras.
Naquela minha posição observatória fiquei escutando o fragor da
refrega impressionante na indistinção dos vultos dos lutadores e afinal,
distingui o estampido de um único tiro, disparado por um dos Mendonças,
que se armara com uma espingarda de caça, atingindo mortalmente, no peito,
um dos ex-marujos. Era o fim: dos três restantes, dois debandaram para fora
do povoado, tomando o caminho das Matas, um deles com um ferimento a
foice, o quarto, veio pela rua, completamente desarmado. Entrando no
estabelecimento comercial de meu pai, encostou-se à parede, junto ao balcão.
De sua testa, onde se via um ferimento completamente redondo fora ali
atingido pelo cano da espinguarda do Mendonça, depois de disparada corria
até as pernas um longo fio de sangue.
E sem articular uma só palavra, desmaiou, sendo então mandado
recolher como preso, na sala de frente de uma casa próxima, providenciada
uma rede para acolher o homem desfalecido. Minutos depois foi dado o
alarme de haver o preso saído em desabalada carreira em procura de
liberdade.
Com a fixação de Matas como interposto ferroviário do comércio
da zona a três quilômetros ao sul de Assunção, esta foi aos poucos
declinando de importância e se despovoando. Alfredo Edeltrudes (13-6-
1872 – 12-2-1950) arrendou o engenho Carnaubal, em Ceará-Mirim e depois
comprando a propriedade QUINTAS, hoje bairro do mesmo nome, em Natal,
para esta se mudou. O velho Joaquim Câmara fechou seu descaroçador de
algodão e se mudou também para uma sua propriedade em Cauassu, cerca
de uma légua distante. Papai construiu nas Matas, uma casa primeiro
adaptada para o comércio, na praça da feira, hoje Getúlio Vargas e,
posteriormente, também casa de morada, transferindo seu negócio para a
nascente Baixa-Verde, já agora tendo à sua frente como sócio meu cunhado
Domingos Romano (10-11-1897 - 22-12-1966) há pouco casado com minha
irmã Mariana. Antes, porém, de construir sua residência ali, meu pai,
diariamente, a cavalo, ia de Assunção a Baixa-Verde, voltando à noitinha
para dormir em casa. O último comerciante de Assunção a se transferir
para Matas foi Ismael Mauricio da Silveira, cuja conhecida parcimônia em
matéria de despesas lhe dava a fama de rico.

98 | Baixa-Verde | Raízes da nossa história


Assunção me ofertou, nas primícias da juventude, os melhores dias de
minha vida, na suprema alegria primaveril das férias escolares ali anos seguidos
gozadas. Era sempre pelos meses de junho, lavados os campos verdes por suas
chuvas friorentas que para ali retornava o irrequieto e folgazão aluno do Colégio
de Santo Antônio de Natal, ainda no prédio contiguo à Igreja desse nome,
encimada sua torre por aquele célebre galo de bronze. Saia da cláusura dos
estudos para a liberdade dos caminhos rescendentes de perfumes, de flores e
de frutos agrestes e na fria luz das manhãs após o leite ao pé das vacas vinham
Os inesquecíveis banhos nos açudes transbordados pelos riachos cantantes.
Essa encantada primavera de minha existência foi vívida em comum com um
companheiro inolvidável, já desaparecido nas trevas da morte; Gabriel Varela
(2-8-1905 - 5-3-1957). Ficou ele, assim, nítido na recordação imperecível desse
esmaecido e longínquo mundo da infância que se ia e da juventude que se
iniciava como mirífica oferenda do destino, dádiva gratuita e pagã de
predestinação de todas as felicidades terrenas.
Mudando para Baixa-Verde sua casa de comércio, muito prosperaram
os negócios de meu pai. Somente anos depois, quando o comércio de Baixa-
Verde fora completamente açambarcado pela absorvente ambição sem limites
da firma João Câmara & Irmãos, aquela nossa prosperidade como a dos
demais comerciantes locais começou a declinar sacrificada à daquela firma.
E quando do movimento extremista de novembro de 1935, a pretexto de sua
repressão, entregue o município à orientação de João Severiano da Câmara,
desapareceu pela coação o direito de todos os que por se haverem
manifestado politicamente adversários na campanha de que resultou a eleição
do Dr. Rafael Fernandes como 1º governador constitucional após 1930 -
continuarem comerciantes em Baixa-Verde.
Na primeira feira que se seguiu à restauração da autoridade desse
governador no Estado, foi mandado postar, à calçada do nosso
estabelecimento comercial em Baixa-Verde, um soldado de Policia, cuja
presença, durante toda esta primeira feira e nas que se seguiram ao seu
funcionamento ali, fardado e armado ostensivamente, dado o clima
estabelecido na cidade, teve como resultado desejado o afastamento total
de nossa freguesia. Impossível, portanto, por isso, a continuação do negócio.
Nenhum dos numerosos elementos de projeção social e política de
Baixa-Verde que se haviam manifestado partidário do ex-interventor Mário
Câmara ou do líder seu aliado contra o Partido Popular, João Café Filho, em
1935, deixou de sofrer humilhações de toda a sorte, a partir de prisões e

Baixa-Verde | Raízes da nossa história | 99


tiveram na sua quase totalidade de abandonar o município para sobreviver.
Antônio Justino de Sousa (14-11-1885 - 30-6-65), por exemplo, proprietário
e grande comprador de algodão e que exercera o cargo de Prefeito nomeado
pelo interventor Mário Câmara, foi preso e além disso numerosos fardos de
algodão, já prensados em sua usina, foram, na repressão ao movimento de
novembro de 1935, destripados e queimados em plena rua ... Seu irmão,
José Justino de Sousa, alto comerciante e influência política, também, foi
detido, e forçado a fechar seu estabelecimento comercial, mudando-se para
Natal. Nenhum deles teve qualquer ligação com a intentona.
Nessa situação de intolerável pressão, meu cunhado Domingos
Romano - homem absolutamente apolítico, tolerante, generoso e
acomodado também detido por algumas horas de comum acordo com
meu pai liquidou, apressadamente, seus negócios comerciais e tentando
sobreviver fora dali, veio para Natal, onde recomeçou, quase do nada, novo
negócio, pequeno comércio de ferragens, localizado no Alecrim, à rua
Manoel Miranda, em cujos fundos passou a habitar com a família, agora
acrescida com a presença de minha mãe e mais duas cunhadas, minhas
irmãs, que o acompanharam, não podendo ficar em Baixa-Verde. Meu pai
porém, ali permaneceu, inteiramente agora dedicado à cultura de algodão
num sítio de sua propriedade, denominado “Baixa do Novilho”, no “Limão”,
em pleno Mato Grande.
Esse sítio distava pouco mais de légua de Queimadas e, portanto,
quase cinco léguas de Baixa-Verde, distância essa que meu pai semanalmente,
percorria, para vir à Feira. E o fazia, também quase permanentemente, a
cavalo, tomando o caminho mais curto, pela Serra Verde, estrada que por
atravessar um trecho muito arenoso, nunca se prestou ao tráfego de veículos
automotores.
Estava, nessa época, meu pai com 70 anos de idade, passando, assim,
a levar uma vida de absoluto desconforto, suportada estóica, voluntária e
resignadamente, com a mesma serenidade e humor de sempre e isto para
continuar independente, para não depender de terceiros, não ser pesado a
ninguém. No sítio “Baixa do Novilho” existia apenas pequena construção de
taipa, servindo ao mesmo tempo de sua morada e de depósito de algodão na
safra. Essa construção nem sequer tinha caiadas as paredes, de reboco de
barro. Para dormir dispunha de uma simples rede e as refeições, de gêneros
adquiridos na feira de Baixa-Verde, eram quase sempre por ele mesmo
preparadas. Viveu, assim, isolado do mundo e dos seus, os últimos anos de

100 | Baixa-Verde | Raízes da nossa história


existência, sem um mínimo de conforto material ou de comodidade que sua
idade exigia, desde fins de 1935 até agosto de 1943, quando, adoecendo do
coração, veio para casa de seu genro Domingos Romano em Natal, para
tratamento, falecendo no dia 16 de maio de 1944.
Seu falecimento ocorreu quando faltavam dias para completar 80
anos de uma vida que foi uma faina ininterrupta desde os treze, pois nesse
longo decurso descansou, realmente, apenas uma única vez, durante oito
dias, em minha companhia, na praia de Muriú, em uma das minhas
temporadas de veraneio ali. Nunca lhe ouvi uma queixa, uma recriminação
ou um comentário acerbo ou acrimonioso contra ninguém. Ao registrar
nestas páginas, em recordações comovidas, sua extrema singeleza de
hábitos, a imperturbável serenidade de suas atitudes, sua permanente
dedicação ao trabalho como dever e seu estoicismo ante a adversidade,
posso imaginar suas horas de aflições e angustia, caladas e reprimidas, na
solidão de suas noites no isolamento daquele ermo a que voluntariamente
se recolheu, embora forçado de certo modo a se separar, dadas as
circunstâncias, do aconchego da família. Permaneceu, assim, num
verdadeiro desterro, a recomeçar nova luta e a reenfrentar dificuldades de
toda ordem, face àquele movimento de 1935, em que, também,
pessoalmente, foi alvo de afrontas e perseguições, “corrido” por suspeita
de andar armado. E mais: a incerteza que lhe deve ter ferido o grande
coração de pai sobre o meu destino e paradeiro, quando me evadi da
Redinha - só conhecidos depois, de minha senhora me refugiei no Ceará,
permanecendo ele, assim, como quase todos de minha família, sem
qualquer notícia minha durante cerca de 14 meses.
E tudo isso quando deveria lhe ter chegado apenas o sossego e a
tranqüilidade que tanto merecia.
Todas essas contingências adversas foram, sem dúvida, embora jamais
externados, profundos choques que lhe atingiram o generoso coração, assim,
inesperadamente, ferido de tantas demonstrações de recalques e ódios
gratuitos. Modesta e honrada vida, toda decorrida no heroísmo silencioso e
jamais ostentado de uma completa abnegação aos seus deveres,
espontaneamente aceita como se ela se resumisse, como para ele se resumiu,
na total dedicação ao trabalho. Para isso, Ia se deixou ficar, no último ciclo de
sua existência, sem perspectiva senão o descanso final que se aproximava,
longe do agasalho e do conforto familiares, na absoluta descomodidade
daquele sitio no Mato Grande, preso ao dever do trabalho que foi a constante

Baixa-Verde | Raízes da nossa história | 101


da sua vida, dos treze aos 79 anos. Na sua lápide, com toda a justiça, se
poderiam imprimir os versos que tenho de mem6ria, sem nome do autor:

UM HERÓI
“ – Papai, o que é um herói?
Eu pergunto porque tenho vontade de ser herói também ...
– Será que posso ser herói sem entrar numa guerra?
Será que posso ser herói sem odiar os homens
E sem matar alguém?

O homem que sofrera as mais fundas angústias


E as mais feias misérias,
trabalhando a aridez de uma terra infecunda
Para que não faltasse pão no pequenino lar ...

O homem que as mais humildes ilusões perdera


No seu cotidiano e ingrato labutar ...
Aquele homem, ao ouvir a pergunta do filho:
“ – Papai, o que é um herói?”
Nada soube dizer, nada soube explicar:
Tomou de uma peneira
E, cantando, saiu outra vez a semear ... “

102 | Baixa-Verde | Raízes da nossa história


V
BAIXA-VERDE
Fixada definitivamente a nascente Baixa-Verde, Matas
primitivamente, em torno da parada ali localizada pela Estrada de Ferro meio
de comunicação e de transportes revolucionário para o tempo sobreveio
inevitável, embora paulatinamente, a decadência de Assunção, deixada
distante, cerca de três quilômetros ao norte. É que em redor daquela parada
e forçado entreposto de transporte de toda a produção dos arredores,
começaram a se estabelecer homens vindos de outros lugares, quase
forasteiros, portanto, atraídos pela facilidade das comunicações ferroviárias
e pela natural aventura de prosperar. E volta das suas atividades,
principalmente, para a agricultura e o comércio, levantaram-se logo
edificações para este último objetivo, num largo ou pateo, especialmente
reservado para a realização da feira semanal e localização do futuro Mercado
Público. Era o núcleo do que é hoje a Praça Getúlio Vargas, onde, aos sábados,
se realiza uma das maiores feiras semanais do Estado.
Meu pai construiu casa destinada ao comércio, de três largas portas
de frente, no lado norte da praça, transferindo-a de Assunção. Eram seus
vizinhos, no nascente, o comerciante Pedro Pereira de Sousa e ao poente o
velho Filipe Câmara, estabelecido com uma padaria. Por muito tempo,
gratuitamente, meu pai recebia deste o pão para o café da manhã. Figura
magra, irrequieta e palradora não possuía na boca um só dente. Na minha
indiscrição infantil, ao ver-lhe a boca de largas proporções, lhe perguntei como
ele podia comer, sem dentes, ao que me respondeu com o adágio: “Deus tira
os dentes, mas abre o guelhão.”
Episódio nunca mais foi esquecido.
Nesse tempo, assisti ao primeiro grande incêndio que ocorreu no
quintal da padaria do velho Filipe Câmara, onde estava arrumada uma
formidável pilha de lenha para o forno. Certa noite, fomos acordados com o
fogo devorando vorazmente a lenha amontoada, afinal toda consumida, sem
perigo nenhum para as edificações porque o vento soprava em sentido
contrário a estas. Não deixou, porém, de ser um grande susto e para mim um
espetáculo inédito.
João Severiano da Câmara, nascido em Baixa Funda, Taipú, depois de

Baixa-Verde | Raízes da nossa história | 103


ter trabalhado nas Obras Contra as Secas, já casado e acompanhado dos seus
irmãos solteiros Alexandre e Jerônimo, estabeleceu-se no outro lado da Praça,
numa construção com onze portas de frente, comerciante no principio, a retalho,
com toda sorte de mercadorias, comprando algodão e beneficiando-o em usina
apropriada e se dedicando também à agricultura com plantações próprias desse
tipo. Expandindo sempre seus negócios chegou, depois à compra e venda em
grosso, estendendo-se por outros municípios e até fora do Estado,
monopolizando mais de 90% do comércio de Baixa-Verde.
A sede do município era Taipú com a mesmíssima fisionomia urbana
que ainda hoje apresenta. Ali, nesse aspecto e para demonstrar seu
estacionamento, nada mudou desde então.

104 | Baixa-Verde | Raízes da nossa história


O MATO GRANDE
Logo depois da grande estiagem de 1915 teve inicio uma verdadeira
febre de penetração, desbravamento e cultivo de algodão no chamado Mato
Grande – largo trecho de terras devolutas do Estado naquele tempo estendido
entre Baixa-Verde e as praias do Norte por um lado e entre Touros e Macau por
outro lado - coberto então de espessa mata, pródiga em caça de muitas espécies.
A cultura de algodão se fez em escala maior na parte ocidental, pois a parte do
nascente se revelou inapropriada para ela.
Essa parte do território de nosso Estado era até então praticamente
desabitada: apenas possível a fixação dos povoados de Boacica, Cana Brava,
Pureza e Assunção na periferia, onde a água, exceção do último, era
abundante. Cerca de oito quilômetros de Assunção situava-se, subindo do
denominado Riacho Seco - nascente realmente seca do Maxaranguape, com
esporádicas cheias em bons invernos, apenas - um trecho daquele Mato
Grande, solo completamente arenoso e mata mais alta e quase de verde
permanente a não ser nos verões mais intensos. Por isso e pela elevação do
terreno tem o nome de Serra Verde.
Nesta parte, imprópria para algodão, está verificado encontrarem-se
as mais favoráveis condições talvez em todo o mundo para a cultura de sisa!.
Fora daqueles povoados, raro o morador que então se houvesse fixado no
Mato Grande, para viver exclusivamente de caça, dado que as distâncias para
o abastecimento d’água eram sempre muito grandes. Olhadas de hoje, quando
todo o Mato Grande está servido de poços artesianos - havendo um, no
percurso do Riacho Seco, que a 350 metros, fez jorrar espontaneamente, o
precioso liquido tais dificuldades parecem insuperáveis.
Cheguei a conhecer um desses moradores do Mato Grande, remota
configuração animalesca e quase extra-humana como se me apresentou à
imaginação. Lembro-lhe ainda o nome e a presença fantástica: Casé, que
aparecia em algumas feiras, a sua figura esguia, quase esquálida, sujo e
barbudo, queimado de sol, encarnação quase de um silvícola andando entre
civilizados ... Habitava um casebre na Serra-Verde, em plena mata, na parte
mais elevada, onde depois, havendo meu cunhado Domingos Romano
estabelecido uma “posse”, fizemos nós dois, inesquec1veis caçadas com
matança de jacús, zabelês, siricoias. juritis, etc.

Baixa-Verde | Raízes da nossa história | 105


A penetração da agricultura no Mato Grande se fez acompanhar da
abertura de poços artesianos, aparelhados de moinhos e de bombas. Mesmo
assim, muitos desses poços produzem água quase imprestável para beber
por sua salinidade, pois o subsolo é forrado de calcareo. Por volta de 1908, o
governo do Estado mandara ligar o povoado de Assunção com a praia de São
Bento do Norte, atravessando o Mato Grande pela Serra Verde, por uma
estrada para facilitar o comércio entre aqueles dois aglomerados humanos,
numa extensão de 50 quilômetros mais ou menos.
Desse serviço foi encarregado meu pai em sociedade com Neofito
Barroca, morador em Ceará-Mirim, pelo preço de cem mil réis o quilômetro.
Para se ter uma idéia da abundância de caça no Mato Grande naqueles
recuados tempos basta lembrar que ouvi muitas vezes o relato de que certo
viajante que viera a Assunção carregado de peixe, no retorno a São Bento, à
noite, apanhara dez tatús da espécie denominada “bola”, cuja única defesa é
se enrodilhar quando depara um inimigo, o fazendo também ao ser tocado
pela areia que o passo da montaria levantava no caminho. O esforço do
viajante era somente descer e apanhar a caça.
O registro nos dá a noção de como está desaparecendo,
predatoriamente abatida, a caça em nosso Estado. Nunca mais se teve noticia
da presença daquela espécie de tatú “bola”, assim como também vai
escasseando o chamado “verdadeiro’, somente ainda se encontrando o
“peba”. Outro episódio correlato: quando meus pais chegaram ‘em Assunção,
no inicio do século, o serrote denominado Torreão, assentado ao norte da
estrada de ferro a quase dois quilômetros ao poente de Baixa-Verde, era
coberto de luxuriante mata. Dali foram tiradas as madeiras empregadas na
construção de nossa grande casa de morada de “São João” e aproveitadas
depois para construção de duas grandes casas de morada quando nos
mudamos de Assunção para Baixa-Verde. Essas construções com essa madeira,
de lª qualidade, ainda existem, perfeitas e intactas. Contou-me mamãe que,
quando chegaram no inicio do século em Assunção, morava ao pé do Torreão
um velho caçador, usando sobretudo armadilhas para mocó e preá, no alto
desse serrote. Indo, certo dia, à caça ali, deparou-se com uma onça que vinha
roubando os mondés.1
Atualmente, o Torreão, é apenas um escalvado de pedras, cintilando,
em completa nudez vegetal, sob o brilho ofuscante do sol.

1
(1) Versão popular da palavra mundéu ou armadilha de caça.

106 | Baixa-Verde | Raízes da nossa história


Os pioneiros da penetração no Mato Grande antes mesmo dos
“Ingleses de Buraco Seco”, fracassados na tentativa da agricultura de algodão
na sua parte assim denominada, em virtude da excessiva argilosidade do solo
foram os Ribeiros de Paiva, donos daquele engenho “Morrinhos”, em Ceará-
Mirim, que segundo ouvi de mamãe abriram uma picada de penetração para
a parte denominada Serra Verde onde fizeram uma grande cultura de roça.
Nesse empreendimento teriam sido assistidos financeiramente através de
uma firma de Macaiba, de que fizera parte o Dr. Eloi de Sousa, depois elevado
a deputado e senador pelo Estado.
Alguns anos, porém, depois de fixada uma parada da Estrada de Ferro
e o nascimento de Baixa-Verde em torno dela como ponto de escoamento
comercial é que se iniciou o verdadeiro rush do desbravamento do Mato
Grande, além de Buraco Seco e Serra Verde, onde se encontravam terras
adequadas para algodão. Quase todos os comerciantes estabelecidos em
Baixa-Verde, além do comércio, se dedicaram também àquela aventura no
Mato Grande, sendo os primeiros e que mais amplamente se voltaram para
ela João Cãmara & Irmãos e Antônio Justino de Sousa, ambos com usina de
descaroçamento e enfardamento de algodão.
Firmas exportadoras de Natal facilitaram o financiamento dessa
agricultura, tal a fama de produtividade das terras que se iam desbravando e
os bons preços que o produto ia encontrando nos mercados compradores.
Foi uma verdadeira febre na expansão da agricultura dessa herbacea no Mato
Grande como se ele fosse, em verdade e efemeramente sucedeu, um filão,
mina inesgotável de ouro. Todos os homens de algum recurso ou iniciativa
residentes em Baixa-Verde e muitos também de fora voltaram suas ambições
de fazer fortuna rápida no apossamento de terras que se estendiam
interminavelmente quase até as praias do Norte.
Na relatividade da comparação, a penetração no Mato Grande
apresentou aquela característica de corridas que se hão sucedido a descobertas
de minas de ouro: de todos os recantos do Estado afluíram os mais ávidos de
riqueza na tentativa de adquirí-la rapidamente tal a fama de El Dourado
espalhada sobre a uberdade das terras, inteiramente à mercê de quem delas
se quisesse apossar, aliada aos compensadores preços do algodão, facilidade
de crédito e regularidade dos invernos. É que a única restrição nessa corrida
em busca do enriquecimento era o grau de própria ambição do aventureiro, no
tamanho ou extensão das picadas abertas na mata virgem para delimitar o
apossamento da terra, a que se seguia o desmatamento, e o plantio. Tudo sem

Baixa-Verde | Raízes da nossa história | 107


necessidade de fazer cercas, tal a distância dos centros de criação de qualquer
espécie de gado.
Todas as terras eram devolutas do Estado e somente muitos anos após
o primitivo apossamento é que começaram as respectivas legalizações
quando, esvaziado o capital de giro das firmas fornecedoras e compradoras
de algodão, passaram seus agricultores a necessitar de crédito agrícola junto
ao Banco do Brasil e posteriormente junto ao Banco do Nordeste.
Entre os primeiros desbravadores do Mato Grande, nessa primeira
fase, se podem enumerar: Antônio Justino de Sousa, com a maior área de
terras apossadas em diferentes localizações, e seu irmão José Justino de Sousa;
João Severiano da Câmara, por intermédio da firma João Câmara & Irmãos;
Antônio Severiano da Câmara; João Inácio de Melo; Francisco Inácio de Melo;
Pedro Pereira de Sousa; Manuel Teixeira e Joaquim das Virgens. Este último,
proprietário no Seridó, veio também aventurar-se num ponto distante, já perto
da praia, tanto que ficou sendo chamado de “Vae Quem Quer”. Somente
alguns anos depois desse rush é que meu pai iniciou sua agricultura também,
a exemplo dos outros, primeiro trabalhando no lugar “MAXIXE’, abandonado
porque o solo barrento se mostrou impróprio ao cultivo de algodão, para
fixar-se em definitivo, cerca de uma légua além do povoado de Queimadas,
no “LIMAO”, num sítio denominado “Baixa do Novilho”.
A relação acima é muito incompleta. Também habitantes da praia,
principalmente, de São Bento do Norte, tiveram suas vistas voltadas para a
agricultura no Mato Grande como João Ferreira da Rocha e Godofredo Alípio
Cacho ‘entre outros. Lembro aqui, também de memória os nomes dados às
propriedades estabelecidas: “Demonstração”; “Modelo”; “Palestina”; “Três
Irmãos”, “Terra Santa”; “Pereiros”; “Nazareth”; “Baixinha”; “Tubibal”; “Lagoa
de Pedra”, etc.
Entre tais denominações merece especial registro a de “Parazinho”
que nasceu com a presença no local, depois assim denominado, de Antônio
de Castro e seu irmão Joaquim de Castro, que ali desbravaram a mata com os
primeiros plantios de algodão no ano de 1923. Depois a IFOCS cavava o
primeiro poço artesiano do qual logo se apossou a firma João Câmara &
Irmãos, aparelhando-o e passando a vender-lhe a água como se fosse um
poço particular. Joaquim de Castro estabeleceu-se também ali, tornando-se
depois um grande negociante, o maior da localidade. Falecido já, seu irmão
Antônio de Castro vendeu tudo o que lá possuía e passou a morar nesta cidade
onde reside ainda agora, a rua Cel. Estevam, no Alecrim.

108 | Baixa-Verde | Raízes da nossa história


Através dele, esta versão do inicio de Parazinho, como se verifica, um
pouco diferente daquela contada por Câmara Cascudo (Nomes da Terra, edição
da Fundação José Augusto, 1968, pág. 224).
Essa propriedade “Parazinho’, quando a firma João Câmara & Irmãos,
já então João Câmara Indústria e Comércio S.A., faliu, na década de 50, depois
do falecimento de seu fundador João Severiano da Câmara – (1895-1948)
foi, juntamente com mais outras 33 propriedades rurais, além dos imóveis
urbanos e instalações industriais, adjudicadas ao Banco do Brasil, por uma
divida de cerca de 250 mil cruzeiros velhos, divida insignificante em relação
ao imenso patrimônio arrecadado como massa falida. E sua triste legenda
continuou, num fadário, numa destinação de invalidade fatalística, quando,
demagogicamente, o ex-Governador Aluízio Alves, para puro efeito de
captação de votos para o candidato ao Governo do Estado, Monsenhor
Walfredo Gurgel, afinal eleito, as desapropriou para uma farsa de distribuição
de terra. Essa distribuição nunca chegou a se efetivar e a propriedade
“Parazinho”, abandonada como todas as demais, é hoje, apenas uma capoeira
escampada. O passante que a contemplou muitos anos antes, quando
cultivada numa extensão a perder de vista e lhe conhece a história, ao
defrontá-la agora, escalvada e nua, desaparecidos os campos cobertos de
algodoais, marginando por quilômetros a estrada, maquinalmente, revê, em
imaginação a antiga prosperidade e as dissipadas ambições de enriquecimento
de que ela era o símbolo mais acabado, no egoísmo mesquinho de sua
exploração e não pode deixar de sensibilizar-se com essa visível demonstração
do passageiro, do efêmero das vaidades e grandezas humanas.
O problema do abastecimento d’água no Mato Grande continua ainda
insolúvel. O solo calcáreo e poroso, em geral plano, não permite a construção
de açudes ou barragens, que, mesmo de pequeno porte, enchendo, possam
retê-la por um ou dois anos. As tentativas de tais barragens, em raras
localizações apropriadas, resultaram infrutíferas: cheias numa tarde de chuva
forte, no outro dia se apresentam esvaziadas quase subitamente, pois as águas
represadas se somem, engolidas como por encanto no solo permeável.
Acessíveis a cacimbas, apenas as faixas lindeiras até alguns quilômetros da
praia e ao longo do leito do Riacho Seco, com desembocadura no olhe ir o de
Pureza. Todo o restante somente poderá ser abastecido pela perfuração de
poços tubulares. Estes, porém, da qualidade até agora abertos e aparelhados
com moinhos de vento ou compressores, se demonstraram anti-econômico
pelo custo da conservação e o alto preço de compressores e sua manutenção.

Baixa-Verde | Raízes da nossa história | 109


Se os dirigentes de nossas repartições federais agissem neste Estado
patrioticamente, há muito haviam alertado as autoridades responsáveis para a
solução do problema com poços profundos que jorrem a água espontaneamente.
É que há alguns anos, o Ministério de Minas e Energia perfurou alguns poços
profundos no Mato Grande e um deles com cerca de 350 metros, jorrou água.
Inexplicavelmente porém foi cimentado, quando seria uma riqueza incalculável a
perfuração de muitos desses poços profundos, porque para as terras ali falta
apenas a água que as tornaria as mais férteis do Estado.
A abertura dos primeiros poços tubulares no Mato Grande como já
se viu, foi obra da antiga Inspetoria Federal de Obras Contra as Secas, todos
aparelhados com moinhos de vento. Um dos primeiros se localizou no
“Lageado” cerca de 9 quilômetros de Baixa-Verde, no sopé da Serra Verde e
à margem da antiga estrada que ligava Assunção à praia de São Bento do
Norte.
Na administração Juvenal Lamartine, logo após a criação do município
de Baixa-Verde, pela Lei n. 697, de 29 de outubro de 1928, e instalado a 1º de
janeiro de 1929, a firma João Câmara & Irmãos, cujo chefe João Severiano da
Câmara, foi o primeiro Prefeito, foi autorizada, pessoalmente, pelo governador
Juvenal Lamartine a financiar a abertura de poços tubulares no Mato Grande.
Essa autorização importava também na “localização” dos poços abertos, o
que, como era óbvio, se orientou no sentido de fixá-los onde mais premente
se fazia sentir a necessidade d’água, com aquela exceção já mencionada de
“Parazinho”, poço anteriormente aberto pela I.F.O.C.S. e apossado pela firma
João Câmara & Irmãos que continuou isolado das novas perfurações para lhe
manter a freguesia necessitada.
Esse afastamento de “Parazinho’ para abertura de qualquer poço a
menos de alguns quilômetros se deveu àquela circunstância de haver o poço
local, perfurado pelo Governo Federal, sido apossado pela firma João Câmara
& Irmãos, que passou a vender a água ao preço de um cruzado (quatrocentos
réis) a lata, com uma saída diária de cerca de 500 latas. Era um grande negócio,
uma fonte de lucros indevidos, que continuou, dado o prestigio do homem
como era então conhecido João Severiano da Câmara, segundo Câmara
Cascudo, até que, na interventoria Mario Câmara (2-8-1933-27-11-35) Alfredo
Edeltrudes de Sousa, indo a Parazinho, mandou retirar o cadeado que fechava
o acesso ao poço, de modo que o abastecimento passasse a ser gratuito para
todos. E de então até hoje não mais foi vendida a água do poço de Parazinho.

110 | Baixa-Verde | Raízes da nossa história


AINDA UM POUCO DE BAIXA-VERDE
Entre 1920 e 1930 Baixa-Verde era procurado como local para
temporadas de inverno, assim como para restabelecimento dos
convalescentes de tuberculose. De Natal para ali afluíam, nos meses de maio
e junho, famílias inteiras para usufruir o bom clima e a alimentação própria
do inverno.
Entre essas famílias se contava a de Cirineu de Vasconcelos, com a
figura destacada de João Cirineu de Vasconcelos (Babois) já fixada por Câmara
Cascudo em linhas rápidas, mas vivas. (O Tempo e Eu, págs. 154/155). Era
uma bela inteligência, uma personalidade insinuante e característica. Por sua
iniciativa bebi certa manhã, à volta de nossa caçada de marrecas, numa lagoa
então existente ao pé do Torreão, o primeiro cálice de cachaça, de um sabor
jamais esquecido. João Cirineu de Vasconcelos sempre me impressionou o
espírito pela excentricidade de suas manifestações como amante de literatura
e poeta com sólida cultura bebida através de muitos idiomas que, sem alarde,
conhecia perfeitamente.
Era assim Baixa-Verde um dos recantos do Estado procurados por
aqueles sedentos de repouso ou convalescentes, pelo clima e a alimentação:
o leite puro, as numerosas frutas, o milho verde, a carne de sol e ainda o
encanto primaveril de suas manhãs de inverno, translúcidas e enevoadas.
Uma restrição logo se verificou: os doentes do pulmão ali não
encontravam melhoras e muitos sucumbiram sob a agonia de sucessivas
hemoptises.
Entendo que esse estimulo climático à peste branca se deve levar à
conta da umidade do clima, ao excesso dessa umidade nos meses invernosos.
As demarches políticas que antecederam à criação do município de Baixa-
Verde, com partes dos territórios de Touros, Taipú, Lajes e Macau assumiram
aspectos interessantes.
No que concerne aos desmembramentos de Taipú, Touros e Lajes
não houve empecilho, pois em tais comunas nenhum líder político se opôs.
Em Touros, por exemplo, havia como chefe político o Cel. Joel Cristino,
morador em Pureza e cujo prestígio junto à situação estadual era um reflexo
de suas relações íntimas com João Severiano da Câmara. Porém, em relação
à incorporação do povoado de Galinhos, - hoje transformado em município,
que pertencia a Macau, houve cerrada oposição do Dr. Armando China, (28-

Baixa-Verde | Raízes da nossa história | 111


1-1891 – 25-5-1969), líder deste último município e figura prestigiosa do
partido situacionista, de modo que a respectiva Câmara Municipal vetou o
desmembramento e foi levantada então a tese da impossibilidade do mesmo,
sem a autorização da Câmara. Houve discussões pol1tícas e jurídicas, mas
terminou por triunfar o prestígio de João Câmara e a Assembléia Estadual
aprovou a criação do novo município de que passou a fazer parte o longínquo
povoado de Galinhos.

112 | Baixa-Verde | Raízes da nossa história


BIOGRAFIA - PAULO ALEXANDRE DA SILVA
Paulo Alexandre da Silva
(conhecido como Paulo Branco),
nasceu em Baixa-Verde no dia 10 de
julho de 1943, sendo um dos onze
filhos de Luzia Ramos da Silva e Joel
Alexandre. Paulo Alexandre casou
com a senhora Maria Leonor da
Silva, com quem teve três filhos:
Paulo Henrique Alexandre,
Eleonora Maria Alexandre e Pedro
Augusto.

Bacharel em Ciências
Contábeis pela UFRN no ano de
1979. Foi um apaixonado pela
carreira escolhida, se tornando
professor da UFRN e da
Universidade Potiguar – UNP, onde
foi diretor do curso de Ciências
Contábeis.

Durante sua vida profissional foi um contabilista atuante, sendo eleito


presidente do Conselho de Contabilidade do estado do Rio Grande do Norte.
Exerceu sua profissão até às vésperas do seu falecimento no dia 23 de outubro
de 2003.

Em 2002 escreveu o livro BAIXA-VERDE – ONTEM, HOJE E AMANHÃ,


importante obra em que relata fatos que chegaram ao seu conhecimento
por informações de antigos moradores, amigos e familiares, bem como fruto
de pesquisas que empreendeu junto a órgãos oficiais.

Baixa-Verde | Raízes da nossa história | 113


114 | Baixa-Verde | Raízes da nossa história
CAPITULO I
FORMAÇÃO INICIAL DO
AGLOMERADO DE MATAS
O lugar denominado de MATAS era uma região desabitada, coberta
por vegetação densa, encravada onde se situa toda a parte que margeia a
linha férrea atual, iniciando-se, possivelmente, no lugar onde foi situado o
antigo AÇUDINHO, no sentido oeste para leste, passando por onde hoje está
o Grupo Escolar Capitão José da Penha, até o final da fábrica de óleo da firma
João Câmara Ind. e Com. S/A.
Seus primeiros povoadores foram também os primeiros trabalhadores
(corsacos) do escalão precursor para os serviços iniciais destinados à passagem
da linha férrea que demandava da sede do município Taipu com destino ao
Sertão Central do Estado.
Com o surgimento desses trabalhadores, foram se juntando outras
pessoas de várias partes do Estado do Rio Grande do Norte e, principalmente,
das sedes e zonas rurais dos municípios de Taipu, Lajes e Touros, que atraídas
pelo comércio ambulante e no afã da prestação de pequenos serviços àqueles
forasteiros, tais como fornecimento de alimentação, lavagem de roupas e
outros pequenos serviços, foram se fixando em redor daquele aglomerado,
todas de origem pobre e, posteriormente, outras mais abastadas com o
objetivo de exploração comercial fixa naquele povoado.
Há também registro de que parte desses corsacos era de ex-marujos,
que na opinião do Dês. João Maria Furtado, “quando da rebelião chamada
Ilha das Cobras, no Rio de Janeiro, foram expulsos da marinha os marujos
nela implicados e grande leva destes veio trabalhar como corsacos na
construção da Estrada de Ferro Central do Rio Grande do Norte” (Vertentes -
João Maria Furtado - Editora, edição 1976). Portanto, o povoado MATAS foi,
basicamente, formado por dois tipos de povoadores. O primeiro foi constituído
por trabalhadores agregados na construção da linha férrea que tiveram as
mais diversas procedências, inclusive ex-marujos entre 1905 e 1915. O outro

Baixa-Verde | Raízes da nossa história | 115


grupo era constituído de trabalhadores rurais ou pequenos negociantes
advindos das sedes e zonas rurais dos municípios de Ceará-Mirim, Taipu,
Touros e Lajes, que para prestarem pequenos serviços aos trabalhadores na
linha férrea, emigraram para o povoado em formação e foram, aos poucos,
construindo barracos e pequenos casebres de palha e madeira, abundantes
na região, em redor da futura Estação de Trem, que foi o marco inicial da
formação do povoado MATAS.

116 | Baixa-Verde | Raízes da nossa história


PRIMEIRA FASE DE
DESENVOLVIMENTO DE “MATAS”
A pequena aglomeração inicial, composta de pessoas das mais
diversas procedências, serviu inicialmente de ponto de apoio logístico para
os construtores da Estrada de Ferro Central do Rio Grande do Norte. A linha
férrea, ali chegando, teria sua continuidade em direção a Lajes, como de fato
aconteceu, ficando, portanto, o povoado de Matas, como ponto de pernoite
e descanso dos trabalhadores que adentravam com os serviços preliminares
tais como “roço” “desmatamento”, “topografia” e outros serviços em direção
ao ponto traçado que era a cidade de Lajes. É de ressaltar que em vista de
não haver, na pequena aglomeração, habitações suficientes para a demanda
do grande número de pessoas que trabalhavam direta ou indiretamente na
linha férrea, os empregados mais graduados que prestavam serviços
burocráticos e afins, usavam como moradia provisória, vagões de trem,
quando a linha férrea já chegara ao povoado. É o caso da família do nosso
primeiro historiador e musicista Gumercindo Saraiva (02.06.15 - 22.05.89),
que teria nascido dentro de um vagão de trem, uma vez que seus pais
utilizavam aquele móvel como moradia provisória. Os habitantes de destaque
no povoado nessa fase inicial de povoamento, eram, naturalmente, os técnicos
e burocráticos da Estrada de Ferro, não havendo nesse início evidência de
outras pessoas de projeção da própria região. Das pessoas de destaque, que
se tenham notícias, como não poderia deixar de ser, somente a pessoa do
engenheiro Dr. António Proença, figura central dentro do contexto do
desenvolvimento do futuro município de Baixa-Verde.
O Dr. António Proença, segundo relato colhido de pessoas mais antigas
e, posteriormente, confirmado pelo médico José Severiano da Câmara Filho,
que visitou em certa ocasião seus descendentes no interior do Estado de
Minas Gerais, era mineiro de nascimento, engenheiro, e sócio com um outro
seu irmão, João Proença, da firma “Gouveia & Companhia, (companhia de
viação e construção), que logo ali se estabeleceram, fazendo suas casas
residenciais mais ou menos confortáveis. (NESTOR LIMA Coleção Mossoroense
- Série C- Volume DXCVI - vol. 27/28 - edição 1937). João Proença não teve
muita participação na vida social da pequena povoação, haja vista, que só o
Dr. Antônio aparece nos relatos da época. É de se supor que o irmão não

Baixa-Verde | Raízes da nossa história | 117


tivesse residência fixa no povoado. O Dr. Antônio Proença adaptou-se muito
bem às condições locais e passou a liderar a pequena sociedade, por duas
razões: na condição de chefe nos trabalhos da construção da linha férrea e
por tratar-se do único elemento de nível superior naqueles sertões. Tendo
sob o eu comando a própria economia do vilarejo, que dependia unicamente
da construção da linha férrea, passou aquele senhor a ser o elemento
catalisador das atenções sociais, não só dos trabalhadores a ele subordinados,
mas também de pequenos comerciantes, pequenos proprietários rurais e
outros trabalhadores avulsos que emigravam em busca de trabalho no lugar.
Na condição de contratado, deu início as primeiras obras físicas para a
formação da infra-estrutura da Estrada de Ferro Central do Rio Grande do
Norte no futuro município, construindo a estação de trem, a caixa d’água
para abastecimento das locomotivas, a margens da linha férrea com
aproveitamento dos desníveis da linha, de pequenos açudes destinados ao
abastecimento das máquinas e da pequena população local.. Das obras,
merecem destaques dois pequenos açudes, ao sul da linha férrea, Açude dos
Caboclos e Açude das Carrapateiras e, a oeste, Açude Grande e Açude do
Torreão e ainda um açude vizinho à estação no povoado Açudinho, aterrado
na década de 70, com o crescimento da cidade. Os outros citados inicialmente
ainda estão em serventia.

118 | Baixa-Verde | Raízes da nossa história


SEGUNDA FASE DE
DESENVOLVIMENTO DE “MATAS”
Nesta segunda fase de desenvolvimento, apareceram as outras
famílias advindas das cidades e povoados dos municípios de Ceará Mirim,
Taipu, Touros e Lajes, que com o contingente de outros municípios do Estado
e quiçá de outros Estados, principalmente, do Estado da Paraíba, deram a
formação populacional do futuro município.
Dentro desse contexto de imigração para MATAS, foram surgindo os
pequenos comerciantes com estabelecimento fixo no nascente povoado,
alguns agricultores e pequenos criadores que vieram se fixar no povoado
com suas famílias, exercendo todavia, suas atividades agropecuárias, nas
fazendas circunvizinhas do Mato Grande, Serra Verde, Cauassu e região
marginais do Rio Ceará-Mirim.
Conclui-se que a formação populacional desse pequeno povoado e
futuro município de Baixa-Verde, deve-se simultaneamente aos seguintes
fatores: a) a passagem da então linha férrea, pertencente à Estrada de Ferro
Central do Rio Grande do Norte, que tinha o seu destino final na cidade de
Lajes e com o projeto de demandar até ao Seridó, trazendo, por conseqüência,
os benefícios para uma região desabitada que, com pouco tempo, tomou-se
um pequeno pólo natural de comércio e agricultura; b) A localização
geográfica, compreendida pela Serra Verde e Mato Grande, era, praticamente,
despovoada do elemento humano. Em algumas pequenas propriedades
vizinhas à região costeira, entre Touros e Galinhos, essa última uma
insignificante vila de pescadores, era praticada a agricultura de subsistência
de milho, feijão e mandioca, cujos excedentes eram vendidos ou, muitas vezes,
trocados por peixes salgados ao longo do litoral, principalmente na costa dos
hoje municípios de São Bento do Norte e Caiçara. Por conta desse isolamento,
começou o deslocamento dessas famílias com destino ao nascente povoado
de Matas, pelos inúmeros benefícios que essas imigrações proporcionavam.
Entre outros, foi sem dúvida nenhuma, a facilidade e a comodidade para os
deslocamentos para a capital do Estado e outros municípios, um dos benefícios
da linha férrea.
Em razão do conjunto desses fatores, começaram a surgir na
comunidade de Matas, as primeiras famílias advindas das fazendas e dos

Baixa-Verde | Raízes da nossa história | 119


povoados mais distantes dos municípios de Touros, Taipu, Ceará-Mirim, Lajes
etc. As comunidades, cujos habitantes imigraram para Matas foram diversas,
entretanto merecem menção Assunção, Cauassu e Passagem do Meio, dentro
do município de Taipu e outra pertencentes ao município de Touro , tais como
Boa Cica, Cana Brava, etc.
O povoado de Assunção foi, sem dúvida, o que mais contribuiu para
formar o então povoado de Matas (futura cidade de Baixa-Verde), por uma
razão lógica. Era esse vizinho, praticamente, do local do primeiro
acampamento de trabalhadores (corsacos), que se deslocavam como escalão
percussor no desmatamento e alinhamento topográfico para o traçado e
montagem dos trilhos da linha férrea.
Em linha reta do local desse acampamento (estação atual da REFESA),
para o povoado de Assunção, são mais ou menos três quilômetros, havendo,
por conta dessa vizinhança, o deslocamento de pessoas a princípio indo e
voltando e, posteriormente, fixando-se no próprio núcleo recém-formado
pelas condições e benefícios oferecidos para aqueles que imigrassem primeiro.
Foram, portanto, os habitantes de Assunção, os primeiros a correr em busca
de fixação na nova comunidade, cujas famílias construíram moradias originais,
principalmente, os menos abastados em busca de trabalho e, posteriormente,
os pequenos negociantes que foram se estabelecendo na povoação.
Conforme o Des. João Maria Furtado (09.07.1903 – 04.02.1996),
nascido em Assunção e, lá, vivido sua infância este pequeno núcleo
habitacional, no início do século XX, já apresentava um estágio econômico
bastante desenvolvido, haja vista que possuía comércio regular, com
comerciantes estabelecidos e uma pequena feira semanal. Assunção era um
florescente aglomerado humano, com bastante comércio. “Havia até uma
bulandeira para descaroçamento de algodão do velho Joaquim Câmara. “
VERTENTES - João Maria Furtado - Gráfica Olímpica Editora Ltda. - edição
1976.
Assunção tinha vida própria, com pessoas de destaque econômico e
social, que mais tarde seriam reconhecidas pelos papéis que desempenharam
na formação inicial de Matas.
Entre essas famílias que residiam e tinham negócios naquele povoado
de Assunção, pode-se mencionar as famílias de Alfredo Edeltrudes de Sousa,
de Joaquim Câmara e de João Batista Furtado, este último, pai do Des. João
Maria Furtado, in memoriam. Pela pequena distância entre Assunção e Matas,
à medida que este último foi se tomando mais adensado de população fixa, e

120 | Baixa-Verde | Raízes da nossa história


flutuante de vários outros lugares, compostas de pessoas aptas a prestarem
pequenos serviços aos forasteiros, ia-se formando um povoado organizado.
O primeiro foi se esvaziando, tomando-se um pequeno centro imigratório
para a nascente Matas, fato que motivou, gradativamente, um declínio do
comércio e vida social de Assunção e, conseqüentemente, diminuição da sua
população.
Com essa mudança, o processo foi invertido e o povoado de Assunção,
brevemente, seria totalmente dependente de Matas e, mais tarde, com o
crescimento e emancipação dessa, tomou-se apenas um bairro da cidade de
Baixa-Verde, cujo nome primitivo também foi chamado pelos mais velhos de
Baixa-Verde Velha. O projeto original, concebido pelo Eng. Antônio Proença,
ao traçar a primeira avenida da futura cidade de Baixa-Verde (merecidamente
denominada de Av. Dr. Antônio Proença), essa se iniciava às margens da linha
férrea, a leste da estação do trem, terminando dentro do povoado de
Assunção, exatamente, em frente a sua centenária capelinha.
Inexplicavelmente, essa foi destruída sob a complacência e aleiamento
estúpido de quem por dever, teria a obrigação de preservar, para dar margem
à passagem de uma estrada, como se não houvesse recurso técnico para
desviar cinco metros para um lado ou outro, evitando-se destruir um pequeno
monumento que foi, naturalmente, o primeiro marco histórico construí do
naquelas paragens, e que simplesmente foi destruída por tratores em nome
da modernidade.
Ainda sobre o declínio do povoado de Assunção, em favor de Matas,
o ilustre Des. João Maria Furtado, levado pelo sentimento de grandeza próprio
daqueles que guardam ainda no mundo de hoje as recordações puras de uma
infância vivida no meio rural e por amor a sua terra natal, argumenta que lia
rota da futura Estrada de Ferro teria sido mudada de traçado, prejudicando
Assunção e em conseqüência o seu declínio econômico e social e que a forma
de penetração de mercadorias destinadas aos comerciantes do interior
continuou até que os trilhos da Estrada de Ferro, hoje Sampaio Correia. Se
prolongassem suficientemente para o interior. E quando assim aconteceu em
relação a Assunção, o traçado da linha, inexplicavelmente, passou a cerca de
três quilômetros deste povoado, no lugar denominado de Mata. O
acontecimento marcou o declínio um tanto lento, mas irreversível, de
Assunção”.
Povoado de Cauassu - Também como Assunção, sua história perde-
se no tempo. Em vista da escassez de fonte de pesquisa, tivemos que recorrer

Baixa-Verde | Raízes da nossa história | 121


à memória daqueles mais antigos, que foram ou são descendentes dos seus
primeiros moradores.
Está o povoado de Cauassu localizado a poucos quilômetros ao Norte
da parada (estação) de Cardoso da linha férrea (atual REFESA). Têm-se notícias
que já no século XIX, havia fazendas de gado na região, de fazendeiros e
comerciantes da capital do Estado e cidades como Ceará Mirim, Macaíba etc.
Pertencia, originalmente, ao município de Jardim de Angicos. Com a elevação
de Baixa-Verde a município, que ficou fazendo parte de Lajes.
No povoado de Cauassu teve procedimento idêntico em relação às
imigrações ali ocorridas pela passagem da linha férrea. Muitas famílias imigram
de Assunção para Cauassu. Desta feita a família Joaquim Câmara transferiu
seu descaroçador de algodão e foi residir naquele povoado, vizinho à estação
de Cardoso, talvez motivado pela sua visão e tirocínio comercial, em
deslumbrar que seus interesses econômicos tinham que estar mai próximos
da linha férrea. Foi o que aconteceu.
Aos poucos, algumas famílias foram residir nas imediações da estação
de Cardoso, advindas de Cauassu, como a família Câmara do ramo dos
ascendentes do Sr. Cândido Barbosa, in memoriam, motivada pelos inúmeros
benefícios econômicos, pela facilidades de e coamento da produção do
algodão e, principalmente, pela criação de gado bovino. Matas (Baixa-Verde),
por ter sido beneficiada em primeiro lugar pela linha férrea, desenvolveu
atividades múltiplas e cresceu econômica e socialmente, enquanto Cardoso
ficou estagnado até os dias de hoje. Servia apena como parada obrigatória
dos trens que por ali passavam, para embarque e desembarque de pessoas
e/ou produtos destinados à população circunvizinha de Cauassu.
As famílias “troncos” que habitaram e tiveram atividades econômicas
em Cauassu foram: os Câmaras, descendentes do velho Joaquim Câmara,
parente dos outros Câmaras que imigraram do município de Taipu; a família
Guedes, formada talvez de uma segunda geração que este autor teve o prazer
de conhecer, e conviver com os Srs. Francisco Guedes (Sr. Chico Guedes), João
e José Guedes, todos falecidos, que teem uma história rica e comovente. Aqueles
três irmãos ficaram órfãos e com dignidade e honestidade, fizeram suas vidas
como agricultores e pecuaristas, tendo o respeito merecido de seus
conterrâneos. Também eram parentes consangüíneos dos Câmaras, a família
França, oriunda da região litorânea do município de Touros, que a princípio
imigrou para Cauassu e, posteriormente, para Baixa-Verde (sede do município).
Entre as pessoas dessa família que continuaram morando em Cauassu até sua

122 | Baixa-Verde | Raízes da nossa história


morte, citamos o nosso velho e querido Sr. Deca França que constituiu uma
família honrada à custa de seu sacrifício pessoal na condição de agricultor e
pequeno criador no município. Quanto à tese do Des. João Maria Furtado de
que houve desvio do traçado da linha férrea, concebido inicialmente,
prejudicando Assunção, nossa opinião diverge da dele, apesar do respeito que
temos por aquele ilustre conterrâneo e reconhecer o seu conceito de intelectual
e do grande valor que representa para o seu município. Cada leitor tem sua
opinião formada sob as contingências que os planejadores da época fizeram ao
tomar aquela atitude.
O planejamento e projeto dos Governos Federal e Estadual era de dotar
o Estado do Rio Grande do Norte, de dois segmentos básicos para a linha férrea.
Uma entrando no Rio Grande do Norte pela região agreste, no município de
Nova Cruz, demandando para a Capital e outro segmento partindo da Capital
do Estado com destino ao Sertão Central até a cidade de Lajes. Naquela cidade
haveria dois ramais, um para o Norte até a região salineira do Estado (Macau)
e o outro no sentido oeste, beirando os contrafortes da Serra de Santana,
passando pelas cidades de Cerro Corá e/ou possivelmente São Rafael e Jucurutu,
tendo como destino final a cidade de Caicó. O objetivo maior seria o escoamento
da produção algodoeira e de gado bovino abundante no Seridó. Por motivos
técnicos ficaria muito oneroso para o governo construir a linha férrea partindo
de Natal para Caicó pelo sul, por conta das regiões montanhosas da Serra do
Doutor. Daí a denominação, inicialmente, de Estrada de Ferro Central do Rio
Grande do Norte. Este autor ainda conheceu e acredita que ainda exista, nas
cercanias da cidade de Cerro Corá algumas pontes e escavações subterrâneas,
e em São Rafael, demandando a Jucurutu, cortes e elevações para a passagem
da futura linha férrea. Inexplicavelmente, a estrada só chegou pelo lado oeste
até São Rafael, assim mesmo já foi totalmente desativada.
Verifica-se que o traçado atual da linha férrea partindo da cidade de
Taipu é no sentido de uma linha reta para a cidade de Lajes, passando
naturalmente pelo local atual da Estação de Trem de Baixa-Verde. Ora se
havia um projeto traçado para a linha férrea Natal/Lajes, por uma razão lógica
a linha férrea só poderia passar por Matas e nunca mais ao Norte, no sentido
do povoado de Assunção e que daquele povoado em linha reta, demandaria
a locais sem aglomeração humana na Serra Verde e Mato Grande, indo ter
aglomerado humano somente no litoral, não existindo razão para daí
contornar para a região central, muitos quilômetros ao oeste.
Ainda com referência ao povoado de Assunção, merecem ser

Baixa-Verde | Raízes da nossa história | 123


mencionados, os sítios e fazendas vizinhos àquela comunidade, todos
espalhados a leste e ul do me mo e denominados de Matão. Cada sítio desse
tem um nome comum, talvez em homenagem a primeiros grupos que para
ali chegaram, constituíram famílias, e praticaram uma agricultura familiar,
baseada na cultura de mandioca, na fruticultura de coco da Bahia e caju.
Eram e são ainda chamados de Matão dos Guidosas, dos Barbosa, dos Libórios,
de Jó, de João Joaquim, e outros. Esses dois primeiros, com o avanço da cidade
rumo ao Norte e leste, são bairro da mesma e os dois últimos, um pouco
mais afastados da cidade, ainda conservam grande parte de suas
características originais. Matão de Jó, denominado por ser seu proprietário o
Sr. Jó, genitor do comerciante Artur Ferreira da Soledade (13.12.1907/
26.03.1984). e Matão de João Joaquim, que pertenceu ao patriarca João
Joaquim, genitor de Dedé de João Joaquim e de Paulo, que fora um dos
primeiros seminaristas da cidade. Deixando o seminário, casou em Natal e
trabalhou muitos anos na Cooperativa de Crédito de Natal (Cooperativa do
Prof. Ulisses de Góis).
O povoado de Cauassu de clima seco, porém saudável, serviu,
excelentemente, para a criação de pecuária de corte, que ali floresceu bastante
graças ao clima propício e a proximidade com a estação de trem em Cardoso,
que escoava essa produção para Natal e cidades margeadas pela linha férrea.
Além da pecuária de corte, a cultura do algodão se desenvolveu bastante,
principalmente pela família Joaquim Câmara (o velho), que possuía
curiosamente no outro povoado Assunção uma bulandeira, para
descaroçamento do algodão, o que prova o fato do intercâmbio entre esses
dois lugarejos, antes da passagem da linha férrea.. Portanto há indícios lógico
existem de deslocamento de algumas famílias de Assunção para Cauassu,
como já foi dito, principalmente aquelas que exerciam atividades de pecuária
e agricultura de algodão. A associação dessas duas atividades econômicas
em pleno sertão em detrimento do povoado de Assunção, ajudou Cauassu a
manter esses dois segmentos até hoje, como melhor e presta para aquelas
atividades.
Por desenvolver pecuária e cultura de algodão de maior resistência
aos climas quentes, foram surgindo em seu redor, criadores e plantadores de
algodão de fibra média e longa (algodão sertão e seridó) respectivamente.
Assunção não poderia oferecer, por está localizada a contra forte da Serra Verde,
onde predominam terras mais de arisco, mais propícias ao cultivo de agricultura
de subsistência, de mandioca e feijão, condições essas, que aliadas à visão

124 | Baixa-Verde | Raízes da nossa história


comercial, fez o Sr. Joaquim Câmara, relocalizar seu descaroçador (bulandeira)
para Cauassu, transferindo-se juntamente com a toda sua família.
Em virtude de um clima típico de sertão, Cauassu e suas vizinhanças,
eram constantemente visitadas, principalmente, nos períodos de inverno, por
famílias que moravam na cidade de Natal e outras circunvizinhas e possuíam
fazendas de criação. Estas se deslocavam para passar a estação chuvosa em
clima mais seco e sadio do sertão, numa preocupação natural daquela época
de não contrair doença pulmonar e consequentemente a tuberculose, doença
fatal naquele tempo. Essas invernadas eram constantes em todo o Sertão do
Rio Grande do Norte.
Todavia, o que se tem digno de registro no povoado de Cauassu, e
veio dá alavancagem econômica ao pequeno lugarejo, foi a transferência da
família Joaquim Câmara, vindo de Assunção. Em função dessa transferência
o lugar passou a ter praticamente vida própria, dentro das condições da época.
Ao finalizarmos essas considerações sobre o povoado de Cauassu,
temos o seguinte tese: MATAS chegou a um estágio de desenvolvimento que
justificou a sua elevação a sede de município, graças à linha férrea ter passado
antes lá que em Cardo o. Sem sombra de dúvida, a visão empresarial do velho
Joaquim Câmara, quando se transferiu para Cauassu, vislumbrou a
possibilidade de Cauassu ou Cardoso num futuro bem próximo alcançar um
estágio tal qual o de Matas, num processo idêntico de emigração e imigração
ou seja Assunção para Matas, e Cauassu para Cardoso.
Povoado de Passagem do Meio - Região localizada no lado ocidental
das margens do Rio Ceará-Mirim, a 20 quilômetros aproximadamente do
antigo povoado de Matas, limitando-se ao sul pelo lugar denominado
Gangorra no município de Bento Fernandes; a leste pelo município de Poço
Branco. Em sua frente mais ao Norte, já dentro do município de Baixa-Verde,
é de tacada uma elevação de pedra denominada de “Serra da Cotia”. Essa
localidade teve uma importância fundamental no tocante à imigração humana
de sua antiga população para o nascente povoado de Matas, que teve outrora
um certo destaque econômico no contexto do outros antigos povoados
vizinhos de uma margem a outra do Rio Ceará- Mirim, principalmente
Gangorra, Quitureré, Pousa, Santa Cruz, Cravo, Contador etc. Hoje grande
parte desses sítios, fazendas ou lugarejos estão submersos nas águas da
represa do Rio Ceará-Mirim, no município de Poço Branco. Fora alguns relatos
verbais de antigos moradores, nada restou para uma pesquisa mais acurada
em relação àquela localidade. Hoje, a ex- comunidade de Passagem do Meio

Baixa-Verde | Raízes da nossa história | 125


está praticamente extinta, dado a imigração dos seus antigos moradores para
a sede do município e outros circunvizinhos de Bento Fernandes, Poço Branco,
Taipu e Ceará-Mirim.
Consoante registros verbais dos mais velhos naquela região,
sobretudo de dados colhidos da genitora deste autor, Luzia Ramos de Araújo
(já falecida) e da colaboração indispensável da sua prima a Sra. Ivone Torquato,
as antigas famílias, que ali viveram e constituíram os primeiros povoamentos,
foram os Inácio e Torquato, sendo dessa última que ela descende, tendo como
tronco familiar o velho Torquato Teixeira que casado em primeiras núpcias
teve os filhos Pedro (29.06.1884/05.07.1970) José, Maria Joana e Francisca
Torquato, todos nascidos, no lugar denominado “Quitureré” às margens sul
do Rio Ceará Mirim, dentro do território do hoje município de Bento
Fernandes, vizinho ao lugar “Passagem do Meio”, sendo o velho patriarca
“Torquato Teixeira” possivelmente oriundo do Seridó, pelas seguintes razões:
seu biofísico e outros caracteres físicos adiante comentados, o sobrenome
“Araújo” que possivelmente, foi trazido pela sua filha Maria Ramos de Araújo,
genitora de Luzia Ramos de Araújo, genitora do autor, que traz esse, até seu
casamento oficial. Segundo minha velha mãe gostava de me contar, o velho
patriarca, a quem ela chamava de “padrinho Torquato, tinha um
temperamento muito forte, era um homem de estatura baixa, branco e olhos
azuis e daqueles que não levavam desaforo para casa, fosse de quem quer
que fosse. Além de agricultor e criador, tinha como quebra galho, a profissão
de pedreiro/construtor e nessa condição teria construído ou contratado a
obra de construção da igreja ou da sua torre, da cidade de Taipu, e como era
conhecido no lugar, teria tido uma divergência com o genitor de João Câmara,
em plena feira da pequena cidade, indo as vias de fato. Os dois contendores
se valeram para se defender um do outro, de uma ruma de coco seco de um
feirante local. Durante a guerra do coco seco, os dois não se molestaram na
contenda graças aos cocos, e se presume que indenizaram o pobre vendedor
da mercadoria utilizada na briga que deve ter sido hilariante.
Assim como Assunção, Passagem do Meio tinha independência
econômica, possuindo aglomerado humano, que labutava na agricultura de
subsistência de milho, feijão, batata doce e o cultivo de algodão.
Semanalmente havia um pequeno aglomerado, para trocas e outros
intercâmbios rudimentares, tão típicos da época, ou seja, um embrião de
uma feira, em redor do armado primitivo, tendo como personagem principal,
a figura do misto comerciante/industrial, nos molde daquele tempo, o velho

126 | Baixa-Verde | Raízes da nossa história


João Inácio, o qual além de agricultor e comerciante, era proprietário também
de um descaroçador de algodão bulandeira - instrumento arcaico. André
Rebouças, em viagem pelo centro da Paraíba em dezembro de 1864, que
teve a ocasião de presenciar o funcionamento de um destes aparelhos
existentes ainda no Brejo d’Areia, é da opinião que foram estas máquina de
cilindros as primeiras introduzida no Brasil, provavelmente por viajantes
portugueses que tinham visto funcionar a churka indiana. Eram estes
engenhos arranjados com dois cilindros dispostos horizontalmente e tangidos
a mão com auxilio de uma manivela. (Joaquim Ignácio de Carvalho Filho O
Rio Grande do Norte em Visão Prospectiva - Fundação José Augusto, 1976).
As famílias entrelaçadas Inácio e Torquato, convivendo e trabalhando
na agricultura e pequena pecuária, deram real contribuição para a formação
do vetusto lugarejo Passagem do Meio e, posteriormente, a criação do futuro
município de Baixa-Verde.
Economicamente, o vilarejo tinha vida própria como já foi frisado,
todavia em termos de registro de qualquer documento lido ou construção
que fosse preservada como marco histórico, e como fonte de pesquisa, nada
ficou. O único registro, que restou para as gerações futuras, foi um pequeno
cemitério denominado de Cemitério do Tronco, submerso, há muitos anos,
pelas águas da Barragem de Taipu. Em nossa infância ainda chegamos a
conhecer algumas ruínas das antigas habitações, as quais eram feitas em tijolos
pré-cozidos, de cor vermelha com barro extraído das margens do próprio Rio
Ceará-Mirim. Os tipo físicos dessas famílias eram assim: Torquato - eram mais
altos, claros ou brancos, olhos verdes ou azuis, biotipo físico de caracteres
idênticos dos primeiros povoadores do Seridó e que teriam imigrado para
Passagem do Meio. Detinham estrutura física parecida com os primeiros
portugueses que demandaram aos sertões do Seridó, construindo ali as
grandes famílias daquela região (Filho Medeiros Olavo - Velhas Famílias do
Seridó Brasília, 1981). Ainda com um atenuante, o tronco dessa família
Torquato possuía como sobrenome Araújo, ramo de uma grande família
originária das regiões do Seridó do Rio Grande do Norte e parte da Paraíba.

Baixa-Verde | Raízes da nossa história | 127


128 | Baixa-Verde | Raízes da nossa história
CAPÍTULO II
MATAS É TRANSFORMADA EM BAIXA-VERDE
MATAS - “extenso terreno coberto de árvores silvestres, selva, bosque,
mata virgem, mata natural e primitiva ainda não explorada” era na realidade
a localidade onde foram edificados os primeiros barracos de palha nativa da
região e madeira para abrigar os primeiros trabalhadores (corsacos), que
chegavam como contratados pela empresa “Proença, Gouveia & Companhia
(companhia de viação e construções), representada pelos irmãos Dr. João
Proença e Antônio Proença.
Portanto a denominação de Matas não podia perdurar, pois mata era
o que predominava no Rio Grande do Norte naquela época. Outras cidades já
haviam tido essa denominação. Citamos como exemplo a cidade de Ceará-
Mirim, que tinha o seu nome original de Matas, antes do seu
desmembramento de Extremoz no século XIX. A povoação pouco cresceu
até a inauguração da Estação de Baixa-Verde, no dia 12 de outubro de 1910.
“A administração da Estrada Central inaugurou, sob o governo do Dr. Alberto
Maranhão, a Estação de Baixa-Verde, servido-lhe de sede um carro “box”,
onde fora instalado o aparelho telegráfico. Nada havia de construção que
denuncia se o desenvolvimento intenso que a localidade tomaria mais tarde.
Formou-se em tomo da Estação um pequeno arruado, para onde e
mudaram os moradores da povoação de Assunção, a três quilômetros ao Norte,
que tiveram a fortuna de ser orientado pelos então, contratantes da construção da
Estrada!. “NESTOR LIMA -Municípios do Rio Grande do Norte - Revista do Instituto
Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte - Vol. 27/28 - Ia Edição - 1937”.
A mudança de denominação de Matas para Baixa-Verde, se prever,
em virtude de ausência de fontes históricas, que a própria população local foi
mudando sem qualquer caráter oficial. O topônimo “Baixa-Verde” foi se
fixando e se difundindo em toda a região até ter a denominação oficializada
quando foi elevada a sede de município posteriormente.
Todavia, Baixa-Verde era outrora a parte da região onde na realidade
ficou localizada a linha férrea, incluindo-se ali a atual estação de trem, no
sentido Norte/leste, partindo-se do antigo Açudinho até as imediações da
fábrica de óleo de João Câmara, no início do pátio da primeira casa de João
Câmara, hoje pertencente aos herdeiros do Sr. Orlando Alves, in memoriam.

Baixa-Verde | Raízes da nossa história | 129


É neste local da atual cidade, que foram realmente iniciadas as
primeiras construções. Entre essas ainda pode-se relacionar a Estação de Trem,
a Capela Nossa Senhora Mãe dos Homens, Grupo Escolar Capo José da Penha,
a residência de Alexandre Câmara (seu Xandu), hoje escritório do DER/Local,
a Usina de Beneficiamento de Algodão, a fábrica de óleo da firma João Câmara.
E ainda as construções não mais existentes: residência do Dr. Antônio Proença
(nas imediações do mercado público atual, residência do pessoal de apoio da
Estrada de Ferro (chefe da estação, telegrafista etc.), as quais ficavam também
no início da Av. Antônio Proença de frente para o leste onde está situada a
nossa primeira Igreja. Existe uma diferença da topografia de algum grau de
declínio no sentido Norte/Sul, partindo-se dos povoados de Assunção,
Brejinho e Matão ‘até a linha férrea. A partir daí, eleva-se ligeiramente no
início da rua do cemitério a oeste e ao sul para a fábrica de óleo até onde é
hoje um conjunto residencial construído na década de 80 pela COHAB.
Portanto, essa localização geográfica denominava-se de Baixa-Verde
já em tempos remotos, pois eram encontradas árvore sempre verdejantes,
mesmo em épocas de estiagem fenômeno tão peculiar na região.
Quem dos moradores mais antigos não alcançou ainda nas imediações
da Capela Nossa Senhora Mãe dos Homens até o antigo ramal das manobras
dos trens no atual bairro da Marambaia, um verdadeiro tapete verdejante
em qualquer época do ano, coberto de uma grama fina, que servia para as
peladas e outros folguedos de muitas gerações que ali se divertiam?
Quanto à origem do nome Baixa-Verde com os detalhes comentados
anteriormente, tentaremos dar nossa contribuição para o topônimo, ainda
não totalmente identificado e acreditamos que ser tarefa para pessoas mais
qualificadas resolver.
Com o detalhe do relevo daquele sítio no perímetro urbano da futura
cidade de Baixa-Verde, a própria característica da sua cobertura vegetal, não
é difícil a conclusão da originalidade do nome Baixa-Verde.
Todavia, no terreno da ficção, contado pelos mais antigos, o lugar de
nome Baixa-Verde (localização geográfica) já descrita, foi sempre objeto dos
mais diversos comentários a seu respeito por se tratar de um local sempre
verde, numa região muito seca. Acreditamos que tal fenômeno é motivado
pelo escoamento de águas subterrâneas, pelo declínio natural, advindas dos
terrenos mais altos. Era comentado sem qualquer fundamento lógico, que
ali passava um rio caudaloso, subterrâneo. Outros comentavam que pessoas
procuravam auscultar no silêncio das noites e ouviam esse suposto rio correr

130 | Baixa-Verde | Raízes da nossa história


por baixo da terra etc. etc., e que esse tal rio chegava quase a aflorar à
superfície através de pontos estratégicos da própria natureza.
Este autor, ainda menino, chegou a conhecer esses pontos ditos como
saídas do próprio rio caudaloso. Um deles ainda é possível identificar. Nada
mais é do que o escoamento das águas tipo galeria rudimentar, localizado
exatamente no início da rua do cemitério, na e quina da casa do Sr. Alexandre
Câmara (Sr. Xandu), hoje, DER. Os outros dois não mais existem, pois foram
aterrados e destruídos para obras públicas da Prefeitura Municipal há alguns
anos. Eram dois pequenos afloramentos de filtração de águas armazenadas
no sub-solo (cacimbas), encravadas abaixo das pedras que ali existiam à
margem da linha férrea. Uma delas localizada em frente à antiga casa paroquial
e que foi, posteriormente, residência do Sr. Daniel Justino, in memoriam, do
lado do oitão do Grupo Escolar Cap. José da Penha. A outra fica a vizinho à
Estação de Trem, localizada abaixo de uma pedra sobreposta, de onde se
viam pessoa mais humilde captando água para consumo doméstico próprio
ou para vendas, naqueles tempos em que água na cidade era muito difícil.
O certo é que corria entre a população menos esclarecida que o verde
existente naquele lugar, era por conta das águas do tal rio caudaloso, que
passava por ali.
A respeito desses comentários, ainda menino, tivemos notícias de
uma brincadeira levada a efeito por um morador local muito inteligente e
espirituoso que se tomou na cidade, especialista em praticar essas brincadeiras
com os incautos. O mesmo pregava e encantava a todos com suas brincadeiras
e espirituosidade sem querer levar pânico ou prejuízo a quem quer que fosse.
Tratava-se do comerciante, estabelecido na praça do mercado antigo, Sr. José
Bezerra, cognominado Dedé de seu João Joaquim, in memoriam, filho desse
último, que pregava muitas dessas brincadeiras aos moradores. É da sua safra
a seguinte brincadeira. Ele espalhou pela cidade que, à noite, no silêncio
sepulcral da pequena cidade sem iluminação elétrica, (servida até a 22 horas
pelo serviço municipal através de um velho motor a diesel), já totalmente às
escuras, ouvia-se o ruído do tal rio caudaloso, bem como poderia qualquer
pessoa ouvir na localidade pré determinada vizinha à linha férrea em frente a
casa do Sr. Xandu. Com a tal notícia ensacionalista, a crendice popular aguçada,
os boatos foram se espalhando e era justamente o que esperava o autor da
brincadeira. Daí começou a preocupação de alguns mais curiosos que pediam
a seu Dedé, para nos horários aprazados ouvir os ruídos das tais águas
misteriosas. Assim foi pregado aos mais ingênuos que juravam ter ouvido o

Baixa-Verde | Raízes da nossa história | 131


barulho da água correndo por baixo da terra. O procedimento usado pelo
experiente manipulador de tal brincadeira era o seguinte mecanismo. Ha ia
um cano no subsolo que corria paralelo à linha férrea no sentido oeste/sul,
partindo do açude grande até a fábrica de óleo de João Câmara, que servia
para abastecer as caldeira da usina da firma. Á água era puxada por sucção
desde um reservatório instalado na margem oeste do açude até o outro em
frente a fábrica de óleo, a aproximadamente 2 quilômetros. O cano no subsolo,
ligado à bomba para o transporte de água, fazia um ruído estranho. Foi aí que
o Sr. Dedé criou para os tolos o mistério de ser ouvido no solo a tal zoada.
Utilizando uma garrafa acoplada a uma torneira existente no local, a mesma,
por razões técnicas desconhecidas, provocava um ruído em redor dos canos,
levando as pessoas a acreditarem na versão do autor da peça. Logicamente
logo os boatos foram se dissipando quando foi identificado de onde partiu a
brincadeira que era originária de um costumaz criador de tais engodos com a
população.

132 | Baixa-Verde | Raízes da nossa história


OUTRA VERSÃO DA CRENDICE POPULAR
Já no final da década de 50 e início dos anos 60, este autor viajando
com o Padre Lucena, à cidade de Touros em vária ocasiões, teve contato com o
Sr. Joaquim de Ana, pessoa muito bem relacionada naquela cidade e uma
espécie de sacristão e administrador da paróquia do Bom Jesus dos Navegantes.
O mesmo em uma das nossas conversas, narrou o que poderemos considerar
como uma lenda ou ficção, sobre a região de Baixa-Verde. Contou ele que seus
avós e posteriormente seus pais e outras pessoas antigas que moravam em
Touros, contavam que os padres antigos (missionários) que trabalhavam do
litoral ao sertão nos trabalhos de catequese das populações isoladas do interior,
e que se deslocavam através de combois em lombo de cavalos ou através de
liteiras (carregadas por escravos), quando demandavam em missões de Touro
para os sertões do Seridó ou Central, recomendavam aos seus carregadores ou
companheiros de viagens, que fizessem o possível para não pernoitar ou mesmo
acampar para descanso nas imediações da Baixa-Verde, pois ali um rio caudaloso
poderia submergir a qualquer momento e suas águas tragarem a todos. a
época,já havia notícias que ali a terra tremia de maneira estranha.
Dessa lenda, podemos concluir que mesmo no imaginário e na
crendice do povo sem qualquer nível de esclarecimento naquela época, pois
temo que considerar apenas como uma ficção sem qualquer crédito de valor
cientifico, fica a nossa recomendação para os estudiosos da história do
fenômenos de abalos sísmicos observarem o que ocorrem com freqüência
naquele lugar. Talvez o relato registre as primeiras notícias de que o povo
tomou conhecimento de tais fenômenos já naquele tempo.
Coincidentemente, a falha geológica, já estudada tão exaustivamente
pelos cientistas da área, nasce aproximadamente a quatro quilômetros no
lugar denominado Pedra d’Água e segue até o povoado Samambaia no
município de Poço Branco, passando exatamente pelo local, onde é hoje
considerado o primitivo acampamento que deu origem a cidade,
compreendendo o quadrilátero da Estação da Refesa, Grupo Escolar Capo
José da Penha e outros sítios e edificações.
Sem qualquer fonte oficial digna de crédito que se possa especificar
a origem do nome da cidade de Baixa-Verde, os comentários acima e narrações
sem qualquer embasamento histórico servem, pelo menos, para dar caminhos
para a fixação de tese do real significado do topônimo original do município.
“Após a inauguração da Estação de Trem da Central do Rio Grande do
Norte, ocorrida no dia 12 de outubro de 1910, servido-lhe de sede um carro

Baixa-Verde | Raízes da nossa história | 133


“box”, onde fora instalado o aparelho telegráfico, nada havia de construções
que denunciassem o desenvolvimento intenso que a localidade tomaria mais
tarde. “Foi construída a Capela Nossa Senhora Mãe dos Homens, com projeto
do eng. Dr. Antônio Proença, com recursos da Companhia Agrícola do Torreão,
tendo como construtor o padre alemão Fernando Noite, da ordem da Sagrada
Família, e doada à comunidade, em 1915, com as seguintes dimensões: 11,90
metros de cumprimento por 4,90 de largura. As versões da denominação da
capela Nossa Senhora Mãe dos Homens, que, posteriormente, tomou-se
Paróquia Nossa Senhora Mãe dos Homens, são centralizadas numa mesma
vertente histórica, a vinda do Eng. Antônio Proença para Baixa-Verde. A primeira,
parte do escritor Paulo Pereira, que diz “Dr. Antônio Proença tinha vindo do
Estado de Minas Gerais e, em Caraça, sua terra natal, havia um Santuário de
Nossa Senhora Mãe dos Homens. Daí se concluir que o nome da Padroeira de
João Câmara fora dado por ele em homenagem à Padroeira da sua terra”.
Nosso amigo e conterrâneo, Dr.José Severiano da Câmara Filho, contou-
me que, no mês de outubro de 1980, estivera em Belo Horizonte e visitara a
Serra da Piedade, em Caraça, onde existe a Padroeira Nossa Senhora Mãe dos
Homens e, lá, conhecera, também, o colégio em que Dr. Proença concluiu o 1 e 2
grau. Seu quadro de formatura estava fixado à parede (Paulo Pereira dos Santos
Baixa-Verde: Retalhos de sua história, pág. 15/16). A outra versão ainda é informada
pelo Dr. José Severiano que teria colhido que o Dr. Proença, por ser um homem
profundamente religioso (católico praticante), no seu deslocamento do Estado
de Minas Gerais, teria vindo descendo o Rio São Francisco e, em determinado
trecho do percurso da viagem, começou a entrar água na embarcação em que
viajava, com risco premente de afundar em pleno caudaloso São Francisco, o
moço engenheiro pede socorro a Nossa Senhora, padroeira de sua terra natal,
com promessa de se escapasse daquele quase naufrágio, construir uma capela
em sua homenagem na nova terra que iria fixar-se e trabalhar.
O vilarejo começou a florescer e receber os primeiros comerciantes
com estabelecimento fixo que ali vieram residir em caráter definitivo com suas
famílias e assim foi, aos poucos, se transformando numa comunidade econômica
e socialmente organizada. Com a inauguração da estação de trem, aos poucos,
foi se formando o povoado, constituído, inicialmente, pelo corsacos que fixaram
residência na nova localidade, exercendo suas habilidades naturais ou
adquiridas. Como empregados da Estrada de Ferro, exerceram, no povoado
em formação, suas atividades profissionais de barbeiros, pedreiros, carpinteiros,
sapateiros etc., que aliados aos novos moradores e pequenos comerciantes
imigrados das localidades citadas e de outros municípios, foi dando a primeira
estrutura formal de uma vila que brevemente seria emancipada.

134 | Baixa-Verde | Raízes da nossa história


CAPITÚLO III
PRIMEIRAS FAMÍLIAS
Pelos motivos já esclarecidos, essas primeiras famílias que fixaram
residência na vila de Baixa-Verde, não possuíam nenhuma vinculação
histórico/familiar naquele novo povoado. Vieram para ali mais com o intuito
de sobreviver economicamente, não justificando por conseqüência, laços de
natureza afetiva com a no a terra. As primeiras famílias emigraram para outras
localidades, poucas ou quase nenhuma marca deixaram de suas presenças
na nova terra, com exceção evidente da família Câmara (João Câmara e
irmãos), Sousa (José Justino e Antônio Justino de Sousa (14.11.1895/
30.06.1965), Furtado (João Batista Furtado), Torquato (Pedro Torquato -
29.06.1884/05.07.1970), Genézio Oliveira (21.08.1885-28.08.1970), que aqui
aportou, vindo de Ceará Mirim, era um seridoense da gema, pois era natural
de Jardim do Seridó, e ainda Domingos Romano, Pedra e João Gomes Baião.
A chegada de João Câmara e seu irmão Jerônimo Câmara (Loló) a
Baixa-Verde - Segundo o escritor Paulo Pereira dos Santos, João Câmara e
seu irmão (Loló) chegaram em caráter definitivo em 06 de junho de 1914,
aportaram no lugarejo um simples povoado com poucas casas em redor da
Estação Ferroviária. Algumas figuras desde taque já moravam na vila: a família
Alfredo Edeltudes, comerciante, que segundo Dr. João Maria Furtado
transferiu-se do povoado de Assunção com toda a família. Outras que residiam
no município de Touros, Pureza, Boacica e Cana Brava (família França)
aportaram em definitivo no novo povoado, liderados, naturalmente, pelo
pequeno comerciante José Antunes de França. Segundo a Paulo Pereira,
morava, também, em Baixa-Verde, o técnico Fernando Gomes Pedroza, que
dirigia o campo experimental de algodão no Riacho Seco, como funcionário
do Ministério da Agricultura, que, aliás, foi o primeiro campo experimental
de algodão no Rio Grande do Norte.
Com esse campo experimental de algodão, pode-se tirar duas
conclusões importantíssimas para a economia da região. A conclusões técnicas
da cultura do algodão arbóreo no Estado, principalmente, na área do Mato
Grande, compreendendo as encostas da Serra Verde no município de Touros
em demanda ao litoral Norte, de Baixa-Verde, diga-se Queimadas, Limão,
Parazinho, Pedra-Grande, Juá, Cavaco, até as proximidades da então Vila de
Caiçara do Norte, localizações onde João Câmara se estrutura através de

Baixa-Verde | Raízes da nossa história | 135


fazendas de cultura de algodão, que foi inicialmente a sua base de sustentação
de produção algodoeira e, com essa medida, povoou aquelas localidades de
família tradicionais que gerenciavam as fazendas do coronel Vanvão, que
deram os primeiros impulsos na vida social do povoado Baixa-Verde. Entre
essas famílias podemos citar: Castro, Teixeira e Rabelo no Mato Grande; Cacho
no litoral (Caiçara e São Bento do Norte); França, originária do município de
Touros; Miranda do município de Taipu.
A outra conclusão é resultante de uma sólida amizade do comerciante
e pecuarista João Câmara com o técnico Fernando Gomes Pedroza, que seria
selada além de convívio fraterno. Outros interesses econômicos nas suas áreas
específicas convergiram para um só objetivo que era a produção e a
comercialização algodoeira, em larga escala, advinda do Mato Grande no Rio
Grande do Norte. Em relação à vinda para Baixa-Verde de João Câmara (futuro
Senador da República e criador do município) para Baixa-Verde, a crença
popular acreditava que ele era um simples aventureiro, sem experiência de
vida e iletrado, quando na realidade era outra. João Câmara morava e atuava
no município de Taipu, com larga experiência de uma vida social, econômica
e política chegando ser interventor naquele município. Onde e conclui que
não se tratava de uma pessoa inculta. Apesar de não possuir nível de
escolaridade superior, coisa rara e difícil naquele tempo, tinha nível escolar
desejado e experiência de vida e chegou a onde chegou, com nome e
representação em todo o Rio Grande do Norte.
Ainda citando Paulo Pereira, “Como ainda continuasse a construção
da Estrada de Ferro, estendendo-se para Lajes, Dr. Antônio Proença,
permanecia residindo em Baixa- Verde. Segundo algumas pessoas idosas de
sua época, ele era um homem gordo, de andar lento e uma boa pessoa.
Gostava de criar cavalos de sela e vacas de alta linhagem genética. Plantava
algodão e outras culturas de subsistência. Promovia grandes festas na sua
casa, reunindo os mais importantes moradores da vila.” Outro autor que
descreve o Dr. Antônio Proença é o Dr. João Maria Furtado: “Dr. Antônio
Proença era um tipo especial de homem. Alto, gordo e forte, expandia ida,
alegria e saúde. Em sua morada, em edificação já desaparecida, ao lado direito
da estação, olhando na direção do nascente, realizavam-se festas suntuosas
e comumente e reuniam os melhores ou mais destacados moradores de Baixa-
Verde e arredores para memoráveis mesas de “poquer”.
Além de outros moradores ilustres da pequena localidade na opinião
do Prof. Paulo Pereira dos Santos, figuravam “mais dois engenheiros, também

136 | Baixa-Verde | Raízes da nossa história


contratante da estrada de Ferro, residentes no povoado, Otávio Pena, baixinho,
“olhos brilhantes sob a armação de um pincenez espelhante”, filho do
Presidente da República, Afonso Pena, que havia inaugurado a Estrada de
Ferro. E outro engenheiro, Eduardo Parisot, de estatura alta. magro e cortês
(é possível que o engenheiro Eduardo Parisot seja genitor ou parente próximo
do grande músico internacional Aldo Parisot).
Tudo leva a crer que João Câmara e seu irmão Jerômino Câmara (Loló)
ao chegarem para se instalar no futuro município, já encontraram uma
pequena elite de moradores de condição intelectual e social destacável,
formada sobretudo pelos engenheiros Antônio Proença, Otávio Pena, Eduardo
Parisot, Fernando Gomes Pedrosa, Alfredo Edeltrudese outros visitantes
costumeiros João Batista Furtado, morador no sítio São João em Assunção, o
fazendeiro Valdemar de Sá e outros.
Ainda em relação aos engenheiros contratados para a construção da
estrada de ferro, faremos um ligeiro comentário, por suposição, uma vez que
não existe qualquer documento histórico que afirme o que comentamos.
Primeiro, os irmãos Proença não teriam se deslocado de tão longe do Estado
de Minas Gerais por uma razão simples para serem construtores de uma
estrada de ferro no nordeste brasileiro, onde não eram conhecidos e nem
tampouco se identificavam com povo, e seus costumes. Uma razão maior
deve ter existido, para fazer do irmão Antônio, um homem que tinha em
mente e projeto, morar no Estado, principalmente pelos investimentos que
fez, fato que a própria história comprova, pecuarista de gado de linhagem
genética de qualidade, agricultor no futuro município, entrosamento e
relacionamento social com a comunidade em formação, projeto de
alinhamento, urbanização etc. para a futura cidade. Segundo, quando aqui
chega, já era possuidor de uma secular data de terra “Torreão”, local onde
seria fincada toda a cidade (cuja propriedade pertencera a um cidadão de
nome “Cel. Fonseca”), já aparecendo o Dr. Antônio Proença fazendo
investimentos e beneficência em nome da sua Cia. Agrícola Torreão. Os irmãos
Proenças e tinham como sócios dois engenheiros Aldo Parisot e Otávio Pena.
Não é difícil conjeturar que os Proenças eram figuras de projeção política e
muitos bens informados nas rodas palacianas da política mineira e que o Dr.
Antônio teria vindo para o Rio Grande do Norte para fixar-se em caráter
definitivo, especialmente, em Baixa-Verde, onde o futuro município na sua
visão de moço e influente na sociedade da época, oferecia projeção econômica
e política.

Baixa-Verde | Raízes da nossa história | 137


138 | Baixa-Verde | Raízes da nossa história
O COTIDIANO DA VILA DE BAIXA-VERDE
Como qualquer povoação nova, Baixa-Verde, a partir de 1914,
começou a se desenvolver dentro de dois segmentos que, sociologicamente,
dá o ponto de partida para tomar-se uma comunidade com vida própria.
Primeiro, um fator econômico, em dúvida foi a passagem da Estrada de Ferro
Central do Rio Grande do Norte e segundo a cultura do algodão arbóreo, na
região do Mato Grande, capitaneado pela macro visão de João Câmara, que
através de um comércio purgente e equilibrado na vila com a instalação da
sociedade João Câmara & Irmãos e uma pequena elite social já mencionada,
determinaram a vila de Baixa-Verde dar os primeiros passos para a sua
emancipação política, desmembrando-se do município de Taipu em 1928.
Nesse interstício de 1914 a 1928 a comunidade sofreu, naturalmente, pela
própria natureza de povoado, o estágio de desenvolvimento natural de uma
pequena comunidade de interior.
Criado sob a égide de pessoas nômades (corsacos e outros trabalhadores
da Estrada de Ferro) e de pequenos comerciantes sem vínculo familiar com a
nova terra, um processo de imigração e emigração da sua população que pouco
ou quase nada deixou ou fez para deixar marca ou raízes, à exceção dos Câmara,
dos França e de alguns pequenos agropecuaristas que tinham atividades
agropastoris na área do futuro município ou mesmo na vila. Quase todos
vinculando suas atividades, coabitados pela firma João Câmara & Irmãos.
Desses pequenos moradores, podemos destacar os primeiros imigrantes
vindos das circunvizinhanças do futuro município que foram os Torquato e os
Inácio, que vieram da localidade de Passagem do Meio, os Câmaras (sem
parentesco com João Câmara) e sim imigrados de Cauassu e Cardoso,
personificados nas figuras do agropecuarista Cândido Barbosa da Câmara
(06.03.1889-21.07.1963) e o comerciante ambulante Cornélio Soares Câmara, in
memoriam, e as famílias França e Varela, emigradas do município de Touros.
Assim, como surgiu, essa população quase flutuante, também,
desapareceu sem qualquer menção para que se possa fazer uma pesquisa
confiável. Os dois personagens centrais do povoamento inicial da vila de Baixa-
Verde, o engenheiro Antônio Proença e o engenheiro Otávio Pena, que na
condição de contratantes da Estrada de Ferro, pouco ou nada deixaram de
suas permanências no futuro município. Merece destaque o Dr. Antônio
Proença que desenvolveu outras atividades econômicas de criação pecuária,

Baixa-Verde | Raízes da nossa história | 139


cultivo de algodão e outras atividades agropastoris. Tudo indica que através
de uma empresa agrícola talvez a primeira companhia dessa atividade no
Estado, vinculada juridicamente às terras compradas a um criador que já
atuava por essas bandas de nome Cel. Fonseca, “Data do Torreão”, cujas terras
tinham as seguintes dimensões, meia légua de largura por uma de
comprimento, com limite no cimo do Monte Torreão, em sua largura descendo
em direção a Natal, indo terminar numa das janelas do prédio da estação e
em seu comprimento na direção Norte, poente, indo até o local denominado
‘Moinho’ na Serra Verde. Como se verifica na atual cidade de Baixa-Verde,
grande parte está edificada dentro das terras desta “Data do Torreão”, que
foi, judicialmente, ressalvada com a transferência do antigo patrimônio para
a União Federal da Estrada de Ferro Central do Rio Grande do Norte.
Como se vê, o Dr. Proença era um homem com certa visão e através
das atividades acima, tentou fixar-se no lugar. Inexplicavelmente, deixou o
cenário econômico, político e social, desaparecendo sem que se saiba para
onde, aquele que prestou tantos serviços ao município. Tudo indica que o Dr.
Proença teve um parente morando em Natal, um cidadão, também engenheiro
civil, de nome Lucas Proença Sigud (15.06.1895-13.12.1968), que trabalhou na
antiga Estrada de F erro nos anos de 1918 a 1920, posteriormente, no serviço
geológico da Inspetoria de Obras Contra as Secas e depois como Inspetor de
Ensino Federal no Estado, indo morar no Rio de Janeiro e lá falecendo. Observa-
se que esse engenheiro teria começado a trabalhar na linha férrea,
possivelmente antes da inauguração dessa linha na cidade de Baixa-Verde,
(Raimundo Soares de Brito Uma Viagem pelo Arquivo Epistolar de Adauto
Câmara - Coleção Mossoroense Vol., CLXIX 1981 Edição Fundação José Augusto).
Lançamos, pois, um desafio às futuras gerações para descobrir um
pouco mais desse personagem empreendedor que teve passagem relâmpago
no interior central do nosso Estado e que tinha pretensões de ficar no
município através de uma prova substancial que foi a aquisição das terras da
“Data Torreão.” À medida que a vila de Baixa-Verde começa se desenvolver,
já possuindo comércio regular, uma máquina de desencaroçar algodão
‘locomóvel’ arrendada por João Câmara ao Sr. Alfredo Edeltrudes e que, por
intermédio da empresa recém-criada João Câmara & Irmãos, capitaneava as
atividades econômicas, já contava com o escoamento da sua produção
pecuária e agrícola pela linha férrea que passava regularmente para o sertão,
ou para o litoral com destino à capital do Estado. Já se tinha “lançada, como
fora, por Antônio Proença a planta geral da futura vila, e alinhadas as
construções até que se constituiu definitivamente o Actual Empório Comercial
e Agrícola do Agreste”. João Maria Furtado (obra citada).

140 | Baixa-Verde | Raízes da nossa história


ESTRUTURA PARA ELEVAÇÃO
À SEDE DE MUNICÍPIO
“A Vila contava com várias avenidas, ruas largas, praças e travessas e
tem além da Estação da E. F. Central, posteriormente edificada, o grupo Escolar
“Cap. José da Penha (1927), a Capela de Nossa Senhora Mãe dos Homens
(1915), o Mercado Público e outros prédios públicos, bem como várias
residências particulares que denotavam certo gosto architectonico (Nestor
Lima - obra já citada). Contava com uma elite social e política que já se
destacava na região, quando começaram os primeiros movimentos políticos
para a emancipação da Vila de Baixa-Verde e a criação do futuro município.
Figuravam como mentores intelectuais desse movimento, alguns
cidadões que detinham ingerências sociais e políticas que juntaram forças
para pressionar a emancipação política da Vila. Dessas pessoas influentes
merecem destaque especial: João Severiano da Câmara (Vanvão), Jerômino
Severiano da Câmara (Loló), Alexandre Severiano da Câmara (Xandu),
Antônio Severiano da Câmara (Seu Tonho), José Severiano da Câmara, Pedro
Gomes Baião, Domingos Romano, Antônio Justino de Sousa, José Justino
de Sousa, Genésio de Oliveira, José Soares Bechior, Ismael Maurício da
Silveira, João Ferreira da Rocha, Odilon Cabral de Macedo, Joaquim Cordeiro
de Sousa, José Inácio Sobrinho, João Batista Furtado, e outras figuras da
sociedade local.
Antes de ser elevada à categoria de sede do município, já contava
com estrutura bastante desenvolvida para uma Vila, haja vista, além de figuras
de destaque político, social e econômico, possuir a “Escola Rudimentar de
Baixa-Verde”, criada pelo Decreto n.º 145 de 25 de agosto de 1920, sob o
governo do Dr. Antonio de Sousa, tendo sido regida sucessivamente pelas
professoras Maria Lima (contratada) - 1920 a 1925; Eulália Diniz Henriques -
1926; Maria Diniz Henriques - 1926 a 1927. Possuía ainda o Grupo Escolar
Capitão José da Penha, criado pelo Decreto n.º 350 de 15 de outubro de
1927 (ano do centenário da criação do ensino primário no Brasil). Foi
inaugurado oficialmente a 25 de dezembro de 1927 elo Governador José
Augusto e instalado tecnicamente a 26 de março de 1928. O Grupo dirigido
pelos seguintes professores diplomados: “Maria Henriques Maia - 1928/1929,

Baixa-Verde | Raízes da nossa história | 141


já falecida; Igná Ribeiro Dantas - 1928; Sebastião Diniz Henriques - 1929; Laura
Saraiva de Moura 1930; Lília Rosa de Carvalho e Silva (interina) - 1930”. (Nestor
dos Santos Lima - obra citada).
Com as condições ideais para desencadear o processo de
emancipação, merece destaque: a população da Vila de São Bento e Caiçara
do Norte. (hoje municípios) de São Bento do Norte e Caiçara do Norte, que
lideradas pelos seus líderes José Soares Belchior, João Ferreira da Rocha e
Godofredo Alípio Cacho, não mediram esforços para a emancipação política
de Baixa-Verde.

142 | Baixa-Verde | Raízes da nossa história


CAPÍTULO IV
EMACIPACÃO POLÍTICA DA VILA
DE BAIXA-VERDE
Liderado por João Severiano da Câmara, nessas alturas, já um
empresário respeitado na região e líder político de destaque, pela Lei Estadual
n.º 697 de 29 de outubro de 1928, sob a presidência do Or. Juvenal Lamartine,
foi criado o novo município de Baixa-Verde, desmembrado dos três municípios
Touros, Taipu e Lajes, cuja Lei é assim de cri ta IPIS VERBIS “

LEI n 697 de 29 de outubro de 1928 Cria o município de Baixa-Verde.


O Presidente do Estado do Rio Grande do Norte:
Faço, saber que a Assembléia Legislativa decreta e eu sanciono a
presente lei:
Art. 1- Desmembra-se-á dos municípios de Touros, Taipu e Lages o território
que constituirá o município de Baixa-Verde, com sede na povoação
do mesmo nome, que ficará elevada à categoria de villa.
Art. 2- O novo município de Baixa-Verde, ficará limitado do seguinte modo:
a leste, partirá uma linha recta do marco colonial existente na praia,
a um ponto que fique a um quilometro do sul de Parazinho, e deste
ponto outra linha recta até encontrar o rio de Ceará mirim, no lugar
conhecido por “Tronco”, ao sul o mesmo rio Ceará-Mirim pelo seu
alveo, do referido lugar “Tronco” até a localidade “Barra do Riacho
do Milhã” numa linha recta partirá da citada “Barra do Riacho de
Milhã” numa linha recta em direção ao “Buraco Secco”, que
pertencerá à Baixa-Verde e dahi seguirá pelos antigos limites de
Touros com Lages, ficando a povoação de Cauassú para o município
de Lages.
Art.3 - A eleição do seis intendentes e do prefeito que têm de compor os
poderes legislativos e executivos do mesmo município, na qual só
poderão votar os eleitores cuja residência estejam dentro do
território desmembrado, efectuar-se-á na villa de Touros no ultimo
domingo do mês de novembro próximo vindouro numa única secção,

Baixa-Verde | Raízes da nossa história | 143


cuja mesa se constituirá do juiz de direito da comarca, como
presidente, do promotor publico respectivo, como secretario, e de
um eleitor que, até o dia anterior ao designado para eleição tiver
apresentado, em ofício, com as firmas reconhecidas devidamente,
ao juiz de direito, por maior numero de eleitores escolhido o mais
velho, em curso de empate cabendo a este mesário fazer a chamada
dos eleitores e proceder à verificação de seus títulos.
§ 1 - Se até o dia anterior ao designado para a eleição não forem
entregues, ao juiz de direito, os ofícios de indicação do terceiro
mesario, no dia seguinte antes de se iniciarem os trabalhos eleitores,
reunidos, no edificio indicado, às nove horas, para a eleição, o juiz
de direito e promotor publico o escolherão dentre os eleitores
constantes da lista a que se refere este art. dando-se preferência ao
mais velho dos escolhidos, em caso de divergência.
§ 2 - Dentro de 15 dias após a publicação desta lei, o escrivão
encarregado do serviço eleitoral do município de Taipu remeterá
ao juiz de direito da comarca uma copia authentica dos eleitores
com direito a voto (dec. n 4226, de 30 de dezembro de 1920, art.
3) que forem residentes no município de Baixa-Verde.
Art. 4- O juiz de direito, oito dias antes do marcado para a eleição,
designará o edificio em que ela se deverá realizar.
§ Único Essa designação será feita por edital afixado na porta do
referido edifício.
Art. 5- Na falta ou impedimento do juiz de direito e do promotor publico,
será o primeiro substituído pelo juiz districtal em exercício na sede
da comarca, e o segundo por um promotor “ad-hoc”, nomeado pelo
presidente da mesa, dentre os eleitores votantes.
Art. 6- Os livros das actas de installação da mesa e de reconhecimento de
votos, que deverá ser especialmente aberto, numerado e rubricado
pelo juiz, como os demais papeis concernentes à eleição, deverão
ser, no prazo de cinco dias, depositados, mediante recibo, no cartório
do tabellião publico de notas da comarca de Ceará-Mirim, que por
sua vez os remeterá ao presidente da Intendencia desse município,
logo após sua instalação, para serem archivados.
Art. 7 - A apuração geral dessa eleição será feita pela Intendencia Municipal
de Taipu no prazo e de accordo com as disposições eleitoraes vigentes
fazendo-se o reconhecimento de poderes pela forma prescripta em lei.

144 | Baixa-Verde | Raízes da nossa história


Art. 8 - Da verificação e reconhecimento de poderes haverá recurso nos casos
e pela forma determinada na lei n°. 535 de 27 de novembro de 1922
(Constituição, art. 73).
Art. 9- A posse dos intendentes e do prefeito, bem como a insta Ilação do
novo município, realizar-se-á no dia 1 de janeiro de 1929 sob a
Presidência provisória do mais votado dos intendentes presentes
ou do mais velho destes, em caso de igualdade de votação, o qual
receberá o compromisso dos intendentes que tenham comparecido
ao acto da installação, perante os quais prestará também, logo em
seguida, o seu compromisso.
§ Único O compromisso do prefeito será, então, prestado perante a
nova Intendência depois de empossada esta.
Art. 10 Uma vez empossada, a Intendencia do município de Baixa-Verde
adoptará para o exercício financeiro de 1929 o mesmo orçamento
da receita e despesa votado, para igual período financeiro, pela
Intendencia Municipal de Taipu em tudo quanto lhe poder ser
aplicável.
Art. 11 Tudo mais que se relacionar com o processo eleitoral e que não se
relacionar com o processo eleitoral e que não tenha sido previsto
na presente lei, deve ser praticado segundo as exigências da lei 660
de 25 de outubro de 1927.
Art. 12 Fica igualmente criado o districto judiciário de Baixa-Verde, que
pertencerá à comarca de Ceará mirim.
Art. 13 Revogam-se as disposições em contrario.
Palácio da Presidência do Estado do Rio Grande do Norte, em Natal,
29 de outubro de 1928,40 da Republica.

Juvenal Lamartine de Faria


Chistovam Bezerra Dantas

Os limites legais especificados na lei de criação do município foram


transcritos na obra do Dr. Nestor do Santos Lima (obra citada), assim
mencionados: “A leste, uma linha recta a partir do marco colonial existente
na praia a um ponto que fique a um quilometro, ao sul de “Parazinho”, e
deste ponto, outra linha recta até” encontrar o rio Ceará-Mirim, no lugar
“Tronco”; Ao sul, o rio ‘Ceará-Mirim’, pelo seu álveo, do referido lugar
“Tronco”, até a localidade ‘Barra do Riacho da Milhã’.

Baixa-Verde | Raízes da nossa história | 145


A oeste a linha divisória partirá da citada Barra do Riacho da Milhã
em linha recta em direção ao Buraco Seco, que pertencerá a Baixa-Verde, e
dahi, seguirá pelos antigos limites de Touros com Lages, ficando a povoação
de ‘Cauassu’ para o município de ‘Lages’.
Não prefixou a lei de criação do município os seus limites ao Norte,
com o Oceano Atlântico, nem ao noroeste, com o município de Macau, com
o qual se extremava o de Touros, na parte desmembrada.
Mas é sabido que os antigos limites de Touros com Macau eram os
seguintes:
‘Do Pontal de Aguamaré (ou Guamaré), a Galinhos, povoados na praia,
dahi em linha recta, à fazenda ‘São Pedro’ e à ‘Ponta da Serra Verde’, clareou
razoável e que tais limites do novo município sejam os mesmos de Touros
com Macau.
A resolução provincial n.o. 294 de 19 de agosto de 1854, que restaurou
o município de Angicos e manteve o de Macau, deu a este os limites, a saber:
Ao nascente, seguirá a linha divisória em direção ao sul da ‘Barra do
Camurupim, compreendendo todas as praias e lugares, que, quando abrangia
todo território, passando à caatinga e compreendendo a ‘Serra do Lombo’ até
a barra do ‘Riacho da Milhã.’
Dahi se infere que a linha a ser fixada entre os dois municípios de
Baixa-Verde e Macau, deveria seguir esse traço antigo e respeitado, salvo si
outras conveniências dectarem modificações.
O território do município de Baixa-Verde, assim delimitado, mede
aproximadamente oitenta (80) quilômetros do ‘marco’ da Praia do Marco,
como é conhecida, a Galinhos, sendo toda essa extensão na costa do Oceano
Atlântico; da vila sede ao povoado de São Bento do Norte, cerca de setenta
(70) quilômetros; e do lugar “Tronco” a ‘Barra da Milhã’ no curso do rio ‘Ceará-
Mirim’, trinta e cinco (35) quilômetros.
Observa-se que a lei de criação refere-se ao desmembramento do
território dos municípios de Touros, Taipu e Lages, não se incluindo o de
Macau, onde o Dr. Nestor Lima tece comentários a respeito, bem como, pelos
fatos narrados a respeito da criação do novo município. O mesmo fala que
houve problemas de ordem política com o Poder Legislativo daquele município
em relação ao antigo território de Galinhos.
Com esse ato institucional estava criado o município de Baixa-Verde
que teve como intendente o comerciante Pedro Gomes Baião, imigrado do
município de Touros, juntamente com o seu irmão Manoel Baião. Este autor

146 | Baixa-Verde | Raízes da nossa história


ainda conheceu esse comerciante e seu irmão na cidade. Eram baixinhos,
gordos, fisicamente parecidos com portugueses que imigraram inicialmente
para Touros e, posteriormente, Baixa-Verde. O Sr. Manoel Baião era genitor
do Sr. Carlos Baião, funcionário público aposentado, hoje residente em ata!.
O agropecuarista Antônio Justino de Sousa, (14.11.1885 30.06.065) pai do ex
Vice-Prefeito Daniel Justino de Sousa, in memoriam, que aportou na Vila de
Baixa-Verde, juntamente com o seu irmão José Justino de Sousa, Genézio de
Oliveira, genitor dos senhores Rui Câmara, José Câmara e Pedro Câmara, que
na qualidade de agropecuarista no Mato Grande e mais os senhores José
Soares Belchior e Ismael Maurício da Silveira, eleitos em Pureza no município
de Touros no dia 25 de novembro de 1928, em razão do art. 3° do Decreto de
criação do novo município.

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BIOGRAFIA PAULO PEREIRA DOS SANTOS
Paulo Pereira dos Santos
nasceu em 11 de outubro de 1937
na propriedade de nome
“Manjericão” no município de São
Paulo Potengi/RN, fillho de Joaquim
Pereira dos Santos ( Joaquim Aleixo)
e Dionísia Pereira dos Santos.
Começou aprender as primeiras
letras em uma escola da cidade de
Macaíba e terminou seu curso
primário no Grupo Escolar Cap. José
da Penha em Baixa-Verde e o curso
Agrotécnico no Colégio Agrícola de
Jundiaí, equivalente ao antigo
científico. Concluiu o curso superior
de Economia na Universidade
Federal do Rio Grande do Norte em
1971. Foi professor do Colégio
Agrícola de Ceará-Mirim e da Escola
Comercial de Macaíba, quando era aluno no Colégio de Jundiaí. Hoje, professor
aposentado da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, lotado no Colégio
de Jundiaí. Exerceu sua profissão de economista como técnico e Diretor Técnico
da SERTEL, empresa de prestação serviços técnicos e econômicos às outras
empresas. Diretor do Centro de Formação Profissional e Treinamento em
Confecções Clovis Motta e, posteriormente, Diretor, também, do Centro de
Formação Profissional Dix-sept Rosado Maia, durante 8 anos. Exerceu a função
de Técnico em Formação Profissional e, posteriormente, de Assessor Técnico
do Programa Intensivo de Preparação de Mão-de-Obra (PIPMO), pertencente
ao MEC, e depois ao Ministério do Trabalho.

Articulista da Revista RN/Econômico, nos anos de 1979, 1981 e 1982,


escrevendo sobre assuntos econômicos nacionais. Foi, por algum tempo,
Diretor do Jornal A Verdade, pertencente à Fundação Padre João Maria, onde
também tinha uma coluna: Enfoque Sócio-econômico.

Baixa-Verde | Raízes da nossa história | 149


Seus livros publicados são: Baixa-Verde Retalhos de Sua História e
Um Homem Admirável, João Severiano da Câmara, esses dois livros, um
dedicado à cidade de Baixa-Verde e o outro ao seu primeiro prefeito;
Elementos Básicos da Economia Rural; Evolução Econômica do Rio Grande
do Norte- Século XVI ao XXI; Memória do SENAI/RN; Páginas do Tempo; e
Pingos de Mensagem.

Atualmente, é sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Rio


Grande do Norte e membro de sua Diretoria. Também é articulista do Jornal
de Hoje.

Das obras de Paulo Pereira, Baixa-Verde: Retalhos de sua História,


João Câmara – Um Homem Admirável e Páginas do Tempo resgatamos os
capítulos seguintes.

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1 - ASSUNÇÃO E BAIXA-VERDE
Toda povoação nasce por força de causas económicas, sociais ou
políticas. E Baixa-Verde não fugiu da regra.
Para se explicar sua origem é preciso se buscar um pouco da história
do lugarejo Assunção, surgido antes. Diz o pesquisador Gumercindo Saraiva
que, em 1898, já existia um industrial de nome Alfredo Edeltrudes no povoado
de Assunção, a 3 quilómetros do local, onde se instalaria a Estação Ferroviária.
Ele fora pioneiro, plantando em suas terras, sementes de algodão, o conhecido
“ouro branco”, conseguindo colher e descaroçar o produto, obtendo “três
fardos de lã pura, com a limpidez necessária”.
Vê-se assim que, antes do surgimento de Baixa-Verde, já havia
Assunção, cuja economia era sustentada pelo plantio do algodão em suas
terras férteis, com a consequente industrialização desse produto. É claro que
essa situação económica do povoado deveria ser notícia que correria todo o
Estado e sua vizinhança, atraindo a vinda de pessoas e famílias para o local, o
que explica o motivo do crescimento do povoado.
Com o assentamento da Estação Ferroviária provisória, num vagão
de trem, no dia 12 de outubro de 1910, pêlos construtores da Estrada de
ferro, iniciava-se, desse modo, um marco que iria dar origem à vila e,
posteriormente, à cidade de Baixa-Verde. Instalado agora o aparelho “morse”
com ligação permanente, na linha Ceará-Mirim e Natal, e em seguida, fixada
a residência de Dr. Antônio Proença, um dos Direíores da Rede Ferroviária,
estava selado o destino daquele local. O trem passaria por ali, trazendo
passageiros e cargas, o que, naturalmente, forçaria o surgimento de um
aglomerado humano. Iria surgir Baixa-Verde com suas bodegas, lojas, pensões,
usinas etc. É evidente que, a partir de agora, Assunção não cresceria como
vinha crescendo, estacionaria, porque o centro maior de atração populacional
seria o local, onde estava instalada a Estação. E assim acontecera. Apareceram
as primeiras casas em torno da Estação, foi crescendo o número de leis,
formando-se ruas, nascendo a vila e, mais tarde a cidade.

Baixa-Verde | Raízes da nossa história | 151


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2 - O TOPÔNIMO ANTIGO
Quanto à origem do nome Baixa-Verde, o escritor e ex-
desembargador, João Maria Furtado, no seu livro “VERTENTES”, página 40,
afirma: “ouvindo velhos moradores do município, todos são de opinião, que
o topónimo Baixa-Verde é antiquíssimo e já existia antes de “Matas” e
Assunção, este, lugarejo distante uns 3 quilómetros.”
Ainda sobre o topônimo, o historiador, Luis da Câmara Cascudo no
seu livro “Nomes da Terra”, na página 197, diz: “Havia no Taipu uma Baixa-
Verde, cujo nome foi transportado para “Matas” substituindo-o. Baixa-Verde
de Taipu praticamente desapareceu pela mudança de seus moradores para a
outra que estava nascendo.”
Vale lembrar que, em 1900, o local da futura cidade, segundo Câmara
Cascudo, em páginas do mesmo livro, pertencia a Taipu e era desértico e
denominado de “Matas”.
Conclui-se, pelas afirmações dos dois escritores, que o nome “Baixa-
Verde” era antiquíssimo, antes mesmo de “Matas” e “Assunção”, porque já
existia um local nas terras de Taipu com esse nome.
Percebe-se, ainda, nas colocações de Câmara Cascudo, que as pessoas
moradoras daquele local de Taipu, chamado Baixa-Verde, deslocaram-se para
fixar moradia no lugar, denominado “Matas”, que passava a ser chamado de
Baixa-Verde, onde fora instalada a Estação e lançado os primeiros
fundamentos da futura cidade. Vê-se, também que boa parte dos primeiros
habitantes do novo povoado viera do município de Taipu.

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3 - A SECA E A CAPELA
Em 1915, Baixa-Verde, já vila, fora castigada pelas inclemências de
uma estiagem que levara muitos recém-nascidos à morte. Segundo o
historiador Gumercindo, filho da Terra, neste ano, ele não morreu graças à
sua madrinha Dona Malvina Proença, esposa de Dr. Antônio Proença, que
mandava diariamente meia garrafa de leite “para complementar sua
alimentação”. Inclusive fora “amamentado por mamas de mulheres de
“cossacos” da Estrada de Ferro Central.
Nesse mesmo ano, o engenheiro Antônio Proenca, com ajuda do povo
da vila, construia a “Capela de Nossa Senhora Mãe dos Homens”, cuja imagem
de Nossa Senhora, segundo Gumercindo, fora doada por Dona Malvina,
mulher muito cristã. Ainda hoje existe, no mesmo lugar, a Capela que fora a
primeira casa de oração dos fiéis da comunidade baixaverdense. Atualmente,
foi mudado seu nome para Nossa Senhora de Fátima.
Dr. Proença tinha vindo do Estado de Minas Gerais, e, em Caraça, sua
terra natal, havia um Santuário de Nossa Senhora Mãe dos Homens, daí se
concluir que o nome da Padroeira de João Câmara fora dado por ele em
homenagem à Padroeira de sua terra.
Nosso amigo e conterrâneo, Dr. José Severiano da Câmara Filho,
contou-me que, no mês de outubro de 1980, estivera em Belo Horizonte e
visitara a Serra da Piedade, em Caraça, onde existe a Padroeira Nossa Senhora
Mãe dos Homens, e lá conhecera, também, o Colégio em que Dr.Proença
concluiu seu curso de 1.” e 2.° grau. Seu quadro de formatura estava, ainda
fixado à parede.

Baixa-Verde | Raízes da nossa história | 155


156 | Baixa-Verde | Raízes da nossa história
4 - IMPULSO DADO AO CRESCIMENTO DA VILA
Em 6 de julho de 1914, chegava à Vila, Baixa-Verrde, João Severiano
da Câmara, segundo afirma Câmara Cascudo no seu livro “História de Um
Homem”. Ainda muito jovem se instalou com uma pequena casa comercial e
prosperou tanto que, em 15 de junho de 1922, depois de 8 anos de atividade
comercial, criou, juntamente, com seus irmãos Xandu e Loló, a Firma João
Câmara e Irmãos, que se tornaria a maior empresa do Estado no género, e
urna das maiores do país.
Na verdade, essa empresa constituirá o carro-chefe do crescimento
de Baixa-Verde. Esta era Vila em 1922, quando fora criada aquela empresa,
passava a ser, depois de 6 anos, município, graças ao seu surto de
desenvolvimento crescente naquela época.
Para termos uma ideia mais clara da dimensão desse crescimento,
vejamos o que diz Cascudo no seu livro “Nomes da Terra”. “Em 1930,
Parazinho, povoado ainda pertencente ao município de Baixa-Verde,
nascido com o crescimento e expansão algodoeira, tornando-se um centro
que comprava o ‘’ouro branco”, já tinha escola, mercado, poço tubular,
capela, tanques dágua, para abastecimento cia população”.
Ele ainda afiima que o desenvolvimento, com a circulação de
caminhões carregados de algodão, naquelas estradas carroçais, já inspirava
as mocinhas daquela época que cantavam assim:
“OH coisa boa
Só é namorar
Com chofer de caminhão
Quando vem de Parazinho
Carregado de algodão”.

Percebe-se que, na época, a vida das pessoas da Região estava


impregnada pelo progresso do algodão. Diz ainda o mestre Câmara Cascudo
que essa expansão da mal-vácea se deu pelo “impulso dinâmico de João
Severiano da Câmara”.

Baixa-Verde | Raízes da nossa história | 157


158 | Baixa-Verde | Raízes da nossa história
5 - OS CÂMARAS DE ASSUNÇÃO E DE CAUAÇU
Havia, na Assunção, outra família Câmara, constituída de três irmãos:
Joaquim Câmara, Rebouças Câmara e Jaime Câmara, filhos todos de Joaquim
Câmara. Este, segundo João Maria Furtado, no seu livro “VERTENTES”, tinha
uma bolandeira para o descaroçamento de algodão, instalada em Assunção.
Na época, era um próspero povoado, com bom comércio. Na década de 20,
esse industrial mandava um de seus filhos cursar a Faculdade de Agronomia.
Este filho, chamado Joaquim Câmara Filho, terminou o curso superior de
Agronomia e emigrou antes de 1930 para Goiás, onde se radicou, ocupando
cargos importantes, como Secretário de Estado.
A escritora Alcyone Abrahão, no seu trabalho “Os Irmãos Câmaras”, citado
por Gumercindo, afirma que todos os irmãos Joaquim, Rebouças e Jaime ‘’saíram
do seu Rio Grande cio Norte impelidos pela fibra daqueles que nasceram para
construir, inovar e ajudar’’.
Na verdade, as notícias que se tem, é que radicaram-se em Goiás,
cresceram como empresários e políticos, honrando as funções assumidas com
dignidade e capacidade de trabalho.
É importante que não confundamos “Os Câmaras de Baixa-Verde”
com “Os Câmaras de Assunção e Cauaçu”. “Os de Baixa-Verde” são: João
Severiano da Câmara, (Vanvão), Jerônimo Severiano da Câmara (Loló),
Alexandre Severiano da Câmara (Xandu) e Antônio Severiano da Câmara.
Ainda existe hoje, intacta, a casa em Cauaçu, onde nasceram os três
irmãos, filhos do velho Joaquim Câmara.
Algumas pessoas mais velhas, parentes da família Câmara de Cauaçu,
afirmam que as duas famílias têm um mesmo tronco genealógico, mas, na
verdade, não sabem explicar, exatarnente, o grau de parentesco entre elas.

Baixa-Verde | Raízes da nossa história | 159


160 | Baixa-Verde | Raízes da nossa história
6 - EMANCIPAÇÃO DO MUNICÍPIO, SEU
PREFEITO, VIGÁRIO E JUIZ
Por força da Lei n.°_697 de 29 de outubro de 1928, Baixa-Verde era
desmembrada de Touros, Taipu e Lages”, dando-se, desse modo, a sua
emancipação, conseguindo maioridade como Município.
Instalado o Município em 1.° de janeiro de 1929, o seu primeiro
Prefeito tomava posse, o industrial João Severiano da Câmara, e com ele os
Intendentes Antônio Jus tino de Souza, Pedro Baião, Genésio Oliveira, Domingo
Romano, José Soares Belchior e Manuel Maurício da Silva.
Baixa-Verde, com a posse do Prefeito, passou a ter, também, um Juiz
de Direito, o Dr. Sebastião Fernandes, que pertencia à Jurisdição de Ceará-
Mirim.
A freguesia (Paróquia), segundo o mestre Câmara Cascudo, no seu
livro, “História do Rio Grande do Norte”, foi criada por ato diocesano de 13
de novembro de 1929. Conforme o documento histórico da Paróquia Nossa
Senhora Mãe dos Homens, o Padre Celso, o 1.° pároco, chegou em Baixa-
Verde no dia 22 de novembro de 1929 e tomou posse no dia 24 do mesmo
mês, dia da instalação da freguesia. Sendo recebido solenemente pelo então
Prefeito Sr. João Câmara e um grande número de fiéis. No dia 26 de novembro,
realizou-se uma reunião com a presença do Prefeito e doze homens de grande
influência na cidade, para discutirem a construção da nova igreja matriz. Nessa
reunião, organizou-se um Conselho responsável pelas obras da construção.
Estava assim iniciada a luta pela nova igreja matriz.
Depois de 6 anos da emancipação, em 11 de junho de 1935, com a
Lei Estadual n.° 852, Baixa-Verde conseguia sua comarca, tendo como seu
primeiro Juiz de Direito, o Dr. João Maria Furtado, filho da terra. Homem
probo e grande jurista.

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7 - A REVOLUÇÃO DE 1935 EM BAIXA-VERDE
Como se sabe, a Intentona Comunista, deflagrada pela Aliança Nacional
Libertadora, no Brasil, começou em Natal, na noite de 23 de novembro de
1935. Os sargentos e soldados do 21.” Batalhão de Caçadores lideraram a re”
volta, prendendo os seus oficiais e dominando, após 19 horas de luta, a Polícia
Militar, segundo afirma a “História do Brasil vol. III - Bloch Editores”.
O governador do Estado, na época, era Rafael Fernandes, que,
acompanhado de poucos auxiliares, conseguira refugiar-se em casas de amigos
em Natal, conforme afirmação de Dr. Aldo Fernandes numa entrevista ao
programa “Memória Viva” da TVU.
Os revoltosos abandonaram Natal quando tiveram a notícia de que o
20.” Batalhão de Caçadores de Alagoas c a Polícia da Paraíba se preparavam
para invadir o Estado do Rio Grande do Norte em defesa da ordem.
Esse movimento revolucionário da esquerda estendeu-se para alguns
municípios do Estado, chegando em Baixa-Verde de forma violenta. Houve
um verdadeiro vandalismo contra as lojas da Firma João Câmara e de outras
suas vizinhas, como a de Pedro Baião. Derrubaram suas portas, saqueando
todo tipo de mercadorias. Segundo depoimentos de pessoas que
presenciaram o fato, na época, os insur retos jogavam fardos, rolos de tecidos
c outros tipos de mercadorias no meio da rua, e algumas pessoas do município
se aproveitavam disso, levando rolos e rolos de tecido para suas casas. Muitos
fardos de tecidos foram jogados nas águas do Açudinho e do Açude Grande
pelos comunistas.
Prenderam muitas pessoas da cidade, colocaram, à forca, bandeiras
vermelhas nas casas das famílias indefesas. Muitas dessas famílias refugiaram-
se, às pressas, e em pânico, em casas de pessoas conhecidas no Matão,
Assunção, Morada Nova e em outros lugarejos do município. O Sr.
Hermenegildo Urbano de Araújo, irmão do meu sogro, foi uma dessas pessoas
que foram presas injustamente e sem razão alguma pêlos comunistas.
A atual Praça Baixa-Verde fora interditada, e em cada embocadura das Ruas,
Capitão José da Penha, Padre João Maria, Assunção, Dr. Antônio Proença e o
Dr. João Pessoa, havia grupos de comunistas armados de fuzis e até de
metralhadoras, segundo depoimentos de pessoas que estavam presentes.
Não houve mortes, mas muitos maus tratos, humilhações, desrespeito e
anarquia de todo tipo.

Baixa-Verde | Raízes da nossa história | 163


Contam que João Câmara, depois de tudo, chegara em Baixa-Verde
fardado de Coronel do Exército, procurando restabelecer a ordem e disciplina.
Vinha com toda autoridade delegada para tomar qualquer resolução. Ele
pertencia ao partido do governador Rafael Fernandes.
Depois de acalmar tudo, vieram as perseguições políticas. Havia
inicialmente, uma versão de que o movimento teria sido comandado pelo
partido de Mário Câmara e Café Filho, visando depor o governador Rafael
Fernandes, mas, na verdade, não fora isso. O movimento armado havia sido
iniciativa de Carlos Prestes, chefe do comunismo no Brasil.
Na época, havia, em Baixa-Verde, muitos partidários de Mário Câmara, como
também, simpatizantes do Comunismo que apoiaram aquele na sua campanha
política. E muitos desses seguidores foram acusados de culpados pelo que
houve de desordem e saque na cidade.
Alguns foram perseguidos sem, na verdade, terem participado da
revolta, só porque se sabia que eles eram correligionários de Mário Câmara e
tinham certa liderança.
Dizem que o Sr. Antônio Justino de Souza, ex-prefeito do município,
compadre de João Câmara, por pertencer ao partido de Mário Câmara, foi
perseguido a ponto de ter que se retirar de Baixa-Verde às pressas, para não
sofrer a humilhação de ser preso.
Seu filho, Daniel Justino de Souza, disse-me que, quando João Câmara
estava doente e prestes a morrer, havia feito uma visita a seu pai, em carro
dirigido pelo Sr. Mário Antunes. E, com a visita, seu pai ficara emocionado
pelo gesto de João Câmara.
Outra figura ilustre, vítima dessa perseguição, fora Dr. João Maria
Furtado, juiz de Direito da Comarca de Baixa-Verde naquela época.
Segundo depoimento dele no seu livro “VERTENTES”, estava
veraneando com sua família na praia de “Cajueiro”, quando fora de chofre
intimado por um destacamento do exército vindo de Baixa-Verde. E, em
seguida, era levado escoltado para essa Cidade. Assim, foi preso, demitido,
processado e perseguido sem ter participado do levante vermelho e sem culpa
processual. Toda essa repressão comandada por seus inimigos, só porque ele
era amigo do Político Café Filho, que estava, na época, derrotado.

164 | Baixa-Verde | Raízes da nossa história


UM PREÂMBULO SOBRE O HOMEM
Natal e todo o Rio Grande do Norte se enlutavam com a morte
inesperada de João Severiano da Câmara, em 12 de dezembro de 1948.
Desaparecia um semeador de energias, empreendedor da agricultura, da
pecuária, do comércio e indústrias. Forte e bom como um cavaleiro andante,
sempre buscando descobrir novas formas de produzir em favor da economia
do Estado. Na época, era uma das maiores fortunas pessoais do Rio Grande
do Norte. Sua empresa tinha a maior área coberta destinada ao
beneficiamento de algodão em todo Brasil. Ia instalar a maior prensa do
mundo. Dono de uma das mais perfeitas organizações industriais e comerciais
do Nordeste. Suas atividades empresariais já influenciavam direta e
indiretamente todos os municípios do nosso Estado.
Foi Intendente de Taipu e Prefeito de Baixa-Verde. Deputado Estadual,
presidente e fundador do Partido Social Democrático e Senador da República.
Todos os homens, que tiveram o privilégio de conhecê-lo, deram o
seu depoimento sobre a figura incomparável do grande homem, evocando
as batalhas de irresistível brilho, a confiança inalterável no fundamento da
justiça e da bondade, a palavra estimuladora e pronta para todas as iniciativas
dignas, o interesse carinhoso em ouvir e animar os sonhos das pessoas que o
procuravam.
Dos homens de sua geração, no Estado, foi um dos maiores pela
atividade imensurável, pela tenaz energia construtora, refratária ao desânimo,
e pela fortaleza de sua força de vontade férrea. Na verdade, ele reunia as
principais qualidades dos grandes homens: inteligência aguda, força de
vontade férrea e capacidade realizadora.
João Câmara, sem ter tido mais do que a instrução primária,
aparentava contudo o contrário, dando a impressão visível de quem recebera
ensinamento no mais elevado grau. Surpreendia a todos sua maneira clara
de ver as coisas, a solução pronta que tinha para os assuntos que eram da
área de suas atividades. Tinha uma visão larga dos empreendimentos que
enfrentava. Quero crer que ele, apesar de sua inteligência, não seria nunca
um intelectual, porque nasceu para a luta dos negócios. Seu labor era pensar
logo e realizar logo. A sua vida era o comércio, a agricultura e a indústria. Era
o empreendedor nato, predestinado aos negócios. Envolvia-se em política
por contingências do que por interesses de cargos. Não precisava disso. Pelas

Baixa-Verde | Raízes da nossa história | 165


informações fidedignas que tenho, nunca abrira um livro de literatura para
ler. Mesmo não sendo assim afeiçoado às letras, foi, não há dúvida, antes de
tudo um grande literato do trabalho, construindo obras empresariais que
serviram de orgulho para todos os norte-riograndenses. Foi, na verdade, um
arquiteto primoroso do trabalho que soube muito bem cinzelar a mais
importante das obras que o imortalizou: o exemplo de operosidade e
dignidade.
Aprendeu e cursou a universidade do trabalho. Pobre, erguia-se lentamente
no esforço pessoal, construindo, dia a dia, o seu mundo. Como pequeno comerciante
amplia a rede de uma organização modelar e leva seu nome para a primeira fila da
classe empresarial. Torna-se grande sua firma, multiplicando-se em sucursais,
assimilando a técnica mais moderna de produção e vendas, erguendo seu nome
como homem bem sucedido no mundo da indústria.
Depois de 1930, João Câmara era um dos líderes mais prestigiados
pelo povo e mais admirado pêlos seus companheiros de profissão. Simples,
de sedutora elegância moral, sempre defendeu, durante sua vida, a
necessidade de maior fixação de capitais no Rio Grande do Norte, opondo-se
à evasão dos lucros e drenagem dos saldos para outras atividades fora do
nosso Estado.
Tudo quanto ganhava reinvestia na terra que lhe dera a riqueza. E
então, a sua terra Baixa-Verde tinha a prioridade nesses reinyestimentos.
No quadro dos negócios, há um avanço para o segmento industrial.
Fascinado pêlos modelos paulistas, João Câmara dedica-se à batalha industrial,
tornando-se naturalmente um técnico, com uma intuição soberba de todos
os problemas.
Os inúmeros edifícios se espalharam, fazendo-o um nome vitorioso
como uma legenda imbatível, inscrita no frontão das fábricas, das Usinas,
dos armazéns e escritórios.
O empreendedor entusiasta de um dos capítulos mais vivos da história
económica do nosso Estado, João Câmara, a réplica do respeitável Juvino
Barreto, sabia como ninguém utilizar suas reservas maravilhosas de resignação
e de confiança para iluminar os dias penumbrados da adversidade e da luta
sem trégua.
Muitos dos seus conterrâneos o viram em plena tormenta, sereno,
enfrentando o vendaval que a outro enlouqueceria, viram-no quase voltar à
estaca zero. Viram-no recomeçar, teimoso, tranquilo, confiando, subindo de
degrau a degrau, num escalonamento que valorizava sua surpreendente

166 | Baixa-Verde | Raízes da nossa história


capacidade criadora. Nada o fez esmorecer. Nada o impediu de tornar-se uma
força econômica respeitável em todo o Nordeste brasileiro.
Os que o conheceram em vida terão que fazer justiça à sua inteligência,
à sua espontânea e natural educação social, às graças do seu espírito
humorado, à sua grande tenacidade de trabalho e ao seu enorme bom senso.
O industrial a serviço da economia do Rio Grande do Norte,
distribuidor de riquezas e ânimos, difundindo financiamentos a quanto de
útil surgia diante de sua perscrutadora operosidade, João Câmara era um
homem de visão macro e de uma capacidade criadora fora do comum.
Como homem político crescia seu nome entre os grandes da época.
Fundou o Partido Social Democrático. Esse é mais um capítulo de sua
admirável história. O industrial, empresário, o homem da vida prática, passava
a ser chefe político de notável prestígio popular, conquistando, numa onda
de irresistível simpatia, os corações e as almas mais independentes e
rebeldes.Com seus grandes companheiros de chefia, conseguiu levar seu
Partido às mais brilhantes vitórias, sagrando-se indiscutivelmente num valor
de serenidade e de visão aguda. Constituía-se, nesta altura, uma coluna mestra
na agremiação que ajudaria a erguer, manter e consolidar com sua inteligência
e seu devotamento ímpar.
Diante do seu corpo inanimado, havia a unanimidade natural de
opinião: foi um forte e um homem bom. A fortaleza de sua bondade era
reconhecida pelo povo norte-riograndense. Nunca acusou ou apontou réus
senão para perdoá-los, qualidade dos homens de bom coração.
Esses valores repercutiram no coração de todos riograndenses do
norte. A flores incontáveis, que escondiam o féretro onde o Senador João
Câmara dormia o seu último sono de homem justo, vinham de todas as mãos,
adversárias e correligionárias.
Não há dúvida de que, na época, nosso Estado perdia uma das grandes
alavancas do desenvolvimento económico. Sem ele o Estado se tornava mais
pobre. Era um grande homem a menos na conjuntura económica e política
do nosso Estado. Já era cotado, por unanimidade dos políticos adversários e
correligionários, como o futuro governador do Rio Grande do Norte.
O seu grande exemplo ficou na lembrança de todos norte-
riograndenses como homem de uma capacidade de trabalho indescritível,
de muita dignidade e de espírito conciliador.
Alguns tentaram denegrir sua imagem de homem honesto, mas
perderam diante de uma avalanche de provas contundentes em seu favor.

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168 | Baixa-Verde | Raízes da nossa história
SUA TERRA NATAL
Em fins do século XVII, Taipu era uma das regiões mais densamente
povoadas da Capitania do Rio Grande do Norte. Em l0 de março de 1891,
ainda vila, tornou-se município, desmembrando-se de Ceará-Mirim pelo ato
do governador da Província. Passou a ser cidade em 29 de março de 1938.
Sua capela de Nossa Senhora do Livramento transformou-se em Freguesia a
18 de abril de 1913.
O município está encravado na Zona do Agreste. Sua sede municipal
fica a 47 quilómetros de Natal com as seguintes coordenadas geográficas: 5°,
37°, 06" de latitude sul e 35° 35" 44" de longitude oeste Greenwich. A altitude
da sede é de 41 metros. Com clima seco e salubre. Tinha uma área de 942
quilómetros quadrados. Suas atividades econômicas mais importantes são
agricultura e a pecuária. É um município rico de várzeas férteis.
Em 1742, o território era conhecido como Taípu-Grande, e sua
população disseminada por grande número de propriedades rurais, que
cultivavam cereais.
Na época do nascimento de João Câmara, havia no município de Taípu,
as povoações de Poço Branco ( que hoje é município), Barreto ( hoje município,
chamado de Bento Fernandes), Gamileira, Contador, Boa Vista e Pitombeira.
Passagem Funda era tão perto de Boa Vista, daí ser confundida com esta
povoação, ficando a três quilômetros da sede do município de Taipu. E foi,
em Boa Vista, pequenina povoação que nasceu João Severiano da Câmara,
em 8 de março de 1895. Filho do Sr. Vicente Rodrigues da Câmara e Maria
Rodrigues da Câmara.

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SEU AMBIENTE DE INFÂNCIA
O ambiente de João Câmara na sua infância não foi diferente daqueles
de outros meninos existentes nas proximidades do município de Taipu. Seu
pai, Vicente Rodrigues da Câmara, não era homem rico, tinha um sítio onde
trabalhava com seus filhos na agricultura e criações. Vicente era espirituoso,
gostava de conversar, perguntador incansável, não era indiferente à política
local, participava de movimentos partidários em Taipu. Seus filhos, António
(Tonho), Alexandre (Xandu), Jerônimo (Loló) e João (Vanvão) tiveram um lar
de respeito e de união.
De todos os filhos, João Câmara era o mais de espírito reservado, o
que lhe permitia, provavelmente, momentos para meditar, sonhar e arquitetar
seus planos futuros. Brincou como os outros meninos da época. Participou
dos tipos de jogos existentes para os meninos de sua idade. Era um menino
magro, mas vigoroso, robusto e de olhos perguntadores. Seu mestre, Joaquim
Azevedo Ferreira Nobre, veio de Natal como professor. Com este João Câmara
aprendera a cartilha, taboada e as quatro operações de conta. E estudou o
quinto livro de leitura de Felisberto de Carvalho.
Sua mãe ensinou-lhe as orações: Padre Nosso, Ave Maria, Salve Rainha
e o Creio em Deus Padre.
Seu último professor foi o Sr. Joaquim Guedes de Fonseca, no
Maracujá.
Já cedo, mostrava seu espírito de liderança, mandando nos irmãos,
primos e outros meninos dos arredores do sítio de seu pai. Aos doze anos de
idade, era um rapazinho ereto, de ombros largos, sério e sem risadas. Era de
espírito retraído e gostava de ouvir os mais velhos.
Aos quinze anos, já tinha uma estatura normal dos brasileiros, uni
metro e sessenta e cinco. Seu pai, Vicente, percebendo seu tirocínio, o
encaminhou para Pitombeira, propriedade do seu padrinho de crisma, onde
ele trabalharia como balconista de loja.
Vê-se que seu estudo não foi muito. Contudo sua vontade de vencer
na vida e inteligência o tornariam um campeão dos negócios.

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SEU PRIMEIRO E SEGUNDO EMPREGO
É claro que, para João Câmara ter conseguido essa fortuna fabulosa,
foi preciso que ele aprendesse e se preparasse para isso.
E pode-se afirmar que seus dois empregos foram de real importância
para a iniciação dos seus empreendimentos.
Seu primeiro emprego começou na Loja do seu padrinho de crisma,
João Gomes da Costa, em Pitombeira, ganhando 50$000 mensais, aos quinze
anos de idade. O segundo, mais ou menos, aos dezessete anos, a convite do
seu cunhado, Virgílio Benfica, vai trabalhar na Inspetoria contra as Secas, em
Açu.
Não há dúvida de que esses empregos lhe deram um cabedal de
conhecimentos importantes para sua vida de negócios. Com estes, João
Câmara conseguiu a preparação básica para desenvolver suas atividades
económicas.
Mais adiante iremos conhecer em detalhes a respeito do seu
aprendizado como empregado, quando falarmos sobre sua universidade do
trabalho.

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COMO JOÃO CÂMARA ENCONTROU
BAIXA-VERDE DE Dr. PROENÇA
Em 6 de junho de 1914, quando João Câmara chegava com seu irmão,
Jerônimo Câmara (Loló), em Baixa-Verde, esta era um simples povoado com
poucas casas ao redor da Estacão Ferroviária. De frente para esta existia o
barracão de Alfredo Edeltrudes, vendendo aos cassacos víveres e outras
mercadorias de consumo. Próximo da Capelinha, que Dr. Proença construiria
em homenagem à Nossa Senhora Mãe dos Homens, havia a bodega de José
Antunes de França e na esquina outra de Luiz Cordeiro. Isso resumia o
comércio do povoado.
O ambiente e o nível cultural dos principais moradores eram bons,
comparando-se com outros povoados da época. Como ainda continuasse a
construção da Estrada de Ferro, estendendo-se para Lages, Dr. Antônio
Proença permanecia residindo em Baixa-Verde. Segundo algumas pessoas
idosas de sua época, ele era um homem gordo, de andar lento e uma boa
pessoa. Gostava de criar cavalos de sela e vacas de alta linhagem genética.
Plantava algodão e outras culturas de subsistência. Promovia grandes festas
na sua casa, reunindo os mais importantes moradores da vila.
Mais dois engenheiros, também contratantes da Estrada de Ferro,
residiam no povoado, Otávio Pena, baixinho, “olhos brilhantes sob a armação
de um pincenê espelhante”, filho do Presidente da República, Afonso Pena,
que havia inaugurado a Estrada de Ferro. E outro engenheiro, Eduardo Parisot,
de estatura alta, magro e cortês.
Morava, também, em Baixa-Verde, o técnico Fernando Gomes Pedroza
que dirigia o Campo Experimental de Algodão no Riacho Seco, como
funcionário do Ministério da Agricultura. Aliás, foi o primeiro Campo
Experimental de Algodão do Rio Grande do Norte. Era um técnico com uma
bagagem de conhecimentos agronómicos bastante modernos para a época.
Havia estudado na Inglaterra e aprendera, além das novas técnicas de cultivo
do algodão, os meandros do mercado dessa malvácea em LIVERPOOL.
Duas turmas de trabalhadores ocupavam-se da estrada, uma em
Melancia e outra nas pedreiras do Torreão. Toda essa gente vinha gastar seu
dinheiro em Baixa-Verde. A povoação não tinha ainda ruas, a não ser os
alinhamentos riscados pêlos trabalho de Dr. Proença. A vila vivia às escuras,
ainda não existia luz elétrica.

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A dez quilómetros de Baixa-Verde, havia o Amarelão, onde os
Mendonças moravam há mais de século sob as normas de uma sociedade
tribal. Segundo Câmara Cascudo, eram mestiços de tupis que fugiram dos
aldeiamentos que viraram vilas. Esses descendentes da indiada tupi tinham
um chefe. Suas casas eram quase choupanas feitas de taipa. Não se
misturavam com os moradores circunvizinhos. Permaneciam sempre na
aldeia, sua maloca ancestral e tradicional. Eles eram grandes fornecedores
da alimentação indígena de Baixa-Verde, oferecendo veados, peba, tatu, mel
de jandaíra, banha de cascavel, cotias, mocós, couros de bichos etc. nas portas
e na feira, diante da “venda” de João Câmara.
Foi nesse ambiente de engenheiros, técnicos, pequenos comerciantes,
cassacos e Mendonças que João Câmara se instalou com sua pequena
mercearia, com três portinhas estreitas que faziam entrada para a sala. Esta
era atravessada, em sua extensão, por um balcão corrido. Além dessa sala,
havia um quarto com duas redes, uma para Vanvão e outra para Loló. Este
quartinho também servia de cozinha. Era Loló que cuidava de cozinhar,
enquanto Vanvão despachava os fregueses. O primeiro freguês que apareceu
para comprar foi o negro João Miguel.
– “Vou comprar uma coisa para dar sorte a esta casa - disse o negro
risonho”. Colocou o biscoito na boca e pagou vinte réis. Com essa quantia de
réis, começava o desabrochar da multiplicação dos futuros milhões de
cruzeiros que viriam construir a grande riqueza de Vanvão.

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O VERDADEIRO FUNDADOR DE BAIXA-VERDE

“A parcialidade dos homens


penumbra, às vezes, a
veracidade da História”
(Paulo Pereira dos Santos)

Já está na hora de nós baixaverdenses tirarmos a dúvida sobre quem


merece receber o título de fundador de Baixa-Verde. Pelo fato de o industrial
João Câmara ter sido a alavanca maior do desenvolvimento da economia
daquele município na época áurea de sua cotonicultura, seus habitantes do
período foram estimulados a considerar o industrial o fundador do povoado
baixaverdense. Mas isso aconteceu por falta de um historiador que contasse
ao povo como ocorreu, realmente, a fundação do povoado, sem sofrer as
influências da opinião da época que gravitava em torno do nome do
empreendedor João Severiano da Câmara. A influência desse empresário era
tamanha que, até alguns jornalistas norte-rio-grandenses, por ignorância ou
querendo agradar a opinião corrente da época, caiam na ingenuidade de
afirmar nos seus escritos a paternidade da fundação do povoado ao grande
industrial João Câmara. Nós, pesquisadores, temos que, à luz da pesquisa
histórica, mostrar, honestamente, o verdadeiro fundador da referida
povoação.
Como sabemos, inaugurada a Estação Ferroviária (provisória), num
vagão de trem, no dia 12 de outubro de 1910, pelos construtores da estrada
de ferro, com a presença do governador Alberto Maranhão, iniciava, assim,
um marco que daria origem à vila e, posteriormente, à cidade de Baixa-Verde.

A empresa construtora da Rede Ferroviária tinha como alguns dos


seus donos, o Dr. António Proença e seu irmão, este veio logo já na inauguração
da Estação e aquele chegava em 1912, acometido de uma enfermidade grave
para a época, procurando clima sadio que lhe devolvesse a saúde. Logo se
deu bem com o nosso clima e ficara bom, resolvendo residir, definitivamente,
na nova terra. Entusiasmou-se com a vocação do solo agrícola e com o clima,
propícios à criação e à lavoura, sobretudo, do algodão. Daí, comprara uma

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parte da data de terra na sesmaria do Torreão, onde desenvolvera a criação e
as culturas agrícolas. Construíra uma casa residencial próxima a Estação Férrea,
como engenheiro, traçou a planta inicial da futura vila e cidade; erguera, com
ajuda dos habitantes, a capelinha, esta fruto de uma promessa, feita no
momento aflitivo de sua vida, quando pediu socorro a Nossa Senhora Mãe
dos Homens para não morrer afogado no Rio São Francisco; perfurara um
poço e implantara com outros a cultura do algodão no Riacho Seco, valendo
lembrar também que sua empresa construtora da estrada de ferro foi
responsável pela construção do açude do Torreão.
Tudo isso explica e justifica que o verdadeiro fundador de Baixa-Verde
foi o Dr. António Proença e não João Câmara como algumas pessoas querem.
Basta dizer que este industrial só chegou em Baixa-Verde em 1914, quando
Dr. António Proença já fazia mais de dois anos que morava no povoado. Não
se pode negar que João Câmara foi o maior dinamizador do desenvolvimento
económico do município de Baixa-Verde, um grande político norte-rio-
grandesnse e o primeiro prefeito da terra, mas também é impossível negar
os méritos de Dr. António Proença como o legítimo fundador de Baixa-Verde.
Segundo os dicionários, fundador é aquele que inicia, começa e lança
as bases de uma obra. Sem dúvida, o que o Dr. Proença fez em favor do referido
povoado o credencia, perfeitamente, ser o seu verdadeiro fundador.
Tenho o maior respeito por João Severiano da Câmara, a ponto de ter
tido a honra de pesquisar sua vida e colocá-la em livro, mas temos que fazer
justiça.

(Publicado em “O Jornal de Hoje” em 2003)

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CONTRA-CAPA

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CAPA

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