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(RE)LENDO “HISTÓRIA DE CAMPINA GRANDE” DE ELPÍDIO DE ALMEIDA: UMA

CONSTRUÇÃO HISTÓRICA DA “GRANDE” CAMPINA

REGINA PAULA SILVA DA SILVEIRA


UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE
PRÓ-REITORIA DE PÓS-GRADUAÇÃO
CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS, LETRAS E ARTES
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA – MESTRADO
ÁREA DE CONCENTRAÇÃO: HISTÓRIA E ESPAÇOS
LINHA DE PESQUISA: CULTURA, PODER E REPRESENTAÇÕES ESPACIAIS

(RE)LENDO “HISTÓRIA DE CAMPINA GRANDE” DE ELPÍDIO DE ALMEIDA: UMA


CONSTRUÇÃO HISTÓRICA DA “GRANDE” CAMPINA

REGINA PAULA SILVA DA SILVEIRA

NATAL,
SETEMBRO DE 2014
REGINA PAULA SILVA DA SILVEIRA

(RE)LENDO “HISTÓRIA DE CAMPINA GRANDE” DE ELPÍDIO DE ALMEIDA: UMA


CONSTRUÇÃO HISTÓRICA DA “GRANDE” CAMPINA

Dissertação apresentada como requisito parcial para


obtenção do grau de Mestre no Curso de Pós-
graduação em História, Área de Concentração em
História e Espaços, Linha de Pesquisa cultura, poder
e representações espaciais, da Universidade Federal
do Rio Grande do Norte, sob a orientação da Profa.
Dra. Margarida Maria Dias de Oliveira.

NATAL,
SETEMBRO DE 2014
REGINA PAULA SILVA DA SILVEIRA

(RE)LENDO “HISTÓRIA DE CAMPINA GRANDE” DE ELPÍDIO DE ALMEIDA: UMA


CONSTRUÇÃO HISTÓRICA DA “GRANDE” CAMPINA

Dissertação aprovada como requisito parcial para obtenção do grau de Mestre no Curso de Pós-
graduação em História da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, pela comissão formada
pelos professores:

_________________________________________
Profa. Dra. Margarida Maria Dias de Oliveira
Orientadora

_________________________________________
Prof. Dr. Luciano Mendonça de Lima
Avaliador Externo

_________________________________________
Prof. Dr. Francisco das Chagas Fernandes Santiago Junior
Avaliador Interno

_________________________________________
Prof. Dr. Helder do Nascimento Viana
Avaliador Interno

Natal, ____de__________________de________
AGRADECIMENTOS

Essa dissertação marca o fim de mais um ciclo que fecho em minha vida e durante esses
dois anos tenho muito a agradecer. Em primeiro lugar, agradeço aos meus pais, cuja dedicação e
amor foram fundamentais para eu tornar-me o que sou hoje. Minha mãe moveu “mundos e
fundos” para me dar o melhor que ela pôde, por isso não tenho palavras para agradecê-la, e
mesmo que tivesse não seria o bastante. Meu pai, com sua sabedoria, me ensinou muito sobre a
vida e também fez o que pôde para que eu realizasse os meus sonhos. Obrigada por tudo!
Agradeço ao apoio dos familiares, Rossana e Walisson, muito obrigada pelo apoio e pela
acolhida que vocês me deram, sem vocês os primeiros meses em Natal seriam bem mais difíceis;
minhas primas/irmãs Lúcia, Sandra, Elisabete e Adriana, que sempre estiveram presentes em
minha vida; minha tia/mãe Luiza, por ter me criado com tanto amor e dedicação; minha avó
Regina (in memoriam); e meu tio Geraldo (in memoriam); esses últimos, onde estiverem, estão
felizes, tenho certeza, por essa minha conquista.
Tarciano, meu companheiro e amigo, que está ao meu lado todos os dias, me incentivando,
e que nos momentos mais difíceis não me deixou desistir. Obrigada pela dedicação,
compreensão, confiança, paciência. Sem ele eu não teria forças para acreditar em mim e lutar
pelos meus sonhos.
Alisson, meu nego lindo amigo/irmão de todas as horas, obrigada por fazer parte da minha
vida e ajudar a deixar ela mais colorida e feliz.
A todos que fizeram parte da turma 2012.1 do PPGH-UFRN. A melhor turma que alguém
pode ter. Obrigada pelos incentivos, pelas palavras de conforto e pelas muitas risadas que demos
juntos.
Agradeço também a CAPES que patrocinou essa pesquisa, o que foi fundamental para eu
me manter no curso.
Aos professores Santiago e Juliana, pelas pertinentes colocações que me ajudaram a
encontrar o rumo deste trabalho.
Ao senhor Mário Araújo, pela generosidade de me receber em sua casa e me ajudar a
entender melhor quem foi Elpídio de Almeida.
Não poderia deixar de agradecer ao professor Luciano Mendonça, pois sem ele esse
trabalho não existiria. Foi ao lado dele que dei os primeiros passos na vida acadêmica. Só tenho a
agradecer toda a sua generosidade. Apesar da distância, continuo admirando, respeitando e
seguindo seus valiosos ensinamentos.
Mas o meu agradecimento maior vai para a minha orientadora: Margarida Maria Dias de
Oliveira, uma pessoa exemplar, uma profissional competente e acima de tudo humana, que desde
o nosso primeiro contato me acolheu. Não tenho palavras para agradecer a paciência, o carinho, a
generosidade e o respeito que teve comigo. Eu tive muita sorte de nossos caminhos terem se
cruzado. É um exemplo que eu levo para minha vida. Obrigada por tudo!
RESUMO

Elpídio de Almeida (1893-1971) foi um intelectual que participou ativamente da sociedade


campinense no século XX. Foi médico, político e membro do Instituto Histórico e Geográfico
Paraibano (IHGP). Às vésperas do primeiro centenário de Campina Grande, escreveu “História
de Campina Grande”, que se tornou um clássico da historiografia da Paraíba. Nessa obra, o autor
volta sua escrita para a construção de uma história de enaltecimento da cidade. Esta dissertação
tem como objetivo analisar o livro “História de Campina Grande” para compreender como o
IHGP e o lugar social de Elpídio de Almeida influenciaram sua escrita, além de investigar qual a
noção de história que norteia a referida obra a qual Campina Grande foi construída a partir de sua
representação da cidade. Para tanto, utilizamos as contribuições teórico-metodológicas de Michel
de Certeau, que em “A escrita da História” mostra que a escrita histórica é uma prática que surge
a partir do lugar social e da instituição de saber aos quais pertence o historiador.

Palavras-chave: Campina Grande. IHGP. História de Campina Grande.


LISTA DE IMAGENS

Imagem 1 - Projeto do monumento em homenagem aos 150 anos de Campina Grande.


Imagem 2 – Banner alusivo às comemorações de 150 anos de Campina Grande.
Imagem 3 – Capa do segundo fascículo da edição especial “Campina Grande, 150 anos à frente”
do “Jornal da Paraíba”.
SUMÁRIO

INTRODUÇÃO .......................................................................................................................... 9
CAPÍTULO 1:CAMPINA GRANDE, O IHGP E OS IDEAIS DE ELPÍDIO DE ALMEIDA ... 15
1.1 A instituição de saber: o papel IHGP na construção de uma história para Paraíba ............ 17
1.2 A Campina Grande que Almeida viveu............................................................................ 23
CAPÍTULO 2:A ESCRITA DE ELPÍDIO DE ALMEIDA ........................................................ 39
2.1 - Ensaios para “História de Campina Grande”: os artigos que Almeida escreveu..............42
2.1.1 – Revista do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano (décadas de 30 a 50).............43
2.1.2 - Gazeta Campinense, Revista do IHGP e Revista Campinense de Cultura (década de
60)............................................................................................................................................44
CAPÍTULO 3: ELPÍDIO DE ALMEIDA E SUA “HISTÓRIA DE CAMPINA GRANDE”...... 59
3.1 Os métodos de escrita de Elpídio de Almeida .................................................................. 63
3.1.1 Tratamento dado às fontes ........................................................................................ 68
3.2 O fazer da Campina “grande” .......................................................................................... 75
3.2.1 Os grandes personagens da história de Almeida ........................................................ 75
3.2.2 Movimentos sociais na história de Campina Grande ................................................. 93
3.2.3 Os espaços da cidade ...............................................................................................101
CONCLUSÃO: A UTOPIA DE UMA CIDADE: “CAMPINA GRANDE 150 ANOS À
FRENTE”? ..............................................................................................................................110
REFERÊNCIAS ......................................................................................................................115
9

Introdução

Escrever a história significa atribuir aos anos a sua


fisionomia (Walter Benjamim).

Em 1964, Campina Grande, cidade do interior paraibano, completava seus primeiros cem
anos de emancipação política. Durante a década de 1960, vários setores da sociedade campinense
se engajaram para organizar a festa do centenário, que tinha uma dupla intenção: fazer
homenagens à cidade e (re)afirmar o discurso de que ela era grandiosa. Para tanto, as elites locais,
através do poder público, de memorialistas, de intelectuais e da imprensa, começaram (ou
continuaram) a mostrar, em livros, pronunciamentos oficiais, em matérias de jornais, em músicas
e em versos, a grandiosidade da cidade.
Um dos meios mais eficientes que esses grupos encontraram para demonstrar essa
grandiosidade foi a história, pois a partir dela se podia mostrar que, desde sua fundação, Campina
Grande estava destinada a ser grande. Para isso, uma produção historiográfica e memorialística
foi produzida, a fim de construir uma identidade histórica que justificasse essa grandiosidade.
O livro “História de Campina Grande”, de Elpídio de Almeida, surge nesse contexto. A
obra foi lançada em 1962 e nela o autor representa uma Campina Grande ideal, grandiosa desde
sua fundação e fadada ao sucesso. Almeida se insere no campo da historiografia tradicional que
foi produzida, principalmente via o Instituto Histórico e Geográfico Paraibano (IHGP), uma das
instituições de saber mais antigas da Paraíba e da qual o autor era membro.
Grande parte dos intelectuais do IHGP escreviam história com o interesse de construir um
discurso que possibilitasse mostrar a importância da Paraíba para o Brasil e para região que hoje
denominamos Nordeste. Nesse sentido, era necessário ressaltar a especificidade do lugar ao
escrever sobre os fatos e os personagens que esses homens julgavam ser importantes de sua
história, criando, assim, uma identidade para o povo paraibano e um passado para o estado.
Ao ler as obras dos intelectuais que fizeram parte do IHGP, como Elpídio de Almeida–
textos de fundamental importância para compreender o passado do Estado–, vemos como cada
história pertence a um tempo e essa historiografia feita pelo Instituto Histórico precisa ser melhor
analisada.
10

Na Paraíba, essa ainda é a história mais difundida na sociedade. Ainda existem muitos
textos que estão sendo produzidos atualmente e que têm esse traço tradicional, memorialístico.
Além disso, essa história com a ausência de crítica é a mais reproduzida na imprensa, nos
Institutos Históricos, nos discursos políticos, chegando até as escolas. Logo, ela tem uma grande
circulação e alcança um grande público, estando na memória da maior parte da população.
Ademais, são poucas as pesquisas acadêmicas sobre a temática. Ao realizarmos uma
investigação sobre trabalhos que tratassem da historiografia paraibana, encontramos duas
dissertações na UFPB: uma sobre Maximiano Machado e Irineu Pinto 1 e outra sobre Horácio de
Almeida2. Além dessas dissertações, conhecemos dois livros que tratam da historiografia
Paraibana. Um deles é “Intrepida Ab Origine: o IHGP e a produção da História local (1905-
1930)”, de Margarida Maria Dias de Oliveira, e “Histórias da Paraíba: autores e análises
historiográficas sobre o século XIX”, organizado por Ariane Norma M. Sá e Serioja R. C.
Mariano, o que mostra uma grande lacuna em estudos sobre a historiografia do estado.
Foi a partir das discussões empreendidas nas aulas da disciplina História de Campina
Grande, ministrada pelo professor Dr. Luciano Mendonça de Lima, na Universidade Federal de
Campina Grande, durante a graduação, pelos idos de 2010, e a partir de algumas conversas
informais em que o professor apontou a inexistência de estudos sobre o livro “História de
Campina Grande”, que nasceu o gosto pela história do município e esta pesquisa.
Nosso estudo busca diminuir essa lacuna na historiografia paraibana. Com este trabalho,
buscaremos também analisar melhor o discurso de grandiosidade de Campina Grande construído
por Almeida e pelas elites locais. Não negamos a importância da cidade para a Paraíba e região,
nem tampouco afirmamos que ela não teve um considerável desenvolvimento durante o século
XX, mas precisamos relativizar esse discurso de grandiosidade, pois ele parece atingir toda a
população campinense, e sabemos que isso é impossível.
Dessa forma, temos como principal fonte o livro “História de Campina Grande”. Diante
desse objeto de estudo, encontramos algumas problemáticas: Qual a noção de história que norteia
a escrita de Elpídio de Almeida? Qual Campina Grande foi construída a partir de sua
representação da cidade? Qual o contexto em que Almeida escrevia seus textos?

1
A dissertação, que foi defendida em 2009, tem como título “As Contribuições de Maximiano Machado e Irineu
Pinto para a construção da cultura histórica sobre o período holandês na Paraíba (1634-1654)” e foi escrita por
Hérick Dayann Morais de Meneses.
2
Esta dissertação foi defendida por George Silva do Nascimento em 2010 e tem como título “Pátrio-Biografia:
Horácio de Almeida e a sua história da Paraíba”.
11

Analisar o livro de Almeida nos leva a necessidade de entender o seu vínculo com o IHGP
a instituição de saber que fomentou o à Campina Grande que o autor viveu, logo, é preciso
entender a Campina das décadas de trinta, quarenta, cinquenta e sessenta, pois, além de Elpídio
de Almeida ser uma figura atuante na sociedade nessa época (fora um médico muito conhecido
em Campina Grande, além de ter sido prefeito por dois mandatos da cidade), esse também foi o
tempo no qual ele começou a escrever história, o que culminou com a publicação de seu livro.
Essa análise também nos faz buscar como fontes outros textos do autor que foram publicados na
“Revista do IHGP”, no jornal “Gazeta Campinense” e na “Revista Campinense de Cultura”.
Entendemos que o discurso construído por Elpídio de Almeida em seus escritos construiu
uma história para a cidade que mostrava que Campina Grande não era apenas grande, mas que
essa sua grandiosidade já podia ser vista em sua história, criando assim um destino manifesto
para a cidade. Esse discurso servia para diversos fins, principalmente para fins políticos.
Nossa pesquisa está inserida na área de História e Espaços. Estas categorias são
fundamentais para nosso trabalho, uma vez que temos o propósito de analisar como um espaço,
no caso uma cidade, é produzido pela escrita da história. Concordamos com Certeau quando ele
diz que os discursos, os relatos e a escrita da história organizam lugares, constroem formas de
ver, sentir e praticar o espaço (1998, p. 199), logo, a escrita produz espaços, que são resultados de
práticas.
Cada vez que se produz um espaço, seja física ou simbolicamente, como em uma escrita, o
produtor desse espaço carrega-o de subjetividades e de marcas próprias, para que os
consumidores o utilizem da forma que o produtor pensou. Para tanto, o produtor precisa criar
“estratégias”, pois segundo Certeau esse é o dispositivo capaz de produzir e impor um
determinado modo de apreender o espaço, pois a “estratégia” é:

o cálculo das relações de forças que se torna possível a partir do momento em que um
sujeito de querer e poder é isolável de um “ambiente”. Ela postula um lugar capaz de ser
circunscrito como um próprio e portanto capaz de servir de base a uma gestão de suas
relações como uma exterioridade distinta (CERTEAU, 1988, p.46).

No entanto, a partir do momento em que os sujeitos praticam o espaço eles criam “táticas”
que recriam esse espaço. Essa “tática” necessita do tempo, pois só é realizada quando se tem a
oportunidade, como Certeau diz: a “tática” é a “vitória do ‘fraco’ sobre o mais ‘forte’” (1998,
p.47). Ou seja, por mais que o espaço seja criado com determinados padrões a serem seguidos, os
12

consumidores burlam essa ordem e inscrevem um novo espaço, da maneira que mais lhes
convêm.
Assim, vemos que Elpídio de Almeida criou em seu livro estratégias para pôr ordem na
história da cidade. Por meio dessa estratégia, o autor estava buscando construir uma forma de
direcionar o olhar dos leitores para o que ele quer que esses sujeitos vejam. No entanto, a
recepção dessa escrita é recriada pelos consumidores, que se apropriam dela e a recriam, uma vez
que a partir do momento em que o autor lança o livro, o que está escrito não é mais só dele. Nós,
consumidores do livro/espaço que ele criou, desenvolvemos estratégias para entender e praticar
esse espaço, retirando dele interpretações que nem sempre eram aquelas que Almeida pensou
quando escreveu.
A partir da utilização de táticas e estratégias, é que se transforma o espaço em lugar, uma
vez que o lugar é o espaço praticado. O lugar é a ordem. É ele que determina os elementos de
coexistência, define posições e indica estabilidades. Elpídio de Almeida, em sua obra, criou um
lugar para Campina Grande a partir do momento em que instituiu uma ordem para a história da
cidade.
Vale salientar também que essas formas de praticar o espaço vão variar conforme a época
de cada consumidor. Assim, a nossa interpretação da obra de Almeida é o nosso olhar sobre a
obra, e esse olhar só foi possível de ser formado graças às condições de nossa época, como
também do nosso lugar social e da instituição de saber na qual estamos inseridos (CERTEAU,
2011).
Entendemos também que Elpídio de Almeida construiu sua obra a partir de dois pilares: a
instituição social da qual fazia parte e o lugar social ao qual pertencia. Pensar “História de
Campina Grande” como uma prática que está baseada nestes pilares só foi possível a partir das
contribuições de Certeau em “A escrita da história”. Nessa obra, Certeau faz um estudo sobre a
operação historiográfica e se pergunta o que é essa profissão e aponta que a história enquanto
operação é a “combinação de um lugar social, de práticas científicas e de uma escrita”
(CERTEAU, 2011, p. 47).
A proposta de Certeau é fundamental para nossa pesquisa, pois nos faz perceber que a
escrita da história é um produto do lugar social do autor. Desse modo, “História de Campina
Grande” tem relação direta e uma grande influência de seu “lugar” social, já que em sua obra
percebemos traços de um autor que fez parte da elite econômica, política e intelectual de
13

Campina Grande, uma vez que era formado em medicina, era membro do IHGP, se envolveu
com a política e construiu uma estreita relação com importantes políticos do estado e do Brasil.
“História de Campina Grande” também está entranhada de marcas da instituição de saber da qual
está vinculada, o IHGP, pois foi nessa instituição que Elpídio de Almeida aprendeu o métier da
história.
Metodologicamente, para realizarmos nossa escrita, realizamos uma leitura verticalizada de
“História de Campina Grande”, mapeamos o livro para perceber quais os temas que mais Elpídio
tratava em sua obra, quais os nomes que ele mais citou, quais os acontecimentos que ele
privilegiou. Realizamos essa mesma leitura nos artigos que ele escreveu e os cruzamos com a
obra para entender o que permaneceu e o que mudou na escrita de Elpídio de Almeida ao longo
dos anos de sua carreira como escritor. A partir dessas leituras e do cruzamento das fontes,
chegamos a alguns nomes, temas, lugares que consideramos pertinentes na obra e foi a partir
dessas chaves de leitura que organizamos nossa análise.
Nossa dissertação está organizada em três capítulos. No primeiro, buscamos entender o
“lugar” social e a instituição de saber que fomenta a escrita de Elpídio de Almeida. Para tanto,
fizemos uma contextualização dos fatos que ocorreram em Campina Grande entre as décadas de
1930 e 1960, as quais acreditamos foram decisivas na construção de ideal de cidade para o autor.
Não poderíamos deixar de analisar a atuação social e política de Elpídio de Almeida no
município durante esses anos. Além disso, também fizemos uma análise da influência do Instituto
Histórico e Geográfico Paraibano para a historiografia da Paraíba.
No segundo capítulo, nos concentramos na análise da escrita de Elpídio de Almeida. O
primeiro ponto abordado foi analisar os artigos publicados por Almeida no jornal “Gazeta
Campinense”, na “Revista do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano” e na “Revista
Campinense de Cultura”, a fim de buscar entender quais eram as preocupações de Almeida em
seus escritos antes de lançar seu livro, como também compreender qual a relação desses artigos
com a obra.
No terceiro capítulo, nos alongamos mais no número de páginas por nele estar a análise
propriamente dita de “História de Campina Grande”, que é o principal objetivo do nosso trabalho.
Mostramos como a obra se apresenta em suas três edições, como ela se insere na historiografia
tradicional através de seus métodos, da preocupação com as fontes e com a verdade histórica e,
14

por fim, empreendemos um estudo sobre qual a Campina Grande que Elpídio de Almeida
constrói em seu livro, quais os personagens, fatos e lugares que entram para sua história.
Na conclusão, nos remetemos à Campina Grande de hoje, que está às vésperas de seu
sesquicentenário. Para comemorar o aniversário, a administração municipal, a imprensa e o
Instituto Histórico de Campina Grande estão preparando algumas homenagens para a cidade.
Analisando essa realidade, percebemos que o discurso de grandiosidade de Campina Grande, tem
raízes históricas, teve seu provável inicio ainda no fim do século XIX e continua sendo (re)feito
até nossos dias. Cada época (re)inventou esse discurso a sua maneira, Elpídio de Almeida foi um
dos muitos que, de sua maneira, ajudaram nesse empreendimento.
15

Capitulo I:

CAMPINA GRANDE, O IHGP E OS IDEAIS DE ELPÍDIO DE


ALMEIDA

O historiador é sempre de um tempo, aquele em que


o acaso o fez nascer e do qual ele abraça, às vezes
sem o saber, as curiosidades as inclinações, os
pressupostos, em suma, a “ideologia dominante”, e
mesmo quando se opõe, ele ainda se determina por
referências aos postulados de sua época (René
Rémond).

“O que fabrica o historiador quando ‘faz história’? Para quem trabalha? Que produz?”
(CERTEAU, 2011, p. 45). Com esses questionamentos, Michel de Certeau inicia sua reflexão
sobre a operação historiográfica, na qual mostra que um texto de história não é apenas uma
narrativa dos acontecimentos passados, mas, sim, um procedimento estratégico e político, pois
implica a tomada de posicionamentos, uma vez que a escrita da história se faz a partir da
articulação de um lugar socioeconômico, político e cultural.
Essas colocações são válidas para o nosso trabalho, pois pretendemos entender qual a
Campina Grande que Elpídio de Almeida constrói em seu livro. Não podemos entender “História
de Campina Grande” sem compreender os métodos de escrita, as questões que se encontram no
texto, a documentação utilizada, o “lugar social” e a “instituição de saber” do autor. Isso é
necessário porque entendemos a história como uma narrativa e para interpretá-la não basta
encontrar um sentido, mas também avaliar sua estrutura, as relações que a obra mantém com o
ambiente em que foi gestado e as escolhas do autor.
Certeau (2011) alerta para o fato de que essas escolhas não nascem do vazio, elas
constituem uma intrínseca relação com o lugar e as relações estabelecidas pelo autor. Na medida
em que Elpídio de Almeida escolheu os elementos e os argumentos para compor “História de
Campina Grande” ele fez um ato político, pois deu voz a alguns personagens e silenciou outros,
escolhendo quem entra para a história e quem fica esquecido nela. Essas escolhas se deram
graças às suas vivências, aos seus postulados, às suas preferências, etc.
Nenhum autor é neutro em sua escrita, como aponta Certeau o historiador quando faz
história se apóia num poder político e em um sistema (CERTEAU, 2011, p. XIX, XX). Então, as
16

escritas criam lugares a partir do desejo de um autor, para Elpídio de Almeida a necessidade de
escrever um livro sobre a história de Campina Grande se deu pelo fato de que na época
aproximava-se o aniversário de cem anos da cidade e por ele ser membro do Instituto Histórico e
Geográfico Paraibano, Almeida sentiu que era seu dever escrever o livro e assim o fez.
Para escrever história é preciso antes aprender o métier e isso acontece por meio de uma
instituição de saber. No entanto, essa associação nem sempre é revelada pelos autores, o “não-
dito”, como chama Certeau, faz referência às práticas científicas feitas na obra. A instituição pesa
tanto na escrita dos historiadores que os autores sabem que vão ser submetidos às regras da
instituição para que seu trabalho seja tomado como válido. Como coloca Certeau: “A instituição
não dá apenas uma estabilidade social a uma ‘doutrina’. Ela a torna possível e, sub-repticiamente,
a determina” (2001, p.53). Assim, entender a instituição de saber a qual o autor faz parte é
imprescindível em um trabalho de análise de uma obra de história.
Elpídio Josué de Almeida foi um intelectual3 paraibano que nasceu em 1° de setembro de
1893, na Casa Grande do Engenho da Várzea, nos arredores da cidade de Areia, brejo paraibano.
Era o primogênito de Rufino Augusto de Almeida e de Adalgisa Jacunda de Almeida, família que
viveu a glória e o declínio da sociedade açucareira na Paraíba. Apesar de ter nascido no engenho,
viveu a maior parte da sua vida na cidade, pois quando tinha um ano seu pai se mudou com toda a
família para Areia, onde abriu uma casa comercial (ALMEIDA, 1995, p.85).
Após fazer o ensino primário no estado4, Elpídio de Almeida foi estudar medicina no Rio
de Janeiro, onde se formou em 1918. A Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro foi uma das
primeiras instituições de ensino superior do país. Fundada em 5 de novembro de 1808, tinha
como principal foco de atuação o estudo da higiene pública, uma atenção necessária pois nesse
período praticamente todo o país estava enfrentando epidemias diversas. (SCHWARCZ, 1993, p.
226).
A preocupação com essas epidemias influenciou muito Almeida, pois seus estudos na
Faculdade de Medicina se voltaram para uma das epidemias que assolava o Brasil,

3
Entendemos intelectual como uma categoria social e profissional que produz e interpreta a realidade e que possui
grande valor político. A noção de intelectual tanto pode estar ligada aos mediadores culturais (jornalistas, escritores,
professores e eruditos), como à noção de engajamento na vida da cidade, defendendo ideias, elaborando manifestos
etc. Os intelectuais, por serem reconhecidos na sociedade, são considerados como especialistas, logo as ideias que
defendem são vistas com legitimidade (SIRINELI, 2003).
4
Elpídio de Almeida fez suas primeiras letras nas escolas particulares de Areia e posteriormente foi para a capital do
estado como interno para estudar no colégio Diocesano Pio X, onde concluiu o ensino secundário (ALMEIDA, 1984;
ALMEIDA; BORGES, 1995).
17

principalmente a região Nordeste, a “Barriga d’água”5. Em 1919, defendeu a tese “Contribuição


ao estudo da Eschistossomose Mansônica” para obtenção do título de Doutor em medicina.
Voltou para Areia em 1920 e após dois anos clinicando em sua cidade natal, Almeida foi
para a cidade de Parahyba 6, onde assumiu o cargo de médico da saúde pública. Em 1923, foi
indicado pelo diretor da saúde pública para organizar o “Centro de Saúde de Campina Grande”.
Dessa forma, Dr. Elpídio, como era mais conhecido, chegou à cidade na qual ele criou laços
fortes e que foi a inspiração de seu livro.
Desde a década de 1920, Almeida escrevia em jornais e revistas, como é o caso da “Revista
Campinense”. Escreveu também artigos sobre saúde para periódicos especializados em medicina
e para os jornais do estado, como é o caso do artigo publicado em 1925 no jornal “A União”
intitulado de “A lepra na Paraíba”. Desse modo, Almeida começou a ser conhecido como
escritor, o que lhe rendeu o convite, em meados da década de 1930, para ser membro do Instituto
Histórico e Geográfico Paraibano, onde ocupou e se tornou o patrono da cadeira número cinco.
Concordamos com Michel de Certeau quando ele afirma “é, pois, impossível analisar o
discurso histórico independente da instituição em função do qual ele se organiza” (2011, p. 63),
dessa forma, vamos discutir no tópico seguinte a influência do IHGP na historiografia paraibana,
uma vez que foi no Instituto que Elpídio de Almeida teve a base do metier da história.

1.1 A instituição de saber: o papel IHGP na construção de uma história para Paraíba

Em 1905 nasce o Instituto Histórico e Geográfico Paraibano, que vai se tornar um


importante espaço intelectual da primeira metade do século XX, e que nasceu com o objetivo de
escrever uma história da Paraíba escrita pelos paraibanos, como está descrito no livro “A história
do IHGP”:

O Instituto Histórico e Geográfico Paraibano é a mais antiga instituição cultural da


Paraíba em funcionamento. São 92 anos [...]. Antes do Instituto – esclareceu o
historiador Celso Mariz [...] “o que se dizia sobre a nossa terra estava espalhado em
Rocha Pita, em Frei Vicente Salvador, em Jaboatão, em Aires Casal, em Southey, em
Leopoldo Vieira, em Varnhagen. Tudo disperso e pouco. (GUIMARÃES, 1998, p.20).

5
É o nome popular para Eschistossomose Mansônica.
6
Como era chamada a atual cidade de João Pessoa na década de 1920.
18

O Instituto lançou as bases da historiografia do estado, estabelecendo como deveria ser


contada a história local, ressaltando, sempre, a grandeza do estado e do seu povo. Com um claro
sentimento de vanguarda, iniciou-se a elaboração da história da Paraíba de forma mais
abrangente e sistemática do que vinha sendo feito. Era preciso construir um passado com
características, fatos e personagens particulares do local. Para isso, nos primeiros anos do IHGP,
seus membros fizeram um enorme esforço para mapear e coligir documentos sobre o estado, os
quais dessem evidência a essas peculiaridades, criando uma identidade paraibana.
Essa historiografia tradicional do estado começou a ser criticada a partir de 1976 com a
implantação do Núcleo de Documentação e Informação Histórica e Regional (NDIHR) – ligado à
UFPB–, que tinha como um de seus objetivos contrapor a história produzida pelo IHGP. A partir
de então, se iniciou uma nova fase na historiografia paraibana, a qual buscava produzir um
conhecimento mais crítico sobre a história do estado. Foram realizadas várias pesquisas sobre a
história da Paraíba, trazendo novas abordagens a temas já trabalhados pelo IHGP, como também
pesquisas que mostraram novos fatos da história local. No entanto, como já mencionamos
anteriormente, são poucos os trabalhos, até hoje, que tratam da historiografia paraibana em
profundidade, que analisam mais detidamente as instituições de saber do estado.
O único trabalho de referência que estuda o IHGP é “Intrepida Ab Origine: O Instituto
Histórico e Geográfico Paraibano e a produção da história local”, escrito pela professora
Margarida Maria Dias de Oliveira, fruto de sua pesquisa de mestrado em Ciências Sociais pela
UFPB e publicado em 1996. A autora analisa a escrita do IHGP nos seus primeiros anos de
fundação. Em um de seus artigos, ela escreve que se interessou em escrever sobre o Instituto
Histórico quando foi em busca de entender o porquê dos silêncios da historiografia paraibana. A
partir disso, se deparou com o IHGP e viu que não tem como entender a historiografia do estado
sem analisar a produção do Instituto (DIAS, 2003, p. 1). A autora constatou ainda a inexistência
de obras que realizassem esse tipo de análise (OLIVEIRA, 1996, p.15).
O livro nasceu a partir da análise das seis primeiras edições da revista do Instituto (de 1909
a 1928), que segundo Oliveira marcam a consolidação do IHGP e constituem um grande
momento na construção da história local, pois para os seus membros o fato deles, paraibanos,
escreverem sua história, era muito importante. É nesse periódico que está explícita a concepção
de história do Instituto. A partir dela, a autora discute como o IHGP construiu uma identidade
19

para o estado, a paraibanidade, e como está vincula-se a concepções políticas e ideológicas, ou


seja, falam de um lugar, como a autora chama nossa atenção:

Reconhecer que a História da Paraíba, descrita pelas Revistas, arraigada em nosso


imaginário, simbolizada pelos monumentos e documentos, não é a História da Paraíba,
trata-se de uma História da Paraíba. Tem sua historicidade, seu lugar social, é portadora
de interesses, vinculações políticas, organizada por ideias estabelecidas sobre História,
educação, política e papel do historiador (DIAS, 2003, p.2).

Foi desse lugar social que se construiu um passado para a Paraíba, que está enraizado até
hoje no imaginário das pessoas e que está diretamente ligado à conjuntura política, econômica e
social do estado. A criação de uma identidade paraibana mostra a necessidade de se criar uma
especificidade para o estado, ressaltando sua importância para a história da nação e,
principalmente, colocando a Paraíba em igualdade com Pernambuco, revelando a forte submissão
econômica e política do estado em relação a seu vizinho, e por isso mesmo buscando apartar a
historiografia dos dois (DIAS, 2011, p. 47).
A paraibanidade forja um tipo específico de homem, valoroso, que foi modelado pelo
espaço e que tem inclinação para a paz, para a bravura e para o republicanismo. Não é por acaso
que a autora intitula o seu livro de “Intrepida Ab origine”. Esse é o lema que está na bandeira da
capital paraibana e significa “heróica desde os primórdios”. Essa frase casa muito bem com a
ideia construída pelo Instituto. Também não é à toa que o lema está na bandeira de João Pessoa,
já que essa historiografia é majoritariamente pessoense (DIAS, 1996, p.17). Ainda segundo Dias,
isso mostra uma “ideia explícita de utilização do conhecimento histórico para justificar o domínio
de um determinado espaço” (1996, p.47).
Grande parte dos membros do IHGP era burocrata, que participava do governo do estado,
além de médicos, militares, jornalistas. Dessa forma, desde sua fundação o IHGP se manteve
intimamente ligado com o estado, que fornecia os meios básicos para a manutenção física e de
produção no Instituto (DIAS, 1996, p.38). É importante ressaltar que, por ser um órgão
financiado pelo estado e por contar com agentes que têm as ferramentas necessárias para a
divulgação do que está sendo produzido na instituição, essas versões do passado se tornaram
verdades, a história oficial da Paraíba. Os membros do IHGP se mobilizavam para divulgar o que
estava sendo produzido sobre o passado do estado. A produção cultural era intensa. Eles
realizavam reuniões e debates públicos, tanto por meio dos jornais, como também em
20

conferências, em teatros, clubes ou associações de imprensa. O jornal “A União”, periódico


vinculado ao governo do estado, era o meio que mais divulgava esses textos.
A história produzida pelo IHGP não se filiava a uma linha teórico-metodológica definida,
mas incorporava algumas vezes os preceitos positivistas, como nos mostra Dias (1996, p. 49):

Sem uma linha teórica definida, essa publicação atendia, como dito anteriormente, ao
objetivo maior do IHGP que era a escrita da história da Paraíba, pelos paraibanos. Se
podemos apontar preocupações em alguns conferencistas e/ou escritores ligados à escola
positivista, em outros, é a crônica ou a reminiscência que podemos detectar. A união
proporcionada em torno do IHGP se dava por interesses bem locais e de ação e não de
caráter teórico-metodológico, ou, pelo menos, não era por esse caminho que se davam as
divergências.

Assim percebemos que a produção historiográfica proveniente do IHGP estava mais ligada
à conjuntura política, econômica e social do estado, que tinha a necessidade de construir uma
história edificada em fatos e personagens que ressaltasse a República. Para tanto, eles definiram
um calendário cívico “que inclui as datas de 05 de agosto de 1585, as lutas de resistências às
invasões holandesas, a Revolução de 1817 e a proclamação da República, como se todas as datas
anteriores fossem um caminho para a última” (OLIVEIRA, 2011, p.45).
Apesar do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano ter sua marca própria, buscar seus
objetivos específicos, ele nasce a partir da inspiração do Instituto Histórico e Geográfico
Brasileiro (IHGB), inaugurado em 28 de fevereiro 1838, com sede no Rio de Janeiro, cujo dever
era criar uma história para o Brasil. Esse foi um exemplo pioneiro e, a partir dele, para garantir as
especificidades de cada região brasileira, foram sendo criados Institutos Históricos em cada
estado.
Segundo Manoel Salgado Guimarães, o IHGB nasceu na consolidação do Estado Nacional
brasileiro e buscou para si a tarefa de construir um perfil da “Nação Brasileira” que desse conta
de construir uma identidade própria do país. Essa Nação brasileira se via como continuadora do
processo civilizador que os portugueses começaram, logo ela não fez oposição a sua antiga
metrópole. “Nação, Estado e Coroa aparecem enquanto uma unidade no interior da discussão
historiográfica relativa ao problema nacional” (1988, p. 6).
A ideia de se gestar um Instituto Histórico no Brasil, segundo Guimarães (1988), também
veio da Europa. O IHGP foi inspirado nas academias ilustradas europeias que tiveram seu auge
entre o século XVII e XVIII. Esse lugar de produção historiográfica teve por muito tempo uma
21

marca elitista, que se aproximava da tradição iluminista7. Assim, a história do Brasil foi criada a
partir do lugar social dos membros do IHGB.

Projeto intelectual claramente centralista. Projeto esse bem articulado a um conjunto de


interesses e questões de natureza política, econômica, e social, que explicam o porquê de
certas tematizações de uma historiografia nacional em elaboração, visando a uma soma de
conhecimentos, e por que não a produção de um saber sobre o “Brasil” capaz de viabilizar
uma nova ordem (GUIMARÃES, 1988, p.24).

Desse modo, a história que foi criada pelos primeiros membros do IHGB tem como
característica ser uma história elitista e conservadora, que refletia os interesses de seus membros
e da política vigente, que buscava mostrar a Nação brasileira como a “civilização nos trópicos”.
Para Guimarães (1988), essa historiografia produzida no IHGB define quem entra e quem fica
excluído da história nacional. O conceito de Nação criado pelo Instituto é restrito as classes
dominantes escravistas, que privilegiam o elemento branco. Nesse sentido, ela traz uma forte
marca excludente, carregada de imagens depreciativas do “outro”, que vão sendo reproduzidas
por muito tempo na sociedade brasileira (GUIMARÃES, 1988,p.7).
O início do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano se assemelha mais às ideias do
IHGB após a proclamação da República. Contudo, claro, sem menosprezar os feitos da
Monarquia. Segundo Ângela de Castro Gomes, a época da chamada primeira República é “um
momento dos mais ricos para o debate de ideias políticas e culturais do Brasil” (GOMES, 2009,
p. 21). Essa é uma época em que o IHGB já fez seus primeiros trabalhos, os quais pretendiam
forjar a Nação brasileira. Após a República, era necessário criar um passado republicano para o
país, se tornando esse espaço rico de ideias que Gomes falava.
Nesse debate, os intelectuais e políticos brasileiros buscavam entender e resolver o
problema do atraso do país. Uma das formas foi encontrar as causas de sua origem, para então
realizar um projeto que modernizasse o país. Essa foi uma época de intensos debates sobre
modernização. Vários foram os projetos que surgiram para esse entento, mas apesar da
pluralidade, existia um ponto em comum: “o Brasil não seria moderno, não se tornaria um país

7
Vele lembrar aqui que o Iluminismo foi um conjunto de ideias filosóficas políticas, científicas e econômicas que
nasceram na Europa no século XVII e defendia que a Razão era a única forma de o homem chegar ao
conhecimento. No IHGB as características do iluminismo são claramente vistas pelo tratamento linear dado ao
desenvolvimento da história, quanto por sua instrumentalização como “mestra da vida”.O Instituto se baseia
principalmente na tradição do iluminismo português, marcadamente católico e conservador, que deixou suas
marcas na geração fundadora do IHGB (GUIMARÃES, 1988, p.14).
22

civilizado. Sem o auxílio da ciência” (GOMES, 2009, p. 21-22). Coube ao IHGB então criar um
passado para o Brasil, embasado na história científica.
Gomes (2009) chama a atenção para o fato de que, apesar de as primeiras décadas da
República terem tido tanta efervescência de ideias, elas são vistas pejorativamente como uma
época obscura de nossa história. Segundo a autora, essa visão foi criada pelo Estado Novo:

A Primeira República (só então “primeira”) recebeu essa designação (“velha”), por obra
e graça dos políticos e intelectuais do pós-1930, especialmente daqueles vinculados à
proposta autoritária estado-novista, com a nítida intenção de acentuar sua força
transformadora; na verdade, sua forma revolucionária (GOMES, 2009, p. 22).

A autora mostra então que a ideia de que a primeira república foi um fracasso político,
repleto de erros como foi fomentada pelos intelectuais do Estado Novo. A partir desse olhar, só
após 1930 é que o Brasil conseguiu efetivar de vez a República e sair do atraso. Dessa forma,
1937 é visto como um marco cronológico que enterrou de vez a República “Velha”, uma visão
teleológica, mas que dura até hoje (GOMES, 2009, p. 23). A autora ressalta a importância das
ideias fomentadas durante a Primeira República, justamente para contrapor com esse conceito de
atraso forjada no pós-1930.
Após a proclamação da República¸ como já mencionamos, o IHGB precisou escrever uma
história que justificasse a República brasileira, mas também era preciso que, nesse passado
forjado, fosse projetado um futuro que se pudesse acreditar. Esse ideal era pautado na ideia de
modernização do Brasil.
Devido o IHGB ter nascido durante a Monarquia brasileira e, durante esse tempo, ter tido a
proteção direta do Imperador, a entidade sofreu muito com o fim da Monarquia, principalmente
no aspecto financeiro. Embora muitos de seus membros fossem contrários ao sistema
republicano, o IHGB percebeu que para sobreviver precisava se adaptar aos novos tempos e fez
uma reorganização de sua prática e de seu discurso (GOMES, 2009, p. 30).
Assim, o IHGB começou a desenvolver materiais que inventassem uma tradição política
republicana para a história do Brasil. Esse empreendimento, segundo Gomes (2009), era
delicado, uma vez que o Instituto não podia desvalorizar o passado imperial, nem deslegitimar o
presente republicano; “nesse sentido, o desafio dos historiadores do IHGB era de tornar palatável
uma articulação entre Colônia, Império e República, sem obscurecer as tradições dos primeiros,
mas sem ferir o desejo de legitimidade da segunda” (GOMES, 2009, p. 31).
23

Dessa forma, foi criado o ideal republicano brasileiro, que antes de tudo era oligárquico e
conservador, mas que se escondia por trás das bandeiras de abolição e de modernização do país.
O IHGP nasce após essa discussão e adaptação do IHGB, logo o Instituto Paraibano surge já com
a ideia consolidada do republicanismo, causa que vai se tornar uma de suas principais bandeiras.
Elpídio de Almeida, como membro do IHGP, assimila esses ideais, junta-as com as suas
experiências vividas em Campina Grande e escreve “História de Campina Grande”. Dessa forma,
para entendermos a obra de Almeida ainda precisamos compreender como estava organizado o
lugar social do autor. Para isso, precisamos entender como estava Campina Grande na época da
escrita do livro.

1.2 A Campina Grande que Almeida viveu

Elpídio de Almeida chegou a Campina Grande em 1921 e viveu nela até 1971, ano de seu
falecimento. Foram cinquenta anos em que Almeida vivenciou as principais mudanças que
ocorreram na cidade, como aquelas na estrutura física. Presenciou também o auge e o declínio do
comércio de algodão, o crescimento populacional, o início da industrialização, além do declínio
econômico e muitas mudanças sociais e políticas.
Elpídio de Almeida viveu o que as elites locais chamam de “época áurea” da cidade, tempo
que esses grupos acreditam ser o auge da grandiosidade de Campina Grande. Ter vivido tudo isso
é um dos fatores que o levou a escrever “História de Campina Grande”.
Vamos então fazer uma breve apresentação de como se encontrava, em alguns aspectos,
Campina Grande entre as décadas de 1920 e o início de 1960 8. Não temos a pretensão de fazer
um estudo detalhado sobre esse longo período, apenas alguns apontamentos do que acreditamos
ser crucial para entender os posicionamentos de Elpídio de Almeida em seu livro.
Quando Almeida chegou a Campina Grande, entre as décadas de 1920 e 1930, a cidade
ainda era um burgo que estava dando início a seu desenvolvimento. Alguns aparatos ditos
modernos9 já haviam sido instalados na cidade, essas conquistas materiais geraram impactos que

8
Para fazer essa incursão na História da cidade utilizamos as contribuições de diversos autores. Temos ciência que
esses lêem Campina Grande de formas distintas, mas os utilizamos em conjunto porque queremos reconstruir o
contexto e o lugar social em que Elpídio de Almeida estava inserido e esses trabalhos são os de referência na área
sobre cada período que abordaremos aqui.
9
Como o trem, o telégrafo, o telefone residencial, o cinema, o automóvel, a luz elétrica, dentre outros (AGRA, 2010,
p.29-30).
24

criaram no imaginário urbano a ideia de que tendo contato com esses símbolos do moderno o
desenvolvimento iria chegar à Campina e seus benefícios iriam atingir a todos.
Segundo Aranha (2005) esses símbolos modernos tomaram valores universais, desse modo,
qualquer cidade, independentemente do tamanho, que tivesse contato com eles era considerada
moderna ou em sintonia com o mundo civilizado ( p.67). Assim aconteceu em Campina Grande.
Mesmo sendo uma cidade relativamente pequena, os aparatos modernos que nela foram
instalados fizeram com que fosse criado um discurso de que a cidade estava moderna e grandiosa.
Giscard Farias Agra (2010, p. 24) afirma:

E a Campina Grande da década de 1930 parecia querer ser moderna. Pelos discursos dos
diversos grupos que detinham certo tipo de poder na cidade – político, econômico,
intelectual, religioso, dentre outros –, entrou em contato com aspirações e desejos de
modernizar a cidade, tanto no tocante à sua infraestrutura, às suas ruas, às suas moradias,
quanto no tocante aos costumes de seu povo. A palavra de ordem para esses grupos –
administradores, políticos, comerciantes, jornalistas, médicos, engenheiros, advogados,
juízes, clérigos –, parecia ser construir Campina como uma cidade grande, moderna
civilizada, europeizada – ou, na impossibilidade, ao menos forjá-la moderna, tendo como
modelo o Rio de Janeiro, a capital federal, ou ainda, o Recife, a capital regional do que
então nascia como Nordeste.

Mas foi na década de 1930 que o discurso de fazer Campina grandiosa começou a tomar
força na cidade. As elites locais sedentas pela modernização e por um maior crescimento
econômico e político da cidade uniram forças para mostrar em seus discursos que Campina não
só era grande como possuía potencial para crescer ainda mais. A construção desses discursos não
se davam em vão. Ao falar sobre a grandiosidade e o potencial de Campina, a cidade atraia ainda
mais consumidores e investidores que dariam ainda mais lucro a algumas camadas dominantes. E
esse discurso Elpídio de Almeida incorpora em sua obra.
Falavam que Campina Grande era moderna, civilizada, grande, mas os campinenses que
pela cidade passavam ainda não haviam visto grandes mudanças na cidade. Nas ruas podiam ser
vistos animais10, ruas estreitas e sem calçamento e casas simples, ou seja, Campina Grande
continuava, principalmente no centro da cidade, com o mesmo traçado urbano do século XIX.
Para uma cidade que se pretendia grande, a sua fisionomia não estava adequada ao posto.

10
Sobre a ideia de velho/novo e atraso que os animais traziam para Campina Grande ver: AGRA, G. F.
Modernidade aos goles: a produção de uma sensibilidade moderna em Campina Grande, 1904 a1935.
25

Vergniaud Wanderley11 foi o homem que literalmente “botou abaixo” o velho centro da
cidade e construiu um novo a partir de padrões estéticos modernos, ele foi o prefeito que
empreendeu a reforma arquitetônica na cidade, o conhecido “bota-abaixo”12. Entre as décadas de
1930 e 1940 o prefeito desapropriou e deu ordens de “bota-abaixo” a centenas de casebres,
casarões, igrejas, armazéns, que ficavam situados no centro da cidade. Tudo que impedisse seu
plano de deixar a cidade com ares de moderna foi ao chão 13.
Nesse período, Elpídio de Almeida já estava totalmente envolvido nesses círculos sociais.
Em 1929, ele já tinha sido eleito Conselheiro Municipal. Durante a década de 1930, começou a
exercer cargos junto a influentes órgãos da sociedade campinense. Foi Inspetor Federal de Ensino
junto às principais escolas particulares da cidade, o Colégio Pio XI e o Colégio das Damas, de
1930 a 1947. Dessa forma, vemos que Almeida já participava ativamente da sociedade
Campinense, e sem dúvidas estava envolvido na criação do discurso de grandiosidade para a
cidade.
Elpídio de Almeida, pelo seu envolvimento na sociedade campinense, se tornou uma figura
conhecida na cidade, o que lhe rendeu a indicação para concorrer à prefeitura nas eleições de
1947. A disputa política se deu contra Veneziano Vital do Rêgo, político pernambucano, que foi
indicado por Argemiro de Figueiredo, na época, ex-governador e chefe da UDN 14. O ex-
governador, visando voltar ao poder, impôs a candidatura de seu cunhado Veneziano Vital do
Rêgo, pois esse era um homem de sua inteira confiança.
Essa imposição desagradou praticamente todos os membros do partido, inclusive José
Américo de Almeida, que na época era o maior representante da política paraibana e também era
um dos líderes da UDN, ocasionando um racha no partido em duas frentes: “argemiristas” e

11
Vergniaud Wanderley nasceu em Campina Grande e era filho de uma tradicional família de proprietários de terra
da Paraíba. Formou-se bacharel em direito pela Faculdade de Direito do Recife, em 1929, e de lá foi para o Rio de
Janeiro onde seguiu sua carreira. Voltou para Paraíba, quando, por convite do então governador e amigo Argemiro
de Figueiredo, veio fazer parte do seu governo, primeiro como chefe da polícia e depois como secretário da
agricultura (SOUSA, 2003, p. 68-69).
12
Mais sobre o assunto ver o artigo Campina Grande: cartografias de uma reforma urbana de Fábio Gutemberg
de Sousa.
13
Esse processo seguia as tendências das mudanças que já vinham acontecendo no Brasil (início do século XX) e no
mundo (desde o século XVIII). Um novo código estético e higienista tomavam conta das cidades.
14
A União Democrática Nacional, segundo Cittadino, formou-se em âmbito nacional a partir de opositores do regime
Varguista, que eram, majoritariamente, os que ficaram impossibilitados de exercer seu poder por conta do Golpe de
1937. Na sua maioria, os integrantes da UDN eram defensores da tradição liberal da Primeira República, homens
extremamente conservadores e elitistas no que se refere à participação popular na vida política. Esses eram membros
da alta burguesia financeira, dos setores dirigentes da iniciativa privada, profissionais liberais influentes e membros
das oligarquias rurais, ou seja, setores que de certa forma perderam um pouco do poder a partir da vitória de Getúlio
Vargas (CITADINO, 1998, p.29).
26

“americistas”. Elpídio de Almeida resolveu se candidatar e formou a chapa de oposição de Vital


do Rêgo, com o apoio de José Américo de Almeida, seu primo.
O apoio de José Américo de Almeida foi importante para sua candidatura, uma vez que ter
como apoiador um nome de peso como o dele era um trunfo nas mãos de Elpídio de Almeida.
Além disso, ele se coligou a outros políticos locais membros do PDC e PSD, que juntos fundaram
a Coligação Democrática Campinense, além de contar com o apoio dos comerciantes,
funcionários públicos, profissionais liberais.
Felix Araújo coordenou a campanha de Almeida. Ele desenvolveu métodos diferentes para
a época, tornando-a pioneira em fazer passeatas e comícios. Ela foi embalada por um jingle que
explorava o slogan de Elpídio de Almeida como candidato dos pobres e da religião. A imagem de
Almeida como doutor e homem instruído também foi usada. Essas estratégias de Felix Araújo
tornaram a candidatura de Almeida muito popular.
Em seus discursos, Almeida se mostrava como o candidato dos pobres, usava bandas de
músicas em passeatas para chamar mais a atenção do povo. As classes populares precisavam ser
conquistadas porque o voto agora não era mais de cabresto 15, os votos deveriam ser adquiridos
através de promessas que a massa desejava ouvir (CITTADINO, 1998, p. 54-55).
Com as alianças e o apoio que teve unido a um discurso de renovação e de uma maior
racionalização da administração pública Elpídio de Almeida venceu o pleito e se tornou prefeito
da cidade. Sua gestão foi marcada por diversas obras públicas. A construção da maternidade
pública foi a que mais teve destaque.
A popularidade de seu governo foi tanta que, em 1950, ele foi eleito Deputado Federal. E,
em 1955, voltou a disputar, e ganhar, a eleição para prefeito Campina Grande. Dessa vez, a
disputa foi contra Severino Cabral, que contou com o apoio de Argemiro de Figueiredo. Esse
apoio se deu pelo casamento de um de seus filhos com a filha do ex-governador. Mais uma vez,
Almeida teve o apoio de uma liderança forte na política do estado. A diferença é que nessa
eleição seu nome como político já estava consolidado. Em 1959, termina seu mandato e sua
atuação na vida política do estado.

15
O voto de cabresto foi uma prática constante durante a “República Velha”, quando vigorava o Coronelismo.Trata-
se de uma forma de controle político através do voto para manipular as eleições. No início do século XX, a maior
parte da população brasileira se encontrava na zona rural, área onde os grandes proprietários de terra, chamados
coronéis, detinham grande poder.Eles usavam esse poder para garantir a eleição dos candidatos que apoiavam,
assegurando o voto do povo através de “favores”. Quem se negasse a votar poderia ser vítima da violência dos
jagunços desses fazendeiros. Mais sobre o assunto ver: LEAL, Victor Nunes. Coronelismo, enxada e voto: o
município e o regime representativo no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
27

Vemos então que, entre o final da década 1940 e durante toda a década de1950, Elpídio de
Almeida estava totalmente envolvido nos assuntos da cidade e esse envolvimento foi crucial para
a construção de algumas posições que Almeida toma em “História de Campina Grande”.
No final dos anos de 1940, o comércio de algodão em Campina Grande já não tem mais a
força de antes. Quando chega a década de 1950, a cidade procura um novo lugar para si. Campina
16
já não era mais a “Liverpool brasileira” , mas estava começando a se industrializar. Os letrados
da cidade a descreviam como um burgo que se tornava a cada dia mais próspera o que fazia jus à
grandiosidade que aparecia em seu nome (AGRA DO Ó, 2006, p. 17).
Os letrados campinenses faziam questão de ressaltar a grandiosidade da cidade e os
números eram os seus maiores aliados e serviam para “provar” que Campina era grande. No final
da década de 1950, Campina Grande era o mais populoso município do estado (numericamente a
população de Campina Grande era maior do que a de João Pessoa). Era também a cidade mais
importante economicamente do estado, pois cerca de 40% da arrecadação paraibana de tributos
saiam de lá (AGRA DO Ó, 2006, p. 29). Esses números renderam à cidade diversos apelidos ,
como a “Capital do Nordeste Brasileiro” e “Rainha da Borborema”.
Os empresários interessados em reforçar ainda mais a imagem de Campina Grande como
polo econômico divulgaram junto a investidores do Sul do Brasil vários documentos que
apontavam que cidade oferecia condições ideais para investimentos, uma vez que estava em
pleno desenvolvimento e que havia matéria-prima, energia, mão de obra barata e incentivos do
governo (AGRA DO Ó, 2006, p.30-33). Esse interesse dos empresários em chamar investidores
para a cidade não era à toa, pois quanto mais empresas na cidade maior era a possibilidade de
lucro.
Alguns estudiosos e jornalistas da região Sudeste também se interessaram por Campina
Grande. Eles queriam entender como uma cidade do interior da Paraíba conseguiu se desenvolver
tão rápido. Segundo Fábio Gutemberg de Sousa (2006, p. 183), em julho de 1962 uma equipe de
pesquisadores, composta em sua maioria por geógrafos, veio a Campina Grande para explicar
para o Brasil como o município obteve tamanha pujança comercial.

16
Esse é um dos termos que a cidade ganhou na época do auge do comércio de algodão. O nome Liverpool brasileira
faz uma alusão à cidade de Liverpool, na Inglaterra, que era a cidade que mais exportava algodão no mundo. A partir
do ufanismo de chamar Campina Grande de Liverpool brasileira se queria mostrar a importância da cidade no
comércio de algodão mundial.
28

Após realizar um detalhado estudo, a equipe concluiu que Campina Grande conseguiu sua
importância principalmente pelo fato de ter grande influência nas cidades da região e comparou a
cidade a São Paulo, devido à influência da metrópole sobre a região Sudeste e Sul. Essa
comparação foi um júbilo para as elites locais. Campina estava sendo comparada a maior cidade
do país, o que selava a ideia de sua grandiosidade (SOUSA, 2006, p.184). Mas, como mostra
Alarcon Agra do Ó:

Paralelamente a isso, no entanto, silêncios eram produzidos para outras possibilidades de


expressão ou de desenho da cidade e da vida urbana. Interessava a essas vozes que
buscavam se fazer hegemônicas a existência de um sem-número de sujeitos calados,
obedientes, produtivos no seu alheamento, na sua colocação à margem dos eventos
realmente eficientes. A estratégia maior era fazer com que esse desejo de identificação
com a modernidade passasse por ser o desejo de toda a cidade, como se fosse possível
canalizar numa única conformação da paisagem a energia dos desejos (AGRA DO Ó,
2006, p. 19).

Concordamos plenamente com a afirmação acima. A ideia da grandiosidade de Campina


Grande era difundida como se todos os cidadãos da cidade tivessem tido acesso às benesses que o
comércio de algodão trouxe. Dentro desse discurso, era necessário também silenciar as vozes
dissonantes e “esquecer” todos os indicadores que se mostravam contrários à essa ideia. Isso é
justamente o que Elpídio de Almeida fez em seu livro: deu voz aos que ele acreditava ser as
pessoas e os acontecimentos que mostravam a grandiosidade da cidade e silenciou o que não
casava com esse discurso.
O desenvolvimento econômico de Campina Grande trouxe muitos benefícios para a cidade,
principalmente para as elites, mas trouxe consigo também as contradições que geralmente
ocorrem em um processo de crescimento e modernização. Como o desenvolvimento da cidade
atraiu muita gente, muitos tinham o sonho de uma vida melhor nesse lugar que parecia ser tão
cheio de oportunidades, mas nem todos conseguiam realizar seus sonhos e ficaram à margem dos
avanços.
No ano de 1959, por exemplo, Campina Grande possuía um grande número de pessoas
desempregadas ou vivendo de subempregos, fato que preocupava alguns setores da sociedade
campinense, os quais cobravam, através de jornais, medidas do governo, para resolver esse
problema (AGRA DO Ó, 2006, p. 45). Porém, o problema não era apenas o desemprego. A
cidade estava com um número cada vez maior de mendigos, meninos de rua e prostitutas, que se
concentravam principalmente no centro da cidade.
29

As elites, particularmente os comerciantes, junto com a administração local, acreditavam


que essas pessoas “enfeiavam” a cidade e era preciso resolver o problema. Decidiram então fazer
uma “limpeza na casa” e retirar do seu centro essas pessoas que eram indesejáveis.
Segundo Silvera Vieira de Araújo (2010), essas medidas tomadas pelo poder público
municipal e pelos comerciantes constituíram-se em um caso de higienização social. Na
impossibilidade de se conviver com o “desviante”, a estratégia adotada era retirá-los da vista,
confinando-os em asilos, no caso dos mendigos, ou dispersando-os para os lugares distantes,
como ocorreu com as prostitutas, mas, em ambos os casos o que prevaleceu foi a intolerância
diante do “outro”, do “diferente”, que não é compreendido nem muito menos aceito (p. 89).
Essas medidas sanitaristas de Campina Grande se deram a partir do processo de higiene
social que era fundamentado nas teorias da Eugenia 17, do Darwinismo Social18 e da Antropologia
Criminal19, que contribuíam na elaboração de tipos considerados desviantes da sociedade
moderna (ARAÚJO, 2010, p. 87-88). Assim, vemos que essa higiene social pretendia controlar
esses indivíduos justificada pelo argumento de que eles são “anormais” e “desviantes”, o que
mostra a intolerância das elites locais.
Essa intolerância se dava, entre outras coisas, pelo medo que as elites tinham dessas
mudanças. Campina Grande seguia até então uma ordem que era controlada por esses grupos. A
partir da chegada de tantos “estranhos”, a dinâmica da cidade muda. Essas mudanças não
acompanham o gosto das elites. Mais uma vez concordamos com Alarcon Agra do Ó, quando
afirma que:

Ter medo e ver perigo de desequilíbrio da ordem em todos os instantes não era fruto
apenas de uma sensibilidade paranoica impressionada pelos delírios da Guerra Fria. A
tensão social naqueles anos já era um dado presente no cotidiano das cidades brasileiras,
e exemplos de invasões por camponeses famintos eram frequentes. Por exemplo, grande
destaque foi dado pela imprensa aos eventos ocorridos em meados de janeiro de 1959,
quando a cidade de Soledade foi invadida por dois mil flagelados exigindo comida e

17
O pensamento eugênista se solidificou em meados do século XIX quando o inglês Francis Galton, inspirado pela
teoria da evolução das espécies de Charles Darwin, propôs uma melhoria da raça humana através da biologia. Nessa
proposta,os indivíduos mais fortes deveriam ser selecionados e os mais fracos eliminados ou controlados (ARAÚJO,
2010, p. 88).
18
É baseado nas ideias de seleção natural de Charles Darwin que aplicada à sociedade afirma que a sua evolução
estaria assegurada a partir da eliminação de seres defeituosos, inferiores e mais fracos através das gerações.
(ARAÚJO, 2010, p. 89).
19
Essa teoria foi desenvolvida pelo italiano Lombroso, que dizia que o criminoso era fruto de uma determinação
biológica e que a partir de técnicas, como a Antropometria, era possível apontar os indivíduos considerados anormais
considerando seus fenótipos e comportamentos morais. Essas ideias foram aplicadas na sociedade e tiveram
implicações políticas, pois começou a se gestar uma política de controle social na qual foram aplicadas estratégias de
controle sobre os anormais e desqualificações de indivíduos e grupos (ARAÚJO, 2010, p. 87-88).
30

trabalho. Os comerciantes deram comida aos invasores, a pedido do prefeito, em meio a


grande pânico.
A cidade tinha suas fronteiras abertas e isso gerava sentimentos ambivalentes, na medida
em que os recém-chegados eram entendidos como uma ameaça à tranquilidade se não
eram incorporados de alguma forma ao cotidiano habitual, o que só ocorria por
intermédio de sua inserção no mercado de trabalho – quando aí, esses novos habitantes
recebiam uma carga de sentimento mais positiva para os da terra (2006, p. 47).

Vemos então que o pavor das elites se dá pela utópica ideia de que a cidade deve funcionar
a partir de seus quereres, criando uma urbe idealizada, e nessa utopia de cidade não cabem
pessoas que a “enfeiam”, que fazem “badernas”, tirando o sossego dos “homens de bem”, que
“manchem a reputação” das senhoras e senhoritas da cidade. Além disso, outro fator que gera
medo nas elites é o fato dos populares se organizarem e juntos reivindicarem seus direitos. O
pavor de ver a massa unida se dá principalmente porque esses podem questionar e, se quisessem,
tirar os privilégios e o poder desses grupos mais abastados.
Com o fim da II Guerra Mundial, iniciou-se a Guerra Fria e o medo do comunismo
intensificou-se. As ideias socialistas já tinham muita influência dentro da sociedade,
principalmente por meio de partidos que congregavam os trabalhadores e os sindicatos. Essas
organizações e partidos de esquerda influenciaram muitas movimentações populares.
Segundo Monique Cittadino (1998, p. 28), ao longo da década de 1950, as classes
trabalhadoras paraibanas passavam por um panorama sombrio. O setor algodoeiro estava em um
momento de regressão e, além disso, a penetração das relações capitalistas de trabalho fez com
que a exploração do trabalhador rural aumentasse as tentativas de expulsão e expropriação dos
camponeses da terra. Nas cidades, as coisas também não estavam fáceis a retração das atividades
industriais aumentou o desemprego e a exploração da força de trabalho.
A década de 1950 marca na Paraíba a consolidação dos interesses econômicos burgueses,
foram deixadas de lado as querelas oligárquicas em prol de assegurar o controle político e o
processo desenvolvimentista que estava em processo. A economia desenvolvimentista,
implantada no Brasil principalmente durante o governo de Juscelino Kubitschek, acentuou ainda
mais as desigualdades no campo e na cidade (ARAÚJO, 1999, p. 101-102).
Especificadamente na Paraíba, essa década assinala uma crise econômica e política, as
velhas oligarquias estavam procurando seu lugar nas novas configurações políticas,
economicamente produtos que geravam grandes lucros para a economia local como o algodão
estava em baixa, Campina Grande, por exemplo, por conta disso entra em declínio econômico, o
ciclo do algodão, que marca a época áurea da cidade, acabou. Resta as elites campinenses
31

basicamente as lembranças de seu auge e a necessidade latente de implantar uma nova forma de
ganhar dinheiro, a industrialização.
Diante desse quadro de adversidade, os trabalhadores do campo e da cidade se organizaram
e, efetivamente, começaram a lutar pelos seus direitos. Durante a década de 50, foram muitas as
notícias em jornais paraibanos acerca de movimentos de diversas categorias de trabalhadores
(CITTADINO, 1998, p. 75), mas foi o movimento das classes do Campo, as Ligas Camponesas,
que mais teve destaque na época.

Questionando a estrutura agrária nordestina, responsável pelo estabelecimento de


relações de poder que subjugavam e dominavam os camponeses, foram organizados, ao
longo da década de 50, encontros e congressos que tiveram profunda repercussão na
organização dos primeiros núcleos das Ligas Camponesas na Paraíba. Entre 1953 e
1958, a Paraíba participou e inclusive sediou vários desses encontros, onde a presença
dos camponeses era predominante. Para a sua organização, a participação, mesmo na
clandestinidade, do Partido Comunista era marcante e pautava-se, em geral, na
perspectiva de incentivo à formação da aliança operário-camponesa com vistas à
promoção da revolução anti-imperialista e democrático-burguesa (CITTADINO, 1998,
p. 78).

Os proprietários rurais sabiam que só podiam ter de volta as terras que os camponeses
moravam expropriando os moradores e arrendatários delas. No entanto, com a impossibilidade de
uma imediata expulsão, passaram a usar outros mecanismos (proibição de atividades que
complementassem a renda, destruição de roçados pelo gado, ameaça e invasões ou destruição de
moradias), tornando a sobrevivência em suas terras quase impossível e forçando os moradores a
saírem (CITTADINO, 1998, p. 82-83).

Diante disso, os camponeses não aguentaram e começaram a enfrentar os latifundiários, o


que gerou inúmeras mortes e aumentou ainda mais a insatisfação dos campesinos, como afirma
Marta Lúcia Ribeiro Araújo: “foi com a conivência das autoridades constituídas que cometeram
as mais cruéis arbitrariedades contra os camponeses e seus líderes” (1999, p. 107).
A gota d’água foi o assassinato do líder João Pedro Teixeira, em abril de 1962, em Sapé.
Essa morte teve como consequência o aumento da força do movimento camponês, pois
desenvolveu um sentimento de revolta contra a onipotência e a impunidade dos latifundiários.
Houve também repercussões em outras áreas da sociedade, que foram convertidas em apoio ao
movimento. A imprensa nacional e a estrangeira fizeram uma ampla cobertura do caso, atraindo a
32

atenção do Brasil e de outros países para a situação crítica em que se encontrava o Nordeste
brasileiro (CITTADINO, 1998, p. 88).
A partir daí, o movimento estudantil e os trabalhadores da cidade se uniram à causa,
realizando grandes protestos e manifestações. Contudo, isso não diminuiu a violência dos
latifundiários. João Pedro Teixeira foi apenas um dos vários que morreram lutando. As Ligas
Camponesas, os movimentos estudantis, as greves que aconteciam nessa época eram um sinal da
profunda desigualdade social na qual o Brasil como um todo se encontrava.
Segundo Araújo (1999) as classes políticas do Estado consideravam a questão das Ligas
Camponesas como caso de policia e de subversão, dessa forma intensificou-se a violência no
estado como a forma encontrada para conter o movimento, a morte de João Pedro Teixeira e
vários outros camponeses era um exemplo de como eram resolvidas as coisas. No entanto, essa
violência gerou a possibilidade de um conflito armado, o que alarmou as classes no poder, que
começaram a aceitar a ideia de uma Reforma Agrária que acalmasse os ânimos, mas não
comprometesse a estrutura fundiária do Estado (p. 106).
A pesar da pressão popular, sabia-se que seria muito difícil a aceitação das elites agrária a
ideia da Reforma Agrária, além disso, as elites comerciais e industriais ainda precisavam se
adequar ao ideal desenvolvimentista. Assim vemos, que uma gama de conflitos econômicos,
políticos e ideológicos estavam em jogo no início da década de 1960, e esses culminaram com o
golpe militar de 1964.
Nessa década a Paraíba, como também o restante do Brasil, vivia as contradições da
política populista, uma vez que essa já não atendia as demandas da política da época que tinham
que lidar com as pressões dos conflitos populares e exigências das elites. O governador da
Paraíba em 1964 era Pedro Gondim, típico político populista que foi eleito em 1960 através do
“Querenismo”: movimento popular que reivindicava a eleição de Gondim, além do apoio popular
Pedro Gondim contou com o apoio político da UDN e de grupos oligárquicos (CITTADINO,
1999, p.111).
No início de seu governo Pedro Gondim manteve uma prática populista tentando equilibrar-
se entre as pressões políticas antagônicas que estavam em jogo na época, mas à medida que se
aproximava o ano de 1964, em que as tensões sociais atingiram seus níveis mais elevados com
sangrentos conflitos no campo e a luta de classes, Gondim foi obrigado a assumir uma posição
definitiva, dessa forma abandonou a posição conciliatório e cedeu às pressões dos latifundiária e
33

reprimiu vigorosamente o processo de mobilização popular. Assim, quando o golpe eclodiu, o


governo da Paraíba já estava em consonância com a política golpista e deu total apoio a ela
(CITTADINO, 1999, p.111-112).
Ainda segundo Monique Cittadino o golpe militar foi organizado por vários por vários
setores da sociedade paraibana que buscavam a todo custo controlar as manifestações populares,
como mostra o trecho a seguir.

A conspiração golpista na Paraíba envolveu a participação conjunta de setores civis e


militares interessados na repressão ao avanço popular. Proprietários rurais organizados
na Associação dos proprietários da Paraíba (APRA), comerciantes, empresariado
industrial, políticos não só da UDN mas também do PSD mantinham contado
permanente com o 15 RI, comandante Ednardo D´Ávila Mello, que se tornou uma das
figuras centrais no processo golpista na Paraíba segundo depoimentos de elementos
vinculados às forças golpistas, o processo de conspiração incluiu a organização,
encabeçada pelo Cel. Renato Ribeiro de Moraes, de falanges de sargentos, cabos e
soldados reformados da Policia Militar e do Exército para uma possível luta armada se
necessário fosse. A organização dessas falanges simultaneamente ao processo de
constituição de exércitos privados indicam eu as forças conservadoras estavam prontas
para conter qualquer resistência à implantação da nova ordem (CITTADINO, 1999, p.
112-113).

Vemos assim que o aparelho do Estado se organizou para manter a ordem da forma que
fosse possível. Os movimentos populares como as Ligas Camponesas foram duramente abafadas,
assim também aconteceu com qualquer voz que parecesse destoante nesse estado de ordem.
Para nosso trabalho é importante entender que as décadas de 1950 e 1960 foram
importantes na consolidação do ideal político de Elpídio de Almeida, uma vez que, a década de
50 marca o fim do primeiro mandato dele como prefeito de Campina Grande e seu segundo
mandato20. Almeida estava em consonância com esse movimento político que irá culminar com o
golpe de 1964 e esse seu alinhamento com esses interesses burgueses e com sua forma de política
é bastante elucidativo para entendermos alguns posicionamentos do autor em sua obra.
Em Campina Grande o golpe de 1964 coincidiu com a festa de centenário da cidade.
Newton Rique tinha acabado de ser empossado como prefeito, assim como no restante da
Paraíba, em Campina Grande o golpe de 1964 foi apoiado pelas classes conservadoras, pelo
comércio e a indústria. Desde os primeiros dias da implantação do estado autoritário os militares
começaram a perseguir seus opositores e cassar mandatos, Newton Rique tentou garantir o apoio
dos militares, mas como havia sido eleito pelo PTB e possuía laços de amizade com o ex-prefeito

20
Iremos trabalhar mais detalhadamente e vida de Elpídio de Almeida como político no próximo tópico.
34

João Goulart, logo teve sua cassação anunciada. Às vésperas das comemorações do centenário a
cidade estava sem prefeito o que colocava em risco a própria festa (AGUIAR, 2014, P. 79-80).
O cargo não ficou a disposição por muito tempo, os militares escolheram João Jerônimo
(então presidente da Câmara, ex-militar e amigo do coronel Queiroz, nome de peso no comando
do Batalhão do Exercito de Campina Grande) para disputar as eleições indiretas para prefeito em
oposição ao vereador Pedro Cordeiro, João Jerônimo, por ser o escolhido dos militares foi eleito
(AGUIAR, 2014, P. 79-80).
Na década de 1960 Campina Grande precisava encontrar seu lugar. Com o progressivo
declínio do comércio de algodão, a cidade passou a perder espaço e prestígio econômico. Mas,
segundo Agra do Ó, os discursos ufanistas diziam que não existia crise, que a cidade estava em
um momento de transição no qual teve que abandonar as tradicionais práticas comerciais em
nome de sua industrialização (2006, p.30).
É recorrente a necessidade de alguns grupos da sociedade campinense, principalmente os
jornalistas e os memorialistas, construírem discursos ufanistas sobre Campina Grande. Durante a
década de 1960, esses discursos se intensificaram, uma vez que em 1964 a cidade completav cem
anos de emancipação política e esse era o momento propício para (re)afirmar a ideia de
grandiosidade de Campina. Ao ressaltar a pujança da cidade, maquiava-se o declínio econômico
que ela estava passando.
Segundo Fabio Gutenberg de Sousa, a partir dos anos de 1960 os memorialistas e a
imprensa começaram a retomar intensamente as décadas de 1930 e 1940 para explicar o principal
sucesso da cidade. As instituições administrativas também fizeram parte desse movimento com a
intenção de vincular a grandiosidade da cidade à sua administração. A população, por sua vez,
também reproduzia esse discurso para ressaltar o quanto o local em que moravam era importante
fazendo com que esse período seja recorrente, trazendo certas memórias que assumem uma
dimensão quase mítica, embora ambígua (SOUSA, 2006, p.186).
Dessa forma a festa do centenário possuía um valor simbólico muito forte, uma vez que
através dela a cidade devia mostrar sua força. Elpídio de Almeida escreve “História de Campina
Grande” em homenagem ao centenário. Esse livro é só uma das várias homenagens que Campina
Grande recebe na época.
O centenário deveria ser grandioso, para tanto, a festa não poderia ser realizada em cima da
hora, de modo que foi aprovada uma lei que criava uma Comissão do Centenário para organizar a
35

festa, em 1961. Mário de Sousa Araújo 21, então vereador da cidade, foi quem teve a ideia de criar
uma lei que regulamentasse a festa. Ao ser questionado o porquê de ele ter feito o projeto de lei, o
senhor Mário Araújo disse:

Porque eu sempre fui um amante da história de Campina e então, eu lendo os livros de


Epaminondas Câmara, me nasceu a ideia de criar a comissão do centenário. Exatamente
para criar uma consciência no povo para a necessidade de se fazer uma grande festa do
centenário (ARAÚJO, 16/10/2012, p.6).

O então vereador Mário Araújo sentia a necessidade de organizar a cidade para a festa e
essa deveria fazer com que os campinenses entendessem a importância de Campina Grande para
o cenário nacional. Mário Araújo fazia parte do grupo que estava se esforçando para falar e
mostrar que Campina (ainda) era grandiosa.
Em 1961, o então prefeito Severino Cabral escolheu os integrantes da Comissão do
Centenário, durante nossa pesquisa contatamos que essa nomeação estava sendo muito aguardada
pelas elites locais, ansiosos para saber quais as pessoas que teriam a honra de organizar o
centenário. O trecho do jornal “Gazeta Campinense” exemplifica bem nossa afirmação.

Está sendo aguardada pelos círculos mais interessados no progresso de Campina Grande
a designação, pelo prefeito, da Comissão Central do Centenário, em conformidade com a
lei recentemente aprovada pela Câmara de Vereadores.
Cremos que a primeira medida a tomar seria a solicitação, por parte da prefeitura, às
entidades que deverão fazer-se representar na aludida Comissão, de três nomes dentre os
quais o Prefeito escolheria um dêles a fim de integrar o órgão central. [...]
Na esperança do atendimento de Vossa Excelência, subscrevo-nos:
Pelo “GRUPO CAMPINENSE DE ESTUDOS”
Elpídio de Almeida – Médico, Historiad., Ex-Prefeito
Atila Almeida – Professor Universitário
Everaldo Lopes – Médico
Antonio Lucena – Advogado
Noaldo Dantas – Jornalista (GC, 28/05/1961, p. 1)

A gazeta Campinense era um jornal organizado pela diocese de Campina Grande, nele
trabalhavam os intelectuais católicos da cidade e que Elpídio de Almeida fazia parte. A nota aqui
descrita estava na primeira página do jornal, mostrando a relevância da notícia para o periódico.
O primeiro ponto que nos chama a atenção é a afirmação que diz que os mais interessados no

21
Mário Araújo foi por muitos anos vereador de Campina Grande, foi secretário do segundo mandato de Elpídio de
Almeida (1955-1959), amigo e “compadre” de Dr. Elpídio. É irmão de Félix Araújo, que também foi amigo de
Almeida e o mentor intelectual de sua campanha para prefeito em 1947.
36

desenvolvimento da cidade estavam ansiosos com essa nomeação, ou seja, as elites locais
estavam interessados em saber os nomes, inclusive para saber quem deles seriam nomeados.
Elpídio de Almeida é o primeiro nome da lista, o que mostra o quanto ele estava envolvido
com o centenário e o seu lugar de prestígio na sociedade, além de médico, ex-prefeito, membro
do IHGP ainda estava escrevendo a história da cidade, sendo assim um forte candidato
A nomeação do prefeito saiu e a Comissão do centenário foi dividia em duas: “Comissão
do Centenário”, que era responsável por organizar a festa, os eventos e as obras que deveriam
marcar para sempre a data; e a “Comissão Cultural do Centenário”, chefiada por Elpídio de
Almeida, que deveria tratar da publicação de livros, periódicos, encontros literários, palestras,
mostra de música, teatro e cinema (SOUZA, 2010, p. 110-112).
Nos quase três anos de preparação, a festa foi gestada a partir de diversos interesses e
repleta de conflitos. Segundo Souza (2010) e AGUIAR (2014), durante esse tempo, várias foram
as brigas, os desacertos e os problemas financeiros. Noaldo Dantas, que era o coordenador geral
da festa, pediu demissão do cargo cinco dias antes dela acontecer por conta de desavenças
políticas com os outros membros da comissão. Antes dele vários foram os presidentes da
comissão. Além disso, havia denúncia de desvio de verbas e acusações diversas entre os
membros da comissão, como também entre os políticos locais (SOUZA, 2010, p.113-114).
O senhor Mário de Souza Araújo foi mais um dos que estiveram envolvidos nessas
desavenças políticas. Ele afirma:

Fui eu que criei a comissão do centenário de Campina Grande, dou graças a Deus e
tenho muita honra de ter tido essa ideia, embora a política tenha umas coisas gozadas, eu
não participei de nenhuma solenidade do centenário de Campina Grande, não fui
convidado para absolutamente nada, por questões políticas (ARAÚJO, 16/10/2012, p. 6).

Vemos então que aconteceram diversas brigas durante os anos de preparação para o
Centenário. O próprio homem que teve a ideia de organizar a festa ficou de fora dela, escutando
informações pelo rádio, pois era inimigo político do então prefeito Plínio de Souza Arruda.
Quando perguntamos o que ele achou da festa, o senhor Mário Araújo disse que “foram muito
pálidas” e não estavam à altura da grandiosidade da cidade.
As brigas ficavam nos bastidores, os jornais e rádios locais faziam programas e matérias
que mostravam os preparativos para a festa. A Rádio Borborema, por exemplo, fez um programa
que foi ao ar desde 1961 e tinha o nome “cidade centenária”. Era coordenado por Noaldo Dantas
37

e apresentado nas noites de domingo. O programa recebia políticos e empresários que davam suas
opiniões sobre a cidade e sobre como deveria ser a festa (SOUZA, 2010, p. 110-111).
Apesar de todos os percalços pelo caminho, no dia 11 de outubro de 1964, a cidade fez a
sua tão sonhada festa de aniversário. O evento era o ponto alto das comemorações. Segundo
Souza, naquela manhã de domingo, a cidade acordou ao som das várias bandas marciais e dos
fogos, “não só as pessoas, mas a própria cidade estava vestida para a festa”. E assim foram feitas
várias comemorações. Durante todo o mês de outubro, um parque de diversões se instalou na
cidade. No dia do aniversário, houve o desfile de bandas marciais tanto de Campina como de
outras cidades, desfile do exército, além de grandes bailes realizados pelos clubes da cidade,
atraindo muitos visitantes para a centenária Campina Grande.

Todos os meios de comunicação disponíveis (rádio, jornal e, agora, a televisão,


inaugurada em 1963) se esmeravam em demonstrar o quanto a cidade havia crescido
naqueles primeiros cem anos e como o seu povo, independente de classe social, se
orgulhava desses feitos (SOUZA, 2010, p. 115).

Desse modo, centenário foi o momento propício para as elites campinenses (re)afirmarem
de vez a grandiosidade de Campina Grande. Todos os discursos mostravam isso. Concordamos
com Fábio Gutemberg de Sousa, quando ele diz que o centenário tinha grande valor simbólico
para as elites locais, pois para elas, que presenciaram e desfrutaram do progresso da cidade
durante o início de século XX, essa festa vinha fechar um ciclo de “sucesso” (SOUSA, 2006, p.
186). Essa era uma busca romântica de não deixar morrer na memória alguns anos de glória que
Campina passou, anos de glória dessas elites também, por isso a necessidade de reafirmação da
grandiosidade.
“Do pequeno vilarejo veio a emancipação/ Campina foi crescendo/Crescer sempre foi seu
lema/ E hoje é Campina Grande/Rainha da Borborema”(Marinês). Esse é um pequeno trecho da
música “Campina Centenária”, que foi feita em homenagem à cidade e que compunha o LP
“Centenário de Campina Grande” 22, de 1964. Escolhemos esse trecho por acreditarmos que nele
se concentra toda a ideia que as elites locais queriam passar em seus discursos. Crescer sempre
foi o lema de Campina Grande, era nisso que acreditavam e era essa a imagem que queriam
eternizar com o centenário.

22
Cf. LP “Centenário de Campina Grande” de 1964. Disponível em: <http://cgretalhos.blogspot.com.br/2009/08/lp-
do-centenario-de-campina-grandegrandeem.html#.UCjmUKFlR3M>.
38

Elpídio de Almeida fez parte da elite campinense, presenciou todos esses fatos que
narramos anteriormente e fazia parte da construção do discurso de grandiosidade da cidade.
Assim, todos esses fatores foram determinantes na construção de sua visão de mundo, de suas
opiniões, de sua atuação na sociedade. Essas questões são de fundamental importância para
entendermos as posições tomadas por Almeida em “História de Campina Grande”, uma vez que
entendemos a escrita da história como um ato político.
Almeida uniu o que ele aprendeu no Instituto Histórico e Geográfico Paraibano, suas
vivências em Campina Grande e a necessidade de construir um discurso de grandiosidade para a
cidade e escreveu sua obra. Afinal, assegurar um registro é também uma forma de manter
controle sobre ele e é através desse controle que Almeida tece a história de Campina Grande e
cria uma cidade idealizada, onde só se encontra a memória das elites; história linear e sem muitas
rupturas, onde esses grupos comandam a vida da urbe, por ser seu lugar “natural”. Dessa forma,
Almeida ajuda a perpetuar esses grupos no poder, em que estão desde a fundação da cidade.
39

Capitulo II:
A ESCRITA DE ELPÍDIO DE ALMEIDA

De fato, a escrita histórica – ou historiadora –


permanece controlada pelas práticas das quais
resulta; bem mais do que isso, ela própria é uma
prática social que confere ao leitor um lugar bem
determinado, redistribuindo o espaço das referências
simbólicas e impondo, assim, uma “lição”; ela é
didática e magistral (Michel de Certeau).

Para Michel de Certeau a história oscila entre uma prática que tem relação direta com uma
realidade e um discurso, o texto, no qual se condensa a inteligibilidade do autor (2011, p. 6). A
escrita da história então não pode ser entendida se desconsiderarmos as vivências, ideologias,
posições políticas, religiosas, pressupostos teóricos, gostos pessoais, enfim, o texto de história
está sempre relacionado com a vida do autor.
Já vimos que Elpídio de Almeida, fazia parte da classe dominante de Campina Grande, uma
cidade que passou por uma série de mudanças (econômicas, políticas e sociais) durante a primeira
metade do século XX e que estas tiveram grande importância em sua escrita. É notório o
engajamento de Almeida em ressaltar a memória das classes dominantes da cidade, seus nomes,
seus feitos, suas glórias, e silenciar, quando não menosprezar, a importância dos populares para a
história da cidade. Essas escolhas foram feitas intencionalmente e refletem o momento em que o
autor escreveu sua obra, época de grande efervescência social em que estava sendo questionadas
as práticas políticas do país, a desigualdade social e o status quo das elites.
Outra grande influência na escrita de “História de Campina Grande” foram os clássicos da
historiografia campinense, obras como: “Alicerces de Campina Grande” de Cristino Pimentel,
“Abrindo o livro do passado”, Pedaços da história de Campina Grande”, “Mais um mergulho na
História de Campina Grande” de Epaminondas Câmara, alicerçaram a análise de História de
Campina Grande. Acreditamos que Elpídio leu essas obras para conhecer mais sobre a história da
cidade, a partir delas e de sua vontade de escrever uma livro em homenagem a Campina decidiu
realizar a pesquisa sobre a história da cidade, acrescentando mais informações trazendo novos
pontos que encontrou nas fontes que teve acesso.
A relação de Elpídio de Almeida com a escrita não começou com “História de Campina
Grande”, Almeida já escrevia artigos desde a faculdade, seu primeiro trabalho de fôlego foi o seu
40

trabalho de conclusão do curso de medicina intitulada “Contribuição ao estudo da


Eschistossomose Mansônica” de 1919. Os métodos científicos aprendidos para a escrita desse
trabalho provavelmente auxiliaram Elpídio de Almeida na construção de seus futuros escritos,
que lhe atribuíram o status de homem das letras.
Assim como Elpídio de Almeida, muitos foram os profissionais liberais que enveredaram
pelos caminhos da escrita, seja literária, jornalística ou histórica, principalmente até o surgimento
dos cursos superiores de Letras, Comunicação social e História no Brasil. Na Paraíba, por
exemplo, o primeiro curso superior de História só veio surgir com a Faculdade de Filosofia da
Paraíba, em 1950 23. A História, até então, era produzida por letrados ou profissionais que se
reuniam em Instituições como o Instituto Histórico e Geográfico Paraibano e a Academia
Paraibana de Letras.
Desde que chegou a Campina Grande Elpídio de Almeida se envolveu no meio intelectual
da cidade. Em 1921 seu nome já aparece como colaborador da “Revista Campinense”, periódico
que circulava em Campina e tratava de temas do cotidiano. Mas foi com a sua entrada para o
IHGP que Almeida começou a escrever artigos em que tratava da história local.
Os textos feitos por Elpídio estão alinhados com a historiografia tradicional que tem fortes
características da escola metódica. Essa forma de escrita da história descendo do positivismo que
nasceu das filosofias da história do século XVIII. Mas foi no século XIX, com a influência da
Revolução Francesa, que as filosofias da história procuram descobrir um sentido para a mesma
(BOURDÉ, MARTIN, 1983, p.44). É nesse período histórico que surgem nomes como Comte e
Hegel, que vão dar contribuições significativas para a história.
Segundo Reis (2004) a Escola Positivista veio da filosofia histórica alemã que se baseava
em Ranke e Hegel, quando essa filosofia chegou à França ela foi adaptada ao espírito francês,
que inseriu os princípios iluministas a ela. A partir daí essa historiografia se tornou evolucionista,
progressista, gradualista e deveria seguir um progresso linear e evolutivo em direção a uma
sociedade moral, igualitária e fraterna (p. 20).
Além destas características a história passou a ser feita a partir de métodos o que deu a
história o status de ciência. Estes métodos foram inspirados nos das ciências naturais e tinham o
objetivo de chegar à realidade. Segundo José Carlos Reis esse método consistia em:

23
Mais sobre o assunto conferir a dissertação: BEZERRA, Francisco Chaves. O ensino superior de História na
Paraíba (1952-1974): aspectos acadêmicos e institucionais. João Pessoa: UFPB, 2007.
41

(a) o historiador não é juiz do passado, não deve instruir os contemporâneos, mas apenas
dar conta do que realmente passou;
(b) não há nenhuma interdependência entre o historiador, sujeito do conhecimento, e seu
objeto, os eventos históricos passados. O historiador seria capaz de escapar a todo
condicionamento social, cultural, religioso, filosófico, etc. em sua relação com o objeto,
procurando a “neutralidade”;
(c) a história – res gestae – existe em si, objetivamente, e se oferece através dos
documentos;
(d) a tarefa do historiador consiste em reunir um número significativo de fatos, que são
“substâncias” dadas através dos documentos “purificados”, restituídos à sua
autenticidade externa e interna;
(e) os fatos, extraídos dos documentos rigorosamente criticados, devem ser organizados
em uma seqüência cronológica, na ordem de uma narrativa; toda reflexão teórica é
nociva, pois introduz a especulação filosófica, elementos a priori subjetivistas;
(f) a história-ciência pode atingir a objetividade e conhecer a verdade objetiva, se o
historiador observar as recomendações anteriores (2004, p. 17).

Desta forma, a história científica deveria ser produzida por um sujeito neutro para que o
seu objeto de estudo fosse enfatizado sem nenhuma forma de julgamento, pois acreditava-se que
os fatos falam por si, para tanto o historiador devia-se manter inseto, imparcial, sem deixar seu
contexto interferir em seu estudo.
No entanto, Reis ressalta que não houve historiadores positivistas, no sentido estrito do
termo eles podem ser chamados de positivos, pois “apóiam-se em fatos, na experiência, em
noções a posteriori; temem a não objetividade e tendem ao concreto, evitando a especulação; tem
uma visão otimista, progressista da história.” (REIS, 2004, p. 27).
Ou seja, os historiadores não seguiam todas as regras positivistas, assim José Carlos Reis
opta por chamá-los de metódicos pelo fato desses se apoiarem no método cientifico para fazer a
história. Concordamos com Reis, pois entendemos que a história não é neutra e sempre está
influenciada pelo lugar social e institucional do historiador.
A forma de escrita de Almeida também tem forte influência da historiografia do momento
em que Almeida escreveu. Ao estudarmos a historiografia brasileira, vemos que o perfil dos
historiadores ao longo da primeira metade do século XX mudou muito. Percebemos que as
agitações políticas, econômicas e sociais que ocorreram durante essas décadas geraram mudanças
significativas no perfil desses homens.
Elpídio de Almeida começa a escrever história na década de 1930, nesse período a
mudança política brasileira gerou uma mudança também historiográfica. A Era Vargas traz
consigo uma forte instabilidade política e vivos debates. Durante os anos 30 fica perceptível a
42

elaboração de uma biografia nacional de exaltação do Estado e que se pretende passar para toda a
sociedade (BORGES, 2003, p. 160).
É necessário salientar que essa visão de história não era hegemônica nessa época, há todo
um debate em torno dos acontecimentos da sociedade brasileira nesse contexto, debates esses que
geravam desde a versão tradicional da história, como movimentos de esquerda, que traziam os
debates marxistas. Gerando assim uma verdadeira revolução de idéias (BORGES, 2003, p. 160-
163).
Após o Estado Novo novas reflexões emergiram sobre a sociedade brasileira, a década de
1950 veio repleta de transformações que mudaram de vez a “cara” do Brasil. A Guerra Fria, a
reeleição de Vargas em 1950 e sua morte em 1954, a Revolução Cubana, os partidos de esquerda,
as Ligas Camponesas, o crescimento do número de mulheres no mercado de trabalho, o Cinema
Novo, o Rock, a Bossa Nova, entre outros acontecimentos, marcaram a sociedade Brasileira
(KONDER, 2012, p. 356-357).
Os historiadores conservadores dessa época, que temendo as políticas de “esquerda”,
principalmente com o advento da guerra fria, retratavam em suas obras verdadeiras exaltações a
nação, “defendendo” a classe média e os trabalhadores do terror do comunismo. Além disso,
defendiam também a moral, a ordem e a justiça, todos esses baseados no pensamento
conservador ligados ao tradicionalismo católico (KONDER, 2012, p. 357). Características muito
próximas das abordagens de Elpídio Almeida em seus textos.

2.1 - Ensaios para “História de Campina Grande”: os artigos que Almeida escreveu

Elpídio de Almeida escreveu diversos artigos sobre história, esses textos foram publicados
na “Revista do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano” e em jornais e revistas locais, como a
“Gazeta Campinense” e a “Revista Campinense de Cultura”. Esses escritos de Almeida são
importantes para nossa pesquisa por entendermos que estes serviram como ensaios para “História
de Campina Grande”, pois fizeram com que o autor amadurecesse sua escrita, aprendesse mais
sobre o trabalho com as fontes históricas, como também consolidasse a escrita política de
Almeida.
43

3.1.1 – Revista do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano (décadas de 30 a 50).

O primeiro artigo de Elpídio de Almeida sobre História foi “Fragmentos da História de


Areia”, publicado no volume 09 da “Revista do IHGP”, em 1937. Não é por acaso que ele
escolheu falar sobre Areia, já que é a terra natal dele. No artigo, Almeida faz um mergulho entre
os anos de 1815 a 1819, discorrendo sobre os acontecimentos na Câmara de vereadores da
cidade, seus primeiros atos, as nomeações e as decisões que os vereadores tomaram.
Percebe-se a preocupação do autor em trabalhar as fontes históricas que tinha em mãos,
citando-as, fazendo referências, sendo a maior parte dessas fontes ofícios dos vereadores. Isso
mostra o quanto o IHGP preparava seus membros para escreverem História a partir do método
histórico consolidado no século XIX, dando ênfase a datas e acontecimentos políticos e
administrativos.
Além disso, segundo Dias, “a Revista deveria servir para reproduzir os documentos, os
retratos de homens ilustres, de monumentos, paisagens e publicar as memórias, conferências e
outros estudos” (1996, p. 46). Vemos então que Elpídio, em seu primeiro trabalho para a Revista
do IHGP, estava em sintonia com os objetivos do Instituto.
O segundo artigo publicado por Almeida foi em 1946, no volume 10 da “Revista do
IHGP”. Foram nove anos sem publicar, pois o Instituto, por problemas financeiros e de
patrocínio, passou todos esses anos sem lançar revista24. O artigo de Almeida publicado no
periódico foi “Félix Ferreira de Albuquerque – dados para sua biografia”. Nesse artigo, Almeida
traz alguns dados sobre a vida do Sargento-Mor Félix Ferreira de Albuquerque, desde a data de
seu nascimento até a sua morte.
Segundo Almeida, “não se sabe ao certo o ano em que nasceu o Sargento-Mor Félix
Ferreira de Albuquerque. [...] Em 1817 já era homem feito, alto comerciante na Vila de Pilar [...]”
(REVISTA DO IHGP, v. 10, 1946, p. 47). Elpídio de Almeida decidiu escrever sobre esse
homem por ele ser um dos principais expoentes da Confederação do Equador (1824) na Paraíba.
Foi ele quem comandou a batalha do Riacho das Pedras, que aconteceu em Itabaiana e foi uma
das maiores batalhas que ocorreram em solo paraibano.

24
Dias aponta em seu estudo sobre o IHGP que o empecilho do Instituto de ter suas publicações lançadas
periodicamente se dava pelas dificuldades econômicas e da dependência de favores do governo estadual, que era o
órgão que publicava as revistas pela gráfica União (1996, p. 45).
44

A Confederação do Equador, a Revolução Pernambucana (1817) e a Revolta Praieira


(1824) são fatos históricos que o IHGP considera como fundantes na formação da paraibanidade,
pois, segundo a entidade, mostram como os paraibanos estavam propensos a se alinharem com os
ideais republicanos (DIAS, 1996, p.57-58). Percebemos assim que Almeida está alinhado com
esse pensamento do Instituto, pois além de escrever um artigo ele retoma essas revoltas em
“História de Campina Grande”, tamanha a importância que o autor dava a esses acontecimentos.
Outra publicação feita por Almeida nesse mesmo ano, 1946, foi “Areia e a abolição da
escravatura: o apostolado de Manuel da Silva”, publicado no “Jornal do Comércio de Recife”.
Esse foi um trabalho minucioso sobre a abolição da escravidão em Areia, destacando sempre que
as ideias liberais e abolicionistas tiveram a cidade como primeiro reduto na Paraíba e no Brasil, já
que Areia é referenciada como a primeira cidade da Paraíba a abolir a escravidão. Mais uma vez,
Almeida mostra como os ideais republicanos e liberais são importantes para ele.
Desde 1937, ano da primeira publicação do autor na “Revista do IHGP”, até 1960, foram
apenas três artigos escritos para a revista. Isso se deu pelo fato de que, durante esses anos,
Almeida se envolveu muito com a medicina e com a política. A título de exemplo, destacamos
que nesse período Almeida foi fundador e presidente da Sociedade Médica de Campina Grande,
de 1942 a 1943; foi fundador e primeiro presidente da Assistência e Proteção à Infância, em
1959; criou a Liga Campinense contra a Tuberculose; foi também prefeito de Campina Grande
durante dois mandatos, o primeiro de 1947 a 1950 (deixou o cargo em 1950 para exercer o de
Deputado Federal no Rio de Janeiro) e o segundo de 1955 a 1959 (NETO, 1995, p. 44).

2.1.2 - Gazeta Campinense, Revista do IHGP e Revista Campinense de Cultura


(década de 60)

Os anos 60 foram, sem dúvidas, os mais produtivos para o Elpídio de Almeida como
historiador, pois ele não estava mais envolvido na política e pôde dedicar-se à pesquisa e à escrita
de “História de Campina Grande”. Seus textos podiam ser encontrados em jornais e revistas
locais, como o jornal “Gazeta Campinense” e a “Revista Campinense de Cultura”.
Em 1961, Elpídio de Almeida publicou diversos artigos no jornal “Gazeta Campinense”,
organizado pela Diocese de Campina Grande que congregava os intelectuais católicos da cidade e
se configurava como um periódico de cunho conservador.
45

Durante o ano de 1961 o jornal publicou uma série de artigos feitos por Elpídio de Almeida
sobre a história da cidade. Almeida foi convidado para escrever esses artigos pela aproximação
das comemorações do centenário de Campina Grande e por haver um empenho do periódico,
como também das elites locais, em mostrar a importância de conhecer a história da cidade para
que seus leitores entendessem a necessidade da realização da festa.
O jornal teve essa preocupação porque a administração da cidade já havia começado a se
preparar para esse momento. Nesse mesmo ano, foi aprovado um projeto de lei que criava uma
Comissão do Centenário. Essa iniciativa teve grande repercussão entre as elites da cidade. Esse
era o momento de festejar o ciclo de desenvolvimento de Campina Grande, o qual esses homens
se sentiam os protagonistas.
Elpídio de Almeida foi escolhido como chefe da Comissão Cultural do Centenário, órgão
que seria responsável pela organização de encontros literários e filosóficos, publicações de livros
e periódicos, palestras, mostras de teatro, música e dança (SOUZA, 2010, p.112). Logo,
percebemos que não é por acaso que Almeida foi escolhido para fazer essa série de publicações
no jornal. Além disso, no ano seguinte, ele publicaria “História de Campina Grande”.
O primeiro artigo publicado na “Gazeta Campinense” foi “Onde está o Missal?”. Em
02/04/1961, Almeida mostra nesse artigo sua preocupação com a pesquisa para escrever seu
livro. Conta que procurou o Livro dos Santos Evangelhos, que, segundo ele, é “uma relíquia” de
extrema importância histórica, pois era onde estavam registrados os acontecimentos políticos e
administrativos da cidade; no entanto, Almeida não conseguiu o livro, pois não sabia ao certo o
seu paradeiro. Segundo o autor, o Livro dos Santos Evangelhos “foi visto pela última vez em
1924, ainda em perfeito estado” (GAZETA CAMPINENSE, ano II, n. 61 de 02/04/1961, p. 6).
Mas o curioso é que, apesar de Almeida reclamar que o Missal deveria ser bem guardado
para eventuais pesquisas e escrever um artigo reclamando seu paradeiro, o autor diz sobre quem o
pegou: “fez com a louvável intenção de evitar o desvio, retendo-o em sua guarda, prestou
inestimável serviço à tradição e à cultura da cidade” (GAZETA CAMPINENSE, ano II, n. 61 de
02/04/1961, p. 6). Ou seja, Almeida defende o roubo de documentos públicos por pessoas que
para o autor entende o valor desses documentos. “Tomar posse” dos documentos públicos era
uma prática comum desses intelectuais, justificando essa prática pelo fato de poucas pessoas
fazerem esse tipo de pesquisa e pela influência que tinham na sociedade. Não raro, esses homens
46

pegavam esses documentos e guardavam em seus acervos particulares, como o próprio Almeida
fazia25.
Outro artigo escrito para a “Gazeta Campinense” foi “D. Pedro II na Paraíba”, publicado
em 28/05/1961. Nele, Almeida ressalta os grandes personagens da história, como D. Pedro II, e
busca mostrar a importância da Paraíba no cenário nacional. Nesse sentido, aponta para a
necessidade de algum historiador do Estado escrever sobre a visita de D. Pedro II à Paraíba, fato
que para ele é de grande relevância, pois “será a rememoração social e econômica da Província
em meados do século passado, quando ainda era quase esquecida e nenhuma voz possuía nos
conselhos do governo Imperial” (GAZETA CAMPINENSE, ano II, n. 62 de 28/05/1961, p. 6).
Ou seja, é mais um fato histórico ocorrido na Paraíba ainda não registrado, mas que para o autor
precisava ser feita, pois demonstrava a importância do Estado na história brasileira.

Ainda não se escreveu a história da visita de D. Pedro II à Paraíba, detalhadamente,


baseada em documentos extraídos do arquivo do Museu Imperial como fez Guilherme
Auler, em referência à Pernambuco, publicado na “Revista do Arquivo Público” e Levi
Rocha, à do Espírito Santo, em livro recente.
Quanto à da Bahia nada mais há a acrescentar. Constituiu um livro de mais de 300
páginas, organizado por Lourenço Lacombe, diretor do Museu Imperial [...] (GAZETA
CAMPINENSE, ano II, n. 62 de 28/05/1961, p. 6).

Nesse fragmento do artigo de Almeida, podemos ver que o autor se preocupa com o fato de
escritores da Paraíba não terem escrito nada sobre a visita de D. PedroII, enquanto os
historiadores dos estados de Pernambuco e da Bahia, por exemplo, já relataram a visita do
imperador. Cita ainda os historiadores da Bahia, os quais produziram um livro bastante
volumoso, o que mostra como pode ser rica essa documentação.
Em 11/06/1961 foi publicado “Campina Grande e a Sêca de 1877”. Nesse artigo, Almeida
fala sobre o flagelo da seca em Campina Grande. Contudo, a ênfase é dada ao trabalho da Câmara
de Vereadores do município na assistência à população. O autor afirma que “a Câmara Municipal
não ficou estranha ao sofrimento dos habitantes do município e dos flagelados que chegavam
continuamente à cidade” (GAZETA CAMPINENSE, ano II, n. 64 de 11/06/1961, p. 6).
Para Almeida a Câmara Municipal teve um papel importantíssimo para a diminuição dos
flagelos da seca, pois a administração decidiu construir um paço municipal para aumentar os

25
Fazemos essa afirmação, pois no artigo “Fragmentos da História de Areia” escrito por Elpídio de Almeida e
publicado no volume 9 da Revista do IHGP, de 1937, a primeira nota de rodapé diz que “este documento e os demais
aqui transcritos pertencem ao archivo do autor”.
47

empregos na cidade, minimizando os impactos da condição climática. Almeida utiliza-se das suas
pesquisas e da construção de capítulos que escrevia para a “História de Campina Grande” como
base para esses artigos no Jornal “Gazeta Campinense”. O artigo supracitado faz parte do capítulo
“Paço Municipal” e “Sêca de 1877” do seu livro.
Em “Câmaras Municipais antigas”, que foi publicado no jornal em 08/07/1961, Almeida
ressalta mais uma vez a importância da Câmara de Vereadores para Campina Grande. No
pequeno artigo, o autor diz que “há coisas do nosso passado relegadas ao esquecimento e ao
desprezo, que merecem ser recordadas com saudades e orgulho, já que não pode voltar a vigorar
na legislação do município” (GAZETA CAMPINENSE, ano II, n. 67 de 08/07/1961, p. 6). O
autor diz isso pelo fato de que nas primeiras Câmaras municipais os vereadores não recebiam
salário. Para Almeida, que tanto se preocupou em relatar sobre os acontecimentos políticos e
administrativos de Campina Grande, esse era um fato para ser ressaltado.
Esse artigo foi publicado em um jornal de circulação semanal. E, para chamar a atenção dos
leitores, o autor precisava de um assunto interessante. Assim, esse foi um dos assuntos
escolhidos. Almeida, ao escrever esses artigos, além contribuir para a difusão da história da
cidade e da sua grandiosidade, ainda desperta a curiosidade do público para ler o seu livro, pois o
assunto desse artigo relatado depois no capítulo “Câmaras Municipais (1877-1889)” de “História
de Campina Grande”.
É importante ressaltar também que tanto nesse artigo como em “Campina Grande e a Sêca
de 1877” Almeida foca a atenção dos leitores para as realizações da Câmara Municipal e de seus
membros, mostrando assim a sua visão elitista, na qual apenas os que são considerados grandes
homens (que geralmente era os que ocupavam cargos públicos) é que são os protagonistas da
história. Nessa visão de mundo e da história, as elites é que são esclarecidas, cultas, ilustradas e
que devem dirigir o povo. Essa é a história da Paraíba escrita por Almeida e seus pares, visão
essa que é herdada do IHGP, como mostra Dias (1996, p. 46):

Dentro do projeto de formulação de história executado e veiculado pelo Instituto,


colocava-se, de início, a necessidade de reunir pessoas para recordação de fatos ou para
eternizá-los. Isolando o fato, caracterizando-o como digno de recordação e, portanto de
sua inclusão na historiografia, fez-se um primeiro mapeamento do processo histórico
paraibano.
48

Dias aponta para o fato de que a escolha de personagens e fatos históricos para entrarem
para a história da Paraíba se iniciou desde as primeiras publicações do IHGP, em 1909. Almeida
escreve esses artigos em 1961, época em que muito já havia sido escrito sobre a história do
Estado. Desse modo, entendemos que o autor se inspira nesse objetivo do IHGP para escrever a
história de Campina Grande. O IHGP tinha o intuito de escrever a história da Paraíba, que na
verdade ficava bastante restrita aos acontecimentos da capital do estado. Dessa maneira, Almeida
via a necessidade de colocar Campina Grande como participante ativa dessa história.
No artigo “Quebra Quilos”, que foi publicado em 16/07/1961, Almeida ressalta como o
Quebra-Quilos aterrorizou Campina Grande. Segundo o autor, a cidade foi “o lugar mais
prejudicado pela ação dos amotinados” (GAZETA CAMPINENSE, ano II, n. 69 de 16/07/1961,
p. 6). Completa dizendo que a população abandonou a cidade com medo dos revoltosos. Nesse
artigo, Almeida apenas esboça alguns fatos sobre o Quebra-Quilos, mas já aponta que a
insurreição foi violenta e arbitrária, ao afirmar, por exemplo, que aconteceram vários assaltos
durante o levante: “comandou o assalto o assassino Neco de Barros que aproveitara a confusão
dos insurreicionados para exercer vinganças e cometer delitos” (GAZETA CAMPINENSE, ano
II, n. 69 de 16/07/1961, p. 6).
Contudo, o seu posicionamento sobre o tema só vai ser exposto em seu livro. Como o autor
mesmo coloca, “não é aqui a oportunidade para desenvolver esse assunto. Constituirá um capítulo
do nosso trabalho, em elaboração, sobre o passado de Campina Grande” (GAZETA
CAMPINENSE, ano II, n. 69 de 16/07/1961, p. 6). É no capítulo “Quebra-Quilos” de “História
de Campina Grande”, que Almeida vai apresentar toda a sua desaprovação em relação ao
movimento, o que mostra que nem sempre Almeida concordava com o IHGP, uma vez que a
instituição dizia que esse era um fato que mostrava a glória do estado e merecia ter sua memória
preservada (DIAS, 1996, p. 21), ou seja, Almeida se distanciava dos dogmas do Instituto quando
esses contrariavam as posições políticas e ideológicas de Almeida, mostrando que a instituição de
saber tem muita influência em Elpídio, mas não é soberana.
Elpídio de Almeida escreveu três artigos na “Gazeta Campinense” intitulados “Os filhos de
Teodósio de Oliveira Ledo”, que foram publicados respectivamente em 24/09/1961, 22/10/1961 e
05/11/1961. O autor diz que escreveu esses artigos porque, como estava se aproximando o
centenário da cidade, várias pessoas estavam escrevendo sobre a sua história nos jornais locais,
principalmente sobre Teodósio de Oliveira Ledo. Porém, segundo Almeida:
49

Não devem essas achegas ofertadas de bom grado ser imediatamente aceitas, acolhidas
sem exame como a expressão da verdade histórica. Precisa algumas passar pelo crivo da
investigação, da análise aprofundada, do cotejo com os documentos existentes e os livros
dos que cuidem do assunto (GAZETA CAMPINENSE, n. 79 do ano II, Campina
Grande, p. 24/09/1961, p. 6).

Almeida mostra então que apesar das várias publicações sobre a história de Campina
Grande nem todas retratavam a verdade, pois não eram baseadas em fontes, como o autor fazia.
No caso do artigo supracitado, Almeida vai mostrar que o autor Wilson Seixas se enganou em
falar sobre Teodósio de Oliveira Ledo e seus filhos, apresentando ponto a ponto qual foi esse
engano. No entanto, ao fazer isso, recebeu críticas. No outro artigo que escreveu sobre o assunto,
em 05/11/1961, o autor relata:

Esses singelos comentários em tôrno da família Oliveira Ledo, que venho fazendo pelas
colunas dêste jornal, em tom de conversação, jamais tomando a aspereza de polêmicas
[...]. O que tenho dito e ainda virei a dizer sôbre o assunto, com a preocupação de
acertar, foi e será sempre firmado na palavra de um historiador idôneo, paraibano ou
não, ou em documentos merecedores de fé (GAZETA CAMPINENSE, n. 85 do ano II,
Campina Grande, 05/11/1961, p. 6).

Almeida se apoia nas fontes e na bibliografia para mostrar que ele estava escrevendo a
verdade e que foi Wilson Seixas quem errou, e continua afirmando isso no outro artigo sobre os
filhos de Teodósio de Oliveira Ledo. Essa preocupação em corrigir esses “falseamentos” vai
aparecer também em alguns capítulos de sua obra, principalmente os que se referem à
colonização do interior paraibano e à época em que Campina foi aldeia, freguesia e vila, onde
Almeida elege como protagonista a família Oliveira Ledo. Esses assuntos correspondem aos dois
primeiros capítulos de “História de Campina Grande”.
Disputas dentro do campo da historiografia não são novidades, geralmente elas ocorrem por
disputas de poder, por divergências políticas, ideológicas e teóricas. Essas diferenças entre
perspectivas historiográficas é que possibilitam o desenvolvimento de novas abordagens e
paradigmas, pois a escrita da história é marcada por relação de forças, que mostram que o
historiador toma suas posições e levanta bandeiras, pagando o preço por isso, sendo a crítica um
deles.
Outro artigo publicado na “Gazeta Campinense” foi “José Américo, poeta”, em 06/10/1961.
Nesse texto, Almeida faz uma homenagem ao seu primo rico e famoso, que foi seu padrinho
50

político durante sua primeira candidatura. Almeida não poderia deixar de mencionar o escritor de
“A Bagaceira”, uma vez que era um dos “grandes filhos” da Paraíba. Almeida coloca que: “Não
são raros os homens de letras ou de ciência que, antes da produção duradoura da inteligência, se
exercitaram em manifestações de arte” (GAZETA CAMPINENSE, ano II, n. 81 de 06/10/1961,
p. 6). Almeida vai destacar o lado poeta de José Américo de Almeida, exaltando a figura de seu
primo como um dos homens ilustres da Paraíba, o qual, como era marca de Elpídio e da
historiografia difundida pelo IHGP, não poderia deixar de ser (re)lembrado.
O último artigo sobre história que Almeida escreveu na “Gazeta Campinense” foi “Segundo
casamento de Adriana Oliveira Ledo”, em 19/11/1961. Nesse artigo, Almeida responde uma
crítica feita por Antonio Pereira de Almeida, ex-prefeito de Campina Grande e membro do IHGP,
no “Jornal da Paraíba”, no qual afirmou que Elpídio de Almeida se enganou ao dizer que Paulo
de Araújo Soares era filho de Adriana Oliveira Ledo.
Almeida “prova” que estava escrevendo a verdade, através de citações de fontes históricas,
afirmando: “como não inventei a referência, pois não estou fazendo trabalho de ficção [...] passo
a dizer onde colhi as informações, certo de que exprimem a verdade” (GAZETA CAMPINENSE,
ano II, n. 87 de 19/11/1961, p. 6). Mais uma vez podemos ver claramente as disputas intelectuais,
dessa vez dentro do IHGP, além da reafirmação da ideia de que a história feita por meio de
documentos oficiais era a verdadeira, concepção herdada do Instituto. O assunto trabalhado nesse
artigo também pode ser encontrado no capítulo “Aldeia, freguesia e Vila” de “História de
Campina Grande”.
Ainda em 1961, Elpídio de Almeida voltou a publicar na “Revista do IHGP”. No volume
14 da revista, foram publicados dois artigos do autor. Um deles foi “À Margem do Livro ‘Brejo
de Areia’ – Os Filhos de Manuel de Cristo Granjeiro e Melo”. Após analisar a obra do irmão,
Horácio de Almeida26, Almeida escreve esse artigo com o intuito de acrescentar algumas
informações que ele julga pertinentes sobre o livro. O próprio autor expõe que não tem
“pretensão de corrigir emissão, mas levado simplesmente com o desejo de completar um
período” (REVISTA DO IHGP, v. 14, 1961, p. 71).

26
Horácio de Almeida era irmão de Elpídio de Almeida. Era bacharel em direito e também escritor. Dentre as obras
que escreveu estão os livros: “Brejo de Areia”, de 1958, “História da Paraíba”, de 1966, “Contribuições para uma
bibliografia paraibana”, de 1972, “Bacharéis”, de 1930, “A posição da mulher perante as leis do país”, de 1933,
“Pedro Américo – ligeira notícia bibliográfica”, de 1943, “Pedro Américo – centenário de seu nascimento”, de 1944,
“Ao redor de mim mesmo”, de 1959, “Augusto dos anjos – razões de sua angústia”, de 1962, “Augusto dos anjos –
temas para debate”, de 1970, “Dicionário popular paraibano”, de 1979 e “Dicionário de tema eróticos e afins”, de
1982. Cf. DIAS, Maria Claudia Leite. Horácio de Almeida. In: Galeria da leitura – O Sebo Cultural.
51

O que Almeida quis completar no livro “Brejo de Areia” foram as contribuições e a


importância dos filhos de Manoel de Cristo Granjeiro e Melo 27 para cultura de Areia, cidade do
Brejo paraibano, durante o século XIX. O autor mais uma vez ressalta os grandes nomes da
sociedade paraibana, pois um dos filhos de Manuel de Cristo Granjeiro de Melo foi Daniel
Eduardo de Figueiredo, pai de Pedro Américo, um dos mais conhecidos pintores paraibanos.
Outro artigo publicado na mesma revista foi “A Paraíba em Meados do Século Passado”.
Nesse artigo, Almeida vai transcrever uma carta da Câmara Municipal de Areia para o governo
da província de 1857. Segundo o autor: “a coleção desses documentos representaria a descrição
verdadeira da província de todos os seus aspectos” (REVISTA DO IHGP, v. 14, 1961, p. 113).
Mais uma vez o autor mostra sua preocupação com as fontes e a verdade histórica. Além disso,
ele vai escrever sobre a necessidade de se fazer pesquisas de documentos como das Câmaras
Municipais, que são ricas fontes sobre o passado da Paraíba, como ele coloca: “seria interessante
para a reconstituição do estado em que se encontrava a província, em meados do século passado,
se algum de nossos historiadores se dispusesse a coligir as respostas enviadas à Presidência pelas
Câmaras Municipais” (REVISTA DO IHGP, v. 14, 1961, p. 113).
Todos os artigos de Almeida citados até agora foram escritos antes do autor lançar
“História de Campina Grande”. Nesses artigos, Almeida se dedicou em escrever sobre Areia,
cidade em que nasceu, e Campina Grade, cidade em que vivia já há muitos anos. Em sua escrita,
o autor não deixava de mostrar as diversas possibilidades e fontes disponíveis para escrever a
história do estado, os métodos de pesquisa e escrita que aprendera no IHGP e, principalmente nos
artigos para a “Gazeta Campinense”, divulgar sua pesquisa sobre a história de Campina Grande.
Já para os artigos que escreve para a “Revista Campinense de Cultura”, Almeida procura escrever
sobre outros assuntos, como suas memórias, fazendo homenagens aqueles que ele considerava
grandes homens.
Por fazer parte da Comissão Cultural do Centenário, Almeida foi um dos organizadores da
“Revista Campinense de Cultura”, periódico que foi uma das criações da comissão para
homenagear Campina Grande e que teve dez volumes entre 1964 e 1978. Almeida escreveu nove
artigos nas oito primeiras edições do periódico. Não escreveu nas duas últimas edições, pois
faleceu em 1971, antes de sair um novo número.

27
Foi um renomado compositor pernambucano de música sacra, que fundou em Areia a primeira banda de música
local.
52

O primeiro artigo publicado na revista foi “Primeiros Versos do Prof. Odilon Nestor”.
Almeida encontra um verso do poeta Odilon Nestor para o jornal “Gazeta do Sertão” , do ano de
1888, quando o poeta tinha por volta de 14 anos. A partir desse achado , Almeida escreve um
pouco sobre a vida de Odilon Nestor e de sua trajetória enquanto intelectual. De acordo com
Elpídio de Almeida, o poeta tinha “inteligência aberta a vários domínios, fácil foi impor-se ao
mesmo tempo no jornalismo, no ensino e na poesia” (REVISTA CAMPINENSE DE CULTURA,
n. 1, Campina Grande, outubro de 1964, p. 5).
Almeida trata mais uma vez de um homem que ele julga ser importante. Para o autor, era
um privilégio Odilon Nestor ter publicado seus primeiros versos na “Gazeta do Sertão”, jornal
que Almeida tanto admirava, e que não por acaso foi o primeiro jornal local a tentar construir
uma imagem idealizada de Campina Grande no final do século XIX. Almeida escreve em seu
artigo que esses versos do poeta foram reproduzidos em uma revista da cidade, a “Revista
Campinense de Cultura”, na qual ele era editor e articulista.

Publicou o Prof. Odilon Nestor, num jornal de Campina Grande, os seus primeiros
versos. Reproduzindo-os 76 anos depois, numa revista da mesma cidade, fazemos
jubilosamente em homenagem à passagem recente do seu 90º aniversário natalício (26
de fevereiro) e 70º de formatura (26 maio), tornando nossas as palavras do poeta Manuel
Bandeira: “Odilon Nestor, um homem que soube envelhecer com sabedoria,
transumando o passado em eternidade” (REVISTA CAMPINENSE DE CULTURA, n.
1, Campina Grande, outubro de 1964, p. 7).

Quem transcreve esses versos de Odilon Nestor é o próprio Almeida no artigo supracitado.
Vale ressaltar que esse artigo é o trabalho que abre a primeira edição da “Revista Campinense de
Cultura”. Com essa publicação Elpídio de Almeida talvez tenha buscado seguir o objetivo do
periódico, que era “mostrar algo da vida cultural de Campina Grande, no ano de seu 1º
Centenário” (REVISTA CAMPINENSE DE CULTURA, n. 1, Campina Grande, outubro de
1964). Almeida quis então colocar o nome de um homem que ele julgava ser importante como
integrante da vida cultural de Campina.
Outro artigo publicado na revista foi “Reminiscência I – Francisco de Castro”. Nesse artigo,
Almeida relembra a época que passou no capital fluminense, quando estudava na Faculdade de
Medicina do Rio de Janeiro. As lembranças de Elpídio de Almeida foram sobre Francisco de
Castro, antigo professor da Faculdade, que já havia morrido quando ele foi estudar lá, mas que
deixou marcas na instituição.
53

Não cheguei a conhecer Francisco de Castro. [...] Mas era como se estivesse vivo, tal a
permanência resonância de seu nome nas paredes do velho casarão da praia de Santa
Luzia, onde então funcionava a Faculdade, e nas enfermarias da Santa Casa de
Misericórdia, onde eram praticadas as aulas das diferentes clinicas. O nome era
reverentemente lembrado, por estudantes e professôres, alguns dêstes seus ex alunos
(REVISTA CAMPINENSE DE CULTURA, n. 1 de outubro de 1964, p. 47).

Ao longo do artigo , o autor vai mostrar que o nome desse homem era muito lembrado pelo
fato de ele ter sido um intelectual que atuou em diversas áreas. Castro, segundo Almeida, foi
médico, filólogo, poeta, orador e membro da Academia Brasileira de Letras. Para o autor
paraibano, Francisco de Castro era um exemplo a ser seguido e um nome que não podia ser
esquecido, como ele coloca: “figuras como Francisco de Castro, que assinalam uma época,
devem ser sempre lembrados” (REVISTA CAMPINENSE DE CULTURA, n. 1 de outubro de
1964, p. 50).
Mas não era apenas Francisco de Castro que não podia ser esquecido; Miguel Couto, outro
professor, também foi protagonista de um artigo de Elpídio de Almeida, intitulado
“Reminiscência II – Miguel Couto”. O autor se remete mais uma vez a um professor que marcou
a Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro e que também foi um exemplo para Almeida, que
afirma: “Deixei a Faculdade de Medicina em 1918, sem deixar de acompanhar de longe a ação de
Miguel Couto em prol do ensino médico, das condições sanitárias do país, da educação do povo,
da defesa nacional” (REVISTA CAMPINENSE DE CULTURA, n. 2 de dezembro de 1964, p.
9).
A admiração de Almeida por Couto começou no terceiro ano do curso de medicina.
Segundo o autor, “encontrei-me, certa manhã, integrando compacto grupo de estudantes e
médicos em torno de um leito, e cuja margem doutrinava venerável figura de mestre, tal a
atenção com que todos o escutavam, interessados em não perder uma palavra ou gesto”
(REVISTA CAMPINENSE DE CULTURA, n. 2 de dezembro de 1964, p. 6). Desde então,
Elpídio de Almeida começou a admirar Miguel Couto, e , como o autor entendia que a história era
feita por homens como o referido médico, ele não podia deixar de relembrar esse nome e ressaltar
que teve honra de conhecê-lo, fazendo com isso uma espécie de autopromoção da sua imagem,
por mostrar a seus pares campinenses que ele teve a oportunidade de conhecer figuras como
Couto de perto.
54

Almeida ainda ressalta a importância de Miguel Couto como intelectual brasileiro,


principalmente após o lançamento do livro “Lições de Clínica Médica”, a partir do qual Couto foi
aclamado nacional e internacionalmente. Segundo Almeida, “o livro foi recebido unanimemente
com elogios pelos críticos das secções literárias e científicas, salientando uns o valor didático,
outros a pureza e a elegância da linguagem, se não todas as duas coisas ao mesmo tempo”
(REVISTA CAMPINENSE DE CULTURA, n. 2 de dezembro de 1964, p. 6). Encerra seu artigo
mostrando o quanto Miguel Couto foi importante para medicina e para o Brasil.
Em “O Ensino na Paraíba Colonial. A ação dos Jesuítas. O padre Gabriel Malagrida.
Algumas retificações Históricas. Sugestões”, Almeida relata a chegada dos Jesuítas na então
capitania da Paraíba, dando ênfase à atuação desses padres na construção das primeiras escolas da
região. Dentre os padres jesuítas, Almeida foca a atuação do Padre Gabriel Malagrida no
desenvolvimento da escola dos Jesuítas na Capitania, que com a chegada desse religioso ficou
“bem organizada, com escolas de Latim e Humanidades. Com as suas Congregações de
estudantes, o Colégio da Paraíba foi o primeiro estabelecimento de ensino geral da Paraíba”
(REVISTA CAMPINENSE DE CULTURA, n. 2 de março de 1965, p.11). Almeida ressalta que,
apesar das dificuldades que os jesuítas enfrentaram, esses padres construíam “igrejas, casas para
recolhimento de môças, estabelecimentos de ensino primário e de Humanidades, seminários,
realizações destinadas ao amparo e educação da mocidade” (REVISTA CAMPINENSE DE
CULTURA, n. 2 de março de 1965, p. 13). No entanto, foram expulsos do Brasil. Para Almeida,
Pombal “expediu a vexativa ordem mandando que todas as casas de jesuítas no Brasil fôssem
fechadas e desterrados os religiosos” (REVISTA CAMPINENSE DE CULTURA, n. 2 de março
de 1965, p. 13). Segundo o autor, a decisão do Marquês foi infundada e injusta, uma vez que os
jesuítas contribuíram muito para o desenvolvimento da Paraíba e do Brasil, principalmente no
campo da educação.
Almeida termina seu artigo lamentando mais uma vez a decisão do governo que mudou o
nome da cidade paraibana de Nossa Senhora do Bom Sucesso, local onde havia algumas obras do
Padre Gabriel Malagrida, para Pombal, em homenagem ao Marquês. Almeida defendeu que a
cidade deveria voltar a se chamar Nossa Senhora do Bom Sucesso, ou apenas Bom Sucesso, pois
com suas palavras “assim, embora tardiamente, a injustiça seria reparada” (REVISTA
CAMPINENSE DE CULTURA, n. 2 de março de 1965, p. 16).
55

No artigo “Epitácio em Campina”, Almeida conta como foram as duas visitas de Epitácio
Pessoa à Campina Grande. Segundo o autor,“mostrou Epitácio Pessoa, em várias oportunidades,
bem querer a Campina Grande” (REVISTA CAMPINENSE DE CULTURA, n. 4 de junho de
1965, p. 9), pois quem se candidatava para a política sempre fazia questão de visitar a cidade.
Escrever sobre política era um tema que Almeida gostava e exaltar esses homens que se
destacaram no cenário político ainda mais. Epitácio Pessoa foi um dos homens mais influentes na
política do estado. Mostrar que Epitácio Pessoa tinha uma estreita relação com Campina Grande
coloca a cidade como importante na política Paraibana, e esse era um dos objetivos de Almeida:
ressaltar o quanto Campina Grande era importante para a Paraíba e para o Brasil.
Mais um artigo escrito por Almeida na “Revista Campinense de Cultura” foi “À Margem
de uma Cronista do sertão no Século Passado”. Nesse artigo, o autor fala do livro que Geraldo
Joffily escreveu sobre o pai, Irineu Joffily, intitulado “Um cronista do sertão no século passado”.
Almeida, em “História de Campina Grande”, mostrou o quanto era admirador de Joffily. Em
diversos capítulos de seu livro destaca a importância desse homem para Campina Grande.
Após tomar conhecimento do livro que Geraldo Joffily escreveu, tratou de preparar o
artigo, no qual afirma que “andou acertando Geraldo I. Joffily em tirar do esquecimento a figura
do velho Irineu, o campinense que mais se destacou no século passado, em várias atividades, na
advocacia, na política, no jornalismo, na história, nas pesquisas geográficas” (REVISTA
CAMPINENSE DE CULTURA, n. 5 de setembro de 1965, p. 3). Mais uma vez, Almeida ressalta
a importância de homens como Irineu Joffily não caírem no esquecimento. Para ele,Joffily era
um dos principais exemplos de intelectual que já passou pela cidade.
Em “Um Mestre de Campo Esquecido”, Almeida relata que nenhum cronista ou historiador
que tratou da história colonial da Paraíba, a não ser ele, falou sobre o Mestre de Campo José de
Araújo Soares, homem que exerceu diversos cargos importantes, tanto em Campina Grande como
no Sertão paraibano e no sul do Ceará. José de Araújo Soares era bisneto de Teodósio de Oliveira
Ledo, fundador de Campina Grande. Elpídio de Almeida transcreve na íntegra, em “História de
Campina Grande”, o testamento de Soares, falecido em 1824. O testamento toma sete páginas do
livro.
No artigo, Elpídio de Almeida mostra como retratou esse homem em seu livro e ressalta o
quanto contribuiu para diminuir com as lacunas da história da cidade. No entanto, ele chama a
atenção que muito ainda há para ser feito: “pesquisas nesse sentido não seriam desinteressantes,
56

completariam a história de um vulto que teve participação saliente na história de Campina


Grande” (REVISTA CAMPINENSE DE CULTURA, n. 6 de dezembro de 1965, p. 8).
“Copaoba – Borborema” foi mais um texto de Almeida para a “Revista Campinense de
Cultura”. Aqui novamente ele retifica algumas afirmações dos cronistas e historiadores
campinenses mais antigos. Conforme Almeida, o que os antigos moradores da Borborema
chamavam de Copaoba não era apenas a porção de terra da localidade de Serra de Raiz, mas sim
todo o planalto da Borborema. Segundo Almeida, “a denominação que cronistas e historiadores
da época aceitaram não foi a diminuta porção da Borborema [...], Copaoba era todo o planalto,
visível a poucas léguas do litoral” (REVISTA CAMPINENSE DE CULTURA, n. 7 de março de
1966, p. 5).
Almeida demonstra isso por meio de vários argumentos e documentos históricos. Primeiro
o autor afirma que se analisarmos bem a etimologia da palavra Copaoba, constatamos que ela
vem do indígena Copa-ob, que quer dizer “o que ao longo se estende, o que distante se dilata”
(REVISTA CAMPINENSE DE CULTURA, n. 7 de março de 1966, p. 5). Além disso, Almeida
diz que “nos primeiros escritos sôbre a Paraíba, aludindo ao interior, não falam em Borborema,
somente em Copaoba” (REVISTA CAMPINENSE DE CULTURA, n. 7 de março de 1966, p. 5).
Esses trechos que mostramos dos artigos de Almeida são exemplos de como o autor
retificava seus pares, usando as fontes que dispunha. Almeida se sentia seguro em refutar quem já
havia escrito sobre o assunto, pois para Almeida as fontes oficiais eram as detentoras da verdade
e, por isso, não podiam ser questionadas. Partindo de uma visão metódica da história, a qual
precisa ser melhor analisada hoje, Almeida e suas retificações foram de grande valia para a
história de Campina Grande, pois ele completou algumas lacunas existentes e que precisavam ser
revistas.
“Govêrno de Antônio de Albuquerque na Paraíba” foi o último artigo publicado por Elpídio
de Almeida na Revista do IHGP. Nele o objetivo é apresentar dados “corretos” da história
paraibana. De acordo com o autor, “a Paraíba, conquistada e povoada as custas da Fazenda Real,
não apresenta, em face do quase desaparecimento dos seus arquivos, nunca preservados, a relação
completa, exata dos governadores do tempo colonial” (REVISTA CAMPINENSE DE
CULTURA, n. 8 de junho de 1966, p. 5).
Para Almeida, o extravio de documentos e a falta de uma pesquisa mais aprofundada fez
com que os historiadores, além de não fazerem uma lista exata dos governantes, também
57

escreveram algumas afirmações errôneas sobre eles, o que Almeida nesse artigo retifica a partir
de documentos.
Almeida vai refutar a informação de vários historiadores e memorialistas, como Francisco
Augusto Pereira Costa, Francisco Adolfo de Varnhagen, João de Lira Tavares, Frei Vicente de
Salvador, Horácio de Almeida, de que o governo de Antônio de Albuquerque durou doze anos.
Para corrigir a informação, Almeida utiliza o alvará da posse de Antônio de Albuquerque no
governo da Paraíba. Segundo o autor, “a leitura atenta do alvará de 10 de junho de 1627, mal
interpretado por Pereira da Costa e outros, dá-nos essa convicção” (REVISTA CAMPINENSE
DE CULTURA, n. 8 de junho de 1966, p.7).
Na maior parte dos artigos de Elpídio de Almeida, percebe-se duas preocupações
constantes: a primeira é trazer a “verdadeira” história, o que mostra sua vinculação à
historiografia tradicional que estava sendo repassada pelo IHGP. Junto à essa preocupação, vem a
minúcia de sempre, recorrendo às fontes históricas para embasar o que escreve, fontes que tinham
que ser oficiais, uma vez que isso lhe assegurava informações verdadeiras.A outra característica
desses textos é a exaltação aos grandes homens e acontecimentos históricos, mais um aspecto da
historiografia da época, que estava engajada em mostrar como a Paraíba também era um estado
importante, berço de importantes homens e palco de grandes acontecimentos para a história do
Brasil, ou seja, uma historiografia nova que estava tentando se afirmar.
Essas características fazem parte do perfil de Elpídio de Almeida enquanto intelectual e
que, além de mostrar que ele está em sintonia com a historiografia ditada pelo Instituto Histórico
e Geográfico Paraibano, ainda ajuda a consolidar a memória de seu grupo na história, como
afirma Dias (1996, p. 24), “uma história de monumentos, pensada e escrita para a contemplação e
não o engajamento e a inserção dos sujeitos históricos”. Dias esclarece que a história produzida
pelo IHGP é sem engajamento. No entanto, na história feita por Elpídio de Almeida há
engajamento sim, no caso, o engajamento do autor. Almeida estava engajado em escrever uma
história metódica em que mostrava que Campina Grande não só era uma cidade grande, mostrava
que a cidade estava destinada a essa grandiosidade, essa escrita servia como a memória histórica
da cidade para as suas classes dominantes.
Outro ponto que nos chama a atenção nos textos do autor é o fato de que em muitos artigos
ele ressaltou a necessidade de se escrever mais sobre a história da Paraíba. Esse é um movimento
que foi percebido por Astor Diehl nos intelectuais que escreviam sobre história durante as
58

décadas de 1920 e 1930 no Brasil. Ele assevera: “Pareceu passar a ser uma tarefa à qual a elite
não se deveria furtar. A intelectualidade conclamava os demais membros da elite se tornarem
autores, a se debruçarem sobre a realidade nacional” (DIEHL, 1998p. 24, p. 144).
Quando Diehl fala de Brasil, ele está se referindo aos grandes centros urbanos que
concentravam a maior parte da produção intelectual, como o Rio de Janeiro, por exemplo. Mas
essa característica da elite intelectual de se sentir responsável por escrever sobre o Brasil e seus
estados não se concentra apenas nesses grandes centros e também não se limitam à década de
1930. No caso da Paraíba, enquanto o Instituto Histórico e Geográfico Paraibano dominou a
produção historiográfica do estado, que foi até o início da década de 1980, esse “dever” das elites
letradas que faziam parte do Instituto vigorava na Paraíba e, de certa forma, está presente até
hoje.
Entre o fim da década de 1950 e início de 1960, época quem que Almeida estava
produzindo “História de Campina Grande”, sugiram vários livros de paraibanos sobre as cidades
do estado. O fenômeno de escrever acerca de cidades estava crescendo, pois os membros do
IHGP já haviam começado a escrever sobre a Paraíba, faltava agora as especificidades de cada
cidade. Isso era o que alguns intelectuais estavam fazendo, como é o caso de Elpídio de Almeida,
que uniu o que aprendeu no IHGP com as suas experiências vividas em Campina Grande. Mas
Almeida não era o único. Ele mesmo admite: “têm surgido ultimamente livros sobre a história de
municípios paraibanos. [...] a reunião de todos facilitará o trabalho de quem se propuser a
escrever a história geral da Paraíba” (ALMEIDA, 1993, p.11).
Acreditamos que Almeida decidiu escrever “História de Campina Grande” primeiramente
em homenagem ao centenário da cidade, mas também por acreditar nesse seu “dever”, enquanto
membro do IHGP, de registrar a verdadeira história da cidade, considerando que ele é um dos
poucos intelectuais de Campina Grande e da Paraíba que teve contato com essa historiografia
metodizada que estava sendo desenvolvida e difundida pelo IHGP.
Nessa historiografia, os intelectuais se viam como detentores do dever de discutir a
realidade local, pois eles eram os que tinham acesso às letras e conheciam o espaço onde viviam.
Além disso, o IHGP tinha como principal objetivo o registro da história da Paraíba feito pelos
seus intelectuais. Assim nasceu “História de Campina Grande”, livro que consagrou Elpídio de
Almeida como historiador.
59

Capítulo 3:
ELPÍDIO DE ALMEIDA E SUA “HISTÓRIA DE CAMPINA
GRANDE”

O historiador é sempre de um tempo, aquele em que


o acaso o fez nascer e do qual ele abraça, às vezes
sem o saber, as curiosidades, as inclinações, os
pressupostos, em suma, a “ideologia dominante”, e
mesmo quando se opõe, ele ainda se determina por
referências aos postulados de sua época (René
Remond).

“História de Campina Grande” é uma ode aos cem anos de “glória” da tão amada cidade de
Elpídio de Almeida. A obra foi lançada em 1962, editada pela Livraria Pedrosa 28e impressa em
Recife-PE29.A Livraria Pedrosa era o reduto intelectual da cidade nos anos que Elpídio de
Almeida viveu em Campina Grande. Ele era frequentador assíduo da livraria, a fim de ver as
novidades dos livros e das conversas. Na Livraria Pedrosa ele sempre encontrava amigos e podia
discutir sobre política, acontecimentos locais e, principalmente, sobre o seu livro, que parecia ser
o seu assunto predileto entre os primeiros anos de 1960, como podemos perceber no depoimento
de José Elias Borges, contemporâneo e amigo de Almeida: “Àquele tempo, o Dr. Elpídio vinha
ultimando a sua História de Campina Grande. Quase todas as semanas nos encontramos na
Livraria Pedrosa e discutíamos particularmente a história local e as fontes de pesquisa”
(BORGES, 1995, p. 108).
A Livraria Pedrosa deveria ser um dos locais prediletos de Almeida, sempre cercado de
livros, de amigos e de boas conversas. Pelos depoimentos encontrados no livro “100 Anos de
Elpídio de Almeida”, nota-se que ele apreciava a leitura. Ademais, era reservado e não gostava de
sair para bares e festas. Então a livraria deveria ser onde ele discutia os assuntos preferidos.
Outros lugares incluíam a sua casa, a igreja, o trabalho e, com certeza, a livraria também.

28
A Livraria Pedrosa foi a principal livraria de Campina Grande de 1953 a 1994. Era um espaço frequentado pelos
grandes “formadores de opinião” da cidade. Foi lá que se iniciou a tradição do provimento da cultura literária. As
dependências da Livraria Pedrosa foram palco do lançamento de obras de grandes mestres da literatura local,
regional e nacional. Cf. Site: Retalhos Históricos de Campina Grande. Disponível em:
<http://cgretalhos.blogspot.com.br/2009/11/memoria-fotografica-relembrando.html>. Acesso em: 16 jan. 2013, às 16
horas.
29
Almeida teve que ir para o Recife pela quase inexistência de editoras no estado da Paraíba. Apenas o setor público
tinha sua gráfica. Como Almeida publicou o livro com recursos próprios, teve que se dirigir ao estado vizinho.
60

Para tanto, seleciona momentos específicos da história da cidade. Observando a sequência


dos capítulos, vê-se que ele escolheu o que julgou ser o mais importante na história de Campina.
Essa história fragmentada em blocos, que seguem uma sequência cronológica, contam uma
espécie de evolução da cidade, relatando desde as entradas para o interior da então Capitania da
Paraíba até os anos de 1930, momento que se iniciou o maior desenvolvimento econômico da
cidade.
Em 1979, a Editora Universitária da UFPB lançou uma segunda edição fac-símile de
“História de Campina Grande”. José Elias B. Borges relatou que ele foi convidado por Lynaldo
Cavalcante de Albuquerque, então Reitor da UFPB, em 1976, para fazer parte do Conselho
Editorial da Universidade. Segundo ele, uma das preocupações centrais da Editora Universitária
era reeditar obras clássicas que já estavam esgotadas e que tratassem da história e da cultura do
estado (BORGES, 1995, p.114). Nessa edição da obra, foi inclusa uma orelha com alguns
comentários feitos por José Octávio de Arruda Melo.
“Desafio e luta em Campina Grande” é o título do texto que está na orelha “História de
Campina Grande”. Esta é uma das poucas análises que encontramos da obra de Elpídio de
Almeida durante toda a nossa pesquisa. Logo nos primeiros parágrafos do texto, José Octávio de
Arruda Melo diz:

Em “As condições da vida política no estado da Paraíba”, o sociólogo Frances Jean


Blondel alude Campina Grande como “cidade cogumelo”, após o que detendo-se do
caráter “trepidante” de sua evolução social, observa que, nela, “o fanatismo político é
mais acentuado. [...] Este fanatismo substituiu em boa medida e ele faz sentir que não é
possível imaginar as eleições de 1950 em Campina Grande – é necessário tê-las
presenciado”.
A conceituação afirmativa de Blondel somente se tornou possível pelo caráter da
evolução histórica campinense, uma das mais ativas, animadas e – porque não dizer –
violentas de toda a história da Paraíba [...]
O que distingue Elpídio de Almeida dos demais historiadores campinenses, com a única
exceção de Irineu Joffily, por sinal a mais alta figura humana que se projeta dessas
páginas, é exatamente o traço de calor, luta, sangue e sacrifício imprimido a suas
elucubrações (MELO, 1979).

O autor destaca o lado ufanista da obra e as características dos acontecimentos políticos


que Elpídio de Almeida tanto retrata em seu livro. Melo ressalta a violência da política
campinense, na qual brigas entre as facções políticas são acirradas e muitas vezes acabavam em
atos violentos. À primeira vista, tal colocação parece ser um mero comentário da obra, mas
quando encontramos uma palestra proferida pelo historiador para o IHGP em 1995, durante um
61

curso sobre a historiografia paraibana, em que ele propõe analisar a historiografia campinense de
Elpídio de Almeida a Epaminondas Câmara, percebemos que sua afirmação diz respeito às
disputas internas do IHGP e da historiografia paraibana em geral. Em um trecho de sua fala,
Melo afirma:

A historiografia de Campina tem uma diferença muito grande da de João Pessoa, porque
vai expressar o tipo de organização urbana forjada por Campina Grande. João Pessoa
surge como uma cidade mais estilizada, João Pessoa é afinal de contas a cidade pela qual
se expressa o patriarcalismo [...] e se comunicava com o mundo através da Capital [...]
fosse exportando o açúcar [...], fosse importando de fora hábitos, costumes e livros.
Então aqui em João Pessoa você tem uma certa sociedade requintada, uma certa
sociedade estilizada, uma sociedade de padres, de muito latim, uma sociedade de
seminário, uma sociedade em que a elite, inclusive, vai estudar na Faculdade de Direito
em Olinda. Isso vai refletir na literatura paraibana, a crônica paraibana, é uma crônica
estilizada, é uma crônica literária, uma crônica muito apurada, uma crônica de certo
refinamento [...] não que a crônica de João Pessoa seja melhor que a de Campina [...].
Em Campina Grande foi diferente, Amauri Vasconcelos, que deveria estar dando esta
palestra [...] produziu o livro “Capítulos da História da Paraíba” [...] há um trabalho de
Amauri sobre Campina Grande, ele diz que a literatura em Campina Grande, que surgiu
como crônica, quer dizer como retratação dos costumes da época, foi desenvolvida
sobretudo pelos guarda-livros... o que era Campina Grande? Sobretudo, isso a gente vê
em Joffily, um curral, Campina Grande no fim do século passado era um curral onde de
dia se comercializava algodão e de noite se comercializava sexo, Joffily diz isso no livro
dele e Geraldo repete na introdução das notas. Então é uma cidade assim bruta, que vai
surgindo ao sabor... no grande livro dele, Blondel, percebeu a violência em Campina
Grande, se expressando inclusive nas campanhas políticas, como na campanha de 1950.
[...] Então Campina não tinha como João Pessoa uma elite refinada [...]. Então, diz
Amauri, o pessoal que começou a escrever literatura em Campina Grande, era o pessoal
que servia nas casas comerciais da cidade, sobretudo como guarda-livros [...]. Esse
pessoal dá a historiografia de Campina uma marca que a de João Pessoa não conhece
[...] O traço da historiografia de Campina Grande é o espírito telúrico (MELO, 1995).

São significativos os pontos que podemos enumerar a partir dessa citação para
compreendermos melhor que a escrita de Elpídio de Almeida não é, apenas, mais um livro
disponibilizado ao público paraibano.
Além de representar a construção de uma identidade campinense, essa construção é,
visivelmente, ponto de disputa dentro do IHGP e na historiografia paraibana como um todo,
mesmo muito tempo após a publicação inicial do livro.
Alguns qualificativos, escritos em forma nada estilizada, demonstram o ambiente nada
homogêneo do IHGP. São eles: uma suposta superioridade de escrita entre a historiografia feita
na capital e em Campina Grande; a diferença na formação dos escritores das duas cidades; a
suposta natureza dos produtos comerciais campinenses; e a característica telúrica da
historiografia campinense. Além disso, apontam também como a imposição de uma historiografia
62

que explica todo o estado do leste para o oeste, como afirma Oliveira (1996), não se solucionou
ainda.
Segundo Margarida Maria Dias de Oliveira, a historiografia construída nos primeiros
números do IHGP e que chega até nossos dias, como vimos no trecho da fala de Melo, mostra
que ela é, em sua maioria, pessoense. “Da capital, parte a conquista, a interiorização e explicação
da história. O processo histórico nos mostra que nem sempre o caminho foi de leste-oeste”
(DIAS, 1996, p. 17). Ou seja, a partir do momento em que Elpídio de Almeida quis mostrar o
protagonismo de Campina Grande em relação à Paraíba, ele feriu esse espírito pessoense de
alguns membros do IHGP, que pretendiam explicar o passado do estado a partir do protagonismo
da capital, gerando disputas internas.
Vemos então que para escrever “História de Campina Grande” Elpídio de Almeida utilizou
de alguns preceitos do IHGP, mas imprimiu muito do seu lugar social, de homem do interior, da
necessidade de mostrar a grandiosidade de Campina Grande às vésperas de seu centenário, ou
seja, ele adaptou o que aprendeu no IHGP para a sua realidade. Certeau, na “Operação
Historiográfica”, nos mostra que escrever história é tomar posições. Almeida tomou a dele e
escreveu seu livro para mostrar a importância de Campina Grande, da mesma forma que José
Octávio de Arruda Melo também fala de seu lugar.
“História de Campina Grande” ainda ganhou uma terceira edição em 1993, ano da
comemoração do primeiro centenário de Elpídio de Almeida. Sua família, junto ao IHGP e às
prefeituras de Campina Grande e de Areia, realizou homenagens ao autor. Diversas palestras
sobre sua vida e sua obra foram proferidas, as quais foram reunidas em um livro chamado “100
anos de Elpídio de Almeida – 1893-1993”, organizado pelo seu filho, Humberto de Almeida e o
jornalista e amigo do autor José Elias Barbosa Borges. Nesse livro políticos, jornalistas, amigos e
familiares de Elpídio de Almeida realizaram homenagens a ele.
Uma das medidas tomadas dentro dessas comemorações de aniversário foi a reimpressão de
“História de Campina Grande”. Essa terceira edição foi feita pela EPIGRAF, editora de Campina
Grande. O conteúdo foi mantido sem alterações, idêntico às outras edições.Foi acrescida uma
foto de Almeida, antes da dedicatória do livro, e retirada a apresentação de José Octávio de
Arruda Melo, que constava na segunda edição, conforme referida anteriormente.
63

Em 2012, Elpídio de Almeida ganhou mais uma homenagem. Nesse ano, ele foi declarado
patrono do recém-criado Instituto Histórico de Campina Grande. Em nota, o próprio Instituto se
pronuncia a respeito30:

Sob a liderança de Humberto de Almeida, decano da família do Médico, Político e


Historiador Elpídio de Almeida, reuniram-se no dia 11 de fevereiro do corrente ano
diversos intelectuais, com a finalidade de conhecerem as articulações realizadas visando
à recriação, desta feita, do INSTITUTO HISTÓRICO DE CAMPINA GRANDE,
considerando as três tentativas baldadas de fazer funcionar o então Instituto Histórico e
Geográfico de Campina Grande, a partir de informações verbais e dos poucos arquivos
existentes. A criação do IHGCG foi uma ideia, ação e execução do médico João Tavares,
entre 1948 e 1970, através de reuniões que ocorreram em seu próprio consultório,
contando com a participação de Elpídio de Almeida, Hortêncio Ribeiro, William Tejo,
Epitácio Soares, Lopes de Andrade, José Elias Barbosa Borges, Epaminondas Câmara,
Letícia Camboim, dentre outros.

A influência da família Almeida ainda é muito forte na sociedade paraibana. Com as


articulações políticas e intelectuais que o filho de Elpídio de Almeida, Humberto de Almeida
tem, foi criado o Instituto nomeado “Casa de Elpídio de Almeida”. A instituição ainda está se
formando, mas uma das primeiras medidas foi a reimpressão de “História de Campina Grande”.
Assim, a obra de Almeida ganhará uma quarta edição, dessa vez revisada.

3.1 Os métodos de escrita de Elpídio de Almeida

O objetivo de Elpídio de Almeida quando escreveu “História de Campina Grande” foi


narrar momentos da história da cidade em que se pudesse saber quem foram os homens que a
fundaram e deram desenvolvimento à localidade, bem como quais foram as datas e os
acontecimentos, segundo a visão de Almeida, mais importantes de Campina Grande. Como já foi
mencionado, ao apresentar esses pontos Almeida cria a sua história da cidade, mostrando uma
Campina idealizada.
A Campina Grande de Elpídio de Almeida não poderia ser diferente. O livro é uma
homenagem e nesses casos, geralmente, só se mostra a parte grandiosa, como ele mesmo diz na
apresentação do livro:

30
A notícia está disponível no site Retalhos Históricos de Campina Grande e pode ser acessada pelo link:
<file:///F:/Retalhos%20Hist%C3%B3ricos%20de%20Campina%20Grande%20%20%20%20ARTIGOS%20DOS%2
0LEITORES.htm>.
64

Impunha-se a elaboração dêste trabalho, sem mira a prêmio ou ajuda oficial, como
contribuição espontânea às festividades do 1º centenário da cidade, a comemorar-se em
11 de outubro de 1964. Como realizá-las com afeição e ufania sem um caderno
descritivo de seu passado? Sem um depoimento exato sôbre os homens que a fundaram?
Sem uma narrativa dos principais sucessos ocorridos em seu território, desde o tempo
da fundação da aldeia, velha de quase três séculos? Aparece esta publicação para evitar
falha (ALMEIDA, 1993, p. 11, grifos nossos).

Às vésperas do centenário da cidade, Elpídio de Almeida lança seu livro, que, segundo ele,
foi uma “contribuição espontânea”. Acreditamos que o autor ressalta isso para mostrar que ele
não escreveu por encomenda ou com patrocínio, já que era o chefe da Comissão Cultural do
Centenário. Dessa maneira, mostra que não usou verbas públicas para publicar seu livro e nem
decidiu escrevê-lo apenas devido ao cargo que estava exercendo.
Além disso, Almeida destaca que não há como realizar o centenário de Campina Grande
com “afeição e ufania” sem contar o passado da cidade. Dessa forma, entendemos que Elpídio de
Almeida tinha a intenção de contar a história de Campina Grande ressaltando sua grandiosidade e
importância. Para tanto, o autor afirma que precisa contar “os principais sucessos” que
aconteceram na cidade, ou seja, Almeida seleciona os fatos que ele julgou relevantes para
justificar a grandiosidade da cidade que colocou em seu livro.
Fazendo essa afirmação, Almeida também cria um argumento de autoridade, uma vez que
escrever espontaneamente “História de Campina Grande” demonstra que ele conhecia a
necessidade da cidade ter um livro que contasse sua história, mas não qualquer história e sim o
“depoimento exato”dos acontecimentos de Campina, logo ele precisava provar suas afirmações,
as quais foram baseadas em fontes históricas “para evitar falhas”.
A história era a principal aliada do autor, pois era a partir dela que se provava o “destino
manifesto” de Campina Grande. Nesse caso, a historiografia tradicional aprendida por Almeida
no Instituto Histórico e Geográfico da Paraíba cabia perfeitamente no projeto, pois como ela o
autor podia mostrar o que ele considerava ser os principais acontecimentos da cidade os homens
ilustres que nela viveram.
Cada capítulo do livro mostra uma temática da pesquisa de Elpídio de Almeida. O índice do
livro mostra que ele está dividido em 32 capítulos: “Entradas”, “Aldeia, freguesia e vila”, “1817”,
“1824”, “1848”, “Açude Velho”, Açude Novo”, “Cidade”, “Rapto”, “Quebra-Quilos”, “Sêca de
1877”, “Paço Municipal”, “Câmaras municipais (1877-1889)”, “Abolição”, “República”, “1º
Conselho de Intendência”, “2º Conselho de Intendência”, “1º Conselho Municipal”, “2º Conselho
65

Municipal”, “Rasga-vales”, “Feiras”, “Relógio da Matriz”, “Cemitério Velho”, Correios e


telégrafos”, “Ensino primário”, “Grêmio de instrução”, “Estrada de Ferro”, “Açude de
Bodocongó”, “Vida política, administrativa e social (1901-1930)”, “Puxinanã”, “Fagundes”,
“Cristiano Lauritzen”31.
No primeiro capítulo, “Entradas”, descreve o devassamento do interior paraibano. Já no
segundo, “Aldeia, freguesia e vila”, o autor trata do aldeamento de índios Ariús, que fundaram
Campina Grande, e descreve como o povoado foi elevado à categoria de freguesia e
posteriormente à vila, ressaltando sempre a importância da família Oliveira Ledo nesses
momentos históricos.
Os três capítulos que seguem falam das Revoluções de “1817” (Revolução Pernambucana),
de “1824” (Confederação do Equador) e a de “1848” (Revolta Praieira). O que Revoluções
pernambucanas fazem na história de Campina Grande? O próprio Elpídio de Almeida diz no
capítulo sobre a revolução de 1817 que Campina não teve nenhum envolvimento com a revolta.
“Açude Velho e Açude Novo” são os capítulos seis e sete. Neles, Almeida mostra a
importância desses mananciais para a cidade em diferentes momentos históricos. Almeida
escreve também sobre os tropeiros e a importância deles para a economia da região. Relata
algumas secas que assolaram o lugar e como os açudes ajudaram a cidade a passar por esses dias.
Logo depois, vem o capítulo “Cidade”, dedicado à emancipação de Campina à categoria de
cidade. Almeida mostra, em números, os habitantes, as casas, os prédios públicos, as contas da
prefeitura, entre outros dados, de Campina na época. O capítulo que segue Almeida intitulou de
“Rapto”. Esse capítulo se diferencia de todos os outros, pois fala do rapto de uma moça por seu
namorado, a fim de obrigar o pai da donzela a aceitar o casamento entre os dois. O capítulo é
peculiar ao tratar da vida de populares, sem importância política ou econômica.
O capítulo subsequente é o “Quebra-Quilos”. Aqui Almeida imprime toda a sua
discordância em relação a esse movimento sedicioso. O autor chama a atenção, logo nas
primeiras frases, para o fato de que para ele o Quebra-Quilos era completamente sem propósitos e
ainda declara que só o colocou na sua história porque outros autores que falaram sobre Campina
Grande trataram do assunto, e ele, para não deixar seu livro incompleto, foi “obrigado” a escrever
sobre.

31
Em nosso texto, faremos uma pequena apresentação do que trata cada um dos capítulos, uma vez que não vamos
utilizar todos os capítulos da obra. Entretanto, achamos necessário fazer um panorama no livro, para que o leitor
entenda melhor a obra na qual estamos trabalhando.
66

O capítulo seguinte trata da “Seca de 1877”, uma das piores que o Nordeste já enfrentou.
Almeida mostra então como Campina Grande sobreviveu a essa época. O outro capítulo é “Paço
Municipal”, uma construção que já não existia mais em Campina Grande desde a década de 1940,
e que Almeida lamenta a sua destruição. Ele apresenta foto do prédio e fala da importância dele
para a política local.
Em “Câmaras Municipais (1877-1889)”, Almeida relata as disputas políticas que
aconteceram em Campina nessa época. Essas disputas eram tão acirradas que chegavam até a
agressão física entre os políticos. O capítulo subsequente é sobre a abolição, aqui o autor relata o
número de escravos na cidade e a importância do ideal abolicionista.
No capítulo “República”, Almeida escreve sobre Irineu Joffily e o jornal “A Gazeta do
Sertão”, primeiro jornal de Campina Grande e que tinha cunho republicano. Fala das disputas
políticas e do ideal republicano que o jornal trouxe para a cidade. Os capítulos posteriores são
“Conselhos de Intendência 1 e 2” e os “Conselhos Municipais 1 e 2”, que existiram em Campina
Grande. Nesses capítulos Almeida relata cada membro desses conselhos, suas eleições e alguns
assuntos que eles debatiam.
O capítulo que segue no livro é o “Rasga-vales”, no qual o autor mostra como as disputas
políticas e comerciais interferem na vida dos que moram na cidade. Almeida vai descrever uma
briga entre comerciantes que acabou dando prejuízo às pessoas que recebiam vales, ao invés de
dinheiro, quando iam receber o troco das compras no comércio campinense, bem como todo o
tumulto que isso causou na cidade.
Em “Feiras”, Almeida relata a importância das feiras livres para Campina Grande e o fato
de que todas as vezes que a administração da cidade mudava de partido a feira central mudava de
local, até que as pessoas que viviam da feira fizeram um abaixo-assinado para acabar com essas
mudanças de local.
Em “Relógio da Matriz”, Elpídio de Almeida relata a “doação” da Câmara de Intendência à
cidade de um relógio para ser colocado na torre da igreja matriz. O autor escreve que o relógio foi
importado e era de extrema valia para os campinenses, mas o relógio parou e não foi mais
concertado, o que ele lamenta profundamente.
No capítulo “Cemitério Velho”, o autor trata da construção do cemitério, a sua importância
para a cidade e o descaso com os corpos enterrados lá. Relata que quando o cemitério acabou,
não se teve nenhum cuidado de removê-los para os outros cemitérios.
67

“Correios e Telégrafos” é o capítulo que segue. Nele, o autor relata como a cidade
melhorou com a chegada desses serviços. Descreve o prédio que foi implantado.Faz um esboço
geral da história dos correios e dos telégrafos no Brasil e mostra quando eles foram trazidos para
a Paraíba.
O capítulo seguinte é “Ensino Primário”, em que Almeida mostra quais foram as primeiras
escolas de Campina Grande, como e onde foram instaladas. Faz ainda uma pequena biografia dos
primeiros professores da cidade, sempre ressaltando a importância do ensino e desses homens
para a educação campinense.
Em “Grêmio de Instrução”, o autor escreve sobre alguns locais de diversão de Campina
Grande, como foi a formação deles, quem eram os membros e, mais uma vez, as lamentações de
Almeida ao constatar que muitos desses locais que agitavam a cidade já haviam acabado e suas
lembranças estavam se perdendo na poeira da memória.
O capítulo subsequente é “Estradas de Ferro”, no qual o autor relata a importância da
chegada do trem à cidade e, acima de tudo, o papel do então prefeito Cristiano Lauritzen nessa
iniciativa. O outro capítulo é “Açude de Bodocongó”. Nesse texto Almeida vai relatar detalhes da
construção que foi empreendida a fim de amenizar os problemas no abastecimento de água da
cidade e a incapacidade do açude em resolvê-los, uma vez que depois de construído constatou-se
que a água era imprópria para o consumo humano.
Em “Vida Política, Administrativa e Social (1901-1930)”, Almeida lista todos os prefeitos
e vereadores que estiveram no poder em Campina Grande nesse período, como foram suas
eleições e quais foram suas principais decisões. Almeida escreve também sobre as feiras, os
jornais, as ruas, as contas da prefeitura, a inauguração de hospitais etc.
No capítulo seguinte, “Puxinanã”, mais uma vez Almeida vai tratar do problema do
abastecimento de água na cidade e como a construção de um reservatório de água nessa povoação
(que hoje é uma cidade) ajudou os campinenses com a falta de água.
O penúltimo capítulo também tem o nome de uma cidade, “Fagundes”, que na época era
um importante distrito de Campina Grande. Foi lá, por exemplo, que começou o movimento do
Quebra-Quilos. Almeida descreve como a cidade foi formada e lamenta ter começado lá o
movimento dos Quebra-Quilos. Descreveu o que ele julgou serem as ações mais importantes das
administrações da cidade, além de ressaltar a dependência de Fagundes em relação a Campina
Grande.
68

Almeida termina seu livro falando de “Cristiano Lauritzen”. Nesse capítulo, o autor conta a
sua história e ressalta sua a importância para fazer com que Campina Grande crescesse. E termina
seu livro lastimando que “grandes” homens como Lauritzen estão desaparecendo da memória dos
campinenses.
Cada fato histórico que ele escolhe para colocar na obra é uma forma de mostrar como
Campina Grande é especial, como ela se destaca das outras cidades, como ela nasceu fadada a ser
grande. Essa exaltação faz parte de seu posicionamento político e social, mas não faz a obra
menos importante para a historiografia paraibana. Não podemos esquecer que toda obra é filha de
seu tempo, logo não podemos exigir de Almeida uma escrita pautada em uma historiografia
diferente da vinculada ao IHGP, uma vez que o autor escolheu seguir as diretrizes dessa
instituição que é marcadamente ufanista, ressaltando os grandes homens e os grandes
acontecimentos.

3.1.1 Tratamento dado às fontes

Para escrever esses capítulos, Elpídio de Almeida teve a preocupação de seguir um método:
utilizar fontes “verdadeiras” para que não houvesse falha em seu livro. Logo na apresentação,
mostra alguns pontos de seu método de trabalho. Ele afirma: “Quase poderia dizer, como Câmara
Cascudo, em sua HISTÓRIA DO RIO GRANDE DO NORTE, que este trabalho se originou em
informações ‘menos das fontes impressas do que dos arquivos’” (ALMEIDA, 1993, p.11).
O primeiro ponto que chama a atenção, destacado em letras garrafais, é a obra de Câmara
Cascudo, “História do Rio Grande do Norte”, mostrando que Almeida se espelhava na obra
cascudiana e que a tinha como referência, o que não era de se admirar, uma vez que Câmara
Cascudo foi um nome de peso na historiografia tradicional brasileira32.
A frase citada de Cascudo começa a apresentar o que Almeida entendia por história. Dizer
que o trabalho se originou menos por informações impressas do que por arquivos significa que
“História de Campina Grande” foi escrito não como uma colcha de retalhos de obras anteriores,
mas sim da pesquisa em arquivos, baseado em fontes.

32
Câmara Cascudo foi fundador do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte. Além de ser associado
a diversos Institutos, Sociedades e Academias no Brasil e no mundo, recebeu também inúmeras condecorações e
prêmios. Escreveu diversos livros e opúsculos. Até a década de 1950, que precede a escrita de Almeida, Cascudo já
havia escrito 97 obras, sem contar as poesias. Cf. Ludovicus – Instituto Câmara Cascudo. Disponível em:
<http://www.cascudo.org.br>.
69

Para Elpídio de Almeida, as fontes deveriam ser escritas e oficiais, pois para o autor as
outras fontes eram imprecisas e, principalmente, não eram verdadeiras. “Nenhuma referência
feita, do começo ao fim, se baseou na tradição oral, tanto imprecisa e falseada quanto mais
distante a época do acontecimento” (ALMEIDA, 1993, p. 11). Essa afirmação de Almeida tem
toda uma relação com citação feita anteriormente. A única forma de garantir a autenticidade das
informações era a pesquisa de fontes escritas em arquivos do poder público de instituições de
renome ou a partir de relatos de memorialistas. Outras informações vindas da tradição oral não
eram aceitas por Elpídio.
Essa preocupação com as fontes também é explicada por Elpídio de Almeida na
apresentação. Ele diz:

O primeiro capítulo – ENTRADAS – tanto está bem aqui como em qualquer narração
referente ao devassamento dos sertões paraibanos. O que anda escrito a respeito, por
historiógrafos da província e de fora, ressente-se de enganos, falseamentos, informações
inexatas. Penso ter posto alguma ordem nessa parte da penetração colonizadora, revendo
os roteiros dos primeiros desbravadores, fixando datas, esclarecendo pendências,
salientado feitos (ALMEIDA, 1993, p. 12).

Para nós, essa é uma passagem bastante significativa do livro, pois Almeida consegue
concretizar praticamente todas as preocupações com a escrita do livro. Como ele mesmo afirma o
primeiro capítulo é mais geral, fala das entradas pelo interior do que hoje é o estado da Paraíba.
Muitos foram os historiadores que já haviam na época do lançamento do livro escrito sobre o
assunto. No entanto, Almeida preocupava-se com a falta de precisão das datas e dos locais, que
para ele eram um problema inconcebível, pois havia aprendido com o IHGP o rigor metodológico
das pesquisas históricas e precisava mostrar isso. Fazemos essa afirmação ao ver a importância
que Elpídio de Almeida dá aos documentos, que, como ele apresenta, são fontes verdadeiras para
embasar as suas afirmações.
Almeida tem uma preocupação grande com a verdade histórica e utiliza as fontes que
dispõe como provas. Durante a leitura do livro é possível encontrar trechos em que Almeida
mostra a autenticidade de suas afirmações através das fontes, como no trecho que segue: “A parte
central, a do Planalto da Borborema, começou a ser explorada em 1663, como prova a concessão
das primeiras sesmarias” (ALMEIDA, 1993, p. 15).
70

No livro, há o diálogo com outros autores, com o intuito de ajudar na sua argumentação.
Contudo, algumas vezes, na busca pela verdade, ele utiliza suas fontes para refutar afirmações
desses autores e seus livros:

A primeira penetração oficial ao extremo oeste do território paraibano foi aquela que o
governador da Paraíba, o capitão-mor Alexandre de Souza Azevedo, confiou em 1678 a
Antônio de Oliveira Ledo. Não esta, pois, de acordo com a realidade histórica da
descrição de Irineu Joffily (ALMEIDA, 1993, p. 28).

Mesmo sendo um grande admirador de Joffily e trazendo diversos trechos em seu livro em
que ressalta a importância do trabalho do jornalista, Almeida mantém o seu rigor e corrige as
informações que ele constatou serem imprecisas na sua obra. Não é apenas de autores locais que
Almeida discorda. Autores consagrados como Rocha Pita também são refutados por Almeida.

Só o bandeirante Domingos Jorge Velho, entre os apontados colonizadores da Paraíba


no fim do século XVII, não requereu terras nem fundou fazendas de criação. É que na
verdade não esteve ele na capitania com esse propósito, mas no de combater os
indígenas sublevados [...]. Quem criou a confusão, dando o bandeirante paulista como
estancieiro no oeste da Paraíba, foi o historiador Rocha Pita [...]. Julgando-se bem
amparados, saíram repetindo a inverdade histórica conceituados historiadores
paraibanos: Irineu Joffily, Maximiano Lopes Machado, Celso Mariz, sem falar no padre
Heliodoro Pires que, em vez de história, devaneou sobre o assunto. [...] (ALMEIDA,
1993, p.32-33).

Todos esses historiadores, como bem escreveu Elpídio de Almeida, foram nomes muito
conhecidos da historiografia tradicional paraibana. Eles também não tinham formação acadêmica
de história e eram patrocinados pelo poder público para escrever sobre a Paraíba. A escrita desses
homens era bem próxima da de Almeida, pois escreviam sobre fatos que eram considerados
importantes para a elite política do estado, contribuindo muito para a construção da historiografia
oficial. Nesse processo de escrita, construíram também uma identidade paraibana (MARIANO;
MENEZES, 2003, p.12).
Almeida corrige, assim, os escritores de maior renome do estado, mostrando que a
preocupação com o estabelecimento de datas corretas era muito importante, além de mostrar sua
erudição frente à comunidade de escritores do IHGP. Ao fazer essas correções, Almeida ganhava
mais prestígio dentro da comunidade, já que mostrava ser um bom pesquisador, que não se
satisfez com o que já havia escrito antes, realizando, desse modo, novas pesquisas para
confirmar, ou não, a historiografia do estado.
71

Essa preocupação com a verdade não está apenas no livro “História de Campina Grande”.
Almeida já a expõe em artigos que escreveu para periódicos locais, como “Segundo casamento de
Adriana Oliveira Ledo”, “Govêrno de Antônio de Albuquerque na Paraíba” 33. Até de seu próprio
irmão, Horácio de Almeida, Elpídio de Almeida já havia discordado, no artigo “À Margem do
Livro “Brejo de Areia” – Os Filhos de Manuel de Cristo Granjeiro e Melo”34.
O autor tem essa preocupação pelo fato de querer contar a verdadeira história da cidade e
por pertencer ao Instituto Histórico e Geográfico Paraibano. Um dos pesos de pertencer a essa
instituição de saber é escrever a partir de seus preceitos. O diferencial que Almeida tinha e que
buscava sempre mostrar que havia aprendido o método histórico no Instituto e isso era
fundamental para ele enquanto membro do IHGP, tanto para aumentar o seu status de homem das
letras, como para ser reconhecido dentro do Instituto.
Então, escrever “História de Campina Grande” a partir do método histórico era uma
obrigação de Almeida, que dava ênfase a uma história baseada na descrição de fatos, datas, na
exaltação do que se chamava de “grandes” homens, uma história que deveria chegar o mais
próximo da verdade. Almeida segue esses preceitos “à risca”, tanto que busca ser preciso com as
datas, fazer afirmativas verdadeiras e exaltar os personagens que, para ele, foram os protagonistas
da criação da grandiosidade de Campina Grande.
Essa busca pelo rigor científico com as fontes históricas de Almeida ainda é um ranço da
escola metódica. Apesar de estarmos falando da década de 1950, essa forma de registro ainda
estava muito em voga nos circuitos intelectuais, como era o caso do IHGP. O metodismo dizia
que a história existia por si só. Era através dos documentos que ela surgia. A tarefa do
historiador, portanto, era reunir o maior número de documentos autênticos e organizá-los em uma
narrativa que seguisse uma sequência cronológica (REIS, 2004, p. 17).

33
Nesse artigo, Almeida retifica a historiografia paraibana, mostrando que os estudiosos do estado nunca
conseguiram fazer uma lista completa dos governantes do tempo colonial. Além disso, afirma que eles ainda fizeram
algumas afirmações errôneas sobre os governantes. Almeida retifica esses erros e começa a fazer alguns
apontamentos sobre os governantes paraibanos. Cf. n. 8, “Revista Campinense de Cultura”, junho de 1966, p. 8.
34
No artigo “À Margem do Livro ‘Brejo de Areia – Os Filhos de Manuel de Cristo Granjeiro e Melo’”, Almeida,
após analisar a obra “Brejo de Areia” de seu irmão, Horácio de Almeida, escreve com o intuito de acrescentar
algumas informações à obra que ele julga ser pertinente, a qual trata da importância da relação dos filhos de Manoel
de Cristo Granjeiro e Melo para cultura daquela cidade. Ademais, retifica algumas informações. Cf. v. 14. “Revista
do Instituto Histórico e Geográfico da Paraíba”, 1961, p. 71-73.
72

“História de Campina Grande” é um clássico e uma referência, até hoje, no que se refere a
livros sobre a história de Campina Grande 35. Isso se dá pelo rigor metodológico que Almeida teve
ao escrever o seu livro. Como aponta Dias (1996), muitas vezes os trabalhos de cunho positivista
são menosprezados sem que se faça uma real análise de suas contribuições para a nossa
sociedade.
Uma importante contribuição de Elpídio de Almeida foi estabelecer datas, trazer
informações que até então não se tinha sobre a história da cidade, como quantidades de
domicílios, de ruas, os prédios públicos, a quantidade de bens de alguns campinenses, números
de escravos etc. Essas informações só foram trazidas por Elpídio devido à grande pesquisa de
fontes e de bibliografia que ele empreendeu.
Almeida utilizou largamente testamentos, inventários, ofícios, concessão de sesmarias,
cartas de autoridades, patentes, requerimentos, livros, atas, Carta Régia, notificações, livros,
jornais, leis, livros administrativos, processos-crime e genealogias. No entanto, o trabalho que ele
faz com as fontes é tradicional, pois, como chamamos atenção anteriormente, Almeida estava
alinhado com a historiografia predominante na época, a qual colocava a fonte histórica como a
verdade, pois segundo esses princípios a fonte “fala” por ela mesma. Dessa maneira, Almeida
utiliza as fontes para provar as datas, locais e fatos históricos que estava narrando.
Outro ponto interessante em “História de Campina Grande” é o fato de Almeida deixar
implícito que precisou realizar pesquisa fora do estado. Sempre que cita uma fonte, o autor insere
uma nota de rodapé, informando em qual arquivo a encontrou. Geralmente esses arquivos eram
do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano e dos arquivos públicos de Campina Grande, mas
também de Institutos de outros estados. Ele cita documentos encontrados no Instituto Geográfico
e Histórico da Bahia e no Instituto Arqueológico Histórico e Geográfico de Pernambuco.
Almeida precisou realizar a pesquisa em outros estados porque muito da documentação da
cidade, principalmente no que se refere aos séculos XVII e XVIII, não se encontrava na Paraíba.
Alguns desses documentos foram perdidos, outros destruídos pela ação do tempo, pelo precário
armazenamento, ou durante o movimento dos Quebra-Quilos. Estavam desaparecidos também

35
Alguns livros que utilizaram “História de Campina Grande” como referência cito: AGRA, Giscard Farias.
Modernidade aos goles: a produção de uma sensibilidade moderna em Campina Grande, 1904 a 1935. Campina
Grande: EDUFCG. 2010; FILHO, Severino Cabral. A cidade revelada: Campina Grande em Imagens e História.
Campina Grande: EDUFC, 2009; GURJÂO, Eliete de Queiroz (Org.). Imagens multifacetadas da história de
Campina Grande. Campina Grande: PMCG, 2000; SOUZA, Fábio Gutemberg Ramos Bezerra de. Territórios de
confrontos: Campina Grande 1920-1945. Campina Grande: EDUFC, 2006.
73

porque muitos intelectuais que escreviam sobre a história da cidade tinham o costume de, ao
encontrar a fonte para sua pesquisa, a mantinham em seus arquivos pessoais, como o próprio
Elpídio de Almeida fazia.
Essa preocupação com a pesquisa, com os documentos, é característica do trabalho de
Elpídio de Almeida e dá o diferencial do autor para os outros que tratam da história da cidade,
como Irineu Joffily, por exemplo. A escrita de Almeida, por mais que ele não seja um historiador
de formação, é uma escrita histórica, no sentido de que ela é baseada em fontes e em métodos,
ainda que com os moldes positivistas. Esse é um dos grandes méritos desse livro.
O autor empreendeu também uma rica revisão bibliográfica, lendo desde os historiadores
locais até autores de renome nacional, como Capistrano de Abreu, Luís da Câmara Cascudo.
Inclusive Almeida referencia uma obra em francês: “Historie de La Mission Du P. Martin de
Nunes, Capuchin de La Province de Bretagne, chez les Cariris”, mostrando tanto sua erudição
como sua preocupação em ter referências que provem o que ele está escrevendo.
Ser imparcial é uma característica que Elpídio de Almeida traz para si desde a apresentação
do livro. Para o autor, a necessidade de não se envolver em sua escrita fez com que decidisse
escrever a história da cidade até os anos de 1930. Ele explica o porquê:

Esbarrei em 1930. Para escrever a história dos últimos trinta anos, fase de maior
progresso de Campina Grande, teria que falar de pessoas vivas, falar de mim também,
dirigente que fui do município em dois quadriênios, o que me seria incômodo e vexativo.
Outros que o façam mais tarde, imparcialmente, dispondo do farto e variado material que
está aí em mão (ALMEIDA, 1979, p.12).

No entanto, apesar da pretensa imparcialidade entendemos que Elpídio de Almeida


“esbarra” em 1930 não só por não querer falar dele e de pessoas vivas, mas, principalmente,
porque essa é a década que está em auge o desenvolvimento de Campina Grande, quando a
cidade se tornou uma das principais praças algodoeiras do Brasil. A cidade, para a época, já é
grande, Almeida não precisa assim provar a grandiosidade dela, que já está dada, o que ele queria
era mostrar a predestinação de Campina Grande a essa grandiosidade através da história.
Então,não havia necessidade de escrever de 1930 para frente, pois todos podiam ver que Campina
era grande.
Além disso, essa decisão de não passar de 1930 também diz respeito à sua concepção de
história, bem característica da historiografia clássica, que dizia que o historiador teria que se
74

afastar de seu objeto, que o tempo presente não seria uma história válida, uma vez que precisaria
recorrer a memórias pessoais, através de relatos orais, os quais não se configuravam em fontes
seguras, pois podiam ser falseadas, mostrando com isso o seu lugar de escrita.
Como aponta Reis (2004, p. 17), o historiador que seguia os preceitos metódicos entendia
que não era juiz do passado, por isso não devia “instruir os contemporâneos”. O papel do
historiador seria narrar o que realmente aconteceu. Isso seria possível, pois o historiador deveria
ser capaz de se desvincular de todo condicionamento social, cultural, religioso, filosófico, para
conseguir ser imparcial.
Dessa forma, a história científica deveria ser produzida por um sujeito neutro para que o
seu objeto de estudo fosse enfatizado sem nenhuma forma de julgamento, pois os fatos falam por
si.Para tanto,o historiador devia-se manter isento, imparcial, sem deixar seu contexto interferir
em seu estudo.
No entanto, sabemos que esse ideal metódico nunca conseguiu ser alcançado, pois toda
escrita é intencionada. A obra de Almeida é um exemplo dessa impossibilidade de ser imparcial,
uma vez que “História de Campina Grande” tem a intenção muito clara de provar através da
história que a cidade estava predestinada a ser grandiosa. Para isso, o autor posiciona-se diversas
vezes na obra, seja exaltando ou rebaixando os acontecimentos históricos que ele escolheu
registrar. Só o fato de ter escolhido quais acontecimentos e personagens iriam compor a sua
história mostra a intencionalidade do autor, que está bem distante de ser imparcial.
“História de Campina Grande” é um livro que mostra paixão de Elpídio de Almeida por
Campina Grande. Só em afirmar que a obra é uma homenagem à cidade, mostra que a obra não é
imparcial, como nenhuma escrita o é. Michel de Certeau (2011) nos mostra que um texto de
história não é apenas uma narrativa dos acontecimentos passados, mas, sim, um procedimento
estratégico e político, na medida em que implica posicionamentos.
Além do fato do livro ser uma homenagem, em diversas passagens Almeida mostra a sua
reprovação ao movimento do Quebra-Quilos, que, segundo ele, se dá pelo fato desses insurgentes
terem destruído diversos papéis administrativos e jurídicos da cidade. Para Almeida, esses
documentos eram de suma importância para reconstrução da história de Campina Grande.
Em contrapartida, eventos históricos como a Revolução Pernambucana (1817), a
Confederação do Equador (1824) e a Revolução Praieira (1848) aparecem no livro como fatos
históricos importantes para a história desse espaço. Mesmo que esses eventos não tenham
75

acontecido aqui, eles são tratados como exemplos a serem seguidos. Na escolha do que lembrar e
do que esquecer em sua obra, Elpídio de Almeida criou uma história para Campina Grande
edificada em “grandes” personagens e fatos históricos. Como veremos a seguir.

3.2 O fazer da Campina “grande”

Almeida busca na história da cidade fatos que demonstram que ela estava destinada à
grandiosidade. Para tanto, o autor seleciona personagens, eventos e espaços que mostrem ao
leitor essa predestinação. Para o autor, a própria localização de Campina já é um fator
preponderante para sua grandiosidade. No entanto, a localização por si só não garantiria o
desenvolvimento do local, para isso era preciso ter na cidade as pessoas certas. Nesse sentido,
Almeida escolhe falar de homens que para ele foram os responsáveis por construir a cidade e
guiá-la para seu destino.

3.2.1 Os grandes personagens da história de Almeida

Um dos elementos para mostrar essa grandiosidade foi a escolha dos personagens que iriam
compor a sua “História de Campina Grande”. Os primeiros a ganhar destaque foram os membros
da família Oliveira Ledo. Elpídio de Almeida, principalmente nos dois primeiros capítulos do
livro, foca na ação desses homens em colonizar o interior paraibano. Para isso, utiliza vários
requerimentos de sesmarias, patentes, cartas, para mostrar como se deu a entrada desses homens
no interior da província.
Os primeiros da família que são relembrados são Antônio de Oliveira Ledo, Custódio de
Oliveira Ledo (irmãos) e Constantino de Oliveira Ledo (filho de Custódio O. Ledo). Esses são os
primeiros a requerer terras na Capitania da Paraíba ao governo português junto com outras
pessoas.

Antonio de Oliveira Ledo, Custódio de Oliveira Ledo, Constantino de Oliveira Ledo,


Luís Albenaz, Francisco Oliveira, Maria Barbosa, e o alferes Sebastião Barbosa de
Almeida, todos moradores neste Estado, que na Capitania da Paraíba, nas cachoeiras de
uma data que concedeu ao Conde de Atouguia ao Governador André Vidal de Negreiros,
há terras devolutas que nunca foram dadas nem cultivadas por pessoa alguma [...]. e ora
os suplicantes as têm descoberto e povoado com gados de dois anos a esta parte sem
contradição alguma, e outrossim tem servido à Sua majestade, que Deus guarde, de vinte
anos a esta parte, com grande dispêndios a sua fazenda, e resulta conveniêntemente ao
76

bem comum e às rendas de Sua Majestade povoar-se o sertão com toda largueza, que só
é estimada do gentio indoméstico. Pedem a V. Excelência que lhes faça mercê a eles
suplicantes, em nome de El-Rei Nosso Senhor, dar de sesmarias 30 léguas de terras a
todos os referidos nesta petição [...] (ALMEIDA, 1993, p.15).

O primeiro documento utilizado por Almeida para mostrar a importância dos Oliveira Ledo
foi um trecho de uma carta de concessão de sesmarias dada pelo governador geral, em 1665. Para
Almeida, essa concessão “tem especial significação histórica” (ALMEIDA, 1993, p.15), pois
mostra, pela primeira vez, membros da família Oliveira Ledo requerendo terras na Capitania.
Apesar do documento mostrar que não era apenas a família Oliveira Ledo que estava colonizando
o interior do que hoje é a Paraíba, Almeida só ressalta a importância dos Oliveira Ledo nesse
empreendimento.
Elpídio de Almeida lança sua atenção nessa família, pois o autor entende que tivera uma
grande influência na conquista do interior paraibano. Como mostra o fragmento acima, os
Oliveira Ledo estavam na Capitania da Paraíba para povoá-la e com seus serviços à coroa
portuguesa, conseguiram grandes porções de terras e muita influência com as autoridades
portuguesas e com os moradores do local, tornando-se uma das principais famílias do interior
dessa Capitania.
A família Oliveira Ledo, segundo Almeida, tem suas origens em Portugal. Quando
chegaram à América portuguesa, se instalaram na Bahia e, objetivando lucrar com o povoamento
do interior, saíram para a Capitania do Rio Grande (atual estado do Rio Grande do Norte), em
1664, indo, posteriormente, para a Capitania da Paraíba.
As primeiras sesmarias que essa família conseguiu foram doadas pela coroa portuguesa. A
doação de terras era uma prática comum durante o Brasil Colonial e visava o povoamento.Por
isso, no trecho do documento que citamos, os requerentes ressaltam que as terras que haviam
descoberto logo foram povoadas por eles, assim, pediam ao governo a sua posse. Os Oliveira
Ledo se tornaram arrendatários de vários lotes de terras, tanto no interior da Capitania do Rio
Grande, como também no interior da Capitania da Paraíba (SOUSA, 2012).
Ainda segundo Costa (2012), muitas famílias saíram de Portugal e vieram para a América
Portuguesa. Através do povoamento de sesmarias, conseguiam prestígio que, na maior parte das
vezes, não conseguiam em suas terras de origem. Os Oliveira Ledo gostaram tanto desse prestígio
conseguido nessa região que se auto intitulavam a “melhor família da terra”. Ora, se eles próprios
se intitulavam os melhores, porque Almeida os deixaria de fora da história de Campina Grande?
77

Para Almeida, os homens dessa família eram destemidos e buscavam sempre servir da
melhor forma a Coroa Portuguesa, mostrando-se sempre preocupados com o dever de povoar as
terras de seu novo lar. O primeiro dos Oliveira Ledo que Almeida chamou a atenção por sua
atuação na capitania foi Antônio de Oliveira Ledo. Segundo Almeida, “o que não resta dúvida é
que, desde a chegada à Paraíba, em 1663, não descansou Antônio de Oliveira Ledo no
desbravamento dos sertões da capitania, descobrindo terras, domesticando índios, promovendo o
povoamento” (ALMEIDA, 1993, p. 18).
O autor destaca a figura de Antônio de Oliveira Ledo pelo fato de ele ter sido o primeiro da
família a ocupar o cargo de capitão-mor, fundando diversas vilas e povoações no interior da
Capitania da Paraíba. Por isso, Almeida o adjetiva como sendo “a maior autoridade no sertão da
Paraíba, prestigiado pelo governo geral da capitania” (ALMEIDA, 1993, p. 20). Como foi
mencionado anteriormente, por promover a povoação, esses homens ganharam muito prestígio e
terras.
O que nos chama atenção também é o olhar de Almeida em relação aos indígenas. Por fazer
uma história na qual as fontes são as detentoras da verdade histórica, compartilha com o discurso
colonizador e compactua com a visão do índio da historiografia tradicional, que vê esse grupo
étnico como inferior e que teria que ser integrado à cultura branca para conseguir “civilizar-se”.
Várias são as passagens que mostram os índios como “gentio bárbaro”, que era preciso
“domesticá-los, em proveito do povoamento e para não ser incomodado na expansão pastoril
incipiente” (ALMEIDA, 1993, p. 17). Assim, para Almeida, os índios, que eram os antigos
moradores dessas terras, atrapalhavam o seu desenvolvimento, o que só poderia ser alcançado a
partir da atuação de homens como Antônio de Oliveira Ledo, que entrava nos sertões para povoá-
lo, construindo aldeamentos e vilas.
Outro membro da família retratado é Constantino de Oliveira Ledo, sobrinho de Antônio de
O. Ledo, continuando o trabalho de seu tio. Almeida não entrou em detalhes sobre ele. Apenas
destacou que Constantino de Oliveira Ledo deu continuidade aos trabalhos do tio e prestou bons
serviços para a coroa portuguesa.
Elpídio de Almeida relata o trajeto desses dois homens para chegar a quem ele considera
ser figura central dessa família para a história de Campina Grande, Teodósio de Oliveira Ledo, o
membro dos Oliveira Ledo que entrou para a história como o fundador da cidade. Teodósio de
78

Oliveira Ledo era irmão de Constantino de Oliveira Ledo e assumiu o cargo de capitão-mor no
lugar de seu irmão, quando esse faleceu, em 1694.
Na história oficial de Campina Grande, Teodósio de Oliveira Ledo, em 1697, vinha do
sertão da Capitania da Paraíba com um grupo de índios Ariús, que desejavam ser catequizados. O
capitão-mor decidiu levar os indígenas para a cidade da Parahyba (atual João Pessoa) e no meio
do caminho encontrou uma campina. Lá, resolveu aldear os Ariús. Essa povoação deu origem à
cidade de Campina Grande.
No entanto, a ideia de que Teodósio de Oliveira Ledo foi o fundador de Campina Grande é
uma convenção histórica. Desde 1965, José Elias B. Borges, em um artigo para a “Revista
Campinense de Cultura” (a mesma que Elpídio era um dos editores-chefes), aponta que seria
impossível que Campina Grande tivesse sido fundada em 1697, já que no ano seguinte Andreas
Horatiy publicou um mapa em Roma, no qual constava uma aldeia de índios com nome de
Campina Grande. Levando em consideração o tempo que um mapa levava na época para ficar
pronto, é impossível a povoação ter sido fundada por Teodósio de Oliveira Ledo e um ano depois
constar em um mapa publicado em Roma. Almeida menciona esse mapa no livro, mas se furta de
analisar a informação, que apresenta da seguinte forma:

Um ano após o aldeamento já configurava como povoação no mapa de Andreas Horatiy,


aproveitado pelo frei Gioseppe de Santa Tereza, em sua IstoriadelleGuerre Del regno
Del Brasile, publicada em Roma, em 1698. Esclarece Câmara Cascudo: “O aldeamento
de Ariús, em 1697, já aparece no mapa de Horatiy com nome de “Campina Grande”,
tendo um indicador de povoação, um ano depois, data da publicação do livro de frei
Gioseppe de santa Tereza (ALMEIDA, 1993, p. 35).

Para Almeida, o fato de ter um mapa na Europa um ano após a fundação da Aldeia por
Teodósio de Oliveira Ledo só reafirma a importância desse espaço. Em nenhum momento,
Almeida cogita a possibilidade de já existir um aldeamento antes de 1697. No entanto, José Elias
Borges36, provavelmente após ter lido o livro de Almeida e ter realizado suas pesquisas sobre as
etnias locais, mostrou que já havia uma aldeia de índios Cariris, que se chamava Campina
Grande.

36
José Elias B. Borges foi o maior pesquisador sobre a etnografia paraibana. Fez estudos etnográficos e linguísticos
que modificou o que se conhecia sobre as etnias do estado no período proto-história. Para mais sobre o assunto ver:
O etnólogo José Elias Borges. Disponível em:<http://mhn.uepb.edu.br/Boletins/Boletim_52_OUT_2010_Especial
_7.pdf>.
79

Desse modo, vemos que Teodósio de Oliveira Ledo aldeou os índios Ariúsno já existente
povoado de Campina Grande. No entanto, foi Teodósio de Oliveira Ledo que mandou uma carta
para o Governador-Geral, informando que aldeou um grupo de índios nessa localidade e trouxe
consigo um padre para fundar uma missão no local. Assim, oficialmente, foi Teodósio de
Oliveira Ledo que fundou a aldeia, mas o povoado já existia e provavelmente já era frequentado
por boiadeiros e viajantes (uma vez que já constava no mapa, a localidade deveria ser bem
conhecida). Considera-se ainda que Teodósio já deveria saber da existência dessa povoação, pois
tinha uma fazenda (Fazenda Santa Rosa) próximo ao local (BRITO; OLIVEIRA, 2010).
Como Almeida seguia a história tradicional e expunha o que estava nos documentos
oficiais, Teodósio de Oliveira Ledo foi o fundador de Campina Grande, e ele “muito iria
concorrer para o povoamento da Paraíba, fundando arraiais que se transformariam em cidades”
(ALMEIDA, 1993, p. 21). Para o autor, tanto Teodósio de Oliveira Ledo como também seus
familiares foram as pessoas mais importantes no povoamento do interior da Capitania da Paraíba.
Porém, Teodósio de Oliveira Ledo ganha destaque maior por ter fundado a cidade. Almeida
apresenta o capitão-mor de uma forma idealizada, ressaltando como ele era um homem forte,
bom, destemido, íntegro, que prestava bons serviços à Coroa Portuguesa.
O primeiro documento utilizado para mostrar a importância de Teodósio de Oliveira Ledo
foi a patente de capitão-mor da Paraíba, em 1694. O argumento de Almeida é de que utilizou-a
para mostrar o “merecimento do irmão ‘povoador daqueles sertões donde continuou muitos anos
em defesa daquela Campanha e moradores com grande despesa de sua fazenda” (ALMEIDA,
1993, p. 22). Almeida seleciona essa frase da referida patente, que é transcrita a fim de
demonstrar que Teodósio de Oliveira Ledo era merecedor do cargo, pois defendia a Capitania e
seus moradores com o seu próprio provento, destacando a benevolência e honradez desse homem.
Almeida, por mais que pretenda ser imparcial e acreditar em uma verdade histórica,
manipula o documento para mostrar a sua visão de Teodósio de Oliveira Ledo. Ele não destaca
nos documentos a parte em que o capitão-mor, em troca de sua “boa vontade” em defender o
território paraibano, requeria terras do governo português e que, desse modo, se tornou um dos
homens mais ricos do local. De acordo com Costa (2012), Teodósio de Oliveira Ledo conseguiu
arrendar 28 propriedades.
Além disso, a defesa feita pelo capitão-mor a que Almeida se refere diz respeito,
principalmente, ao aprisionamento de índios que eram utilizados muitas vezes como escravos. O
80

mais interessante é que, posteriormente, Almeida vai evidenciar como os ideais abolicionistas são
importantes. Essa contradição acontece, a nosso ver, porque Elpídio de Almeida quer destacar as
qualidades do capitão-mor, e essas qualidades só poderiam ser provadas por meio dos
documentos. Dessa forma, utiliza largamente o discurso dessas fontes para provar a boa imagem
de Teodósio de Oliveira Ledo.
O que queremos destacar é que Almeida escolhe trabalhar com os membros da família
Oliveira Ledo primeiro porque eles eram portadores dos valores da elite, como também para
embasar o argumento de que Campina Grande foi grandiosa até no homem que a fundou. Outro
ponto interessante a destacar é a relação de Teodósio com os índios, que era baseada em
interesses. Segundo Renata Assunção da Costa, foram encontrados documentos que mostram
índios requerendo terras junto a Teodósio de Oliveira Ledo. Isso demonstra uma aliança entre os
índios e o capitão-mor. Essa pode ter sido uma das causas de Teodósio de Oliveira Ledo ter
conseguido conquistar tantas terras no interior das Capitanias do Rio Grande e da Paraíba.Essas
alianças com os indígenas poderiam ter sido uma estratégia para conseguir proteção e se manter
em suas terras (COSTA, 2012).
Mas não podemos esquecer que o aprisionamento e o genocídio de índios foram práticas
constantes na vida de Teodósio de Oliveira Ledo 37. Apesar de haver as alianças, a maior parte dos
índios foi capturada para ser utilizada como mão de obra cativa. No entanto, em razão da
Instituição a qual Almeida estava vinculado e o seu lugar social, não poderíamos exigir outro tipo
de relato, já que essa forma de escrita da historiografia tradicional é marcadamente apologética e
heroicizante.
Após todo esse percurso para mostrar que Teodósio de Oliveira Ledo foi o homem “certo”
para aldear Campina Grande, Almeida passa a mostrar como o capitão-mor deu início ao
povoamento e ao desenvolvimento dequele espaço. Para tanto, Elpídio de Almeida une em seus
argumentos a importância desse homem e sua família e acrescenta um novo elemento: a
localização geográfica de Campina Grande.

37
Teodósio de Oliveira Ledo era conhecido pela sua habilidade como conquistador. A historiografia oficial o tem
como herói. No entanto, já há algum tempo pesquisas vêm apontando que as conquistas de Teodósio de Oliveira
Ledo foram feitas à custa de derramamento de sangue de indígenas. Segundo Brito e Oliveira (2010), mesmo após a
Guerra do Bárbaros, o capitão-mor continuou uma dura repressão aos indígenas e os utilizava como presos de guerra.
Cf. BRITO, Vanderley de; OLIVEIRA, Thomas Bruno. A missão catequética de Campina Grande: uma
pseudomissão para dissimular o etnocídio nos sertões da Paraíba. Disponível em:
<http://mhn.uepb.edu.br/revista_tarairiu/n4/TARAIRIU_N04.pdf>.
81

Viajou Teodósio de Oliveira Ledo, em fins de 1697, do arraial de Piranhas para a capital
da província, a fim de entregar ao governador as cartas de D. João de Lancastro. [...]
Sem que se saiba o motivo, antes de descer a Borborema, aldeou-se numa grande
campina, nos limites orientais da região dos cariris. Fundava aí o núcleo que deu origem
a Campina Grande (ALMEIDA, 1993, p. 35)

Para Almeida, a localização de Campina Grande é mais um fator que demonstra a


importância da cidade. Segundo ele, Campina está localizada em um espaço privilegiado, “sem
que se saiba o motivo”. Logo, instintivamente, Teodósio percebeu o potencial desse local e
resolveu fundar um núcleo de povoamento, pois percebeu que esse território era o melhor ponto
de passagem entre o sertão e o litoral da Capitania.
“Desbravador infatigável, já no ano seguinte tornava a Campina Grande, sem dúvidas com
o propósito de desenvolver a aldeia que fundara” (ALMEIDA, 1993, p. 37). Para Almeida, estava
claro que Teodósio de Oliveira Ledo, como “grande” homem que era, entendeu que a localidade
que aldeou tinha um grande potencial a ser explorado, justamente pelas suas características
geográficas. Almeida constrói seus argumentos de tal forma que podemos pensar que o espaço
onde se desenvolveu a cidade de Campina Grande sempre foi especial, faltando-lhe apenas uma
pessoa como Teodósio de Oliveira Ledo, de espírito “desbravador” e empreendedor, para
entender que esse espaço era “especial”.

Não foi difícil a Teodósio dar desenvolvimento ao núcleo iniciado com o grupo ariús.
Dadas as condições favoráveis do sítio, a amenidade do clima, a existência de matas, a
natureza do solo e, principalmente, a sua localização, ponto de passagem preferido nas
comunicações entre o sertão e o litoral, cedo conseguiu atrair parentes, colonos brancos,
índios mansos, com o que assegurou a prosperidade do lugar (ALMEIDA, 1993, p. 37-
38).

Assim, vemos que para Almeida, além de ser um ponto privilegiado por sua localização
geográfica, o espaço ainda dispunha de solo fértil, clima agradável, água e matas, ou seja, a
localidade dispunha de todos os atrativos para agregar pessoas e formar uma cidade. Por essas
características, o lugar conseguiu atrair os parentes de Teodósio de Oliveira Ledo. Almeida
também destaca que além da “boa” família dos Oliveira Ledo vieram para Campina Grande
“colonos brancos” e “índios mansos”. Em outras palavras, não foi qualquer tipo de pessoa que
chegou para povoar e desenvolver a pequena aldeia. Apenas gente da melhor estirpe foi para
Campina Grande. Até os índios que vieram eram “mansos”, diferentes dos indígenas de outras
localidades que eram tratados por Elpídio de Almeida como “gentio bárbaro”.
82

Almeida cria com esses argumentos uma espécie de destino manifesto para Campina
Grande. Para ele, era natural que Campina se desenvolvesse, visto que a localidade era
privilegiada e possuía todos os atrativos necessários. Contudo, não poderia ser qualquer pessoa
que faria esse trabalho. Campina, para Almeida, não poderia ter sido fundada por outra pessoa
senão Teodósio de Oliveira Ledo, pois foi ele quem percebeu o potencial do lugar.
Apesar de, na opinião de Almeida, a aldeia ter esse potencial, ele não podia negar o fato de
que Campina, desde seu povoamento até a sua emancipação para a categoria de cidade,
permaneceu pequena e pouco desenvolvida, mesmo sendo um lugar de movimento contínuo.
Ainda tendo tecido todos esses comentários para mostrar a grandiosidade do lugar, Almeida não
tinha como discordar de suas fontes. Ele mesmo afirma que “o desenvolvimento da povoação, na
primeira metade de 1700, lento e silencioso, passou despercebido à administração da província”
(ALMEIDA, 1993, p. 38).
Dessa forma, Elpídio de Almeida não podia sustentar seu argumento de que Campina era
grande baseado no desenvolvimento do local. Então, como estratégia, o autor passou a focar na
questão política e na atuação dos Oliveira Ledo nesses assuntos. Assim, Almeida passa a relatar a
disputa entre os moradores da freguesia de Nossa Senhora dos Milagres (atual São João do
Cariri) e a freguesia de Campina Grande, com o intuito de ver qual das localidades seria elevada
à categoria de vila.
Almeida mostra que a freguesia de Nossa Senhora dos Milagres era mais desenvolvida do
que a freguesia de Campina Grande. Todavia a elite campinense era bem mais articulada
politicamente. Para demonstrar isso, Almeida apresenta os vários ofícios e abaixo-assinados que
as elites campinenses mandavam para o governador geral, a fim de que ele escolhesse o povoado
para tornar-se a nova vila da capitania. Por fim, quem ganhou a querela e o título de Vila Nova da
Rainha foi Campina Grande e Almeida, depois de mostrar o trâmite dessa disputa, faz questão de
fazer a seguinte afirmação:

Fundara Teodósio de Oliveira Ledo a aldeia de Campina Grande. Quase um século


depois, descendentes seus foram elementos decisivos na criação da vila. Os dois
primeiros subscritores dos requerimentos ao governador e ao ouvidor, Paulo de Araújo
Soares e José de Araújo Soares eram trinetos de Teodósio. O que assinou com Paulo de
Araújo Soares a escritura de doação, Sebastião Correia Ledo, era casado com uma trineta
(ALMEIDA, 1993, p. 50-51).
83

Nesse trecho, fica ainda mais claro a opinião de Elpídio de Almeida sobre a família
Oliveira Ledo. Para ele, essa família foi fundamental para o desenvolvimento da localidade. Se o
povoado de Campina Grande conseguiu crescer e se tornar a Vila Nova da Rainha foi graças aos
esforços desses homens, como o autor coloca, “homens bons”, que por amarem a cidade e
saberem o potencial dela fizeram todo o esforço para vê-la grande.
Para mostrar a importância desses homens remanescentes dos Oliveira Ledo, Elpídio
apresenta, na íntegra, o testamento de Paulo de Araújo Soares, que, segundo Almeida, tinha a
fama de ser o homem mais rico da região. O testamento toma sete páginas do livro. Para os
historiadores posteriores a Elpídio de Almeida, esse testamento é uma rica fonte que mostra a
quantidade de escravos, a cultura material, os costumes e vários outros aspectos. Para Almeida,
esse documento mostra como esse homem foi importante e teve uma vida “intensa e útil” para
Campina Grande.
Para encerrar as passagens que trata dos Oliveira Ledo, Elpídio descreve quais foram os
membros da família que fundaram fazendas na cidade, qual a atuação deles na vida política local.
Descreve ainda como foi a vida desses homens e mulheres descendentes de Teodósio de Oliveira
Ledo.
Após a leitura desses dois primeiros capítulos, que são os que tratam dos Oliveira Ledo,
fica a impressão, e acreditamos que essa foi a intenção de Almeida, que Campina Grande não
teria se desenvolvido, se tornado uma vila, se destacado das outras localidades, se não fosse essa
família.
O que é claro para nós é que Almeida decide seguir esse caminho para ressaltar a
grandiosidade de Campina Grande, mesmo que Campina, enquanto freguesia e vila, não tenha se
destacado tanto em relação a outras cidades e vilas do estado. Mas, para o autor, o povo de
Campina sempre esteve em evidência ao lado dos demais, e quando nos referimos ao povo
estamos falando diretamente das elites, mais precisamente da família Oliveira Ledo.
O próximo homem que Elpídio de Almeida escolhe como grande personagem de sua
história é Irineu Joffily. Em “História de Campina Grande”, o nome de Joffily é citado diversas
vezes ao longo dos capítulos, seja por sua atuação enquanto juiz, político e jornalista, ou fazendo
referência a sua obra, “Notas sobre a Paraíba”. Além das várias referências a seu nome, Almeida
faz uma espécie de homenagem a Joffily, colocando uma foto dele no livro. “História de
Campina Grande” é uma obra com poucas imagens. São apenas sete em todo o livro, dentre elas,
84

está a de Irineu Joffily. Isso demonstra que esse homem é considerado, por Almeida, como uma
pessoa muito importante para a história da cidade.
Irineu Joffily foi um homem bastante ativo na sociedade campinense nos anos em que
viveu na cidade. Joffily nasceu na localidade onde hoje fica a cidade de Pocinhos, agreste
paraibano, era filho de grandes proprietários de terra local. Formou-se bacharel em Direito pela
Faculdade de Direito de Recife. Foi promotor de São João do Cariri e Juiz de Campina Grande.
Exerceu também o cargo de vereador da cidade e deputado provincial. Atuou como jornalista,
redator e fundou o jornal “Gazeta do Sertão”, primeiro jornal de Campina Grande. Estudou muito
sobre a história, a geografia e a paleontologia paraibana e escreveu “Notas sobre a Paraíba”, livro
que é um clássico da historiografia do estado38. Joffily membro da elite que teve uma
participação ativa na vida política, social e intelectual de Campina Grande e da Paraíba, a sua
época, sendo imprescindível para Elpídio de Almeida mencioná-lo em seu livro, uma vez que
Almeida escrevia uma história heroicizante e monumentalista.
Irineu Joffily foi um homem que atuou em diversas áreas. Elpídio de Almeida menciona
todas elas em seu livro, mas a face de Joffily que ganha mais destaque em “História de Campina
Grande” é a de jornalista. Acreditamos que Almeida dá maior destaque a essa atividade de Irineu
Joffily primeiro pelo fato de ele ter lançado a “Gazeta do Sertão”, depois por esse intelectual ser
um entusiasta e incentivador do ideal republicano e, enfim, por ser ele um propagador da imagem
de Campina como importante cidade para a Paraíba, ou seja, de certa forma foi nas páginas da
“Gazeta do Sertão que se inaugurou a linhagem do mito de grandiosidade de Campina Grande.
A “Gazeta do Sertão” foi um jornal que surgiu a partir da sociedade entre Irineu Joffily e
Francisco Retumba39, que dispunham de interesses semelhantes, dinheiro e vontade para construir
um espaço onde pudessem escrever sobre o republicanismo e o federalismo. Os sócios possuíam

38
Para mais sobre Irineu Joffily, ver a obra de José Joffily: Entre a monarquia e a república: ideias e lutas de
Irineu Joffily.
39
Francisco da Silva Soares Retumba (1856-1890) era um paraibano, filho do engenheiro português Francisco
Soares da Silva Retumba, construtor da Ponte Sanhauá, que liga a capital ao interior do Estado. Quando jovem, foi
morar na Europa, onde provavelmente se formou engenheiro de minas (José Joffily no seu livro Entre a Monarquia
e a República deixa claro que há dúvidas quanto à formação de Retumba quando afirma que “estavam escritas essas
linhas apoiadas em informações unânimes, quando recebo carta daquela universidade em sentido negativo, constando
no apêndice deste livro. Fica-se sem saber onde formou-se Retumba. Formou-se?” (1982, p. 112). Quando retornou à
Paraíba, Retumba foi convidado pelo Presidente da Província a preparar um estudo sobre os recursos econômicos do
Estado. A partir de então, viajou pelo interior para realizar esse estudo. Durante suas viagens, passou por Campina
Grande e conheceu Irineu Joffily. Francisco Soares da Silva Retumba, sendo rico e idealista, logo associou-se a
Joffily na criação do jornal “A Gazeta do Sertão” (Memorial do IHGP – Francisco Retumba). Disponível
em:<http://ihgp.net/memorial4.htm>. Acesso em: 3 jun. 2014.
85

vasta experiência como articulistas e quando se conheceram, em uma visita de Retumba à


Campina Grande, encontraram diversas afinidades, decidindo montar um jornal (JOFFILY, 1982,
p. 112-113).
Fundar um jornal em Campina Grande no final do século XIX era um empreendimento
arriscado, pois não havia na cidade nenhum órgão do tipo. Retumba e Joffily custearam todo o
maquinário e a matéria-prima. Segundo José Joffily, “fraternos nas ingênuas aspirações,
começava o sonho pela própria iniciativa de fundar um jornal naqueles confins sem tipógrafos,
sem noticiaristas e... sem leitores” (1982, p. 113). O autor ressalta que não havia leitores para o
jornal, uma vez que na época em que o jornal começou a circular Campina Grande era uma
pequena cidade do interior, com cerca de quatro mil habitantes. Sabendo que apenas uma
pequena parte da população consumiria esse tipo de produto, era um negócio arriscado o deles,
ainda mais porque o jornal nasceu como espaço para criticar a forma de política da época.

Com o subtítulo “Órgão Democrático”, o periódico e seus articuladores se envolveram


profundamente com as questões de seu tempo, a exemplo da luta pelo fim da escravidão
e a batalha pela implantação do regime republicano em substituição a um Império
político carcomido pelas contradições de época. Por conta deste engajamento seus
proprietários pagaram um preço alto, pois com a ascensão ao poder em âmbito local e
estadual das forças hegemônicas no novo arranjo político, o jornal teve um fim
melancólico em 1891, ao ser empastelado pelos correligionários locais de Venâncio
Neiva, então presidente do Estado (LIMA, s/d).

A “Gazeta do Sertão” deu início a história da imprensa em Campina Grande. Como


ressaltou Luciano Mendonça de Lima, apesar do empreendedorismo, por ser contrário e se tornar
inimigo da elite política da cidade,sofreu a represália desse grupo, que culminou com o
empastelamento do periódico. Essas perseguições se deram justamente pelo conteúdo de crítica
ao regime político que compunha as páginas do jornal e que estavam atreladas aos ideais de seus
diretores.
É de se estranhar que um periódico que defendia as ideias republicanas fosse desfeito
justamente durante a vigência da República no Brasil. Esse fato mostra que muitos dos que
faziam parte do poder político durante a Monarquia se mantiveram no poder após a proclamação
da República. Conforme Eliete Gurjão, muitos componentes da tradicional elite política
campinense, que exerciam importantes cargos e funções durante o Império, continuaram sua
trajetória política após a República, o que mostra o caráter continuísta do sistema político que se
instalava no país (GURJÃO, 2000, p. 34).
86

Elpídio de Almeida era um grande admirador de Irineu Joffily e da “Gazeta do Sertão”,


tanto pelo fato de Joffily ter sido um homem que se destacou na sociedade campinense – por ele
ter fundado o primeiro jornal de Campina Grande–, como também pela defesa da causa
republicana, ideal que Almeida acreditava ser importante. Dessa forma, em “História de Campina
Grande”, não poderia faltar a história da “Gazeta do Sertão”.

Em abril recebeu a Câmara uma petição do bacharel Irineu Joffily, solicitando licença
para instalar uma oficina de impressão, à Praça Sousa Bandeira n. 24 (a placa ainda não
havia sido retirada), com o nome de Tipografia Central. Era a primeira a montar-se em
Campina, ou em todo o interior da Província, com exceção de Areia, que em 1877 já
tinha o seu jornal, O AREIENSE (primeira fase), cujo programa era “instruir os seus
leitores em relação ao que for útil ao comércio, às letras e às artes”. Da Tipografia
Central surgiu, a 1º de setembro, o primeiro número da GAZETA DO SERTÃO
(ALMEIDA, 1993, p. 197).

Almeida destaca a ação de Joffily ao abrir um jornal em Campina Grande e demonstra a


importância de se ter um periódico na cidade, afirmando que até então só existia jornal em Areia,
a cidade do interior paraibano que mais se destacava à época no campo econômico, político e
intelectual. Foi lá a primeira cidade paraibana a abolir a escravidão, fato que tem ligação direta
com a “Gazeta do Sertão”, já que o jornal tinha cunho republicano e abolicionista. Logo, a
comparação com Areia mostrava que Campina Grande estava entrando no circuito intelectual do
estado. O conteúdo que passava a ser veiculado no periódico defendia ideias “novas”, o que
mostrava o quanto os campinenses, na figura de Joffily, eram vanguardistas, pois era uma das
poucas cidades da então província da Paraíba a possuir um veículo de propagação das ideias
republicanas.

Não ficou porém a Província totalmente deserdada de vozes anunciadoras de nova


ordem na coisa pública. Campina Grande incorporou-se a êsse pronunciamento isolado,
em 1888, tendo Irineu Joffily e Francisco Retumba a “Gazeta do Sertão”, jornal
independente, começou a pregação do regime republicano (ALMEIDA, 1993, p. 219).

Nos fins do século XIX, era notório que a monarquia brasileira se encontrava em crise.
Várias eram as vozes que ecoavam por todo o país, já há muito tempo, pedindo mudanças na
política nacional, o que gerou uma crise, visto que essa forma de governo não correspondia mais
às mudanças sociais em processo. Fazia-se necessário a implantação de uma nova forma de
governo que fosse capaz de fazer o país progredir e avançar nas questões políticas, econômicas e
87

sociais. A forma encontrada foi a República. Vários políticos e intelectuais, como é o caso de
Irineu Joffily, defendiam o ideal republicano.
Segundo Ângela de Castro Gomes, após implantando, em 1889, o regime republicano
“precisava se legitimar, produzindo tanto um ‘passado’, no qual pudesse se reconhecer e ser
reconhecido, como ‘futuros’ que pudessem ser projetados e nos quais se pudesse acreditar”
(2012, p. 25). Ainda segundo Gomes, se criou uma tradição republicana para a história o Brasil,
na qual vários intelectuais se engajaram para produzir discursos que apoiassem a república,
mostrando a necessidade da modernização e apontando o regime monárquico e a escravidão
como responsáveis pelo atraso do país.
Elpídio de Almeida também acreditava que a República foi a melhor forma de enfrentar
situação política, social e econômica brasileira. Acreditamos que o autor congregava desse ideal
por fazer parte da política, mas principalmente pelo que aprendeu no IHGP, já que essas
agremiações foram as principais responsáveis por forjar esse passado republicano para o Brasil,
não ficando o IHGP imune a isso. Como aponta Dias (1996), uma das bases da paraibanidade era
a afirmação de que o “destino histórico” do estado era a República. Por isso a exaltação de
Almeida às ideias de Irineu Joffily que estavam sendo propagadas por meio da “Gazeta do
Sertão”.
Além do ufanismo republicano, Almeida escolheu escrever sobre Irineu Joffily pelo fato de
o intelectual ter sido um dos primeiros a tratar do potencial de Campina Grande em ser uma
cidade grande. Um trecho que o autor destaca está no capítulo “A sêca de 1877”. Após relatar
como Campina Grande passou pela grande seca 40, Almeida cita um trecho da “Gazeta do Sertão”,
o qual mostra que a cidade conseguiu, apesar de toda mazela da seca, crescer e lucrar com ela.
Segundo Almeida, Joffily:

Assinalou pela GAZETA DO SERTÃO, em 1890: “A cidade de Campina Grande, foi


nessa calamitosa época, a terra da promissão para onde afluíram aos milhares os
habitantes do alto sertão; nela fizemos um centro de salvação e de vida, donde, depois da
crise, regressaram a seus lares inúmeras famílias que não precisaram ir mais adiante
buscar segurança à sua exigência nem a garantia à sua honra” (ALMEIDA, 1993, p.
164).

40
A seca ocorrida entre os anos de 1877 e 1879 ficou conhecida como “a grande seca”, pois foi uma das mais
devastadoras que já ocorreram na história do Nordeste brasileiro. Por causa da calamidade, várias famílias tiveram
seus animais e suas plantações perdidas e foram obrigados a migrar em busca de sobrevivência.
88

Irineu Joffily era então, para Almeida, um perfeito exemplo de engajamento intelectual que
merecia compor “História de Campina Grande”, pois, além de entusiasta da ideia republicana,
conseguia enxergar a capacidade que tinha a cidade para se tornar grandiosa. Para Joffily, a
administração municipal, junto com outros setores da sociedade, precisava se engajar para fazer
com que Campina Grande crescesse. O articulista escreveu: “O qualificativo de grande, que tem
esta cidade, tem sido até hoje somente uma aspiração; faz-se preciso que a nossa administração
municipal o torne uma realidade, empregando todos os meios ao seu alcance” (GAZETA DO
SERTÃO, 01/03/1889).
Vê-se então porque Joffily era tão admirado por Almeida. Afinal, mesmo criticando a
administração municipal, o intelectual ressaltava a importância do lugar, mostrando que, apesar
das desavenças políticas, o objetivo maior das elites da cidade era tornar Campina uma cidade
grandiosa, o que foi posteriormente feito e que nos anos 1960, com o centenário, estava sendo
comemorado e (re)afirmado.
O outro nome que entra para a “História de Campina Grande” para compor a gama de
homens ilustres da cidade e que também teve o rosto estampado através de uma foto, sendo
diversas vezes citado foi Cristiano Lauritzen, o arqui-inimigo de Irineu Joffily. Esse é mais um
personagem que Elpídio de Almeida acredita ser uma figura importante na história da cidade,
visto que ele foi o homem que trouxe o trem e, consequentemente, deu origem ao grande
“progresso” de Campina Grande.

Vai desaparecendo da memória das novas gerações campinenses a figura de Cristiano


Lauritzen, um estrangeiro que se radicou na cidade quando ele ainda era um burgo sem
atrativos, e serviu durante 43 anos continuados. Não poderia eu terminar esse escôrço
histórico, às vésperas do centenário da cidade, sem avivar-se o vulto, para que seja
olhado como um dos grandes benfeitores da terra (ALMEIDA, 1993, p. 413).

Como escreve o autor, às vésperas do centenário, a cidade não podia esquecer o que para
ele eram os grandes homens, os que construíram Campina e fizeram com que ela deixasse de ser
uma pequena cidade do interior do estado da Paraíba para se tornar a “Rainha da Borborema”.
Almeida escolhe escrever sobre Lauritzen por ele ter sido mais um integrante da elite local que
participou ativamente da sociedade campinense, como comerciante e político.
Cristiano Lauritzen (1847-1923) foi um dinamarquês que chegou a Campina Grande em
1880. De acordo com Elpídio de Almeida, “decidiu fixar-se em Campina Grande, que lhe
89

pareceu, à observação das condições naturais, o lugar com mais possibilidades de


desenvolvimento, se provido dos recursos necessários” (ALMEIDA, 1993, p. 413). O autor não
perdeu a oportunidade de atrelar a figura de Lauritzen ao que ele acreditava ser a grandiosidade
de Campina Grande. Visto isso, fica claro que Almeida queria mostrar que Campina Grande
sempre esteve destinada à grandiosidade. Se na época em que o “Gringo”41 havia chegado à
cidade, essa ainda era pequena e pouco desenvolvida, era porque as pessoas que moravam ali não
conseguiram desenvolvê-la, mas, aos olhos engrandecentes do autor, homens como Cristiano
Lauritzen conseguiam enxergar esse potencial.
Ou seja, Elpídio de Almeida escolhe um fato histórico – Cristiano Lauritzen foi o homem
que conseguiu trazer o trem para Campina Grande e com isso a cidade começou a se desenvolver
economicamente– e atrela ele ao “destino manifesto” que estava se criando para a cidade,
desenvolvendo uma narrativa que “prova” que Campina Grande sempre teve o potencial para a
grandiosidade.
Para reafirmar ainda mais esse “destino manifesto”, Almeida afirma que Lauritzen fixou-se
na cidade, apesar de ela ser ainda tão pequena, com “apenas três mil habitantes”, porque “o que o
detinha, não era a realidade do presente, senão a certeza do futuro” (ALMEIDA, 1993, p. 413).
Para Almeida, o futuro de Lauritzen era ser um dos principais responsáveis por fazer Campina
prosperar, por ele ser um “grande” homem. Mas a chegada do “Gringo” a Campina Grande
estava longe do glamour construído por Elpídio de Almeida. Segundo Joffily (1982, p. 135):

O fato cristalino é que o dinamarquês, de pais muito pobres e de rudimentar instrução,


levou dois anos como ladino vendedor ambulante de quinquilharias até conhecer e casar-
se com a filha de Alexandrino Cavalcanti, o mais próspero comerciante e o maior
proprietário de terrenos urbanos de antiga fazenda.

Apesar de sabermos que José Joffily é familiar de Irineu Joffily, arqui-inimigos de


Lauritzen, e por isso ter se influenciado pelos sentimentos familiares, o fato é que o “Gringo”
conseguiu riqueza e influência após casar-se com Elvira, filha do Coronel Alexandrino
Cavalcanti de Albuquerque, um dos homens mais poderosos da cidade. Foi com a ajuda do sogro
que ele abriu uma loja na antiga Rua Grande, atual Rua Maciel Pinheiro, no ramo de tecidos,
joias e miudezas, que se tornou uma das principais casas de comércio do local. Vemos assim que
o “grande” e poderoso homem construído por Elpídio de Almeida em sua narrativa não era tão

41
Apelido pelo qual Cristiano Lauritzen era conhecido, principalmente pelos seus adversários (RIBEIRO, 1979).
90

grande assim até os primeiros anos de sua estadia em Campina Grande, como também a cidade
não era a “grande” Campina que o autor estava narrando.
Mas Elpídio de Almeida acreditava nessa grandiosidade e não podia ser diferente, dado seu
lugar social, na posição de médico, político e intelectual. A cidade era pujante e trouxera muito
êxito para sua vida. Além disso, pela instituição de saber a qual o autor fazia parte, ele não
concebia a história longe dos grandes vultos, grandes acontecimentos, das datas memoráveis etc.
Dessa forma, para Almeida, Cristiano Lauritzen era um grande homem. Para mostrar isso, o autor
vai relatar seus feitos.

Naturalizado brasileiro, casado em família com influência na política local, foi sem se
sentir levado a tomar parte nos assuntos da administração pública, a interessar-se pelos
problemas da comuna, vindo a concorrer apaixonadamente para o desenvolvimento da
terra a que se ligara (ALMEIDA, 1993, p. 414).

É dessa forma que Almeida mostra como Cristiano Lauritzen entrou para política, “sem
sentir” ele estava envolvido, como se Lauritzen não quisesse participar do circuito político da
cidade. Contudo, passou o resto de sua vida no poder. Lauritzen se efetivou de vez na política
local, se tornando herdeiro do legado político do sogro, Alexandrino Cavalcanti, assumindo a
chefia do antigo Partido Conservador, que antes era presidido por Cavalcanti. Apesar de ser um
político consolidado durante o Império, Lauritzen só aumentou seu poder político após a
proclamação da República. Tornou-se o presidente do Conselho de Intendência e foi prefeito de
Campina Grande por dezenove anos (GURJÃO, 2000, p. 34-35).

Viveu Cristiano Lauritzen 43 anos em Campina Grande, amando-a, defendendo-a,


servindo-a, sem medir sacrifícios. Durante os dezenove anos contínuos em que esteve à
frente da Prefeitura, cargo de nomeação do governo do Estado, viu sucederem-se vários
dirigentes, sendo por todos confirmado na posição. Se assim procederam, mantendo-o na
direção do mais importante município do Estado, é que nêle reconheciam positivas
qualidades de homem público (ALMEIDA, 1993, p. 424).

No fragmento, Almeida atrela mais uma vez a ideia da grandiosidade de Campina Grande
com a importância de Cristiano Lauritzen. Ao escrever que ele foi por muito tempo prefeito da
“mais importante cidade do estado”, o autor está mostrando que só um homem muito importante
consegue se manter por tanto tempo no poder. Logo, para Elpídio de Almeida, Lauritzen era
digno do cargo que exerceu, um exemplar cidadão campinense, sendo merecedor de um capítulo
em “História de Campina Grande”.
91

Para Almeida, Cristiano Lauritzen entrou para a política por amor a Campina Grande e se
manteve no poder pelas suas qualidades de homem público. No entanto, é sabido que essa
permanência de Lauritzen no poder se deu pelas alianças políticas que ele fez, após a implantação
da República. Aqueles que eram defensores do império, como Cristiano Lauritzen, para se manter
no poder, logo aderiram à causa republicana.Essa brusca mudança de posição lhe garantiu o posto
de intendente, o que mostra que a política da primeira República só fortaleceu o mandonismo
local (GURJÃO, 2000).
Mas homens como Lauritzen só conseguiam se manter no poder por conta de suas alianças
com a esfera estadual e até federal. No caso, Cristiano Lauritzen era “venancista”, ou seja,
apoiava Venâncio Neiva. Enquanto este estava no governo do estado, Lauritzen esteve à frente do
governo municipal. Mas, em 1900, quando houve a queda de Neiva, Lauritzen também caiu
(GURJÃO, 2000).
O retorno de Cristiano Lauritzen ao poder em Campina Grande se deu a partir do governo
de Álvaro Machado (1904-1908), pois este consolidava a aliança política entre “venancistas” e
“alvaristas-valfredistas”42, o que redefiniu o bloco do poder estadual e gerou a crescente liderança
de Epitácio Pessoa, que iria se consolidar nas eleições de 1915. Como Lauritzen era amigo e
correligionário de Epitácio Pessoa, a ascensão deste ao governo do estado garantiu o retorno
definitivo daquele ao poder político de Campina Grande em 1904, permanecendo até a sua morte,
em 1923 (GURJÃO, 2000).
Por toda essa influência política, Cristiano Lauritzen foi o principal responsável pela
chegada do trem a Campina Grande. Elpídio de Almeida afirma:

Mas o batalhador incansável do prolongamento, o lutador que tomou o caso como coisa
sua, que não parou nem desanimou, que gastou tempo e dinheiro, foi
inquestionavelmente Cristiano Lauritzen. Por duas vezes viajou ao Rio de Janeiro, à sua
custa, expressamente para tratar do assunto (ALMEIDA, 1993, p. 343).

Em seus argumentos, Elpídio de Almeida constrói a ideia de que, assim como na política,
Lauritzen lutou pela implantação da ferrovia na cidade pelo grande amor que sentia por ela, pela
vontade de vê-la grande. Lauritzen, como bom comerciante que era, não iria gastar seu tempo e
seu dinheiro apenas por amor à cidade. É obvio que ele sabia dos benefícios que o trem traria,
principalmente, para o comércio local.

42
Os que apoiavam Álvaro Machado e Valfredo Leal.
92

Cristiano Lauritzen já lutava pela implantação da estrada de ferro há muito tempo. Em


1890, indicado por Venâncio Neiva, ele conseguiu agendar uma reunião diretamente com o então
presidente Deodoro da Fonseca, que mandou técnicos a Campina Grande para realizar os estudos
para a implantação da ferrovia. Até Irineu Joffily o elogiou pelo feito. No entanto, com a renúncia
de Deodoro da Fonseca e o início do governo de Floriano Peixoto e as consequentes mudanças
políticas, o sonho de Lauritzen e das elites campinenses foi adiado (GURJÃO, 2000, p. 40-41).
Só em 1903 é que Lauritzen voltou ao Rio de Janeiro para continuar a lutar pela instalação
da ferrovia na cidade. Mais uma vez ele conseguiu uma audiência com o presidente, na época
Rodrigues Alves, que atendeu o seu pedido, mandando iniciar as obras de prolongamento da
estrada de ferro Conde D’eu de Itabaiana para Campina Grande, que foi inaugurada em 1907.
Com esse feito, Lauritzen conseguiu o reconhecimento e os elogios até de seus adversários
políticos.
Concordamos com Eliete Gurjão quando ela afirma que o sucesso que Cristiano Lauritzen
na luta pela estrada de ferro surtiu bons efeitos para o comerciante-político. Foi uma propaganda
de sua imagem. Os antigos apelidos pejorativos como “gringo” e “forasteiro” foram substituídos
por “cidadão”, “paladino do desenvolvimento”, sendo referenciado pelo seu amor a Campina.
Essa admiração pela figura de Lauritzen resultou em sua volta à chefia do poder executivo da
cidade, como também ainda mais benesses econômicas para ele (2000, p. 47-48). Logo, vemos
que Lauritzen só ganhou com a chegada do trem, apesar de ter gastado seu tempo e dinheiro,
como colocou Almeida, o comerciante só teve lucro.
Almeida encerra o seu livro afirmando que “a sua memória não pode ficar esquecida das
gerações presentes e futuras” (ALMEIDA, 1993, p. 424). Para o autor, homens como Cristiano
Lauritzen, Irineu Joffily, Teodósio de Oliveira Ledo, não podiam ser esquecidos, pois eles
mostram que Campina Grande é uma cidade que nasceu para ser grandiosa em tudo. Além disso,
o autor também buscou ressaltar em sua obra o lugar da elite, uma vez que a década de 1960 foi o
auge de movimentos de contestação da forma tradicional de fazer política, mostrar o passado de
Campina Grande privilegiando a história destes homens é olhar com saudosismo o tempo em que
este grupo social regia a vida social, econômica, política e cultural da cidade sem
questionamentos. Por isso, um dos objetivos de Almeida em escrever “História de Campina
Grande”, às vésperas do centenário da cidade, é trazer à tona a memória desses homens, a
93

memória desse tempo “áureo” das elites locais, denunciando seu descontentamento com o
presente que ele estava vivendo.

3.2.2 Movimentos sociais na história de Campina Grande

Outro ponto que Almeida trata em seu livro e que entendemos como sendo parte da
construção da ideia de grandeza de Campina Grande diz respeito aos movimentos sediciosos que
ele aborda. O autor escolheu escrever sobre quatro movimentos sediciosos, que ele julgou serem
importantes para entrar para a história da cidade. Esses movimentos são: a Revolução
Pernambucana (1817), a Confederação do Equador (1824), a Revolta Praieira (1848) e o
movimento dos Quebra-Quilos (1874)43.
Nesse ponto, Almeida mostra um discurso elitista e preconceituoso, na medida em que
privilegia os movimentos de cunho republicano e elitista, os de 1817, 1824 e 1848 (movimentos
pernambucanos) e menospreza o movimento popular dos Quebra-Quilos, de 1874, o único desses
movimentos que de fato aconteceu em Campina Grande.
Está presente em vários capítulos de “História de Campina Grande” trechos que mostram a
clara reprovação de Elpídio de Almeida em relação aos Quebra-Quilos. Mas é no capítulo que ele
reserva para tratar desse movimento que a sua posição fica mais evidente. Logo no início, Elpídio
de Almeida afirma que “escrevendo sobre coisas deste município, não podia eximir-se do reconto
do fato, já relatado por vários historiadores” (ALMEIDA, 1993, p. 147).
Com essa frase, entendemos que o autor quis dizer que, por ele, os Quebra-Quilos não
entrariam na sua história da cidade, mas, como outros autores já relataram esse acontecimento em
seus livros sobre a história de Campina Grande, ele não pôde deixar de tratar do assunto em as
obra. É um ponto que ele claramente escreve por obrigação. Se pudesse, Elpídio de Almeida não
trataria desse movimento, uma vez que para ele o Quebra-Quilos não teve razões para acontecer.

Foi um movimento sedicioso sem idealismo, selvático, sem orientadores conhecidos,


sem chefes descobertos e responsáveis. Grupos de camponeses ignaros, a que se iam
agregando desajustados e criminosos, saíram a invadir povoações, vilas e cidades,
soltando presos, perseguindo maçons, tomando dinheiro, ameaçando, destruindo pesos e
medidas, incendiando os arquivos públicos. (ALMEIDA, 1993, p. 147).

43
Aqui não vamos reescrever a história contada por Elpídio de Almeida sobre cada movimento social. Voltaremos
nosso olhar para como Elpídio de Almeida encontrou em cada movimento características para forjar a grandiosidade
de Campina Grande.
94

Esse trecho é o primeiro parágrafo do capítulo “Quebra-Quilos” e nele está condensada


toda a opinião de Elpídio de Almeida sobre o movimento. Para o autor, foi um movimento social
desorganizado, que não possuía lideranças, nem ideais, pois foi feito pela camada mais pobre e
analfabeta da sociedade. Em outras palavras, ou melhor, nas palavras do autor, era um grupo de
ignorantes que não sabia o que estava fazendo.
Para Almeida, tudo que os Quebra-Quilos fizeram foi sem necessidade. Depredaram o
patrimônio público e, o que Almeida mais lamenta, destruíram os registros da época, que estavam
nos papeis queimados por alguns membros do movimento. Segundo o autor, “o maior prejuízo
causado pelos sediciosos a Campina Grande, e a outros lugares, foi a destruição dos arquivos
públicos, mal irreparável, ainda hoje lamentado (ALMEIDA, 1993, p. 148).
A queima dos arquivos públicos é a maior lástima de Elpídio de Almeida, sendo essa a
maior crítica do autor ao movimento, ou, pelo menos, é a justificativa que ele utiliza para a sua
desaprovação. Esse sentimento de repulsa pelo Quebra-Quilos é tão grande que Almeida, vez por
outra, escreve sobre a dificuldade de encontrar documentos oficiais dos séculos XVIII e XIX, por
conta da ação dos Quebra-Quilos, que destruíram esses papeis. Logo na apresentação do livro,
por exemplo, Almeida afirma que alguns capítulos “representam a ressurreição de velhos papéis
perdidos nos raros arquivos da cidade, os que escaparam da sanha destruidora dos insurgentes do
Quebra-Quilos” (ALMEIDA, 1993, p. 11).
A ideia de que esse foi um movimento feito por ignorantes está sempre permeando o texto.
No penúltimo capítulo, intitulado “Fagundes”, Almeida vai tratar da história desse município e
relata a época em que a cidade de Fagundes/PB sediou o movimento dos Quebra-Quilos. Após
explicar o que foi o Ronco da Abelha e fazer uma pequena nota sobre o Quebra-Quilos, Almeida
segue com a frase:

No louvável propósito de tirar a gente da serra de Bodopitá dêsse estado primário, dessa
incapacidade para apreensão das providencias governamentais em benefício do povo,
resolveu o presidente Henrique Beaurepaire Rohan levar à sua presença, não soldados
para atemorizá-la, mas professores para clarear o entendimento (ALMEIDA, 1993, p.
402).

Após a leitura desse trecho, fica ainda mais claro que Almeida entendia que os participantes
do Quebra-Quilos eram ignorantes. O autor reafirma ainda mais sua ideia com o argumento de
que os populares que participaram dessas sedições não conseguiam entender as benesses que o
95

governo estava tentando implantar na sociedade por conta do grau de escolaridade dessas
pessoas. Para Elpídio de Almeida, por não possuírem o estudo formal os populares estavam em
um estado “primário” e, por isso, faziam revoltas que não tinham necessidades de acontecer.
Para entendermos melhor essa posição, precisamos saber o que foi esse movimento. O
Quebra-Quilos foi uma sedição popular que aconteceu no ano de 1874 em diversas vilas e
cidades das províncias da Paraíba, Pernambuco, Alagoas e Rio Grande do Norte, por conta do
grande número de desemprego gerado pela crise que assolou a então região Norte do país (hoje
região Nordeste), devido à perda de espaço dos produtos da lavoura da região em concorrência
com o mercado internacional. Além disso, houve a imposição do governo para a utilização do
sistema métrico decimal com novos pesos e medidas e também a lei do recrutamento, que
obrigava os pobres a se alistarem no exército. Todas essas imposições geraram medo e o
descontentamento dos populares que se organizaram e começaram a se rebelar (SÁ, 2009).
A sedição começou em outubro de 1874 em Fagundes, na época distrito de Campina
Grande, e logo se espalhou para as cidades e províncias vizinhas, o que gerou grande apreensão
do governo e das elites locais, visto que esse movimento era composto por agricultores pobres,
artesãos, feirantes, escravos e desocupados que entraram em confronto com as forças policiais e
destruíram pesos e medidas do recém-implantado sistema métrico-decimal. Eles se recusavam a
pagar impostos, atacaram as câmaras municipais, as cadeias, os cartórios e as coletorias (LIMA,
2006).
O movimento dos Quebra-Quilos causou um grande susto no governo e nas elites locais,
por causa da rápida adesão tanto das camadas populares como também dos que estavam
insatisfeitos com a administração imperial. Alguns integrantes das camadas mais abastadas da
sociedade também se envolveram no movimento.
Manifestações e sedições populares sempre assustam as camadas dominantes, pois põem
em xeque o lugar social desses grupos. A escrita é um veículo de propagação de ideais, visões de
mundo, e por mais que Elpídio de Almeida pretendesse que sua escrita fosse imparcial ele não
conseguiu conter sua opinião sobre esse assunto. Apesar de escrever o livro entre o final da
década de 1950 e o início dos anos 60, em um contexto de abertura intelectual e de agitação
política, social e cultural, tanto no Brasil como no mundo, Elpídio de Almeida não consegue se
desvincular de seu lugar social e do conservadorismo.
96

Leandro Konder, em um artigo sobre os intelectuais na década de 1950, relata que essa foi
uma época de muitas mudanças na sociedade brasileira e os historiadores do país tinham posições
muito diversas sobre a história. Mesmo com a abertura do campo historiográfico, cada
interpretação se dava pela diversidade de experiências particulares de histórias vividas em
espaços geográficos específicos (KONDER, 2012, p. 358). Ou seja, cada historiador refletia
sobre os problemas históricos à luz da teoria histórica que mais se adequasse à sua vida e ao seu
lugar espacial e social.
Konder ainda chama a atenção para o fato de que, quando um historiador reage diante dos
movimentos sociais e políticos, ele adota sempre, implícita ou explicitamente, normas e
princípios que fundamentam a decisão a respeito do que deve ser alterado e o que deve ser
conservado. Nesse cenário, os pressupostos ideológicos que sustentam o trabalho dos
historiadores nem sempre são assumidos francamente, seja porque nem sempre são perceptíveis
aos olhos daqueles que escrevem, seja porque não convém serem abertamente proclamados
(2012, p. 358, 359).
Assim, entendemos que, da mesma forma que os Quebra-Quilos assustaram à sua época,
durante os anos em que Almeida estava escrevendo o livro, década de 1950 e início de 1960, o
“perigo” estava mais vivo do que nunca. As Ligas Camponesas44, também um movimento
popular, estava acontecendo no Nordeste e também assustava as elites da época. Essa forma
radical de Elpídio de Almeida ver os Quebra-Quilos pode mostrar uma espécie de desabafo do
autor acerca desse movimento popular, que ameaçava a ordem pública e, é claro, o lugar das
elites em sua época.
Entendemos então que a visão de Elpídio de Almeida acerca dos Quebra-Quilos reflete o
seu lugar social de elite intelectual, política e econômica. Os ideais aprendidos e compartilhados
nesse lugar social coadunavam com a visão tradicional da história, a qual o autor aprendeu via

44 As Ligas Camponesas foram organizações de camponeses e trabalhadores rurais em associações civis, sob direção
do Partido Comunista Brasileiro – PCB. Esse foi um movimento de luta pela reforma agrária e pela melhoria de vida
dos que viviam no campo. As ligas começaram a ser organizadas em 1945. No entanto, em 1948, como o fechamento
do PCB, as ligas se desorganizaram. Só em 1955, com a criação da Sociedade Agrícola de Plantadores e Pecuaristas
de Pernambuco, no Engenho da Galileia em Vitória do Santo Antão, em Pernambuco, que as Ligas Camponesas
ressurgiram. A partir do seu ressurgimento, as Ligas deixaram de ser organizações e passaram a ser um movimento
agrário, que contagiou um grande contingente milhares de trabalhadores rurais, que viviam como parceiros ou
arrendatários, e também urbanos, mobilizando muitos homens e mulheres pobres do campo e da cidade.Ademais,
obtiveram também ajuda do movimento estudantil e do partido comunista. O lema do movimento era “Reforma
Agrária na lei ou na marra”. Suas ideias reformistas, contudo, eram associadas ao temor socialista do qual os países
opositores tinham na época. Com a instalação do regime militar em 1964, então, as principais lideranças do PCB e
das Ligas foram assassinadas, fugiram ou foram presas e, assim, as Ligas Camponesas deixaram de existir.
97

Instituto Histórico e Geográfico Paraibano. A ideia de que a história era feita pelos grandes
homens culminou com essa opinião conservadora e preconceituosa de Almeida em relação ao
movimento dos Quebra-Quilos. Apesar de utilizar o argumento de que sua reprovação ao
movimento vinha da destruição dos documentos públicos, fica claro para nós que a reprovação do
autor tem raízes bem mais complexas.
Dessa forma, vemos que o conservadorismo utilizado por Almeida em sua escrita provém
de sua inclinação política, do seu lugar social e institucional. Assim, o fato de Almeida ser
membro da elite paraibana, católico, político, letrado, influência diretamente nas suas opiniões e
essas foram expressas principalmente na sua escrita, mostrando que ele possuía um projeto social
e político em seu livro.
Um exemplo disso é o fato de Almeida ser filiado a UDN, partido conservador que
predominou durante a ditadura civil-militar do país. As ligas Camponesas foi um dos motivos que
levaram a instauração do regime ditatorial no Brasil, assim vemos que Almeida coadunava com a
ideia de que o povo deveria se manter em “seu lugar” sem questionamentos, nem que para isso
fosse preciso cercear a força a liberdade dos cidadãos.
Logo, a desaprovação de Almeida não aconteceu apenas pelo fato de os Quebra-Quilos
terem destruído os documentos da cidade, mas também porque o movimento– que foi feito pelo
povo de forma ousada – lembrava demais os movimentos sociais que estavam acontecendo no
Brasil na época, que atingiam e ameaçavam diretamente o status quo das elites.
Para Elpídio de Almeida, o Quebra-Quilos foi um episódio da história de Campina Grande
que não fez jus à grandiosidade que o autor pretendia mostrar da cidade, uma vez que essa
grandiosidade, para o autor, só foi alcançada por conta da administração das elites locais. Então
em contrapartida à sedição dos Quebra-Quilos, Almeida escreve sobre a Revolução
Pernambucana (1817), a Confederação do Equador (1824) e a Revolta Praieira (1848), como
exemplos de movimentos sociais. Essas eram revoltas que “mereciam” estar na história de
Campina Grande. O mais interessante é que Almeida vai mostrar a grandiosidade da cidade em
movimentos sociais que não aconteceram em solo campinense.
A primeira explicação que encontramos para o autor tratar sobre essas revoltas é o fato de
utilizá-las como exemplo para mostrar aos seus leitores o que é uma sedição de “verdade”, que
perseguia ideais, era organizado, tinha líderes etc. Além do fato de essas terem sido encabeçadas
pelas elites de Pernambuco e Paraíba, mantendo seu projeto político e social de mostrar que a
98

história, assim como a vida, deve seguir um curso em que cada classe social se mantenha em seu
lugar, nesse caso, uma minoria comandando e se beneficiando política e economicamente
enquanto a maior parte da população devia ter o básico para sobreviver.
Outra justificativa vem da instituição de saber que Almeida fazia parte. Para o IHGP, o
povo paraibano possuía uma inclinação para a paz, para a bravura e para o republicanismo. No
caso da última característica dessa paraibanidade, o Instituto encontra na participação dos
paraibanos na Revolução de 1817 e nos movimentos de 1824 e 1848 e na proclamação da
República os marcos históricos que mostram como o povo paraibano aderiu cedo ao ideal
republicano (DIAS, 1996, p. 57).
Além disso, essa paraibanidade buscava separar a história da Paraíba da de Pernambuco e
mostrar a autonomia do estado, ressaltando a importância da Paraíba para a história do Brasil
(DIAS, 1996). Na tentativa de mostrar que Campina Grande também teve grande relevância na
história do estado, Almeida insere esses movimentos na história de Campina.
No capítulo dedicado à Revolução Pernambucana de 1817, Almeida conta a história da
sedição e destaca a participação de padres. Toda a história contada por Elpídio de Almeida tem os
padres como protagonistas. Para o autor, o fato de os sacerdotes terem participado de um
movimento em prol do ideal republicano merece destaque.

Não é de se admirar essa predominância de padres numa insurreição política de tamanha


responsabilidade, se reportarmos à época. Constituíam êles a elite intelectual do país, a
classe verdadeiramente cultivada da sociedade, o elemento capaz de orientar e levantar a
opinião pública (ALMEIDA, 1993, p. 69).

Para Almeida, a Revolução Pernambucana teve êxito por conta da liderança dos padres,
uma vez que o seminário de Olinda foi a primeira instituição de Ensino Superior de Pernambuco
e região. Além disso, o seminário foi um dos centros propagadores das ideias burguesas. Então,
não por acaso, os padres encabeçariam uma revolução que reivindicava ideais tão caros à Elpídio
de Almeida e ao IHGP como o republicanismo.
Também não era de se admirar o fato de os padres entrarem para esse levante, já que eles
eram a elite intelectual da época. Como afirma Almeida, essa era “a classe verdadeiramente
cultivada da sociedade”. Desse modo, para o autor, esse movimento revolucionário não era feito
por “ignorantes” que não sabiam pelo que lutar. Foi a elite intelectual pernambucana que se uniu
aos revolucionários em prol da causa republicana.
99

A Revolução de 1817 seria um componente perfeito para demonstrar a grandiosidade de


Campina Grande. No entanto, Campina Grande não teve participação direta nesse levante, como
aponta o próprio Elpídio de Almeida.

Campina Grande não ficou indiferente à revolução republicana. Se não se levantou em


armas, se não engrossou as fileiras do exército, aceitou cedo as ideias revolucionárias,
através das figuras mais representativas do lugar, as quais passaram a defendê-las
publicamente, torcendo por sua vitória. Não ofereceu mártires à sanha sanguinária dos
tribunais militares, mas assistiu compungida aos sofrimentos de seus dirigentes
espirituais levados para as prisões da Bahia (ALMEIDA, 1993, p. 71-72).

Apesar de Almeida reconhecer que a cidade não teve participação na Revolução de 1817, o
autor insiste em colocá-la em “História de Campina Grande” com o argumento de que as pessoas
de Campina Grande aderiram à causa da revolução, o que mostrava o espírito dos campinenses de
reconhecer uma “causa justa” e aderir à ela, provando assim a grandiosidade da cidade e de seu
povo. Para nós, colocar essa revolta em seu livro é mais um sinal de que Almeida considera
exemplares essas insurreições, em oposição ao Quebra-Quilos, que era um movimento social que
não era merecedor de compor a história de Campina, pelo menos não em sua ótica de cidade
grandiosa.
Ainda dentro do rol de movimentos sociais que para Elpídio de Almeida eram exemplos, o
autor cita a Confederação do Equador (1824) e a Revolta Praieira (1848). Para relatar esses dois
acontecimentos históricos, Almeida busca demonstrar como esses eventos foram importantes
para a história do Brasil e tenta inserir Campina Grande nessas histórias, nem que seja
forçadamente.
Ao tratar da Confederação do Equador, Almeida se preocupa em mostrar a importância da
cidade para esse movimento. Mais uma vez, Campina Grande não teve uma participação ativa. A
única ação foi servir como pouso para alguns revolucionários, como Frei Caneca, que estavam
sendo escoltados pelas tropas do imperador. O autor conta a história dessa sedição e na parte em
que relata a prisão dos revoltosos e ida deles para o Recife, dá destaque à passagem de Frei
Caneca por Campina.
Para fazer esse destaque, Almeida utiliza do próprio depoimento feito por Frei Caneca
durante sua vida de revolucionário e publicado no livro de sua autoria, “Obras Políticas e
Literárias”. Almeida recorre a esse documento para relatar “a verdadeira história da passagem de
100

Frei Caneca pela então vila de Campina Grande, contada por ele mesmo” (ALMEIDA, 1993, p.
89).
O último dos movimentos sociais de grande relevância para a história tradicional e que
Almeida fez menção em seu livro é a Revolta Praieira de 1848. Almeida já inicia o capítulo
afirmando que essa “era uma insurreição de elevados propósitos, mas essencialmente
pernambucana” (ALMEIDA, 1993, p. 97). Contudo, Campina Grande também não teve
participação nesse movimento, como o próprio Almeida destaca: “não tomou parte Campina
Grande na insurreição praieira, mas foi em seu território que os liberais, reconhecendo a
inutilidade da prossecução da luta, resolveram separar-se” (ALMEIDA, 1993, p. 104).
Vemos então que, a partir da sua preocupação em mostrar a grandiosidade de Campina
Grande, Almeida faz um esforço para colocar a cidade em movimentos sociais em que ela não
participou efetivamente. A escolha das revoltas pernambucanas não ocorreu de forma aleatória,
Almeida privilegia os movimentos sociais de 1817, 1824 e 1847 por serem movimentos
encabeçados pelas elites do Estado de Pernambuco. Esse favoritismo se dá por conta do lugar
social de Almeida, ou seja, o autor privilegia essas sedições por elas terem sido lideradas pela
classe dominante dos estados que delas participaram, classe social em que ele está inserido.
Além disso, a ojeriza que o autor tem do Quebra-Quilos reflete o desconforto dessas elites
(que Almeida tanto defende em seu livro) em relação as lutas populares que estavam ocorrendo
entre as décadas de 1950 e 1960, como as Ligas Camponesas por exemplo, que estavam pondo
em xeque a forma de governo e as relações sociais estabelecidas.
Dessa forma, entendemos que a interpretação de Elpídio de Almeida do Quebra-Quilos é de
fundamental importância para entender a visão política do autor, a sua opinião sobre essa sedição
é uma espécie de desabafo de como ele via os movimentos sociais que estavam acontecendo em
seu tempo e de certa forma justifica a necessidade de uma intervenção mais firme por parte do
estado para controlar as massas. Esse controle durante a década de 1960 foi estabelecido através
do golpe civil-militar de 1964, logo entendemos que a escrita de Almeida era política na medida
em que defende uma sociedade em que as elites se mantêm no poder a todo custo.
Dessa forma, entendemos que a conjuntura dos lugares sócio-político e intelectual de
Almeida, que era membro da elite intelectual e econômica de Campina Grande, influenciou
diretamente na escolha de suas fontes, de seus métodos de pesquisa e nos seus posicionamentos.
101

Por isso, concordamos com Certeau, quando ele diz que a escrita da história é o produto de uma
prática que se articula com um lugar social e uma instituição de saber.

3.2.3 Os espaços da cidade

Para mostrar a grandiosidade de Campina Grande, Elpídio de Almeida explorou ainda


alguns espaços da cidade. O primeiro escolhido foi o Açude Velho, hoje principal ponto turístico
e símbolo da cidade. Para Almeida, o Açude Velho sempre teve um papel fundamental para a
história de Campina Grande. Ele afirma: “Durante muitos anos, pelo restante do século,
constituiu o Açude Velho o maior reservatório público do planalto da Borborema. Foi o elemento
que assegurou a sobrevivência da vila e depois, durante decênios a da cidade” (ALMEIDA, 1993,
p. 106).
De fato, o Açude Velho foi um espaço muito importante para o desenvolvimento da cidade,
de 1825 até o início do século XX. Como bem colocou Almeida, era o principal reservatório de
água da região. No entanto, Almeida procura mostrar o quanto Campina Grande estava destinada
à sua grandiosidade, pois, por conta de sua localização geográfica e do Açude Velho, o autor
dizia que a cidade se destacava das demais.

Campina Grande não era simplesmente um pouso, um lugar de descanso para os


animais e tropeiros. Mas a estalagem, a parada obrigatória, o ponto terminal da
longa caminhada. Aqui operavam-se as permutas, as trocas comerciais.Vendiam-
se produtos do sertão, principalmente algodão, couro e queijos, e compravam-se
mercadorias para o abastecimento da zona da sêca, em maior quantidade gêneros
alimentícios, de preferência rapaduras e farinha de mandioca (ALMEIDA, 1993,
p. 107).

Então, para Almeida, Campina Grande não era apenas um local de passagem entre o sertão
e o litoral. A cidade se destacou das demais por oferecer outros atributos aos que passavam por
ela. Para o autor, o comércio era o ponto chave da cidade, sendo até hoje muito importante para
sua economia45. Almeida ressalta os principais produtos vendidos em Campina Grande. Entre
eles estão a farinha de mandioca e o algodão, que foram produtos com grandes vendas. Foi por

45
Campina até hoje é conhecida por ser uma cidade comercial e os tropeiros se tornaram o símbolo do
desenvolvimento da cidade. Tanto é que um dos presentes que a administração da Campina Grande deu a cidade em
seu centenário foi o Monumento aos Pioneiros que são três estátuas em homenagem aos índios Cariris, aos catadores
de algodão e aos Tropeiros (símbolos do início da povoação e do desenvolvimento da cidade), localizando-se as
margens do Açude Velho.
102

causa da comercialização de algodão durante o início do século XX que Campina Grande passou
pelo seu período áureo no setor econômico 46.

Tornou-se a praça dos escambos na província. Mas para que mantivesse a regalia, cabia-
lhe oferecer condições aos tropeiros, dar o de que êles mais careciam: água para os
animais, permanentemente em qualquer estação do ano, em qualquer situação climática,
mesmo durante as sêcas prolongadas. Sem isso o itinerário poderia ser desviado para a
formação de outro centro de mercancia (ALMEIDA, 1993, p. 107).

Para Elpídio de Almeida, Campina Grande conseguiu desenvolver seu comércio


principalmente pelo fato de possuir os atributos certos para uma cidade. Dessa maneira, o Açude
Velho foi um ponto crucial para a cidade conseguir desenvolver-se. Muitos forasteiros, como os
tropeiros, vieram para a cidade atraídos pelo comércio, mas o que o sustentou foi o fato da cidade
ter um reservatório de água mesmo em períodos de seca. Ou seja, sem o Açude Velho a cidade
não conseguiria se tornar a principal praça de comércio da região.
“O Açude Velho não faltava a essa exigência. Resistiu às estiagens mais inclementes.
Suportou sobranceiro às sêcas de 1845 e 1877, retendo água o suficiente para acudir às urgências
da calamidade. Foi a salvação de todos. Evitou o êxodo total” (ALMEIDA, 1993, p. 107). O
Açude Velho era, portanto, a grande estrela de Campina Grande. Era nesse espaço que os
habitantes e visitantes de Campina Grande conseguiam água para beber e realizar as atividades
do dia a dia. Lá também era um espaço de socialização aonde as pessoas iam se divertir. Foi
justamente por causa do açude que Campina Grande começou sua fama. Para Almeida, se a
cidade conseguia se destacar das demais, certamente o açude seria uma das causas.
Outro espaço campinense que Elpídio de Almeida destaca é o Paço Municipal, prédio que
existia do lado da catedral, sediando o Fórum e a Câmara Municipal de Campina Grande, mas
que foi destruído em 1942, fato de grande lástima para Almeida.

No começo do século era ainda um dos melhores prédios públicos da cidade [...].
Merecia ser conservado, restaurado em sua feição primitiva, transformado em museu do
município, como foi o Paço Municipal de Ouro Preto em Museu da Inconfidência. [...]
Ao invés dessa destinação gloriosa, afirmativa da evolução de seu povo, testemunho de
sua elevação espiritual, foi o monumento destruído até a última pedra, em 1942, sem que
nada se construísse no lugar em justificativa à destruição. (ALMEIDA, 1993, p. 174).

46
Mais sobre o assunto conferir: ARANHA, G. B. Campina Grande no espaço econômico regional: estrada de ferro,
tropeiros e empório algodoeiro.
103

Para Elpídio de Almeida, o Paço Municipal foi “o recinto onde se decidiram os feitos de
maior importância para a vida política e administrativa do município” (ALMEIDA, 1993, p. 173)
e não poderia ter desaparecido da forma que aconteceu. Almeida lamenta tanto a destruição do
prédio que coloca uma foto dele na sua obra. Isso porque, segundo o autor, o prédio, por toda
carga histórica que possuía, merecia ser preservado e transformado em museu. O que mais nos
chama a atenção no trecho acima é que, de forma educada, o autor afirma que as pessoas que
permitiram a demolição desse prédio histórico não foram muito inteligentes em sua escolha.
Para mostrar o quanto ter um Paço Municipal em Campina foi importante para a cidade,
Almeida escreve que o projeto para a criação do prédio teve como objetivo dar emprego a alguns
dos inúmeros flagelados que estavam em Campina Grande por conta da seca de 1877, além de
diminuir os gastos com aluguel para instalação dos serviços públicos, logo era “uma obra
durável, útil, necessária” (ALMEIDA, 1993, p. 165).
Mas a principal importância, para Almeida, do Paço Municipal é, sem dúvidas, esse prédio
ter sido sede de vários acontecimentos históricos da cidade, que, para o autor, era de fundamental
importância: “entre suas paredes se desenrolaram os sucessos marcantes da história campinense,
[...]. Lá ecoaram gritos de vitória, lamentações de derrotas, discussões flamejantes do legislativo,
debates excitantes do judiciário” (ALMEIDA, 1993, p. 173).
O Paço Municipal é importante para Almeida por ele ter sido sede do poder legislativo e
judiciário da cidade, transformando-se no espaço onde estavam os homens que julgava serem os
mais importantes do município. Disse o autor: “o Paço Municipal serviu também de hospedaria
para visitantes ilustres, no tempo em que a cidade era totalmente destituída de hotéis”
(ALMEIDA, 1993, p. 174). Não é para menos que Almeida lamente tanto a destruição do prédio
público, tamanha é a importância histórica do espaço para o autor.
Mais um espaço destacado por Elpídio de Almeida foi a feira de Campina Grande. No
capítulo “Feiras”, ele foca sua escrita nas relações políticas que envolviam a localização da feira,
durante o século XIX, mostrando o quanto as questões políticas influenciavam a vida dos
campinenses.
Sempre que havia mudança nos partidos, a feira também mudava de lugar. Segundo Eliete
Gurjão, as querelas entre as duas facções políticas eram tão acirradas e frequentes que já faziam
parte do cotidiano da cidade. Muitas vezes essas lutas partidárias culminavam com episódios de
violência. Nos últimos anos da monarquia brasileira, existiam em Campina dois partidos, os
104

conservadores e os liberais. O partido conservador congregava os comerciantes, geralmente


vindos de fora, e o partido liberal reunia ricos proprietários de terras das antigas famílias de
Campina Grande (GURJÃO, 2000, p. 27).
Essas brigas entre os partidos eram tão acirradas que dividiam até as ruas da cidade.
Segundo Gurjão (2000, p. 32), “a rua de baixo, atual Afonso Campos, era habitada apenas pelos
liberais, sua parentela e seus amigos; enquanto a Rua do Seridó, atual Maciel Pinheiro moravam
os conservadores e seus correligionários”.
Almeida foi um dos primeiros historiadores a escrever sobre essas disputas. Em relação à
feira, o autor assevera: “Se o funcionamento era na Praça Municipal, em frente ao comércio velho
de Baltazar Luna, não tinha que duvidar, dominava o Partido Liberal; se era na Rua do Seridó
defronte ao mercado novo de Alexandrino Cavalcante, subira o Partido Conservador”
(ALMEIDA, 1993, p. 269-270).
Mesmo com o advento da República, quase nada mudou na política campinense. Assim
como ocorreu no restante das cidades da Paraíba e do Brasil, a tradicional elite política, tanto do
Partido Conservador como do Partido Liberal, continuou exercendo importantes cargos no
governo (GURJÃO, 2000, p. 34), mostrando que o poder ainda continuava nas mãos desses
homens e suas famílias. Claro que Almeida não entra nessas questões, visto que a sua escrita não
é de crítica às elites e sim de glorificação delas.
Não é só no capítulo “Feiras” que Elpídio de Almeida mostra essas querelas políticas.
Outro capítulo que tem relação direta com o supracitado é o “Rasga-vales”. Nessa parte do livro,
o autor vai descrever esse episódio da história campinense como mais uma marca das disputas
pelo poder local.

Era comum naquele ano de 1895, em Campina Grande e em outros locais a


irregularidade da emissão de vales, papel impresso com a assinatura do comerciante
responsável, cujo fim estava na facilitação das transações comerciais, dada a escassez de
moedas de pequeno valor em circulação. Constituía uma infração a dispositivos legais,
mas era frequentemente usado, de preferência nos dias de feira, para desembaraço do
trôco (ALMEIDA, 1993, p. 254).

Como Almeida descreve, era normal, há muito tempo, o uso de vales no lugar de troco no
comércio da cidade, uma prática proibida por lei desde a Constituição de 1891. No entanto, os
comerciantes, não só de Campina Grande, mas de todo o Brasil, insistiam em utilizar os vales.
Para buscar diminuir essa prática, o Ministro da Justiça, em 1895, encaminhou advertências a
105

todos os estados, a fim de coibir os vales (GURJÃO, 2000, p. 44). Em Campina Grande, o grupo
que estava no poder era o dos liberais, inimigos políticos dos conservadores, que eram os
comerciantes. A situação utilizou da força para cumprir determinação do Ministério da Justiça,
prejudicando diretamente os comerciantes. Almeida descreve o episódio da seguinte forma:

Em uma tarde de agôsto (1895), dia de feira, combinaram o promotor público (José
Honorato da Costa Agra), o prefeito municipal (Francisco Camilo de Araújo) e o
delegado de polícia (José Martins da Cunha) acabar com a contravenção, não por meios
legais, mas abruptamente, violentamente, estreptosamente. Acompanhados de soldados,
saíram rua afora, pela feira, a apreender e a rasgar os vales dos adversários, de
preferência os emitidos por Cristiano Lauritzen, Lindolfo Montenegro, Alfredo Espínola
e Joaquim Henrique de Araújo.
Como os vales eram tomados aos feirantes e valiam dinheiro, sôbreêstes recaíam os
prejuízos. Rasgando o papel não mais podiam receber a importância equivalente. Nem
do emitente nem de ninguém. Houve por isso protesto, reação, conflito. No fim do
barulho, estava estendido no chão, morto, um soldado de polícia (ALMEIDA, 1993, p.
256-257).

Elpídio de Almeida relata então como foi violento o episódio. José Honorato da Costa Agra
era um dos principais líderes do partido liberal, enquanto Cristiano Lauritzen encabeçava o
partido conservador. O autor ressalta que os vales emitidos por Lauritzen foram um dos que mais
foram rasgados. Além disso, Cristiano Lauritzen e os comerciantes presentes na confusão foram
acusados de ter mandado matar o policial, fato que acarretou a prisão dos comerciantes e uma
intensa luta nos tribunais, mostrando claramente uma disputa política.
O Rasga-Vales foi um exemplo de como as querelas políticas eram levadas as últimas
consequências. Esse incidente ocorreu justamente na feira da cidade, mostrando que esse espaço
foi palco de muitos acontecimentos, o que, para Elpídio de Almeida, mostra o lugar dos grandes
homens da cidade, dos que eram protagonistas da história e, por isso, mesmo com exemplos
pouco gloriosos, como era o caso das brigas, mereciam estar na sua história da cidade.
O Relógio da Matriz é mais um espaço que Elpídio de Almeida destaca. Acreditamos que o
autor trata desse aparelho por ele ser um símbolo da modernidade que chega a Campina Grande.
Almeida diz que, em 1891, Cristino Lauritzen e os outros intendentes de Campina Grande
decidiram investir o dinheiro que havia nos cofres da prefeitura na “compra, na Europa, de um
relógio moderno, com mostradores, provido de carrilhão, o qual deveria ser colocado na torre
esquerda da igreja, por ficar voltada para a cidade e achar-se em construção mais adiantada”
(ALMEIDA, 1993, p. 280).
106

Para o autor, o Relógio da Matriz serviu para abrilhantar ainda mais a matriz de Campina
Grande que, na época, estava sendo reformada. Ela foi inaugurada e aberta ao culto público em 8
de dezembro de 1891, tornando-se naquele tempo o mais bem acabado templo do interior do
estado (ALMEIDA, 1993, p. 281). Entretanto, o relógio só foi inaugurado em agosto de 1896.
Campina Grande, além de ter uma igreja que se destacava das demais da região, ainda possuía
um relógio moderno, vindo da Europa.
Elpídio de Almeida, para mostrar a importância de se ter um relógio no topo da torre da
igreja matriz, diz que ele foi, “durante décadas, o orientador único da população, anunciando com
regularidade, dia e noite, as horas alegres e tristes, aguardadas umas com ansiedade, recebidas
outras com desolação. Por êle eram regulados os relógios particulares, de bôlso e de parede, e por
êle se guiavam os que não tinham relógio” (ALMEIDA, 1993, p. 286). Mostrava, assim, que o
investimento que os intendentes fizeram na compra do relógio foi bem aplicado.
Mas o autor finaliza o capítulo sobre o Relógio da Matriz lamentando, mais uma vez, o fato
de a administração da cidade não cuidar bem do seu patrimônio, já que o relógio parou e ninguém
tomou providencias para consertá-lo. Completa dizendo que, em Santos/SP, o relógio da igreja de
Nossa Senhora do Rosário parou, mas foi recuperado e voltou a funcionar. Almeida termina
defendendo que “Campina Grande, em preparativos para a comemoração de seu centenário como
cidade, deve imitar o exemplo” (ALMEIDA, 1993, p. 287). Vemos então que a preocupação de
Almeida é que a data da comemoração do centenário chegue e a cidade não tenha mais a
memória desses monumentos que testemunharam sua história.
Outro espaço relembrado, mas que inexiste atualmente, é o cemitério velho, construído em
1857 no centro da cidade. Conforme Almeida, o cemitério nasceu como parte de um plano de
higienização da cidade, e também por conta de uma lei que obrigava que os sepultamentos
fossem feitos em cemitérios e não mais em igrejas. Dessa forma, o cemitério tinha que atender
toda a população. Almeida afirma:

Construído para atender a uma população de dois mil habitantes, a da vila na época, que
se pensava não aumentar, era de tamanho reduzido, com cêrca de trinta metros de frente
por outros tantos de fundo. Não foi de se admirar, pois, achar-se completamente cheio
em 1899, sem lugar de abertura de uma cova (ALMEIDA, 1993, p. 292).

O cemitério não teve capacidade suficiente para receber todos os mortos de Campina
Grande. Então um outro foi construído, ficando abandonado o antigo.Com o passar do tempo, o
107

cemitério velho ficou em ruínas. Mais uma vez, Elpídio de Almeida volta a insistir no descaso
com os antigos prédios públicos, os quais eram os guardiões da memória da cidade. No caso do
cemitério, não é apenas a memória das elites locais, como o autor costumava relembrar, mas,
como ele mesmo coloca: “na velha necrópole jaziam os ossos de milhares de campinenses, de
ricos e pobres, de velhos e crianças, de senhores e escravos” (ALMEIDA, 1993, p. 296).
Almeida ainda afirma que parte da população de Campina tentou salvar o cemitério da
destruição. A partir de uma campanha feita pela Igreja Católica, foram angariados fundos para a
manutenção do espaço. “Cumpriu o grupo de devotados campinenses a obra cristã que em boa
hora foi empreendida. Mereceu aplausos da consciência pública” (ALMEIDA, 1993, p. 299). No
entanto, mesmo após o esforço na década de 1930 o cemitério foi demolido. Os ossos que lá
estavam foram transferidos para outro cemitério e jogados em uma vala comum. Segundo
Almeida, não deixaram vestígio do antigo cemitério.
O autor termina o capítulo sobre o cemitério com uma comparação no mínimo curiosa.
Almeida diz: “Enquanto na Palestina, a tumba de Raquel, preferida de Jacó, pode ainda ser vista,
em Campina Grande não há vestígio dos túmulos que guardavam os restos mortais dos
fundadores da cidade” (ALMEIDA, 1993, p. 300). Almeida, com essas palavras, parece querer
comparar a visibilidade de um túmulo de um personagem bíblico com um cemitério de uma
pequena cidade do interior paraibano. Comparação um pouco ousada, mas que mostra que
Elpídio acreditava, ou pelo menos queria acreditar, na grandiosidade e na importância da cidade
da qual ele está escrevendo a história.
Almeida não poderia deixar de falar da estrada de ferro, grande símbolo do progresso que
chegou a Campina Grande em 1917. No entanto, praticamente todo o capítulo que ele destinou à
chegada do trem é dedicado a exaltar as figuras de Irineu Joffily e, principalmente, Cristiano
Lauritzen, que foi o homem que mais se esforçou para conseguir o prolongamento da via férrea
de Itabaiana/PB até Campina Grande. De acordo com Almeida, no dia em que foi inaugurada a
estação ferroviária na cidade, Lauritzen “sentiu naquele instante que o progresso de Campina
Grande estava assegurado, que a cidade, que adotara como sua, iria crescer rapidamente,
tornando-se a mais importante do interior do Nordeste” (ALMEIDA, 1993, p. 348-349).
Com certeza, Cristiano Lauritzen sabia que a cidade ia crescer com a chegada do trem.
Caso contrário, ele não se esforçaria tanto para trazer a estrada de ferro. Ele, como comerciante,
ganharia muito com os benefícios de empreendimento como esse. Porém, é um equívoco dizer
108

que Lauritzen presumiu que Campina Grande seria a maior cidade do Nordeste. Na verdade,
acreditamos que Almeida coloca essa frase para mostrar o quanto o trem ajudou Campina Grande
a se desenvolver e por isso ela se tornou uma cidade reconhecida no interior da região.
Foi com a chegada do trem que o desenvolvimento iria chegar à Campina Grande, pois,
como escreveu Irineu Joffily, em 1889, em seu jornal “A Gazeta do Sertão”, a grandiosidade de
Campina, até então, era apenas uma aspiração. Para isso, fazia-se necessário que a administração
da cidade usasse de todos os meios para que essa aspiração se tornasse realidade. Assim, uma das
primeiras medidas tomadas para desenvolver o município foi a chegada do trem. Conforme
escreve Almeida, “logo que se tornou extremidade da linha férrea, entrou a cidade em
crescimento rápido, excedendo as previsões mais otimistas. De 731 casas em 1907, passara a
1216 em 1913” (ALMEIDA, 1993, p. 348-349). Mesmo em desenvolvimento, Campina ainda
estava longe de ser uma cidade grande, como queria mostrar Elpídio de Almeida.
O Açude de Bodocongó é o último espaço destacado por Almeida. Esse açude foi
construído para suprir o abastecimento de água de Campina Grande após a chegada do trem, que
trouxe com ele uma quantidade de pessoas bem maior do que a cidade estava acostumada a
acomodar. Almeida vai contar então a história da construção do açude. Ao final, ele admite que,
mesmo com o gasto de uma grande quantidade de dinheiro público, o açude não serviu para
abastecer a cidade, pois a água era muito salubre.
Contudo, o autor ressalta que apesar disso “o trabalho não se perdeu. Se não prestou
serviços imediatos, tornou-se mais tarde o fator decisivo da formação de um novo bairro, o bairro
industrial, que tanto está concorrendo para o enriquecimento e a propagação do nome de
Campina Grande” (ALMEIDA, 1993, p. 348-349).
Mesmo que a criação do Açude de Bodocongó tenha sido um grande fiasco, Almeida ainda
procura argumentos para mostrar a sua importância. O autor deve ter escrito sobre esse espaço
por ele ser uma grande obra pública. Desse modo, como ele se propôs a escrever toda a história
da cidade, não podia abrir mão de mencioná-lo. E mesmo sendo uma construção que não teve
serventia, Almeida ainda afirma que ela ajudou no desenvolvimento da cidade. Para nós, isso
deixa claro que o autor quer demonstrar que Campina estava destinada à grandiosidade de todo
modo.
Vemos assim que com esses espaços Elpídio de Almeida quer fazer um resgate da história
material de Campina Grande, rememorando esses lugares, os quais muitos não existem mais,
109

como é o caso do Paço Municipal, do cemitério velho ou do relógio da matriz, que há muito
deixou de funcionar. Sem falar na tentativa de mostrar a seus leitores a importância do Açude
Velho, do Açude de Bodocongó e da estrada de ferro. Isso nos mostra que Elpídio de Almeida,
junto com outros intelectuais campinenses como Cristino Pimentel, está querendo construir uma
memória patrimonialista no povo campinense.
Não é por acaso que o autor aponta, por diversas vezes, o descaso com o patrimônio
público da cidade, dando exemplos de outras cidades que cuidam de seu patrimônio. O
interessante é notar que Elpídio sempre compara Campina Grande a cidades grandes e bastante
conhecidas, como São Paulo, Ouro Preto e a região da Palestina, mostrando que Campina se
equipara a importância desses locais.
Dessa forma, nos parece que Elpídio de Almeida quer mostrar que Campina tem uma
importância histórica muito grande, que a cidade, desde sempre, já dava sinais de que estava
destinada a ser grandiosa, construindo assim um “destino manifesto”. Ler o seu texto dá a
impressão de que a cidade foi designada por uma força superior a ser magnificente.
Consideramos, entretanto, que essa descrição não podia ser diferente, já que Almeida fazia parte
de um projeto de exaltação do município, que estava sendo executado na década de 1960,
próximo às comemorações do centenário da cidade.
Entendemos então que o livro reflete o lugar social de Almeida, membro da elite
econômica, política e intelectual da cidade. Que defende em sua obra a manutenção do status
quo, uma vez que o contexto do livro é de crise (econômica e política) e de um país que está às
vésperas de uma ditadura militar, que por sinal foi amplamente apoiada pelos setores da elite.
“História de Campina Grande” é uma escrita engajada politicamente. Uma vez que defende
a ideia da grandiosidade de Campina Grande, que estava sendo cada vez mais difundida, uma vez
que a cidade passava entre as décadas de 1950 e 1960 por uma crise econômica e por inúmeras
mudanças política e social. Almeida também defende em seu livro o ideal de uma sociedade
branca e elitista, onde o lugar das classes dominantes é no poder e o povo é visto como mero
coadjuvante e que deve seguir suas vidas sem questionar as relações sociais que estão
estabelecidas.
110

CONCLUSÃO
A UTOPIA DE UMA CIDADE: “CAMPINA GRANDE 150 ANOS À FRENTE”?

A história se repete/ Mas a força deixa a história mal


contada (Humberto Gessinger).

A história, apesar de se remontar ao passado, possui uma intrínseca relação com o presente,
pois o historiador sempre fala de seu lugar. Nem nós nem Elpídio de Almeida poderíamos
escapar dessa máxima. Segundo Certeau, em história “não se pode compreender o que dizem
independentemente da prática que a resultam” (2012, p. 4), logo não há como entender um texto
de história sem levar em consideração o lugar social, a instituição de saber e a operação da qual o
texto resulta.
Almeida escreveu “História de Campina Grande” há cinquenta e dois anos, em alusão ao
aniversário de cem anos de emancipação política de Campina Grande. Em seu livro, o autor
construiu uma cidade idealizada. A partir da história que foi escrita, podia-se mostrar que ela era
grandiosa e sempre esteve fadada ao sucesso. Esse discurso foi (re)construído, entre outros
fatores, pela necessidade de se ressaltar a cidade em seu aniversário. Esse é um discurso que já
estava sendo construído antes de “História de Campina Grande” e da festa do centenário da
cidade, em 1964 como, por exemplo, através de intelectuais como Epaminondas Câmara e
Cristino Pimentel, e que continuou se perpetuando na sociedade e atinge os dias de hoje.
Passado esse meio século, as elites da cidade resolveram se organizar e (re)construir esse
discurso de grandiosidade, agora para as comemorações de cento e cinquenta anos da cidade,
comemorado em 11 de outubro de 2014. Novamente, a administração municipal e algumas
empresas e entidades estão organizando algumas homenagens. Dentre elas, estão um monumento
e uma série de artigos sobre a história da cidade que estão circulando em um periódico local.
Às margens do Açude Velho, nas imediações do Parque do Povo47, está sendo construído
um centro de informações aos turistas, o qual também constitui um monumento em homenagem
ao sesquicentenário e aos Tropeiros da Borborema, que se tornaram símbolo do desenvolvimento
de Campina Grande. A seguir, a imagem do projeto, que teve as obras iniciadas em maio deste
ano e será inaugurado no dia 11 de outubro de 2014.

47
Outro ponto turístico da cidade e que também representa mais um traço do discurso de grandiosidade de Campina
Grande: a sua festa de São João, que é conhecido como o maior São João do Mundo.
111

Imagem 1: Projeto do monumento em homenagem aos 150 anos de Campina Grande.

No monumento vê-se uma fila de tropeiros postos do lado direito como se estivessem
descendo uma serra, provavelmente em alusão à Serra da Borborema e às inúmeras vezes em que
os tropeiros passaram por ela e pousavam ao lado do Açude Velho para se refrescar. Outro ponto
que se destaca é a arquitetura da obra. Ela possui linhas retas e arrojadas, características da
arquitetura contemporânea. Em uma obra cuja finalidade é homenagear a cidade o traçado deve
ser o mais novo e inovador possível para que corresponda ao caráter visionário que é atribuído à
cidade.

Imagem 2:Banner alusivo às comemorações de 150 anos de Campina Grande.

“Campina Grande, 150 anos à frente”. Esse é o slogan do sesquicentenário da cidade.


Campina parece agora não precisar mais comprovar sua grandiosidade. Para as elites locais, a
cidade já é, há muito tempo, a “Rainha da Borborema”, a mais pujante cidade do interior
nordestino. Por meio deste slogan se passa a ideia de que Campina sempre esteve na vanguarda
das cidades da região. Esse argumento se assemelha ao criado por Elpídio de Almeida em seu
112

livro, quando o autor mostrava que Campina Grande sempre teve o potencial para a
grandiosidade. Agora, nesse slogan, não existe mais o potencial, o que existe é um fato: a cidade
sempre esteve à frente.
Outra homenagem é um caderno especial que está circulando no “Jornal da Paraíba”,
ressaltando alguns aspectos da história da cidade (muito próximo do que aconteceu nas
comemorações do centenário e que Elpídio de Almeida teve grande participação). Essa ação é
uma parceria entre o jornal e o Instituto Histórico de Campina Grande 48.
Os artigos desse periódico estão sendo escritos em sua maioria por professores
universitários, por membros IHCG49 ou por pessoas que têm alguma relação com o Instituto.
Dessa forma, essas matérias estão ligadas à historiografia atual, portanto, mais crítica. Esse é
aspecto importante a se considerar, uma vez que a maior parte das matérias sobre história que
geralmente circulam nos periódicos ainda estão ligados à historiografia tradicional, o que gera
uma reprodução de discursos memorialísticos e ufanistas.
No entanto, mesmo sendo matérias que remetem a preceitos da historiografia utilizada em
nossos dias, essas histórias não deixam de ser ufanistas, visto que remetem-se aos mesmos
personagens e fatos que Elpídio de Almeida tratou em “História de Campina Grande”. Isso nos
mostra como o peso da historiografia tradicional está forte até os nossos dias.

Imagem 3:Capa do segundo fascículo da edição especial “Campina Grande, 150 anos à frente” do “Jornal da Paraíba”.

48
O mesmo que tem como patrono Elpídio de Almeida e que foi criado, entre outros membros, pelo seu filho
Humberto de Almeida.
49
Boa parte dos membros do IHCG são professores da Universidade Federal de Campina Grande e da Universidade
Estadual da Paraíba, bem como ex-alunos dessas instituições.
113

Um exemplo desse ufanismo pode ser visto no segundo fascículo da edição especial
“Campina Grande, 150 anos à frente”. No centro da capa, há um desenho bastante idealizado de
Teodósio de Oliveira Ledo;em um segundo plano, está a Rainha D. Maria I50; e, no último plano,
a imagem do índio, nu e exótico. A disposição das imagens mostra a importância dada a cada
indivíduo ali tratado. Porque o índio não está no primeiro plano, já que Campina Grande nasceu
de uma aldeia indígena?
Os assuntos dessa edição são os mesmos que foram escolhidos por Almeida para entrar
para a sua história por representarem a grandiosidade da cidade. As matérias que vieram nesse
fascículo relatam o surgimento de Campina Grande, Teodósio de Oliveira Ledo e os conflitos
com São João do Cariri para a elevação à categoria de vila.
Todavia, não podemos deixar mais uma vez de destacar que a abordagem desses artigos é
completamente diferente. Os autores mostram, por exemplo, que já existiam índios nas terras que
hoje são de Campina Grande, que o surgimento de Campina se deu por meio de acordos e
conflitos. Afirmam também que existem controvérsias na data da fundação da cidade.
Questionam a imagem de Teodósio de Oliveira Ledo como herói, ressaltando que ele usava da
força para conquistar as terras. Tratam ainda da exploração da mão de obra escrava na cidade e
também trazem informações sobre a pré-história campinense (único ponto que Almeida não
tratou em seu livro).
Outro exemplo que mostra que, mesmo criticando a historiografia tradicional, esses artigos
reproduzem um ufanismo é visto na primeira edição, a qual trata dos prefeitos que Campina
Grande já teve. Nada mais próximo da “velha” forma de fazer história. Já o terceiro fascículo fala
sobre a Campina Grande oitocentista51, relatando a Revolta de Quebra-Quilos, o Açude Velho e
as secas do século XIX, a Revolta de 1817, as histórias de alguns escravos na cidade, os
Conselhos Municipais, o “boom” do algodão e o desenvolvimento de Campina.
Mais uma vez os temas abordados são os que já estão consagrados pela historiografia.
Entretanto, ressaltamos novamente que o conteúdo é mais crítico e dá voz a outros personagens
dentro do lugar-comum dessas histórias. Para nós, existe implicitamente, dois interesses
antagônicos nesses cadernos especiais do “Jornal da Paraíba”. Por um lado, existe o desejo dos
historiadores de mostrar ao grande público que a história de Campina Grande vai muito além dos

50
Quando Campina Grande foi elevada à categoria de vila ganhou o nome de Vila Nova da Rainha em homenagem à
então rainha de Portugal D. Maria I.
51
Último fascículo que foi lançado até o dia em que escrevemos esse texto.
114

grandes nomes, pois esses autores buscam dar uma nova abordagem aos “velhos” temas. Por
outro lado, está o interesse do jornal que quer continuar difundindo o mesmo ideal de cidade, por
isso a escolha dos temas a serem abordados. Essas disputas de interesses se dão por conta do
lugar social de cada grupo envolvido.
Dessa forma, vemos que o discurso de grandiosidade que estava sendo criado na primeira
metade do século XX ainda tem muita força atualmente. Contudo, o discurso teve que se adaptar
à realidade atual, trazendo novos paradigmas que antes não eram possíveis pensar. Assim posto,
fica claro que esses discursos que identificam as cidades, como o da grandiosidade de Campina
Grande, precisam ser reformulados ao longo do tempo para sobreviver na sociedade.
Elpídio de Almeida fez parte desse movimento de reconstrução do discurso de
grandiosidade na sua época. Para tanto, o autor refletiu seu lugar social quando uniu os métodos
da escrita da história do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano e adaptou-os à sua realidade,
que era escrever uma história que justificasse a grandiosidade de Campina Grande às vésperas de
seu centenário. Com isso, Almeida camuflaria a crise política, social e econômica que estava
acometendo a cidade.
Entre as décadas de 1950 e 1960, Campina Grande estava perdendo seu lugar no comércio
da região. Ao mesmo tempo, várias pessoas migraram para a cidade em busca de melhores
condições de vida, algo que devia ser esperado em uma cidade que se dizia tão grandiosa. O
grande número de pessoas gerou muito desemprego e acentuou ainda mais as desigualdades
sociais. Para agravar os problemas, nessa mesma época, na Paraíba e no Nordeste em geral,
estavam acontecendo as Ligas Camponesas, movimento social que tomou proporções grandiosas
no Brasil e que estavam pondo em xeque o lugar das elites agrárias. O medo que esse movimento
gerou nos outros setores da elite mobilizou esses grupos para encontrar meios de voltar ao que
eles acreditavam ser a ordem natural das coisas: eles em seus lugares sem ser questionados pelos
populares.
Elpídio de Almeida encontrou na história a justificativa para mostrar o lugar das elites. Na
medida em que escrevia sobre os homens, os acontecimentos e os lugares que ele julgou serem
grandes e merecedores da história da cidade, ele mostrou que essas elites sempre estiveram no
poder e que foram elas as responsáveis por trazer o desenvolvimento para a cidade. Logo, essas
deveriam continuar em seus lugares para que Campina Grande continuasse crescendo.
115

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